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MANUEL ANTÓNIO PINA NÃO DEIXA HERDEIROS por Pedro Mexia

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UMA BARCA DE SALVAÇÃO por EDUARDO LOURENÇO ROUBOS LITERÁRIOS AS CONFISSÕES DE SEIS ROMANCISTAS ENTREVISTA
UMA BARCA
DE SALVAÇÃO
por EDUARDO LOURENÇO
ROUBOS
LITERÁRIOS
AS CONFISSÕES
DE SEIS ROMANCISTAS
ENTREVISTA
JK ROWLING
«SOU A ESCRITORA
MAIS LIVRE DO MUNDO»

ROGÉRIO CASANOVA E O ARCO-ÍRIS DE THOMAS PYNCHON

O NOVO ROMANCE DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Quem é Mo Yan, o melhor escritor chinês da atualidade?

NOVEMBRO 2012 | N.º 118 | 5€ (IVA INCLUÍDO)
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EXCLUSIVO
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ALBERTO

MANGUEL

Jorge Luis Borges sempre me disse que podia seguir este caminho

R E V I S T A

F U N D A D A

E M

1 9 8 7 .

E D I Ç Ã O

N . º

1 1 8 .

S E G U N D A

S É R I

E .

©Ricardo Meireles
©Ricardo Meireles

«Ler é talvez uma forma de estar sozinho, de estar sozinho comigo mesmo, com a minha memória, com todas as minhas circunstâncias. E é também uma forma de escrever. De me escrever e de me inscrever naquilo que leio.»

MANUEL ANTÓNIO PINA

Depoimento inédito, gravado em vídeo, a 25 de fevereiro de 2012. Disponível no blogue da LER.

P. 28: ALBERTO MANGUEL O PODER DO LEITOR CONTINUA A sua imagem,muito jovem,a ler para um escri-

tor cego chamado Jorge Luis Borges é um desses símbolos perfeitos.Agora com 64 anos,Alberto Manguel continua a considerar-se mais um leitor do que um escritor.Dividido entre várias nacionalidades e línguas,o autor de Uma História da Leitura é a encarnação de como a babel linguística pode não ser uma maldição.E de como a literatura cria em nós sentimentos que de outro modo talvez estivéssemos condenados a não poder experimentar.

P. 36: EDUARDO LOURENÇO A MALA QUE O MEU PAI ME DEIXOU «Sou um leitor compulsivo e absoluto até

ao ponto de imaginar que sou mais uma coleção de folhas de livros do que propriamente um leitor deles.» Com estas palavras, num belíssimo final de tarde,no Centro Cultural de Belém,em Lisboa,Eduardo Lourenço inaugurava o ciclo de conferências «LER em Voz Alta».Palavras que agora se fixam em papel.Um privilégio.

P. 40: ROUBOS EM LITERATURA SEIS CONFISSÕES Pode surgir sob a forma de pastiches quando se está a aprender,

como notam José Riço Direitinho e Dulce Maria Cardoso.Pode ser a apropriação de um universo específico,como mostra David Machado.Pode ser a adulteração de um saber,como na obra de Afonso Cruz.Pode ser um jogo intertextual honesto e assumido,segundo Rui Zink.Ou,como Mário de Carvalho deixa bem claro,pode até ser esse o ofício do escritor: aprender com os melhores,roubar o que é para ser roubado e criar uma coisa nova.

P. 44: JK ROWLING É UM FLUXO DE ADRENALINA, UMA COISA FÍSICA A ruiva desconhecida que escre-

via nos cafés de Leith (Escócia) nos anos 90 é hoje uma personalidade quase inacessível.Qualquer conversa assume as proporções de uma audiência real.E esta começa pelo seu primeiro livro pós-Harry Potter,cuja edição portuguesa (Uma Morte Súbita) chega às livrarias no final de novembro.

P. 48: THOMAS PYNCHON ENCICLOPÉDIA GERMÂNICA A obra-prima do mais enigmático dos escritores ameri-

canos, publicada há 50 anos,tem finalmente tradução em Portugal.«Tal como a trajetória do foguete,tal como a vida»,escreve Rogério Casanova, «O Arco-Íris da Gravidade começa com um grito e acaba em súbito silêncio.Mas nesse domínio entre o zero e o um,consegue tudo aquilo que importa».

entre o zero e o um,consegue tudo aquilo que importa». Em ler.blogs.sapo.pt informação sobre edição, livros,

Em ler.blogs.sapo.pt informação sobre edição, livros, autores e ligação aoTwitter e Facebook.

EDITORIAL N ão me é fácil escrever sobre alguém que admirei pelas suas virtudes humanas,tão

EDITORIAL

N ão me é fácil escrever sobre alguém que admirei pelas suas virtudes humanas,tão raras hoje em dia.E é a primeira vez que o faço em página de revista.Tenho a sen- sação clara que,por mais que escolha e al- tere qualquer palavra,nunca conseguirei

definir, com a precisão milimétrica dos poetas,o que sentia por Manuel António Pina (MAP).Confesso não ter jeito para elogios ou géneros de ocasião.Por isso,digo que não fui seu amigo (invejarei sempre quem

na sua aldeia,na mala que o pai deixara para trás,e que em pouco

tempo se transformaria em galáxia infinita do livro.Gosto de imaginar que acontecerá o mesmo com MAP,que os seus livros serão relâmpagos que indicarão caminhos possíveis a novos lei- tores que se queiram perder.

Manuel António Pina e Eduardo Lou-

renço fazem parte do restrito lote de leitores desassossegados – como Alberto Manguel.Pela mão do então jovem que ajudou Jorge Luis Borges a matar a sede de leitu-

ra quando ficou cego,entramos numa ba-

bel linguística,espiral em que linguagem

e literatura criam sentimentos que talvez

não conseguíssemos experimentar de outra forma.De passagem por Lisboa,este autor de livros inesquecíveis,como o seu dicioná-

rio dos lugares imaginários,cumpriu o com- binado semanas antes,com a gentileza de um cavalheiro.Assim tudo parece fácil.

o foi),mas várias vezes falámos e nos cruzá-

mos a pretextos jornalísticos. Foi assim quando fiz parte da equipa da Grande Re- portagem, quando fui editor na Notícias Sá- bado ou,desde 2008,assumindo o papel de editor e,depois,de diretor da LER.MAP fez capa desta revista na edição de janeiro último, um mês depois gravou, a nosso pedido,um depoimento sobre a sua defini- ção de leitura (vídeo disponível em ler.blogs. sapo.pt) e,a meio do ano,na Feira do Livro do Porto, seria o escritor escolhido para fazer parte da mesa dedicada dos 25 anos da LER.Um privilégio. Enquanto me afasto dos sentimentos, equilibro-me com as palavras. Do mal o menos. Falar hoje de MAP é reconhecer que a sua generosidade sempre pareceu pri- vilégio dos eleitos,para quem a posterida- de não era senão um simples virar de es-

quina. «Nestes tempos em que tudo se desmorona»,respondia a Carlos Vaz Mar- ques (LER nº109) «é o que sobrevive:

Enquanto me afasto

dos sentimentos,equi- libro-me com as pala- vras. Falar hoje de Manuel António Pina

é reconhecer que a sua generosidade sempre pareceu privilégio

dos eleitos,para quem

a posteridade não era

senão um simples virar de esquina.«Nestes tempos em que tudo se desmorona,é o que sobrevive: a amizade,

o amor e a família.»

o que sobrevive: a amizade, o amor e a família.» De Lisboa para o Rio de

De Lisboa para o Rio de

Janeiro,e sem sair de território portu- guês. O Real Gabinete Português de Lei-

tura – que teima há séculos em agitar bem alto a bandeira na nossa melhor literatura –,belíssima peça arquitetónica construída no centro carioca,com a Praça Tiradentes

à espreita,foi o lugar mais do que perfeito

para lançar simbolicamente a edição digi- tal da LER, um passo adiante na aproxi-

mação aos leitores de língua portuguesa espalhados pelo mundo. A partir de dia 5 de novembro, poderá comprar o seu exemplar digital – ao mesmo preço da edição impressa – nas livrarias Bertrand.pt e Wook.pt.Por agora.

Não podíamos terminar o ano (para mais um ano

a amizade,o amor e a família».A capa da revista resumia,fiel-

mente, o seu pensamento: «A bondade está acima da poesia.» No dia da sua morte,a LER que o leitor agora tem nas mãos estava praticamente concluída.Isso não nos impediu de lhe de- dicar o início e o fim da revista – e nunca nos impedirá de re- gressar ao Pina (como lhe chama Pedro Mexia), no próximo número ou em qualquer outro.A bondade aliada à envergadura poética fez de MAP – faz – um dos mais completos escritores portugueses. Generosidade semelhante encontro-a em Eduardo Lourenço

– sorte a nossa de ter dois prémios Camões assim –,que muito nos honrou ao aceitar o convite para a conferência inaugural

do ciclo «LER em Voz Alta».Uma viagem terminada a bordo de uma barca de salvação,mas que começaria em terra firme,

de

comemoração) sem voltar a desafiar os leitores para um almo-

ço

prolongado.Anote bem:15 de dezembro,em Lisboa,dias de-

pois da primeira edição do festival LER no Cinema São Jorge. Falta apenas escolher o restaurante.O que esperamos? E precisa perguntar? O mesmo de sempre – uma tarde bem passada à mesa,entre cronistas,escritores,leitores e colaboradores da LER. Prometemos boa comida,sorteio de livros e a melhor companhia.

O preço mantém-se: 25 euros.Os interessados devem telefonar

para Maria José Pereira (217626115) ou enviar um e-mail para ler@circuloleitores.pt.Inscrições até 1 de dezembro.

JOÃO POMBEIRO

1943 - MANUEL ANTÓNIO PINA - 2012 [Aos meus livros] Chamaram-vos tudo, interessantes, pequenos, grandes,
1943 - MANUEL ANTÓNIO PINA - 2012
[Aos meus livros]
Chamaram-vos tudo, interessantes, pequenos, grandes,
ou apenas se calaram, ou fecharam os longos ouvidos
à vossa inútil voz passada
em sujos espelhos buscando
o rosto e as lágrimas que (eu é que sei!)
me pertenciam, pois era eu quem chorava.
Um bancário calculava
que tínheis curto saldo
de metáforas; e feitas as contas
(porque os tempos iam para contas)
a questão era outra e ainda menos numerosa
(e seguramente, aliás, em prosa).
Agora, passando ainda para sempre,
olhais-me impacientemente;
como poderíamos, vós e eu, escapar
sem de novo o trair, a esse olhar?
Levai-me então pela mão, como nos levam
os filhos pela mão: sem que se apercebam.
Partiram todos, os salões onde ecoavam
ainda há pouco os risos dos convidados
estão vazios; como vós agora, meus livros:
papéis pelo chão, restos, confusos sentidos.
E só nós sabemos
que morremos sozinhos.
(Ao menos escaparemos
à piedade dos vizinhos)
[Poesia, Saudade da Prosa – Uma Antologia Pessoal, Assírio & Alvim, 2011]
©Ricardo Meireles

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

 

1943 - MANUEL ANTÓNIO PINA - 2012

 
     
©Pedro Loureiro

©Pedro Loureiro

 

O

PINA por Pedro Mexia

 

O Pinadisseumavezqueescritoresbonshá mui- tos, e que preferia boas pessoas,que são pou- cas. Enãomeespantaqueotenhadito,eleque

me» na poesia portuguesa, ele que deixava sempre o quotidiano e o inefável à porta,isto é,do lado de fora da porta,como quem ouve a conversa de quem está do lado de dentro mas não se mostra, para quê mostrar-se? O Prémio Camões atribuído ao Pina deu-lhe o re- conhecimento que ele antes parecia não ter mas na ver- dade tinha,vejam como ninguém o citava como pre- miável e como depois toda a gente concordou,«bem visto,o Pina,boa escolha».A poesia do Pina é exigen- te, gosto muito da antologia que saiu por alturas do Camões,e que não facilita nada,poucos heterónimos,

poucos gatos,poesia sem cedências,centrada em ques- tionar o que é isso do «eu»,o que é isso de «as palavras». Uma poesia difícil e humana,que faz do passado uma cuidadosa construção,um sítio aonde se possa regres- sar, onde se possa encostar a cabeça. Haverá quem chegue à sua poesia depois de ter des- coberto as crónicas,que ele escrevia diariamente para

 

confessou um dia que em miúdo «queria ser santo». Dá-se o caso de o Pina ter sido talvez a melhor pes- soa que conheci de entre os bons escritores,uma es- pécie que,verdade se diga,não abunda em virtudes hu- manas. Parece-me que se notou nos obituários, nos testemunhos,nas lembranças,via-se que ninguém pre-

cisava de fazer o pino,de vigiar adjectivos,de omitir fac- tos desagradáveis,todos elogiaram a escrita e o homem, como se fosse impossível distingui-los.E pensei que não conheço ninguém que não gostasse do Pina,haverá com certeza uns quantos,mas não os conheço,nem quero. Sobre a poesia do Pina escrevi algumas vezes,a últi- ma vez apenas umas semanas antes de ele morrer.Revi- sitei o jogo de citações,Homero e Alice atravessando o espelho,a «ciência de tudo»,as enganosas oposições bi- nárias, as «vozes terríveis do passado»,as elegias,o estar

o

Jornal de Notícias,e que nos últimos anos se tornaram

fazer-se muito tarde.Tinha lido todos aqueles poemas anteriormente,mas relendo em sequência a obra com-

a

ainda mais lidas e citadas,crónicas de um melancólico atento,de um esquerdista decepcionado,de um ciné- filo nostálgico,de um homem de compaixões,indigna- ções, de acutilância e ironia.As crónicas,imediatamen- te comunicáveis, tornaram o Pina popular, porque estavam muito próximas daquele homem que conhe- ci, há uns 13 anos,com quem me cruzei uma dezena de vezes, e que sempre encontrei divertido, céptico, contando histórias, afectuoso, preocupado, afável, de maneira que o trato assim,«o Pina»,sem sequer ter sido seu amigo, embora, claro, fosse, e amigo grato. Uns meses antes de morrer, atrevi-me a «chatear

pleta tornou-se de novo evidente que ele era um dos nos- sos grandes poetas,embora ele desincentivasse tal ideia.

A

sua consagração chegou tarde, talvez apenas com

a

poesia completa na Assírio.E o Pina não deixa herdei-

ros, ninguém escreve «à Pina»,ao passo que ele ousou o que todos temiam,escrever «à Pessoa»,quero dizer,«de- pois de Pessoa»,que não haveria epigonismos no Pina,

para além das paródias tristes e da metafísica exausta. O Pina gostava do Álvaro de Campos como gostava

do

Talmude e do budismo zen e das perguntas das crian-

ças: «As questões fundamentais de todos nós […] são

Camões»,como então lhe disse,e ele,com uma ge- nerosidade tocante,escreveu,não sem esforço,o prefá- cio a uma colectânea de croniquetas minhas.Quando, encabulado,o convidei,acrescentei que «não podia ter escolhido melhor pessoa». E o Pina, embora fosse modesto,entendeu,e mudou de assunto.

o

aquelas que os nossos filhos nos põem quando têm três anos.“De onde é que nasci? Onde é que eu estava antes

de

ter nascido? Para onde se vai quando se morre?”»

Imagino que o Pina tenha achado graça quando viu tra- çarem aquele fugazTordesilhas entre o «real» e o «subli-

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«O Mistério de Charles Dickens, de Dan

Simmons (n. 1948), relata os cinco últimos anos do autor mais aclamado do seu tempo,

o

infatigável Dickens. E quem o faz, advertindo

o

leitor futuro de que estas memórias podem

ser incómodas, é um seu amigo e rival. Como assinala o tradutor, Jorge Colaço, “é pois nesta tensão de amizade e rivalidade que decorre a ação do romance, um precioso veículo de infor- mação de época, da mais variada natureza, uma homenagem muito tocante aos dois escri-

tores e last but not the least, uma envolvente teia de mistérios inquietantes”. No dia 9 de junho de 1865, quando regressa de comboio a Londres, acompanhado pela amante, Dickens vê-se envolvido num acidente ferroviário, do qual escapa fisicamente ileso. Todavia, o acontecimento desencadeia uma série de factos estranhos que vão culminar na escrita do seu derradeiro e inacabado

romance, O Mistério de Edwin Drood. »

Excerto do texto de José Guardado Moreira (LER nº 117)

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Maio 2010

MANI

FESTOS

©Nuno Calvet
©Nuno Calvet

SENA & ROSA

A correspondência

inédita de Jorge de Sena

e António Ramos Rosa

(na foto), trocada entre

1952 e 1971, acaba de ser publicada pela Guimarães Editores.

e 1971, acaba de ser publicada pela Guimarães Editores. LER 25 ANOS FESTIVAL EM REVISTA Durante
e 1971, acaba de ser publicada pela Guimarães Editores. LER 25 ANOS FESTIVAL EM REVISTA Durante

LER 25 ANOS

FESTIVAL EM REVISTA

Durante seis dias,o Cinema São Jorge transforma-se no melhor palco darevistaLER.Conheça,parajá,asprincipaispropostas.Faltaummês.

O acordo ficou fechado há poucos diasmas,comosempre,os nossos leitores são os primeiros a saber:

o Festival LER 25 Anos/25 Filmes terá como cabeça de cartaz (na noite de 4 de dezembro) a antestreia exclusiva em Por- tugal de OnThe Road,filme realizado por Walter Salles,adaptação há muito espe- rada do livro de Jack Kerouac (1922-1969) – e um dos destaques em Cannes – que conta com um elenco de estrelas: Viggo

Mortensen,Kirsten Dunst,Garrett Hed- lund, Sam Riley e Kristen Stewart.

Não podiam começar da melhor manei-

ra estes seis dias (de 4 a 9 de dezembro) de cinema e literatura,de portas bem abertas no Cinema São Jorge, e em coprodução com a EGEAC e a Câmara Municipal de Lisboa.E porque a LER completa 25 anos, ao filme do momento junta-se a seleção de Pedro Mexia: 24 obras cinematográficas (de Matar ou Não Matar,de Nicholas Ray,

a Tess,de Roman Polanski,passando por

Vidas em Fúria, de Stephen Frears, ou A Corte do Norte,de João Botelho) sobre as quais escreverá com detalhe na próxima

edição.Outros destaques merecem,desde já,referência: a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Lobo Antunes, ao vivo, na sala principal; a conferência de Gonçalo M.Tavares;os concertos das ban- das lideradas pelos escritores Afonso Cruz (The Soaked Lamb) e Jacinto Lucas Pires (Os Quais), bem como o espetáculo de David Santos (Noiserv),autor de alguns dos temas musicais de José & Pilar (três

concertos em parceria com o Festival Vo- dafone Mexefest); a emissão em direto de «Prova Oral»,programa de rádio de Fer- nando Alvim,dedicado especialmente aos novos valores da literatura portuguesa;

e mais debates,tertúlias,exposições,conta-

dores de histórias,uma feira do livro – en- tre outras propostas.A meio de novembro,

o blogue ler.blogs.sapo.pt e o Facebook da

LER transformam-se por completo em ca- nais do festival.Afinal,25 anos só se come- moram uma vez.

©Pedro Vieira ATÉ AO SOAR DO GONZO José Rodrigues dos Santos apresenta-nos a mão do
©Pedro Vieira
©Pedro Vieira

ATÉ AO SOAR DO GONZO

José Rodrigues dos Santos apresenta-nos a mão do Diabo. E vai daí? Vai

daí e não conte as suas fantasias eróticas,acredite que a água sobe escadas e, se há problemas, resolva tudo num contentor. E pensar que Gonzo tenta

fazer-nos felizes

Valha-nos

esse génio,Nuno Rogeiro.Futre dixit.

felizes Valha-nos esse génio,Nuno Rogeiro.Futre dixit . Prémio o sábio do Golfo «Quem leia este livro

Prémio o sábio do Golfo

«Quem leia este livro já não se deixará en-

]

Quando fiz O Sétimo Selo,sobre o problema do fim do petróleo,adverti que o combustí- vel barato estava a acabar. Publiquei o livro e, três meses depois,o preço já estava nos três dígitos.» José Rodrigues dos Santos, escritor, a propósito do seu novo romance A Mão do Diabo. Visão

ganar tão facilmente por um político. [

Prémio o génio Rogeiro

«Precisamos de encontrar uma seleção com os melhores.Temos de ir buscar os génios e não falo só de políticos:o Cavaco,o Soares,o Nuno Rogeiro,o Mourinho » Paulo Futre,antigo jogador de futebol. Expresso

Prémio quem diria?

«Se tiver uma fantasia erótica com um colega de trabalho não deve contar ao seu marido.» Daniel Sampaio,psiquiatra,autor do recentíssimo Labirinto de Mágoas. Expresso

Prémio não tentes

«Os políticos desgostam as pessoas.Eu ten- to fazê-las felizes.» Paulo Gonzo, músico. Expresso

Prémio betão armado

«Quando quiser, no sítio que lhe for mais conveniente, vamos os dois ver quem con- segue carregar mais metros cúbicos de um contentor.» Hélder Amaral, deputado do CDS, dirigindo-se ao deputado comunista Bruno Dias, após uma discussão sobre a greve dos estivadores nos portos. Diário de Notícias

Prémio A Lógica

«O papel aceita tudo,até a água sobe escadas.» António Mexia, presidente-executivo da EDP. Diário de Notícias

Prémio ah, pois, e tal, é isso é

«Deixei de ser tão baby e quis-me fazer um pouco mais homem.» Nuno Guerreiro,músico. Expresso

GAZETA INÚTIL

OS PIRATAS

Primeiras referências a assuntos indispensáveis.

N ão é nossa intenção cansar o leitor com temas que inun-

dam os jornais.Porém,quis a roda do destino que o deste mês fosse

a pirataria,o que torna impossível camuflar a atualidade do tema.Os

antepassados dos nossos piratas fis- cais eram gente de têmpera muito diferente destes que ora nos assal- tam os bolsos: eram destemidos, aventureiros e abstémios.Em 1724 foi publicada uma história geral da pirataria,relato pretensamente sério das aventuras dos terrores dos ma- res. O seu autor era um tal capitão Charles Johnson,mas tudo leva a crer que não passasse de um pseu- dónimo de Daniel Defoe,escritor com vasta experiência em tragédias marítimo-literárias,como atesta o seu Robinson Crusoé (1719).Robert Louis Stevenson aproveitou muita da informação do livro de Johnson para criar o primeiro grande pirata literário,que obliterou todos os que

o antecederam e se fez arquétipo de

todos os que se lhe seguiram,Long John Silver,o semivilão de A Ilha do Tesouro (1883).Com uma perna de pau e de papagaio ao ombro,ho- mem de moralidade escorregadia, Long John Silver é a quinta-essên- cia do pirata.Ganancioso e velha- co, a «ambição dele era,em todas as circunstâncias,ter um pé firme em cada um dos campos de luta».Um animal político,claro está.A sua in- fluência foi tal que o único pirata em condições de disputar o seu tro- no – o Capitão Gancho,criação de J.M.Barrie – era uma clara respos- ta ao fruto da imaginação de Ste- venson. Para aumentar os méritos do seu personagem, tornando-o ainda mais temível, Barrie dizia

que o Capitão Gancho era o único pirata de quem Long John Silver tinha medo. Com piratas destes, especialistas em patifarias ficcio- nais, sairíamos todos a ganhar. BVA

VISITAS AO SOFÁ

TATIANA SALEM LEVY

«SEMPRE QUIS SER ATRIZ DE NOVELA, PÁ»

Eleita pela revista Granta como um dos melhores 20 escritores brasileiros sub-40, chegou do Rio para aterrar no nosso sofá. «Estou pensando em lançar um manifesto:“Por um português mestiço.”»

Em Portugal de novo?

Sempre dou um jeito de vir cá.

Isso tem a ver com o fato de ter nas- cido em Lisboa?

Eu achava que sim,até ler uma crô- nica do Ricardo Araújo Pereira em que ele zomba de quem sente or- gulho do sítio onde nasceu.A par- tir de então comecei a achar paté- tica essa história de me emocionar quando chego aqui.

Mas se emociona na mesma.

É

Desta vez qual foi o plano mirabo- lante que te trouxe a Portugal?

Fui convidada pelo Ano do Brasil

a viajar pelo país e escrever um livro.

E olha que quem me convidou nem

sabia dessa minha relação afetiva

com a metrópole

Por onde andou?

minha relação afetiva com a metrópole Por onde andou? «Tenho uma su- perstição de que todo

«Tenho uma su- perstição de que todo o livro meu

deve ter vermelho na capa.» Não

é o caso da edição portuguesa de Dois Rios (Tinta-

-da-china), segun- do romance de Tatiana Salem Levy (n. 1979), sobre

o qual Eduardo

Coelho escreveu,

na LER, aquando

do seu lançamento no Brasil.

o contrário. Acho a vida cômica,

por isso vivo atrás de dramas.Meus

livros são a prova disso.

Sempre quis ser escritora?

Sempre quis ser atriz de novela,pá.

Às vezes você fala como os tugas. Acha que não vão te entender se falar brasileiro?

Sou a favor da mistura. Sei que está fora de moda,mas estou pen-

sando em lançar um manifesto:

«Por um português mestiço.»

Qual a sua palavra ou expressão preferida na terrinha?

Adoro essa mania que os portugue-

ses têm de dizer por acaso.Acho que

é isso mesmo, tudo na vida é por

acaso.É por acaso que existo,que escrevo,que estou respondendo a mim mesma como se fosse natural.

E qual a sua cor preferida?

Vermelha.Tenho uma superstição

dequetodoolivromeudeveterver-

melho na capa.A Bárbara [Bulho- sa] insistiu no verde,eu avisei logo:

«Se não der certo a culpa é sua!»

Estou com vontade de continuar nesse clima de perfil do consumidor, como o Jornal do Brasil em priscas eras, perguntar sobre seu livro pre- ferido, ator, modelo, quem você levaria para uma ilha deserta

Melhor não,pega mal.

Do que você precisa para escrever?

Silêncio,silêncio.E horizonte.

Há muito se diz que literatura bra- sileira não vende em Portugal. Para

ajudar a Tinta-da-china com os livros que acaba de publicar, des- creva-os sucintamente.

Dois Rios é um romance sobre os gêmeos Joana e Antonio e a france- sa Marie-Ange,que surge de repen- te em suas vidas.A trama é ape- nas uma desculpa para falar do mar,do tempo, da paixão. Curu- pira Pirapora é a aventura de um ser estranho e uma menina maluca pela Amazônia. Na minha modesta opi- nião, uma obra-prima. Graças aos desenhos da Vera Tavares,claro.

Alentejo,Trás-os-Montes,Minho,

Fui ©Pedro Loureiro
Fui
©Pedro Loureiro

Porto, Coimbra, Alcobaça

atrás dos rastros da Inês de Castro. Quando era criança e

vi o túmulo dela pela

primeira vez fiquei tão assustada com a história da rainha morta que tive insônia durante um ano.

Dramática

Os comediantes dizem que

frente à tragédia da vida

o melhor é rir.Comigo é

que frente à tragédia da vida o melhor é rir.Comigo é ANATERESAPEREIRA Aescritoramadeirense
ANATERESAPEREIRA Aescritoramadeirense conquistaoGrandePrémio de Romance e Novela da APE comoromanceOLago.
ANATERESAPEREIRA
Aescritoramadeirense
conquistaoGrandePrémio
de Romance e Novela da APE
comoromanceOLago.
ALICE VIEIRA Um erro grave não justifica rotularde«energúmenos» osqueescolhemoslivros paraoPNL.
ALICE VIEIRA
Um erro grave não justifica
rotularde«energúmenos»
osqueescolhemoslivros
paraoPNL.

SOBE

&

DESCE

VASCO GRAÇA MOURA Comemora 50 anos de carreira literáriaepublicaasuaPoesia Reunida em dois volumes. Um feito
VASCO GRAÇA MOURA
Comemora 50 anos de carreira
literáriaepublicaasuaPoesia
Reunida em dois volumes.
Um feito ao alcance de poucos.
APOSTAS Confirmou-se: as apostas para o Nobel da Literatura de 2012 serviramapenasparaalimentar outrospropósitos.
APOSTAS
Confirmou-se: as apostas para
o Nobel da Literatura de 2012
serviramapenasparaalimentar
outrospropósitos.
AFONSO CRUZ É um dos 12 escritores vencedores do Prémio da União Europeia de Literatura
AFONSO CRUZ
É um dos 12 escritores
vencedores do Prémio da União
Europeia de Literatura 2012 com
A Boneca de Kokoschka.
E.L. JAMES As suas sombras pairam por tudo o que é lista de livros. O
E.L. JAMES
As suas sombras pairam por
tudo o que é lista de livros.
O que é isso de «porno para
mamãs»?

PASTORAL

PORTUGUESA

CRÍTICA MARGINAL

Se o hábito de anotar as margens traduz um desejo inconsciente de ter a última palavra,devemos estar preparados para os marginais que se seguem.

©DR
©DR

E m Agosto de 2010, relí- quias inesperadas come-

çaram a aparecer, a preço de refugo, nas prateleiras em se- gunda mão da livraria Strand,em Nova Iorque.Após algumas coin- cidências e notas comparadas,cen- tenas de livros profusamente subli- nhados e marcados com a mesma caligrafia acabaram por ser identi- ficados como pertencendo ao es- critor americano David Markson (autor de Wittgen- stein's Mistress, o ro- mance preferido de David Foster Walla- ce). Markson,duran- te décadas um discreto mas assíduo cliente da Strand,falecera no mês anterior. Sem qualquer anúncio

da Strand,falecera no mês anterior. Sem qualquer anúncio público e apenas com a colaboração não-institucional de

público e apenas com a colaboração não-institucional de um qualquer Max Brod anónimo,decidira de- volver a sua biblioteca pessoal ao mesmo lugar onde a tinha acumu- lado, talvez com o objectivo de

a dissipar pela cidade em vez de a

confinar a uma instituição acadé-

mica – o equivalente literato-hippie

a espalhar as cinzas pelo oceano. Graças à internet (um blogue

lançou o alarme,e um grupo no Fa- cebook foi prontamente formado),

a reduzida mas diligente comunida-

de para quem Markson era um au- tor de culto,lançou mãos à obra,or- ganizando uma informal tarefa de recuperação e catalogação.Algumas pérolas foram sendo divulgadas. As margens de um romance de

Kingsley Amis sugeriu uma vez que o vocabulário crítico ideal deve- ria consistir ape- nas em curtas variações sobre os termos «muito bom», «bom»,

«mau» e «horrí- vel». A ancestral tradição da noti- nha marginal

revelou-se desde as suas origens uma forma rudi- mentar de crítica literária.

DeLillo (Ruído Branco, curiosa- mente o segundo romance preferido

de David Foster Wallace) reve- lavam as cicatrizes de Markson-lei-

tor: «ó meu Deus», «tédio

percebemos isto há várias páginas;

agora começa a ser chato»,«horrí- vel», «tretas»,«céus,a pomposida-

de!», «tanga!»,«grande coisa»,«hor- rível, horrível, horrível». A obra seminal de Camille Paglia, Sexual Personae, não teve melhor sorte. Ao lado de um parágrafo em que Paglia afirma «vi com os próprios olhos as alterações humilhantes que

a vida opera na personalidade de

», «já

quem sucumbe ao glamour»,Mark- son rabiscara um adoravelmente pueril «Ai viste? Fascinante!».

Kingsley Amis sugeriu uma vez

que o vocabulário crítico ideal deve- ria consistir apenas em curtas varia- ções sobre os termos «muito bom»,«bom», «mau» e «horrível».

os termos «muito bom»,«bom», «mau» e «horrível». A ancestral tradição da notinha marginal

A

ancestral tradição

da

notinha marginal

revelou-se desde as suas origens uma forma rudimentar de crítica literária.O grande mestre da forma, Coleridge, usou muitas vezes, tal como Montaigne,as margens dos clássicos como ponto de partida para longos ensaios, mas nem ele

resistia a reverter à violenta reacção abreviada.Entre a sua marginalia (que ocupa uns singelos seis volu- mes da obra completa),a mais di- vertida para o leitor contemporâneo

é talvez a que dedicou ao seu cunha- do, o poeta Robert Southey,cujas dúbias qualidades líricas exigiram uma elaborada estenografia de in-

dignação: um glossário final reve- la que os múltiplos «LM», «IM»

e «SE» rabiscados nas margens dos

poemas correspondiam respectiva-

Um exemplar de um livro de viagens de oreau, roubado a uma biblioteca municipal por

Um exemplar de um livro de viagens de oreau, roubado a uma biblioteca municipal por um adolescente Jack Kerouac e nunca devolvido,exibia um único vandalismo perpetrado sobre a mancha gráfica:

um triunfante sinal afirmativo ao lado da frase «o viajante deve renascer de novo pela estrada fora».

ROGÉRIO

CASANOVA

mente a «ludicrous metaphor» (metá- fora ridícula),«incoherent metaphor» (metáfora incoerente) e «Southey's English» («inglês de Southey»,que uma anotação posterior define como «not English at all»). Há alguns anos,a Biblioteca Pú- blica de Nova Iorque organizou uma exposição dedicada a margina- lia famosa.Entre as pérolas apresen- tadas contavam-se alguns exemplos de epifanias repletas de consequên- cias. Um exemplar de um livro de viagens de Thoreau,por exemplo, roubado a uma biblioteca municipal por um adolescente Jack Kerouac

e nunca devolvido,exibia um úni-

co vandalismo perpetrado sobre a mancha gráfica:um triunfante sinal

afirmativo ao lado da frase «o viajan-

te deve renascer de novo pela estrada

fora».Outra preciosidade da exposi- ção representa o outro lado,social- mente competitivo,da experiência de leitura; um exemplar de Swin- burne pertencente ao espólio de Ezra Pound continha uma severa advertência na contracapa: «Um idiota qualquer teve este livro antes de eu o comprar.Não sou responsá- vel pelas imbecilidades escritas pela sua mão.» O confesso receio de Pound é compreensível,pois a mar- ginalia de qualquer escritor famo- so corre o risco de se reunir na posteridade ao resto da sua obra. Era frequente, nos últimos anos de vida

resto da sua obra. Era frequente, nos últimos anos de vida de Coleridge ,os seus amigos

de Coleridge,os seus amigos em- prestarem-lhe livros com o propó- sito explícito de estes serem devol- vidos com valiosos acrescentos. Um dos itens mais intrigantes nas minhas prateleiras (adquirido numa das subsidiárias da Amazon espe- cializadas em livros usados) é um

exemplar de Against the American

Grain,colectânea de ensaios de um crítico cultural americano chamado Dwight Mac- donald. Embora não este- ja assinado,o livro chegou- -me com as marcas de pelo menos

dois leitores.A tinta preta,com cali- grafia confiante,extensa bagagem cultural e um tom de inconfundível superioridade, alguém salientou com afinco todos os tropeções fac- tuais e gramaticais do autor (a quem se refere em termos demasiado fa- miliares): «Oops,Dwight é um bo- cadinho tonto aqui», «ah, pelos

vistos não estava familiarizado com

a história da schwa»,«não acredito

que não tenhas lido Lucrécio»,etc. Mas um segundo leitor,munido de

um mais educado lápis, transfor- mou a obra num triplo palimpsesto:

as suas anotações referem-se apenas ao anterior conjunto de anotações, na maioria dos casos desmentindo correcções e validando o original, mas nas últimas páginas do livro descambando para uma inequívoca exasperação que culmina na devas- tadora pergunta retórica que é o melhor exemplo de marginalia que encontrei até hoje: «Se eras tão mais esperto que o Dwight,porque

até hoje: «Se eras tão mais esperto que o Dwight,porque é que não é ele quem

é

que não é ele quem está a anotar

o

teu livro?» Além de provocar aquele frisson

típico de quando se ouve clandesti- namente uma disputa familiar,

a nota ilustra também uma lição

de humildade para todos os que se habituaram – como Nabokov re- comendou – a ler de lápis na mão. Se o hábito de anotar as margens do que lemos traduz um desejo in- consciente de ter a última palavra, devemos estar preparados para os

marginais que virão a seguir.

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

CONSULTÓRIO LITERÁRIO

TEM PACIÊNCIA, ZÉ MIGUEL!

«Após concorrer três anos seguidos ao Prémio Leya e ter passado pelo vexame de não ter ganhado o prémio nem mesmo em 2010 […] devo […] confiar no júri des- te tipo de prémios para avaliar o meu talento? […] Ti- rando os reconhecidos enganos do Nobel, tem conhe- cimento de outros casos flagrantes de talento não reconhecido que me possam fazer sentir melhor?» Pedro Fiúza

Caro Pedro, Tendo em conta a minha não-presença em todos os júris de prémios literários que existiram, não é sur-

preendente a quantidade de equívocos que se têm acumulado. Podemos começar na Antiguidade Clás- sica, onde um obscuro talento chamado Eurípides (que podemos designar como o «Pedro Fiúza gre- go»), apesar de, sensatamente, só começar a compe- tir depois da morte de Ésquilo, foi acumulando desai- res atrás de desaires. Está a ver a Medeia? Terceiro lugar no Prémio Leya da altura! Ao todo, em 30 anos de uma eminentemente sportinguista carreira de se- gundos e terceiros lugares, Eurípides garantiu ape- nas quatro vitórias (contra as vinte e quatro de um tipo chamado Sófocles). Já nos nossos dias, o comité responsável pelo National Book Award transformou

o acto de desrespeitar o «Pedro Fiúza russo-ameri-

cano» (Nabokov) num ritual cíclico: Pnin, Lolita, Fogo Pálido e três outros livros foram todos finalistas sem nunca terem ganhado o prémio.

Mas se há candidato óbvio a medalha dos não-me-

dalhados, ele é evidentemente Fernando Pessoa, cuja Mensagem perdeu em 1931 um prémio patrocinado pelo SPN para a imortal Romaria de Vasco Reis («Com o dinheiro da ceia / Vais comprar uma can-

deia. / Tem paciência, Zé Miguel! / Antes sofrer a la- rica, / Que andar sempre na botica.»). Alguns desmancha-prazeres dir-lhe-ão que, esta- tisticamente, é mais provável o Pedro Fiúza pertencer ao grupo daqueles cujas obras são inferiores tanto à Mensagem como à Romaria, mas esse é o tipo de gen- te que nunca apostou nos cavalos: pode ignorá-los

à confiança e continuar a preencher boletins. Cá es-

tará alguém daqui a 80 anos para envergonhar o júri.

VOTAÇÃO A MELHOR CAPA DA LER R epetimos durante meses: qual é a melhor capa
VOTAÇÃO A MELHOR CAPA DA LER R epetimos durante meses: qual é a melhor capa

VOTAÇÃO

A MELHOR CAPA DA LER

R epetimos durante meses: qual é a melhor capa da LER nestes 25 anos? Os leitores esco-

lheram, está escolhido.Após duas fases de votação (de todas as 117 capas até 17 de setembro,e de uma shortlist de nove até 17 de outubro),chegou-se a um veredicto: a edição de homenagem a José Sarama- go (n.° 93,julho-agosto de 2010) é a preferida dos leitores da LER,pelo menos daqueles (cerca de dois mil,se somarmos as duas etapas) que votaram no blogue e no Facebook da revista ou através do ende- reço ler@circuloleitores.pt.O Nobel português pas- seia pela paisagem vulcânica de Lanzarote,Luiz Pa- checo mostra de que fibra é feito (n.° 31,verão de 1995),e Quixote é pretexto para recriações de cinco ilustradores e cinco escritores (n.° 67,verão de 2005).

ilustradores e cinco escritores (n.° 67,verão de 2005). As duas fotografias das capas vencedoras têm a

As duas fotografias das capas vencedoras têm a assinatura de João Francisco Vilhena.

vencedoras têm a assinatura de João Francisco Vilhena. BOOKTAILORING AS LIÇÕES DE ROBINSON (I) C olin

BOOKTAILORING

AS LIÇÕES DE ROBINSON (I)

C olin Robinson,da editora indepen- denteORBooks,expôsno TheGuar-

dian uma dezena de conselhos para – pa- lavras do próprio – salvar a indústria da edição.Por questões de espaço,e adequa- ção ao mercado português,desenvolvemos livremente algumas dessas dicas. Publique para leitores e não para editores. Dado o aumento de desconto que tem vindo a ser pedido pelos retalhistas,é altu- ra de os editores tentarem vender direta- mente ao leitor. Dê mais atenção ao design editorial e à edição de textos.Num mundo em que a autopublicação se impõe e onde abundam prestadores de serviços pouco rigorosos, cabe aos editores tradicionais oferecer livros

de qualidade,sendo beneficiados no mo- mento de escolha por parte do leitor. Controle os seus stocks.O custo unitário de impressão no regime print-on-demand (POD) pode ser superior ao da impres- são tradicional,mas traz uma maior segu- rança relativamente a tiragens e controlo de stocks. Aposte no marketing digital. Com a re- dução de espaço para os livros nos meios de comunicação social tradicionais,a aposta na internet (website,redes sociais,comuni- cação digital) parece ser a melhor maneira de contornar o problema. Pense globalmente. A oferta de gráficas que operam em regime de print-on-de- mand permite cada vez mais que uma edi-

tora efetue os serviços de pré-impressão em Viseu,sendo o livro impresso no Brasil por um parceiro local,em regime de POD. Use «informação na hora». Ao conseguir aumentar as suas vendas diretamente aos leitores,terá também dados valiosos quan- to ao comportamento do produto,o que permite efetuar eventuais alterações à es- tratégia de marketing. Escolha. O mais difícil.Apesar de todas as estratégias,identificar um sucesso ou sa- ber o que procura o leitor é o cerne da ati- vidade do editor. E, numa época de tão agitada mudança,continua a ser de uma grande justiça poética que a nobre ativi- dade do editor se centre em escolher para depois acrescentar valor. Paulo Ferreira

BREVES

©Luísa Ferreira/Ler
©Luísa Ferreira/Ler

CÍRCULO DE AGUSTINA

Em março,a LER homenageava Agustina publicando um conjunto de artigos e iné- ditos que marcaram o ano editorial portu- guês. Agora,a história é outra – mas serve para recuperar o seu alcance literário.No dia do 90º aniversário (15 de outubro) da autora de Vale Abraão foi criado o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís,promovido e acolhido – de forma provisória – pela Universidade Fernando Pessoa,no Porto. A sua obra bem merece.

CARTAS DE CAMILO

No Dicionário de Camilo Castelo Branco, Alexandre Cabral já falava do «fabuloso epistolário Camilo-Visconde de Ougue- la», «um acervo importantíssimo em todos os sentidos»,que decerto um dia aparece- ria «à luz da publicidade». Elas aí estão, mais de 200 cartas inéditas – descobertas pela investigadora brasileira Beatriz Berri- ni (n.1923) em São Paulo e no arquivo da Universidade de Coimbra – reunidas ago- ra, com esmero gráfico e editorial,em Ca- milo Íntimo (Clube do Autor).O prefácio é assinado por A.Campos Matos e o pos- fácio por João Bigotte Chorão.

A.Campos Matos e o pos- fácio por João Bigotte Chorão. VOLTAR A MAQUIAVEL Se há alguém

VOLTAR A MAQUIAVEL

Se há alguém que conhece bem a Política

é

Diogo Pires Aurélio (n.1946).Professor

e

ensaísta, dirigiu a coleção «Clássicos

da Política»,editada pela Temas e Deba-

tes/Círculo de Leitores,por onde passa- ram títulos como

o Tratado Político

de Espinosa (pelo

qual,aliás,ganhou

em 2009 o Pré- mio de Tradução Científica e Téc- nica em Língua Portuguesa) ou O Prín- cipe de Maquiavel.E é pelo florentino que Diogo Pires Aurélio puxa novamente para o seu mais recente ensaio Maquiavel & Herdeiros (Temas e Debates/Círculo de Leitores): «Pensar como Maquiavel significa “ir atrás da verdade efetiva das coisas”. Talvez não seja tão exaltante como ficar-se pela imaginação de coisas que ainda estão por ver e por vir. Mas é, seguramente, mais conforme à natureza do político.»

de coisas que ainda estão por ver e por vir. Mas é, seguramente, mais conforme à

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de coisas que ainda estão por ver e por vir. Mas é, seguramente, mais conforme à

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

A ORDEM DOS CRÍTICOS

SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO A ORDEM DOS CRÍTICOS ABEL BARROS BAPTISTA Antonomásias e hipocorísticos

ABEL

BARROS

BAPTISTA

A ORDEM DOS CRÍTICOS ABEL BARROS BAPTISTA Antonomásias e hipocorísticos Que pena que se não ensine

Antonomásias e hipocorísticos

Que pena que se não ensine mais

literatura nas escolas! E que pena,consi- derando o meu propósito de agora,que se não ensinem certos géneros menores,

como polémicas,vitupérios e outros pro- dutos textuais em que se agride e destrói, por serem actos de guerra.Concedo que não ilustram as crianças, mas podiam adestrar os mais crescidos na arte do in- sulto e educá-los na ideia de liberdade que tal arte requer. Refiro-me àqueles combates verbais em que era costumei- ro, por exemplo,mencionar a bestialida- de do oponente,sem cerimónia tratado de cavalgadura ou alimária,palavras que desapareceram do espaço público (para nossa desgraça, agora que precisamos de nos preparar para a guerra). Com- preensivelmente ninguém gosta que lhe

convenhamos que

é menos grave chamar estúpido a um su- jeito do que pedir a quem manda que o despeça ou cale.O estúpido ou suposto estúpido deve poder exprimir-se,já por- que é direito de todos,já porque a estupi- dez alcança com frequência ser divertida. Notem que não digo que se deve in- sultar: digo que não devemos dizer que não se deve.Segundo uma ideia muito divulgada – diria mesmo excessivamen- te divulgada –,ao insulto apenas recorre quem não tem ideias ou argumentos. Não é exacto.O mais lídimo insulto ori- gina-se em quem não vê no interlocutor interesse pelas suas ideias ou o reconhe- ce incapaz de lhe compreender os argu- mentos. Fora disso,o insulto surge da simples desnecessidade de ideias ou ar- gumentos: contra gente que não merece outra forma de ataque. Insultar é por vezes exigido pela indignação e pela dig- nidade ou pela satisfação de mandar uns canalhas à tabua,como disse Fernando

chamem burro

Mas

Assis Pacheco,todas motivo legítimo.

E para isso tem de haver liberdade! Ca-

milo já o exigiu em 1874:«Nisto de acol-

chetar antonomásias,tanto aos reis como aos súbditos,peço e quero que haja liber- dade plena.Por exemplo: o redactor da notícia da Actualidade,conhecido entre

os seus parceiros por um epíteto qual-

quer, está sujeito a que a posteridade lho altere ou inverta.Eu,por enquanto,cir- cunscrevo os limites da minha fantasia

a chamar-lhe tolo.» (O tal redactor era

Silva Pinto, que acusara o romancista de confundir D.João II com D.João III, por atribuir ao segundo o cognome do primeiro;Camilo garantiu tê-lo feito de propósito,explicando que,príncipe per- feito ou piedoso,a patarata é a mesma.) O que se requer ao insulto para ser arte

é elevação,e a única via que eleva é o apu-

©Pedro Vieira
©Pedro Vieira

O que se requer ao insulto para ser arte é elevação,e a única via que eleva é o apuramento da linguagem.Dizer de certo sujeito que é «alcançadíssimo de inteligência» é melhor do que chamar-lhe idiota.

de inteligência» é melhor do que chamar-lhe idiota. ramento da linguagem.Dizer de certo sujeito que é

ramento da linguagem.Dizer de certo

sujeito que é «alcançadíssimo de inteli- gência» ou que o caracteriza «extrema parcimónia das faculdades mentais»

é melhor do que chamar-lhe idiota: não

apenas tem graça como suplanta o senti-

mento de caridade pelos menos afortu-

nados, facilitando a apreciação da frase em si mesma, sem consideração do efeito que venha a produzir no visado.

O desprezo da linguagem é que por seu

turno torna o insulto perigoso. Numa

história de Guimarães Rosa,um perigo-

so bandido aposentado procura esclare-

cer se «famigerado» é «nome de ofensa».

Consulta então certo desinfeliz,boticá-

rio ou talvez médico,que apesar de apa-

vorado mal reconhece o homicida,e ape-

sar de ele próprio definir o medo como

«extrema ignorância em momento agu-

do», se perde num exercício de lexicogra-

fia e minucioso explica que famigerado

é inóxio, significa célebre,notório,notá- vel, importante,sem vilta nem doesto,

expressão neutra,de outros usos…Mas

o celerado insiste:é desaforado,caçoável,

de arrenegar,farsância…? Enfim o outro

sai-se com isto:«Olhe:eu,como o sr.me

vê,com vantagens,hum,o que eu que-

ria

numa hora destas era ser famigera-

do

– bem famigerado,o mais que pu-

desse!

bandido: não o dicionário,mas a crença

de que o outro mais depressa desejava

a descrição do que se ofenderia com ela. Aprende-se com o caso que o pior

inimigo da arte do insulto acaba por ser

a susceptibilidade do ofendido,tantas

Eis o que desagravou o inquieto

»

vezes uma susceptibilidadezinha de al- mas frágeis, que se ressentem do que

quer que saia um pouquinho do hipoco- rístico… Ai não,Tatá,de si não esperava,

de todo,querida,de todo…

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BREVES

©Pedro Loureiro
©Pedro Loureiro

TRAIÇÕES E SONHOS NA GUINÉ

O novo livro de Pedro Rosa Mendes (n.1968),agendado

para 2013,marca o final da sua relação com a Dom Qui- xote, editora onde publicava desde 1999, desde Baía dos Tigres. O Julgamento do Morto é o título encontrado pelo jornalista e escritor para «um romance político sobre a

Guiné-Bissau e as traições aos sonhos da independência».

A edição terá o carimbo da Tinta-da-china.

POEMAS DE ANTÓNIO GEDEÃO

A surpreendente biblioteca do campus da Caparica – da

Faculdade de Ciência eTecnologia da Universidade Nova

de Lisboa – continua com um programa a que se devia dar

mais atenção.A 24 de novembro,por exemplo,a partir das 15h, há leituras de poemas de António Gedeão (1906- -1997) a par da apresentação da sua antologia bilingue (português/inglês).Quatro dias antes é inaugurada a ex- posição Learning to Fly,de Paula Rego.

IDEIAS PARA PORTUGAL

O tempo é de intervenções editoriais.Se Jorge Sampaio vê

agora lançada a sua biografia (mais de mil páginas só no primeiro volume) escrita pelo jornalista José Pedro Cas- tanheira, e Mário Soares regressa com nova compilação que reúne textos publicados nos últimos dois anos em jor- nais e revistas,Manuel Carvalho da Silva,ex-secretário- -geral da CGTP,hoje investigador do Centro de Estudos Sociais,propõe Vencer o Medo – Ideias para Portugal (Temas e Debates/Círculo de Leitores).Vozes à esquerda para refletir sobre o caminho escolhido.

VER AS AVES POR AÍ

Revisto e aumentado,o «guia de campo mais completo das aves de Portugal e da Europa»,com texto e mapas de Lars Svensson,volta a estar disponível nas li- vrarias, numa iniciativa conjunta da As- sírio & Alvim e da Sociedade Portu- guesa para o Estudo das Aves (SPEA). Precioso para birdwatchers,especialistas e leigos no assunto,este Guia de Aves in- clui 3500 ilustrações,mapas e textos de- talhados até aos cantos de cada espécie.

Guia de Aves in- clui 3500 ilustrações,mapas e textos de- talhados até aos cantos de cada
Guia de Aves in- clui 3500 ilustrações,mapas e textos de- talhados até aos cantos de cada

OS MEUS PERSONAGENS

OS MEUS PERSONAGENS JOSÉ EDUARDO AGUALUSA Malala,ou o poder dos livros Há notícias que nos despertam

JOSÉ

EDUARDO

AGUALUSA

OS MEUS PERSONAGENS JOSÉ EDUARDO AGUALUSA Malala,ou o poder dos livros Há notícias que nos despertam

Malala,ou o poder dos livros

Há notícias que nos despertam

e envergonham, como uma bofetada.

Leio,atordoado,revoltado,a história de

Malala Yousafzai,uma menina paquis- tanesa, de 15 anos,atingida a tiro,na ca- beça, por se atrever a enfrentar a fúria

e a estupidez de um grupo de fascistas

islâmicos. Em 2009,com apenas 11 anos,Ma- lala alcançou alguma notoriedade ao publicar um blogue, patrocinado pela BBC, no qual dava o seu testemunho sobre a guerra entre o exército paquis- tanês e um grupo talibã, no vale do Swat, onde vivia. Pouco depois, The New York Times publicou uma entre- vista com Malala. Interrogada sobre

se iria desistir de estudar depois de os talibãs terem encerrado a escola femi- nina que vinha frequentando,a menina negou.Retornaria às aulas. Releio a notícia,e percebo,de repen- te, a absoluta insignificância das mi- nhas preocupações.Muitos dos mani- festantes que enchem as ruas de Lisboa, para protestar contra a crise e o em- pobrecimento da classe média, e que, horas depois, já saltitam alegremente, aos gritos,em mais um concerto qual- quer, ou bebem e comem e se divertem nos bares do Bairro Alto e da Bica e do Cais do Sodré,parecem-me agora não só afortunados, mas também terrivel- mente frívolos. Há poucas semanas,em Londres,es- cutei o escritor marroquino Tahar Ben Jalloun discursar contra aqueles que,em nome do islão,perseguem as mulheres

e quaisquer manifestações de moder-

nidade e de cultura. Surpreendeu-me

o gesto de uma jovem árabe, à minha

frente,que se ergueu para insultar o es-

critor. Lembrei-me da reação de um

amigo, ao saber que o MPLA voltara

a ganhar as eleições em Angola: «Cha-

ma-se a isso Síndrome de Estocolmo!» Pode ser, mas continua a espan- tar-me. O primeiro-ministro paquistanês,

Raja Pervez Ashraf, condenou a ten-

tativa de assassinato de Malala, decla- rando que pensa nela como numa filha,

e

que cada paquistanês deveria sentir

o

mesmo.Na verdade,todos nós,e não

apenas os paquistaneses, deveríamos sentir o mesmo. Nas entrevistas que tem dado a propósito do seu novo livro, Salman Rushdie vem acusando os países de- mocráticos de, com a sua passividade,

©Pedro Vieira
©Pedro Vieira

Os americanos teriam feito mais pela libertação dos afegãos se tivessem despejado sobre o país não bombas,mas livros.

É isto que a pequena e corajosa Malala nos veio lembrar:

a educação liberta.

e corajosa Malala nos veio lembrar: a educação liberta. contribuírem para o incremento do ra- dicalismo

contribuírem para o incremento do ra-

dicalismo islâmico.Tem razão.Talvez esse radicalismo não tivesse avançado

tanto,talvez Malala não tivesse sido al- vejada, se logo em 1989,quando Rush- die lançou os seus Versículos Satânicos,

os cidadãos dos países democráticos se

tivessem unido em bloco,saindo para as ruas com ruído e escândalo,para repu-

diar a estúpida fatwa de que o mesmo

havia sido alvo, pelo aiatola Ruholla Khomeini.Ao invés de criticar Rushdie, por ter com o seu livro «provocado» a ira dos muçulmanos radicais,devíamos ter inundado os mercados com cente-

nas, com milhares,de títulos heréticos.

A melhor forma de combater os fas-

cistas religiosos,sejam eles evangélicos, como nos Estados Unidos e no Brasil, judeus,muçulmanos ou hindus,é atra- vés da alegria – do sexo, da música, do vinho e dos rojões. Além dos livros,claro.Os america- nos teriam feito mais pela libertação dos afegãos se tivessem despejado so- bre o país não bombas,mas livros.

É isto que a pequena e corajosa Ma-

lala nos veio lembrar:a educação liberta.

Os livros realmente mudam o mundo.

A boa literatura é sempre subversiva. Todos os totalitarismos temem os

livros. O fotógrafo e publicitário bra- sileiro Sérgio Guerra montou às suas custas uma pequena escola,no extremo sul de Angola, para atender aos filhos dos pastoreshereros – abandonados,des-

de sempre,pelo poder público.Há pou-

cos dias esta mesma escola foi fechada à força, pela polícia, que levou os ma- nuais escolares, porque aqueles não seriam «os livros autorizados». Malala,como se vê,também habita

no Namibe.

BREVES

BREVES 50 ANOS DE POESIA Escreveu o primeiro livro de poesia, Modo Mudando, há 50 anos.A

50 ANOS DE POESIA

Escreveu o primeiro livro de poesia, Modo Mudando, há 50 anos.A efeméride não es- capou a quem segue com atenção a carrei- ra de Vasco Graça Moura (n.1942).Por

entre colóquios e encontros que assinalam

a data,a sua Poesia Reunida é editada pela

Quetzal em dois volumes, assim como

a antologia a vista desarmada,o tempo largo, 34 poetas juntos numa homenagem que partiu da iniciativa do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra.

©DR
©DR

ALGUÉM FALOU EM CRISE?

«Ler a imprensa todos os dias é como observar o tambor de uma máquina de lavar rou-

pa em interminável centrifugação.Olhando para esse mundo em constante rotação, tento perceber os mecanismos dos acontecimentos.» Notas como esta acompanham as páginas de um verdadeiro retrato feito na última década por António Jorge Gonçal- ves (n.1964) através dos cartoons que vem publicando no Inimigo Público (2003-2012) – e que a Documenta,oportunamente,lança em álbum com o título Bem Dita Crise!

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no Inimigo Público (2003-2012) – e que a Documenta,oportunamente,lança em álbum com o título Bem Dita

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

CARTÃO DE LEITOR

SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO CARTÃO DE LEITOR JOSÉ MÁRIO SILVA Mrs.Booker 1. Vejam a alegria

JOSÉ

MÁRIO

SILVA

ORTOGRÁFICO CARTÃO DE LEITOR JOSÉ MÁRIO SILVA Mrs.Booker 1. Vejam a alegria desta mulher. Tentem

Mrs.Booker

1. Vejam a alegria desta mulher.

Tentem compreender a alegria desta mulher.Chama-se Hilary Mantel.Aos 60 anos,rosto redondo,corpo enorme sob a túnica,não pertence ao grupo das escritoras que aliam, ao talento da es- crita, os tão apreciados good looks. Ela não quer saber dos good looks para nada. Ela não é um rosto que se fotografa,em pose. Ela é uma escritora que escreve. Ponto.Creio aliás que a sua alegria ao receber o Man Booker Prize deste ano, pelo romance Bring Up the Bodies, não teve a ver com aquilo que todos os jornais destacaram: o ser a primeira mulher e o primeiro autor britânico a ganhar duas vezes o cobiçado prémio (os anteriores foram o australiano Peter Carey e o sul-africano Coetzee),ainda por cima no intervalo mais curto (ape- nas três anos depois de Wolf Hall).Nem teve a ver com o prémio de 50 mil libras, quase 62 mil euros,ou com o mais que previsível acréscimo exponencial de vendas deste livro e, por arrasto, dos anteriores.Quando agradeceu a distin- ção, no palco do Guildhall,em Londres, Mantel disse: «Esperas 20 anos para vencer o Booker e depois vêm logo dois de seguida.» Dois que até podem vir a ser três,quando for publicado o volu- me final da sua trilogia sobre Thomas Cromwell e o tempo dos Tudor, The Mirror and the Light, sobre o qual já se fazem todo o tipo de apostas.Agora que se tornou quase consensual, uma espécie de Mrs.Booker a pairar,sobera- na, etérea,sobre o mundo das letras in- glesas («Não creio ter lido nos últimos tempos nenhum outro autor anglófono que controle tão completamente a lin- guagem para conseguir o que pretende fazer»,resumiu Sir Peter Stothard,pre-

sidente do júri do Man Booker,além de editor do The Times Literary Supple-

ment), agora que se instalou no trono do establishment, o que se deve sublinhar é a primeira parte da sua frase: «Espe-

Foi longo o caminho.

Um caminho com travessias do deser- to e zonas de sombra que a escritora evidentemente não esqueceu. 2. No final dos anos 70, Mantel entregou-se à escrita da sua primeira narrativa,um romance histórico de 800 páginas sobre a Revolução Francesa (A Place of Greater Safety),obra que foi recusada e só viu a luz muito mais tarde, em 1992.Enquanto a escrevia,aconte- ceu algumas vezes enganar-se ao datar os cheques: em vez de 1978, escrevia 1798.Era a História a impor-se na sua vida,mesmo se literariamente acabou

ras 20 anos

»

©Pedro Vieira
©Pedro Vieira

Bastaram-me as páginas iniciais do romance Bring Up the Bodies para saber que descobrira uma grande escritora. Dois Bookers depois,Hilary Mantel sabe que muitos partilharam esta descoberta.

Mantel sabe que muitos partilharam esta descoberta. a circular por outros lados,mudando de estilo e género

a circular por outros lados,mudando de

estilo e género de livro para livro,até se

fixar novamente,em 2009,na ficção his- tórica, seguindo os passos do maquia-

vélico conselheiro do rei Henrique VIII.

3. Antes de chegar aos 30 anos,

quando vivia no Botswana com o ma- rido, geólogo, Hilary descobriu por si mesma, lendo livros de medicina e fazendo autodiagnóstico,a explicação para o seu estado de constante sofri- mento: uma doença chamada endome- triose. As células do útero migram para outras partes do corpo e provocam he- morragias. Operada em Inglaterra,na

mesma altura em que A Place of Greater Safety era recusado,saiu do hospital sem ovários,sem útero,desfeito o desejo de ser mãe. Depois, ganhou peso devido

a um tratamento hormonal intenso, a

forma do corpo que nunca mais perdeu. No seu lugar, muita gente colapsaria. Mantel seguiu em frente,reinventou-

-se,atravessou o deserto,esperou o que teve de esperar. «Agora levanta-te»,

a primeira frase de Wolf Hall, é talvez um dos mandamentos da sua vida.

4. No começo do livro que lhe deu

o primeiro Booker, o protagonista,

Thomas Cromwell,ainda criança,está

a ser espancado pelo pai. Pontapés,

murros,sangue por todo o lado.Antes de perder os sentidos,deitado por ter-

ra, ele sente uma espécie de movimen- to, o «chão nojento» a tornar-se líqui- do como oTamisa.O resto do romance

é extraordinário, mas bastaram-me

aquelas páginas iniciais para saber que descobrira uma grande escritora.Dois Bookers depois, ela sabe que muitos partilharam esta descoberta.Será essa, mais do que a glória efémera, a razão da sua alegria.

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PUB ©Pedro Loureiro LER EM VOZ ALTA CIDADES DE PORTAS O urbanista de um policial só
©Pedro Loureiro
©Pedro Loureiro

LER EM VOZ ALTA

CIDADES DE PORTAS

O urbanista de um policial só (publicado na Vampiro Magazine quando tinha 15 anos) pegou na «narrati-

va» que começara na entrevista com Carlos Vaz Marques (LER nº 115) e seguiu por diferentes caminhos da sua bio- grafia durante a segunda conferência «LER em Voz Alta». «Ler a vida,desenhar a cidade» foi o mote escolhido por Nuno Portas para o fim de tarde de 18 de outubro,no Cen- tro Cultural de Belém,mote a que acrescentou quatro pa- lavras: ver,escrever,projetar,refletir.E mais não adiantamos, pois tudo o resto será publicado brevemente na LER.O ci- clo prossegue já no próximo dia 16 de novembro,desta vez na sala Almada Negreiros (CCB),às 18h30,com o cien- tista Alexandre Quintanilha.A entrada é livre,mas quem preferir (e nós aconselhamos) pode reservar um ou mais lugares através do e-mail ler@circuloleitores.pt

preferir (e nós aconselhamos) pode reservar um ou mais lugares através do e-mail ler@circuloleitores.pt Revista LER
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preferir (e nós aconselhamos) pode reservar um ou mais lugares através do e-mail ler@circuloleitores.pt Revista LER

©DR

©DR ERIC HOBSBAWM QUANDO SE PISA O RISCO Apesar dos riscos,contradições e posições políticas dogmáticas,o autor

ERIC HOBSBAWM

QUANDO SE PISA O RISCO

Apesar dos riscos,contradições e posições políticas dogmáticas,o autor de A Era dos Extremos tem lugar garantido na História.E merece-o.

dos Extremos tem lugar garantido na História.E merece-o. Hobsbawn retratado por Gustavo Macri. O desaparecimento do

Hobsbawn retratado por Gustavo Macri.

O desaparecimento do historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-

-2012) teve uma repercussão mediática in- vulgar. Um longo e ativo trajeto concorreu em larga medida para o quinhão de reco- nhecimento que determinou esse eco,mas

o que ampliou o seu impacto público foi

principalmente o facto de ter contribuído

– como poucos – para levar o interesse pela

dimensão explicativa da História até um conjunto amplo de colegas de outras áreas de saber,de estudantes de diferentes gera- ções e de leitores ávidos,que sem a sua aju- da dificilmente teriam orientado para aí os seus horizontes.Conseguiu-o,em particu-

lar, através de dois aspetos: a multiplicida- de dos temas pelos quais se interessou,tra- zendo para a academia assuntos até então proscritos,como o papel criador dos ban- didos e dos rebeldes,a vida verdadeira «dos de baixo»,a formação do universo do jazz,

o retorno dos nacionalismos ou os modos

de «invenção da tradição»; o segundo prende-se com o facto de, em A Era dos Extremos,uma das obras mais lidas e reco-

mendadas sobre a História recente da Hu- manidade, ter defrontado as cronologias tradicionais definindo um «breve século XX» balizado,entre 1917 e 1991,pelo im- pacto mundial da Revolução Soviética,do seu apogeu,estabilização e queda.Ao mes- mo tempo,a elevada qualidade da sua ca- pacidade narrativa permitiu-lhe conquis- tar um público motivado,acima de tudo, pelo prazer da leitura. As suas escolhas não foram imunes

à crítica, sendo muitas vezes destacada a aproximação das suas atitudes políticas às orientações metodológicas.Desde 1931

e até à morte,Hobsbawm foi um obstina-

do militante comunista,tendo mesmo dito

que essa condição retardou o seu reconhe- cimento universitário, e nunca cultivou uma História assética,pseudodespoliti- zada. A opção levou-o a manter o marxis- mo como grelha de leitura do passado

e em alguns momentos a pactuar com po-

sições algo dogmáticas.No entanto,em 2002,já com 85 anos – ao falar,numa en- trevista ao Observer, das longas décadas de militância partidária –, reconheceu ter «mantido silêncio sobre um certo número de coisas» a respeito das quais teria sido ra- zoável não se ter calado.Na mesma entre-

vista declarou também,ao arrepio de um universo académico habitualmente con-

servador no plano dos métodos,que a His- tória, enquanto saber,«se encontra hoje a ser reinventada sob múltiplos aspetos»,e por isso era mais importante do que nun- ca contar com o papel dos historiadores, «sobretudo com os historiadores céticos». São boas respostas deixadas a quem,con- trariando os aplausos,procura ainda dene- grir a sua intervenção como historiador e cidadão,acusando-o de um teimoso dog- matismo. Na realidade,lendo a sua exten- sa obra e o volume autobiográfico que dei- xou (Tempos Interessantes),é fácil perceber

que foram também os riscos e as contradi- ções em que se envolveu que tornaram

menos previsível o seu trabalho e mais va- lioso o seu legado. Rui Bebiano

LÍNGUA MOVEDIÇA

UM PRIÚDO DIFÍCEL

É possível que os lisboetas gostem do linguajar castiço da capital. Digo

é possível, pois não conheço pesquisas a

tal respeito,e pergunto-me mesmo se fo-

ram feitas.Modestamente,duvido que a questão tenha,até hoje,acudido à mente

de alguém. Mas devemos crer que sim, que os lisboetas, não obstante serem os únicos portugueses que nunca dizem «na minha terra»,também eles recordam com nostalgia,quando longe de Lisboa,as so- noridades com que cresceram.

A capital portuguesa não é,em termos

fónicos, um sítio qualquer. Foi aí que se forjou,ao longo de séculos,um padrão na- cional de pronúncia. Esqueçamos a fala

chique de Coimbra, fenómeno tardio, e mais precisamente híbrido do Norte e Sul. Foi na Corte (como Lisboa era designada)

que indivíduos provenientes do país in-

teiro se ativeram a criar um tipo neutro de expressão oral,à custa sobretudo de mate- riais nortenhos,sendo os de Entre Douro

e Minho particularmente fustigados. Mas Lisboa foi também criativa.Aí se

introduziu o «r» francês e se transformou

o ditongo «ei» em «âi». Julgaríamos isto

desenvolvimentos recentes.O facto é que

já por inícios de Oitocentos se erguiam

vozes incomodadas com tais desaforos. Hoje,essa fala média,mais as suas cria- ções, acabou disseminada pelo território

nacional.Abaixo dos 20 anos é já difícil ou- vir outra.Alguns políticos sonoros,como Passos e Louçã,usam ainda o valente «r» mediterrânico,mas a espécie vai extinguir- -se.Já poucos locutores e comentadores res- pondem por esse heróico som,e também

o ditongo «âi» vive,neles,de pedra e cal. Com isto, a nostalgia do lisboeta tor- nou-se tarefa árdua.Vai-se reduzindo ao nicho,meio rufia,meio ordinário,do «me-

diúcre», do «priúdo»,do «trêuze»,do «di- fícel», do «Campo d’Òrique» em «Ljbôa».

E das «câxas» à polícia,que parecem cai-

xas mas é só parecer.

A norte,a indistinção de «b» e «v» vai-

-se aguentando,com esse intrigante Porto «Naçom».Mas,a sul,a «pasmacêra» já não

é o que era. Um dia, Portugal inteiro irá falar como uma grande Lisboa.E então, sim, nascerá um país perfeito. Sonora-

mente. Fernando Venâncio

HETERODOXIAS

HETERODOXIAS EDUARDO PITTA Identidades Na extensa autobiografia que fez sair sob a dupla autoria de Salman
EDUARDO PITTA
EDUARDO PITTA

EDUARDO

PITTA

HETERODOXIAS EDUARDO PITTA Identidades Na extensa autobiografia que fez sair sob a dupla autoria de Salman

Identidades

Na extensa autobiografia que fez

sair sob a dupla autoria de Salman Rus- hdie & Joseph Anton,o autor de Vergo- nha (1983) confessa-se perplexo com

o facto de a Índia, que não é um país

muçulmano,lhe ter recusado um visto de

viagem.Escrevendo na terceira pessoa,

afirma: «Não seria autorizado a voltar,a

ir à sua terra,durante doze anos e meio.»

O itálico – «ir à sua terra» – é dele.Como

diria um antigo caseiro dos meus avós,

a frase encanita-me.Ele próprio o reco- nhece: «Os cidadãos do Reino Unido

precisavam de vistos para visitar a Índia.» Pondo ênfase na sua terra, não se percebe a razão de não ter regressado

a Bombaim assim que terminou os es-

tudos em Inglaterra. Em vez disso, preferiu ficar a gozar o melhor de dois mundos,tirando todas as vantagens de

pertencer a um milieu literário influen-

te como é o britânico.

Rushdie nasceu a 19 de junho de 1947,numa Índia sob administração co-

lonial britânica.É,para todos os efeitos, um filho do Raj.Oito semanas depois

de ter nascido,a Índia britânica dividiu-

-se em duas,tornando-se independen- te: o Paquistão a 14 de agosto,a Índia propriamente dita no dia seguinte.Em janeiro de 1961, com 13 anos, deixou

a sua terra para sempre: foi estudar para

a Rugby School, de onde seguiu para

o Kings’College da Universidade de Cambridge.Nas Midlands foi infeliz, em Cambridge aculturou-se.Não terá sido difícil porque, desde os distantes anos da infância indiana,fora educado pelo pai, antigo aluno de Cambridge, num ambiente de «pesquisa aberta [onde] nada estava interdito». Ficou a pedra no sapato. O filho do Raj tinha de provar em dobro que valia

tanto como os outros: «Houve roman- cistas seus contemporâneos – Martin Amis, Ian McEwan – cujas carreiras

descolaram ainda mal eles tinham saído

do ovo,por assim dizer,e que se elevaram

nos ares como pássaros exaltados.Quan-

to a ele,as suas esperanças iniciais não se

concretizaram.» Com efeito,o primeiro

livro passou sem o eco que chegaria com

o segundo, Os Filhos da Meia-Noite

(1981),escrito após uma longa viagem

pela Índia, na companhia da primeira mulher: «Lançaram-se na sua odisseia indiana,alojando-se em pensões baratas, fazendo viagens de camioneta de vinte e quatro horas durante as quais havia

frangos que lhes vomitavam nos pés »

as quais havia frangos que lhes vomitavam nos pés » ©Pedro Vieira Por maioria de razão

©Pedro Vieira

Por maioria de razão não descarto o caso português.Não passa pela cabeça de ninguém ler Gonçalo M.Tavares ou Valter Hugo Mãe como autores «angolanos»,pelo facto de terem nascido naquela antiga colónia.

facto de terem nascido naquela antiga colónia. Foi assim que,«empanturrado de Índia», deu corpo ao livro

Foi assim que,«empanturrado de Índia», deu corpo ao livro que o tornou célebre. Mas quando a NewYork Review of Books classificou a obra como sendo «um con-

tinente a encontrar a sua voz»,ficou cla- ro que Rushdie não era dos nossos.A par-

te gaga é que ele não superou o trauma. Adiante. Rushdie não foi o primeiro,mas tal-

vez tenha sido o último grande escritor

a nascer num território sob administra- ção colonial.

A literatura francesa tem vários pied-

-noirs,sendo os mais conhecidos Albert Camus (1913-1960),Marguerite Duras (1914-1996) e Jacques Derrida (1930- -2004).Camus e Derrida nasceram am- bos na Argélia «francesa».A Duras nas- ceu em Saigão,quando o Vietname era território ultramarino francês.O mes-

mo se diga da literatura inglesa:Rudyard Kipling (1865-1936) e George Orwell (1903-1950) servem de exemplo por to- dos. Ambos nasceram na Índia:Kipling em Bombaim,Orwell em Motihari. Por maioria de razão não descarto o caso português,que inclui variada gen- te, da qual destaco Alberto de Lacerda (1928-2007),Eugénio Lisboa (1930), Rui Knopfli (1932-1997),Helder Ma- cedo (1935),Fernando Gil (1937-2006)

e José Gil (1939).Tendo os seis nascido em Moçambique,é como autores por-

tugueses que os lemos e é nessa qualida- de que a posteridade os julgará.Como não passa pela cabeça de ninguém ler Gonçalo M.Tavares (1970) ou Valter Hugo Mãe (1971) como autores «an- golanos», pelo facto de ambos terem nascido naquela antiga colónia.

O multiculturalismo é um saco de ga-

tos? Mr Rushdie/Anton acaba de lançar

a dúvida.

©Ulf Andersen/Getty Images
©Ulf Andersen/Getty Images

MO YAN

O MELHOR ESCRITOR CHINÊS DA ATUALIDADE

BRUNO VIEIRA AMARAL

Doze anos depois do Nobel atribuído a Gao Xingjian, o Academia Sueca volta a distinguir um autor chinês.A polémica foi viral.Quem é Mo Yan?

S empre que a Academia Sue- ca anuncia que o Prémio Nobel não foi atribuído a

Philip Roth, um hábito que tem sido aperfeiçoado nos últimos anos,a generalidade dos leitores e até dos jornalistas culturais fica bo- quiaberta. Em Portugal,o primei- ro passo é saber se há algum livro publicado do autor (normalmente há,mas é impossível encontrar um exemplar).O segundo é descobrir alguém que possa fazer alguma de- claração sobre a obra. Depois da surpresa e do choque, das acusa- ções de que a Academia faz ques- tão de premiar autores desconhe- cidos só para lhes dificultar o trabalho,começa a lenta aceitação

O único livro de

Mo Yan traduzido para português,

Peito Grande,

Ancas Largas, publicado em 2007 (Ulisseia, trad. João Martins), acaba de ser re- editado, semanas após o anúncio do Nobel ter subli- nhado o «realismo alucinatário» do escritor.

ter subli- nhado o «realismo alucinatário» do escritor. de que há mais escritores no mun- do

de que há mais escritores no mun- do do que aqueles que figuram permanentemente nos escaparates das livrarias portuguesas.Mo Yan é o último da longa lista de «des- conhecidos» a aterrar com estron- do nas redações dos jornais e revis- tas. Quem é Mo Yan? Mo Yan é o primeiro chinês a receber o Prémio Nobel da Literatura.É também o segundo chinês a receber o Prémio Nobel da Literatura. Isto porque, em 2000,o primeiro chinês a rece- ber o prémio,Gao Xingjian,já ti- nha nacionalidade francesa.Gra- ças a este preciosismo geográfico, Mo Yan tornou-se,de facto,o pri- meiro chinês a receber o Prémio Nobel da Literatura.

Nascido em 1955,na província costeira de Shandong, filho de camponeses, Mo Yan (um pseu-

dónimo que significa «não fales»;

o nome verdadeiro é Guan Moye e

ninguém sabe o que significa) é um dos autores mais populares na Chi- na e também um dos mais contro- versos, sobretudo junto da elite ar- tística crítica do regime de Pequim. Em declarações ao jornal Público,o artista plástico Ai WeiWei afirmou que a atribuição do Nobel «a um escritor que conscientemente se

dissociou das lutas políticas da Chi-

na de hoje [

Yan é acusado de não aproveitar

a sua popularidade e o seu estatuto

para defender a libertação de ou-

tros escritores e ativistas políticos, optando por um silêncio que é,no mínimo, equívoco. Mas o maior pecado de Mo Yan terá sido o de ter rescrito uma parte de Peito Grande, Ancas Largas,depois de o livro ter sido proibido pela censura. Não foi apenas a crueza das descri- ções sexuais a incomodar o poder. Howard Goldblatt, que traduziu

a obra para inglês, disse que um

é quase intolerável».

]

dos críticos chineses do romance considerou-o uma «obra caluniosa

e indigna que vira a História do avesso, inventa mentiras e glorifica os fascistas japoneses».A

e indigna que vira a História do avesso,

inventa mentiras e glorifica os fascistas

japoneses».A apresentação de uma nova versão do livro foi acompanhada de um

pedido formal de desculpas por parte do escritor.A sua alegada proximidade com o regime foi o principal motor das reações

à atribuição do Nobel.Quer para o atacar,

como no caso de WeiWei,quer para de- fender a sua independência artística.Em entrevista ao Guardian, Michel Hockx, professor de Chinês na Faculdade de Es- tudos Orientais e Africanos (SOAS),em Londres,expressou o seu desagrado pela ideia algo simplista de que os únicos bons escritores chineses são os críticos do regi- me e saudou a escolha corajosa da Acade- mia: «Escolher um dissidente seria a esco- lha fácil – escolher um autor pela forte reputação literária,pela força e impacto da sua obra,é uma decisão corajosa.» O pró- prio Mo Yan não pôde fugir à dimensão política,até porque Pequim não quis dei- xar de capitalizar o prémio,encaixando-o perfeitamente na narrativa mais longa da ascensão chinesa rumo à supremacia mun-

dial,não só na economia como na cultura. Horas depois do anúncio do prémio,Mo Yan respondeu finalmente aos seus críti- cos, pedindo a libertação de Liu Xiaobo, que em 2010 recebeu o Prémio Nobel da Paz.Estas declarações podem parecer uma genuína tentativa de corrigir as omissões

do passado ou uma formalidade politica- mente correta para calar os críticos e apa- ziguar a consciência.O que não há dúvidas

é que se trata de uma posição reativa e que

a forma como Mo Yan entende a literatu-

ra pode ser mais bem compreendida com uma frase proferida há alguns anos: «Al- guns preferem protestar nas ruas,mas de- víamos tolerar aqueles que se fecham nos seus quartos e usam a literatura para expri- mir as suas opiniões.» A Academia nunca gostou muito de escritores que se refugiam na literatura sobre livros,mas aceita que os escritores se refugiem na literatura para ob- servar e pensar o mundo de um ponto de vista mais conveniente.A história de vida de Mo Yan – as origens humildes,a infân- cia dura – alia-se a uma preocupação lite- rária com os deserdados e com os campo-

neses que foram sempre quem mais sofreu com os consecutivos choques políticos na China. Na crítica a Peito Grande, Ancas

Largas (o único livro publicado em Portu- gal, pela Ulisseia),John Updike refere que, ao longo de uma narrativa que atravessa quase um século da história da China (en- tre 1900 e 1993),o que se destaca é a «mi- séria esmagadora»,«as matanças,a tortura,

a fome, as inundações e, para as massas

camponesas,o excesso de trabalho embru-

tecedor». A voz de Mo Yan emerge deste mundo brutal e transporta-o para os seus livros,duas qualidades muito apreciadas

pela Academia.Falando em nome dos vá- rios tradutores ocidentais,Goldblatt disse que «ficamos sem fôlego perante a enorme produção ficcional de um escritor que dei- xou a escola aos 10 anos e maravilhados com a beleza constante do que lemos e tra- duzimos». Celebrado pelo seu «realismo alucinatório» e comparado a Faulkner

e García Márquez, Mo Yan merece que

a divulgação da sua obra junto de um

público mais vasto sobreviva às investidas das discussões políticas.

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que a divulgação da sua obra junto de um público mais vasto sobreviva às investidas das

A VOZ DO BRASIL

OFICINA DE TALENTOS A oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil é um bom modelo a ser acompa- nhado. Ele participou da formação de alguns dos melhores escritores em ativi- dade do Sul: Michel Laub, Amilcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Paulo Scott e Carol Bensimon.

Ás de espadas (1989), Israel da Costa. ©DR
Ás de espadas (1989), Israel da Costa.
©DR

AUTRAN DOURADO

ROMPENDO AS FRASES

Um dos mais importantes ficcionistas brasileiros, Prêmio Camões em 2000,deixa um legado discreto e consistente.

A utran Dourado nasceu em

Patos de Minas,em 1926,

e faleceu no Rio de Janei-

ro, no último dia 30 de setembro. Escritor brasileiro dos mais impor- tantes de ficção,seus livros estiveram, nas últimas décadas,sob os olhos de muitos estudantes de ensino médio no Brasil,especialmente Uma Vida em Segredo (1964), Ópera dos Mortos (1967) e O Risco do Bordado (1970). Eram leituras obrigatórias em al- guns dos melhores colégios e não foram poucos os que se aproxima- ram da literatura por sua causa. Embora Minas esteja sempre em suas obras,Autran Dourado não foi um escritor regionalista. Não era tanto o espaço que lhe interessava,

mas a psicologia dos personagens, acompanhando,nesse sentido,uma tradição machadiana.Não podem ficar de lado,numa gênese de for- mação, alguns ficcionistas mineiros do século XX,não muito distantes dele cronologicamente,como Cor- nélio Pena e Lúcio Cardoso. Os seus personagens são com- plexos, em constante embate com a vida – embate que também pode ser identificado em relação à pró- pria linguagem ficcional, um dos pontos forte da sua obra.A meta- linguagem está muito presente nos romances e não à toa publicou li- vros de ensaísmo,como Uma Poé- tica de Romance (1973), O Meu Mes- tre imaginário (1982), Um Artista

Aprendiz (2000) e Breve Manual de Estilo e Romance (2003),que aju- daram os leitores a uma compreen- são mais madura sobre o gênero em que ele atuou quase 60 anos. Autran Dourado venceu o Prê- mio Jabuti em 1982,com As Ima- ginações Pecaminosas,e também foi contemplado com o prêmio má- ximo da língua portuguesa,o Ca- mões, em 2000. Faleceu sem que a imprensa fizesse estardalhaço e, nesse sentido, partiu daqui como convinha ao seu estilo sempre dis- creto. Mas sua literatura permane- ce, consistente,entre as produções máximas do século XX.Para Car- los Heitor Cony,Autran «não in- ventou palavras,mas soube usá-las de forma magistral,rompendo as frases de maneira tão pessoal que qualquer um de seus textos pode ser facilmente identificado. Não criou uma linguagem,como Gui- marães Rosa,mas a usou de forma tão pessoal que o torna original, para não dizer único.»

LANÇAMENTOS

Estou aqui.

Sempre Estive.

Sempre Estarei:

Indígenas no Brasil. Suas Imagens (1505-

-1955), de Carlos Eugênio Marcon- des de Moura (edição Edusp), reúne mais de quatro mil representações iconográficas de 220 povos indígenas, topo- grafia e grafis- mos indígenas, entre outros.

topo- grafia e grafis- mos indígenas, entre outros. Mais de uma década após a publicação do
topo- grafia e grafis- mos indígenas, entre outros. Mais de uma década após a publicação do

Mais de uma

década após

a publicação

do best-seller Estação Caran- diru, o médico e

escritor Drauzio

Varella volta

à análise do

sistema presi-

diário brasileiro

com Carcereiros

(Companhia das

Letras), retrato

do cotidiano

dos carcereiros.

diário brasileiro com Carcereiros (Companhia das Letras), retrato do cotidiano dos carcereiros. 24 novembro 2012

OS MAIS COTADOS PARA O PT No dia 26 de novembro, o Prêmio Portugal Telecom vai anunciar os seus vencedores. Em poesia, Gastão Cruz e Zulmira Tavares são os mais cotados; da categoria roman- ce, Valter Hugo Mãe e Michel Laub; em conto/crônica, desponta Dalton Trevisan, recém-premiado com o Camões.

O POLÊMICO JABUTI

O motivo está relacionado com o «jurado

C»,cujosvotoslevaramodesconhecidoOs-

car Nakasato, autor de Nihonjin, ao posto mais alto da categoria romance. Contudo,

o que provocou desconforto maior foram

suasnotasparaInfâmia,deAnaMariaMa-

chado, presidente da Academia Brasileira

de Letras. O «jurado C», na fase final, atri-

buiu-lhe nota zero para enredo e constru- ção de personagens, e 0,5 para estilo. Em segundoeterceirolugarficaramNaqueles

Morros,depoisdaChuva,deEdivalLouren-

ço,eEstranhonoCorredor,deChicoLopes. Nenhum dos três romances está entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom.

EDUARDO

COELHO

POESIA A DOIS

I dealizado por Sergio Liuzzi, Pingue- -Pongue foi impresso pela Serigrafia

Zen,com tiragem de 150 exemplares assi- nados pelos autores.O projeto gráfico,de

alto refinamento, vence pela singeleza e pelo perfeccionismo.Com ti- pografia econômica sobre papel verde,de 180 gramas,o livro é sanfonado,com uma qualidade de impressão em serigrafia aci- ma das expectativas.Não se tra- ta de um livro exuberante;antes lembra as edições artesanais dos poetas brasileiros consagrados como ge- ração marginal ou mimeógrafo.É, porém,

de um charme encantador.

Pingue-Pongue reúne apenas 10 poe- mas, cinco de Armando Freitas Filho e cinco de Alice Sant’Anna.O volume de textos ajuda a estabelecer o ritmo de um jogo contundente e intenso entre os poe- mas, que na maior parte das vezes dialo- gam. Um diálogo entre vozes diferentes, sem dúvida alguma: Armando estreou em 1960 e Alice, jovem de um único livro,

Dobradura, veio a público nos anos 2000.

A diferença de idade e de geração,contu-

do, serve perfeitamente a uma brincadei-

ra de dissolvição da ideia de autoria, até

mesmo porque os versos de um mesmo poema às vezes estão contaminados com características dos dois escritores. No entanto,as dúvidas se instauram so- bretudo por uma transformação que Alice Sant’Anna sofreu: mesmo sem sabermos quem escreveu o quê, em nenhum dos poemas desponta a inocência lírica tão

marcante de Dobradura,seu livro de estreia. Mais madura talvez,sua poesia se entrete-

ce com a de Armando Freitas Filho de

modo instigante.O que era inusitado – a reunião dos dois poetas em um mesmo

processo de criação – resultou numa obra

em um mesmo processo de criação – resultou numa obra de rara beleza e de muitas

de rara beleza e de muitas perguntas.

Pormenor de La lampe philosophique (1936), René Magritte. ©CR
Pormenor de La lampe philosophique (1936), René Magritte.
©CR

FRANCISCO BOSCO

TENTATIVAS DE ILUMINAÇÃO

F rancisco Bosco (n.1976) é doutor em Teoria da Literatura,com tese sobre

Roland Barthes,e colunista do Segundo Caderno do jornal O Globo.Lançou pela recém-inaugurada editora Foz, de Isa Pessoa,o livro Alta Ajuda.Como esclare- ce na «apresentação»,o maior número de

ensaios reunidos nesse livro são «tentati- vas de iluminação de questões psíquicas,

comportamentais,sexuais,afetivas».Tra-

ta-se portanto de textos sobre questões que fazem parte da vida de qualquer

sujeito. Mais: são textos sobre questões que geralmente atormentam ou pertur- bam o cotidiano de qualquer pessoa. Ao contrário do gênero autoajuda, os ensaios de Francisco Bosco não buscam

o pensamento fácil,confortável,de quem

observa os problemas da condição hu- mana sob a lente da positividade,marca-

-chave desse gênero que sempre figura na

lista dos mais vendidos – por causa disso,

o Alto Ajuda do título do livro,expressão adotada por José Miguel Wisnik, tam-

bém colunista de O Globo.

Acerca da positividade/negatividade, merece destaque «A força do pensamen- to negativo»,em que analisa os persona- gens do romance Dois Irmãos,de Milton Hatoum. É um texto belo, comovente, em que o «pensamento negativo» vai sen- do constatado como força de transforma- ção, como potência aniquiladora de es- truturas neutralizantes, que bloqueiam

as possibilidades de desenvolvimento do

sujeito. Nesses casos, a energia negativa

é canalizada como força de revolta. O ensaísmo de Bosco é arriscado por- que tem como fim um grande público, mas talvez de seu risco venha uma das

grandes qualidades do livro: é de uma cla- reza de pensamento e ao mesmo tempo

segue uma linha de reflexão que nunca abandona o prazer.Em todos os ensaios,

o prazer da leitura desponta e comparti-

lhamos com o autor o gosto de pôr as questões em movimento. É assim que

muitos temas são tratados – como a fadi- ga e o casamento,os filmes Melancholia e Shames,o futebol,a morte,e tantas outras.

Fonte: El Cultural FICÇÃO

Fonte: The New York Times NÃO-FICÇÃO

Fonte: The Guardian GERAL

E SPAN H A

E UA

RE INO U N ID O

F RAN Ç A

ITÁLIA

BR ASIL

Fonte: Veja FICÇÃO

Fonte: Livres Hebdo GERAL

Fonte: La Stampa GERAL

Informação recolhida a 16/10/2012

LIVROS NO TOP

SOMBRAS

A TRILOGIA DO DOM CHICOTE (PARTE III)

Com E.L.James há meses a algemar Anastasia Steele aos tops,resta-nos pedir um resgate literário.Socorro.

>1 Killing Kennedy >1 BillO'ReillyeMartinDugard[Holt] Tudo oque sempre quis saber sobre um dos maiores crimes cometidos nos EUA. As BillO'ReillyeMartinDugard[Holt] Tudo oque sempre quis saber sobre um dos maiores crimes cometidos nos EUA. As balas mágicas servem para isto.

>2 No Easy Day >2 Mark Owen e Kevin Maurer [Dutton] «Peça essencial da História Moderna» ou os últimos minutos Mark Owen e Kevin Maurer [Dutton] «Peça essencial da História Moderna» ou os últimos minutos na vida de Osama bin Laden.

>3 America Again >3 Stephen Colbert [Grand Central] «Sinta-se livre para fritar este livro – é uma boa fonte Stephen Colbert [Grand Central] «Sinta-se livre para fritar este livro – é uma boa fonte de fibras.» Conselho do autor para quem a dieta é coisa de choninhas.

>4 Total Recall A. Schwarzenegger e P. Petre [S. & Schuster] >5 Waging Heavy Peace Neil Young [Blue Rider] >6 Killing Lincoln Bill O'Reilly e Martin Dugard [Holt] >7 How Children Succeed Paul Tough [Houghton Mifflin Harcourt] >8 Mugged Ann Coulter [Sentinel] >9 The Price of Politics Bob Woodward [Simon & Schuster] >10 Into the Fire Dakota Meyer e Bing West [Random House]

>1 Cinquenta Tons de Cinza >1 E.L. James [Intrínseca] Dom Chicote invade o Brasil com uma trilogia onde as alge- mas E.L. James [Intrínseca] Dom Chicote invade o Brasil com uma trilogia onde as alge- mas são mero detalhe. Anastasia não se contenta com pouco.

>2 Cinquenta Tons mais Escuros >2 E.L. James [Intrínseca] Anastasia Steele quer mais da vida e começa a trabalhar numa editora. E.L. James [Intrínseca] Anastasia Steele quer mais da vida e começa a trabalhar numa editora. O perigo aumenta.

>3 A Dança dos Dragões >3 George R.R. Martin [LeYa Brasil] Não é samba, não é forró, é a dan- ça George R.R. Martin [LeYa Brasil] Não é samba, não é forró, é a dan- ça dos dragões a querer marcar o ritmo neste top. Martin é danado para a brincadeira.

>4 A Guerra dos Tronos George R.R. Martin [LeYa Brasil] >5 Toda Sua Sylvia Day [Paralela] >6 Um Porto Seguro Nicholas Sparks [Novo Conceito] >7 Inverno do Mundo Ken Follett [Arqueiro] >8 O Festim dos Corvos George R.R. Martin [LeYa Brasil] >9 A Fúria dos Reis George R.R. Martin [LeYa Brasil] >10 A Tormenta de Espadas George R.R. Martin [LeYa Brasil]

>1 Dogma and Disarray >1 Polly Toynbee e David Walker [Guardian Branded] «Este é um regime ideológico, mas também particularmente Polly Toynbee e David Walker [Guardian Branded] «Este é um regime ideológico, mas também particularmente inapto.» Os passos, mas de David Cameron.

>2 Jerusalem >2 Yotam Ottolenghi e Sami Tamimi [Ebury Press] Yotam Ottolenghi e Sami Tamimi [Ebury Press]

É o que dá juntar um judeu

e um árabe na cozinha – um livro de receitas explosivo.

>3 I Am the Secret Footballer >3 [Guardian Books] Segredos dos bastidores do futebol inglês contados por um anónimo que tem medo [Guardian Books] Segredos dos bastidores do futebol inglês contados por um anónimo que tem medo de Mourinho. Se calhar não tem.

>4 Grimm Tales Philip Pullman [Penguin Group] >5 Guide to Life Steven Appleby [Guardian Books] >6 Restoration Rose Tremain [Vintage] >7 How Do We Fix This Mess? Robert Peston [Hodder & Stoughton] >8 Bad Pharma Ben Goldacre [Fourth Estate] >9 The Kitchen Diaries II Nigel Slater [Fourth Estate] >10 Building Stories Chris Ware [Jonathan Cape]

>1 Une place à prendre >1 J.K. Rowling [Grasset] Deixou Harry Potter para trás e escreveu um livro «para adultos». Avance J.K. Rowling [Grasset] Deixou Harry Potter para trás e escreveu um livro «para adultos». Avance até à página 44 desta revista e leia por si.

>2 One piece, Vol. 64 >2 Eiichiro Oda [Glénat]] Eiichiro Oda [Glénat]]

É um clássico do top francês:

banda desenhada no pódio mensal. Nem tudo gira à volta de pornochachadas.

>3 Sauve-toi, la vie t'appelle >3 Boris Cyrulnik [Odile Jacob] «Uma comovente história, fora do comum, e que toca profunda- mente Boris Cyrulnik [Odile Jacob] «Uma comovente história, fora do comum, e que toca profunda- mente cada um de nós.» Tocou- -nos, mas muito ao de leve.

>4 Guide des 4.000 médicaments uti- les, inutiles ou dangereux [ChercheMidi] >5 Remède mortel Harlan Coben [Belfond] >6 Troisième humanité Bernard Werber [Albin Michel] >7 Diam's autobiographie Mélanie Georgiades [Don Quichotte] >8 Titeuf, vol. 13 : à la folie! Zep [Glénat] >9 Le vieux qui ne voulait pas fêter Jonas Jonasson [Presses de la Cité] >10 Aleph Paulo Coelho [Flammarion]

>1 CincuentasombrasdeGrey >1 E.L. James [Grijalbo] E.L. James [Grijalbo]

E se de repente ela encontra

um homem «atraente, sedutor e muito intimidante»? Chicote para cima e fé no que puder agarrar.

>2 El invierno del mundo >2 Ken Follett [Plaza & Janés] Novo capítulo na saga de cinco Ken Follett [Plaza & Janés] Novo capítulo na saga de cinco

famílias através da História euro-

peiaquandoodescalabrofinancei-

ro ainda estava no jardim-escola.

>3 Cincuentasombrasmás oscuras >3 E.L. James [Grijalbo] Anastasia Steele é um menina que gosta de aventuras eróticas. Eis uma E.L. James [Grijalbo] Anastasia Steele é um menina que gosta de aventuras eróticas. Eis uma nanorrecensão. Uau!

>4 Misión olvido María Dueñas [Temas de Hoy] >5 Cincuenta sombras liberadas E.L. James [Grijalbo] >6 Las leyes de la frontera Javier Cercas [Mondadori] >7 El abuelo que saltó por la ventana y se largó Jonas Jonasson [Salamandra] >8 No te escondo nada Sylvia Day [Espasa] >9 Baila, baila, baila Haruki Murakami [Tusquets] >10 Una familia feliz David Safier [Seix Barral]

>1 Cinquanta sfumature di grigio >1 E.L. James [Mondadori] Um método tão eficaz como qualquer outro de gastar carac- teres e E.L. James [Mondadori] Um método tão eficaz como qualquer outro de gastar carac- teres e chegar ao fim do texto.

>2 L’inverno del mondo >2 Ken Follett [Mondadori] Ken Follett [Mondadori]

A autora britânica que um dia

imaginou Anastasia Steele tem a concorrência de um peso-pe- sado no que toca a best-sellers.

>3 Cinquanta sfumature di nero >3 E.L. James [Mondadori] Além de aturar as paranoias eróticas de Christian Grey, Steele ainda tem E.L. James [Mondadori] Além de aturar as paranoias eróticas de Christian Grey, Steele ainda tem de lidar com fastasmas do passado. Uuu.

>4 Cinquanta sfumature di rosso E.L. James [Mondadori] >5 Il manoscritto ritrovato ad Accra Paulo Coelho [Bompiani] >6 Di tutte le ricchezze Stefano Benni [Feltrinelli] >7 Open. La mia storia Andre Agassi [Einaudi] >8 La collina del vento Carmine Abate [Mondadori] >9 L’uccello del malaugurio Camilla Läckberg [Marsilio] >10 Il Nostro Sic Rossella e Paolo Simoncelli [Rizzoli]

FICÇÃO

FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto
FICÇÃO E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras Rogério Casanova dedicou-se ao assunto

E.L. James [Lua de Papel]

As Cinquenta Sombras mais Negras

Rogério Casanova dedicou-se ao assunto na LER de setembro e fez

as contas, pilim por pilim literário.

O que concluiu? É ler a LER. Piadinha.

E.L. James [Lua de Papel]

As Cinquenta Sombras de Grey

«Todo aquele poder a assusta – os aviões privados, os carros topo de gama, os guarda-costas.» Anastasia entra em campo e depois é o que

se vê. Sombras por todo o lado.

Sveva Casati Modignani [Porto Editora]

Um Dia Naquele Inverno

Três gerações de uma «prestigiada fábrica de torneiras» passam pelo «mar hostil da recessão económica». Afogamo-nos todos. Falta pouco.

Ken Follett [Editorial Presença]

O Inverno do Mundo

«Um vasto fresco que evolui a um ritmo de complexidade sempre crescente.» Uma definição perfeita do Orçamento de Estado para 2013. Follett é nosso amigo.

Marcello Simoni [Clube do Autor]

Mercador de Livros Malditos

«Intrigas», «segredos», «mistérios»

e uma «história envolvente».

Ou seja, como deixar o leitor na mesma após ler este pequeno texto que chega agora ao fim.

Ian McEwan [Gradiva]

Mel

José Guardado Moreira trata-lhe das páginas mais à frente nesta revista. Mas nunca ignorar «a pri- meira regra do espião: Não confies em ninguém». Respeitinho

Haruki Murakami

[Casa das Letras]

1Q84 – Vol. 3

Não ganhou o Nobel, apesar das apostas. Next. Começa assim

o livro: «Importava-se de não fumar, senhor Ushikawa?»

Ken Follett [Presença]

A Queda dos Gigantes

Cinco famílias, elas aí estão para a aventura nas primeiras décadas do século XX. Cinco: «americana, ale- mã, russa, inglesa e escocesa». Pri- meiro volume da trilogia «O Século»

Sónia Louro

[Saída de Emergência]

Amália, o Romance da Sua Vida

«Este é o romance sobre a vida de Amália, a fadista mais amada e, simultaneamente, mais desconheci- da em Portugal.» Ai é isso? Ora vês.

JK Rowling [Little Brown]

The Casual Vacancy

Não, não é gralha. É mesmo o livro original. A 21 de novembro, a Pre- sença lança o título em português. Até lá, leia as páginas 44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo.

NÃO-FICÇÃO

44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]
44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]
44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]
44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]
44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]
44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]
44-47 desta revista. Um exclusivo ruivo. NÃO-FICÇÃO David Dinis e Hugo Coelho [A Esfera dos Livros]

David Dinis e Hugo Coelho

[A Esfera dos Livros]

Resgatados – Os Bastidores da Ajuda Financeira a Portugal

Para perceber quem andou a fazer fitas o melhor é passar diretamente

para as páginas 56 e 57.

José Tolentino Mendonça [Paulinas Editora]

Nenhum Caminho Será Longo

«Não é por acaso que, nas nossas sociedades, o amor é tutelado institucionalmente.» Venham

de lá essas taxas românticas.

Maria Elisa Domingues

[A Esfera dos Livros]

Amar e Cuidar – A Minha Viagem pelo Mundo do Cancro

«Conversa com médicos, especialis- tas, enfermeiros e dá voz à história de catorze doentes oncológicos.»

Maria de Belém Roseira

[A Esfera dos Livros]

Mulheres Livres

«Escritoras, políticas, filósofas: 12 mulheres que ultrapassaram pre- conceitos e viveram de acordo com as suas ideias e os seus ideais.»

Lynn Vincent e Todd Burpo [Lua de Papel]

O Céu Existe mesmo

A conjugação celestial continua com o pequeno Colton a olhar

para o Céu. Ele é anjos e tal e coiso.

E nós aqui a brincar com isto.

Sarah Young [Lua de Papel]

Jesus Está contigo

«Perante a esmagadora beleza da paisagem banhadapelo luar, Sarah

sentiu-se envolvida por um estranho calor. E sentiu pelaprimeira vez

a presença de Jesus.» É de chorar.

Manuel Braga da Cruz

e Rui Ramos [Porto Editora]

Marcelo Caetano – Tempos de Transição

Testemunhos de protagonistas e

contemporâneos da governação de Marcelo Caetano entre 1968 e 1974.

Brian Weiss [Pergaminho]

Às vezes os Milagres Acontecem

«O trabalho que desenvolveu nas

últimas décadas é uma prova incon- tornável dos benefícios a que pode- mos aceder se abrirmos a mente

à possibilidade da reencarnação.»

Ágata Roquette

[A Esfera dos Livros]

A Dieta dos 31 Dias

E no final do mês terá menos peso,

melhor autoestima e hábitos alimentares mais saudáveis. Isso se a carteira chegar a dia 31, claro.

Joaquim Carreira das Neves [Presença]

Deus Existe?

Ora aqui está uma pergunta para

a

a

E

qual Colton e Sarah Young terão

resposta na ponta do best-seller.

até fotografias, se for preciso.

GERAL

do best-seller . até fotografias, se for preciso. GERAL E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta
E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras «Perseguida por negros segredos que
E.L. James [Lua de Papel]
As Cinquenta Sombras
mais Negras
«Perseguida por negros segredos
que atormentam Christian, Anas-
tasia começa uma carreira numa
prestigiada editora de Seattle.»
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia
começa uma carreira numa prestigiada editora de Seattle.» Daniel Silva [Bertrand Editora] Retrato de Uma Espia

Daniel Silva [Bertrand Editora]

Retrato de Uma Espia

«Ao centro de uma explosiva praga de morte e destruição está um esquivo clérigo de origem americana a viver no Iémen.» Isto não anda nada bem.

Sophia de Mello Breyner

Andresen e Pedro Sousa Tavares [Porto Editora]

Os Ciganos

Um inédito encontrado no espólio de Sophia concluído pelo seu neto. Outra nanorrecensão. Estamos lá!

Sveva Casati Modignani

[Porto Editora]

Um Dia Naquele Inverno

«Aparentemente, todos os membros da família levam uma vida transparente, mas escon- dem segredos que os marcaram.»

Ken Follett [Presença]

O Inverno do Mundo

Ao segundo volume da trilogia

«O Século» não escapam os grandes eventos históricos, agora com a geração seguinte das cinco

famílias da coluna ali do lado.

E.L. James [Lua de Papel]

As Cinquenta Sombras de Grey

«E uma voracidade sexual que parece não conhecer quaisquer limites.» E pronto, é para isto que estamos agora. Fala-se em

E.L. James e pumba. Haja decência!

Robert Muchamore

[Porto Editora]

República Popular

«Ryan é o mais recente recruta da CHERUB. Tem apenas 12 anos e foi destacado para a primeira missão:

tornar-se amigo de Ethan Aramov.»

Mari Pau Dominguez [Presença]

Uma Deusa para o Rei

«O futuro rei Filipe II de Espanha antecipa o momento que mudará a sua vida: o casamento com a prima

Maria Manuela de Portugal.»

Francesco Alberoni

[Bertrand]

Viagem pela Alma Humana

«Como distinguir quem nos mente, quem nos engana?» Não somos de intrigas, mas há passos que são óbvios para dar a resposta.

Joanne Harris [ASA]

O Aroma das Especiarias

«Mulheres vestidas de negro pas- sam fugazes nas vielas. Os ventos

do Ramadão trouxeram consigo

uma comunidade muçulmana.»

E termina assim mais um top.

ALBERTO

MANGUEL

ALBERTO MANGUEL HÁ EXPERIÊNCIAS QUE RESUMEM UMA VIDA INTEIRA: a imagem de um Alberto Manguel, muito

HÁ EXPERIÊNCIAS QUE RESUMEM UMA VIDA INTEIRA: a imagem

de um Alberto Manguel, muito jovem, a ler para um escritor cego chamado Jorge Luis Borges é um desses símbolos perfeitos.Décadas depois dessa experiência de juventude em Buenos Aires,agora com 64 anos,continua a identificar-se mais como leitor do que como escritor.Embora tenha escrito muito:

desde um notável Dicionário dos Lugares Imaginários (ainda sem edição portuguesa) a uma extraordiná- ria História da Leitura (Presença). Dividido entre várias nacionalidades (nasceu na Argentina,passou a infância em Israel,é cidadão canadiano e vive em França) e várias línguas (os primeiros idiomas que falou foram o inglês e o alemão,os pais deram-lhe a língua castelhana,vive em território francófono), Alberto Manguel é a encarnação de como a babel linguística pode não ser uma maldição mas antes um enriquecimento.Fala-se disso nesta entrevista em Lisboa.E de como a linguagem e a literatura criam em nós sentimentos que de outro modo talvez estivéssemos condenados a não poder experimentar. E dos perigos que ameaçam o ato de ler.

Entrevista de CARLOS VAZ MARQUES

Fotografia de PEDRO LOUREIRO

de CARLOS VAZ MARQUES Fotografia de PEDRO LOUREIRO A leitura está ameaçada? Essa pergunta pode encarar-se

A leitura está ameaçada?

Essa pergunta pode encarar-se de duas formas.A primeira,a que me parece menos interessante,é a da ameaça por via das novas tecnologias – que já não são assim tão novas.

Porque é que considera esse aspeto menos interessante?

Porque é um receio que se repete ao longo da História. Com a invenção da fotografia diz-se que a pintura morreu; com a in- venção do cinema diz-se que o teatro morreu; com a invenção do vídeo diz-se que o cinema morreu.E assim sucessivamente.

Mas pode dizer-se que a fotografia mudou a pintura, o cinema mudou o teatro e o vídeo mudou o cinema.

É verdade.A nova tecnologia,como ainda não tem um vocabulá- rio próprio,toma o vocabulário da tecnologia anterior.E a tecno- logia anterior ganha novas formas a partir da nova tecnologia.Por exemplo,o teatro incorpora elementos do cinematógrafo,o cinema incorpora elementos do vídeo: The Blair Witch Project é um filme que não teria podido existir sem a existência do vídeo.E,claro,isso também sucede na pintura,com o hiper-realismo e por aí adiante.

O TEMOR AO PODER DO LEITOR

CONTINUA ATÉ HOJE

O mesmo acontece na literatura,que vai pegando em elementos das novas tecnologias para escrever de

O mesmo acontece na literatura,que vai pegando em elementos

das novas tecnologias para escrever de outras maneiras.

Pode dar-se como exemplo disso a noção de hipertexto?

A noção de hipertexto é uma noção redescoberta.Quer dizer,

hipertexto é algo que surge com o estruturalismo e depois com

o pós-modernismo.Não são exatamente descobertas; é uma ter- minologia crítica.

Agora é um conceito tecnológico concreto.

É verdade mas,do ponto de vista teórico,o hipertexto existe des-

de o primeiro texto literário conhecido,desde a epopeia de Gilga-

mesh, que começa com o poeta a dizer ao leitor:«Faz este percur-

so, vai à cidade de Ur,sobe à muralha,vê aquela torre,abre uma

caixa e dentro da caixa encontrarás o texto que estás lendo.» Se isto

Nós estamos sempre convencidos de estar

a descobrir elementos que na realidade estamos a redescobrir.

Ainda não me esqueci do início da conversa: temos estado a falar do aspeto que considera menos interessante na questão da ameaça à leitura

Sim,o menos interessante é o que se refere à ameaça tecnológica.

Isso supõe que há um mais interessante.

O mais interessante,para mim,é um elemento a que eu chamaria

«sociedade».A invenção da escrita,há cinco mil anos,comporta uma mudança neurológica muito importante,do ponto de vista

biológico.É a seguinte:muda a nossa noção de tempo e de espa- ço. Deixe-me voltar um pouco atrás: como espécie humana,nós desenvolvemos certas formas de conceber o espaço e o tempo. Não são formas que se apliquem ao próprio Universo.Os astro- físicos falam-nos de espaço-tempo e mesmo da não-existência

do espaço e do tempo como dimensões mas antes de sete outras

dimensões possíveis. Enfim, uma conceção do Universo que transcende a visão humana que temos dele.Quando é inventada

não é hipertexto

!

a escrita,a forma como concebíamos o espaço e o tempo – quer

dizer,o tempo como um presente absoluto e o espaço como o lu- gar que habitamos ou que podemos percorrer – converte-se em algo de ilimitado.Porquê? Porque,dado que eu posso pôr por es-

crito algo que tu podes ler,isso pode ser lido dentro de cem anos

e pode ser lido do outro lado do mundo.A prova disto é,nova-

mente, um dos primeiros textos acadianos conhecidos:é uma car- ta enviada por alguém a outrem numa outra aldeia.E esse alguém

que a recebe responde: «Recebi a tua carta e é como se estivesses aqui e eu pudesse abraçar-te.» Quer dizer,essa noção de eliminar

o espaço e de eliminar o tempo – se calhar,a pessoa que escreveu

até já estava morta quando o outro leu a carta – é algo que afeta

o modo como concebemos o espaço e o tempo.

Isso é ainda mais radical se pensarmos que nós, hoje, recebe- mos a mesma carta, ao lê-la.

Exatamente.Imagine,ao fim de três mil anos,receber uma carta de alguém que não imaginou sequer onde ela chegaria.O que é que acontece nessa alteração? Essa mudança dá uma autoridade especial à pessoa que pode pôr por escrito um pensamento mas dá-a sobretudo à pessoa que pode decifrar esse pensamento.

O leitor.

Sim.É muito mais importante poder decifrá-lo do que poder escrevê-lo.

Porquê?

Em primeiro lugar porque não se pode inventar um sistema de es- crita sem um sistema de leitura.Eu não posso escrever algo que não possa ler,algo para que não possua um código.Em segundo lugar,é importante porque,no que diz respeito ao papel do leitor, eu vou comunicar-lhe o que dizem estes signos mágicos.Se você não pode lê-los,terá de depender da minha interpretação desses signos.Na civilização (vamos chamar-lhe assim) mesopotâmica,

NÃO ESTOU DE ACORDO COMVARGAS LLOSA. O proble-

ma destas denominações (boa literatura,alta literatura) é que elas impõem de imediato uma hierarquia que está aberta ao questiona- mento. Tolstói pensava que o Rei Lear, de Shakespeare,era uma má obra.Borges não gostava de Maupassant.Creio que a boa lite- ratura tem uma componente de diversão. Pensemos nos Diálogos de Platão.Tenho a certeza de que não ouvirá muita gente a di- zer-lhe: «Eu,para me divertir,leio os Diálo- gos de Platão.» Mas isso é porque as pessoas não os leem.São muito divertidos.É isso que me parece que Vargas Llosa não vê.Ele teme aquilo que diverte,entende a civilização do espetáculo enquanto espetáculo passivo.

a existência do escriba é essencial porque o escriba é não só quem escreve as leis mas também quem as decifra.É ele que pode dizer

ao rei: «O teu avô,quando reinava,disse que a terra x pertence

a z.» Isso é essencial.

Com isso, está muito perto de me dizer que o leitor é mais im- portante do que aquele que escreve.

Sim.A literatura é um partenariado.Mas ainda quero comple- tar o pensamento anterior.Depois vamos a essa questão,que é

muito importante.Então,já que o leitor é aquele que decifra,esse poder que ele tem provoca medo dentro da sociedade.Porque todo o poder causa medo e o poder de alguém que pode decla- rar o que é História e o que não é,é um poder importantíssimo.

A ponto – e isto é uma teoria minha que não tem qualquer sus-

tentação arqueológica – de se ter dado o nome de escriba aos escribas para ocultar o poder que eles tinham como leitores.

Isso ainda se manifesta no nosso tempo?

Esse temor ao poder do leitor é algo que permaneceu ao longo da História.Começa na Mesopotâmia mas continua até hoje.En- tão, temos o poder do ato intelectual,daquele que se refugia na sua torre de marfim e temos o poder de quem é capaz de escrever e de ler: bruxas e magos e alquimistas.É o medo em relação a quem pratica uma atividade secreta.Quando alguém lê em silêncio refu- gia-se no seu território e eu não sei o que aquela pessoa está a fa- zer e ela não participa na res publica,não participa na coisa social.

Está refugiada num espaço de liberdade inacessível.

Está por sua conta e parece não atuar na sociedade.O que faz en- tão a sociedade? Acusa-a de elitista,acusa-a de não tomar parte

na vida ativa da sociedade e dá-lhe nomes feios; por exemplo,na

escola são os nerds ou os «quatrolhinhos»,por usarem óculos.Há

sempre um nome depreciativo.Os próprios humanistas,para se protegerem de quem abusa do poder do leitor,inventam a figura

do book fool,o louco dos livros.É uma figura que aparece pela pri- meira vez em A Nave dos Loucos,de Sebastian Brant.

Dom Quixote também cabe na categoria de book fool?

Dom Quixote vem um pouco depois.É-o noutro sentido:perten-

ce a esta categoria de deserdados da sociedade.No caso dele,o que

Cervantes está a representar – e sabia muito bem o que estava a fa- zer – é alguém que enlouqueceu por ter lido os livros mas que na

realidade é o único a querer impor justiça.É aquele que quer ser um homemjusto numa sociedadeinjusta.Eisso porqueaprendeua sua moral nos livros.Com Madame Bovary acontece o mesmo.Ela aprende nos livros o que é a vida ideal ou idealizada,romântica,

e quer viver essa vida.Aquilo que lê são romances cor de rosa mas

ao mesmo tempo é uma literatura que lhe devolve o seu poder

enquanto mulher.Isto é,Madame Bovary deixa de ser a mulher

de Bovary para se tornar Emma Bovary.E morre nessa tentativa.

Pode dizer-se, portanto, que os livros representam um perigo.

Os livros são sempre perigosos.O que queria dizer-lhe – para voltarmos à sua pergunta inicial – é que quando falamos do pe-

rigo dos livros temos de o ter em conta também nos nossos dias.

E hoje o que acontece é que as nossas sociedades conseguiram

eliminar o lugar que o intelectual tinha,que tinha a biblioteca, que tinha o livro e substituí-lo pelo banco e pelo financeiro.

Essa sua análise corresponderá àquilo a que Mario Vargas Llosa chama A Civilização do Espetáculo?

Eu não estou lá muito de acordo com Vargas Llosa.Porque cor- remos um risco,ao defender a boa literatura

Ele usa a expressão «alta literatura»; aceita a expressão?

Sim,posso usar a mesma terminologia.O problema destas deno- minações é que elas impõem de imediato uma hierarquia que está aberta ao questionamento.Tolstói pensava que o Rei Lear,de Sha- kespeare, era uma má obra.Borges não gostava de Maupassant.

A ideia de cânone não lhe interessa, não lhe parece pertinente?

A ideia de cânone é um assunto que teríamos de aprofundar.

É uma ideia ao mesmo tempo com vantagens e problemas.

Guarde essa pergunta por um instante e já lá voltaremos.

Combinado; regressemos então à questão da boa literatura

e à tese de Vargas Llosa.

Eu creio que a boa literatura tem uma componente de diversão.

Não é por acaso que Robert Louis Stevenson é um dos seus autores preferidos.

Sim,Stevenson.Mas vejamos o caso que normalmente não se co- loca na literatura de entretenimento: pensemos nos Diálogos de Platão.Tenho a certeza de que não ouvirá muita gente a dizer-lhe:

«Eu,para me divertir,leio os Diálogos de Platão.» Mas isso é porque

as pessoas não os leem.Porque os Diálogos de Platão são muito

divertidos.Não são tratados filosóficos rígidos como serão os de Espinosa,por exemplo.São diálogos extremamente amenos,onde

se contam anedotas,se descreve a natureza,onde se passa de uma coisa a outra como num verdadeiro diálogo,numa conversa.

Entende-os como obras divertidas?

Muito divertidas.É isso que me parece que Vargas Llosa não vê. Ele teme aquilo que diverte,entende a civilização do espetáculo enquanto espetáculo passivo.Mas o espetáculo pode ser ativo, no sentido de mostrar uma representação que nos comprometa

a

nós mesmos como espectadores.

O

seu ioga matinal – como dizia aqui há tempos – continua a ser

a

leitura de Dante?

Para mim, a leitura de Dante é essencial como uma espécie

de lavagem mental,para começar o dia.

Como forma de entretenimento, também?

Como entretenimento porque é divertidíssimo. Quer dizer, conheço poucas obras literárias onde haja tanta riqueza de de- talhes, de ação.Há quase seis anos que leio Dante todos os dias.

D’A Divina Comédia lê principalmente o «Inferno», o «Purga- tório» ou o «Paraíso»?

Tudo.As pessoas detêm-se geralmente no «Inferno» mas o «Pur- gatório» e «o Paraíso» continuam essa aventura extraordinária. Por exemplo,no princípio do «Purgatório»,Dante e Virgílio che- gam à praia do Monte Purgatório,estão a tentar perceber o que

vão fazer,como vão poder subir,encontram-se com Catão – o censor,o filósofo,que é o guardião do Purgatório – e acontecem várias coisas muito divertidas.O momento mais emocionante, para mim,é justamente no início do «Purgatório»,quando che-

ga uma barca das almas – chegam constantemente como uma

espécie de ferry,de meia em meia hora,com o seu carregamen-

to de almas,como os ferries com o seu carregamento de turistas.

Entre as almas que chegam,Dante reconhece a do seu amigo

Casella,o músico.Quer abraçá-lo mas,claro,não pode porque

ele é apenas uma sombra.O que também tem algo de muito co-

movente: encontrar-se com um amigo a quem não pode abra- çar. Então,em memória dessa amizade que tiveram,Dante pede

a Casella que cante.Imagine a situação: estão à beira do Purga- tório, vão subir,sabem que é o momento da salvação e Casella

põe-se a cantar,ali,na praia.E canta de uma forma tão bela – e ainda por cima um verso de Dante,ou seja Dante está a citar-se

a

si próprio – que todas as almas se reúnem,inclusive Virgílio,

e

escutam embevecidas o que Casella está a cantar. Aí, chega

Cantão e pergunta: «Mas o que é que vocês estão aqui a fazer?» No momento mais importante das suas vidas,que é o da salva- ção das suas almas,já com a salvação prometida porque quem vai para o Purgatório já não pode pecar,quando têm de passar por essa purga para chegarem ao Jardim do Éden e para poderem su- bir ao Paraíso,estão ali a ouvir alguém a cantar uma canção ter- rena. O que é que se passa ali? Dante sabe que mesmo dentro do

dogma cristão,rígido,sob o qual ele está a trabalhar,a arte conti- nua a ser importante,que ele continua a ser um ser humano; que mesmo depois da morte,a arte,a criação literária,a poesia,o can-

to

continuam a ser essenciais.E diz-nos que mesmo no momen-

to

mais importante das nossas vidas ela continua a contar.Como

é que uma pessoa pode não se emocionar com esta passagem?

Emociona-se em italiano ou em tradução?

Durante muito tempo li diferentes traduções e agora,felizmente,

já me emociono em italiano.

Voltemos ao cânone: é uma ideia válida, para si?

O cânone aparece num momento em que se faz uma pergunta

que é aquela que estamos a fazer hoje.O cânone aparece com

a Biblioteca de Alexandria.

Não é, portanto, uma invenção de Harold Bloom.

Não.Harold Bloom é uma invenção de Harold Bloom.A Bi- blioteca de Alexandria tinha como ambição colecionar todos os livros do mundo.Então,é dada a ordem,para todos os recantos

do império, de procurar todos os manuscritos, qualquer coisa,

seja um livro de poesia ou um manual de agricultura.

Bom ou mau.

Sim,tanto os livros bons como os maus,isso não interessa.Tudo.

Não quero interromper-lhe o raciocínio mas não resisto a per- guntar-lhe isto: na sua biblioteca segue esse modelo ou só guarda os livros bons?

Não.Guardo os bons e os maus.Guardo também os maus por- que não sei quando poderei vir a precisar de um livro mau.Além disso, acredito na frase célebre que diz que não há nenhum livro tão mau que não contenha algo de bom.

Estava a explicar-me o conceito de cânone.

Pois,o cânone.Os bibliotecários de Alexandria rapidamente se dão conta de que se têm,por exemplo,cem mil livros sobre a filo- sofia grega,como vão poder responder a um leitor que chega à Bi- blioteca e diz «Eu queria ler qualquer coisa de filosofia grega.» Co- meçam então a criar listas do melhor de cada tema – um best of –, comentadas.Quando se estabelecem esses cânones acontecem duas coisas: a primeira,ajudar-se o leitor a aceder a certos textos que na opinião dos bibliotecários são os melhores.Mas ao mesmo tempo,relegam-se para o esquecimento praticamente todos os ou- tros. Porque se eu lhe disser que entre estes cem mil estão aqui vin- te que são os bons ou os importantes,você já não vai pegar nos ou- tros. Hoje,face à acumulação de textos na rede,estamos perante o mesmo problema.Se eu quiser procurar Borges na internet,tenho meio milhão de sítios,de entradas,de textos,de comentários,de ensaios,de episódios – para onde hei de ir,por onde começo? Como acontecia em Alexandria,a internet elimina as hierarquias.

Isso é bom ou mau?

É bom e é mau.É bom no sentido de dar uma maior liberdade ao leitor,que não fica impressionado só porque um determinado livro está bem encadernado e tem um aspeto imponente,enquan- to outro é um panfleto.Tudo parece igual.E é mau porque tudo parece igual.Porque eu não tenho maneira de saber que prestí-

AS AUTORIDADES ESTATAIS

FUNCIONAM em colaboração com

as grandes empresas para manter a ideia de

que o consumo arbitrário é necessário.Então,

a literatura, a leitura devem ser entrete-

nimento no sentido de serem um escape do mundo.O mesmo no que diz respeito à arte, ao cinema, ao teatro. A noção que querem inculcar-nos é a de que a criação artística e

intelectual deve ser algo que nos ajude a não pensar. Isto sempre foi uma ameaça para a leitura.Agora,é mais do que uma ameaça,

é uma política de leitura.O facto de se falar

em celebrar o livro,em promover a leitura nas bibliotecas,em fazer com que o país seja mais alfabetizado não significa que se ensine a ler em profundidade.

gio tem aquele sítio.É verdade que um sítio recomendado pela Fundação Gulbenkian terá um certo prestígio que o de um des- conhecido qualquer não terá.Mas isso não é suficiente.Creio que uma das tarefas essenciais dos internautas,hoje,será a de criar motores de busca muito mais refinados do que os que agora exis- tem. Sabendo,ainda assim,que nenhum programa poderá ser objetivo,isso é impossível.Haverá sempre um critério para falar de alta literatura,boa literatura,mais isto ou mais aquilo.Algo que não mudou desde as primeiras bibliotecas,passando por Ale- xandria até à biblioteca virtual,é a noção de que apesar de uma acumulação parecer infinita,é necessária uma seleção: seja por- que os livros aparecem por exemplo numa certa ordem,quando se procuram,mesmo que seja uma ordem ao acaso,ou porque uma pessoa se deixa guiar pelo número de hits,ou porque tem a recomendação de uma certa instituição.Seja em que caso for,isso implica uma forma de censura.Quer dizer,implica que algo seja posto de parte.

Aceita a ideia de que há textos universalmente melhores do que outros?

Não.Já lhe dei anteriormente os exemplos de Tolstói e de Bor- ges. O mesmo acontece historica e filologicamente.Estaremos de acordo na ideia de que Homero – a Ilíada e a Odisseia – é ab- solutamente clássico.Mas se pensarmos por exemplo numa in- terpretação feminista de Judith Butler – para quem a Odisseia e a Ilíada são textos absolutamente sexistas que deviam ser reti- rados do cânone – o assunto ganha outros contornos.

Considera válida a leitura de Butler?

Isso não importa.O que isto quer dizer é que o meu cânone,por assim dizer, inclui certas obras, entre as quais se encontram a Ilíada e a Odisseia,mas não inclui outras que um crítico impor- tante como Harold Bloom,com o qual não concordo,escolhe-

ria.Ele escolhe por exemplo Jane Austen ou Maupassant,au- tores que para mim não têm interesse.Para mim, como leitor.

Rejeita portanto uma visão da literatura que pretenda estabe- lecer uma hierarquia de gosto universal.

Sim.Vejamos,eu creio que poderia fazer uma leitura de certas obras que para mim são universais,no sentido em que refletem emoções, ideias, experiências comuns a toda a Humanidade. Emoções,ideias,experiências postas em palavras de uma forma que nos permite aprofundá-las e refletir noutras obras essas experiências.Mas isso não quer dizer que os meus argumentos convençam toda a gente.

Aceita então a designação de relativista?

Não.Porque creio que certas obras são universais.O leitor que pode não ser convencido pelos meus argumentos é que poderá considerar que essas obras não são universais.

Ocorre-me a este respeito uma frase famosa, provocatória, de Saul Bellow : «Tragam-me o Shakespeare dos zulus.»

Isso são disparates.

Foi uma forma de Bellow contrariar a ideia de relativismo.

Sim,mas isso é uma palermice.Para os zulus,que têm uma cul- tura oral,em que as coisas se apresentam de outra maneira,não são esses momentos universais que eles partilham mas antes a forma de contar.Há uma experiência muito bonita,feita por uma antropóloga,com uma tribo,creio que no Uganda.Contou-lhes a história de Édipo e a primeira reação que obteve foi esta:«Bem, se ele matou o pai está de imediato condenado,não é possível dar continuação à história.» Matando o pai,a história acaba porque os espíritos dos antepassados rejeitam-no.Quanto à história de Édipo casar com a mãe não é um problema: certas noções são aceites.O que não deveria surpreender-nos porque é o que faz Noé: deita-se com as suas filhas.

são aceites.O que não deveria surpreender-nos porque é o que faz Noé: deita-se com as suas
A conclusão é que na cultura dessa tribo a história de Édipo não faz sentido.

A conclusão é que na cultura dessa tribo a história de Édipo não faz sentido.

Language is a virus.

A

pergunta tem de permanecer aberta.Dentro da cultura judai-

Claro.

co-cristã, a noção da diferença de idiomas – que vem de Babel –

é

uma noção de castigo.Quer dizer,somos castigados tendo lín-

Ainda assim, Freud identificou o complexo de Édipo como uma questão universal.

Não podemos confundir a forma que uma experiência universal adquire com a própria experiência.Todo o ser humano sabe que vai morrer,todo o ser humano tem medo da morte e pode so- brepor a esse medo certas elaborações filosóficas,todo o ser hu- mano tem um sentimento maternal ou paternal,todo o ser hu- mano tem um noção do tempo e do espaço. Agora, quando pomos estas questões por palavras, quando imaginamos uma história que enquadra essa experiência,esse enquadramento será sempre diferente.Tal como quando se dá um tema a 10 artistas diferentes,mesmo que dentro de uma mesma cultura,o que eles farão com esse tema serão coisas muito distintas. Eu sei, por exemplo, que por ter uma cultura sobretudo europeia, me en- contro na posição de espectador frente a certas artes indígenas da América do Norte ou a certas formas de arte africana.Não as sinto da mesma maneira.Estaria a enganar-me a mim pró- prio se me dissesse que me emociono da mesma maneira com um canto zulu,por exemplo,como com uma cantata de Bach. Não é verdade.

guas separadas para que não possamos comunicar. De outros pontos de vista, a diferença de línguas é um enriquecimento. Permite,por exemplo,que em português se diga «saudade»,em castelhano talvez «tristeza»,que em inglês se fale de «melancho- ly», em francês de «spleen».Todas elas se aproximam de uma ex- periência comum, uma espécie de sentimento que definimos com palavras distintas.De cada vez que o definimos com uma

palavra diferente,ela traz à sua volta como um íman aspetos des-

sa

experiência que não são exatamente os mesmos.Mas esta é

uma reflexão sobre a natureza da própria linguagem.A lingua- gem é um instrumento de aproximação,nunca é um instrumen-

to

exato.O facto de aceitarmos que essa aproximação é diferen-

te

em diferentes línguas permite-nos visualizar algo de muito

mais rico do que aquilo que o nosso próprio idioma nos per- mite nomear.E mais: não é apenas um instrumento que permi-

te

aproximarmo-nos de uma definição, mas cada linguagem

é

também um instrumento que origina uma ideia.

Pode dizer-se que a linguagem cria sentimentos?

A

linguagem cria sentimentos, cria ideias, cria experiências.

 

E

cada linguagem fá-lo de uma forma distinta.Vou dar-lhe um

Por não partilhar dos mesmos pressupostos culturais que estão por detrás do canto zulu?

Tenho uma educação diferente.Quer dizer,o vocabulário que desenvolvi é diferente.Mas é preciso termos muito cuidado para não dizermos que, porque usamos uma linguagem diferente, a nossa linguagem é diferente.

exemplo concreto que me parece muito claro.Há uma técnica narrativa em todas as culturas que consiste em fazer crer a quem

escuta ou a quem lê que a história que estou a contar ou a escre- ver é verdadeira.Como,com o tempo,esse truque se gasta,de- senvolvem-se truques novos para fazer o leitor acreditar no que

Na essência?

se

está a contar.Um deles – que existe em todas as culturas de

Bem,também não podemos dizer na essência.

que pude ler algo,da chinesa à russa,passando pela esquimó ou

QUANDO CONHECI JORGE

LUIS BORGES já sabia que queria viver

entre livros,mas ele deu-me de alguma manei-

ra a autorização para isso.Um adolescente sen-

te-se sempre muito inseguro em relação às suas paixões.Sempre me disse que era uma paixão válida e que podia seguir aquele caminho.

É Borges quem estabelece certos poderes dos

leitores,que eram reconhecidos antes mas que ele define para nós.Inclusive esse: no ensaio

Os Precursores de Kafka explica como cada es- critor cria os seus próprios precursores.Quer dizer,lemos Kafka e de imediato autores com quem não tínhamos nada em comum passam a ter algo em comum por termos lido Kafka.

O mesmo se poderá dizer do leitor:cada leitor

cria a sua própria história da literatura.

inuíte até à língua castelhana – consiste em dizer que não se está seguro daquilo que se está a contar.Não é exatamente a mesma coisa que mentir com a verdade,que é uma outra técnica,mas antes uma hesitação própria de quem conta uma história ver- dadeira. Eu posso dizer-lhe,por exemplo: «Esta manhã,não se sei se tomei o pequeno-almoço antes ou depois das nove.» Isto

é muito mais credível do que se eu lhe disser: «Tomei o peque-

no-almoço às oito e vinte e quatro.» Em castelhano,isso permi- te a Cervantes escrever: «Num lugar de La Mancha de cujo nome não me quero recordar.» Esta expressão quer dizer,entre outras coisas,que aquele é um lugar que eu não vou nomear,não vale a pena. Mas traz com ela essa hesitação que permite ao leitor pensar: «Bem, se ele não o quer nomear é porque é um lugar que deve realmente existir.» Há uma discussão filológica em torno disto mas que não interessa agora.Ora bem,se Cer- vantes tivesse escrito em inglês nunca poderia ter começar

o Quixote com esta frase.

Porquê?

Porque a sintaxe inglesa não permite dizer: in a place of La Man-

cha whose name I don’t want to remember.Por duas razões; a pri- meira é rítmica: seria necessário juntar a palavra «certain» – in a certain place of La Mancha – porque senão a frase soa gaga;

a segunda é que este «whose» é impossível de usar para alguém

que saiba escrever inglês,porque embora seja gramaticalmente correto,o «whose» soa mal porque parece referir-se a uma pes- soa e não a um lugar.De maneira que não o faria assim.

O que me está a dizer é que a língua cria a ideia.

Sim.Cria a ideia e a forma de a pôr por palavras.Se Cervantes estivesse a escrever em inglês provavelmente usaria um recurso de que se socorre um outro escritor para começar um dos ro- mances mais famosos de língua inglesa,o Moby Dick: «Call me

Ishmael». Se Melville estivesse a escrever em castelhano não teria podido escrever esta frase. «Call me Ishmael» é uma frase perfeita. São três palavras nas quais o narrador propõe um nome. Dado que o propõe suspeitamos que poderá não ser

o

nome dele. Mas ele não diz que aquele não é o seu nome.

E

além disso dirige-se a um público que é toda a gente: singular,

plural,amigos,desconhecidos.«Call me Ishmael.» O que é que acontece em castelhano? Tem de se escolher logo à partida:

«Chamem-me Ishmael» ou «Chama-me Ishmael» ou «Cha- mai-me Ishmael».

Como em português.

Ao escolher uma das fórmulas estamos a pôr de lado todas as outras. Então, se tivesse escrito em castelhano Melville teria escrito outra coisa.

A ideia de que a língua cria a forma e a própria narrativa pare- ce-me muito interessante. Também se poderá dizer que al- guém que não leu certas coisas terá mais dificuldade de iden- tificar em si próprio certas emoções ou certos sentimentos?

Claro,a leitura é uma aprendizagem de experiências partilhadas.

Cria em nós sentimentos novos que ainda não vivemos?

Com certeza. O que cria é a experiência do sentimento. Quer dizer, segundo os darwinianos, a espécie humana desenvolve, como todas as outras, métodos de sobrevivência no mundo. Do mesmo modo que há espécies que desenvolvem formas de

camuflagem ou garras ou a habilidade de voar,a espécie huma-

na

desenvolve a imaginação. A imaginação é um instrumento

de

sobrevivência.Porque permite imaginar uma situação antes

que ela aconteça. Quer dizer, como ser humano eu não corro

o risco de pôr a minha mão no fogo porque posso imaginar o

que aconteceria se pusesse a minha mão no fogo. Essa capa- cidade de imaginar o que aconteceria converte-se, então, na habilidade de narrar. E narramos histórias para pôr a nossa experiência por palavras,uma experiência que talvez ainda não tenhamos tido, como a experiência de morrer, por exemplo. Eu, leitor,ainda não morri e,no entanto,lendo A Morte de Ivan

Ilitch,de Tolstói,posso ter esse sentimento que ele conta de que

é como estar num comboio e de repente não saber se o comboio

está a andar para a frente ou para trás.Essa sensação que todos

já tivemos num comboio.

Aqui há tempos, participou num congresso dedicado aos direi- tos do leitor; além de direitos o leitor também tem deveres?

Os direitos do leitor são algo criado, muito habilmente, por Daniel Pennac. Mas para mim, de facto, não há só direitos.

O leitor também tem responsabilidades.Entre elas,parece-me

que é imprescindível a de ter consciência da possibilidade de en- riquecer um texto.Falámos há pouco de alta literatura ou de boa literatura; há uma definição do crítico canadiano Northop Frye

do que é um clássico: é uma obra cuja circunferência é sempre

maior do que a do melhor dos seus leitores.O que quer isto di- zer? Significa que sempre que um leitor avance na leitura de um

texto,que encontre novas riquezas nesse texto,haverá ainda mais para encontrar.É o que me acontece por exemplo com Dante:

há sempre algo de novo,é sempre um texto novo porque há um

detalhe que ainda não descobrimos e,sobretudo,o facto de ter- mos a sensação,mesmo não os tendo ainda encontrado,de que esses detalhes estão ali.

Continua na página 88

UMA BARCA DE SALVAÇÃO

HG

por Eduardo Lourenço

HG

«Sou um leitor compulsivo e absoluto até ao ponto de imaginar que sou mais uma coleção de folhas de livros do que propriamente um leitor deles.» Com estas palavras, num belíssimo f inal de tarde no Centro Cultural de Belém, Eduardo Lourenço inaugurava o ciclo de conferências LER em Voz Alta. Palavras que agora se f ixam em papel. Um privilégio.

Alta. Palavras que agora se f ixam em papel. Um privilégio. S ou compulsivamente, e desde

S ou compulsivamente, e desde que sei ler, um