Você está na página 1de 140

ASSASSINATO

EM

NATAL

Diógenes Carvalho Veras

© Veras, Diógenes Carvalho verasjalles@hotmail.com 1ª edição: 2005

Revisão Nivaldete Ferreira nivaldete@yahoo.com.br

Catalogação da publicação na fonte. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Biblioteca Setorial Especializada do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.

Veras, Diógenes Carvalho. Assassinato em Natal / Autor, 2010. 2ª edição. 138 p.

Diógenes Carvalho Veras. – Natal: Ed. Do

1. Ficção brasileira.

I. Título.

Grande do Norte.

2. Romance policial.

3. Literatura do Rio

UFRN / UF / BSE – CCHLA

CDD 869.3 CDU 821.134.3(81)-3

ÍNDICE

I

- UM CRIME

5

II - A PRIMEIRA SUSPEITA

13

III - UMA CONVERSA INTERESSANTE

25

IV - CONFISSÃO INESPERADA

35

V - UM QUEBRA-CABEÇAS

51

VI

- A FILHA DA VÍTIMA

61

VII

- A VIZINHA DEFICIENTE

71

VIII - O DETETIVE SILVA EM AÇÃO

83

IX

- SEGUINDO UMA PISTA

93

X - UMA REVELAÇÃO

103

XI

- JUNTANDO AS PEÇAS

109

XII

- A CAÇADA

123

Em memória de José, Lourenço, Ginuca e Cristina

I – UM CRIME

Era princípio de noite quando o motorista do Renault Clio manobrou devagar fazendo com que os pneus dianteiros do veículo espremessem ruidosamente a piçarra da estrada. Em seguida, o automóvel estacionou numa ampla garagem e os faróis foram apagados. Depois, o motor calou-se e, ao longe, o lamento de um cão varou a natureza noturna que se preparava para dormir. Soprava um vento suave no instante em que o condutor saltou do veículo. O vulto caminhou apressadamente em direção à casa ao lado. Parecia ligeiramente nervoso quando chegou ao primeiro dos

quatro degraus que o levariam ao terraço onde estava a porta da entrada. Porém, estacou subitamente, como se houvesse escutado algo incomum,

e retesou-se um pouco na expectativa de apurar a audição. Nenhum

som lhe chegou ao ouvido e, passados alguns segundos, desistiu e tornou a caminhar, subindo rapidamente os degraus restantes. Enquanto galgava a pequena escada de madeira, ainda teve tempo de pensar sobre o que havia despertado a sua atenção. Imaginou que talvez o que ouvira fora nada mais do que os passos de algum animalzinho escondendo-se entre as plantas do jardim ao redor da casa. Ou quem sabe pudesse ser um pássaro tardio em busca da densa copa de uma árvore, a fim de abrigar-se dos predadores noturnos ou da chuva que parecia anunciar-se. Fosse o que fosse, não deu importância. Irrompeu porta adentro, tempestuoso como um golpe de vento, a cara aborrecida, batendo atrás de si a grossa chapa de ipê. Sem demora, gritou:

- Eu já disse que não queria ver aquela mulher em minha casa! Essa desocupada insiste em vir aqui! Não passa de uma sem-vergonha,

é isso o que ela é! Sua bateria de reclamações não tinha alvo certo e se dirigia a quem pudesse escutar-lhe. Logo, uma jovem de grandes olhos negros apareceu na sala, vinda de seu quarto. Trajava um pijama rosa claro e tudo indicava que estaria a ponto de deitar-se para dormir, embora não passasse das oito da noite. A moça tratou de fechar a janela da sala para que as duas únicas vizinhas, que moravam na casa ao lado, não escutassem aqueles gritos.

5

Depois, aproximou-se do pai no intuito de acalmá-lo. Melquíades era um homem alto e magro como uma vara de pescar. Assomava-lhe na pele uma cor pálida que incrivelmente realçava seus cabelos negros e lisos. Naquele momento, entretanto, mudou de cor e sua face transtornou-se de raiva. Andava pelos

sessenta, mas ninguém diria que carregava essa idade, ainda que sua fisionomia, um pouco triste, denotasse o passar dos anos.

- tentou

argumentar na esperança de estancar sua ira. O pai interrompeu-a.

- Não quero explicações! – gritou colérico. Por que defende essa

megera dessa forma? Será que está de acordo com o que ela faz? Então

eu chego para trabalhar em meu escritório e as pessoas estão comentando à boca pequena que eu faço isso ou aquilo, ou que eu deixo de fazer assim ou assado! Meus próprios empregados estão me olhando enviesado! E se não são essas duas aí do lado que estão espalhando mentiras e calúnias, eu quero morrer hoje mesmo!

- Mas papai, ela só vem conversar com a mamãe e na maioria

das vezes nos ajuda quando precisamos.

- Não é o que você está pensando, papai, ela veio aqui

- Não! – gritou. Você está totalmente enganada! O que ela quer

é saber da minha vida para depois fofocar por aí, onde lhe der na telha.

Ainda bem que a outra é deficiente, senão seriam duas fofoqueiras bisbilhotando. Além do mais, não sei o que é que se está precisando por aqui que eu não possa oferecer! - Mas papai - E não me venha com mais nem menos – interrompeu-a bruscamente. E ameaçou, os olhos esbugalhados enquanto berrava: eu já disse e vou repetir, se eu vir essas faladeiras mais uma vez em meu jardim, expulso as duas, sem qualquer cerimônia, e todos aqui estão proibidos de recebê-las!

A pequena tentava acalmá-lo de todas as formas, sentindo, em

seu interior, que pouca estrada lhe restava, se insistisse nesse caminho.

O dono da casa parecia ensaiar uma dança coreografada dando

voltas pela sala como se buscasse por algum lado um sentido para justificar a ira que lhe espetava a razão. Os sapatos negros batucavam no solo de madeira enquanto ziguezagueavam sobre ele.

A filha magricela e pequena não se atreveu mais a enfrentá-lo,

6

embora tivesse gana de dizer-lhe algo, ou de tentar demovê-lo daquela idéia que a ela parecia absurda. Mas em seu íntimo não atinava com uma ideia capaz de desmanchar o nó. Havia saído à mãe no temperamento calmo e apaziguador, de modo que sua natureza forçou-a

a se calar. Em pé num canto da sala, sentia-se tal qual uma estátua de mármore exposta num museu, um olhar vago no espaço vazio. Ficou assim durante uns bons minutos. Enfim, retirou-se para outro lado da sala onde não pudesse sentir

o peso da figura paterna. Não podia compreender a imensa raiva que o

pai destilava nas vizinhas, e que já não conseguia esconder de ninguém.

Para trás tinham ficado os anos de convivência pacífica entre os

moradores de ambas as casas. É certo que continuavam habitando lado

a lado, mas agora se edificara uma espécie de muro de Jerusalém,

apartando os dois territórios. Tentando enxergar a situação através de outro ângulo, Rosalva tampouco compreendia, no caso de o pai ter razão, o que haveria levado as duas senhoras a falarem mal dele. Se antes tudo era amizade entre as famílias e o pai não se cansava de elogiar as vizinhas, de onde haveria partido a faísca da discórdia? Em tempos passados eram somente bonanças. Sua voz jamais havia se alçado contra elas, em vez disso as queria e as tratava muito bem, como se fossem parentas a quem devia respeito. Não! Havia algo de errado separando-os. Algo podre fedia entre eles – imaginou. Seu pai não enlouquecera e aquele desentendimento não germinara do nada. Alguma forte razão explicaria o comportamento do pai, e ela tinha de descobrir o que o provocara, antes que fosse tarde demais. Pensava agora nas duas idosas ao lado, aparentemente indefesas,

e que viviam no aconchego frugal de sua casa. É certo que desde que passara de menina a adolescente, e logo a jovem, diminuíram as frequentes visitas. Mas havia se enraizado um tratamento cordial entre as duas famílias. Eram “bons dias, boas tardes e boas noites” ou “oi, como vai?” - palavras que habitualmente diziam entre si, durante anos de harmonia. “Não posso entender o que houve!”, remoia Rosalva, sem dar com a resposta ao enigma. Enquanto tais pensamentos e incertezas povoavam sua mente, a mãe jantava solitária na cozinha. Tinha ouvido o marido assomar-se à

7

casa daquela maneira, justamente enquanto mastigava o jantar. Então havia se aquietado tal qual o transeunte que, surpreendido pelo

temporal, se posta imóvel sob o abrigo de um teto, à espera de que cesse

a enxurrada. Estava resolvida a ficar assim, quieta, até que tudo amainasse. Apenas mexia a boca, e com um cuidado tal que não pudesse revelar ao “inimigo” a sua presença ali. Logo se fez silêncio e, por um breve momento, apenas o urro do vento forçado nas persianas foi ouvido naquela casa de aspecto rural. Nenhuma palavra. Pelo contrário, tudo era calma e serenidade, somente

o assovio do ar penetrando pelas frestas preenchia o espaço. Vistas da estrada que as circundava, as duas construções fundiam-se como partes integrantes daquela paisagem bucólica. E embora as grossas paredes de cantos arredondados revelassem certa pujança e rigidez, seus tijolos antigos apresentavam uma cor amarelada, em sinal do largo passo do tempo. Parecia que o telhado, de um vermelho desbotado, se arqueara pouco a pouco sob a carga da intempérie. As árvores, que haviam crescido amoldando-se ao contorno das casas, projetavam frondosas sombras, envolvendo-as num manto escuro. Destoava de tudo a grama crescida rodeando as casas como um tapete verde e que servia de pasto a algum gado solto. Embora as casas estivessem situadas nos arredores da cidade de Natal e a três quilômetros do bairro periférico mais próximo, o comércio de Melquíades localizava-se no outro extremo da cidade, num modesto armazém perto do cais e dedicado à exportação de fardos de algodão cru e tecidos. De repente, o comerciante havia voltado à carga. O vulcão estava despejando lava outra vez e, como ferventes gotas lançadas ao vento, suas palavras podiam queimar as pessoas.

- Só o que me faltava agora era uma velha rabugenta que falasse de mim pelas costas e, ainda por cima, tendo a ousadia de vir aqui catar fofocas para sair espalhando por toda a Natal – desabafou. Não deve ter

o que fazer o dia todo! Ela que não me repita mais essas falsidades

sobre minha pessoa ou quem quer que seja desta casa. Posso processá-

la e o seu lugar será atrás das grades. Enquanto vivo for, aqui ela não

bota os pés! Após bradar tal lei aos quatro ventos e se dando conta de que a

8

filha já nada lhe dizia, seus nervos voltaram a se acalmar pouco a pouco, fazendo-o calar-se. Ainda ensaiou algumas voltas, indo e vindo dentro da sala para, em seguida sentar-se no largo sofá de tecido escuro. Poucos móveis adornavam aquela sala. Havia uma estante de madeira antiga em estilo barroco, talvez herança familiar e que ficava justamente em frente ao sofá. A decorá-la, algumas peças de porcelana branca, como um grande ganso nadando num lago. Também havia um par de castiçais de prata com quatro bocais cada, com velas azuis meio gastas. Porta-retratos e vasos de vidro de diversas cores enfeitavam as prateleiras. Detrás do sofá, a pelo menos dois metros e encostado à parede, um aparador em madeira de lei impunha certo respeito. Sobre ele um enorme espelho belamente emoldurado. Nas laterais da sala distribuíam-se várias cadeiras de diferentes aspectos, em madeira de boa qualidade. Uma delas era de balanço e forrada em palhinha trançada. Sob todas elas, estendia-se um colorido tapete com motivos árabes. Das paredes pendiam harmoniosos quadros evocando paisagens rurais e, velhos retratos de família. Retesado no sofá, o corpo de Melquíades transpirava aos pingos

e denotava cansaço. A camisa empapada, o rosto exausto depois de um dia inteiro de árdua batalha com a clientela. Seus compridos dedos colheram um cigarro do bolso. Acendeu-

o lentamente e nuvens de fumo saíram de suas narinas e espalharam-se pelo ambiente. A filha aproximou-se, olhando-o expectante e, tossindo baixinho, caminhou até à escada da sala. Pé ante pé, a moça galgou os degraus de volta ao seu quarto, no primeiro andar. Já estava passada com tantas grosserias do pai. Sempre que ele exalava álcool, tornava-se insuportável em casa e, até que não arrumasse confusão com a mãe ou com alguns dos filhos, não dormia satisfeito. Na intimidade da suíte, Rosalva chorou profundamente durante alguns minutos, até que não escutou mais qualquer lamento brotando de seu próprio coração. Então recordou que o pai, sempre bom e carinhoso com a família, se dera a mudanças depois que começara a beber diariamente após largar o trabalho. Embora na rua, na loja ou aos olhos de todos, ele continuasse a ser o mesmo homem de poucas palavras e gestos cordiais, pensou.

9

Refazendo-se pouco a pouco, sentou-se na ponta da cama em frente ao espelho de sua cômoda e, vendo-se nele, enxugou os olhos vermelhos. Parecia estar decidida acerca da resolução que havia tomado naquele exato momento. Sim! Daria um jeito em sua sofrida existência. Poria em prática um plano que não a fizesse penar mais, já que não era possível continuar aguentando aquela situação. Definitivamente bateria o martelo, dando um basta em sua torturada existência. Passaram-se cinco minutos de mortal silêncio dentro da casa sem que nenhum membro da família ousasse interromper aquele mudo estado de coisas. Aparentemente, agora reinava a paz. Na cozinha ainda fedorenta a sangue de boi, a esposa de Melquíades levantou-se lentamente, evitando qualquer ruído que pudesse atrair a veia falante do marido e, após mastigar o último pedaço de pão, amolecido por um gole de café, engoliu-o rapidamente. De alguma forma ela havia se acostumado com as agruras do amuado esposo. Não sabia por quanto tempo mais haveria de suportar aquela situação ruim, que se enroscava em sua vida como o arrocho de uma sucuri faminta. Tentaria reagir como uma bomba-relógio soando os últimos tique-taques antes da explosão. O fato é que por mais um dia havia permanecido ali todo o tempo esperando que seu homem, enfim, abrandasse sua ira. Tentando esquecer tudo aquilo, deu meia volta no corpo e pôs a louça suja sobre a bancada da pia. Olhou através da pequena janela que separava a cozinha do quintal, e viu o filho pequeno brincando. Por ele e pela filha seria capaz de qualquer coisa. – pensou. Voltou-se sem pressa e ajeitou a cadeira da mesa sem fazer qualquer barulho, começando por pensar que o pior daquela noite estava prestes a acabar. Refletiu durante um bom tempo. E saindo do que parecia ter sido um pesadelo, cruzou a soleira da porta que dava acesso ao quintal, refrescando-se na suave noite. O melhor agora seria desanuviar a mente e esforçar-se por se sentir melhor. Mais tranquila, experimentou um momento de paz. Viu as roupas estendidas no varal e decidiu prevenir-se contra as surpresas do mau tempo recolhendo as que estivessem secas. Depois iria dormir. - Onde está papai? – interrompeu a voz aguda da criança.

10

No espírito da mulher brotou uma ligeira preocupação.

O pequeno havia dado conta da presença da mãe e perguntava-

lhe algo que ela preferia não responder.

- Mamãe, onde está papai? – tornou o menino. Roberto tinha onze anos e sua voz era aguda como um apito. Agora não havia como calar-se. - Na sala – a mãe respondeu baixinho.

- Papai! - chamou através da porta da cozinha, enquanto

afastava-se dela. Osla sentiu um ligeiro sobressalto. Não ouvindo qualquer resposta, o garoto pôs-se a chamar mais

alto:

- Papai, onde você está? Por qualquer razão, Melquíades não se havia dado ao trabalho de responder. Então o menino esperou um pouco e gritou o mais alto que pode:

- Papai! Sua voz ressoou estridente. Como não escutasse nada de volta, agarrou seu brinquedo e correu até à sala, estacando quando o viu no sofá, dormindo tranquilamente. Roberto acercou-se por detrás tentando não ser visto e pensando

em pregar um susto no pai. Mas enquanto tocava-o, sua mente arguta o fez lembrar-se da forma como o pai tratava mal a todos ali nas várias ocasiões em que chegara em casa ultimamente. Desistiu da brincadeira. Ele não era mais qualquer criancinha e compreendia perfeitamente a culpa da bebida. Chegou a imaginar que talvez aquele homem que ele observava agora não fosse mais o seu velho pai. Apreciando-o, calculou que provavelmente estivesse dormindo porque bebera outra vez. Sentiu-se imensamente triste. Demorou-se certo tempo imaginando todas estas coisas e, quando voltou a si, olhava para o pai de forma estranha. Melquíades estava sentado, a cabeça pendida e mergulhado num profundo sono.

O pequeno olhou também para sua própria mão e percebeu que

estava manchada com tinta vermelha. Talvez devido a algo em que tocara lá no quintal, mas não atinava o que era. Imaginou também que

o pai podia estar muito cansado e que não queria conversar.

11

Fitando melhor a figura paterna viu que a sua cabeça pendia de forma estranha, e dando uma volta ao redor do pai percebeu um tênue fio vermelho gotejando continuamente de sua boca e manchando o tecido do sofá. Era uma cena esquisita para seus pequeninos olhos. A curiosidade o movia. Chegou mais perto e ficou meio minuto estudando-o naquela posição bizarra. Sem entender muito bem o que

havia acontecido, voltou-se instintivamente. De repente, invadiu-lhe um medo voraz. Atravessando o corredor às carreiras, voltou à cozinha

e pressentiu que algo ruim tragara o pai. Enquanto lavava as mãos manchadas, seu cérebro inexperiente

alertou-o de que algo fora do comum ocorrera. Então sua voz aguda ecoou, agora por todos os espaços da casa, suplicando pela mãe.

- Mamãe, mamãe! Onde estava a mãe? Nem ao menos a irmã, de quem gostava muito, viera em seu socorro. A porta dos fundos estava fechada e compreendeu que a mãe devia ter passado por ali. Abrindo-a, balbuciou algumas palavras ao vê-la segurando as peças de roupas

tiradas do varal, o olhar aterrorizado. Instantaneamente a mulher jogou as roupas ao solo e abraçou o filho. Em seguida, correu quase aterrorizada até onde supunha estar o marido, temendo o pior. Quando

o viu, soltou um grito de pavor. Na sala, onde não houve resposta aos seus gritos, ela distinguiu uma faca cravada na nuca do marido. Os olhos de Melquíades estavam fechados para sempre e o corpo sem vida já não respirava.

12

II – A PRIMEIRA SUSPEITA

No dia seguinte, os acontecimentos fúnebres transcorreram

normalmente no cemitério Parque e poucos amigos vieram juntar-se aos familiares da vítima. Fechado o caixão após o choro e comoção dos parentes, a polícia deu início às investigações, nomeando o detetive Silva como o encarregado do caso. Naquela mesma manhã ele compareceu, outra vez, à casa onde ocorrera o crime, a fim de entrevistar a viúva. - Eu já lhe disse tudo o que sei, senhor Silva, por favor, não me

peça mais nada

meus nervos estão no fim, depois de tudo o que já

passei. Oh, meu Deus! Por que isso foi acontecer logo comigo? As lágrimas brotaram de seus olhos e correram pela face branca

e úmida em pequenas gotas, como o orvalho da manhã que desliza

suavemente pela folha aos primeiros raios do sol. Retirando do bolso um lenço, a viúva limpou o rosto e depois, num puro gesto nervoso,

acariciou os cabelos dourados em desalinho. Após um minuto em que o policial à sua frente somente a estudava, ela continuou seu rosário de lamentações:

- Ele era um bom marido, sabe? O tipo de homem que se dedica

à sua família. Às vezes bebia, é verdade, se afobava um pouco, mas

logo estava calmo. Eu o compreendia. São coisas da vida! Eu nunca

Qualquer confusão,

nada! Oh! Meu Deus

Eu não entendo o porquê

soube de nada que o desabonasse em seu trabalho

E novas lágrimas irromperam dos cantos de seus olhos de um azul claro e, outra vez rolaram pela face agora sem maquiagem. O detetive Silva tinha menos de trinta anos, era alto e de porte avantajado, como um deus grego. Escutava atento as lamúrias da viúva

enquanto aproveitava para estudar o seu rosto. Então ele pode perceber que, quando a mulher falava, produzia um leve sotaque estrangeiro que

a ele soava engraçado. Os olhos negros e vivos do policial eram

aguçados como uma lâmina de aço e possuíam o poder de raio X. Tinham verdadeiramente a capacidade de desnudar a personalidade do interlocutor. Por alguma razão contida em sua mente, ele achou que as lágrimas da mulher não lhe caiam bem neste preciso momento. Então

13

perguntou outra vez:

- Onde a senhora estava exatamente quando seu filho veio ao

seu encontro?

- Já lhe disse, recolhendo as roupas secas no quintal, pois como

o tempo estava um pouco abafado, pensei que talvez fosse chover.

- E quando passou pela porta da cozinha que dá acesso ao quintal, a senhora deixou-a aberta ou fechada?

Já não me lembro

- Creio que a deixei aberta

mas, espere

bem

cozinha outra vez. O policial considerou um momento e voltou à carga:

Sim, acho que ficou aberta, pois pensava em retornar logo à

- E o que ocorreu a seguir?

- Quando ouvi os gritos do Roberto, desde a cozinha, vi que a

porta estava encostada. De qualquer modo, foi nesse momento em que

o meu filho abriu a porta para me avisar do que tinha visto.

- Significa que a senhora não teria como escutar qualquer ruído que se produzisse dentro da casa?

- Não, penso que não teria. A porta é bem vedada e, além disso,

a janela em cima da pia estava fechada.

- E era normal que a senhora encostasse a porta da cozinha enquanto estava no quintal? – insistiu ele.

costumava deixá-la aberta, eu não poderia fechá-la –

depois pontuou – não há fechadura pelo lado de fora, entende?

- Bem, então quer dizer que, se outra pessoa a houvesse trancado por dentro, a senhora não poderia abri-la?

- Não, não poderia de jeito algum! Em seguida explicou: -existe

uma maçaneta por fora que me permitiria entrar, mas não havia como abri-la caso alguém houvesse passado a chave pelo lado de dentro da cozinha.

- Entendi. E então como explica que a porta estivesse trancada à

chave, segundo a senhora mesma já me disse, quando tentou retornar do

quintal para a cozinha? Silva notou a demora da mulher em responder à pergunta.

- É tudo confuso, eu só escutei os gritos do meu filho e então

tentei abrir a porta e não consegui.

penso que talvez tenha

sido obra de meu filho quando tentava abrir a porta. Talvez tenha

fechado em vez de abrir

- Não, eu

Não sei

14

- Interessante – frisou Silva.

Trataria de perguntar ao jovem mais tarde. Depois disse:

- Portanto a senhora não viu nada até que seu filho abrisse a

porta e avisasse de que havia algo de errado com o seu marido?

- É, foi assim mesmo! – respondeu, evitando encarar o rosto do

policial.

O detetive fez uma pausa, andou tranquilamente de lá para cá e

mudou de tom:

- Seu marido recebeu algum tipo de ameaça?

A esposa respondeu de pronto:

- Em nenhum momento soube de qualquer ameaça com relação

a meu marido.

- E alguém o procurou para propor algum tipo de negócio ou

simplesmente fazer uma proposta?

- Estou segura de que não! Ele me contaria se tivesse recebido.

Enquanto ela enxugava a face com um lenço, Silva rememorava as circunstâncias em que tinha ido parar naquela casa, na noite anterior. Havia sido chamado ao telefone de seu apartamento pelo delegado Paulo, por volta das quinze para as nove da noite. Lembrava-se disso por causa do pequeno relógio digital em sua mesinha de cabeceira. Uma hora imprópria para uma pessoa morrer, pensou assim que soube

do ocorrido. Fazia pouco tempo que havia jantado e se deitara na cama lendo

uma revista semanal. Tinha sido um dia normal para ele como tantos outros e o único fato diferente que lhe havia ocorrido naquele dia tinha sido o latido frenético do cachorro do vizinho pela manhã, acordando-o bem cedo. Algo incomum, havia pensado. Fora essa bobagem, nada mais havia atraído a sua atenção.

O resto do dia voou e, no final, tinha classificado o dia como

tedioso. Em todo caso, um a menos para que chegasse o final do mês. Até que o toque de seu telefone despertou-lhe dessa pequena letargia, quando já relaxara a ponto de largar a revista para dormir. O som do aparelho quase o fez pular da cama. Algum tempo depois, quando se apresentou no distrito, seu chefe repassara-lhe todas as informações disponíveis acerca do sucedido até àquele preciso momento, o que na verdade era muito pouco.

15

Tratava-se do cadáver de um senhor de nome Melquíades. Um médio comerciante da turística Natal, que morava numa antiga residência nos arredores da cidade e que havia sido encontrado sem vida na sala de sua casa, pelos familiares. Alguém lhe espetara um objeto pontiagudo na nuca. Claramente se tratava de um assassinato. Silva supôs imediatamente que o assassino devia ser alguém com muita raiva do morto. O defunto deixara dois filhos: uma garota de dezessete anos, de nome Rosalva, e Roberto, um garoto de aproximadamente onze. Da esposa ainda pouco se sabia. Segundo o delegado e de acordo com o rapazinho que havia descoberto o corpo, como o pai estivesse dormindo no sofá, provavelmente não respondera ao seu chamado. Então indo ter com ele, reparou que havia sangue esvaindo-se de sua boca. Assustado e confuso, correu para avisar a mãe do que acabara de testemunhar. Ela tomou conhecimento do fato quando se encontrava no quintal recolhendo as roupas do varal. A partir daí a narrativa dos acontecimentos passava para o domínio da enlutada que, naquele momento, relatava sua versão ao detetive. Inquirida sobre as relações que mantinha com o marido, ela revelou que os dois casaram-se no exterior quando ele, em viagem de negócios, desembarcou em sua cidade natal. “Tudo aconteceu rápido demais como num caso de amor à primeira vista”, confidenciou ao policial. Então, vieram ao Brasil, já casados, para viver em Natal. E apesar da pequena barreira lingüística, se entenderam muito bem no campo amoroso, até à noite anterior na qual ele foi morto, concluíra chorosa. Conforme averiguaria mais tarde o próprio detetive, ainda que pairasse uma desconfiança inicial, por parte de alguns conhecidos do casal, sobre o comportamento da estrangeira, naturalmente por se tratar de uma mulher calada e que não gostava de se meter com ninguém, o fato é que nunca se ouviu falar de uma briga feia ou mesmo uma discussão pública entre eles. Silva não foi capaz de arregimentar qualquer testemunha que sustentasse uma opinião contrária. Sobre a sua origem, ninguém soubera dizer exatamente de onde ela viera. Pela cor excessivamente branca da pele, os olhos azuis quase transparentes e os cabelos loiríssimos, o detetive julgou que fosse proveniente de algum

16

país do norte europeu. De volta à realidade, ele tornou a observar aquele olhar feminino até certo ponto insondável, a tempo de reparar numa pequena ruga de

preocupação em seu rosto alvo e que não se encaixava com o que sucedia no momento. Não tolerava julgamentos precipitados, mas, por alguma razão, aquela mulher não lhe inspirava confiança. Pensou um pouco e resolveu inquiri-la uma vez mais:

- E onde estava sua filha quando a senhora descobriu o corpo?

- Em seu quarto, a pobre! – disse tristemente.

- Está segura do que diz? -Por favor, pare, detetive! – parecia inconsolável. Compreenda

Trata-se de meu marido que, até bem pouco tempo, estava vivo e,

, incontido – não posso

Silva inspirou uma grande lufada de ar e levantou os olhos em direção a uma janela onde havia uma cortina. Era bonita e simples. Passado um instante, voltou-se para a interrogada. Alimentava

agora

eu não o tenho mais! – Tinha a voz embargada pelo choro

nada

esperanças de poder seguir com suas perguntas, mas, por acreditar que talvez não pudesse arrancar-lhe nada mais, resolveu mudar a tática.

- Está bem! Vou poupar-lhe, pois sei como deve estar se

sentindo, apenas gostaria que nos dissesse onde a senhora encontrou-se

com sua filha após o

Após um minuto, em que o policial teve de esperar pacientemente, Osla respondeu:

- Creio que Rosalva deve ter escutado meus gritos e então,

quando a vi, estava ao meu lado – disse numa voz quase sumida.

um

acidente?

- E onde ela está agora?

- Oh! Detetive, ela se encontra em um lastimável estado de

choque e por isso a mandei à casa de uns amigos, ela não tem condições de falar com ninguém!

- Suponho que seu filho acompanhou-a.

- Claro! Eu mesma não me encontro bem e não saberia o que dizer-lhe nesse momento, mais do que já revelei. Silva continuou ouvindo-a.

- Bem, depois apareceu dona Sebastiana perguntando o que

havia acontecido e minha filha explicou-lhe. Graças a Deus que ela

veio para nos ajudar. Sentia-me desesperada e ela procurou

17

tranquilizar-nos, indo até à sala para ligar à polícia.

- E então o que ocorreu?

- Não me lembro do que ela disse, eu estava muito nervosa,

qualquer coisa mais ou menos assim: que tínhamos de sair dali depressa para pedir ajuda a alguém. Parece que o telefone não funcionava, ou alguma coisa parecida. Em seguida ela puxou-me pelo braço e saímos a toda pressa.

O investigador observava atentamente a viúva. E como ela

tivesse feito uma pausa, ele encorajou-a:

- Havia algum celular de onde pudesse ligar?

-O do meu marido, mas não me ocorreu isso naquele momento.

Eu só pensava em socorrê-lo e queria chamar uma ambulância a todo custo. Foi dona Sebastiana quem sugeriu que ligássemos de um restaurante próximo para o hospital. Só depois é que ligamos para a polícia.

- Então tiveram de deixá-lo aqui?

- Eu não tinha alternativa! Salvá-lo era a coisa mais importante, caso ainda respirasse.

- Entendo. Sua vizinha acompanhou-a até ao restaurante de

onde pode ligar?

- Sim, ela nos ajudou bastante, eu me sentia muito mal. Só

lembro-me de ter pegado nas mãos de meus filhos e as agarrado com muita força enquanto caminhávamos. Sentia-me aflita, mas dona Sebastiana procurou nos acalmar todo o tempo.

- E por onde saíram?

Ela olhou-o de súbito e depois apontou instintivamente:

- Ora, saímos pela porta da frente. Estava fechada e a chave não

estava pendurada na fechadura como de costume, então meu filho

pegou as chaves do carro do meu marido, metidas em seu bolso. No molho havia uma cópia.

- E quanto à chave da porta? Tornou a encontrá-la?

- Achei-a depois sobre o tapete, quando voltamos do restaurante. Silva mentalizou os fatos como se de um filme se tratasse. Estendeu-se meio minuto de profundo silêncio entre eles.

- Qual a sua nacionalidade, senhora?

Enxugando os olhos avermelhados de tanto chorar, a viúva levantou-se de sua confortável cadeira de um modo devagar e senhorial.

18

Agora usava um pequeno estojo de maquilagem para recompor o rosto. Com calma e já refeita, respondeu devolvendo-lhe a pergunta:

- Isso faz alguma diferença nesse instante, detetive?

Silva pareceu ruborizar-se, mas sem desviar o olhar replicou:

- Na verdade, não. É só uma pergunta de praxe. É meu dever

anotar todos os dados para que o juiz possa apreciar melhor o ocorrido durante o inquérito que naturalmente se seguirá.

Não sei

se estarei viva para agüentar remoer tudo isso de novo! Por favor, detetive, diga que não terei de ir! -havia um tom de suplica em sua voz. Os olhares dos dois se cruzaram por um momento. -É uma formalidade que o caso exige, senhora. Logicamente tudo parece indicar que seu marido foi assassinado e, então, será necessário abrir um processo de investigação para que ouçamos os depoimentos das testemunhas, haverá um tempo para as apresentações das provas e todas estas coisas que a senhora já deve ter lido alguma vez nos jornais. Em seguida o policial completou:

- Certamente o juiz dará um prazo para que se apresente alguma testemunha, caso haja.

- Claro, eu compreendo – murmurou Osla – e assim espero.

Meu marido nada fez para ser punido dessa forma. Creio que o mataram por engano, não posso conceber outra razão! Afinal vivemos num país civilizado. Silva calou-se à espera de que a mulher finalmente lhe revelasse onde nascera. Pigarreou um pouco e se pôs em silêncio. Foi preciso algum tempo para que percebesse a deixa:

- Meu pai era espanhol e emigrou para Portugal onde se estabeleceu como representante comercial. Foi onde conheceu minha mãe, onde eu nasci e também foi o lugar onde conheci Melquíades – falou num tom de orgulho. Ainda que o detetive houvesse se equivocado com a nacionalidade da mulher, pelo menos tinha descoberto sua origem, o que talvez de alguma forma pudesse ajudar a explicar os motivos do crime.

- Alguém mais lhe prestou ajuda no momento em que a senhora descobriu o corpo de seu marido? – perguntou o detetive.

- Oh meu Deus! Por certo terei de falar tudo outra vez

19

- Apenas dona Sebastiana esteve ao meu lado durante todo o tempo e se não fosse por ela eu haveria enlouquecido!

O detetive respirou profundamente dando sinais de que estava

preste a ir-se.

- Deu por falta de algum objeto seu ou da casa? Osla tardou um pouco e depois disse:

- As poucas jóias guardadas em meu armário estão todas no lugar e, até agora, não dei por falta de nada.

- Muito bem, creio que não vou tomar mais o seu tempo. A

menos que seja extremamente necessário, não terei de perguntar-lhe

nada mais.

A viúva apressou-se em despedir-se

- Adeus, detetive.

- Passe bem, senhora Osla. Em seguida apareceu uma jovem que veio ao encontro dela. Parecia ser uma amiga, na opinião do detetive. As duas deram-se as mãos e seguiram juntas, após dizerem qualquer coisa ao detetive. Com um meneio de cabeça, Silva despediu-se e permaneceu em pé, de maneira educada, enquanto a viúva dirigia-se de modo gracioso num lento caminhar até ao seu quarto. Fechando a porta atrás de si, ela desapareceu sob o olhar atento do robusto policial. Ele demorou-se ainda um tempo ali parado. Depois escreveu em seu caderninho o que ouvira. Inclusive algo que lhe chamou a atenção mais do que qualquer outra coisa: a capacidade da viúva em mudar repentinamente de expressão quando lhe convinha. Bastou encerrar a entrevista para que ela se refizesse rapidamente do estado em que Silva a encontrara quando a viu pela primeira vez. Sem muito esforço, ele foi levado a imaginar também que ela ainda era jovem o bastante para casar-se outra vez, se o desejasse. Seu andar era cuidadosamente feminino e, apesar do excessivo volume dos quadris, um homem maduro ainda podia ser atraído pelas linhas provocantes de seu corpo. Satisfeito, repassou tudo o que havia escrito na caderneta que trazia sempre no bolso do casaco, demorando-se algum tempo a folheá- la e a ler como se temesse haver esquecido de registrar algo importante. Anotara inclusive as impressões que suas perguntas tinham provocado na viúva.

20

Cerrou as sobrancelhas negras ao pensar em quem poderia ter motivos para cravar uma faca de dez centímetros na nuca da vítima. Como pôde alguém penetrar naquela casa sem ser visto por qualquer dos membros da família e, ainda por cima, sair sem que se dessem conta? Era intrigante! A menos, é claro, que fosse alguém de dentro! Era especular quando não tinha nada concreto nas mãos, mas aquele caso lhe aguçava a razão, desafiando-o a ir mais além. De momento, tudo eram perguntas e mistérios. Ninguém ouviu ou viu nada! Para ele uma coisa era certa: estava claro como água cristalina de que se tratava de um homicídio, era impossível que um homem assestasse uma lâmina de aço em sua própria nuca. O assassino, quem quer que fosse, acertara bem na “mosca”. E segundo dissera o médico legista, o homem morrera imediatamente após o ato sem que sequer lhe fosse dado tempo para esboçar a mínima reação. Fora uma morte tranquila, segundo dissera o doutor, e esta última afirmação causara em Silva arrepios de incredulidade e nojo. Como podia alguém morrer tranquilo daquela forma? Esses médicos de hoje em dia se apegam a termos técnicos insensíveis à natureza humana! Sem dúvida, eram capazes de dizer não só a hora, mas precisar também os minutos passados após a morte da vítima. Bem! Pior para o assassino, pois isso seria de fato uma prova a mais contra ele, quando o alcançassem as garras da lei, concluiu. Resolveu dar mais uma olhada na casa a fim de tentar rever os pormenores do ambiente em que tivera lugar o horrível acontecimento. Talvez algo que lhe escapara pela noite - quando então havia estado no local - pudesse agora ser visto pela luminosidade do dia e, como em outros crimes anteriores que ele resolvera, tratava-se agora de juntar as peças daquele quebra-cabeça. Horas antes, atravessara a sala, abrindo caminho entre seus colegas até à cozinha, a fim de observar a porta que dava acesso ao quintal. Quatro agentes da polícia vasculhavam o local em busca de provas materiais. Dois deles estavam agachados e catavam grãos ou fios de cabelo pelo chão e qualquer coisa de que suspeitassem era recolhida de forma cuidadosa em saquinhos transparentes. Usavam, para isso, potentes lupas e fachos de lanterna a fim de verem melhor. Utilizavam, também, bastonetes para raspar pequenas manchas de sangue do solo. Um terceiro homem, na sala, dedicava-se a disparar

21

flashes da máquina fotográfica sobre o cadáver, em busca dos melhores ângulos, guardando para sempre aquela atmosfera tenebrosa. Os rapazes da equipe técnica eram rastreadores natos aferrados à tecnologia moderna com que contava o departamento para peneirar material em qualquer rincão, por minúscula que fosse a prova descoberta. Todos os cômodos da casa tinham sido já revistados. - Desculpe, detetive, mas do rádio do carro chama-lhe o delegado - disse uma voz polida, atrás dele. Era o cabo João Batista, encarregado de examinar o automóvel da família e a garagem. O que não fora possível examinar durante a noite, era agora observado. Silva deu uma última olhadela na casa antes de encaminhar-se até à porta principal, onde batiam os raios solares. - Algum objeto foi roubado, João? - Até agora não demos por falta de nada importante. Não há impressões digitais em qualquer parte e, a não ser pelo corpo no sofá, tudo está em perfeita ordem. Já perguntei à dona da casa e parece que nada lhe foi subtraído. A faca pertence à cozinha da casa. Também encontramos a carteira do morto intacta, bem como uma soma de dinheiro importante no quarto do casal e nada foi tocado. Como imaginara, o motivo “roubo” perdia força e podia ser definitivamente posto de lado. Alguém guardara muita raiva pelo homem. E enquanto atravessava o jardim em direção ao veículo, sua mente pôde organizar melhor as impressões que o crime lhe causara. Parecia-lhe que algo não estava conforme a sua concepção de assassinato habitual, mas ele não sabia bem o que era. Trataria de pensar nisso mais tarde, agora tinha trabalho a fazer. Teria de informar, antes de qualquer coisa, toda a situação ao delegado Paulo, ainda que soubesse pouco ou quase nada que o conduzisse a uma pista real. Sabia também que o médico legista que examinou o cadáver, em torno das vinte e uma horas, estimara, em quarenta e cinco minutos antes, a hora de sua morte. Mas era preciso esperar a autópsia para estar seguro. Pelo horário do crime, a equipe policial trabalhava com a hipótese de que o filho da vítima poderia ter chegado à sala, justo no momento em que o assassino ou a assassina tivesse acabado de cometer o ato. Assim, a morte ocorrera às vinte e quinze e, nesse caso, não estava descartada a possibilidade de que o criminoso, para não ser

22

flagrado, se escondera em algum lugar da casa no momento em que o pequeno Roberto chegou à sala. Dessa forma seria mais fácil para ele ganhar o jardim e escapar, quando ninguém estivesse por perto.

Mas esse detalhe adiantaria pouco ou nada acerca da identidade

do criminoso, caso o garoto o tivesse visto. Silva era da opinião de que

o cérebro infantil era na maioria das vezes subestimado pelos adultos e, portanto, seria melhor que ele conversasse com a criança. O certo é que, para aclarar esse ponto, urgia “levar uma idéia” com aquele rapazinho, o quanto antes. Tentou analisar os outros ângulos do mistério e seu pensamento pousou na filha do casal. Ela teve de ser internada às pressas devido ao estado de choque em que entrou, após presenciar a dantesca cena. Felizmente recebera alta em seguida, já que tudo não passava de uma reação prevista nestes casos, produzida por experiências negativas e extremas. De todo modo, cedo ou tarde, estas duas entrevistas possibilitaria a Silva trazer à luz algum dado ignorado de momento. Quanto aos horários, esse era um fator de enorme importância e que ele, como experiente profissional, teria de levar em conta. De acordo com a perícia técnica, a esposa da vítima havia ligado para a delegacia de polícia a partir de um orelhão localizado na cidade de Natal, e que ficava a pouco mais de um quilômetro do local do crime.

A chamada telefônica teve lugar ao redor das vinte para as nove da

noite. E segundo estimativas, a mulher tardara uns cinco minutos em sair de sua casa, a partir do momento em que descobriu o cadáver do marido, e mais quinze minutos para percorrer o quilômetro que a separava do restaurante onde efetuou a chamada. O que dava provavelmente as oito e vinte da noite como a hora da descoberta do cadáver. Silva raciocinou que a casa havia ficado só por um tempo suficiente para o criminoso, no caso de estar ainda lá, “arrumar” o que quisesse na cena do crime e fugir sem problemas. Para isso bastava que tivesse esperado atrás de um móvel da casa, de uma cortina ou de alguma parede, ou simplesmente do lado de fora, ao abrigo de uma árvore onde pudesse permanecer oculto. Levantando a hipótese de um assassino externo e que fosse, por exemplo, alguma das duas irmãs da casa vizinha, ele concluiu que ela precisaria de menos tempo ainda, além de contar com a segurança de

23

não ser vista por olhos curiosos. Nesse caso a outra mulher fatalmente seria sua cúmplice. Se o delito tivesse sido praticado por algum membro da família, seria ainda mais fácil para o assassino levar a cabo a sua missão. Sem embargo, seria também mais fácil descobrir o culpado. Por sorte, em menos de vinte minutos após ser avisado, o carro do detetive Carlos, que estava mais próximo do lugar, chegou ao local. Essa coincidência talvez ajudasse a policia a recuperar vestígios materiais importantes, antes das cruciais setenta e duas horas após o crime. Recapitulando os horários, o detetive estabeleceu mentalmente uma ordem cronológica dos acontecimentos. Primeiro, foi o filho quem encontrou o cadáver mais ou menos às oito e vinte, presumivelmente

sem saber que o pai já estava morto. Depois de cinco minutos, a família abandonou a casa juntamente com uma das vizinhas, ou seja, às vinte e vinte e cinco. Então Silva sussurrou para si mesmo:

- Tenho de saber onde estava a outra vizinha nesse momento!

Seguindo sua própria linha de raciocínio, ele concluiu que o grupo tardou cerca de quinze minutos em chegar até ao orelhão. Nesse momento, eram oito e quarenta. Então realizaram a chamada e, quando faltavam dois minutos para as vinte e uma horas, o detetive Carlos chegou sozinho ao local, avisado pelo rádio. Dois minutos depois, foi a

vez de a equipe técnica da polícia chegar acompanhada do médico legista. O exame de rigidez cadavérica acusou a morte de Melquíades entre as oito e dez e oito e quinze daquela noite. Cinco minutos depois de a polícia ter sido acionada, Silva se inteirou e, após meia hora, chegava ao lugar. Agora estava ali outra vez.

- Uma péssima noite! – julgou.

Deu uma rápida olhada em seu relógio de pulso e viu que passava cinco minutos das onze da manhã. Ainda havia tempo para outra entrevista. Havia pensado tudo aquilo no percurso entre a casa e o carro e, quando por fim entrou na viatura, sintonizou o rádio para responder à chamada do delegado Paulo.

24

III - UMA CONVERSA INTERESSANTE

As instruções recebidas pelo detetive Silva diziam-lhe claramente que lhe tocava conversar com as moradoras do lado. Precisamente com as duas senhoras de idade avançada que habitavam a casa vizinha ao local da tragédia. Era uma velha residência no mesmo estilo da do finado Melquíades. Ele imaginou que as edificações deviam ter sido construídas na mesma época, já que podiam ser descritas quase da mesma forma e usando-se os mesmos adjetivos. Perguntou a si mesmo quem as havia construído. Provavelmente seriam duas famílias muito amigas ou talvez aparentadas. De todos os modos descobriria cedo ou tarde, após inquirir suas ocupantes. Era seu estilo considerar o ato como uma simples entrevista, uma vez que havia sempre o receio natural de que a pessoa se visse como suspeita do crime e isso poderia dificultar as coisas, de maneira que não gostava de arrancar informações, mas, ao contrário, obtê-las com a cooperação de seu interlocutor. A conversa com o delegado Paulo havia sido rápida e bem produtiva, em sua opinião. Tudo batia de acordo: os horários e, por último, o depoimento da senhora Osla. Infelizmente nada, absolutamente nada, havia sido encontrado pela perícia técnica no lugar onde o corpo foi achado. Isso não era muito animador, mas fazer o que? Nem sempre se podia contar com a sorte. Provavelmente haveria algo, mas onde estaria? Bem, isso podia ser deixado de lado, por ora. Sua competente equipe se encarregaria de buscar as evidências materiais e ele, Silva, faria as perguntas certas às pessoas certas. Voltando sua mira às duas casas, ele viu que elas eram praticamente pregadas uma na outra. Olhou uma vez mais para a casa ao lado onde havia ocorrido o homicídio e tudo parecia agora sem vida. Tinha-se mesmo a impressão de que a morte havia se engalfinhado por ali, deixando o tempo estacionado como num museu de cera. Sem embargo, como profissional, ele esqueceria por um momento a casa palco do crime e se voltaria para a que tinha bem à sua frente. Escalando um pequeno lance de degraus, chegou até à porta do alpendre e procurou por uma campainha onde pudesse chamar. Por fim, achou-a

25

num canto da porta e resolveu tocar. Após alguns minutos a maçaneta prateada girou e a porta se

abriu. Um vulto que Silva não podia distinguir muito bem apareceu diante dele.

- Deseja alguma coisa, senhor? – pronunciou a voz trêmula.

Por um momento o visitante vacilou, ainda que estivesse acostumado a lidar com o inesperado. Espremeu os olhos devido à pouca luz:

- Bom dia. Sou o detetive Silva da polícia de Natal e gostaria de

conversar com a senhora Expedita, por favor. Agora ele podia ver a fisionomia da pessoa com quem falava. Tinha uma cabeça redonda como uma laranja e envolta por uma espécie

de fios de algodão. No centro do rosto enrugado despontava um nariz em forma de cenoura. Ele calculou em mais de oitenta anos a idade daquela senhora, ainda que seu corpo não demonstrasse qualquer enfermidade. Não houve esboço no rosto da mulher. Ela apenas disse:

- Ah! Entre detetive, meu nome é Expedita; por favor limpe seus

sapatos no tapete. Sabe como é, quando chove por aqui tudo fica enlameado e, na minha idade, eu não posso estar me abaixando a toda hora para limpar.

- Claro, senhora! Com licença – disse, ao cruzar o umbral da

porta e tendo o cuidado de raspar no tapete a sola dos sapatos.

Sua primeira impressão foi que havia algo misterioso naquele ambiente.

- Sente-se – disse a idosa, apontando para uma poltrona cinza muito bem limpa, enquanto se sentava numa outra, em frente.

- Obrigado.

Varrendo os olhos pela sala, Silva apreciou o estilo da dona. Antigos móveis de carvalho davam um ar pesado ao ambiente e pouca luz entrava através das cortinas de cor pálida. As paredes peladas de

quadros revelavam certa rudeza. Saltava à vista a disposição ordenada dos objetos e, ao contrário de outras salas onde ele tinha estado, não havia demasiados enfeites que causasse a sensação de que seus ocupantes viviam espremidos numa lata de sardinha. Ao contrário, tudo ali era amplo.

- Em que posso lhe ajudar?

26

A pergunta fez o policial voltar sua mirada para a dona da casa.

- Bem, senhora, creio que já deve saber a razão pela qual estou

aqui.

Sua colocação, embora tivesse um tom de quem pede ajuda, tratava ao mesmo tempo de empurrar o adversário para o seu campo. Fez-se uma curta pausa, ocasião em que o detetive aproveitou

para estudar a fisionomia dela, sentindo a impressão que causara sua pergunta.

- Sim, infelizmente suponho que seja pela tragédia que se abateu

sobre meu vizinho – confirmou de modo o mais natural possível - Que

pena para uma família tão boa, tão correta. E as crianças? O que será delas? Pobrezinho do garoto, perder o pai sendo tão jovem e, além do mais, dessa maneira horrível.

- É verdade.

- Mas

Em que posso ajudá-lo?

Silva pensou bem, antes de lançar-se diretamente ao cerne da questão, sabia que lidava com uma mulher inteligente.

- Onde estava a senhora na noite em que o seu vizinho foi assassinado?

- Em minha casa, detetive – disse tranquilamente.

- Entendo – o policial passou uma das mãos pelo queixo e

indagou:

- Chegou a sair de sua casa alguma vez, durante a tarde ou a noite de ontem?

Estou certa de que não, é o que quero dizer.

Depois do jantar fui até ao alpendre para tomar um pouco de ar, e foi só. Não demorei mais do que alguns minutos e logo entrei outra vez, pois estava sozinha e não tinha com quem conversar.

- Não. Bem

- A senhora vive com sua irmã, não é verdade?

- Sim, vivo. Mas desde anteontem está hospitalizada. A

verdade é que a pobre habitualmente sofre de crises reumáticas, então

tem de se internar por alguns dias. Não é fácil para ela!

- Sinto muito pela sua irmã.

Expedita agradeceu e, em seguida, Silva voltou ao ponto que lhe interessava:

- Viu ou ouviu algo, qualquer coisa, mesmo que considere sem importância e que tenha lhe chamado a atenção?

27

- Estou segura de que não vi nem ouvi nada, detetive. Foi como

todas as noites – explicou a idosa –, normal. Sinceramente não me recordo de nada estranho.

- Esteve na casa do morto nos últimos dias?

A mulher engoliu em seco e levantou a vista:

- Sim, estive ontem pela manhã para pedir um pouco de açúcar a

Osla. Conversamos durante poucos minutos e depois vim para casa. Foi só.

- Alguma coisa lhe pareceu estranha, nesse momento?

- Posso lhe garantir que estava tudo normal – replicou a senhora Expedita. Silva respirou profundamente.

- Possui a senhora, telefone

Fixo ou

celular?

- Nenhum dos dois. Quando raramente preciso de um, utilizo o

da casa da senhora Osla, ela é um amor de pessoa. Quando não é possível, vou até ao restaurante que há aqui perto.

- Entendo – disse Silva, pensando como alguém, no século XXI, pode viver sem telefone em casa. Então resolveu seguir por outro caminho.

- Há quantos anos a senhora vive aqui?

- Oh! São muitos, creio que

– pensou um pouco – creio que há

mais de trinta anos.

- Então conhecia bem a família ao lado?

- Muito bem, é claro! – salientou a mulher. São muitos anos!

Quando eles chegaram aqui, nós já estávamos, mas foi minha irmã

quem comprou este imóvel ao pai do falecido.

- Sei – murmurou o agente. Significa que todos já se conheciam antes, não?

- Bem – frisou a mulher, que parecia ávida por falar. Tenho de

contar-lhe uma pequena história: Sebastiana já trabalhava na loja do pai de Melquíades, e assim foi como podemos comprar a casa, devido às economias que fizemos durante muitos anos. Depois completou: –Claro que o senhor Miguel - era como se chamava ele - nos ajudou um bocado!

- Suponho que Sebastiana seja sua irmã, não?

- Oh, sim! Quase me esqueci de que o senhor não tinha por que saber! Peço desculpas.

28

- Não se preocupe.

Silva quedou-se pensativo outra vez. Após meio minuto de silêncio entre ambos, o investigador voltou à carga:

- Então era como se ele fosse um pai para as senhoras, suponho.

- Não chegaria a tanto, mas eu diria que Sebastiana mantinha

uma ótima amizade com o senhor Miguel, afinal ele era o seu patrão – retorquiu a idosa, olhando fixamente para o detetive.

- Desculpe-me se a ofendo, não é minha intenção, mas sua irmã manteve algum tipo de relacionamento com o pai do senhor Melquíades?

A mulher sentiu uma espécie de tremor.

- Sua pergunta não me ofende de forma alguma, detetive! –

respondeu, ainda que contrariada. Minha irmã é uma pessoa honrada e posso afirmar que temos vivido bem durante longos anos. Evidentemente o senhor Miguel era um verdadeiro cavalheiro, desses que não existem mais hoje em dia! Depois esclareceu: -A única vez que ficamos longe uma da outra foi logo após seu acidente, quando minha irmã viajou à Europa para tentar um tratamento numa clínica espanhola.

- E que tipo de acidente sua irmã sofreu?

- Ela caiu das escadas do escritório enquanto trabalhava. Foi uma queda muito séria e chegamos a temer por sua morte.

- Sei – disse Silva –, suponho que, por ser amigo de ambas, o senhor Miguel talvez tenha ajudado neste momento delicado.

- Sim, ele nos ajudou com a viagem, realmente um homem

muito generoso, que Deus o tenha. Creio que de alguma forma sentiu- se responsável pelo ocorrido. Que Deus o tenha no reino dos céus – repetiu, o olhar na direção do teto.

- Imagino que, nesse caso, o senhor Miguel acompanhou-a

durante a viagem

- Infelizmente não pôde, pois quem iria tomar conta de sua loja?

Além do mais, ele era um homem muito bem casado e sua mulher era outra alma santa a quem devemos muito, também.

- Quer dizer que sua irmã viajou só?

- Eu não diria isso. Uma enfermeira acompanhou-a durante todo

o tempo em que esteve lá. É como eu lhe digo: o senhor Miguel era um verdadeiro anjo na terra. Que Deus o tenha – repetiu a mulher, olhando

29

para o teto e fazendo o sinal da cruz. Depois completou: – Infelizmente para Sebastiana restou-lhe a cadeira de rodas. Silva pareceu não compreender a questão de todo, mas de alguma maneira aquela era uma resposta pela qual ele não esperava. Evidentemente, o acidente ocorrera no escritório, mas deveria haver alguma razão mais forte para que o patrão agisse daquela forma. Ficou animado com o resultado produzido e resolveu pôr em prática um de seus métodos favoritos. Levantando o queixo e dirigindo seu olhar para o lado, como para dar a impressão de que havia atinado com algo, disse:

- Diga-me, senhora, em que momento tomou conhecimento do

que havia ocorrido na casa ao lado? E atentou para os gestos que produziria a velhinha. Porém, uma

vez mais, não percebeu qualquer alteração em seu comportamento. Ela disse tranquilamente:

- Ouvi os gritos da senhora Osla e fui até ao alpendre para ver o

que tinha ocorrido. Como não escuto muito bem, pensei que era a

minha imaginação funcionando. Só depois é que me dei conta de que realmente havia alguém gritando. Silva escutava-lhe atentamente.

- Como compreenderá, detetive, não pude fazer muito a não ser

oferecer-me para tranquilizar a pobre esposa. Ela estava muito nervosa.

Ainda tentamos ligar, mas parece que o telefone não funcionava.

- Alguém cortou o fio do aparelho – informou-lhe o policial.

- Oh meu deus, eu sabia que havia alguma coisa errada!

Silva tossiu de leve.

- E o que a senhora fez?

- Bem, tive de acompanhá-la! Não poderia deixar que se virasse

sozinha! Também tenho de confessar-lhe que tinha muito medo,

detetive, pois o assassino ainda poderia voltar, não é mesmo?

- Pode ser que ele nem tenha saído de perto, senhora!

Ela pareceu não compreender o comentário e iniciou sua

ladainha particular sobre o que achava que havia acontecido, considerando até que o assassino talvez fosse um simples ladrão que viesse roubar. Silva ouviu sua teoria e depois tratou de retomar o controle da situação.

- Bem, nada foi roubado. Como conseguiu entrar na casa?

- Eu bati na porta várias vezes e passou-se algum tempo até que

30

pudessem abrir. Parece que não conseguiam encontrar a chave da

porta. Quando finalmente entrei, já aí estavam a mãe e os dois filhos. Pude ver seus rostos cheios de pavor.

E abaixou a cabeça como se sofresse.

- Há alguma observação que queira fazer ou algo que queira

contar-nos, senhora Expedita? Creio que dessa forma ajudaria a essa pobre família! Os olhos da anciã deram uma volta completa pela órbita ocular. Após quase um minuto de completo silêncio, ela confidenciou:

- Não sei se deveria!

- Oh! Entendo – as orelhas do detetive aguçaram-se. Tentou

disfarçar qualquer surpresa que sua fisionomia pudesse denunciar e resolveu aguardar um pouco. Por fim, disse:

- A senhora deve saber que nós escutamos muitas coisas, mas

somos um pouco como os padres, sabe! Ouvimos mas não revelamos que é para não atrapalhar a investigação.

- Bem, nesse caso eu contarei – disse aliviada.

Silva acomodou-se melhor na poltrona procurando relaxar os músculos do rosto. A senhora Expedita falou num tom baixo como se temesse que alguém mais pudesse ouvir:

- Ele bebia muito! – quase murmurou.

- Desculpe, senhora, ele quem?

- Ora! Ele, o defunto!

Por um momento Silva pareceu não entender coisa alguma.

- Sei – disse, apenas para seguir a idéia.

- Mas nos demos conta logo! Moramos num bairro pequeno em que todos se conhecem.

- Disse “nós”? A quem se refere?

Agora quem parecia não entender era a mulher.

- Nós, eu e minha irmã! Pensei que já soubesse, detetive.

- Sim, é verdade – concordou. É que imaginei que não estivesse aqui com a senhora!

- Não está aqui agora mesmo, como eu já lhe disse. Quando é

acometida da crise, um enfermeiro a leva para o Hospital São Lucas. Coitadinha, como sofre! Ela tem reumatismo. Graças a Deus já está

melhor agora.

31

- Fico feliz em saber.

- Sebastiana vive em uma cadeira de rodas, mas ela sabe que pode contar comigo. O que me preocupa, detetive, é que eu seja a

primeira a “ir”, sabe? - confessou resignada – mas Nosso Senhor sabe o que faz, não é mesmo? Silva fez um sinal com a cabeça. - Então a vítima costumava chegar à casa embriagado? – retomou o policial.

- Sim, ultimamente era normal. Eu sei porque às vezes ouvia

quando sua esposa reclamava. Não é de queixar-se, mas com todo esse

silêncio que há por aqui, uma pessoa escuta sempre alguma coisa, não é verdade!?

- É verdade, é um lugar bem tranquilo. Eles brigavam?

- Olhe, nunca testemunhei qualquer briga que levasse a um ato

violento, é verdade, mas digamos que as ameaças e o tom de voz do senhor Melquíades era bastante sério. Silva quis saber como realmente tinha a senhora Expedita se inteirado do fato de que o morto excedia-se no álcool.

- Bem, não tenho por que mentir-lhe, detetive! Temos amigos

em Natal. Por exemplo, o rapazinho que traz nossas compras comentou um dia, de forma inocente, eu diria, sem desconfiar da importância do

assunto.

-

E a senhora acreditou no que ele dizia?

-

Mas claro, detetive! - a velhinha parecia indignada. - Ele não é

nenhum fofoqueiro, além do mais não se inventam estórias assim gratuitamente. Sem contar que o moço é filho de uma família muito conhecida nossa. Gente direita, sabe? Silva preferiu não intrometer-se, deixando que a senhora Expedita detalhasse a revelação à sua maneira. Com exceção da história da irmã e do alcoolismo do morto, nada do que já não soubesse foi-lhe revelado. Todas as suas perguntas haviam sido respondidas de maneira clara e, provavelmente, ela estava dizendo a verdade. Se havia um conceito que se podia emitir a respeito daquela senhora é que era o mais natural possível em suas respostas. Não parecia que pudesse inventar alguma estória para satisfazer seu tempo ocioso ou para impressionar a lei. Em suma, a senhora Expedita não se contradisse em nenhum momento, concluiu Silva.

32

- Bem – disse ele –, vejo que não há motivo para que eu me demore, a menos que queira acrescentar algo mais.

A isca deu resultado. Quando já se preparava para despedir-se,

a mulher disse:

- Sabe, detetive! Ouvi dizer também que ele devia um montão

de dinheiro. Parece que é para alguém de fora de Natal. Eu e Sebastiana não temos nada que ver com a vida alheia, mas pensamos que devia ser por essa razão que bebia. Mas nós sempre demos apoio à

esposa. Costumávamos ir lá quando o marido não estava em casa, sinto que ele não gostava de nos ver por perto e por essa razão nunca aparecíamos quando ele estava. Silva pressentiu que a fonte devia ser a mesma: o rapazinho do supermercado. Assim seria melhor conversar diretamente com o jovem. No caderninho anotou seu nome - um tal de Jonas. Era uma informação importante a ser checada mais tarde.

- Diga-me, senhora, quando volta a sua irmã?

- Bem, quando receber alta médica, provavelmente irá a uma

clínica de repouso para descansar um pouco mais. Por recomendação médica, sabe!

- Bem, saúde é o que importa, não é mesmo? De qualquer

maneira, creio que o depoimento dela pode esperar um pouco mais -

disse Silva.

A anciã respirou com calma.

- Melhor assim, detetive, minha irmã talvez não suportasse a tensão e tivesse uma recaída.

- Sim, deixarei para outro momento, não se preocupe. De toda

maneira, senhora Expedita, sua colaboração foi muito importante e tenho de agradecer-lhe.

A velhinha pareceu satisfeita.

- Não há de que, detetive.

Quando por fim deixou a casa, Silva caminhou alguns metros através de um jardim florido até conseguir cruzar o pequeno muro que a separava da rua. Deu meia-volta para olhar a residência uma vez mais. Nesse momento distinguiu o rosto da senhora Expedita que o observava atrás do vidro da janela. Agora tinha uma outra fisionomia que o detetive não soube precisar a que se assemelhava. Era a mesma impressão que havia tido pela manhã, após entrevistar a viúva.

33

Desconfiou de que as duas mulheres escondiam-lhe propositalmente algum detalhe que julgavam relevante. Ou era somente a sua imaginação? Apressou-se em fugir dali e encontrar um lugar para almoçar, suas energias em grande parte haviam sido consumidas e agora ele tinha fome. Pensando melhor, talvez fosse mais negócio ir até ao restaurante onde se havia produzido a chamada telefônica e tentar conversar com as pessoas do estabelecimento, e aproveitaria para comer. A visita ao restaurante não lhe deu o resultado que esperava e, após o almoço, Silva foi para a casa descansar, já que à tarde devia comparecer à delegacia e preencher alguns relatórios. Tinha em mente inquirir, no dia seguinte, os outros membros da família do morto e o tal Jonas do supermercado. Quando chegou à delegacia por volta das duas horas, sua mente vislumbrou outra vez a fisionomia da senhora Expedita. Havia algo estranho nela, mas ele não era capaz de adivinhar o que era realmente. Então se pôs a relacionar as expressões do rosto da viúva com os da velhota e uma pergunta inevitável acendeu no íntimo. Que estranha ligação poderia haver entre as duas mulheres?

34

IV - CONFISSÃO INESPERADA

Um par de dias após o crime, o tempo estava bem agradável. Era uma manhã de maio e o sol teimava em penetrar seus raios por entre algumas nuvens carregadas. A amenidade do dia se devia a uma mescla de nuvens cinzentas e blocos azuis, que faziam soprar desde o céu um vento fresco. Nenhuma pista surgira ainda, em torno da identificação do autor do crime. Nenhuma impressão digital, fios de cabelo ou qualquer vestígio material, por minúsculo que fosse, havia sido encontrado. O episódio passou a ser tratado pela imprensa como o caso do

“Comerciante de Natal” e o único dado novo, que chegou até aos leitores dos jornais locais e dos telespectadores, veio após a autópsia. O laudo cadavérico revelou a hora da morte da vítima como sendo provavelmente às oito e quinze da noite do dia vinte e dois de maio. Fora esse detalhe, não foi arrolado o nome de qualquer suspeito nem discutidas as razões do assassinato. Sem dúvida, a bucólica rua nunca recebera a visita de tanta gente em toda a sua existência, e o dono do único restaurante do lugar,

o Bar do bode, lamentava aos quatro ventos não dispor de mais mesas

para oferecer aos homens da imprensa que, como um enxame de abelhas, zumbiam por todos os lados. Havia sido dali que a vítima avisara a polícia, além de ser o único espaço investigado a que a imprensa tinha acesso. A casa palco do crime seguia vedada ao público. Um resignado detetive Silva não se importava em ter de dividir uma mesa com jornalistas e repórteres. Pelo menos serviam ali boa comida, e ninguém podia queixar-se de tédio ou solidão. É verdade que havia sempre a possibilidade de perguntas impertinentes, mas esse era um preço que ele e os seus companheiros eram obrigados a pagar. Havia também curiosos por toda parte, vindos não se sabia de onde, com o intuito de comprovarem por si mesmos o que a televisão, o

rádio e os jornais não se cansavam de noticiar, valendo-se de manchetes

e apelos sensacionalistas. O objetivo era enganchar a atenção do maior número possível de ouvintes e leitores. Boa parte da imprensa do Estado e suas parafernálias

35

tecnológicas esperavam que, de uma hora para outra, surgisse qualquer novidade sobre o caso, ou que se produzissem inesperados acontecimentos. Um burburinho de vozes humanas enchia o ar. De repente, o murmúrio generalizado foi cortado por uma voz grave que chegou aos ouvidos do detetive:

- Falamos diretamente da cidade de Natal, conhecida como a Cidade do Sol e palco de uma inexplicável tragédia: o assassinato de um comerciante local, que abalou toda a população do Estado do Rio Grande do Norte. Era um repórter que noticiava para uma cadeia de televisão: -

e até o momento a polícia não tem qualquer pista do terrível assassino que, inclusive, pode voltar a atacar! Foi assim que Silva concluiu, durante seu novo almoço ali, a inconveniência do local. Não era particularmente adequado para a entrevista que ele tinha em mente realizar. De modo que escolheu um espaço mais reservado do outro lado da cidade. Terminada a refeição, tratou de arranjar as coisas e seguiu para lá.

O lugar onde estava agora era uma reserva natural conhecida

como Parque das Dunas. Havia ali muitas espécies de árvores pertencentes à mata atlântica típica do litoral brasileiro, que se estende do Rio Grande do Norte até ao Estado de São Paulo. Mescladas às

espécies trazidas pelos antigos colonizadores portugueses, havia pau- ferro, jatobá, sapucaias, acácias, pau-brasil e outras que sombreavam o chão do parque, formando um cinturão verde nas encostas das dunas. A enorme área funcionava como o pulmão verde da cidade do Natal.

A prefeitura havia aproveitado para distribuir bancos de madeira

pela área, a fim de que as pessoas pudessem sentar-se com sossego e desfrutar do único ruído produzido ali: os cantos dos pássaros encarapitados nas copas das árvores. Nos parques infantis de madeira, espalhados debaixo das folhagens do bosque, os pequenos brincavam sem se importarem com o passo irremediável do tempo, sob o olhar dos divertidos micos. Também os idosos e os praticantes de corrida e caminhadas, diluíam-se nas sombras da reserva. E para os aventureiros quedava a fascinante Trilha da Peroba, que os guiava até ao litoral após uma caminhada de hora e meia, sob a vegetação típica, atravessando um caminho selvagem circundado pela mata espessa das dunas. Silva sentou-se num banco de madeira mais reservado e ficou

36

observando, próximo a ele, um grupo de quatro homens que jogavam dominó. À sua esquerda, viu uma espécie de lago artificial, tendo ao centro uma escultura metade humana e metade bicho, representando

uma figura que ele não logrou definir. O ruído das crianças encobria o farfalho dos ramos das árvores e ele apenas podia observar a lenta caída das folhas até ao chão, arrancadas dos galhos por um sopro mais forte da brisa.

- O que temos até o momento? – perguntou, ao seu lado, o

detetive Carlos, um sujeito gordo e de estatura mediana, assemelhado, segundo Silva, a um buldogue. Os poucos cabelos que lhe restavam nas laterais da cabeça emolduravam um rosto corado, redondo e meio sério. Gostava de vestir-se a modo de vaqueiro: calça jeans, bota de couro de

bico fino e uma camisa estampada entreaberta sobre o peito, deixando a mostra uma grande cruz dourada pendurada numa corrente em volta do pescoço. Seus olhos redondos não conseguiam despregar-se de um dos meninos que brincavam diante deles.

- Muito pouco – confessou Silva –, e para nossa infelicidade, a

chuva do dia seguinte apagou qualquer indício que pudesse haver do lado de fora da casa. Carlos parou de mascar o chiclete, levando-o com a ponta da língua até um lado da boca.

- Creio que ele me lembra o Diogo – disse, olhando para uma das crianças.

Silva pareceu desinteressado com o comentário. O colega não se importou e prosseguiu:

- Não sei se você se recorda daquele caso ocorrido há dois ou

três anos atrás, se não me engana a memória. Acho que foi o tio que apareceu morto dentro de um grande baú de brinquedos no quarto do sobrinho. Silva apenas prestava-lhe atenção, encantado com os saltos dos micos por entre os galhos.

- Creio que me lembro – resmungou.

- Um jornalista que se fez passar por detetive – explicou Carlos -

conseguiu roubar informações preciosas da polícia e divulgou o caso. De todo modo, a investigação não progrediu e o delegado, à época, conseguiu que a coisa ficasse em surdina, até que pusessem as mãos no culpado.

37

- Sim! Recordo-me - disse por fim Silva, relembrando do caso. Não foi na praia de Ponta Negra?

- Exato! A princípio toda a polícia pensou tratar-se de um

assassino vindo do exterior! Alguém de fora, de quem não se tinha a menor idéia, sendo o bairro moradia de muitos estrangeiros, mas logo se tornou incoerente sustentar tal hipótese. Os investigadores não conseguiam responder às questões mais elementares, e foi então quando um dos detetives comentou, numa conversa informal, que assistira a um filme na TV, no qual o assassino era uma criança. Na verdade eles deveriam ter pensado desse modo desde o início. Era o mais lógico, mas talvez a falta de experiência fez com que não considerassem o menino como suspeito. Mas quando o quebra-cabeça começou a tornar

nítida a figura do garoto, ficaram todos estupefatos com a possibilidade e o detetive que havia descrito a história da televisão para os seus colegas assumiu o caso. Foi uma história muito comentada na época. - De fato – concordou Silva, deixando de observar os macaquinhos. Lembro-me como se fosse hoje. O menino abriu a cabeça do tio com a espada de samurai do pai, que vivia pendurada na parede da sala. Carlos retomou:

- É sempre assim, o culpado é o que menos parece ser e, como

eu estava dizendo, era um menininho aparentemente inofensivo, mas muito, muito observador! Gostava de fazer comentários despretensiosos e creio que foi isso que, em princípio, despistou a polícia, pois até o delegado acreditou nas informações que o garoto passava. E como esbanjava imaginação o rapazinho, hein? Sim senhor!

E sentenciou:

-Mas aquilo não podia demorar muito tempo, não! Silva ouvira falar sobre o temperamento do colega. Haviam-lhe dito que, apesar de sua rudeza para tratar as pistas encontradas, Carlos era um caçador hábil semelhante a um cão farejador, e não descansava enquanto não achasse o rastro da caça por mais miúda que fosse. Entretanto, precisava de alguém que o conduzisse ao caminho certo, que lhe arranjasse o material a ser trabalhado. Um companheiro que lhe indicasse a direção a seguir. Então Carlos se encarregaria de perseguir as pegadas do suspeito até encontrá-lo e trazê-lo sob os dentes

38

afiados. Para o delegado Paulo, Silva era o par perfeito para o colega. O detetive não sabia bem o porquê, mas simpatizara com o novo companheiro e, além do mais, pensou que poderia contar com a sua astúcia para juntos desvendarem aquele mistério. Por seu turno, Carlos havia solicitado trabalhar no caso e o departamento havia concordado sem piscar duas vezes. O agente do faro fino esperou prudentemente um minuto antes de seguir:

- Parecia-se com esse aí – e, apontando com o queixo para o

filho de Melquíades, que se balançava tranquilamente, disse: - são

a

incentivá-las a falar

aí sim, é que entendemos seu mundo particular.

assim, nada se dá por elas, mas quando se começa a puxar conversa

As crianças são imaginativas e inteligentes, o problema é que nós costumamos subestimá-las. Silva olhou-o cada vez mais interessado. As vozes da algazarra provocada pelas crianças cortavam sua concentração. Carlos continuou:

- A questão é que a lógica delas difere da nossa tal como a

concebemos, sabe? – argumentou. Por isso é preciso penetrar em seu mundo a fim de entendê-las. E é nesse momento que as pegamos com a mão na massa, não sei se me entende. Dizem uma coisa e quando

vamos ver

- Isso é perfeitamente possível - concordou Silva, certo de que o

parceiro era formado em pedagogia. Tentando evitar que o companheiro seguisse com suas análises, pois agora o que queria era entrevistar de uma vez por todas o pequeno, Silva disse-lhe:

- Venha! É hora de um papo com o nosso anjinho! –e levantou-

se, enquanto piscava um olho para Carlos. Haviam ido até ali com a finalidade de falar com a mais jovem das testemunhas, Roberto, o filho da vítima. Sua mãe, que havia consentido com o lugar, sentara-se a certa distância, observando toda a cena.

Então os dois homens dirigiram-se calmamente até onde o pequeno brincava. Chegando perto, Silva fez um barulho limpando a garganta para chamar a atenção. Ato contínuo, o menino virou o pescoço e viu os dois homens projetando-se sobre ele. Após a troca de olhares entre os três, Carlos amistosamente

é outra diferente!

39

apresentou-se. O jovenzinho olhou para a mãe e esta lhe fez um gesto significativo com a cabeça, indicando que tudo estava bem. Silva interveio num tom paternal.

- Olá Roberto, meu nome é Silva. Sei que já não nos vimos

antes, não é verdade? - e sem esperar por uma resposta continuou - Mas estamos aqui para que você possa nos ajudar. – Depois disse: - Você gosta desse parque? Roberto fez que sim com a cabeça, meio desconfiado, enquanto se balançava sem desgrudar os olhos de cima da mãe. Tinha onze anos

e seu corpo ainda não anunciara os sinais da adolescência. Era cheio de corpo e branco como a mãe, parecendo um pouco com a figura do pai

que o detetive tinha visto por algum tempo em um dos porta-retratos da família. Carlos ofereceu-lhe um caramelo e a criança recusou, com um tímido não. Sem lograrem a confiança do menino, Silva resolveu encurtar as apresentações.

- Sabe Roberto, precisamos falar sobre um assunto muito sério.

De pronto sua língua se destravou:

- Se for sobre meu pai eu não quero falar! - contestou com a voz

aguda.

Os dois homens olharam-se como a medirem o grau de dificuldade que enfrentariam na tentativa de travar um diálogo aceitável com o garoto. Contavam com a anuência da mãe e deveriam tirar partido dessa vantagem.

- Não, filho. Não queremos conversar exatamente sobre o seu

pai – explicou-lhe Silva. São coisas sobre as quais gostaríamos de saber

a sua opinião. O que você acha? – procurou encorajá-lo com uma fala macia.

- Então sobre o que é?

Olhe bem, primeiro veja o que trouxemos para

você! – disse, tirando do bolso do casaco um pacote colorido. Compramos um presentinho para você como prova de nossa amizade. Você quer? Pode abri-lo se quiser! – e estendeu o objeto em sua direção. - Eu quero! Mas minha mãe disse que eu não recebesse presentes de estranhos - olhou mais uma vez para a mãe que retribuiu com um olhar carinhoso. Observando de soslaio, Carlos percebeu certa angústia nos olhos

- É

Sobre

40

maternos.

- Olhe, Roberto, não somos estranhos. Sua mãe deixou que

conversássemos com você – replicou Silva enquanto seguia com a mão estendida oferecendo o pacote. Mesmo cabreiro, o rapazinho agarrou a surpresa. Os dois esperaram para ver o que ele faria.

- O que tem aqui dentro?

- Abra e comprove você mesmo. Não sei se irá gostar! –

acrescentou Silva.

- Um vídeo game! – disse com espanto, rasgando o invólucro.

Era um jogo eletrônico barato. Silva ofereceu-se para ajudá-lo a

lidar com o aparato e o pequeno aceitou. Depois de algum tempo, o detetive resolveu arriscar:

- Vamos falar agora?

- Mas eu agora queria brincar um pouquinho! – ponderou.

A resistência do jovem estava esgotando a paciência do detetive Carlos. Seu olhar metamorfoseara-se no de um cão que prepara um

movimento de assalto sobre a presa. Mas antes que o colega entrasse em ação, Silva resolveu contornar a situação.

- Veja bem, Roberto, sua querida mãe trouxe-o até aqui para que

você possa se divertir. Mas fomos nós que lhe sugerimos isso, já que

precisamos falar com você num lugar agradável como esse – disse, olhando ao redor. Garanto que não vai demorar.

Silva esperava que essa oferta de paz de sua parte pudesse convencê-lo a aceitar a sua proposta. Teria de agir rápido ou o colega apelaria para algo mais “convincente”. Roberto tardou em responder, entretido com o brinquedo. O detetive Carlos, porém, adiantou-lhe de golpe:

- Se você quiser, podemos falar em outro lugar!

- Não! Não quero sair daqui – respondeu a criança,

semicerrando as sobrancelhas.

- Olhe! Eu havia-me esquecido – arrematou Carlos. Também

trouxe uma pequena lembrança – disse, tirando algo do bolso.

A criança observou-o e seus olhos viram surgir outro pacote

colorido. Dessa vez a surpresa provocou-lhe uma alegria incontida. Por cima do ombro lançou um furtivo olhar à mãe.

Silva e Carlos se olharam num ar de aprovação, mas a prudência

41

não lhes permitiu comemorar a aparente vitória. Ficaram à espera para ver o que sucedia. Por fim o menino falou:

- Está bem, eu falo, mas o que querem saber? – resmungou,

desembrulhando o segundo presente. Depois disse: -O que tem aqui

dentro? – e deitou novo olhar à mãe. A senhora Osla esforçava-se por parecer relaxada.

chocolates! E dos mais gostosos! – Carlos fez

uma pausa a fim de sentir a impressão que causara no rapazinho. De leite, você gosta? Olhe que eu sou um detetive e, portanto, tentei descobrir qual o seu sabor favorito! – gracejou. A reação do guri foi imediata. Seus olhos faiscaram como estrelas e, qualquer pessoa que o visse agora diria que perpassava uma corrente de pura felicidade por seu pequeno corpo. Ao longe, alguém espiava o trio através das lentes de um binóculo usado para observar pássaros, sem, entretanto, adivinhar o que diziam. Monitorando-os daquela distância, o vulto podia julgar que os dois adultos haviam convencido o garoto a aceitar algo. Roberto replicou algumas perguntas e a certa altura tentou esquadrinhar a mãe e já não a viu no banco oposto onde estivera sentada.

Então foi nesse instante que algo esquisito ocorreu. O menino desceu do balanço, provavelmente para acompanhar os dois homens a

algum lugar. Mas no momento em que os policiais adiantaram-lhe dois passos, o jovem deu meia volta em torno de seu próprio corpo e disparou na direção oposta. Os policiais se viraram para ver o que ocorria e se olharam surpresos numa reação instantânea. Abriram a boca tentando dizer alguma coisa, mas não foram capazes e, em vez disso, puseram-se a persegui-lo por entre as árvores do parque.

- Pare, meu filho! - gritou desesperadamente a mãe, surgindo por

detrás de uma árvore e levando as mãos à cabeça. O filho não a ouviu.

Devidamente camuflado, o desconhecido apertou seu binóculo contra os olhos, tentando seguir a repentina correria. Os ramos das árvores e os arbustos lhe impediam uma clara visão. Mas um instante depois, sorriu, e uma pequena gargalhada escapou-lhe sem que pudesse conter-se. A perseguição chamou a atenção de várias pessoas e durante

- Bem, são, são

42

alguns minutos ninguém entendeu o que se passava. Quando os policiais conseguiram finalmente capturar o fugitivo, agachado detrás

de uma moita, sentiram-se exaustos. Silva, mais alto e pesado, ofegava como um cavalo após uma corrida e mostrava-se mais cansado que o companheiro. Carlos, aparentemente mais em forma, não dava sinais de que não pudesse continuar, caso a maratona persistisse. - Venha cá, moleque, eu devia dar-lhe umas palmadas - esbravejou o “buldogue”, gastando o resto das energias. Silva interveio:

- Calma! Va-vamos, saia daí! Não se-seja teimoso, filho, por que

fugiu se lhe entregamos o cho-chocolate? - cuspia as palavras. Sabia que podemos prendê-lo por desacatar uma autoridade?

- Uma, não; duas! - completou Carlos.

O pequeno fugitivo, que até então esboçava um inocente sorriso, levantou-se mudo e assustado como um coelho acuado. Então os dois homens o pegaram pelos braços e o fizeram sentar-se num banco. Demoraram alguns minutos recuperando-se do esforço e tendo o cuidado de não despregarem os olhos de cima do travesso. Em seguida, os três encaminharam-se até onde estava a viúva. Ela tinha corrido como pudera, tentando alcançar o fugitivo e seus perseguidores, estacando quando viu o filho entre os dois homens. Eles entregaram-no a fim de que ela o repreendesse. Mas em vez disso, a mãe o abraçou e preferiu simplesmente explicar-lhe que o que havia feito era algo errado e que não tornasse a repetir. Aquela atitude branda - na opinião dos homens da lei - irritou-os. Pactuou-se terminar aquela entrevista em outro lugar, onde houvesse meios para uma conversa civilizada. Abandonaram o bosque, acompanhados de longe pelo misterioso tipo do binóculo, e entraram diretamente na viatura policial estacionada na frente do portão de entrada do parque. Em pouco tempo o carro pôs-se em marcha com destino à delegacia da Candelária. Protegido pela película escura dos vidros do automóvel, a figura misteriosa continuava a espreitá-los e agora já não necessitava utilizar o binóculo para poder vê-los. Dando um tempo suficiente para que os policiais levassem uma boa dianteira, o desconhecido manobrou seu carro devagar e pôs-se a segui-los, tendo o cuidado de manter-se à distância a fim de não ser descoberto.

43

A viatura branca e preta da polícia percorreu a longa avenida

Salgado Filho. Os dois conservavam agora certa tranqüilidade, Carlos mascava chicletes enquanto Silva conduzia, observando de vez em quando, pelo retrovisor, os ocupantes do banco traseiro.

- A propósito, Carlos - perguntou em voz baixa Silva, tendo

cuidado para que os passageiros, separados por uma proteção de fibra transparente, não os ouvissem-, de que forma aquele garoto matou o tio?

- Simples, meu caro! – disse satisfeito o outro –. Aproveitando

que o homem brincava com ele em seu quarto. Evidentemente o tio deveria estar de costas no momento em que recebeu o mortal impacto produzido pela espada - respondeu em voz baixa, quase no ouvido do outro. E depois completou: -É terrível, mas é a pura verdade. Deve tê- la subtraído da parede da sala quando não havia ninguém por perto. Os dois se entreolharam e emitiram uma espécie de suspiro simultâneo. Silva olhou de relance para o pequeno através do espelho e pode ver que ele se agarrara aos braços da mãe. Durante o resto do trajeto a senhora Osla tratou de pedir desculpas pelo que fizera o filho e depois foi a vez de o pequeno desculpar-se. Os polícias esforçaram-se num sorriso amarelo, em sinal de que haviam aceitado a desculpa. Quase não havia gente quando saltaram em frente da delegacia.

Pondo seus olhos no pequeno, os detetives fizeram-no sair por último. Tudo o que queriam agora era inquiri-lo de vez, a fim de que pudesse falar como um papagaio. Uma sala já os esperava quando, finalmente, a mãe e o filho ingressaram no prédio. Sentados em confortáveis cadeiras e tendo as paredes da sala completamente nuas, os detetives tentavam arrancar do menino tudo que podiam, sob o olhar atento da mãe.

- Havia alguém na sala no momento em que você viu seu pai sentado no sofá? – estava perguntando Silva. A voz aguda do menino soou.

digo, morto -

corrigiu. Ele foi para o céu! – disse Roberto, voltando-se para a mãe.

Silva torceu o nariz.

- Muito bem, sei que ele está agora em um bom lugar. Você

gosta dele, não é?

- Ele não estava sentado! Quero dizer

han

- É, sim! Eu gosto dele. Um dia, eu vou me encontrar com ele.

44

- Claro que vai filho! Todos nós iremos qualquer dia desses.

Por um momento, os dois homens se entreolharam e nada disseram. Mas é certo que sentiram algo diferente do normal. Talvez um fio de remorso houvesse roçado suas consciências. Silva baixou a cabeça e pôde ver os tênis cor de abacate que a criança usava. Reparou que eram delicados e de repente pensou em sua própria mãe, e em seu pai que havia morrido há anos, e também na pequena irmãzinha. Deviam estar em casa agora esperando por ele e, quando saísse do trabalho, os encontraria. Contavam com ele, as duas eram a sua única família. Teve vontade de chorar baixinho, como costumava fazer ainda menino, quando soube que o pai morrera. Num esforço grande, engoliu em seco e deu um suspiro mais forte do que de costume. Não podia fraquejar naquele momento, era seu trabalho e devia acostumar-se a ele se o quisesse fazer bem feito. Estendeu a mão sobre a mesinha do

centro e pegou um álbum de fotografias três por quatro. Ergueu-o a fim de mostrá-lo ao pequeno.

- Quero que me diga algo. Vê esta? - perguntou com voz terna o

detetive, apontando para uma das fotografias. O menino fez que sim com a cabeça, ao mesmo tempo em que olhava fascinado para as fotos de pessoas que jamais havia visto antes. Silva prosseguiu enfático:

- Quero que me diga se viu algumas destas pessoas em sua casa

ou se lembra de tê-las visto alguma vez em outro lugar. Mas quero que

me diga somente a verdade. O detetive tentava fazer com que revelasse qualquer dado novo. Pelo canto do olho percebeu o olhar reprovador da mãe como se esperasse mais tato por parte dele. Mas não houve tempo para reconsiderar a questão quando Roberto respondeu:

- Tá bom, mas você promete que me deixa ir para casa depois?

- Claro que o deixaremos ir, filho! Queremos apenas descobrir

quem fez aquilo com o seu pai, entende? E para isso contamos com a

sua ajuda. É só o que queremos e nada mais! E então, o que me diz? Quer ver se reconhece alguém neste álbum? Carlos levantou-se impaciente e lentamente abandonou a sala.

- Sim – concordou o menino, vendo o policial afastar-se.

- Apenas a verdade, está bem? – relembrou-lhe Silva.

Meia hora passou-se até que o pequeno tivesse repassado uma

45

por uma as fotos. Sem qualquer resultado aparente, o livro foi fechado. Silva gesticulou através do falso espelho que separava a sala de uma outra, de onde Carlos os observava.

- Aguardem aqui.

E cruzou a porta para dialogar com o companheiro. Na sala ao

lado, mãe e filho, agora a sós, olhavam atônitos para os lados. Silva comentou haver notado como o garoto se detivera por mais tempo nas fotos femininas. Um minuto depois haviam decidido liberar as testemunhas até uma outra ocasião. Seja o que for que Roberto tivesse em mente, Silva não esperava por aquela revelação. O que o menino disse, porém, atingiu-os como um raio.

- Eu vi uma mulher pulando a janela lá de casa.

Desta vez, todos na sala fitaram-no como uma flecha. Os olhos da senhora Osla arregalaram-se. Num ímpeto, Carlos partiu para cima

do garoto, tentando sacar-lhe a confissão, sendo contido pelo colega. Então o jovenzinho pode continuar:

- Eu vi! Ela pulou a janela da minha casa quando eu cheguei à

sala onde papai estava. Silva ficou perplexo. Recobrando a serenidade, perguntou:

 

-

Conte-nos o que mais viu. Quem era?

-

Eu só sei que era uma mulher, eu não sei quem era!

-

Que roupa usava?

-

Acho que era um vestido.

-

E era nova ou era uma senhora?

-

Não, acho que era nova; ela pulou a janela e não deu para ver

direito.

Carlos olhou para a mãe. Mas foi Silva quem prosseguiu com as perguntas:

- Você contou a alguém o que viu?

- À minha mãe! – respondeu prontamente.

O detetive Carlos coçou a cabeça calva e dirigiu sua mirada à

senhora Osla. O rosto da mulher estampava um colossal estado de

choque.

- Mas

Silva impediu-a que arguisse e continuou dirigindo-se ao menor:

- Como você sabe que era uma mulher?

46

O pequeno parecia agora seguro de si.

- Porque ela tinha os cabelos grandes, louros! – e, depois, disse:

- E eu não gostei dela ter pulado a janela de minha casa! –declarou, quase chorando. O senhor acha que foi essa mulher quem fez aquilo com meu pai?

- É possível filho, prometo que se continuar contando-me, farei

tudo que estiver ao meu alcance para agarrá-la – replicou Silva, fuzilando a senhora Osla com o olhar.

- Espere, detetive, gostaria de explicar o que ocorreu! – defendeu-se a mulher.

- Por favor, senhora, espere até que acabemos.

- Não foi mamãe! Não foi mamãe! – interveio o guri.

Diante da súplica do filho, a viúva foi incapaz de calar-se e os policiais concederam-lhe uma oportunidade:

- Realmente, meu filho me havia dito o que supunha ter visto; só

que eu pensei que se tratasse de minha filha! Como poderia imaginar que ele tinha visto outra pessoa? –agitava as mãos enquanto argumentava-. Além do mais, a porta da entrada estava trancada e a chave não estava na fechadura, só depois é que a achamos no chão da sala. E como não vi minha filha no momento em que cheguei à sala, supus que ela havia saltado a janela para pedir ajuda à vizinha.

- E por que não nos contou?

- Achei que não tinha importância alguma. Só depois que minha

filha apareceu é que eu soube que ficara em seu quarto até àquele momento.

- Mas senhora! Estamos falando de alguém que pulou a janela, não lhe parece incomum? Carlos acrescentou:

- Eu diria, no mínimo, suspeito!

O sotaque da mulher acentuou-se quando ela voltou a falar:

- E não sei! – retorquiu de modo nervoso. Como já lhe disse,

imaginei que a minha Rosalva, encontrando a porta fechada e diante da situação, tivesse saltado em busca de socorro! Carlos quis saber, novamente, por que ela não havia revelado o fato à polícia.

-

Estava extremamente abalada e descontrolada! – foi sua

resposta.

47

E diante do silêncio dos policiais, que a olhavam incrédulos,

falou com voz embargada:

- Cheguei a pensar que fosse minha filha a culpada daquele ato

horripilante, pois eu me encontrava atônita com o que tinha à minha frente! – depois arrematou: por favor, senhores, eu lhes imploro que não cheguem a imaginar que minha filha matou seu próprio pai – e dizendo isso, caiu num choro convulso.

O menino procurou abraçá-la e colou seu rosto junto ao dela.

A sala estava abafada, apesar do ar condicionado, e os vidros da

janela embaçados.

rosto da mulher. Torcendo os seus na direção do jovenzinho, Carlos trouxe-o ao interrogatório:

Os dois homens haviam cravado seus olhares no

- Em que momento contou à sua mãe o que tinha visto?

- Foi quando a gente estava no restaurante, aí me lembrei de

contar porque meu pai tinha ficado sozinho lá – disse de forma inocente.

- E o que sua mãe lhe disse?

- Ela não disse nada, só me escutou!

- Talvez ela não tenha ouvido quando você falou. Estava ao telefone quando lhe contou?

- Acho que sim!

- Entendo – disse Silva, fitando o colega.

- Foi assim, não foi, mamãe? – e como a mãe nada lhe respondesse ele insistiu: - Não foi, mamãe?

A mulher disse-lhe que sim aos prantos e depois passou as mãos

pela cabeça pequena do filho.

- Muito bem - disse Carlos. Conte sobre a mulher. Deu para ver seu rosto?

- Eu só a vi de costas e ela tinha os cabelos louros, eu já disse!

- E de que cor era sua pele?

- Não sei, estava escuro e não deu para ver quase nada. Eu saí correndo dali.

- Tente lembrar-se da sua altura. Era alta ou baixa?

- Acho que ela era baixa como

É

Era do seu tamanho. –

disse, apontando para o detetive Carlos.

- Talvez fosse sua irmã? – contrapôs Carlos.

- Não era! – garantiu o pequeno. Minha irmã não faria isso com

48

o meu pai! – quase gritou. Silva fez sinal ao companheiro, pedindo-lhe moderação. Carlos esfregou uma das mãos pelo rosto gorduroso e se levantou. Alisando a cabeça quase calva, foi até a um canto da sala e ficou ali, como se meditasse às paredes. Silva olhava para o chão e daí para o teto, voltava ao chão e depois mirava o teto outra vez. Sentia-se embaraçado pela primeira vez. Pensou durante uns cinco minutos e, quando os ânimos se acalmaram, ele levantou-se e deixou-os ali. O colega acompanhou-o outra vez até à sala contígua. Seguramente levariam horas até que tragassem por inteiro aquela informação nova e suas imbricações. Depois de algum tempo, os investigadores retornaram à sala,

decidindo dar por finalizada a entrevista. Encontraram mãe e filho já recompostos.

- Pronto, eu contei tudo e agora quero ir para minha casa! – pediu o jovem quando viu que sua mãe já não chorava. Silva ainda puxou da manga uma última pergunta:

- Por que você fechou com chave a porta da cozinha, deixando

sua mãe presa no quintal? Roberto surpreendeu-lhe com a resposta:

- Não fui eu quem fechou a porta – bradou, de forma veemente.

Mas então, se o garoto dizia a verdade, quem havia fechado a porta à chave? Precisava conversar o mais rápido possível com a irmã, ela parecia ser a única a ter as respostas. Àquela altura, com todos exaustos, Silva deixou que as testemunhas fossem para casa. Não havia qualquer acusação formal para que elas fossem retidas e, a contragosto, o detetive Carlos foi obrigado a concordar. Do outro lado da rua o homem do binóculo esperava. Quando mãe e filho finalmente apareceram, a sombra de uma acácia impedia que fosse visto. Ele esperou que a dupla tomasse um táxi e, em seguida, arrancou seu carro, deslizando exatamente na direção contrária. Parecia satisfeito com o que tinha visto.

49

V – UM QUEBRA-CABEÇAS

- Garçonete! Traga outra fanta Uva, por favor.

- Para mim, uma cerveja sem álcool bem gelada – disse o delegado da Candelária, enquanto sondava a fisionomia do detetive Silva.

A moça fez um sinal de positivo com a cabeça e voltou-se rapidamente na direção do bar. Quase não havia mais espaço na praça de alimentação do Natal Shopping. As mesas e cadeiras de metal praticamente se fundiam com as roupas da gente que as ocupava. A empregada tinha muita pressa, lidando com a bandeja. Paulo observou o agente comer um sanduíche de frango com palmito. Era quase hora do almoço e, em seu modo de ver as coisas,

aquele tipo de comida não podia ser considerada uma refeição. Seja como for, tinha de respeitar a escolha do colega, ele mesmo preferiria esperar chegar à casa e encontrar algo suculento sobre a sua mesa. Tinha sorte em contar com uma esposa dedicada e, acima de tudo, uma boa cozinheira, sim senhor! De mão-cheia! A moça de olhos verdes e andar apressado apareceu de repente e deixou as bebidas sobre a mesa, acrescentando um sorriso cheio de dentes incrivelmente brancos e uniformes.

- Obrigado, querida – disse Silva, devolvendo-lhe o sorriso e fazendo uma mesura.

Enquanto a jovem driblava as mesas a fim de atender os outros clientes, o delegado voltou à carga:

Sabe, Silva, o que nós temos até o momento é

pouco para fazer frente à brutalidade desse terrível crime e o tempo está

pesando contra a polícia! Em quatro dias de investigação não colhemos uma só pista de quem praticou o homicídio. Por isso quero que me diga tudo o que conseguiu até o momento.

- Bem, tenho o depoimento de uma testemunha que disse haver visto alguém mais no local do assassinato – disse o policial, entre um bocado e outro. O delegado levantou as sobrancelhas:

- E quem seria a testemunha? A que você perseguiu através do parque, tentando suborná-la com presentes?

- Han

han

51

- O que

como sabe que

?

- Oh! Não me subestime, meu caro! Seria preciso não ter

ouvidos para não escutar o que seus companheiros comentam por aí – ironizou o chefe.

- Não quis dizer isso! Bom, o fato é que conseguimos uma boa informação.

- Muito bem, conte-me, então! – o delegado se esforçava por

manter-se calmo. Beirando os setenta anos, possuía quase o mesmo vigor de anos passados quando desbaratou vários crimes, aparentemente insolúveis dentro do Estado. A experiência tinha lhe ensinado também em que momento podia destilar seu senso de humor. Ele havia logrado, com suas táticas, que o seu nome fosse respeitado nos meios policiais e até por uma parte da sociedade. Evidentemente, não havia sido moleza galgar postos e, se tinha chegado ao cargo de delegado, era devido às boas amizades que soubera cultivar dentro da organização. Por isso não podia tolerar que algum membro de sua equipe cometesse qualquer deslize, manchando sua brilhante carreira policial. A pele morena e uma cabeleira negra davam-lhe um aspecto juvenil, tornando-o assemelhado ainda à foto pendurada na parede do seu gabinete, recordação dos velhos tempos em que atuava diretamente

nas ruas. Agora, levava um impecável bigode aparado com ares de pintor francês. Voltando a sua atenção para o delegado Paulo, o detetive Silva teve de deixar de lado a beleza da garçonete que o observava por detrás

do balcão, entre um pedido e outro. Contra a sua vontade foi obrigado a recordar-se do lamentável episódio no parque.

- A carreira valeu a pena, delegado, pois caçamos um bom

animalzinho que se mostrou gordo de informações – disse, espremendo

uma grande quantidade de maionese sobre o pão. O fato –continuou- é que o menino nos revelou ter visto uma mulher loira saltando a janela da sala onde o pai foi assassinado.

- Isso é animador – reconheceu o delegado. Espero que a

informação seja de grande utilidade.

- Não tenho qualquer dúvida a respeito. Entretanto, sei, ao

mesmo tempo, que se trata de uma informação que terei de averiguar

minuciosamente.

52

- E como o garoto descobriu essa tal mulher loira?

- Segundo ele, simplesmente a viu escapar no momento em que

chegou à sala onde o pai acabava de ser assassinado.

- Uma história bem interessante! – disse o delegado, pensativo.

- No momento, é a única pista que temos. Tentarei novamente

falar com a filha da vítima, seu nome é Rosalva – Silva fez uma pausa e depois completou: - Enquanto o Carlos investigará a área ao redor do local do crime novamente.

- Mas por que já não a entrevistou?

- Bem, estive tentando falar com ela agora pela manhã, mas o

senhor sabe como é! Ela não podia falar com ninguém por sentir-se

muito mal e não sei que mais, segundo seus familiares. Hoje em dia é muito fácil alegar-se algum tipo de estado de choque e coisas assim Enfim, recomendações médicas.

O delegado pensou um pouco:

- A mãe é loira, não é mesmo?

- Sim, e creio que assim ela torna-se também uma suspeita em potencial.

- E como você pretende assegurar-se de que essa não é uma

história inventada?

- Bem, a história em si parece difícil de ser contestada! –

argumentou o detetive.

- Mas você sabe muito bem que isso não é o bastante. Se isso

não lhe der resultado você não terá o suficiente com o que contar. Assim, sugiro que também pergunte por aí sobre essa tal loira, afinal estamos falando de um lugar pequeno onde todos devem se conhecer – replicou o delegado.

- Sei o que quer dizer – disse o investigador, arregalando os

olhos. É exatamente o que farei. E se a vítima tinha uma amante, nós a descobriremos. Silva havia acabado o sanduíche e agora sua única preocupação era tentar pedir um sorvete. Gostava muito dos sabores de frutas da fábrica Sterbom, “são divinos”, dizia a todos, parecendo uma criança. Levantou a cabeça, procurando a garçonete detrás do balcão, mas ela havia desaparecido. Dirigiu sua mirada entre as mesas e nem assim foi capaz de notá-la, então se voltou para o delegado, que estava perguntando:

53

- O que lhe pareceram as vizinhas? Suspeita de alguma armação entre elas?

- Apenas falei com a senhora Expedita, que goza de boa saúde,

já que a irmã, que se chama Sebastiana, está internada. Ela é deficiente física e parece sofrer frequentes artrites ou coisas assim. Mas a velhinha com quem falei é bastante segura sobre o que diz.

- E o que ela lhe contou?

- Bem, além do que já sabia, disse-me que escutou comentários

de que o senhor Melquíades bebia muito e também que devia dinheiro a alguém. - Uma informação importante, sem sombra de dúvidas. Descobriu alguma coisa nesse sentido?

- Terei de falar com um rapaz chamado Jonas, foi quem lhe

contou essa história. Eu sei que vamos devagar, reconheço, mas talvez

essa seja uma maneira de descobrir o que realmente aconteceu.

Infelizmente, delegado – frisou Silva -, as coisas hoje são conduzidas de maneira diferente de como eram antigamente!

- Ora! Não me venha com esses chavões antigos, detetive, o que

realmente é importante aqui é que você e o Carlos façam as perguntas que devem ser feitas e pronto! Ou devo dizer-lhe que fui encarregado pelo secretário de segurança de encerrar esse caso o mais rápido

possível? Silva considerou a questão por um momento. Sabia da

importância do turismo para a cidade e, portanto, da especial preocupação das autoridades. Quanto a ele, estava satisfeito com o que havia comido e não pretendia ser vítima de uma indigestão, discutindo com o chefe.

- O senhor tem razão.

Fez-se uma pausa na conversa entre ambos, enquanto uma

música soava de um acanhado palco instalado a alguns metros. Um cantor de cabelos grandes, com seu violão de aparência desgastada, exibia-se para o público que pouca atenção prestava. O delegado alisou o bigode e disparou:

- E o que você realmente sabe até agora sobre a filha?

- Parece que estava em seu quarto, no primeiro andar, o qual se

comunica com a sala, no momento em que o garoto descobriu o cadáver

do pai. De sua janela vê-se perfeitamente a casa das vizinhas e, se

54

estivesse aberta, o criminoso poderia ter entrado por ela e descido até ao térreo, onde poderia esfaquear o senhor Melquíades. Do lado de fora é possível escalar a parede e alcançar a janela, os tijolos são desses antigos e irregulares. Nesse caso, seria impossível que ela não o visse. Segundo sua mãe, Rosalva foi a última da família a saber o que havia ocorrido com o pai, pois quando desceu de seu quarto deparou-se na sala com a mãe e o irmão.

- E quanto à vizinha, como ela entrou na casa?

- O menino encontrou as chaves da porta da frente no bolso da

camisa do pai e abriu-a, pois não encontravam a chave. E por aí passou

dona Expedita, a fim de auxiliá-los.

- Significa dizer que a chave, que costumava ficar na porta, não estava lá, nesse momento? - Exatamente, a chave costumava ficar dependurada na

fechadura da porta, pelo lado de dentro. A chave só foi encontrada depois, sobre o tapete da sala, quando a senhora Osla voltou do telefonema.

- Muito estranho. Quem encontrou a chave?

- Ainda não sabemos.

-Há qualquer coisa aí que não se encaixa – pontuou o delegado.

Depois, disse:

- E quantos suspeitos até agora?

- Bem, contando com a esposa, o filho Roberto, a filha Rosalva

e as duas vizinhas; a senhora Expedita e a paralítica, a senhora

Sebastiana, que vive em uma cadeira de rodas, são seis. Há também o

rapaz Jonas, que é o entregador em domicílio do supermercado e que atende as duas casas, de vez em quando. Com ele, seriam sete suspeitos. Mas ainda não falamos com ele.

- E quanto ao álibi de cada um?

- Começando pelas vizinhas, temos a senhora Sebastiana, que é

paralítica e estava internada na noite do crime. Sua irmã, a senhora

Expedita, que diz ter estado todo o tempo em sua casa e não viu e nem ouviu qualquer ruído até que escutou os gritos da esposa de Melquíades

e, então, saiu para ver o que ocorria. Quanto à viúva, alegou estar no

quintal e somente chegou à sala onde o marido foi morto quando seu filho avisou-a de que tinha descoberto algo errado com o pai.

- Assim, restam os filhos! – deduziu o delegado.

55

Silva limpou mais uma vez a boca com o último guardanapo que havia, antes de continuar:

- Bem, o garoto foi quem realmente descobriu o corpo e não

podemos contradizê-lo de momento – e completou: - O próximo passo será conversar com a filha. Meio minuto se passou até que o delegado dissesse algo outra

vez:

- O marido havia feito algum tipo de seguro, que beneficiasse alguém da família?

- Já demos uma busca e até agora não encontramos qualquer

indicação de que haja uma apólice de seguro ou coisa do gênero.

- E o tal Jonas? O que ele tem a ver com o assassinato?

- Aparentemente foi ele quem forneceu às vizinhas a história de

que a vítima era alcoólatra e que devia bastante dinheiro a alguém.

- Parece uma informação bem interessante! Trate de averiguar o

que há por trás disso. Na maioria das vezes, onde há fumaça há fogo.

- É o que farei.

- Há mais algum suspeito? – quis saber o delegado.

- Não! Creio que não há mais suspeitos. Em todo caso, não

descarto a possibilidade de que a lista cresça. Pode ser que exista um credor do senhor Melquíades que, por enquanto, não sabemos quem é. Terei de perguntar ao entregador, pois, pelo visto, ele deve saber muito mais.

- Mais alguém?

- No momento, não.

- Pois já sabe o que deve fazer – disse o chefe, levantando-se da

mesa. E, por favor, seja breve em entregar os relatórios, necessito deles urgentemente. A delegacia precisa de fatos, de novidades encorajadoras! A imprensa está enfocando o caso como se fosse uma coisa do outro mundo. Esses filhos da mãe só querem um pé para poder denegrir a nossa imagem. Você sabe do que eu estou falando! – concluiu, suando em bicas. - Eu compreendo – afirmou o detetive, em tom conciliador. Em seguida, Silva sugeriu que pedissem a conta, aproveitando para beber um último gole do refrigerante. O delegado esforçou-se por localizar a mocinha que os atendera tão amavelmente, mas não havia sinal dela.

56

- Onde, diabos, meteu-se aquela jovem? Quero pedir já a nossa

conta – resmungou, olhando por cima do ombro. Silva teve vontade de rir e, por pura sorte, não fez, o que teria

deixado o chefe nervoso. Em vez disso, girava o pescoço, tentando divisar a moça.

Já não havia mesas disponíveis em toda a praça da alimentação,

alguns casais aguardavam de pé que vagasse algum lugar. Silva observou do outro lado algumas pessoas que compravam nas lojas, enquanto outras tantas admiravam tranquilamente as vitrines bem sortidas. Ao redor dos dois homens havia também grande quantidade de estudantes, denunciados por suas camisetas escolares e falando pelos cotovelos. Uma vez mais o esforço do delegado não logrou a atenção da empregada da lanchonete. Ela parecia estar travando uma espécie de batalha, atendendo ao mesmo tempo vários fregueses e correndo do balcão às mesas para despachar os pedidos. Sua destreza em ziguezaguear por entre as cadeiras assemelhava-se aos dribles do famoso jogador de futebol Pelé, correndo em direção ao gol adversário. Por fim ela surgiu, vinda não se sabe de onde. Ao divisar Silva, abriu a boca num largo sorriso e, sem tirar os olhos do policial, perguntou-lhe se queria algo mais.

Silva aproveitou para pedir um sorvete de cajá, o seu favorito.

O delegado olhou-o furioso, já que tinha pressa em ir para a

casa, mas antes que pudesse queixar-se, Silva emendou:

- E quando vier, traga-nos, por favor, a conta – explicou, mostrando todos os seus dentes.

- Muito bem – disse ela –, já volto.

Retornou em um minuto e, sem abandonar o sorriso do rosto, somou a despesa ali mesmo e, em seguida, forneceu-lhes um pedaço de papel rabiscado de números. Ao receber o pagamento das mãos de Silva, a jovem pronunciou numa voz angelical:

- Voltem sempre!

- Será um prazer, querida! – respondeu Silva, piscando para ela

e, com uma palhetinha de madeira, foi levando o sorvete à boca. Na opinião do velho delegado, a garota flertava abertamente com o detetive, não lhe importando o fato de dar bandeira aos demais

57

clientes. “Estas jovens de hoje em dia são mais oferecidas do que farinha em feira”, pensou. Antes de saírem, testemunharam como a moça dava meia volta e

retirava-se a toda velocidade, evitando com destreza chocar-se contra as mesas abarrotadas de gente. Parecia uma bailarina.

- Gostaria que fosse à delegacia após falar com a jovem, está

bem?

- A quem se refere, senhor? – gracejou Silva, sem despregar sua vista de cima da moça do restaurante.

A quem acha que me refiro? Claro que à sua próxima

entrevistada, quem iria ser? – exasperou-se.

- Ora

- Desculpe, delegado, é que

- Não precisa desculpar-se, já sei o que passa pela sua cabeça, e olhe que não sou adivinho! Já tive sua idade, Silva! Bem, agora esperarei notícias suas.

- Claro, senhor, não se preocupe.

- Muito bem! Vamos. Ao se levantarem, foram detidos por uma música eletrônica. A melodia vinha de algum lugar bem próximo. Paulo tirou o celular de seu bolso e apertou uma tecla, fazendo parar a canção.

- Sim? É ele mesmo, diga! É

Silva tentava acompanhar a expressão facial do chefe.

Ao cabo de dois minutos de um monólogo incompreensível, a ligação chegou ao fim sem que o detetive pudesse compreender o que se passava.

- Algum problema?

O delegado guardou o aparato e respondeu friamente sem olhar

para lugar algum.

- Sim, acabaram de divulgar o resultado do exame sobre os

líquidos encontrados no cadáver. Silva surpreendeu-se com a notícia, uma vez que já se havia divulgado o laudo final através dos jornais. Pensou, entretanto, que o documento estaria cheio de descrições técnicas explicando, aqui e ali, como a faca havia perfurado a nuca da vítima e quais artérias haviam atingido, além de uma série de outros detalhes aparentemente sem importância. Mas em vez disso ouviu algo distinto:

58

- Acharam veneno no cadáver.

Silva quase tombou para trás, sufocando um grito, as mãos

tremendo deixaram cair várias gotas do sorvete. Observava o delegado que mirava algum ponto ao longe. Não podia acreditar no que acabara de escutar. Não, não podia ser! – repetia.

- Uma pequena quantidade de arsênico! – grunhiu o delegado.

- Oh! Meu Deus!

- Eu tenho de ir – disse Paulo, desconcertado.

Silva o acompanhou. Caminharam apressadamente sem prestar muita atenção por onde andavam. Alguns transeuntes zangaram-se pelo fato de o robusto delegado roçar-lhes o corpo sem sequer pedir desculpas. Seu rosto, agora sério, expressava um misto de decepção e ira. Sentiu que a coisa piorara e apenas uma certeza lhe atravessava a alma:

estava seguro de que, se aquela informação chegasse à imprensa, lhe esperavam câmaras fotográficas, gravadores e um monte de perguntas indiscretas às quais provavelmente não saberia responder. Tomaram uma escada rolante, mas não foram capazes de esperar que a esteira os levasse até ao topo. Correram por ela até alcançarem o andar de cima do Natal Shopping, saindo finalmente por uma grande vidraça lateral que ia dar na garagem.

- Irei ao Instituto Médico Legal – disse o delegado Paulo,

quando chegaram ao estacionamento.

- Bem, entrevistarei a filha da vítima e em seguida lhe darei

notícias, chefe. Despediram-se e seguiram rumos distintos. Silva abotoou o cinto de segurança, tentando ordenar o turbilhão de ideias que lhe povoava o cérebro. Chegava à hora de descobrir a verdade!

59

VI - A FILHA DA VÍTIMA

Antes de chegar ao seu destino, Silva se deu conta de que a bateria de seu celular já não tinha carga. Então parou próximo a um

orelhão e discou para o Instituo Médico Legal. Só depois é que ligou para o detetive Carlos.

- Alguma novidade?

Do outro lado da linha seu companheiro percebeu tristeza na voz de Silva.

- Nada que valha a pena comentar – revelou Carlos. E depois

completou: -Vasculhei toda a área ao redor, cada centímetro do lugar.

Também dei uma olhada na casa e sinceramente não tenho motivos para estar animado. Não há nada ali que possa nos servir de prova,

infelizmente. - Não me estranha que não tenha descoberto alguma coisa – disse, lembrando-se da chuva que havia caído na noite do crime e que o obrigara, na manhã seguinte, a limpar seus sapatos enlameados, no tapete da senhora Expedita. A velhinha havia lhe pedido que batesse seu calçado antes de entrar na sala e Silva obedecera em seguida.

- Este caso está se tornando mais difícil do que eu imaginava – reconheceu.

Carlos foi obrigado a concordar, mas depois quis saber detalhes da conversa que ele havia mantido com o delegado Paulo, ouvindo a notícia sobre o resultado da autópsia.

- Está nos apertando o parafuso e não há como saltar fora e eu,

particularmente, me sinto muito pressionado.

- Sei o que quer dizer, – disse o outro pausadamente. Pelo visto,

o papo entre vocês não foi nada animador, hein?

- Ao contrário. Segundo ele, a imprensa está nos perseguindo e

a razão se deve a que, até agora, não apresentamos nenhum elemento

que conduza ao motivo do crime, ou que faça suspeitar do culpado. É claro que ele tem suas razões para pensar assim, pois, a não ser a arma usada para matar, nada mais temos, e eu confesso que isso é muito

pouco!

Fez-se uma pausa. E foi Carlos quem quebrou o silêncio que se instalou entre eles.

61

- E quanto à visita ao IML?

- Como soube disso?

- Simples, meu caro! Liguei para você, mas seu celular não

dava sinal, então chamei à delegacia. Você sabe como é que é; essas notícias voam como foguete!

- Bem, - disse Silva. Paulo preferiu verificar pessoalmente o

resultado do laudo antes que o pessoal da imprensa meta o nariz.

- E então, finalmente, o que há de verdade em tudo isso?

- Eles encontraram no corpo uma mínima quantidade de um

veneno chamado arsênico – revelou Silva.

- Muito estranho, não? Raramente ouço falar neste tipo de

coisa.

- Trata-se de uma substância que pode ser extraída a partir do

veneno usado para matar ratos e que, por sua vez, é muito fácil de ser

adquirido em qualquer supermercado ou farmácia. Pode ser administrada a comidas, sopas, uma xícara de café ou em bebidas

alcoólicas, por exemplo, sem que a vítima seja capaz de detectar seu sabor. Dependendo da quantidade, pode causar a morte por enfarto instantaneamente.

- É realmente assombroso o seu poder. Mas o que significa

isso? Que o homem foi envenenado?

- Não, eu não disse isso. Acabei de falar pelo telefone com o

médico que praticou a autópsia no cadáver e, embora ele ainda não

saiba com segurança, a dose parece não ter sido suficientemente forte para provocar a sua morte. De qualquer maneira –conjeturou-, é algo que nos leva a considerar outros motivos que provavelmente teria seu assassino para matá-lo! Como o colega permanecesse mudo, Silva continuou:

- E talvez, como não lograsse envenená-lo, lançou mão de outro método mais eficaz.

- O que realmente imagina que possa ter acontecido?

- Parece que ele bebia ultimamente, segundo o depoimento de

sua vizinha, e pode ser que desta forma o criminoso tenha posto o

arsênico diretamente em seu copo enquanto estava ao seu lado. Mas por alguma razão a dose não foi suficiente para matá-lo. E então o seguiu e o matou em sua própria casa.

- Nesse caso, teríamos de descobrir onde o senhor Melquíades

62

esteve antes de ir para a casa – argumentou Carlos.

- Exatamente, é o que faremos. Silva enveredou, depois, por outro raciocínio :– Entretanto,

talvez seja mais fácil seguir a pista do possível credor do defunto, como diz sua vizinha, embora eu ache que em vez de matá-lo a pessoa devesse tentar receber o seu pagamento. Curiosamente não é esse o caso, já que não há qualquer indício de que tenha sumido dinheiro, jóias ou algum objeto de valor da casa da família. De modo que, definitivamente, eu descartaria o motivo financeiro.

- É realmente espantoso o que me está contando – asseverou.

Que motivo supõe, então, para o seu assassinato?

- De momento não sei o que pensar, pois as coisas parecem mais

confusas do que antes, embora ele não tenha morrido em consequência dos efeitos do veneno. O certo é que a arma que o matou foi à lâmina de aço, e não o veneno, pois a dose encontrada era ínfima e não representava perigo para a sua vida. De qualquer modo, há que se

responder agora a uma simples pergunta: a pessoa que tentou envenená- lo foi a mesma que o assassinou?

- Provavelmente – arriscou Carlos. A não ser que houvesse duas

pessoas com o propósito de eliminá-lo. Seria uma coincidência pouco

provável, não acha? Silva pensou um pouco e depois gracejou:

- E você que pediu para se incorporar ao caso, hein? Olha, por

mim tudo bem, eu te agradeço muito que tenha vindo para me ajudar! - Você sabe que deve contar comigo para o que der e vier – assegurou Carlos.

- Disso eu não tenho dúvida! – e acrescentou: -Outra certeza que tenho, agora mesmo, é que devo tomar o depoimento da senhorita Rosalva o mais rápido possível. O outro disse:

- Bom, quanto a mim

Silva interrompeu-lhe:

- Gostaria que falasse com o rapaz chamado Jonas, o do supermercado. Acredito que possa localizá-lo através da senhora Expedita.

- Era o que eu ia sugerir - anuiu. E se ele souber de algo eu serei capaz de descobrir.

63

- Vamos provar se temos sorte, desta vez – animou-se Silva. E

pondo fim ao diálogo, eles desligaram seus aparatos. Olhando à sua direita, o detetive Silva divisou, a alguns metros, uma placa azul com grandes letras onde se lia: Bairro Latino. O lugar estava apinhado de blocos de apartamentos. Estavam encravados na margem esquerda da Avenida Salgado Filho. Eram como caixas de

cimento de três andares e um aspecto geral de deterioração, ocupando um quarteirão inteiro bem em frente à lateral do Natal Shopping, onde o detetive estivera pouco antes. Ele caminhou até encontrar o bloco “f”. Passando pelo portal, subiu quatro lances de escadas. Diante do número duzentos e um, Silva fechou sua mão direita e com o nó dos dedos aplicou dois suaves golpes na porta. Não demorou muito, surgiu uma jovem de bela aparência.

- Boa tarde – cumprimentou-a. Sou o detetive Silva.

- Ah! Entre por favor – disse educadamente a moça, como se já

esperasse a visita. Silva agradeceu e cruzou calmamente o umbral. O detetive achou que a voz da garota possuía um tom familiar e concluiu que aquela era a filha do casal. Embora seu corpo fosse magro, já apresentava as características de uma mulher, os seios volumosos debaixo da blusa apertada. Os cabelos castanhos grandes e bem cuidados. Passando os olhos rapidamente pelo ambiente, achou-o pequeno, mas bem iluminado. Havia ali poucos enfeites e respirava-se um ar de modernidade, devido aos objetos coloridos e novos sobre os móveis

baratos. Ele sentia-se estranhamente confortável e à vontade para lançar suas perguntas. - Espero que já esteja se sentindo melhor, senhorita – disse amavelmente. Rosalva parecia medir suas palavras e demorou-se um lapso para responder:

- Já estou melhor, obrigada, se é que posso chamar assim ao que

sinto neste momento. Foi um golpe muito grande para mim e para minha mãe e meu irmão pequeno. E acrescentou melancolicamente: -Tento acostumar-me com a ideia de que meu querido pai não esteja mais presente entre nós e nunca mais estará. É muito duro e eu sei que em algum momento do futuro

64

vamos nos recuperar, a vida segue em frente, não é mesmo? Suas palavras denotaram sinceridade, segundo o julgamento de

Silva. Da cozinha chegava-lhe aos ouvidos alguns ruídos de panelas e talheres, denotando haver mais alguém no apartamento, além deles.

- Menos para o assassino – replicou o detetive.

- Assim espero, pois não me sinto bem sabendo que o monstro

que matou meu pai está solto, zombando de nossa cara –disse, agora com a voz carregada de ódio.

- Sei que é difícil para você, mas gostaria que soubesse que eu

sou obrigado a fazer-lhe algumas perguntas de praxe. Por favor, peço

que seja o mais sincera possível. Assim evitarei estar aqui longamente.

- É só o que desejo, detetive, pois perder um pai dessa maneira é

muito difícil. Não desejo a ninguém o que estou sentindo agora, é mesmo uma coisa muito triste – desabafou, parecendo emocionada. Silva percebeu sinceridade em sua voz. - Bem – iniciou o detetive. Notou algum comportamento estranho em seu pai ultimamente? Algo que valesse a pena comentar, alguma coisa de diferente nele, é o que quero dizer! A garota pensou um pouco e depois respondeu com tranquilidade:

- Na verdade, não. Nada de diferente do que ele costumava

é

fazer ou ser, apenas o fato de que parecia um pouco aborrecido, mas eu não diria que era algo anormal. Meu pai trabalhava muito para sustentar a família! Silva fez um barulho, limpando a garganta:

- Por que acha que ele estaria aborrecido?

Rosalva respirou profundamente:

- Talvez eu não tenha me expressado muito bem, somente quis

dizer que meu pai parecia chegar chateado em casa ultimamente, mas acho que isso se devia a problemas de trabalho, coisas do dia-a-dia, creio eu.

Sons de buzinas de carros e o leve ronco de motores entraram pela janela. Tentava concentrar-se na resposta da moça e, após cessado o ruído, questionou-a:

- Senhorita, sei que já não é uma criança e, por isso, gostaria de saber se seus pais tinham algum tipo de problema no casamento. Os olhos da moça arregalaram-se.

65

- Não que seja do meu conhecimento – disse, torcendo a boca.

Meus pais viviam como qualquer casal; tinham momentos difíceis

como todos eles, mas nada que indique que passassem dos limites. Silva olhava fixamente para as mãos da jovem. Eram magras e algo nervosas, agora mesmo as esfregava imperceptivelmente.

- Seu pai tinha algum problema financeiro? Quero dizer, devia

dinheiro a alguém ou, ao contrário, alguma pessoa devia-lhe?

- Meu pai era um homem correto, detetive, muito correto! –

contestou friamente. Em Natal todos o conheciam pelo zelo com que conduzia seus negócios. Acho até que essa informação o senhor mesmo

pode obter junto a outras pessoas, pois eu me considero suspeita para falar – arrematou com alguma ironia. Silva pôs-se a apreciar a personalidade de sua testemunha. Era ainda muito jovem, mas percebia-se claramente que tinha um caráter forte e que não se deixaria influenciar por suas perguntas. Tratou de deixá-la mais tranquila.

- Bem, devo dizer que já averiguamos essa informação e

pudemos comprovar que realmente é como diz. Seu pai não passava por qualquer dificuldade financeira, mas isso era algo que eu queria escutar diretamente da senhorita, pois creio que os filhos conhecem melhor os pais do que qualquer outra pessoa.

A moça fez que sim com a cabeça. E sem esperar muito, Silva

moveu mais uma peça do tabuleiro:

- Seu pai teve algum problema de saúde nos últimos tempos?

A filha reagiu assustada:

- Não entendo por que me pergunta isso, detetive! Meu pai era saudável, até onde eu e minha mãe sabemos.

- Digamos que eu tenho minhas razões – replicou.

Após um breve espaço de tempo ela respondeu, olhando diretamente nos olhos do policial:

- Bem, sentia de vez em quando algumas dores na coluna, mas

eu julgaria que se devia ao cansaço. Ele trabalhava muitas horas –ela disse e, depois, informou: -Sei também que tomava alguns comprimidos quando sentia alguma dor de cabeça e parece que isso lhe provocava efeitos colaterais.

- Algum tipo de alergia!

- Creio que não.

66

- Ele costumava ir ao médico?

- Quase nunca ia.

- Bebia com frequência?

- Meu pai nunca foi de encher a cara, como se diz por aí. Mas

também não era nenhum abstêmio! O que sei é que eu consideraria

normal se, ao sair de seu trabalho, ele resolvesse passar em algum bar e tomar uma cerveja com algum amigo.

- Entendo o que quer dize – e após uma pausa, continuou: - Sabe

se tinha muitos amigos? A filha franziu a testa e, em seguida, falou de modo espontâneo:

- Se os tinha não trazia à nossa casa e, além do mais, costumava

chegar para o jantar na hora habitual. Silva pensou em duas hipóteses: Rosalva exalava inocência e estava contando a verdade ao não saber o que realmente acontecia em torno do pai, ou, ao contrário, era uma atriz fria, calculista, omitindo o fato de que o pai se dera à bebida ultimamente. Além disso, devia saber o que pensavam as vizinhas, ou seja, suas suposições de que o pai devia dinheiro a alguém. Infelizmente nem ele nem seus companheiros da polícia haviam podido comprovar nada a esse respeito. Quanto à bebida, o exame no corpo havia revelado uma porcentagem de álcool além do normal no dia em que foi morto. Por um instante, pôs-se a

pensar no que conseguiria Carlos ao entrevistar o rapazinho do supermercado. Talvez o colega pudesse arrancar-lhe dados reveladores,

o que ele, até o momento, não fora capaz de obter daquela jovem. Resolveu ser mais específico em suas questões:

- Quem descobriu o corpo de seu pai?

- Foi meu irmão –disse e fez uma pausa. Como Silva continuasse prestando-lhe atenção, ela completou: - Daí ele avisou a minha mãe.

- E quando você tomou conhecimento do que havia ocorrido?

- Minha mãe estava gritando e eu me assustei quando ouvi seus

gritos.

- E onde estava você nesse momento?

- Em meu quarto.

- No primeiro andar, suponho. E não ouviu nada?

- Sim, estava lá em cima, mas não ouvi

- Não ouviu nada antes do

ham

não escutou algum barulho

67

estranho ou algo que lhe chamasse a atenção, antes de ouvir os gritos de sua mãe?

- Sei o que tenta saber. Não se preocupe com suas palavras,

detetive, já começo a acostumar-me com tudo isso. Sua voz denotava agora certa frustração. Ela continuou:

- Não ouvi absolutamente nada, a porta do meu quarto estava fechada e eu estava lendo.

- Estava fechada à chave?

- Não, simplesmente encostada. Não estava trancada, se é o que quer saber. Silva coçou a cabeça, parecia estar num beco sem saída, pois

desgraçadamente já tinha escutado toda essa história antes. A moça dava-lhe respostas precisas, confirmando o que ele já sabia.

- E quando a senhorita desceu, o que viu exatamente?

A jovem ajeitou-se na cadeira e respirou profundamente,

arqueando o peito. Depois inclinou a cabeça em direção ao solo.

- Minha mãe estava agarrada ao meu irmão e chorava aos gritos.

Quase no mesmo momento que desci, chegou dona Expedita para nos ajudar. Ela era a única de nós que parecia ter a cabeça no lugar e tentava ligar para o hospital. Pensávamos que meu pai havia tido um ataque ou algo assim. Só depois é que vimos o que tinha em seu

pescoço e

– vacilou abaixando ainda mais a vista, parando o relato

enquanto buscava tragar oxigênio - Eu quase havia rolado pelos degraus

da escada enquanto descia e, quando vi, estava olhando para meu

– não foi

foi tão horrível, meu pobre pai ali

capaz de prosseguir, sua voz estava embargada. As lágrimas caíram em borbotões. Silva observava seus mínimos movimentos, mas, como antes,

não julgou ver qualquer sinal de falsidade nos seus gestos. Parecia-lhe que a moça sofria agora.

oh

comecei a chorar e

- Eu sinto muito – desculpou-se.

Rosalva dirigira as pálpebras semicerradas na direção do tapete desbotado que cobria o piso da sala, enxugando o rosto com um lenço branco de papel. Não conseguira terminar a frase por causa das lágrimas que vazavam dos cantos dos olhos e empapavam sua blusa. Então gentilmente o detetive Silva esperou cerca de dois minutos, antes de formular outra pergunta.

68

- Nesse momento viu ou ouviu algo que lhe chamasse a atenção?

- Não vi nada, já disse

- Suponho, então, que foi quando partiram para buscar ajuda

- É, foi assim – assentiu, enxugando o rosto.

Silva não foi capaz de prosseguir e, por mais que tentasse obter

algum elemento novo a partir do testemunho da jovem, não logrou

qualquer êxito. Sua vontade era sair dali e tentar buscar em algum lugar notícias mais frescas. O detetive permaneceu tomando nota em seu caderninho por cerca de cinco minutos, embora não acrescentasse muito. Refazia-se, na verdade, do desânimo que o assolava por dentro, à falta de qualquer progresso. Desejou que seu colega tivesse mais sorte. Sentia-se determinado a levantar-se e ir embora dali. Mas antes precisava lançar-lhe uma última interrogação. Alçou sua mão direita na altura das sobrancelhas, penteando-as com as pontas dos dedos:

- Diga-me, desconfia de alguém em particular que possa ter

motivos para haver matado seu pai? A questão tocou fundo em sua alma e um leve estremecimento precipitou-se de seu interior, explodindo na face jovem, como as lavas de um vulcão. Seus pulmões inspiraram uma grande quantidade de ar, soltando-os lentamente. Deixou-se meditar por alguns segundos num

corpo convulso. Silva aguardava solenemente a declaração. Não queria dar a

impressão de que se sentia ansioso, mas diante daquela situação, desejava retirar-se o mais rápido possível. A jovem retesou-se num movimento súbito:

- Houve um momento em que planejei abandonar a casa de

meus pais e isso ocorreu exatamente naquela noite – declarou, enquanto

todo o seu corpo tremia incontrolavelmente -. Por favor, não me peça para responder a essa pergunta, eu não tenho o que dizer sobre isso

***

Atirando o binóculo dentro do porta-luvas do Uno Mille branco,

o investigador Lopes voltou-se para o companheiro que conduzia:

- Ainda não é o momento de revelar nada aos policiais de Natal.

- E de quem você suspeita? – indagou o que conduzia o

69

automóvel.

- Não sei - respondeu lentamente. Qualquer um deles pode ser o

assassino que procuramos –ponderou, em um carregado sotaque sulista. Por isso não convém interferir nesse momento. Deixemos que eles façam por nós o serviço mais pesado.

- E o que faremos então?

O que parecia ser o chefe respirou profundamente e sentenciou:

- Manter os olhos bem abertos, meu caro, e impedir que outro

assassinato seja cometido! Nesse momento, o Fiat de duas portas deslizava suavemente por

cima do viaduto em direção à avenida Roberto Freire, rumo ao litoral de Ponta Negra. Uma vez ali, iriam até ao Hemyngway Bar, encravado quase sobre a areia branca da praia e com uma vista maravilhosa.

A seguir faria uma importante chamada telefônica.

***

Do outro lado da cidade, a mente do detetive Silva mastigava as palavras daquela resposta enigmática que escutara meia hora antes. Não conseguia digeri-la muito bem. Era certo que ele não possuía bases para relacionar a moça ao assassinato do pai, pois os fatos não podiam ainda ser contestados, mas sua atitude era absurdamente estranha. Aliás, parecia que todos diziam sempre a verdade, ultimamente. Mas ele sabia também que alguém mentia de forma descarada. Teria de arrancar a verdade lá onde ela estivesse escondida. Quando finalmente deixou-se cair no sofá de sua casa, sentiu-se cansado como se houvesse arrastado um enorme fardo por um quilômetro. Uma dúvida martelava fortemente seu juízo: por que a filha de Melquíades se havia incriminado daquela forma?

70

VII - A VIZINHA DEFICIENTE

Era a manhã do quinto dia após o homicídio, quando Silva enfurnou-se numa sala da delegacia da Candelária, em Natal, ansiando pelas novidades do detetive Carlos, seu “cão farejador”. Lá fora a cidade parecia acostumar-se lentamente com o crime ainda sem solução, mas ele não; afinal de contas, o inquérito policial deveria ser concluído nos próximos dias. Tinha bastante o que fazer. Retesou-se contra o espaldar da cadeira, fincando os cotovelos sobre a mesa abarrotada de papéis. Aguardava notícias sobre a melhora do estado de saúde da paraplégica. Sebastiana era a mais nova das duas irmãs e, das suspeitas relacionadas, era a última a ser perquirida. Boas novas brotaram meia hora depois. Sua xícara de café quase entornou quando lhe avisaram que a mulher recebera alta. Agora, estava descansando numa casa da ensolarada Jenipabu, uma praia do litoral norte a poucos quilômetros de Natal, após recuperar-se de uma grave internação no Hospital Walfredo Gurgel. Toda a equipe policial sabia que, durante a última semana, a inválida pendera entre a vida e a morte, na Unidade de Tratamento Intensivo e, portanto, durante alguns dias não houvera razão para vigiar- lhe os “passos”. O que causou surpresa a Silva foi a veloz recuperação e a repentina alta dada à anciã. Em todo caso, imaginou que talvez ela tivesse uma grave doença, imaginou, e estando em fase terminal, seu médico a havia liberado para passar seus últimos dias longe do ambiente hospitalar. Era apenas uma suposição, e ele de pronto descobriria a verdade. Embora a parelha de velhinhas contasse com um plano de saúde, Silva duvidava que este cobrisse despesas com transporte e recuperação após a saída do hospital. Tornou-se claro para os investigadores que as duas irmãs possuíam alguma reserva de dinheiro, com o qual custeavam o caro tratamento médico da deficiente. Sabia que não havia motivos para que qualquer das duas senhoras fosse obrigada a comunicar à lei o que faziam. Ainda assim a polícia surpreendeu-se quando enviou um homem até à casa delas para saber quando a convalescente poderia prestar depoimento e ele descobriu que a enferma já havia recebido alta médica.

71

Perguntada sobre o paradeiro da irmã, dona Expedita foi ágil em

fornecer o endereço da clínica onde a irmã repousava, tornando fácil o trabalho dos detetives. Era perto de meio-dia e Silva ainda não conseguira realizar sua bendita chamada quando, finalmente, o serviço telefônico resolveu colaborar e, um minuto depois, a ligação foi completada com êxito.

– disse, ao telefone, quando a funcionária

da clínica de repouso atendeu.

- Sim! Quem está falando? – perguntou a voz do outro lado da

linha.

- Ah! Desculpe! Sou o detetive Silva do distrito policial de Natal e necessito falar com a senhora Sebastiana.

- Boa tarde, senhora

- Um momento, por favor.

Após alguns minutos, uma voz fraca atendeu a chamada e, após

as apresentações, o policial enfronhou-se no assunto:

Bem, não há nada com que preocupar-se, apenas gostaria de ir

até aí e fazer algumas perguntas acerca de seu vizinho, o senhor Melquíades. Fez-se um curto silêncio.

- Lamento detetive, mas no momento não me encontro ainda

totalmente recuperada. O senhor me encontrou por acaso, já estava

quase de saída, tenho uma sessão marcada com o fisioterapeuta. Será que não posso declarar pelo telefone? – indagou. Silva tratou de esclarecer-lhe a situação.

- Desculpe, senhora, mas o que tenho para lhe perguntar deve

ser feito pessoalmente. Apenas liguei para marcar um horário.

- Um horário? – assustou-se a mulher. Escute, detetive, minha

irmã já contou à polícia tudo o que sabemos, eu não posso entender em que mais poderia lhe ser útil! – disse, com voz sumida. Não me recordo de nada que tenha que dizer-lhe, pois, como compreenderá, eu dei entrada no hospital um dia antes que essa monstruosidade ocorresse. Não me sinto muito bem ultimamente. - Claro que eu compreendo - respondeu Silva, pensando na

saúde da idosa. Infelizmente são coisas de rotina, sabe? – e insistiu: - Apenas perguntas de praxe; sei que estou sendo um pouco insistente,

mas

o Departamento incumbiu-me do caso, de

maneira que eu realmente preciso falar pessoalmente com a senhora.

o

ham

ham

72

Não sei se me entende. Se havia algo que o detetive Silva aprendera com o decorrer do tempo em sua profissão, era que sempre deveria insistir com as

prováveis testemunhas, pois parecia perfeitamente normal que as pessoas sentissem um natural rechaço quando se tratava de dar informações a qualquer membro da corporação policial. Do outro lado, a mulher estava protestando:

– ironizou. A propósito,

como é mesmo o seu nome? - João Silva, senhora, ao seu dispor! – completou. Sinceramente não há com o que preocupar-se e, além do mais, serei breve.

- E o que tenho que responder certamente não pode ser mesmo

pelo telefone? – repetiu a mulher. - Infelizmente não. É que seria meio difícil, sabe, pois precisaria que a senhora visse algumas coisas! Em todo caso, ocorreu-me uma

idéia – disse, após resolver mudar de tática. Diga-me quando pensa que vai estar melhor e marcamos para esse dia! Sinto ter que importuná-la, mas é que tento fazer meu trabalho da melhor maneira possível!

- Muito bem, não vamos prolongar esse martírio! – concordou.

Vejo que não há outro remédio e, desde já, quero que saiba que esse é um tipo de assunto muito desagradável para mim, detetive! Além do mais, não sei em que eu poderei lhe ajudar, não gosto de comentar esse tipo de assunto, ai meu Deus! Creio que dá até azar! Mas se tenho que

fazer, será imediatamente, só assim me livro logo de uma vez por todas.

- Não se preocupe, senhora, não tomarei o seu precioso tempo

em demasia e, como já lhe disse, é uma coisa simples e certamente não tardará nada.

- Bem, acredito que agora à tarde, depois das quatro, estarei melhor e o senhor poderá vir até aqui, não é mesmo?

, horário – disse, deitando uma rápida olhadela em seu relógio de pulso. Quando finalmente desconectou o telefone, pôs-se a escrever freneticamente os relatórios. Faltava um minuto para as quatro quando Silva parou em frente

irei nesse

- Tenho que me esforçar, detetive

- É claro, claro!

Bem, se não há problemas então

a uma casa rodeada por colunas de tijolos aparentes. Agora que podia

vislumbrar a clínica, apreciava pacientemente sua arquitetura quadrada

e branca, encoberta por um alpendre convidativo que a circulava. Um

73

muro baixo e desbotado pelo sol abrasador guardava a casa de dois pavimentos. Havia residências de veraneio tanto de um lado como de outro, em toda a extensão da praia, embora não se visse nelas qualquer atividade humana nessa época do ano. O detetive examinou o bem cuidado jardim que circundava a

casa de número trinta e quatro, antes de tocar a campainha. Parecia-se realmente com uma clínica de repouso e, enquanto esperava que lhe abrissem o pesado portão de ferro que lhe impedia a entrada, teve o cuidado de espiar para ver se havia algum cão de guarda ali dentro. Apesar do receio, experimentava uma sensação de conforto, tinha almoçado seu prato favorito no atraente restaurante Camarões, situado no promontório da praia de Ponta Negra. Dali, tinha-se uma belíssima visão do Morro do Careca em seus quase noventa metros de altura, descendo até encontrar as águas calmas de um mar azul. Havia convidado a garota da lanchonete do Natal Shopping, justamente no dia de folga dela. Ao despertar bem cedo naquela manhã, Silva explicara á mãe, antes de sair de casa, que não preparasse nada contando com ele para o almoço, pois não viria comer ao meio-dia, como de costume. Assim, após ligar para a moça, passou para pegá-la e, juntos, deixaram

a irmãzinha do detetive na escola, indo almoçarem em seguida. Silva sentiu-se por alguns momentos formando parte de uma família de

verdade. A experiência envolveu-o mansamente, e ele até gostou de sentir-se “amarrado”, caso tivesse uma família que não fosse sua mãe e

a irmã pequena. Entretanto, esse pensamento provocou-lhe também um

sentimento paradoxal, talvez pelo peso da responsabilidade vitalícia que

ele representasse. Do colégio até ao restaurante gastou poucos minutos. Comodamente estacionou seu carro na área privada ao lado do movimentado restaurante. Sentiu-se como um rei ao ser abordado pelo

manobrista, e mesmo sabendo que o luxo tinha seu preço, estava disposto a fazer aquela agradável concessão aos seus bolsos pelo menos uma vez na vida, julgando que valeria a pena. Numa cumbuca fumegante, trouxeram-lhe uma suculenta moqueca de camarão acompanhada por arroz branco e uma salada leve

á moda da casa. O prato caiu em seu estômago como um manjar dos

deuses. A jovem acompanhante ficara muito impressionada e, em troca, se pusera mais amável que o normal. Enamorados, beberam um

74

pouco de vinho branco gelado que, contudo, não lhe subiu à cabeça. A música ambiental era suave e convidativa, bem indicada para uma comida a dois, e a refeição deliciosa, segundo Silva, foi arrematada com um delicioso creme frio de maracujá, que ele simplesmente adorava, servido em taças prateadas. Tudo como num sonho. Finalmente havia impressionado tão bem a sua pequena, que ela, de forma escandalosa, lhe retribuiu com um beijo apaixonado diante dos outros clientes. De repente seu sonho estalou no ar e desapareceu como num passe de mágica, fazendo-o voltar à realidade daquele sobrado construído em estilo colonial à sua frente. As paredes externas estavam forradas por trepadeiras que se fixavam em todo o muro, despontado de belas flores amarelas entrelaçadas em meio às folhagens, como um tapete vertical. O telhado em duas águas rematava nas extremidades, em beira e bica, pintado de um vermelho vivo que aplacava a causticante luz do dia. Fazia calor e ele teve que tirar o colete à prova de balas, para não suar. Tinha gastado uma hora desde Natal rumo àquela esplêndida praia que agora tinha ao alcance de sua vista. Como gostava de dirigir, o percurso tinha sido feito sem pressa, aproveitando para descortinar não só as belezas da vegetação natural de um e outro lado da rodovia, mas também o azul do mar que se deixava ver quando o carro atingia o cume de alguma colina da estrada. De repente, a porta dos fundos se abriu e de dentro da casa surgiu um vulto feminino interrompendo outra vez o seu devaneio. Esperando atrás do portão, Silva pensou em como ultimamente as mulheres eram presença marcante em seu dia-a-dia. Nesse momento, a jovem à sua frente vestia blusa clara combinando com uma saia longa de mesmo tecido. Ela caminhou em sua direção pisando nas pedras do jardim que seguiam até ao portão. Enquanto andava, ele pôde ver que ela era mais alta do que o comum e também muito magra, a ponto de deixar à amostra os ossos da face. Parecia ser a governanta da casa e, ao aproximar-se, pôde ouvir sua voz impessoal:

- Boa tarde, em que posso ajudá-lo?

- Boa tarde, sou o detetive Silva da Delegacia de Natal e gostaria de falar com dona Sebastiana. Creio que ela está me esperando.

- Certamente. Acompanhe-me, por favor.

Andaram de volta sobre as pedras e Silva foi deixado no

75

alpendre junto a algumas cadeiras de vime forradas com assentos estampados. Enfiando os olhos pela janela, observou alguns quadros abstratos de pintores da terra, lembrando motivos da natureza, e eram adornados com molduras envernizadas. Logo abaixo dos quadros, algumas mesinhas redondas de madeira erguiam-se soberbas desde o solo atapetado. Sobre elas repousavam vasos de rosas de várias cores. Tudo bem tropical. Talvez uma mente crítica, apreciando aquele ambiente, pudesse adivinhar a personalidade das pessoas que frequentavam a casa, simplesmente interpretando a disposição dos móveis e estabelecendo uma relação entre os seus inquilinos e a influência do meio. - Por favor, entre detetive – convidou a voz da mulher, interrompendo suas elucubrações artísticas. Passando pela porta dos fundos e atravessando um pequeno corredor, Silva pôde vislumbrar uma cozinha bem limpa, até que, cruzando o que parecia ser um enorme corredor repleto de quartos, chegaram até à sala principal bem de frente para a imensidão do mar. Dona Sebastina esperava-o resignadamente numa cadeira de rodas, um pouco afastada de um grupo de senhoras. Deslizando-a na direção do policial, ela chegou bem perto e pediu que ele tomasse assento. Estava bem vestida e, sendo mais nova que a irmã, aparentava, entretanto, ser mais velha. Silva julgou pelo seu rosto curtido e pálido que aquela era uma mulher doente. Foi a velhinha quem tomou a iniciativa:

- Antes de mais nada, detetive, saiba que me dava muito bem com o senhor Melquíades. Um bom marido e pai, é o que eu sempre dizia à minha querida Expedita – e parou para tossir. Minha irmã não é muito de conversar com as pessoas, mas me ouve sempre e eu sempre lhe dizia que o nosso vizinho era um homem, como se diz mesmo? De casa para o trabalho! É isso! Agora mesmo tenho pena da viúva, da filha e do jovenzinho que nesse instante deve estar sofrendo muito. E a pobre mulher só conta consigo mesma, pois além de tudo é estrangeira e não tem família aqui, imagino! Pobres pessoas, perderem um ente querido dessa maneira não foi nada correto, isso não é justo! Sabe nosso Senhor o porquê disso tudo! Silva desejou perguntar como ela ficara a par de tudo. Tinha a voz cambaleante.

76

- O senhor já tem algum suspeito?

- Infelizmente não.

- Mas logo descobrirá, não é verdade?

- Assim eu espero – e apressou-se em tomar as rédeas. Diga-me,

dona Sebastiana, onde se encontrava no dia em que o homem foi

esfaqueado?

- Ah! Desculpe. Mas claro, onde estou com a cabeça?! Quase

não deixo o senhor fazer as perguntas, não é mesmo? Pois bem, deveria

estar em minha casa como de costume, mas havia me sentido mal no dia anterior, quero dizer, estava hospitalizada. De toda maneira, com esse trambolho –referia-se à cadeira de rodas -, não tenho muito aonde ir sem a ajuda de alguém. Fez-se um curto silêncio enquanto a anciã olhava-o curiosa. Para o detetive, a mulher parecia querer causar-lhe a impressão de que estava sendo o mais natural possível, empregando para isso um tom de voz bem convincente. Mas ele não se deu por achado, já assistira a esse filme inúmeras vezes.

- Gostaria que me contasse se, nos dias anteriores à sua ida ao hospital, viu alguém rondando sua casa ou a de seu vizinho.

- Não – respondeu peremptoriamente –. Como é normal,

costumo jantar e ver um pouco de televisão. Quando faz calor, o que

quase sempre acontece, então eu me desloco até ao terraço e deixo-me estar durante um bom tempo em companhia de minha irmã. Mas posso garantir-lhe que não observei nada fora do comum.

- Vivem juntas há muito tempo? Quero dizer, a senhora e sua

irmã vivem nessa casa há muito tempo?

- Sim, vivemos nessa casa sozinhas já tem muitos anos. Nunca

nos casamos e, a não ser por uma viagem para tratamento de saúde de

alguns meses que fiz quando era jovem, nunca nos separamos, vivemos juntas desde que faleceram nossos pais. Creio que somos um pouco como um casal – falou, tentando ser simpática.

- Entendo – disse Silva. E como foi que a senhora acidentou-se?

- Sofri uma queda enquanto trabalhava. Caí da escada

justamente quando me preparava para descer – o tom de sua voz era amargo.

- Sua irmã contou-me que seu patrão ajudou-a no tratamento.

- Era um excelente ser humano! Na verdade foi como um pai

77

para mim e pagou-me o tratamento, mas como o senhor vê, não adiantou muito, não é mesmo?

-

Suponho então que a senhora aposentou-se devido ao

acidente

-

Sim, eu tinha dezenove anos recém-cumpridos.

Ele percebeu toda a extensão do seu lamento. A mulher continuou:

- Estive em um hospital de Barcelona, na Espanha.

- E quanto tempo demorou ali?

Sebastiana olhou sem piscar para o homem que a interrogava:

- Francamente, detetive, não vejo em que isso tem a ver com a morte do meu vizinho!

Para o detetive a entrevista significava a última oportunidade de ouvir alguém que poderia ter implicações com o crime. De modo que teria de aproveitar aquela chance.

- Bem, não precisa responder a essa pergunta se não quiser –

replicou, refazendo a pergunta. Em algum momento viu ou ouviu, desde sua casa, qualquer coisa que lhe parecesse estranho, mesmo que não valesse a pena comentar aqui?

A mulher baixou um pouco a vista e respirou profundamente.

Depois olhou para o detetive e limpou a garganta:

- Não me lembro de ter visto nada, tudo me parecia sempre normal e rotineiro como todos os outros dias. Realmente não me vem à

cabeça qualquer lembrança que me possa ter feito suspeitar de que algo estava fora de lugar.

A partir daí a conversa seguiu num ritmo de partida de tênis, a

pelota arremessada de um lado a outro entre os jogadores. O detetive não obteve informação que o conduzisse a bom porto, a não ser inteirar- se da lástima que sentia a paraplégica pelo destino trágico do vizinho. - Oh! Meu Deus, em que mundo nós estamos! Tudo está mudado, não é como no meu tempo em que as pessoas eram mais educadas e queriam apenas desfrutar da vida. Não! Não! As pessoas realmente transformaram-se, estão mais agressivas, e eu até estava dizendo à minha querida irmã que devemos ter muito cuidado hoje em dia. A televisão e essa infinidade de filmes violentos, montes de tiros, sem falar das novelas com insinuações sexuais grosseiras e vis. Acredito que toda essa violência gratuita influa de modo negativo na

78

mente de nossos jovens. Mas enfim, quem sou eu para impedir tudo

isso! A única coisa que posso fazer é deixar de assistir! Uma lástima, um tremendo erro perpetrado pela nossa sociedade. Veja os jovens pobres, deixam-se envolver pela propaganda e se metem no mundo das drogas apenas para ter dinheiro para comprar um par de tênis da moda! Silva esperou que ela desfiasse seu rosário de lamúrias, embora não lhe tirasse a razão sobre o que dizia, pois também ele estava de acordo nesse ponto. Só então resolveu interrogá-la a respeito de como tomara conhecimento do caso. A mulher foi clara:

- Ah, sim! Soube pela boca de minha irmã, já quando estava

recuperada. Sabe, detetive, as emoções na minha idade já não surpreendem tanto como quando se é jovem. Evidentemente lamento profundamente que isso tenha ocorrido, são fatos que se precipitam sobre nossas vidas e sobre os quais não temos controle. É como eu costumo dizer: nenhum de nós está livre de que algo similar nos ocorra – disse conformada, a voz tornando-se fraca –. Agora estão espalhando

por aí boatos a respeito desse crime, mas nunca se sabe ao certo em que pé está a investigação, não é mesmo?

- É verdade senhora. Mas esse detalhe representa um trunfo

para nosso departamento - replicou enquanto observava o comportamento dela. Assim podemos seguir melhor a pista do assassino

sem que ele saiba. Subitamente a mulher começou a tossir e em seguida uma

senhora surgiu com um copo de água, que ela bebeu com vagar.

- A que boatos a senhora precisamente se refere?

A anciã pareceu desconcertada. Moveu os braços, tentando fazer-se entendida.

- Ora! O senhor deve saber melhor do que eu!

- Não sei a quais boatos a senhora se refere. Pode ser mais clara, por favor?

o

senhor já deve saber

que alguém devia dinheiro para ele, ou é ao contrário? Bem! A verdade

é que eu não tenho certeza – disse, meio relutante consigo mesma. Silva a fitou fixamente por cinco segundos. Depois, alisou seu próprio pescoço e observou como as espumas brancas formadas pelas ondas do mar eram arrastadas pela pelo vento até à areia da praia:

quero dizer – tossiu secamente – parece

- Bem

– disse engolindo a própria saliva –, ao fato de que

é

79

- Não sei de onde surgiu ou quem espalhou essa história.

- Claro, eu compreendo – a mulher parecia satisfeita. Mas ele foi mais rápido:

- Como soube dessa história?

Dona Sebastiana teve de esperar a que duas velhotas cruzassem

a sala, passando entre ela e o detetive em direção ao corredor, antes de

responder:

- Pelo rapaz que nos entrega a feira. Ele trabalha no

supermercado, minha irmã já lhe contou, não?

- Sim – disse laconicamente Silva. Meu companheiro está

investigando esse detalhe. Apesar de estarem num canto reservado daquela grande sala, Silva se deu conta de que um grupo de velhinhas acompanhava discretamente o desenrolar da entrevista, desde a janela que se

comunicava com o alpendre, justamente por onde Silva apreciava o mar de vez em quando. O melodioso barulho das ondas quebrando na orla chegava até seus ouvidos. Viu alguém nos últimos tempos ou sabe se algum parente visitou

o seu vizinho, ou simplesmente o procurou por qualquer motivo que

fosse?

- Absolutamente não. Ninguém vai ali senão nós mesmos. Ele

não era um homem muito social, sabe? O que quero dizer é que não costumava receber visitas e nem parentes. Não que tivéssemos qualquer problema com ele, isso não! Sua esposa é que é uma pessoa muito doce com quem convivemos todos esses anos de forma harmoniosa. Uma mulher muito amável e correta e que, ademais,

costumava frequentar nossa casa e nós a dela. Eu realmente me surpreendi quando ouvi essa história. O senhor sabe o que eu quero

dizer!

Silva pareceu não prestar atenção a essa pergunta.

- Não se recorda de alguém que tenha ido ali, mesmo que fosse

para fazer algum serviço como, por exemplo, algum tipo de vendedor, jardineiro ou entregador de pizza; qualquer coisa parecida? – insistiu Silva.

- Bem, para falar a verdade, a única pessoa que costuma ir ali é o

moço que nos entrega as compras do supermercado. É um rapazinho de

seus vinte e poucos anos mais ou menos. Os rapazes de hoje em dia

80

parecem mais crescidos do que os de antes e com essa idade já são bem adultos. Outro dia eu estava comentando com minha mana de que, às vezes, ele me dava a impressão de ter mais idade do que realmente possuía. Ao fim e ao cabo, a teimosia do agente parecia ter produzido algum resultado.

- E que idade acha que ele tem?

- Ora, ele tem dezenove anos, eu mesma perguntei-lhe outro dia.

Silva considerou interessante a análise desenvolvida pela deficiente. Para quem ao princípio não se mostrava disposta a conversar, ela se convertera agora num papagaio.

- Viu muitas vezes esse rapaz entregar compras na casa de seus

vizinhos?

- Sim, várias vezes.

- Conversarei com esse rapaz – e trocou de tema. Gostaria que

me dissesse se a janela da casa da senhora Osla, que dá para o seu terraço, costumava estar aberta?

A mulher enrugou a testa e alguns segundos para contestar:

- Isso eu não sei lhe dizer, detetive, não prestava muita atenção nestas coisas!

- Bem, não é isso o que quero perguntar. O fato de que tenha

observado algum costume de seu vizinho não significa obrigatoriamente que a senhora seja fofoqueira, me entende? Penso que alguma vez poder ter observado ou simplesmente sua irmã lhe tenha comentado algo a respeito.

A anciã pareceu surpresa com a pergunta e Silva aproveitou para

sondar-lhe a expressão do rosto decrépito.

- A janela da casa

- É simples. Pensamos que o assassino pode ter entrado por ali!

não entendo aonde o senhor quer chegar

A mulher parecia perplexa.

- Bem, não sei ao certo, creio que na maioria do tempo vivia

fechada, porém não poderia afirmar com certeza. Silva observou o gesticular de suas mãos. Tentava compreender

o que realmente essa senhora representava de perigo e não via nada

mais do que o resultado de uma velhice pronunciada que a tragédia tratou de prender numa cadeira de rodas.

Ela estava dizendo:

81

- Não sou muito de observar os detalhes à minha volta, e recorro muitas vezes à minha querida Expedita quando tenho dúvidas. Agora mesmo estou tomando um remédio que o médico me receitou e, se não fosse pelas enfermeiras, me esquecia por completo de tudo! - Entendo – murmurou o policial. Bem, senhora, se houver algo mais que queira contar-me, ficaria extremamente agradecido. Pode

localizar-me neste número – disse, entregando-lhe seu cartão de visita enquanto se levantava. A idosa estendeu a mão trêmula, recolhendo-o e guardando-o no bolso do vestido. Depois voltou o rosto para Silva. - Por ora não tenho mais indagações que fazer-lhe – frisou, deixando clara sua posição dominante sobre a situação. Como a mulher nada dissesse, o policial indagou-lhe:

- Quando a senhora retorna à casa?

- Tão logo esteja recuperada, se Deus quiser.

- Pois desejo que seja o antes possível – animou-a o detetive. A idosa agradeceu-lhe a amabilidade e esboçou um ligeiro

sorriso. Dando por terminada a entrevista, Silva ajeitou sua roupa enquanto se preparava para abandonar a casa.

- Até logo, dona Sebastiana.

- Adeus, detetive.

Ao cruzar de volta o jardim, com a secretária de antes lhe seguindo os passos como uma sombra sinistra, ele sentiu-se pouco à vontade. A sensação evaporou-se quando finalmente se jogou no veículo e acomodou-se no assento. Por sorte, estacionara o veículo sob a sombra de uma mangueira, pois fazia muito calor. Antes de partir, ainda lançou uma última olhada àquela pousada e então pôde apreciar suas formas geométricas e constatou que era realmente bela. Só aí provou o estranho pressentimento de que pares de olhos o esquadrinhavam desde a clínica. Rapidamente deu a partida no motor e arrancou a toda pressa.

82

VIII - O DETETIVE SILVA EM AÇÃO

A delegacia de Candelária estava em polvorosa naquela manhã. Dentro de sua espaçosa sala, o delegado Paulo observou impaciente as grandes fotografias de policiais em ação, penduradas na parede. Uma, especialmente, cativou a sua atenção. A câmara havia sido disparada pelo fotógrafo no exato momento em que ele concedia uma entrevista. Vestia um reluzente uniforme policial tendo ao lado o então governador do Estado e, desde então, havia transcorrido vinte longos anos. Pensando em como todo esse tempo se diluíra, experimentou uma espécie de nostalgia ao entender que eram tempos que não voltariam jamais. Haviam-se ido para sempre. Sua fisionomia agora era a prova cabal de que não dormira durante a noite anterior, o cérebro carcomendo toda a trama que tecia aquele homicídio intrincado demais para ser resolvido. A autópsia realizada no cadáver dera, como causa oficial da morte, uma hemorragia provocada pela secção das veias do pescoço. Pelo menos a hipótese de envenenamento estava definitivamente afastada, o que de certa forma o aliviou, embora tivesse de resolver a questão do veneno encontrado no corpo. Consultou o relógio da mesa e viu que já havia passado das oito horas. Despertara-se muito cedo, quase de madrugada. A angústia noturna produzira-lhe profundas olheiras, delatando a noite mal dormida, fantasmas noturnos tinham sido seus companheiros durante boa parte da madrugada, assombrando-lhe com as más recordações do dia. Não pudera conciliar o sono por mais de meia hora. Tentando aliviar a modorra que pesava as pálpebras, pegou na gaveta um charuto e acendeu-o. Passado algum tempo, sentiu-se melhor. De repente seus pensamentos partiram-se ao meio quando o detetive Silva invadiu seu gabinete de trabalho, empurrando a porta inesperadamente. Demorou alguns segundos até que percebesse quem havia entrado. - Bom dia, chefe! Espero que tenha passado uma boa noite, eu infelizmente não pude pregar os olhos durante a madrugada. Que coisa mais horrível! O delegado levantou a vista e, sugando de seu interior um resto

83

de serenidade, fulminou:

- Espero que tenha aproveitado o tempo em que ficou acordado,

detetive Silva, para pensar também no que vai fazer daqui para frente –

falou, com voz cavernosa. Tenho uma reunião com o Secretário de Segurança às seis horas da tarde e, nesse momento, quero dizer-lhe algo animador. Para Silva, essas palavras deram-lhe uma dimensão clara do ar carregado que se respirava na delegacia. Tentando evitar a mirada do delegado, usou uma das mãos fingindo espanar o pó de sua camisa, abaixando levemente a vista. Inspirou profundamente e levantou a cabeça antes de poder dizer alguma coisa, mas o chefe foi mais rápido:

- Quais as novidades com relação à filha do casal?

- Infelizmente nada que já não soubéssemos antes. Ela parece

bem dona de si, mas estou checando a informação que me passou.

- E com relação à vizinha deficiente?

A boca do detetive Silva pareceu secar, antes de pronunciar o que tinha em mente. Fez um esforço considerável.

- Confirmou que a vítima parecia dever algum dinheiro a alguém de quem, até agora, não sabemos nada.

- Droga! – gritou o delegado, levantando-se atrás da mesa do escritório.

Enfiando as mãos nos bolsos da calça, andou até à janela e estacou. Estava de costas para o subordinado e ficou assim durante pelo menos dois minutos. Por fim, resmungou:

- Onde está o detetive Carlos? Silva respondeu calmamente:

- Chegará a qualquer momento com informações sobre o tal rapaz do supermercado, que faz a entrega regular de compras nas casas da vítima e das vizinhas.

- Assuma aqui, por favor, vou tomar um café!

- Claro chefe. Levantou-se não sem antes bocejar e saiu fechando a porta estrepitosamente. Silva sentiu-se mais à vontade, caminhou até à mesa e deixou o corpo arriar na poltrona. Sacou do bolso da camisa um bloco repleto de anotações e então se pôs a lê-las com alguma preguiça, rememorando o que ele próprio havia escrito. Em uma das folhas havia um registro curto em tinta azul:

84

Quando ela soube que o marido já não vivia, sofreu um súbito desmaio e tivemos que arrastá-la até um sofá e lhe ensopamos a cara com água. Sua roupa tem manchas de sangue, que deve ser do marido (fazer o teste). Eu ainda não pude conversar com ela. 22 de maio”.

O silêncio do gabinete concentrou-o ainda mais naquelas palavras que jaziam diante de si. Todavia não dissecara o cerne, mas

sabia andar perto. Pouco a pouco, seus neurônios foram desligando-se um a um, varridos por um cochilo providencial. Cerca de quinze minutos depois, o telefone sobre a mesa despertou-o do sono. O som do aparelho era estridente.

- Droga! – gritou.

Em seguida se recompôs e retirou-o do gancho, balbuciando

algo parecido com um alô. Do outro lado da linha havia intimidade ao pronunciar o nome do delegado:

- Paulo! - gritou a voz.

- Não. Ele não se encontra! Sou o detetive Silva.

- Aqui é do gabinete do prefeito. Gostaria de falar com o delegado Paulo, por favor.

- Sinto muito, mas ele teve de sair por um momento. Quer

deixar algum recado senhor? – perguntou o agente amavelmente.

- A que horas ele volta?

- Bem, não sei ao certo, se quiser ligar dentro de dez minutos, é

o tempo em que vou avisá-lo da ligação – disse, tentando imaginar onde

estaria o patrão.

- Está bem. De toda maneira, diga-lhe que entre em contato

comigo, Miguel, o Secretário de Segurança – e adiantou, sem esperar

uma resposta: - Ele sabe meu número e se não me encontrar pode

chamar-me no celular, me reunirei com o pessoal da informática.

- Muito bem, darei o recado, não se preocupe.

- Obrigado – disse, por fim, e desligou.

Após um instante de reflexão, Silva sentiu seu cansaço desaparecer e dar lugar a uma repentina disposição. Aquele cochilo tinha sido animador, pondo-o otimista. Pensando naquela chamada concluiu tratar-se de algo muito importante, mas ele não poderia fazer nada até que seu chefe voltasse.

85

- A menos que

Tomou um lápis e um pedaço de papel e anotou o recado do secretário, deixando-o sobre a mesa. Antes de sair, voltou os olhos em direção à janela envidraçada à sua direita, e começou a construir hipóteses acerca do que poderia haver impulsionado o assassino. É certo que a polícia tinha o corpo e a arma, ou mais precisamente, as armas: a faca e o veneno! Faltava, porém, o motivo. Como investigador experimentado, sabia que se o descobrisse, provavelmente teria em sua alça de mira o culpado. Assim, o que teria de fazer era simplesmente concentrar-se nas razões que levaram ao ato extremo. As grandes mãos do detetive deslizaram sobre seus cabelos negros e pousaram no queixo num lento movimento. Enquanto refletia, recostou-se outra vez na poltrona macia do chefe. Sabia muito bem que teria de defender-se do que considerava “perguntas cretinas” de alguns jornalistas. Por outro lado, era sua obrigação respondê-las, mas para isso sabia que era preciso manter-se calmo, atitude que o ajudaria a preservar a serenidade numa hora tão difícil.

Concentrou-se outra vez numa ideia que, bem aplicada, poderia dar bons resultados, e não custava tentar pô-la em prática. Antes,

necessitava tomar algumas providências. Interfonou para o agente de plantão.

- Sim, detetive?

- O delegado está por aí?

- Não, ele saiu dizendo que ia para casa e voltaria às duas da

tarde.

- Anote um recado para ele, por favor – e passou a informação recebida. Depois disse:

- Necessito de uma viatura.

- Vou providenciar, aguarde um momento!

Após cinco minutos o funcionário retornou.

- Ok, quando quiser.

- Há, sim! – respondeu o investigador. É bom ligar para sua casa

e dar-lhe o recado – e acrescentou: - Quando ele chegar, diga-lhe que precisei sair e voltarei à tarde. Caso não consiga localizá-lo, deixei

sobre sua mesa o recado do Secretário de Segurança.

86

- Muito bem! Alguma coisa mais?

- É só, obrigado.

Em seguida ligou para o celular do chefe, que deu na caixa postal e então ele deixou o recado. Assim, não haveria como o delegado não receber o recado. Depois ligou para o detetive Carlos, mas o aparelho estava conectado diretamente à secretária eletrônica.

Deixou, também, um recado e, finalmente, abandonou a sala. Outra vez

foi obrigado a reconhecer que o mundo seria um dia dominado pelos

celulares e computadores. “E fora exatamente esse pensamento que o levara a ter aquela suposição”, raciocinou.

Tentou conceber onde se enfiara Carlos, precisava falar com ele

Imaginou que, como de costume, estaria

indubitavelmente em campo, buscando alguma pista ou recolhendo lascas de objetos, pontas de cigarro, impressões digitais ou fios de cabelo.

Enquanto dirigia pelas ruas planas de Natal, calculava que, se

sua tese resultasse correta, desvendaria aquele maldito homicídio o mais

rápido possível, mas até então tudo parecia sem solução à vista. Claro que teria de contar com um pouco de sorte, mas acima de tudo aquele telefonema servira para clarear-lhe a mente. A referência aos computadores, feita pelo Secretário de Segurança, servira como um facho de luz emergindo bem no meio da escuridão. No caminho, como dispusesse de tempo e sentisse fome, resolveu parar em sua lanchonete favorita, dentro do Natal Shopping, desejando encontrar sua garçonete predileta. Mas por alguma razão que seus colegas não souberam explicar, ela não viera trabalhar naquele dia e então ele preferiu um sanduíche rápido no Macdonalds, engoliu-o e partiu apressado. Afundou outra vez o pé no acelerador do carro rumo à casa comercial propriedade da família do defunto. Resolveu ir pela Avenida Salgado Filho, retornando sobre o viaduto de Ponta Negra e tomando, a seguir, a direção do centro da cidade através da mesma avenida. Quase não havia tráfego àquela hora. Após percorrer três quilômetros, virou à esquerda, alcançou a avenida Prudente de Morais e, a seguir, a avenida Beira Canal. Enquanto o automóvel corria pela marginal do rio, ele pôde apreciar as paredes de aço dos grandes navios atracados no porto,

o quanto

antes.

87

formando um encontro romântico com as águas doces do rio Potengi. Minutos depois chegou a um armazém localizado na histórica rua Chile. Descendo vagarosamente do carro, Silva dirigiu sua mirada para aquele velho depósito à sua frente, parecia abandonado desde muito tempo. De um lado e de outro da estreita rua, ele notou os prédios antigos colados um no outro, como para protegerem-se da insolação dos trópicos. Ali, onde o conde D´Eu, herdeiro da coroa brasileira, desembarcara majestoso durante o século XIX, reinava agora uma perspectiva sombria. O chão batido por paralelepípedos irregulares e percorrido por sinuosos trilhos de ferro apoiados ainda nos dormentes, testemunhava o caminho antigo dos bondes elétricos aposentados, que desfilaram sobranceiros em algum lugar do passado. Guardou os óculos escuros no bolso da camisa e olhou de soslaio para alguns transeuntes que o observavam. Julgou que fosse gente que vivia dos serviços que o porto oferecia na atualidade. Também havia marinheiros reformados, de pele morena curtida pelo sol, e damas de aspecto senil. Mais adiante, alguns homens e mulheres vestiam-se de branco e pareciam funcionários de alguma companhia pesqueira. O sol ardia. Tirando uma chave de seu bolso, Silva abriu a porta de aço do estabelecimento de Melquíades e deparou-se com uma absoluta escuridão. Tateou algum interruptor de luz e não achou. Tardou algum tempo até que sua vista se acostumasse com a pouca luz do ambiente. Abrindo uma das janelas da frente, fez com que a luz do dia iluminasse melhor o espaço. Então ele percebeu, no fundo do prédio, várias estantes repletas de caixas retangulares. Chegando mais perto, viu que se tratava de camisas masculinas, havia de todas as cores e estampas. Em outro canto, atulhavam-se aparatos para pendurar roupas. Um cartaz bem grande estava escorado na parede lateral e parecia ser algum tipo de propaganda. Entrando mais ao fundo, divisou do lado esquerdo uma porta que certamente daria acesso a algum escritório ou depósito. Enquanto caminhava, pensou se Carlos recebera sua mensagem. Ele não era muito bom em deixar mensagens e talvez tivesse se equivocado ao tentar gravá-la, pensou. Mas contaria com que o companheiro logo viesse ao seu encontro.

88

Seu olhar estendeu-se pelo escritório aparentemente em ordem. Viu uma grande mesa e várias cadeiras de assento acolchoado, ao lado uma estante com um aparelho telefônico, um fax e um computador bem no canto. Para ali se dirigiu a sua atenção. Apenas fantasmas de um recente passado habitavam agora o que havia sido um grande depósito. Silva não podia entender a razão pela qual ninguém tocava o negócio da família, depois da morte do dono. Nenhum parente ou gerente, nada! Após alguns minutos avaliando a situação, conseguiu finalmente acender a luz do escritório onde se achava. Apenas havia escuridão no salão da frente. Seus olhos de raio X já haviam identificado quase todos os móveis e objetos que compunham a sala. De repente o silêncio foi quebrado por um barulho de vidro sendo esmigalhado e que vinha da parte da frente do armazém por onde ele havia entrado. Lembrou-se subitamente que deixara a porta de rolo de aço aberta e que talvez algum mendigo ou curioso estivesse entrando. Prudentemente sacou o revólver do colete. - Quem está aí? – gritou, voltando seus olhos na direção da

porta. Não houve resposta e nem ele viu nada. Sua cabeça moveu-se para os lados, tentando encontrar outra saída. Estudando os fundos da loja observou uma janela justamente atrás da mesa. Talvez pudesse sair por ali e alcançar a rua, caso precisasse, pois o ruído tinha vindo do salão por onde ele passara e, como ali havia pouca luz, seria arriscado cruzá-lo até à porta da frente. O instinto treinado do policial estava nesse momento à flor da pele. Passou-se um minuto sem que se produzisse o menor som dentro do armazém. Ele apenas podia ouvir o som de sua própria respiração. Então tudo aconteceu num piscar de olhos. Uma claridade instantânea cegou seus olhos e uma explosão chegou até seus ouvidos numa fração de segundo. Em seguida, uma onda expansiva levantou-o do solo e o atirou contra a parede. Tudo voava ao seu redor, os vidros das janelas estilhaçaram-se em mil pedaços e o fogo precipitou-se dentro do escritório. Felizmente preservara sua consciência. Silva não tinha noção se algo o atingira, mas imaginou que estaria perdido se continuasse ali. Tentou mover-se e não pôde, havia um grande peso espremendo uma de suas pernas e impedindo-o de se levantar.

89

O incêndio tomou conta do local, produzindo uma fumaça negra, sufocando e forçando-o a tossir. Meio tonto e tentando expulsar o ar dos pulmões, procurou desvencilhar-se da mesa que lhe prendia as pernas. Sabia que não poderia respirar por muito mais tempo aquela nuvem tóxica, desmaiaria pronto. Rasgando sua própria camisa, protegeu a boca e o nariz. E quando finalmente conseguiu a custo desprender-se do móvel que o imobilizara no solo, viu que afortunadamente não estava ferido. - Socorro! – gritou o mais alto que pode, procurando desesperadamente uma saída. Não houve resposta. Gritou um par de vezes mais e, quando parecia que não aguentaria e tombaria em meio à densa cortina negra, vislumbrou outra vez a janela dos fundos. Reunindo as últimas forças que ainda lhe restavam, cambaleou até lá. Precisaria contar com a sorte para atravessar uma língua de fogo que bloqueara seu avanço. Antes que pudesse pensar, sentiu sua força desfalecer, tropeçando em algo que ardia em brasa. Agora sentia as costas muito quentes devido à proximidade do calor. Arrastando-se em meio ao caos, conseguiu chegar à parede onde estava a janela que lhe salvaria a vida. Suas forças pareciam abandoná-lo. De repente sentiu um forte puxão em seus braços. Alguém ou alguma coisa o agarrara fortemente e agora tratava de puxá-lo pela abertura da janela. Tudo o que desejava era sair daquele calor descomunal e, para sua fortuna, alguém o tinha liberado daquele inferno. Quando o puseram no chão, do lado de fora, uma grande quantidade de água enxaguou-o, aliviando-o do forte calor. Limpando a visão, Silva pôde ver dois homens ao seu lado, um deles segurando um binóculo preto. Também viu o detetive Carlos, que sustentava sua cabeça. Agora várias pessoas o cercavam. Só aí se deu conta de que estava com a parte de baixo de suas calças completamente enegrecidas, deitado sobre a grama de um diminuto jardim. - Fique calmo, vamos ajudá-lo e, sobretudo, não se mova. Beba isto - ordenou uma mulher, enquanto segurava um copo na altura de sua boca. – Beba, homem! - insistiu. Silva obedeceu. De repente as vozes ao seu redor foram se tornando gradativamente distantes, e antes que pudesse dizer qualquer coisa,

90

sentiu-se extremamente fraco. Seus olhos se fecharam pesadamente, o corpo caindo num sono profundo e relaxante. Atrás, o monte de entulho que fora um dia um depósito de confecções ardia em chamas. Apenas as paredes de concreto permaneciam em pé, enegrecidas pelas labaredas de fogo. Ao longe, as sirenes do caminhão de bombeiros anunciavam sua chegada.

91

IX - SEGUINDO UMA PISTA

- Bem, é tudo muito simples, meu caro!

Silva permanecia calado, observando comodamente o teto branco do hospital, enquanto Carlos expunha a questão:

- A primeira hipótese que tenho é de que foi alguém da casa

quem o assassinou – disse Carlos. - Um membro da família, para ser

mais preciso. E aproximando-se do leito do colega, explanou:

- Veja bem: um agente externo não teria como ter entrado na

casa, uma vez que a vítima havia trancado a porta quando passou por

ela! Além do mais, nenhum vestígio foi encontrado até agora, permitindo-nos levar a essa possibilidade. Carlos pronunciava as palavras com desenvoltura, enquanto tamborilava no espelho da cama:

- A casa, sendo pequena e com poucos móveis, não teria como

esconder o assassino sem que algum dos moradores o visse. Deitado, Silva apenas seguia-lhe o raciocínio. Vez por outra lhe vinham à mente as imagens das chamas avermelhadas do fogo esquentando sua pele. Era quase como uma assombração a persegui-lo, então ele se arrepiava como um gato que pressente água. Tinham-lhe informado que o fogo fora proposital e que as labaredas haviam consumido a sala de informática, restando apenas as carcaças dos computadores. Mesmo assim, a perícia técnica tentaria salvar o disco rígido do computador do senhor Melquíades, que havia sobrevivido milagrosamente ao fogo. A informação satisfazia-lhe. Além do mais, não tinha de lastimar queimaduras pelo corpo, embora o pulmão tivesse sido levemente afetado. Esteve a ponto de sofrer as consequências fatais que resultam quando alguém inala a fumaça tóxica decorrente da combustão de alguns materiais por um certo período de tempo. Felizmente fora só um susto, e o fato de estar no hospital era para que se recuperasse mais depressa do que se convalescesse em casa. O corredor do hospital da polícia estava incrivelmente engarrafado naquele dia. Funcionários, enfermeiras, médicos e pacientes autorizados a caminhar transitavam apressados para lá e para

93

cá. De súbito, uma bonita enfermeira de cabelos compridos entrou sem bater no quarto:

- Bom dia, rapazes.

- Bom dia! – responderam os dois, voltando os olhos para ela. A

moça retribuiu com um sorriso e se preparou para tomar notas, enquanto analisava o prontuário pendurado na cama do paciente. Silva voltou o olhar para o companheiro e pensou na sorte que ele tivera, pois nada sofrera. Carlos contou-lhe que tinha ouvido seu recado na secretária eletrônica do celular e estava próximo ao armazém justamente quando escutou a explosão. Assim puderam retirá-lo, logo

depois, pela janela dos fundos, com o auxílio de dois policiais federais.

- Quem são eles? – questionou Silva.

- Apareceram de repente, enquanto eu tentava

- Sei, mas

o que eles fazem aqui?

- Desconfio de que buscam o mesmo que nós – redarguiu

Carlos, que depois completou: – É gente de Brasília com alguma missão importante em Natal.

- E o que você acha que é?

- Suponho que seja algo relacionado com desvio de dinheiro

público ou drogas, não estou bem certo.

- É só o que sabe?

- Na verdade, agora mesmo estão conversando com o delegado e

isso é a única coisa que sei – ponderou, fazendo um gesto significativo

para Silva sobre a presença da enfermeira. Meu palpite é de que não devem saber muito e estão em busca de informações sobre Natal. Tentando imaginar o que faziam ali os dois agentes federais, Silva tentou mover-se da cama e sentiu algumas pontadas de dor. Carlos ofereceu-lhe ajuda, mas ele gentilmente recusou.

- Não se mexa muito, homem! – ralhou a mulher.

- Disseram-me que foi por pura coincidência – revelou Carlos. Silva divergiu:

- Não acredito nem um pouco nessa história.

E depois completou:

- Bem, isso não é da nossa conta. Que horas são?

- Quase meio-dia.

- Puxa como o tempo passa!

Um forte cheiro de éter penetrou nas narinas dos dois homens,

94

forçando-os a levarem suas mãos ao nariz. O paciente mirou a enfermeira e se queixou:

- Suponho que essa agulha irá me picar

- Sim, mas não se preocupe porque não vai doer – replicou a

moça.

- Disso eu não tenho medo – ironizou. O que me assusta é a reação do líquido dentro de mim.

- Ah! Mas me disseram que o senhor é um homem valente.

Vamos ver se é verdade! Além do mais, isto é apenas um antibiótico para que não lhe inflamem os pulmões.

- Bem, se é para isso - disse o enfermo de maneira graciosa, lançando-lhe um sorriso –, então não temerei nada!

A agulha penetrou em sua veia e ele fez uma careta. Enquanto

isso, Carlos foi dizendo, para distrair-lo:

- Já verifiquei o passado da nossa vítima e não descobri qualquer

inimigo que tivesse motivos para tentar matá-lo. Evidentemente se trata de uma hipótese que eu não posso descartar de todo – salientou. Silva tentou abanar a cabeça em sinal de aprovação, mas sua vista desviou-se quase sem querer em direção à bela enfermeira.

- Lembre-se – disse Carlos, fazendo um gesto no ar com o

indicador – que a esposa do morto encontrou a chave atirada ao solo

quando voltou da chamada que havia feito à polícia. Creio que para nos dar a impressão de que o criminoso arremessou-a através da janela após sair pela porta da frente e trancá-la. Um tanto suspeito, não acha? Fez uma pequena pausa e depois continuou:

- Também comprovamos que a porta dos fundos leva ao quintal

e esta, por sua vez , não possui saída para a rua.

E concluiu:

- Logo, sendo alguém de fora, certamente não poderia correr o

risco de se expor às vizinhas. E como só há na casa essa entrada e saída, então só pode ter sido alguém de dentro!

O convalescente fechou os olhos e fez outra careta quando a

agulha foi instantaneamente extraída de seu músculo. Quando a enfermeira retirou-se da sala, ele resolveu tomar a dianteira ao colega:

- Como você pode ter tanta certeza de que foi alguém de dentro?

– perguntou, alisando o ombro com um algodão embebido em álcool.

95

Imediatamente Carlos começou a contestar:

- Ora

Mas Silva interrompeu-o:

- A esposa poderia ser a cúmplice e ter dado cobertura para que

o assassino entrasse e ficasse esperando o momento oportuno para agir!

Carlos foi obrigado a considerar a questão. Retirando um

pirulito do bolso, ocupou-se em desnudá-lo, ganhando tempo para elaborar sua resposta.

- Mas esse alguém provavelmente não veio – ponderou levando,

por fim, o pirulito à boca. Como já disse, sabemos que a vítima não

colecionava inimigos; se os tinha, ninguém com quem falamos na

cidade foi capaz de apontar qualquer nome. E veja que sempre tem esse ou aquele para contar alguma fofoca ou algo do gênero, sobretudo quando há infidelidade! – frisou.

- Nunca se sabe quem está contando a verdade – argumentou

Silva.

- Eu diria que nesse ponto você não tem razão! Em todo o caso,

se a esposa foi cúmplice, eu então tenho razão quando digo que houve a participação de alguém de dentro. Veja que no momento não podemos ir além dos fatos que temos. Há motivos para acreditarmos que o assassinado era cordial com seus clientes, amigos e um homem de

poucas palavras. Também averiguamos se havia algum devedor ou mesmo credor. Nada foi encontrado, sendo tudo confirmado pelos empregados do escritório que trabalhavam diretamente com ele. Nesse instante, os olhares dos dois se cruzaram. Carlos percebeu que o colega mirava-o de forma estranha.

- Quer dizer que a tal história da dívida é mentira?

- Uma completa mentira. O rapaz com quem falei, Jonas – explicou Carlos – disse-me que ouviu a história de alguém que

trabalhava no escritório e que, por sua vez, havia levantado a suposição da dívida pelo fato de o patrão estar se dando à bebida ultimamente. Depois esclareceu:

- Quem conta um conto aumenta um ponto!

Silva fez outra careta e contemporizou:

- Já entendi tudo, não precisa dizer mais nada.

- Para ser mais direto, se é isso que quer saber – disse Carlos,

limpando a garganta –, tentamos, também, descobrir alguma história

96

sobre uma provável amante. Nada. Igualmente com relação à mulher não há qualquer “latin lover”, nada de nada!

- Bem, nesse caso, você deve trabalhar com a alternativa de

“fora”! – argumentou Silva, parecendo cansado. Mesmo contra sua vontade, o detetive Carlos foi obrigado a desfiar outra vez seu novelo de lã.

- Vamos admitir – disse - que alguém pudesse ter entrado sem

que os filhos ou a esposa se dessem conta. Nesse caso, e supondo que o

bandido pudesse ter pulado a janela da sala, seria muito difícil não ser visto pelos moradores da casa adjacente. - Mas digamos que lograsse – sugeriu o outro.

- Ainda assim – admitiu Carlos –. Seria improvável que não

fosse percebido pela vítima, que estava na sala.

- Mas não se esqueça de que a janela da sala fica atrás do sofá,

onde se sentara o falecido! – replicou Silva. Ele poderia não ver nada, estando de costas.

- Ora, meu caro, eu e você sabemos que isso é impossível.

Como o senhor Melquíades não podia dar-se conta de que alguém pulara sua janela? Lembre-se de que estamos numa casa situada quase numa zona rural e, portanto, o menor ruído chamaria atenção! Tentando sentar-se em seu leito, o doente discordou:

- Não estou muito certo disto! E ainda há as janelas de cima, o

que me diz delas? - Não seja infantil! Eliminei também essa possibilidade. Sabemos que a filha estava no quarto e, embora sua porta estivesse

fechada, a luz estava acesa, o que provocaria um temor no assassino se estivesse ali pensando em saltar através de sua janela. Ademais, o criminoso teria de ser bem ágil, pois a altura entre a calçada e o parapeito da janela da sala é de quase o tamanho de um homem de mais ou menos um metro e oitenta. Ainda que conseguisse pular, encontraria a vítima, que poderia vê-lo e, em último caso, gritar. Silva sabia que, nesse aspecto, o companheiro estava coberto de razão, e ademais, a equipe técnica da polícia não encontrou qualquer evidência de sinais nas paredes ou janelas dos outros quartos do primeiro andar. Mesmo assim ele não deu o braço a torcer, queria ver como o colega seguiria sustentando sua teoria.

- Qual a situação da janela da sala quando você chegou lá? –

97

quis saber.

- Estavam trancadas por dentro – informou Carlos.

- Talvez a senhora Osla as tivesse trancado antes de sair para alertar a polícia.

- É possível.

- Mas há algo muito estranho em tudo isso! - disse Silva, como se pensasse alto.

- Não há nada de estranho. Simplesmente o senhor Melquíades

deve ter fechado a janela, ou foi alguém da casa, para que o “espetáculo” não pudesse ser presenciado.

- Não me refiro a esse detalhe, mas ao fato de que tudo nos leva

a que pensemos que foi alguém de dentro, quando não temos a mínima prova nesse sentido. Carlos meneou a cabeça. Dava sinais de haver desistido de convencer o companheiro. O quarto ficou silencioso durante um minuto enquanto Silva examinava as paredes de cor creme. No teto, uma lâmpada fluorescente iluminava suficientemente o ambiente. Numa das paredes havia um quadro mostrando um lindo campo com uma casinha bem no meio e, ao fundo, um lago azul e, sobre a natureza, um sol esplendoroso de uma bela manhã. Por alguma razão aquela paisagem o devolveu ao assunto.

Carlos olhou para seu relógio de pulso e viu que já passava de meio-dia e meia. Calculou que talvez devesse abandonar o quarto para que o colega pudesse descansar. Sentindo-se melhor, o detetive Silva relaxou numa poltrona que havia ao lado da cama e, após alguns instantes, inquiriu o colega:

- Diga-me, finalmente qual a sua teoria?

- Bem, tudo é muito simples, meu amigo! – anunciou com ar

professoral. Primeiro há que se descartar a possibilidade de que um criminoso pudesse haver vindo de fora. Silva escutava-o com bastante atenção, estudando com afinco as palavras do colega.

- Considerando toda a dificuldade que era poder saltar a janela

da sala sem ser visto, já que a porta não foi aberta, mas permaneceu trancada, sair também o era para o assassino. Lembre-se – aduziu - de que as vizinhas poderiam também haver presenciado qualquer movimento, por isso a janela foi providencialmente fechada. E então

98

está claro que por ali ninguém passou naquela noite. Parou para observar o paciente e, após um instante, explicou:

- Ainda que o criminoso pudesse ter vindo do exterior, coisa em

que não acredito, não poderia escapar através da janela da cozinha e pulando o muro do quintal, pois aí se encontravam a esposa e o filho do casal. Resta a hipótese de que saísse pulando de volta à janela da sala ou dos quartos, uma vez que a entrada estava trancada. Quanto às janelas, não há qualquer evidência de que alguém passou por ali, já que uma das chaves estava no bolso do morto e a outra havia caído na sala. Talvez com o golpe, o morto tivesse deixado cair a que tinha nas mãos. Assim, meu caro, tem de ser alguém da família quem apunhalou a vítima. Finalmente, lembre-se de que nada foi roubado. Silva parecia não querer admitir esta hipótese, embora não tivesse meios para combatê-la. Então disse de golpe:

- Creio que tivemos muito azar com a chuva torrencial que caiu

durante o dia seguinte ao assassinato, “lavando” nossas provas. Em todo caso, de quem desconfia?

- Bem, só resta uma pessoa que pode ter chegado por trás

silenciosamente e enfiado aquela faca bem abaixo do pescoço do pobre coitado!

- Quem?

- Rosalva! Foi ela que, abrindo a porta do seu quarto e

esgueirando-se sorrateiramente sem ser vista ou ouvida, executou o pai.

Além disso, Melquíades nunca pensaria que ela fosse capaz disso. Ele estava de costas para as escadas que levam até ao quarto da filha e não havia ninguém entre eles que pudesse impedi-la. Tenha em conta também que o irmão e a mãe estavam na cozinha, dando-lhe uma oportunidade bem real para que ela fizesse a coisa.

- Parece que você tem uma boa hipótese, mas no fundo não

acredito que possa ter acontecido dessa forma. Como sabe que não foi a esposa ou o próprio filho? Afinal, o que aconteceu com sua teoria sobre o garoto?

- Bem, não me dou ao luxo de dispensar essa alternativa –

redarguiu Carlos. Mas também não disponho de razões para apoiá-la. E sentando-se no braço da poltrona onde Silva estava acomodado, ponderou:

- Lembre-se de que o irmão viu uma mulher pulando a janela no

99

momento em que ele chegou à sala. E de forma contundente arrematou:

- Ora, Silva, eu e você sabemos que o garoto viu na verdade a

Rosalva, e creio que desse modo poderíamos usá-lo como testemunha- chave durante o julgamento de sua própria irmã.

- Sim, claro! – ironizou. E então já temos solucionado o caso!

- Diga-me, então, Silva, o que faremos? Não temos como provar

essa hipótese perante os jurados no tribunal, mas podemos trabalhar a

partir de agora neste sentido. - Do mesmo modo – preveniu Silva – seria uma temeridade acusá-la de algo, neste momento, apesar do depoimento do irmão. O

que temos são provas circunstanciais – e levantou-se da poltrona para caminhar pelo quarto. E diante do silêncio do colega, completou:

- Ela foi muito segura em suas afirmações quando a interroguei

e creio que não temos qualquer chance. Que motivos teria para matar seu próprio pai? Carlos foi enfático:

- Assassinou-o num acesso de crise ao ver como ele se dava

cada vez mais à bebida e como tratava toda a família. Os jornais estão

repletos destas histórias que, no fundo, traduzem o caos em que vive nossa sociedade. Filhos matando pais e maridos acabando com a vida de suas esposas.

- Não me parece uma razão suficiente para sua morte – replicou

o enfermo. Silva raciocinou que, mesmo levando em consideração a

resposta evasiva dada por Rosalva, quando então lhe perguntou quem

teria cometido o ato bárbaro contra seu pai, sua resposta oblíqua talvez tivesse o propósito de defender a mãe, a única a ter cabelos louros.

- Poderia dar-se o caso, meu amigo, de que ao chegar à sala,

Rosalva encontrasse a mãe em prantos e, provavelmente, suporia em seu íntimo que ela assassinara o marido. E foi para defendê-la que preferiu calar-se quando a entrevistei. Carlos tergiversou contando ao parceiro que, ultimamente, a vítima tomava uma “manguaça” a cada dois dias. Tinha conversado com o dono do bar em frente ao armazém e ele tinha confirmado a

história:

-

Porém não foi capaz de identificar ninguém em especial que o

100

acompanhasse até à casa naquele dia – reconheceu. Normalmente ele falava com gente conhecida do local ou com alguns poucos amigos. Surfando na mesma onda, Silva explicou-lhe que a filha não

havia reconhecido o alcoolismo de Melquíades, preferindo negar o fato:

- Talvez tenha vergonha da atitude do próprio pai – arriscou. Carlos cruzou os braços enquanto olhava para o colega com

algum interesse. Depois de algum tempo, disse:

- Diga-me, o que fazia a vizinha na casa do morto no dia em que ele foi assassinado?

- Esteve lá pela manhã a fim de pegar algum ingrediente para uma receita.

- E quanto à irmã deficiente?

- Eu diria que ela tem um álibi perfeito, metida num leito hospitalar no dia em que o homem foi golpeado. Averiguei esse fato no hospital – informou Silva. Seus olhos de raio X fitaram as paredes e logo o teto, como se ele buscasse compreender algo que lhe escapava à razão. Depois resmungou num tom misterioso:

- Uma feliz coincidência para ela, não? E um azar para o senhor Melquíades!

101

X - UMA REVELAÇÃO

Três dias após sofrer o atentado, o detetive Silva se recuperava inteiramente. O próprio convalescente e o seu companheiro no caso, dirigiram-se outra vez ao lugar do sinistro. Era um grande galpão que fazia divisa na parte de trás com as margens do rio Potengí, o qual serpenteava ao redor do velho bairro da Ribeira, indo despejar suas mornas águas entre a praia da Redinha e o Forte dos Reis Magos. O prédio não se encontrava muito distante do cais, dentro havia um grande espaço, distinguindo-se ao fundo algumas salas separadas, antes do incêndio, por biombos de material sintético. Sobre esse espaço erguia- se um primeiro andar antes forrado por longas tábuas de boa madeira. Onde anteriormente devia funcionar uma sala com cerca de cinco computadores, a visão era agora desoladora. O aspecto negro assemelhava-se, na opinião de Silva, a um “pedaço do inferno”, já que ali tudo lembrava destruição e tristeza. Os dois passaram até a uma outra sala deteriorada, que parecia ter servido à contabilidade da empresa. Havia muito resto de material pelo chão, e a equipe técnica já tinha revolvido tudo pôr ali. Moviam-se sobre um emaranhado de fios de eletricidade, tijolos enegrecidos, telhas quebradas e barras de ferro retorcidas. Enquanto Carlos recolhia alguns objetos do solo, Silva tentava distinguir no meio do monte de entulho algo que pudesse provocar-lhe alguma suspeita. Então resolveu subir pela escada que provavelmente levaria até à sala de Melquíades, e tendo bastante cuidado para não tropeçar e cair, conseguiu escalar até ao topo. De lá divisou melhor o estrago que o fogo causara, dedicando algum tempo a observar a cena de destruição. Esforçava-se por imaginar que mente atroz fora capaz de idealizar o atentando. Após cerca de uma hora deixaram o local. Nada mais do que alguns cacos haviam sido recolhidos por Carlos em uma bolsa de plástico que ele tinha enfiado em seu bolso. Silva, que não lograra nada além de uma leve dor de cabeça, tinha as idéias embaralhadas. Segundo constava do relatório interno da polícia, o fogo fora ateado por uma faísca produzida de modo artificial. Também havia indícios de que gasolina fora usada como combustível. Embora um

103

curto-circuito fosse algo comum de ocorrer, tudo levava a crer que,

nesse caso, a corrente elétrica fora deliberadamente religada por alguém que tinha propósitos criminosos, pois o armazém tinha sido fechado e a força desligada logo após a morte do proprietário. Alguém tentara impedir a polícia de levar a termo o trabalho de investigação, e o mais grave é que a vida dele estivera em jogo.

A dupla caminhava agora pela calçada. Ali fora puderam

respirar um ar marinho que cheirava a peixe e mangue. O sol forte

brilhava num céu completamente azul e o vento esvoaçava os cabelos dos dois.

dos

computadores? - Parece que estamos recuperando dois deles, o resto foi totalmente perdido – lamentou Carlos. - Bem, pelo menos já é alguma coisa. - Suponho que sim. O delegado enviou o material aos especialistas de Salvador, já que aqui não há uma empresa capaz de realizar o trabalho – explicou Carlos, alisando a calvície banhada em suor.

- O

que

temos

de

novo

sobre

os

discos

rígidos

- E quando poderemos examinar seus conteúdos?

- Ainda não nos deram uma previsão, mas creio que dentro de

uma semana no máximo.

- Não temos tanto tempo assim – contestou Silva sem rodeios.

Venha, vamos nos refrescar naquele bar – disse, apontando para uma fachada de tijolos aparentes. Na frente estava escrito, em letras azuis, Black Out. Fazia muito calor e era quase hora do almoço.

O sexto sentido parecia indicar a Silva que precisaria mais do

que nunca das provas internas daquele computador. A expectativa era de que os dados contidos em seu disco rígido pudessem revelar algo que os policiais ainda não haviam atinado. Para ele, aquele crime era um verdadeiro abacaxi a ser descascado sem muita contemplação. Também pensou no caso como um imenso quebra-cabeça, que ia sendo montado a custo sem que, inicialmente, se tivesse uma idéia clara do que se estava formando. Ao ir-se juntando as peças é que a figura do assassino emergiria lentamente. Carlos teve de ir ao banheiro e só voltou uns três minutos depois

104

com a expressão do rosto mais aliviada. Ao se retirarem do local, cada um pegou seu carro. Carlos explicou a Silva que iria até à delegacia depois que resolvesse um assunto particular e, então, despediram-se.

***

O delegado Paulo ao lado de Silva segurava um velho chapéu de feltro negro enquanto mirava diretamente os olhos do outro. Carregava uma expressão preocupada e demorou-se como a querer

medir a intensidade do que iria dizer ao agente. Por fim, começou:

- Sei que o que vou dizer não parece apropriado, mas

- Não precisa preocupar-se com meu estado de saúde, delegado

– disse Silva. Pode não parecer, mas já estou bem, passei por situações piores e consegui superá-las; não será uma bombinha de nada que irá abalar-me.

- Não se trata de seu estado de saúde, detetive – demarcou. Sei que é forte como um cavalo puro sangue.

- Então não posso entender o que

- Deixe-me explicar.

Buscando em sua memória cenas de perigo vividas pelo Detetive Silva, o delegado acabou por recordar-se do dia em que uma bala quase o matou. Por sorte raspou sua cabeça como uma navalha

afiada, indo alojar-se na parede que havia por trás dele. Na ocasião os colegas do departamento o visitaram na enfermaria e logo estavam comemorando a boa sorte do companheiro.

- Não vejo razão para ocultar-lhe nada e ademais você já está

praticamente pronto para outra, não?

- Seja mais claro, por favor! – quase gritou Silva, impaciente.

O delegado pareceu sério e respirou antes de prosseguir. Silva olhava-o excitado.

- Bem, em primeiro lugar, quero que conheça os detetives Lopes

e Sales, da Polícia Federal de Brasília – disse o delegado, apontando para os dois homens de paletó, sentados num canto de seu gabinete.

- Muito prazer, – disse Silva. Creio que já nos vimos antes. E

instantaneamente lembrou-se do dia do incêndio e de como os tinha visto antes de desmaiar.

Lopes disse-lhe uma graça:

105

- Da última vez o senhor estava bem diferente. Alegro-me de que esteja bem agora.

Os dois homens de terno haviam justamente socorrido Silva durante a explosão seguida de incêndio.

- Estes homens têm boas razões para acreditar que alguém do

nosso departamento foi o responsável pela colocação da bomba no armazém – vomitou o delegado Paulo.

- Mas como

A cabeça do detetive Silva agora lhe doía e o mundo parecia rodar diante dele.

- Não me pergunte como, só sei que se trata de alguém

realmente preparado – disse o delegado. Alguém que sabia

perfeitamente o que estava fazendo, e não um amador. Entende o que quero dizer?

- Estou tentando segui-lo, mas não sei se sou capaz! – respondeu, sentindo-se perturbado.

Dando a volta pela mesa e sentando-se em sua bela poltrona, o delegado Paulo confidenciou:

- Ainda não temos provas, mas pensamos que o assassino está mais próximo de nós do que supúnhamos.

- De quem desconfiam? – perguntou Silva, de chofre.

Paulo respondeu com todas as letras:

- Anunciei ao cabo João Batista e ao detetive Carlos que

viessem à delegacia, pois iria falar-lhes também sobre um relatório que o nosso Departamento de Correição havia preparado sobre cada um.

- Quer dizer que

- Isso mesmo: joguei verde para colher maduro! E acrescentou:

- Nenhum dos dois apareceu até agora.

Silva teve de sentar-se para não cair.

- Mas

- Pela descrição que temos, um dos dois tentou subornar um

rapaz chamado Jonas. Pediu-lhe que inventasse uma história sobre

Melquíades, de que estava endividado ou algo assim.

mas co-como descobriu?

- Agora compreendo – murmurou Silva.

Um dos federais advertiu-o:

- Sugiro que tenha muito cuidado porque da próxima vez o

106

senhor poderá não ter tanta sorte com explosões e fogos. Em seguida o delegado ordenou ao detetive Silva:

- Quero que saia a partir de agora acompanhado, entendeu?

Além do mais você deve estar na pista certa, pois logicamente o nosso homem tentou destruir as provas que tínhamos contra ele, não acha?

- Certamente que sim – resmungou um Silva, assustadiço.

- Bem – disse o delegado –, creio que você tem agora um bom

motivo para tentar descobrir o que há dentro destes computadores.

- É o que pretendo fazer o mais rápido que puder, mas

e

quanto ao suspeito? – indagou, atordoado. Nesse instante uma chamada telefônica interrompeu-os. Paulo

atendeu e quase não disse palavra. Depois inclinou a testa para o lado e então Silva entendeu que tinha de ir-se. Porém, antes de cruzar a porta, virou-se para o chefe:

- Se ainda houver algo que eu não saiba delegado, suplico-lhe que me diga agora.

O delegado limpou a garganta antes de revelar o que talvez Silva já adivinhasse:

- O detetive Carlos não foi encontrado em seu apartamento ou

qualquer outro lugar nas últimas vinte e quatro horas, parece que escapou para um lugar que não sabemos, ao receber o chamado para comparecer à delegacia. Assim, damos caça ao detetive Carlos como suspeito de assassinato premeditado do senhor Melquíades. Ele é o

homem que procuramos e não guardo a menor dúvida quanto a isso. Com relação a você, Silva, trabalhará daqui para frente com o cabo João Batista que, neste momento, está vindo para cá. Era tudo o que Silva não desejava escutar. Jamais havia pesado essa possibilidade. Estava chocado e sua face assemelhava-se à de um animal feroz, bufando aturdido sem saber o que fazer diante da imensidão solitária de um deserto.

- Que outras provas têm com relação ao incêndio do armazém? –

ainda quis saber.

- Identificamos o posto de combustível onde o suspeito comprou

a gasolina que usou para incendiar o armazém. O bombeiro reconheceu

a foto de Carlos imediatamente, quando lhe mostramos. Depois o delegado advertiu-o outra vez:

- Quero-o capturado imediatamente, mas tenha o máximo

107

cuidado, ele é um tipo extremamente perigoso, agora que já o descobrimos. Desconfie de sua própria sombra! Lembre-se de que um animal acuado é capaz do inesperado a fim de escapar e, neste momento, ele é um fugitivo. Você poderá contar com a ajuda destes homens que estão aqui. Após retirar-se da sala, cabeça baixa, Silva não sabia por onde recomeçar. Foi necessário pelo menos uma hora para que pudesse assimilar tudo o que havia ouvido. Sua mente repassou os acontecimentos dos últimos nove dias tentando compreender todas as nuances de uma história bastante cruel para ele. Restava-lhe aguardar a chegada do cabo João Batista, com quem formaria uma nova dupla.

108

XI – JUNTANDO AS PEÇAS

- Não, obrigado, por hoje já tomei café demais!

Os olhos de raio X do policial vasculhavam o ambiente como se buscasse algum objeto perdido. Experimentava uma sensação frequente de impaciência, o pensamento longe, como se sondasse uma nuvem branca passeando na imensidão do céu azul. - Eu também não descobri nada que indique o paradeiro do Carlos – murmurou o cabo João Batista, sorvendo um gole de café, e forçando seu companheiro a voltar à realidade. Silva olhou-o de soslaio e teve a certeza de que já não sobrava tempo para qualquer consideração, quando foram chamados. Enfiaram- se no gabinete do delegado onde eram esperados e lá o encontraram

conversando ainda com os dois policiais federais. Ambos eram altos e quase da mesma estatura, as caras sisudas. O que levava uma espessa barba no queixo parecia mais velho do que o que tinha cabelos ruivos. Não havia sinal do binóculo em suas mãos.

- Em outras palavras, não sabemos absolutamente nada sobre o

lugar onde está o Carlos! – declarou o delegado enquanto afundava em

sua cadeira. O cabo João Batista levantou a vista buscando captar a expressão do rosto de Silva.

O brilho opaco da luz da manhã penetrava no gabinete através

do vidro da janela e o ambiente cheirava a fumaça de charuto caro. O

delegado continuou:

- Bem, senhores, pelo menos agora sabemos quem é o nosso

assassino e a arma que ele usou. – frisou. O que infelizmente não descobrimos ainda é qual o motivo do crime, mas estou convicto de que não demoraremos tanto para elucidarmos esse ponto.

 

-

E quanto a Carlos? Quero dizer

me preocupa que esteja solto

por aí e

– pontuou um dos agentes federais.

O

delegado deu de ombros:

 

-

O que você quer que eu faça!? Não tardará muito até que o

agarremos. Nossos homens estão espalhados pelo aeroporto Augusto Severo e também pela rodoviária de Natal. Além disso, há agentes nas estradas e os policiais nas fronteiras com os Estados vizinhos estão alertados.

109

O policial federal inspirou profundamente e depois expulsou o ar, balançando a cabeça em sinal de reprovação. Seu olhar cruzou com o do companheiro que parecia suplicar-lhe paciência.

Silva guardava silêncio, mas o seu pensamento continuava a voar pelo infinito. O cérebro, no entanto, não parava de processar as informações um só momento.

- Mas não se esqueça de que há também navios de turistas

atracando e zarpando constantemente em Natal! – contestou o Federal.

- Droga! – esbravejou o delegado. Eu não tinha pensado nessa

possibilidade. Acho pouco provável que utilize essa via de escape,

mas,, em todo caso, me comunicarei imediatamente com a Capitania

dos Portos – disse, agarrando o telefone. Durante um ou dois minutos todos ouviram seu curto monólogo. Quando acabou a ligação pôs o aparelho no gancho:

- Creio que agora não haverá como escapar!

- Espero que não seja tarde demais, delegado!

Paulo parecia muito contrariado e no fundo não era seu estilo admitir alguma falha. A idéia da fuga pesou como chumbo em seu íntimo. Ver um ex-companheiro e subordinado preso era algo que jamais havia passado pela cabeça e de alguma maneira acreditava que Carlos devia ter preparado muito bem a sua fuga, no caso de que algo

desse errado em seus planos, embora ele estivesse convicto de que pagaria pelo que fez:

- Como ele pôde nos enganar todo esse tempo? – disse o cabo,

tirando as palavras da boca do chefe.

- O fato é que quase conseguiu! – completou o policial federal

da barba grossa.

- Ora! Foi muito fácil! – replicou o delegado. Estava totalmente

metido na investigação de seu próprio crime, o que lhe dava uma extrema vantagem, não acha?

- É verdade – reconheceu o cabo, que parecia gostar da reunião.

Ele deve ter dado um jeito de ser lotado exatamente no lugar onde planejou executar sua vítima, assim seria mais fácil e ele poderia passar completamente despercebido.

- E mais alguns dias, o inquérito teria se realizado, o que o

deixaria impune por um bom tempo e então, sorrateiramente, talvez ele

planejasse se transferir para outra unidade policial.

110

O delegado Paulo fez uma pausa e depois se dirigiu aos dois homens de Brasília:

Como descobriram toda a

farsa?

O homem de barba adiantou-se para responder, denotando impaciência:

- Tudo começou a partir de uma denúncia feita pelo próprio

morto.

Houve um murmúrio e algumas testas franziram-se. Então ele continuou:

- Alguém, que não quis identificar-se, ligou para a sede da

Polícia Federal em Brasília dizendo-se ameaçado por um policial de

Natal. Na gravação a pessoa cita o nome do agente como sendo Carlos, mas não revela a que delegacia pertencia, o que em princípio dificultou nossa investigação.

- Mas ele não contava com vocês!

- E quando foi feita essa chamada?

- Um dia antes do assassinato. Foi só quando soubemos que

havia acontecido um crime em Natal, que pudemos ligar uma coisa a

outra e assim concluímos que a chamada havia sido feita pelo falecido.

- Mas então já era tarde demais – afirmou o cabo João Batista.

- Não se pode prever quando ocorrerá um crime, meu caro! –

observou. Além do mais, recebemos diariamente centenas de denúncias, e a quase totalidade não se concretiza.

E completou:

- Tivemos então de rastrear de onde havia partido a chamada da

denúncia, o que nos conduziu exatamente à região onde ocorreu o assassinato.

- Agora começo a entender tudo – disse Paulo –, mas por que não nos avisaram antes?

- Não tínhamos certeza de quem pudesse ser o criminoso.

Poderia ser qualquer um de vocês! E evidentemente não quisemos nos

precipitar. Silva escutava-o com atenção. Apesar de estarem encerrados

naquele gabinete, podia-se ouvir o som frenético dos motores dos automóveis acelerando pelo asfalto da avenida Prudente de Morais. Após algum tempo, o delegado retomou:

Uma vida perdeu-se por não termos sido rápidos o

- É

111

bastante. Todos permaneceram em silêncio por uns instantes.

- O que não posso compreender é o que levou Carlos a cometer

o ato.

Os olhares dos demais pousaram no delegado.

- Talvez tenha sido o que chamamos de um crime passional –

arriscou Silva. O federal girou a cabeça:

- Foi exatamente do que suspeitamos, mas para descobrir esse

detalhe vital nos pusemos de tocaia sobre todos vocês – disse,

apontando para cada um. Tivemos de vigiá-los durante algum tempo. Eu mesmo fiquei encarregado do senhor, detetive Silva, e de seu companheiro. E usei meu velho binóculo para isso – disse, a boca abrindo-se num leve sorriso provocado pela lembrança da cena no Parque das Dunas. E concluiu sério:

- Há de se ter em conta que o criminoso poderia fazer parte de

uma máfia tentando extorquir sua vítima e, portanto, todos eram, em alguma medida, potenciais suspeitos.

- Mas espere aí! – interrompeu o delegado. Ao que me consta, o

senhor Melquíades era um pequeno comerciante e, se alguém ou alguma quadrilha resolvesse planejar um sequestro ou algo parecido,

pegaria presumivelmente alguém que tivesse muitas posses. E não era esse o caso!

- Logicamente esse foi o ponto que nos chamou a atenção e tirou

nosso sono, já que nada fora levado da casa ou da loja! Mas disso só soubemos depois. Veja que a princípio nada sabíamos acerca da situação financeira do morto. Foi somente quando comprovamos que não houve roubo ou qualquer retirada suspeita de sua conta bancária é que concluímos que por detrás da morte havia uma outra razão – observou. O ar carregado e a gravidade dos semblantes daqueles homens faziam o ambiente assemelhar-se à sala de um tribunal, onde se tivesse julgando um réu ausente. Todos pareciam ao mesmo tempo querer adivinhar a personalidade do assassino. O delegado resolveu acrescentar mais dados sobre aquela espécie de távola redonda do rei Artur.

- Sabemos que a vítima não possuía o que se podia classificar

112

como uma bela condição financeira ou algo semelhante. Era um

modesto comerciante e, nesse caso, creio realmente que podemos descartar o fator econômico como o motivo do crime. Depois indagou:

- E quanto à esposa e aos filhos? Também nada lucrariam com o desaparecimento da vítima?

-

Suponho que se refere a alguma herança? – sugeriu um dos

federais.

-

Exatamente.

-

Na verdade, Melquíades era um comerciante em decadência.

- E quanto à existência de algum tipo de apólice de seguro, que os familiares receberiam no caso de que falecesse?

- Não há nada nesse sentido – assegurou o agente.

Pela segunda vez, escutou-se a intervenção do detetive Silva:

- Bem, nesse caso só nos resta o elemento emotivo como impulsionador do assassinato.

- Efetivamente – saltou o policial de cabelos ruivos.

Houve um silêncio geral como se todos levantassem suas

próprias conjeturas a respeito do homicídio e, por cerca de um minuto, ninguém disse qualquer coisa. Foi Silva quem abriu a boca, outra vez:

- De acordo com uma das vizinhas, a senhora Expedita, a

história da dívida do defunto foi-lhe dada a conhecer através do rapaz que faz as entregas do supermercado.

-

E como o tal rapaz ficou sabendo? – interpelou um dos

federais.

-

Bem, o próprio Carlos contou-me que o rapaz se inteirou do

assunto através do irmão, que trabalhava na loja do senhor Melquíades. Suponho que este, por sua vez, deve ter ouvido algo a respeito na própria loja – sugeriu Silva.

- Mas não podemos acreditar no que diz Carlos! Não sabemos

como surgiu a história, mas o caso é que estamos certos de que não

existe qualquer dívida – assegurou o da barba. Silva concluiu:

- Tem razão. E por isso creio que a história da dívida foi

possivelmente inventada pelo próprio Carlos, como realmente vocês comprovaram – disse, apontando para os dois federais.

E acrescentou:

113

- De algum modo, foi ele quem tratou de propagar essa idéia, e se estivermos certos, Jonas, que é como se chama o rapaz do

supermercado, simplesmente reproduziu para a senhora Expedita o que ele tinha ouvido. Os policiais federais olharam-no com interesse. Mas Silva não prestou atenção e continuou:

- Podemos ser levados a pensar que havia alguma ligação

emocional entre Carlos e a vítima ou mesmo entre ele e a senhora Osla,

ou ainda com algum dos dois filhos do casal – sugeriu.

- Mas não há provas alguma a esse respeito! – replicou o

delegado.

Os federais vieram em apoio de Silva:

- Exatamente porque não existem ligações amorosas entre qualquer membro da família e o Carlos.

- Como podem ter tanta certeza de que essa hipótese pode ser descartada?

- Não do modo como você está pensando, delegado!

A afirmação deixou-o intrigado. Ao seu lado, o cabo João

Batista parecia incrédulo. Silva foi mais rápido no gatilho:

- Talvez um exame de DNA nos revele algum parentesco entre

eles – disse.

- Isso já foi feito! – anunciou o federal arruivado, passando as mãos pela vasta cabeleira.

Os outros o fitaram estupefatos. Então o homem viu-se forçado

a contar de golpe tudo o que sabia a respeito:

- Melquíades é, na realidade, o pai do detetive Carlos.

A notícia surtiu o efeito de uma bomba, propagando seu eco

pelos quatro cantos do gabinete.

- Então

– começou a dizer Silva, mas não foi capaz de

completar o resto da frase. O homem da barba o socorreu outra vez:

- Comparamos a ficha do policial com os dados da autópsia feita

no

cadáver da vítima e verificamos que são verdadeiramente pai e filho.

O

que significa que muito provavelmente se trata de um crime de

“vingança”! Ainda que fosse lógica a dedução, sua simples revelação produziu outro estarrecimento entre os policiais. O delegado contorceu-

114

se em sua cadeira, levando uma das mãos à cabeça, enquanto aparava o queixo sobre a palma de sua mão, o braço apoiado na mesa. João Batista olhava de um lugar para outro como se estivesse perdido em meio a um tropel de elefantes.

- Na verdade, a história da falsa dívida teria o propósito de

encobrir as relações que Carlos mantinha com o pai e, mais do que isso, poderia justificar a bebedeira a que se havia entregado o falecido.

- E assim o foi, detetive Silva! – concordou um dos homens de

Brasília. Lembrem-se, senhores, que as contas do armazém não apresentavam balanço negativo e tão-pouco seu dono possuía qualquer dívida particular.

- Digamos que a história tem como princípio o fato de que pai e

filho não se levassem bem um com o outro por alguma razão que nesse instante desconhecemos – interveio Silva.

E deduziu:

- Talvez se perguntarmos quem era a mãe de Carlos seja mais fácil descobrir o misterioso motivo do crime!

O homem da barba preta percebeu que o raciocínio do detetive

Silva progredia velozmente. E então quando o detetive potiguar pediu licença e saiu da sala por alguns instantes, nem os federais, nem o delegado e o cabo entenderam o que se passava em sua mente. Apenas

esperaram. Quando voltou à sala, quinze minutos depois, uma nuvem de fumaça pairava sob o teto. Os homens perceberam que os olhos do detetive Silva brilhavam e até a cor de sua pele havia mudado de

tonalidade, agora mais corada. Olhavam-no, parecendo depositar nele suas últimas fichas.

- Senhores – anunciou –, preparem-se para o que vou contar-

lhes! Em primeiro lugar, sentem-se - e aguardou que se acomodassem. Quando falou de novo, sua voz esparramou solenidade:

- Carlos é filho de Melquíades com a sua vizinha.

Houve murmúrio geral e, pela primeira vez, dentro do gabinete os dois policiais federais foram obrigados a curvarem suas cabeças:

- Como soube disto? – questionou o de cabelo ruivo.

- Simples! Consultei a ficha de Carlos no arquivo do

computador e, em seguida, liguei para seus pais adotivos que moram em Madri, na Espanha. Depois de alguns minutos de conversa, deram-

115

me o nome da mãe biológica dele.

O delegado foi o primeiro a querer saber:

- Mas a qual das duas senhoras se refere?

- A paraplégica. A que se chama Sebastiana.

- Mas isso é assombroso – arrematou o cabo.

- Então liguei para a senhora Sebastiana e comentei-lhe que

sabia de toda a sua história. Ela amoleceu como gelatina fora da geladeira e resolveu abrir-se comigo. Diante de um grande silêncio o detetive Silva pôs-se a contar a verdadeira história familiar do detetive Carlos:

- Há muito tempo, quando eram jovens, os pais de Carlos se conheceram. Ela trabalhava no escritório do pai dele, Miguel. O jovem se chamava Melquíades e também trabalhava na loja do pai. Então Sebastiana e Melquíades mantiveram um romance oculto e algum tempo depois a moça engravidou. O que aconteceu a partir daí? Eu lhes digo: o rapaz rejeitou-a e, para abafar o escândalo, provavelmente o pai enviou a jovem ao exterior. Lá ela pariu seu neto, entregando-o em seguida a uma família espanhola amiga do comerciante, para que criasse o bebê. O pai da criança não acompanhou a ex-namorada. Carlos cresceu e, obviamente, quando adulto se inteirou de seu passado, digamos, um pouco tumultuado. Ainda novo veio para o Brasil, talvez

resolvido a conhecer seus verdadeiros pais e a história de sua origem. E logo se tornou um bom e cumpridor policial. Mas, provavelmente, ao descobrir sua mãe em uma cadeira de rodas, tenha tomado conhecimento de sua amarga história. Talvez a senhora Sebastiana tenha lhe contado todo o drama sofrido, e é possível que o tenha feito com a intenção de que o filho a perdoasse pela adoção que ela viu-se obrigada a fazer. É muito fácil imaginar o que ocorreu daí para frente:

Carlos deve então ter-se enchido de ódio e alimentado uma feroz vingança em relação ao genitor que o rejeitara. Os homens miraram Silva com uma grande expectativa estampada nas caras. Ele prosseguiu:

- Lembro-me da senhora Expedita ter comentado que hoje em

dia os rapazes parecem já adultos. Ela se referia ao rapaz do supermercado chamado Jonas. Mas, na realidade, sua parca visão deve tê-la traído. Eu não estaria de todo equivocado se suspeitasse que Carlos houvesse se disfarçado de entregador de supermercado para

116

bisbilhotar a casa de seu pai sem ser notado, levando sua velha tia a imaginar que era o tal Jonas.

O delegado parecia ansioso por respostas:

- E o que levou a senhora Expedita a uma cadeira de rodas?

- Segundo ela – explicou Silva -, Melquíades empurrou-a

durante uma discussão que tiveram logo após ela engravidar. Ela caiu de mau jeito e fraturou um dos ossos de sua coluna cervical, o que a deixou paraplégica.

E baixando levemente seus olhos, completou:

- Foi nessas condições que ela foi levada à Europa onde pariu a

criança. O senhor Miguel era um homem de posses para a época e talvez desejasse um outro futuro para seu filho.

O cabo João Batista fez uma pergunta bem inteligente, tendo em

conta o seu cérebro:

- E quanto à irmã, a dona Expedita, ela sabia de tudo o tempo

todo?

- Ela alegou desconhecer a gravidez – disse Silva. A razão para

a viagem da irmã é que o senhor Miguel, penalizado com a gravidade de sua situação após a queda da escada, teria custeado a viagem da funcionária, para que se tratasse com especialistas europeus da época. Mas não há como garantir que ela diz a verdade e, talvez, jamais

saibamos. Quando acabou a narrativa, aqueles homens, acostumados a

lidar com as mais perigosas e extremadas situações, mostraram-se realmente emocionados. Um profundo silêncio imperou no gabinete e, depois de algum tempo, o policial federal de cabelos avermelhados sussurrou:

- Infelizmente é o que parece ser.

Mas Silva ainda não havia concluído o final da novela:

- Foi assim como Carlos deve ter planejado nos mínimos

detalhes o assassinato do próprio pai. Sendo policial, conhecia as

nuances da lei e, neste sentido, talvez se sentisse limitado, porém não foi exatamente o que ele imaginou. De modo que, como disse o delegado Paulo, tornou em vantagem uma aparente desvantagem. Paulo limpou a garganta e ajeitou seu colarinho, satisfeito com o comentário. Depois, num tom cerimonioso, questionou:

- Mas como ele conseguiu entrar sem ser visto na casa do pai?

117

- Bem, uma visita esperada talvez seja a melhor resposta, podendo-se perfeitamente supor o que se passou a seguir. Imagino que,

sabendo que o filho viria encontrar-se com ele em sua casa, Melquíades não disse nada a ninguém, pela simples razão de que sua família nada suspeitava. Eu diria que não é uma questão fácil de ser assimilada por um pai, ainda mais nas condições dele, tomado de surpresa. Silva prosseguiu com o raciocínio:

– Desse modo, Melquíades abriu a porta enquanto todos estavam recolhidos e recebeu-o na sala, mantendo alguma conversa com o este seu primeiro filho, ocasião em que Carlos aproveitou para assassiná-lo. Talvez ele confiasse no filho que aparece de surpresa, a ponto de dar-lhe as costas enquanto falavam, já que não há qualquer sinal de luta entre eles. Foi um único e certeiro golpe que o matou, como afirmou o médico legista.

- E como se explica a sua fuga da casa, sem ser visto?

O delegado tentava claramente transferir o mérito da resolução

do caso para seus homens.

- Antes, devo dizer que foi ele quem passou a chave na porta da

cozinha, para que a senhora Osla não pudesse sair enquanto ele assassinava o próprio pai. Por muito pouco seu irmão por parte de pai, Roberto, não o flagrou na cozinha. Bem, se Carlos tivesse uma cópia da chave, poderia ter saído pela porta da frente sem ser percebido. Lembro-me de que a viúva revelou-me que não havia encontrado a chave na fechadura. E onde ela estava? No chão da sala, claro! Pois devia ter sido atirada pela janela, depois que o criminoso passou pela

porta da frente, trancando-a por fora. Na ocasião, não dei importância ao fato, pois julguei que, como ela estivesse nervosa, não soubesse naquele momento onde havia posto as chaves. Mas esse é um detalhe muito importante!

O cabo João interveio:

- Mas não encontramos qualquer pista nem pegadas do lado de