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COPA DO MUNDO E OLIMPÍADAS PARA QUE(M)? ESTRATÉGIAS HEGEMÔNICAS DO ORDENAMENTO TERRITORIAL URBANO NO RIO DE JANEIRO

Podem me prender, podem me bater Podem até deixar-me sem comer Que eu não mudo de opinião. Daqui do morro eu não saio não, daqui do morro eu não saio não”.

Nara Leão - Opinião

Marcia Alves Soares da Silva – Mestranda em Geografia na Universidade Federal Fluminense (UFF - RJ) – mah.geo@live.com José Victor Juliboni Cosandey - Mestrando em Geografia na Universidade Federal Fluminense (UFF - RJ) – zevictor18@yahoo.com.br

Resumo: a realização dos megaeventos esportivos no Brasil, como a Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016 é vista como uma grande oportunidade de investimentos para o Brasil. Porém, pouco tem se falado aos brasileiros as consequências negativas da realização de tais eventos. O que se fala é que os trabalhadores terão mais empregos, os comerciantes mais lucros e as cidades- sede investimentos em infraestrutura. Para tanto, a proposta deste trabalho é discutir algumas questões referentes ao ordenamento territorial urbano brasileiro, tendo com pano de fundo o planejamento estratégico para tais eventos, em especial no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, levando em consideração a questão da identidade territorial e o processo de desterritorialização. Atendendo aos interesses do capital hegemônico, das grandes corporações e empreiteiras, as desapropriações são o reflexo negativo dessas intervenções na revitalização, construção, reestruturação e expansão urbana, que além da perda material, tem desconsiderado ainda as particularidades locais, bem como o sentimento de pertencimento, a memória e a história dos indivíduos envolvidos nesse contexto.

Palavras-chave: megaeventos; desapropriações; desterritorialização.

Resumen: la realización de los megaeventos deportivos en Brasil, como la Copa del Mundo el 2014 y las Olimpiadas el 2016, son vistos como grandes oportunidades de inversión para Brasil. Sin embargo, poco se ha hablado entre los brasileros respectos a las consecuencias negativas de la realización de tales eventos. Lo que actualmente se habla es que los trabajadores tendran mas empleo, los comerciantes mayores retribuciones económicas y las ciudades sede grandes inversiones en infraestructura. En este contexto, la propuesta de este trabajo es reflexionar teoricamente sobre algunas cuestiones referentes al ordenamiento territorial urbano brasilero, teniendo en segundo plano el planeamiento estrategico para tales eventos, de forma especial los realizados en el cerro de la Providencia, en Rio de Janeiro, teniendo en cuenta la cuestión de la identidad territorial y el proceso dedesterritorialización. Atendiendo a los intereses del capital hegemonico, de las grandes corporaciones y empresas, las erradicaciones son el reflejo negativo de esas intervenciones de revitalización, construcción, reestructuración y expansión urbana, que ademas de la perdida material, tiene desconsideración con la particularidades locales, con el sentido de pertenencia, la memoria y la historia de los sujetos envueltos en ese contexto.

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Palabras-claves: megaeventos; erradicaciones; desterritorialización.

Introdução

O êxtase em sediar os maiores eventos esportivos mundiais como a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016), pouco tem importado aos brasileiros os impactos de tais eventos. Para as realizações dos megaeventos, há inúmeras questões relacionadas ao planejamento que merecem destaque, como aumento da rede hoteleira, preocupação com a segurança, ampliação e reformas dos estádios, capacitação dos que irão trabalhar direta ou indiretamente nos eventos e investimentos em infraestrutura portuária, aeroviária e terrestre. Outro ponto relevante e que tem sido visto como necessário para as reformas urbanas nas cidades-sede desses eventos, são as desapropriações. No Rio de Janeiro, um projeto ambicioso, que afetará várias comunidades, é o Porto Maravilha, onde o presente trabalho se aterá ao Morro da Providência, que será afetado por esse projeto e terá um grande impacto devido as desapropriações. A perspectiva da pesquisa é mostrar o verdadeiro impacto e legado desses eventos, compreendendo ainda a influência do Estado, no que diz respeito a questão do direcionamento dos interesses (estratégicas hegemônicas de ordenamento do território urbano), violando os direitos humanos, direito à moradia e a cidade aos moradores, onde os interesses privados são favorecidos em detrimento dos interesse público. Para tanto, discute-se a questão da identidade territorial e o processo de desterritorialização, do ponto de vista simbólico-cultural, propostas por Haesbaert (2006). Dessa maneira, tem como metodologia, a análise bibliográfica a partir das discussões dentro da Geografia sobre território, identidade territorial e desterritorialização, além de outros trabalhos referentes a questão, como o documentário realizado pela ong “Entre sem bater”, sobre o problema enfrentado pelos moradores do Morro da Providência. A pesquisa, embora em fase inicial, buscou compreender principalmente a dimensão subjetiva da questão, relacionada com o sentimento de pertencimento, a memória, as lembranças, a identidade e a cultura dos moradores envolvidos nesse contexto. A partir de algumas leituras, percebe-se

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a reorganização da classe pobre conforme os interesses do capital imobiliário e dos atores hegemônicos, com o auxílio do Estado, realizando assim um projeto marcado por processos de exclusão e desigualdades sociais. Sobre isso, é relevante analisar o aspecto social da questão. Isso porque, para a execução destas obras de infraestrutura será necessário realizar um grande número de desapropriações em vários estados do Brasil. Embora os envolvidos estejam recebendo indenizações, a questão é preocupante no sentido de como as indenizações e as desapropriações estão acontecendo, já que há discussões sobre os valores pagos, que são ínfimos se levado em consideração o valor real das casas e terrenos. Além disso, há também a questão subjetiva, relacionada aos sentimento pelo lugar de moradia, a memória e história desses indivíduos, a identidade com o lugar, que pouco tem sido levado em consideração.

Copa do Mundo e Olimpíadas pra (para) que(m)?

As informações vinculadas pela mídia, política, Estado e empreiteiras é que a realização desses eventos seria uma forma de ampliar os investimentos em infraestrutura urbana, ao mesmo tempo em que solucionará problemas antigos, principalmente relacionados a mobilidade urbana, com a ampliação dos metrôs, estradas, tráfego de ônibus, além da recuperação de espaços históricos degradados, principalmente localizados na zona central do Rio de Janeiro.

A ideia repassada, principalmente através de comerciais televisivos (realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, por exemplo) é que essas intervenções são para benefício de todos, principalmente da sociedade civil. Porém, o que se tem percebido é que os impactos dessas intervenções são de grandes proporções, com consequências a longo prazo, que “envolvem diversos processos de exclusão social, com destaque para as remoções” (Comitê Popular Rio da Copa e das Olimpíadas, 2012). Segundo o Dossiê realizado por este Comitê, que inclui a participação de entidades e movimentos sociais que compõem o Comitê Popular local, além das remoções:

“Estão em curso transformações mais profundas na dinâmica urbana do Rio de Janeiro, envolvendo, de um lado, novos processos de elitização e mercantilização da cidade, e de outro, novos padrões de relação entre o Estado e os agentes econômicos e sociais, marcados pela negação das esferas públicas democráticas de tomada de

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decisões e por intervenções autoritárias, na perspectiva daquilo que tem sido chamado de cidade de exceção” (COMITÊ POPULAR RIO DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012, p. 5).

No Rio de Janeiro, algumas desapropriações estão acontecendo em zonas nobres e de alta valorização imobiliária como Barra da Tijuca e Recreio. E o que tem acontecido, é que algumas famílias são desapropriadas/despejadas de uma região que possui uma considerável infraestrutura e realocadas em zonas periféricas, que não possuem essas mesmas infraestruturas e serviços públicos, como asfalto, energia elétrica, escola e transporte. Assim, o emprego próximo a residência, a escola dos filhos, a proximidade com a família, em muitos casos fico comprometido. Além disso, com a supervalorização dos locais próximos a realização dos eventos, muitas vezes esses desapropriados ficam impossibilitados de permanecerem nas regiões onde antes moravam, destruindo laços (culturais, sociais, humanos, materiais) construídos há muito tempo. Várias são as comunidades que foram totalmente ou parcialmente removidas e ainda algumas que passarão por esse processo de exclusão. As desapropriações acontecem por diversos motivos, tais como a construção do corredor dos BRTs (Bus Rapid Transit), instalação ou reforma dos estádios, áreas com risco ambiental ou voltadas para o turismo, como o Morro da Providência, inserida no projeto Porto Maravilha. Localizada na zona portuária, que por muito tempo foi abandonada pelo poder público e que possui construções históricas, relacionadas ao patrimônio histórico cultural, o Morro da Providência é o mais antigo morro do Rio de Janeiro, com mais de 110 anos de história. Pela localização estratégica (fig.1), segundo o jornal online “Pública” (2012) vai sediar o projeto Porto Maravilha, “projeto ambicioso da prefeitura em parceria com empreiteiras privadas que prevê, dentre outras coisas, um teleférico, um plano inclinado, e outras 'melhorias' para gringo ver, quando os megaeventos chegarem”. A intenção do projeto é tornar o lugar atrativo para o turismo, já que o Morro possui uma privilegiada vista do Rio de Janeiro. Contudo, o problema central dessas obras no Morro, é o fato da população não fazer parte das tomadas de decisões, que as afetam diretamente, ou seja, não se leva em consideração os interesses e necessidades das famílias residentes no local, desconsiderando então suas particularidades.

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Software http://www.foxitsoftware.com For evaluation only. Fig. 1 – Vista da zona portuária do Rio de Janeiro,

Fig. 1 – Vista da zona portuária do Rio de Janeiro, no Morro da Providência. Fotógrafo: Cesar Barreto (site cidadeolimpica.com)

Segundo o jornal “Pública”, no Morro da Providência, a construção do teleférico para os turistas da Copa expulsa os moradores, sendo que as casas demolidas são trocadas por um aluguel social de 400 reais, e muitas famílias não encontram onde morar, tanto pelos altos preços dos alugueis na Cidade ou pela dificuldade dos moradores no que diz respeito a condição social (burocracias, renda). O mesmo jornal online mostrou um documentário feito pelo jornalista Rudi Boon, em 2009, quando os sul-africanos viviam a mesma euforia do pré- Copa, realizada no país em 2010. O documentário denuncia a grande ilusão do evento, onde a África do Sul, bem com outros países que receberam ou irão receber tal evento, atuam muito mais como cenários do que atores, porque necessitam acatar decisões vindas de órgãos superiores, como a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) e as comunidades locais perdem alguns direitos básicos. Exemplo disso foi a vigilância no uso da linguagem, já que os africanos não podiam usar o termo Copa do Mundo, Copa da África do Sul ou Copa 2010, nem pintar esses dizeres em camisetas e souvenirs. O “Pública”, a partir da denúncia do documetário, afirma que as tradições culturais viram mercadoria, a população perde seus espaços

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coletivos e os produtos comercializados em qualquer local próximo aos estádios eram regulamentados pela FIFA. Essas regras aplicadas na Copa na África do Sul em 2010, também fazem parte do acordo do Brasil com a FIFA para o evento em 2014.

A

socioespacial carioca

especulação

imobiliária

como

elemento

chave

na

segregação

No Rio de Janeiro, a especulação imobiliária tem atingido níveis surpreendentes, sendo os megaeventos contribuintes para a supervalorização dos imóveis e terrenos, afetando principalmente os desapropriados. Segundo Ferrari (2009):

“A especulação imobiliária é um processo que pode atingir diversas regiões de uma mesma cidade. Repentinamente acontece a valorização de um bairro ou região, em que os preços do aluguel e venda dos imóveis localizados nesse espaço sofrem altas temporárias (FERRARI, 2009, p. 24).

Existem duas categorias de proprietários de terras: aqueles que possuem uma terra para edificar a casa própria e outros que especulam a terra estão preocupados em obter a maior renda possível, e veem a terra como a possibilidade de ganhos extras, consistindo em um valor de troca, importa o preço e não o seu uso. (RODRIGUES, 1988). De acordo com Rodrigues (1988), a simples ocupação de alguns, já faz aumentar o preço dos demais lotes, valorizando o loteamento. Neste caso, investidores compram terrenos em áreas de possível valorização, contudo é comum deixarem esses lotes vazios, aguardando uma possível valorização daquele local, com a instalação, por exemplo, de serviços, comércio, infraestrutura pública (energia elétrica, saneamento, pavimentação, segurança). Com isso o potencial imobiliário aumenta e começam as negociações, contudo existem várias irregularidades nesse processo. Uma delas é que o beneficiamento dessas áreas acontece utilizando-se dinheiro público, onde os envolvidos (funcionários, empreiteiras, Estado, investidores) direcionam os investimentos para as suas áreas de interesse. Com a valorização dessa área, eleva-se o custo de vida, o que resulta na expulsão dos antigos moradores de menor renda. Essa tem sido uma das grandes preocupações dos desapropriados no Morro da Providência, que além de serem despejados, muitas vezes não conseguem permanecer no mesma

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região de moradia, devido a supervalorização. Esse processo é acelerado através da chegada de empreendimentos de “alto-padrão”, tornando mais intensa à descaracterização da área, tal como o teleférico “para gringo ver”, que irá “valorizar” ao mesmo tempo que descaracteriza o patrimônio história e cultural dos moradores (no caso a quadra de esportes, fig.2).

dos moradores (no caso a quadra de esportes, fig.2). Fig. 2: Crianças moradoras do Morro da

Fig. 2: Crianças moradoras do Morro da Providência fazem apelo para não destruírem a única área de lazer da comunidade, uma quadra de esportes. O apelo não foi atendido e logo após a manifestação, a quadra foi destruída para dar lugar ao teleférico para “gringo ver”. Fotógrafo: Leo Lima (site apublica.org, 2012)

Esses empreendimentos recebem variadas instalações comerciais, responsáveis por atender as necessidades do público alvo, ou seja, a classe média. O capital (juntamente com o Estado) agem como transformadores do espaço:

“A realização de empreendimentos imobiliários com observância dos critérios exigidos garante um detrimento padrão de qualidade ao produto, mas eleva o investimento realizado, encarecendo o produto final. No limite, chega-se ao paradoxo segundo o qual a observância da regulação urbanística e ambiental, no caso da atividade imobiliária, agrega valor ao produto, encarecendo-o e, consequentemente, elitizando-o e tornando inacessível para os segmentos mais pobres da população” (COSTA; PEIXOTO, 2007,p. 325).

Usufruir de serviços, equipamentos e infraestruturas pública é uma emergência para as classes populares, pois estes possuem baixos salários compram lotes/casas em locais distantes, com preços mais baixos,

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consequentemente longe da área central e pobres em infraestrutura básica. Quando estes ocupam esses espaços, que estão sendo valorizados, acabam sendo empurrados, pois não consegue acompanhar o crescimento do valor dos impostos e taxas, conforme analisa Rodrigues (1988). No exemplo em questão, como as desapropriações para a construção/revitalização para os megaeventos é uma preocupação no que diz respeito a formação de novas favelas, a população ser empurrada ainda mais para a periferia, sem nenhum investimento por parte do poder pública em infraestrutura. Então, a questão vai além do local de moradia e parte para outras esferas de debate como educação, saúde, emprego, segurança e lazer. Além da questão econômica, a preocupação parte do âmbito mais subjetivo. Altera-se a paisagem, vizinhança, as relações sociais (amizade, compadrio) provocando um sentimento de não pertencimento daquele lugar pelos seus antigos moradores. A perda de identidade territorial é uma das principais consequências propiciadas pela urbanização desorganizada, o que geralmente não é avaliado pelos investidores da construção civil e do Estado. Numa palestra realizada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 25 de abril de 2012, intitulada “Transformações na zona portuária do Rio de Janeiro e o projeto porto maravilha: olhares, experiências e expectativas”, o professor da Instituição, Gilmar Mascarenhas, que vê o Porto Maravilha como um projeto de gestão urbana neoliberal, fez um comentário pertinente sobre a perda de identidade territorial. Segundo ele, essa é uma das experiências mais brutais de desconsideração cultural, já que o governo, ao acolher um projeto da iniciativa privada, percebe esses espaços que possivelmente serão transformados, como verdadeiros vazios, que devem ser ocupados, desconsiderando portanto as minorias. A especulação imobiliária é processo que pode atingir diversas regiões de uma mesma cidade, pois repentinamente acontece a valorização de um bairro ou região, em que os preços do aluguel e venda dos imóveis localizados nesse espaço sofrem altas temporárias. Na cidade do Rio de Janeiro os megaeventos esportivos estão contribuindo para a essa supervalorização mantendo preço dos imóveis crescente em áreas já antes valorizadas como o Recreio dos Bandeirantes e a Barra da Tijuca, que entre outras obras, terá um metrô que ligará a Barra a Zona Sul, além da construção do Corredor expresso (Transcarioca) que vai ligar o bairro ao Aeroporto Internacional Tom Jobim.

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Por trás do processo da especulação imobiliária existem diversos fatores que levam a esse encarecimento no preço da moradia em certas regiões, e os maiores prejudicados são os moradores, tanto os futuros locatários quanto a vizinhança local, pois toda a estrutura urbana tende a ser afetada por essa mudança. As decisões sobre as desapropriações são de responsabilidades dos órgãos públicos como governos estudais e prefeituras. Embora o espaço urbano possua diversos agentes de regulação e produção, é notável que o Estado, sendo um desses agentes mais importantes, realiza uma (re)estruturação mercantil do ordenamento territorial urbano de acordo com os interesses das grandes corporações e no caso abordado, das empreiteiras. Percebe-se assim, o processo de empresariamento do espaço urbano e na nossa visão, uma crise do Estado regulador, já que visa atender as demandas do capital hegemônico, sem identificar e levar em consideração as particularidades locais. Sobre isso, Haesbaert (2006, p. 59-60) afirma que “A crise do papel regulador de Estado, hoje, levaria a uma crescente desterritorialização”. A efemeridade (im)posta pela sociedade de consumo, age não somente na subjetividade, mas também no real, concreto, agindo no espaço urbano, moldando-o de acordo com o seus interesses e perspectivas, até o momento em que isso gerar lucro. Quando isso não mais acontecer, ele novamente é moldado, restruturado, num ciclo sem fim. Na atual condição pós- moderna, segundo Barbosa (2006):

“O território não é mais garantia da duração da paisagem e o mapa é um rascunho sempre provisório e incerto das relações sociais,

tornando a cidade o espaço da hiper-realidade da mercadoria. [

intervenções territoriais urbanas que enfatizam a criação dos espaços

] As

liminares atendem à nova dinâmica da acumulação capitalista” (BARBOSA, 2006, p. 135-137).

O que acontece no contexto urbano, e principalmente em grandes metrópoles, como o Rio de Janeiro, segundo Barbosa (2006), é que a racionalidade econômica define os novos direcionamentos do ordenamento urbano, tanto no sentido estético (em nome do design pós-moderno, “design urbano”) quanto no sentido territorial, de desapropriação e exclusão dos indivíduos em periferias.

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A ONU fez críticas ao Brasil com relação as desapropriações, alegando que não está havendo transparência, diálogo e participação das comunidades nas negociações. A preocupação também é com relação ao valor pago nas indenizações, que é muito baixo frente ao momento de alta da especulação imobiliária no país, pois os valores dos imóveis são elevados nas localidades onde as obras estão acontecendo para esses eventos. Logo, dificilmente os envolvidos conseguiriam adquirir um imóvel nas proximidades da antiga localidade de suas moradias, afetando não somente a questão da moradia, mas do trabalho, educação, lazer. As informações vinculadas na mídia é que caso haja entraves nas desapropriações, pode ocorrer o atraso das entregas das obras e consequentemente prejudicar esses eventos esportivos. Há relatos em que se não houver negociações, pode-se entrar com um ação judicial contra o proprietário. A preocupação dos indivíduos afetados com as desapropriações, é

pelo fato de acreditaram que o valor pago não é o suficiente, prejudicando assim o direito individual e a garantia de uma moradia de qualidade. O correto seria que Estado assegurasse a remoção para local próximo da moradia desapropriada ou então a compensação financeira compatível.

É pertinente frisar que muitas das ações propostas pelo Estado, já

deveriam ter acontecido há muito tempo e só foram colocadas em práticas motivadas por esses eventos esportivos, principalmente porque há interesses desses atores hegemônicos detentores do capital e decisivos no ordenamento

territorial urbano.

O deputado e ex-jogador Romário (PSB-RJ), também fez algumas

críticas sobre o assunto, demonstrando preocupação com os atrasos, afirmando ainda a “necessidade de que esse processo (de desapropriação) seja conduzido com absoluta transparência, com espírito cívico, e também para que não deixemos em momento algum de ter em mente o legado desses eventos esportivos, isto é, o que vai ficar para a nossa população depois que o circo for embora” (site anf.org.br, 2011).

O Morro da Providência, que será consideravelmente afetado por

essas obras, possui um relevante patrimônio histórico cultural, justamente por ser o mais antigo do Rio de Janeiro. Segundo Barbosa (2006):

ser

transformado em um álibi para a expulsão de populações locais e, assim, estabelecer novos usos às formas tradicionais […]. A

“Não

é

uma

raridade

o

patrimônio

histórico

e

cultural

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estetização da forma urbana sinaliza o reforço do tratamento estratégico do espaço como reprodução de hegemonias sociais” (BARBOSA, 2006, p. 130-131).

Essas expulsões/desapropriações são uma preocupação no sentido de gerar novas favelas e novos grupos excluídos e segregados socio- espacialmente. Além da questão territorial, ainda há a dimensão cultural e a visão que o Rio de Janeiro quer passar para o mundo todo: um lugar livre da violência, organizado, palco de espetáculo, com a recuperação de espaço degradados, através de grandes investimentos em infraestrutura para a revitalização da cidade. Porém, mais do que isso:

Ao invés de se preocupar demasiadamente com o que o mundo acha da cidade, é melhor saber o que os cariocas pensam sobre ela. Enquanto a opinião de um investidor estrangeiro sobre o Rio tiver um peso maior do que a de um morador de Brás de Pina, Ramos, Acari, Fazenda Botafogo, Lins, Pilares, Olaria, Penha, Benfica, Irajá, Parada de Lucas, etc. devemos desconfiar de que essa tal de revitalização não passa de uma forma torpe de massacrar o que temos de mais precioso: a nossa cultura, bandeira maior de resistência e forma poderosa de transformação da vida” (COMITÊ POPULAR RIO DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012, p. 66).

A emergência nessa questão, é sobre o ponto subjetivo dessas desapropriações, que não se tem levado em consideração, não só nesse caso, mas em várias processos de exclusão/desapropriação. As memórias, lembranças, histórias, relações sociais, o sentimento de pertencimento não é relevante nas transformações espaciais urbanas, já que isso não gera lucro, portanto não interessa as hegemonias sociais. Para tanto, mostra-se relevante realizar uma discussão sobre a identidade territorial, que hoje tem sido de grande interesse da ciência geográfica, que busca pensar na questão material, física do território, ao mesmo tempo em que considera a subjetividade da questão da identidade.

Identidade territorial e desterritorialização

A partir dos questionamentos anteriormente abordados, o que se percebe é a total falta de transparência e reconhecimento das singularidades, interesses e necessidades dessas indivíduos envolvidos nesse contexto de exclusão. Ignora-se a história, a memória, as relações sociais e as dinâmicas do território vivido, que é impregnado de um sentimento de pertencimento. O reconhecimento das singularidades é relevante em um mundo marcado pela efemeridade, pela instantaneidade dos acontecimentos, pela

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rapidez dos fluxos, identificado por Baumann (2005) de “líquido mundo moderno”, Harvey (2011) de “condição pós-moderna” ou por Santos (2006) “meio técnico-científico-informacional”. Nesse contexto efêmero, a exacerbação do individualismo e a efemeridades das relações sociais incitam a evaporação do sentido de continuidade e memória histórica (HARVEY, 2011). Por isso, em ações como estas, que envolvem atores hegemônicos como empreiteiras, Estado, capital e os hegemonizados, vence quem detém o poder, negando-se a decisão de escolha dos maiores envolvidos nesse processos, como no caso dos moradores desses locais de exclusão, em detrimento de interesses hegemônicos. É o que Santos (2001) chama de “assassinato da solidariedade”. Em contrapartida, ao mesmo tempo em que há essas fragmentações, mobilidades forçadas, envolvem-se também os “defensores amorosos de seus antigos territórios”, voltando à tona a discussão sobre identidade, não só para a defesa do direito à diferença ou de contraposição a sociedade excludente engendrada pela globalização, mas como uma forma de resistência a “sociedade globalmente mercantilizada e onde tudo é passível de transformar- se em valor contábil, ou seja, onde a primazia das relações e dos valores está vinculada à acumulação capitalista” (HAESBAERT, 1999, p. 170). A defesa do território vivido, vem da premissa de existência de uma identidade (territorial/social), que refere-se a coisas, pessoas, objetos e implica uma relação de semelhança e igualdade. Contudo, para Haesbaert (1999) muitos teóricos só percebem o campo das representações das identidades, desconsiderando, muitas vezes, a questão concreta. Portanto, é pertinente pensar a base material, no caso, territorial, onde a identidade social é carregada de subjetividades e objetividades. É nessa discussão que o geógrafo afirma que toda identidade territorial é uma identidade social, já que pode-se afirmar, de forma genérica, que todo território existe algum tipo de identificação ou valoração simbólica:

“Determinadas identidades ou, caso se preferir, facetas de uma identidade, manifestam-se em função das condições espaço- temporais em que o grupo está inserido. […] a identidade social é também uma identidade territorial quando o referente simbólico central para a construção desta identidade parte do ou transpassa o território” (HAESBAERT, 1999, p. 175).

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Assim, a relação com o território se dá tanto na esfera material concreta, quanto no campo das ideias, sendo parte importante nos processos de identificação social. Essa identidade que para sua estruturação está a referência a um território, tanto no sentido simbólico quanto concreto pode ser denominada de identidade socioterritorial. Contudo, Haesbaert (1999) não acredita que todas as identidades sejam identidades territoriais, por mais que estejam “localizadas no tempo e no espaço simbólicos” como afirma Hall (1997). Isso porque só são identidades territoriais quando sua estruturação depende, sobretudo, dessa apropriação simbólica no/com o território. Essa apropriação, no mundo capitalista, tem sido cada vez mais fragmentada e complexa, quando não excludente, como o caso dos megaeventos esportivos. Segundo Haesbaert (1999, p. 183):

“A identidade dominante no chamado mundo moderno ou, de forma mais restrita, do capitalismo fordista, é a do Estado-nação onde a identidade territorial é mutuamente excludente e o mundo se organiza num grande mosaico onde tudo acaba tendo que se encaixar e onde, pelo menos teoricamente, não haveria superposições”

É dentro dessa discussão, de exclusões/desapropriações de indivíduos em áreas de interesse do Estado e do capital hegemônico, que envolve a questão da identidade, e que tem chamado atenção dos geógrafos, é o processo de desterritorialização. Segundo Haesbaert (2006) o processo de desterritorialização antes de significar desmaterialização, dissolução das distâncias, deslocalização de firmas ou debilitação dos controles fronteiriços, é um processo de exclusão socioespacial. O autor afirma que o exemplo mais estrito de desterritorialização são os aglomerados humanos de exclusão, com precarização socioespacial da dinâmica capitalista:

embora privilegiemos uma noção de território que vincula

indissociavelmente as dinâmicas política e cultural, os processos de des-territorialização estão sempre atrelados, em maior ou menos intensidade, à dinâmica econômica que dilacera os espaços, subordina poderes políticos e condiciona (quando não direciona) a reformulação de muitas estratégias identitárias” (HAESBAERT, 1999, p. 128).

“[

]

Santos (1978) afirma que o território é visto como recursos (para as atores hegemônicos) e como abrigo (para os atores hegemonizados) onde ocorre a abstração da identificação numa perspectiva capitalista e a acumulação de lucro. Ao mesmo tempo em que o território é usado pelo atores hegemônicos para atender os seus interesses particulares, os atores

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hegemonizados buscam constantemente adaptar-se ao meio geográfico local, onde criam também estratégias de sobrevivência nos lugares. Contudo, o que esses atores hegemônicos, como por exemplo o Estado e as empreiteiras não percebem, são as particularidades locais, já que

o território, antes de qualquer coisa, segundo Haesbaert (2004) é um valor, que

reforça sua dimensão enquanto representação, valor simbólico. Bonnemaison e Cambrèzy (1996, p. 13-14) apud Haesbaert (1999, p. 186) afirmam que “o território é a riqueza dos pobres. […] perder seu território é desaparecer” O território é investido não só com valores materiais, mas também subjetivos, simbólicos, afetivos, éticos, sendo assim que o território cultural precede o território político e o espaço econômico. Assim, é “Diante das massas de despossuídos do planeta, em índices de desigualdade social e de exclusão cada vez mais violentos, o 'apegar-se à terra', a 'reterritorialização” é um processo que vem ganhando força”

(HAESBAERT, 1999. p. 185) A discussão sobre as desapropriações que interessam ao Estado e as empreiteiras, para a realização dos megaeventos esportivos no Brasil, é uma emergência, principalmente com relação as questões culturais, de identidade e patrimônio cultural. Dessa maneira, o território se define também por um

princípio cultural de identificação, de pertencimento, intensidade, que possui uma essência afetiva ou até mesmo amorosa ao espaço. Essa carga simbólica

é tamanha que o território, na visão de Bonnemaison e Cambrèzy (1996, p. 14)

é “um construtor de identidade, talvez o mais eficaz de todos”. Motivados por essa questão de território e identidade, que a discussão sobre identidade territorial e o processo de desterritorialização é muito relevante no contexto da condição pós-moderna. Na intensidade da vida urbana, os laços, o vínculo com a terra, as relações sociais, cada vez mais se enfraquecem, desestruturam, fragmentam-se, dificultando o sentido de continuidade. Os impactos desses eventos portanto, não são somente de natureza física, concreta, com as transformações da paisagem urbana, mas também de caráter subjetivo, pouco percebido pelos atores hegemônicos.

Conclusões

Além da ideia de revitalização, de mudar a cara do Rio de Janeiro para

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que os turistas e as classes hegemônicas possam usufruir, de teoricamente beneficiar a população, o que não se tem levado em consideração é aquilo de mais subjetivo do ser humano: o sentimento de pertencimento, a identidade, a memória, as lembranças, as histórias, as tradições, que nenhum dinheiro pode tirar ou comprar. Com a escolha do município do Rio de Janeiro como uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e sede das Olimpíadas em 2016, a imprensa, analistas e políticos têm ressaltado sobre

oportunidades da ampliação dos investimentos na cidade,

destacando as possibilidades de enfrentamento dos seus grandes problemas, como o da mobilidade urbana e o da recuperação de espaços degradados para a habitação, comércio e turismo, como é o caso da sua área central. Nesse contexto, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro desenvolve e anuncia o projeto da Cidade Olímpica, com o objetivo de acabar com a cidade partida, integrar, levar dignidade à população” (COMITÊ POPULAR RIO DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012, p.4 )

as “

Porém as obras até então realizadas vem mostrando um sentido oposto ao da integração social e da promoção da dignidade humana. As intervenções urbanas vêm sendo desenvolvidas em um processo de exclusão social, com as desapropriações/expulsões. Além deste problema, como afirma o Comitê Popular Rio da Copa e das Olimpíadas (2012), irão ocorrer modificações mais complexas na dinâmica urbana do Rio de Janeiro, estando presente:

de um lado, novos processos de elitização e mercantilização da

cidade, e de outro, novos padrões de relação entre o Estado e os agentes econômicos e sociais, marcados pela negação das esferas públicas democráticas de tomada de decisões e por intervenções autoritárias, na perspectiva daquilo que tem sido chamado de cidade de exceção. Decretos, medidas provisórias, leis votadas ao largo do ordenamento jurídico e longe do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção. Nesta imposição da norma a cada caso particular, violam-se abertamente os princípios da impessoalidade, universalidade e publicidade da lei e dos atos da administração pública. De fato, as intervenções em curso envolvem diversos processos nos quais os interesses privados têm sido beneficiados por isenções e favores, feitos em detrimento do interesse público, legitimados em nome das parcerias público-privadas. (Comitê Popular Rio da Copa e das Olimpíadas, 2012, p.5)

“[

]

Os processos de elitização e mercantilização da cidade são fatos preocupantes, pois demonstra que as empresas imobiliárias vem intervindo nas politicas do governo, já que grande parte das famílias, que vem sendo desalojadas, vivem em bairros como a Barra da Tijuca, Recreio, Jacarepaguá e Vargem Grande, que são bairros de extrema valorização imobiliária, ou seja,

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com a expulsão, os bairros ficam ainda mais valorizados, tendo a terra um valor

cada vez mais acentuado.

Em suma, é de grande valia estudos que deem visibilidade a esses

indivíduos, afetados pela dinâmica da acumulação flexível do capital, buscando

muito além da preservação de seu território, mas de suas raízes culturais,

históricas e geográficas.

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