Você está na página 1de 3

O Signo no Teatro

Tadeusz Kowzan

O espetáculo teatral emprega tanto a palavra como sistemas de significação não

lingüísticos. Recorre tanto a signos auditivos quanto a visuais. Aproveita os sistemas de signos destinados à comunicação entre os homens e os criados pelas necessidade da atividade artística. Utiliza signos retirados de todas as partes: da natureza, da vida social, dos diferentes ofícios e de todos os terrenos da arte. ( )

] [

Os signos que a arte teatral emprega pertencem todos à categoria de signos artísticos. São signos artificiais por excelência. São conseqüência de um processo voluntário, quase sempre são criados com premeditação, têm por objeto comunicar instantaneamente. O que não é de surpreender numa arte que não pode existir sem público. Emitidos voluntariamente, com plena consciência de comunicar, os signos teatrais são perfeitamente funcionais. A arte teatral emprega signos retirados de todas as manifestações da natureza e de todas as atividades humanas. Porém, uma vez utilizado no teatro, cada um desses signos adquire um valor significativo muito mais decidido que em seu emprego primitivo. ( )

A palavra.

A palavra não está mais presente na maioria das manifestações teatrais (salvo a pantomima e o balé). Com relação aos signos dos outros sistemas, seu papel varia de acordo com os gêneros dramáticos, as modas literárias ou teatrais, os estilos de encenação (cf. uma leitura dramática e uma representação de teatro total). ( )

O tom.

A palavra não é apenas signo lingüístico. A forma de pronunciá-la lhe confere um valor semiológico suplementar. A dicção do ator pode fazer com que uma palavra aparentemente neutra e indiferente produza os efeitos mais variados e mais inesperados. Um ator da companhia de Stanislavski chegou à fama pelas quarenta formas de dizer as palavras "esta tarde", e seus ouvintes na maioria dos casos podiam adivinhar o contexto semântico. O que aqui chamamos tom (cujo instrumento é a voz do ator) compreende elementos como a entonação, o ritmo, a velocidade, a intensidade. ( )

A expressão facial.

Passemos agora à expressão corporal do ator, aos signos espácio-temporais criados pelas técnicas do corpo humano, signos que poderíamos denominar cinéticos, cinésicos ou cinestésicos.

Começamos pela expressão facial porque é o sistema de signos cinéticos mais relacionado com a expressão verbal. Há uma grande quantidade de signos mímicos impostos pela articulação;

neste plano é difícil precisar o limite entre a mímica espontânea e a mímica voluntária, entre os signos naturais e os artificiais. ( )

O gesto.

Depois da palavra (e sua forma escrita), o gesto constitui o meio mais rico e flexível de expressar os pensamentos, ou seja, o sistema de signos mais desenvolvido. Os teóricos do gesto

sustentam que é possível fazer com a mão e o braço até 7OO.OOO signos (R. Paget). (

)

A marcação.

O terceiro sistema de signos cinéticos compreende os deslocamentos do ator e suas posições dentro do espaço cênico. Trata-se sobretudo de:

- os sucessivos lugares ocupados em relação aos demais atores, os acessórios, os elementos do cenário, os espectadores;

- diferentes formas de deslocar-se (passo lento, precipitado, vacilante, majestoso, deslocamento a pé, de coche, automóvel, maca);

- entradas e saídas;

- movimentos coletivos. (…)

A maquilagem.

A maquilagem teatral tem por objeto fazer ressaltar o valor do rosto do ator que aparece em cena em certas condições de luz. Junto com a mímica, contribui para dar a fisionomia

da personagem. Enquanto a mímica, graças aos movimento dos músculos da face, cria sobretudo

signos móveis, a maquilagem forma signos de caráter mais duradouro. (

)

O penteado.

Como produto artesanal, amiúde se classifica o penteado teatral dentro do quadro da maquilagem. Como fenômeno artístico, pertence ao domínio do criador da indumentária. Não obstante, do ponto de vista semiológico, muitas vezes o penteado representa um papel à parte da maquilagem e da indumentária, um papel que em certos casos, como se pode comprovar, é decisivo. ( )

A indumentária.

A indumentária transforma o ator X ou o figurante Y em marajá hindu ou em clochard parisiense, em patrício da Roma antiga ou em capitão de navio, em pároco ou cozinheiro. Na própria vida, a vestimenta manifesta grande variedade de signos artificiais. No teatro, constitui o meio mais externo, mais convencional de definir o indivíduo humano. A indumentária assinala o sexo, a idade, a classe social, a profissão, uma posição social ou hierárquica particular (rei, Papa),

a nacionalidade, a religião, e determina às vezes a personalidade histórica ou contemporânea. (

)

O acessório.

Todo o elemento de indumentária pode converter-se em acessório quando desempenha um papel particular, independente das funções semiológicas da indumentária. Assim, por exemplo, o bastão é um elemento indispensável do figurino de um dândi nas comédias de Musset. Mas esquecido no boudoir da mulher cortejada, converte-se em um acessório carregado de conseqüências.

O cenário.

A tarefa primordial do cenário, sistema de signos que também se pode denominar aparato cênico ou cenografia, consiste em representar o lugar: lugar geográfico (paisagem com pagodes, mar, montanha), lugar social (praça pública, laboratório, cozinha, café) ou dois de uma só vez (rua dominada por arranha-céus, ação com vista parar a torre Eiffel). O cenário ou um de seus elementos pode também significar tempo: época histórica (templo grego), estação (tetos cobertos de neve), hora (sol poente, lua). ( )

A iluminação.

A iluminação teatral pode delimitar o espaço cênico: os focos concentrados sobre uma parte do palco significam o lugar da ação, nesse momento. A luz do projetor permite também isolar um ator ou um acessório. ( )

A música.

As associações rítmicas ou melódicas ligadas a certos tipos de música (minueto, marcha militar) podem servir para evocar a atmosfera, o lugar ou a época da ação. A escolha do instrumento também tem um valor semiológico que pode sugerir o lugar, o meio social, o ambiente. Entre as numerosas formas em que a música é empregada, recordemos o exemplo do tema musical que acompanha as entradas de cada personagem e se converte em signo (de segundo grau) de cada uma delas; ou o do motivo musical que, reunido às cenas retrospectivas, significa o contraste presente-passado.

O som.

Chegamos à categoria dos efeitos sonoros do espetáculo que não pertencem nem à palavra nem à música: os ruídos. Em primeiro lugar, há todo um terreno de signos naturais (ruídos de

passos, rangidos de portas, roçar de acessórios e de roupas). (

podem significar a hora (toques de relógio), o estado do tempo (chuva), o lugar (ruídos de cidade

grande, gritos de pássaros, vozes de animais domésticos), o deslocamento (ruído de um automóvel que se aproxima ou distancia), uma atmosfera de solenidade ou de inquietude (sino, sirena), podem ser signos dos fenômenos e circunstâncias mais diversos.

Os ruídos produzidos no teatro

)