Leandro V. S.

"Um mistério. Um
homem sofre pra
entender sua mente
porque sua mente é
tudo que ele tem pra
entender a mente."
Meridiano de Sangue,
Cormac McCarthy
Cap. 1
Eu não passara a noite bem. Minha gastrite estava enfurecida e nenhum remédio conseguira aplacar sua                            
ira. Não nos encontrávamos havia algum tempo e aconteceu dela vir me visitar trazendo consigo os                            
atrasados. Herança das noites em claro e do álcool em excesso que eu havia consumido durante certo                              
tempo da vida.  Agora eu estava tranquilo, mas havia ficado o legado. Varei a madrugada atrás de                              
paliativos. Por fim desisti, não havia nada a fazer senão esperar. Quase amanhecendo ela se acalmou,                            
mas eu havia perdido uma noite de sono. O relógio do despertador marcava sete e quinze. Outro                              
plantão na delegacia estava para começar e eu não me sentia disposto. Mesmo assim arrastei o corpo                              
até o banheiro. Minha cabeça estava pesada demais. Tomei uma ducha demorada e me senti mais ou                              
menos, minha disposição subiu dois pontos.
Abri a janela e olhei para fora do apartamento. O cheiro forte de óleo diesel veio rápido às minhas                                  
narinas. O sol forte e o vento seco anunciavam mais um dia quente. As pessoas cozinhavam lentamente                              
e não percebiam. Fechei a janela e encarei a realidade. Vesti minha roupa, comi duas torradas e parti                                
pra luta. Sai do prédio andando devagar pela rua. Virando a esquina o vai­e­vem das pessoas eufóricas                              
me fez pensar em voltar. Oito da manhã e a cidade já estava o caos, apertei o passo e me incorporei à                                        
massa. O trem saía pontualmente às oito e quinze. Meu relógio marcava oito e dez.
Descendo as escadas que levavam ao metrô senti uma pontada no estômago. Gente demais, espaço de                            
menos. Espremi­me num vagão lotado rumo ao centro da cidade, de olhos fechados pescando parco                          
sono. Quinze minutos depois eu saltava na estação central, a delegacia ficava a duas quadras, num                            
sobrado cinza perdido entre prédios de luxo e escritórios sofisticados. 15ª DP – Estação Central. Subi                            
os degraus do edifício arrastando o corpo. O delegado­chefe Mendonça me esperava e não estava                          
com cara de bons amigos. O jeito como me olhou, conduzindo­me à sua sala, dizia que o dia                                
começaria cheio. Não daria nem para comentar o futebol.
Mais um homicídio na contabilidade, disparou assim que entramos.
Novidade, eu disse, brincando. Enquanto piscava para o Mendonça que me olhou de uma forma que                            
não deixou dúvida sobre o mal gosto da minha brincadeira. Sorri sem graça.
Encontraram um corpo às margens do lago, metralhou enquanto fechava a porta de vidro do escritório.
Hoje?
Sim, respondeu secamente. Quero que você assuma a investigação, falou, enquanto limpava os óculos                        
com uma flanela.
Homem ou mulher?
O quê?
A vítima?
Uma criança. Uma menina, parece. Não sei bem ao certo, quero que você averigue.
Passei a mão na cabeça. O crime mais cruel era o praticado contra crianças. Casos envolvendo                            
menores sugam a alma. Ninguém sai indiferente da cena do crime, nem mesmo o mais frio entre nós                                
consegue fechar os olhos e respirar fundo depois de se confrontar com o corpo de um ser indefeso.                                
Muitos transferem para a vítima parte do afeto que têm pelos filhos. Uma experiência incômoda que                            
todos evitavam.
Cristo, como o mundo está maluco, disse Mendonça, nem as crianças são poupadas. Cada dia eu me                              
conscientizo mais da fragilidade humana, finalizou, afundando­se em sua cadeira.
Acho que te entendo, exclamei, sentindo­me um pouco Cristo no monte das oliveiras. O direito à vida                              
se transformou em bem de luxo. A gente nunca sabe se tem ou não direito a alguma coisa.
Mendonça ficou um bom tempo mudo, concentrado em si mesmo. Depois atacou com seu discurso                          
cristão em prol dos valores perdidos. Uma tonelada de reclamação estéril que já havia se tornado                            
ladainha. Repetindo sempre as mesmas velhas fórmulas gastas do passado aos dias atuais. Não me                          
deixei levar. Pensava em coisas mais importantes. Não estava afim daquele papo. Mesmo sabendo que                          
ele tinha razão em noventa por cento do que dizia, mas no fundo eu realmente não estava interessado                                
naquilo tudo.
Bom, falou, quando percebeu que eu estava longe, ao trabalho. Enquanto isso o mundo não para, a                              
vida continua e o trem segue em frente. Mãos à obra e paciência, resumiu, organizando a bagunça                              
sobre a mesa. Já comuniquei o Oswaldo. Boa sorte, concluiu com um sorriso pálido.
Obrigado, eu disse desanimado.
Deixei Mendonça imerso em pensamentos. Sai da sala e cortei o corredor até o pátio sentindo algo                              
atravessado dentro de mim. Procurei o maço de cigarros, mas percebi que o havia esquecido em casa.                              
E fiquei surpreso por não ter fumado até então. Um possível recorde, pensei comigo, mas desprezível,                            
conclui. Pra quem já amanhecia fumando um cigarro atrás do outro, aquele tempo todo sem fumar não                              
era normal. Já fazia um bom tempo que nada mais era normal para mim. Eu Estava louco para meter o                                    
pé no balde e sumir. Oswaldo me esperava ao lado da viatura.
Cara de poucos amigos, ele disse me chacoteando, ao perceber que meu nível de humor estava um                              
pouco acima de zero.
Pois é, respondi quando entrei no automóvel. Tem cigarro aí? Deixei o meu em casa. Passei a noite em                                  
branco.
Bebendo?
Não, minha gastrite está de mau humor.
Putz! Que merda em cara.
Pois é, falei resignado. Aproveita e passa num bar qualquer. Preciso comprar cigarro.
Oswaldo me passou a carteira de cigarros. Tirei um, acendi, traguei e fui invadido por uma onda de                                
paz. Oswaldo e eu éramos parceiros há mais de dez anos. Diferente de mim ele estava sempre pronto                                
para o trabalho. Ele era meu ponto de equilíbrio. Vê­lo disposto àquela hora da manhã, com o caso                                
que teríamos pela frente, me fazia acreditar na existência de Deus.
O dia vai ser barra, Oswaldo disse enquanto ajeitava seus óculos escuros. Viu a boca podre que nos                                
passaram?
Vi, respondi sem graça. Dia ou outro acabaria acontecendo, falei.
Voltei minha concentração para o cigarro. Encostei a cabeça no encosto do banco e deixei o vento                              
forte refrescar meu rosto. Fizemos boa parte do trajeto em silêncio. Vez ou outra Oswaldo assobiava                            
um trecho de música quebrando o gelo. Eu sabia que ele queria puxar assunto.
O que está acontecendo? Perguntei.
A Beth voltou a falar em divórcio ontem, respondeu depois de um tempo.
Outra vez? Perguntei interessado.
Oswaldo balançou a cabeça positivamente. Logo depois de fazermos sexo, concluiu derrotado.
Nos últimos meses o casamento do Oswaldo descia morro abaixo. Elisabeth não tinha mais cabeça                          
para tocar o projeto. Mesmo que insistissem no impossível, a relação estava cada dia mais desgastada.                            
A vida de policial roubara a harmonia do lar. Os anos felizes cederam às preocupações e ausências                              
freqüentes nos compromissos familiares. Sobrava apenas um punhado de insatisfação respingado de                    
uns poucos momentos de alegria, nada mais. Cada dia Beth ficava mais contrariada e suas mensagens                            
eram bem claras quanto ao que ela tinha em mente. Somente meu parceiro ainda insistia em querer                              
seguir em frente.
Você já sabe o que eu acho, eu disse. Conversamos sobre isso muitas vezese você sabe o que tenho a                                    
dizer.
Não estou sendo teimoso, você sabe, não é só a Beth.
Oswaldo me olhou com olhos vagos. Na verdade o que o preocupava era a separação dos filhos. A                                
distância que se criaria saindo de casa. Outro homem no lugar que antes era seu. O lugar de pai. A                                    
possível idéia de poder falhar o deixava aflito. Quanto a tudo mais até que poderia ir para o inferno. Ele                                    
não suportaria o tédio de se ver longe dos filhos e do lar.
Mas com as crianças sempre se dá um jeito. O que você não pode é querer castigá­los não abrindo                                  
mão de uma relação que já não dá.
Eu sei, o pior foi ela ter dito isso depois de fazermos sexo, falou, deixando transparecer sua mágoa.                                
Parece que fez aquilo só para me magoar.
Talvez seja coisa da sua cabeça, isso que você está pensando. Talvez foi o momento mais fácil pra ela.
Depois de transar?
Sei lá, Oswaldo! O ser humano é um bicho escroto mesmo.
Oswaldo ficou em silêncio. Seu lábio superior repuxou no lado esquerdo. Sinal claro que eu havia ido                              
longe demais em minhas observações. Às vezes eu não conseguia prender o Hyde que havia em mim.                              
Aproveitei para ficar em silêncio também. E calados chegamos ao local do crime.
Uma pequena turba de curiosos se dependurava sobre o parapeito de segurança, às margens da                          
rodovia que dava acesso ao lago. A PM havia feito o cordão de isolamento, mas as pessoas se                                
esmagavam em busca do melhor ângulo de visão. Muitos não viam nada e a polícia tinha de ser dura                                  
senão todos iriam parar sobre o corpo. Urubus sobrevoavam o local à espera da liberação do                            
banquete. O pessoal da imprensa marrom tentava se alimentar. Alvoroçados em meio ao povo.
Encontraram o corpo numa vala lateral à descida para o lago. Num lugar conhecido como ponto final                              
da rede de esgoto. Conhecido da polícia como tradicional ponto de desova de cadáveres. Quase                          
sempre os presuntos apareciam às margens ou boiando na água podre e suja, onde acabavam virando                            
comida de urubu, peixes ou outros animais até serem encontrados por alguém.
Casa cheia, Oswaldo falou com sarcasmo, vou descer logo e ver como estão as coisas. Espero você lá                                
embaixo, completou.
Ok.
Olhei pelo retrovisor a multidão de curiosos e me senti covarde. Eles queriam justamente o que eu                              
evitava. O grande show das misérias humanas. O circo das aberrações. Senti­me cansado, mas tinha                          
que fazer minha parte no espetáculo. Respirei fundo e sai do carro com a sensação de estar carregando                                
pedras nos ombros.
Atravessei a multidão afoita e desci por uma pequena escada de terra, ao fim da qual, à margem do                                  
lago, havia pequenas poças de espuma branca de poluição. O cheiro de esgoto e peixe podre se                              
misturava tornando o ar insuportável. Meu estomago começava a dar sinais de que não agüentaria a                            
insalubridade do local. Tapei o nariz com um lenço e continuei andando por uma estrada espremida                            
entre o barranco e o lago. Encontrei Oswaldo a meio caminho de onde estava o corpo. Ele voltava do                                  
local, e a julgar pela sua palidez não gostara do que vira.
É mesmo uma criança? Perguntei.
Sim, respondeu. O cara que fez isso estava furioso ou fora de si, disse, me passando o pote cânfora                                  
para aplicar nas narinas.
Por quê?
O corpo está mutilado, respondeu, enxugando o rosto com um lenço que tirara do bolso. Que quer que                                
eu faça?
Fiquei um bom tempo olhando para lugar nenhum buscando resposta. Nada me veio à cabeça. Senti o                              
estômago doer. Pela primeira vez fiquei sem saber o que dizer. Meus pensamentos vagando, como se                            
eu quisesse escapar daquela responsabilidade. Aos poucos fui colocando ordem nas ações.
Veja se alguém conhece a vitima ou se viu alguma coisa, eu disse.
Pode deixar, disse antes de sair.
Eu fiquei ali, um pouco perdido, vendo­o subir lentamente os degraus. Um bando de pássaros passou                            
sobre minha cabeça. Um pouco mais alto os urubus dançavam no céu. O sol ardendo.
Cruzei a fita que cercava a área de segurança. O corpo estava deitado atrás de um monte de entulho,                                  
Branco como mármore, parecia uma estátua de Rodin. Aproximei­me a contragosto para analisar                      
melhor. O seio esquerdo fora parcialmente arrancado. Hematomas espalhados pelo corpo indicavam                    
violência física. Abaixo do pescoço havia um grande corte. A menina não tinha mais de doze anos,                              
presumi. Quatorze anos no máximo, talvez. Ea difícil de dizer ao certo.
Senti um enjôo incontrolável. Mal tive tempo de jogar a cabeça para frente antes de vomitar. Um                              
líquido amarelo esverdeado tingiu o solo acinzentado. Tonto, procurei um lugar para me apoiar. Foi                          
quando senti uma mão segurando forte meu braço esquerdo impedindo que eu caísse. Ao me virar,                            
Ângela estava ao meu lado me passando um lenço para limpar a boca. Apoiando­me com a mão                              
esquerda.
Obrigado, eu disse, um pouco sem graça.
Não tem de que, disse ela, sorrindo para mim. Isso choca qualquer um, não é mesmo?
Fiz que sim com a cabeça. Ângela era perita criminal. Uma morena de corpo escultural, lábios                            
proeminentes e hipnotizantes olhos verdes. Qualquer um gostaria de estar em seus braços, nem que                          
fosse por segundos. Todos a desejavam. Pena que ela era casada.
Fiquei chocada também, falou, sorrindo, mas trabalho é trabalho, completou.
Quem encontrou o corpo?
Aquele senhor, Ângela disse, apontando um velho maltrapilho que estava na marginal, conversando                      
com Oswaldo. Um mendigo que vive de perambular em busca de álcool e comida. Achou o corpo                              
quando estava procurando latas de alumínio que encalham nas margens, completou.
Latas de alumínio?
Sim. Por que, há algum problema nisso?
Não, nada de mais, respondi.
Elas valem algum dinheiro. Ângela explicou.
Quanto tempo você acha que ela foi assassinada?
Entre um e dois dias no máximo, a julgar pelo estado do corpo.
O crime ocorreu aqui?
Possivelmente, não. Pelas mordidas de peixe. A grande quantidade de sujeira em volta do corpo. Tudo                            
indica que ela foi assassinada em outro lugar, mas ainda estamos colhendo evidências. Mas tenho quase                            
certeza disto.
Depois ele jogou o corpo no lago e a maré se encarregou de trazer o corpo à margem, interrompi.
Sim, tudo indica que foi assim que aconteceu, mas se há um resto de dúvida temos de analisar melhor.                                  
Uma coisa é certa, o corpo foi jogado bem perto da margem e com as marés acabou parando aqui.
Entendi.
Sem que notássemos Oswaldo se aproximou. Trazia na mão um bloco de notas e uma caneta. No                              
mesmo instante o corpo fora colocado numa maca e levado ao rabecão do IML. Ao passar por nós                                
deixou um cheiro acre e forte no ar. Pensei que fosse vomitar novamente, mas foi um alarme falso.
Ninguém conhece a vítima, disse Oswaldo, consultando seu bloco de notas. Fora o mendigo, ninguém                          
viu nada.
Ela não morreu aqui, eu disse.
Não?
Não, respondeu Ângela, foi assassinada, jogada no lago e a maré trouxe o corpo. Ah! Outra coisa me                                
chamou muita atenção.
O quê? Perguntamos eu e Oswaldo.
Todos os dedos da mão foram cortados, disse Ângela.
Cortados? Perguntou Oswaldo.
Sim. Provavelmente para não haver identificação do corpo. Mas como a vítima é menor acho muito                            
difícil ela estar em algum registro oficial de documentação. Pode ser que a pessoa tivesse outros                            
motivos para fazer isso.
Pode ser! eu disse.
Bom, o resto é com vocês, garotos. Alguma outra pergunta?
Acho que não, Ângela, respondi. Qualquer coisa contatamos você.
Ok! Agora tenho de ir. Assim que o relatório ficar pronto eu volto a conversar com vocês.
Espero­te no carro, disse Oswaldo.
Certo, logo subo também, afirmei.
Ângela e eu ainda batemos um papo animado. Uma mera distração pra poder esquecer o fato ocorrido                              
ali. Mesmo depois de terem retirado a menina, eu ainda podia vê­la na mesma posição de antes. Fiquei                                
uns segundos perdido. Ângela perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim e aproveitamos para                          
subir também. Olhei para trás, mas não havia nada lá além de entulhos. Ainda assim algo em mim tinha                                  
sido abalado.
Retirado o corpo logo os curiosos começaram a se dispersar. Alguns poucos ainda insistiam em                          
permanecer, mas a grande maioria estava indo embora. Entre um comentário e outro, via­se o espanto                            
geral. Os urubus ainda sobrevoavam o local. Percebi que ali era um bom lugar para eles. Havia fartura                                
de alimento.
Despedi­me de Ângela e juntei­me a Oswaldo, que fumava descontraído encostado na viatura.                      
Também acendi um cigarro. Depois de uma longa tragada me senti tranqüilo. Pura tolice, uma doce                            
mentira pra si próprio. No fundo estávamos assustados. O mundo anda mesmo muito bagunçado,                        
pensei comigo.
Acho que o caso vai gelar, eu disse, quebrando o clima.
Oswaldo olhou­me sério. Depois passou os dedos nos olhos e respirou fundo. Ele também estava                          
moído por dentro, eu senti. Ficamos em silêncio até decidirmos ir embora. Um assalto pedia nossa                            
atenção. Saímos cantando pneu, sirene ligada. Eram apenas dez e vinte da manhã. O dia estava apenas                              
começando.
Cap. 2
Todos os anos mais de quarenta mil crianças desaparecem no Brasil. A maioria é encontrada                          
rapidamente, muitas nunca voltam a ser vistas. Há diversas causas possíveis para o desaparecimento.                        
Desde uma simples fuga de casa, até o rapto para tráfico de seres humanos ou o comércio negro de                                  
órgãos. Nossa menina era apenas mais um caso engrossando a lista.
Passei horas pensando o que teria acontecido para aquela criança receber tão duro castigo. Quanto                          
mais eu pensava mais me enfurecia com a covardia de quem foi capaz de cometer o crime.
Na parte da tarde depois de uma diligência o perito me entregou um retrato falado da menina. Dezenas                                
de sites e um retrato falado. Fora isso eu não tinha nada mais que me ajudasse a chegar a uma possível                                      
conclusão do que ocorrera e o que levara alguém a cometer tal barbaridade.
Eram quase duas horas da madrugada quando desliguei o computador. Eu tinha acabado de concluir os                            
relatórios do dia e decidi fumar um cigarro no pátio. A delegacia estava tranqüila, o que era quase                                
impossível de acontecer normalmente. A rotina quase sempre era a delegacia cheia de prostitutas,                        
bêbados e vagabundos envolvidos em problemas.
Levei o retrato falado da menina comigo. Enquanto fumava, entre uma tragada e outra, olhava o                            
desenho. Os traços delicados e harmônicos do rosto denunciavam uma criança triste e assustada. Uma                          
vida que havia sido brutalmente interrompida. As perguntas me jogavam numa espiral de outras                        
perguntas, todas sem saída. Alguém em algum lugar tinha as respostas, pensei, eu tinha que encontrá­lo                            
agora. Um vento frio soprou do sudoeste. Pensei que fosse chuva chegando, mas não havia nenhuma                            
nuvem em ponto algum do céu.
Comecei minhas buscas nos inúmeros órgãos de apoio aos familiares de desaparecidos, orfanatos e                        
abrigos, enviando fax com o retrato e um pequeno resumo do ocorrido. Também entrei com os dados                              
no sistema da polícia, na esperança de encontrar alguma informação e evitar que o caso ficasse sem                              
solução. Era o pouco que eu podia fazer para que a vítima pudesse descansar em paz e os pais se                                    
sentissem justiçados.
Uma brisa fria soprou em minhas costas. O frio eriçou meus pêlos. Traguei a fumaça do cigarro e senti                                  
um calor me invadir. Consultei o relógio, eram duas em ponto. Minha vez no turno do sono havia                                
chegado. Pena que as camas do alojamento são duras e desconfortáveis.
Tirei quatro horas de sono pesado. Cercado de sonhos desagradáveis. Em todos eles a menina me                            
aparecia triste. Chorando, como quem quer pedir algo e não sabe como fazê­lo. Tentávamos dar as                            
mãos um ao outro, mas não conseguíamos sequer tocar os dedos. Isso me deixava desesperado e                            
confuso. De repente tudo se transformava em fumaça e uma angustia tomava conta de mim. Acordei                            
suado, trêmulo. O restante das horas passei na varanda entre um cigarro e outro, esperando o dia                              
amanhecer.
Mendonça tinha pedido relatório logo para a primeira hora. Às oito da manhã deixei o relatório em sua                                
sala. Ele me sorria do porta retratos, cercado da esposa e das filhas. Pareciam uma família feliz. Fechei                                
a porta e deixei­os com sua felicidade. Toda delegacia estava em silêncio.
Dirigi­me à padaria e pedi o café de sempre. A manhã estava fria e cinzenta, e o vento sudoeste                                  
continuava a soprar sua promessa de chuva. Oswaldo já estava de pé tomando seu café matinal.                            
Sempre parecia relaxado ao final do plantão, era o único que conseguia dormir naquelas camas duras e                              
ter uma ótima noite de sono. Nos dez anos que trabalhávamos juntos nunca tinha ouvido­o reclamar,                            
sempre acordava feliz e disposto. O que criava certa inveja.
Parece que você não dormiu, disse Oswaldo dando­me tapinhas nas costas.
Nem todos são como você, que encosta e dorme em qualquer lugar, falei, em tom de brincadeira.
Deve ser meu sangue cigano, disse sorrindo, os olhos límpidos de uma noite de sono tranqüila. Ciganos                              
dormem em qualquer lugar e de qualquer forma.
Oswaldo descendia de uma família tradicional de ciganos. Ainda garoto ele descobriu que não queria                          
ficar andando de um lado para o outro como faziam seus familiares. Acabou se casando e                            
estabelecendo­se na cidade com seu sonho de uma vida fixa. No começo via os familiares com                            
freqüência, depois foi perdendo contato, apesar de ainda vê­los nas festas de família que sempre fazia                            
questão de freqüentar. Do sangue herdou a intempestuosidade e a coragem, bem como o espírito                          
festeiro e alegre. Herdara também o corpanzil exagerado e a voz potente de locutor de rádio. Além do                                
coração mais bondoso que eu já conheci.
Oswaldo salvou­me a vida uma série de vezes, fazendo existir entre nós uma espécie de gratidão que                              
nos unia como irmãos. Além de eu ser padrinho de seu casamento e de seus dois filhos. Tomamos                                
nosso café na euforia de logo estarmos livres. Paguei a conta e descemos pela rua como dois                              
camaradas que éramos. Ele contando suas piadas sem graça. Eu achando graça de seu humor
Quando enfim a rendição ocupou seu lugar no plantão do dia, agradeci por tudo ter terminado                            
tranquilamente. Ao colocar os pés em casa tive certeza de que não precisávamos de muito para nos                              
sentir seguros. Bastava um lar e sua segurança.
Joguei­me na cama vestido como estava e dormi um sono justo. Acordei às quatro da tarde com o                                
barulho do despertador. Lembrei­me da visita que tinha de fazer à minha mãe. Tomei um banho                            
demorado e às cinco horas em ponto eu dirigia meu carro rumo à velha casa de infância.
Para relembrar os tempos idos parei na padaria Famiglia e comprei as broas que minha mãe tanto                              
gostava. Quentes e frescas como ela sempre dizia quando papai voltava do trabalho com um saco delas                              
ainda fumegantes. Lembrei­me de meu pai, da velha rua e da infância passada entre becos e ruelas.                              
Depois foi tudo desbotando e veio­me a certeza de que os tempos não voltavam mais. Por maior que                                
fosse o saudosismo.
Parei o carro debaixo da velha árvore defronte à nossa antiga casa. Tudo continuava como sempre foi,                              
como se nada houvesse acontecido nos últimos vinte anos. Toquei a campanhinha duas vezes e Amélia                            
recebeu­me com o mesmo sorriso de sempre. A velha e forte Amélia que ajudara mamãe a enfrentar as                                
piores crises e a criar os dois filhos. Apesar da idade ela ainda continuava forte e com o tempo seus                                    
traços se tornaram ainda mais harmoniosos.
Marcos, que surpresa você por aqui sem avisar, disse assim que abriu a porta.
É que me deu aquela saudade. Como está mamãe.
Vai, bem. Entre, vamos. Ela está lá fora, debaixo da mangueira bordando.
Atravessei a vasta casa como um turista que descobre um novo país. A última moda, dizia Amélia, era                                
a loucura de dona Sofia deixando nua todas as paredes da casa. Notei que todos os quadros haviam                                
desaparecido e que as cortinas tinham sido tiradas.
Sua mãe anda muito teimosa, Marcos, disse Amélia contemplando a parede nua onde antes havia um                            
quadro antigo da família. Agora cismou que precisa sepultar o passado, cada dia ela fica pior, disse                              
com pesar.
Ouvi tudo em silêncio. O Alzheimer piorava a cada dia e os que antes haviam conhecido a forte e altiva                                    
Sofia sofriam ao vê­la definhando sem outro destino. Um titã que havia se resumido a um corpo débil e                                  
uma mente enfraquecida. Aproximei­me sem que ela percebesse e a toquei com um beijo carinhoso na                            
face. Ela me olhou por um tempo com se lutasse para me reconhecer. Seus olhos não tinham mais o                                  
mesmo brilho e mesmo sua voz me era totalmente diferente.
O que deseja, perguntou­me curiosa.
Este é Marcos, seu filho, dona Sofia, intercedeu Amélia.
Seus dois olhos miúdos buscaram fundo na lembrança uma recordação do filho. Passou as mãos na                            
cabeça e depois sorriu como quem ri de uma sandice. Por fim se levantou e me abraçou como minha                                  
mãe me abraçava e então pude sentir que ela estava ali ao meu lado.
Perdão, meu filho, disse constrangida. É que a cabeça da gente só vai piorando com o tempo, concluiu                                
beijando­me a face. Olha só, agora há bordado suficiente para um bazar beneficente. Amélia e eu                            
estamos organizando um para arrecadar dinheiro para as obras da igreja. Faz tempo que não reformam                            
a igreja e já passa da hora de reformá­la. Sabe que não gostei muito quando fui lá da última vez. Tudo                                      
caindo aos pedaços, cheio de infiltração, traça e ratos. Se seu pai estivesse vivo nada estaria assim.                              
Mas desde que ele se foi as coisas andam diferentes e agora estamos organizando um bazar. Não é                                
mesmo Amélia? Vamos sente­se, você não vai crescer mais meu filho.
Fico feliz em vê­la bem mamãe, eu menti. Olha só o que eu trouxe para você.
Espera, deixa­me adivinhar. Quando era criança eu era boa em adivinhação. Deixe­me ver.
Então adivinhe se puder.
Ficamos nessa brincadeira e relembramos os velhos tempos. Por um momento foi como se nada                          
estivesse mudado, como se o tempo não houvesse passado. Apenas tivéssemos dormido mais que o                          
necessário e de repente crescemos sem saber como tudo tinha acontecido até então.
Ajudei mamãe a tomar banho e trocar de roupa. Coisa que ela se negava a fazer havia dois dias. O                                    
mais triste foi perceber que ela já não podia viver de lembranças. A memória era um cristal frágil que se                                    
arrebentava a cada instante. Parecido com o mito de Sisifo.
Mais tarde, ao nos despedimos, fiquei com a clara impressão de ser um estrangeiro que havia passado                              
muito tempo fora. Minha mãe acenava da janela, possivelmente esquecida do que a levava a fazer                            
aquilo. Entrei no carro me sentindo pequeno e só voltei ao normal horas mais tarde. Afogado na cama                                
de Camila, uma prostituta que se tornara confidente e amiga. Alguém em quem eu podia confiar sem                              
medo de ser traído.
Senti­te mais distante hoje, disse ela depois de termos feito amor.
O clima hoje na delegacia não foi bom, confessei. Depois fui visitar minha mãe e me senti um pouco                                  
triste, você sabe como ela sofre.
Problemas?
Vários! Pra piorar mataram uma menina, uma criança.
Mas fazem isso todo dia, meu querido. Já era para você se acostumar, não. Você deve ver isso                                
acontecendo indefinidamente.
Exagero seu, Camila. Fiquei triste realmente por ser a primeira vez que isso me acontece.
Jura?
Fiz que sim com a cabeça. Ela me envolveu em seus braços enquanto deitava o copo de uísque em                                  
meus lábios. Senti o calor de sua pele por debaixo da água morna da banheira e me senti mais                                  
tranqüilo.
Se havia uma pessoa, além do Oswaldo, em quem eu pudesse confiar essa pessoa era a Camila. Nunca                                
me cobrava nada, apenas me pedia para ser gentil e nunca envolvê­la em problemas de policia. Fora                              
isso eu poderia ter o que quisesse, e foi assim que ela conquistou a minha confiança.
Mataram uma menina, eu disse, tentando aliviar­me do peso que sentia. Camila ouvia tudo em silêncio                            
passando a mão suavemente em meus cabelos. Nunca pensei que alguém pudesse ter coragem de fazer                            
isso com uma criança. Senti um ódio imenso dentro de mim, um desejo de vingança.
Eu te entendo, o homem é capaz de tudo. Também já presenciei muitos crimes bárbaros nas ruas.                              
Sempre fica uma parte nossa para trás.
Senti­me impotente, sabe?
Eu sei. Agora vamos relaxar e esquecer. Não há nada que possamos fazer, mas quem sabe eu possa te                                  
ajudar de outra forma.
Fizemos amor e me senti mais vivo. Como se um peso tivesse sido tirado de mim. Mais tarde, sozinho                                  
em casa eu descobri que não era de todo verdade. Algo em mim insistia em permanecer lembrando.                              
Adormeci pensando no que havia acontecido com a menina, e não havia explicação.
Cap. 3
Passado três dias eu não havia recebido resposta aos fac­símiles enviados. O sistema de desaparecidos                          
da polícia estava abarrotado de boletins de ocorrência e nenhuma delegacia havia respondido. Ao que                          
parecia ninguém havia reclamado o desaparecimento da garota, o que me preocupou, pois logo o caso                            
iria parar na geladeira.
Geladeira era como chamávamos o arquivo para onde iam os casos sem solução ou os que não eram                                
reclamados. Na verdade quase sessenta por cento dos casos acabava na geladeira. Havia muitos                        
crimes e poucos investigadores. Como muitos casos têm relação intrínseca com outros, vez ou outra um                            
caso renascia, mas era uma quantidade tão inexpressiva que não contávamos muito com essa                        
alternativa. A grande maioria não era resolvida nunca. Uns por falta de prova, outros por imperícia dos                              
investigadores, falta de pistas, de gente entre tantos outros motivos.
Na maioria das vezes, ao receber um caso, o investigador sabia de antemão se seria geladeira ou não.                                
O nosso atendia todos os requisitos. Eu só esperava o comunicado oficial do Mendonça.
O laudo preliminar da perícia trazia poucas novidades além do que já sabíamos. Morte por                          
estrangulamento, falange dos dedos mutilados, crime ocorrido entre um ou dois dias. Não havia água                          
nos pulmões, o que reforçou a tese de a vítima ter sido morta em outro local e depois desovada no                                    
lago. Havia sinais de violência sexual e marcas de violência física. As únicas novidades eram os indícios                              
de uso de cocaína e bebida alcoólica e a gravidez de dois meses da vítima. Era tudo o que eu tinha até                                        
então.
Nas noites anteriores eu perdera o sono várias vezes. Tinha pesadelos e sonhava com a menina                            
abandonada às margens do lago, suja e nua como no dia que encontram o corpo. Ela chorava muito e                                  
em vão tentava me dizer alguma coisa, mas eu percebia que ela não conseguia.
Contei os sonhos ao Oswaldo que me indicou o apoio psicológico prestado aos policiais. Achei o                            
conselho exagerado, eu estava apenas impressionado e com certeza aquilo logo passaria, mas                      
intimamente sentia que os sonhos só acabariam quando o crime fosse solucionado. Se fosse assim eu                            
teria de me acostumar com o fato. Com toda certeza o Mendonça esfriaria o caso e nos colocaria em                                  
outra investigação.
Estávamos saindo para uma diligência quando Mendonça nos chamou à sua sala. Estava sentando atrás                          
de uma pilha de processos que se avolumavam sobre sua mesa. Perdido em problemas, pensei comigo                            
mesmo.
Mendonça era um ser mitológico. Estava à frente da delegacia nos últimos trinta anos. Perdeu poucos                            
casos e se transformou num mito dentro da polícia. Todos sabiam quem era o Mendonça da décima                              
quinta. Seu rosto pequeno contrastava com os óculos enormes e quadrados, dando­lhe um ar erudito                          
de mestre, ao mesmo tempo que o tornava sério candidato a astro de filme de terror ‘B’. Simplesmente                                
assustador. Varias vezes imaginei ser esse o motivo do seu sucesso profissional. Quantos bandidos ele                          
fez confessar somente utilizando sua aparência e o mito em torno de sua história? Resposta difícil.                            
Mendonça era o policial mais honesto com quem eu havia trabalhado.
Sentem­se, garotos, disse quando nos viu na porta de sua sala.
Sentamos, enquanto ele procurava algo em meio à bagunça de sua mesa. Tirou uma pasta bege, dessas                              
de arquivo, do meio de toneladas papel. Eu já sabia do que se tratava. Ele nem precisaria dizer nada.                                  
Mendonça me olhou sério e jogou a pasta na nossa frente.
Estive lendo o relatório sobre o caso da menina, e considerando que o que temos até agora, não vamos                                  
mais perder tempo, disse em tom sério, o caso vai gelar.
Eu já sabia, falei, o caso não andou nada nos últimos dias e eu esperava por isso, completei                                
sentindo­me um pouco impotente.
Mas é assim mesmo meninos, essa não é a primeira geladeira de vocês nem vai ser a última. São                                  
tempos modernos esses de hoje e nem todos têm lugar ao sol. Além do mais precisamos dar atenção                                
aos casos mais urgentes que temos em mãos
É uma pena, eu disse, deixando sair uma gota de saudosismo nas palavras, acho que ela merecia uma                                
resposta ao que fizeram com ela.
Fazer o quê, Mendonça gesticulou, abrindo os braços como um urso ao dar o abraço mortal em sua                                
vítima. Eu também queria que esse e outros tantos casos tivessem uma resposta, mas infelizmente as                            
coisas não são assim. Temos muito trabalho aqui para ficarmos quebrando cabeça com um crime sem                            
solução aparente. É um esforço que não leva a canto algum.
Mendonça estava certo, eu tinha que dar a mão à palmatória. Havia muito mais crimes que                            
investigadores e policiais. Nos poucos minutos que estávamos ali sentados muitos outros crimes                      
estavam acontecendo. A grande roda do destino continuava. Por mais que tivéssemos boa vontade às                          
vezes as coisas não andavam como a gente queria que andasse. Ainda mais com o sucateamento do                              
sistema judiciário. O pouco caso com a segurança pública, com a sociedade está refletido nos indicies                            
alarmantes da violência. Naquela hora acabei me sentindo fraco para reagir.
Só isso? Perguntei, querendo encerrar o assunto.
Mais uma coisa. A sinuca de sexta tá de pé?
Sim, respondeu Oswaldo tomando a frente do assunto, que agora lhe dizia respeito. Dezenove horas,                          
como sempre, acrescentou.
Bar do português? Perguntou Mendonça.
Como sempre chefe, disse Oswaldo sorrindo, numa conversa enigmática que só eles entendiam.
Mendonça riu. Seu peito arfava. A papada do pescoço sacudia num ritmo frenético, mole como uma                            
gelatina. Eles riam porque Mendonça tinha ganhado as duas últimas partidas, depois de embebedar                        
metade do distrito. Oswaldo era um deles. Eu apenas assistira tudo como testemunha ocular. Só não                            
dancei porque não gosto de sinuca nem por diversão.
Fomos interrompidos por um colega de trabalho. Tinha batido no vidro duas vezes, mas como                          
estávamos distraídos não demos por sua presença até ele adentrar a sala.
Estou com uma ligação para você, ele disse, apontando para mim. Posso transferir?
Sabe quem é? Perguntei.
Não, mas se você quiser posso perguntar.
Não, obrigado. Pode transferir.
Segundos depois o telefone tocou sobre a mesa do Mendonça. Ficamos nos olhando até que ele                            
empurrou o aparelho em minha direção.
Inspetor Marcos, bom dia. Com quem falo?
Inspetor Marcos, respondeu a voz feminina do outro lado. Aqui quem fala é Berenice, da ONG Filho                              
Pródigo.
Em que posso ajudá­la, respondi.
Oswaldo e Mendonça continuaram conversando, como se eu não estivesse ali. Fiquei um tempo calado                          
tentando adivinhar onde havia ouvido o nome daquela instituição. Lembrei da parábola de Jesus, mas                          
com certeza não estaria na bíblia a solução.
O senhor nos enviou fax solicitando informações sobre um desaparecido, esclareceu Berenice,                    
refrescando minha memória.
Sim, agora me lembro.
Então, temos um cadastro de uma menina muito parecida com a da foto. O senhor a encontrou?
Sim, respondi sem jeito. Será que eu poderia passar por aí para conversarmos?
Claro que sim, estarei à disposição.
Ótimo, falei, exultante.
Como ela está? A família vai ficar muito feliz, faz quase quatro meses que ela sumiu.
Berenice, respondi com pesar, ela está morta.
Um silêncio se fez entre nós. Oswaldo e Mendonça também se calaram e agora me olhavam com                              
curiosidade. Do outro lado da linha eu ouvia a respiração pesada de Berenice. Fora isso, tudo estava                              
em silêncio.
Irei aí para conversarmos melhor.
Tudo bem, ela falou um pouco chateada. Não era o que gostaria de ouvir.
Sei como isso chateia, mas vamos precisar de toda informação que tiver para podermos esclarecer o                            
caso.
Sem problema, no que eu puder ajudar estarei à disposição.
Ok, Berenice. Logo estaremos aí. Muito obrigado por sua atenção.
Desliguei o telefone me sentindo mal. Não queria estar no lugar da família que receberia a notícia. Ainda                                
mais nas condições em que ela foi morta. Brutalmente assassinada. Passei a mão sobre a testa. O suor                                
descia lentamente. Os dois continuavam me olhando com curiosidade.
Aconteceu alguma coisa? Perguntou Mendonça, colocando o telefone no lugar.
Uma ONG reconheceu a menina assassinada.
Bom, pelo menos temos por onde começar agora, disse Oswaldo, se ajeitando na cadeira.
Ainda bem, eu disse com a esperança renovada.
Eu sabia que era apenas um começo e não queria dar muito lugar à euforia, mas me sentia feliz por as                                      
coisas começarem andar.
O que faremos agora, Mendonça? Perguntei.
Mendonça me olhou por sobre os ósculos e pigarreou. Bom temos que averiguar não é mesmo, disse.                              
Agora não posso mais simplesmente esfriar o caso. Temos que investigar e ver até onde vai.
Claro, falei.
Só investigando pra saber, atalhou Oswaldo.
Só investigando, Mendonça disse consigo mesmo.
Ele estava dobrando. Não sabia se era um sinal de velhice, ou se com o tempo ele se tornava mais                                    
maleável. De qualquer forma eu o conhecia muito bem. Sabia que no fundo ele não iria gastar mais de                                  
três dias caso a pista não levasse a nada. Ele não gostava de perder tempo.
Onde fica essa ONG?
No Varjão.
Ficamos olhando Mendonça, enquanto ele consultava seu oráculo interior.
Você sabe como as coisas aqui estão quentes. Não vamos gastar o tempo que não temos, rapazes.
Sei sim, mas vale a pena investigar.
Certo, espero que vocês tenham sorte.
De repente silenciamos, sua expressão mudou. O velho Mendonça me olhou por trás dos óculos de                            
lentes grossas, como se algo se agitasse dentro dele. Com certeza ele tecia um colóquio intimo sobre a                                
situação. Passou a mão sobre a testa suada. Tirou um lenço do bolso de trás da calça e a enxugou.                                    
Depois voltou a me olhar com os olhos pequenos.
Dois dias, nada mais.
Tudo bem chefe, eu disse em tom de brincadeira. O senhor quem manda.
Quando ele se ajeitou na cadeira voltando os olhos para o computador, sabíamos que nosso tempo                            
havia se esgotado. Levantamos­nos. Oswaldo ainda confirmou a partida de sinuca. Roubamos algumas                      
balas de um pote que ficava sobre o armário ao lado da mesa. Nos despedimos e quando estávamos                                
fora da sala ele me chamou de volta.
Dois dias, lembre­se, disse em tom sério. Espero que você tenha sorte ou o caso vai para geladeira.
Entendido, respondi.
Eu sabia que ele não me daria tudo de bandeja. O velho Mendonça de sempre. Despedi­me e fechei a                                  
porta do escritório. Pelo vidro ele ainda continuava me olhando. Depois voltou os olhos para o                            
computador.
Algo me dizia que eu teria sorte. Pensei na menina. Mendonça conversava ao telefone, estava sério                            
como sempre. Então ele me olhou de volta e não consegui encará­lo. Virei e segui o longo corredor até                                  
o pátio. Oswaldo fumava encostado numa árvore.
O que você acha? Ele me perguntou, enquanto me oferecia sua carteira de cigarros.
Peguei um, acendi e traguei a fumaça. Senti uma vertigem, o que me fez escorar na árvore. Uma brisa                                  
soprou atrás de mim eriçando meus pêlos.
Acho que estamos com sorte, falei, animado. Prepara a viatura, vou tomar um café e depois saímos.
Como queira, doutor, brincou Oswaldo.
Tomei meu café com a sensação de que as coisas começariam a andar. O que me deixou com o ânimo                                    
renovado. Quinze minutos depois estávamos indo rumo ao Varjão, com a esperança de trazer                        
tranqüilidade a uma alma que no meu íntimo pedia apenas justiça.
Cap. 4
O Varjão é uma cidade satélite que se formou desordenadamente na periferia de Brasília. Como muitas                            
cidades satélites começou com a ocupação indevida de terras do governo. Depois se transformou numa                          
grande favela como muitas outras espalhadas pelo país. A população constituía­se principalmente de                      
imigrantes nordestinos que vieram para a capital na esperança de encontrar uma vida melhor. Como a                            
igualdade social não abarca todos, muitos desses imigrantes acabavam fortalecendo o circulo de                      
pobreza que se forma em volta da riqueza, empurrados para a periferia como condenados.
A grande maioria das casas eram barracos de madeira, construídos em lugares onde as condições                          
precárias de infra­estrutura aceleravam a proliferação de doenças. O esgoto corria a céu aberto e as                            
ruas estavam cobertas de lixo, num sinal claro do descaso do governo. Contava apenas com um posto                              
de saúde precário. Insuficiente para atender o número crescente de doentes da região. Não havia                          
escola, posto policial, rede de ônibus e tantas outras coisinhas que garantiam o mínimo de qualidade de                              
vida. Mesmo a alimentação tinha de ser disputada lance a lance com ratos e outros animais que traziam                                
a contaminação para os lares.
A ONG funcionava no centro da invasão, vizinho a uma montanha de entulhos. Um sobrado em                            
construção, com letreiro e paredes descascadas abrigava a organização. O entra e sai de pessoas era                            
frenético. No tempo que ficamos ali pensei que aquilo não acabaria nunca. Gente de todo tipo.                            
Crianças, adultos, velhos, deficientes, todos em busca de alguma ajuda que os permitisse sobreviver. O                          
prédio era uma babel. Esperamos Berenice numa sala apertada, cheirando a mofo e móveis velhos,                          
aliás, tudo ali fora castigado pelo tempo. Mesmo o prédio parecia que iria cair a qualquer hora.
Berenice era uma das diretoras e fundadoras da ONG. Gorda e baixinha vestia­se como uma negra                            
africana apesar de ser branca ao extremo. Quando entrou na sala falava energicamente com alguém no                            
celular, gesticulando e andando de um lado para o outro sem se dar conta de nossa presença. Tive a                                  
impressão que aquele não era um bom dia para visitas. Pelo assunto alguma coisa ruim havia                            
acontecido. Minutos depois ela desligou o celular e sentou­se a mesa, defronte a nós.
Desculpem­me a cena, disse, respirando fundo e sorrindo amigavelmente para nós, mas alguns                      
problemas nos deixam de cabelo em pé, completou, respirando fundo. Bom, em que posso ajudá­los?
Somos os inspetores Marcos e Oswaldo, respondi, estendendo a mão. Conversamos hoje pela manhã,                        
por telefone.
Ah, sim! Sobre a menina desaparecida, disse, levantando­se e dirigindo­se a um fichário antigo apoiado                          
em tijolos, encostado numa parede. Tenho a ficha dela aqui, falou. Quando vocês mandaram o desenho                            
imediatamente a reconheci. É uma menina linda.
Era, corrigi.
Berenice olhou­me com o olhar frio, como quem ainda não tivesse se acostumado à uma situação.                            
Ajeitou os óculos nos rosto e voltou­se a procurar a pasta no ficheiro.
Sim, era, disse. Aqui está, e retirou uma pasta amarelada do fichário, colocando­a aberta sobre a mesa.                              
Como disse, ela era linda, falou, apontando para uma foto anexada a uma ficha.
A fotografia do perito e a do fichário batia, dando­me a certeza de estar andando novamente.                            
Afastando momentaneamente um peso de minhas costas. A menina se chamava Vânia. Tinha doze                        
anos, cabelos claros e pele morena cor de jambo. A família comunicou o desaparecimento depois de                            
um mês sem comunicação com a filha.
Aqui diz que ela foi levada para trabalhar numa casa de família.
Sim, é uma coisa corriqueira, as famílias pobres são muito grandes e os filhos ter de se acostumar a                                  
trabalhar desde cedo. Quando surge uma oportunidade eles são jogados no mundo. Aqui, acima de                          
dez anos vira mão de obra barata. Infelizmente é uma realidade, injusta, mas é o que acontece, concluiu                                
pesarosa.
A família deu pistas de quem a levou?
Aceitam, falou, nos oferecendo água. Está bastante fresca.
Eu aceito, disse Oswaldo pegando a caneca e a cabaça.
Não, obrigado, respondi.
É uma história muito complicada, respondeu Berenice. Um agenciador, de nome Severino apareceu e a                          
levou para uma casa de família em Brasília. Durante um mês eles tiveram noticias da menina, que                              
sempre vinha visitá­los nos fins de semana. Depois as visitas cessaram e o dinheiro também, então                            
resolveram procurar pela filha e acabaram descobrindo que ela havia sumido.
O que disseram na casa onde ela trabalhava? Oswaldo perguntou.
Limitaram­se a dizer que ela não trabalhava mais no local.
Apenas isso? Perguntei.
Sim.
Depois eles procuraram vocês?
Isso. Também foram à delegacia e registraram o desaparecimento. Fizemos o que podíamos fazer.                        
Como não temos pessoas nem tempo suficiente para investigar passamos o caso para a polícia, mas a                              
polícia nunca movimentou um dedo para ajudar a família. Aos poucos fomos perdendo as esperanças.
Pedi um resumo do dossiê. Berenice saiu com a pasta na mão e foi até o setor onde havia um xérox.                                      
Comecei a achar que a história toda soava muito falsa. Não sabia dizer de onde tirei essa conclusão,                                
mas de qualquer forma ela me chegou clara demais.
Desconfia de alguma coisa? Perguntou Oswaldo.
Tenho algumas dúvidas, disse prudentemente.
Fomos interrompidos por uma que copeira entrou na sala trazendo uma bandeja de café.                        
Cumprimentou­nos rapidamente, deixando sobre a mesa três xícaras de café, cujo aroma chegou                      
rapidamente aos nossos narizes. Peguei uma xícara elevei à boca, no mesmo instante que um cheiro                            
forte invadiu minhas narinas ofendendo meu olfato. Pelo aroma eu sabia que o sabor não deveria ser                              
diferente, mas experimentei somente para tirar a dúvida, e eu estava certo.
O café está horrível, disse, cuspindo de volta na xícara o líquido amargo e escuro.
Oswaldo tomou sem culpa. Explicando haver tomado tantos outros cafés piores, que aquele chegava a                          
ser um luxo. Foi quando Berenice voltou, entregando­me algumas folhas grampeadas. Numa delas uma                        
foto de perfil de Vânia sorrindo chamou­me atenção. Uma garota feliz que teve seus sonhos roubados,                            
pensei, virando as folhas
Causa revolta, eu entendo, disse Berenice. São tantos casos que não temos tempo para indignação,                          
fazemos o que dá para ser feito, mas na maioria das vezes chegamos tarde demais.
Eu sei o que você está dizendo, conclui.
Rapazes, lamento, mas tenho que deixá­los agora. Tenho uma porção de gente para atender, como                          
vocês podem ver. Caso os senhores precisem de mais alguma informação ou ajuda pode nos procurar.
Agradecemos, respondi. Sua ajuda foi precisa.
Cumprimentamo­nos e logo depois deixamos o velho sobrado. Oswaldo se queixou de fome e fomos                          
procurar algo para comer. Eu não estava com muita fome, mas minha barriga roncava vez ou outra.                              
Andamos um pouco pelas ruas apertadas até taxia viatura. Rodamos um pouco até acharmos uma                          
padaria. Sem demora Oswaldo foi logo entrando. Não lhe faltou duvida ao pedir um pingado e pão                              
com ovo. Eu não pedi nada. Minha fome não era tanta. Enquanto Oswaldo comia fiquei lendo o dossiê                                
de Vânia.
Perguntei ao balconista onde ficava o bairro que a família dela residia. Ele se limitou a responder que                                
ficava longe. Passou o pano sobre o balcão e saiu. Olhei para Oswaldo, que estava com o canto da                                  
boca suja de gema de ovo.
Cordial como uma porta, disse Oswaldo, depois de engolir um bom pedaço do sanduíche.
Concordei. Perguntei a outro balconista como chegar ao endereço. Este, mais amistoso, explicou com                        
segurança como chegar. Agradeci, paguei a conta, deixando­lhe uma boa gorjeta. Oswaldo limpava os                        
dentes com palito. Agradeceu por eu ter pagado a conta e pediu duas balas de menta para o                                
balconista. Saímos.
Tivemos que andar um pouco mais de quinze minutos entre ruas esburacadas cheias de esgoto a céu                              
aberto. Vez ou outra víamos as crianças correndo atrás da viatura. Possivelmente aquela era uma                          
diversão familiar a eles. Tão acostumados com a falta de diversão. Perdemos­nos entre o labirinto de                            
ruas e vielas sujas e demoramos mais que o necessário para chegar ao nosso objetivo.
Cap. 5
Não foi difícil encontrar a única casa de compensado e telhado de zinco. Três crianças barrigudas e                              
catarrentas vieram nos receber. Logo depois outras duas apareceram. Ficaram nos olhando com                      
curiosidade, nos rodeando. Todas estavam descalças. Duas delas exibiam feridas por todo corpo.                      
Algum tipo de doença da pele com certeza. Logo depois quatro cachorros magros e desnutridos                          
apareceram.
A mãe ou pai de você se encontra? Perguntei para as crianças. Elas me olharam com curiosidade, mas                                
nenhuma quis me responder. É aqui que mora uma menina chamada Vânia, não é? Tentei novamente.
Ela morava, não mora mais, respondeu uma das crianças, a que parecia ser a mais velha.
O que aconteceu?
Ela sumiu, respondeu o menino com olhar assustado.
Enquanto conversávamos uma senhora, de uns trinta e cinco, quarenta anos de idade apareceu à porta.                            
Algumas crianças correram rapidamente para de trás dela e ficaram nos olhando de olhos arregalados.                          
Percebi então que a senhora era mãe das crianças, que ralhou com as mesmas, proibindo­as de nos                              
importunar. Somente o menino ficou e olhava a mãe apreensivo, esperando que ela não o mandasse                            
sair.
O que o senhor deseja? Perguntou a mulher secamente.
A senhora é a mãe da Vânia?
Sou sim senhor. Da parte de quem o senhor vem?
Somos da polícia, respondi enquanto me aproximava, mostrando meu distintivo.
Polícia? Ela perguntou, um pouco desconfiada.
Viemos por causa do desaparecimento de sua filha, eu disse.
Pensei que vocês tivessem esquecido, falou, resignada.
Podemos entrar para conversar?
A senhora ficou nos olhando desconfiada. Por fim nos convidou para entrar. A sala da casa era um                                
cubículo mais apertado que uma cela. Tinha apenas uma pequena estante onde ficava a televisão e uns                              
poucos objetos de decoração. Duas cadeiras puídas pelo uso e dois bancos de madeira. Apenas isso.                            
Ela nos ofereceu dois bancos de madeira para sentar. Ainda fazia parte da decoração uma estante de                              
ferro descascada e um quadro de nossa senhora na parede principal machucada pelo mofo.
Apesar da extrema pobreza a casa era limpa. O chão batido acabara de ser molhado para não subir                                
poeira. Na cozinha o rádio estava ligado. O cheiro de feijão tomava conta do ambiente, bem como o                                
barulho da panela pressão. Ela se sentou numa das cadeiras que estava encostado na parede onde o                              
quadro estava pendurado. Em fila as crianças saíram pela porta da cozinha que ligava à sala e foram                                
direto para o quarto contíguo. Ficaram nos olhando através da cortina de PVC.
Os senhores aceitam água, café?
Água, eu disse.
A mulher saiu e voltou poucos minutos depois com uma bandeja com dois copos de alumínio e uma                                
xícara de café. Ela nos serviu e voltou a se sentar na cadeira puída. Com a bandeja sobre o colo nos                                      
olhava, esperando que um de nós falasse. Mas não esperou muito.
Vocês encontraram minha filha? Perguntou com a voz ansiosa.
Sim, eu respondi...
Ela se ajeitou na cadeira, como quem queria chegar perto para ouvir melhor.
Encontramos sim, repeti, mas ela está morta, concluí.
No mesmo instante a bandeja escorregou do colo e caiu em frente aos seus pés. A mulher ficou                                
paralisada, olhando­nos atentamente sem saber o que dizer ou se mesmo havia entendido o que                          
acabara de dizer. Mesmo que ela tivesse alguma vez pensando nesse momento ele nunca soubera o                            
quanto doeria até aquele momento. Não se apressou a pegar a bandeja no chão. Apenas nos olhava                              
com um olhar que denunciava todo seu drama. Assustados, uma tropa de meninos invadiu a sala. Em                              
poucos segundos só se podiam ouvir os gritos e berros das crianças. Instantes depois ela desabou,                            
aumentando a gritaria das crianças. Afastei três delas e agachado apoiei a cabeça da mulher em meu                              
braço esquerdo, enquanto tentava reanimá­la. Peguei­a no colo e perguntei a uma das crianças onde                          
era o quarto da mãe. A criança apenas apontou assustada para um cômodo apertado onde havia uma                              
cama de casal cercada por dois beliches. Deitei­a na cama e ficamos esperando­a acordar na sala.
Assim que saímos as crianças correram desesperadas para onde estava a mãe, olhando­a com                        
curiosidade e espanto tentando acordá­la. Apenas uma criança nos vigiava da porta do quarto. De                          
repente ela se voltou assustada para dentro do quarto. Foi quando percebi um vulto cobrindo a porta.                              
A sala ficou escura e um homem pequeno e franzino apareceu das sombras.
Boa tarde, ele disse de forma abrupta, sem entender o que acontecia ali, os senhores esperam por                              
algo?
Na verdade sua esposa nos atendeu, eu respondi, um pouco sem jeito. Eu não podia prever o que ele                                  
estava pensado ou como reagiria. Tentei ser o mais cordial possível. Mas ela teve um desmaio, concluí.
Desmaio? Quem são vocês?
Eu senti que o clima poderia ficar pesado. Sua mão esquerda apertava cada vez mais forte o boné que                                  
havia retirado da cabeça, enquanto os olhos perscrutavam cada canto tentando se situar. Como se não                            
estivéssemos ali, atravessou a sala em passadas largas. De passagem largou o boné sobre a estante.                            
Entrou no quarto, mas logo saiu, olhando­nos com olhos de cão.
Quem são vocês, perguntou novamente, um pouco mais impaciente que da vez anterior.
Somos da polícia e viemos por conta de sua filha que está desaparecida.
O senhor me olhou curioso, depois olhou um tempo para o quarto tentando levantar uma lembrança já                              
há muito esquecida. Pôs a mão sobre a cabeça, buscando na sala alguma coisa que eu não soube                                
decifrar o que era.
Sente­se, eu falei, apontando o banco.
Os senhores acharam Vânia?
Achamos sim, mas ela está morta.
Morta? Perguntou­me com a voz abafada.
Sim.
Como?
Foi assassinada. Estamos investigando para saber quem cometeu o crime, por isso viemos até aqui.
Investigando, disse um pouco desapontado. Pensei que vocês tivessem esquecido.
Não esquecemos. Agora temos que reunir toda informação possível para localizar e prender o                        
criminoso que fez isso com sua filha.
Os senhores aceitam algo para beber?
Na verdade sua esposa já tinha nos oferecido, respondeu Oswaldo.
Poderíamos falar sobre Vânia? Perguntei.
Claro, o que querem saber?
Vamos pelo começo, respondi. Fomos até a ONG onde vocês pediram ajuda e levantamos                        
informações preliminares que nos trouxeram aqui. Agora precisamos que o senhor nos conte tudo que                          
sabe. Tudo que possa ser importante para o esclarecimento do caso. Lembre­se, estamos do seu lado.
Depois de duas horas de conversa começamos a entender o que havia acontecido e como se dera o                                
desaparecimento da menina. A história toda era uma sucessão de informações truncadas que mais                        
confundiam que esclareciam. A verdade estava bem mais embaixo. Juarez nos deu duas versões                        
diferentes para o desaparecimento. Somente a segunda batia com a história contada por ele para a                            
assistente social da ONG Filho pródigo. Segundo a qual, Vânia tinha sido entregue a uma família como                              
empregada. O conhecido de Juarez, um tal de Severino, dono de um armazém na vizinhança, sabia de                              
uma vaga para empregada numa casa de gente rica onde trabalhara há algum tempo antes de montar o                                
armazém. Como a família de Juarez era grande e os rendimentos parcos, o dinheiro ganho por Vânia                              
faria grande diferença no orçamento, Severino resolveu ajudar. Ela ainda poderia ficar com um pouco                          
para gastar como bem entendesse e ainda seria uma boca a menos dentro de casa para sustentar.                              
Severino intermediou a contratação de Vânia e conseguiu com um amigo a vaga.
No primeiro mês os trezentos e cinqüenta reais chegaram em dia. No segundo mês Vânia não ligou                              
mais. Juarez buscou o telefone da família com o amigo Severino. Quando enfim conseguiu ligar Vânia                            
completava três dias desaparecida. Sem respostas e sem saber o que fazer Juarez registrou queixa na                            
delegacia mais próxima. Tudo em vão. Um mês depois ela ainda não havia sido encontrada nem dava                              
mostras de que o seria pela policia. Só então ele tomou a decisão de buscar ajuda na ONG, mais era                                    
tarde demais como ele próprio dissera.
Ficamos um bom tempo tentando reconstituir os fatos, mas os fatos não se encaixavam. Precisaria                          
conversar com o tal do Severino para validar a história. Durante o depoimento ficamos somente eu,                            
Juarez e Oswaldo na pequena sala. A mulher ouvia tudo atrás da porta. Foi seu aparecimento repentino                              
na sala que mudou o rumo da conversa. Tirando o véu que escondia a verdade.
Por que você não conta a verdade, Juarez, disse a mulher visivelmente abalada.
Do que você está falando? Perguntou o marido desconfiado.
Só então percebi que ele estava mentindo. Sua boca mexia convulsivamente. Ele gaguejava e de alguma                            
forma não conseguia olhar a mulher nos olhos. Como se ela o estivesse mirando nu pela primeira vez na                                  
vida.
Que verdade, Maria, você tem para nos contar? Perguntei, enquanto olhava Juarez, que por sua vez me                              
olhava com espanto.
Verdade alguma, ela disse, quem tem que te contar algo aqui é meu marido, completou apontando                            
Juarez, que a essa hora estava pálido.
Eu disse­te que tínhamos de esquecer essa história, mulher. Disse Juarez nervoso.
Senti nos olhos do homem o medo. Ele estava recuando mais e mais. A qualquer instante poderia                              
atacar. Como faz um animal selvagem quando é emboscado. Passei a mão visivelmente sobre o coldre.                            
O homem entendeu minha intenção e voltou a se sentar, mas não tirava os olhos fulminantes de raiva de                                  
sobre a mulher.
Anda, cala sua boca e volta para o quarto, disse ele tentando intimidá­la.
Cala você, eu não agüento mais, berrou a mulher, os olhos saltavam das órbitas.
Cala boca, gritou Juarez, levando a mão atrás das costas.
Senti o perigo nos olhos e a desgraça na veia jugular trabalhando acima da pressão. A desgraça estava                                
para acontecer. Saquei minha pistola. No susto a mulher gritou e as crianças entraram alucinadas na                            
sala agarrando­se à mãe, que estava petrificada e pálida. Juarez deu um pulo e tornou a guardar a                                
peixeira nas costas. Ao mesmo tempo fiz sinal para ele se sentar e me entregar a faca.
Agora o senhor pode nos contar o que está acontecendo, eu disse, guardando a pistola e colocando a                                
peixeira sobre a estante.
Não há nada para contar, disse o homem tremendo e gaguejando, senhor.
Conta que você vendeu nossa filha, gritou a mulher rodeada de crianças.
Juarez não reagiu. Ficou onde estava de cabeça baixa.
Então contou­nos toda verdade. O contato era mesmo o tal de Severino. Foi ele quem arrumou o                              
encontro de Juarez e o agenciador. Pessoa essa que ele nunca havia visto antes. Foi o agenciador quem                                
pagou trezentos reais para levar a menina. Segundo ele ela iria trabalhar em casa de gente rica e teria                                  
do bom e do melhor. Ganharia dinheiro para ajudar a família nas despesas, além de poder estudar. No                                
mesmo dia Vânia embarcou no Fiat uno e nunca mais voltou. No primeiro mês ela ligava                            
constantemente. Sempre que podia vinha passar os finais de semana com a família. Como contado                          
anteriormente. Estava muito feliz e só falava em estudar. Depois as visitas foram rareando até não                            
acontecerem mais. A família só deu por falta da filha quando o dinheiro não chegou no começo do mês                                  
seguinte. Tarde demais.
Fora isso eu num sei mais nada. É tudo que sei, disse ao final do relato.
Quer dizer que ele te pagou trezentos reais para levar sua filha? Eu perguntei.
O senhor sabe que isso é crime, concluiu Oswaldo.
Mas eu não vendi minha filha, Juarez respondeu nervoso. Apenas pedi ao homem que me adiantasse                            
um dinheiro, pois a coisa estava preta aqui em casa. Então ele me deu o dinheiro e disse que eu não me                                        
preocupasse com Vânia que tudo ficaria bem. E assim foi. Até ela desaparecer.
E o senhor chegou a procurá­la? A ir à casa onde ela trabalhava?
Sim, procurei­a, mas a única resposta que obtive é que ela havia sumido sem deixar recado.
Só então o senhor procurou ajuda? Perguntei.
Foi, respondeu um pouco mais calmo.
O suor descia de sua testa e molhava o rosto castigado pelo sol e pelo vento. A mulher estava sentada                                    
do outro lado da sala. Tinha a tez carregada de cansaço e luta. Talvez nunca tenha conhecido                              
descanso, diversão. Sua vida tinha sido dura até ali. E ainda seria mais se a morte não a colhesse antes                                    
do tempo só por compaixão de sua dor.
Juarez não era muito diferente. Simples, humilde e batalhador. Não teve a intenção de vender a filha.                              
Dinheiro pouco quando pinga faz dilúvio. Dizia minha avó. Eu acreditava. Ele era mais uma vítima do                              
egoísmo humano. Desse lado ruim que muitos carregaram.
Assim como queriam uma vida melhor para si, queriam também para os filhos. Eram pobres ao                            
estremo, mas nenhum deles estava jogado nas ruas dos grandes centros. Resistiam impassíveis às                        
intempéries da vida.
Juarez enxugou mais uma vez a testa. Depois foi até a cozinha e voltou com três xícaras de café.                                  
Sentou­se ao lado da esposa, agora mais calma e resignada. Ele lhe ofereceu um pouco do café,                              
passando­lhe a xícara. As crianças, mais calmas trançavam pela sala.
Não queríamos vendê­la. Mas acabamos fazendo isso sem querer, disse me olhando nos olhos, o                          
senhor entende, completou.
Entendo sim, é mais comum do que o senhor pensa, falei. Pessoas honestas são cada vez mais raras.
Oswaldo brincava com as crianças do lado de fora. As distraía para que eu pudesse conversar melhor                              
com o casal. As gargalhadas invadiam a casa. Pena que cedo ou tarde teriam que se deparar com o                                  
mundo bárbaro que nós adultos construíamos para elas. Um mundo confuso e caótico cheio de gente                            
querendo o seu lugar ao sol. Fosse como fosse.
Quer dizer que esse tal de Severino é quem conhecia o tal homem que lhe pagou e levou Vânia?                                  
Perguntei, tomando nota dos dados mais importantes.
Sim senhor, disse com firmeza.
O que vamos fazer seu Juarez é investigar. Nós vamos descobrir quem cometeu esse crime, disse com                              
ênfase. Para mim era uma questão de honra.
Conversamos sobre algumas outras coisas. Futilidades, reclamações sobre a morosidade                
governamental. O descaso dos políticos. A mão de ferro dos poderosos. E a dolorosa pobreza e                            
dificuldade dos mansos e humildes. Depois nos despedimos. Eu me sentia um velho amigo da família.                            
Estava sentindo a dor que eles sentiam. Oswaldo olhava para mim com tristeza. Com certeza recordava                            
seus filhos crescidos, nutridos e educados. Eu entendia o que ele sentia. Mas minha dor era diferente.                              
Eu não sabia dizer bem, mas algo me dizia que o pior ainda estava por vir.
Acenei para o casal. Antes de sair a mulher se aproximou e tomou minha mão com um forte aperto.                                  
Lágrimas corriam sobre sua face.
Descubram que fez isso, ela disse, soluçando, para que minha filha possa descansar em paz e nós                              
possamos voltar a dormir sossegados, concluiu.
Vamos fazer o melhor, respondi.
Cap. 6
A mercearia era na verdade um boteco onde se vendia produto de primeira necessidade, gêneros                          
alimentícios e, principalmente, cachaça.. Quando chegamos havia um bêbado jogado na porta,                    
escorado na parede e cercado de vômito. Ele nos olhou sem curiosidade, mal podia levantar a mão.                              
Entramos e fomos direto ao balcão. Um menino castigado, que parecia ser mais velho que Matusalém                            
nos atendeu. Olhava­nos com uma curiosidade peculiar à sua idade. Entre doze e quatorze anos.                          
Oswaldo foi logo puxando uma banqueta, se instalando ao balcão.
Traz uma cerveja bem gelada, disse Oswaldo, como se fosse um caubói de filmes do velho oeste.                              
Faltou­lhe somente o chapéu e um par de esporas. O jeitão e a arma ele já possuía.
Dois copos? Inquiriu o garoto com a voz arrastada.
Oswaldo me olhou buscando uma resposta. Fiz um meneio de cabeça positivo. O garoto saiu                          
arrastando o corpo franzino, enquanto assobiava uma música que eu não me recordava, mas conhecia.                          
Não demorou mais que dois minutos. Voltou com uma cerveja gelada no grau. A garrafa em contraste                              
com o tempo quente e seco estava coberta de uma fina camada gelo. Como se fosse neve.
Saúde, disse a Oswaldo, brindando.
E dinheiro, completou Oswaldo, erguendo seu copo e tomando um longo e merecido gole.
O garoto nos olhava sorrindo. Apesar de magro e feio, tinha o sorriso jovial e cândido. Poder­se­ia                              
confiar nele só pelo sorriso. Uma tática conhecida entre os bons malandros de outrora. O bar estava                              
vazio. Assim como toda cidade. Parecia que ninguém se arriscava ao sol escaldante de janeiro. Vez ou                              
outra aparecia alguém, logo sumindo como uma miragem. Olhei tudo em volta. Um boteco disfarçado                          
de mercearia. Não passava disso.
O menino continuava me olhando fixo. Algo em mim chamava sua atenção. Oswaldo bebia                        
distraidamente sua cerveja. Por pouco não esquecemos o que tínhamos ido fazer naquele inferno no fim                            
do mundo.
O Severino está, garoto? Perguntei olhando nos olhos.
Severiano, moço, devolveu sem piscar um olho e sem deixar de me olhar.
Ele está? Repeti, levando o copo á boca.
O garoto me olhou de cima abaixo. Vasculhou­me à sua maneira. Os olhos penetrantes me causavam                            
calafrio. Estranho, nunca havia sentido isso antes, e sentindo me fez pensar o quanto eu era fraco. Que                                
o olhar de um menino podia me atravessar.
Tá não, disse com a voz nasalada e rouca. De dia ele trabalha como vigia.
Vigia? Atravessei, o que fez com que ele me olhasse torto.
É sim, senhor, respondeu desconfiado. Trabalha nos ministérios.
Ele é seu pai? Perguntou Oswaldo.
É sim, seu grau de desconfiança aumentava.
Uma viatura da polícia passou devagar na rua. Pelo jeito deviam passar de ano em ano. De dentro do                                  
carro um dos soldados nos olhou com preguiça nos olhos. Passaram direto. Voltei a olhar o garoto.                              
Sem percebermos um homem alto e negro entrou na venda. Pediu um copo de cachaça. O menino                              
servia o homem quando voltei minha atenção novamente para ele. Ele serviu o freguês e voltou para sua                                
cadeira cativa. Sempre nos olhando com desconfiança.
Vocês são conhecidos dele? Perguntou o garoto a queima roupa.
Somos velhos amigos. Faz tempo que não nos vemos.
Bom, disse o menino sem saber o que dizer. Ele chega sempre às cinco. Se vocês quiserem digo que                                  
estiveram aqui.
Não precisa, respondi, queremos fazer uma surpresa.
O homem terminou sua dose e saiu. O menino levantou­se devagar de sua cadeira. Catou o copo e o                                  
levou para pia. Uma pilha de louça suja se amontoava. O copo foi para o topo.
A gente volta às cinco, então, Oswaldo falou, secando o copo em seguida.
O garoto recolheu os copos e a garrafa e não disse nada. Juntou os copos aos outros na pia. Depois                                    
gritou o nome de alguém que eu não entendi. Voltou para sua cadeira e continuou nos olhando. Eu já                                  
me sentia mal. Se pudesse teria arrancado os olhos dele. Ele por sua vez sabia que eu não podia e                                    
continuava seu hipnotismo.
Quantas horas, perguntei ao Oswaldo, o único de nós que andava com relógio. Eu odiava.
Quase treze horas, disse, olhando o relógio Cássio que eu havia dado de presente a ele. Estou com                                
muita fome, e você? Completou.
Também, respondi.
A gente serve comida, intrometeu­se o garoto, com voz mais amigável. Cheio das segundas intenções.
E é bom o rango? Perguntou Oswaldo.
É sim, minha mãe quem faz.
Oswaldo olhou para mim como quem pede opinião. Apesar da fome louca, comer naquele lugar me                            
faria mal. Primeiro pela pobreza estrema. Segundo porque eles pareciam ser bem porcos para meu                          
gosto?
Tem outro restaurante por aqui? Perguntei.
Não, esse é o único, respondeu com simpatia o menino, percebendo que nós queríamos escapar.
Fiz um gesto de tanto faz com os ombros. Depois fui me sentar numa mesa de ferro do lado de fora da                                        
venda. Uma gameleira repartia conosco sua sombra refrescante. Oswaldo voltou trazendo mais uma                      
garrafa de cerveja.
Que tal uma partida de xadrez enquanto esperamos? Perguntou eufórico, Oswaldo.
Pode ser, respondi, você trouxe o tabuleiro?
Oswaldo fez que sim com a cabeça. Antes de eu dizer qualquer coisa foi logo buscar o tabuleiro na                                  
viatura. Tínhamos aprendido a jogar numa das inúmeras campanas. Oswaldo havia comprado o jogo                        
para o filho. Mas acabamos ficando com ele. Para nos distrair aprendemos a jogar usando um manual                              
com as regras básicas. Oswaldo e eu travamos verdadeiras batalhas. Nem um de nós quis ser jogador                              
profissional, nem coisa alguma. Apenas jogávamos para distrair e passar o tempo.
Almoçamos e jogamos xadrez. Lá pela terceira partida o sujeito apareceu. Um homem alto, forte e                            
galego. Que nada tinha haver com o moleque franzino que se dizia seu filho. Nos cumprimentou assim                              
que se aproximou de nós. Um breve lance de cabeça. Depois sumiu na escuridão do boteco. Fui atrás                                
enquanto Oswaldo recolhia as peças do tabuleiro. Assim que entrei percebi que ele também me olhava                            
de dentro do bar. Estava escorado no balcão. O menino estava do outro lado e conversava alguma                              
coisa com o pai. Oswaldo entrou logo depois de mim.
O senhor é o Severiano? Perguntei a queima roupa, assim que percebi a presença de Oswaldo.
Sou sim senhor, respondeu ensimesmado, deseja alguma, o menino disse que o senhor tava me                          
esperando, completou secamente.
Olhei rapidamente para Oswaldo e voltei a olhar o homem apoiado no balcão. Ao seu lado havia um                                
mochila. Ele olhou também para a caixa e tornou a olhar para mim.
Roupa de trabalho, disse esboçando um meio sorriso, percebendo que eu olhava para a mochila.
Tudo bem, eu falei, viemos apenas colher algumas informações.
Severiano nos olhou assustado. Mais que rapidamente deu meia volta no balcão. Levantou uma                        
portinhola e passou para o lado de dentro. Temi que ele pudesse pegar uma arma ou algo parecido.                                
Fiquei apreensivo.
Deixe suas mãos à mostra, senhor, disse calmamente Oswaldo ao meu lado.
O homem reagiu com calma. Postou suas mãos sobre o balcão e nos olhou bem no fundo dos olhos.                                  
Depois ofereceu uma bebida ou algo que ele pudesse ter.
Muito obrigado, não queremos nada, meu nome é marcos e o do meu amigo, Oswaldo, disse                            
calmamente, enquanto me aproximava para poder vê­lo melhor. Somos investigadores de polícia e                      
estamos investigando o caso da menina desaparecida. O senhor já ouviu falar?
Não senhor? Disse com rispidez.
A filha do Juarez, eu disse.
Juarez? Perguntou, como quem não soubesse de nada.
Juarez, disse Oswaldo, seu conhecido. Segundo ele você arrumou um emprego para a filha dele,                          
completou, refrescando a memória do homem.
Ah, sim! Agora estou me lembrando. Mas já faz tanto tempo. O que os senhores querem saber?                              
Perguntou com curiosidade.
Queremos saber quem é o intermediador.
Intermediador? O homem perguntou, sem saber o que dizer.
Sim, o cara que levou a menina ofereceu dinheiro ao Juarez.
Olha, eu não tenho nada haver com isso, respondeu aflito, eu apenas tinha um conhecido que precisava                              
de alguém para trabalhar em serviços domésticos. Como num tenho filha, pensei na menina do Juarez                            
como sendo uma boa indicação. Daí um dia levei a menina até a casa desse meu conhecido.
Seu conhecido? Perguntou Oswaldo, cortando a historia de Severiano, o que não o deixou muito                          
contente.
Sim, senhor, um homem pra quem eu sempre faço trabalho.
Uma mulher magra e feia apareceu como um vulto na porta, para desaparecer em seguida. Severiano e                              
o menino tiveram a atenção roubada. Aproveitando a distração sentei­me num banco ao lado do                          
balcão e pedi uma coca para quebrar o gelo. Oswaldo também pediu uma e se sentou ao meu lado. O                                    
garoto pediu para ver a pistola.
Não é brinquedo, respondi com firmeza, não gostava de entregar minha arma a ninguém.
O garoto recuou me olhando como quem me jogava uma praga. Senti um arrepio no corpo. Estava                              
muito quente para fazer frio. Meus pêlos eriçaram. Tive certeza que, fosse realmente verdade essa                          
coisa de mau agouro, aquele menino tinha me agourado pelo resto da vida. Ou a morte tinha me                                
abraçado àquele instante.
O senhor sabia que esse homem pagou pela filha do Juarez? Oswaldo perguntou, mais confortável que                            
eu, que estava hipnotizado pelo olhar do garoto.
Acho que foi por conta do combinado, respondeu Severiano sem pestanejar.
Que combinado? eu perguntei.
Entre eles. Combinaram que o Juarez receberia adiantado um dinheiro, que seria descontado em                        
parcelas mensalmente.
Então o dinheiro era para pagar o combinado?
Foi sim, respondeu Severiano.
Olhei para Oswaldo. Eu e ele pensávamos a mesma coisa. Severiano sabia muito mais que contava.                            
Mantinha o bico fechado por segurança. Com certeza levava algum. Eu já conhecia o tipo que esconde                              
informação. Severiano era um caso típico de sete um, que na gíria popular qualifica o mentiroso e                              
enganador. Severiano mentia.
Vai Severiano, disse em tom de sarcasmo, diga a verdade. Você recebeu alguma coisa não foi?
Severiano ficou vermelho, para logo depois ficar branco quase pálido. Disse algo ao menino, que saiu                            
logo em seguida mostrando descontentamento. Bem no momento que a partida pegava fogo. O homem                          
nos olhou sério depois que teve certeza que ninguém nos ouvia.
O senhor diz que sou cabra mentiroso, é isso? Perguntou baixinho e lentamente.
Sua voz e os olhos transpareciam nervosismo. No mesmo instante fez um movimento brusco e se                            
curvou como quem queria pegar algo. Oswaldo nem pensou duas vezes pulou o balcão e foi logo                              
empurrando o homem. Desequilibrado, Severiano foi se segurar assustado na ponta do balcão. Os                        
olhos saltavam das órbitas.
Só queria pegar um copo, gaguejou, apontando com o dedo a bandeja de copos sob o balcão. Se                                
vocês me permitem tomar um trago, continuou, tão nervosa e rapidamente que era quase impossível                          
saber o que ele dizia.
Oswaldo se afastou para que ele passasse. Ao passar por mim fez sinal de que estava tudo limpo. O                                  
homem não guardava nem um tipo de arma sob o balcão. Mesmo assim redobrei a atenção. Severino                              
nos ofereceu sua pinga preferida. Enquanto se servia falava muito. Devia ser para disfarçar o                          
nervosismo. A garrafa tremia em sua mão e ele servia mais fora que dentro do copo. Tomou o trago                                  
mais que rápido que se serviu. Respirou fundo.
Agora que você já se serviu, eu disse, vamos continuar de onde paramos. O senhor recebeu ou não                                
dinheiro. Por que pelo que nos contou Juarez ele recebeu dinheiro pela filha. Dessa forma o senhor                              
também deve ter recebido.
Olha, disse, respirando fundo, eu num tenho nada que haver com isso, moro e trabalho aqui faz anos.                                
Apenas quis ajudar. Essa coisa de dinheiro não é problema meu. Minha parte eu fiz. Chamei o moço                                
aqui, apresentei a menina nas melhores intenções. Esse negocio de dinheiro é problema deles lá.
A fala de Severiano me fez mudar um pouco de idéia. Podia ser mais um enganado. Podia ser que não.                                    
Mas antes de perder dois peixes eu recuei. Utilizei uma tática mais branda.
Quem é esse homem, então, perguntei transparecendo calma, para que ele se acalmasse também.
Ele num mora aqui, mora na cidade, respondeu mais calmo. Chama­se Miranda, completou, sua voz                          
passava segurança. Minha tática estava dando certo. Trabalha como testa de ferro de um deputado.                          
Como eu sempre faço serviços para ele, um dia me perguntou se não conhecia alguém de confiança                              
para trabalhar como domestica na casa desse deputado. Foi aí que eu apresentei a filha do Juarez.
Severiano estava sendo verdadeiro em suas declarações. O que fez com que eu mudasse meu                          
pensamento com relação ao ele. Até podia ser que ele escondesse alguma coisa. Mas aí era outro                              
problema. A informação necessária eu já havia conseguido.
Precisamos de qualquer coisa que nos possa pôr em contato com este tal de Miranda. Não é esse o                                  
nome dele?
Sim, senhor, respondeu Severiano. Tenho o endereço e telefone dele. O senhor aguarda um instante                          
que eu vou aqui dentro buscar.
Esperamos uns cinco minutos. Severiano voltou com um papel meio amassado. Entregou­me muito                      
rapidamente o papel amarelado. O menino e a mulher feia voltaram com ele. Ambos me olhavam                            
atentos, como se estivessem me medindo.
Espero que o senhor o encontre, disse Severiano.
Espero que o senhor esteja dizendo a verdade, disse, olhando nos olhos dele.
Oswaldo pagou nossa conta. Depois de muito insistir que a comida era por conta da casa Severiano                              
aceitou o dinheiro. Colocou tudo numa capanga que carregava dentro da camisa. Algo dentro de mim                            
teve certeza que ele mentia.
Voltamos para delegacia. Fiz um relatório minucioso que agradou Mendonça. O Fazendo ele voltar                        
atrás na decisão de congelar o caso. Mesmo assim foi bem claro quando disse que não queria perda de                                  
tempo. Oswaldo e eu entendemos.
Voltei para casa naquele fim de tarde com um boa sensação. Tinha quase certeza de que logo teríamos                                
respostas para nossas perguntas e o caso seria solucionado. Tomei um banho que quente. Coloquei                          
uma roupa limpa e sai para jantar. Sentia­me bem. Estava um linda noite para andar pela cidade.
Cap. 7
Seja lá quem fosse o tal do Miranda tinha bastante dinheiro. Sua casa nada mais era que um palacete                                  
assobradado ás margens do lago. A mais bonita e arborizada de toda rua. Mesmo que na rua houvesse                                
outras mansões, nem um competia com a dele. Fiquei um tempo olhando para o monumento. Tanto pra                              
um só pessoa, e muitos sem nada, pensei. A vida é assim mesmo, cheia de disparidades.
Toquei o interfone duas vezes seguidas. Depois de cinco minutos nada. Dei mais uns três toques e                              
esperamos. Minutos depois uma voz fanha soou no interfone. Cheguei mais perto o ouvido para poder                            
entender melhor.
O que deseja, por favor, repetiu a voz umas três vezes, sempre no mesmo tom.
Somos investigadores, gostaríamos de saber se o senhor Miranda se encontra? Perguntei com a boca                          
bem perto do aparelho.
Por segundos foi aquele silêncio. Oswaldo me esperava dentro do carro. Foi um sumiço proposital.                          
Com certeza estava tomando recomendações. Com certeza fora recomendada para dizer que o patrão                        
estava viajando ou coisa parecida. Eu já conhecia certas situações. Muitas vezes bastava o menor                          
cheiro de sujeira para eu saber o que viria depois. Claro que errei muito enquanto treinava. Mas esse é                                  
outro assunto.
A voz tinha desaparecido e eu não poderia invadir a casa. Ou ela voltava e nos dava qualquer                                
informação, ou teríamos que esperar indefinidamente. Estava ansioso para que voltasse. Não gostava                      
de esperar.
Não estava mesmo afim de um plano b. A voz teria que retornar com certeza. Como nem sempre as                                  
coisas são. Depois de apertar insistidas vezes o botão do aparelho uma voz masculina e robótica soou                              
do interfone para meu alivio.
Os empregados não tinham permissão para dar informação. Ponto final. Não adiantaria insistir.                      
Teríamos que pensar num plano b o mais rápido possível. Mesmo que os fins não explicassem os                              
meios.
O que vamos fazer? Perguntei a Oswaldo quando voltei para o carro, atrás de uma solução.
O cara não está? Devolveu Oswaldo da forma de sempre.
Não sei, respondi desconsolado. Disseram que não tinham permissão para dar informação. Acho que                        
vamos ter que esperar para ver o que acontece. Pode ser que de repente alguém saia.
É tudo que temos?
Fiz que sim com a cabeça. Eu sabia que não sabia. Que estava perdido. A mansão me pareceu uma                                  
fortaleza. Assim eu a observava enquanto devaneava comigo mesmo. Um cutucão me trouxe à                        
realidade.
Vamos ter que intimá­lo a ir à delegacia, eu disse, ou esperar aqui até ele volte.
Então foi a vez de Oswaldo ficar calado. Quando tinha alguma coisa que requeria um pouco mais de                                
lógica era a vez de Oswaldo entrar em cena. Eu sabia que seu silêncio era uma busca em algum lugar                                    
do seu banco de dados. Eu apenas esperava a resposta do oráculo para fazer o que fazia melhor na                                  
vida. Dar pancada e partir pra ação. Não que eu fosse mal. O tipo do tira durão corrupto. Muito além                                    
disso. Eu estava acima. Odiava confusão. Mas se precisasse dela para resolver alguma situação. Eu                          
não arriscaria pensando antes de pular pra dentro.
E se ele não voltar hoje?
Você acha? Perguntei incrédulo.
Pode ser, respondeu. Mas também pode ser que esse cara esteja se escondendo aí dentro.
Então é melhor voltarmos para a delegacia, eu disse, um pouco desanimado.
Podemos esperar um pouco. Quem sabe a gente dá sorte e o cara aparece.
Pode ser.
Estacionamos a uns vinte metros, sob a sombra de um flamboyant. Tocaia era uma coisa chata. As                              
horas duravam mais que deviam. Oswaldo sacou o tabuleiro e começamos uma nova partida. Gambito                          
do rei.
Espero que isso não demore, disse entre uma e outra jogada, estou com fome.
Vamos ter que esperar, Oswaldo olhava pelo vidro procurando algo, aqui é chique demais para ter                            
uma lanchonete.
Acendi um cigarro enquanto, fechei os olhos. Eu estava muito cansado e queria relaxar. Todo meu                            
corpo doía em uníssono. Estava afim de umas boas férias. Me perderia por um bom tempo, até                              
descansar por completo. Eu estava cansado de crimes.
Essa vida me cansou parceiro, disse soltando uma longa baforada pela janela.
De vez em quando um carro passava por nós. Mas nenhum entrava na casa. Cansamos do xadrez                              
depois de três horas. Estávamos quase indo embora quando resolvi acender outro cigarro e o portão se                              
abriu. Pouco depois o portão se abriu e um homem vestido como mordomo veio em nossa direção. O                                
portão tornou a se fechar novamente.
Será que é ele? Perguntou Oswaldo. De repente cansou de esperar que fossemos embora.
Pode ser, eu disse.
Boa tarde, disse o cara assim que se aproximou, os senhores poderiam me acompanhar.
O senhor é o Miranda? Perguntei.
O empregado respondeu que não. Disse que o senhor Miranda nos esperava e que nós o                            
acompanhasse. Oswaldo concordou. Descemos. Por dentro a casa era ainda mais bonita que por fora.                          
O empregado nos explicou que quem nos atenderia na verdade seria o chefe da segurança. Caso ele                              
concordasse poderíamos conversar com Miranda pessoalmente.
O chefe da segurança era um cara gordo e mal educado. Tinha a aparência descuidada e um jeito                                
truculento de conduzir as coisas. O tipo do cara que adora espancar em troca de informação. Nos fez                                
esperar um bom tempo sentados num banco duro, como se fossemos dois criminosos. Essa recepção                          
deixou a mim e Oswaldo irritado Os dois seguranças que nos abordaram também faziam parte do time                              
dos escrotos.
Depois da longa espera fomos conduzidos à sala do chefe. Na verdade um quarto bagunçado, cheio de                              
papeis empilhados por todos os lados. Um lixo, para não dizer menos. O gordo nem deu por nossa                                
presença assim que entramos. Falava compulsivamente ao telefone. E pelo tom não era uma conversa                          
amigável. Depois de algum tempo o gordo decidiu desligar o telefone.
Estão aqui os agentes, chefe, disse o empregado.
O gordo ficou nos olhando sem dizer uma palavra. Parecia que tentava nos reconhecer. Ou tentava se                              
lembrar por que estávamos ali. Parados de frente a ele. Nesse instante tive a certeza que ele era mais                                  
um idiota. E não podia ser mais que isso.
De que distrito você são? Perguntou depois de algum tempo. Com uma cara abobalhada de criança                            
excepcional.
15º, disse sem me estender no assunto.
15º, repetiu baixinho, procurando palavras. É o distrito do Mendonça? Delegado Mendonça?
Sim, ele é o delegado chefe, respondi.
Desculpe a falta de educação, aceitam um café?
O gordo afastou a cadeira. Foi até a cafeteira e nos serviu uma xícara. O aroma da bebida aguçou                                  
minha vontade. O delegado se sentou e fez um sinal para que nos sentássemos também. Afastou alguns                              
papeis sobre a mesa. Ajeitou o corpanzil sobre a cadeira e voltando sua atenção para nós. Um sujeito                                
escroto com toda certeza.
Mendonça é meu conhecido desde os tempos do Rio de Janeiro, começou a falar com a voz tranqüila,                                
entre uma xícara e outra de café. Ele quis ser delegado e eu quis ganhar dinheiro, disse soltando uma                                  
gargalha que mexeu violentamente seu corpo gelatinoso.
De repente silencio e nos olhou sério. Pegou o telefone e discou. Ficamos todos em silêncio. Eu                              
começava a ficar irritado com aquele cara. Tinha a certeza de que se tratava de um escroto. Mas eu                                  
não podia fazer nada. Olhei para Oswaldo e percebi que ele sentia a mesma coisa. Então alguém                              
atendeu o telefone do outro lado da linha. O gordo pôs o telefone no viva voz.
Delegado Mendonça falando, ouvimos através do aparelho. A voz fanha e inconfundível de Mendonça                        
tomou conta do ambiente.
Velho Mendonça, quanto tempo. Aqui quem fala é o Flávio, do distrito da Barra, lembra?
Grande Flávio, Mendonça soltou uma gargalhada de satisfação. Pareciam mesmo grandes amigos.                    
Quanto tempo, hein! Tu ainda está no Rio?
Conversaram um bom tempo. Pela conversa percebemos o quanto o gordo e o Mendonça se                          
conheciam. Na verdade eram velhos amigos. Os dois tinham trabalhado junto um bom tempo no Rio.                            
Depois os dois foram separados por conta de um problema não foi revelado ali na hora.
Diga lá, o que devo pelo prazer da tua ligação? Perguntou Mendonça.
O negócio é o seguinte, o gordo fez uma pausa para respirar antes de continuar. Estou aqui com dois                                  
meninos teu. Eles estavam de campana na casa de um cliente meu. E aqui estão eles na minha frente.
Dois agentes meus? Perguntou Mendonça.
Sim, eles disseram que eram da 15ª.
Qual o nome deles?
O gordo então fez um sinal para que respondêssemos à pergunta do Mendonça. Não gostei da atitude                              
dele. A cada instante o cara me parecia mais escroto e arrogante. Disse meu nome para evitar                              
problemas. Minha vontade era quebrar a cara daquele gordo.
O cara é teu cliente? Perguntou Mendonça para o escroto.
É sim, um figurão conhecido nosso. Mas isso não vem ao caso. Eu sou pago para protegê­lo e quando                                  
aparece gente do nada vigiando e seguindo um cliente é o caso de averiguar o que está acontecendo                                
para não sermos pegos de surpresa.
Bom, que eu saiba, eles estão investigando um caso sobre uma menina que foi encontrada morta às                              
margens do lago. Só não sei por que eles foram parar aí.
Com certeza devem ter encontrado uma pista fresca, não é mesmo.
O gordo riu arfando o peito e movimentando com violência o corpanzil. Mendonça ficou em silêncio.                            
Nós também. Então o gordo fechou a cara e se despediu do Mendonça. Dizendo que iria resolver o                                
caso.
Flávio, ajude­os no que for possível, eu te agradeço e peço desculpas pelo incômodo causado.
Até mais Mendonça. Foi bom falar com você, disse o gordo. Qualquer dia desses vamos tomar um                              
chopp, concluiu.
Não bebo mais, Flávio. Faz cinco anos. Mas espero teu convite.
Um abraço.
O telefone desligou. Ficamos os três calados olhando um para o outro. O gordo coçava a nuca como                                
se estivesse pensando no que fazer com a gente. Aquele gesto estava me deixando nervoso. Como se                              
nós fossemos os bandidos. Depois de alguns instantes em silêncio. O gordo se abaixou com dificuldade                            
e tirou uma caixa de charutos da gaveta. Nos ofereceu. Não aceitamos.
São cubanos, disse, vocês vão gostar.
Obrigado, não fumamos, eu respondi. Apesar de ser mentira não queria me tornar amigo intimo do                            
cara.
Com muita cerimônia ele guardou a caixa outra vez na gaveta. Depois cortou com uma tesoura o fundo                                
do charuto e o acendeu com um isqueiro dourado Zipper. Eu estava a ponto de me enfurecer. O cara                                  
era realmente um completo escroto. Eu queria dizer isso na cara dele. Não valeria a pena. Com certeza                                
ele já havia ouvido muito disso na vida.
O que meu cliente tem haver com o assassinato da tal menina? Perguntou com a voz arrastada.
Pelo que levantamos ela trabalhou aqui antes de ser assassinada, eu respondi.
Aqui? Disse o gordo com cara de espanto.
Sim, durante uns dois meses.
Realmente, isso é verdade. O Miranda indicou essa menina para trabalhar aqui.
O gordo levantou novamente. Serviu­nos café e perguntou se queríamos água. De repente ele pareceu                          
ser uma boa pessoa. Como a primeira impressão é a que fica, com certeza eu teria dificuldades de ver                                  
aquele sujeito como alguém educado. Era só aparência. Tipo como ele não me enganava.
Eu sabia que mais ou mais tarde o sumiço dessa menina iria trazer problemas, disse o gordo, enquanto                                
degustava com paciência o charuto. Quando ele trouxe uma menor para trabalhar aqui com a                          
permissão de Agnaldo. Eu avisei que a coisa poderia acabar dando errado qualquer hora. Essa coisa                            
de trabalho infantil é um problema. Ele quis ajudar. Eu avisei. O Agnaldo é uma pessoa muito querida                                
no meio político. Todos o conhecem. Além de ser meu genro, é também uma pessoa muito bondosa.                              
Agora por conta dessa bondade ele se meteu numa fria.
Numa fria? Perguntou Oswaldo.
É, essa menina ainda vai trazer muito problema para vida dele. Ele deu emprego a ela. Deu um lar,                                  
segurança e até escola. De repente ela some. É encontrada morta. Quando os jornalistas souberem virá                            
toda aquela dor de cabeça, o nome dele na mídia. Dor de cabeça, jornais, dizia devagar, ele não                                
merece isso. Tudo por que decidiu ajudar uma menina com a qual ele se sensibilizou.
Olha só, Flávio, eu disse, se ele cooperar e nos contar tudo que sabe logo a gente soluciona o caso e o                                        
nome do seu cliente sai limpo...
Quem sabe vira até herói, brincou Oswaldo.
Olhei sério para ele. O gordo nos olhou mais sério. Apagou bruscamente o charuto no cinzeiro.                            
Levantou­se com dificuldade. Arrastou­se até uma espécie de armário e tirou de dentro uma garrafa de                            
uísque.
O problema, disse o gordo enquanto acendia um cigarro Depois procurou na pilha de papeis sobre a                              
mesa alguns jornais amarelados. Jogou­os a minha frente para que eu lesse a matéria de capa. Esse é o                                  
problema que eu quero evitar.
Parece que seu genro tem uma vida complicada, eu disse, mas o que isso tem haver com o sumiço da                                    
menina?
Ele já está sendo atacado e caçado diariamente. Claro, nada do que os jornais dizem é verdade. Até                                
que se prove o contrário. Agora o sumiço da menina. O assassinato. Investigação. O nome dele                            
novamente nos jornais quando nós estamos aqui tentando apagar o fogo anterior. Falava                      
pausadamente. Intercalando uma pausa e um gole de uísque. Não queremos mais problemas, entende.                        
Vou fazer de tudo para que as coisas caminhem com tranqüilidade. Agnaldo já fez besteira demais.
Entendo, falei, mas é o nosso trabalho. Você sabe, já foi policial. Só queremos esclarecer as coisas.                              
Queremos apenas conversar com esse Miranda. Ouvir o que ele tem a dizer.
Claro, claro. Entendo que é trabalho de vocês, mas quero que entendam que é meu trabalho manter as                                
coisas como estão. A menina sumiu. Um dia ela saiu e não voltou mais. Isso é tudo.
Eu sei, respondi, mas temos que levar nosso trabalho para frente. Precisamos de toda informação                          
necessária para esclarecer o caso. Prender o culpado e continuar a vida. Não me importa se seu                              
cliente, genro seja lá o que for. Se ele estiver envolvido nisso vamos descobrir. Se não pudermos falar                                
com seu empregado por bem. Falaremos na força. Vamos intimá­lo.
O gordo se ajeitou na cadeira. Percebi que ele estava muito irritado mas não queria explodir sua raiva.                                
Naquele instante tive a certeza de ter comprado um inimigo. Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa.                                  
Depois respirou fundo.
Você está certo, disse pausadamente. Não queremos escândalo, não é mesmo. Vamos fazer o                        
seguinte. Miranda está viajando com Agnaldo. Quando ele chegar eu mesmo peço a ele que procurem                            
vocês na 15ª. Está bem assim?
Claro, eu disse, estamos melhorando.
Assim é melhor, ele concluiu.
Nossa conversa se estendeu sobre outros assuntos. Tivemos que ouvir um sermão sobre como a                          
polícia trabalha e tudo o mais. O gordo pareceu ir com nossa cara e adorou fazer o papel de paizão                                    
cumpridor da lei. Tava na cara que ele não prestava. Que sua história estava toda costurada e que                                
pouco dela dizia respeito à verdade. O cara era um escroto sanguessuga. Um mentiroso. Fizemos                          
nossa cena de teatro e deixamos o escritório.
A tarde estava fresca. Pensei em tomar uma cerveja para clarear as idéias. Assim que nos                            
aproximamos do carro Oswaldo me olhou mostrando­me um bilhete que havia encontrado preso no                        
vidro do carro. Entramos no carro e Oswaldo foi logo abrindo o bilhete.
“Tenho informações que podem lhe ajudar. Encontre­me no bar Antúrios às 21. Estarei de jaqueta                          
preta e calça jeans azul.” Dizia o bilhete escrito com garranchos.
O que você acha? Perguntei.
Vamos averiguar, respondeu. Não temos nada a perder.
Concordei. Descemos lentamente a rua. Por segurança pedi que Oswaldo procurasse os lugares mais                        
calmos. Caso estivéssemos sendo seguidos poderíamos perceber. A cidade começava a ferver àquela                      
hora. Todos os carros estavam nas ruas. Voltamos para a delegacia antes de irmos ao encontro                            
marcado.
Cap. 8
Mendonça nos esperava nos esperava. Fomos direto para a sala dele. Com certeza o amiguinho tinha                            
ligado e posto pilha no Mendonça. Eu sentia que ele não estava com cara de muitos amigos. Assim que                                  
entramos foi logo fechando a porta. Nem nos deixou sentar. Foi logo disparando à queima roupa.
Que porra é essa de ir lá e ameaçar o Flávio? Perguntou irritado.
Calma aí, Mendonça, eu falei, ninguém ameaçou ninguém. Ele é que veio com a história que nós                              
evitássemos colocar o cliente dele nesse rolo. Sendo que a gente foi atrás do Miranda e não do cliente                                  
dele.
E aí?
Aí que eu disse que estávamos fazendo nosso trabalho e que precisaríamos conversar com o cara sim.
E?
E, o que? Não to entendendo Mendonça!
O que mais que você falou, porra?!
Daí eu disse que se não falássemos com ele por bem, falaríamos por mal, respondi.
Por mal?! Como assim por mal? Vocês iriam arrastar o cara até aqui e enfiar porrada nele?
Claro que não. Mas vamos intimá­lo.
A conversa ficou estranha. O Mendonça não mediu palavras e soltou os cachorros sobre nós. Parecia                            
até que nós tínhamos mexido com alguém da família dele. Ele estava muito furioso. A ponto de eu                                
pensar que ele fosse ter um colapso nervoso.
O que vocês estão pensando? O cara é um figurão. Uma pessoa pública. Um político. Simplesmente                            
ele não vem até aqui só por que a gente vai intimar. Só por que a menina trabalhou na casa dele depois                                        
sumiu. Pensem! Ele tem imunidade parlamentar. A gente não pode forçá­lo a nada. Parece que vocês                            
não estudaram a lei.
A gente conhece a lei. Conhecemos bem esse tipo de gente. Mas não estamos atrás do Agnaldo e sim                                  
do Miranda, que é o cara que agenciou a menina.
Pois bem. Era isso o que eu queria ouvir. Por essas e outras o caso está arquivado.
Qual é Mendonça! Que arbitrariedade é essa...
Olha como fala comigo garoto. Eu já estava nas ruas quando sua mãe ainda trocava tuas fraldas. Está                                
arquivado e pronto.
As coisas não são assim, você sabe...
Sei, sei, sei... Vai ser assim e pronto. O que vocês vão fazer? Me denunciar ao ministério público por                                  
não estar cumprindo meu trabalho? Porra, eu já tive muito problema com político e essa corja toda.                              
Não é agora que eu vou arrumar mais um problema. Acordem, isso não vai dar em nada. Esqueçam                                
esse caso. Ponto final.
Fiquei um bom tempo procurando palavras. Não as encontrava. Oswaldo me olhava assustado.                      
Estávamos os três em silêncio. Um silêncio constrangedor.
Agora saiam da minha sala, todos temos muito trabalho a fazer, disse Mendonça rispidamente.
Mendonça, não esperava isso de você...
Sai batendo a porta. Mendonça ficou esbravejando. Gritava feito louco. Acabou chamando atenção de                        
todo distrito. Que paralisado assistia nossa luta. Oswaldo veio atrás de mim. Pedindo que eu tivesse                            
mais calma. Eu não queria ouvir mais nada. Saí da delegacia enraivecido como um cão.
E se você insistir, gritou Mendonça, eu afasto você seu garoto de merda.
Foi a última coisa que ouvi do Mendonça antes de deixar a delegacia. Atravessei a rua e fui sentar                                  
numa cadeira no balcão da padaria. Acendi um cigarro. Pedi um café amargo e tomei de um gole só.                                  
Minha vontade era voltar e matar o Mendonça.
Calma parceiro, não tem por que a gente entrar em conflito com o Mendonça. Ele é nosso chefe, disse                                  
Oswaldo tentando me acalmar.
Oswaldo, até você está do lado dele?!
Claro que não, amigo, mas não vale a pena cutucar a onça. Vamos deixar a cabeça esfriar. É o melhor                                    
a fazer.
Ok, você tem razão, mas eu não vou desistir desse caso não. Não vou mesmo.
Tá certo, tô contigo. Só que a gente precisa de um plano B.
Um plano B. Vamos encontrar com o cara do bilhete?
Vamos sim.
Era quase dezenove horas quando saímos da delegacia. Fomos direto para o bar antúrios. Que ficava                            
numa quadra comercial na asa sul. O lugar já estava cheio àquela hora. Todo mundo curtindo um happy                                
hour. O bar antúrios não era exceção. Estava lotado. Não pudemos entrar. Nosso plano foi frustrado                            
por dois leões de chácara. Grandes o suficiente para moer nós dois sem muito esforço. Olhei para                              
Oswaldo e me senti impotente. Erguia a cabeça na esperança de ver se alguém parecia com a                              
descrição dada no bilhete. Inútil. Teríamos que esperar a nossa vez na fila. Que já se estendia por                                
dezenas de metros. Oswaldo me puxou para fora. Senti o ar limpo novamente.
Toma uma cerva, a gente vai ter que esperar mesmo, Oswaldo falou, me passando uma lata de cerveja.
Decidi seguir seu conselho. Concentrei­me em procurar alguém de jaqueta preta. Mas eu não via                          
ninguém. Normal. A noite estava quente ao extremo, e uma pessoa de jaqueta naquele forno só poderia                              
estar doente.
Temo que fomos enganados, comentei com Oswaldo.
Será?
É uma possibilidade. Ainda mais se levarmos em conta que não vimos ninguém de jaqueta.
Pois é. Quantas horas?
Eram quase nove horas. Eu já tinha quase certeza que tínhamos caído como patos numa armadilha.                            
Quando deu nove horas eu tive certeza. Tínhamos sido apanhados. Em algum lugar alguém nos vigiava.                            
Foi então que senti uma mão pesada sobre meu ombro. Oswaldo olhou para alguém atrás de mim.                              
Virei­me..
Investigador Marcos? Perguntou um homem de aparência doente, vestido de jaqueta preta e calça                        
jeans.
Sim, respondi.
Temos que sair daqui, disse, me pedindo que o seguisse. Podemos estar sendo observados, completou.
Descemos varias ruas e deixamos o barulho e a bagunça para trás. Apesar da aparência frágil o homem                                
se locomovia com rapidez. Nunca se descuidava e estava sempre olhando para todos os lados. Parecia                            
que estava sempre sendo perseguido. Assim que se sentiu mais seguro paramos perto de um velho                            
Escort.
Desculpe o jeito, mas temos que ter todo cuidado possível, disse mais calmo e a voz tranqüila. Meu                                
nome é Rubens, disse cordialmente estendendo­me a mão. Vamos dar uma volta para conversarmos                        
melhor. E apontou para o velho Escort.
Entramos no carro. Demos varias voltas até Rubens se certificar de não estarmos sendo seguidos.                          
Paramos num terreno baldio. Rubens foi o primeiro a descer. Olhando tudo ao redor. Precavido                          
demais.
O assunto é o seguinte, começou falando calmamente, trabalhei durante anos para o Doutor Agnaldo.                          
Era uma espécie de testa de ferro dele. Vocês sabem. Tudo o que é sujo era eu quem resolvia. Até que                                      
um dia o Miranda na trairagem, resolveu me apagar. Eu sabia demais e segundo sua visão tinha me                                
tornado um perigo. Resolvi fugir antes de ser assassinado. Então resolvi contar o que sei.
Rubens fez uma longa pausa. Respirava com dificuldade e fumava um cigarro atrás do outro. Era magro                              
como um gato de rua. Na verdade parecia um doente terminal. Eu não dava muito tempo para ele.
O cara é um filho da puta escroto, disparou. Está metido até o pescoço com corrupção, exploração                              
sexual infantil, trafico de crianças e tudo o mais que houver de podre que vocês puderem imaginar. Só                                
que ele conhece as pessoas certas.
Parou mais uma vez. Olhou para os lados e para nós. Depois acendeu um cigarro. Víamos que ele                                
estava muito nervoso. Alguma esse Miranda tinha aprontado para ele. Rubens tremia visivelmente                      
nervoso.
E aí, eu disse, querendo ouvir o restante. Por que você está nos contando tudo isso?
Justamente por que ele foi se envolver com minha sobrinha. Ele tem essas quedas por meninas novas.                              
Quando conheceu minha sobrinha fez de tudo para tê­la. Armou todo um circo. Ele me enganou e                              
enganou meus parentes.
O que ele fez? Perguntou Oswaldo.
Usou e abusou da pobrezinha, depois a abandonou.
E como você sabe que ele abusou dela? Perguntei.
Ela mesma me contou, respondeu. Eu já estava decidido a tirá­la da casa dele. Quando ele soube                              
inventou a história de que ela queria ser freira e a enviou para o convento. Com certeza ele fez a                                    
cabecinha dela. Prometendo mundos e fundos. Como fui proibido de vê­la não pude ajudá­la. Visitei­a                          
umas duas vezes no convento. Ela parecia feliz. Mas de forma misteriosa acabou morrendo.
Como? Perguntei.
A madre superior disse que ela caiu da escada. Foi tudo o que eu soube.
Contou­nos toda saga de Miranda e sua falta de escrúpulos. O prostíbulo movido a criança num bairro                              
chique. Freqüentado por figurões. Gringos cheios da grana. Indicados pelos canalhas brasileiros,                    
através da empresa de turismo de Agnaldo. Desciam dos aviões particulares. Hospedavam­se nos                      
melhores hotéis e pagavam uma grana alta pelo turismo sexual.
Muitos de seus clientes não vinham atrás de diversão sexual. Pelo menos num primeiro instante. Era                            
sabido sua associação com o tráfico de órgãos através de clínicas ilegais. Registradas como clínicas de                            
estética. Funcionavam como verdadeiros hospitais onde aconteciam transplantes, cirurgias e toda                  
espécie de negócio sujo. Que nada havia com a medicina de Hipócrates.
Tudo isso intocável pela lei. Que sempre fazia vista grossa. Amigo dos poderosos. Associado a                          
prefeitos, deputados e até mesmo com o Governador. Com quem almoçava frequentemente nos                      
restaurantes mais caros da capital.
Vânia era apenas mais uma vitima. Apenas uma das muitas crianças que Miranda explorava                        
sexualmente. Um jornalista, assassinado poucas semanas depois, quem denunciou na mídia o escândalo                      
e o desaparecimento de uma das meninas do Rei. O Rei, assim era conhecido Miranda, o amigo dos                                
poderosos. O jornalista foi encontrado morto no carro, perto de uma das fazendas de Agnaldo. O caso                              
foi encerrado como um simples assalto.
A verdade é que Vânia, mais que as outras, disse Rubens, gozava da confiança do Rei. A menina                                
predileta do deputado Agnaldo. Tanto que Agnaldo fez questão que ele morasse no melhor                        
apartamento numa área nobre da cidade. Bancando suas despesas. Viajando sempre juntos.
Então eles sempre viajavam? Perguntei.
Sim, por ele ser Deputado. Vânia sempre viajava com ele. Mais que a própria mulher. Ela parecia                              
muito feliz. As coisas mudaram quando ela roubou uma maleta de Agnaldo, que ele havia pedido que                              
ela guardasse para ele.
Uma maleta? Interrompeu Oswaldo.
Sim. Na maleta haviam dois milhões de dólares que ele recebera de um dos seus comparsas. Dinheiro                              
sujo de licitação. Era normal ele guardar esse dinheiro na casa da Vânia. Ele confiava mais nela que em                                  
muito de nós. Só que ele estava errado e ela o traiu. Roubou a maleta e fugiu.
O que aconteceu depois? Perguntei, interessado na história.
Uma verdadeira caçada. Que só acabou quando ele recuperou o dinheiro e com a morte de Vânia.
Quem matou a menina?
O próprio Miranda. Assim que a encontramos ele pediu que a levássemos a um de seus iates. Naquele                                
mesmo dia, quando escureceu, ele a levou.
Ficamos um bom tempo sem dizer nada. Acendemos um cigarro. O frescor da noite abrandava o calor                              
que fazia. Minha cabeça fervilhava com toda aquela história. Nunca imaginaria que um assassinato                        
pudesse nos levar tão longe. Deputado federal.
Deputado federal, eu disse sem animo.
O escroto é imune, sentenciou Rubens. Ou se prova bem provado as acusações contra ele. Ou... disse,                              
calando­se.
Ou? Perguntei.
Você sabe a resposta, companheiro.
Eu sabia. Bala na cabeça. Pelo jeito seria difícil provar os crimes. Precisaríamos de testemunhas.                          
Muitas testemunhas. Ou não conseguiríamos provar coisa alguma. Ou a gente voltava de cabeça baixa                          
ou resolvia o problema da forma mais rápida. Adiante estava o olho do furacão.
Vamos precisar de você para desmascarar esse criminoso, eu disse.
Sem problema, respondeu friamente Rubens.
Só tem um problema, alertou Oswaldo.
Qual? Perguntamos curiosos Rubens e eu.
Como vamos fazer para chegar a Agnaldo?
Fiz um breve relato da nossa campana frustrada. Rubens nos deu uma radiografia perfeita do sistema                            
de segurança patrimonial de Agnaldo. Sua rua era sempre vigiada pelos seguranças. Nunca iríamos                        
encontrá­lo em casa. Nunca teríamos a oportunidade de ser convidados para uma entrevista pessoal.                        
Tínhamos de ir à montanha.
Sei que hoje poderemos encontrá­lo em sua fazenda, disse Rubens. Ele passa maior parte do tempo lá.                              
Principalmente depois que acharam um veio de ouro. Ele cuida pessoalmente da extração.
Onde fica essa fazenda? Perguntei.
No interior do Pará, respondeu Rubens. Uma antiga herança familiar que ele mantém até hoje.
Ainda mais agora, completou Oswaldo olhando para ambos nós.
Pois é, finalizou Rubens. Se dermos muita sorte poderemos achá­lo aqui na cidade. Mas como                          
figurinhas carimbadas não podemos ficar andando por aí atrás dele.
Vamos até a fazenda, eu disse, encerrando o assunto.
O Mendonça vai ficar muito puto com a gente, lembrou Oswaldo.
Era uma situação séria. Com certeza Mendonça levaria nosso nome para a corregedoria da policia por                            
insubordinação. Poderíamos perder nossos empregos. No mínimo iríamos parar em alguma delegacia                    
boca suja. Esquecidos por um bom tempo.
Você volta, eu disse, não podia arriscar nem a vida nem o emprego de Oswaldo.
Cara, não vim até aqui para você me dispensar, Oswaldo falou, furioso.
Eu sei, disse, tentando acalmá­lo. Mas você tem mulher e filhos. Não posso arriscar sua vida e seu                                
emprego.
Mas estamos nisso juntos, é nosso trabalho.
Rubens aguardava dentro do carro. Tinha dado partida e só esperava uma solução para podermos por                            
o pé na estrada. Tínhamos muito chão pela frente. Oswaldo me deixou falando sozinho e foi até onde                                
Rubens estava.
Você vai conosco? Perguntou Oswaldo para Rubens.
Infelizmente não poderei ir, também tenho família para cuidar. Vou levá­los até onde puder, depois é                            
com vocês.
Oswaldo olhou para mim fixamente. Com certeza estava tomando uma decisão. Conhecia bem meu                        
parceiro. Sua teimosia o levaria a pior um dia. Eu apenas esperava que não fosse dessa vez.
Vou contigo parceiro, disse resoluto. Sabe lá o que você vai encontrar.
Pode ser perigoso, eu disse, tentando em vão demovê­lo da idéia.
Eu sei o que faço, disse Oswaldo encerrando o assunto.
Entramos no carro. O velho Escort atravessou a cidade velozmente. As janelas abertas afogaram o                          
carro com a brisa fresca da noite. Rubens ligou o rádio. Roberto Carlos cantava ‘à beira do caminho’.                                
Encostei a cabeça no banco e deixei a musica me invadir. Era quase onze horas de sexta­feira.
Cap. 9
Viajamos uma noite e um dia inteiro até Marabá. Onde decidimos descansar já no final do dia. Rubens                                
tinha viajado conosco até Altamira no Maranhão, onde sua mulher e esposa o esperavam. Decidira se                            
esconder com a família na casa de uma amigo. Quando nos encontrou na noite anterior tinha traçado                              
todo um plano na cabeça. Assim que soube que estávamos investigando a morte da menina começou a                              
montar as idéias. Éramos sua única aposta.
O que vocês podem perder? Perguntou­nos assim que terminou de explicar o que havia tramado.
Olhei para Oswaldo e percebi que ele também, como eu, não entendera o que Rubens queria que                              
fizéssemos. Apagar o Miranda na primeira oportunidade.
Não dá, Rubens, disse eu, olhando fundo em seus olhos. Só o que podemos fazer é prendê­lo. Nada                                
mais que isso.
Rubens ficou um tempo olhando o horizonte. Parecia digerir nossa resposta. Encheu o copo de coca e                              
tomou de um só gole. Colocou sobre a mesa uma bolsa de couro preta que trouxera consigo. Foi aos                                  
pouco tirando recortes de jornal. Uma pilha deles que invariavelmente tratavam dos mandos e                        
desmandos de Miranda. Passei a vista em vários até me sentir mal. Passei os recortes para Oswaldo.
Sinceramente, não dá, tornei a repetir. Aquilo que te disse é o máximo que podemos fazer.
Rubens não se rendeu. Abriu os braços para logo depois fazer um sinal de advertência com o dedo.                                
Ficamos olhando atento. De dentro da bolsa vimos saltar sobre a mesa quatro grossos pacotes de                            
notas de cem e cinqüenta reais. Olhei para Oswaldo e ambos não acreditávamos no que víamos. Havia                              
uns vinte mil ou mais ali na nossa frente.
Isso não quer dizer o que estamos pensando, adiantou Oswaldo, olhando intrigado para Rubens.
Ao menos levem o dinheiro, disse com calma, vocês vão precisar. Levem o carro também. Eu fico em                                
Altamira. Façam o que vocês têm de fazer. Mas eu peço a Deus que o safado aja novamente para                                  
vocês terem certeza de quem ele realmente é. É o castigo que merece.
Obrigado por entender e pela ajuda. Agradecemos o carro, mas não precisamos do dinheiro, eu disse,                            
afastando os pacotes.
Têm certeza?
Oswaldo me cutucou. Por que a gente não leva uma parte? Só para garantir.
Você acha? Perguntei. Ele respondeu que sim com a cabeça.
Pegamos quinze mil reais e saímos o mais rápido possível do lugar. Horas depois deixamos Rubens na                              
rodoviária de Altamira. Ele nos passou os documentos do carro e nos despedimos. Seu ônibus estava                            
para sair.
Pense no que disse pelo menos. Insistiu uma última vez pela janela do ônibus.
Faremos o que é certo, respondi dando de costas. Fazia um calor infernal e a rodoviária não tinha uma                                  
viva alma.
Mesmo assim, pense.
Foi a última coisa que disse. Enquanto descansava numa cama dura num hotel qualquer de Marabá eu                              
pensava nisso. Começava a ter dúvidas sobre o assunto. Será que agimos certo? Oswaldo roncava na                            
cama ao lado. Desliguei a TV e decidi dormir.
A verdade é que eu não consegui conciliar o sono. Só pelas tantas da madrugada consegui dormir, mais                                
dominado pelo cansaço do que pelo sono propriamente em si. Naquela noite eu não consegui tirar da                              
cabeça a imagem da menina. Alguma coisa me ligava a ela. Alguma coisa também me dizia que algo de                                  
ruim nos aconteceria. Oswaldo dormia profundamente na cama ao lado. Eu temia pela vida dele, pela                            
nossa vida. Lembrei do Mendonça. De qualquer forma eu teria que conversar com ele, logo pela                            
manhã. Ele devia estar louco a nossa procura. Devia estar muito irritado. Eu teria que enfrentar o                              
Mendonça.
Já era quase quatro da madrugada quando os olhos deram sinal de cansaço. Dormi um sono profundo,                              
mas pesado. Sonhei que estava sentado na cama do hotel quando de repente a porta se abriu e vi                                  
Vânia entrar. Estava linda num vestido branco florido. Nem de longe lembrava o pedaço de carne que                              
encontráramos no mangue aquela manhã. Realmente era uma menina linda.
Foi então que ela se aproximou e me deu um beijo na testa. Senti toda leveza de brisa fresca percorrer                                    
meu corpo. Senti­me refrigerado e tranqüilo. Olhei para Vânia, ela chorava.
Vânia, quem fez isso com você? Eu perguntei.
Como num passe de mágica ela desapareceu. Quando acordei estava sentado na cama. Oswaldo me                          
olhava com curiosidade.
O que aconteceu? Perguntou.
Tive um sonho, respondi.
Sonho?
É. Acabei de sonhar com a menina, falei, meio sem entender o que tinha acontecido. Foi tão real que                                  
pude sentir o beijo que ela me deu sobre a testa.
Às vezes acontece comigo também.
Esses sonhos?
Sim. Li um livro certa vez que falava sobre isso. Mas seja lá o que for já são quase sete horas. Vou                                        
tomar um banho e descer para o café.
Com certeza, respondi, ainda um pouco entorpecido. Temos que falar com o Mendonça. Pelo bem dos                            
nossos empregos.
Se é que a essa hora ainda temos um, brincou Oswaldo.
Pois é.
Oswaldo deixou o quarto e saiu cantarolando corredor afora. Peguei o celular e o liguei pela primeira                              
vez desde que deixamos Brasília. Mendonça havia nos ligado inúmeras vezes. Com certeza estava                        
muito nervoso. Eu me preparava para ouvir. O telefone tocou insistentemente umas dez vezes, até que                            
uma voz rouca de sono atendeu do outro lado. Era o Mendonça.
Alô, falou secamente. Ele odiava ser acordado. Era pior que levar um tiro.
Mendonça, sou eu, Marcos, falei, esperando o pior.
Ah! Então o filhinho resolveu ligar para o papai, respondeu com sarcasmo, que eu bem sabia ser sua                                
maior expressão de raiva. Onde é que vocês estão? Começou a disparar sua metralhadora de ódio.                            
Quem vocês pensam que são para poderem jogar meu nome na lama? Hein?! O que vocês acham que                                
estão fazendo?
Mendonça, calma, posso explicar tudo, eu tentava contornar a situação. Mas quando o Mendonça                        
ficava nervoso ninguém podia com ele. Com certeza estava espumando pela boca.
É bom que vocês tenham uma desculpa muito boa. Por que estou a um passo de entregar vocês pra                                  
corregedoria. Vocês têm idéia do problema que estão criando?
Eu sei, agradeço sua compreensão em não nos entregar, mas deixa eu me explicar melhor. Você vai                              
entender.
Vamos lá, comece. E é bom que você tenha uma ótima desculpa para me dar. Pois se não houver, vou                                    
entregá­los sem dó para corregedoria.
Expliquei tudo que estava acontecendo. Mendonça apenas me ouvia. Expliquei da melhor forma                      
possível tentando aplacar um pouco da fúria.
Então é isso, estamos quase perto de prender o assassino.
Marabá, um Deputado... Olha só o rolo em que vocês se envolveram e ainda querem envolver meu                              
nome nisso. Vocês são inocentes ou o que.
Eu sei...
Sabe nada! Sabe nada, garoto. Você pensa que sabe, mas você não sabe nada. Isso aqui é o Brasil. E                                    
no Brasil político não vai preso, Marcos. Poxa, você é o melhor investigador que eu tenho e me                                
apronta uma dessa.
Mas eu tenho certeza de que poderemos pegá­lo. Tenho testemunhas, menti.
De que valem suas testemunhas? Hein, me diga o que valem suas testemunhas contra um político                            
corrupto? Nada, Marcos. Ela não vale nada. Por isso sugiro que vocês voltem imediatamente e                          
esqueçam esse caso. Ponto final. E se dêem por gratos por eu não entrega­los.
Vou até o fim, eu disse. Oswaldo também.
Meu Deus, e você ainda arrasta o pobre do Oswaldo nas suas loucuras garoto. Você não tem                              
consciência. Alias, nem um dos dois tem consciência. Vocês têm merda na cabeça, isso sim. A esposa                              
do Oswaldo me liga toda hora querendo saber o que está acontecendo. Ele podia ao menos avisar a                                
mulher que está se aventurando pelo Pará.
Eu sei, vou avisar a ele.
Olha, se vocês vão continuar com isso, é por conta e risco de vocês. Mas vou ter que denunciá­los à                                    
corregedoria. Sabe lá se acontece algo com vocês e eu ainda vou ter que pagar por isso. Vocês estão                                  
sós. A partir de agora eu estou afastando os dois.
Mendonça, não faz isso!
Cara, você não me dá escolha. E desligou o telefone.
Oswaldo me olhava curioso, sentado em sua cama.
E aí? Perguntou.
Mendonça acabou de nos afastar e vai nos entregar à corregedoria.
Oswaldo olhou para mim sem surpresa. Já conhecia o jeito truculento do Mendonça de lidar com as                              
adversidades.
É melhor você voltar, eu disse. Pelo menos você garante teu emprego e o sustento de sua família.
E você?
Eu fico e dou um jeito. Mas tenho que pegar esse cara.
Eu fico também, não vou abandonar meu parceiro nesta hora.
Mas você tem filho e esposa. Eu sou sozinho no mundo.
Eu sei, mas estamos juntos. Vamos voltar juntos. E não se discute mais isso.
Ok! Respondi, contrariado, pois sabia que nada que eu dissesse iria mudar o pensamento do Oswaldo.                            
Pelo menos liga para sua esposa. Ela está preocupada.
Tá certo. Agora vai tomar um banho. Temos que sair logo. Ainda temos muito chão para andar.
Pequei minha toalha e fui ao banheiro. Sentia algo estranho se contraindo dentro de mim. Lembrei do                              
sonho. Pensei comigo mesmo se era certo o que estava fazendo. Enquanto a água quente caia sobre                              
meu corpo cansado deixei minha mente repousar. Agora era tudo ou nada. Eu tinha de ir até o fim.
Eram nove horas quando pegamos a estrada. Oswaldo estava tranqüilo. Mas eu temia por sua vida.
Cap. 10
Nova Aurora era uma cidade pequena cravada no meio do nada. Antes da corrida do ouro era apenas                                
mais uma cidade do interior do Pará. Pobre, abandonada e esquecida no cerrado. Sobrevivia apenas                          
do extrativismo animal. Produzindo uma renda que mal dava para alimentar seus parcos dois mil                          
habitantes. Pessoas simples e pobres que serviam de objeto de exploração dos poucos ricos do local.                            
A mesma situação de muitas das pequenas cidades do interior país. Dizia­se que era uma cidade                            
esquecida do próprio destino. Os políticos só passavam pela cidade em dias de eleição. Como num                            
passe de mágica desapareciam e a cidade voltava a se afogar no esquecimento.
O prefeito era um velho bonachão e corrupto. Junto com os vereadores ocupava­se de desviar os                            
poucos recursos que a cidade recebia do governo federal. A única escola não funcionava. Faltavam                          
professores, merenda, livros e até mesmo carteiras para os estudantes sentarem. O posto de saúde era                            
um prédio em ruínas. Os doentes acabavam sendo levados como dava ao hospital de Marabá. Muitos                            
morriam em meio do caminho. Água encanada e rede de esgoto era luxo. Resumindo era uma cidade                              
criada para enriquecer uns poucos em detrimento dos muitos pobres. Que de tão pobres não tinham                            
muitas perspectivas de vida.
Com a descoberta de novas minas de ouro na região, a pacata e esquecida cidade mudou                            
bruscamente. Vieram os forasteiros com sua sede de riqueza instantânea. Junto com eles todo o                          
movimento natural. Bares, prostitutas e trambiqueiros de toda sorte. Para os mais velhos a cidade virou                            
um inferno. Para os mais jovens um céu. Para mim havíamos chegado numa cidade à beira do caos. A                                  
corrida do ouro tinha transformado tudo e todos.
Bebíamos cerveja num bar. Observando o vai­e­vem frenético das pessoas. O calor sufocante me fazia                          
suar em bicas. Oswaldo comia uma coxinha feita na hora segundo o proprietário. Eu não quis arriscar                              
tanto.
Volta e meia passava alguém oferecendo e comprando ouro. Não se falava em outra coisa na cidade.                              
A moeda corrente eram as tão cobiçadas pepitas. Oswaldo por curiosidade pediu para ver algumas a                            
um senhor negro que nos oferecia.
Pensar que as pessoas se matam por isso aqui, disse Oswaldo, levantando a pequena pepita à altura                              
dos olhos.
As pessoas se matam por muito menos.
Pois é, falou evasivo, concentrado no brilho da pequena pedra. Quanto vale essa pedrinha? Perguntou                          
ao negro que olhava tudo atentamente ao seu lado.
Vinte reais, respondeu sem muito interesse.
Vinte? Tudo isso?
É o que vale no comércio informal, porque numa casa de compra valeria três vezes mais.
Você está de brincadeira, eu disse.
To não senhor, respondeu o vendedor.
Vou ficar com ela, disse Oswaldo com um brilho nos olhos. Lembrança para Vera, completou, como                            
quem tivesse que me dar alguma explicação.
O calor estava escaldante. Mais alguns minutos naquela cidade eu iria derreter. Àquela hora as ruas                            
encontravam­se cheias. Todos pareciam não dar muito importância ao calor extremo que fazia. Para                        
mim parecia uma enorme panela de pressão prestes a explodir. Nem mesmo a cerveja gelada que                            
tomávamos conseguia aplacar o desconforto.
Tenho que tomar um banho urgente, disse incomodado.
Eu também, falou Oswaldo. Como faz calor aqui, amigo.
Ainda não havíamos saído em busca de hotel. Mas não seria difícil encontrar. Espalhados pela cidade,                            
havia dezenas deles. De todos os tipos e para todos os gostos. Entramos no carro e fomos descendo                                
lentamente a avenida principal. Paramos no primeiro hotel que nos pareceu conveniente. Nem                      
podíamos chamar aquilo de hotel. O lugar mais parecia uma espelunca de beira de estrada. Sem                            
conforto algum. As camas eram desconfortáveis. O ar condicionado não funcionava. O único ventilador                        
fazia um barulho infernal quando ligado. O banheiro era compartilhado. Tivemos que esperar um bom                          
tempo para nos refrescarmos. Felizmente a água estava bem fria.
Tomamos banho e saímos logo a seguir. Descemos a pé a longa avenida até uma sorveteria mais                              
próxima. Depois sentamos num banco na praça. Embaixo de uma mangueira. Mesmo à sombra o calor                            
era insuportável. Abri a camisa e relaxei sobre o banco. Oswaldo do meu lado tomava tranquilamente o                              
resto do seu sorvete.
Bem, o que vamos fazer? Perguntei, enquanto me abanava com um jornal velho que estava sobre o                              
banco antes de chegarmos.
Colhermos informação, respondeu Oswaldo. È a única coisa a fazer. Já que estamos perdidos nesta                          
terra de ninguém.
Pois é, começo a achar que entramos numa roubada.
Mas já que estamos aqui, vamos fazer o que tem de ser feito.
Na verdade eu temia muito pela vida de Oswaldo. O fato de ele ter filhos para criar, uma esposa e um                                      
lar para sustentar me deixa preocupado. De vez em quando passava pela minha cabeça que aquilo era                              
uma grande burrada. Que não tínhamos nada mesmo o que fazer ali. Como nos disse o Mendonça. E                                
se encontrássemos o tal do deputado? O que poderíamos fazer contra ele? Nada. Não tínhamos                          
mandato. Estávamos sem apoio e cumprindo ilegalmente nosso dever numa terra que não conhecíamos.
Quero que você pegue cinco mil e deposite na sua conta, eu disse.
Pra quê?
Por segurança, respondi evasivo.
Na verdade era mais um plano mirabolante. Como se aqueles cinco mil fossem ajudar à família caso                              
alguma coisa ruim acontecesse. Pelo menos eles não ficariam tão desprotegidos, pensei. No fundo                        
aquele dinheiro não serviria de nada.
Ta com medo de alguma coisa? Perguntou Oswaldo, olhando fundo dentro dos meus olhos.
Eu já conhecia aquele olhar. Ele desconfiava de algo que eu estava tramando ou até sentia minha                              
preocupação.
Você não se preocupa com sua família? Perguntei.
Claro que sim, respondeu esquivando olhar. Mas tenho certeza que vai dar tudo certo.
Espero, falei.
Encontramos o cara, tomamos o depoimento, preenchemos o relatório e depois vamos sair fora desse                          
inferno. Não é mesmo?
E se as coisas complicarem?
Aí, irmão, um vai ter que defender o outro. Como sempre tem sido.
E sua família?
O que tem minha família?
As coisas podem dar errado.
Pode acontecer com você também.
É, mas você tem um lar para cuidar. Eu sou bicho solto, não tenho mais ninguém na vida.
Se acontecer alguma coisa, falou seriamente, quem ficar toma conta de tudo.
Era o que eu temia. Não tinha tido a coragem de casar para não ter de fazer sofrer ninguém. A vida de                                        
policial é muito complicada e às vezes cobra um preço muito alto. Mas se tratando de um amigo, um                                  
irmão. Eu não podia correr. Tinha de fazer o meu melhor.
Fechado, respondi e apertamos as mão selando o pacto
Espero que as coisas corram bem. Voltamos para casa, enfrentamos o Mendonça e voltamos ao                          
trabalho. Penso sempre positivo.
Eu também sempre tento. Mas às vezes as coisas não saem como planejamos.
Bem, aí eu só posso pedir que Deus que nos proteja.
Deus. Teríamos mesmo que contar com a ajuda divina. Interiormente eu senti um grande vazio. Lutava                            
já contra isso. A imagem da menina voltava à minha mente. Sempre do mesmo jeito. Morta e                              
abandonada num canal de esgoto. Deixada para ser comida pelos animais. Isso eu não podia perdoar                            
nunca. Mesmo que tivesse que dar minha vida esclareceria esse crime. Fosse como fosse a lei ou a                                
justiça dos homens. Esperaria em Deus a justiça final. Senão, eu mesmo praticaria a justiça dos                            
homens.
Cap. 11
Fosse quem fosse Miranda, percebermos que as pessoas evitavam falar sobre ele. Todos conheciam a                          
figura. Mas ninguém queria falar mais do que já se sabia. Ele era temido na região.
Depois de descansarmos da viagem. Na manhã seguinte Oswaldo e eu começamos as investigações.                        
Descobrimos pouca coisa. Andamos o dia todo atrás de informação nenhuma. Ninguém queria se                        
expor. O calor insuportável fazia daquilo um calvário. No fim do dia meus pés estavam pedindo ajuda.                              
No bar todos já sabiam quem éramos e o que estávamos fazendo ali. Depois fiquei pensando que                              
nosso disfarce não tinha ajudado muito. Em comum acordo decidimos ir à cata de informações como                            
se fossemos jornalistas. Acho que daí sobreveio o medo das pessoas.
Se continuar desse jeito teremos de voltar para casa amanhã mesmo, eu disse, enquanto saboreava                          
minha cerveja gelada.
Pode ser, mas também pode não ser, Oswaldo falou em tom de ironia. A gente nunca sabe o que pode                                    
acontecer, completou.
Ele até podia estar certo. No entanto estávamos sem sorte e se as coisas continuassem assim teríamos                              
que voltar de mãos abanando. Mendonça se sentiria pôr cima da carne seca. E teríamos que ouvir seus                                
sermões por longos meses. Eu não estava a fim de passar por mais esse constrangimento. O pior não                                
seria o Mendonça. Que esse nós sabíamos muito bem como anular.
O problema maior é que viraríamos chacota em todo distrito. Oswaldo e eu perderíamos nossa bem                            
conhecida reputação. Somado à fúria do Mendonça com certeza passaríamos um bom tempo na                        
geladeira. Pegando os piores casos que aparecessem. Os famosos ‘boca­podre’.
Vai mais uma cerveja? Perguntei.
É bom, respondeu. Pelo matamos a sede.
Eu já havia percebido. O dono do bar começou a nos tratar diferente. Principalmente depois que soube                              
que éramos jornalistas atrás de informações sobre Agnaldo. No dia anterior ele veio pessoalmente nos                          
servir. Fazendo aquele jogo de dono de bar querendo amansar o freguês. Depois que nos servia era um                                
menino magro e feio. O dono do bar aparecia de vez enquanto por detrás de uma cortina de miçangas.                                  
Como quem quer se esconder.
Acho que acabamos de contrair alguma doença, disse, comentando o estranho fato.
Por quê?
Até o dono do bar evita entrar em contato conosco, respondi.
Oswaldo se virou no balcão. Apenas o menino magro nos olhava. Tinha um olhar vago e                            
desconcertante.
Acho que você está com coisas na cabeça, falou, enquanto se arrumava sobre a cadeira.
Não sei, foi a impressão que tive.
Talvez ele tenha medo de algo, disse. Aqui todos vivem com medo. Você sabe, aqui é uma terra de                                  
ninguém. Violenta como um faroeste. Onde tudo se resolve à bala, como o Rubens mesmo disse. E se                                
esse tal de Miranda for mesmo o bicho papão local. Ninguém vai querer ele visitando seus sonhos.
Você tem razão, eu faria o mesmo.
Pois é. Sinal que devemos ter mais cuidado. A gente não sabe com quem estamos lidando. Apesar de                                
tudo que o Rubens nos disse. A gente não sabe nada.
Somente lá pelas sete horas e umas tantas cervejas depois. Decidimos voltar ao hotel. O calor estava                              
suportável. Para mim não faria sentido ficar andando à noite pela cidade atrás de informação. Quando                            
não havíamos conseguido nenhuma à luz do dia. Eu ainda me sentia cansado dos dias anteriores. Mais                              
uma noite de sono e eu me sentiria revigorado.
Fomos andando até o hotel que ficava a duas quadras de distância do bar onde estávamos. Assim que                                
colocamos os pés dentro do estabelecimento o porteiro foi logo nos entregando um envelope.
Deixaram aqui faz umas duas horas, disse o porteiro, me passando um envelope pardo volumoso.
Duas horas? Perguntei, curioso com a entrega inesperada.
Sim, senhor, respondeu o homem, um tanto curioso por saber o que havia naquele pacote.
Deixei­o na curiosidade. Subimos as escadas e nem bem entramos no quarto, fui logo espalhando o                            
conteúdo do envelope sobre a cama. Eram recortes de jornais, fotos, documentos. Todos ligados a                          
Miranda. Um presente caído do céu. Acompanhado de um bilhete.
“Encontre­me na boate Hollidai hoje. É do seu interesse.”
Oswaldo tomou o bilhete da minha mão.
Pela letra parece mulher, disse após alguns minutos de silêncio.
Você acha? Eu perguntei.
Só pela letra, parece, concluiu. Mas pode não ser.
Tomei o bilhete de volta. Observando mais atentamente o contorno da letra. Bem caprichada. Como                          
alguém que usou caderno de caligrafia. Oswaldo até poderia estar certo. Só saberíamos mesmo indo                          
ao encontro da tal pessoa.
Boate holiday, repeti baixinho para mim mesmo.
Oswaldo vasculhava os documentos enviados. Na maioria recortes de jornal. Locais e estaduais. Havia                        
também umas dezenas de fotos. Na maioria Miranda estava acompanhado de jovens meninas.                      
Sorridentes. Mas só uma delas me chamou atenção. Uma foto onde Agnaldo estava sentado em um                            
banco, uma menina sentada em seu colo e uma mulher abraçando­o por trás. Ambas sorridentes.                          
Pareciam felizes.
Veja só, falei, estendendo a mão passando a fotografia.
Oswaldo olhou bem. Ele tinha um pequeno problema de vista que não o permita enxergar                          
corretamente. Precisava olhar bem e concentradamente para poder enxergar. Já tínhamos discutido                    
sobre isso. Ele preferia continuar como estava.
É a Vânia? Perguntou depois de algum tempo, ainda em dúvida.
Exatamente, respondi. Vânia e Agnaldo juntos.
Parecem felizes, ele completou.
Parecem, falei.
Os recortes de jornal denunciavam aquilo que a gente já sabia. Miranda era um bandido. Pior. Bandido                              
protegido por gente graúda. Denúncias de assassinato, extorsão, tráfico de mulheres. Associação com                      
a prostituição e todo tipo mais de vileza que uma pessoa pudesse cometer. Vendo aqueles recortes                            
achei difícil acreditar que ele ainda pudesse ser representante do povo. Eu tinha em mãos um                            
calhamaço de denúncias que com certeza foram abafadas uma a uma à força da bala ou do dinheiro. O                                  
cara era mais perigoso que a gente imaginava.
Olha só, disse Oswaldo, me passando um recorte. Agora eu sei por que eles têm tanto medo de                                
repórteres, completou.
A meia página do jornal local noticiava a morte de um Jornalista. O homem desaparecera em busca de                                
uma reportagem. Foi encontrado uma semana depois. Teve os dedos e a língua arrancados. Assim                          
como aconteceu com Vânia. Apesar de ter sido localizado perto de uma das fazendas de Agnaldo. O                              
crime nunca foi solucionado.
Acho que pegamos nosso homem, eu disse, ainda chocado com os crimes brutais que ele cometera.
Ele vai dar trabalho, disse Oswaldo. Não vai ser fácil chegar a ele.
Precisamos ter cuidado, muito cuidado.
Voltei a ler o bilhete. “Encontre­me na boate Hollidai hoje. É do seu interesse”. Um convite                            
tentador. Muito perigoso também. Bastava ver que a cidade esvaziava antes das sete. Os honestos se                            
escondiam.
Como tínhamos andado o dia todo sem encontrar uma informação sequer. Estávamos famintos por                        
qualquer coisa que nos levasse de encontro ao alvo. Ainda assim não estávamos em casa. Mesmo lá as                                
coisas endureciam. Um cuidado a mais não faria mal.
O que você acha? Perguntei, tentando dividir um pouco da carga.
É só o que temos.
Tirei minhas duas pistolas da mochila. Conferi a munição. Pra todo efeito levei um pente a mais. Nunca                                
se sabe o que poderíamos encontrar. Oswaldo fez o mesmo. Fechamos o quarto. Descemos as                          
escadas. O calor continuava. O dono do hotel estava na recepção. Assistia à novela. Com os olhos nos                                
acompanhou até a porta. A rua estava vazia. Só alguns mais corajosos se arriscavam àquela hora.
Pensando em conhecer a noite da cidade? O dono perguntou sem se mover da cadeira de vime em que                                  
estava sentado.
Andar um pouco, respondi sem querer me alongar no assunto.
Tomem cuidado, ele falou. Se voltarem tarde é só tocar a campainha que alguém vem abrir a porta.
Obrigado, respondi e fui logo saindo antes que ele nos desse mais alguma recomendação.
Eram precisamente nove e meia. O tempo abafado me fazia suar em bicas. Eu caminhava arrastado.                            
Como se carregasse bolas de chumbo nos pés. O silêncio das ruas desertas era cortado apenas pelo                              
som dos televisores vindo das casas. A segurança do lar.
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge... Sussurrei comigo mesmo. Era hora de pedir                                
proteção.
Cap. 12
A boate era um inferninho movimentado. Como eu já imaginava. Só não pensei que àquela hora ele                              
pudesse estar tão agitado. Não foi muito difícil encontrá­lo. Ficava numa rua estreita e movimentada.                          
Com bares de um lado e outro. Bem poderia se chamar rua da perdição, pensei. De longe se via o                                    
letreiro enorme em néon vermelho piscando. Parecido com armadilha para moscas. Era a boate mais                          
freqüentada da região.
Do lado de fora dois leões de chácara faziam a segurança. Percebi logo, pelo volume sob a camisa, que                                  
eles estavam bem armados. Dois caras assustadores. Pareciam ter saído da idade média. Impondo                        
respeito à base da truculência. Eu não queria vê­los em ação naquela noite. Não esperamos muito.                            
Fomos logo tentando entrar.
Se vocês estiverem armados, disse o maior deles, assim que me aproximei. Terão de deixar suas armas                              
guardadas com o armeiro. Aqui não aceitamos entrada de pessoas armadas, completou, apontando o                        
lugar onde deveríamos deixar nossas pistolas.
Eu não estava muito disposto a deixar minhas armas na mão de desconhecidos. Como era regra da                              
casa, resolvemos fazer o que tinha de ser feito. Entregamos as armas. O armeiro ficou nos olhando                              
como se estivesse acessando um registro. Na certa já havia visto muitas armas como aquelas. Por fim                              
nos entregou dois papeis amarelos numerados.
Voltamos à portaria e fomos revistados da cabeça aos pés. Lá dentro a coisa pegava fogo. O lugar                                
estava lotado. Quando pensei que teríamos de ficar em pé duas garotas acenaram para nós,                          
convidando a sentarmos em sua mesa. Na verdade eram duas adolescentes. Não tinham mais de                          
dezesseis anos. A carga de maquiagem é que as faziam mais velhas do que realmente eram. Vestiam                              
pequeno short vermelho com bustiê da mesma cor.
Sentem aqui, disse a que parecia ser a mais soltinha, hoje a casa está cheia e vocês não vão encontrar                                    
mesa tão fácil, não.
A maquiagem as transformava em velhas mulheres cansadas. Mesmo jovens, eu via que elas já estavam                            
cansadas. Seus rostos não apresentavam mais o brilho da juventude. Apesar de serem bonitas.                        
Naquela idade já eram mais mulher que muitas mulheres que já tinha conhecido.
Eu sou Lana, disse a mais extrovertida. Ela Lena, completou, apontando a amiga.
Lana e Lena? Perguntou Oswaldo.
Sim, respondeu a outra, que até então estava calada.
Se eu contar vocês não acreditam, atalhou a extrovertida.
Bom, já vimos tanta coisa nesse mundo, eu disse, que o que você disser não vai me assustar.
Será, disse Lana, e as duas riram com euforia. Tinham bebido bastante, imaginei.
Elas eram irmãs. Tinham saído de Marabá em busca da sorte grande. Acabaram parando em Nova                            
Aurora. Na verdade tinham vindo acompanhando um mineiro. Que fazia questão de sustentar e ter as                            
duas. Um dia o pobre homem foi assassinado e não sobrou alternativa para as irmãs senão a                              
prostituição. De cama em cama. De homem em homem. Logo aprenderam os macetes da vida e da                              
profissão.
Então, disse Lena, interrompendo a conversa, vocês vieram conversar ou se divertir?
Na verdade estamos esperando alguém, eu falei.
Esperando alguém? Repetiu Lana, olhando para irmã e logo soltando uma gargalhada.
E quem é que marcou um encontro com vocês num lugar como esse? Perguntou Lena, ainda se                              
recuperando da risada.
Um amigo, respondi.
Um amigo! Bom, então, enquanto vocês esperam o amiguinho de vocês por que não dançamos um                            
pouco? Indagou Lena, já levantando e se dirigindo à pista de dança.
Fiquei um pouco sem graça com o convite. Logo eu que não dançava nada me arriscar a passar um                                  
vexame. Lana não gostava de esperar. Foi logo me arrastando. Eu nem tive tempo de dizer que não ou                                  
tentar alguma reação. Só percebi as gargalhadas do Oswaldo. Ele também sabia meu segredo. Quando                          
vi já estava no centro do salão. Movimentando­me como uma barata tonta que acabou de tomar uma                              
pisada. Perdido. Nunca tinha dançado forró na minha vida. Lana, como diria Chico Buarque, “tinha um                            
tufão nos quadris”.
É só me acompanhar, ela gritava no meu ouvido.
Eu tentava. Desajeitado, só pedia a Deus que aquilo terminasse logo. Foi quando a música terminou.                            
Pensei que meu martírio tinha terminado. Fui logo pegando o rumo da mesa. Engano meu, claro. Senti a                                
mão macia de Lana me puxando outra vez. Senti seu corpo apertado junto ao meu. Uma luz iluminou                                
seu rosto. Pude ver por trás da maquiagem os dois olhos castanhos. Grandes como bilocas. E tudo                              
voltou a semi­escuridão de antes.
Quer dizer que você está esperando um amigo? Lena sussurrou no meu ouvido.
Estou sim, respondi sem saber o que dizia.
Sou eu, sussurrou ainda mais baixo em meu ouvido, Rubens pediu que eu os ajudasse.
Senti uma onda de eletricidade correr meu corpo. Agora éramos eu e ela no salão. Não havia ninguém                                
ao redor. Sua mão lentamente desceu minhas costas. A onda elétrica dobrou. Pensei que fosse cair,                            
mas me mantinha em pé.
O que você disse? Perguntei meio anestesiado.
Fui eu quem mandou o envelope, Lana respondeu.
Você? Perguntei outra vez sem saber o que dizer.
É! Eu. Quem você esperava o super­homem?
Senti minha cabeça pesar. Só então me dei conta de que estava naquele salão. Naquele inferninho.                            
Dançando com a pessoa que eu fora encontrar. De repente a música ficou mais alta. Senti uma                              
vertigem. Lena me segurou nos braços.
Ta tudo bem?
Podemos nos sentar, não estou passando bem.
Mais uma vez ela saiu me arrastando pelo salão. Tudo ao meu redor girava. Quando em fim pude                                
sentar senti o mundo sob meus pés.
Nossa como você está pálido, Lena foi logo dizendo, com sua voz metálica.
Ele passou mal, respondeu Lana.
Oswaldo e Lena riram. Ambos me olhavam como se eu fosse um ser de outro mundo. Lana e eu não                                    
entendíamos nada. Estávamos em silêncio. Ela me olhava com preocupação. Pedi água. Tirei alguns                        
gelos do balde e passei na nuca. Aos poucos as coisas foram voltando ao normal. Mesmo assim ainda                                
me senti sufocado naquele lugar.
Temos que sair daqui, disse Lana assim que percebeu minha melhora.
Temos sim, eu falei, ainda um pouco tonto. Aonde vamos?
Transar, e o que mais, Lana respondeu com naturalidade.
O quê? Perguntei sem saber o que havia escutado.
Vamos para minha casa, lá é melhor. E ninguém desconfia. Qualquer coisa é apenas o repórter                            
procurando relaxar.
E o Oswaldo?
Deixa ele aí. Parece que ele e minha irmã estão se entendendo bem.
Contei ao Oswaldo o que estava acontecendo. Eu não achava a idéia de deixá­lo muito boa. Nós mal                                
conhecíamos o lugar. Como era de se esperar o próprio acabou me convencendo de ir.
Assim que você sair eu e Lena sairemos. Eu também não me adaptei ao lugar.
Você vai pro apartamento? Perguntei.
Vou sim, respondeu.
Encontro você lá pela manhã. Toma cuidado.
Pode deixar. Não se preocupe, estou em boas mãos.
Deixamos Lena e Oswaldo e fomos direto para casa da Lana. Ela morava muito longe do centro.                              
Pegamos um táxi. Na verdade um carro caindo aos pedaços que levava as pessoas aos solavancos                            
pelas ruas esburacadas. Eu estava morrendo de cansaço. Ainda sentia um pouco de tontura. Tive de                            
abrir o vidro para poder respirar melhor. Não fazia tanto calor, mas eu transpirava muito.
Lana abriu minha camisa e acariciava meu peito. A ponta de seus dedos correndo sobre minha pele me                                
tranqüilizava. O taxista nem se incomodava. Com certeza via aquilo toda noite.
Depois de uns vinte minutos chegamos ao nosso destino. Paguei o taxista e saltamos ali mesmo. Estava                              
muito escuro e eu não podia ver muita coisa com nitidez. Sabia apenas que era um bairro modesto.                                
Ruas de terra. Pouca iluminação. Quem sabe um subúrbio, um cortiço ou seja lá o que fosse. Lana me                                  
guiou na escuridão. Demos a volta por trás de uma casinha minúscula. Ao longe eu ouvia o barulho de                                  
algo parecido com água correndo. Nem percebi quando Lana abriu a porta e acendeu a luz.
A casa por dentro parecia bem maior. Tudo muito arrumado. Uma sala, cozinha e dois quartos                            
pequenos. Apenas isso. Poucos móveis. Alguns enfeites sobre a estante. Uns quadros pequenos                      
pendurados na parede da sala e do corredor que levava aos quartos. Desabei no sofá. Lana foi à                                
cozinha e voltou com duas xícaras de café quentinho. Bebemos sem dizer uma única palavra. Decidi                            
romper aquele silêncio.
Bem, aqui estamos, comecei. O que você tem a me contar?
Você espera só um pouquinho?
Fiz que sim com a cabeça. Atravessou o corredor e entrou no quarto da esquerda. Deve ter demorado                                
uns quinze minutos ou mais. Aproveitei para bisbilhotar suas coisas. Na verdade quase nada. Tudo                          
muito racionado e arrumado com esmero. A casa toda cheirava a limpeza. A cozinha estava limpa e                              
organizada. Nem de longe lembrava o chiqueiro onde eu morava. Senti um pouco de inveja. E de                              
vergonha também.
Conhecendo a casa? Lana perguntou, quebrando minha concentração.
Casa organizada a sua, eu disse um pouco sem graça.
Desde pequenas somos assim. Somos pobres, mas não somos porcos, não é mesmo.
Senti vergonha. O mesmo que dizer que eu não era pobre, mas bastante porco. Ironia do destino. Lana                                
tinha tirado a maquiagem pesada. Só então percebi o quanto seu rosto era bonito. Seus olhos                            
amendoados combinavam com o todo. Senti algo como um déjà vu. Reconheci Lena. Era a mulher da                              
foto. Abraçada com Agnaldo em companhia de Vânia.
Lembrou da foto, ela disse, como se tivesse lendo meus pensamentos.
Foi, respondi sem saber bem o que dizer.
Você vai entender tudo, mas antes temos algo a fazer.
Ela me guiou até seu quarto. Um lugar minúsculo. Composto de cama, guarda roupa e criado mudo.                              
Como o resto da casa tudo muito organizado. Lana sentou na cama, fazendo um gesto para que eu me                                  
sentasse. Eu estava enfeitiçado. Não conseguia criar resistência nem dizer coisa alguma. Apenas                      
obedecia. Sentei. Ela olhou fundo em meus olhos e me beijou delicadamente os lábios. Depois disso eu                              
não soube dizer o que aconteceu. O quarto escureceu e o silêncio tomou conta da casa.
Cap. 13
Lana e Lena fugiram de Marabá por conta dos maus tratos do padrasto. Um cara violento que enchia a                                  
cara de cachaça e violentava a esposa e as enteadas. Descobriram a sexualidade dessa forma estúpida.                            
Aos doze anos de idade. Sem nenhum príncipe encantado ou conto de fadas. Somente a força bruta.                              
Lana me contou sua história sem remorso, sem chorar. Como ela mesma havia dito; aprendera desde                            
cedo a não se machucar com a vida.
Com a coragem que restava, antes de partir, decidiram fazer justiça. Num dia que o padrasto chegou                              
mamado e foi logo desmaiando na cama. Elas castraram o infeliz. Depois sumiram no mundo. Sem                            
deixar rastro. Chegaram à Nova Aurora em plena febre do ouro.
Nós não tínhamos um só centavo, ela disse. Foi aí que conhecemos o doutor Miranda. Que foi um pai                                  
para nós.
Pai era só uma forma carinhosa de dizer. Eu sabia. A paternalidade de Miranda era cobrada caro.                              
Logo elas entenderam isso. Saíram das mãos do carrasco para as do executor. Com treze anos de                              
idade estrearam na vida. Ganharam um lar, comida, roupas e dinheiro. Tudo pago com o que havia de                                
mais puro. No auge elas chegavam a atender até seis clientes. Com o tempo deixaram de ser novidade.                                
Foi quando a realidade bateu à porta. Depois de seis meses os melhores clientes deixam de freqüentar                              
sua cama. Confidenciou a certa altura da conversa. Passaram a atender o que tinha. Fosse quem fosse.
Os gerentes de Miranda mantinham sempre a alta rotatividade do negócio. Assim que as meninas                          
deixavam de render o lucro esperado eles logo apareciam com novidades. Escolhidas a dedo. As                          
veteranas eram entregues ao seu próprio destino. Para a maioria quando a liberdade chegava já                          
estavam acabadas. Nem de longe lembravam a flor dos tempos idos.
Vida de puta, vida de cabaré acaba com a mulher, disse num tom triste. As que resistem ficam                                
marcadas para sempre. Eu até tive sorte. Um dia Miranda pediu­me que acompanhasse uma menina                          
que ele havia ajeitado pro deputado. Assim fui trabalhar na casa de Agnaldo quando vinha à cidade.                              
Quando ele não estava por aqui eu voltava a ser a puta de sempre. Foi assim que conheci Rubens.                                  
Acabamos tendo um caso.
Você e o Rubens tiveram um caso?
Sim, uma coisa rápida. Era o único que me tratava como prostituta. De repente aconteceu a desgraça e                                
as coisas mudaram. Do mel ao fel
Que desgraça?, perguntei.
O roubo?!
Roubo?
É. Vânia roubou uma maleta do Agnaldo. Dizem que havia dois milhões de dólares na maleta. Depois                              
fugiu com um comparsa que ninguém sabe quem é até hoje.
As histórias batiam. Rubens só não havia falado do tal comparsa. Os fatos começavam a tomar corpo.                              
Logo a verdade sairia de algum lugar.
Você chegou a conversar com Vânia sobre isso? Perguntei.
Claro que não. Vânia conversava muito pouco. O pouco que falava era somente sobre coisas do dia a                                
dia. Ela viajava muito com Agnaldo. Carregava ela como um chaveiro onde quer que fosse.
Viajam sempre...
É. Onde ele ia ela também ia junto. Era o bichinho de estimação dele.
Rubens tinha dito a mesma coisa. O problema da maleta até podia fazer sentido. Ela pôde mesmo ter                                
roubado a tal maleta e tentado fugir. Acabando sendo assassinada. Quem sabe nessa fuga alguém                          
pudesse ter ajudado. O tal comparsa, quem sabe.
Quando foi que a viu pela última vez?
A última vez..., disse Lana, buscando no fundo das lembranças. Não me lembro direito. Eles viajavam                            
tanto. Acho que foi uma ou duas semanas antes dela desaparecer.
Uma ou duas?
Duas, isso mesmo. Foi a última vez que a vi. Depois disso veio a história do desaparecimento.
E você por acaso sabe onde eles foram?
Lana ficou um bom tempo pensando. Passava as mãos pelos cabelos com os dedos. Depois resolveu                            
acender um cigarro. Levantou­se e foi até a sala buscar a carteira de cigarros. Voltou com dois copos e                                  
uma cerveja. Sentou­se ao pé da cama. Encheu vagarosamente meu copo e depois o dela.
Pelo que andei sabendo eles foram para São Luiz e depois à Brasília, respondeu depois de alguns                              
instantes.
Depois ela desapareceu?
Nunca mais nos vimos. Até o dia que fiquei sabendo da morte dela. Que haviam encontrado­a                            
apodrecendo num esgoto qualquer.
Fomos nós que a encontramos, eu disse, tentando desviar o assunto. Pra isso estamos aqui, eu disse.                              
Para solucionar esse crime.
Espero que sim, ela falou, ainda soluçando e enxugando as lágrimas. Apesar de termos convivido muito                            
pouco. Vânia e eu criamos uma amizade verdadeira. Ela acabou morrendo daquele jeito.
Ficamos calados. Envolvidos em nossos próprios pensamentos. Eu tinha que arrumar uma forma de                        
chegar a Miranda. O homem era um fantasma bem protegido. Seria difícil nos aproximar. O Mendonça                            
estava certo. O cachorro era grande demais.
Bom, eu disse, o único que pode responder a tudo é o próprio Miranda. Mas não temos como chegar                                  
a ele.
Acho que posso ajudar, Lena disse.
Cap. 14
Amanhecemos abraçados na cama. Pela primeira vez dormi o sono do justo. Como há muito tempo                            
não acontecia. Lena continuava dormindo seu sono justo. Levantei, catei um cigarro e fui perambular                          
pela sala. Logo minha cabeça começou a fervilhar pensando nas informações coletadas. Sentei no sofá                          
e comecei a ligar os fatos.
O pai que entregou a filha a um conhecido. Um cara que se aproveitou da inocência e vendeu a menina.                                    
Um deputado sem escrúpulos, envolvido com o crime. Um explorador de crianças. O                      
desaparecimento, o roubo de uma maleta com milhões em dinheiro. Um comparsa. A gravidez de                          
Vânia.
Eu tinha vários fatos. Várias histórias e eu precisava ligá­las e chegar a um denominador comum. O                              
assassino. Algo me dizia que a gravidez de Vânia escondia mais segredos que eu imaginava. Assim                            
como a morte do jornalista. Minha intuição me dizia que esses dois fatos estavam relacionados. Eu                            
precisava esclarecer a morte do jornalista. Ficou claro para mim que a ponta do novelo estava nesse                              
crime.
Acendi mais um cigarro e fiquei esperando o tempo passar folheando algumas revistas. Tinha­me                        
entretido tanto que nem percebi quando Lena apareceu ao meu lado. Seminua. Sorrindo­me                      
ternamente.
Acordou cedo, disse, passando os braços em torno do meu pescoço e beijando­me como se fossemos                            
íntimos.
Estava sem sono e não quis ficar revirando na cama, falei.
Aceita um café?
Lena tinha um corpo escultural. Dava prazer ver aquelas pernas torneadas. O quadril escultural. Tudo                          
harmonioso. Uma mulher intensa. Minha vontade seria viver eternamente dentro dela. Mas seria apenas                        
um capricho. Lena me passava a sensação que nunca seria de ninguém.
Eu estava pensando no jornalista assassinado, falei, puxando assunto.
Pensando em fantasmas logo cedo, gritou da cozinha.
Não tem como não pensar. Eles não me deixam sossegado.
Levantei e fui até a cozinha. Fiquei parado na porta vendo­a passar o café. Lena sorriu. Lavou um                                
copo e me passou. Depois me convidou a voltar para a sala puxando­me pela mão.
Espero que você goste, falou, enquanto enchia meu copo com café. Não sou muito boa na cozinha.
Está ótimo, respondi, depois de experimentar um gole.
Ficamos um bom tempo sentados no sofá olhando um para o outro. Eu viajava em meus pensamentos.                              
Ela me olhava como uma coruja atenta. Lentamente ajeitou o corpo. Jogando­o para frente.                        
Depositando a xícara vazia sobre a mesa. Sorriu. Ajeitou o cabelo. Colocou os pés novamente no sofá.                              
Parecia uma gata.
O que o jornalista anda fazendo na sua cabeça, perguntou com a voz doce de preguiça.
Fica achando perguntas sem respostas, respondi desprevenido. Você lembra de algo com relação a                        
isso?
Muito pouco. Só o necessário para saber que ele cruzou o caminho de Agnaldo e morreu, disse sem                                
culpa. Como muitos outros, aliás, completou. Só sei que ele apareceu aqui um dia. Fez um monte de                                
perguntas. De repente desapareceu. Quando o encontraram estava podre fazia um mês. O resto tá nos                            
jornais.
Os jornais só faziam referência ao jornalista que havia desaparecido vítima de assalto e que fora                            
encontrado morto em um bananal. Alguns colocavam a culpa do desaparecimento no Agnaldo. Em                        
outros ele se defendia das acusações. A maioria estampou na capa a notícia reforçando o assalto e                              
inocentando Agnaldo quando a policia enfim conseguiu capturar o suposto culpado. Ainda assim alguns                        
poucos jornais continuaram culpando o deputado.
Os jornais só trazem informação confusa e truncada. Eu precisava saber mais, eu disse.
Bem, por aqui acho que isso é tudo que você vai saber. Talvez a informação que você conseguir seja                                  
mais confusa que as dos jornais.
Talvez eu saiba quem pode me ajudar, falei comigo mesmo.
Pedi à Lena um telefone. Ela se levantou e foi buscar um que estava sobre o rack. Entregou­me.                                
Depois ficou me olhando parada na porta da cozinha. A luz que vinha da janela reforçava sua beleza.
Tenho uma amiga que trabalha num jornal em São Paulo, eu disse, enquanto discava. Acho que ela                              
pode me ajudar.
Uma amiga? Lena perguntou com a voz frouxa.
Fiz que sim com a cabeça. Ela continuou me olhando um bom tempo. Depois sorriu e se virou.                                
Desaparecendo na cozinha. Ouvi sua voz cantando uma música conhecida. Senti o cheiro de café. Um                            
cheiro de torrada. A água da pia caindo lentamente. O telefone chamando. Depois de uns cinco toques                              
alguém atendeu.
Alô, disse a voz feminina do outro lado da linha.
Quem fala? Gostaria de falar com a Júlia.
Só um momento, respondeu.
Fiquei esperando uns dois minutos. Dava para ouvir a confusão do outro lado. Lena ainda cantava.                            
Pensei acender um cigarro. Desisti quando ouvi uma segunda voz feminina atender ao telefone.
Júlia Lemos, quem gostaria?
Oi, Júlia, respondi, aqui quem fala é o Marcos.
Marcos, ela disse acompanhado de um pequeno silêncio, quanto tempo rapaz. Pensei que você tivesse                          
desaparecido.
Pois é, ando muito ocupado ultimamente. Você, como está?
Outro silêncio. Um pouco mais curto que o primeiro. As vozes nervosas ao fundo. Lena me olhando de                                
pé na porta. Sorriu quando eu a vi. Depois voltou outra vez para a cozinha. Arrastando os pés.
Júlia foi uma antiga paquera que tive. Quando ainda fazíamos cursinho para a polícia civil. Tivemos um                              
pequeno caso. Algo bem rápido, mas que marcou bastante. Logo depois ela recebeu proposta de                          
trabalho em São Paulo. Eu acabei passando no concurso e nos separamos.
Estou bem, trabalhando muito como você. Poxa faz mais de anos que não nos vemos.
Pois é, depois do cursinho nunca mais nos vimos. Nossas conversas foram raleando também.
A vida é assim mesmo, mais diga lá. Que bons ventos o trazem.
Então, tô precisando de um favor seu. Lembra daquele jornalista assassinado no Pará?
Lembro sim, faz tempo não?
Faz sim, respondi. Queria toda informação possível que você puder obter para mim. Estou investigando                          
um caso e preciso desta informação.
Ué, pensei que eles já houvessem dado por encerrado. Mesmo depois de a polícia insistir que foi                              
apenas um assalto. Inclusive prenderam um suposto assaltante, não foi.
Foi sim, mas eu acho que a história vai um pouco mais além. O caso que estou investigando não diz                                    
respeito a isso. Mas acho que tem uma forte ligação.
Entendi, ela falou. Vou ver o que posso fazer por ti.
Agradeço­te muito, é muito importante para mim.
Ok, pode contar comigo. Como vão as coisas aí em Brasília?
Tudo do jeito que você deixou, brinquei.
Então continua a mesma, disse rindo.
Mais ou menos, eu falei.
Ficamos um bom tempo conversando sobre o passado. Amenidades do dia a dia. Projetos abortados.                          
Até percebermos que não tínhamos mais muita coisa em comum. Inevitável um novo silêncio.
Bom, me liga daqui dois dias e te passo um dossiê. Combinado?
Tudo certo, beijo Júlia.
Desliguei o telefone. Só então percebi Lena estacionada perto do rack. Tinha trocado de roupa.                          
Depois sentou novamente no sofá esperando novidades.
Parece que vocês são bons conhecidos, falou, puxando assunto.
Um tempo atrás sim, eu disse. Mas já faz um bocado de tempo.
Eram quase dez da manhã. Eu tinha me esquecido de Oswaldo. Precisava encontrá­lo. Contar as                          
novidades e traçar um plano de ação. Lena sabia dos movimentos de Miranda e nos ajudaria chegar a                                
ele. Junto com Rubens eram as provas que eu tinha para incriminar Agnaldo e esclarecer o crime.                              
Miranda tinha uma loja de venda e compra de ouro na cidade. Quando estava em Novo Horizonte                              
gostava de passar o tempo dando expediente no escritório montado na loja. De lá ele comandava todo                              
esquema sujo. Como Lena tinha trânsito livre com Miranda não seria muito difícil ela nos apresentar                            
como compradores de ouro. Isso se ele já não soubesse de nossas investidas na cidade. Teríamos que                              
correr o risco.
Lena, vou­me encontrar Oswaldo e depois nos encontramos no lugar marcado às quinze horas, certo.
Tudo certo, quinze horas, ela disse sorrindo.
Tínhamos marcado como ponto de encontro a única lotérica da cidade. De lá partiríamos para o                            
escritório no centro da cidade. Pedi à Lena que chamasse um táxi. Depois ficamos conversando. Ela                            
preparou um café da manhã reforçado. O táxi demorou quarenta minutos. Despedimos­nos com um até                          
logo. Dentro do táxi eu repassava na mente toda história. Talvez fosse um bom momento para falar                              
com Mendonça. Ou talvez não. De qualquer forma tomei a decisão de ligar para ele assim que                              
chegasse ao hotel. Eu iria precisar da ajuda dele.
Cap. 15
Mal pisei os pés no hotel e o gerente veio logo ao meu encontro. Estava pálido e assustado. Reconheci                                  
nossas bagagens perto do balcão de atendimento. O homem não conseguia falar. Estava visivelmente                        
nervoso.
Senhor, disse quase gaguejando, aconteceu uma coisa muito ruim. Tenho que pedir que o senhor se                            
retire do meu hotel. Até devolvo o dinheiro da diária. Mas o senhor tem de ir embora agora.
Mas o que foi que aconteceu? Perguntei assustado ao ver o sinal de pânico na voz do homem.
Gente muito ruim veio aqui hoje e levaram seu amigo, falou, como se estivesse disparando uma                            
metralhadora. Gente muito ruim mesmo...
Que gente? Eu estava ficando nervoso. Pensei logo no Oswaldo.
Gente do Miranda, senhor. Os capangas dele vieram aqui e levaram seu amigo e a mulher, a prostituta                                
com quem ele estava no quarto. Deixaram apenas esse bilhete, completou estendendo­me um papel.
O bilhete me pedia para que eu o encontrasse no centro da cidade. Tinha um endereço. Tudo escrito                                
com a caligrafia de Oswaldo. Perguntei ao dono do hotel como chegar ao tal endereço. Depois pedi                              
que ele guardasse minhas coisas que voltaria para buscar. Ele me olhou de forma estranha. Parecia                            
acreditar que eu retornaria. Não queria aceitar de forma alguma guardar nossas coisas. Só aceitou                          
depois de eu rejeitar o reembolso da diária e lhe oferecer na hora um pouco mais de dinheiro. Ele                                  
pegou nossa bagagem e guardou detrás do balcão.
Boa sorte, ele disse.
Vou precisar, respondi.
Sai do hotel e desci a rua até o lugar onde havíamos estacionado o Escort. Entrei no carro, me olhei                                    
pelo retrovisor. Não consegui me olhar nos olhos por muito tempo. O fantasma do Mendonça                          
infernizava minha mente. Se algo de ruim acontecesse com o Oswaldo eu nunca mais teria paz. Ao                              
mesmo tempo, de cabeça baixa me lembrei de Vânia. E foi como se ela estivesse ali me dando força.
Tirei a pistola da cintura e conferi a munição. Eu tinha mais dois pentes guardados no coldre debaixo da                                  
minha jaqueta. Olhei­me novamente pelo retrovisor. Boa sorte, disse a mim mesmo. Liguei  o carro e                            
segui o meu destino. Fosse onde ele me levasse.
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