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O bolchevismo como problema moral

O artigo "O bolchevismo como problema moral" foi publicado em dezembro de 1918 no
órgão do Círculo Galileu Szabad Gondolat !"ivre #ensamento$% Como se sabe "u&'cs
aderiu ao #C ()ngaro poucos dias depois da apari*ão deste ensaio contra o bolchevismo%
+lguns militantes do #artido ficaram impressionados com essa reviravolta e com a rapidez
com ,ue -ela .un e a dire*ão do #C ()ngaro aceitaram o rec/m0chegado e entregaram
responsabilidades importantes ao "antibolchevi,ue" da v/spera%1
+lgumas semanas mais tarde "u&'cs "convertido" ao bolchevismo escreve Tática e Ética
,ue constitui sua resposta comunista a suas hesita*2es morais em Szabad Gondolat.
Como procuramos mostrar !Cap% 3$ "O bolchevismo como problema moral" constitui o
)ltimo ponto do dualismo neo0&antiano em "u&'cs da aposi*ão rígida e sem
compromissos entre o dever0ser e o ser% 4rata0se de um escrito eminentemente
"transitório" ,ue recusa o bolchevismo na medida em ,ue / atraído por sua "for*a
fascinante" e ,ue deve ser e5aminado sobretudo como etapa decisiva na evolu*ão
ideológica de "u&'cs mesmo se ele procura elaborar uma concep*ão política coerente e
aut6noma%
7 muito prov'vel ,ue as críticas de "u&'cs endere*adas ao bolchevismo tenham sido
direta ou indiretamente inspiradas por 8rving 9zabo ,ue em artigo publicado em :unho
de 1918 no Szabad Gondolat preconizava o princípio /tico absoluto segundo o ,ual "a lata
por fins puros não podia tolerar meios impuros" e ,ue manifestava a seus amigos mais
íntimos reservas e temores a respeito da política do poder sovi/tico% 8ssas críticas estavam
tamb/m estreitamente ligadas ; problem'tica /tica do ensaio de "u&'cs sobre o idealismo
progressista%
György Lukács*
<ão pretendemos ocupar0nos a,ui das possibilidades de realiza*ão pr'tica do
bolchevismo nem das conse,u=ncias )teis ou nocivas de seu eventual acesso ao poder%
3ndependentemente do fato de ,ue o autor destas linhas não se sente em absoluto
competente para atacar esse g=nero de problema parece entretanto oportuno a fim de
poder colocar claramente a ,uestão fazer completa abstra*ão da refle5ão sobre as
conse,u=ncias pr'ticas> a decisão / ? como em toda ,uestão importante ? de natureza
/tica cu:a clarifica*ão imanente :ustamente do ponto de vista da a*ão pura / a tarefa
atualmente primordial% @e uma parte este modo de p6r a ,uestão se :ustifica pelo fato de
,ue o argumento fre,uentemente mais empregado na discussão em torno do bolchevismo
a saber se a situa*ão econ6mica e política est' suficientemente madura para sua realiza*ão
imediata nos coloca a priori diante a um problema insol)velA a meu ver não pode e5istir
:amais uma situa*ão ,ue possamos reconhec=0la com toda certeza e por antecipação: a
vontade ,ue se d' como ob:etivo a realiza*ão imediata a ,ual,uer pre*o / parte
integrante da situa*ão "madura" tanto ,uanto as condi*2es ob:etivas% @e outra parte o
reconhecimento do fato de ,ue a vitória do bolchevismo poderia eventualmente destruir
grandes valores culturais e civilizadores não pode :amais ser um contra0argumento
decisivo para a,ueles ,ue o adotam por raz2es /ticas ou histórico0filosóficas% 8sses
tomarão consci=ncia desse fato lamentando0o ou não mas percebendo seu car'ter
inevit'vel nada mudarão ? com razão ? do ob:etivo fi5ado% #or,ue sabem ,ue tal
perturba*ão de valores de envergadura mundial não pode produzir0se sem o
ani,uilamento de antigos valores e por,ue sua vontade dirigida para a cria*ão de valores
novos reconhece em si mesma for*as suficientes para compensar largamente a
humanidade futura da perda dos outros%
#areceria ,ue depois disso e para um socialista s/rio não poderia se,uer haver problema
/tico não restando d)vida ,uanto ; decisão em favor do bolchevismo% #or,ue se a
imaturidade das condi*2es e o ani,uilamento dos valores não contam como obst'culos
essenciais o problema provavelmente coloca0se assim> pode ser bom socialista a,uele
,ue nesse momento nos prop2e mais uma vez refletir aguardar se:a l' o ,ue form em
suma ,uem nos fala de compromissoB 8 ,uando diante disso um não0bolchevi,ue refere0
se ao princípio da democracia ? ,ue a ditadura da minoria e5clui por natureza e
conscientemente ? os discípulos de "enin de acordo com uma das declara*2es de seu
chefe reagem retirando do nome do programa de seu partido inclusive o termo
CdemocraciaC e ser declaram simplesmente comunistas% + possibilidade mesma de p6r o
problema /tico passa a depender da maneira pela ,ual se decide se a democracia faz parte
tão0somente da t'tica do socialismo !como instrumento de combate para o período em ,ue
/ minorit'rio en,uanto luta contra o terror organizado e ilegal das classes opressoras$ ou
se / parte integrante dele de tal modo ,ue se:a impossível suprimi0la sem ,ue antes se:am
esclarecidas todas as suas conse,u=ncias /ticas e históricas% #or,ue nesse )ltimo caso
para todo socialista consciente e respons'vel a ruptura com o princípio da democracia
seria um problema /tico e5tremamente grave%
Daros foram os ,ue tiveram discernimento suficiente para separar a filosofia da história de
Ear5 de sua sociologia% @o mesmo modo fre,uentemente não se percebeu ,ue os dois
pontos cardeais do sistema a luta de classes e a ordem socialista chamada a suprimir as
classes e toda opressão por mais estreita ,ue se:a sua interdepend=ncia não são produtos
do mesmo caminho conceitual% + primeira uma constata*ão da sociologia mar5iana ,ue
fez /poca a saber ,ue a ordem social sempre e5istiu e ,ue necessariamente tem uma for*a
motriz / dos princípios b'sicos mais importantes dos verdadeiros ne5os ,ue comp2em a
realidade histórica% + segunda / um postulado utópicos na filosofia da história de Ear5>
um programa ético para um mundo novo a vir% !O hegelianismo de Ear5 ,ue tem uma
tend=ncia e5cessiva a colocar os diferentes elementos do real no mesmo plano contribuiu
para ocultar essa diferen*a%$ #ortanto a luta de classe do proletariado chamado a conduzir
essa nova ordem social en,uanto luta de classes não cont/m em si mesma a nova ordem%
@o )nico fato da libera*ão do proletariado suprimindo a opressão da classe capitalista
não decorre a destrui*ão de toda opressão de classe tanto ,uanto ela não decorria do
resultado das lutas libertadoras e vitoriosas da classe burguesa% 9obre o plano da
necessidade sociológica e5clusivamente isto significava apenas a mudan*a da estrutura de
classe a transforma*ão do antigo oprimido em opressor% #ara ,ue isso não se reproduza
para ,ue se chegue enfim ; era da verdadeira liberdade sem opressores nem oprimidos a
vitória do proletariado / claro uma condi*ão pr/via indispens'vel ? por,ue ela permite a
libera*ão da )ltima classe oprimida ? mas ela não pode ser mais ,ue uma condi*ão pr/via
um fato negativo% ? #ara ,ue ela se realize essa era de liberdade / necess'rio al/m da
simples constata*ão dos fatos sociológicos e das leis dos ,uais não pode
derivar$ querer esse mundo novo> o mundo democr'tico% 8ntretanto esta vontade ?
:ustamente por ,ue não decorre de nenhuma verifica*ão de fato sociológico ? e um
elemento essencial da óptica socialista ,ue não pode ser descartado sem o risco de
derrocar todo o edifício% #or,ue / esta vontade ,ue faz do proletariado o portador da
reden*ão social da humanidade a classe messias da história do mundo% 8 sem
o pathos desse messianismo a marcha triunfal sem paralelo da social0democracia teria
sido inconcebível% 8 se 8ngels via no proletariado o herdeiro da filosofia cl'ssica alemã o
fez com razão por,ue desse modo se transformou finalmente em a*ão o idealismo /tico e
.ant e de Fichte ,ue suprimia todo apego terrestre e ,ue ,ueria arrancar de seus ei5os ?
metafisicamente ? o velho mundo% 9omente assim p6de0se tornar a*ão a,uilo ,ue neles
era apenas pensamento> pode0se dirigir direto ao fim o ,ue em 9chelling se desliga do
caminho do progresso pela est/tica e em (egel pela teoria do 8stado para se tornar no
fim das contas reacion'rio% +inda ,ue Ear5 tenha construído esse processo histórico0
filosófico ; maneira hegeliana !ist der !dee"G a saber ,ue / lutando por seus interesses
de classe imediatos ,ue o proletariado chegar' a libertar o mundo de todo despotismo no
instante da decisão ? e este instante est' aí ? torna0se impossível não ver a separa*ão entre
a 'rida realidade empírica e a vontade /tica utópica humana% 8 ver0se0' então se o papel
redentor do socialismo consiste realmente em ser o portador ao mesmo tempo submisso e
volunt'rio da reden*ão do mundo ? ou se não passa de um invólucro ideológico de
interesses de classe mas ,ue só se diferenciam de outros interesses de classe por seu
conte)do e não por sua ,ualidade ou for*a moral% !+s teorias libertadoras da burguesia do
s/culo HI333 proclamaram e acreditaram igualmente na reden*ão do mundo por e5emplo
pela livre concorr=nciaA mas o fato de ,ue não se tratava senão de uma ideologia
construída a partir de interesses de classe só foi descoberto em plena revolu*ão francesa
no momento da decisão%$
8m conse,u=ncia se a ordem social sem opressão de classe ? a social0democracia pura ?
fosse apenas uma ideologia então não teria sentido falar neste momento de problema
moral de dilema moral% O problema moral aparece precisamente pelo fato de ,ue para a
social0democracia o ob:etivo final de toda luta o ,ue decide e coroa tudo encontra0se
misto> o sentido final da luta do proletariado / tornar impossível toda luta de classe
posterior de criar uma ordem social tal ,ue ela não possa aparecer mais mesmo sob a
forma de pensamento% 8is a,ui diante de nós portanto sedutora por sua pro5imidade a
realiza*ão desse ob:etivo e / de sua pro5imidade ,ue nasce o dilema /tico% Ou nós
assumirmos a ocasião para realizar esse ob:etivo e então nos colocaremos
obrigatoriamente sobre o terreno da ditadura do terror da opressão de classe o ,ue nos
far' trocar a domina*ão das classes precedentes pela domina*ão de classe do proletariado
acreditando ,ue ? 9atã e5pulso por -elzebu ? esta )ltima domina*ão de classe por sua
natureza mais cruel e aberta se destruir' a si mesma e com ela toda domina*ão de classe
ou então nós ,ueremos ,ue a nova ordem social se:a realidade por meios novos pelos
meios da verdadeira democracia !por,ue a verdadeira democracia não e5istiu at/ agora
senão como e5ig=ncia :amais como realidade mesmo nos 8stados mais democr'ticos$%
Eas neste caso arriscamo0nos a concluir ,ue como a grande maioria da humanidade
atualmente ainda não ,uer a nova ordem social e nós mesmos não ,ueremos dispor dela
contra sua vontade devemos esperar propagar a f/ na e5pectativa at/ ,ue a própria
humanidade dispondo livremente de si mesma e de sua vontade fa*a enfim nascer a
ordem de h' muito dese:ada pelos mais conscientes para os ,uais era a )nica solu*ão
possível% O dilema /tico vem do fato de ,ue cada atitude cont/m em si mesma a
possibilidade de crimes monstruosos e de erros incomensur'veis mas ,ue deverão ser
assumidos com plena consci=ncia e responsabilidade por a,ueles ,ue se sintam obrigados
a escolher% O perigo ,ue a segunda solu*ão apresenta / perfeitamente claro> trata0se da
necessidade ? provisória ? de colaborar com as classes e os partidos ,ue só estão de acordo
com a social0democracia sobre certos ob:etivos imediatos mas ,ue permanecem hostis ao
seu ob:etivo final% + tarefa então / encontrar uma forma tal ,ue essa colabora*ão se:a
possível sem ,ue a pureza do ob:etivo sem ,ue o pathos de vontade de sua realiza*ão
percam se:a o ,ue for de sua ess=ncia% + possibilidade do erro e do perigo encontra0se no
fato de ,ue / muito difícil at/ impossível sair do caminho direito e direto da realiza*ão de
uma convic*ão ,ual,uer sem ,ue esse desvio assuma uma certa autonomia sem ,ue a
diminui*ão intencional do ritmo da realiza*ão opere sobre o pathos da vontade% O dilema
diante do ,ual a e5ig=ncia da democracia coloca o socialismo / um compromisso e5terno
,ue não deve tornar0se um compromisso interno%
+ for*a fascinante do bolchevismo e5plica0se pela libera*ão ,ue resulta da supressão desse
compromisso% Eas a,ueles ,ue são enfeiti*ados por essa possibilidade nem sempre são
conscientes das responsabilidades ,ue lhes cabem desde logo% 9eu dilema torna0se então o
seguinte> pode0se atingir o ,ue / bom por meio de maus procedimentos pode0se chegar ;
liberdade pela via da opressãoB #ode nascer um mundo novo ,uando os meios utilizados
para realiz'0lo não diferem senão tecnicamente dos meios detestados e desprezados com
razão do mundo antigoB #arece ,ue / possível referir0se neste caso ; constata*ão feita
pela sociologia mar5ista a saber ,ue todo desenvolvimento da (istória consistiu na luta
dos oprimidos e opressores e ,ue consistir' sempre nissoA ,ue mesmo a luta do
proletariado não pode subtrair0se a essa "lei"% Eas se isso fosse verdade ? como nós :' o
dissemos ? então todo o conte)do espiritual do socialismo e5cetuando a satisfa*ão dos
interesses materiais imediatos do proletariado não seria mais do ,ue ideologia% 8 isto /
impossível% 8 por,ue / impossível não se pode erigir uma constata*ão de fato histórico em
pilar do valor moral da vontade de construir a nova ordem social% 7 preciso então aceitar
o mal enquanto mal a opressão enquanto opressão a nova domina*ão de
classe enquanto domina*ão de classe% 8 / preciso acreditar ? e / verdadeiramente credo
quia absurdum est 0 ,ue dessa opressão não renas*a mais uma vez a luta dos oprimidos
pelo poder !pela possibilidade de uma nova opressão$ e em conse,u=ncia de uma s/rie
infinita de lutas eternas sem ob:etivo e sem razão mas ao contr'rio ,ue a opressão se:a
ela mesma suprimida%
+ escolha entre as duas atitudes / portanto como em toda ,uestão de ordem moral uma
,uestão de f/% #ara um observador penetrante mas talvez superficial nesse caso preciso se
tantos velhos socialistas provados recusam a posi*ão bolchevi,ue / por,ue sua f/ no
socialismo estaria abalada% Confesso ,ue não o creio% #or,ue não acredito ,ue se:a
necess'rio mais f/ para o "rude heroísmo" da decisão bolchevi,ue do ,ue para a luta lenta
aparentemente menos heróica e entretanto carregada de responsabilidades profundas a
luta ,ue trabalha a alma longa e pedagógica da,uele ,ue assume at/ o fim a democracia%
+ primeira atitude aparente de sua convic*ão imediata en,uanto na segunda esta pureza
/ sacrificada conscientemente para ,ue por meio desse auto0sacrifício possa0se realizar a
social#democracia em sua totalidade e não apenas um de seus fragmentos destacados de
seu centro% Depto> o bolchevismo baseia0se sobre a seguinte hipótese metafísica> o bem
pode surgir do mal e / possível como o diz Dazoumi&hine em Das&olni&ovJ chegar ;
verdade mentindo% O autor dessas linhas / incapaz de partilhar essa f/ e isto por,ue v= um
dilema moral insol)vel na raiz mesma da atitude bolchevi,ue en,uanto a democracia 0
acredita ? não e5ige da,ueles ,ue a ,uerem realizar consciente e honestamente at/ o fim
senão uma ren)ncia sobre0humana e o sacrifício de si% 8 entretanto ainda ,ue esta
solu*ão e5i:a uma for*a sobre0humana no fundo não / insol)vel como o / o problema
moral posto pelo bolchevismo%
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
1% Cf% L% "engMel $isegrader Strasse -erlim @ietz Ierlag 19N9 p% 1OP%
Q + bolsevizmus mint er&Rlei problema !O bolchevismo como problema moral$% Szabad
Gondolat dezembro de 1918 reeditado em GMRrgM "itvan "aszlo 9zucs % Szociologia els&
mag'ar m(hel'e. $alogatos) -udapest 4arsadolomtMdomanMi .RnMvtor Gondolat 19ST
vol% 33%
U% 8m alemão no te5to% <a realidade a e5pressão de (egel / ist der $ernun*t "a ast)cia
da Dazão"%
T% +as,olni,os> título alemão do romance -rime e -astigo de @ostoievs&M%