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.: Professor Vicente Paulo :.

11/09/2002 - Constituição formal e material (parte final)

Bom dia,

Continuando com a noção de constituição material e formal...

4) Sabe-se que a Constituição é a Lei Maior de um Estado, situando-se no pico do ordenamento


jurídico, no cume do quadro de hierarquia das leis.

Vista a noção de constituição material e formal, podemos agora diferenciar dois tipos de supremacia
constitucional: supremacia formal e supremacia material.

Um dispositivo constitucional é dotado de supremacia material quando o seu conteúdo é


substancialmente constitucional, vale dizer, quando ele cuida de um dos elementos relevantes do
Estado. Enfim, um dispositivo da Constituição é materialmente superior devido ao seu conteúdo: por
cuidar de um tema substancialmente constitucional, situa-se num patamar de superioridade em
relação às demais normas do ordenamento, que cuidam de temas ordinários, não-constitucionais.

Um dispositivo constitucional é dotado de supremacia formal pelo simples fato de constar do texto
escrito de uma Constituição, solenemente elaborada, por um processo especial, mais dificultoso do
que aquele de elaboração das demais leis. Enfim: se determinada matéria é incluída no texto de uma
constituição escrita, rígida, por esse simples fato ela já é dotada de supremacia formal
(independentemente do seu conteúdo).

Em suma: (1) tem-se supremacia material de um dispositivo constitucional devido ao seu conteúdo;
(2) tem-se supremacia formal de um dispositivo constitucional devido ao seu processo especial de
elaboração, distinto daquele de elaboração das demais leis.

Com isso, pode-se indagar:

a) As normas de uma constituição rígida são dotadas de supremacia formal e material?

Pode-se afirmar, com certeza, que todas as normas de uma constituição rígida são dotadas de
supremacia formal, pelo simples fato de constarem do seu texto; porém, quanto à supremacia
material, cada dispositivo deverá ser analisado separadamente: aqueles que tratarem de temas
substancialmente constitucionais serão, também, dotados de supremacia material; aqueles que
cuidarem de temas irrelevantes, serão dotados, apenas, de supremacia formal; logo, num sistema de
constituição escrita, rígida, poderemos ter tanto supremacia formal (devido ao processo especial de
sua elaboração), quanto supremacia material (devido ao conteúdo de seus dispositivos).

b) As normas de uma constituição flexível são dotadas de supremacia material?

Sim; num sistema de constituição flexível, como não há diferença no processo legislativo de
elaboração das normas constitucionais e não-constitucionais, o que distingue um tipo de norma de
outro é justamente o seu conteúdo: serão leis constitucionais (e, portanto, dotadas de supremacia
material) aquelas normas cujos conteúdos forem substancialmente constitucionais; logo, o que
qualifica uma norma como constitucional num sistema de constituição flexível é justamente o seu
conteúdo, o fato dela tratar de tema relevante na organização do Estado.

c) As normas de uma constituição flexível são dotadas de supremacia formal?

Não; conforme vimos, a supremacia formal decorre justamente do processo diferenciado de


elaboração das normas constitucionais; assim, como no sistema de constituição flexível não há
distinção entre o processo legislativo de elaboração de uma lei constitucional e de uma norma
ordinária, não se pode falar em supremacia formal diante de uma constituição flexível, não escrita;
para se falar em supremacia formal, é indispensável a existência de processo de elaboração distinto
para as normas constitucionais: se o processo de elaboração das normas constitucionais e ordinárias
é o mesmo (como na constituição flexível), não há que se falar em supremacia formal.

5) Não existe um rol taxativo, absoluto do que são normas materialmente constitucionais e quais
normas são apenas formalmente constitucionais; esses conceitos são abertos, dinâmicos: um tema
hoje não considerado relevante na organização de determinado Estado pode, amanhã ou depois,
dada a dinâmica das relações sociais, passar a ser considerado relevante (materialmente
constitucional); para o efeito de prova, porém, o candidato não deve ter essa preocupação, pois
normalmente quando esse tema é cobrado, o examinador cita como exemplo temas que não deixam
a menor dúvida.

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6) Num sistema de constituição formal e rígida, como o nosso, essa distinção entre normas
materialmente constitucionais e formalmente constitucionais tem pouca relevância jurídica; isso
porque, se a Constituição é formal, significa que todos os seus dispositivos são, de pronto, dotados
de supremacia formal, e, como tais, devem ser cumpridos por todos os agentes políticos, sob pena de
incorrer no vício de inconstitucionalidade; enfim, qualquer dispositivo da nossa Constituição, seja ele
materialmente constitucional ou apenas formalmente constitucional, deve ser cumprido, obedecido,
pois é dotado de supremacia formal.

Com isso, o nosso sistema de controle de constitucionalidade leva em conta, na aferição do respeito
às normas constitucionais, a supremacia formal; vale dizer, o nosso controle é efetivado sob a ótica
da supremacia formal: o desrespeito a qualquer dispositivo da Constituição leva à
inconstitucionalidade (seja o dispositivo violado materialmente constitucional ou, apenas,
formalmente constitucional).

Essas, a meu ver, as considerações a serem feitas acerca desse tema, um dos mais cobrados pelas
bancas examinadoras do Cespe e da Esaf.

Prepare-se: todos os itens seguintes foram retirados de concursos realizados pelo Cespe e pela Esaf;
resolva-os, com calma, como se estivesse na prova do concurso; confira o gabarito no nosso
encontro de amanhã; boa sorte!

1) Todas as normas estabelecidas pelo poder constituinte originário no texto da Constituição de 1988
são formalmente constitucionais e se equivalem em nível hierárquico.

2) As normas programáticas são, na sua maioria, normas auto-aplicáveis.

3) Normas constitucionais não auto-aplicáveis somente se tornam normas jurídicas depois de


reguladas por lei, uma vez que, antes disso, não são capazes de produzir efeito jurídico.

4) Numa Constituição classificada como dirigente, não se encontram normas programáticas.

5) É típico de uma Constituição dirigente apresentar em seu corpo normas programáticas.

6) Uma lei ordinária que destoa de uma norma programática da Constituição não pode ser
considerada inconstitucional.

7) Uma norma constitucional programática, por representar um programa de ação política, não possui
eficácia jurídica.

8) Uma Constituição rígida não pode abrigar normas programáticas em seu texto.

9) É critério para a definição de uma norma como formalmente constitucional o fato de que ela esteja
inserida no texto da Constituição, independentemente da matéria que trate.

10) A doutrina constitucionalista aponta o fenômeno da expansão do objeto das constituições, que
têm passado a tratar de temas cada vez mais amplos, estabelecendo, por exemplo, finalidades para a
ação estatal. Considerando a classificação das normas constitucionais em formais e materiais, é
correto afirmar que as normas concernentes às finalidades do Estado são apenas formalmente
constitucionais.

11) As normas constitucionais, do ponto de vista formal, caracterizam-se por cuidar de temas como a
organização do Estado e os direitos fundamentais.

12) Considerando a classificação das normas constitucionais em formais e materiais, seriam dessa
última categoria sobretudo as normas concernentes à estrutura e à organização do Estado, à
regulação do exercício do poder e aos direitos fundamentais. Desse ângulo, outras normas, ainda que
inseridas no corpo da Constituição escrita, seriam constitucionais tão-somente do ponto de vista
formal.

13) A Supremacia material e formal das normas constitucionais é atributo presente tanto nas
constituições rígidas quanto nas flexíveis.

14) Não há supremacia formal da Constituição costumeira em relação às demais leis do mesmo
ordenamento jurídico.

15) A Constituição Brasileira vigente não é revestida de supremacia, haja vista proclamar que todo o
poder emana do povo, sendo este, então, supremo perante o ordenamento jurídico do Brasil.

16) Apenas as normas das constituições escritas possuem supremacia.

17) São apenas normas formalmente constitucionais as concernentes à forma do Estado, à forma do
Governo e ao modo de aquisição e exercício do poder.

18) Considerando a noção de constituição material, o ato de um agente público pode ser considerado
inconstitucional, mesmo que afete norma não-constante do texto da Constituição escrita.

19) Em relação à supremacia material e formal das constituições, podemos afirmar que a formal é
reconhecida nas constituições flexíveis.

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20) Em relação à supremacia material e formal das constituições, podemos afirmar que a material
está relacionada à produção de um documento escrito.

21) Em relação à supremacia material e formal das constituições, podemos afirmar que a material
tem a ver com o modo como as normas constitucionais são elaboradas.

22) Em relação à supremacia material e formal das constituições, podemos afirmar que a formal
resulta da situação da Constituição no topo da hierarquia das normas, independentemente da matéria
tratada.

23) Em relação à supremacia material e formal das constituições, podemos afirmar que a jurisdição
constitucional está concebida para proteger a supremacia material, mas não a supremacia formal da
Constituição.

24) As normas do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição de 1988 não se
definem como normas formalmente constitucionais.

25) A constituição material do Brasil é a parte da Constituição da República integrada pelas regras
materialmente constitucionais, ou seja, os dispositivos que tratam dos direitos fundamentais e da
organização do Estado. Já a constituição formal do Brasil é a parte da Constituição da República
integrada pelas regras formalmente constitucionais, ou seja, os preceitos que estão presentes no
texto constitucional mas que disciplinam assuntos normalmente regulados pelo poder legislativo
constituído, e não pelo poder constituinte originário.

26) Uma das principais diferenciações do sentido de “Constituição” para a Ciência do Direito aponta-
lhes uma significação material e uma formal, esta dependente do processo por intermédio do qual
surgem as normas constitucionais; em sentido material, é correto afirmar que todos os Estados
possuem Constituição; não obstante, sob a luz dessa teoria, no caso brasileiro, nem todas as normas
existentes no texto da Constituição promulgada em 1988 são normas materialmente constitucionais.

27) Para a teoria que reparte as normas constitucionais em material e formalmente constitucionais,
são normas constitucionais em sentido formal todas aquelas integrantes do corpo da Constituição,
independentemente do tema de que tratem, isto é, ainda que a norma em questão cuide de relações
jurídicas que poderiam ser disciplinadas por normas de nível infraconstitucional.

Até amanhã...

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