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arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

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arquitextosISSN1809-6298

buscaremarquitextos

133.07 ano12,jul2011

PerspectivasedesafiosparaojovemarquitetonoBrasil

Qualopapeldaprofissão?

JoãoSetteWhitakerFerreira

Qualopapeldaprofissão? JoãoSetteWhitakerFerreira ConjuntoHeliópolisI,arquitetoLuisEspallargasGimenez

ConjuntoHeliópolisI,arquitetoLuisEspallargasGimenez (Habi/Sehab) FotoLuisEspallargasGimenez

1/4

(Habi/Sehab) FotoLuisEspallargasGimenez 1/4 Emsuaediçãodesetembrode2010,arevista

Emsuaediçãodesetembrode2010,arevistaAU–ArquiteturaeUrbanismo,

comaqualidadequesempreacaracteriza,nosapresentou25jovens

arquitetosemdestaque,que“devemserosprofissionaismais

representativosdoBrasilnaspróximasduasdécadas”.

Areportagemestimulaumareflexãomaisaprofundada.Nãosobreaqualidade

dosprofissionaisescolhidos,evidentemente,todosdeindiscutíveltalento.

Massobrealógicaqueserveparaparametrizaroqueseconsiderahoje,no

Brasil,um“arquiteto”e,maisainda,umarquitetocujosucesso

profissionalsirvapararepresentaraprofissão.Nãosetrataaquide

questionaroexcelentetrabalhodarevista,emenosaindaaqualidade

admiráveldotrabalhodessesjovens.Aquestãoquecoloconesteartigoé

queabrilhanteproduçãodealgunsescritóriosdearquitetura–cujofoco

deatuaçãoébastanterestritoaoreduzidomercadodaconstruçãocivilque

(ainda?)sevaledaarquitetura–nãodeveseroúnicoaspectode

representatividadedoquesejao“sucesso”naprofissão.Háumanecessidade

prementedeiluminartambémumaoutrafacedaarquiteturaedourbanismo,

menosvistosa,menosevidenteemenosfestejada,mascujaimportânciaé

fundamentalparatiraraprofissãodocomplexoimpasseemqueseencontra.

Emoutraspalavras,cabeaquestão:nãoseriahoraderevermosnossos ideaisdesucessoprofissional,quenoBrasilparecemreduziraquestãotão somenteaumaarquiteturaautoral–porvezesexcelente–destinadaquase queinvariavelmenteaosestratossociaisdealtarenda?Pois,emquepesem

exceções(1),nãohácomonegarqueéesseoperfilqueaparece,

nitidamenteemajoritariamente,quandopercorremosoqueseconsideraa

atualproduçãoarquitetônica“desucesso”nonossopaís.Oquefezum

colegaarquitetoeuropeutecer-meoseguintecomentário,nãoisentode

razão:“aarquiteturabrasileiraéfenomenal,masapareceparanóscomouma

133.07

idiomas

original:português

compartilhe

idiomas original: português compartilhe 133 133.00 Ambiguityinliterature andarchitecture Areadingof

133

133.00

Areadingof

Shakespeare’swordplays

againstPalladio’sand

Michelangelo’s

architecture

JuniaMortimer

133.01

Ahermenêuticano

ateliêdeprojeto

HiltonBerredoe

GuilhermeLassance

133.02

Pelaviadepenetração

daÁreaUrbanaatéa

ÁreadeProteção

Ambiental

MariaRosanaFerreira

Navarro

133.03

DeniseMorado

NascimentoeSimone

ParrelaTostes

133.04

CarlosCassemiro

Casaril,RicardoLuiz

TöwseCesarMiranda

Mendes

133.05

RaúlPastrana

133.06

133.06 JardinsVerticais–uma oportunidadeparaas www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.133/3950
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arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

arquiteturaapenasdecasaschiques,equandonão,deprédioshabitacionais nossascidades?

ecomerciaisdeluxo”.

CarlosSmaniottoCosta

Estaespéciedeendeusamentodaarquiteturaautoraldetalentogenial

limitaohorizontedeperspectivasdosnossosestudanteselhesapresenta

comoúnicaalternativaummundodealtacompetitividade,angustiante,no

qualaparentementealcançaráosucessoapenasumpequenogrupodeeleitos.

Talposturanãoéumacaracterísticanossa,noBrasil,masdaarquitetura

emgeral.Aglorificaçãodealgunsgrandesnomesdaarquiteturamundial,

queformamumaespéciedeinvejadojet-setdaprofissão,alimentaainda

maisofenômeno.Curiosamente,grandesnomesdaarquiteturanacional

recentementemanifestarampublicamenteseutemorfaceà“invasão”donosso

mercadoporpartedessespapasdaprofissão,quandonaverdadeessaé

apenasaconseqüênciadeumalógicaqueelesmesmossempreajudarama

alimentar.

Alémdomais,ofestejoemtornodaproduçãoautoral,pornatureza

competitiva,acabaporesconderumamaioriadeprofissionaisde

escritórios,comproduçãosignificativa,quebatalhaarduamentepara

sobreviverdignamentecomaprofissãodaarquitetura,masqueessefunil

seletivonãocolocounoolimpodos“grandesarquitetos”.Pormaisquese

queira,aavaliaçãodoqueédignoounãodeestarnessealtarnãotemcomo

nãocarregarumafortedosedesubjetivismo.

nãocarregarumafortedosedesubjetivismo. ConjuntohabitaçãodeinteressesocialpeloMCMV,RioBranco

ConjuntohabitaçãodeinteressesocialpeloMCMV,RioBranco

Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

Aaltacompetitividadeeaspoucasoportunidadesdetrabalho,decorrentes dotamanhoreduzidodomercadoformaldaconstrução,associadoaogrande númerodeprofissionais(sónaGrandeSãoPauloformam-se,provavelmente,

maisde1000arquitetos/ano)eaodesprestígiodaprofissãojuntoàs

construtoras,fazemcomqueavidadessesescritóriosnãosejapropriamente

fácil.Comomedisseoutrocolega,“escritóriodesucessonoBrasilé

aquelequenãofecha”,emanterfinanceiramentesuasestruturasfuncionais

nãoétarefasimples.Porisso,talvez,oaltograudeinformalidadeque

marcaaprofissão,tantoparaosarquitetosquantoparaamão-de-obrade

construçãocontratada,eousoabusivodeestudantesestagiáriosde

arquiteturacomomão-de-obrabarata,quenãoégeneralizado,masbastante

recorrente.

Umabemintencionadaexposiçãodearquiteturarealizadaem2010emSão

Paulo,denominada“Aboaarquiteturadeumageração”(2),levadaaosalunos

daFAUMackenzieduranteumasemananosaguãoprincipaldaescola,tinha comoobjetivo“estimularareflexãosobreaimportânciadotrabalho

desenvolvidoporumgrupode18profissionais”,arquitetos-professoresde

renomenacionalemundial,esemdúvidaimportantesrepresentantesdeuma geraçãoquemuitoconstruiuetransformouaspaisagensurbanasbrasileiras nasúltimasdécadasdoséc.XX(emboratalgeraçãonãoselimite,

evidentemente,a18arquitetosapenas).Ora,pelapropostadamostra,era

deseesperarque“estimularareflexão”paraumpúblicodeestudantes significasseesmiuçarminimamenteavolumosaproduçãodessesarquitetos, alémdeprocurarexplicaremmaisdetalhesseuspensamentos.Porém,oque seapresentouresumiu-seaumpainelcomumaúnicafotodeumaobra,um croquiautoral,eumafrase,paramentadaporumaestilosaassinatura. Claro,pode-seargumentarqueointuitodamostraeraapenasodeestimular osestudantesapesquisarmaisaproduçãodessageração.Aindaassim,oque sesobressaidainiciativaacabasendo,maisumavez,oendeusamentoda

arquiteturaautoral,de18arquitetoseleitos,pelaqualumcroqui,uma

fraseeumaassinaturaparecembastarparaexplicaroquesejaaboa

arquitetura.

Ocaminhonãoéesse,emborasepossaentenderqueageraçãoemquestão

produziuemumaépocaemqueomercadodaarquitetura,aindamuita

limitado,podiatalvezseresumiràproduçãodealgumasdezenasdegrandes

profissionais.Oproblemaestáemreproduziressepensamentoparaas

geraçõesfuturas,cujouniversodeatuaçãoécompletamentediferente,muito

maisamplo,maiscomplexo,nãocabendomaisapenasnapranchetadealguns

grandesescritórios.Porém,nossosjovenscontinuamaprendendoqueesteéo

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modeloaseguir.

Façamosumaverificaçãobastantesimples:nasseisediçõesdasduasmais importantesrevistasdearquiteturadopaís,asrevistasAUeProjeto,

entrefevereiroeagostode2010,excetuando-seosnúmerosespeciaissobre

Brasília,dos69projetosbrasileirosapresentados(nãoforamsomadosos

oitoprojetosinternacionais),temosdezesseisderesidênciasdealto

padrãoe28deestabelecimentoscomerciaisparaomercadodealtarenda,ou

seja63%dototal.Fogemàregradoisestabelecimentosindustriaise,bom

sinal,os28deedifíciospúblicos(museus,bibliotecas,escolas,estações,

etc.).Provadequeaomenososprojetosinstitucionaisdeusopúblico ganharamespaço,equeosconcursosparaosmesmosaumentaram.Porém,vemos apenasquatroreferências(projetosoutextosanalíticos)aquestõesde

urbanização,esomenteumprojeto–0,1%dototal!–dehabitação

“econômica”,aquelavoltadaàclassemédia-baixa.Nãohánenhumprojetode

habitaçãosocial(pararendaabaixode3salários-mínimos),nenhumprojeto

noâmbitodoPACAssentamentosPrecáriosemandamento,nenhumprojetodo

ProgramaMinhaCasaMinhaVida(MCMV),nenhumprojetodecompanhias

públicas,deassessoriasdemutirões.Esse“mundo”dahabitaçãode

interessesocial,dainformalidadeurbana(generalizada),simplesmente

parecenãopertencerao“mundo”daarquitetura.

parecenãopertencerao“mundo”daarquitetura. ConjuntodoMCMVemSãoPauloparaosegmentoeconômico

ConjuntodoMCMVemSãoPauloparaosegmentoeconômico

FotoHelenaGalrãoRios[LabHab]

Emoutraspalavras,ouniversoemquesecolocaaatuaçãodoarquitetono

Brasiléfenomenalmentereducionista.Nãoseriahoradeampliá-lo?

Nãoestaríamos,aoexacerbarcadavezmaisocultoàatividadeprofissional

autoraldestinadaàaltarenda,correndooriscodelimitarperigosamente

nossocampodeatuaçãoaummercadoqueéestruturalmentereduzido?Não

estaríamosnosarriscandoarepetiroserrosdopassadoquelevaramnossa

profissãoasedistanciardarealidadeurbanabrasileira,umatragédiaem

quequaseametadedapopulaçãosequertemacessoàcasa,quantomenosà

arquitetura?

Poisédissoquesetrata:daconstataçãodequeaarquiteturabrasileira, nãoobstanteseuinegávelsucessointernacional,fracassounoseupapel social.Éaúnicaconclusãoquesepodetiraraoolharparaumpaísonde,

emmédia,40%dapopulaçãourbanaviveprecariamente,semarquiteturanem

urbanismo.Umatragédia,quedeveriatirarosonodosarquitetos.A

arquiteturaeourbanismo,quandovistoscomoumaprofissãocentralna

sociedade,querefleteepropõeaorganizaçãodoterritórioedoespaço

construído,temumavocaçãoindiscutivelmentetransformadora.Porém,para

alémdasboasobrasdeautoresindividuais,elaindiscutivelmentenãofoi

capazdesustentarumaurbanizaçãodecentenonossopaís.

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arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius BairrodeMassaranduba(Alagados),SalvadorBA

BairrodeMassaranduba(Alagados),SalvadorBA

Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

Nãobastasseseufracassonaconstruçãodecidadesmaisjustas,tambémno

universodaformalidade,dacidadelegal,ondefuncionaomercado

imobiliáriodemaiorcapitalização–e,portanto,omercadodosarquitetos

–aarquiteturaparecenãotermaismuitooquefalar.Apesardas

expectativascolocadassobreosombrosdanovageraçãodeescritóriosde

arquitetura,parecequesuaforçaparainfluenciaraproduçãoemmassado

mercadodaconstruçãonasnossascidadeséextremamentelimitada.Namaior

partedoscasos,aarquiteturapareceter-sereduzidoaumformalismode

fachada,queescamoteiaportrásdafalsapolêmicadosestilosadotados

(neoclássicosououtrasdenominações)anegaçãodetudoaquiloquese

aprendenafaculdadecomosendoa“boaarquitetura”.Aarquiteturaque

imperaéadaextremaverticalizaçãocapitaneadapelomercadoimobiliário,

atransfigurarsemculpabairrostradicionais,produzindoprédiosisolados

nolote,cercadosemurados,querenegamaruaeacidade.Aopção

desenfreadapelomodelodoautomóvelemdetrimentodesistemasde

transportecoletivos–queaarquiteturaendossaalegremente–alimentaa

ofertageneralizadadeunidadeshabitacionaiscomàsvezesmaisdedez

vagasdegaragem(!),oquelevaàimpermeabilizaçãototaldosolo,

afetandosemparcimôniaadrenagemurbanaeoescoamentodeáguas.Os

apartamentosoferecidos,portrásdealgumestilosedutor,estãocadavez

menosgenerosos,maisapertados,menosventilados,substituindopreciosos

metrosquadradosnasunidadeshabitacionaisporespaçoscoletivosno

térreo,bemmaiseconômicos(paraasconstrutoras),soboglamourdas

denominaçõesdamoda:espaçosgourmets,fitness-centers,etc.Alógicade

construircondomíniosmuradoscomequipamentosdelazereatécomércio,ao

invésdeseabrirparaacidade,produzumamalhaurbanasegmentada,pouco

fluida,equevaiaospoucosaniquilandoapossibilidadedeespaços

públicosdequalidade.Praças,jardinseárvoresparaque,seépossível

tertudoissodemaneiraexclusiva,nasmini-cidades,oucidadelas

fortificadas,quesetornaramoscondomínios?

Dequeméaculpa?

Masantesdeaprofundaressadiscussão,valeumaobservação:nãosetrata

aqui,deformanenhuma,de“colocaraculpa”nosarquitetosdeescritórios,

menosaindanasrevistasdearquitetura.Nãohánenhumproblema–eéaté

muitopositivo–queaproduçãoarquitetônicadeumpaístenhaumagrande

participaçãodeescritóriosvoltadosaomercadoformaledealtarenda,com

umenfoquemaisautoral.

Oproblemaestáemalimentaraideiadequeaarquiteturaautoral“de

sucesso”(porconseguirpublicarprojetosnasrevistas),éaúnicafaceta

daprofissãodignadedestaque,“a”atividadedereferêncianaarquitetura,

equeoatendimentoaomercadodealtopadrãoéaúnicaalternativapara

trilharumcaminhoprofissionaldereconhecimentoesucesso.

Talvisão,alémdomais,transformaolimitadomercadodosescritóriosem umverdadeirocampodecaçadeoportunidadesrarefeitas.Opredomíniodo mercadoimobiliárioquepoucoatentapara aarquiteturaeaalta competitividadedecorrentefazemcomquemesmonomundodosescritórios,a vidanãosejasimples.Écomumverarquitetoscomanosdeexperiência tendo,naprática,quepagarparatrabalhar.Ouaceitandoremunerações pífiasparapoderexercitaraarquitetura.Issonãopodeestarcerto,e alimentaaindamaisanecessidadedeumaprofundarevisãodapercepçãodo queéonossouniversoprofissional.

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e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius ConjuntodosegmentoeconômicoemManaus

ConjuntodosegmentoeconômicoemManaus

Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

Sea“culpa”dessedesviodasexpectativasemtornodaprofissãonãoé

(somente)dosarquitetosedaimprensa,éporqueestaéuma

responsabilidadecoletiva.Aextremacentralizaçãoemtornodeumúnico

modeloprofissionaléapenasoreflexodeumprocessosocialpeloquala

profissãodaarquiteturacolocou-seemumaposiçãodeelitizaçãoede

afastamentodarealidadeurbana,comodecorrênciadolongoperíodode

autoritarismoedepolíticaseconômicasdeextremaconcentraçãodarenda.A

“culpa”édecadaumedetodosnósquereproduzimosadinfinitumessa

lógicasocialelitistaesegregadoraemtodasasinstânciaseconômicas,

culturaisepolíticasenãosónoâmbitourbano/arquitetônico.Aculpaéde

todaasociedadequeconsidera“cidade”apenasacidadedomercado,a

cidadeoficialeformal.Queserecusaaenxergarocaosurbanoesocial,o

apartheidassustadordosbairrosquenãosão“nobres”.A“culpa”édos

governos,queatentamsomenteparessacidadedosmaisricos,queinsistem

empolíticasparaelesapenas,porexemploconstruindomaisviadutos,

túneiseviasexpressasexclusivasparaoscarrosindividuaisemdetrimento

deinvestimentospúblicosparatodaapopulação.A“culpa”étambémdas

universidades,queformamarquitetosorientadosparaumaúnicaperspectiva

profissionalealimentamocultoàarquiteturaautoral;aculpaédas

entidadesrepresentativasdaclasse,quepoucodiscutemademocratizaçãoda

profissão,eassimpordiante.

Éclaro,seaculpaédetodos,poroutroladonãosepodegeneralizar:há

arquitetos“autorais”quetentamdetodasasformasentrarnocampode

atividadesmaisvoltadasàdemocratizaçãodacidade,masseveemfrentea

murosintransponíveisdeburocracias,fisiologismoseimpedimentosdetodos

ostipos.Háarquitetosquefazemarquiteturasocialdequalidadehámuitos

anos,masnãoconseguemfuraraforçadopensamentodominantequefesteja

outrotipodearquiteturaedesconsideraamoradiapopularcomoumproblema

dosarquitetos.Hánúmerosespeciaisdasrevistasespecializadassobre

habitaçãopopular,emborararos,quemesmoquedeformaefêmera,trazemo

problemaàtonacomoparalembrarqueeleésim,oudeveriaser,objetoda

arquitetura.

arquitetura. ConjuntodosegmentoeconômicoemSãoPaulo

ConjuntodosegmentoeconômicoemSãoPaulo

FotoFernandoBoari[LabHab]

Aquestãoéquetaisatitudesnãosãonemmaioria,nemfáceis,porque

enfrentamumpensamentodominanteque,sejaconscientemente(opior),seja

simplesmenteporinércia(omenospior),reproduzedivulgapermanentemente

avisãodasociedadedeelite,exclusivistaesegregadora.Emsuma,o

Brasiléumpaísexacerbadamenteelitizado,queprecisaurgentemente

começaramudaressasituação.Suascidades,quesãooreflexonoespaço

dessasociedadedesequilibrada,tambémprecisamurgentementemudar.

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IssoporqueoBrasilestásetransformando.Porém,paradoxalmente,o

crescimentoeconômico,tãofestejado,muitasvezesescamoteiaoacirramento

dastensõeseconômicasesociais.Nascidades,senãoforcontrolado,o

crescimentoaceleradosignifica,tambémparadoxalmente,oaumentoda

destruiçãoambientaledosproblemasurbanos.Poisnossomodelode

urbanização,queseintensificanestemomentodeeuforiadecrescimento,

continuasendoodaimpermeabilizaçãodascidades,daverticalização

excessivaenãoregulamentadanemplanejada,dosgrandescondomínios

fechadosquerenegamoespaçopúblicoeacidade,dosinvestimentosviários

emdetrimentodotransportepúblicodemassa,dossistemasdeesgotamentoe

drenageminsuficientes,daocupaçãodescontroladadasperiferias,eassim

pordiante.

Oresultadodessemodelo,estranhamente,aindachocaosbrasileirosacada

ano,naschuvasdeverão,comosefossemnovidadeosdesabamentosque

tragicamente,masinvariavelmente,serepetemsemquenadaseja

verdadeiramentefeitoparaevita-los.Nossasgrandescidadessãopoluídas,

imobilizadaspeloscongestionamentos,vulneráveisàsenchentes,propíciasà

violênciaurbanapelodemasiadonúmeroderuasermaseisoladaspormuros

intermináveisdecondomínios,espaçosabandonados,praçasesquecidas.

Nossascidadesinspirammedo,elassão,porsisó,umaviolência.Comolhes

faltaaquiloquechamamosde“arquiteturaeurbanismo”!

faltaaquiloquechamamosde“arquiteturaeurbanismo”! ConjuntodoMCMVemSãoPauloparaosegmentoeconômico

ConjuntodoMCMVemSãoPauloparaosegmentoeconômico

FotoHelenaGalrãoRios[LabHab]

Nestemomentoestratégico,emqueparecemosalcançaramodernidade,mas

talvezsemperceberquetalvezascidadesimplodamantesdelachegar,

coloca-seumaduplaeantagônicapossibilidade:ade,porumlado,

descobrirmosumanovaformadefazercidades,ouporoutro,decontinuara

reproduzireexacerbarcadavezmaisocaminhodabarbárieurbana.Os

arquitetos–comoclasseprofissionalcoesaesocialmenteatuante–

deveriamtersimmuitoqueopinarsobreoassunto.

Aarquiteturanonovomercado“econômico”brasileiro

Algunsestudosrecentes,dentreosquaissedestacamosdeTâniaBacelar, daUFPE,deMariadaEncarnaçãoEsposito,daUnesp,etambémumaimportante produçãodospesquisadoresdoIPEA,mostramqueháumamudançaocorrendona equaçãodasmigraçõesinternasenaconformaçãodasredesdecidades,com umnovopapeldeprotagonismoregionaldascidadesmédias,cujapopulaçãoe PIBcrescemmaisdoqueasoutrascidadesbrasileiras,inclusiveas metrópoles.Essefenômenoserelaciona,aoquetudoindica,como

crescimentosubstancialdachamadaclasseC,queteriapassadoentre2005e

2010,de62,7milhõespara92,8milhõesdepessoas,ouumaumentode50%em

cincoanos(3).Issofazcomqueaproduçãodoespaçoedificadonessas

cidadesesteja,porsuavez,emfrancoaquecimento,sendobastantefocado

aoatendimentodasclassesmédiaealta.

Porém,oquesepublicaesedifundesobreaarquiteturabrasileiramostra

umapreferênciainegávelparaoquesefaznasgrandescapitais,comênfase

paraSãoPauloeRiodeJaneiro,ecompoucavisibilidadeparaumaeventual

produçãoarquitetônicamaisespraiadapeloconjuntodoterritórioenas

cidadesmédiasepequenas.Devemoscrerqueomundodaarquiteturano

Brasilnãoexisteparaalémdasfronteirasdasnossasmaioresmetrópoles?

Arealidadequeseexpressanaatuaçãocrescentedosorganismosde

representaçãodeclasseemregiõesantesmenosvisíveisnocenário

arquitetônico,mostraquesim,aatividadearquitetônicaestáem

desenvolvimento,acompanhandooaquecimentodomercadoeocrescimentodas

cidadesmédias.Porém,elanãoestáconseguindocolocar-secomoumator

relevantenesseprocesso:quemacompanhaocenáriodaconstruçãopode

verificarodomíniodomercadoimobiliário,compoucaounenhumaatenção

paraaarquitetura,transferindoparaascidadesmédiasasmesmas

metodologias“predadorasdecidade”,verticalizantes“aqualquercusto”,

focadassobretudonolucroenãonaperspectivadeumaalternativaurbana

maishumana.Écomumveremcidadesmédiasepequenasachegadada

“modernidade”traduzidapelosimplesaparecimentodeprédios,depobre

arquitetura,quenãoestabelecerelaçãocomosprocessosconstrutivos,

poucoadequadaànossatradiçãoequebuscaornamentaçãoemelementos

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arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

formaisimportados. Aomesmotempo,cidadesdoportedeJoinvilleou

Guarulhostemmenosde20%decoberturadeesgoto,acanalizaçãode

córregoseaimpermeabilizaçãodosolocontinuampredominando,políticas paraos automóveisemdetrimentodotransportepúblicosãoaregra, bairrosexclusivosquesegregamosmaispobresaindaditamaconformaçãodo espaçourbano.Emsuma,reproduz-sepelopaísodesastreurbanoeambiental quesãonossasgrandescidades.Eaarquitetura,comosecolocafrentea isso?

Nesseprocessoqueseintensifica,eapesardoesforçolouváveldecadavez

maisgente,aarquitetura,tradicionalmentebastantemenosprezadapelo

mercado,temvisíveisdificuldadesemimporumnovopadrãoqualitativode

reflexãosobreourbano.Masestenãodeveriaserumnovoefértilcampode

debates,deposicionamentosedepossibilidadesparaaprofissão,

inspirandoumamobilizaçãodosprofissionaisparaapopularizaçãodeuma

produçãoarquitetônicageneralizadaeprofissionalmenteorganizada?Quenão

sejareprodutora,naescaladascidadesmenores,deumadinâmicajágastae

umtantoomissa,limitadaàopçãoentrea“não-arquitetura”domercado

imobiliárioouaelitizadaarquitetura“degrife”,quandoestaconseguea

duraspenas“furar”omercado,masacabacompactuando,mesmoque

involuntariamente(masnemsempre),comessemodelo?

Éimportanteentenderqueoaquecimentodaproduçãoimobiliáriadestinada àsclassesmédiasnãosurgiudonada,masdecorredealgumastransformações econômicasrecentes,nasquaisemregrageralosarquitetos,aliás,também poucoseimplicaram,enquantoumacategoriaquedeveriateroqueopinar sobreoassunto.Pode-sedizer,grossomodo,quetaismudançascomeçaramem

2006,comamodernizaçãodalegislaçãoparaosetordeinvestimentos

imobiliários,destravandoalgunsgargaloshistóricos,ecomdecisões governamentaisespecíficasquecolocaramnomercado,somentenaqueleano,

cercadeR$8bilhõesparacréditoimobiliáriooriundosdapoupança(4).

Alémdisso,aLeideAlienaçãoFiduciária,eaLeideIncorporação

Imobiliária(ouLeidePatrimôniodeAfetação),deramsegurançaaomercado,

queevidentementesereaqueceu,atraindoinclusiveinvestidoresexternos.

Porfim,aquedanataxadejuroselevousensivelmenteaofertadecrédito

imobiliário,emboraestaaindasejanoBrasilextremamentetímidaem

relaçãoaospatamaresdospaísesdesenvolvidos,dadaacaracterística

restritivadonossomercado,extremamenteconcentradordarenda.

Emdecorrênciadisso,omercadoimobiliáriobrasileiroinicioupela

primeiravezumimportantemovimentonosentidodeampliarsuaprodução

parafaixasderendaintermediária,jáqueasuatradicionalequaseque

exclusivafaixadeatuação,afatiaAAAdomercado,dealtarenda,tornara-

sesubitamentepequenaparatantocréditodisponível.Muitasconstrutoras

abriramentãosubsidiáriasparaatuarnoquepassaramachamardesegmento “popular”ou“econômico”,emboraeleestejamuitolongedapopulaçãode

baixarenda,masserefiraaumamercadocapazdepagarentreR$80mile

120milporumimóvelresidencial.

Nomesmoembalo,noanode2009,emrespostaàcriseeconômicamundial,o

GovernoFederallançouumprogramainéditodefinanciamentohabitacional,o ProgramaMinhaCasaMinhaVida(PMCMV),comoambiciosoobjetivode produzirummilhãodecasas.Oprogramatinhaaintençãodeclaradade aqueceraatividadedaconstruçãocivil,eporissofoimoldadopara atenderpreferencialmenteessasconstrutorasprivadasdomercado“popular”

(5).

Ovolumedeproduçãoatualdecorrentedoprogramaésignificativo.Pode-se dizersemmedoqueopaísháanosnãoviatalmovimentaçãonaconstrução civil,enuncacertamentetãomaciçamentevoltadaaessasfaixasderenda.

Segundoalgunsdadosdisponíveis,jásãomaisde150milunidades

habitacionaisconstruídas.Asobrascontratadasultrapassamas500mil

unidades,repartidasentreasfaixasde0a3salários-mínimos(cercade

55%)ede3a10(osoutros45%).Oqueénovoéofatodequeumaboa

parceladestas,cercade37%estãosituadasnaregiãoNorte,umaproporção

equivalenteaoSudeste,oqueratificaadesconcentraçãodaproduçãoque apontamosacima.Outrodadoquecorroboraaafirmaçãosobreonovopapel

dascidades-médiaséquenelasselocalizacercade25%dessaprodução(6).

OProgramaMinhaCasaMinhaVidadáàsconstrutoras,comodito,umpapel

central:acimade3saláriosmínimos,sãoelasqueincorporam,diretamente

vinculadasàinstituiçõesfinanceirasprivadas,queacessamoscréditosdo

programa.Nasfaixasde0a3,asprefeituraspassamaterumpapel

importante,assimcomoaCaixa,jáquesãoelasquedefinemos

empreendimentos,eventualmente(oumuitasvezes)cedematerra,e

intermedeiamosempréstimosdaCaixa.Masmesmonestecasosãoas

construtorasasresponsáveispelaconstruçãodosconjuntos.Eaobservação

empíricadessaproduçãomostraquemaisumavezestasnãoparecemlembrar-

se–salvopoucasexceções–daexistênciaedaimportânciadosarquitetos,

emqualquerquesejaafaixaderenda.Aqualidadearquitetônicae

urbanísticanãofoiincorporadaàproduçãodessemercado“popular”privado,

dentroouforadoâmbitodoMinhaCasaMinhaVida.Oquesevêsão

conjuntosenormes,monótonospelarepetiçãoinfinitadetipos

habitacionais,comumpadrãoconstrutivodebaixaqualidadearquitetônica.

UmestudorealizadopeloLabHab-FAUUSPepelaFundaçãoGerdau,ainda

inédito,denominado“Produzircasasouconstruircidades:desafiosparaum

novoBrasilurbano”,levantouoestarrecedorcenáriodoboomdaconstrução

civilligadoaonovo“segmentoeconômico”.Nele,mostramosquenos

empreendimentosverticalizados,asconstrutorasoptamportipologiasem“H”

ououtrasvariaçõestrazidasdahabitaçãosocialdaépocadoBNH,coma

mesmapoucaqualidadeconstrutivaearquitetônica,dando-lhescerto

“glamour”demercado,graçasàutilizaçãodecorespermitidaspelosnovos

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materiaisderevestimento,ouaindaaousodosmesmosequipamentosque

seduzemosempreendimentosdealtopadrão:espaçosgourmets,fitness

centerseafins.Economizam-sepreciososmetrosquadradosemcadaunidade,

paraemtrocagastarunstrocadosemumfogãooualgumasmáquinasde

ginástica;erguem-semuroscomcercaselétricas,colocam-seguaritas,tudo

paracriarumsentimentodeascensãosocialquedinamizeasvendas.O

questionávelpadrãourbanísticodosbairrosricospassouaservirdemodelo

naproliferaçãodosnovosbairrosdeclassemédia.

Assim,vendem-seapartamentosdemenosde50m²porcercade100milreais,

dandoàpopulaçãoqueantesnuncaimaginariatercasaprópriaarealização

deumsonho,asensaçãodeseestarvivendo“comoosricos”.Oquepoderia

serbomtorna-se,porém,exageradamentecaro,comumpadrãoestéticomais

doquequestionável.Pior,amaioriadasconstrutoras“carimba”ummesmo

projetoindiscriminadamenteemqualquerregião,semnenhumapreocupaçãocom

aadequaçãoclimática,topográfica,etc.

aadequaçãoclimática,topográfica,etc. Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

Nosempreendimentoshorizontais,geralmentesituadosemregiõesmenos

urbanizadasounasperiferiasdistantesdasgrandesmetrópoles(pelomenor

custodaterra),chamaaatençãoareproduçãoinfindáveldecasinhasde

duaságuas,aquelasqueexemplificarampordécadasamáprodução

habitacionalpública,agorarealizadapelosetorprivado(porémcom

importantefinanciamentopúblico).Poucavariedadetipológica,nenhuma

inventividadeconstrutivaquepossaalterarasensaçãoderepetiçãoedese

moraremumpombal.Custa-seaacreditarquesejaoferecidaaalguéma

compradeumimóvelidênticoàscentenasdevizinhos,algunsapoucos

metrosdaportadeentrada.Porém,nossoquadrohabitacionalaindaétão

dramáticoeoacessoàcasatãorestritoquemuitasvezesessaé,parao

comprador,arealizaçãodeumsonhoeapossibilidadedeacessoàumavida

melhor,pelaqual,aliás,paga-sebastantecaro.Seaindaaquestãofosse

apenasafaltadediversidadeeamesmicedoprojeto,emumaexcelente

implantação,respeitosadorelevo,compraçaseequipamentos,arborização

abundanteefacilidadesdecomércio,esseproblematalvezimpactassemenos.

Porém,oquesevêéaopçãoporimplantaçõescomabusodemovimentaçãode

terra(muitoimpactantesambientalmente),ouemplaníciesinfinitase

áridas,longedacidade,comusosomenteresidencial,semofertade

serviçosnemdeequipamentosemquantidadeequalidadenecessáriase,é

claro,sempremuradas.

claro,sempremuradas. EmpreendimentoshorizontaisemCampinasSP,onovo

EmpreendimentoshorizontaisemCampinasSP,onovo

segmentoeconômicodomercadodaconstruçãocivil

Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

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e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

EmpreendimentoshorizontaisemCampinasSP,onovosegmentoeconômicodo

mercadodaconstruçãocivil

Fotodivulgação[AcervoLabQuapáFAUUSP]

OprogramaMinhaCasaMinhaVidatambémincentiva–aomenosnotexto,

porquenapráticanadaseconcretizou–empreendimentosqueproponhama

reabilitaçãodeedifíciosvaziosemáreascentrais.Umarápidaconta,já

comprovadaemváriosexercíciosdefaculdade,mostraqueoscustosde

compraereabilitaçãodessesedifícioscabemperfeitamentenaequaçãode

financiamentodoprograma,parafaixasderendaentre5e10salários-

mínimos.UmapropostainteressanteseconsiderarmosquenoBrasilhácerca

de5milhõesdeunidadeshabitacionaisvazias,paraumdéficithabitacional

decercade6milhões,emaisaindaquandoobservamosquenaEuropacerca

de50%daatividadedaconstruçãocivilédereformaereabilitação.Lá,

porém,desdeopós-guerraomercadodaconstrução,oqueincluios

arquitetos,estabeleceucondiçõesparaquesedesenvolvesseessavertente

importantedaarquiteturaedaconstrução.Umavertentequeenvolvea

participaçãodosarquitetosemquestõesdesustentabilidade,deadequação

dastécnicasconstrutivas,dosmateriais,eassimpordiante.Emaisuma

vez,pergunta-se:qualonossoavançonessadiscussão?Omercadorefuta

sistematicamenteapráticaderetrofitalegandoseualtocusto,os

arquitetospoucoseimportamcomumafacetadaprofissãoquedápouco

retornoàobraautoral,masquepoderiasersocialmentemuito

transformadora.Eismaisumexemplodecampodeatuaçãoaseraberto,eao

qualaprofissãomantém-se–salvoexceções,comosempre–afastada.

Aperguntaquenoscabeéaseguinte:ondeestáarquiteturaemtudoisso? Paraalémdafestejadaarquiteturabrasileiradosescritóriosautorais,a profissãonãodeveriaserparteatuantenalinhadefrentedesseprocesso deurbanizaçãoqueassistimos?Exigindoarealizaçãodeprojetos,a discussãodequalidade,incentivandonovastecnologias,aindustrialização construtivacomqualidade,etc?Porém,temosqueadmitirquenossa profissão,atéagora,estáalienadadissotudo.Saudosostempos,quandoem

1963,oSeminárioNacionaldeHabitaçãoeReformaUrbana,contandocoma

participaçãodegrandesarquitetos,foracapazdepautaraspolíticas

habitacionaiseurbanasdopaís.

habitacionaiseurbanasdopaís.

ConjuntohabitacionalCarlLegien,Pankow,Alemanha,1928-1930.Arquitetos

BrunoTauteFranzHilinger

FotoDorisAntony[WikimediaCommons]

Mas,hoje,oquadroédeumaprofundaalienaçãoàsperspectivas

desafiadorasqueaatualconjunturaoferece,mesmoquandosetratadeuma

produçãoprofissionaldegrandequalidade.Pior,aalternativaàboa

arquiteturaautoraléadasubmissãoaosditamesdomercadoeseus

imediatismoscomerciais.Porém,mesmoanossaescola“moderna”,

supostamenteherdeiraereprodutoradaarquitetura“dequalidade”,talvez

nãotenhapercebidooquantosedistancioudosdesafiosqueopróprio

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modernismosecolocou,quandodoseusurgimento:oderesponderàdemanda

maciçapormoradiasnaEuropa.SérgioFerro,emseuclássicoartigo

“ArquiteturaNova”,defineaarquiteturamodernacomoaquelaquemostre

capacidadedelevantarpropostaspara"oatendimentodeumprogresso

esperadoedenecessidadecoletivas".Aarquiteturadeveriaentãoadiantar-

seaoporvirdasociedade,refletindoeoferecendosoluçõesarquitetônicas

econstrutivasquerespondamaocenáriofuturo.Pergunta-se:éissoquese

vêemfacedaimplosãoconstrutivaqueoBrasilvive?

vêemfacedaimplosãoconstrutivaqueoBrasilvive?

Unitéd'Habitation,Berlim.ConstruídaparaaInternationalExhibition

(Interbau)de1957.ArquitetoLeCorbusier

FotoManfredBrückels[WikimediaCommons]

Nãofoiàtoa,portanto,queomodernismoeuropeujánosanosvinte,e

posteriormentenoPós-Guerra,elegeriaahabitaçãosocialcomooprincipal

desafioparamestresdaarquiteturacomoMay,Gropius,LeCorbusiere

tantosoutros.Nãohaviavergonhanemhesitaçãoemcolocaraprofissãoà

frentedanecessidadedeproduzir,emumaconjunturaeconômicade

construçãodocapitalismoindustrialdeconsumodemassaedobem-estar

social,asmoradiasquetalmomentodemandava."DeLedouxaLeCorbusier,

sãoconstantesassugestõesqueavançamsobretempo",apontaFerro.Oque

pensariamessesmestresaovernonossopaís,reconhecido

internacionalmenteporperpetuaromodernismo,asuaprofissãoalienadado

desafioderesponderaumdéficitdeseismilhõesdemoradiaseacidades

commetadedesuapopulaçãovivendonainformalidade?Aarquitetura

brasileiraestariaacimadetodaessareflexão,parapermitir-seficar

distantedastransformaçõesqueopaíspassa?

Eaarquiteturanacidadeinformal?

Poisseomercado–entenda-seaquelesetordaeconomiacapazdecontratar

osserviçosdearquitetos–estáseampliando,mesmoqueaarquitetura

brasileiranãopareçaterassimiladoaimportânciadoprocesso(quea

indústriadaconstruçãocivileomercadoimobiliário,quantoaeles,já

assimilaram),issonãoquerdizerquetenhamos,naoutrafacedamoeda,

resolvidoatragédiaestruturaldasnossascidades,resultantedopróprio

subdesenvolvimento.

FlorestanFernandesdefendiaqueoBrasildárecorrentementesaltos

“modernizantes”quenoslevamaumnovopatamareconômicosemque,

entretanto,tenhamossuperadocomissoosdesequilíbriosestruturaisda

etapaanterior.Porém,criam-seacadasalto“mitosdamodernização”,que

servemparalegitimá-los,mesmoque,paraocorrer,taisavançostenhamque

alimentar-sedoaprofundamentodoatrasoedamiséria.Comomostrouo

sociólogoFranciscodeOliveira,omodernonoBrasilalimenta-sedoatraso,

eassimpareceocorrernasdinâmicasurbanas.Ocrescimentodascidades

médias,aeuforiadoboomdeurbanização,éumapseudomodernidadequese

alimentadacontinuidadedaurbanizaçãodesigualesocialmente

segregadoras,queelegeuanão-democratizaçãodosolourbano,a

proliferaçãodosanti-urbanísticoscondomíniosfechadosdeluxo,a

verticalizaçãodeforteimpactoambiental,aopçãopreferencialpelo

automóvel,ouaindaaperiferizaçãodapobrezacomoseusatributos

principais.Muitoembora,nasaparências,essaeuforiadocrescimentose

alimentede“mitosmodernizantes”comoaCopadoMundo,osJogosOlímpicos,

pontesestaiadas,escolasdedançaeoutrasfontesluminosas,àsvezescom

projetosurbanosearquitetônicosdegrandesestrelasdojet-set

internacional,muitovistososcomofactoideseleitorais,maspouco

estruturantesdacidadee,sobretudo,raramentedemocráticosnasua

concepção.Asdecisõesdeinvestimentospúblicosnessesprojetossãofeitos

emgabinetes,raramentecomparticipaçãodoscidadãos,easaudiências

públicastêmsetornadocadavezmaispeçasdeteatrosemnenhumefeito.A

faltadeconcursospúblicosearecorrênciadapráticadeprojetosurbanos

edeequipamentoscontratadosporviaspoucoclarasaindaé,infelizmente,

praxe,inclusivenamaiorcidadedopaís.

Nãopodemosesquecer,portanto,queemboraestejamosassistindoauma

ebuliçãonomercadoimobiliáriodeclassemédia,nossascidadesaindasão,

hojeemdia,caracterizadaspelasperiferiasauto-construídaseprecárias.

Enessasperiferias,nãoháarquitetura,nãoháurbanismo.Comojádito,

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nesseaspectonossaprofissão,quandovistaemseuconjuntoenãonaação

dealgunsgrupostãobatalhadoresquantominoritários–dentrodogoverno

ouempequenosescritórios–,deveaceitarseuabsolutofracasso.Mesmo

que,nasuavertenteautoral,semprefrequentasseasmaisfestejadas

premiaçõesinternacionais.Mascomopodemosfalaremcidades

“globalizadas”,porcausadeseusprédiosemalumínioefachadasdevidro,

emumpaísemquemuitasdelas,edasgrandes,sequertêmmetadedasua

populaçãoservidaporalgotãobásicocomoosaneamento?

Pergunta-se:essesdesafios–odaconstruçãodecasasdequalidadeparaos

queseamontoamemperiferiasauto-construídas,odaurbanizaçãodessas

periferiascomqualidade,integrando-asàcidade“quefunciona”,oda

estruturaçãodesistemasdemobilidadeurbanademocráticoseeficientes,o

daprovisãogeneralizadadesaneamentoambiental–nãodeveriamseros

temasprioritáriosdediscussãodaarquiteturabrasileira?

temasprioritáriosdediscussãodaarquiteturabrasileira? CapadarevistaVeja,edição1684,de24dejaneirode 2001

CapadarevistaVeja,edição1684,de24dejaneirode

2001

Porém,acidadeinformalaindaaparecemaisdoquetudocomoumincômodo.

Assimsentenciavajáem2001arevistaVeja(Edição1684,de24dejaneiro)

aoestamparemsuacapaumdesenhoemqueumpequenoecoloridogrupode

casasarborizadaseprédios“dearquitetos”(dentreosquaissereconheceo

CopaneoEdifícioItália)apareciaenvoltoporumamassacinzentade

casebres,sobumtítulobastanterevelador:“Ocercodaperiferia:os

bairrosdeclassemédiaestãosendoespremidosporumcinturãodepobrezae

criminalidadequecresceseisvezesmaisqueoscentrosdasmetrópoles

brasileiras”.

Aseguiroraciocínio,restariaconcluirqueparadesfazer-sedospobres

que,naterrívelvisãodarevista,alémdesereproduziremdemais,são

tambémcriminosos(pobrezaecriminalidadeaparecemnafrasenaturalmente

associados),talvezomaisfácilfossesimplesmentemandarexplodiratal

periferia.Tomandoocuidado,éclaro,paranãoacabarcomtodaela,pois

senãoquemiriaservirefazerfuncionaracidadeformalcolorida,verde,

urbanizadaecheiadeprojetosarquitetônicos,eosquenelahabitampor

teremtidoasortedenascerdo“ladocerto”danossasociedadecindida?

Ninguém,porém,contestouotamanhodamonstruosidadeestampadanessacapa.

Nemmesmoosarquitetos,afinal,osprincipaisenvolvidosnadiscussãodas

cidades.

Tristeconstataçãodeumasociedadecujo“andardecima”sequersedignaa

assumiralgumaresponsabilidadesobreumdesequilíbrioestruturalqueestá

levandoàimplosãodasnossascidades.Muitopelocontrário,prefereculpar

ospobres,porumcenáriodecorrenteessencialmentededoisfenômenos:a

históricaconcentraçãodarenda,porumlado,easegregaçãosócio-

territorial,poroutro,quetranspõeparaoterritórioosefeitosda

desigualdadeeconômica.Seaprimeiracausapodeserimputadaapolíticas

econômicasmaisamplas,asegunda,emcompensação,éderesponsabilidade

dosarquitetoseurbanistas.

Porém,aoinvésdeassistirmosaumamobilizaçãocidadãporpartedetodaa

classedearquitetos-urbanistasparaerradicartaisdesequilíbriosurbanos,

oquesevêsãoprefeiturascriandorampasebancosantimendigos,arrasando

favelasouconstruindomurosparasegregá-las.Oquesevêéumpadrão

urbanodo“andardecima”quepreconizacondomíniosfechadoseoisolamento

atrásdemuros,guaritasecercaseletrificadas.Atranquilidadeeobem-

estardafamíliadeclasse-médiabrasileiraestánabuscadesoluçõesque

exacerbamafraturasocialeestimulamumafragmentaçãodignadoapartheid

sul-africano,equesópoderágerar–sejánãotivergerado–abarbárie

emnossascidades.

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Ocuriosoéque,nobojodetantastransformações,hojeaarquitetura

social,vinculadaàproduçãopública,historicamentedesprestigiadapela

profissão,équemestádandoliçõessobrecomoavançarnocampodaprodução

demoradiaparaapopulaçãodebaixarenda,oferecendoalternativas–

emboraaindapontuais–demelhorqualidadedoqueoqueproduzonovo

“mercadoeconômico”privado.Pormaisincrívelquepareça,emumpaísem

que“habitaçãosocial”sempreremeteuaohorrordosconjuntoshabitacionais

doBNH,aarquiteturapúblicadeinteressesocialhojeestámuitoàfrente

domercado,emboraaindahajalongocaminhoapercorrer.

Istosemdúvidadecorredacorajosainsistênciaedoknow-howadquirido pelospequenosgruposque,háanos,tentamavançarnessaárea,sejade técnicosdentrodasprefeituras–comtodasasdificuldadesimpostaspor umamáquinaengessadaparaosobjetivossociais–,sejadaschamadas

“assessoriastécnicasdemutirão”,quedesdeaconstituiçãode88iniciaram

umlento,massólidotrabalhodereconstituiçãodapráticadaarquitetura

paraosmenosfavorecidos.A“arquiteturasocial”,normalmentetão

desprestigiadapelosprópriosparesnaprofissão(quantasvezesnãoouvi

colegasdesaconselhandoalunosafazerprojetosdehabitaçãosocialpor

issonãoser“arquitetura”),hojefoicapazdeestabelecerumpadrãode

produçãocommuitomaisqualidadedoqueestáfazendoonovo“mercado

econômico”.

EmSãoPaulo,nofinaldadécadade1980,arealizaçãosistemáticade

concursosdearquiteturaparahabitaçãosocialprovocouumainflexãona

qualidadedessaprodução,graçasàentradaemcenadosarquitetos.NoRio

deJaneiro,oIABlocalsedestacavajánessaépocaporpromovera

discussãoemtornodaquestãodahabitaçãosocial,assimcomocidadescomo

Recife,SantoAndré,Diadema,ouPortoAlegre,queimplementavam,

antecipadamenteatéaoEstatutodaCidade,apráticadaurbanizaçãodeseus

bairrosprecários.

Assim,acumulou-seimportanteconhecimento,cominovaçõestecnológicas, comoaintroduçãodaalvenariaautoportante,daargamassaarmada(queem algunscasosgerouatécertaindustrializaçãodoprocessoconstrutivo, notadamentecomasexperiênciasdeLelé),dousodeestruturasmetálicas. OsconjuntosCopromo,emOsasco-SP,ouUniãodaJuta,emSãoPaulo, projetadospelaassessoriaUsinaeambosconstruídosemregimedemutirão comautogestão,atravésdeconvênioscomaCDHU-SP,aindanadécadade

1990,ouaproduçãodaassessoriaCearahPeriferia,namesmadécadanas

imediaçõesdeFortalezaCE,sãoexemplosdiversosemarcantes,entre

muitos,dessainflexãoqualitativa,quetodoalunodearquiteturadeveria

conhecer,tantoquantoosprojetosautoraisnacionaisouinternacionaisque

normalmenteinundamseurepertóriodeestudos.

normalmenteinundamseurepertóriodeestudos. ConjuntoHabitacionalCopromo,OsascoSP.ProjetoUsina/Centrode

ConjuntoHabitacionalCopromo,OsascoSP.ProjetoUsina/Centrode

trabalhosparaoambientehabitadoeconstruçãopormutirãoautogerido

FotoJoãoSetteWhitakerFerreira

Éclaroquealgumasmudançasestruturaisnapolíticahabitacional

brasileiracontribuíramparaisso,comoacriaçãodoMinistériodasCidades

edaSecretariaNacionaldeHabitação,aaprovaçãodoEstatutodaCidade,a

formaçãodosconselhosefundosmunicipais,estaduaisefederalde

habitação,eassimpordiante.Aindaassim,emboraoEstatutotenhadado

condiçõesparaqueosmunicípiosimplementasseminstrumentosdecombateao

déficithabitacional,àretençãoespeculativadaterraeàorganização

territorialsegregadora,nossasociedade–enela,osarquitetos-urbanistas

–aindanãosoube,ounãoquis,fazerfrenteaodesafioehoje,passados

quasedezanos,praticamentenenhummunicípiodopaísaplicoudeforma

consistente,maciçaesistêmicaumconjuntodeinstrumentosquetenha

efetivamentealteradoaequaçãodasegregaçãosócio-espacial.

UmadasdificuldadesqueseimputarecorrentementeaoMinhaCasaMinhaVida vem,aliás,justamentedai:nãoadiantaresponsabilizaroprogramapor alavancaraocupaçãodeperiferiasdistantescommaisemaisconjuntos habitacionaissofríveis,emrazãodopreçodaterramaisbarato,sea prerrogativadegeriraocupaçãodoterritórioédosmunicípioseestes,

desde2001,poucoounadafizeramparaaplicarosinstrumentosdoEstatuto

daCidadequepoderiam,porexemplo,dar-lhescondiçõesdefazerestoques

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deterraemáreasmaiscentraisparahojedestinaràhabitaçãosocialno

âmbitodoMinhaCasaMinhaVida.

Massenocampodoplanejamentoestamosaindaestagnadossobreoavançoque representouoEstatuto,nocampodaarquiteturaháavançosconcretos,mesmo queaindapoucoexpressivosquantitativamente.Éinegávelamelhoriade qualidadenosprojetosdaCDHUdeSãoPaulo,porexemplo,quedesenvolve importantediscussãointernasobreaqualidadeconstrutivaearquitetônica.

ACDHU,aliás,lançouem2010o“Habitaçãoparatodos”,importanteconcurso

detipologiasparahabitaçãosocial,queagoradesenvolveparaconstruir.O

IAB-SPdesde2008estabeleceuemsuapremiaçãobi-anualacategoria

“habitaçãodeinteressesocial”,reconhecendoaimportânciadamesmaparaa

profissão.ORiodeJaneirodestacou-seem2011porlançaroconcurso

“MorarCarioca”,paraprojetosdeurbanizaçãodefavelas,oquea

PrefeituradeSãoPaulofeztambém,nasequencia.

Aliás,éalentadorqueemtodosestesconcursos,houveumanumerosae

entusiasmadaadesãodosescritóriosdearquitetura,algunsatédaquele

promissorgrupocitadonoiníciodestetexto.Oquemostraqueos

arquitetos,mesmoaquelespreocupadoscomumaarquiteturadeperfilmais

autoral,sãosensíveisaessesnovosdesafiosimpostospornossatrágica

realidadeurbana.

Comoadventodo“PAC-Urbanizaçãodeassentamentosprecários”,umapolítica

públicafederalenfrentapelaprimeiravezdefrenteemaciçamentea

questãodaurbanizaçãodefavelas,comosevênoRio,noMorrodoAlemão.

EmManaus,umprogramadoGovernodoEstado,oProsamin,vemenfrentando

tambémcomcertosucessoequalidadearquitetônicaeurbanaasituação

precáriadosigarapésdacidade.

precáriadosigarapésdacidade. ConjuntoHabitacionalProsamin,ArquitetoLuizFernandoFreitas–

ConjuntoHabitacionalProsamin,ArquitetoLuizFernandoFreitas–

CooperativadeprofissionaisdoHabitat,ManausAM

FotoJoãoSetteWhitakerFerreira

Oavançonessecampodaarquiteturadeveriaservistocomatençãopela

classedosarquitetos-urbanistas,poissetratajustamentedeumamudança

quenãoresultoudaaçãodeumououtroarquiteto,massimdeuma

mobilizaçãoinstitucionalqueenvolveugovernos,movimentossociais,

técnicosdofuncionalismopúblico,etambémevidentemente,engenheirose

arquitetos.Assim,valeoalerta:nãosetratadefazerumaarquitetura

autoralaplicadaasituaçõesdeprecariedadeounaperiferia,acreditando

queassima“boaarquitetura”segeneralizará.Mesmoporque,comojádito,

foiaexperiênciaacumuladaporquemtrabalhanaárea,àsombradoglamour

daprofissão,queestáditandoosavançosqueapontamos.Comodiza

urbanistaErminiaMaricato,oBrasiléhojeumdospaísesquemaisexporta

conhecimentonaáreadaurbanizaçãodeassentamentosprecários,porémo

espaçoqueessaproduçãotemnonossoprópriomeioacadêmiconãosóé

mínimo,comodesvalorizado.Prefere-se,defato,buscar“soluções”de

arquitetoseuniversidadesdepaísescentrais,queaportamporaquicom

muitafestaecomreceitasquepoucoseaplicamànossarealidade.Oque

vemdeforaésempremelhor,assimditaaculturadas“idéiasforado

lugar”tãoacalentadapornossaselites.

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e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

PACUrbanizaçãodefavelas,MorrodoAlemão,RiodeJaneiro.Arquiteto

JorgeMarioJauregi

FotoGabrielLeandroJáuregui

Aquestão,portanto,érepensaraformadeatuaçãodoarquiteto,poisas demandassociaispodemmudarconcepçõesdeformaseconteúdosespaciais,e darumnovosentidoàprofissão,emseupapelhistórico.Háatualmenteno Brasilumanovalei,adaAssistênciaTécnica,quegaranteàsfamíliascom

rendadeaté3saláriosmínimosodireitoàassistênciatécnicapúblicae

gratuitaparaprojeto,construçãooureformadesuasmoradias,ecomisso

prevêaorganizaçãodaatuaçãodosarquitetos,porpartedasprefeituras,

paraatenderdeformasistemáticaeorganizadaademandadacidade

informal.Osarquitetos,entenda-seosIABs,asfaculdadesdearquitetura,

osescritórios,deveriamestarcompletamentesubmergidosporestedesafio

(comovêmfazendo,valeobservar,aFederaçãoNacionaldosArquitetoseos

sindicatosestaduais)querepresentaumaenormeoportunidadedeampliação

domercadodeatuação,sobretudoparanossosjovensrecém-formados.

Oquedizer,então,daenormeoportunidadedemudançaquesecolocacoma

próximacriaçãodoCAU?Teremosumórgãoqueiráreproduzir,comalguma

melhoria,aslógicasepreocupaçõeshistoricamentesustentadaspelosCREAs,

claramentevoltadasquasequeexclusivamenteàregulaçãodaprática

profissional,ouaproveitaremosaoportunidadepararepensar,demaneira

tolerante,solidáriaedemocrática,opapeldanossaprofissãona

construçãodonossopaísefazerumaverdadeirarefundaçãodaarquitetura

brasileira?

Nãoéprecisoinsistirnoquantotaldiscussãoéfundamentalparanossos

estudantesdearquitetura.Aquelesmesmosquesesentemangustiadosemface

deummercadoqueàsvezeslhesparecetãorestritoecompetitivo.Pois

ficaclaroqueaarquiteturaeourbanismosãoformaçõescomplementares

extremamenteamplas.Cabeaoscursosdearquiteturapromoveressa

aproximaçãocomarealidadee,conseqüentemente,umasensívelampliaçãodo

campoprofissional.Umarquitetoquequeirafazerfrenteaosdesafiosqueo

Brasilhojelheapresentadeveserumbomprojetista,semdúvida,masdeve

entenderdahistóriaeconômicaesocialdanossaformaçãonacional(para

compreenderascausasdosproblemasqueenfrentará),devetransitarpelo

campodalegislaçãourbanística,deveconheceraspectosbásicosde

engenhariaambiental,devesaberdeeconomiaurbana,eassimpordiante.

Devetornar-seumcidadão,umserpolíticocapazdecolocar-seativamente

nasdiscussõessobrenossofuturo,emespecialnoquedizrespeitoao

ambienteconstruído.Serecebessemtalformação,asperspectivas

profissionaisdosnossosrecém-formados,nãosóemescritórios,masem

instituiçõespúblicas,governos,ONGs,tornar-se-iammuitomaisinstigantes

ediversas.

Aarquiteturabrasileiranãopodeconformar-seemapontarapenasdois

caminhos:oudaarquiteturada“altacostura”(7)egrandequalidade,

destinadaaomercadodealtarenda,ouodaarquitetura“demercado”

conformadaaumamediocridadeditadapelosinteressesimobiliários.O

urbanismobrasileironãopodecontinuaraserreprodutordepráticas

segregadoraseexclusivistas.Ohumoristanorte-americanoGeorgeCarlin

diziaqueoímpetoecológicode“salvaroplaneta”temumproblema

conceitual:aTerra,quejásobreviveuamovimentostectônicose

cataclismas,estarámuitobempormaismilhõesemilhõesdeanos,mesmoque

vireumarochadesértica.Nãoserãoalgunssacosplásticoselatasde

alumínioqueafarãodesaparecer.Quemestáemperigo,istosim,somosnós,

poisnãosobreviveríamosaodesastredasnossasprópriasações.“Salvemos-

nos”,deveriaseroslogan.Poisoraciocíniovaleparanós,arquitetose

urbanistas:“salvemascidades”,seráessaaverdadeirapreocupação?Nossas

urbespodemsobreviverporanos,porémemumcenárioàlaBladeRunner,

recortadaspormuralhaseletrificadas,semsaneamento,comespaçospúblicos

abandonadosàprópriasorte,milíciasarmadasafazerasegurança.Oquea

Vejaapontacomoumcercoestásetornandoarealidade;comolembraErmínia

Maricato,apobrezaurbananãoémaisexceção,masaregra.“Salvemo-nosa

nosmesmos”,essedeveriaserocaminhoparaonovoBrasilurbano.Eos

arquitetosteriammuitooquedizerarespeito,casoseconscientizemque

nãopodem,maisumavez,deixarpassarobondedahistória.

08/05/13

arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

notas

1

Exceçõescomoosrecentesconcursosparaurbanizaçãodefavelas,noRiode

Janeiro,oudeHabitaçãoSocial,emSãoPaulo,àsquaisestesmesmosjovens

arquitetosmuitasvezes,efelizmente,seagarramnabuscasalutarde

conseguiralgumaoutraalternativadeatuação.

2

ExposiçãoapresentadanaPanamericanaEscoladeArteeDesign,eorganizada

pelamesma,emparceriacomoArquitetoSiegbertZanettini.

3

Cetelem/BNPParibas,publicadoem

4

Aresolução3177doBancoCentral,de8demarçode2004,obrigaraas

instituiçõesfinanceirasaaplicarefetivamente–jáqueessedinheiro costumavaficarnoBC–porcentagemdoFundodeCompensaçãodasVariações

Salariais(FCVS,2%)edoSistemaBrasileirodePoupançaeEmpréstimo(SBPE

–acadernetadepoupança)emempréstimosimobiliários.Tambémexigiu dessasinstituiçõesquecumprissemacordoanteriorparaliberaremparcelas

osaldodoFCVSacumuladodesde1996.

5

Comsignificativosfundosefacilitaçãodecrédito,oprogramabeneficiao mercadoderendamédia,mastambém,pelaprimeiraveznessaescala,a

classederendamuitobaixa,abaixode3salários-mínimos,oferecendonesse

casoimportanteseinéditossubsídios.

6

OquerevelaumdosdesafiosqueoMCMVdeveenfrentar,jáqueénas

grandesmetrópolesqueseconcentraaquasetotalidadedodéficit

habitacionaledademandapormoradiadeinteressesocial.

7

ExcelentenomedadopeloarquitetoRodrigoVicino,quandomeualuno.

sobreoautor

JoãoSetteWhitakerFerreira,arquiteto-urbanistaeeconomista,mestreem ciênciapolíticaedoutoremurbanismo,éprofessordaFaculdadede ArquiteturaeUrbanismodaUSPedaUniversidadeMackenzie,ecoordenador doLaboratóriodeHabitaçãoeAssentamentosHumanos–LabHab,daFAUUSP.É,

paraoanoletivo2011-2012,professorvisitantedoInstitutdeHautes

Étudesdel´AmériqueLatine–IHEAL(Paris3-SorbonneNouvelle).Autordo

livroOmitodacidadeglobal(Vozes,2007),éatualmentevice-presidente

doIAB-SP.

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Publicando como Andreia Moassab (Não é você?)

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Erico Masiero

Caro Prof. João, Vejo que as escolas de arquitetura hiper valorizamespecificamente a atividade de projeto, e atualmente há uma escassez enorme de profissionais especialistas emdiversas áreas. Emgeral, acredito que os arquitetos aproveitampouco do potencial profissional e das atribuições dispostas na Lei n° 12.378, de 31 de dezembro de 2010. Parabéns pelo texto.

   
Rossana Honorato · Seguir · Professora de Arquitetura e urbanismo na empresa
 

Excelente reflexão! Animadora! Parabéns ao autor pela lucidez da abordagem, generosamente partilhada entre nós, cá na Paraíba, pelo colega Marco Suassuna. Penso

 

que cabe a nós, arquitetos sensíveis à amplitude de nosso ofício, união corporativa, no sentido saudável da palavra, embenefício da coletividade e pela afirmação da função social da arquitetura e do urbanismo. Me preocupa a reputação pública da profissão cada

vez que fico sabendo de profissionais que mudam, desistemda profissão

Isso é muito

ruim! E isso carece de determinação emprol do rigor e do perfil da formação profissional, regulando junto comas escolas o número de vagas de acesso, a eleição de conteúdos que a sociedade brasileira requisita e monitorando os destinos do exercício da profissão, dos profissionais egressos.

1

 
Jefferson Pacheco Fontenelle · Seguir · UTP

· UTP

Nossa! Terminei de ler o texto e tive vontade de bater palmas! Me emocionei comas ideias contidas aí. Tomara que embreve essa realidade mude e consigamos construir um mundo mais justo.

 

4

Claudio Amaral · Professor na empresa Unesp  
 

08/05/13

arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios

para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

Parabens, vou divulgar.  

Parabens, vou divulgar.

 
 
  Sidney Tamai · Professor/Pesquisador na empresa FAAC UNESP (atual), Unicamp, Puc-Campinas

Vou ler, depois te falo. Acho que o João Whitaker é amigo do Alex.

 

Responder · Curtir · 10 de dezembro de 2012 às 18:31

Grasi Drumond · Seguindo · Coordenador na empresa Ashoka Empreendedores Sociais

leia agora.

 
  Raphael Potratz · Trabalha na empresa Universidade Federal do Espírito Santo - UFES

já li! dmais.

 
 

1 · Curtir · 27 de setembro de 2011 às 01:40

Ivana Fontenele · Arquiteta na empresa A4 Arquitetura e Design Ltda.

Salvemos a nós mesmos! Artigo muito bompara os jovens arquitetos!

 
  Christiana Pecegueiro · Seguir · UEMA

· UEMA

ótima reflexão! valeu!! Pena que a grande maioria ainda tenha esta visão reducionista da arquitetura

 

1

· Curtir · 26 de agosto de 2012 às 20:27

Úrsula Motta · Universidade Federal Fluminense

Muitas vezes me vi frustada ao fazer arquitetura, poi pensava que só existia arquitetura para aqueles que podiampagar, bomsaber que por mais que seja difícil, há umoutro caminho a ser escolhido.

 
Daniela Bobsin · Seguir · Universidade Federal de Itajubá - Unifei

que texto espetacular! dedico a todos os colegas arquitetos e urbanistas, não deixemde ler, está muito bomMESMO.

 

3

Daniela Bobsin · Seguir · Universidade Federal de Itajubá - Unifei
 

2

· Curtir · 4 de maio de 2012 às 00:21

 
  Adriana Santana Pereira · Arquiteta e Urbanista na empresa Arquitetura e urbanismo

vou ler sim

 
 

Responder · Curtir · 4 de maio de 2012 às 00:24

 
  Daniela Bobsin · Seguir · Universidade Federal de Itajubá - Unifei
 

2

· Curtir · 4 de maio de 2012 às 00:26

 
  Ver mais 1
Marcos Diligenti · Docente e Investigador na empresa PUCRS

Excelente artigo!

 
Fernanda Pincelli · Trabalha na empresa Arquiteta e Urbanista

nossa, umsuper artigo inteligentissimo! os arquitetos que vestema camisa querembotar a mao na massa! é isso mesmo

 
Fernanda Pincelli · Trabalha na empresa Arquiteta e Urbanista

é grande mas acrescenta meninas

2 · Curtir · 9 de maio de 2012 às 11:58

Fernanda Pincelli · Trabalha na empresa Arquiteta e Urbanista

Camila, temuma parte relacionada a sociologia que achei fantastica

2 · Curtir · 9 de maio de 2012 às 12:13

Camila Medeiros · Trabalha na empresa W torre

Camila Medeiros · Trabalha na empresa W torre

Para refletir

Bernardo Amaral · Deutsche Schule Porto  
 

Reflecte sobre temas que poderão se aplicar a actual situação portuguesa, como devido desconto de escala e cultura urbana.

· Seguir publicação · 29 de março de 2012 às 05:45 Marcos Diligenti · Docente e

Caro Bernardo,penso que o Processo SAAL,realizado aí emPortugal na década de 70, temainda muito a ensinar sobre essa questão, não seria a

08/05/13

arquitextos 133.07: Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil | vitruvius

hora de reinventá-lo?

1 · Curtir · 27 de abril de 2012 às 23:26

Caroline Aquino Lima · Arquitetura e urbanismo

Ótima reflexão para nós futuros arquitetos e para o ensino nas faculdades!!!

Ítalo Stephan · Universidade Federal de Viçosa

Excelente texto. Há outros caminhos para a Arquitetura e o Urbanismo brasileiro e temos de lutar por eles, via educação, crítica e participação efetiva. As cidades, independentemente de seu porte, estão piorando. Nelas , ocorremo mesmo roteiro esplendidamente descrito pelo autor. Nas pequenas nemsequer há críticos e os problemas ambientais e de infraestrutura são graves.

 
Marcela Santana · Professora na empresa FACIG - Faculdade de Ciências Gerenciais

muito bomo texto Ítalo, realmente uma ótima reflexão sobre os rumos que a nossa arquitetura está tomando

 

1 · Curtir · 11 de outubro de 2011 às 19:47

 
  Patricia Freitag · Universidade de Brasília

adorei o texto.

Responder · 1 · Curtir · 11 de outubro de 2011 às 22:35

Santiago D'Ávila · 31 anos de idade  

Santiago D'Ávila · 31 anos de idade

 

Mestre JSWF, parabéns. Vejo o novo CAU como o "vai ou racha" da profissão. Os desafios são conquistas empotencial, devemos arregaçar as mangas e sujar as unhas pintadas e lapiseiras importadas. Tenho muitos fragmentos de idéias sobre estas transformações! umabc.

 
Aylton Silva Affonso · Arquiteto na empresa Prefeitura Municipal de Santo André

Matou a pau! O triste é a gente assistir, como vejo cotidianamente, ummonte de gente saindo das escolas sema mínima noção dessa realidade. No ano retrasado, tive a oportunidade de falar, pelo Sindicato dos Arquitetos (junto comseu presidente, o Daniel Amor), numa aula da UNINOVE, sobre o mercado de trabalho para a categoria. A história era aquela de sempre: existe mercado prá gente? Eu pedia prá todos olharempela janela (o andar era razoavelmente alto) para a cidade, e se perguntaremprimeiro: existe TRABALHO prá gente? Aí, a conversa deu liga

 
Nicia Formiga Leite · Seguir · Professora na empresa UFPI

· Professora na empresa UFPI

Excelente texto! Recomendo a todos os estudantes e profissionais de Arquitetura e Urbanismo! Parabéns ao Arq. Prof. João Sette W. Ferreira

 

6

Arthur Cogo · Universidade Presbiteriana Mackenzie

Umtexto insdipensável para aqueles profissionais e estudantes criticos que buscammaior embasamento intelectual e que atuamde forma digna no mercado de trabalho mesmo coma indignação frente a arquitetura "cereja do bolo" x a especulação imobiliária. Parabéns pelo descrito!

 
Helder Brito  
 

Perfeito o texto! Como arquiteto tambémcompartilho a angústia de ver a péssima arquitetura disseminada nessa infinidade de condomínios - principalmente verticais - disseminados pelo Brasil, a preços totalmente injustificados

· Seguir publicação · 14 de julho de 2011 às 10:40 Helder Brito Alémdisso, a urbanização

Alémdisso, a urbanização (?) das cidades brasileiras se resume a programas "tapa-buracos" ou a pavimentações de ruas e avenidas, semprojetos que contemplemuma visão do PLANEJAMENTO URBANO. Onde foramparar a ARQUITETURA e o URBANISMO?

2 · Curtir · 14 de julho de 2011 às 11:10

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