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“Porto Maravilha, nós gostamos de você?”: megaeventos e impactos urbanos na cidade do Rio de Janeiro

Marcia Alves Soares da Silva Mestranda em Geografia na Universidade Federal Fluminense (mah.geo@live.com) José Victor Juliboni Cosandey Mestrando em Geografia na Universidade Federal Fluminense (zevictor18@yahoo.com.br)

Resumo: Os atuais projetos de urbanização são marcados pela banalização da forma-mercadoria, no qual as cidades, vistas como mercadorias são projetadas para atender os interesses dos atores hegemônicos. Tornam-se negócios, projetadas pelos planejadores urbanos e por promotores culturais, para entrarem nos circuitos mundiais de consumo, desconsiderando muitas vezes as particularidades locais. Nessa perspectiva, a cidade do Rio de Janeiro tem sido o foco de atenção, principalmente devido a realização dos megaeventos esportivos no Brasil, como a Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016. Contudo, pouco tem se falado aos brasileiros o verdadeiro legado de tais eventos. O que se fala é que os trabalhadores terão mais empregos, os comerciantes mais lucros e as cidades-sede investimentos em infraestrutura. Para tanto, a proposta deste trabalho, levando em consideração a questão da identidade territorial e o processo de desterritorialização, é discutir algumas questões referentes ao ordenamento territorial e ao planejamento estratégico urbano para os megaeventos no Rio de Janeiro, tendo com pano de fundo o Morro da Providência, inserido no Projeto “Porto Maravilha”. Atendendo aos interesses do capital hegemônico, das grandes corporações e empreiteiras, as desapropriações são o reflexo negativo dessas intervenções urbanas, que além da perda material, tem desconsiderado o sentimento de pertencimento, a memória e a história dos indivíduos envolvidos nesse contexto.

Palavras-chave:

identidade.

Introdução

desapropriações;

megaeventos;

desterritorialização;

cidade-mercadoria;

O Brasil e o Rio de Janeiro estão em êxtase por sediarem os maiores eventos esportivos

mundiais: Copa do Mundo de Futebol, em 2014 e os Jogos Olímpicos, em 2016. As discussões

sobre a questão giram em torno das possibilidades de investimentos que serão realizados no País e

pouco tem sido compreendido pelos brasileiros o verdadeiro legado de tais eventos. Além dos

investimentos em infraestrutura urbana (portuária, aeroviária e terrestre), também há outros

planejamentos estratégicos para os megaeventos, como aumento da rede hoteleira, capacitação dos

trabalhadores envolvidos, preocupação com a segurança, ampliação e reformas dos estádios e

mobilidade urbana.

Para que tais intervenções urbanas aconteçam, as desapropriações de moradores tem sido

mostradas pela Prefeitura, juntamente com empreiteiras, como necessárias. Um dos locais de

desapropriação que afetará várias comunidades é na zona portuária do Rio de Janeiro, na qual a

prefeitura municipal lançou um projeto chamado de “Porto Maravilha”. O presente trabalho se aterá

ao Morro da Providência, o mais antigo morro localizado na zona portuário do Rio de Janeiro e que

terá um grande impacto urbano e social devido as desapropriações.

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Embora os envolvidos estejam recebendo indenizações, a questão é preocupante no sentido de como as indenizações e as desapropriações estão acontecendo, já que há discussões sobre os valores que estão sendo pagos, que são ínfimos se levado em consideração o valor real das casas e terrenos e a questão da especulação imobiliária. Além disso, há também um ponto mais subjetivo, relacionado aos sentimento pelo lugar de moradia, a memória e história desses indivíduos, a identidade com o lugar, que não tem sido levado em consideração pelo Poder Público, no anseio em atender os interesses hegemônicos e se inserir cada vez mais no circuito competitivo mundial. A perspectiva da pesquisa é mostrar os verdadeiros impactos urbanos devido a realização desses eventos, mostrando a influência do Estado, no direcionamento dos interesses do planejamento urbano e as estratégias hegemônicas de ordenamento do território urbano, que tem violado o direito à moradia, os direitos humanos e o direito a verdadeira “polis” aos moradores. Nessa caso, o que percebe é que os interesses privados são favorecidos em detrimento do interesse público, onde cidadão na verdade é o consumidor, já que a cidade é vista como mercadoria pronta para ser vendida e consumida pelos que detém o poder. Discute-se ainda a questão da identidade territorial e do processo de desterritorialização, do ponto de vista simbólico-cultural, propostas por Haesbaert (2006). Dessa maneira, tem como metodologia, a análise bibliográfica a partir das discussões dentro da Geografia sobre território, identidade territorial e desterritorialização na cidade-mercadoria, além de outros trabalhos referentes a questão, como o documentário realizado pela ong “Entre sem bater”, sobre o problema enfrentado pelos moradores do Morro da Providência. A pesquisa, embora em fase inicial, buscou compreender principalmente as questões subjetivas do processo de segregação socioespacial, relacionada com o sentimento de pertencimento, a memória, as lembranças, a identidade e a cultura dos moradores envolvidos nesse contexto. Percebe-se a realocação da classe pobre conforme os interesses do capital imobiliário e dos atores hegemônicos, com o auxílio do Estado, realizando assim um projeto marcado por processos de exclusão e desigualdades sociais.

1. Cidade-mercadoria, cidade-empreendimento, cidade-empresarial, cidade-negócio, cidade- corporativa ou o que os atores hegemônicos quiserem vender

Os atuais projetos urbanos não seriam possíveis sem que houvesse estratégias de consenso impostas aos indivíduos. Para tanto, é necessária a identificação do cidadão com a cidade, criando assim o consenso-cidadão-consumidor. O consenso se realiza porque os atores hegemônicos constroem determinados “modelos”, no qual procuram impor leituras e representações do urbano, influenciando outros atores (no caso o Estado) na definição de estratégias espaciais para a

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construção da cidade-mercadoria. Essa estratégia global acontece no território da sociedade do consumo dirigido, com imposição de uma ideologia que prega a felicidade a partir do consumo exacerbado. Alguns investimentos, públicos e privados, são apresentados como bom para todos a longo prazo, como no caso dos megaeventos, no qual o cidadão se identifica com a imagem (im)posta. Contudo, os benefícios da modernização para muitos, acontecem apenas no plano do imaginário (SANCHÉZ, 2001; 2003). A forjada identificação dos indivíduos com os projetos urbanos da cidade-mercadoria acontece principalmente no plano cultural. Para Maricato (2000), moldados pela cultura, ocorre uma auto-identificação dos indivíduos ou coletividades “imaginadas” no que diz respeito ao consumo e lealdade a estilos e marcas. Sobre isso, Sanchéz (2001, p. 35) acredita que “há um complexo intercâmbio entre a transformação material e o simbolismo cultural, entre a reestruturação de lugares e a construção de identidades. Desse modo, a cultura é o meio que relaciona a textura da paisagem ao texto social”. Nessa perspectiva, os governos locais manipulam um sentimento de crise, que não existe em si, porque realiza-se na percepção, que gera o patriotismo de cidade (cuidar do que é nosso), ou seja, um sentimento de patriotismo, de pertencimento que é mais eficaz quando coletivo, criando, portanto uma lógica de cidade que visa produzir e competir (VAINER, 2000). A cidade torna-se protagonista quando entra nos circuitos competitivos da globalização, ou seja, tem sido idealizada como uma empresa, perdendo seu caráter de polis:

“De um lado a city, impondo-se à cidade como espaço e objeto e sujeito de negócios; de outro lado, a polis, afirmando a possibilidade de uma cidade como espaço do encontro e confronto entre cidadãos. Ali onde a mercantilização do espaço público está sendo contestada, ali onde os citadinos investidos de cidadania politizam o quotidiano e quotidianizam a política, através de um permanente processo de reconstrução e reapropriação dos espaços públicos, estão despontando os primeiros elementos de uma alternativa que, por não estar ainda modelada e consolidada, nem por isso é menos promissora” (VAINER, 2000, p. 101).

Para entrar no circuito mundial idealizada principalmente pelo processo de globalização, impõe-se a ideia de modernização da cidade. No entanto, essa proposta e incompleta e excludente, porque são reproduzidos modelos alienados a realidade dos indivíduos. A modernização pensada pelas grandes empresas, é viável devido a informações precisas e atualizadas sobre as tendências e gostos dos consumidores. O controle do fluxo de informações e dos veículos de propagação do gosto e da cultura popular é uma arma vital na batalha competitiva. Utilizando serviços de consultoria, as empresas conhecem rapidamente os novos desejos dos consumidores, na qual a cultura é utilizada como uma forma de manipulação dos interesses, impondo gostos, interesses, anseios (MARICATO, 2000; HARVEY, 2011).

“A manipulação das informações na construção da ficção é atribuída à genialidade de alguns técnicos de marketing, que conhecem os valores e os anseios populares. Ela leva em

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conta aspectos que estão plantados no imaginário da população, (que ela mesma plantou, diga-se de passagem) ligados a seus paradigmas históricos, à sua identidade ou ainda à sua vontade de mudança de paradigmas existentes” (MARICATO, 2000, p. 166, grifo nosso).

Isto é o maior negócio das cidades em vias de “enobrecimento urbano”, sendo, portanto, um dos maiores poderes de controle urbano na atual fase se reestruturação da dominação. Dessa maneira, o planejamento de cidade-mercadoria realizada para atender aos interesses empresariais globalizados depende do banimento da política, da eliminação do conflito e do exercício da cidadania, ou seja, vender a cidade é um função básica dos governos locais (VAINER; MARICATO, 2000). Nesse viés, Lefebvre (2001) acredita que o planejamento é o pior inimigo do urbano ao destruir a vida cotidiana. E o cotidiano está impregnado de memórias, histórias, lembranças e a identidade dos indivíduos. A ideia de ver a cidade como empresa significa concebê-la e instaurá-la como agente econômico, ou seja, ágil, competitiva, flexível, que atua no contexto de um mercado e que encontra nesse mesmo mercado as regras e o modelo de planejamento e execução de suas ações (VAINER,

2000). O empresariamento da gestão urbana “[

mundo capitalista avançado de que benefícios positivo têm de ser obtidos por cidades que assumam um comportamento empresarial em relação ao desenvolvimento econômico” (HARVEY, 1996, p. 49) .

Na cidade para o mercado mundial, é negado suas necessidades reais, ou seja, suas singularidades políticas, culturais, urbanísticas vem sendo vendidas de modo semelhante, no qual o planejamento urbano, o mercado, as leis, a modernidade, a cidadania são para alguns poucos indivíduos. (SANCHÉZ, 2003; MARICATO, 2000). Essas adversidades são ignoradas pelo meio acadêmico, poder público e planejadores urbanos, ou seja, a invisibilidade da/na cidade está instaurada:

]

parece ter surgido um consenso geral em todo o

“É evidente que a publicidade insistente e a mídia, de um modo geral, têm um papel especial na dissimulação da realidade do ambiente construído e na construção da sua representação, destacando os espaços de distinção. É evidente também que a representação ideológica é um instrumento de poder – dar aparência de 'natural' e 'geral' a um ponto de vista parcial, que nas cidades está associado aos expedientes de valorização imobiliária. A representação da cidade encobre a realidade científica” (MARICATO, 2000, p. 165).

Em suma, o que se percebe é que o espaço urbano não é apenas um mero cenário das relações sociais, mas também uma instância para a dominação econômica ou ideológica, no qual o espaço do valor de troca impõe-se sobre o espaço do valor de uso:

“O valor de troca, impresso no espaço-mercadoria, se impõe ao uso do espaço, e assim os modos de apropriação passam a ser determinados cada vez mais pelo mercado. Dessa forma, o acesso ao espaço se realiza pela mediação do mercado, o que impõe profundas mudanças nos modos de uso e consumo, com o aprofundamento da separação entre espaço público e espaço privado” (SANCHÉZ, 2003, p. 45)

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Sanchéz (2001) afirma que a globalização afeta a (re)produção do espaço urbano, atingindo portanto as políticas públicas de reestruturação deste espaço. Atua como legitimação dos processos hegemônicos globais e imposição de um pensamento único. O que acontece é a formação de um mercado mundial de cidades, com a ideia de cidades- modelo, criada pelos governos locais, atores hegemônicos agências multilaterais e redes mundiais de cidades. Essas cidades possuem alcance global, já que há a construção de imagens, baseada na racionalidade dos processo de reprodução da economia global, para se tornarem dominantes, consumíveis, legitimadas, através de formas modernas de dominação e técnicas de manipulação cultural divulga da cidade. Assim, o espaço ganha a forma adequada e desejada pelos atores hegemônicos, o que revela a importância do city marketing nas políticas urbanas:

“Publicitários, consultores em marketing, produtores culturais, conselheiros em comunicação e pesquisadores de mercado são os agentes exemplares que emergem como figuras centrais associadas à gestão empresarial das cidades. Têm como missão dar forma mercadológica aos projetos políticos das coalizões com interesses localizados” (SANCHÉZ, 2001, p. 40).

Assim, segundo Sanchéz (2001), o espaço ganha uma importância ainda maior para o capital, já que o espaço da cidade se realiza enquanto mercadoria: as cidades começam a serem vendidas, independente de suas particularidades e singularidades. Para que se realize como mercadoria, pronta para o consumo, são necessárias estratégias que promovam o consumo da cidade, ou seja, a partir de representações manipuladas, que obedeçam uma determinada visão. Essas estratégias não seriam possíveis se não houvesse a utilização da mídia como meio de comunicação/informação na difusão e afirmação desse consumo exacerbado. A inserção das cidades no mercado mundial, movimenta mercados com interesses localizados, onde as empresas buscam os melhores locais para se estabelecerem, levando em consideração benefícios fiscais, mercado consumidor, mão-de-obra barata; mercado imobiliário; mercado de consumo; mercado do turismo (consumo de espaços modernizados); mercado das chamadas “boas práticas”; mercado de consultoria em planejamento e políticas públicas (estratégias territoriais; poder público aliado com o privado) (Sanchéz, 2001). A mídia tem um relevante papel frente a propagação da cidade a ser consumida, principalmente relacionado a renovação urbana, aliada com os governos e coalizões dominantes:

“A publicidade em televisão, rádio, imprensa e demais meios de comunicação e informação que, nos casos analisados, têm sido intensamente utilizados como veículos construtores de determinadas leituras da cidade, intervêm decisivamente na criação de valores culturais e de representações sociais que, por sua vez, promovem determinados comportamentos e formas de utilização dos espaços públicos” (SÁNCHEZ, 1997, p. 66-68).

Com grande força de pressão na elaboração de imagens coletivas que possam ser absorvidas por qualquer indivíduos, a mídia é importante tanto no cenário cultural quanto político, pois atua através de imagens publicitárias, campanhas, discursos televisivos. Por conseguinte, possui grande

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poder para construir ou destruir a identidade tanto de atores individuais quanto coletivos, moldando as representações, produzindo signos de satisfação no consumo, criando/manipulando comportamentos e estilos de vida, promovendo a valorização do lugar e criando a sociedade do espetáculo.

2. Copa do Mundo e Olimpíadas pra que(m)?

As informações vinculadas pela mídia, política, Estado e empreiteiras é que a realização desses eventos seria uma forma de ampliar os investimentos em infraestrutura urbana, ao mesmo tempo em que solucionará problemas antigos, principalmente relacionados a mobilidade urbana, com a ampliação dos metrôs, estradas, tráfego de ônibus, além da recuperação de espaços históricos degradados, principalmente localizados na zona central do Rio de Janeiro. Está instaurada a cidade- mercadoria. A ideia repassada, principalmente através de comerciais televisivos (realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, por exemplo) é que essas intervenções são para benefício de todos, principalmente da sociedade civil. Porém, o que se tem percebido é que os impactos dessas intervenções são de grandes proporções, com consequências a longo prazo, que “envolvem diversos processos de exclusão social, com destaque para as remoções” (COMITÊ POPULAR RIO DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012). Segundo o Dossiê realizado por este Comitê, que inclui a participação de entidades e movimentos sociais que compõem o Comitê Popular local, além das remoções:

“Estão em curso transformações mais profundas na dinâmica urbana do Rio de Janeiro, envolvendo, de um lado, novos processos de elitização e mercantilização da cidade, e de outro, novos padrões de relação entre o Estado e os agentes econômicos e sociais, marcados pela negação das esferas públicas democráticas de tomada de decisões e por intervenções autoritárias, na perspectiva daquilo que tem sido chamado de cidade de exceção” (COMITÊ POPULAR RIO DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012, p. 5).

No Rio de Janeiro, algumas desapropriações estão acontecendo em áreas nobres e de alta valorização imobiliária, como Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, ambas na zona oeste. O que tem acontecido, é que algumas famílias são desapropriadas de uma região que possui uma considerável infraestrutura e realocadas em zonas periféricas, que não possuem essas mesmas infraestruturas e serviços públicos, como asfalto, energia elétrica, escola, transporte, saneamento, postos de saúde. Assim, o emprego próximo a residência, a escola dos filhos, a proximidade com a família, fica comprometido. Além disso, com a supervalorização dos locais próximos a realização dos eventos, muitas vezes esses desapropriados ficam impossibilitados de permanecerem nas regiões onde antes moravam, destruindo laços (sejam materiais ou imateriais) construídos há muito tempo.

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Na página da Procuradoria Geral do Município do Rio de Janeiro há alguns esclarecimentos sobre as desapropriações. As informações dizem que as desapropriações acontecem quando o Poder Público precisa de um imóvel para realizar uma obra de interesse público, desde que pague previamente ao proprietário uma indenização justa pela perda da propriedade. Essa desapropriação, chamada de “amigável”, acontece após a avaliação do imóvel, realizada por engenheiros e arquitetos especializados, no qual o proprietário é chamado para dizer se concorda com o valor da indenização e caso haja o acordo, ocorre a assinatura do “Termo de Desapropriação Amigável” e o recebimento da indenização. Contudo, se o proprietário não concordar com desapropriação, não há como impedí-la, já que está é obrigatória. Caso não haja acordo, a desapropriação será feita judicialmente. Várias são as comunidades que foram totalmente ou parcialmente removidas e ainda algumas que passarão por esse processo de exclusão. As desapropriações acontecem por diversos motivos, tais como a construção do corredor dos BRTs (Bus Rapid Transit), instalação ou reforma dos estádios, áreas com risco ambiental ou voltadas para o turismo, como o Morro da Providência, inserida no projeto Porto Maravilha. Localizado na zona portuária, que por muito tempo está abandonada pelo poder público e que possui um valor histórico, o Morro da Providência é o mais antigo morro do Rio de Janeiro, com mais de 110 anos de história. Pela localização estratégica (fig.1), segundo o jornal online “Pública” (2012) vai sediar o projeto Porto Maravilha, “projeto ambicioso da prefeitura em parceria com empreiteiras privadas que prevê, dentre outras coisas, um teleférico, um plano inclinado, e outras 'melhorias' para gringo ver, quando os megaeventos chegarem”.

um teleférico , um plano inclinado, e outras 'melhorias' para gringo ver, quando os megaeventos chegarem”.

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Fig. 1 – Vista da zona portuária do Rio de Janeiro, no Morro da Providência. Fotógrafo: Cesar Barreto (site cidadeolimpica.com)

A intenção do projeto é tornar o lugar atrativo para o turismo, já que o Morro possui uma

privilegiada vista da “Cidade Maravilhosa”. Contudo, o problema central dessas obras no Morro, é o fato da população não fazer parte das tomadas de decisões, que as afetam diretamente, ou seja, não se leva em consideração os interesses e necessidades das famílias residentes no local,

desconsiderando então suas particularidades locais:

“[

do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção. Nesta imposição da norma a cada caso particular, violam-se abertamente os princípios da impessoalidade, universalidade e publicidade da lei e dos atos da administração pública. De fato, as intervenções em curso envolvem diversos processos nos quais os interesses privados têm sido beneficiados por isenções e favores, feitos em detrimento do interesse público, legitimados em nome das parcerias público- privadas. (Comitê Popular Rio da Copa e das Olimpíadas, 2012, p.5)

Decretos, medidas provisórias, leis votadas ao largo do ordenamento jurídico e longe

]

Segundo o jornal “Pública”, no Morro da Providência, a construção do teleférico para os turistas da Copa expulsa os moradores, sendo que as casas demolidas são trocadas por um aluguel social de 400 reais, e muitas famílias não encontram onde morar, tanto pelos altos preços dos alugueis na Cidade ou pela dificuldade dos moradores no que diz respeito a condição social (burocracias, renda).

O mesmo jornal mostrou um documentário feito pelo jornalista Rudi Boon, em 2009,

quando os sul-africanos viviam a mesma euforia do pré-Copa, realizada no país em 2010. O documentário denuncia a grande ilusão do evento, onde a África do Sul, bem com outros países que receberam ou irão receber tal evento, atuam muito mais como cenários do que atores, porque necessitam acatar decisões vindas de órgãos superiores, como a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) e as comunidades locais perdem alguns direitos básicos. Exemplo disso foi a vigilância no uso da linguagem, já que os africanos não podiam usar o termo Copa do Mundo, Copa da África do Sul ou Copa 2010, nem pintar esses dizeres em camisetas e souvenirs.

O “Pública”, a partir da denúncia do documetário, afirma que as tradições culturais viram

mercadoria, a população perde seus espaços coletivos e os produtos comercializados em qualquer local próximo aos estádios eram regulamentados pela FIFA. O acordo do Brasil com a FIFA para o evento em 2014 seguirá essas regras aplicadas na Copa na África do Sul em 2010.

2.1 A especulação imobiliária como elemento chave na segregação socioespacial carioca

No Rio de Janeiro, a especulação imobiliária tem atingido níveis surpreendentes, sendo os megaeventos contribuintes para a supervalorização dos imóveis e terrenos, afetando principalmente

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os desapropriados, que como comentado anteriormente, ficam com dificuldades na hora de encontrar outra moradia. Segundo Ferrari (2009):

“A especulação imobiliária é um processo que pode atingir diversas regiões de uma mesma cidade. Repentinamente acontece a valorização de um bairro ou região, em que os preços do aluguel e venda dos imóveis localizados nesse espaço sofrem altas temporárias (FERRARI, 2009, p. 24).

De acordo com Rodrigues (1988), a simples ocupação de algumas pessoas, já faz aumentar o preço dos demais lotes, valorizando o loteamento. Neste caso, investidores compram terrenos em áreas de possível valorização, sendo comum deixarem esses lotes vazios, aguardando uma possível valorização daquele local, com a instalação, por exemplo, comércio, infraestrutura pública (energia elétrica, saneamento, pavimentação, segurança). Assim, o potencial imobiliário aumenta e começam as negociações, contudo existem várias irregularidades nesse processo. Uma delas é que o beneficiamento dessas áreas acontece utilizando-se dinheiro público, onde os envolvidos (funcionários, empreiteiras, Estado, investidores) direcionam os investimentos para as suas áreas de interesse. Com a valorização dessa área, eleva-se o custo de vida, o que resulta na expulsão dos antigos moradores de menor renda. Essa tem sido uma das grandes preocupações dos desapropriados no Morro da Providência, que além de serem despejados, muitas vezes não conseguem permanecer no mesma região de moradia, devido a supervalorização. Esse processo é acelerado através da chegada de empreendimentos de “alto-padrão”, tornando mais intensa à descaracterização da área, tal como o teleférico “para gringo ver”, que irá descaracterizar o patrimônio histórico e cultural dos moradores (no caso a quadra de esportes, fig.2).

ver”, que irá descaracterizar o patrimônio histórico e cultural dos moradores (no caso a quadra de

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Fig. 2: Crianças moradoras do Morro da Providência fazem apelo para não destruírem a única área de lazer da comunidade, uma quadra de esportes. O apelo não foi atendido e logo após a manifestação, a quadra foi destruída para dar lugar ao teleférico para “gringo ver”. Fotógrafo: Leo Lima (site apublica.org, 2012)

Esses empreendimentos recebem variadas instalações comerciais, responsáveis por atender

as necessidades do público alvo, ou seja, a classe média. O capital (juntamente com o Estado) agem como transformadores do espaço:

“A realização de empreendimentos imobiliários com observância dos critérios exigidos garante um detrimento padrão de qualidade ao produto, mas eleva o investimento realizado, encarecendo o produto final. No limite, chega-se ao paradoxo segundo o qual a observância da regulação urbanística e ambiental, no caso da atividade imobiliária, agrega valor ao produto, encarecendo-o e, consequentemente, elitizando-o e tornando inacessível para os segmentos mais pobres da população” (COSTA; PEIXOTO, 2007,p. 325).

Usufruir de serviços, equipamentos e infraestruturas pública é uma emergência para as classes populares, pois estes possuem baixos salários compram lotes/casas em locais distantes, com menores preços, consequentemente longe da área central e pobres em infraestrutura básica. Quando estes ocupam esses espaços, que estão sendo valorizados, acabam sendo empurrados, pois não consegue acompanhar o crescimento do valor dos impostos e taxas, conforme analisa Rodrigues

(1988).

As desapropriações para os megaeventos é uma preocupação devido a formação de novas favelas, já que a população é empurrada ainda mais para a periferia, sem nenhum investimento por parte do poder público em infraestrutura. Então, a questão vai além do local de moradia e parte para outras esferas de debate como educação, saúde, emprego, segurança e lazer. Além da questão econômica, é pertinente a preocupação no âmbito mais subjetivo, relacionado ao sentimento dos moradores pelo local de moradia. Altera-se a paisagem, vizinhança,

as relações sociais (amizade, compadrio) provocando um sentimento de não pertencimento daquele lugar pelos seus antigos moradores. A perda de identidade territorial é uma das principais

consequências propiciadas pela urbanização desorganizada, o que não é avaliado pelos investidores da construção civil e do Estado. Numa palestra realizada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 25 de abril de 2012, intitulada “Transformações na zona portuária do Rio de Janeiro e o projeto porto maravilha:

olhares, experiências e expectativas”, o professor da Instituição, Gilmar Mascarenhas, que vê o Porto Maravilha como um projeto de gestão urbana neoliberal, fez um comentário pertinente sobre

a perda de identidade territorial. Segundo ele, essa é uma das experiências mais brutais de

desconsideração cultural, já que o governo, ao acolher um projeto da iniciativa privada, percebe

esses espaços que possivelmente serão transformados, como verdadeiros vazios, que devem ser ocupados, desconsiderando portanto as minorias. A especulação imobiliária é processo que pode atingir diversas regiões de uma mesma cidade, pois repentinamente acontece a valorização de um bairro ou região, em que os preços do

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aluguel e venda dos imóveis localizados nesse espaço sofrem altas temporárias. Na cidade do Rio de Janeiro os megaeventos esportivos estão contribuindo para a essa supervalorização mantendo preço dos imóveis crescente em áreas já antes valorizadas como o Recreio dos Bandeirantes e a Barra da Tijuca, que entre outras obras, terá um metrô que ligará a Barra a Zona Sul, além da construção do Corredor expresso (Transcarioca) que vai ligar o bairro ao Aeroporto Internacional Tom Jobim. Por trás do processo da especulação imobiliária existem diversos fatores que levam a esse encarecimento no preço da moradia em certas regiões, e os maiores prejudicados são os moradores, tanto os futuros locatários quanto a vizinhança local, pois toda a estrutura urbana tende a ser afetada por essa mudança. As decisões sobre as desapropriações são de responsabilidades dos órgãos públicos como governos estudais e prefeituras. Embora o espaço urbano possua diversos agentes de regulação e produção, é notável que o Estado, sendo um desses agentes mais importantes, realiza uma (re)estruturação mercantil do ordenamento territorial urbano de acordo com os interesses das grandes corporações e no caso abordado, das empreiteiras. Percebe-se assim, o processo de empresariamento do espaço urbano e na nossa visão, uma crise do Estado regulador, já que visa atender as demandas do capital hegemônico, sem identificar e levar em consideração as particularidades locais. Sobre isso, Haesbaert (2006, p. 59-60) afirma que “A crise do papel regulador de Estado, hoje, levaria a uma crescente desterritorialização”.

A efemeridade (im)posta pela sociedade de consumo, age não somente na subjetividade,

mas também no real, concreto, agindo no espaço urbano, moldando-o de acordo com o seus interesses e perspectivas, até o momento em que isso gerar lucro. Quando isso não mais acontecer, ele novamente é moldado, restruturado, num ciclo sem fim. Na atual condição pós-moderna,

segundo Barbosa (2006):

“O território não é mais garantia da duração da paisagem e o mapa é um rascunho sempre

provisório e incerto das relações sociais, tornando a cidade o espaço da hiper-realidade da

mercadoria. [

liminares atendem à nova dinâmica da acumulação capitalista” (BARBOSA, 2006, p. 135-

As intervenções territoriais urbanas que enfatizam a criação dos espaços

]

137).

O que acontece no contexto urbano, e principalmente em grandes metrópoles, como o Rio

de Janeiro, segundo Barbosa (2006), é que a racionalidade econômica define os novos direcionamentos do ordenamento urbano, tanto no sentido estético (em nome do design pós- moderno, “design urbano”) quanto no sentido territorial, de desapropriação e exclusão dos indivíduos em periferias.

A ONU fez críticas ao Brasil com relação as desapropriações, alegando que não está

havendo transparência, diálogo e participação das comunidades nas negociações. A preocupação

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também é com relação ao valor pago nas indenizações, que é muito baixo frente ao momento de alta da especulação imobiliária no país, pois os valores dos imóveis são elevados nas localidades onde as obras estão acontecendo para esses eventos. Logo, dificilmente os envolvidos conseguiriam adquirir um imóvel nas proximidades da antiga localidade de suas moradias, afetando não somente a questão da moradia, mas do trabalho, educação, lazer. As informações vinculadas na mídia é que caso haja entraves nas desapropriações, pode ocorrer o atraso das entregas das obras e consequentemente prejudicar esses eventos esportivos. Há

relatos em que se não houver negociações, pode-se entrar com um ação judicial contra o proprietário. A preocupação dos indivíduos afetados com as desapropriações, é pelo fato de acreditaram que o valor pago não é o suficiente, prejudicando assim o direito individual e a garantia de uma moradia de qualidade. O correto seria que Estado assegurasse a remoção para local próximo da moradia desapropriada ou então a compensação financeira compatível.

É pertinente frisar que muitas das ações propostas pelo Estado, já deveriam ter acontecido

há muito tempo e só foram colocadas em práticas motivadas por esses eventos esportivos, principalmente porque há interesses desses atores hegemônicos detentores do capital e decisivos no

ordenamento territorial urbano.

O deputado e ex-jogador Romário (PSB-RJ), também fez algumas críticas sobre o assunto,

demonstrando preocupação com os atrasos, afirmando ainda a “necessidade de que esse processo (de desapropriação) seja conduzido com absoluta transparência, com espírito cívico, e também para

que não deixemos em momento algum de ter em mente o legado desses eventos esportivos, isto é, o que vai ficar para a nossa população depois que o circo for embora” (site anf.org.br, 2011).

O Morro da Providência, que será consideravelmente afetado por essas obras, possui um

relevante patrimônio histórico cultural, justamente por ser o mais antigo do Rio de Janeiro. Segundo

Barbosa (2006):

“Não é uma raridade o patrimônio histórico e cultural ser transformado em um álibi para a expulsão de populações locais e, assim, estabelecer novos usos às formas tradicionais […]. A estetização da forma urbana sinaliza o reforço do tratamento estratégico do espaço como reprodução de hegemonias sociais” (BARBOSA, 2006, p. 130-131).

Essas expulsões/desapropriações são uma preocupação no sentido de gerar novas favelas e novos grupos excluídos e segregados socio-espacialmente. Além da questão territorial, ainda há a dimensão cultural e a visão que o Rio de Janeiro quer passar para o mundo todo: um lugar livre da violência, organizado, palco de espetáculo, com a recuperação de espaço degradados, através de grandes investimentos em infraestrutura para a revitalização da cidade. Porém, mais do que isso:

Ao invés de se preocupar demasiadamente com o que o mundo acha da cidade, é melhor saber o que os cariocas pensam sobre ela. Enquanto a opinião de um investidor estrangeiro sobre o Rio tiver um peso maior do que a de um morador de Brás de Pina, Ramos, Acari, Fazenda Botafogo, Lins, Pilares, Olaria, Penha, Benfica, Irajá, Parada de Lucas, etc. devemos desconfiar de que essa tal de revitalização não passa de uma forma torpe de

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massacrar o que temos de mais precioso: a nossa cultura, bandeira maior de resistência e forma poderosa de transformação da vida” (COMITÊ POPULAR RIO DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012, p. 66).

A emergência nessa questão, é sobre o ponto subjetivo dessas desapropriações, que não se tem levado em consideração, não só nesse caso, mas em várias processos de exclusão/desapropriação. As memórias, lembranças, histórias, relações sociais, o sentimento de pertencimento não é relevante nas transformações espaciais urbanas, já que isso não gera lucro, portanto não interessa as hegemonias sociais. Para tanto, mostra-se relevante realizar uma discussão sobre a identidade territorial, que hoje tem sido de grande interesse da ciência geográfica, que busca pensar na questão material, física do território, ao mesmo tempo em que considera a subjetividade da questão da identidade.

3. Identidade territorial e desterritorialização

A partir dos questionamentos anteriormente abordados, o que se percebe é a total falta de transparência e reconhecimento das singularidades, interesses e necessidades dessas indivíduos envolvidos nesse contexto de exclusão. Ignora-se a história, a memória, as relações sociais e as dinâmicas do território vivido, que é impregnado de um sentimento de pertencimento. O reconhecimento das singularidades é relevante em um mundo marcado pela efemeridade, pela instantaneidade dos acontecimentos, pela rapidez dos fluxos, identificado por Baumann (2005) de “líquido mundo moderno”, Harvey (2011) de “condição pós-moderna” ou por Santos (2006) “meio técnico-científico-informacional”. Nesse contexto efêmero, a exacerbação do individualismo e a efemeridades das relações sociais incitam a evaporação do sentido de continuidade e memória histórica (HARVEY, 2011). Por isso, em ações como estas, que envolvem atores hegemônicos como empreiteiras, Estado, capital e os hegemonizados, vence quem detém o poder, negando-se a decisão de escolha dos maiores envolvidos nesse processos, como no caso dos moradores desses locais de exclusão, em detrimento de interesses hegemônicos. É o que Santos (2001) chama de “assassinato da solidariedade”. Em contrapartida, ao mesmo tempo em que há essas fragmentações, mobilidades forçadas, envolvem-se também os “defensores amorosos de seus antigos territórios”, voltando à tona a discussão sobre identidade, não só para a defesa do direito à diferença ou de contraposição a sociedade excludente engendrada pela globalização, mas como uma forma de resistência a “sociedade globalmente mercantilizada e onde tudo é passível de transformar-se em valor contábil, ou seja, onde a primazia das relações e dos valores está vinculada à acumulação capitalista” (HAESBAERT, 1999, p. 170). A defesa do território vivido, vem da premissa de existência de uma identidade (territorial/social), que refere-se a coisas, pessoas, objetos e implica uma relação de semelhança e

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igualdade. Contudo, para Haesbaert (1999) muitos teóricos só percebem o campo das representações das identidades, desconsiderando, muitas vezes, a questão concreta. Portanto, é pertinente pensar a base material, no caso, territorial, onde a identidade social é carregada de subjetividades e objetividades. É nessa discussão que o geógrafo afirma que toda identidade territorial é uma identidade social, já que pode-se afirmar, de forma genérica, que todo território existe algum tipo de identificação ou valoração simbólica:

“Determinadas identidades ou, caso se preferir, facetas de uma identidade, manifestam-se em função das condições espaço-temporais em que o grupo está inserido. […] a identidade social é também uma identidade territorial quando o referente simbólico central para a construção desta identidade parte do ou transpassa o território” (HAESBAERT, 1999, p.

175).

Assim, a relação com o território se dá tanto na esfera material concreta, quanto no campo das ideias, sendo parte importante nos processos de identificação social. Essa identidade que para sua estruturação está a referência a um território, tanto no sentido simbólico quanto concreto pode ser denominada de identidade socioterritorial. Contudo, Haesbaert (1999) não acredita que todas as identidades sejam identidades territoriais, por mais que estejam “localizadas no tempo e no espaço simbólicos” como afirma Hall (1997). Isso porque só são identidades territoriais quando sua estruturação depende, sobretudo, dessa apropriação simbólica no/com o território. Essa apropriação, no mundo capitalista, tem sido cada vez mais fragmentada e complexa, quando não excludente, como o caso dos megaeventos esportivos. Segundo Haesbaert (1999, p.

183):

“A identidade dominante no chamado mundo moderno ou, de forma mais restrita, do capitalismo fordista, é a do Estado-nação onde a identidade territorial é mutuamente excludente e o mundo se organiza num grande mosaico onde tudo acaba tendo que se encaixar e onde, pelo menos teoricamente, não haveria superposições”

É dentro dessa discussão, de exclusões/desapropriações de indivíduos em áreas de interesse do Estado e do capital hegemônico, que envolve a questão da identidade, e que tem chamado atenção dos geógrafos, é o processo de desterritorialização. Segundo Haesbaert (2006) o processo de desterritorialização antes de significar desmaterialização, dissolução das distâncias, deslocalização de firmas ou debilitação dos controles fronteiriços, é um processo de exclusão socioespacial. O autor afirma que o exemplo mais estrito de desterritorialização são os aglomerados humanos de exclusão, com precarização socioespacial da dinâmica capitalista:

“[

dinâmicas política e cultural, os processos de des-territorialização estão sempre atrelados,

em maior ou menos intensidade, à dinâmica econômica que dilacera os espaços, subordina

embora privilegiemos uma noção de território que vincula indissociavelmente as

]

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poderes políticos e condiciona (quando não direciona) a reformulação de muitas estratégias identitárias” (HAESBAERT, 1999, p. 128).

Santos (1978) afirma que o território é visto como recursos (para as atores hegemônicos) e como abrigo (para os atores hegemonizados) onde ocorre a abstração da identificação numa perspectiva capitalista e a acumulação de lucro. Ao mesmo tempo em que o território é usado pelo atores hegemônicos para atender os seus interesses particulares, os atores hegemonizados buscam constantemente adaptar-se ao meio geográfico local, onde criam também estratégias de sobrevivência nos lugares. Contudo, o que esses atores hegemônicos, como por exemplo o Estado e as empreiteiras não percebem, são as particularidades locais, já que o território, antes de qualquer coisa, segundo Haesbaert (2004) é um valor, que reforça sua dimensão enquanto representação, valor simbólico. Bonnemaison e Cambrèzy (1996, p. 13-14) apud Haesbaert (1999, p. 186) afirmam que “o território é a riqueza dos pobres. […] perder seu território é desaparecer” O território é investido não só com valores materiais, mas também subjetivos, simbólicos, afetivos, éticos, sendo assim que o território cultural precede o território político e o espaço econômico. Assim, é “Diante das massas de despossuídos do planeta, em índices de desigualdade social e de exclusão cada vez mais violentos, o 'apegar-se à terra', a 'reterritorialização” é um processo que vem ganhando força” (HAESBAERT, 1999. p. 185) A discussão sobre as desapropriações que interessam ao Estado e as empreiteiras, para a realização dos megaeventos esportivos no Brasil, é uma emergência, principalmente com relação as questões culturais, de identidade e patrimônio cultural. Dessa maneira, o território se define também por um princípio cultural de identificação, de pertencimento, intensidade, que possui uma essência afetiva ou até mesmo amorosa ao espaço. Essa carga simbólica é tamanha que o território, na visão de Bonnemaison e Cambrèzy (1996, p. 14) é “um construtor de identidade, talvez o mais eficaz de todos”.

Motivados por essa questão de território e identidade, que a discussão sobre identidade territorial e o processo de desterritorialização é muito relevante no contexto da condição pós- moderna. Na intensidade da vida urbana, os laços, o vínculo com a terra, as relações sociais, cada vez mais se enfraquecem, desestruturam, fragmentam-se, dificultando o sentido de continuidade. Os impactos desses eventos portanto, não são somente de natureza física, concreta, com as transformações da paisagem urbana, mas também de caráter subjetivo, pouco percebido pelos atores hegemônicos.

Considerações finais

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A ideia de teoricamente beneficiar a população pobre, de revitalizar o Rio de Janeiro e

continuar vendendo a ideia de “Cidade Maravilhosa” para que os turistas e as classes hegemônicas

possam usufruir, não se tem levado em consideração aquilo de mais subjetivo do ser humano: o

sentimento de pertencimento, a identidade, a memória, as lembranças, as histórias, as tradições, que

nenhum dinheiro pode comprar ou vender.

A cidade-mercadoria é idealizada para ser consumida, na qual o cidadão é na verdade o

consumidor, o único que tem direito de voz. Cria-se uma cidade com pensamento único para se

inserir no mercado mundial, com imposição de um modelo que não condiz com a realidade, a partir

de um consenso imposto a sociedade, fazendo jus ao velho ditado “manda quem pode, obedece

quem tem juízo”. Desconsidera-se as questões mais íntimas, relacionada a história dos moradores

locais.

A imprensa, políticos e empreendedores têm ressaltado e vendido esse modelo único de

cidade, propagando a ideia de que os megaeventos são as oportunidades para ampliação dos

investimentos na cidade, principalmente com relação a mobilidade urbana e a recuperação de

espaços degradados como a zona portuária do Rio de Janeiro.

Porém as obras até então realizadas vem mostrando um sentido oposto ao da integração

social e da promoção da dignidade humana, porque as intervenções urbanas vêm sendo

desenvolvidas em um processo de exclusão social, com as desapropriações/expulsões. Os

moradores não são envolvidos em todo o processo de desapropriação, negando-os o direito à cidade.

No Rio de Janeiro, os processos de elitização e mercantilização da cidade são notáveis,

sendo que as empresas imobiliárias vem intervindo nas politicas do governo, já que grande parte das

famílias, que vem sendo desalojadas, vivem em bairros como a Barra da Tijuca, Recreio,

Jacarepaguá e Vargem Grande, que são bairros de extrema valorização imobiliária, ou seja, com a

expulsão, os bairros ficam ainda mais valorizados, tendo a terra um valor cada vez mais acentuado.

Em suma, é de grande valia estudos que deem visibilidade a esses indivíduos, afetados

pela dinâmica da acumulação flexível do capital e segregação socioespacial, buscando muito além

da preservação de seu território, mas de suas raízes culturais, históricas e geográficas.

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