Você está na página 1de 20

Artur Condé

SPORL-CCF:
valiosíssimo trabalho na
formação médica
_
P. 2
Nuno Trigueiros Cunha
Muito frequentemente,
consequência da patologia coclear
Acufenos: da fisiologia ao tratamento
_
P. 18
Coimbra
garante cuidados
de excelência na área da ORL
Apesar de recém-criado, o seu elevado prestígio é indiscutível,
pois, reúne a vasta experiência dos anteriores serviços
Almeida Henriques
Viseu: concelho hospitaleiro
na melhor tradição beirã
_
P. 3
Luís Filipe Silva
Implantes cocleares
Portugal acompanhou a Europa nos avanços
clínicos e tecnológicos
_
P. 13
Centro Gamma Knife
Travessa do Castro Nº 3
Tel: 21 392 61 50
Fax: 21 392 63 60
www.centrogammaknife.pt
E-mail: geral@centrogammaknife.pt
P
U
B
SERVIÇO DE ORL DO CHUC
VISEU
30 de novembro
e 1 de dezembro 2013
Serviço de ORL do
CH Tondela-Viseu/
/H. São Teotónio
Meio século a atender
doentes do foro da ORL
_
P. 6 e 7
José Manuel
Tereso
A vitalidade do Núcleo do
Centro da SPORL-CCF
_
P. 3
P
U
B
Nicolás Pérez
Doença de Ménière e
instabilidade crónica
_
P. 16
www.newsfarma.pt
Edições
Congresso
_
P. 10/12
novembro 2013 2 | Jornal Médico
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
Fazem parte da Zona Centro os serviços de
Otorrinolaringologia do CH e Universitário de
Coimbra (CHUC), do Instituto Português de On-
cologia de Coimbra (IPO), do CH Tondela-Viseu
(CHTV), do CH do Baixo Vouga, do CH Pombal-
-Leiria, do Hospital Amato Lusitano (Castelo Bran-
co) e do Hospital Sousa Martins (Guarda).
A Reunião Núcleo do Centro da SPORL-
-CCF, que decorre hoje e amanhã em Viseu,
tem como tema “Reabilitação auditiva”.
Serão debatidas todas as patologias
otológicas e suas soluções.
De salientar a participação de um
convidado estrangeiro, Nicolás Pérez,
da Universidade de Navarra, e de
conferencistas nacionais que se destacam
nesta área.
Será homenageado Cabral Beirão, antigo
diretor do Serviço de ORL do Hospital de
São José, em Lisboa, nascido em Viseu, que
será o presidente de honra.
O convidado de honra será Rodrigues e
Rodrigues, diretor do Serviço de ORL do
Hospital de Matosinhos, recentemente
aposentado, a quem, de acordo com José
Marques dos Santos, “o Serviço de ORL do
Centro Hospitalar Tondela-Viseu/Hospital
São Teotónio está muito grato por toda a
colaboração que sempre prestou”.
Serviços de ORL
na Zona Centro
Reunião Núcleo
do Centro da
SPORL-CCF debate
“Reabilitação
auditiva”
JORNAL MÉDICO
Diretora: Paula Pereira (paulapereira@newsfarma.pt) Assessora de Direção: Helena Mourão (helenamourao@newsfarma.pt) Publicidade: Sandra Guimarães (sandraguimaraes@newsfarma.pt), Patrícia
Branco (patriciabranco@newsfarma.pt) Agenda: agenda@newsfarma.pt Editor de Fotografia: Ricardo Gaudêncio Diretor de Produção: João Carvalho ( joaocarvalho@newsfarma.pt) Diretor de Produção
Gráfica: José Manuel Soares ( jms@newsfarma.pt) Diretora de Marketing: Ana Branquinho (anabranquinho@newsfarma.pt) Redação e Publicidade: Av. Infante D. Henrique, 333 H, 37 1800-282 Lisboa,
Tel. 21 850 40 65, Fax 21 043 59 35, newsfarma@newsfarma.pt, www.newsfarma.pt Jornal Médico é um projeto da News Farma, de periodicidade mensal. News Farma é uma marca da Coloquialform, Lda.
Jornal Médico é uma publicação dirigida a profissionais de saúde, isenta de registo na ERC, ao abrigo do Decreto Regulamentar 8/99, de 9/06, Artigo 12º n.º 1A Depósito Legal: 355 701/13 Impressão e
acabamento: RPO. Notas: A reprodução total ou parcial de textos ou fotografias é possível, desde que indicada a sua origem (News Farma) e com autorização da Direção. Qualquer texto de origem comercial
publicado neste jornal está identificado como “Informação”.
Edições
Todos os anos é assim: após o
bulício do verão chegam as tardes cal-
mas do outono, as castanhas, o frio e
as primeiras chuvas.
A natureza despe-se da sua exu-
berante aparência, torna-se minima-
lista e introspetiva e prepara-se para
atravessar o inverno.
É tempo de refexão.
Os homens e a sociedade seguem
a mesma lei dos astros e, de um modo
geral, aproveitam a presente estação
para um trabalho de conteúdos, de
enriquecimento interior.
É neste “tempo” que surge a Reu-
nião do Núcleo Centro da Sociedade
Portuguesa de Otorrinolaringologia e
Cirurgia Cérvico-Facial (SPORL-CCF).
A legislação atual e a conjuntura
económica motivaram a organização
da reunião em moldes algo diferen-
tes, mas igualmente rica do ponto
de vista científco. Será um momento
alto na valorização dos nossos conhe-
cimentos científcos e do relaciona-
mento pessoal.
Quero desde já agradecer a to-
dos os colegas e demais profssionais
que, empenhadamente, participaram
na sua organização. Deram o melhor
do seu esforço para que este evento
tenha o sucesso que todos desejamos.
A presença de destacados colegas
que nos falarão das suas áreas de co-
nhecimento e um elevado número de
participantes são a garantia de quali-
dade da nossa reunião.
A cidade de Viseu acolhe, mais
uma vez, palestrantes e congressis-
tas com o seu especial carinho, a sua
tradicional hospitalidade, a sua bela
paisagem, o seu vasto património his-
tórico e a sua rica gastronomia.
É um ótimo lugar para a troca de
conhecimentos científcos e partilha
de pontos de vista, para estabelecer
novos contactos pessoais ou celebrar
velhas amizades.
Sabemos que os momentos de
elevada produção científca são in-
dispensáveis ao progresso do saber
médico. No entanto, a comunicação
interpares é vital para o êxito da nossa
sociedade científca. Quanto melhor
nos conhecermos maiores sinergias
saberemos criar e melhor será o nos-
so ato médico.
Numa época em que prevalece o
individualismo, estimulado, inclusi-
ve, pelas difculdades económicas do
momento, é importante nunca perder
de vista que quanto melhor nos co-
nhecermos e relacionarmos melhores
cuidados de saúde prestaremos aos
nossos pacientes.
Durante este fm de semana, terá
também lugar uma reunião da Dire-
ção da SPORL-CCF com as comissões
de subespecialidade, onde serão ana-
lisados assuntos relacionados com o
seu funcionamento, de forma a serem
uma mais-valia contínua, um dos mo-
tores científcos da nossa sociedade.
Serão lançadas as bases do trabalho
a desenvolver até 2016, envolvendo
a participação no congresso anual e
noutras áreas de intervenção cívica e
política.
Vamos aproveitar bem estes dias
em Viseu!
Aproxima-se a quadra de Natal,
tempo universal de Paz e Fraternida-
de.
Desejo a todos os Colegas e
Ex.mas Famílias um Feliz Natal e Bom
Ano Novo!
A realização de mais uma Reunião
da SPORL-CCF, na bonita e muito por-
tuguesa cidade de Viseu, é a demons-
tração da grande vitalidade da Socieda-
de Portuguesa de Otorrinolaringologia
e da capacidade organizativa do pre-
sidente desta reunião, o Dr. Marques
dos Santos.
Ao promover há tantos anos a
organização destes eventos de divul-
gação e partilha do conhecimento,
a SPORL-CCF, desenvolve assim um
valiosíssimo trabalho na formação
médica.
Este contributo, de qualifcação
da Otorrinolaringologia portuguesa,
tão importante no crescimento da sua
capacidade técnico-científca, deveria
também ser apoiado e reconhecido pe-
las entidades públicas, pois, deste tra-
balho resulta certamente a promoção
da excelência assistencial aos nossos
doentes.
A Otologia é o tema desta reunião,
que terá como presidente de honra o
Dr. José Cabral Beirão, antigo diretor
do Serviço de ORL do Hospital de S.
José, onde desenvolveu um trabalho
meritório na área da Otoneurocirurgia
em Portugal.
O Dr. Manuel Rodrigues e Rodri-
gues, de todos conhecido pelos seus
importantes trabalhos na área otológi-
ca, é o convidado de honra.
Como convidado estrangeiro, o
Dr. Nicolás Pérez, sobejamente co-
nhecido pelos seus trabalhos na área
da Otoneurologia, muito qualifcará o
programa científco com as suas con-
ferências.
Para além de tão ilustres perso-
nalidades, que devemos ouvir e ho-
menagear, teremos várias e interes-
santíssimas comunicações de médicos
internos e especialistas nacionais, que
demonstram assim a vitalidade da
Otorrinolaringologia Nacional.
Também será de realçar a celebra-
ção de um protocolo na área da Otor-
rinolaringologia com Moçambique.
Nunca serão demais os acordos de
cooperação com países que connosco
tiveram um passado comum.
A variedade e a excelência do pro-
grama social e científco desta reunião,
a par da sua organização, que será, sem
dúvida, imaculada, constituirão um
momento de grande importância na
Otorrinolaringologia portuguesa, que
será certamente recordado.
Reunião de Núcleo: saber e conhecer
Valiosíssimo trabalho na formação médica
Opinião
Opinião
Carlos Ribeiro
Presidente da SPORL-CCF
Artur Condé
Presidente do Colégio da
Especialidade de ORL-CCF
da OM
Sabemos que os
momentos de elevada
produção científca
são indispensáveis
ao progresso
do saber médico.
Teremos várias e
interessantíssimas
comunicações de
médicos internos
e especialistas
nacionais, que
demonstram assim
a vitalidade da
Otorrinolaringologia
Nacional.
O 61.º Congresso da SPORL
decorrerá de 1 a 4 de maio, em
Lisboa, no Hotel Mariott. De
acordo com Carlos Ribeiro,
presidente da SPORL, “será uma
reunião pluritemática e muito
abrangente”, que contará com
a participação de convidados
nacionais e internacionais de
reconhecido prestígio.
61.º Congresso
da SPORL
novembro 2013 Jornal Médico | 3
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
É com muito agrado que se constata a
vitalidade do Núcleo do Centro da Socie-
dade Portuguesa de Otorrinolaringologia
e Cirurgia Cérvico-Facial (SPORL-CCF).
Na qualidade de Presidente da ARS Cen-
tro, tive o prazer de estar presente no 59.º
Congresso Nacional, decorrido no passa-
do ano nesta cidade de Viseu.
A vitalidade do Núcleo do Centro é
o espelho da vitalidade da SPORL-CCF.
Fez, em maio, 60 anos que a primeira
Direção desta sociedade, então denomi-
nada Sociedade Portuguesa de Otorrino-
laringologia e Bronco-Esofagologia, foi
eleita. Em 1961, realizou-se o I Congres-
so Português de Otorrinolaringologia,
que marcou uma era e consolidou a pro-
dução científca, em termos organizacio-
nais, da SPORL.
Em Medicina, a atualização de conhe-
cimentos é, acima de tudo, uma obrigação
ético-deontológica. Este tipo de iniciativas
amplifca o conhecimento produzido,
levando-o aos praticantes das diversas ar-
tes médicas, correspondentes às diversas
especialidades.
Importa, antes de mais, traduzir o co-
nhecimento produzido e comunicado em
ganhos clínicos e em saúde populacional.
Ora, como sabemos, a Otorrinolaringolo-
gia é uma das áreas de excelência da rede
hospitalar da região Centro.
A diretiva comunitária de cuidados
transfronteiriços de saúde apresenta-se,
assim, como uma oportunidade para o
sistema de saúde nacional e, designada-
mente, para o SNS, nesta e noutras áre-
as cirúrgicas e médicas. A região Centro
dispõe dos recursos e da capacidade ins-
talada em termos de produção altamente
diferenciada.
É com todo o gosto que participo
nesta reunião, agradecendo o amável con-
vite formulado pelo Núcleo do Centro da
SPORL-CCF e a todos desejando os maio-
res sucessos em prol da saúde das popu-
lações da nossa região.
É um imenso gosto receber em Viseu
o encontro do Núcleo Regional do Cen-
tro da Sociedade Portuguesa de Otorrino-
laringologia. Na qualidade de presidente
da Câmara Municipal, dou as boas-vindas
aos seus membros e dirigentes.
Viseu é um concelho hospitaleiro,
na melhor tradição beirã, de portu-
galidade autêntica, e uma promissora
cidade de eventos. Aqui, reunimos con-
dições de excelência para o turismo de
negócios, entre outros segmentos de
oferta turística: o turismo histórico, o
turismo de natureza, o enoturismo e o
turismo de eventos.
O reforço desse potencial é uma
das principais apostas da estratégia
de desenvolvimento municipal para
2013/2017, já aprovada pelo executivo
camarário.
O desígnio estratégico para este perí-
odo é ainda o de criar as condições para
a afrmação de Viseu como cidade-região,
competitiva e vibrante num plano econó-
mico, e como comunidade social e cultu-
ral atrativa para viver, investir, trabalhar,
educar, estudar e visitar.
Os muitos encontros socioprofs-
sionais de relevo que aqui acolhemos,
como é este o caso, são, para nós, um
estímulo para a concretização deste de-
sígnio.
Formulo os votos de sucesso nos tra-
balhos e o convite para uma experiência
de redescoberta do nosso centro históri-
co e da sua renovada oferta turística au-
têntica.
A vitalidade do Núcleo do Centro da SPORL-CCF
Concelho hospitaleiro,
na melhor tradição beirã
Opinião
Opinião
José Manuel Tereso
Presidente do Conselho Diretivo
da ARS Centro
Almeida Henriques
Presidente da Câmara Municipal
de Viseu
A vitalidade
do Núcleo
do Centro é
o espelho da
vitalidade
da SPORL-CCF.
É com todo o gosto
que participo
nesta reunião,
agradecendo
o amável convite.
Formulo os votos de
sucesso nos trabalhos
e o convite para
uma experiência
de redescoberta
do nosso centro
histórico.
Viseu reune
condições
de excelência
para o turismo
de eventos.
BEM-VINDOS A VISEU
Durante a Reunião
do Núcleo Centro da
Sociedade Portuguesa
de Otorrinolaringologia
e Cirurgia Cérvico-
Facial (SPORL-CCF), será
assinado, por Carlos
Ribeiro, presidente da
SPORL, e Pedro Machava,
presidente da Sociedade
Moçambicana de
Otorrinolaringologia-CCF,
um Acordo de Cooperação
Luso-Moçambicano.
Segundo José Marques dos
Santos, secretário-geral
da SPORL e presidente da
Reunião, a SPORL decidiu
encetar negociações
com Pedro Machava para
celebrar este acordo, que
irá aproximar ambas as
sociedades e países. Já o
fez anteriormente com
Angola, a CORLUSANGOL
(Comunidade ORL Luso-
Angola). “Sentimos que
somos o país com melhores
condições para colaborar
conjuntamente e não
queremos perder essa
oportunidade. Será uma
colaboração técnico-
-científica seguramente
frutuosa”, adianta.
Acordo de
Cooperação
Luso-Moçambicano
A exata etiopatogénese da surdez é
ainda desconhecida e acredita-se que seja
o resultado de uma série de fatores. Ainda
assim, é mais do que evidente que a pre-
valência desta condição clínica está direta-
mente relacionada com o envelhecimento
progressivo da população mundial. Estu-
dos epidemiológicos mostram que esta pa-
tologia está presente em mais de 80% dos
indivíduos a partir dos 80 anos de idade.
A OMS estimou, em 1999, que 580
milhões de pessoas com idade igual ou
superior a 80 anos sofram de hipoacusia
e, como a prevalência desta patologia vai
aumentando de acordo com o envelhe-
cimento progressivo da população mun-
dial, calcula-se que em 2020 este valor
tenha aumentado 75%. Tendo em conta
a evolução tecnológica, não nos parece
aceitável que indivíduos úteis e ativos f-
quem isolados social e profssionalmente.
A terapêutica atual para este proble-
ma passa por algumas alternativas, como
a utilização de próteses convencionais,
implantes de ouvido médio, implantes
cocleares e implantes auditivos osteoin-
tegrados.
Em 1977, foram descritos, por Tjells-
tröm, os primeiros implantes de titânio
aplicados na mastoide do osso temporal
e desde aí este sistema é considerado um
excelente método na reabilitação auditiva.
Inicialmente, este tipo de implantes era
usado nos casos de hipoacusia de trans-
missão e mista, mas a sua aplicação rapi-
damente se estendeu aos casos de surdez
neurossensorial unilateral, como nos neu-
rinomas do acústico ou na surdez súbita.
É um sistema que proporciona maior
rendimento na qualidade e comodidade
relativamente às próteses convencionais,
também pelo facto de permitir que o canal
auditivo externo fque livre, o que vem re-
duzir em muito o número de processos in-
famatórios/infecciosos do ouvido externo.
A evolução do implante veio revolu-
cionar a técnica cirúrgica associada, o que
permitiu a sua simplifcação. Inicialmente,
este procedimento era realizado em dois
tempos cirúrgicos, o primeiro para coloca-
ção do implante e só posteriormente, após
a sua total osteointegração, era colocado o
pilar, num segundo tempo cirúrgico.
Em 1989, a cirurgia passou a ser rea-
lizada num único tempo operatório. No
início da década de 90 surgem as primeiras
descrições da técnica cirúrgica simplifcada,
desenvolvida posteriormente por Nijmegen,
em que a colocação do implante é realizada
através de uma única incisão cutânea.
De uma forma resumida, podemos
dizer que a técnica inicial descrevia a re-
alização de um retalho cutâneo em “U”,
com a utilização de dermátomo, cujo ob-
jetivo era a redução do tecido celular sub-
cutâneo e o adelgaçamento do referido
retalho. Atualmente, utilizamos uma mo-
difcação da técnica original de Nijmegen,
com a realização de uma incisão longitu-
dinal e sem necessidade de realizar qual-
quer tipo de retalho cutâneo. Estas mo-
difcações vieram permitir uma redução
signifcativa do tempo operatório, bem
como da cicatrização no pós-operatório e
complicações associadas.
Mais recentemente, foi apresentado o
novo implante “Baha 400”, cujas caracterís-
ticas, em termos de design e revestimento,
vieram acelerar e promover a integração
dos tecidos, permitindo desta forma sim-
plifcar mais ainda a técnica original.
Esta nova geração de implantes apre-
senta uma forma côncava que facilita a
osteointegração, já que a conservação dos
tecidos moles vem aumentar a estabilida-
de do implante e acelerar a cicatrização
cutânea. O implante é como os anterio-
res, construído em titânio, mas, neste
caso, parte do seu revestimento é em
hidroxiapatite, que permite uma maior
aderência à derme.
Acredita-se que a migração da epiderme
seja um fator importante nas reações adver-
sas associadas a este tipo de implantes, po-
dendo até levar, em certos casos, à extrusão
do implante. Uma interação estreita entre o
implante e os tecidos moles adjacentes re-
duz o stress da interface tecido/implante e
limita a formação de bolsas, evitando a mi-
gração cutânea e de bactérias da pele.
Com este tipo de implante revestido
em hidroxiapatite,

a grande maioria dos
autores refere uma melhoria na interface
e aderência do implante à derme, que re-
sulta numa redução importante da migra-
ção da epiderme e, consequentemente,
de processos infamatórios.
Estas características resultam numa
melhoria estética e na simplifcação da
cirurgia, além de permitirem uma rápida
cicatrização. Os estudos até hoje realiza-
dos com este tipo de implante permitem
a colocação do processador em 2 semanas
(uma redução em 4 semanas, comparati-
vamente com estudos realizados com os
implantes anteriores).
Dadas as características deste novo
implante, podemos simplifcar ainda mais
a técnica originalmente descrita por Nij-
megen, em que a sua colocação é realiza-
da através de uma única incisão cutânea,
com a grande diferença que, neste caso,
não é necessária a remoção do tecido ce-
lular subcutâneo.
O primeiro passo da cirurgia é avaliar
a profundidade dos tecidos subcutâneos
com o auxílio de uma agulha que se intro-
duz na pele até atingir o osso; depois de
ser retirada, podemos medir, com o auxí-
lio de uma régua esterilizada, a distância
da pele à mastoide do osso temporal. Re-
aliza-se infltração com anestésico a nível
subcutâneo e nessa fase estamos prontos
para a incisão cutânea.
Efetuou-se uma dissecção por pla-
nos, de modo a expor a mastoide do osso
temporal, mas, ao contrário da técnica
descrita por Nijmegen, sem a excisão de
qualquer tecido celular subcutâneo. Em
seguida, é realizado um pequeno orifício
com 4 mm de profundidade (com o au-
xílio de brocas), onde é colocado o pilar
do implante.
Para terminar a cirurgia, encerramos
a incisão com uma seda 3/0 com pontos
simples e terminamos com uma incisão
cutânea realizada com um bisturi de 4 mm
e de forma circular exatamente em cima do
implante. O objetivo é que o implante fque
acima da pele e fora da linha de incisão. O
penso cirúrgico sobre a incisão é semelhan-
te ao da cirurgia convencional de ouvido,
apenas de realçar o cuidado de colocar uma
placa de plástico sobre o implante, designa-
da de capa de cicatrização, e uma pequena
gaze gorda entre esta e a pele.
Temos 31 doentes implantados, com
idade superior a 18 anos, 18 do sexo fe-
minino e 13 do sexo masculino; em três
doentes foram colocados implantes os-
teointegrados bilateralmente, no mesmo
tempo cirúrgico. Os resultados audiomé-
tricos e o grau de satisfação dos doentes
são muito elevados. Em todos os doentes
foi realizada a técnica cirúrgica simplifca-
da para a colocação de implantes osteoin-
tegrados, baseada na descrição da técnica
de Nijmejen, com uma única incisão lon-
gitudinal; em três doentes foi utilizado o
implante revestido a hidroxiapatite, pelo
que foi realizada uma variação da mesma
técnica, sem necessidade de remoção do
tecido celular subcutâneo.
Consideramos que a evolução das
características dos implantes osteointe-
grados veio simplifcar a técnica cirúrgica
habitualmente utilizada, reduzindo em
muito o tempo operatório. As inovações
que este implante apresenta, nomeada-
mente forma côncava, altura do pilar e re-
vestimento em hidroxiapatite, permitem
a realização da cirurgia sem remoção do
tecido celular subcutâneo, com uma exce-
lente adaptação à derme.
Por outro lado, a integridade dos te-
cidos moles vem dar maior estabilidade
ao implante, acelerando o processo de
O acoplamento de um vibrador ósseo
a um implante osteointegrado foi realizado
originalmente na Suécia nos anos 70. Siste-
mas implantados de condução óssea têm
sido usados com excelentes resultados em
doentes com hipoacusias de transmissão,
hipoacusias mistas e hipoacusias neurossen-
soriais unilaterais. De entre estes sistemas,
destaca-se o B.A.H.A. como uma alternativa
valiosa em relação a outros aparelhos de
condução óssea, pelo maior ganho obtido
em altas frequências, menor distorção, pos-
sibilidade de implantação bilateral e técnica
cirúrgica segura e de fácil aprendizagem.
O Serviço de ORL do Hospital de S.
Teotónio de Viseu iniciou o seu programa
de implantes osteointegrados no fnal do
ano de 2011. Até ao momento, foram im-
plantados sete doentes (quatro adultos e
três crianças, com idades entre os 7 e os
12 anos). Em dois dos casos pediátricos a
indicação cirúrgica deveu-se a hipoacusia
em relação com malformações congénitas
(micrótia e atresia aural congénita), sendo
que nos restantes cinco doentes esta esteve
relacionada com sequelas de otite média
crónica. As perdas auditivas eram de tipo
transmissivo moderado e misto moderado.
Após implantação unilateral, os doen-
tes apresentaram uma signifcativa melho-
ria subjetiva da audição, com um ganho
médio de 36 dB SPL e discriminação a
100% obtida, em média, aos 40dB.
Como complicações, registam-se a ex-
trusão de um dos implantes na sequência
de TCE por queda e um caso de celulite
peri-implante prontamente resolvido com
antibioterapia oral e aplicação local de po-
mada de ácido fusídico.
Conclui-se que o B.A.H.A. é um meio
de reabilitação auditiva excelente em si-
tuações de hipoacusia de transmissão ou
mista, sobretudo nos doentes em que fo-
ram esgotadas outras alternativas cirúrgi-
cas ou em que não é possível a adaptação
audioprotésica tradicional.
Implantes auditivos osteointegrados: evolução tecnológica
Opinião
Opinião
Sofia Paiva
Assistente hospitalar de
Otorrinolaringologia no CHUC.
Assistente convidada da FMUC
António Gilberto Fontes
Alves
Chefe de serviço de
Otorrinolaringologia, Hospital de
São Teotónio de Viseu-EPE
4 | Jornal Médico novembro 2013
EXPERIÊNCIA DO SERVIÇO DE ORL DO HOSPITAL DE S. TEOTÓNIO DE VISEU-EPE
Reabilitação auditiva com B.A.H.A.
Intervenção cirúrgica
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
osteointegração. Estes são fatores que
permitem reduzir o tempo de espera até à
colocação do processador, o que se traduz
num imenso sucesso terapêutico, com
enorme satisfação dos doentes.
Ainda assim, nunca estamos totalmen-
te satisfeitos e queremos sempre apresen-
tar novas alternativas aos nossos doentes.
Perspetiva-se para breve a aprovação de
um novo implante osteointegrado que,
ao contrário de todos os anteriores, fca
totalmente subcutâneo, ligando-se ao
processador através de um íman; parece-
-nos uma opção bastante interessante em
termos estéticos e por este motivo aguar-
damos com alguma impaciência a sua
aprovação pela União Europeia.
A evolução dos implantes osteointe-
grados, desde a sua primeira descrição,
em 1977, foi de tal forma signifcativa que
permitiu tornar o procedimento cirúrgico
associado extremamente rápido e sim-
ples. Além disso, os resultados em termos
de conforto e ganho auditivo traduzem-se
num elevado grau de satisfação para os
doentes, pelo que consideramos esta uma
excelente opção em termos de reabilita-
ção auditiva.
Implantes auditivos osteointegrados: evolução tecnológica
RI/JUL13/012
Jornal Médico | 5
SOFIA PAIVA
Percurso académico
e profissional
Sofia Paiva nasceu em Coimbra,
em 1975. Licenciou-se em
1999 pela FMUC. Completou
o Internato Complementar de
Otorrinolaringologia em 2007 e
exerce a sua atividade profissional
como assistente hospitalar de
Otorrinolaringologia no CHUC,
desde 2008.
Adquiriu o grau de Mestre pela
FMUC em 2009. Atualmente,
é assistente convidada da
FMUC, onde exerce atividade
letiva, sendo responsável por
aulas práticas da Cadeira de
Otorrinolaringologia.
novembro 2013
ANTÓNIO GILBERTO
FONTES ALVES
Carreira académica
e médica
António Gilberto Fontes Alves
nasceu em Angola, em 1963.
Licenciou-se em 1988 pela FMUC.
Desde 1991, integra o Serviço de
ORL do antigo Hospital Distrital
de Viseu, atualmente, Hospital de
São Teotónio-Viseu EPE. Estagiou
no Serviço de ORL dos HUC.
É chefe de serviço no Serviço de
ORL do Hospital de São Teotónio-
Viseu EPE.
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
6 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
José Marques dos Santos recorda que
o primeiro médico especialista em ORL
foi Armindo Crespo, nos anos 60, no an-
tigo Hospital da Misericórdia, mais tarde,
Hospital Distrital de Viseu. De seguida,
integrou a equipa Nascimento Ferreira e,
posteriormente, Manuel Ferreira. O Servi-
ço de ORL foi criado nos anos 70, sob a
direção de Nascimento Ferreira, contando
já com a colaboração de Leão de Meireles
(diretor do hospital à época).
Atualmente, “o serviço tem uma
equipa constituída por oito médicos, dos
quais dois são especialistas em Cirurgia
Maxilofacial, integrando uma Unidade de
Cirurgia Maxilofacial, e dois internos do
Internato Complementar de ORL”.
A população abrangida pelos cui-
dados de saúde prestados pelo CHTV e,
por sua vez, pelo Serviço de ORL totaliza
286.468 habitantes. A referenciação para
a consulta de ORL é realizada pelo médi-
co de família, com solicitação de primeira
consulta, através da aplicação informática,
que serve de suporte ao programa CTH
(Consulta a Tempo e Horas). Adicional-
mente, surgem também doentes enca-
minhados por outras especialidades do
CHTV.
Cuidados em ambulatório
e no internamento
O serviço presta cuidados no ambu-
latório, designadamente consultas médi-
cas e exames de diagnóstico, incluindo
todos os exames de audiovestibulogia.
“Adquirimos, recentemente, o Head Im-
pulse Test, equipamento moderno para
o estudo da vertigem. Grande parte das
cirurgias é também em regime de ambula-
tório, ou seja, com permanência do doen-
te no hospital inferior a 24 horas”, indica
José Marques dos Santos.
Divide-se em quatro áreas: Naso-sinu-
sal, Otologia, Cirurgia da Cabeça e Pesco-
ço e Pedo-OLR. “Todas elas estão apetre-
chadas com modernos equipamentos de
diagnóstico e tratamento, adquiridos nos
últimos anos, que contribuem para traba-
lharmos com a vanguarda da tecnologia.
Tudo isto fruto de uma perfeita sintonia
com o Conselho de Administração do
CHTV”, descreve.
Em termos de equipamentos, o servi-
ço dispõe ainda do Nim2 para controlo do
nervo facial e recorrente intraoperatório,
cirurgia endoscópica nasossinusal, Laser
Co2, laser Ktp, Jet-Ventilation e outros.
SERVIÇO DE ORL DO CENTRO HOSPITALAR TONDELA-VISEU (CHTV)/HOSPITAL SÃO TEOTÓNIO
Meio século a atender
doentes do foro da ORL
Com mais de 50 anos de história, o Serviço de Otorrinolaringologia do Centro
Hospitalar Tondela-Viseu/Hospital São Teotónio, dirigido por José Marques dos
Santos desde outubro de 2008, abrange uma vasta área territorial, englobando
concelhos como Moimenta da Beira, Penedono e Sernancelhe (os mais distantes),
ou Tondela, Mangualde e São Pedro do Sul (os mais populosos, depois de Viseu).
Interesse crescente
na investigação
e no ensino
Segundo José Marques dos San-
tos, o serviço tem demonstrado um
interesse crescente na investigação
e no ensino. “Temos vindo a criar as
condições para tal, como, por exem-
plo, o laboratório experimental para
treino dos internos na cirurgia do
ouvido”. Além disso, conta, “damos
formação em diversos estágios para
médicos de Medicina Geral Familiar e
de outras especialidades, quando so-
licitados, e colaboramos na formação
dos técnicos de Audiologia.
Todas as áreas
do serviço estão
apetrechadas
com modernos
equipamentos
de diagnóstico e
tratamento, adquiridos
nos últimos anos.
Jornal Médico | 7 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
Além das consultas destinadas ao tra-
tamento dos doentes com as patologias
distribuídas pelas quatro áreas referidas
anteriormente, José Marques dos Santos
adianta que a unidade realiza a consulta
de rastreio auditivo pré-escolar, ou seja,
“são observadas todas as crianças com 5
anos de idade com suspeita de surdez”. É
feito ainda, há vários anos, o RANU (Ras-
treio Auditivo Neonatal Universal).
O responsável sublinha que o tempo
médio de espera para primeiras consultas
foi substancialmente encurtado, sendo
neste momento de 2,5 meses, ou seja,
“metade do Tempo Máximo de Resposta
Garantido (TMRG)”. O diretor do servi-
ço adianta ainda que, para cirurgia, com
prioridade normal, o tempo médio de es-
pera é de 4 meses.
No internamento, são tratados os
doentes com patologias mais complexas.
O serviço dá também resposta a quantos
acorrem ao Serviço de Urgência, 365 dias
por ano.
N.º de consultas externas:
7006
N.º de cirurgias:
1436
(aproximadamente 86% em
ambulatório)
Nº de exames
de audiovestibulogia:
3272
Movimento por ano
(dados de 2012):
Um percurso
de 30 anos em ORL
Natural de Luanda, Angola, José
Marques dos Santos iniciou os
estudos médicos na Universidade
de Luanda, tendo terminado a
licenciatura em 1980, pela FMUL/
/Hospital de Santa Maria. Fez o
internato de ORL nos hospitais de
Viseu e dos Covões. Atualmente,
é diretor do Serviço de ORL no
Centro Hospitalar Tondela-Viseu/
/Hospital São Teotónio.
O tempo médio
de espera para
primeiras consultas
foi substancialmente
encurtado, sendo
neste momento
de 2,5 meses.
José Marques dos Santos
As malformações do ouvido externo e/
ou médio ocorrem em 1 em cada 5000 a
20.000 recém-nascidos, sendo bilaterais em
cerca de um terço dos casos. Elas podem re-
sultar de uma paragem do desenvolvimento
embrionário, de um erro de embriogénese
ou de ambos, devido a mutações genéticas
espontâneas (que se supõe ser a causa da
maioria destas malformações), de transmis-
são genética ou devida a fatores exógenos
(cerca de 10% dos casos).
O desenvolvimento do ouvido
externo, ouvido médio e mastoide
é devido a uma complexa interação de todas
as três camadas germinativas (ectoderme,
mesoderme e endoderme). O pavilhão au-
ricular deriva da ectoderme do primeiro e
segundo arcos branquiais; o canal auditivo
externo e o ouvido médio desenvolvem-se a
partir da primeira fenda branquial (ectoder-
me), primeiro e segundo arcos branquiais
(mesoderme) e primeira bolsa faríngea (en-
doderme). O desenvolvimento embriológi-
co destas estruturas é complexo e só rara-
mente duas destas anomalias são idênticas.
O desenvolvimento do ouvido interno
ocorre independentemente e o seu envolvi-
mento concomitante é raro, embora possa
acontecer. Na criança, a surdez de transmis-
são é geralmente adquirida, sendo a otite
média com efusão a etiologia mais comum.
No entanto, pode ter origem numa otite
média crónica ou ser de etiologia congéni-
ta, levando muitas vezes a um diagnóstico
tardio, especialmente se as malformações
são unilaterais. As anomalias congénitas
do ouvido médio podem ser classifcadas
em major, quando associadas a um envol-
vimento da membrana timpânica e ouvido
externo, ou minor, quando há um atingi-
mento exclusivo do ouvido médio.
Cremers criou, em 1993, uma classif-
cação das malformações minor, com base
na perspetiva cirúrgica, dividindo-as em 4
grupos principais.
Altmann, em 1955, criou uma classif-
cação para as alterações do canal auditivo
externo, com três grupos de malforma-
ções, que dividiu em ligeiras, moderadas
e severas; as malformações do pavilhão
auricular foram classifcadas por Marx, em
1926, em três graus ou tipos de microtia.
Weerda, em 1955, combinou várias
classifcações num único documento que
contém orientações cirúrgicas para cada
tipo de malformação auricular
A maioria destes casos ocorre espo-
radicamente, sendo que um quarto dos
casos ocorre no contexto de uma síndro-
me genética, nomeadamente o complexo
de Goldenhar, a síndrome de Treacher-
-Collins, a síndrome branquio-otorrenal,
a sequência de Robin ou a síndrome de
Klippel-Feil. Nestes casos, o diagnóstico
é simples, pelas anomalias observadas,
mesmo se localizadas apenas no ouvido
externo, como pode acontecer no com-
plexo de Goldenhar.
Nas crianças não sindrómicas, a his-
tória clínica tem um papel crucial, sendo
a apresentação mais comum uma criança
com diminuição da acuidade auditiva,
atraso na linguagem e mau rendimen-
to escolar, com uma otoscopia normal.
Muitas das crianças têm antecedentes de
colocação prévia de tubos de ventilação
transtimpânicos, pela suspeita ou presen-
ça associada de otite média com efusão,
que vem nestes casos mascarar e muitas
vezes atrasar o diagnóstico defnitivo.
A impedancimetria e a audiometria
são fundamentais, demonstrando uma
pressão normal no ouvido médio (tim-
panograma tipo A), com uma eventual
redução da compliance por fxação da
cadeia ossicular e uma surdez de trans-
missão de grau variável. A tomografa
computorizada de alta resolução é o mé-
todo imagiológico de eleição, uma vez
que permite a correta visualização das
estruturas ósseas. O tratamento apro-
priado consiste na amplifcação auditiva
ou na intervenção cirúrgica. No caso em
que se opta pelo tratamento cirúrgico,
este deve ser adiado idealmente até aos
10 anos de idade, até à adolescência, ou
mesmo até à idade adulta, de modo a
que o paciente tenha um papel ativo na
decisão terapêutica.
Em relação à cirurgia reconstruti-
va, dadas as suas inerentes difculdades,
riscos documentados e frequentemente
resultados auditivos pós-operatórios in-
consistentes, uma escolha cuidadosa dos
candidatos é fundamental, particularmen-
te na patologia unilateral e especialmente
se tivermos a associação de alterações do
ouvido médio e externo. Nestes casos,
a Escala de Jahrsdoerfer (1992) ou de
Siegert (1996), baseadas na TC de alta
defnição da anatomia do osso temporal,
podem prever com precisão o resultado
de audição pós-operatória e ajudar a de-
terminar a candidatura cirúrgica.
Nos casos em que a hipoacusia é
bilateral, o tratamento é imperativo,
sendo a prótese convencional ou os im-
plantes auditivos osteointegrados uma
boa opção na criança que não é candi-
data a cirurgia. Quando a hipoacusia é
unilateral, não há uma opção consensu-
al na literatura, sendo necessário pesar
as possíveis vantagens e desvantagens
da amplifcação auditiva ou da cirurgia
reconstrutiva.
Malformações congénitas do ouvido médio e externo
Miguel Bebiano Coutinho
Assistente hospitalar graduado
de Otorrinolaringologia, Centro
Hospitalar do Porto
Opinião
Classe
I
II
III
IV
Malformação
Fixação isolada do estribo
Fixação do estribo associada a outras malformações ossiculares
Malformação ossicular com estribo móvel
Aplasia ou displasia da janela oval ou redonda
%
31
38
21
10
Tipo
I
II
III
IV*
Malformação
A maioria das estruturas do normal pavilhão são reconhecíveis
Algumas estruturas do normal pavilhão são reconhecíveis
Nenhuma estrutura do normal pavilhão é reconhecível
Anotia
Aplasia da janela oval e displasia do estribo (Classe IV de Cremers)
MIGUEL BEBIANO
COUTINHO
Carreira e
desenvolvimento
profissional
Miguel Bebiano Coutinho nasceu
em Lisboa em 1961. Licenciou-se,
em 1985, pela FMUL. Entre 1988
e 1996, pertenceu ao Serviço de
ORL do Hospital de Santa Maria,
em Lisboa. Integrou o Serviço
de ORL do Hospital Maria Pia,
entre 1996 e 2012, tendo dirigido
o mesmo de 2000 a 2009. É
assistente graduado no Serviço
ORL do Centro Hospitalar do
Porto (CHP), desde 2012, sendo
também responsável pelo ensino
pós-graduado do serviço e pela
Consulta de Surdez Infantil.
Integra a Comissão de ORL
Pediátrica da SPORL desde 2006
e é cofundador e vice-presidente
da Direção do Grupo de Rastreio
e Intervenção da Surdez
Infantil (GRISI). Foi tesoureiro
da Associação Portuguesa de
Otoneurologia (2010-2013).
Pertence ao Conselho Cientifico
da “Acta Pediátrica Portuguesa”,
“C@dernos de
Otorrinolaringologia” e
“Audiologia em Revista” e ao
Conselho Editorial da revista
“Nascer e Crescer”.
Quando
a hipoacusia é
unilateral, não
há uma opção
consensual
na literatura.
8 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
A otosclerose, doença que forma
o fundo ao tema de “estapedectomias/
/estapedotomias”, título de conferência
para que fui convidado, é uma entidade
conhecida de longa data e continua a
colocar enormes desafios na atualida-
de.
Apesar de ter tido uma descrição
anatómica há cerca de três séculos, por
Valsalva, que encontrou bloqueio ossicu-
lar estapédico na janela oval, e ter sido
admitida a hipótese da origem de surdez
ser devida a esta anquilose estapedo-
-vestibular em meados do século XIX, a
otosclerose mantém-se um mundo de
incógnitas.
A otosclerose é, de facto, a patologia
otológica que tem, no momento, a me-
lhor resolução por ato cirúrgico perfei-
tamente estabelecido e tem uma análise
muito fundamentada na opção das suas
variantes técnicas.
Não se imagina otologista que não
fque agradado com a perspetiva de ter
consigo um doente que apresente este
diagnóstico e, pode dizer-se, que, com
grande probabilidade, o doente, caso
aceite a proposta cirúrgica, venha a fcar
satisfeito com os resultados terapêuticos.
É, pois, um caso clínico com fnal feliz,
pelo menos a médio prazo.
Este longo conhecimento do fenóme-
no – bloqueio estapédico –, que provoca
a queixa fundamental – perda auditiva
–, o conhecimento muito fundamentado
das variantes cirúrgicas – estapedectomia/
/estapedotomia – e a perspetiva benévola
de terapêutica a longo prazo (correção
protética), quando necessária, estão em
contradição com o muito que sobre ela se
desconhece.
Se é conhecida a desregulação do
metabolismo ósseo subjacente, não se
sabe, ao certo, o que a provoca, o que
a condiciona, o que a despoleta e, em
especial, o método e os meios farmaco-
lógicos que a possam evitar ou tratar se
já presente.
Esta terapêutica médica, preventi-
va ou curativa, é o grande desafio que
é necessário vencer, já que a correção
cirúrgica da mecânica ossicular bloque-
ada mais não faz do que anular um dos
efeitos da alteração metabólica que a
provoca.
Otosclerose – “estapedectomias / estapedotomias”
Opinião
Pedro Tomé  
Assistente hospitalar graduado
do CHUC. Presidente da Direção
da Associação Portuguesa de
Otoneurologia
PEDRO TOMÉ
Ligação à SPORL-CCF
Pedro Tomé foi tesoureiro da
SPORL-CF no triénio 2005-2007 e
vice-presidente no triénio 2008-
-2010.
Jornal Médico | 9 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
O Serviço de ORL do CHUC integra
tês polos: HUC, HG e HP. Em entrevista,
António Diogo Paiva, diretor do serviço,
explica o trabalho desenvolvido em cada
um destes locais e adianta as razões para a
excelência do serviço prestado.
No edifício central do polo HUC fun-
ciona a maioria do internamento de adul-
tos (33 camas), sendo que existem mais
duas camas no polo Hospital Geral (HG)
destinadas quase exclusivamente aos im-
plantes cocleares. Faz parte também uma
consulta externa de adultos, um bloco
operatório e exames complementares de
diagnóstico. Este polo inclui ainda uma
extensão no Hospital de Celas, onde se
processam exames complementares de
diagnóstico.
No polo HG localiza-se a Unida-
de Funcional de Implantes Cocleares.
“Coimbra foi pioneira nos implantes
cocleares e é o maior serviço que há
em Portugal, com capacidade de poder
confrontar-se com muitos serviços euro-
peus”, realça António Diogo Paiva. Nesta
unidade hospitalar, há também uma con-
sulta externa de adultos e são realizados
exames complementares de diagnóstico,
uma situação que o diretor do serviço es-
pera que se possa manter, para “melhor
funcionamento e maior facilidade para
os doentes”.
No polo Hospital Pediátrico são in-
ternadas as crianças para cirurgia. Neste
local, realizam-se também consultas ex-
ternas e exames complementares de diag-
nóstico.
Os doentes acompanhados pelo Servi-
ço de ORL do CHUC não pertencem ape-
nas à zona Centro. ”Como se trata de um
grupo hospitalar de grande prestígio, são
referenciados doentes de Portugal Conti-
nental e Ilhas e até do estrangeiro”, adianta
o responsável, sublinhando que estão a ser
SERVIÇO DE ORL DO CENTRO HOSPITALAR
E UNIVERSITÁRIO DE COIMBRA
Coimbra garante
cuidados de
excelência na área
da ORL
O Serviço de ORL do Centro Hospitalar e
Universitário de Coimbra (CHUC) nasceu no
início deste ano, quando se deu a fusão do Centro
Hospitalar de Coimbra (CHC) com os Hospitais da
Universidade de Coimbra (HUC). Apesar de recém-
criado, o seu elevado prestígio é indiscutível, pois,
reúne a vasta experiência dos anteriores serviços
da especialidade dos Hospitais da Universidade de
Coimbra, do Hospital Geral de Coimbra (HG) e
do Hospital Pediátrico de Coimbra (HP). A prova
disso é o facto de ser procurado por doentes
do foro da ORL de Portugal continental e ilhas e
também por estrangeiros.
10 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
implementadas áreas de subsespecialidade
com especifcidade para desenvolver cada
vez mais todos os setores que fazem parte
do Serviço (Surdez, Vertigem, Oncologia,
Voz, Nariz e Seios perinasais). António Dio-
go Paiva recorda que o serviço está no “ano
zero”, o que signifca que ainda há muito
trabalho pela frente.
Uma equipa diferenciada
Na opinião de António Diogo Paiva, o
ideal seria que o internamento, a urgên-
cia, o bloco operatório, a consulta externa
e os exames complementares estivessem
todos juntos. No entanto, realça, “os ser-
viços não se fazem de espaços, mas de
pessoas, e há aspetos muito positivos”.
“Temos recursos humanos de excelência
e médicos muito diferenciados”, afrma.
O serviço conta, atualmente, com dois
assistentes hospitalares seniores (António
Diogo Paiva e Carlos Ribeiro), 25 assisten-
tes hospitalares (a maioria já graduados)
e 12 internos.
Segundo o responsável, o serviço
baseia-se em três vetores. Em primeiro
lugar, na clínica, uma vez que “os doen-
tes são o objetivo principal”. Em segun-
do lugar, no ensino, dado tratar-se de
um hospital universitário, ou seja, que
contempla o ensino pré-graduado (alu-
nos da Faculdade de Medicina e Medici-
na Dentária) e pós-graduado. Nesta área,
tem realizado também jornadas e cursos
com o apoio das sociedades científcas
nacionais”.
Por último, na investigação que,
adianta, está a ser desenvolvida ao
máximo, “embora haja dificuldades
de diversa ordem”. “Estão a decorrer
teses de doutoramento e de mestrado
e outros projetos de investigação em
diversas áreas que envolvem outras ins-
tituições universitárias, no âmbito da
Fundação para a Ciência e para a Tecno-
logia (FCT).”
Unidade Funcional de Implantes
Cocleares com prestígio internacional
Carlos Ribeiro coordena a Unidade
Funcional de Implantes Cocleares, que
surgiu no processo de fusão do CHC com
os HUC. “Foi entendido que era vantajoso
manter uma equipa de elevada diferencia-
ção que fosse a herdeira e a guardadora
de todo o saber acumulado na área dos
implantes cocleares no CHC, nomeada-
mente nos Covões”, recorda o responsá-
vel.
Na sua opinião, o antigo CHC re-
presentou um marco muito importante
na história dos implantes, a nível na-
Um vasto currículo na área da ORL
António Diogo Paiva licenciou-se em Medicina, pela
FMUC, em 1972. Em 1986, concluiu o doutoramento pela
Universidade de Coimbra. É professor catedrático em Otor-
rinolaringologia da FMUC desde 1996, desempenhando
também a função de regente da disciplina de ORL na mesma
faculdade desde 1995.
Fez o internato nos HUC (1973 a 1974). Dirigiu o Serviço
de ORL dos HUC de fevereiro de 1995 até 2012, altura em
que assumiu a direção do Serviço de ORL do CHUC.
Entre outros cargos que ocupou, destaque para a pre-
sidência do Colégio de Otorrinolaringologia da OM (1990 a
1993).
Participou em mais de 250 reuniões nacionais e interna-
cionais, tendo proferido mais de 200 apresentações. Publicou
em revistas nacionais e internacionais mais de setenta traba-
lhos.
Foi presidente da SPORL-CCF no triénio 2005/2007 e pre-
sidente da Assembleia-Geral da mesma Associação no triénio
2007/2010. Foi também presidente da Assembleia-Geral da As-
sociação Portuguesa de Oto-Neurologia (2007 a 2010).
ANTÓNIO DIOGO PAIVA
“Os serviços não se
fazem de espaços,
mas de pessoas,
e há aspetos
muito positivos.
Temos recursos
humanos de
excelência
e médicos muito
diferenciados.”
Jornal Médico | 11 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
cional e internacional. “O trabalho foi
começado com adultos em 1985. Na al-
tura, quando se realizaram os primeiros
implantes, Portugal era o terceiro país
da Europa a realizar este procedimen-
to, depois da Alemanha e da Noruega”,
relata, acrescentando que, em 1992, co-
meçaram a ser realizados implantes em
crianças.
Desde então, a equipa tem acumula-
do experiência e participações internacio-
nais, motivo pelo qual a Administração
Central do Sistema de Saúde (ACSS), na
sua rede de referenciação hospitalar, de-
cidiu que a unidade de Coimbra seria o
centro de referência nacional para todos
os pacientes do SNS em Portugal. Até ao
momento, já implantou, com êxito, estes
dispositivos em 410 crianças e 319 adul-
tos.
“Com a fusão, entendeu-se que se-
ria de todo o interesse para a instituição
e para o recém-criado Serviço de ORL
CHUC manter este centro como uma
unidade funcional importante na área
dos implantes cocleares. O objetivo era
dar continuidade ao processo e que os
conhecimentos e a experiência não se
dispersassem”, indica, acrescentando
ter havido até um enriquecimento com
a entrada dos novos especialistas, mas
“sem se perder toda a história do pas-
sado”.
De acordo com Carlos Ribeiro, nos
adultos, a cirurgia dos implantes coclea-
res é realizada no polo HG, enquanto a
das crianças é realizada no polo Hospital
Pediátrico. O pós-operatório imediato é
feito para cada paciente no local onde é
intervencionado. A área de programação
e reabilitação é realizada no Hospital Ge-
ral.
A unidade integra otorrinolaringo-
logistas, audiologistas, terapeutas da fala
e conta com o apoio da Psicologia, da Pe-
diatria, da Neuropediatria, da Radiologia,
da Neuroradiologia e do Serviço de Assis-
tência Social.
O coordenador desta unidade salien-
ta o sucesso que esta tem conseguido
internacionalmente e que vai permitir a
organização, em 2017, no nosso país, do
mais importante congresso deste setor da
saúde: o Simpósio Europeu de Implantes
Cocleares.
“Os trabalhos e os resultados da
unidade estão publicados e posicionam-
-se ao nível dos melhores do mundo”,
salienta. Isto deve-se não só à excelên-
cia da equipa, mas também ao método
de reabilitação próprio que é utilizado e
que, refere, “é reconhecido ao nível in-
ternacional como método de Coimbra”.
É dado um enfoque especial à reabilita-
ção nos dois meses iniciais, que inclui
sessões diárias de terapia de fala, o que
permite acelerar a aquisição de compe-
tências de fala, diminuindo o prejuízo
causado pelo tempo de privação auditiva
que a criança sofreu.
Cirurgia otológica e implantes cocleares
com lugar relevante na carreira
Nascido em Cantanhede, em 1959, desde muito cedo que
o grande sonho de Carlos Ribeiro era ser médico, tendo deci-
dido optar pela especialidade de Otorrinolaringologia devido
à forte componente cirúrgica e de microcirurgia.
Licenciou-se em 1984 pela FMUC. Iniciou a sua carreira
no Centro Hospitalar de Coimbra (Hospital dos Covões), em
1987, tendo feito o internato com Manuel Filipe e Fernando
Rodrigues, diretores do Serviço de ORL. Iniciou a atividade
como especialista no mesmo hospital.
Seguiu as diversas áreas da especialidade, mas sempre
com especial atenção à cirurgia otológica e aos implantes
cocleares, que a partir de certa altura constituíram uma
parte fundamental da realização pessoal e profssional de
Carlos Ribeiro.
Com a aposentação de Fernando Rodrigues, em 2007,
fcou vago o lugar de diretor do serviço, cargo que durante
cinco anos desempenhou com especial entusiasmo.
O atual presidente da SPORL-CCF é assistente hospitalar
sénior do CHUC e coordenador da Unidade Funcional de Im-
plantes Cocleares, situada no polo HG..
CARLOS RIBEIRO
De acordo com Carlos
Ribeiro, nos adultos, a
cirurgia dos implantes
cocleares é realizada
no polo HG, enquanto
a das crianças é
realizada no polo
Hospital Pediátrico.
Assistentes hospitalares
seniores: 2
Assistentes hospitalares: 23
Internos: 12
Terapeutas da fala: 4
Audiologistas: 9
Enfermeiros: 27
Assistentes técnicos: 10
Assistentes operacionais: 13
Movimento por ano
(01/01/2013 a 30/10/2103):
N.º de consultas externas:
31.509
N.º de cirurgias: 1678
N.º de exames de exames
complementares de
diagnóstico: 29.316
FICHA TÉCNICA
12 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
O parceiro
de confiança
em reabilitação
auditiva
Há 20 anos com os portugueses
Linha de Atendimento ao Cliente 808 10 11 12 | www.gaes.pt
A surdez profunda ou total era uma
situação clínica que, até há cerca de 30
anos, produzia no indivíduo que dela
sofria uma incapacidade grave e irrever-
sível na área da comunicação. Constituía
uma frustração para o médico, pois, não
tinha uma resposta satisfatória para os
defcientes auditivos profundos que o
procuravam.
Se no adulto a perda da audição é
uma perda dramática, que prejudica to-
dos os aspetos das capacidades relacio-
nais do indivíduo, na criança que nasce
sem capacidade auditiva, a ausência de
correção obriga à implementação de uma
nova forma de linguagem – minoritária
na comunidade –, obrigando à aprendi-
zagem da utilização da visão como recetor
e do gesto como emissor da mensagem
(gestual).
Foi o extraordinário avanço, verifi-
cado nos finais do séc. XX, nos conhe-
cimentos tecnológicos, informáticos e
da fisiologia da audição que permitiu
a aplicação clínica de um dispositivo
eletrónico no ouvido interno humano,
criando um método de reabilitação au-
ditiva em que o estímulo sonoro é co-
locado diretamente no nervo auditivo
– o implante coclear (IC) –, permitindo
ao surdo profundo recuperar a função
auditiva e, consequentemente, a lingua-
gem áudio-oral.
É um processo em que é necessário
cumprir várias etapas: avaliação clínica e
audiológica, decisão terapêutica, implan-
tação cirúrgica, adaptação dos componen-
tes tecnológicos às estruturas biológicas
do indivíduo e, por fm, criação de um
programa personalizado de reabilitação
áudio-oral.
Portugal acompanhou os restantes
países da Europa nos avanços clínicos e
tecnológicos adquiridos nesta área. Em
1985, quando na Alemanha iam sendo
dados os primeiros passos na aplicação
deste método de reabilitação, demons-
trando a evidência clínica do seu valor
na recuperação auditiva de surdos pro-
fundos, também a equipa do Dr. Manuel
Filipe Rodrigues e do Dr. Fernando Ro-
drigues efetuava o primeiro implante co-
clear no Centro Hospitalar de Coimbra
(Fig. 1).
Até hoje, com a participação de ou-
tras equipas que, entretanto, introduzi-
ram este método de reabilitação nos seus
serviços (públicos e privados), foi possí-
vel reabilitar, em Portugal, cerca de um
milhar de indivíduos surdos profundos
– crianças e adultos - uma opção que lhes
permite manter uma linguagem verbal e,
consequentemente, desenvolver as suas
atividades, socialmente integrados na co-
munidade ouvinte em que vivem.
Ao longo do tempo, tem-se verifca-
do uma evolução admirável das próteses
cocleares (no tamanho e fexibilidade do
recetor-transmissor, na transmissão de
sinal da bobina externa para a interna
implantada, na biocompatibilidade dos
materiais utilizados), que tem sempre
sido acompanhada pelas várias equipas,
permanecendo hoje a ORL portuguesa
na vanguarda desta tecnologia de ponta a
nível mundial.
A atualização técnica e o empenho
das equipas conduziram a que grande
parte dos conhecimentos tenham sido ad-
quiridos através da experiência e de uma
atitude investigacional permanente, man-
tendo uma atenção constante aos avanços
continuamente feitos neste campo, e de
saber avaliar, em cada momento, quais
desses avanços poderiam ser proveitosa-
mente incorporados na prática clínica
Ao longo do tempo, foram-se defnin-
do protocolos que permitem sistematizar
o estudo/avaliação do candidato, escolher
as próteses mais adequadas, defnir os
programas de reabilitação e antecipar os
resultados esperáveis.
Atendendo às diferenças signifcativas
nas várias variáveis clínicas, foram criados
protocolos para crianças e para adultos.
Embora os parâmetros gerais em estudo
sejam comuns, os testes, a abordagem e a
interpretação são distintos.
Dedicamos alguma atenção especial
à habilitação áudio-verbal pré-lingual na
criança com surdez total congénita.
Nesta apresentação serão ainda abor-
dados os temas mais polémicos que atual-
mente são debatidos nos fóruns interna-
cionais acerca da implantação coclear: a
infuência da precocidade na implantação
da criança surda profunda pré-lingual
como fator decisivo nos resultados da rea-
bilitação (inferior a 1 ano de idade), a apli-
cação bilateral das próteses cocleares, o
alargamento de indicações, as limitações
do implante coclear, a implementação de
redes de reabilitação à distância.
Por fm, serão focadas as cada vez
maiores solicitações de outros profssio-
nais interessados nesta temática (audiolo-
gistas, psicólogos, terapeutas da fala, pro-
fessores de educação especial) a requerer
conteúdos de formação, estágios e proje-
tos de investigação conjunta (mestrados,
doutoramentos), a que os serviços com
unidades de implante coclear têm de res-
ponder com a sua estrutura de funciona-
mento e experiência adquirida nesta área
do conhecimento médico.
Implantes cocleares
Luís Filipe Silva
Assistente graduado de
Otorrinolaringologia do CH e
Universitário de Coimbra
Opinião
LUÍS FILIPE SILVA
Um trajeto ligado
à surdez
Luís Filipe Silva concluiu o Curso
de Medicina, em Coimbra,
em 1987. É especialista de
Otorrinolaringologia desde
1995. Atualmente, é assistente
graduado de ORL do CHUC.
A sua atividade assistencial tem
sido preferencialmente dedicada
à surdez, exercendo funções
ligadas aos implantes cocleares
no Centro Hospitalar de Coimbra
desde 1992. Foi docente do
Curso de Audiologia da Escola
Superior de Tecnologia da
Saúde de Coimbra e do Curso de
Licenciatura em Terapia da Fala do
Instituto Politécnico de Leiria.
Figura 1 - Implante coclear (Banfai)
Componentes externos
Figura 2 - Reabilitação de criança
com implante coclear (exercícios
de condicionamento
Na criança que nasce
sem capacidade
auditiva, a ausência
de correção obriga
à implementação
de uma nova forma
de linguagem.
Tem-se verifcado uma
evolução admirável
das próteses cocleares,
permanecendo hoje
a ORL portuguesa
na vanguarda desta
tecnologia de ponta
a nível mundial.
Jornal Médico | 13 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
Apesar da evolução clínica existente,
a reabilitação auditiva mantém-se um de-
safo técnico em casos de tratamento de
otite média crónica.
A continuidade ossicular no ouvido
médio é garante da transmissão da onda
sonora, desde a membrana do tímpano vi-
brátil até ao ouvido interno, através da ja-
nela oval. A patologia aguda recorrente e
as doenças crónicas do ouvido médio alte-
ram, com frequência, a transmissão sono-
ra ao ouvido interno, como, por exemplo:
lesões da membrana timpânica, tais como
perfuração, espessamento, bolsa de re-
tração, timpanosclerose, entre outras; ou
lesões infamatórias da mucosa ou coles-
teatomatosas; ou ainda descontinuidade
da cadeia ossicular, sendo a longa apófse
da bigorna a que mais frequentemente é
atingida.
Após controlo da doença existente no
ouvido médio, é importante restabelecer
o sistema de condução da onda sonora,
sendo para isso importante obter uma
membrana timpânica íntegra e vibrátil e
uma cadeia/neocadeia ossicular estável e
funcionalmente otimizada.
Relativamente ao processo de recons-
trução da cadeia ossicular, várias são as
alternativas existentes:
-- A moldagem de ossículos autólogos
(bigorna ou a cabeça do martelo) ou de
osso proveniente da cortical mastoideia
é um dos métodos mais antigos e mais
comummente utilizado. A cartilagem
auricular ou do tragus, após moldagem
adequada, também é utilizada em casos
selecionados. A interposição pode ser
efetuada entre a supraestrutura do estri-
bo e o martelo, ou entre a supraestrutu-
ra do estribo e a membrana do tímpano
(PORP), ou na ausência daquela estrutura
entre a platina do estribo e o martelo ou a
membrana do tímpano (TORP);
-- Nos últimos anos, diversas próte-
ses em material sintético têm vindo a ser
desenvolvidas, permitindo reparações
parciais (PORP) – com colocação sobre
a supra estrutura do estribo –, ou totais
(TORP) – com colocação direta na janela
oval -- em materiais diversos como ouro,
polietileno poroso (plastipore), hidroxia-
patite e titânio. A correlação com a taxa
de sucesso advém da biocompatibilidade
específca, de apresentarem peso e impe-
dância baixos, da durabilidade e da facili-
dade de colocação.
(1)

A vantagem do material autólogo é a
acessibilidade e a baixa taxa de extrusão;
em contrapartida, tem uma maior proba-
bilidade de anquilose ao longo do tempo
e é, em geral, mais pesado que as próteses
de material heterólogo.
Relativamente às próteses existentes,
as de titânio têm sido preferencialmente
utilizadas nos últimos anos, dadas as suas
características específcas: trata-se de um
material osteointegrável, leve, fácil de
manusear e com um design que facilita a
visualização das estruturas existentes du-
rante a colocação da prótese, apresentan-
do ainda uma excelente estabilidade após
adaptada.
Estas características permitem, com-
parativamente com as próteses de outros
materiais, serem colocadas num curto es-
paço de tempo, com uma taxa de extrusão
baixa e um ganho relativo nos limiares au-
ditivos das frequências agudas.
(2)
O “gap”
aéreo-ósseo tem reduções para os 8 a 20
dB e a taxa de extrusão situa-se entre os
1% e os 5%.
(2, 3)
Apresentam, no entanto,
um custo superior às interposições com
material autólogo, que se torna mais evi-
dente quando são comparados tempos de
cirurgiões experientes em moldagem de
ossículos/osso cortical para interposição.
Existem diversos fatores de prognós-
tico que podem interferir no resultado do
ganho auditivo, sendo os mais relevantes
o estado da mucosa do ouvido médio e a
presença da supraestrutura do estribo.
(4,5)

Curiosamente, fatores como a idade,
a presença/ausência de colesteatoma ou
de bolsas de retração, o tipo de cirurgia
mastoideia e até a espessura da cartila-
gem utilizada não parecem ter impacto
no resultado auditivo pós-operatório.
(6)

É importante realçar que os resultados
auditivos em idade pediátrica poderão
ser menos favoráveis, dada a maior pro-
babilidade de ocorrência de problemas da
mucosa do ouvido médio e de disfunção
da trompa de Eustáquio.
(7)

Foi efetuado um estudo comparativo
entre os resultados audiométricos obtidos
com a utilização de ossículos moldados e
de próteses de titânio, em doentes ope-
rados, durante dois anos, no Serviço de
ORL do Centro Hospitalar de São João.
(8)

De um total de 213 doentes submetidos
a cirurgia de otite média crónica, foram
selecionados 91, apresentando um tempo
médio de seguimento de 25.7 meses. O
PTA pré-operatório era idêntico entre os
dois grupos. Relativamente ao PTA e à
redução do gap aéreo-ósseo pós-opera-
A insufação tubotimpânica (I.T.T.)
através da trompa de Eustáquio é um mé-
todo de tratamento das otites médias com
efusão e das disfunções tubares.
O objetivo desta apresentação é
chamar a atenção para as vantagens da
crenoterapia nestas patologias, usando
vapor sulfuroso, e apresentar os resulta-
dos obtidos a curto prazo, após o trata-
mento.
A otite média é a situação mais co-
mum em Pediatria, tratada no consul-
tório. A prevalência desta patologia por
mais de um mês é chamada “otite média
persistente” e o papel desempenhado
pelas infeções da nasofaringe, disfunções
da trompa de Eustáquio e hipertrofa das
vegetações adenoides e da mucosa nasal
é fator importante na patogénese destas
patologias.
Uma das principais consequências
da doença é a perda de audição, que nas
crianças mais pequenas se manifesta por
distúrbio da fala e atraso no desenvolvi-
mento da linguagem.
O principal objetivo deste método de
tratamento é, contudo, a correção da per-
da de audição.
Um grupo de 48 crianças com idades
compreendidas entre os 5 e os 9 anos,
padecendo de otite média com efusão
persistente, uni ou bilateral, foi estudado
nas Termas das Caldas da Saúde (Santo
Tirso) durante um período de 6 anos
(2008-2013), consistindo o tratamento
em 7 sessões de I.T.T., com o auxílio de
um sonda nasal apropriada, introduzida
durante três minutos em cada vestíbulo
nasal, transportando um fuxo de vapor
sulfuroso através das trompas de Eustá-
quio até à cavidade do ouvido médio, re-
movendo o fuido existente e modifcan-
do o conteúdo gasimétrico.
As crianças foram controladas duran-
te o tratamento por observação otoscópi-
ca e, no fnal, por timpanometria.
Em 39 das crianças com otite média
com efusão, que representam 81,25% dos
casos, foram obtidos resultados positivos
imediatos, ao fm de sete sessões de trata-
mento, com melhoria subjetiva da acuida-
de auditiva e aspeto otoscópico normal da
membrana do tímpano, confrmados por
timpanometria de tipo A.
Reconstrução ossicular – resultados funcionais
Crenoterapia na patologia auricular
Carla Pinto de Moura
Otorrinolaringologista. Assistente
hospitalar graduada do CH São
João. Professora convidada da FMUP
João Sousa Coutinho
Otorrinolaringologista.
Hidrologista. Diretor clínico das
Termas das Caldas da Saúde,
Santo Tirso
Opinião
Opinião
RESULTADOS NAS TERMAS DAS CALDAS DA SAÚDE
João Sousa Coutinho licenciou-se em Medicina pela FMUP,
em 1976. Fez o Internato Geral de Policlínica no Hospital
Escolar de São João, no Porto, até 1979, e o Curso de Medicina
Tropical na Escola dos Serviços de Saúde Militares, em Lisboa
(1979).
Foi oficial médico no Hospital Militar de Coimbra e do Porto
até maio de 1980, sendo de seguida reintegrado no Hospital
Escolar de São João. Em setembro de 1983 prestou provas de
acesso à especialidade de Otorrinolaringologia, na Clínica
Universitária de Bordéus, em França. Entre 1983 e 1988 fez
o internato da especialidade de ORL no Centro Hospitalar
de Bordéus durante o qual fez o médecin-attaché dês
établissements d`hospitalisation publics.
É especialista em Otorrinolaringologia desde 1988 e adquiriu
equiparação ao grau de assistente hospitalar de ORL no ano
seguinte. Em 1990 ingressou no Serviço de ORL do Hospital
de Vila Nova de Gaia. Especializou-se em Hidrologia e
Climatologia Médica em 1994.
Atualmente, é assistente hospitalar de ORL no Centro
Hospitalar do Médio Ave, Unidade de Santo Tirso, desde
2002, tendo adquirido competência em Hidrologia Médica,
em 2004. É também diretor clínico das Termas das Caldas da
Saúde, em Santo Tirso, desde 2008.
JOÃO SOUSA COUTINHO
Médico especializou-se em ORL e Hidrologia e Climatologia Médica
Uma das principais
consequências da
doença é a perda
de audição, que nas
crianças mais pequenas
se manifesta por
distúrbio da fala e atraso
no desenvolvimento
da linguagem.
14 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
tório, apresentaram uma melhoria estatis-
ticamente signifcativa, no grupo em que
foram utilizadas próteses titânio.
Neste estudo, tal como noutros refe-
ridos na literatura, o ganho auditivo mé-
dio obtido com a utilização de próteses
de titânio foi superior relativamente ao
resultado com interposição de material
autólogo. No entanto, será fundamental
rever estes resultados a longo prazo e,
preferencialmente, com um aumento da
população estudada.
Bibliografa:
1. Zeitler DM, Lalwani AK. Are postoperative
hearing results better with titanium ossicular
reconstruction prostheses? The Laryngoscope.
2010;120(1): 2-3.
2. Woods O, Fata FE, Saliba I. Ossicular recons-
truction: incus versus universal titanium pros-
thesis. Auris, nasus, larynx. 2009;36(4):387-92.
3. Vassbotn FS, Moller P, Silvola J. Short-term re-
sults using Kurz titanium ossicular implants.
Eur Arch Otorhinolaryngol. 2007;264(1):21-5.
4. Moon IS, Song MH, Kim HN, Chung MH, Lee
WS, Lee HK. Hearing results after ossiculoplas-
ty using Polycel prosthesis. Acta Otolaryngol.
2007 Jan;127(1):20-4.
5. Krueger WW, Feghali JG, Shelton C, Green JD,
Beatty CW, Wilson DF, Thedinger BS, Barrs DM,
McElveen JT. Preliminary ossiculoplasty results
using the Kurz titanium prostheses. Otol Neu-
rotol. 2002 Nov;23(6):836-9.
6. Alaani A, Raut VV. Kurz titanium prosthesis os-
siculoplasty -- follow-up statistical analysis of
factors affecting one year hearing results. Auris
Nasus Larynx. 2010 Apr; 37(2): 150-4.
7. Murphy TP. Hearing results in pediatric pa-
tients with chronic otitis media after ossicular
reconstruction with partial ossicular replace-
ment prostheses and total ossicular replace-
ment prostheses. Laryngoscope. 2000 Apr;
110(4): 536-44.
8. Órfão T, Ramos F, Silveira H, Santos M. Resultados
funcionais: próteses de titânio vs material autólogo.
Rev Port Oto e Cir Cerv-Facial. 2012:50(2): 117-123.
Mais de 130 milhões
de doentes medicados
1
: : Aumento significativo
da qualidade de vida
2
: : Reduz a intensidade,
frequência e duração
das crises vertiginosas
2
: : Eficaz e tem um bom perfil
de segurança no tratamento
da vertigem associada
a síndrome de ménière
1,2
NOME DO MEDICAMENTO Betaserc 24 mg comprimidos. COMPOSIÇÃO QUANTITATIVA E QUALITATIVA Cada comprimido contém 24 mg de cloridrato de betahistina. FORMA FARMACÊUTICA Comprimido.
Comprimido com ranhura. O comprimido pode ser dividido em metades iguais. Indicações Terapêuticas Vertigem, zumbidos e perda de audição associados à Síndrome de Ménière. Posologia e modo de
administração A dose diária inicial é de 48 mg repartidos ao longo do dia. As doses de manutenção variam entre 24 e 48 mg / dia. A dosagem deve ser adaptada individualmente de acordo com a resposta à
terapêutica. Os comprimidos são para administração oral de preferência às refeições. População pediátrica: Devido a falta de dados de segurança e eficácia, Betaserc não é recomendado a crianças com menos
de 18 anos. Contra-Indicações Hipersensibilidade à substância activa ou a qualquer dos excipientes do medicamento. Feocromocitoma. Advertências e precauções especiais de utilização Os doentes com asma
brônquica ou com história de úlcera péptica necessitam de ser cuidadosamente vigiados durante o tratamento. Interacções medicamentosas e outras formas de interacção Considerando os estudos in vitro,
não é esperado inibição dos enzimas do citocromo P450. Os estudos “in vitro” indicam uma inibição do metabolismo da beta-histina por medicamentos que inibem a monoamino-oxidase (MAO), incluindo o
subtipo B da MAO (por ex: selegilina). É recomendada precaução quando a beta-histina é utilizada concomitantemente com os inibidores da MAO (incluindo os selectivos do subtipo B da MAO). Dado que a
beta-histina é um análogo da histamina, a interacção da beta-histina com anti-histamínicos pode em teoria afectar a eficácia de um destes medicamentos. Efeitos indesejáveis Em ensaios clínicos controlados
por placebo, foram observados os seguintes efeitos indesejáveis em doentes tratados com beta-histina, com as frequências abaixo indicadas: Doenças gastrointestinais:Frequentes (≥1/100 a < 1/10): náusea
e dispepsia. Doenças do sistema nervoso: Frequentes (≥1/100 a <1/10): cefaleias. Adicionalmente aos efeitos indesejáveis reportados durante os ensaios clínicos, foram reportados os seguintes efeitos
indesejáveis durante a utilização pós-comercialização e na literatura científica. Como as frequências não puderam ser estimadas a partir dos dados disponíveis, foram classificadas como “desconhecidas”.
Doenças do sistema imunitário: Reacções de hipersensibilidade, por ex. anafilaxia. Doenças gastrointestinais: Queixas gástricas (por ex. vómitos, dor gastrointestinal, distensão abdominal e inchaço), o que
normalmente pode ser evitado por administração da dose durante as refeições ou por redução da dose. Afecções dos tecidos cutâneos e subcutâneos: Reacções de hipersensibilidade cutânea e subcutâneos,
em particular edema angioneurótico, urticária, rash e prurido. DATA DE REVISÃO DO TEXTO 28.09.2011 TITULAR DA AIM: Abbott Laboratórios, Lda. Medicamento sujeito a receita médica. Escalão de
comparticipação: C. Para mais informações deverá contactar o Titular da AIM. 7/2012/EDP/141
REFERÊNCIAS: 1. Jeck-Thole S. Drug Safety 2006;29(11):1049-1059. 2. Eugenio Mira, et al, Eur Arch Otorhinolaryngol (2003) 260:73-77.
Abbott Laboratórios, Lda.
Estrada de Alfragide, 67 | Alfrapark - Edifício D | 2610-008 Amadora
Mat. na C.R.C. de Amadora sob o n.º 500006148
Capital Social: 3.396.850 Euros
As outras nove crianças do grupo não
atingiram os resultados esperados, após
sete sessões de tratamento, pelas seguin-
tes razões:
– Em cinco dos casos não se verifcou
melhoria do aspeto otoscópico da mem-
brana do tímpano;
– Em quatro dos casos o tratamento
foi interrompido devido a severa obstru-
ção nasal, febre, infeção aguda ou outras
causas.
Não foram consideradas as crianças
que tiveram de interromper o tratamento
por falta de colaboração.
O tratamento da otite média com efu-
são pelo método da insufação tubotimpâ-
nica com vapor sulfuroso deve ser consi-
derado uma alternativa terapêutica com
interesse na solução destas patologias,
visto não apresentar riscos signifcativos e
não ter caráter invasivo.
Bibliografa:
1. Penha R, Ruah C. Fisiologia respiratório do
ouvido médio, fsiopatologia da otite média.
Pathos, Monografas de Patologia Geral, 1997,
Ano XIII, 12: 7-10.
2. Sadé J. Introduction to Eustachian tube fun-
cion. In: The Eustachian Tube, Sadé J (ed.),
Amsterdam: Kugler Publications, Amsterdam
1987: 3-28.
3. Ruah C. Anatomo-Fisiologia da audição. In: Sur-
dez, Diagnóstico e Reabilitação, José Luís Reis
(ed.), 2002: 9-30.
Jornal Médico | 15 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
A reabilitação da hipoacusia neuros-
sensorial assenta naturalmente na adap-
tação de próteses auditivas em via aérea,
as quais são cada vez mais sofsticadas e
oferecem aos seus utilizadores uma qua-
lidade auditiva inquestionável. No entan-
to, há um certo número de doentes que
não se adaptam a elas, pelo que teremos
de lhes encontrar soluções alternativas.
Os implantes ativos de ouvido médio
(IAOM) vieram solucionar muitas dessas
situações e estão indicados em:
– Doentes que não toleram a pre-
sença de um corpo estranho no condu-
to auditivo externo, referindo efeito de
oclusão com a prótese convencional ou
efeito de feedback;
– Indivíduos com tendência para
acumulação de cerúmen, otites externas
recorrentes, exostoses volumosas ou
condutos muito estreitos;
– Utilizadores de próteses auditivas
referindo má qualidade do som ou má
discriminação em ambientes ruidosos,
com perdas auditivas nas altas frequên-
cias.
Os IAOM deverão ser equacionados
somente após um período de utilização
de próteses convencionais e em hipoacu-
sias estáveis nos últimos 2 anos; deverá
igualmente ser excluída patologia retro-
coclear.
Neste momento, existem dispositi-
vos totalmente implantados e outros se-
mi-implantados (em que o processador
fca externamente).
Mais recentemente, surgiram os im-
plantes ativos de condução óssea, que se
posicionaram como alternativas aos im-
plantes osteointegrados, tendo sido uti-
lizados, tal como estes, em hipoacusias
de transmissão ou mistas e em casos de
surdez unilateral.
A sua principal vantagem é serem
dispositivos transcutâneos e não per-
cutâneos, como o Baha
®
ou o Ponto
®
,
não havendo qualquer pilar a atravessar
a pele. De realçar a existência já de um
implante osteointegrado transcutâneo, o
Sophono
®
, e de o Baha
®
ter agora tam-
bém um modelo idêntico – o Atracct
®
.
Nesta apresentação, abordaremos a
nossa experiência com um IAOM semi-
-implantável – o Vibrant Soundbridge
®

–, e com um implante ativo de condução
óssea – o Bonebridge
®
.
A prevalência da doença de Ménière
situa-se entre 17 e 218 doentes por 100
mil habitantes, enquanto a incidência é
de 47 a 157 casos por 100 mil habitan-
tes. Diversos estudos revelam tratar-se de
uma patologia que se desenvolve, em mé-
dia, entre os 38 e os 50 anos. No entanto,
há também formas de início precoce na
infância e, outras vezes, no adulto.
No âmbito de uma conferência intitu-
lada “Doença de Ménière: atualização”, da
qual será orador, Nicolás Pérez, da Univer-
sidade de Navarra, recorda que os princi-
pais sintomas da doença são a vertigem, a
surdez, o ruído e a pressão no ouvido.
“A vertigem surge em crises espon-
tâneas, isto é, sem uma razão precisa, e
é acompanhada por uma deterioração
auditiva evidente (surdez ou hipoacusia),
em um ou ambos os ouvidos, um zumbi-
do intenso (ruído no ouvido, na ausên-
cia de fonte de som externa), bem como
uma sensação de pressão ou de vácuo“.
Durante a crise, acrescenta, “a vertigem, a
surdez e o zumbido evoluem simultanea-
mente e de forma harmoniosa”.
“Ao longo dos anos, as vertigens
repetem-se sem uma periodicidade ou
frequência específcas, na grande maioria
dos doentes, e existe uma perda progres-
siva da audição, uma vez que depois de
cada crise não há uma melhoria comple-
ta”, afrma Nicolás Pérez, salientando que
o zumbido é persistente e entre crises
pode haver uma sensação de instabilida-
de ou desequilíbrio.
Há casos em que o problema não
se situa no ouvido e que podem provo-
car confusão e demora no diagnóstico.
“Frequentemente, as vertigens acompa-
nham-se de sintomas muito preocupan-
tes, como a palidez e a sudorese fria, a
taquicardia, a redução da pressão arterial
e a tontura. As náuseas e os vómitos tam-
bém são sintomas comuns e aparecem
em quase todas as vertigens. Às vezes, as
vertigens são seguidas por uma dor de ca-
beça intensa, ocorrendo geralmente em
pacientes com história pessoal ou familiar
de enxaqueca.”
Na maioria das vezes, e isto aplica-
-se a quase 80% dos doentes, a causa é
“idiopática” ou desconhecida. Apenas
20% dos pacientes podem vir a identifcar
uma causa específca como estando na
origem dos sintomas: infeções (virais ou
bacterianas) ou processos infamatórios
do ouvido, otosclerose, traumatismo (fí-
sico ou acústico), e outras causas menos
frequentes (tumores ósseos temporais
autoimunes ou regiões vizinhas).
Quando o diagnóstico é consistente e
já foram afastados outros problemas, Nico-
lás Pérez explica que a base do tratamento
envolve a modifcação da dieta, sendo re-
comendado que o paciente siga um regi-
me alimentar pobre em sal. Além disso, “é
conveniente eliminar certos componentes
da dieta (café, chá, refrigerantes e tabaco)
quando tomados em excesso”. É oportuno
indicar a necessidade de seguir um plano
de cinco refeições ao longo do dia para evi-
tar passar muitas horas sem comer.
Do ponto de vista médico, é habitual
usar alguns fármacos. Segundo o especialis-
ta da Universidade de Navarra, os diuréticos
estimulam a eliminação da água do organis-
mo. Desta forma, produz-se no ouvido in-
terno uma redistribuição benéfca dos seus
líquidos para o controlo dos sintomas.
Nicolás Pérez refere que “a betaistina,
a trimetazidina e a nimodipina são subs-
tâncias ativas presentes em vários medi-
camentos que existem no mercado e que
exercem a sua ação em diferentes níveis
do ouvido interno, conseguindo uma me-
lhor funcionalidade”, atuando também
em vários níveis do sistema vestibular
(sem provocar sedação).
“É prática comum que o doente seja
visto pelo médico a cada 6 ou 12 meses.
A dieta deve ser para sempre, mas o trata-
mento médico deve ser mantido por um
longo período de tempo, às vezes quase
um ano, e depois a dose deve ser reduzi-
da, até excluir o fármaco. Se a vertigem
voltar passado algum tempo, é necessário
retomar a medicação”, adverte.
Quando os episódios de vertigem
persistem surgem duas alternativas de
tratamento. Por via intratimpânica ou
por intervenção cirúrgica – drenagem do
saco endolinfático – que, de acordo com
Nicolás Pérez, “não é totalmente efcaz”.
O tratamento intratimpânico faz-se
de forma ambulatória na consulta sem
necessidade de internamento. “Consiste
numa pequena incisão no lado esquerdo
na membrana timpânica por meio de um
medicamento que enche com o ouvido
médio, atuando 20-30 minutos.” Usam-se
dois medicamentos: gentamicina e cor-
ticosteroides, com mecanismos de ação,
efeitos adversos e resultados diferentes.
São poucas as situações em que é ne-
cessário fazer uma intervenção cirúrgica
maior. Nestes casos, indica, “a segurança
de eliminar a vertigem é de 100%”.
Instabilidade crónica
tem causas múltiplas
Nicolás Pérez, que será preletor tam-
bém numa conferência subordinada ao
tema “Instabilidade crónica”, sublinha que
a contínua instabilidade é “especialmente
irritante” e é um sintoma limitante para o
paciente e a família. “Quando um doente
com instabilidade descreve os seus sintomas
utiliza muitos termos e comparações que re-
fetem a vivência a sua sintomatologia e ex-
periências prévias. Por vezes, são totalmente
equivocadas, porém, noutras, dão a pista
fundamental para o diagnóstico defnitivo.”
As causas de instabilidade crónica são
múltiplas e tocam numerosas especialida-
des médicas, o que obriga a ter que fazer
Implantes ativos
na hipoacusia
neurossensorial
Doença de Ménière e instabilida de crónica
Opinião
Vítor Correia da Silva
Diretor clínico e coordenador do
Serviço de ORL e da Unidade de
Implantes Auditivos do Hospital
CUF Porto
VÍTOR CORREIA DA SILVA
Mais de três décadas de dedicação à surdez
Trabalha em surdez há mais de 30 anos, tendo sido responsável por
uma clínica que prestava assistência a várias instituições de deficientes
auditivos e à reabilitação da surdez.
Iniciou a aplicação de implantes cocleares em 1993, de implantes
osteointegrados em 1996 e de implantes ativos de ouvido médio em 2009.
Desde 2010, com a abertura do Hospital CUF Porto, passou a
trabalhar nesta instituição, sendo o coordenador do Serviço de
Otorrinolaringologia e da Unidade de Implantes Auditivos, a qual
integra otorrinolaringologistas, audiologistas, terapeutas de fala,
psicólogo e geneticista. É ainda o diretor clínico do mesmo hospital.
Neste momento,
existem dispositivos
totalmente
implantados e outros
semi-implantados.
1
1
2
2
1
Canales
semicirculares
Cóclea (audición)
Nervio
Endolinfa
(líquido)
Estribo
Sáculo
Utrículo
EL SENTIDO DEL EQUILIBRIO
Son muchas las partes del cuerpo que
intervienen en el mantenimiento del equilibrio.
Cada una recoge diferente información:
Sistema visual
Localización
en el espacio
Oído
Movimientos y
situación espacial
Piel
Apoyo del peso
Músculos y
articulaciones
Partes del cuerpo
en movimiento
Externo
Medio
Interno
Oído:
El oído interno es
el principal órgano
del equilibrio
Señal al
cerebro
1 AMPOLLAS
Detectan los giros.
Cada una registra
un eje de giro
2 MÁCULAS
Detectan cambios
de posición y
movimientos lineales
16 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
Nicolás Pérez
uma valorização multidisciplinar que inclua
o otorrinolaringologista, o neurologista, o
psiquiatra e o cardiologista, entre outros.
Nicolás Pérez salienta que as repercus-
sões crónicas são, por vezes, mais sérias do
que as causas iniciais. De entre os motivos
mais importantes devem assinalar-se os
que são constantes e que afetam quase 80%
dos doentes com instabilidade continuada
por um período superior a 3 meses.
As causas da instabilidade crónica po-
dem ser divididas em três grupos: 1) doença
vestibular recorrente ou transitória 2) doen-
ça crónica sistémica 3) distúrbio psiquiátrico.
O especialista refere que a vertigem,
a tontura ou a instabilidade são sinto-
mas que podem ocorrer no contexto de
muitas outras doenças ou síndromes. “O
estudo e o diagnóstico feitos em colabo-
ração entre vários especialistas, muitas
vezes coordenados pelo médico de fa-
mília ou internista, é a abordagem cor-
reta. Caso se trate de uma consequência
de uma doença sistémica ou vestibular,
o tratamento da mesma deve ter como
consequência a melhoria do equilíbrio.”
Por outro lado, acrescenta, “se for uma
coincidência de doenças diferentes, terá
de ser demonstrado irrefutável tratá-las
em conjunto”.
Doença de Ménière e instabilida de crónica
Há mais de 10 anos a melhorar a qualidade de vida de todos os que necessitam de cuidados de saúde
auditiva, a MiniSom – empresa do Grupo AudioNova International, líder em soluções auditivas na Europa
com mais de 1100 centros em 13 países, assegura um serviço de excelência e a total satisfação
dos seus clientes.
Com mais de 50 Centros Auditivos, a MiniSom garante:
Os modelos mais recentes de Aparelhos Auditivos
dos melhores fabricantes europeus:
Siemens | Oticon | GN Resound | NovaSense
Uma extensa linha de acessórios para que os utilizadores
de aparelhos auditivos vivam a sua audição com total mobilidade.
60 dias de experiência.
Aconselhamento e assistência a todas as marcas.
Condições especiais na aquisição de equipamentos.
Apoiada na política de proximidade e defendendo que toda a população deve avaliar o estado da sua audição
de forma regular com o intuito preventivo, a MiniSom disponibiliza rastreios auditivos gratuitos em todos
os seus Centros. Até à data, a MiniSom realizou já mais de 237 mil rastreios em todo o país.
NENHUMA PESSOA TEM UMA PERDA AUDITIVA IGUAL À DE OUTRA PESSOA.
NENHUMA EXPERIÊNCIA É IGUAL!
ENTOTO2513
PORQUE NATURAL É OUVIR TUDO.
www.minisom.pt
NICOLÁS PÉREZ
Mais de 20 anos
de investigação
em distúrbios
vestibulares
Nicolás Pérez é, atualmente,
professor e diretor
do Departamento de
Otorrinolaringologia da Clínica
Universidad de Navarra e da
Universidade de Navarra,
em Pamplona, onde ensina
estudantes de Medicina, pós-
doutorados e especialistas em
Otorrinolaringologia. Licenciou-se
em 1985 e fez o doutoramento em
1997, ambos na Universidade de
Navarra.
Faz parte da Sociedade Espanhola
de Otorrinolaringologia (onde
ocupou o cargo de presidente
do Comité de Otoneurologia
da Sociedade Barany) e da
Associação para a Investigação em
Otorrinolaringologia (foi membro
do Comité Internacional). Também
é membro Fellow da Sociedade
de Neurologia Americana e
do Collegium Oto-Rhino-
Laryngologicum Amicitiae Sacro
(CORLAS).
A investigação em distúrbios
vestibulares iniciou-se há mais de 20
anos e já deu lugar a vários artigos
em revistas especializadas, livros
sobre testes vestibulares e acerca da
doença de Ménière, em particular.
Ao longo de sua carreira,
foi mentor de mais de
20 especialistas em
Otorrinolaringologia e pós-
doutorados de Espanha e de
outros países.
Jornal Médico | 17 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
A incidência da patologia auditiva
em saúde pública é muito signifcativa.
Estatísticas europeias e norte-americanas
demonstram que 8 a 10% da população
é portadora de patologia coclear (surdez
e acufenos). Estimativas americanas colo-
cam o custo com as patologias cocleares
no segundo escalão dos custos com doen-
ças do sistema nervoso e órgãos dos senti-
dos, logo atrás da doença de Alzheimer e
muito superior às patologias visuais. Estes
custos elevados são em boa parte devidos
à pouca efcácia dos tratamentos atuais.
Este facto origina a multiplicação de con-
sultas, sucessivas repetições de exames
complementares e mudanças frequentes
de tratamento que, infelizmente, se con-
tinuam a mostrar inefcazes.
Considerando os elevados níveis de
ruído a que a população está exposta,
particularmente as camadas mais jovens
(ear-phones, discotecas, concertos, etc.),
estas estatísticas vão necessariamente au-
mentar. Toda uma geração de defcientes
auditivos está a surgir e ainda mais grave
é o facto de que sta patologia, que hoje
surge por volta dos 60 anos, irá começar
muito mais cedo, aos 35-40 anos.
Fisiopatologia dos acufenos cocleares
Os acufenos são, muito frequente-
mente, consequência de patologia co-
clear, seja devido a doenças do ouvido
(doen ça de Ménière, sequelas de otite e
otite crónica, otoscleros...), ao traumatis-
mo acústico (armas de fogo, discotecas,
ruído industrial, poluição sonora...), ex-
posição a medicamentos ou substâncias
ototóxicas (antibióticos, aspirina, quini-
no, etc.), ou ainda devido à deterioração
do órgão espiral (de Corti) com a idade
(presbiacusia).
Nos últimos anos, provou-se defniti-
vamente que o mediador da via auditiva é
o glutamato e que a transmissão sináptica
é veiculada por recetores do tipo AMPA.
Estes recetores têm como características
permitirem uma transmissão sinápti-
ca muito rápida e serem impermeáveis
ao cálcio. Verifcou-se, também, que os
neurónios da via auditiva estão em ati-
vidade espontânea permanente e que a
estimulação auditiva induz aumento da
atividade dos neurónios e a sincronização
dos disparos de vários neurónios respon-
sáveis pela transmissão da frequência do
estímulo.
Apesar de ainda não serem conhe-
cidas as origens primárias de muitas
doenças do ouvido interno, a surdez e
os zumbidos delas decorrentes são, em
grande parte, devidos à libertação exces-
siva de glutamato, mediador responsável
pela transmissão da informação auditiva
até aos centros nervosos. O excesso de
glutamato induz uma entrada excessiva
de cálcio nos dendritos dos neurónios
auditivos primários, provocando edema e
até rutura desses dendritos.
A maioria destes neurónios em sofri-
mento consegue recuperar e restabelecer
sinapse com as células sensoriais, enquan-
to outros, devido à perda da homeostasia
do cálcio, acabam por morrer. Este fenó-
meno é conhecido por excitotoxicidade e
está implicado na surdez, por exemplo,
do traumatismo acústico e da isquemia.
Na cóclea observou-se a presença de
recetores glutamatérgicos NMDA que, no
entanto, não têm qualquer função na trans-
missão ao longo da via auditiva. Estes re-
cetores caracterizam-se por serem perme-
áveis ao cálcio. Em animais de experiência
expostos a situações patológicas, tais como
traumatismo acústico e isquemia transitó-
ria, verifcou-se que, durante o processo de
regeneração das fbras após excitotoxicida-
de, existe sobre-expressão destes recetores
na sinapse entre as células ciliadas internas
e o primeiro neurónio da via auditiva.
Com base nesta constatação, é ra-
zoável pensar que a “desregulação” da
transmissão sináptica, provocada pela
excitotoxicidade, possa estar na origem
de alguns acufenos. Em particular, pensa-
mos em tudo o que se tem escrito sobre
o papel dos recetores NMDA na génese da
atividade elétrica, na epilepsia. A hiper-es-
timulação ou a sobre-expressão destes re-
cetores poderia dar origem a respostas de
tipo epilético, na via auditiva, que seriam
interpretadas, a nível cortical, como sons
“espontâneos”. Por outro lado, os neuró-
nios com excesso de recetores NMDA são
também muito mais sensíveis à excitotoxi-
cidade, criando-se um “ciclo vicioso” que
levaria à eternização do fenómeno.
Esta teoria explicaria, ainda, a migra-
ção do zumbido ao longo da via auditiva,
que justifca a manutenção do zumbido
após a secção do nervo auditivo. Sendo
uma via glutamatérgica, a atividade epi-
lética do primeiro neurónio provocaria
libertação excessiva de glutamato sobre
o segundo neurónio que, na fase de re-
generação, também sobreexprimiria re-
cetores do tipo NMDA que, por sua vez,
facilitariam a atividade de tipo epilético e
induziriam mais excitotoxicidade, agora
ao nível do segundo neurónio. Assim, de
forma sucessiva, este fenómeno iria atin-
gindo as diferentes sinapses até chegar ao
córtex auditivo.
Esta pista da “epilepsia do nervo au-
ditivo” permite explicar alguns acufenos e
abre perspetivas terapêuticas em torno da
farmacologia da sinapse glutamatérgica,
que poderá ser aplicada ao homem quan-
do a terapia local estiver devidamente de-
senvolvida.
Quer num modelo de hiperatividade
auditiva induzida pelo ácido acetilsali-
cílico, quer em modelos experimentais
de traumatismo acústico e de isquemia
coclear, foram já testadas substâncias
suscetíveis de normalizar a atividade das
fbras do nervo auditivo em situações
patológicas, com resultados muito enco-
rajantes. Estes resultados foram obtidos
com bloqueadores dos recetores NMDA,
mas também com moléculas antiglutama-
to utilizadas em doenças degenerativas do
SNC (esclerose lateral amiotrófca, Alzhei-
mer...) ou na epilepsia.
Outro campo de estudo focaliza-se
nas substâncias inibidoras e moduladoras
libertadas na cóclea pelo sistema eferente
lateral, tais como encefalinas, dopamina
e o GABA. Estas substâncias teriam como
função estabilizar os neurónios, impedin-
do-os de responder à hiperestimulação
provocada pelo excesso de glutamato e
também cortar o ciclo vicioso descrito
acima. Utilizando fármacos agonistas dos
recetores destas substâncias, poderemos
interferir no estado de “irritabilidade”
dos neurónios, interrompendo o ciclo
vicioso que está na génese dos acufenos.
Lembre-se o facto de as benzodiazepinas,
largamente utilizadas na epilepsia, serem
agonistas GABAérgicos.
Aplicações clínicas
O principal obstáculo que se tem
colocado à utilização em ensaios clínicos
de substâncias suscetíveis de normalizar
a atividade das fbras do nervo auditivo
deve-se aos seus efeitos secundários so-
bre o sistema nervoso central, quando
utilizadas por via sistémica. Por exemplo,
os antagonistas do glutamato são conhe-
cidos pelo seu efeito sobre a memória e
a aprendizagem. A comercialização de
dispositivos que permitam, no Homem,
a administração direta de fármacos no
ouvido interno (através da janela cocle-
ar ou redonda) possibilitará a realização
de tratamentos locais em doses muito
baixas, evitando os efeitos secundários
centrais.
Neste momento, estão já a ser rea-
lizados estudos pré-clínicos com vários
fármacos, utilizando dispositivos implan-
tados na janela coclear (redonda), em
animais. Estes estudos têm como objetivo
selecionar os dispositivos e as moléculas
mais efcazes e avaliar o grau de difusão
para o líquido cefalorraquidiano e a toxi-
cidade a longo prazo.
A terapia local utilizando dispositivos
e fármacos perfeitamente estudados, diri-
gidos a alvos específcos na cóclea, consti-
tuirão uma arma fundamental na otologia
do futuro.
Acufenos: da fisiologia ao tratamento
Nuno Trigueiros Cunha
Serviço de ORL do H. Pedro
Hispano, Matosinhos.
Coordenador do Serviço de ORL
do Hospital Escola de Gondomar –
Univ. Fernando Pessoa
Opinião
NUNO TRIGUEIROS CUNHA
Médico é professor
e investigador
Nuno Trigueiros Cunha nasceu
no Porto em 1962. Licenciou-se
em Medicina na FMUP, em 1986.
Em 1996, fez provas de Aptidão
Pedagógica e Capacidade
Científica (equivalente ao grau
de Mestre) na FMUP – disciplina
de Anatomia Clínica. Concluiu o
doutoramento em Medicina, na
mesma instituição, em 2009.
Fez o internato geral (1987-1988)
e o internato complementar
de ORL (1989-1994) no Hospital
Geral de Santo António (HGSA).
Entre 1994 e 1996, desempenhou
funções como assistente de ORL
(1994-1996) no HGSA e, entre
1996 e 2003, no Hospital Pedro
Hispano, em Matosinhos.
Atualmente, é médico especialista
e assistente graduado de ORL
no Serviço de ORL do Hospital
de Pedro Hispano e perito de
ORL em Doenças Profissionais
do Centro Nacional de Proteção
Contra os Riscos Profissionais.
É professor de
Otorrinolaringologia na
Universidade Fernando Pessoa,
coordenador do Serviço de ORL
do Hospital Privado de Alfena e
do Hospital Escola de Gondomar.
Tem participado em vários
projetos de investigação ao longo
das últimas duas décadas.
Foi presidente da Comissão
de Otologia da Sociedade
Portuguesa de ORL, de 2010
a 2013 ( junho).
Esquema da sinapse entre a célula ciliada
interna (IHC) e o neurónio. AMPA, NMDA
e metabotrópico são diferentes recetores
do glutamato (glu), que é o mediador
desta sinapse. Adaptado de “Em torno da
cóclea” CRIC 2003.
Esquema representando as alterações morfológicas e eletrofisiológicas dos processos
de excitotoxicidade e regeneração secundários ao traumatismo acústico. Adaptado de
“Em torno da cóclea”, CRIC 2003
Esquema representando o aparecimento
de acufenos após traumatismo acústico e
que é secundário á disfunção da sinapse
entre a célula ciliada interna e o neurónio
auditivo. Adaptado de “Em torno da
cóclea”, CRIC 2003.
Esquema representando os neurotrans-
missores envolvidos no complexo sináp-
tico célula ciliada interna-neurónio-fibra
eferente lateral. Adaptado de “Em torno
da cóclea”, CRIC 2003.
18 | Jornal Médico novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
C
M
Y
CM
MY
CY
CMY
K
ANUNCIO JORNAL NOV.pdf 1 11/27/13 5:44 PM
O oxigénio encontra-se classifcado
pelo Infarmed no Grupo 5 (aparelho
respiratório) e no Grupo 20.4 (gases me-
dicinais), referindo-se que “é um agente
terapêutico com indicações precisas”. Se
nos cingirmos ao conceito de surdez e ao
comportamento do oxigénio enquanto
medicamento, fcamos apenas com a sua
utilização terapêutica na surdez súbita neu-
rossensorial, em ambiente hiperbárico.
No entanto, o estudo do oxigénio
enquanto agente envolvido em diversas
patologias associadas à surdez (geralmen-
te por se encontrar defcitário) permite-
-nos identifcar potenciais utilizações te-
rapêuticas, em alvos específcos, para o
oxigénio.
Vamos considerar exemplos de pato-
logias que podem ilustrar esta afrmação:
1 - A otite média crónica com efusão
(OME) é das principais causas de surdez nas
crianças. Ainda hoje se discute o mecanis-
mo fsiopatológico subjacente ao desenvol-
vimento desta patologia, sendo a presença
de bioflmes na efusão uma evidência.
Quando, em 1998, surgiu a pergunta “Is
oxygen an antibiotic”, na revista Lancet, a
questão não se fcou pela patologia intesti-
nal, antes alastrou a todas áreas anatómicas,
permitindo-nos a colocação das seguintes
dúvidas, no que à OME diz respeito:
Será que a hipoxia crónica tem um
papel fsiopatológico importante?
O oxigénio atua como antibiótico?
Será que a decisão do otorrinolarin-
gologista em colocar tubos de ventilação
transtimpânica é uma forma de oxigeno-
terapia?
A ventilação/oxigenação da mucosa
da caixa do tímpano durante 6 a 12 meses
é que permite a cura do processo infama-
tório crónico?
Por que é que após esse período não
há produção exagerada de muco pela
mucosa da caixa?
2 – A presbiacusia é a principal
causa de surdez em indivíduos idosos.
Caracteriza-se pela existência de altera-
ções histopatológicas no ouvido interno
e no nervo coclear e, funcionalmente,
pela diminuição da acuidade auditiva. O
início desta patologia verifca-se na 5.ª
década de vida e é considerada como de
etiologia multifatorial. De entre as várias
hipóteses colocadas para explicar a sua
fsiopatologia, a mais aceite é a de que,
com o envelhecimento, ocorra um estado
progressivo de hipoperfusão do tecido
coclear, levando à isquemia e à formação
de radicais livres, que são altamente tóxi-
cos e nocivos para o neuroepitélio audi-
tivo. Estes radicais livres causam lesão do
DNA mitocondrial, levando então ao apa-
recimento de mutações nas mitocôndrias
e à redução do potencial de membrana
mitocondrial. O resultado fnal consiste
na formação de mitocôndrias bioenerge-
ticamente inefcientes.
Com técnicas de reação de cadeia de
polimerase (PCR) para análise do DNA
mitocondrial, verifcou-se um aumento
da incidência de deleções em indivídu-
os com presbiacuusia. A causa provável
desta mutação mitocondrial é a hipooxia
coclear, devido ao processo de envelheci-
mento do organismo.
Mais uma vez parece que o papel da
hipoxia tecidular é determinante no esta-
belecimento da patologia, legitimando o
raciocínio de que o tratamento da mesma
poderá passar pela “reoxigenação” do te-
cido doente.
3 – A surdez súbita tem como hi-
póteses justifcativas a etiologia vascular,
viral, autoimune ou rotura de membra-
nas. O estudo histopatológico de ossos
temporais de indivíduos que tiveram sur-
dez súbita evidenciou uma estria vascular
com acentuada atrofa em todas as espiras
e uma grande perda de neurónios coclea-
res, nas espiras basais. Há uma maior per-
da dendrítica do que de axónios centrais.
O órgão de Corti está ausente na maior
parte da espira basal, estando intacto na
espira apical, o que justifca a perda au-
ditiva nas frequências agudas e a conser-
vação da audição nas frequências graves,
comum nestes doentes. Neste caso, a
interpretação pode ser feita linearmente,
com base na hipoxia como fator deter-
minante da patologia (independente da
causa da mesma) ou numa interpretação
“de trás para a frente”, em que o oxigénio
administrado em ambiente hiperbárico é
comprovadamente útil no tratamento.
Para além destes exemplos, a revisão
dos mecanismos de algumas doenças e
dos tipos de tratamento preconizados
permitir-nos-ão verifcar da importância
da hipoxia enquanto noxa para a surdez
e do oxigénio enquanto potencial agente
terapêutico.
A importância do 0
2

na etiologia e
tratamento da surdez
Opinião
Paulo Vera-Cruz
Professor auxiliar convidado da
Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade Nova de Lisboa
PERFIL
Paulo Vera-Cruz
Licenciado em Medicina pela
Faculdade de Ciências Médicas
da UNL, em 1994, Paulo Vera-
Cruz especializou-se em
Otorrinolaringologia no Hospital
de S. José, em Lisboa, em 2002.
Em 2009, doutorou-se em
Ciências Médicas pelo Instituto
de Ciências Biomédicas de Abel
Salazar, no Porto. Foi chefe do
Serviço de Otorrinolaringologia
do Hospital da Marinha, entre
2005 e 2012.
Sábado – 30 de novembro
8.30h Abertura do Secretariado
9.00h Comunicações livres
Presidentes: Bordalo Matias, José Gama,
José Bastos, José Romão
10.30h Conferência
Presidentes: V. Gabão Veiga, A. Maia
Gomes
Malformações congénitas no ouvido
médio e externo – fisiopatologia,
clínica e reabilitação
Miguel Coutinho
11.00h Conferência
Presidentes: J. Marta Pimentel. José
Saraiva
B.A.H.A – Indicações e evolução
tecnológica
António Alves, Sofia Paiva
11.30h Pausa para café e visita a
exposição técnica
12.00h Conferência
Presidentes: Eurico Monteiro, Carlos
Alfaro
Reconstrução ossicular – resultados
funcionais
Carla Pinto Moura
12.30h Cerimónia de Abertura
13.00h Almoço
14.30h Conferência
Presidentes: Artur Condé, Luís Antunes
Implantes ativos na hipoacusia
neurossensorial
Vítor Correia da Silva
15.00h Conferência
Presidentes: Leão Meireles, António
Miguéis
Implantes cocleares
Luís Filipe Silva
15.30h Conferência
Presidentes: Rosmaninho Seabra, Pedro
Tomé
Doença Ménière – Actualizacíon
16.00h Conferência
Presidentes: Nelson Gama, Vítor Correia
da Silva
Estapedectomias/Estapedotomias
Pedro Tomé
16.30h Pausa para café e visita a
exposição técnica
17.00h Mesa-redonda
Presidentes: Carlos Carvalho, Fausto
Fernandes
Timpanoplastias: métodos de
reconstrução e resultados
Moderador: Nuno Trigueiros
Panelistas: António Alves, Jorge Quadros,
Luís Roque Reis, Miguel Coutinho, Nuno
Oliveira
18.30h Workshop Amplifon
Soluções especiais em reabilitação
auditiva
Celso Martins
20.30h Jantar de encerramento
Domingo – 1 de dezembro
9.00h Comunicações livres
Presidentes: Jorge Sobral, Lima Gouveia,
Carla Moura, Paulo Ribeiro Silva
10.30h Conferência
Presidentes: Delfim Duarte, Abílio
Leonardo
A importância do O
2
na etiologia e
tratamento da surdez
Paulo Vera-Cruz
11.00h Conferência
Presidentes: Rosa Farinha, Arnaldo
Guimarães
Inestabilidad crónica
Nicolás Pérez
11.30h Pausa para café e visita a
exposição técnica
12.00h Conferência
Presidentes: António Paiva, Diogo Portugal
Crenoterapia na patologia auricular –
resultados
Sousa Coutinho
12.20h Conferência
Presidentes: Carlos Pinheiro, Felisberto
Maricato
Acufenos – da fisiopatologia à
terapêutica
Nuno Trigueiros
13.00h Encerramento
Programa
Convidado de
Honra
Manuel Rodrigues e
Rodrigues
Convidado
estrangeiro
Nicolás Pérez |
Espanha
Comissão de
Honra
Dr. Almeida
Henriques
Presidente da
Câmara Municipal
de Viseu
Dr. José Manuel
Tereso
Presidente ARS
Centro
Dr. Ermida Rebelo
Presidente do
Conselho de
Administração do
CHTV
Dr.ª Alexandra
Guedes
Adjunta do Diretor
Clínico do CHTV
Prof. Doutor José
Manuel Silva
Bastonário da
Ordem dos
Médicos
Dr. Artur Condé
Presidente do
Colégio da
Especialidade de
ORL-CCF da OM
Presidente de
honra
J. Cabral Beirão
Presidente
SPORL-CCF
Carlos Ribeiro
Presidente da
Reunião
J. Marques dos
Santos
Comissão
Organizadora
António Alves
Canas Marques
Filipe Rodrigues
Gabriel Pereira
Magda Rocha
Raul Amaral
Richard Nunes
Sérgio Raposo
Vera Soares
Secretariado
Executivo:
Veranatura
Jornal Médico | 19 novembro 2013
Especial Reunião SPORL-CCF Núcleo do Centro
ENF-VH / ENF-V3
ENF-VH Video-rino-laringoscópio HD 1080
ENF-V3 Video-rino-laringoscópio pediátrico 2,6mm de diâmetro
NBI (Narrow Band Imaging) Diagnóstico precoce do cancro da laringe
DIEGO ELITE
®
Sucursal em Portugal - Apartado 23341 – EC Graça Lisboa – 1171-801 Lisboa Tel. (+351) 217 543 280 www.olympus.pt
Para receber mais informações contacte com: oes.marketingendo@olympus.es
SEE & TREAT
Imagen modo NBI
Novo conceito de motor de cirurgía endoscópica
Corte mecânico e coagulação mono e bipolar no mesmo terminal

Interesses relacionados