Você está na página 1de 158

1

SUMÁRIO

ÍNDICE DE FIGURAS, GRÁFICOS E TABELAS

...........................................................

3

  • I. RESUMO

6

II. INTRODUÇÃO

7

9

..................................................................................... III.1. Aspectos conceituais da relação saúde e trabalho docente

.........................................

9

III.1.1 Conceito de saúde

..................................................................................................... III.1.2 Relação: voz e trabalho

...........................................................................................

9

12

III.1.3 Patologias do trabalho e alterações da voz III.1.4 Noção de risco e o uso inadequado da voz

14

III.1.5 Alterações vocais e disfonias

..................................................................................

20

III.1.6 O trabalho docente

..................................................................................................

22

III.2. Epidemiologia das alterações vocais e disfonias em professores

............................

26

III.3. Aspectos clínicos das disfonias III.3.1 Fisiologia da voz

................................................................................

..................................................................................................... III.3.2 Fisiopatologia das disfonias III.3.3 Estresse e alterações vocais

...................................................................................

....................................................................................

31

31

33

37

III.3.4 Diagnóstico e abordagens terapêuticas III.4. Saúde e trabalho docente

...................................................................

..........................................................................................

38

42

IV. OBJETIVOS

................................................................................................................ IV.1. Objetivo geral

........................................................................................................... IV.2. Objetivos específicos

................................................................................................

47

47

47

  • V. MATERIAL E MÉTODOS

..........................................................................................

47

V.1.Tipo de estudo

............................................................................................................ V.2. Local do estudo

.......................................................................................................... V.3. População de estudo

.................................................................................................. V.4. Instrumento da pesquisa V.5. Estudo piloto

............................................................................................

.............................................................................................................. V.6. Procedimentos e estratégias para a coleta de dados

...................................................

47

48

49

49

50

51

2

V.8. Análise estatística dos dados

.....................................................................................

51

V.9. Aspectos éticos VI. RESULTADOS

..........................................................................................................

........................................................................................................... VI.1. Análise descritiva

.....................................................................................................

53

53

53

VI.1.1 Características sociodemográficas, níveis de renda e hábitos de

vida. ..................

54

VI.1.2 Hábitos relacionados à voz VI.1.3 Características da atividade docente

.....................................................................................

...................................................................... VII.1.4 Características do ambiente de trabalho dos professores

......................................

57

58

66

VII.1.5 Saúde geral dos professores: diagnósticos referidos

............................................. VII.1.6 Saúde vocal dos professores: queixas, diagnósticos, evolução e tratamentos

......

68

70

VII.2. Medidas de associação: saúde vocal e trabalho docente

.........................................

74

VII. DISCUSSÃO

............................................................................................................. VII.1. Análise descritiva

.................................................................................................... VII.1.2 Hábitos relacionados à voz

................................................................................... VII.1.3 Características da atividade docente

..................................................................... VII.1.4 Características do ambiente de trabalho dos professores

......................................

84

85

90

91

95

VII.1.5 Saúde geral dos professores: diagnósticos referidos

............................................. VII.1.6 Saúde vocal dos professores: queixas, diagnósticos, evolução e tratamentos

......

96

99

VII.2. Medidas de associação: saúde vocal e trabalho docente

.......................................

101

VIII. PERSPECTIVAS DO ESTUDO

............................................................................

105

IX. CONCLUSÃO X. SUMMARY

..........................................................................................................

................................................................................................................ XI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS XII. ANEXOS

......................................................................

................................................................................................................. Anexo 01 - Modelo do instrumento da pesquisa

.............................................................

108

109

110

119

120

Anexo 02 - Termo de consentimento livre e esclarecido Anexo 03 - Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa

................................................

125

126 ................................................

Anexo 04 – Normas: publicação na Pró-Fono Revista de Atualização Científica

..........

127

3

ÍNDICE DE FIGURAS, GRÁFICOS E TABELAS

FIGURAS

Figura 01. Resumo das Razões de Prevalência mais elevadas e estatisticamente

significantes, apresentadas pelos potenciais fatores de risco para alterações vocais e

diagnóstico referido de “ calo nas pregas

vocais”. ........................................................

104

GRÁFICOS

Gráfico 02. Níveis de escolaridade nas diversas modalidades de ensino dos professores da

rede particular do ensino que compareceram ao SINPRO,

2002/2003. ............................

61

Gráfico 01. Distribuição de características sociodemográfcas dos professores da rede particular do ensino médio e fundamental da rede particular das pesquisas de Salvador (1996), Vitória da Conquista (2001) e Salvador (2002/2003) 86 ...........................................

TABELAS

Tabela 01. Prevalência das características sociodemográficas dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

55

Tabela 02. Prevalência das características (número, média aritmética, desvio-padrão e mediana) sociodemográficas dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 55 ....................................................

Tabela 03. Níveis de renda mensal (em reais) dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 56 .................

Tabela 04. Níveis de renda mensal (em reais) segundo faixa etária, dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

56

Tabela 05. Níveis de renda mensal (em reais) segundo modalidade de ensino dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 57 ...................................................................................................

Tabela 06. Prevalência dos hábitos de vida dos professores da rede particular do ensino

fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. ...........................

57

Tabela 07. Prevalência de respostas afirmativas às questões sobre hábitos da voz dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 58 ...................................................................................................

4

Tabela 08. Características (número, média aritmética, desvio-padrão e mediana) do

trabalho dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio de Sakvador-

BA,

2002/2003. .................................................................................................................

59

Tabela 09. Prevalência das características do trabalho dos professores da rede particular do ensino fundamental 60 .......................................................................................................

Tabela 10. Prevalência da modalidade de ensino segundo a escolaridade dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

61

Tabela 11. Tempo de profissão segundo a modalidade de ensino, dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

62

Tabela 12. Características (número, média aritmética e desvio-padrão e mediana) sociodemográficas e do trabalho, segundo o sexo, dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 64 .................

Tabela 13. Características sociodemográficas, hábitos de vida e características do trabalho, segundo sexo, dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio

que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003

...............................................................

65

Tabela 14. Número de turmas segundo o sexo e a modalidade de ensino, dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

65

Tabela 15. Número e percentual de atividades que exigiam o uso da voz dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

66

Tabela 16. Características do ambiente de trabalho referidas pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

67

Tabela 17. Origem do ruído segundo os professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA que informara que o local da aula é ruidoso, 2002/2003 67 ..................................................................................................

Tabela 18. Prevalência dos diagnósticos médicos referidos pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

69

Tabela 19. Prevalência de diagnósticos médicos referidos, segundo o gênero, pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 70 ...................................................................................................

5

Tabela 20. Prevalência de alterações vocais, segundo o sexo, referidas pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

71

Tabela 21. Características das alterações vocais referidas pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

73

Tabela 22. Frequência dos tratamentos referidos pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 74 .................

Tabela 23. Frequência das causas das alterações vocais referidas pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

74

Tabela 24 Associação entre Pigarro e fatores de risco potenciais nos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

76

Tabela 25. Associação entre Fadiga Vocal e alguns fatores de risco potenciais nos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 78 ...................................................................................................

Tabela 26. Associação entre Rouquidão nos últimos 6 meses e fatores de risco potenciais nos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 79 ...................................................................................................

Tabela 27. Associação entre Perda da Voz e fatores de risco potenciais nos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003. .........................................................................................................................

80

Tabela 28 Associação entre Faringite Crônica e fatores de risco potenciais nos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 81 ...................................................................................................

Tabela 29. Associação entre diagnóstico de “calos nas cordas vocais” e fatores de risco potenciais nos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 82 ......................................................................

Tabela 30. Associação entre diagnóstico referido de “calo nas cordas vocais” e alterações vocais referidas pelos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003 83 ......................................................................

6

VOZ DO PROFESSOR:

RELAÇÃO SAÚDE E TRABALHO

I. RESUMO

O conhecimento acerca das características do trabalho docente é escasso na literatura

científica. Devido à sua elevada prevelência, é importante identificar fatores de risco

ocupacionais para alterações vocais em professores. Objetivos: Determinar a prevalência

de alterações da voz e identificar possíveis fatores de risco ocupacionais destas alterações

em professores. Métodos: Estudo de corte transversal, conduzido entre 2002 e 2003, em

634 professores do ensino fundamental e médio que compareceram ao serviço médico do

sindicato da categoria em Salvador, Bahia. Resultados: A população do estudo era

predominantemente do sexo feminino, jovem, com hábitos vocais inadequados e carga de

trabalho elevada. A prevalência referida de alterações vocais nos últimos seis meses foi

de 75,4%. Diagnóstico de calo nas cordas vocais foi referido por 12,0% dos professores.

Fadiga vocal, "pigarro"e perda da voz estavam fortemente associados a aspectos da

atividade e do ambiente de trabalho do docente. Tempo de docência 8 anos, trabalho

estressante, fazer força para falar e gritar/falar alto, exposição à umidade, a temperatura

muito fria e a pó de giz foram identificados como fatores de risco relevantes para

alterações vocais. Conclusão: A prevalência de alterações vocais em professores foi

elevada; foram identificados vários fatores de risco para alterações vocais na atividade e

no ambiente de trabalho docente.

Palavras-chave: professores – ambiente de trabalho – alterações vocais.

7

II. INTRODUÇÃO

A literatura registra diversos relatos sobre a prevalência de alterações vocais e

disfonias em professores, profissionais que necessitam utilizar a voz como instrumento de

trabalho. Os estudos apontam que este evento está relacionado ao mau uso do aparelho

fonador devido a técnicas de projeção da voz inadequada. É escassa a literatura sobre

informações dos problemas de voz em grupos ocupacionais com potencial de alto risco, a

exemplo dos docentes, além de dados que indiquem a associação entre alterações vocais e

as condições de trabalho do professor.

Segundo informações do Ministério da Educação e Cultura (MEC) tem havido um

crescimento acelerado do número de professores no Brasil, profissionais que representa

uma elevada parcela da população economicamente ativa. Porém, pesquisas apontam que

esta categoria de trabalhadores está exposta a situações no trabalho que podem contribuir

para o desenvolvimento de agravos à saúde.

Para realizar as atividades pedagógicas, os professores necessitam da voz como

instrumento de trabalho e dependem da qualidade vocal para que possam cumprir os

objetivos de suas tarefas. Por isso, são considerados “profissionais da voz”. Porém, as

condições nas quais realiza as suas atividades, freqüentemente, são nocivas à saúde vocal,

contribuindo para que a morbidade referente ao aparelho fonador, a exemplo das

disfonias, seja especialmente alta nesta categoria profissional (Gonçalves, 2003 b).

Disfonia é toda e qualquer dificuldade ou alteração na emissão vocal que impede a

produção natural da voz (Behlau, 2001b), porém o seu diagnóstico implica em avaliação

clínica completa do indivíduo por um especialista em voz (Behlau, 2001a).

As disfonias funcionais são desordens do comportamento vocal e podem ser

classificadas como: primárias, por uso incorreto da voz, secundárias por inadaptação

8

vocal ao ambiente ou à atividade e psicogênicas, resultantes de um processo complexo de

influência das emoções vivenciadas pelo indivíduo na sua voz (Behlau, 2001c).

O ambiente escolar e a atividade docente expõem o professor a diversos riscos

ambientais e ocupacionais que podem produzir danos à saúde a exemplo das alterações

vocais. Em pesquisas que estudam especificamente alterações vocais em professores,

busca-se geralmente investigar aspectos como: qualidade vocal, esforço à emissão da voz,

fadiga vocal, perda de potência vocal, variações descontroladas da freqüência, falta de

volume e projeção, perda da eficiência, baixa resistência e sensações desagradáveis na

laringe (Souza e Ferreira, 2000; Smith at al., 1998; Russell at al., 1998; Smith at al., 1997;

Sapir at al., 1993).

Considera-se alteração vocal quando o indivíduo relata voz alterada por apresentar

algum dos seguintes sintomas: fonatórios (fadiga vocal, rouquidão, pigarro, voz fraca, voz

grossa, voz variando fraca/grossa, voz fina, voz forte, afonia), sintomas sensoriais

(prurido, secura, queimação, sensação de bolo na garganta, sensação de areia na garganta

secreção, sensação de picada na garganta, secreção, dificuldade para deglutir), sintomas

dolorosos (dor ao falar, dor ao deglutir), e vagais (tosse com secreção) (Brewer, 1975).

Por outro lado, o termo disfonia implica avaliação clínica completa do indivíduo

para afastar a possibilidade de ser um marcador social e identificar a desordem vocal.

Quando esta avaliação não ocorre, o termo correto a ser usado é voz desviada ou alterada

(Behlau, 2001b).

A pesquisa realizada por Smith et al. (1998) para avaliar prevalência de alterações

vocais detectou, dentre as mais prevalentes em professores: rouquidão (26,2%), fadiga

vocal (18,1%), voz com baixa potência (15,5%) e voz fraca (10,7%). Nessa perspectiva,

observa-se que as alterações vocais decorrem de alterações de diversos aspectos.

9

No contexto atual da nossa sociedade, observam-se mudanças significativas na

estruturação e valorização social das atividades docentes (Araújo et al., 2003). O estudo

dos riscos ocupacionais originados dessas atividades e dos riscos oriundos do ambiente

escolar é relevante para compreender as relações que se estabelecem entre o trabalho e o

processo saúde-doença numa categoria profissional extensa como a dos professores, a fim

de viabilizar ações mais efetivas na atenção à saúde do professor (Penteado et al., 1998) e

estimular a produção de estudos que definam prognósticos, novas terapias e os critérios

de incapacidade deste agravo a saúde (Smith,1997).

O objetivo desta pesquisa foi avaliar a associação entre condições de trabalho e

alterações vocais, referidas por professores da rede particular do Ensino Médio e

Fundamental em Salvador-Bahia.

III. REVISÃO DA LITERATURA

III.1. Aspectos conceituais da relação saúde e trabalho docente

Neste capítulo, serão abordadas as bases conceituais dos termos referentes à

relação entre as condições do trabalho docente e as alterações de voz em professores. O

objetivo é compreender melhor os seus significados para aplicá-los na discussão deste

tema a fim de reconhecer as lacunas existentes na literatura acerca do diagnóstico das

alterações vocais entre os docentes, da relação destas alterações com o trabalho e das

medidas de controle, até o momento elaboradas, a fim de contribuir para a eliminação

deste agravo que compromete a saúde de uma categoria vasta de trabalhadores.

III.1.1 Conceito de saúde

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a

ausência de doença, mas como uma situação de perfeito bem-estar físico, mental e social.

Essa definição, avançada para a época em que foi realizada, tem sido, no momento, objeto

10

de críticas, uma vez que destaca apenas os aspecto físico, o mental e o social. Segre &

Carvalho (1997) consideram utópica a expressão "perfeito bem-estar" e, ao fundamentar

objeções à definição de Saúde da OMS, definem saúde como um estado de razoável

harmonia entre o sujeito e a sua própria realidade.

Martin (1987) critica o conceito de saúde da OMS definindo-a como um estado

orgânico, dinâmico, de equilíbrio sócio-ecológico harmonioso, entre indivíduos e o

ambiente global onde vive. Este equilíbrio, segundo o autor, exige a satisfação de certas

necessidades fundamentais do homem e uma adaptação biológica, mental e social

permanente deste a um ambiente complexo e em constante transformação. Sendo assim, a

saúde não é uma utopia, mas um projeto social, um projeto de vida para cada sociedade

humana, concebida e revista em permanência, pois se trata de um sistema aberto; tendo a

sua dimensão econômica, política e social, antes de pertencer apenas à dimensão médica.

Segundo Jacobina (2002), o conceito de saúde é de difícil definição e apresenta

vários sentidos (polissêmica), não só enquanto estado vital, mas enquanto setor social e

organização de serviços. Após o novo conceito de cidadania, onde cidadão é todo e

qualquer indivíduo portador de direitos – civis, políticos e sociais – e deveres para com a

sociedade, o movimento sanitário no Brasil aprofundou a questão da saúde e elaborou

uma proposta política que foi aprovada na 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986).

Muitos desses princípios foram acolhidos e proclamados na Constituição Federal de 1988,

na qual saúde passa a ser direito de todos e dever do Estado, cujos serviços devem ter

relevância pública e ser organizados num sistema único, descentralizado, com

atendimento integral e com a participação da comunidade (Jacobina, 2002).

Segundo a Declaração de Jacarta (1997), a saúde é um direito humano

fundamental e essencial para o desenvolvimento social e econômico e, a promoção da

saúde é reconhecida como um elemento essencial para o desenvolvimento humano, um

11

processo para permitir que as pessoas tenham maior controle sob sua saúde e elaborem

mecanismos para melhorá-la.

O problema de saúde surge quando no processo saúde/doença (morbidade;

mortalidade; invalidez; risco para a saúde; assistência médico-sanitarista precária,

insuficiente ou inexistente; custos dos serviços de proteção à saúde, habitação precária,

saneamento insuficiente, etc.) emerge uma situação inaceitável para o indivíduo e/ou para

a população devido às suas conseqüências (Pena, 2002).

Portanto, doença, significa mais do que ausência de saúde, podendo ser entendida

como um desajuste ecológico, fisiológico, social ou como uma incapacidade dos

mecanismos de adaptação do organismo e de uma falta de reação aos estímulos aos quais

ele está exposto; o processo resulta em uma perturbação da morfologia e/ou das funções

orgânicas que obrigam o paciente a modificar seu modo de vida normal em conseqüência

da incapacidade, parcial ou total (Martin, 1987). Segundo Houaiss (2001), o conceito de

doença pode variar desde uma alteração biológica do estado de saúde de um ser,

manifestada por um conjunto de sintomas perceptíveis ou não, até a alteração do estado

de espírito ou do ânimo deste ser.

Em relação ao aparelho fonador, caracteriza-se, portanto, um estado de doença

quando, no contexto pedagógico, a voz não atinge o objetivo de ser clara, com boa

sonoridade, com ritmo e velocidade adequados, com boa projeção e coordenação com a

respiração, refletindo no equilíbrio das estruturas do trato vocal. Sabe-se que a voz e a

fala se destacam no processo de ensino-aprendizagem por serem pontos e referências

culturais que se refletem na construção do saber. Quando o equilíbrio das estruturas do

aparelho fonador não se estabelece, ocorre impactos no desenvolvimento e na evolução

do trabalho docente.

12

III.1.2 Relação: voz e trabalho

Há muito tempo se sabe que o trabalho, quando executado em certas condições,

pode causar doenças ou levar os trabalhadores ao óbito. O trabalho pode, também, gerar

formas mais sutis – até invisíveis, mas não menos graves – de comprometimento da saúde

e da subjetividade (Souza, 1992 apud Mendes, 1996).

Segundo Pena (2002), o conceito de trabalho é complexo, tendo a sua abordagem

um campo vasto que envolve as mais variadas disciplinas das esferas do conhecimento,

como a física, a sociologia e a economia do trabalho.

O trabalho representa atividade cujo objetivo é utilizar as coisas naturais ou

modificar o ambiente e satisfazer as necessidades humanas (Abbagnano, 1999). Esse

conceito implica: 1 - na dependência do homem em relação à natureza; 2 – na reação

ativa a essa dependência, constituída por operações mais ou menos complexas, com vistas

à utilização de elementos naturais; 3 – no grau mais ou menos elevado de esforço,

sofrimento ou fadiga, que constitui o custo humano do trabalho.

O conceito de trabalho pode ser compreendido em várias dimensões. Na dimensão

física, é a ação de forças energéticas sobre um determinado objeto, utilizando-se ou não

de técnicas. Essas forças, em ação, produzem transformações energéticas das mais

variadas. O mundo biológico emerge a partir de forças físicas organizadas em uma

infinidade de moléculas que exercem trabalho no sentido biofísico para assegurar a

continuidade da vida. O homem emerge do universo biológico com recursos energéticos

físicos e mentais que agregam a essa dimensão biofísica do trabalho, propriedades e

qualidades inusitadas, inerentes as dimensões antropológicas e sociais, detentoras de uma

historicidade particular. Tem-se assim a noção de trabalho presente na física, na biologia

e na antropo-sociedade (Pena, 2002).

13

A etimologia da palavra trabalho é máquina para dominar bois, cavalos bravos,

etc., com o objetivo de ferrar. No latim, tripãlium significa instrumento de torturar (Bloc,

1950 apud Pena, 2002). O trabalho é definido, assim, como a aplicação de faculdades

humanas para atingir um determinado fim (Braverman, 1984) ou como atividade

consciente e planejada na qual o ser humano, ao mesmo tempo em que extrai da natureza

os bens capazes de satisfazer suas necessidades materiais, cria as bases de sua realidade

sociocultural (Houaiss, 2001).

Quando o trabalho passou a ser trocado por salário, surgiu o mercado de trabalho

e, regulamentado socialmente por leis, atingiu valor econômico e social e passou a ser

condição de sobrevivência econômica na sociedade (Pena, 2002) e atividade profissional 1

regular que pode ser remunerada ou assalariada (Houaiss, 2001).

Historiadores da Medicina, como Henry Sigerist e George Rosen, mostram, em

seus estudos, que é possível detectar registros de associação entre o trabalho e o processo

saúde/doença – ainda que escassos – desde os papiros egípcios e, mais tarde, no mundo

greco-romano também já se observava indícios desta relação. Porém, apenas cem anos

antes da era cristã, que surge a preocupação com a patologia do trabalho através das

observações de Lucrécio sobre a morte prematura dos cavoqueiros das minas. Na Idade

Média, pouco ainda se conhecia sobre essa relação, porém já se percebia que esta não era

apenas uma questão médica e sim, um problema de ordem tecnológica decorrente do

processo de trabalho utilizado. É, é com a Revolução Industrial que, devido ao intenso

movimento social por causa do impacto dessa na saúde dos trabalhadores, surgem

medidas legais de controle das condições e do ambiente de trabalho (Mendes, 1996).

1 Trabalho

que uma pessoa faz

para obter os recursos necessários à sua subsistência e

dependentes; ocupação, ofício (Houaiss, 2001).

à

de seus

14

Cabe assinalar, apesar das evidências do trabalho como fator de risco à saúde, que

o trabalho humano possui um duplo caráter: por um lado é fonte de realização, satisfação,

prazer, estruturando e conformando o processo de identidade dos sujeitos; por outro, pode

também se transformar em um elemento patogênico, tornando-se nocivo à saúde

(Dejours, 1987). Entre os profissionais que utilizam a voz como instrumento de trabalho,

estão os professores, que, ao estarem expostos constantemente a condições laborais que

podem representar risco à voz, apresentam elevadas prevalências de alterações vocais.

III.1.3 Patologias do trabalho e alterações da voz

Após o II Congresso Internacional de Doenças do Trabalho, em 1910, criou-se

uma Comissão Permanente Internacional para a elaboração de uma tabela de doenças

profissionais para fins de reparo de seguro. Porém, só em 1919, com a criação da

Organização Internacional do Trabalho (OIT), este tema voltou a ser discutido e, em

1925, elaborou-se a primeira lista com apenas três doenças: saturnismo, hidragirismo e

carbúnculo. Em 1934, a lista foi ampliada para 10 doenças profissionais, em 1964 para 15

e, em 1980 as doenças foram divididas em 29 grupos (Mendes, 1996).

A OIT passou a recomendar, através da Convenção 121, a todos os países, a

instituição de uma lista de Doenças Profissionais e do Trabalho. Em 1998, o Ministério

da Saúde tomou a iniciativa de elaborar uma lista de doenças profissionais ou do trabalho

contribuindo para o diagnóstico, o nexo causal entre a lesão e a exposição ao agente; a

avaliação da incapacidade 2 laborativa, o nexo técnico entre a doença e a existência do

agente no trabalho do segurado; a caracterização administrativa das doenças profissionais

ou do trabalho, e, principalmente, a concessão de benefícios aos segurados da Previdência

Social cobertos pelo Seguro de Acidentes do Trabalho (SAT) e/ou seus dependentes. Esta

2 É a impossibilidade de desempenho das funções específicas de uma atividade (ou ocupação), em conseqüência de alterações morfopsicofisiológicas provocadas por doença ou acidente. O risco de vida, para si ou para terceiros, ou de agravamento que a permanência na atividade possa acarretar está incluído no conceito de incapacidade, desde que palpável e indiscutível (Brasil, 1999b).

15

lista é dividida em parte A, que apresenta os agentes etiológicos ou fatores de risco de

natureza ocupacional, e, parte B que apresenta as doenças causalmente relacionadas com

os respectivos agentes ou fatores de risco (Brasil,1999a).

Quando a doença é adquirida em decorrência do exercício do trabalho em si, é

classificada como doença profissional (Brasil,1992). Quando a doença é produzida ou

desencadeada pelo exercício peculiar a determinada atividade e constante da relação é

chamada doença profissional típica. Quando é adquirida ou desencadeada em função de

condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relaciona diretamente,

desde que constante da relação mencionada, chama-se doença do trabalho (Mendes,

1996). Ambas são consideradas como acidentes do trabalho, quando delas decorrer a

incapacidade para o trabalho (Brasil,1992). Segundo o Decreto nº 611/92 de 21 de julho

de 1992 (Plano de Benefícios da Previdência Social) , Art. 139:

Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa, ou ainda, pelo exercício do trabalho dos segurados especiais (trabalhadores que prestam serviço em âmbito rural, individualmente ou em regime de economia familiar, mas não têm vínculo de emprego), provocando lesão corporal (dano produzido no corpo humano) ou perturbação funcional (prejuízo do funcionamento de qualquer órgão ou sentido) que cause a morte, a perda ou redução da capacidade para o trabalho, permanente ou temporária.

O II Congresso Internacional de Doenças do Trabalho, em 1910, destacou a

equiparação de acidentes de trabalho e doenças profissionais, para fins legais. (Milles,

1985 apud Mendes,1996).

A natureza da relação doença e trabalho é distinta em três grupos segundo a

classificação de Schilling (1984): grupo I – trabalho como causa necessária (Exemplo:

intoxicação por chumbo, silicose), grupo II – trabalho como fator contributivo, mas não

necessário (Exemplo: doença coronariana, doença do aparelho locomotor, varizes dos

membros inferiores), grupo III – trabalho como provocador de um distúrbio latente

16

(Exemplo: dermatite de contato alérgica, bronquite crônica, asma). O grupo I é formado

por doenças específicas do trabalho. Nesse caso, a eliminação do agente causal, por

medidas de controle, pode assegurar a sua prevenção, ou seja, a sua eliminação ou

erradicação. Os grupos II e III são formados por doenças de etiologia múltipla ou

causadas por múltiplos fatores de risco. Nesse caso, o trabalho pode ser entendido como

um fator de risco, ou seja, um atributo ou uma exposição que está associada a uma

probabilidade aumentada de ocorrência da doença, não necessariamente um fator causal

(MS, 2001).

Portanto, a caracterização etiológica ou o nexo causal deve ser de natureza

epidemiológica, através da observação do aumento da freqüência de determinantes

causais em certos grupos ocupacionais que podem ser mais bem conhecidos através do

estudo dos ambientes e das condições de trabalho. A eliminação desses fatores de risco

reduz a incidência ou diminui o curso evolutivo da doença (MS, 2001).

III.1.4 Noção de risco e o uso inadequado da voz

O conceito de risco pode ser entendido como qualquer ameaça à saúde ou

integridade física do indivíduo, significando perigo ou possibilidade de perigo. Em

epidemiologia, a noção de risco significa a probabilidade de ocorrência de um evento não

favorável à saúde em uma população determinada (Pena, 2002) ou um número que estime

o excesso de ocorrência de um evento adverso de saúde relacionado a um certo nível de

exposição (Monson, 1990).

A OPS/OMS define o risco como a probabilidade de ocorrência de um resultado

desfavorável, de um dano ou fenômeno indesejado. Assim, a estimativa do risco ou a

probabilidade de que o mesmo desencadeie uma doença pode ser medida através dos

17

coeficientes de prevalência 3 e principalmente incidência 4 . O fator de risco de um dano

representa uma variável relacionada ao risco. Esse fator pode ser causa (etiologia) ou não

de uma patologia, porém está necessariamente vinculada a causa da patologia (Pena,

2002).

Segundo a Norma Regulamentadora nº 09 da Portaria 3.214 do Ministério do

Trabalho (Brasil, 1978), considera-se risco ambiental os agentes físicos, químicos e

biológicos existentes nos ambientes de trabalho que, em função de sua natureza,

concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capaz de causar danos à saúde do

trabalhador.

Considera-se agentes físicos as diversas formas de energia a que possam estar

expostos os trabalhadores, tais como: ruído, vibrações, pressões anormais, temperaturas

extremas, radiações ionizastes, radiações não-ionizantes, bem como o infra-som e ultra-

som. Agentes químicos são as substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar

no organismo pela via respiratória, nas formas de poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases

ou vapores, ou que, pela natureza da atividade de exposição, possam ter contato ou ser

absorvido pelo organismo através da pele ou por ingestão. Os agentes biológicos são:

bactérias, fungos, bacilos, parasitas, protozoários, vírus e outros microorganismos.

Embora esta norma não mencione os riscos ergonômicos e psicossociais, os

mesmos são descritos na norma 17 desta mesma portaria (Brasil, 1978). São eles: esforço

físico, vibração, postura inadequada, carga estática, estresse, temperatura elevada,

movimento repetitivo (Brasil,1978; NIOSH, 1997). Esses riscos decorrem da organização

e gestão do trabalho, como por exemplo: da utilização de máquinas, mobiliários e

equipamentos inadequados, locais adaptados com más condições de iluminação,

  • 3 Ë um coeficiente que mede o número total de casos numa determinada população.

  • 4 Ë um coeficiente que mede o número de casos novos numa determinada população em um certo período de tempo.

18

ventilação e de conforto para os trabalhadores, trabalhos em turnos e noturno, monotonia

e ritmo de trabalho excessivo, exigências de produtividade, relações de trabalho

autoritárias, falha no treinamento e supervisão dos trabalhadores, entre outros (MS, 2001).

Percebe-se, portanto, que não existe reconhecimento oficial através desta portaria

do uso intenso e excessivo da voz enquanto risco ocupacional ou ambiental. Porém, na

descrição da fisiopatologia das disfonias e alterações vocais, o uso intenso da voz ocorre

por tensão na musculatura e, o excesso do uso da voz, por repetitividade dos movimentos

das pregas vocais. O que significa que as disfonias e alterações vocais são sintomas

geraoas pela exposição do indivíduo a riscos antiergonômicos. Estes podem ser

classificados como: biomecânicos ou psicossociais, relacionados com a organização do

trabalho. As atividades que utilizam a voz como instrumento de trabalho, a exemplo do

professor, em sua maioria, expõem o trabalhador a riscos biomecânicos como: esforço

físico, decorrente da tensão muscular gerada pelo uso intenso da voz, movimentos

repetitivos, que decorrem da repetição da atividade realizada pelas pregas vocais durante

a fala. Os riscos antiergonômicos psicossociais relacionados à organização do trabalho,

também se encontram presentes na realização da atividade docente. Dentre esles estão:

ritmo e carga horária de trabalho excessivos.

No VII Seminário de Voz, houve o reconhecimento da multifatoriedade dos

distúrbios vocais e da existência de alterações vocais decorrentes do uso da voz de forma

profissional, sob certas condições provenientes do ambiente de trabalho. Concluíram que

deve haver uma hierarquia no reconhecimento das condições ambientais para que se

possa entender a disfonia enquanto uma doença do trabalho e, sugerem o levantamento

das condições do ambiente de trabalho e as dificuldades específicas de diferentes

profissionais da voz, contando com a participação ou representação de cada categoria

(Penteado et al. 1998). Porém, embora seja importante a investigação das condições de

19

trabalho como fator de risco para o desenvolvimento de alterações vocais, percebe-se,

com base na literatura, que o principal fator associado às alterações vocais é o uso

inadequado da voz. Ou seja, os estudos apontam que os problemas de voz ocorrem emtre

os professores devido a técnica inadequada de projeção da voz. Portanto, é necessário

avaliar se isso é decorrência da incapacidade do professor de utilizar técnicas para a

adequação da sua voz ao trabalho docente ou, se os riscos à saúde, presentes na atividade

e no ambiente escolar são tão elevados a ponto de gerar agravos à voz do professor,

independente da técnica vocal utilizada.

Os métodos de identificação de populações expostas a um risco elevado são: o

reconhecimento de riscos existentes no meio ambiente; a análise das características do

meio ambiente; a análise das características de cada indivíduo; os resultados de testes

laboratoriais; e, finalmente, os resultados da avaliação clínica (Pena, 2002). Além disso, é

importante observar aspectos da organização de trabalho e a sua relação com a atividade

realizada pelo trabalhador.

Os riscos presentes no ambiente de trabalho podem gerar acidentes ou doenças do

trabalho. Segundo o anuário da Previdência Social, o número total de doenças

ocupacionais registradas, no Brasil, em 2002 foi 20.886 casos. Destes, 32% apresentava

tendinite e tenosinovite; 8,5% perda auditiva neuro-sensorial; 8,4% lesão do ombro e 28%

outros (Anuário Estatístico da Previdência Social, 2002). Percebe-se, porém, que mesmo

com a alta prevalência descrita na literatura, as disfonias ou alterações vocais estão

ausentes dentre essas doenças, uma vez que, só é registrada como ocupacional, para fins

de benefício e estatística da Previdência Social, as doenças presentes na lista de doenças

ocupacionais do Ministério da Saúde.

Observa-se, nesta lista, uma variedade considerável de patologias e riscos

ocupacionais, porém, percebe-se que algumas patologias, a exemplo das disfonias

20

funcionais e organofuncionais, já descritas na literatura como muito prevalentes em

profissionais da voz, a exemplo dos professores, (Russell et al., 1998), não são

oficialmente reconhecidas como doença ocupacional pelo Ministério da Saúde e

Previdência Social (Brasil,1999a).

III.1.5 Alterações vocais e disfonias

Segundo Behlau et al. (2001b) citando Coton & Caspar (1996) não há consenso

quanto aos conceitos de voz normal e disfonia, nem existe uma definição aceitável de voz

normal, padrões e limites definidos para a sua avaliação. Segundo Behlau at al. (2001b), o

conceito de voz normal vem se modificando ao longo do tempo e depende do meio a que

se pertence e da cultura em que se vive. Embora os indivíduos realizem vários desvios

vocais durante a fonação, aceitos socialmente, há alterações que não podem ser

consideradas como marcadores sociais, culturais e emocionais, constituindo-se as

chamadas disfonias.

Disfonia é um distúrbio da comunicação oral, no qual a voz não consegue cumprir seu papel básico de transmissão da mensagem verbal e emocional de um indivíduo. Uma disfonia representa toda e qualquer dificuldade ou alteração na emissão vocal que impede a produção natural da voz (Behlau & Pontes, 1995 apud Behlau, 2001b).

Um indivíduo pode variar a voz livremente de acordo com o contexto e com o seu

discurso. Porém, a variação da voz não implica em disfonia. Para diagnosticar disfonia, é

necessário que um profissional especialista em voz realize uma avaliação clínica completa

do indivíduo e observe que a alteração vocal referida não limita-se a mudanças nas

características básicas da voz por influências sociais, culturais ou emocionais. Quando a

avaliação por um especialista não ocorre, o termo correto a ser usado é voz desviada ou

alterada. As disfonias englobam tanto as alterações vocais quanto as sinestésicas que

podem estar presentes sem um marcador auditivo específico (Behlau, 2001b). Segundo

Pinho (1998), a voz humana é alterada todo o tempo, segundo o contexto e a carga afetiva

21

e, além disso, cada pessoa tem qualidade vocal individual e única, que depende

fundamentalmente das características do seu trato vocal, determinantes do seu timbre.

Muitos profissionais utilizam o termo disfonia como sinônimo de alteração da voz.

Entretanto, se considerarmos que voz e fala consistem em mudanças constantes nos

movimentos da língua, dos lábios, do véu e da própria laringe, o termo alteração não é

adequado para conceituar disfonia (Pinho, 1998).

Mesmo nos casos de natureza essencialmente funcionais, a disfonia deve ser

tratada como um sintoma secundário ao uso indevido da voz, aliada a uma série de outros

sintomas (Pinho, 1998). São eles: desvio na qualidade vocal (rouquidão, aspereza e

soprosidade), esforço à emissão da voz, fadiga vocal (cansaço ao falar), perda de potência

e da eficiência vocal (voz fraca, perda da voz), variações descontroladas da freqüência

(voz fina, voz forte, voz variando fina/grossa), falta de volume e projeção, baixa

resistência e sensações desagradáveis à emissão da voz (bolo na garganta, picada na

garganta, dor ou ardor ao falar). Dentre esses sintomas, percebe-se que os mais relatados

na literatura, associados ao mau uso da voz, são: rouquidão, fadiga vocal, perda de

potência vocal e sensações desagradáveis na garganta (Souza & Ferreira, 2000; Wernick,

2000; Souza, 1997; 1998; Smith et al., 1997).

Rouquidão corresponde a um desvio da qualidade da voz devido à presença de

irregularidade vibratória da mucosa das pregas vocais durante a fonação.

Perceptivamente, ouve-se ruídos adventícios parasitários à emissão. Podem ocorrer

presença de nódulos, hiperemias e edemas nas pregas vocais. Alguns profissionais

utilizam o termo rouquidão como sinônimo de disfonia. Diferentes tipos de disfonias são

caracterizados por diferentes padrões acústicos, diversas localizações anatômicas e

etiologias variadas, sendo a rouquidão apenas um sintoma de um envolvimento maior

(Pinho, 1998). Os nódulos são encontrados mais freqüentemente em fumantes

22

inveterados e indivíduos que impõem grande esforço sobre a sua laringe. Em razão da

localização estratégica, esses nódulos causam modificações do caráter da voz e

progressiva rouquidão (Robbins, 1998).

A fadiga vocal surge durante a progressão do uso da fala. É mais evidente no final

do dia e geralmente desaparece na manhã seguinte. O problema é caracterizado por

mudanças na qualidade vocal, no tom, no volume ou no esforço vocal ou por uma

combinação destes fatores. As mudanças parecem estar associadas com vocalizações que

ocorrem por longos períodos de tempo, a níveis elevados de volume, em níveis incomuns

de tom, com tensão excessiva ou inapropriada, na presença de pregas vocais não sadias ou

com alguma combinação destes fatores (Wernick, 2000).

Percebe-se, na literatura, diversos relatos sobre a prevalência de alterações vocais

e disfonias em profissionais que utilizam a voz como instrumento de trabalho devido ao

mau uso do aparelho fonador. O termo mau uso refere-se ao uso indevido das pregas

vocais e da musculatura laríngea. Já o termo abuso vocal refere-se ao uso excessivo da

voz (Morrison et al., 1994). Dentre esses profissionais estão principalmente os cantores,

vendedores, operadores de telemarketing e professores.

Portanto, é fundamental conhecer o processo saúde/doença e o conceito de

trabalho para compreender que os problemas de voz possuem estreita relação com as

condições de trabalho do professor as quais necessitam ser diagnosticadas e esclarecidas

para viabilizar ações mais efetivas na atenção a saúde do professor (Penteado et al.,

1998).

III.1.6 O trabalho docente

O termo “professores” ou “pessoal docente” serve para designar todas as pessoas

que, nos diversos estabelecimentos de ensino, estão encarregadas da educação dos alunos.

23

O termo professor também se aplica aos diretores de escolas, supervisores e todos os que

dão assistência ao professor em seu trabalho, por meio de orientação ou de ajuda direta.

Segundo os princípios da UNESCO sobre a Condição dos Professores, de 1984, a educação,

desde os primeiros anos de escolarização da criança, deve promover o pleno

desenvolvimento da personalidade humana, o progresso espiritual, moral, social, cultural

e econômico da comunidade, e desenvolver um profundo respeito pelos direitos humanos

e pelas liberdades fundamentais.

O progresso em educação depende primordialmente das qualificações e

competência do corpo docente em geral, e das qualidades humanas, pedagógicas e

profissionais de cada um em particular. Ensinar 5 não é apenas uma ocupação 6 que requer o

mero domínio de habilidades. Ensinar é uma profissão 7 que engloba todos os requisitos

exigidos pela sociedade, e as responsabilidades para com essa sociedade. Ensinar tem o

significado que é dado ao termo por todos aqueles que exercitam essas responsabilidades

sociais (OIT & Unesco, 1984).

Segundo a Lei das Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996, Art. 13, os

docentes incumbir-se-ão de realizar as seguintes atividades: participar da elaboração da

proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; elaborar e cumprir plano de trabalho,

segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; zelar pela aprendizagem

dos alunos; estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;

ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos

períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;

colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade.

  • 5 Repassar (a alguém) ensinamentos sobre (algo) ou sobre como fazer (algo); doutrinar, lecionar (Houaiss,

2001).

  • 6 Atividade, serviço ou trabalho principal da vida de uma pessoa (Houaiss, 2001).

  • 7 Trabalho que uma pessoa faz para obter os recursos necessários à sua subsistência e à de seus dependentes; ocupação, ofício (Houaiss, 2001).

24

A educação escolar brasileira, conforme a LDB/96, compõe-se dos seguintes níveis:

educação básica e educação superior. A educação básica, por sua vez, é composta pela

educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. As instituições de ensino dos

diferentes níveis classificam-se nas seguintes categorias administrativas: públicas, as

criadas ou incorporadas, mantidas e administradas pelo Poder Público, com as quais o

professor pode manter vínculo empregatício regido pelo Regime Jurídico Único (RJU); e

privadas (particulares, comunitárias, confessionais ou filantrópicas), as mantidas e

administradas por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, com as quais o professor

pode manter vínculo empregatício regido pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, os professores do ensino

médio ministram aulas teóricas e práticas em escolas da rede pública e privada;

acompanham a produção da área educacional e cultural; planejam o curso, a disciplina e o

projeto pedagógico; avaliam o processo de ensino-aprendizagem; preparam aulas e

participam de atividades institucionais. Para o desenvolvimento das atividades é

mobilizado um conjunto de capacidades comunicativas (Brasil, 2002).

Os professores de nível superior do ensino fundamental ministram aulas

(comunicação e expressão, integração social e iniciação às ciências) nas quatro primeiras

séries do ensino fundamental. Preparam aulas; efetuam registros burocráticos e

pedagógicos; participam na elaboração do projeto pedagógico; planejam o curso de

acordo com as diretrizes educacionais, atuam em reuniões administrativas e pedagógicas;

organizam eventos e atividades sociais, culturais e pedagógicas. Para o desenvolvimento

das atividades, utilizam constantemente capacidades de comunicação. (Brasil, 2002).

O processo educacional se dá por ações pedagógicas que envolvem relações

humanas onde a prática discursiva oral é a principal mediadora nestas relações. A

oralidade ocorre pela produção da voz e da fala (Penteado et al., 1998). Portanto para

25

realizar as atividades pedagógicas, os professores necessitam da voz com instrumento de

trabalho e dependem da qualidade vocal para que possam cumprir os objetivos de suas

tarefas. Por isso, são considerados “profissionais da voz”. Porém, suas atividades podem,

a depender de como estejam estruturadas, ser nocivas à saúde vocal, contribuindo para

que a morbidade, referente ao aparelho fonador, seja especialmente alta nessa categoria

de profissionais (Gonçalves, 2003b).

As atividades docentes ocorrem, em sua maioria, no ambiente escolar e, ao

realizá-las, o professor expõe-se a diversos riscos ambientais e riscos relacionados com a

organização e a divisão do trabalho que podem produzir doenças, danos e acidentes

(Teixeira, 2000) como: distúrbios vocais, músculo-esqueléticos e psíquicos (Delcor,

2003; Wernick, 2000). Os distúrbi os vocais, causados pelo uso inadequado da voz, são

considerados um dos maiores agravos à saúde do ensino, sendo que o impacto sobre os

professores e os alunos é grande. A disfunção ou distúrbio vocal ocorre quando a

qualidade, o volume ou a flexibilidade difere de outras vozes de pessoas que possuem a

mesma idade, tem o mesmo sexo e pertencem ao mesmo grupo cultural (Aronson, 1985

apud Russell et al., 1998) e, pode significar grandes períodos de ausência do professor da

sala de aula, tempo para reabilitação vocal, necessidade de intervenção cirúrgica,

envolvendo grandes custos, inclusive para a educação. Pode significar também o final da

carreira de um professor (Mattiske et al., 1998).

Por conta da expansão da educação no Brasil, nos últimos anos, está havendo um

crescimento acelerado de professores que representam um amplo segmento da população

economicamente ativa. Segundo os dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC),

em 2002 era de 2 milhões, 419 mil e 585 a população de professores do ensino

fundamental e médio no Brasil, sendo na Bahia, 187 mil e 136 professores em sala de

aula (INEP, 2004). Estudos mostram que esta categoria trabalha em condições que

26

favorecem o adoecimento físico e mental (Delcor, 2003). Nos Estados Unidos, em 1992,

havia 4,2 milhões de trabalhadores na categoria geral de professores, do ensino pré-

escolar até o ensino universitário (OIT, 2001).

No contexto atual da nossa sociedade, observam-se mudanças significativas na

estruturação e valorização social das atividades docentes (Esteves, 1999). O estudo dos

riscos ocupacionais originados dessas atividades e dos riscos oriundos do ambiente

escolar é relevante para compreender as relações que se estabelecem entre o trabalho e o

processo saúde-doença numa categoria profissional extensa como os professores.

Portanto, serão conhecidos, no prosseguimento desta revisão teórica, aspectos históricos,

epidemiológicos, clínicos e jurídicos acerca da relação entre alterações vocais e trabalho

docente.

III.2. Epidemiologia das alterações vocais e disfonias em professores

Apesar da repercussão dos problemas da voz na vida das pessoas, não existem dados

da real prevalência destes distúrbios na população adulta e são escassas as informações

sobre problemas de voz em grupos ocupacionais de alto risco, a exemplo dos professores.

Conhecer a prevalência e incidência deste agravo no Brasil e descobrir novos processos

causais é importante para estabelecer prioridade nas ações de controle e, além disso,

estimular a produção de estudos que definam prognósticos, novas terapias e os critérios

de incapacidade deste agravo à saúde (Smith,1997).

Embora, atualmente, estes dados sejam escassos, há trezentos anos atrás, na era pré-

industrial na Itália, um médico chamado Bernardino Ramazzini, considerado o pai da

Medicina do Trabalho, em sua obra De Morbis Artificum Diatriba 8 já descrevia que a

rouquidão estava associada ao uso excessivo da voz no trabalho.

8 Foi publicada

em 1700

na Itália, traduzido por Raimundo Estrela e reimpresso

FUDACENTRO em São Paulo.

em 1999

pela

27

Não se encontrará tipo algum de exercício tão saudável e inócuo que, praticado com excesso, não acarrete graves danos; disso se dão conta os mestres da dicção, cantores, oradores, pregadores, frades, também as monjas pelo seu contínuo entoar de cânticos nos templos, os rábulas forenses, os pregoeiros, os filósofos que lêem nas escolas discutindo até ficarem roucos, e todos aqueles que tem por ofício cantar e forçar a voz (Ramazzini, 1999).

Desde então, as pesquisas destinadas a avaliar a relação entre saúde e trabalho

passaram a se concentrar em atividades do setor fabril 9 a exemplo de indústrias de

extração do carvão, minério e petróleo, indústrias de transformação de produtos químicos,

de plásticos e metalúrgicas, uma vez que são atividades de alto risco ambiental que geram

estatísticas elevadas de acidentes e doenças ocupacionais. Posteriormente, o setor de

serviço (atividades de bancários, informática) passou a ser muito estudado devido ao

aumento da prevalência das desordens osteomusculares relacionadas ao trabalho que, em

1999, fez a estatística de doenças e acidentes ocupacionais no setor de serviços superar,

pela primeira vez, a estatística do setor fabril. Portanto, as pesquisas que estudam a

relação trabalho e saúde concentram-se em atividades onde os riscos à saúde são mais

evidentes (Barbosa et al., 1998 apud Araújo & Paranhos, 2003).

Percebe-se que a literatura científica sobre a relação entre a saúde vocal e as

condições de trabalho dos professores é escassa antes da década de setenta, tendo sido

visto, no levantamento bibliográfico desta pesquisa, um estudo em alemão publicado em

1965 (Siergert, 1965) e um estudo tcheco publicado em 1967 (Lejska, 1967). É no final

da década de oitenta e início da década de noventa que ocorreu um aumento da

publicação internacional de pesquisas direcionadas ao estudo da saúde docente,

explorando inicialmente os problemas de saúde geral dos professores e, posteriormente,

os efeitos do trabalho sobre a saúde mental e a voz do professor. No Brasil, as

9 Relativo à fábrica ou à atividade de fabricante. Concernente à indústria que transforma produtos naturais (manufatora).

28

publicações voltadas para este tema, ocorreram, principalmente, de meados da década de

noventa ao início dos anos 2000.

Dentre os estudos nacionais publicados a partir da década de noventa, muitos

exploraram, inicialmente, a saúde geral dos professores e, dentre os agravos à saúde

encontrados, as alterações vocais apresentaram altas prevalências como: rouquidão que

variou de 25,9% (Wernick, 2000); 34,9% (Silvany-Neto et al., 2000) até 62,9% (Souza &

Ferreira, 2000); calos nas cordas vocais de 12% (Silvany-Neto et al., 2000) a 13,3%

(Delcor, 2003); nódulos e pólipos nas pregas vocais, 12% (Porto, 2001) e perda

temporária da voz; 22,6% (Silvany-Neto et al., 2000) até 37,7% (Souza & Ferreira, 2000)

Percebe-se, na literatura, estudos que tratam especificamente da relação entre

alterações vocais e o trabalho docente (Heidel & Torgerson, 1993; Smith, 1997). A

maioria destes baseia-se em dados de morbidade referida que pode servir de indicadores

de agravos à saúde no trabalho percebidos pelo professor (Wernick, 2000). Considera-se

os professores, profissionais de alto risco para o desenvolvimento de alterações vocais

devido às suas atividades de trabalho (Smith, 1997). Um estudo realizado com educadores

de creches que foram submetidos a uma triagem vocal, detectou 79,6% de casos de

disfonias (Simões, 2001). Um outro estudo realizado pelo Departamento de Medicina

Preventiva da Universidade de Iowa, nos EUA Universidade de Utah, nos EUA,

comparando educadores e não-educadores, revelou que os educadores tinham o risco de

apresentar sintomas vocais 3,5 vezes mais do que não-educadores (Smith, 1997).

Portanto, os professores podem apresentar uma prevalência mais elevada de alterações

vocais por estarem mais exposto a riscos ocupacionais nocivos aos aparelho fonador, se

comparado com outros profissionais.

Em pesquisas que estudam especificamente alterações vocais e disfonias em

professores, busca-se geralmente investigar aspectos como: qualidade vocal, esforço à

29

emissão da voz, fadiga vocal, perda de potência vocal, variações descontroladas da

freqüência, falta de volume e projeção, perda da eficiência, baixa resistência e sensações

desagradáveis na laringe. A pesquisa realizada por Smith et al. (1998) detectou, dentre os

sintomas mais prevalentes em professores: rouquidão (26,2%), fadiga vocal (18,1%), voz

com baixa potência (15,5%) e voz fraca (10,7%). Nessa perspectiva, observa-se que as

alterações vocais decorrem de alterações de diversos aspectos do aparelho fonador.

Apesar de existirem alguns estudos sobre a prevalência de alterações vocais e

disfonias em docentes, é escassa a literatura sobre a prevalência de lesões orgânicas das

pregas vocais nessa categoria de profissionais. Muitos autores, a exemplo de Silvany-

Neto et al. (2000) e Delcor (2003), utilizaram a expressão “calo nas cordas vocais” para

se referir a essas lesões, uma vez que esta é a forma como são mais conhecidas. Nestes

estudos, a prevalência deste agravo à saúde foi, respectivamente, de 12% e 13,3%. Porém,

em ambas as pesquisas, estes dados são baseados em diagnósticos referidos pelos

professores investigados, o que significa que o diagnóstico anatomo-patológico da lesão

não é esclarecido, podendo ser nódulo, pólipo ou outros. Isto implica necessidade de

estudos de testes diagnósticos que indiquem o nível de precisão deste relato a fim de

esclarecer a especificidade e sensibilidade dessa queixa e, além disso, da realização de

estudos baseados em diagnóstico histo-patológico que revelem a prevalência real de

lesões orgânicas das pregas vocais em docentes.

Na na maioria dos estudos, o diagnóstico epidemiológico dos problemas de voz em

professores é baseado em informações referidas pelos docentes. Tratando-se, então de

“alterações vocais”, distúrbios da voz sem avaliação do especialista. Embora, na revisão

da literatura, não foram observados estudos que apresentassem o grau de especificidade e

sensibilidade das alterações vocais em relação ao diagnóstico de lesão orgânica das

30

pregas vocais, as alterações vocais podem ser consideradas indicadores qualitativos que

permitem expressar os agravos à saúde vocal vivenciados pelos professores.

Sabe-se que as alterações vocais têm impacto importante na vida laboral dos

profissionais da voz podendo levar a incapacidade no trabalho com base nos critérios da

Previdência Social. Quando a incapacidade é parcial, cabe ao perito da Previdência

recomendar restrição de atividade ou mudança de função. Dessa forma, o profissional

deve ser reabilitado ou readaptado para uma função diferente da que lhe gerou a

incapacidade ao trabalho e não o exponha ao mesmo risco ocupacional.

Um estudo realizado no Rio de Janeiro, entre 1993 e 1997, com o objetivo de

identificar a especialidade médica que mais encaminhava casos para a readaptação junto à

perícia médica entre professores, destacou-se a otorrinolaringologia (Brito et al., 2000).

Carneiro (1997), ao analisar as causas de afastamento por licença médica em docentes da

rede estadual do ensino público, as doenças do aparelho respiratório aparecem como a

primeira causa dos afastamentos dos professores. Isso ocorreu, principalmente, nos meses

de maio e junho, período em que as atividades escolares estão bastante exacerbadas.

Porém, neste estudo, as patologias do aparelho respiratório não foram reconhecidas como

doenças ocupacionais ou acidentes de trabalho.

Segundo as pesquisas citadas nesta revisão teórica, as alterações da voz, as disfonias

e as lesões em pregas vocais apresentam prevalência elevada em professores nos

respectivos grupos estudados, apontando este agravo como um provável problema de

saúde pública ocupacional devido à dimensão da categoria investigada e ao impacto deste

agravo na vida e no trabalho destes profissionais.

Para poder avaliar o processo saúde/doença desta patologia, compreender a sua

relação com as condições do trabalho docente, o prognóstico clínico e ocupacional,

31

estabelecendo critérios de definição enquanto doença ocupacional e sua incapacidade para

o trabalho, é necessário conhecer, desde o funcionamento da voz normal, até o

desenvolvimento da voz alterada. Além disso, conhecer a classificação das disfonias, a

sintomatologia da voz alterada, o processo do diagnóstico e da abordagem terapêutica

multidisciplinar e, além disso, conhecer as bases legais para assegurar a saúde e a

segurança do trabalhador, identificando os riscos inerentes ao ambiente escolar e à

atividade docente a fim de que possam ser construídas ações eficazes de prevenção deste

agravo.

III.3. Aspectos clínicos das disfonias

III.3.1 Fisiologia da voz

A fala envolve não apenas o sistema respiratório, mas também o córtex cerebral, o

centro de controle do encéfalo e, as estruturas de articulação e de ressonância da boca e

das cavidades nasais. Existem duas funções mecânicas que constituem a fala: a fonação,

realizada pela laringe, e a articulação, efetuada pelas estruturas da boca, pelas pregas

vocais entre si e pela massa das suas bordas.

A fonação é uma função neurofisiológica inata, mas a voz vai se formando ao longo

da vida de acordo com as características anatomofuncionais do indivíduo e os aspectos

emocionais da sua história pessoal. A laringe produz a fonação e o trato vocal produz a

voz. Voz é fonação acrescida de ressonância. Dessa forma, a voz, do ponto de vista físico,

é o som produzido pela vibração das pregas vocais, modificado pelas cavidades situadas

abaixo e acima dela, ditas cavidades de ressonância. As pregas vocais atuam como

elemento vibrátil que fazem protusão das paredes laterais da laringe para o centro da

glote; são estiradas e posicionadas por vários músculos específicos da própria laringe.

Durante a respiração normal, as pregas vocais se abrem para permitir a fácil

passagem de ar. Na fonação, as pregas vocais se fecham de modo que a passagem de ar

32

entre elas provoque vibração. A altura da vibração depende do grau de estiramento das

pregas vocais e do grau de aproximação das pregas entre se e pela massa das suas bordas.

No interior de cada prega vocal, existe um ligamento elástico denominado

ligamento vocal. Este ligamento se fixa anteriormente à grande cartilagem tireóidea, que

faz protusão na superfície anterior do pescoço, sendo conhecida com “pomo de Adão”.

Posteriormente, o ligamento vocal liga-se aos processos vocais das duas cartilagens

aritenóides. Tanto a cartilagem tireóide quanto as cartilagens aritenóides, articulam-se,

por sua vez, com a cartilagem cricóide.

As pregas vocais podem ser estiradas por rotação da cartilagem tireóide para frente

ou por rotação posterior das cartilagens aritenóides, ativadas por músculos que se

estendem das cartilagens tireóide e aritenóides para a cartilagem cricóide. Os músculos

tireoaritenóides, localizados no interior das pregas vocais, lateralmente aos ligamentos

vocais, podem tracionar as cartilagens aritenóides em direção à cartilagem tireóide,

afrouxando as pregas vocais. Além disso, tiras destes músculos podem modificar o

formato e a massa das bordas das pregas vocais, esticando-as para emitir sons agudos e

relaxando-as para emitir sons mais baixos.

Além disso, vários grupos de músculos laríngeos pequenos situam-se entre a

cartilagem aritenóide e a cartilagem cricóide determinando a rotação destas cartilagens e

estabelecendo várias configurações das pregas vocais.

Articulação e ressonância. Os lábios, a língua e o palato mole são os três órgãos

principais da articulação. Os ressonadores, estruturas para onde o ar se destina durante a

fonação normal, podem contribuir para as mudanças na qualidade vocal. São eles: a boca,

o nariz, os seios nasais associados, a faringe e a caixa torácica. As alterações da função

fonatória dos ressonadores pode ser classificada como primária, secundária ou

33

psicogênica. A primária ocorre pelo uso incorreto da voz, falta de conhecimento vocal e

modelo vocal deficiente. As alterações secundárias vão desde a inadaptação vocal,

passando pelas estruturas do aparelho nasais e é ilustrada pela mudança na qualidade da

voz quando a pessoa está com resfriado intenso, bloqueando as passagens aéreas para

estes ressonadores (Guyton, 1992).

Várias teorias já foram formuladas, complementadas ou refutadas, procurando-se

explicar a produção da voz dentro de uma visão científica. Porém, mesmo com todo o

avanço do conhecimento da laringe, não existe uma teoria abrangente que contemple a

variedade da voz humana normal e alterada.

III.3.2 Fisiopatologia das disfonias

A fisiopatologia das lesões em pregas vocais é complexa e multifatorial. A alteração

da emissão da voz pode ocorrer com presença ou não de lesão nos tecidos da laringe, na

musculatura laríngea e paralaríngea, além de estar associada a alterações psicológicas.

A voz depende de uma complexa e interdependente atividade de todos os músculos

que atuam na sua produção, além da integridade dos tecidos da laringe. Embora a fonação

seja uma função neurofisiológica inata, a voz desenvolve-se num paralelismo com o

desenvolvimento orgânico do indivíduo. Por sua vez, a formação psicológica do indivíduo

também se expressa na voz. Assim sendo, a voz é uma manifestação com base

psicológica, mas de sofisticado processamento muscular (Behlau at al., 2001b).

Dentre as causas mais comumente descritas dos distúrbios da fonação inclui a

hiperfunção vocal, termo que parece ter sido usado inicialmente por Froeschels em 1943

para caracterizar a tensa superadução que ocorre nas pregas vocais (Boone, 1977 apud

Fawcus, 2001).

34

Vozes profissionais não treinadas podem gerar aumento da tensão da musculatura

laríngea e paralaríngea causando desordens vocais por mau uso. O aumento da tensão da

musculatura supra-hioídea, com freqüência aguda, elevação de laringe e anteriorização da

mandíbula, contribui para o estabelecimento de uma disfonia. Tensão excessiva prejudica

o padrão vibratório da mucosa das pregas vocais podendo gerar lesões orgânicas nas

pregas vocais, a exemplo de nódulos e pólipos. A tensão exagerada da musculatura da

laringe também pode gerar uma fenda triangular posterior, comprometendo ainda mais a

eficiência vocal (Morrison et al., 1994).

O mau uso e o abuso da voz geralmente são causados por falta de técnica vocal,

grande demanda vocal e aspectos psicológicos secundários, fatores que podem contribuir

para o aumento dessa tensão muscular (Pinho,1998; Morrison et al., 1994;).

Pela pluridimensionalidade do fenômeno da voz, há diferentes modelos de

classificação de disfonias, com uma ampla taxonomia que pode contemplar diversos

aspectos de análise vocal, dependendo do interesse e do tipo de avaliação do paciente. O

sistema de classificação de Pontes et al. (2000), baseado na etiologia dos sinais e

sintomas, propõe agrupar as disfonias nas seguintes categorias: funcionais,

organofuncionais e orgânicas. As disfonias orgânicas independem do uso da voz e podem

ser causadas por uma série variada de processos cuja origem é nos órgãos da

comunicação ou em outros sistemas do organismo humano. As disfonias funcionais são

desordens do comportamento vocal e podem ser classificadas como: primárias, por uso

incorreto da voz, secundárias por inadaptação vocal e psicogênicas por fatores

relacionados ao simbolismo vocal. Estas podem ser divididas em disfonias com formas

clínicas definidas e disfonias da muda vocal (Behlau, 2001c).

35

Uma disfunção na fonação pode causar o aparecimento de lesões orgânicas,

agravando o quadro e transformando-se numa disfonia organofuncional. Segundo Behlau,

Madazio e Pontes (2001d):

Disfonias organofuncionais correspondem a alterações vocais que acompanham lesões benignas, decorrentes essencialmente de um comportamento vocal alterado e inadequado. Pode-se dizer que as disfonias organofuncionais são disfonias funcionais diagnosticadas tardiamente, ou pelo atraso do paciente na busca de ajuda especializada, ou pela não-valorização dos sintomas do paciente. Em outras palavras, disfonias funcionais não tratadas podem evoluir com a formação de lesões histológicas observadas nos exames de rotina.

Essas lesões benignas podem ser classificadas, em ordem crescente de envolvimento

do comportamento vocal, em: nódulos, pólipos, edema de Reinke, úlcera de contato,

granuloma e leucoplasia. Cistos, fendas, assimetrias laríngeas e sulcos, são também lesões

orgânicas que geram disfonias funcionais decorrentes de inadaptação anatômica que

prejudicam o rendimento vocal (Behlau, 2001d)

Nódulos são lesões geralmente bilaterais, simétricas em localização, mas não em

tamanho, com alteração vocal de discreta a severa, caracterizada por voz rouco-soprosa,

mais predominante em pessoas do sexo feminino. A opção de tratamento principal é a

reabilitação vocal, podendo ter indicação cirúrgica em casos selecionados que deve ser

seguida por fonoterapia.

Pólipos são lesões unilaterais sésseis ou pediculados, gelatinosa, fibrótica ou

hemorrágica, com alteração vocal evidente, caracterizada por voz rouca. É mais

prevalente em adultos do sexo masculino. A opção principal de tratamento é cirúrgica,

mas a indicação de reabilitação vocal pode ocorrer em alguns casos.

Edema de Reinke é uma lesão bilateral de característica difusa, coloração rosada,

podendo ser simétrica ou assimétrica, que pode apresentar alteração vocal de discreta a

severa. É mais comum em adultos com história de fonotrauma e tabagismo. Em casos

36

iniciais a moderados a opção é a reabilitação vocal e, a cirurgia seguida de fonoterapia, só

deve ser indicada em casos mais avançados.

Úlcera de contato é uma lesão posterior na laringe caracterizada por uma lesão

cruenta no processo vocal da cartilagem aritenóidea, devido a um intenso atrito repetitivo

por fechamento glótico agressivo por fonotrauma, ou como resultado de intubação,

agressiva ou prolongada; a voz pode ser bastante adaptada ou haver emissão

extremamente grave de qualidade crepitante e tensa; na maior parte dos casos, odinofagia

e odinofonia são os principais sintomas do paciente; o tratamento medicamentoso e por

reabilitação representa a primeira opção de conduta.

Granulomas são lesões multifatoriais, de causa funcional ou principalmente

orgânica, onde podemos reconhecer a influência de fatores associados a um refluxo

gastroesofágico. A voz apresenta certo certo grau de soprosidade. A tendência atual do

tratamento do granuloma é a reabilitação vocal e, nos casos altamente recidivante, indica-

se o uso de BOTOX® e a fonoterapia agressiva.

Leucoplasias são lesões de natureza genética, podendo, porém ser disparadas por

um comportamento vocal desviado, sendo freqüente a associação com o fumo álcool e

refluxo gastroesofágico. A primeira opção é cirúrgica, quando a lesão é rasa e de borda

livre, mas pode-se tentar uma terapia medicamentosa e, em casos selecionados, a

reabilitação vocal.

Nas

lesões

multifatoriais

é

importante

que

se

reconheça à participação do

comportamento vocal, tanto na gênese da lesão como na manutenção do quadro , ou

ainda, por uma conseqüência da presença da lesão na laringe (Behlau et al., 2001d).

Uma vez que muitos professores referem uso intensivo da voz (Delcor, 2003) e que

o nódulo vocal tem maior incidência em profissões que utilizam mais a voz (Fujitar, 1991

37

apud Behlau at al., 2001d), além de ser a lesão de maior prevalência em pessoas com

história de abuso vocal (Remacle et al., 1996), é possível que esta seja a lesão mais

prevalente entre professores.

Porém, para identificar o tipo de lesão nas pregas vocais, é necessário realizar o

exame físísico da laringe que, além de ser invasivo, em grandes populações, requer altos

investimentos e, por isso, poucos são os estudos em professores que utilizam esta

metodologia (Russell et al., 1998). Portando, a grande maioria baseia-se em alterações

vocais referidas pelos professores pesquisados.

Torna-se necessário portanto, pesquisas que avaliem as condições do trabalho

docente in loco, seguida da avaliação fonoaudiológica, otorrinolaringológica e

histopatológica das pregas vocais dos professores a fim de identificar a lesão e os fatores

nocivos presentes na atividade e no ambiente docente mais prevalentes, para investigar a

associação existente entre esses aspectos e determinar os fatores de risco para as disfonias

funcionais e organofuncionais em professores.

III.3.3 Estresse e alterações vocais

Diversos estudos (Araújo at al., 2003; Wernick 2000; Silvany-Neto et al., 2000,)

apontam que fatores estressantes podem causar diversos efeitos negativos sobre à saúde.

A atividade de ensino, realizada nos padrões atuais na nossa sociedade, exige o uso

intensivo da voz, o que pode causar agravos vocais relevantes. Quando esses dois

estímulos estão presentes, estresse e uso intenso da voz, interações entre eles

possivelmente estão se processando, determinando sobre o organismo do professor efeitos

mais amplos.

Com base na revisão da leitura e, considerando que a voz é o principal meio de

comunicação interpessoal, pode-se concluir que uma alteração no processo de emissão

38

vocal pode repercutir na estrutura psicológica do indivíduo e vice-versa. A carga

emocional a que o professor está exposto, em seu relacionamento com os alunos, colegas,

superiores, funcionários, pais e comunidade escolar em geral, com toda responsabilidade

social que sua função e papéis requerem, além do sentimento de insatisfação e frustração

em relação ao trabalho, torna-o exposto a situações estressoras, predispondo-o a

problemas de ordem emocional, com graves repercussões sobre a saúde vocal (Penteado

et al, 1998).

O paciente disfônico, na sua árdua tarefa de adaptar-se ao meio, buscando manter

um nível aceitável de comunicação, exige-se e é exigido, levando o seu organismo a

concentrar sua reação de estresse em um só órgão, já vulnerável, no caso do disfônico, a

laringe. Por isso, ao mesmo tempo em que a disfonia é decorrente do estresse, também

pode ser considerada, ela própria, um fator estressante, dependendo da constância em que

ela ocorre (disfonia crônica), e de seu impacto sobre as relações pessoais e profissionais

do professor. Salas de aula cheia e barulhenta, presença de pó de giz, ar condicionado e

relações estressantes com os colegas e diretores são apontados como potenciais fatores de

risco para problemas vocais nesse grupo ocupacional.

III.3.4 Diagnóstico e abordagens terapêuticas

A avaliação da voz compreende uma série de procedimentos com o objetivo de

conhecer o comportamento vocal de um indivíduo, identificando os prováveis fatores

causais, desencadeantes e mantenedores da disfonia, descrevendo as características do

perfil vocal do indivíduo, os hábitos adequados e inadequados à saúde vocal, os ajustes do

trato vocal empregados na produção da voz e a relação entre corpo-voz-personalidade.

O objetivo de uma avaliação de voz é descrever

o perfil vocal

básico de um

indivíduo e, ainda, verificar a influência do comportamento vocal na gênese de uma

39

disfonia. A avaliação de um paciente disfônico é essencialmente multiprofissional e

inclui, pelo menos, uma avaliação fonoaudiológica e otorrinolaringológica (Behlau et al.,

2001a).

A avaliação fonoaudiológica clínica inclui: anamnese completa, análise

perceptivo-auditiva da qualidade vocal, medidas fonatórias, avaliação corporal básica

(relação corpo e voz), análise acústica da onda sonora, avaliação in loco das vozes

profissionais e ocupacionais (Behlau et al., 2001a).

A avaliação perceptivo-auditiva pode ser conscientemente desenvolvida,

tornando-se um recurso confiável e decisivo. Trata-se exclusivamente da impressão que o

paciente e outros indivíduos têm das mudanças ou não da qualidade da voz (exemplo: voz

rouca, soprosa, comprimida) ou da classificação da qualidade vocal baseadas em escalas-

padrão e índices para evitar subjetividade (Behlau et al., 2001a). A qualidade vocal está

comprometida quando as pregas vocais não estão vibrando de forma adequada devido a

alterações orgânicas ou funcionais na laringe (Case, 1995).

A avaliação otorrinolaringológica tem por objetivo o diagnóstico médico do

distúrbio da voz. Para a avaliação específica da laringe, é realizada laringoscopia que,

atualmente, pode utilizar fibras óticas rígidas ou flexíveis. A avaliação com fibra óptica

flexível é feita por via nasal e vai até próximo a glote (nasoendoscopia). A avaliação com

fibra rígida, telelaringoscopia, é realizada por via oral, posicionando-se o laringoscópio na

faringe angulando-o até capturar a imagem das pregas vocais. Principalmente nos casos

de voz profissional, é necessário as duas avaliações para a análise de aspectos anatômicos

e funcionais da emissão da voz sustentada e em fala encadeada (Behlau et al., 2001a).

A laringoscopia oferece uma análise eficiente do comportamento vocal, mas não

detalha as características do movimento da mucosa que podem ser vistas através da

40

estroboscopia laringea. Além disso, existe a videoquimiografia que é indicada quando os

movimentos das pregas vocais são aperiódicos, a eletroneuromiografia laringea, e,

finalmente, a endoscopia rígida e de contato, que permite analisar as microestruturas dos

tecidos porém, sem dispensar o exame anatomo-patológico (Behlau et al., 2001a).

A voz do professor é vulnerável ao tempo e ao uso inadequado, devendo ser tratada

como voz profissional. As condições de sua rotina de vida e trabalho apresentam

situações estressantes e fatores de risco para a sua saúde vocal e geral. Um estudo

realizado por Souza (1997) referiu que, embora 75% dos professores apresentassem

“irritação na garganta”, 62% relatassem rouquidão e cansaço ao falar , 47% pigarro e 37%

já tivessem perdido a voz, a maior parte não sabia avaliar se sua voz necessitava de

cuidados.

A procura por assistência médica ocorre raramente e, quando acontece, a patologia

já está em estágio avançado, onde já ocorreu um processo de ajustes fonatórios

compensatórios, adaptações patológicas, hábitos e comportamentos vocais prejudiciais,

onde é comum apresentarem patologia ou distúrbio vocal instalado, o que torna o

processo de recuperação mais trabalhoso e demorado (Penteado et al., 1998). Portanto,

esta categoria depende de cuidados terapêuticos, tanto preventivos como assistenciais.

Segundo Izdebski (1995 apud Penteado et al., 1998): “atualmente, o tratamento dos

problemas da voz pertence a uma equipe multiprofissional, na qual o laringologista e o

fonoaudiólogo formam o núcleo fundamental”. Desta forma, o tratamento requer uma

abordagem multiprofissional entre otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos, equipe que

realiza abordagens terapêuticas aplicadas ao problema da disfonia.

Estas abordagens terapêuticas se dividem em duas vertentes: a) atendimento clínico

individualizado, realizado em consultórios de fonoaudiologia, após instalação do quadro

41

patológico e devido encaminhamento do otorrinolaringologista; b) realização de projetos

educativos e de prevenção primária, geralmente desenvolvidos dentro das escolas,

visando divulgar para os professores noções de higiene vocal, saúde vocal, abuso e mau

uso da voz, além de despertar a atenção dos professores para possíveis problemas de voz

e sua propedêutica.

Mais do que atender às necessidades clínicas de uma pessoa, é necessário buscar

compreender as suas necessidades pessoais, o seu cotidiano e suas condições de trabalho

e de vida, interpretando o processo saúde/doença como resultante de tal contexto

(Penteado et al.,1998).

Observa-se, nas abordagens terapêuticas anteriormente descritas, que o enfoque

principal está na prevenção secundária, através do diagnóstico e terapêutica clínica

precoces ou tardios e, na prevenção primária de proteção específica (Leavell & Clark,

1976), através das medidas de controle das disfonias. Observa-se que ambas atuam no

sujeito e não no contexto que supostamente gerou seu adoecimento, o que implica em

uma provável continuidade das contingências que corroboraram para que o professor

continue a desenvolver comprometimentos no aparelho fonador.

Embora a legislação brasileira de saúde e segurança no trabalho, que tem como foco

principal a melhoria das condições do ambiente e das atividades laborais do trabalhador,

seja tecnicamente específica e detalhada, prevalecendo o nível de prevenção primária de

promoção à saúde (Brasil, 1978), percebe-se que, nas escolas, principalmente com

referência à proteção da voz do professor, esta prática não se mostra evidente. Em geral,

os professores recebem pouca ou nenhuma orientação sobre o uso profissional da voz e, a

atenção sua saúde vocal`, mostra-se ineficiente para evitar distúrbios vocais ou disfonias

(Penteado et al., 1998)

42

Não há evidências, por exemplo, da implantação de programas de análise

ergonômica no trabalho em que profissionais da saúde e segurança do trabalho que atuam

como consultores, contratados pela escola para diagnosticar riscos para o adoecimento

vocal de professores. Esta abordagem preventiva das disfonias passa, necessariamente,

pela aplicação das Normas de Higiene e Segurança do Ministério do Trabalho e,

certamente, poderá envolver outras áreas do conhecimento que apontem necessidades de

mudanças no funcionamento escolar, adequando a postura docente e o projeto pedagógico

à questão da saúde profissional.

No atual estágio de conhecimento sobre as disfonias, enquanto doença

ocupacional, é possível crer que as condições de trabalho sejam as principais responsáveis

pelo seu desenvolvimento ou, pelo menos, pelo seu agravamento.

A resposta à reabilitação vocal é geralmente rápida e favorável, desde que seja

observada a necessidade de adequar o comportamento vocal e modificar as condições

ambientais para obter uma produção vocal correta e saudável. O comportamento vocal

pode ser aperfeiçoado pela escolha através de adequadas técnicas de melhoria no controle

pneumofônico, da ressonância e da articulação, bem como, técnicas didáticas que

apontem para o uso adequado de recursos e posturas pedagógicas que privilegiem

trabalhos de equipes, estudos dirigidos ou práticas de seminários no intuito de proteger o

professor de alterações vocais.

No

que

se

refere à

Saúde e Segurança

no Trabalho, um passo inicial para a

prevenção de fatores de risco ocupacionais e ambientais é a aplicação da legislação

vigente para a adequação das condições de trabalho e da atividade docente nas escolas.

III.4. Saúde e trabalho docente

43

A

proteção

e

a

promoção da saúde no ambiente de trabalho é um dever

Constitucional do empregador e do Estado e está definido como um direito social

determinado pela necessidade de redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de

normas de saúde, higiene e segurança, conforme Artigo 6 o . XXII do Capítulo II da

Constituição (Brasil, 1988).

Segundo a Legislação de Saúde e Segurança no Trabalho, portaria 3.214 do

Ministério do Trabalho, criada na década de setenta, as empresas possuam empregados

regidos pela Consolidação das Leis trabalhistas – CLT manterão obrigatoriamente

serviços especializados em engenharia e em medicina do trabalho, com a finalidade de

promover a saúde e proteger a integridade do trabalhador no ambiente de trabalho.

Determinação semelhante ocorre para a modalidade da relação de trabalho da

administração direta para o estatutário sob Regime Jurídico Único com o objetivo de

assegurar o cumprimento do referido dispositivo Constitucional.

A escola, instituição que promove a atividade de ensino fundamental e médio,

caracteriza-se, segundo a legislação pertinente (Brasil, 1978), como atividade de grau de

risco 02 (o grau de risco é definido pela portaria 3.214 do Ministério do Trabalho e

Emprego e varia de 1 a 4). O ambiente de trabalho e as relações trabalhistas na escola da

rede particular são regidos pela CLT. Os professores, em geral, estão expostos, a diversos

tipos de riscos ocupacionais e ambientais incluindo: físicos (ruído, poeira do giz,

vibrações, radiações não-ionizantes, calor, frio etc.); ergonômicos biomecânicos

(movimento repetitivo, carregamento de peso, esforço físico, carga estática, trabalho em

pé); ergonômicos psíquicos (atividades repetitivas, ritmo intenso, tarefas extra-classe,

trabalho com público adolescente), biológicos (bactérias, vírus devido ao contato com o

público mais susceptível a doenças infecto-contagiosas); e de acidentes em geral.

44

Observa-se que, nos ambientes escolares, não há aplicação das Normas do

Ministério do Trabalho que regulamentam a Saúde e a Segurança no ambiente de

trabalho, mesmo sabendo que as instituições de ensino também são empresas que

envolvem trabalhadores em educação: professores, diretores, secretárias, coordenadores

de curso, dentre outros (Teixeira, 2000).

Uma pesquisa realizada para identificar os fatores de risco através da observação

dos ambientes de escolas de ensino médio e da aplicação de questionários a uma amostra

de professores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, realizada em Vitória da

Conquista, revelou que, nos ambientes escolares, não há aplicação das Normas

Regulamentadoras. Dentre os potenciais fatores de risco ocupacional encontrados

destacaram-se salas de aula sem ventilação, salas com ar condicionado sem manutenção,

umidade, paredes das salas que abafam o som ou o faz reverberar, temperatura elevada no

verão, ruído produzido pela quantidade de alunos em sala de aula, pó de giz, uso

inadequado da voz, respiração incorreta, tripla jornada e intensificação do trabalho,

refeições sem qualidade e regularidade, ritmo acelerado de trabalho para cumprir o

programa, atenção e responsabilidade durante as aulas, pressão dos colegas e dos

superiores hierárquicos (Teixeira, 2000).

Os educadores enfrentam, diariamente, grande demanda da voz em suas atividades

profissionais, muitas das vezes, sob competição sonora com o barulho ambiental, em salas

sem condições acústicas satisfatórias, mal planejadas e mal distribuídas, úmidas, às vezes,

com problema de infiltração, poeira, pouca ventilação ou climatização inadequada (ar

condicionado desregulado), número excessivo de alunos, falta de recursos materiais, ou

recursos mal adaptados às necessidades didáticas, baixa remuneração como elemento

produtor do aumento excessivo de carga horária e a busca por mais empregos para manter

um nível digno de sobrevivência.

45

Na sala de aula, não são apenas as condições de trabalho que contribuem para o

agravamento dos problemas relacionados à voz, outros fatores também são apontados

como elementos patogênicos à saúde do professor, mais precisamente sobre a questão das

disfonias. Segundo Carvalho (1995), dentre esses fatores, podem ser destacadas as

recentes mudanças de enfoque pedagógico e de diretrizes educacionais que

redimensionam o papel do professor e apontam a necessidade de atualização constante,

revisão didático-metodológica, introdução de novos recursos tecnológicos (televisão,

vídeo, computador, Internet) em detrimento das transformações mundiais (globalização

da economia e da cultura). O professor necessita de espaço e tempo para se atualizar,

participar de cursos, sessões e estudo, entre outras demandas de trabalho. Para este autor,

todas essas situações vividas pelo professor causam distúrbios emocionais que podem

também resultar em um quadro de distúrbio vocal.

Observou-se que os procedimentos mais usados pelos professores como conduta

para melhora vocal foram:o repouso da voz (50 %), a auto-medicaçäo (14,3 %), o

gargarejo (14,3 %) e a redução da intensidade vocal (14,3 %) (Tenor et al., 1999).

Um exemplo de trabalho docente voltado para a preservação da saúde vocal pode

ser pensado a partir da experiência de Célestin Freinet (1896-1966). Pedagogo francês,

ele foi um professor que, por contingências do destino, viu-se obrigado a pensar em uma

nova forma de organizar o trabalho docente que não se sustentasse no uso da voz, pois

uma patologia de origem respiratória o impedia de falar por mais de dez minutos. Seus

biógrafos acreditam que esta sua dificuldade o levou a procurar uma nova maneira de dar

aulas, desenvolvendo assim, a Pedagogia ativa. Suas idéias então, colocaram o professor

no lugar de facilitador e valorizavam a autonomia e a capacidade criativa dos alunos, os

quais deveriam, eles sim, ter voz ativa. Esta invariante não apenas sintetizava uma idéia

pedagógica bem sucedida, como também ia ao encontro das expectativas de profissionais

46

comprometidos com a saúde vocal do professor, preocupados com o uso intenso e

freqüentemente nocivo aos quais está exposta, ainda hoje, grande parte dos professores na

sala de aula, ainda hoje (Gonçalves, 2003a).

Embora ainda sem classe de risco ocupacional definida, o mau uso e abuso da voz

vem se revelando como um dos riscos mais presentes entre a classe trabalhadora docente.

Essa preocupação aumenta quando outras profissões, além do exercício da docência, estão

expostos a este tipo de agente, a exemplo daqueles que desempenham a tarefa de

atendimento a clientes através de sistemas telefonados, os operadores de telemarketing.

Essa nova profissão, a cada dia mais, enfileira grande número de pessoas que, no

exercício do seu trabalho, usam predominantemente a voz.

Embora o emprego das novas tecnologias possa ser um recurso para minimizar as

lesões musculares por esforço repetitivo no desempenho de algumas tarefas, quando

aplicada a sistemas fonados, como no telemarketing, estão na verdade contribuindo para o

surgimento de uma nova epidemia, também por esforço repetitivo, as disfonias (Verdolini

et al., 2001), que podem ser equiparadas as lesões osteomusculares relacionadas ao

trabalho uma vez que envolvem estruturas musculares, cartilaginosas e tendíneas e estão

associadas a aspectos antiergonômicos do ambiente e da atividade docente.

Parece que o uso das novas tecnologias como recurso didático também requer do

professor maior quantidade de palavras no decorrer da exposição dos conteúdos

programáticos para os alunos, como exemplo, quando utilizam data show, os professores

falam na velocidade em que os slides são projetados e, às vezes, sem pausas entre as

projeções.

Esta pesquisa poderá dimensionar o problema entre os professores da rede particular

de ensino de Salvador e contribuir para elucidar os fatores associados às alterações vocais

47

entre professores e informar às entidades competentes, facilitando estas instituições a

desenvolverem programas eficazes que visem à prevenção dos agravos vocais entre os

trabalhadores que utilizam a voz como principal instrumento de trabalho.

IV. OBJETIVOS

IV.1. Objetivo geral

Descrever a freqüência de alterações vocais referidas por professores da rede

particular do Ensino Fundamental e Médio e em Salvador-Bahia e identificar possíveis

fatores de risco.

IV.2. Objetivos específicos

  • 1. Descrever as principais queixas, sintomas e diagnósticos referidos pelos professores, concernentes às alterações vocais;

  • 2. Descrever as características do ambiente de trabalho e da atividade docente referidas pelos professores, potenciais fatores de risco para a saúde vocal;

  • 3. Descrever hábitos de vida relacionados à saúde vocal (tabagismo, consumo de bebida alcoólica, prática de atividade de lazer) entre os professores.

V. MATERIAL E MÉTODOS

V.1.Tipo de estudo

Foi realizado um estudo epidemiológico descritivo do tipo corte-transversal com

duração de um ano para investigação de: alterações vocais, características do ambiente de

trabalho e características da atividade docente referidas pelos professores, além da saúde

em geral e seus respectivos hábitos de vida.

48

O estudo de corte transversal, seccional ou de prevalência, avalia caso e exposição

simultaneamente entre indivíduos de uma população definida e observa a distribuição das

variáveis nessa população em um ponto do tempo ou num período curto de tempo

(Pereira, 1995), podendo realizar inferências de causa e efeito a partir das associações

entre as variáveis designadas como preditora (causa) e resultado (efeito). Porém, essa

inferência é limitada e deve ser feita de forma cautelosa, uma vez que, ao ocorrer

simultaneidade diagnóstico de causa e efeito, não é possível afiirmar qual a variável

preditora e qual a variável efeito. A medida de freqüência da doença ou agravos dos

estudos de corte-transversal é a prevalência que é a proporção da população que tem um

evento em um determinado momento. Portanto, este tipo de estudo pode identificar as

características de uma população, conhecendo as suas necessidades e gerando dados

importantes para o planejamento da Saúde Pública.

Os estudos de corte transversal têm grande aplicabilidade na pesquisa de doenças

não fatais, de efeitos de exposição a um determinado fator sobre o organismo e no estudo

de sintomas sendo, por isso, largamente utilizados em saúde ocupacional (Checkoway et

al., 1989).

V.2. Local do estudo

O estudo foi realizado no Sindicato dos Professores da Rede Particular de Ensino da

Bahia (SINPRO – BA). A escolha do sindicato como campo empírico deveu-se ao fato de

que todos os professores, independente da escola ou de filiação ao sindicato, devem

comparecer a esta entidade quando realizam rescisão contratual. Além disso, esperava-se

que os professores pesquisados não sentissem receio de sofrer retaliações por parte da

escola a qual mantem ou manteve vínculo empregatício, respondendo o questionário de

forma mais fidedigna, uma vez que o sindicato é um órgão que representa a classe

trabalhadora.

49

V.3. População de estudo

Os profissionais estudados nessa pesquisa corresponderam àqueles que trabalhavam

es escolas da rede particular do ensino fundamental e médio em Salvador e que

compareceram ao SINPRO para realizar rescisão de contrato, durante o período do

estudo. Segundo informações do sindicato, a média de professores que procuram o

(SINPRO – BA) varia de 1000 a 1500 por ano.

Foram incluídos, no estudo, todos os professores da rede particular do ensino

fundamental e médio que se apresentaram no SINPRO pelos motivos acima descritos e

que aceitaram participar do estudo. Foram excluídos do estudo os professores que

assumiam apenas funções administrativas, fora da sala de aula, como supervisores,

diretores e coordenadores de curso, uma vez que o objetivo era identificar os potenciais

fatores de risco inerentes à atividade docente e ao ambiente de trabalho do professor para

alterações vocais. Além disso, foram excluídos os professores que responderam menos

de 50% do instrumento utilizado para coleta de dados.

Considerou-se que o professor apresentava alteração vocal quando o mesmo

relatava voz alterada ou algum dos seguintes sintomas: fonatórios (fadiga vocal,

rouquidão, pigarro, voz fraca, voz grossa, voz variando fraca/grossa, voz fina, voz forte,

afonia), sensoriais (prurido, secura, queimação, sensação de bolo na garganta, sensação de

areia na garganta secreção, sensação de picada na garganta, secreção, dificuldade para

deglutir), dolorosos (dor ao falar, dor ao deglutir), vagais (tosse com secreção) (Brewer,

1975). Foram escolhidas as alterações vocais de maior prevalência e de maior impacto na

atividade docente para avaliar a associação com o trabalho.

V.4. Instrumento da pesquisa

50

Para a coleta de informações foi utilizado um questionário padronizado, semi-

estruturado, composto de questões que buscaram obter informações sobre: 1º bloco -

identificação do professor e informações sociodemográficas (idade, gênero, situação

conjugal, nº de filhos, escolaridade, tempo de docência); no 2° bloco - as atividades

docentes (nº de escolas onde ensina, nº de turmas que leciona, nível das turmas, média de

alunos, carga horária de trabalho docente, horas dedicadas a atividades extraclasse, rede

de ensino, outras atividades remuneradas); 3° bloco - características do ambiente de

trabalho (condição da acústica, nível e origem do ruído, utilização de microfone, presença

de poeira de giz, presença de umidade, característica da temperatura); 4° bloco - saúde

vocal do professor (tipo, grau, causa e evolução da sintomatologia vocal, tipo de

tratamento realizado); 5° bloco - hábitos de vida (tabagismo, ingestão de bebida alcoólica)

e hábitos relacionados à voz (ingestão de água durante o dia e durante a aula, realização

de outras atividades que exigem o uso da voz, postura durante a fala) e, 6° bloco -

condições de saúde em geral, realização de atividades de lazer e renda média mensal

(Anexo 01).

O instrumento manteve o sigilo das informações cedidas pelos professores

pesquisados, devido às questões abordadas pelos instrumentos de pesquisa e objetivando

diminuir ao máximo possíveis resistências.

V.5. Estudo piloto

Foi realizado, pela equipe de pesquisadores da UFBA e UEFS, um estudo piloto

com 179 professores da rede particular do ensino fundamental e médio que participaram

de uma Jornada Pedagógica, organizada pelo SINPRO em setembro de 2002, para testar a

clareza e a compreensão das questões do questionário. A observação das respostas deste

instrumento permitiu ajustes, adequando-o à categoria estudada.

51

V.6. Procedimentos e estratégias para a coleta de dados

A aplicação dos questionários foi realizada por acadêmicos de medicina,

previamente treinados no período de setembro a novembro de 2001. A coleta de dados

deste estudo foi iniciada em outubro de 2002 e finalizada em outubro de 2003, com uma

duração total de 01 ano. A efetivação ocorreu com a solicitação, a cada professor que

compareceu ao SINPRO, do preenchimento de um questionário padronizado que foi

recolhido, à medida que forem sendo respondidos, para processamento dos dados pelo

grupo de pesquisadores da UFBA e UEFS. Sempre que o pesquisador entregava o

questionário ao respondente, para garantir níveis mais elevados de padronização, além do

treinamento, era explicado, de forma clara e objetiva, a importância da pesquisa, seus

objetivos e a justificativa da assinatura do termo de consentimento anexado ao

instrumento.

V.7. Controle de qualidade

Para o controle de qualidade dos dados foi realizado, além de um estudo piloto,

um pré-teste do instrumento entre os pesquisadores a fim de esclarecer supostas dúvidas

dos professores a serem pesquisados. Durante a aplicação dos questionários, foi checado

o preenchimento de cada instrumento pelo mesmo pesquisador que o aplicou. Após

processamento do banco de dados, foi retirada uma amostra aleatória de 10% dos

questionários (64) para verificar a qualidade da digitação dos dados através do percentual

de erro de digitação identificado. Assumimos previamente como aceitável uma taxa de

erro de 5% na digitação. Obteve-se no nosso banco uma porcentagem de erro de 0,74%.

Ao perceber a existência de diferenças entre os dados dos questionários e a digitação, os

erros foram imediatamente revisados.

V.8. Análise estatística dos dados

52

Os questionários foram numerados e os dados foram digitados por alunos do curso

de graduação em Medicina da UFBA, utilizando-se o programa estatístico “Statistical

Package for the Social Sciences” SPSS, versão 9.0 para Windows (1996), utilizando-se

um microcomputador tipo IBM PC-586.

Inicialmente, foi realizada análise estatística descritiva acerca das variáveis

sociodemográficas, ocupacionais, de saúde em geral, saúde vocal e hábitos de vida dos

professores estudados. Os resultados das variáveis contínuas foram apresentados sob a

forma de média, desvio-padrão e mediana, quando a variável não apresentava distribuição

normal. Para comparação das variáveis entre dois grupos foi utilizado o teste t de Student

para amostras independentes, ou o Mann-Whitney, caso a variável não apresentasse

distribuição normal.

Os critérios utilizados para definir distribuição normal foram baseados na

análise das seguintes medidas: média, mediana, moda, desvio-padrão, simetria e

achatamento da curva do histograma, Q-Q plots e teste de Kolmogorov-Smirnov. Todos

os testes foram bi-caudais e só aplicados após verificação das premissas para a sua

utilização. Considerou-se como esta tisticamente significan tes valores de p < 0,05.

As variáveis categóricas foram expressas como proporções (freqüência relativa).

Para comparação de percentagens das variáveis categóricas entre dois grupos foram

utilizados os testes qui-quadrado de Pearson (indicado quando for zero o número de

células esperadas da tabela 2 x 2 da análise bivariada menor que 5) e o teste exato de

Fisher (indicado quando for dois o número de células esperadas da tabela 2 x 2 da análise

bivariada menor que 5) para identificação do valor de p a ser comparado com o nível de

significância de 5%, possibilitando assim a existência ou não de diferença estatística entre

dois grupos.

53

Em seguida, foi medida a associação entre variáveis sociodemográficas,

ocupacionais e hábitos de vida, e alterações vocais. As variáveis contínuas foram

categorizadas em dois grupos. A medida de associação utilizada foi a razão prevalência

(RP). Considerou-se estatisticamente significante a razão de prevalência com o respectivo

intervalo de confiança de 95%.

V.9. Aspectos éticos

O estudo foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital

Universitário Professor Edgar Santos. Após aprovação (Anexo 03) foram elaborados

termos de consentimento livre e informado para todos os professores que constituíram a

população do estudo. Apenas os professores que consentiram, assinando o termo de

consentimento, participaram da pesquisa. Seguiu-se, desta forma, as recomendações da

resolução n° 196 de 10/10/1996 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério de Saúde.

VI. RESULTADOS

Os resultados dessa pesquisa, conforme abordado na descrição metodológica,

foram divididos em: 1) análise descritiva, onde foram apresentadas frequências absoluta e

relativas das variáveis categóricas, além de medidas de tendência central das variáveis

contínuas; e 2) medidas de associação, que será mensurada pela razão de prevalência.

VI.1. Análise descritiva

No período destinado à coleta de dados da pesquisa, outubro de 2002 a outubro de

2003, 1015 professores compareceram ao SINPRO. Destes, 634 professores participaram

do estudo (taxa de resposta de 62,5%). Do total que compareceu ao Sinpro, 381

professores não participaram da pesquisa devido a: 1) recusa (32,8%); 2) urgência em

resolver problemas referentes à rescisão contratual (50,9%); 3) incapacidade de escrever

54

responder

o

questionário

de

forma

incompleta

com

menos

de

50%

das

questões

respondidas (15,2%).

VI.1.1 Características sociodemográficas, níveis de renda e hábitos de vida.

Os professores que participaram do estudo eram, na sua maioria, do sexo

feminino, correspondendo a 76,1% da população estudada. A faixa-etária predominante

foi a de 31 a 40 anos (47,2%), seguida de 18 a 30 anos (35,3%) e 42 a 60 anos (17,3%). A

maioria tinha até 40 anos (82,5%). Apenas 0,2% dos professores tinham acima de 60

anos.

Quanto à situação conjugal: 49,5% eram casados, 41,2% solteiros, 7,7%

separados e 1,6% viúvos, significando que 50,5% não tinham companheiros. Dos 627

professores que responderam sobre presença de filho, 52% responderam ter filhos e, estes

tinham em média 2 (± 0,80).

O nível de escolaridade dos professores foi: 81,7% para professores que tinham

nível superior completo ou em curso, 23% para os que tinham especialização; 4,6% para

os professores com mestrado e; 0,6% para doutorado (Tabela 01).

A média de idade entre os docentes foi 34,1 (±7,9) anos. Não houve diferença

estatisticamente significante (p>0,05) entre a média de idade do sexo masculino

(34,1±7,4) e do sexo feminino (34,0±8,0). A renda mensal média dos professores foi

1.230,00 ± 1.050,9 reais, o que correspondeu a 361,76 dólares (Tabela 02), sendo que

16,0% recebia menos que 400 reais, 21,5% entre 400 e 800 reais; 28,2 % de 801 a 1000

reais e 34,3% mais de 1000 reais (Tabela 03).

Foram observadas diferença de renda média segundo faixa-etária. A renda média

aumentava, a medida que ia aumentando a faixa-etária. Os professores com menor faixa-

55

Tabela 01. Prevalência das características sociodemográficas dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA,

2002/2003.

Características sociodemográficas (N)

n

%

Gênero (624)

Feminino

475

76,1

Masculino

149

23,9

Idade (634)

  • 18 218

a 30 anos

35,3

  • 31 292

a 40 anos

47,2

  • 41 107

a 60 anos

17,3

Acima de 60 anos

1

0,2

Situação conjugal (626)

Casado

310

49,5

Solteiro

258

41,2

Separado

48

7,7

Viúvo

10

1,6

Tem filhos (627)

Sim

326

52

Não

301

48

Escolaridade (625)

dio/ Magistério

114

18,3

Superior em curso

122

19,5

Superior completo

389

62,2

Especialização

144

23,0

Mestrado

28

4,5

Doutorado

4

0,6

N-número de professores incluídos na análise; n-frequência simples; %-Freqüência relativa.

Tabela 02. Prevalência das características (número, média aritmética, desvio-padrão e mediana) sociodemográficas dos professores da rede particular do ensino fundamental e médio que compareceram ao SINPRO-BA, 2002/2003.

Características Sociodemográficas

N

média

Desvio-

Mediana

 

padrão

Idade

618

34,1

7,9

33

Número de filhos

313

1,8

0,8

2

Renda mensal

517

1230,0

1050,9

900,0