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Se¸c˜ ao 29 – Ortogonalidade das fun¸c˜ oes de Bessel

Membrana circular
Vamos considerar o problema de determinar vibra¸c˜oes livres de uma membrana presa pelo
bordo (tambor), conhecidos o deslocamento e a velocidade iniciais dos pontos da membrana.
A membrana vai ocupar uma regi˜ao D do plano R
2
, limitada por uma curva fechada γ. Seja
u = u(x, y, t) o deslocamento (na dire¸c˜ao perpendicular) do ponto de coordenadas (x, y) no
instante t. Usando as leis da F´ısica, mostra-se que u satisfaz a equa¸ c˜ao da onda bidimensional
u
tt
= c
2
∆u,
onde c
2
´e uma constante positiva que depende da tens˜ao na membrana e da densidade da
mesma e ∆u ´e o laplaciano de u em rela¸c˜ao as vari´aveis espaciais. Em coordenadas cartesianas
a express˜ao do laplaciano ´e
∆u = u
xx
+ u
yy
.
Em coordenadas polares, a express˜ao do ´e
∆u = u
rr
+
1
r
u
r
+
1
r
2
u
θθ
.
Vejamos a formula¸ c˜ao matem´atica do problema. Seja D a regi˜ao do plano R
2
limitada por uma
curva fechada γ. Dadas duas fun¸ c˜oes f : D −→ R e g : D −→ R, consideremos o problema de
determinar a fun¸c˜ao u = u(x, y, t) definida para (x, y) ∈ D e t ∈ [0, +∞) satisfazendo
(P)
_
¸
¸
¸
¸
_
¸
¸
¸
¸
_
u
tt
= c
2
∆u (x, y) ∈ D , t > 0
u(x, y, t) = 0 (x, y) ∈ γ , t ≥ 0
u(x, y, 0) = f (x, y) (x, y) ∈ D
u
t
(x, y, 0) = g (x, y) (x, y) ∈ D
A condi¸ c˜ao u(x, y, t) = 0, para (x, y) ∈ γ e t ≥ 0 expressa o fato que a membrana est´a presa
pelo bordo (nos pontos do bordo o deslocamente ´e 0 em qualquer instante). O gr´afico da fun¸ c˜ao
f d´a o formato inicial da membrana e a fun¸ c˜ao g d´a a velocidade inicial em cada um de seus
pontos.
A partir deste ponto vamos considerar o caso de uma membrana circular. Escolhendo o raio
do c´ırculo como unidade de comprimento, podemos supor que esse raio ´e 1. Seja D o disco
D = {(x, y) ∈ R
2
| x
2
+ y
2
< 1 } . Para tornar o estudo mais simples, vamos considerar apenas
o caso de simetria radial, em que, quando se expressa a parte espacial em coordenadas polares,
o deslocamento u = u(r, θ, t) = u(r, t) n˜ao depende de θ, sendo fun¸c˜ao apenas de r e t. Isto
significa que, em qualquer instante t, o formato da membrana ´e o gr´afico de uma fun¸ c˜ao u que
depende de r mas n˜ao de θ. Ou seja, em qualquer instante t o formato da membrana ´e o de uma
superf´ıcie de revolu¸c˜ao. Este caso vai acontecer quando as fun¸c˜os f e g que d˜ao as condi¸ c˜oes
iniciais no Problema (P) acima, forem tamb´em fun¸c˜oes radiais (dependentes s´o de r e n˜ao de
θ).
Nesse contexto, o Problema (P) tem a seguinte formula¸c˜ao. Dadas duas fun¸c˜oes f : [0, 1] →R
e g : [0, 1] →R, queremos encontrar a fun¸c˜ao u = u(r, t) satisfazendo
_
¸
¸
¸
¸
¸
_
¸
¸
¸
¸
¸
_
u
tt
= c
2
_
u
rr
+
1
r
u
r
_
, (0 < r < 1 , 0 < t < ∞)
u(1, t) = 0 , (0 < t < ∞)
u(r, 0) = f(r) , (0 < r < 1)
u
t
(r, 0) = g(r) , (0 < r < 1)
(1)
Pelo o m´etodo de separa¸c˜ao de vari´aveis, procuramos primeiro u da forma
u(r, t) = φ(r)ψ(t) , (2)
isto ´e, u uma onda estacion´aria radial em D. Substituindo (2) na equa¸ c˜ao da onda, do modo
usual obtemos
φ(r)ψ

(t) = c
2
_
φ

(r) +
1
r
φ

(r)ψ(t)
_
,
ou seja,
ψ

(t)
c
2
ψ(t)
=

(r) + φ

(r)
rφ(r)
= λ.
Da´ı seguem as duas equa¸c˜oes diferenciais independentes

(r) + φ

(r) −λrφ(r) = 0 (3)
e
ψ

−c
2
λψ = 0 . (4)
Al´em disto, a condi¸c˜ao de fronteira
u(1, t) = φ(1)ψ(t) = 0 , para todo t ≥ 0 .
implica que devemos ter
φ(1) = 0 ,
pois, caso contr´ario, para ter o produto sempre nulo, dever´ıamos ter, necessariamente, ψ(t) = 0
para todo t > 0 , o que implicaria que u = 0 seria a solu¸c˜ao trivial. Vamos, ent˜ao, considaderar
o problema de encontrar uma fun¸ c˜ao φ : [0, 1] →R n˜ao trivial e um λ ∈ R satisfazendo
_

(r) + φ

(r) −λrφ(r) = 0 , para 0 < r < 1
φ(1) = 0
(5)
Afirma¸c˜ao: Para que exista solu¸c˜ao n˜ao trivial para (5), ´e necess´ario que λ < 0.
Demostra¸c˜ao: Notando que rφ

(r) + φ

(r) =
_

(r)
_

, podemos reescrever nossa equa¸c˜ao
diferencial na forma
_

(r)
_

= λrφ(r) .
Multiplicando ambos os lados por φ(r) e integrando entre 0 e 1, temos
_
1
0
_

(r)
_

φ(r) dr = λ
_
1
0
_
φ(r)
_
2
r dr
Por outro lado, por integra¸c˜ao por partes, temos
_
1
0
_

(r)
_

φ(r) dr = rφ

(r) φ(r)
¸
¸
¸
r=1
r=0

_
1
0

(r) φ

(r) dr .
2
Levando em conta que rφ

(r) se anula para r = 0 e que φ(r) se anula para r = 1, obtemos

_
1
0
_
φ

(r)
_
2
r dr = λ
_
1
0
_
φ(r)
_
2
r dr .
Segue que
λ = −
_
1
0
_
φ

(r)
_
2
r dr
_
1
0
_
φ(r)
_
2
r dr
e, como estas duas integrais s˜ao positivas, conclu´ımos que λ < 0 . 2
Passamos agora a procurar solu¸ c˜ao n˜ao trivial do problema (5), sabendo j´a que λ < 0.
Fazemos λ = −α
2
, com α > 0. Multiplicando por r, ficamos com a EDO
r
2
φ

(r) + rφ

(r) + α
2
r
2
φ(r) = 0 . (6)
A equa¸c˜ao (6) se reduz a uma equa¸ c˜ao de Bessel atrav´es da mudan¸ca de vari´avel s = αr . De
fato, pela regra da cadeia,

dr
=

ds
ds
dr
= α

ds
(7)
e, multiplicando por r ,
r

dr
= s

ds
. (8)
Derivando (8) mais uma vez e usando novamente a regra da cadeia, obtemos
r
2
d
2
φ
dr
2
= s
2
d
2
φ
ds
2
. (9)
Substituindo (8) e (9) na equa¸c˜ao (6), obtemos
s
2
d
2
φ
ds
2
+ s

ds
+ s
2
φ = 0 , (10)
que ´e a equa¸c˜ao de Bessel de ´ındice p = 0 . Portanto, se pensarmos em φ expressa como fun¸ c˜ao
de s e n˜ao de r , teremos φ(s) = C
1
J
0
(s) +C
2
Y
0
(s) . Voltando a expressar φ em fun¸c˜ao de r ,
φ(r) = C
1
J
0
(αr) + C
2
Y
0
(αr) . Lembrando agora que as fun¸c˜oes envolvidas devem ser finitas e
estar bem definidas para r = 0 , pois r = 0 corresponde `a origem, que ´e o centro do disco D,
vˆe-se que ´e preciso que C
2
= 0 , ou seja,
φ(r) = CJ
0
(αr) .
Na justificativa da igualdade acima foi usado um fato j´a estudado. A equa¸c˜ao de Bessel de
´ındice p = 0 tem duas solu¸c˜oes linearmente independentes, J
0
(x), que ´e limitada, e Y
0
(x), que
´e ilimitada numa vizinhan¸ca de x = 0. Portanto, as ´ unicas solu¸ c˜oes que s˜ao limitadas numa
vizinhan¸ ca de x = 0 s˜ao as da forma C
0
J
0
(x).
Nossa conclus˜ao, at´e agora, ´e que as fun¸c˜oes
φ(r) = C J
0
(αr) (11)
satisfazem a EDO (6). Precisamos ainda investigar para quais valores de α a fun¸ c˜ao φ cumpre
tamb´em a condi¸ c˜ao de fronteira φ(1) = 0 . Para isso, α deve cumprir a condi¸ c˜ao J
0
(α) = 0 ,
isto ´e, α deve ser um dos zeros (positivos) da fun¸c˜ao de Bessel J
0
. Sabemos que J
0
se anula
para uma infinidade de zeros. Existe toda uma sequˆencia de zeros positivos de J
0
α
1
< α
2
< α
3
< . . . < α
m
< . . . .
3
Conclus˜ao: As solu¸c˜oes n˜ao triviais do problema (5) s˜ao dadas por
λ
n
= −
_
α
n
_
2
(12)
e
φ
n
(rn) = C
n
J
0

n
r) . (13)
Continua¸c˜ao do problema da membrana. Agora, na equa¸ c˜ao (4), substitu´ımos λ por
λ
n
= −
_
α
n
_
2
dado em (12). Obtemos
ψ

+ c
2
_
α
n
_
2
ψ = 0 ,
cujas solu¸c˜oes s˜ao
ψ
n
(t) = D
n
cos(cα
n
t) + E
n
sen (cα
n
t).
Consequˆencia: As fun¸ c˜oes
u
n
(r, t) =
_
D
n
cos(cα
n
t) + E
n
sen (cα
n
t)
_
J
0

n
r) (14)
s˜ao solu¸c˜oes da equa¸c˜ao da onda e satisfazem a condi¸c˜ao de fronteira u(1, t) = 0. As u
n
repre-
sentam as ondas estacion´arias (com simetria radial) na membrana circular. A u
n
´e peri´odica
em t, seu per´ıodo ´e P
n
=

c α
n
e sua frequˆencia ´e
ω
n
=
1
P
n
=
c α
n

. (15)
O movimento da membrana ´e a superposi¸c˜ao das u
n
, dada por
u(r, t) =

n=1
u
n
(r, t) =

n=1
_
D
n
cos(cα
n
t) + E
n
sen (cα
n
t)
_
J
0

n
r). (16)
As frequˆencias ω
n
dadas por (15) s˜ao frequˆencias com as quais a membrana pode realizar os-
cila¸c˜oes peri´odicas, sendo, portanto, as frequˆencias naturais de vibra¸c˜ao (radialmente sim´etrica)
da membrana. Duas conclus˜oes surpreendentes seguem da´ı:
– A primeira ´e que as frequˆencias naturais de vibra¸c˜ao da membrana circular tˆem a ver com
os zeros das fun¸ c˜oes de Bessel ;
– A segunda ´e que, ao contr´ario da corda vibrante, ou de uma coluna de ar, no caso da mem-
brana as frequˆencias naturais n˜ao s˜ao m´ ultiplos de uma frequˆencia fundamental, mais baixa. Esta
´e a raz˜ao pela qual se pode tocar melodias com instrumentos de cordas, mas n˜ao em tambores.
Aplicando as condi¸c˜oes iniciais: Fazendo t = 0 em (16), temos
f(r) = u(r, 0) =

n=1
D
n
J
0

n
r). (17)
A s´erie (17) ´e uma expans˜ao em s´erie de Fourier–Bessel, que vai ser estudada abaixo. Veremos,
ent˜ao, como calcular os coeficientes.
Observa¸c˜ao final. Optamos por dar uma demonstra¸c˜ao matem´atica da afirma¸c˜ao de que λ < 0
no problema (5). Mas existe tamb´em uma explica¸ c˜ao f´ısica. Se tiv´essemos λ > 0, ent˜ao λ = β
2
,
com β > 0, e a equa¸c˜ao (4) ficaria
ψ

−c
2
β
2
ψ = 0 .
4
Suas solu¸c˜oes, ent˜ao, seriam
ψ(t) = De
cβt
+ Ee
−cβt
,
que representariam um movimento que n˜ao seria oscilat´orio e seria imposs´ıvel do ponto de vista
f´ısico.
O mesmo tipo de coisa aconteceria se λ = 0. Essa n˜ao ´e uma explica¸c˜ao satisfat´oria do ponto
de vista matem´atico, mas ajuda a entender o problema.
S´eries de Fourier–Bessel
Vamos recordar a expans˜ao em s´erie de Fourier–seno. Dada uma fun¸c˜ao f : [0, 1] → R,
pod´ıamos expandi-la numa s´erie
f(x) =

n=1
b
n
sen (nπx) .
Note que os n´ umeros nπ que aparecem na s´erie s˜ao justamente o zeros da fun¸c˜ao seno. O que
vamos fazer agora ´e substituir o seno por uma fun¸c˜ao de Bessel, por exemplo, J
0
. Consideramos a
sequˆencia α
1
< α
2
< α
3
< · · · dos zeros (positivos) da fun¸ c˜ao J
0
(isto ´e, J
0

n
) = 0). Queremos
expandir uma fun¸c˜ao qualquer f : [0, 1] →R em uma s´erie da forma
f(r) =

n=1
A
n
J
0

n
r) ,
que vai ser uma s´erie de Fourier–Bessel. Para tanto, vamos necessitar estudar a rela¸c˜ao de
ortogonalidade das fun¸c˜oes de Bessel. A ortogonalidade das fun¸c˜oes trigonom´etricas era mais
simples,
_
1
0
sen (nπx) sen (mπx) dx =
_
_
_
0 , se n = m
1
2
, se n = m.
Em geral, no estudo de fun¸c˜oes ortogonais mais gerais, a rela¸c˜ao de ortogonalidade entre duas
fun¸ c˜oes f : [a, b] →R e g : [a, b] →R toma a forma
_
b
a
f(x)g(x)p(x) dx = 0 ,
onde p(x) ≥ 0 ´e uma fun¸c˜ao fixa, chamada fun¸c˜ao peso. No caso dos senos, p(x) = 1. Para as
fun¸ c˜oes de Bessel, p(x) = x (ver o teorema abaixo). No que segue consideramos a fun¸ c˜ao de
Bessel J
n
para um n = 0, 1, 2, 3, . . . qualquer. O leitor que quiser, poder´a pensar sempre no caso
n = 0, que ´o o que se necessita para o caso de simetria radial na membrana circular.
Teorema (Ortogonalidade das fun¸c˜oes de Bessel) Fixado um n seja
α
n,1
< α
n,2
< α
n,3
< . . . < α
n,m
< . . . .
a sequˆencia dos zeros (positivos) da fun¸c˜ao de Bessel J
n
(a fun¸c˜ao de Bessel J
n
se anula
para uma infinidade de zeros, ou seja, existe toda uma sequˆencia de α’s positivos para os quais
J
n
(α) = 0). Ent˜ao,
_
1
0
J
n

n,m
)J
n

n,k
) rdr = 0 , se m = k (18)
_
1
0
J
n

n,m
)J
n

n,k
) rdr =
1
2
_
J

n

n,m
)
_
2
=
1
2
_
J
n+1

n,m
)
_
2
, se m = k (19)
5
Demonstra¸c˜ao: (O leitor que quiser aceitar esse fato, poder´a pular a demonstra¸ c˜ao sem
preju´ızo da leitura)
Sejam α = α
n,m
e β = α
n,k
. Sejam u(x) = J
n
(αx) e v(x) = J
n
(βx). Ent˜ao,
xu

+ u

+
_
α
2

n
2
x
2
_
xu = 0 (20)
e
xv

+ v

+
_
β
2

n
2
x
2
_
xv = 0 .
Multiplicando a primeira equa¸ c˜ao por v, a segunda por u e subtraindo, obtemos
x(u

v −uv

) + (u

v −uv

) = (β
2
−α
2
)xuv ,
que ´e equivalente a
d
dx
_
x(u

v −uv

)
_
= (β
2
−α
2
)xuv .
Integrando entre 0 e 1 e levando em conta que u(1) = J
n
(α) = 0 e v(1) = J
n
(β) = 0, pois α e β
s˜ao zeros de J
n
, obtemos

2
−α
2
)
_
1
0
u(x)v(x) xdx = 0 .
Segue da´ı que se α = β ent˜ao
_
1
0
u(x)v(x) xdx = 0 , provando (18).
Para provar (19), multiplicamos (20) por 2xu

, obtendo
2xu

(xu

+ u

) + 2(α
2
x
2
−n
2
)uu

= 0 ,
de onde segue que
d
dx
_
x
2
(u

)
2
+ (α
2
x
2
−n
2
)u
2
_
= 2α
2
xu
2
.
Integrando, temos

2
_
1
0
xu
2
dx =
_
x
2
(u

)
2
+ (α
2
x
2
−n
2
)u
2

¸
¸
1
0
e levando em conta que u(1) = J
n
(α) = 0 e que, pela regra da cadeia, u

(1) = αJ

n
(α), obtemos

2
_
1
0
_
J
n
(αx)
_
2
xdx = α
2
_
J

n
(α)
_
2
−n
2
_
J
n
(0)
_
2
.
Note que se n = 0, ent˜ao o termo n
2
_
J
n
(0)
_
2
no lado direito da igualdade acima se anula. Para
n ≥ 1, temos J
n
(0) = 0 e n
2
_
J
n
(0)
_
2
tamb´em se anula. Ent˜ao, em qualquer um dos casos,
obtemos
_
1
0
_
J
n
(αx)
_
2
xdx =
1
2
_
J

n
(α)
_
2
.
Para concluir a prova de (19), basta utilisar a identidade
d
dx
_
x
−n
J
n
(x)
_
= −x
−n
J
n+1
(x) ,
que pode ser verificada a partir da expans˜ao da fun¸c˜ao J
n
em s´erie de potˆencias, e escrever
−nx
−n−1
J
n
(x) + x
−n
J

n
(x) = −x
−n
J
n+1
(x).
6
Fazendo x = α, obtemos finalmente J

n
(α) = −J
n+1
(α), concluindo a demonstra¸ c˜ao de (19). 2
Expans˜ao em s´erie de Fourier–Bessel. A rela¸c˜ao de ortogonalidade abre a possibilidade
para o seguinte tipo de expans˜ao: dada uma fun¸ c˜ao f : [0, 1] −→ R e fixado um n, queremos
expressar f(r) como
f(r) =

m=1
A
m
J
n

n,m
r) . (21)
A expans˜ao acima, chamada de s´erie de Fourier–Bessel, ´e poss´ıvel para toda fun¸ c˜ao “razo´avel”.
Os coeficientes s˜ao dados por
A
m
=
2
_
J
n+1

n,m
)
_
2
_
1
0
f(r) J
n

n,m
r) r dr . (22)
Justificativa: Para justificar a express˜ao (22) para os coeficientes, multiplicamos os dois lados
de (21) por r J
n

n,k
r) e integramos. Temos
_
1
0
f(r)J
n

n,k
r) r dr =

m=1
A
m
_
1
0
J
n

n,m
r)J
n

n,k
r) r dr
Por (18) e (19), todas as integrais que aparecem na soma do lado direito da igualdade acima s˜ao
nulas, exceto quando m = k. Nesse ´ ultimo caso, o valor da integral ´e
_
J
n+1

n,k
)
_
2
2
. Ent˜ao,
_
1
0
f(r)J
n

n,k
r) r dr =
A
k
2
_
J
n+1

n,k
)
_
2
,
justificando (22). 2
Exemplo. Expandir a fun¸c˜ao constante f : [0, 1] −→R, f(r) = 1 em s´erie de Fourier–Bessel
f(r) =

n=1
A
m
J
0

0,m
r) .
De acordo com (22), os coeficientes s˜ao dados por
A
m
=
2
_
J
1

0,m
)
_
2
_
1
0
J
0

0,m
r) r dr .
Conforme vimos em um dos exerc´ıcios sobre fun¸ c˜oes de Bessel, a partir das express˜oes em s´eries
de potˆencias para J
0
(x) e para J
1
(x), pode-se facilmente verificar que
_
xJ
1
(x)
_

= xJ
0
(x) .
Segue que
_
1
0
J
0

0,m
r) r dr =
1
α
2
0,m
_
1
0
J
0

0,m
r) α
0,m
r α
0,m
dr =
1
α
2
0,m
_
α
0,m
0
J
0
(s) s ds
=
1
α
2
0,m
s J
1
(s)
¸
¸
¸
¸
¸
s=α
0,m
s=0
=
J
1

0,m
)
α
0,m
.
7
Logo,
A
m
=
2
α
0,m
J
1

0,m
)
e, finalmente,
1 = f(r) =

n=1
2 J
0

0,m
r)
α
0,m
J
1

0,m
)
, para r ∈ (0, 1)
´e a expans˜ao procurada em s´erie de Fourier–Bessel.
Nos livros que tratam de fun¸c˜oes de Bessel podem ser encontradas tabelas contendo os zeros
de J
0
e os valores de J
1
avaliada nesses zeros.
8