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- Uma revista de teoria Anarquista 1

Editorial Sumário
O Bakuninismo na
Caros leitores,
É com satisfação que lançamos primeiro número da nova revista de teoria política da Primeira Internaci-
União Popular Anarquista, a Via Combativa. A nova revista substitui a antiga revista onal dos Trabalha-
Ruptura, e acompanha a definição da linha política e de massas da nossa organização.
O objetivo dessa nova fase é a instrumentalização do bakuninismo enquanto ferramenta
dores
de interpretação e transformação da sociedade brasileira. Essa nova fase é marcada pela - página 3
consolidação da nossa proposta teórica, expressa nas resoluções de nosso terceiro congres-
so.
A construção de uma teoria que seja capaz de explicar a realidade social é de importância A Filosofia
fundamental. Durante esses seis anos de existência da nossa organização procuramos avançar Bakuninista:
nos debates internos em temas imprescindíveis para consolidação teórica do anarquismo. Ao
mesmo tempo buscamos sistematizar importantes discussões teóricas iniciadas por Bakunin.
dialética da ação e
Isso é essencial, uma vez que sua obra encontra-se fragmentada. A revista vai dar prosse- o materialismo
guimento a esse processo, só que visando difundi-lo entre militantes e a classe trabalhadora sociológico
em geral.
Buscamos sair de um marco estritamente conjuntural e historicista e avançar na constru- - página 7
ção de uma verdadeira crítica anarquista. Com o desenvolvimento de conceitos centrais à
análises sociológicas de fatos e processos sociais.
Os artigos presentes neste número representam justamente esse novo passo na cons-
Uma Teoria do Anti-
trução teórica, tanto na continuação dos pressupostos teóricos como na sua sistematização. Estado
Eles foram, no princípio, teses apresentadas no III Congresso da UNIPA, realizado em 2007. A Comuna de Paris e
As teses sobre a análise do desenvolvimento e economia brasileira serão publicadas progres-
sivamente nos próximos números. a Organização Polí-
Os artigos dessa revista fazem uma sistematização das bases da teoria bakuninista, em tica Socialista
termos de conceitos e métodos. A revista contém seis artigos que justamente marcam a
nossa preocupação: O Bakuninismo na Primeira Internacional dos Trabalhadores; - página 12
A Filosofia Bakuninista: dialética e ação do materialismo sociológico; Uma Teo-
ria do Anti-Estado: A Comuna de Paris e a Organização Política Socialista; O
Bakuninismo e a Teoria da Organização Política; O Estatismo na História: expe-
O Bakuninismo e a
riência e teoria; Forças Coletivas e Classes Sociais: o funcionamento da econo- Teoria da Organi-
mia e sociedade . zação Política
O primeiro artigo tem como objetivo demonstrar a experiência histórica do
Bakunisnismo na 1º Internacional; o segundo, explicar a dialética e o materialismo bakuninista, - página18
demonstrando os elementos principais que compõem o método bakuninista; o terceiro, funda-
mentar um crítica do Estado e uma teoria do Anti-Estado à luz da experiência da Comuna de
Paris; o quarto, procura desenvolver a Teoria da Organização Política à partir da experiência
O Estatismo na Histó-
da Aliança Socialista; o quinto, um artigo sobre o Estatismo, conceito fundamental na teoria ria: experiência e
social bakuninista; e, por fim, o último artigo visa esclarecer e aprofundar a reflexão a teoria
respeito do funcionamento da sociedade e da economia, à partir de uma teoria das classes
sociais e da ação destas. - página 25
Portanto, a revista Via Combativa ganha um conteúdo bem diferente da sua antecessora,
Ruptura, ao procurar sistematizar o desenvolvimento teórico da organização, com a apre-
sentação de reflexões históricas, políticas e sociológicas.
Forças Coletivas e
Classes Sociais:
Anarquismo é Luta! Bakunin Vive e Vencerá! o funcionamento
da economia e
sociedade.
Fotos : - página 31
Na capa: Tre inam e nto de re be l
de s e m Angola - 19 61 (abaixo - à e s q ue rda)
Contra-capa: Quadro de um típico s ans -cul otte porLouis -Léopol d Boil ly
(à dire ita)

Nova Revista teórico-


política da União Popular
Anarquista - UNIPA
Nº 1 - Maio de 2009
E-mail de contato:
unipa_net@yahoo.com.br
Página na WEB:
www.unipa.cjb.net

2 Nº1- Maio de 2009


O Bakuninismo na Primeira
Internacional dos
Trabalhadores
A Internacional e seus pre- princípios socialistas daquela época Tristan em 1843. Em 1847, Marx e
cursores formaram a base, o corpo ideológi- Engels já haviam lançado o chama-
O século XIX foi marcado pela co, em certa medida, da Internaci- mento “Proletários do mundo, uni-
consolidação do capitalismo em onal. Não havia ainda nessa época vos”, no Manifesto do Partido Co-
todo o ocidente e por sua ex- munista. Joseph Dejacque,
pansão pelo mundo. Assu- ju n t o c om Er n e st
mindo novas formas, o siste- Coeuderoy, lançava em 1855
ma social capitalista deu ori- o programa de uma associa-
gem ao imperialismo. A ques- ção internacional.
tão econômica sempre foi A Internacional histórica
central, uma vez que tal sis- tem início a partir da visita de
tema baseia-se na expropria- uma delegação operária fran-
ção das massas trabalhado- cesa à Exposição Universal
ras submetidas, principalmen- de Londres em 1862, quan-
te nesse contexto, a uma do s e d eu u m p rim ei ro
nova disciplina de trabalho contato com membros das
imposta pelo mercado. Con- uniões de comércio britânicas
tudo, e na mesma medida, (Trade Unions). Em 22 de ju-
emergiu na Europa como fru- lho de 1863, as conversa-
to desse mesmo processo his- ções continuaram entre sin-
tórico o movimento operário dicalistas ingleses e seis ope-
e popular, influenciado pelas rários parisienses, Tolain e
idéias socialistas. Este movi- Perrachon que trabalhavam
mento nasce, então, ligado com bronze, os mecânicos
ao tema da emancipação Aubert e Murat, o pedreiro
econômica dos trabalhadores Co h a don e o ca mis ei ro
explorados pelo capital. Bobal. A partir daí surge a
A Associação Internacional idéia de uma convocação de
dos Trabalhadores (AIT, Pri- um congresso internacional.
meira Internacional) nasceu Além dos grupos sindicalistas
em um momento particular britânicos e das associações
da história, em circunstância Gravura retratando a presença de Bakunin mútuas francesas, outros
da afirmação dos trabalhado- na Internacional grupos, representando inte-
res frente ao fortalecimento do ca- as denominações socialistas e co- resses diferentes, contribuíram para
pitalismo. Entre os anos de 1863 e munistas tal qual as conhecemos a fundação da AIT.
1864, alguns operários tiveram a hoje. “Socialista” em muitos países Todos os grupos apresenta-
idéia de formar uma organização significava anarquista. É preciso vam uma tendência de adquirir
que congregasse todos os trabalha- co mp ree n d er qu e o c on c ei to uma dimensão internacional.
dores do mundo. Esse processo de “anarquismo”, na época da Primei- Isso nos leva a concluir que a
criação se deu lentamente, a princí- ra Internacional, se associava a uma propagada paternidade da AIT
pio por parte de alguns intelectuais determinada teoria política e a uma atribuída à Marx não possui da-
e, depois, ganhando força através determinada estratégia prática, dos objetivos que a comprovem
das ações dos próprios trabalhado- como veremos mais adiante. historicamente. Este só aderiu
res que perceberam na formação Entretanto, a idéia desse tipo de à Internacional faltando poucos
desse organismo a forma de lutar associação não era nova em 1864. dias para o encontro de Saint-
contra a opressão do capital. Os Já havia sido levantada por Flora Martin’s Hall, em 28 de setem-

- Uma revista de teoria Anarquista 3


bro de 1864. Só mais tarde é las seções britânicas: para os fran- cional em Genebra, da qual Bakunin
que Marx en cabeça rá a ceses a emancipação econômica era o principal representante, tinha
subcomissão para elaboração dos trabalhadores deveria subordi- em seus documentos a determina-
dos estatutos da AIT. Os sindi- nar todo o movimento político. Para ção de repelir qualquer ação políti-
calistas britânicos, sob influên- os ingleses era o inverso. A princí- ca que não tivesse por objetivo ime-
cia do trabalhismo inglês, e os pio tais diferenças não pareciam fa- diato a vitória dos trabalhadores so-
operários franceses, de tendên- zer tanta diferença, mas passariam bre o capital. A luta contra a explo-
cia socialista, serão os precur- a ser o ponto central da polêmica ração econômica não pode estar
sores da nova Associação que entre Marx e Bakunin. dissociada do fim imediato da opres-
posteriormente também conta- Marx e Bakunin, cujas disputas são política. Uma das principais crí-
rá com trabalhadores influenci- resumem em parte a história da In- ticas que Bakunin fazia a Marx era a
ados pelo comunismo alemão, a ternacional, não estavam presentes de que para este a conquista do
base de apoio das propostas de em sua fundação. É vital, porém, ao poder de Estado era a condição pré-
Marx. A AIT sempre abrigou em analisarmos o surgimento da Primei- via para a emancipação econômica
seu interior matizes ideológicos ra Internacional e os conflitos de- do proletariado, ou seja, era possí-
diversos, como marxistas, libe- correntes, termos em mente que vel haver socialismo sem liberdade,
rais, antigos cartistas, trade- tais polêmicas não eram meramen- sob a existência da ditadura do Par-
unionistas (defensores das uni- te internas, mas diziam respeito a tido Comunista.
ões de comér cio), concepções políticas fundamentais. Ao subordinar a emancipação
proudhonianos e socialistas em Para tanto, torna-se necessário econômica à ação política, Marx já
geral. apreendermos as ações dos dois enunciava aquilo que mais tarde fi-
Havia, porém, uma disparidade mais importantes protagonistas da cou explícito, mas que, no seio da
de critérios que obstaculizavam a Primeira Internacional, Mikhail Internacional, principalmente em
criação de um organismo internaci- Bakunin e Karl Marx. seu Quarto Congresso (Basilea, em
onal. As Trade Unions por um lado 1869), ainda não era posto de for-
não se caracterizavam precisamen- As divergências entre ma tão clara devido à grande influ-
te por aspirações muito avançadas Bakunin e Marx ência do Bakuninismo no movimen-
e os dois delegados italianos eram Foi possível perceber a partir de to o per ári o. Da í dec orr em o
marcadamente mazzinianos, ou 1868 a grande influência de Bakunin autoritarismo marxista e sua defe-
seja, políticos patriotas. Os france- no seio da AIT em praticamente to- sa intransigente da ditadura do pro-
ses eram os que estavam à frente das as sessões da Bélgica, Itália, letariado e do Estado. Partindo des-
de verdadeiros sindicatos de traba- Espanha, Suíça francesa e em par- te princípio, para se chegar a sua
lhadores, que lutavam por seu re- te da Inglaterra, França, Holanda, emancipação econômica a classe
conhecimento, pela melhoria de sa- Áustria e Estados Unidos. Compu- trabalhadora poderia se subordinar
lários e das condições de trabalho; nham o grupo de apoio a Marx a aos domínios de uma aristocracia
eram aqueles que tinham perspec- maioria dos membros do Conselho operária, de uma burocracia esta-
tiva revolucionária. Pela lógica do Geral, os social-democratas alemães tal, por exemplo. A máxima de que
projeto que foi formulado, a sede do Partido de Eisenach e os austrí- os fins justificam os meios também
do Conselho Geral da AIT deveria acos. As bases de sustentação das se aplica à ação marxista e é utiliza-
ficar na França, mas isso não foi posições de Marx estavam nas ses- da como justificativa para qualquer
possível devido às leis bonapartistas sões da Suíça Germânica e nos Es- prática autoritária no interior dos
que proibiam as associações de mais tados Unidos. Havia ainda algumas movimentos populares pelos mili-
de vinte membros. Por isso a sede sessões isoladas na Inglaterra, tantes marxistas, para os quais o
escolhida foi Londres. Espanha e Portugal que o apoia- Estado é necessário para garantir a
Neste primeiro momento da In- vam, mas que eram insignificantes emancipação dos trabalhadores,
ternacional, as idéias mais aceitas numericamente, segundo Droz, que se dá gradualmente ao longo
eram também as mais radicais e vi- “eram quase fictícias” (DROZ, da fase transição.
nham dos trabahadores franceses 1972). Mais tarde, a partir das manobras
proudhonianos, com seu federalis- Para Bakunin a exploração bur- políticas de Marx, a Internacional
mo e classismo. Marx, represen- guesa é sempre solidária, e assim transformou-se, segundo as deci-
tante do comunismo alemão, nun- também deve ser a luta dos traba- sões do Quinto Congresso de Haia,
ca confiou muito no potencial da lhadores contra tal exploração. Des- em 1872, em uma ferramenta para
massa trabalhadora e afirmava não sa forma, o objetivo da Internacio- a conquista do poder. Neste mes-
haver condições históricas para um nal era organizar os trabalhadores mo Congresso se deu a expulsão de
congresso dos trabalhadores. De- contra o jugo da burguesia. Nos es- Bakunin. Porém, antes do Congres-
pois acaba se convencendo do con- tatutos gerais da AIT lemos que a so, Marx convocou às pressas uma
trário e passa a integrar a Internaci- emancipação econômica dos traba- conferência do Conselho Geral em
onal. Desde cedo, houve polêmica lhadores é o grande objetivo ao qual Londres, da qual poucos delegados
entre as delegações francesas e o se deve subordinar qualquer movi- puderam participar devido ao local
pensamento marxista adotado pe- mento político. A seção da Interna- de difícil acesso e à convocatória re-
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alizada sem obediência aos critérios duma cabeça isolada, incapaz de neste caso, a própria Internacional.
necessários. O objetivo de Marx era abraçar as necessidades do prole- As manobras políticas e o desres-
fortalecer a autoridade do Conse- tariado, mas da ação livre, dos tra- peito às instâncias de base da AIT
lho Geral, fazendo deste a cabeça balhadores de todos os países. passaram a caracterizar as ações de
da Internacional. Sua preocupação era com a pos- Marx e de seu grupo que logo per-
Uma das ações de Marx à frente sibilidade (que mais tarde se concre- ceberam no bakuninismo um obs-
do Conselho Geral foi lançar uma tizou através de Marx) da formação táculo às suas pretensões políticas.
nota aos operários franceses para de um grupo de indivíduos que ti- Foi no congresso de Basilea, pon-
que se posicionassem contra qual- vesse por pretensão tornar-se a to culminante da AIT, quando esta
quer tentativa de revolução, que ele vontade dirigente e unificadora do contava com 1 milhão de adesões,
chamava de prematura, referindo- movimento revolucionário e da or- onde se acirraram as disputas entre
se aos momentos que antecederam ganização econômica do proletari- o marxismo e o bakuninismo. Um
a Comuna de Paris, marco da luta ado. Bakunin sempre defendeu a li- caso exemplar foi o debate sobre a
dos trabalhadores em todo o mun- berdade, a ação livre dos trabalha- propriedade da terra. Havia concor-
do1 . Bakunin, antevendo as mani- dores, condenando coerentemen- dância entre os bakuninistas e mar-
festações de descontentamento do te o pensamento único que Marx xistas na deliberação de que a soci-
operariado francês, toma a Câmara pretendia que reinasse na Interna- edade tinha o direito de abolir a pro-
Municipal de Lião, onde proclama a cional, que, ao contrário, não sur- priedade individual da terra e fazer
abolição do Estado. A insurreição giria de nenhum grupo político es- com que esta seja propriedade
prematura que Marx temia, no en- pecífico, mas da solidariedade sin- coletiva. A discordância surge no
tanto, aconteceu em 18 de Março ce ra do s ope rá rio s no tema da herança. Garcia apresenta
de 1871. Posteriormente, Marx ci- enfrentamento direto contra a as posições de Bakunin e Eccarius
nicamente saldou a Comuna como opressão do capital. no trecho que se segue:
um momento extremamente valio- Como já fora demonstrado, Eccarius, membro do Conselho
so para a classe operária2 . Bakunin defendia que as mais diver- Geral e portavoz de Marx na maio-
A proposta de Marx de passagem sas posições políticas estivessem re- ria dos congressos declarou que o
do Conselho Geral para Nova York presentadas na Internacional, des- desaparecimento da herança não
ganhou por 30 votos contra 14 e de que respeitassem seu Programa. podia ser ponto de partida para uma
12 abstenções. Várias delegações De modo algum, como querem al- transformação social, mas sim uma
como a italiana não puderam com- guns pseudo-anarquistas, ele repe- consequência natural da apropria-
parecer. Somente as delegações que lia o debate e a existência de parti- ção coletiva dos meios de produ-
teriam que atravessar apenas o Ca- dos e organizações no interior da AIT, ção. (...) Bakunin fez um tremendo
nal da Mancha e os alemães, que, pois ele mesmo estava convicto da ataque ao direito de herança: “o
geograficamente, estavam próxi- necessidade de uma organização direito de herança depois de haver
mos da cidade holandesa e que, ide- especificamente anarquista que bus-
ologicamente, estavam próximos de casse influenciar e orientar politica-
Marx, compareceram. Havia ainda mente os organismos de massa.
a impossibilidade de Bakunin chegar Marx, ao utilizar como argumento
a Haia, em virtude do decreto de para sua expulsão a existência da
isolamento que pesava sobre ele na Aliança, organização liderada por
Bélgica, e a ausência da delegação Bakunin, utilizou de artimanhas, ale-
francesa por causa das dificuldades gando que o anarquista russo seria
pelas quais passavam as seções da autoritário e agia infiltrado na AIT. É
Internacional na França após a notório e já demostrado acima que
Comuna. Baku n in sempre con den ou os
Para Bakunin, era necessário que autoritarismos, inclusive o marxis-
cada país tivesse o direito de seguir ta.
as tendências políticas que mais lhe O qu e a qu i d en o min am os
agradassem. Diante dos impasses bakuninismo não é uma invenção
políticos, era fundamental que se arbitrária e a-histórica, mas um res-
preservasse a unidade na Interna- gate daquilo que já havia sido dito
cional no campo da solidariedade e praticado por Bakunin. Desse
econômica. Nenhuma teoria filosó- modo, o que defendemos encon-
fica deveria ser a base ou condição tra-se plenamente de acordo com
oficial do Programa da Internacio- as orientações de Bakunin, segun-
nal, mas no seu seio tais questões do o qual é crucial a existência de
poderiam ser discutidas e disputa- uma coletividade que deve prepa-
das. Segundo Bakunin, era assim rar a revolução e dirigi-la, a partir
que então se criaria a grande políti- Toulain - Líder dos
de sua influência no movimento re-
“Proudhonistas de direita”
ca da Internacional, não emanando volucionário de massas mais amplo,
- Uma revista de teoria Anarquista 5
sido a consequência natural da desejam com a permanência de pri- das. (DROZ, 1972).
apropriação violenta das riquezas vilégios e de vanguardas iluminadas, A cisão da AIT se consuma no
naturais e sociais passou a ser de- ou seja, os que querem a revolu- congresso de Haia, em 1872, com
pois a base do Estado político, da ção pela metade. a expulsão de Bakunin e a transfe-
família jurídica, que garantem e san- A avaliação de Bakunin sobre as rência do Conselho Geral para Nova
ciona a propriedade individual. E divergências entre sua concepção Iorque. Em 15 de setembro de
acrescenta: a transformação da e a de Marx era bastante lúcida 1872, as federações italiana, espa-
proprieade individual em proprieda- como se percebe neste fragmento: nhola, americana e francesa e a
de coletiva encontrará grandes obs- “Desde 1868, época da minha en- Jurassiana realizam um congresso
táculos entre o campesinato. Se trada na Internacional, organizei em extraordinário para dar prossegui-
depois de haver proclamado a liqui- Genebra uma cruzada contra o pró- mento à Internacional com sede em
dação social, a expropriação desses prio princípio da autoridade e pre- Londres. Mais tarde estes foram cha-
milhares de pequenos agricultores guei a abolição dos estados, inclu- mados de “anti-autoritários” ou de
aconteceria necessariamente atra- indo na mesma maldição esta cha- dissidentes pela historiografia ofici-
vés da reação, e para submetê-los mada ditadura revolucionária que os al. Bakunin permaneceu nela até
a revolução será necessário empre- jacobinos da Internacional, os dis- 1874, quando a deixou no final do
gar contra eles a força, ou seja, a cípulos de Marx, nos recomendam mesmo ano em razão de sua saúde
reação. Será necessário, pois, como um meio provisório absolu- estar bastante debilitada e por con-
deixá-los possuidores de fato des- tamente necessário, segundo eles cluir que já não valia mais a pena
sas parcelas de que são hoje pro- pretendem. À consolidação e à or- continuar atuando num agrupa-
prietários. Mas, se não abolir o di- ganização da vitória do povo. (...) mento que mostrava claro esgota-
reito de herança, o que acontece- No congresso de Basiléia obtivemos mento. O mesmo aconteceu com a
rá? Transmitirão essas parcelas a uma vitória a que podemos chamar Internacional cuja sede era Nova
seus filhos com a sanção do Esta- co mpl et a, n ão s ó s obr e os Iorque, que, na verdade, nunca
do, a título de propriedade. Pelo proudhonianos doutrinários e pací- chegou a existir efetivamente, sen-
contrário, se proclamais a a liquida- ficos, os individualistas ou os socia- do seu conselho geral dissolvido em
ção política e jurídica do Estado, se listas-burgueses de Paris, mas ain- 1876, na Conferência da Filadélfia.
se abolir o direito de herança o que da sobre os comunistas autoritári-
acontecerá aos camponeses? Só os da escola de Marx. Aí está o que BIBLIOGRAFIA:
possuirão de fato esta possessão, Marx nunca nos pode perdoar a ra- BAKUNIN, Mikhail. Estatismo
privada de toda sanção legal sem zão de imediatamente depois deste e Anarquia. Editora Imaginário, São
amparar-se na potência do Estado congresso, ele e os seus terem co- Paulo, 2003.
e se deixará transformar facilmente meçado contra nós uma guerra que DROZ, Jacques. História Geral
sob a pressão dos acontecimentos não tende a mais nada senão à nos- do Socialismo. Vol. 3 Livros Horizon-
revolucionários”. (GARCIA, 1974) sa completa demolição”. (DROZ, te, Lisboa, 1972
A maioria dos votos foi para a 1972. p. 147). GARCIA, Victor. La internacio-
proposta de Bakunin sobre a aboli- Mesmo na conferência de Lon- nal obrera. Breve recuento historico
ção da propriedade da terra, que foi dres em que Marx dá um golpe na del desarrollo de la Primera Interna-
vi to rio sa e aca bo u s en do AIT, em setembro de 1871, este cional.1974.
consensual, porém, não foi suficien- contava com 13 representantes fi- ____
te para que a proposta da abolição éis dos 23 presentes, desses, 4 eram NOTAS:
do direito de herança fosse aprova- opositores e os outros 6 foram con- 1 “A classe operária francesa está
da. Mas ficou claro que Marx havia vencidos por Marx diante da ausên- em circunstâncias extremamente di-
sofrido uma das piores derrotas de cia de debate. A conferência com a fíceis. Toda a tentativa de derrubar
todos os tempos. E as idéias de presença de apenas 23 delegados o novo governo, no momento em que
Bakunin, mesmo após sua saída da suspendeu múltiplas decisões que o inimigo quase bate às portas de
AIT, continuaram influenciando o visavam reforçar os laços entre Lon- Paris, seria uma loucura desespe-
movimento operário. dres e as federações de diversos rada (...) Que calmamente, resolu-
As d isp u t as en t re Ma rx e países, isso sob o argumento de re- tamente os operários aproveitem a
Bakunin não devem ser encaradas forçar a coesão da AIT. O número liberdade republicana para proce-
como fruto de polêmicas pessoais, inexpressivo de delegados contras- der metodicamente à sua organiza-
sem fundamento, ou como confli- ta com o do congresso anterior, o ção de classe” - panfleto de 9 de
tos de ego. Os conflitos na Primeira de Basiléia, em 1869, autenticamen- setembro. (DROZ, 1972 p. 839).
Internacional devem ser compreen- te Internacional, que contou com a 2 “A Comuna era essencialmente
didos como fundamentais para presença de 72 delegados: 27 fran-
um governo da classe operária (...),
aqueles que buscam atuar em qual- ceses, 24 suíços, 10 alemães, 6 in-
a forma política finalmente encon-
quer campo político. Tornar explíci- gleses, 5 belgas, 2 austríacos, 2 ita-
trada para permitir a realização da
tas tais questões é crucial para situ- lianos, 2 espanhóis, 1 americano. É
ar concretamente os que lutam pela
emancipação econômica do traba-
neste congresso que as resoluções
revolução com liberdade e os que a mais avançadas da AIT são toma- lho”. (DROZ, 1972 p. 840).

6 Nº1- Maio de 2009


A Filosofia Bakuninista:
dialética da ação e o
materialismo sociológico
“Nós, revolucionários-anarquistas, defensores da
instrução geral do povo, de sua emancipação e do mais
amplo desenvolvimento da vida social e, por isso mesmo,
inimigos do Estado e de toda gestão estatista, afirmamos,
ao contrário dos metafísicos, positivistas, eruditos ou não,
prostrados aos pés da deusa ciência, que a vida natural e
social sempre precede o pensamento, que é apenas uma
função, mas nunca o resultado”
Mikhail Bakunin

O revolucionário anarquista z ação da teori a revol uci onári a Podemos afirmar que Bakunin tem
Mikhail Alexandrovitsch Bakunin nas- bakuninista. Para tanto começaremos seus primeiros contatos com as filo-
ceu em 1814 na ci d ade de com uma discussão histórica sobre as sofias e com as teorias contestatórias
Premukhimo, província russa de Twer, bases fi losóficas e polí ti cas do do seu tempo em 1834, quando em
e faleceu em 1876 na Moscou participou
cidade de Berna, Suí- de importantes cír-
ça. Oriundo de uma culos de discussões
família da nobreza ru- filosóficas. Nestes
ral , Bakuni n vi veu círculos, teve aces-
numa Rússia absolu- so a debates sobre
tista, onde o povo era autores do roman-
explorado pela aristo- tismo e da filoso-
cracia rural e pela bu- fia alemã, do soci-
rocracia czarista. al i s mo francês
Sua bi og rafi a é nas cent e e da
marcada por intensa questão dos povos
atividade política revo- eslavos. Os deba-
lucionária, participan- tes eram sobre os
do das mais importan- escritos dos mais
tes revoltas e organi- influentes intelec-
zações do proletaria- tuais de sua época.
do do século XIX. É Identificamos, nes-
importante destacar te per í o do ,
que sua participação afiliações teóricas
não foi secundária, de Bakunin com a
mas sim central, influ- fil os ofi a al emã,
enciando, construindo que tinha em Hegel
e teorizando. Bakunin seu maior expoen-
nos deixou um legado te, e com o socia-
fundamental: sua teo- lismo francês, a
ria e sua ideologia re- partir dos escritos
volucionárias. de Saint-Si mon.
Apesar de sua im- Continuando seus
portância, a obra de estudos de filoso-
Bakunin encontra-se fragmentada, bakuninismo. Por fim, apresentare- fia na Universidade de Berlim, já em
esparsa, carecendo de uma sistema- mos uma sistematização inicial de sua 1840, aprofunda seu conhecimento
tização (deixou vários de seus escri- teoria, que compreende uma filosofia sobre a dialética hegeliana, mas ago-
tos incompletos). Sendo assim, o pre- política e um método sociológico. ra à l uz da i nt erpretaçã o do s
sente artigo tem por objetivo contri- 1. As revoluções: Bakunin no hegelianos de esquerda.1
buir para a sistematização e a atuali- contexto do século XIX O contato com os hegelianos de

- Uma revista de teoria Anarquista 7


es querda foi fundamental, po is povos eslavos foram durante séculos se submeter à revolução proletária:
Bakunin rompe com a mera especu- submetidos ao domínio de grandes “A revolução, porém, não pode ser
lação filosófica e parte para a prática impérios da Europa Oriental, como o obra de um único povo; por natureza,
política a partir da reflexão. Sua práxis Sacro Império Romano-Germânico e esta revolução é internacional, o que
política revolucionária começa na o Império Czarista Russo. Posterior- significa dizer que os eslavos, que as-
militância pan-eslavista, participando mente, foram mantidos sobre o julgo piram à sua liberdade, devem, em
de movimentos revolucionários con- austríaco e prussiano 2. Portanto, ser nome desta, unir suas aspirações e a
tra as bases das Monarquias Absolu- pan-eslavista significava lutar contra organização de suas forças nacionais
tistas e pela independência do “povo a submissão e exploração, contra o às aspirações e à organização das for-
es l av o”. Durant e es s a i n tens a antigo regime imperial e pela defesa ças nacionais de outros países; o pro-
militância conheceu P.-J. Proudhon, da auto-determinação dos povos. letariado eslavo deve entrar em mas-
que era um dos principais expoentes Em 1848, ano conhecido como a sa na Associação Internacional dos
do socialismo francês, e Karl Marx, Primavera dos Povos por causa das Trabalhadores”. (Bakunin, Estatismo e
que também iniciava sua militância inúmeras e quase simultâneas revol- Anarquia, p. 74).
política. tas contra o despotismo monárquico Os biógrafos de Bakunin afirmam
É importante ressaltar que a Eu- em toda a Europa (Berlim, Viena, Pa- que, nesse período, ele abandonaria
ropa da primeira metade do século XIX ris, Veneza, Roma, Praga, Munique, o republicanismo radical e se conver-
estava sofrendo os efeitos transfor- Budapeste e Milão), Bakunin partici- teria num militante socialista revolu-
madores das Revoluções Industrial e pou do Congresso Eslavo, em Praga, cionário. Todavia, sabe-se que, pos-
Francesa. A expansão das atividades e da insurreição que o sucedera (a teriormente, Bakunin associou sua
industriais pela Europa provocou o en- Insurreição de Pentecostes). No mes- filiação socialista ao anarquismo de
riquecimento da burguesia, forçou o mo ano, participou da Revolução Pro- Proudhon:
êxodo rural e criou novas relações letária em Paris. No ano seguinte, “Cabet , Loui s B l anc,
sociais de exploração das massas participou de outra insurreição, desta fourieristas, saint-simonianos, todos
empobrecidas, agora transformadas vez em Dresden (Alemanha). Por sua tinham a paixão de doutrinar e orga-
num proletariado industrial. Entretan- intensa atuação revolucionária arma- nizar o futuro, todos foram mais ou
to, a economia agrícola entrou em da, foi caçado sob o rótulo de “terro- menos autoritários. Mas eis que
crise (as antigas estruturas feudais em rista”, sendo preso e condenado à Proudhon apareceu: filho de um cam-
decadência eram insuficientes para morte em 1850. A sentença de morte ponês, de fato e de instinto cem ve-
acompanhar os novos tempos), geran- foi convertida para trabalhos forçados, zes mais revolucionário de que todos
do desabastecimento e aumentando prisão perpétua e, finalmente, extra- estes socialistas doutrinários e bur-
o custo de vida nas cidades e a misé- dição para a Rússia. Em 1857, foi le- gueses, ele se armou com uma críti-
ria no campo. Portanto, nas cidades, vado para a Sibéria, de onde fugiu em ca tão profunda e penetrante quanto
os trabalhadores eram os mais atin- 1861, passando pelo Japão, pelos Es- impiedosa, para destruir todos estes
gidos pela crise agrícola, enquanto os tados Unidos e retornando à Europa. sistemas. Opondo a liberdade à auto-
camponeses eram impelidos pela mi- Em 1864, Bakunin reencontraria ridade contra estes socialistas de Es-
séria e pela opressão à migrar para Proudhon, que veio a falecer sema- tado, proclamou-se ousadamente
as cidades. nas depois. anarquista”. (Bakunin, Federalismo,
As influências da Revolução Fran- Retomando sua militância revolu- socialismo e anti-teologismo, pp. 25
cesa são tanto do período revolucio- cionária, Mikhail Bakunin passa a de- e 26).
nário (1789-1799), quanto da Era fender a Revolução Universal, isto é, Bakunin, neste sentido, dá conti-
Napoleônica (1799-1815) e da reação desenvolve a concepção de que: nuidade e aprofundamento à obra de
do Congresso de Viena (1815). A ins- “Hoje nenhuma revolução pode Proudhon a partir de dois pilares fun-
tabilidade política se estendeu pelas ser bem-sucedida em qualquer país damentais: o socialismo e o federa-
décadas de 1820 e 1830. Observamos se não for ao mesmo tempo uma re- l i s mo. A co ncepção s o ci al i s ta
nesse período a deflagração de con- volução política e social. Todas as re- proudhoniana é pautada pela identifi-
flitos entre “forças político-liberais”, voluções exclusivamente políticas – cação da propriedade privada capita-
compostas por setores médios da po- seja em defesa da independência na- lista como a origem das desigualda-
pulação, ora por setores do exército cional ou por mudanças internas, ou des econômicas, e por isso a revolu-
e pela burguesia, defensores do libe- até pelo estabelecimento de uma re- ção proletária deve abolir a proprie-
ralismo, e “forças político-conserva- pública – que não objetive a imediata dade privada.Ao mesmo tempo a cen-
doras”, compostas pela aristocracia, e rea l emanci pa ção pol í t i ca e tralização estatal e governamental é
pela hierarquia eclesiástica, pela alta econômica do povo será uma falsa identificada com a propriedade priva-
burguesia e por oficiais do exército, revolução. Seus objetivos não serão da e com a desigualdade social, e por
defensores da restauração do Antigo alcançados e sua conseqüência será isso o federalismo é considerado como
Regime. Nesse contexto, o proletari- reacionária. A Revolução deve ser fei- base da igualdade política, pois se
ado, progressivamente, se afasta da ta não para, mas pelo povo e não opõe à centralização do poder e ga-
influência liberal e se aproxima do pode nunca ser bem-sucedida se não rante a efetiva participação política
socialismo. envolver entusiasticamente todas as das massas organizadas nos organis-
Inserindo-se nesse turbilhão de re- massas do povo, ou seja, no campo e mos de gestão da sociedade.
voltas e revoluções, Bakunin se dedi- nas cidades”. (Bakunin, Catecismo Na- Essa é a principal fase da bio-
ca à luta pela liberdade dos povos cional). grafia de Bakunin, a década de 1860.
eslavos. É importante destacar que os A própria questão eslava passa a Sua biografia insere-se, portanto, nas

8 Nº1- Maio de 2009


lutas do proletariado europeu daque- positivismo científico. sem o querer e sem mesmo poder
le período, cujas principais experiên- No momento em que Bakunin pensar nisso, umas sobre as outras e
cias foram a organização da Associa- escreve quase toda a Europa vivia ain- cada uma sobre todas, seja imedia-
ção Internacional dos Trabalhadores da sob regimes monárquicos absolu- tamente, seja por transição, uma
(AIT) e o processo revolucionário da tistas, regimes estes que se funda- ação e uma reação perpétuas
Comuna de Paris (1871)4. Podemos mentavam e se legitimavam na “teo- que, combinando-se num único
afirmar que, através da militância na ria do Direito Divino dos Reis”. Quan- movimento, constituem o que cha-
Aliança, ele viria a desenvolver a sis- do Bakunin escreve no livro acerca do mamos de solidariedade, vida e cau-
tematização da ideologia e da teoria “antiteologismo”, ele está, na verda- salidade universais”. (Id, p. 57).
revolucionárias anarquistas. Durante de, rompendo com a teoria ideológi- De acordo com a perspectiva
essa militância escreveu suas princi- ca que legitimava o Estado. Portanto, bakuninista, a variação, dada pela
pais obras: “Federalismo, Socialismo o antiteologismo é um fundamento do possibilidade permanente de combi-
e Anti-teologismo” (1867), “Conside- “anti-estatismo”, e, conseqüentemen- nações novas e diferentes entre os
rações filosóficas sobre o fantasma te, do socialismo. s eres já exis tentes , pos si bi li ta
divino, sobre e mundo real e sobre o Ao desmontar a “teoria do Di- exatamente a formação de novos “se-
homem” (1870), “O Império Knuto- reito Divino dos Reis”, toda a concep- res reais”. Sendo assim, a determi-
Germânico e a Revolução Social” ção idealista teológica do mundo e da nação é seguida pela indeterminação
(1871), “Es tati smo e Anarquia” sociedade é destruída. Bakunin vai, relativa, pela possibilidade de combi-
(1873), e as cartas ao Jornal L’ Egalité então, recorrer ao positivismo de nação de fatos, de ações e reações,
(1872). A análise das duas primeiras Augusto Comte e ao evolucionismo de engendrando novos produtos. A de-
obras citadas, percebidas no contex- Charles Darwin para negar a teoria terminação é a base da realidade
to político-social em que foram escri- criacionista5. Estendendo sua crítica material, mas ela se aplica a elemen-
tas, permite-nos apreender o signifi- às demais ideologias idealistas, afir- tos bem específicos. O que é deter-
cado do bakuninismo enquanto uma ma que as filosofias metafísicas que mi nado s ão as con di çõ es de
filosofia política. legitimam o Estado-burguês são atu- surgimento e reprodução do mundo
2. A construção da filosofia po- alizações do teologismo; segundo os social (que são sempre as mesmas –
lítica bakuninista pressupostos bakuninistas, o individu- os seres vivos sempre terão a neces-
Considerando a percepção alismo de Hobbes, Locke, Rousseau, sidade de se nutrir de alguma fonte
bakuninista de que as esferas da so- que produziu ficções como o “estado de energia e, uma vez que estão em
ciedade (econômica, política, ideoló- de Natureza”, “o Contrato Social” e o vida, estão destinados a seguir seu
gica e cultural) estão interligadas num “Leviatã”, baseadas em características ciclo de criação-destruição); os desen-
sistema dialético de influência mútua, supostamente essenciais e/ou inatas volvimentos não são determinados. O
não poderíamos deixar de destacar as do homem (“bondade” ou “maldade”), desenvolvimento histórico real, po-
transformações ideológicas e científi- são tão falsas quanto o “Direito Divi- rém, tanto no mundo natural quanto
cas que marcaram o século XIX. O li- no”. social, é indeterminado, aberto às
beralismo e o individualismo burgue- A teoria hegeliana da evolução novas combinações, resultando de
ses, a filosofia hegeliana, o socialis- do “Espírito Humano” é igualmente multi-causalidades. Assim, não exis-
mo, o positivismo e o evolucionismo metafísica para Bakunin, pois trans- tem pré-determinações, causas uni-
contribuíram decisivamente para a fere a dinâmica do mundo social do laterais, características inatas que
ruptura com as bases ideológicas do homem para forças supra-materiais. determinem a sociedade ou o homem,
Antigo Regime. Portanto, num movi- Na verdade, segundo a tese materia- pois o determinante do ser é a ação;
mento dialético, alimentaram e foram lista, o Estado é o resultado de rela- o que constrói os sistemas são as re-
alimentados pelas rupturas políticas e ções político-sociais concretas, histo- lações concretas; em suma, a vida
econômicas do século XIX. ricamente construídas. Utilizando-se social é o resultado de múltiplas
A inserção de Bakunin nesse da ciência política de Maquiavel, interações. Nas palavras de Bakunin:
contexto de efervescência intelectual, Bakunin afirma que o Estado é o cri- “as diferenças das raças, dos po-
de construções filosóficas, avanços da me, é a conquista pela guerra e não a vos, e mesmo das classes e das famí-
ciência e, acima de tudo, de rupturas “Divina Providência”, ou o “livre acor- lias, são determinadas por causas ge-
ideológicas, pode ser identificada no do entre os indivíduos”, menos ainda ográficas, etnográficas, fisiológicas,
seu texto Federalismo, Socialismo e a “evolução do Espírito Humano”. econômicas (...), assim como por cau-
Antiteologismo. Nela encontramos três Se é verdade que Bakunin res- sas históricas, religiosas, filosóficas,
pilares fundamentais da filosofia de palda sua teoria em Comte e em jurídicas, políticas e sociais; e todas
Bakunin: a igualdade política (federa- Darwin, também é verdade que seu estas causas, combinando-se de uma
lismo), a igualdade econômica (soci- materialismo apresenta novos ele- maneira diferente para cada raça, na-
ali s mo ) e a teoria materi al i sta mentos, pois considera que a matéria ção e, freqüentemente, para cada
(antiteologismo). Identificando estes é constituída da unidade dialética en- província e comuna, para cada classe
aspectos – como os argumentos que tre o mundo natural e social. e família, dão, a cada uma, uma
se seguem pretendem provar –, po- “Tudo o que existe, os seres que fisionomia à parte, isto é, um tipo fi-
demo s a fi rmar que a teo ri a constituem o conjunto indefinido do siológico diferente, uma soma de pre-
bakuninista possui três filiações inte- Universo, todas as coisas existentes disposições e de capacidades particu-
lectuais e científicas: a filosofia ale- no mundo, qualquer que seja sua na- lares – independente da vontade dos
mã (Hegel, especialmente), o socia- tureza, sob o aspecto da qualidade indivíduos que as compõem e que são
li smo francês proudhonis ta e o como da quantidade, (...), exercem, completamente seus produtos”. (Id,

- Uma revista de teoria Anarquista 9


pp. 117-118). sociedade socialista, isto é, um soci- numa palavra, o que é permanente em
Fica explícito que ao contrário edade que garanta a igualdade políti- suas informações contínuas, mas ja-
do materialismo marxista, que tem por ca e econômica. mais seu lado material, individual, por
base a determinação em última ins- Resumidamente, o materialis- assim dizer, palpitante de realidade e
tância da infra-estrutura econômica mo sociológico possui as seguintes ca- de vida, e por isso mesmo, fugitivo e
sobre a superestrutura jurídico-polí- racterísticas: 1) opõe-se a todas as inapreensível. A ciência compreende
tico -i deol ógi ca, o material i smo formas de idealismo/teologismo; 2) o pensamento da realidade, não a re-
bakuninista pressupõe múltiplas deter- tem por base o naturalismo como re- alidade em si mesma; o pensamento
minações, multi-causalidades que se futação do criacionismo; 3) entende da vida e não a vida”. (Bakunin, Ma-
combinam numa interação dialética de a ação, a prática concreta, como nuscrito “Deus e o Estado”).
ações e reações ininterruptas. Portan- determinante do ser; 4) pressupõe a E não se trata apenas de uma
to, enquanto para o marxismo “o multi-causalidade dos fenômenos; 5) crítica puramente acadêmica, pois
modo de produção da vida material compreende a diversidade da vida Bakunin condena a perspectiva políti-
determina o processo geral de vida como resultado de um processo ca do positivismo que transforma a ci-
so cial , políti ca e es piri tual ” 6 , o dialético e ininterrupto de ação e ência em ideologia, ou seja, os
bakuninismo considera que “a ação e reação. Feitas tais considerações, res- positivistas que entendem que a ciên-
a reação incessantemente do todo so- ta caracteriza o materialismo socioló- cia tem um fim em si mesmo como se
bre cada ponto e de cada ponto sobre gico de Bakunin enquanto um método fosse uma divindade. Portanto, Mikhail
o todo constituem a vida” (Id, p. 62). de análise científica. Bakunin estabelece uma separação rí-
Trata-se de uma percepção de totali- 3. O método científico: o mate- gida entre a teoria anarquista e o
dade. Outro exemplo permite elucidar rialismo sociológico positivismo:
as diferenças entre o materialismo so- Diante da incompetência da re- “Nós, revolucionários-anarquistas,
ciológico bakuninista do materialismo ligião e da metafísica em compreen- defensores da instrução geral do povo,
histórico marxista: a noção de classe der a complexidade desse movimen- de sua emancipação e do mais amplo
social. O marxismo identifica as se- to de multi-causalidade que determi- desenvolvimento da vida social e, por
guintes classes do “modo de produ- na a vida social, Bakunin propõe a isso mesmo, inimigos do Estado e de
ção” capitalista: “os proprietários de construção de uma ciência racional toda gestão estatista, afirmamos, ao
simples força de trabalho, os de capi- para investigar e descobrir as leis que contrário dos metafísicos, positivistas,
tal e os de terra, cujas respectivas regem o desenvolvimento da socieda- eruditos ou não, prostrados aos pés
fontes de receita são o salário, o lu- de, uma sociologia. Na verdade, como da deusa ciência, que a vida natural e
cro e a renda fundiária (...)” (Marx, O pretendemos demonstrar, bakunin de- social sempre precede o pensamen-
capital, capítulo LII, tomo III). Portan- senvolveu um método de investigação to, que é apenas uma função, mas
to, a identificação e a definição das científica que estamos denominando nunca o resultado (...)”. (Bakunin,
classes é econômica. Em Bakunin, a materialismo sociológico. Estatismo e Anarquia, p. 167).
identificação e definição das classes Cabe ressaltar que seu projeto É munido dess a crítica ao
sociais não se limita à economia, pois científico está diretamente relaciona- cientificismo que Bakunin, nas pági-
a classe burguesa constitui um “cor- do com sua prática política, pois ao nas de sua obra Considerações filo-
po político e social, economicamente definir a ciência racional afirma: “A fi- sóficas sobre o fantasma divino, so-
separado da classe operária” (Bakunin, losofia racional ou ciência universal bre e mundo real e sobre o homem,
O socialismo libertário, p. 16). Fica não procede aristocraticamente, nem explicita o método de sua sociologia.
nítido na perspectiva bakuninista a autoritariamente como a falecida O método bakuninista tem por
presença da visão de totalidade na metafísica. (...) A filosofia racional é base o materialismo sociológico e a
diferenciação das classes e a multi- uma ciência democrática. Organiza- dialética, tal qual expostos anterior-
determinação das mesmas, no caso se de baixo para cima livremente, e mente, isto é, a concepção de que a
es pec í fi co, de três as p ecto s tem por fundamento único a experi- ação determina o ser, da mesma for-
determinantes: político, social e ência”. (Bakunin, Federalismo, socia- ma que a vida é um processo de ação-
econômico. lismo e anti-teologismo, p. 44). Por- reação permanente do todo sobre
Confrontando sua teoria social tanto, Bakunin defende a ciência, mas cada parte e de cada parte sobre o
com seu projeto político, entende-se condena o cientificismo positivista, todo, possuindo multi-causalidades.
melhor a defesa incondicional da pois este transforma a ciência num Portanto, é sobre esse processo di-
igualdade política e econômica nos i ns trum ento autori t ári o. O nâmico e complexo que a investiga-
textos políticos de Mikhail Bakunin: bakuninismo não considera a ciência ção científica deve se debruçar,
“Impossibilidade da liberdade política como portadora de “dogmas absolu- objetivando “descubrir, coordinar y
sem igualdade política. Impossibilida- tos”, pois isso seria re-editar o comprender las propiedades, o los
de desta, sem igualdade econômica e teologismo. Bakunin enxerga com modos de acción o las leyes de todas
social” (Bakunin, O Programa da muita propriedade os limites da ciên- las cosas existentes en el mundo real”
Fraternidade). É fácil a conclusão de cia: (Bakunin, Considerações filosóficas).
que a teoria científica bakuninista, a “A i dé i a é s empr e uma Os elementos principais que
visão da totalidade e a percepção da abstração e por isso mesmo, de algu- compõem o método bakuninista po-
multi-determinação, encontra-se ma forma, uma negação da vida real. dem ser resumidos em cinco caracte-
indissociável do projeto político da re- A ciência só pode compreender e do- rísticas: 1) experimental - procede
volução social capaz de destruir o Es- minar os fatos reais em seu sentido pela observação e verificação direta;
tado e o Capital, e de construir uma geral, em suas relações, em suas leis; 2) multifocal - procura a pluralidade

10 Nº1- Maio de 2009


de perspectivas acerca de um deter- todos os fatores reais, físico-químicos, marcado pela região, o clima, o tipo
minado tema; 3) comparativo – con- biológicos e sociais), o que faz com étnico, a classe a que pertence, às
trapõe, pela análise e síntese, os di- que a sociedade seja o centro do pro- condições econômicas e políticas da
ferentes focos de análise; 4) crítico – cesso de ação e reação incessante vida social, e finalmente, pelo local,
nega as teses ou hipóteses pelo con- sobre a natureza, sobre os indivíduos cidade ou aldeia, pela casa, pela fa-
traste destas com novas experiênci- que a compõem e sobre si mesma, mília e vizinhança em que nasceu.”
as; 5) compreensivo – estabelece as dito de outra maneira, a sociedade é (Bakunin, 1976, p. 13).
relações, direta e indiretas, entre efei- o motor da transformação do mundo A discussão aqui realizada nos
tos e causas que compõem os modos material. O pressuposto de permite concluir que o bakuninismo
de ação/transformação/reprodução, toda análise é a experiência concre- constitui uma teoria revolucionária,
as regras pelas quais um fenômeno ta, sendo que a ação, a consciência, que compreende uma prática políti-
acontece e se repete. as idéias são, simultaneamente, pro- ca, uma filosofia política e um méto-
Bakunin entende que o proces- duto e produtoras de novas experiên- do de investigação científica.. Portan-
so de investigação científica é basea- cias. to, sendo a teoria dialeticamente li-
do na noção de experiência coletiva, Este método é composto também gada à ideologia/práxis revolucioná-
“Pero el hombre no tiene otro por seus princípios ou elementos in- ria, uma das tarefas fundamentais dos
medio para asegurarse de la realidad ternos, que assumidos ou reconheci- revolucionários ao assumirem o
cierta de una cosa, de un fenómeno o bakuninismo como teoria, é a sua
de un hecho, que el de haberlos real- instrumentalização na interpretação e
mente encontrado, co ns tatado , transformação revolucionária da so-
reconocido en su integridad propia, sin ciedade.
ninguna mezcla de fantasías, de ___________
supuestos y de adjudicaciones del Notas:
espíritu humano. La experiencia se 1
Os hegelianos de esquerda ou jovens
convierte, pues, en la base de la hegelianos eram intérpretes de Hegel
ci encia. No se trata aquí de la que defendiam uma nova socieda-
experiencia de un solo hombre. de que superasse aquela em que vi-
Ningún hombre, por inteligente, por
viam. Entre eles estavam Marx,
curioso que sea, por felizmente dota-
do que esté, desde todos los puntos
Bauer, Ruge, Feuerbach e Stirner.
2
de vista, puede haberlo visto todo, Os povos eslavos são originários
encontrado todo, experimentado todo da Rússia ocidental e a partir do
por sí propio. Si la ciencia de cada uno século VII ocuparam regiões da
debiera l imi tars e a sus propi as Germânia e se estenderam pelos
experiencias personales, habría tan- Balcãs. Dividem-se em três grandes
tas ciencias como hombres y toda grupos tribais: os orientais (russos,
ciencia moriría con cada hombre. No brancos e ucranianos), os ociden-
habría ciencia. La ciencia tiene, pues, tais (poloneses, pomerânios,
por base la experiencia colectiva, no
sorabos, tchecos e eslovacos) e os
s ó l o de todos l o s h o mbres Pierre-Jospeh Proudhon:
contemporáneos, sino también de to- Bakunin buscou nele a idéia da meridionais (eslovênios, croatas,
das las generaciones pasadas. Pero anarquia e as teses acerca da sérvios e búlgaros). Seu
no admite ningún testimonio sin críti- relação entre federalismo e posicionamento político significava
socialismo. inserção num movimento republica-
ca. Antes de aceptar el testimonio, sea
de un contemporáneo, sea de un dos como base, podem e devem ser no anti-colonialista.
hombre que no existe ya, por poco que empregados para a análise da reali- 4
Sobre sua militância na AIT e so-
me atenga a no equivocarme, debo dade social e histórica, para a con- bre sua interpretação da Comuna de
inquirir, primeramente, sobre el ca- frontação com a “massa de experiên- Paris veja os artigos “Uma Teoria
rácter y la naturaleza, tanto como so- cias e acontecimentos” passados e do Anti-Estado: A Comuna de Paris
bre el estado de espíritu de ese presentes que constituem a própria
e a Organização Política Socialis-
hombre, de su método”. (Id). sociedade. Desse modo, a sociedade
Diante da pluralidade de com- e os homens são o resultado da
ta” e “Bakuninismo na Primeira In-
binações, do movimento contínuo das interação da totalidade dos fatores ternacional dos Trabalhadores”,
ações e reações e da multi-causali- sociais e históricos, em diferentes ambos nesta mesma edição.
5
dade dos fenômenos sociais, somen- combinações numa perpétua série de É importante lembrar que Bakunin
te o acúmulo histórico e coletivo da ações e reações, por isso, pode-se não defende o “darwinismo social”,
investigação científica é capaz de tra- afirmar que mesmo porque essa teoria burguesa
çar as respostas de nossas inquieta- “o homem não criou a sociedade, só foi criada no final do século XIX.
çõ es . S endo as s i m o méto do nasceu nela. Não nasceu livre, mas 6
Marx, Karl. Prefácio - Para a críti-
bakuninista é pautado no pressupos- acorrentado, produto de um meio so- ca da economia política. in: Marx, Os
to de que a realidade é uma totalida- cial particular criado por uma longa
pensadores, São Paulo, Nova Cultu-
de material (compreendida aqui como série de influências passadas, por de-
o conjunto das ações e reações de senvolvimentos e fatos históricos. Está ral, 1996, p. 52.

- Uma revista de teoria Anarquista 11


Uma Teoria do Anti-Estado
A Comuna de Paris e a Organização
Política Socialista

Este texto irá discutir uma proble- político da “Comuna de Paris” que surreição popular, ocorrida em mar-
mática fundamental: o programa re- se iniciou a construção do socialismo ço de 1871, durante a Guerra Fran-
volucionário anarquista e a teoria que na Rússia em 1917 e foi pelo aban- co-Prussiana. É necessária uma rápi-
lhe serve de sustentação. A divisão dono dos seus postulados fundamen- da contextualização histórica: 1) a
do movimento socialista revolucioná- tais que se pode explicar, em parte, a França era então governada por Luis
rio entre as vertentes comunista e burocratização seguida pela contra- Bonaparte, sobrinho de Napoleão
anarquista legou um debate acerca revolução stalinista (1924-1953) Bonaparte, e seu regime político era
da definição dos objetivos, imediatos e pela restauração burguesa uma monarquia imperial; 2) a Alema-
e históricos, e também acerca da es- (1985-1991). A incompreensão dos nha estava em processo de unifica-
tratégia de construção da sociedade limites da experiência da Comuna de ção política e passava a disputar a
sem-classes e sem-estado. Paris também levou a impasses no hegemonia na Europa com Inglater-
Esta diferença de legados marcou momento de eclosão das situações ra e França; 3) os alemães estavam
profundamente a história do século vencendo a Guerra contra a França,
XX. A teoria comunista1 , desenvol- sitiando a cidade de Paris, e o povo
vida pelo marxismo até suas últimas francês estava agora ameaçado pela
conseqüências, defendia que a cons- opressão externa, que substituiria a
trução do socialismo exigia o Esta- opressão interna da monarquia 4) o
do; a teoria anarquista, o movimento operário na França esta-
bakuninismo, se pautava na negação va consolidando sua organização
do Estado e na defesa de uma nova política e sua consciência de classe,
forma de organização política, que ire- através da Associação Internacional
mos denominar pelo conceito de dos Trabalhadores (AIT). Estava mo-
anti-Estado. As experiências do bilizado para a luta reivindicativa e
movimento operário e das revoluções começava a tomar parte nas ques-
do século XX também acrescentaram tões da guerra.
importantes teorias sobre o desenvol- Na Guerra entre França e Alema-
vimento da revolução e sobre seu nha, Bismarck, chanceler alemão,
programa, como a teoria das revolu- prendeu Luis Bonaparte. A oposição
ções em etapas (revolução democrá- se agita; os opositores burgueses pro-
tico-burguesa), a teoria da “revolu- clamam a república em 4 de setem-
ção permanente” (Trotski) e a teoria bro de 1870, assumindo um Gover-
da revolução de “Nova Democracia” no Provisório. Entretanto, além da
(Mao Tsé-Tung). oposição burguesa, existia uma forte
Para compreender a diferença de oposição operária e popular. O cho-
teorias e estratégias práticas é preci- que entre estas duas oposições no
so analisar os debates existentes. Um interior da França é que precipitou a
dos pilares de construção dos mode- Blanqui - líder do eclosão da Comuna de Paris.
los políticos, anarquista e comunista, republicanismo revolucionário A insurreição começa em 1871,
foi fornecido por um dos principais francês quando o Governo Provisório dá uma
acontecimentos da experiência revo- ordem de desarmar o povo da cida-
lucionária: a Comuna de Paris. É pela revolucionárias. Este texto visa tra- de de Paris. A Guarda Nacional, insti-
compreensão das diferentes análises zer elementos para tal reflexão. tuição legada pela Revolução de 1789
deste evento – e de toda sua reper- e que materializava a idéia do “povo
cussão histórica – que poderemos 1 – A Comuna de Paris no Pen- em armas”, se rebelou. Os Guardas
chegar a uma definição mais clara do samento Revolucionário. prendem os generais Lecomte e
programa revolucionário bakuninista O que foi a “Comuna de Paris”? A Thomas e os fuzilam. Começa a In-
e de sua fundamentação teórica. Comuna de Paris foi uma experiência surreição da Comuna de Paris: um
Foi pela apropriação do modelo de auto-governo, surgida de uma in- ato de rebelião, em favor da resistên-

12 Nº1- Maio de 2009


cia popular frente a uma eminente “Auto-Governo dos Produtores”. Di- reedição do livro “A Guerra Civil em
ocupação estrangeira. O que acon- versos autores consideram o Marx de França”, irá dar uma re-interpretação
tece, na seqüência, é que a Cidade “A Guerra Civil em França”, não sem que se sobreporá à leitura realizada
de Paris, capital da República, cai na raz ão, como um Marx “anti- por Marx, e que será tomada por
mão da Guarda Nacional e das ten- estatista”: Lenin. Engels afirma:
dências radicais do movimento ope- Mas a classe operária não se pode “En realidad, el Estado no es más
rário e popular. O Governo Provisório contentar com tomar o aparelho de que una máquina para la opresión de
se vê obrigado a transferir sua sede Estado tal como ele é e de o pôr a una clase por otra, lo mismo en la
para Versalhes. Cria-se uma dualidade funcionar por sua própria conta. (...) República democrática que bajo la
de poder: um poder republicano e O poder centralizado do Estado, com monarquía; y en el mejor de los ca-
burguês, de um lado; de outro, um os seus órgãos presentes por toda a sos, un mal que el proletariado hereda
poder “comunardo”, operário-po- parte: exército permanente, polícia, luego que triunfa en su lucha por la
pular2 . burocracia, clero e magistratura, ór- dominación de clase. El proletariado
Karl Marx e Mikhail Bakunin atri- gãos moldados segundo um plano de victorioso, tal como hizo la Comuna,
buíram uma importância decisiva à divisão sistemática e hierárquica do no podrá por menos de amputar
Comuna de Paris. Produziram livros trabalho, data da época da monar- inmediatamente los peores lados de
e análises sobre ela. Marx, no livro “A quia absoluta, em que servia à socie- este mal, hasta que una generación
Guerra civil em França”, lança sua dade burguesa nascente de arma futura, educada en condicio nes
avaliação da experiência da poderosa nas suas lutas contra o feu- sociales nuevas y libres, pueda
Comuna. Bakunin lançou sua inter- dalismo. (...) Quanto à força repressi- deshacerse de todo ese trasto viejo
pretação, especialmente, no artigo “A va do governo outrora centralizado, del Estado. Ultimamente las palabras
Comuna de Paris e a noção de Esta- o exército, a polícia política, a buro- “dictadura del proletariado” han
do”. Mas a Comuna tornaria-se cen- cracia, criada por Napoleão em 1798, vuelto a sumir en santo terror al filisteo
tral para a história do século XX pelo retomada depois com prontidão por social demócrata. Pues bien,
resgate político teórico que Lênin re- cada novo governo e utilizada por ele caballeros, queréis saber qué faz
aliza nos anos 1910-1917. Alguns ar- contra os seus adversários, era jus- presenta esta dictadura? Mirad a la
tigos de Lênin são fundamentais, tais tamente esta força que devia ser Comuna de París: he ahí la dictadura
como “Em Memória da Comuna destruída por toda a parte, como o del proletariado!” (F. Engels 18 de
(1911)” e, principalmente, “Teses de fora já em Paris. (Karl Marx, A Guerra marzo de 1891).
Abril” e “O Estado e a Revolução” Civil em França). Neste sentido, temos um desloca-
(1917). Desta maneira, a Comuna de Na sua análise da Comuna, Marx mento teórico importantíssimo. Ao
Paris ocupa um lugar central no pen- dá uma guinada nas suas formula- denominar a Comuna de “Ditadura
samento e imaginário revolucionário, ções, colocando uma ênfase muito do Proletariado”, Engels está inse-
sendo o modelo político estruturante grande na afirmação da necessidade rindo pela primeira vez a “Comuna”
da Revolução Russa de Outubro de de “destruição do Estado”; mas ele numa caracterização teórico-política
1917. Iremos agora analisar as dife- não chega a estabelecer uma carac- com a qual a Comuna nunca foi com-
rentes análises. terização definitiva do que é o Esta- patível4 . Ao definir a Comuna como
do. E esta controversa guinada “anti- “Ditadura do Proletariado”, Engels
2 - Marx, Engels, Lênin e a tra- estatista” de Marx pode ser interpre- está associando a Comuna ao esque-
dição comunista/social-demo- tada por diversos ângulos3 . ma teórico comunista, significando,
crata. Será Engels que, após a morte de ao mesmo tempo, que a Comuna é
Primeiramente, devemos perceber Marx, ao fazer uma introdução a uma um tipo de Estado e uma forma
que a derrota da Comuna em
1871 não significou seu esqueci-
mento. Na Rússia, a Comuna de
Paris teria uma presença cons-
tante no imaginário do partido
social-democrata. E aqui é impor-
tante indicar um fato importan-
te; dentro da tradição social-de-
mocrata, existem três linhas de
leitura/interpretação da Comuna
de Paris: 1) a de Marx; 2) a de
Engels; 3) a de Lênin. Existem
“três” defi nições, não
excludentes, mas distintas, do
que foi a Comuna de Paris, e aqui
está um ponto fundamental da
interpretação correta da
Comuna.
Marx ao analisar a “Comuna Gravura: “A Comuna de Paris” - Batalhões Operários em frente ao
de Paris”, classifica-a como um Quartel General da Comuna

- Uma revista de teoria Anarquista 13


“transitória” de poder, forma esta que a Revolução, cap. VI.-3). anarquismo da seguinte maneira:
deve desaparecer junto com as clas- É interessante notar que as acu- “Os comunistas acreditam dever
ses sociais. Aqui se abre todo um cam- sações que Lênin faz ao “anarquismo” organizar as forças operárias para
po complexo de luta entre classifica- são do mesmo gênero das que o apoderar-se da força política dos Es-
ções contraditórias, pois a interpre- “oportunismo” social-democrata faz tados. Os socialistas revolucionários
tação de Marx jamais defi niu a à Lênin (Lênin é acusado de querer a se organizam tendo em conta a des-
Comuna de tal maneira. Daí surgirem “destruição do Estado” de um dia truição, ou se quiser uma palavra mais
duas linhas de interpretação dentro para o outro e de querer passar da cortês, tendo em conta a liquidação
do marxismo, uma que se tornará “revolução democrático-burguesa à dos Estados. (...) O socialismo revo-
majoritária, desenvolvida por Lênin, socialista imediatamente”). Se é pos- lucionário acaba de tentar uma pri-
a partir da re-interpretação dos es- sível a destruição do Estado burgu- meira manifestação brilhante e práti-
critos de Marx feita por Engels, e ou- ês, que nada mais é que uma mani- ca na Comuna de Paris. Sou um par-
tra minoritária, reivindicada pelos co- festação histórica, particular, do Es- tidário da Comuna de Paris, que por
munistas de conselhos5 . tado em geral, porque dizer que não ter sido massacrada, sufocada em
Lênin irá adotar a interpretação é possível a destruição do Estado em sangue pelos carrascos da reação
e a definição de Estado de Engels e geral, se o Estado em geral não é se- monárquica e clerical, nem por isso
também associará a Comuna de Pa- não a combinação dos traços estru- deixou de fazer-se mais vivaz, mais
ris à “Ditadura do Proletariado”. Lênin turais das suas manifestações parti- poderosa na imaginação e no cora-
reivindica a Comuna em dois escritos culares? Aqui se coloca a questão da ção do proletariado da Europa; sou
fundamentais: “As Teses de Abril” caracterização do Estado. um partidário dela sobretudo porque
(1917) e em o “Estado e a Revolu- O que é o Estado? É possível um foi uma negação audaz, bem pronun-
ção (1917)”. O primeiro escrito apre- “Estado Proletário”? Da primeira res- ciada, do Estado.” (Bakunin, 1978, p.
senta e defende uma “inovação posta deriva a segunda. O marxismo 188).
programática” dentro do partido so- não responde de maneira satisfatória Desta maneira, para Bakunin, a
cial-democrata da Rússia, já que vai à primeira pergunta, e daí as contra- Comuna se apresenta incontestavel-
colocar de maneira clara a necessida- dições e oscilações nas respostas para mente como a “negação do Estado”.
de de uma revolução “socialista”, a segunda. São estas contradições Bakunin sabia que a Comuna tinha
como uma etapa imediatamente pos- que serão aproveitadas pela “buro- sido composta majoritariamente por
terior à revolução “democrático-bur- cracia” para matar a revolução soci- jacobinos e que a ala socialista (os
guesa” 6 . O segundo escrito é uma alista na Rússia e abortar o processo chamados “internacionalistas”) era
defesa da “Fase de Transição” do So- da revolução proletária em escala minoritária. Mas mesmo assim ele viu
cialismo para o Comunismo e uma mundial. nas suas instituições, na sua mecâni-
defesa “do Estado” e da idéia de Es- ca popular e revolucionária, a confir-
tado. Lênin combate em duas fren- 3 – Bakunin e a Comuna de mação das suas teses e de seu pro-
tes: o oportunismo marxista de Paris: a experiência da Negação grama. Mas esta identificação não se
Kautsky, e o “anarquismo”, ou me- do Estado. dá por meios artificiais. Vejamos o
lhor, o anarco-comunismo russo 7 . A interpretação que Bakunin faz da documento “Catecismo Nacional”,
Neste sentido, ele desenvolve uma Comuna de Paris, desde o princípio, elaborado como programa para a
teoria com duas afirmações distintas: considera a Comuna de Paris como a organização secreta de Bakunin, em
defendendo a destruição do Estado “Negação do Estado”. Desta manei- 1865-1866:
e defendendo o Estado: ra, a análise de Bakunin se aproxima “Que é absolutamente necessário
“A substituição do Estado burgu- em diversos pontos da análise de para qualquer país desejar reunir as
ês pelo Estado proletário não é possí- Marx. Este um é um fato historica- federações livres dos povos para
vel sem revolução violenta. A aboli- mente negligenciado. Nunca os dois substituir suas organizações centrali-
ção do Estado proletário, isto é, a estiveram tão próximos em termos zadas, burocráticas e militares por
abolição de todo e qualquer Estado, de posicionamentos teóricos. Mas, por uma organização federalista baseada
só é possível pelo ‘definhamento’ “. outro lado, é neste período que a rup- apenas na absoluta liberdade e auto-
(Lênin, O Estado e a Revolução, cap. tura política entre os dois militantes nomia das regiões, provínci as,
I.-4). se daria8 . Mas enquanto Marx teve comunas, associações e indivíduos.
“A distinção entre os marxistas e que fazer uma “emenda substitutiva” Esta federação operará com funcio-
os anarquistas consiste nisto: 1.º) os ao Manifesto Comunista em razão nários eleitos responsáveis
marxistas, embora propondo-se a da Comuna de Paris, a Comuna e o diretamente junto ao povo; Ela não
destruição completa do Estado, não Federalismo Revolucionário que ela será uma nação organizada de cima
a julgam realizável senão depois da realizou já se encontravam plenamen- para baixo, ou do centro para a cir-
destruição das classes pela revolução te expressos no Catecismo cunferência. Rejeitando os princípios
socialista, como resultado do adven- Revolucionário,docu mento da unidade imposta e arregimentada,
to do socialismo, terminando na programático da organização secre- ela será dirigida de baixo para cima,
extinção do Estado; os anarquistas ta fundada por Bakunin em 18649 . da circunferência para o centro, de
querem a supressão completa do No “Prefácio à Segunda Edição do acordo com os princípios da livre fe-
Estado, de um dia para o outro, sem Império Knuto-Germânico” (1870- deração. Seus indivíduos livres forma-
compreender as condições que a tor- 1871), Bakunin apresenta os pontos rão associações voluntárias, suas as-
nam possível (...)” (Lênin, O Estado e de distinção entre comunismo e sociações formarão comunas

14 Nº1- Maio de 2009


autônomas, suas comunas formarão interpretação da Comuna de Paris: Estado criada por Bakunin, como
províncias autônomas, suas provín- 1º) a que parte de Bakunin e consi- veremos abaixo. Mas ela contém dois
cias formarão as regiões, e as regiões dera a Comuna como um exemplo movimentos “reducionistas”, que, do
irão federar-se livremente em países histórico de Destruição do Estado; ponto de vista teórico , irão
que, por sua vez, criarão mais cedo 2º) a que parte de Marx e chega a secundarizar o papel do Estado, ao
ou mais tarde a universal federação uma conclusão similar (especialmen- mesmo tempo em que irão levar a
mundial.” (Bakunin, Catecismo Naci- te a partir do texto “A Guerra Civil em uma supervalorização do Estado na
onal). França”), ou seja, de que a Comuna prática política dos social-democratas
É interessante notar a presença seria um exemplo histórico de Des- e comunistas.
do conceito de “Comuna”, enquan- truição do Estado e que a “Ditadura O primeiro é o reducionismo do
to unidade política base neste progra- do Proletariado” seria sinônimo dis- Estado a um “efeito” da economia:
ma, e também a ênfase no processo so12 ; 3º) a que parte da interpreta- quer dizer, o “Estado é um produto
federativo, concebendo a organiza- ção de Engels, e, depois, da que Lênin da contradição de classes” e desapa-
ção política de baixo para cima. Curi- fez de Marx e Engels, que considera rece somente “por efeito” do desa-
osamente, a descrição que Marx rea- a Comuna de Paris como um “Tipo parecimento destas. Segundo, é a
lizará anos depois da Comuna de Pa- de Estado”. Esta úl tima chave redução do Estado à violência políti-
ris parece ser uma paráfrase de interpretativa é a que tem predomi- ca, e da “violência política” ao Esta-
Bakunin, não porque ele tivesse “co- nado e a ela estão associadas algu- do. O argumento é relativamente
piado” Bakunin, mas pelo fato de que mas das causas da burocratização tautológico: sendo o Estado a violên-
a realidade que ele veio a descrever das revoluções e de sua degenera- cia, existindo contradição de classes
foi, efetivamente, a própria manifes- ção. (interesses irreconciliáveis), o Estado
tação deste fato10 . Por isso é tão importante discutir- se faz necessário. O leninismo, que é
Infelizmente, Bakunin não nos le- mos se a Comuna de Paris era um uma das transcrições históricas mais
gou, pelo menos não nos seus escri- Estado ou não. Porque é da correta importantes da teoria de Marx, apre-
tos por nós conhecidos, uma análise caracterização teórica desta experi- senta essas principais características.
“interna” da Comuna de Paris. Ele ência histórica que deriva o correto Entretanto, devemos indicar que
apenas marcou seu posicionamento programa e estratégia da Revolução na teoria marxista existem diversas
político e fez um enquadramento te- Social. Para isso, portanto, precisa- definições acerca do Estado. Mas esta
órico geral: a Comuna era a primeira mos ver as definições de Estado em- definição, historicamente central (já
experiência do socialismo revolucio- pregadas por marxi stas e que foi sobre ela que se edificou a
nário, a primeira negação histórica do bakuninistas. Lênin, em “O Estado e experiência da Revolução Russa),
Estado. Bakunin estaria correto em a Revolução”, por exemplo, afirma: contrasta com as definições, esparsas,
classificar a Comuna de Paris como “Eis, expressa com toda a clare- porém mais detalhadas e específicas,
uma “negação do Estado”? za, a idéia fundamental do marxismo que Bakunin dá acerca do Estado. É
no que concerne ao papel histórico e com base na definição bakuninista
4 – A Luta de Classificações: à significação do Estado. O Estado é que iremos contrapor a definição aci-
Estado ou Anti-Estado? o produto e a manifestação do anta- ma indicada.
Quem tem razão na classificação gonismo inconciliável das classes. O “No fundo, a conquista não
da Comuna de Paris? Bakunin, Marx, Estado aparece onde e na medida em somente é a origem, é também o fim
Engels, Lênin? Devemos, em primei- que os antagonismos de classes não supremo de todos os Estados Gran-
ro lugar, lembrar que a análise de podem objetivamente ser conciliados. des ou Pequenos, poderosos ou dé-
Marx, consagrada no texto “A Guer- E, reciprocamente, a existência do bei s, despóticos ou liberai s,
ra Civil em França”, corrobora a afir- Estado prova que as contradições de monárquicos ou aristocráticos, de-
mação e a tese de Bakunin, indepen- classes são inconciliável. O Estado mocráticos e socialistas também, su-
dentemente de suas motivações e aparece onde e na medida em que pondo que o ideal dos socialistas ale-
posteriores considerações acerca do os antagonismos de classes não po- mães, o de um grande Estado comu-
Estado. Especificamente, na análise dem objetivamente ser conciliados. E, nista, se realize alguma vez. Que ela
de Marx, todas as afirmações cami- reciprocamente, a existência do Es- foi o ponto de partida de todos os
nham na si nali zação de que a tado prova que as contradições de Estados, antigos e modernos, não
Comuna tinha representado a des- classe são inconciliáveis.” (Lênin, O poderá ser posto em dúvida por nin-
truição do Estado. Desta maneira se Estado e a Revolução, cap I.-1). guém, posto que cada página da
abre uma “brecha” dentro do pen- Na caracterização marxista do Es- historia universal o prova suficiente-
samento marxista acerca da questão tado, utilizada por Lênin, vemos o mente. Ninguém negará tão pouco
do Estado e da história da Comuna seguinte: 1º) o Estado é um produ- que os grandes Estados actuais têm
de Paris11 . to da contradição entre as classes por objeto, mais ou menos confes-
Depois, Engels introduziria uma sociais; 2º ) o Estado é um instru- so, a conquista.(...) é uma tendência
abordagem nova e até certo ponto mento de dominação de uma classe fatalmente inerente a todo Estado,
contrária à análise de Marx, ao classi- sobre outra; 3º) o Estado é a re- qualquer que seja sua extensão, sua
ficar a Comuna como “a Ditadura do pressão e violência (ver Lênin, “O Es- debilidade ou sua força, porque é uma
Proletariado”. Lênin, por sua vez, tado e a Revolução”, cap I-3). Na necesidade de sua natureza. O que é
retomaria esta leitura. Assim, pode- verdade, esta caracterização não está o Estado senão a organização do
mos dizer que existem três chaves de em contradição com a definição do poder? Mas está na natureza de todo

- Uma revista de teoria Anarquista 15


poder a impossibilidade de suportar tra a conquista movida por Estado
privilegiada, como la clase sacerdotal,
um superior ou um igual, pois o po- estrangeiro, e contra o próprio Esta-
la clase nobiliaria, la clase burguesa;
der não tem outro objeto que a do- do francês. 2º) O E stado,
clase burocrática, al fin, porque
minação, e a dominação não é real monárquico ou republicano, gera a
cuando todas las clases se han ani-
más que quando lhe está submetido desigualdade de poder, sua concen-
quilado, el Estado cae o se eleva como
tudo o que a obstaculiza; nenhum tração ou centralização. As primeiras
una máquina; pero para el bien del
poder tolera outro mais que quando e mais importantes medidas da
Estado es preciso que haya una clase
está obrigado a isso, quer dizer, quan- Comuna visaram a desconcentração
privilegiada cualquiera que se interese
do se sente impotente para destruí- do poder entre os bairros e distritos
por su existencia... (Bakunin, Artigos,
lo ou derrubá-lo. Somente o fato de “O Patriotismo”, 1869) (entre os organismos locais e cen-
um poder igual é uma negação de seu trais), sua democratização em meio
Estado quer dizer dominação, e
princípio e uma amenaça perpétua a classe trabalhadora (as decisões
toda dominação supõe a subjugação
contra sua existência; porque é uma eram tomadas de baixo para cima,
das massas e conseqüentemente sua
manifestação e uma prova de sua ou seja, as “maiorias” proletárias con-
exploração em proveito de uma mi-
impotência. Por consiguinte, entre trolavam as decisões das “minorias”
noria governamental qualquer.”
todos os Estados que existem um dirigentes, criou-se uma igualdade
(Bakunin, Carta ao Jornal Le Liberté,
proximos aos outros, a guerra é per- 1872). temporária, mas radical, entre a situ-
manente e sua paz não é más que ação econômica do proletariado e a
Combinado com este elemento da
uma trégua.” (Bakunin, Fragmento, situação política13 . 3º) A Comuna es-
conquista estão ainda outros dois: 2º)
O princípio do Estado). o Estado é não somente patrimônio
boçou também a igualdade
Desta maneira, Bakunin especifica e instrumento de uma classe, mas,
econômica, ao estabelecer que as
uma característica fundamental do Es- quando estas classes se encontram
funções políticas seriam remuneradas
tado que não está presente na defi- debilitadas, o Estado tende a acondi-
com base no salário de um operário
nição marxista: 1º) o Estado é, his- cionar uma classe que zele por sua
médio. Assim, a Comuna expressa em
toricamente, o produto da conquis- existência; 3º) o Estado é sempre um
seus elementos internos a negação
ta, e seu objetivo é manter, reprodu- ins trumento de uma clas secompleta do princípio do Estado.
zir e ampliar esta mesma conquista. minoritária, e sua dominação se exer-
A Comuna de Paris não represen-
A conquista é o princípio (no sentido ce sempre sobre as “maiorias”.
ta assim um “Estado ou Ditadura Pro-
lógico e histórico) e o fim (o objetivo) A caracterização do Estado utiliza-
letária”, mas sim um anti-Estado,
do Estado. Este elemento é funda- da por Lênin negligencia estes fato-
visto que sua organização, objetivos
mental, porque a característica ine- res que são fundamentais. Vejamos
e relações, não somente não são es-
rente ao Estado não é “a violência então a Comuna de Paris, analisemos
tatais, mas sim a negação consciente
abstrata”, mas a violência associada e deliberada do Estado14 . Suas insti-
suas características internas e em que
a um tipo de relação social concreta: definição ela melhor se enquadra. 1º)
tuições são equivalentes, proporcio-
a conquista e a dominação. o Estado tem sua origem na con-
nais, porém contrárias às instituições
Bakunin adiciona: quista, a Comuna de Paris teve sua
estatais. Historicamente é fácil com-
“En efecto, ¿qué vemos en la origem numa Conquista? Não. A
provar que a Comuna de Paris, em
Historia? Que el Estado ha sido Comuna tem sua origem numa Re-
sua organização interna, não pode ser
siempre el patrimonio de una clase volta de uma classe dominada, con-
caracterizada como um Estado. O
fato de ela expressar a vi-
olência organizada de uma
classe contra outra não é
suficiente para caracteri-
zar a formação de um “Es-
tado”, já que o Estado se
funda em outros princípi-
os.
A experiência da cons-
trução do Socialismo e do
Comunismo na URSS re-
vela a impo rtância da
correta caracterização do
Estado. Os principais indi-
cadores do iní cio da
burocratização se dão já
no período de 1919-
1921, quando se institui
as decisões econômicas e
políticas nos centros diri-
gentes, controlados pelo
Partido Comunista, e se
Gravura: Última batalha da Comuna no Cemitério Pere Achaiese institui o retorno da “desi-

16 Nº1- Maio de 2009


co da história francesa. A Comuna
de 1871 se apresentava, no dis-
curso e percepção dos revolucio-
nários, como uma esp écie de
reedição da Comuna de Paris de
1792. Além disso, a própria revo-
lução era a continuidade da Re-
volução de 1789, que tinha fica-
do incompleta, por não ter reali-
zado seus objetivos: liberdade,
igualdade e fraternidade. As for-
ças políticas e principais institui-
ções, como a Guarda Nacional,
tinham se originado no processo
de radicais t ransformações
desencadeadas pela revolução de
1789.
3 A interpretação de Bakunin:
Gravura: 1871, Barricadas em Paris oportunismo. A interpretação dos
gualdade de rendas”, já que os diri- torna-se, ao contrário, o ponto de conselhistas, como, por exemplo,
gentes passaram a ser mais bem re- partida. Este é o problema que a de A. Pannekoek, da oposição de
munerados que os operários (são me- Comuna coloca de maneira impetu- esquerda da social-democracia
didas exatamente contrárias àquelas osa. O “etapismo” e a própria estra- alemã, enfatizavam a leitura de
tomadas pela Comuna e defendidas tégia política social-democrata “da Marx pela destruição do Estado de
por Lênin em suas “Teses de Abril”). conquista do poder político” (do Es- ruptura com o Manifesto Comunis-
A burocracia, ou mais precisamente, tado) pela classe operária e da “agi- ta. É interessante notar que Marx
a “nomenklatura” se tornou não tação legal” ficam comprometidos. É e Engels jamais aceitaram reco-
apenas uma camada dirigente do desferido um profundo golpe no nhecer o papel jogad o pelos
ponto de vista político, uma “aristo- oportunismo reformista de todos os blanquistas e internacionalistas
cracia operária” com o poder de Es- matizes. Mas estas são discussões que
na construção da Comuna de Pa-
tado, mas também uma camada pri- faremos em outra ocasião, já que
ris, no senti do político e
vilegiada do ponto de vista social e este texto apenas indica alguns apon-
econômico. Isto foi um efeito direto tamentos. econômico. Sempre se viram obri-
da não destruição do Estado, do _____ gados a rechaçar a importância
abandono e/ou da interpretação de- Notas: destes, de maneira que sua leitura
turpada das lições da Comuna de Pa- 1 É certo que, atualmente, o ter- da Comuna sempre careceu de fi-
ris. Aquilo que Trotski denominou de mo comunismo se confunde com o delidade histórica.
“contra-revolução burocrática”, que de marxismo, mas não devemos 4 As análises de Marx e de
levaria (como efetivamente levou) à negligenciar que isto é fruto de um Engels, em outros mo mentos,
restauração burguesa, tem suas ori- processo histórico. O comunismo apontam a Comuna como uma ex-
gens na teoria do papel do “Estado periência de destruição do Esta-
surge como uma doutrina na Fran-
na Revolução”, desenvolvido por do, como constata Lênin: “Engels
Lênin15 .
ça no século XIX, e Louis Blanc,
político francês, seria seu princi- convida Bebel a deixar de tagare-
Ao assumir a correta caracteriza-
pal teórico e expoente. Até 1850, lar a respeito do Estado e a banir
ção da Comuna Paris, vemos que ela
foi a primeira experiência, o primeiro permanecia assim. A difusão das completamente do programa a pa-
esboço, do anti-Estado. Esta carac- idéias comunistas para outros lavra “Estado”, para substituí-la
terização pode ser estabelecida tan- paises, levou à pela de “Comuna”; Engels chega
to a partir de Bakunin quanto a partir internacionalização da ideologia a dizer que a Comuna já não é um
de Marx. E, daí, vários pressupostos comunista desenvolvida na Fran- Estado no sentido próprio da pa-
assumidos pelos partidos social-de- ça. Somente depois da derrota da lavra. Ao contrário, Marx fala do
mocratas e comunistas ficam com- Comuna de Paris que o marxismo, “Estado na sociedade comunista
prometidos: a necessidade inevitável com o declínio do movimento ope- futura” parecendo admitir assim a
de um estágio “democrático-burgu- necessidade do Estado, mesmo no
rário francês, se apropriaria por
ês”, que antecede um estágio socia- regime comunista.” (Lênin, O Es-
lista, que, por sua vez, antecede ne-
completo da designação comunis-
mo. tado e a Revolução Cap. V- 1).
cessariamente o estágio “comunista”
2 É importante observar que a 5 A tendência majoritária inter-
(já que o “comunismo” deveria ser
produto da mudança histórica gra- Comuna de Paris de 1871, faz par- pretaria a Comuna como um “tipo
dual, do desaparecimento do Estado), te de um processo muito específi- de Estado”. A tendência

- Uma revista de teoria Anarquista 17


minoritária enfatizaria a destrui- Bakunin, que, na verdade, signi- cício do direito de reunião e pro-
ção do Estado. Todas as duas lei- fica o fim da denominada “Primei- paganda. Paris não quer nada
turas encontram fundamentos nos ra Internacional”. além, como garantia local, uma
escritos de Marx e Engels. 9 Ver o artigo “O Bakuninismo e condição, naturalmente, de encon-
6 Neste momento a maior parte do a Teoria da Organização Política” trar na grande administração cen-
partido socia l-democrata, (UNIPA). tral – a delegação das comunas
mencheviques e bolcheviques, in- 10 Vejamos as palavras de Engels federadas – a realização e a prá-
clusive as futuras “principais” li- sobre as ações da Comuna, que re- tica dos mesmos princípios.” (Ma-
deranças da U RSS (Stalin, produzem em parte as idéias de nifesto da Comuna de Paris, 19/
Bukharin, Zinoniev, Kamenev) de- Marx: “En todas las proclamas 04/1871).
fendiam o aprofundamento da re- dirigidas a los franceses de las 14 Isto porque o “não-estado”,
volução democrático-burguesa, e provincias, la Comuna los invitó a termo empregado por setores anti-
não uma revolução socialista. As formar una federación libre de to- estatistas do marxismo, é vago. Po-
“teses de abril” representam assim das las comunas de Francia con demos dizer que todas as formas
uma ruptura no programa social- París, una organización nacional organizativas (uma empresa, uma
democrata, ou pelo menos no tem- que, por vez primera, iba a ser família), são “não-estados”. A
po em que se supunha a realiza- creada realmente por la nación Comuna de Paris era uma forma
ção do programa, o que gerou uma misma. Precisamente el poder organizativa que se colocava como
série de debates dentro do parti- opresor del antiguo gobierno cen- concorrente, alternativa e contrá-
do bolchevique. O livro “O Esta- tralizado — el ejército, la policía ria ao Estado. Por isso, podemos
do e a Revolução” se apresenta política y la burocracia —, creado denominá-la, com melhor defini-
como a sistematização da concep- por Napoleón en 1798 y que des- ção, de Anti-Estado.
ção de Lênin, onde é introduzido de entonces había sido heredado 15 Quando Lênin fala de um “Es-
um outro elemento na sua interpre- por todos los nuevos gobiernos tado Proletário”, existe uma con-
tação da Comuna de Paris e da como un instrumento grato y utili- tradição que Lênin nunca consi-
teoria de transição. zado por ello s contra sus derou seriamente, e que se mani-
7 Lênin segue os exemplos de enemigos, era precisamente este festou historicamente na formação
Marx e Engels ao falar das idéias poder el qu e debía ser das burocracias nos paises socia-
anarquistas, tomando idéias que derrumb ado en toda Francia, listas: este Estado necessariamen-
nunca foram enunciadas histori- como había sido derrumbado ya te exercerá a dominação sobre a
camente por Proudhon e Bakunin. en París.” (Engels, Introdução, “A maioria e será controlado sempre
E mais: quando obrigado a reco- Guerra Civil em França). por uma minoria, já que esta é uma
nhecer a p resença de 11 Esta brecha a respeito da Di- característica essencial do Esta-
proudhonistas e bakuninistas na tadura do Proletariado e do pa- do. Sendo o proletariado na soci-
Comuna, indica que estes estavam pel do Estado seria transformada edade capitalista a classe majori-
lá “contrariando” suas próprias em um verdadeiro abismo em de- tária, a dominação necessariamen-
idéias, quando, na verdade – e o terminados momentos de disputa te se exercerá sobre esta classe;
próprio Lênin reconhece em outros interna, por exemplo, entre Lênin daqui decorre outra contradição
momentos –, foi Marx quem fez al- e Pannekoek. na teoria comunista. Se os meios
terações no Manifesto Comunista 12 Ver A. Pannekoek, “As Tare- de produção serão centralizados
em conseqüência da Comuna de fas dos Conselhos Operários”. no Estado, e este nunca é um ator
Paris (?!). Inversamente, quando 13 “A escolha por eleição ou com- neutro, capaz de representar, ou
analisamos o “Catecismo Revolu- petição dos magistrados e funcio- conciliar, os interesses das classes,
cionário” de Bakunin, programa nários comunais de todas as or- decorre necessariamente que a
da sua organi zação secreta dens, como também o direito per- centralização dos meios de produ-
(1866), verificamos a existência manente de controle e revogação. ção nas mãos do Estado implica
da menção às Comunas e a sua ”li- A absoluta garantia da liberdade sua centralização nas mãos de
vre-federação”. Quer dizer, a his- individual e da liberdade de cons- uma “minoria”; mesmo não sendo
tória do movimento operário e de ciência. A permanente intervenção uma minoria burguesa, a existên-
suas tendências é completamente dos cid adãos nos assu ntos da cia do Estado engendrará, como
desfigu rada na narra tiva de Comuna pela livre manifestação indicou Bakunin, uma nova cama-
Lênin, onde fatos e acontecimen- de suas idéias, a livre defesa dos da social interessada na manuten-
tos reais deixam de ter importân- seus interesses, com garantias da- ção deste Estado. O que significa,
cia. das para daquelas manifestações como disse o próprio Lênin, que o
8 É no período entre 1869-1872 pela Comuna q ue somente é proletariado não terá nem liber-
que se dará a “cisão” na AIT, que efetiva do com a super visão e dade, nem igualdade.
culminará com a “expulsão” de proteção do livre e eqüitativo exer-

18 Nº1- Maio de 2009


O Bakuninismo e a
Teoria da Organização
Política
“Trair a Aliança é trair a Revolução.”
Mikhail Bakunin

A historiografia sobre o bakuninismo defendia. dências republicanas, especialmente na


é extremamente deficiente e precária. A falta de fontes históricas e de pes- Itália, durante as guerras de unificação;
A maior parte das narrativas foi produ- quisas que não sejam comprometidas 3) as guerras nacionais e regionais de
zida a partir das perspectivas comunis- em seus métodos e resultados por unificação, contra as monarquias, que
ta (baseada na denúncia de Paul motivações ideológicas, dificulta esta desestabilizavam a Europa5 , o que per-
Lafargue e Frederick Engels nos anos análise histórica. Faremos aqui o pos- mite dizer que existia em diversos paí-
1870), liberal ou anarco-comunista, sível para contornar esta situação de ses da Europa uma situação pré-re-
que, por razões diferentes, pecam pela acordo com as fontes disponíveis. Mas volucionária; 4) a ação política de
falta de objetividade e reproduziram acrescente-se que a confusão e o des- Mikhail Bakunin depois de sua fuga da
apenas impressões fragmentárias e conhecimento são maiores em razão Sibéria em 1861, que, operando sobre
“estigmas” acerca do pensamento e da falta de rigor histórico e sociológico estas condições objetivas, tentou traçar
prática bakuninista. no tratamento das fontes disponíveis do uma teoria, uma estratégia e um pro-
Daniel Guérin, que foi ligado aos “co- que pela simples escassez destas. As- grama que deveriam ser realizados por
munistas libertários” franceses, por sim, tentaremos remontar a história da uma organização revolucionária.
exemplo, reproduz a seguinte afirma- organização anarquista criada por ini- Bakunin se instalou na Itália em
ção acerca de Bakunin: “Entretanto, ciativa de Bakunin e determinar suas 1864, na cidade de Florença, e, a partir
parece que a organização projetada bases teóricas. dali, contatou Garibaldi e alguns revolu-
permaneceu por um longo período no Para entendermos o tipo de organi- cionários nacionalistas italianos (ver Carr,
papel. Como observou Arthur Lehning, zação política e a concepção de revo- 1972, p. 329). Neste seu período na Itá-
estes programas e estatutos traduzem lução defendida por Mikhail Bakunin, lia, ele desenvolveu um profundo deba-
melhor a evolução das idéias de Bakunin temos de levar em consideração sua te com Mazzini, um dos líderes do mo-
que o funcionamento de uma organiza- teoria geral da realidade, sua filosofia vimento nacionalista republicano (Uni-
ção1 ”. Ou então, como E. H. Carr, que política e sua visão da economia, as- dade de Ação Radical), sendo que al-
indica o “surgimento da Aliança em 1867 sim como o contexto histórico dos anos guns dos militantes que se uniriam na
e seu desaparecimento em 1869” (Carr, 18604 . organização secreta anarquista seriam
1972, p.373). Estes são exemplos dos O contexto histórico do surgimento dissidentes do republicanismo italiano,
equívocos historiográficos cometidos. do anarquismo e da sua teoria da or- como Giusepe Fanelli, que ficou conhe-
Além disso, existem algumas confusões ganização política é o da consolidação cido como fundador da Internacional na
acerca do “caráter” da organização dos Estados-Nacionais burgueses (uni- Espanha. Bakunin visitaria a Inglaterra,
bakuninista2 . ficação da Itália e Alemanha), do início França, Suécia, Polônia, Itália (onde se
É interessante que os estudos de da transição do capitalis mo estabeleceria) – e deste trabalho de vi-
Max Netlau, muito conhecidos por concorrencial para o capitalismo sitas e através das cartas e correspon-
Guerin, versam exatamente sobre a monopolista e das revoluções “republi- dências constituiria uma rede de mili-
“Aliança” na Itália, na Espanha e em cano-democráticas” (1848-1870), nas tantes, operários socialistas e republi-
outros países da Europa, nos quais, to- quais se insere como desdobramento canos radicais dissidentes que seriam a
mando por base uma vasta documen- socialista, a Comuna de Paris (1871). base da formação da sua organização6 .
tação, demonstra onde e como esta or- Esta organização seria fundada em
ganização anarquista atuou3 . A cisão na A “Gênese” da Aliança 1864 com o nome de “Fraternidade
Associação Internacional dos Trabalha- A história da organização anar- Internacional” ou “Sociedade Inter-
dores (AIT) e a documentação levanta- quista está associada à confluência de nacional Revolucionária”, e atuaria
da por Paul Lafargue também compro- três fatores: 1) a existência de uma em dois campos: o do republicanismo
vam a existência da organização anar- tendência teórica anarquista, inspira- radical europeu, através da participa-
quista denominada Aliança. O que fica da nas idéias de Proudhon, no movi- ção nos Congressos da “Liga da Paz e
obscuro, mas pretendemos esclarecer mento operário francês, principal cen- da Liberdade” (1867 e 1868), e no mo-
é que tipo de organização era a “Alian- tro do movimento na Europa até 1860; vimento proletário, que, por questões
ça”, que programa e que estratégia 2) as dissidências “socialistas” nas ten- teóricas e ideológicas, se constituía no

- Uma revista de teoria Anarquista 19


seu principal espaço de atuação (daí a tos: 1º) não se pode questionar a exis- então, esquecer estes desdobramentos
adesão à AIT em 1867-68). As bases tência de tal organização, pois a docu- teóricos e práticos: não apenas a Ali-
da Fraternidade são os textos “Progra- mentação e os fatos históricos permi- ança realizaria um trabalho prático no
ma da Fraternidade Internacional”, tem ver uma coordenação sistemática movimento operário, como também um
“Catecismo Nacional” e “Catecismo de uma rede de militantes na Europa; trabalho teórico.
Revolucionário” (1866)7 , que formu- 2º) esta organização é mencionada nos Podemos indicar que tais documen-
lam os princípi os i deol ógicos, documentos por diferentes nomes num tos, em diversos tópicos, reúnem dife-
programáticos e estratégicos da orga- período de 8-9 anos, o que explica em rentes tipos de princípios: ideológicos;
nização anarquista. parte, a confusão quanto à sua origem teóricos; organizativos,
Por ocasião do II Congresso da Liga e trajetória. Mas, na realidade, ela se programáticos e estratégicos. En-
da Paz e da Liberdade, Mikhail Bakunin forma em 1864 e em 1867 é formada a tendemos os princípios ideológicos
apresentou o texto “Federalismo, So- Aliança (pública), que não deve ser con- como aqueles que expressam os inte-
cialismo e Anti-teologismo”, que se fundida com a organização política anar- resses e aspirações do grupo e sua re-
apresenta como tese de quista9 . lação orgânica com a classe social com
aprofundamento teórico dos princípios que se vinculam; os princípios teóri-
organizativos, programáticos, etc, já As bases da organização: teoria cos como sendo as bases intelectuais
elaborados de forma sumária, nos “Ca- e programa. e cognitivas que orientam as teses fun-
tecismos Revolucionários”. É o momento Os três documentos menciona- damentais acerca da sociedade e da re-
em que se funda então a “Aliança da dos acima (o Programa da Fraternidade alidade em geral (e que dão razão para
Democracia Socialista”, organização Internacional, o Catecismo Nacional e a existência da organização e que subs-
pública, que pretendia aderir à Inter- o Catecismo Revolucionário) determi- crevem, do ponto de vista cientifico, os
nacional, como sua seção8 . Esta orga- seus interesses gerais); os princípios
nização se dissolveria em 1869, depois programáticos como os objetivos ge-
que o Conselho Geral recusou a forma rais permanentes, os interesses que a
de sua adesão, e suas seções se trans- organização pretende representar e
formariam em seções da AIT. atender, através da sua ação; os prin-
Max Netlau, ao analisar alguns cípios estratégicos como os meios
manuscritos de Bakunin, afirma o se- concretos postulados para realizar os
guinte: “... a Aliança é chamada de objetivos; e os princípios
´Aliança dos Socialistas Revolucionári- organizativos como as regras que
os´ que existe desde 1864, é verdade, regulam a ação e a estrutura de funci-
mas que começou a estabelecer-se na onamento da organização política. To-
Internacional somente depois de 1868, dos os princípios têm caráter perma-
uma passagem que nos dá a data au- nente, ou seja, são bases fixas, que não
têntica da origem da sociedade secreta devem ser alteradas para que a orga-
de Bakunin, o ano de 1864, quando se nização exista enquanto tal10 .
estabeleceu em Florença...” (Netlau, Bakunin e alguns dos “aliados”
1977, p. 114). Princípios Ideológicos e Teóricos
Ao que parece, podemos traçar a nam com clareza as bases da organi- O documento “Fraternidade Interna-
evolução da organização anarquista da zação anarquista e de como se desen- cional” expressa os valores ou ideais
seguinte maneira: em 1864, é fundada volveu sua experiência prática. Consti- básicos, em termos da afirmação dos
a Fraternidade Internacional na Itália, tuem uma totalidade em que se afirma princípios da liberdade e da igualda-
com socialistas e republicanos dissiden- uma teoria da organização política, de (“a li berdade na igualdade
tes, ex-seguidores de Mazzini; esta or- abrangendo tanto os princípios econômica, social e política, é a justi-
ganização intervém em 1867 no II Con- organizativos, quanto os princípios ça”). Os valores éticos da liberdade e
gresso da Paz e da Liberdade e o grupo teórico-ideológicos, assim como os da igualdade seriam traduzidos numa
que rompe com o Congresso adere à princípios estratégicos e os princí- concepção teórica. A defesa da liber-
AIT, fundando a “Aliança da Democra- pios programáticos. Este conjunto, dade e igualdade marcaria, em termos
cia Socialista” (organização pública, com conformando uma totalidade, delineia ético-ideológicos, as bases da represen-
caráter de fundação de estudos), que uma concepção clara e determinada de tação de interesses, quando o conceito
depois se ramifica na França e Espanha Revolução e de seu processo. de liberdade fosse aplicado à realidade
até 1869 (quando é dissolvida). A Estes princípios seriam desenvolvi- e à práxis social.
Fraternidade Internacional se mantém dos numa base teórica no livro “Fede- No sentido político-teórico, tal tra-
e em 1869 passa por um processo de ralismo, Socialismo e Anti-teologismo” dução se expressa: 1) na defesa do
depuração, surgindo logo depois a “Ali- (1867), que se apresenta como siste- federalismo e do anti-estatismo,
ança dos Socialistas Revolucioná- matização teórica do programa da “Ali- como forma de organização política
rios” (organização secreta), que, pelo ança” (dos Catecismos Nacionais, e que e de governo e como concepção de
que M. Netlau indica, foi o nome assu- receberia seu complemento no desen- sociedade; 2) na defesa do direito de
mido pela Fraternidade Internacional volvimento da filosofia-epistemologia e auto-determinação dos povos e di-
depois de 1869. do método científico no texto “Consi- rei to à alteridade; 3) no
Assim sendo, podemos dizer que fi- derações Filosóficas sobre o Fan- internacionalismo; 4) na defesa do
cam superados os equívocos acerca da tasma Divino, sobre o Mundo Real socialismo e; 5) na adoção da teoria
organização anarquista em dois aspec- e sobre o Homem”. Não podemos, do valor trabalho e da categoria “tra-

20 Nº1- Maio de 2009


balho” como base dos direitos sociais fundada no materialismo, na teoria do “Assim, centralizada pela idéia e pela
e organização política. valor trabalho e na teoria do auto-go- identidade de um programa comum a
Um dos itens, abordando as exigên- verno ou federalismo. Desta maneira, todos os países; centralizada por uma
cias para uma possível adesão à o conceito de liberdade não é um con- organização secreta que unirá não ape-
Fraternidade, afirma: ceito genérico, está definido pela teo- nas todas as partes de um país, mas
“É preciso que seja revolucionário. ria geral da sociedade na qual se des- muitos, senão todos os países, em um
Ele deve compreender que uma trans- dobra. único plano de ação; centralizada ain-
formação tão completa e radical da so- da pela simultaneidade dos movimen-
ciedade, devendo necessariamente de- Princípios Organizativos tos revolucionários no meio rural e ur-
terminar a ruína de todos os privilégi- A estrutura e as regras bano, a revolução deverá adquirir o
os, de todos os monopó- caráter local no sentido
lios, de todos os poderes de que não deverá co-
constituídos, não poderá meçar por uma grande
naturalmente efetuar-se concentração de todas
por meios pacíficos; que, as forças revolucionári-
pela mesma razão, terá as de um país em um
contra ela todos os pode- único ponto; nem adqui-
rosos, todos os ricos, e rir jamais o caráter ro-
por ela, em todos os paí- manesco e burguês de
ses, apenas o povo, as- uma expedição quase
sim como esta parte in- revolucionária, mas, sur-
teligente e nobre da ju- gindo ao mesmo tempo
ventude que, embora em todos os pontos de
pertencendo por nasci- um país, terá o caráter
mento às classes privile- de uma verdadeira revo-
giadas, por suas convic- lução popular na qual to-
ções generosas e por marão igualmente parte
suas ardentes inspira- mulheres, velhos, crian-
ções, abrace a causa do ças e que, por isso mes-
povo”. (Bakunin, 1866, mo, será invencível”.
Programa da (Bakunin, 1866, Catecis-
Fraternidade). mo Nacional).
A análise da realida- Além disso, em razão
de social leva à afirma- das características da
ção do caráter revolucio- atividade da organiza-
nário, da revolução, da ção: 1) os revolucionári-
luta de classes (pobres X os devem se organizar
ricos) e da organização, de forma combinada, e
pois somente estas ga- não excludente, em “as-
rantem a realização da sociações públicas e se-
justiça (ou da liberdade e cretas” com o objetivo de
da igualdade), que, na ampliar o campo revolu-
sociedade, consolidar-se- cionário e de preparar
iam na formação de uma um movimento simultâ-
economia socialista e da Varlin - membro da Aliança e um dos principais líderes da neo; 2) em razão do
federação e/ou do Comuna de Paris caráter de suas
auto-governo. No tex- atividades, devem adotar
to Catecismo Nacional se afirmam os organizativas assumidas pelo Programa uma “forte disciplina revolucionária”.
“pressupostos obrigatórios” que deve- da Fraternidade indicam o seguinte: 1) Assim, a organização política
riam ser observados para todos os pa- a organização política deve ser compos- deve ser estruturada sobre estas ba-
íses: 1) a impossibilidade da vitória de ta por uma dupla estrutura, a organi- ses organizativas, tendo como papel a
uma revolução nacional isolada; 2) zação internacional e a organiza- preparação (iniciação-direção) da
a necessidade de um programa co- ção nacional, sendo que “a direção revolução, e deve estar coordenada
mum, que satisfaça as necessidades de cabe à família internacional”; 2) define sobre uma organização internacional
todas as nações. Assim, a organização os elementos subjetivos necessári- que dirige as organizações nacionais,
política deveria se estabelecer, neces- os ou perfil do militante; 3) que a orga- estabelecida sobre uma disciplina re-
sariamente, sobre um programa co- nização deve combinar dialeticamente volucionária e um programa comum. É
mum. a centralização11 (construção da unida- sobre estas bases que se colocam os
Devemos considerar que as frontei- de da luta revolucionária, de baixo para objetivos programáticos e a estratégia
ras entre os princípios ideológicos e cima) e a localização (descentralização, para sua realização.
teóricos não são rígidas; a realização ou distribuição das forças revolucioná-
dos ideais da liberdade e igualdade, rias por diferentes pontos da socieda- Princípios Programáticos e Estra-
dependem da sua formulação teórica de e território)12 : tégicos.

- Uma revista de teoria Anarquista 21


O programa e a estratégia
bakuninista estão desenvolvidos, funda-
mentalmente, nos “Catecismos”, e são
extremamente elaborados, no compre-
endidos: o programa delineado é um
programa revolucionário, um “progra-
ma máximo”, que supõe a realização
de uma revolução e que se apresenta,
portanto, como uma série de medidas
para a situação pós-revolucionária.
Sendo assim, podemos diferenciar
as bases programáticas em três tipos:
econômicas, políticas e sociais, profun-
damente inter-relacionadas. As medi-
das políticas são: 1) destruição do Es-
tado (centralista, burocrático) e de suas
instituições (universidades, bancos,
igrejas); 2) abolição da Monarquia, es-
tabelecimento da República e laicização Marx e Engels: combateram a Aliança por diferenças
das instituições políticas; 3) instituição de estratégia e teoria política
da organização federalista, com funci-
onários eleitos pelo povo, na base do cidadão para que venha a ser um ci- adotado. Em primeiro lugar, a afirma-
sufrágio universal. Depois do processo dadão-soldado, formado para a guer- ção da Revolução Social entendida en-
de descentralização, na primeira fase ra13 . quanto um processo de guerra revolu-
da situação revolucionária, a revolução Um pressuposto dos Catecismos cionária. Neste sentido, o objetivo da
deverá assumir um caráter federalista, é o de que a organização política da revolução é: 1) resolver a questão so-
tendo as comunas revolucionárias sociedade exige uma organização cial (contradição capital/trabalho); 2)
como unidades-base, “estabelecendo econômica que lhe sirva de base. Nes- ter o caráter de uma “Revolução Soci-
uma administração e tribunais revolu- te sentido, colocam-se como as primei- al” (que visa a imediata libertação
cionários”, também baseados no sufrá- ras das medidas econômicas: 1) econômica e social da classe trabalha-
gio universal e na responsabilidade coletivização das terras, mas com a dora, e não somente a mudança de re-
(imperatividade/revogabilidade dos posse ou o produto destas pertencen- gime político); 3) articular os trabalha-
mandatos); 4) federalização das do exclusivamente aos que nela traba- dores do campo e da cidade; 4) “a
comunas (ou sua centralização, de bai- lham; 2) instituição da base dos direi- internacionalização, numa guerra
xo para cima), pois isoladas as comunas tos políticos através do trabalho e san- mundial de libertação”, como desdo-
serão derrotadas, formando um pacto ção destes direitos aos possíveis seg- bramento necessário da guerra revolu-
federal, um governo e uma assem- mentos sociais não-trabalhadores; 3) cionária na qual o “mundo se separará
bléia ou parlamento revolucionário. coletivização dos meios de produção, em dois campos opostos” e da qual
Segundo os termos do texto, “a ordem que pertencerão diretamente aos tra- deverá resultar uma “guerra de exter-
e a unidade renascerão como produtos balhadores14 ; 4) sendo o trabalho a mínio sem piedade e sem trégua, con-
da liberdade revolucionária”; 5) direito base dos direitos políticos, supressão trária à política hipócrita de não inter-
de secessão (estes pontos estão indi- da hierarquia entre “trabalho intelectu- venção”15 .
cados no Catecismo Nacional; no Cate- al e trabalho manual”, através da exi-
cismo Revolucionário, estes pontos ga- gência do revezamento entre as Conclusão
nham uma elaboração mais detalhada, atividades produtivas e de direção-ges- Uma apreciação crítica da história
a organização política); 6) organiza- tão (da economia), assim como da do anarquismo ou bakuninismo, en-
ção política com base na comuna, re- igualdade de rendimentos. quanto experiência coletiva orientada
presentada pela “maioria dos votos dos As principais medidas sociais dos por uma ideologia/teoria, deve indicar
seus habitantes”. Ela tem o direito de “Catecismos” visam garantir: 1) liber- que, na realidade, constituiu-se num fe-
criar sua carta ou constituição, mas esta dade religiosa; 2) abolição das classes; nômeno associado a uma conjuntura
deve estar ajustada à carta e organiza- 3) direito à educação pública integral e histórica particular: a do surgimento do
ção política da federação e seu gover- à proteção social, financiada e garanti- movimento proletário, das guerras de
no (assim como os departamentos ou da pela sociedade; 4) liberdade de ir e unificação nacionais, das lutas republi-
províncias); 7) estabelecimento, pelo vir, liberdade de pensamento, liberda- canas, do desenvolvimento do capita-
parlamento e pelo governo provincial e de de propaganda e de organização; lismo monopolista, do surgimento da
nacional (unicameral ou bicameral), dos 5) igualdade de direitos entre homens Primeira Internacional, e, finalmente, da
pontos obrigatórios a serem segui- e mulheres ; 6) abolição das penas de- contra-revolução internacional (depois
dos por toda a organização políti- gradantes e cruéis, das punições cor- da derrota da Comuna de Paris). Os
ca (comuna, província e nação); 8) porais e da pena de morte. documentos aqui analisados, assim
deliberação, pelo parlamento e gover- Os “Catecismos” estabelecem tam- como o pensamento de Bakunin e o
no nacional, sobre a formação ou não bém a estratégia revolucionária, quer conceito de anarquia, devem ser com-
de um exército, sempre por tempo dizer, os meios práticos que definem o preendidos em seu significado, dentro
determinado; 8) preparação de todo conceito de revolução que deve ser do seu devido contexto social e históri-

22 Nº1- Maio de 2009


co. dividiu a organização em pró- pensamento pelos autores do pre-
Podemos dizer que, comparado com bakuninistas e anti-bakuninistas (estes fácio.
o “Manifesto Comunista” de Marx e liderados por Anselmo Lourenço). De- 3 Ver “La Alianza e la Internaci-
Engels, os “Catecismos” apresentam pois daí, até a dissolução e a mudança onal en España”, 1977.
duas características: 1º) apresentam de orientação desta organização, as
4 Para analisar este contexto bas-
uma formul ação teó rica menos fontes de que dispomos não nos per-
direcionada para a análise crítica do mitem dizer muito. ta ver o texto “Anarquismo e Co-
capitalismo, e mais preocupada com a Na realidade, as situações pré-re- munismo na Primeira Internacio-
definição das bases programáticas da volucionárias, revolucionárias, e de nal”. Para compreender o pensa-
sociedade socialista. Por outro lado, a maneira geral as guerras civis, colocam mento teórico de Bakunin, ver “A
teoria de Marx e Engels estava muito em evidência contextos em que as or- Filosofia Bakuninista”.
mais elaborada que a de Bakunin, ten- ganizações políticas revolucionárias têm 5 Na Rússia em 1861-62, colo-
do um caráter mais complexo e mais uma duração curta. Podemos compa- cou-se o problema da “emancipa-
aplicado, do que a deste último. Toda- rar o contexto em que a “Aliança” atuou ção dos servos”, surgiram agita-
via, isto não impediu que Bakunin de- na Europa do século XIX, com o da ções estudantis e foi formada a or-
terminasse um plano nítido com orien- guerra civil revolucionária no Brasil
ganização Terra e Liberdade; na
tações que a história comprovariam que (1967-1973). Muitas organizações po-
seriam corretas. Neste sentido, a den- líticas surgiram e, devido ao seu caráter Itália, ocorreu uma importante in-
sidade teórica do Manifesto Comunis- – guerrilheiro, numa guerra aberta con- surreição camponesa em 1860 e
ta, é contrabalanceada pela maior pre- tra a Ditadura –, enfrentaram uma luta diversos levantes insurrecionais
cisão programática dos Catecismos, de vida ou morte. Organizações como locais (ver Carr 1972 e Efimov,
principalmente no que tange à organi- a ALN (Ação Libertadora Nacional) e a 1986).
zação política; o Manifesto Comunista VPR (Vanguarda Popular Revolucioná- 6 Além do italiano G. Fanelli, é
é de 1848, ou seja, cerca de vinte anos ria) tiveram uma curta existência (seis importante mencionar o francês
antes, o que mostra que a estruturação anos em média), o que não significa que Eugene Varlin, que se tornaria uma
dos grupos comunistas se deram muito não tenham influenciado o rumo da his-
importante liderança da Comuna
antes da organização anarquista, o que tória brasileira. Mas o legado político e
de Paris e seu mártir. A correspon-
explica, em parte, o êxito relativo da teórico destas organizações foi pratica-
reprodução desta corrente. Mas a mes- mente apagado, não tiveram continui- dência de Bakunin revela que
ma instabilidade encontrada na organi- dade, já que muitos dos seus ex-mem- Varlin seria o principal
zação anarquista se encontrou na Liga bros romperam com a linha política re- bakuninista na França, e que se-
dos Comunistas, que teve também uma volucionária e se tornaram ardorosos ria ele o responsável por articu-
existência precária e veio a se dissol- contra-revolucionários16 . Um processo lar a adesão dos “proudhonistas de
ver. parecido se verificou com a organiza- esquerda” com a Aliança, através
Um outro aspecto fundamental é a ção anarquista e o bakuninismo. A situ- da AIT.
compreensão da situação pré-revo- ação histórica selou sua derrota políti- 7 Ver Max Netlau, “La Anarquía
lucionária que caracterizava a Europa co-militar; suas contradições internas Através de Los Tiempos”: “Él,
no início da década de 1860: as guer- decretaram o surgimento do
Bakunin, consider aba abortados
ras civis e nacionais traziam as massas revisionismo, liderado por ex-membros
para a arena da ação política, gover- da organização. hacia fines de 1863 los movimientos
nos eram derrubados, regimes políti- A tarefa de hoje é resgatar a teoria nacionalistas, es decir, llegados
cos monárquicos ameaçados e o movi- da organização política de Bakunin, de- entonces bajo el contr ol de los
mento de massas estava em ascensão. senvolver seus princípios teóricos, ide- hombres de Estado, de Francia, de
Sem levarmos em consideração esta ológicos, programáticos e estratégicos Prusia, Rusia, el Piemonte, y puso su
situação, não entendemos as orienta- e aplicá-los à transformação da reali- esperanza en lo sucesivo en los
ções práticas de organização anarquis- dade brasileira e à luta de classes in- movimientos sociales que renacían.
ta, os “catecismos” e suas preocupa- ternacional. Esta é a tarefa de todos Viendo la desor ientación de las
ções; nem o porquê da afirmação da aqueles que almejam uma Revolução fuerzas democráticas y socialistas,
necessidade da organização política que Social.
creía obrar del mejor modo obrando
combinasse a ação secreta e pública, ______
nem o papel da “Aliança” e da “Interna- Notas: sobre ellas por medio de militantes
cional”. 1 Extraído do original francês “Ni ocultos, que sabr ían dir igir y
Neste sentido, demonstramos que a Dieu ni Maítr e (Anthologie de coordinar tales fuerzas y que ellos
Aliança se desenvolveu e que ela teve l’Anarchisme)”, de Daniel Guérin. mismos harían nacer e inspirarían
uma influência importante na Interna- 2 Ver “Socialismo e Liberdade”, grupos y movimientos más conscien-
cional (especialmente na Espanha e na Introdução, por Coletivo Editori- tes. Los años 1864 (cuando hace su
Itália). Mas como ela se dissolveu? As segundo viaje a Suecia y pasa la úl-
al Luta Libertária, em que se afir-
informações acerca desse processo são tima vez por Londres y París) y 1865
precárias. O que sabemos (ver Netlau,
ma que Bakunin “defendia uma
organização exclusivamente secre- (cuando va desde Florencia a vivir a
1977) é que depois da morte de Bakunin
ta” por princípio, o que dá a base Nápoles y sus alrededores, hasta
as seções nacionais da Aliança foram
atravessadas por conflitos internos, de uma crítica equivocada de seu agosto de 1867), pasan en esos
como foi o caso da Espanha, em que se esfuerzos inevitablemente poco es-

- Uma revista de teoria Anarquista 23


clarecidos. Sabemos un poco de su ções de trabalhadores – o da lucionária e um programa que cen-
esfuerzo en Florencia y conocemos igualitarização econômica e soci- tralize o processo e dispersão das
su tentativa de proponer sus ideas a al de todas as classes e indivídu- forças revolucionárias pelo terri-
la masoner ía en Italia, a la que os – tem por essa razão aderido tório, para abranger efetivamente
pertenecía. Hay también fragmentos aos princípios proclamados pelos as massas.
de manuscritos, de 1865, las primeras congressos dos trabalhadores re- 12 Estes elementos estão presen-
r edacciones conser vadas de sus alizados em Genebra, Lausana e tes especialmente no “catecismo
ideas, que podría publicar, si hubiese Bruxelas. Vários membros desta nacional”.
una posibilidad material seria para tal minoria, pertencendo a várias na- 13 Um documento, que não po-
publicación. Estamos, en fin, puestos ções, nos sugeriram formar uma demos determinar se é um manus-
un poco al corrientes de sus planes nova Aliança Internacional da crito ou uma publicação, datado
por su carta a Herzen, del 19 de julio Democracia Socialista, de 1868, é uma reformulação do
de 1866, por su resumen histórico en estabelecida completamente den- Programa da Fraternidade, em que
un libro ruso de 1873 y por el pro- tro da grande Associação Interna- aparecem então alguns elementos:
grama y los estatutos mismos, in ex- cional dos Trabalhadores, mas ten- 1) é citada a expressão anarquia
tenso, de la sociedad internacional do uma missão especial de estudar pela primeira vez, como conteúdo
revolucionaria, redactados en 1866, questões políticas e filosóficas na ideológico do programa; 2) a ex-
en marzo, aproximadamente, que he base do grande princípio de propriação e eliminação da pro-
hecho conocer desde 1898 y en igualdade universal e genuína de priedade privada capitalista são
traducción alemana casi completa en todos os seres humanos sobre a ter- incorporadas de maneira explíci-
1924. En las Werke (Berlín, 1924, vol. ra “. Ou seja, esta organização tas no programa; 3) no que tange
III, págs. 8-61) , y en mi biografía de pretendia integrar os dissidentes à organização política, é indica-
1898, págs. 209-233, se encuentran do republicanismo, arrastados do que o processo federativo exi-
esos textos - una exposición completa pela po lítica de entr ismo da ge um processo de delegação re-
de su pensamiento socialista y Fraternidade na Liga da Paz e Li- volucionária baseada em manda-
revolucionario de entonces, mientras berdade, para a Internacional. E tos imperativos e revogáveis; 4) é
que los fragmentos masónicos (es foi o que aconteceu. afirmado o caráter de “minoria”
decir, destinados a ser propuestos a 9 O texto de Frederich Engels, (ou organização de quadros) da
los francmasones) , contienen sobre “Os Bakuninis tas em Ação” organização política, indicando
todo su pensamiento filosófico, la crí- (1873), indica dois fatores: a “Ali- que esta deve ser o “estado-mai-
tica religiosa. Tenemos también la ança” secreta saiu vitoriosa na or” da revolução enquanto que o
aplicación más restringida de sus Espanha e levou a maioria dos “exército é povo”.
ideas y proyectos en las impresiones operários da seção da Internaci- 14 “... o capital e os instrumen-
clandestinadas para la organización onal; esta “Aliança”, em 1873, tos de trabalho se tornarão pro-
italiana de esa sociedad internacio- organizou uma greve geral como priedade dos que os utilizarem
nal, el Programa della Rivoluzione preparação de um levante revolu- para a produção de riquezas pelo
democratico-sociale italiana y los es- cionário. No texto de Engels este seu próprio trabalho” (Catecismo
tatutos de la Societá dei Legionari processo ganha contornos de ca- Nacional).
della Rivoluzione sociale italiana (de ricatura, mas é suficiente para in- 15 Neste sentido, esta posição es-
1866) y las hojas clandestinas de dicar, exatamente por ser um texto tratégica antecipa e responde a um
actualidad, La Situazione italiana, de de combate, a estrutura clandesti- debate central do movimento revo-
octubre de 1866, y una segunda hoja, na da “Aliança”. lucionário do século XX acerca da
La Situazione, del otoño de 1868. En 10 A idéia de “catecismo” é, pos- “teoria da convivência pacífica”
fin, cartas y esbozos de cartas de sivelmente, uma analogia empre- (com o capitalismo) e do “socia-
1866 y 1867 y otr os materiales gada a partir da religião e da idéia lismo num só país” (tese de Stalin
recogidos muestran un poco de la de um catecismo positivista. Sig- e política oficial da URSS). A po-
vida íntima de esa sociedad interna- nifica (katechismós) instrução, lítica internacional da revolução
cional que s e llama más sob forma de “perguntas e respos- social não comporta a convivên-
frecuentemente la Fraternidad inter- tas”; doutrina elementar que ser- cia pacífica.
nacional”. ve de base para uma religião ou 16 Aluisio Nunes Ferreira, José
8 “A minoria socialista da Liga ciência. Ou seja, o “catecismo re- Dirceu, dentre outros, ilustram a
da Paz e Liberdade tendo separa- volucionário” são os princípios juventude burguesa que passou
do-se daquela Liga como resulta- básicos e imutáveis da organiza- pelas fileiras do movimento revo-
do voto majoritário do Congresso ção e do movimento revolucioná- lucionário, mas que explicitaram
de Berna, a maioria formalmente rio, segundo Bakunin. depois sua face de oportunistas
constituída oposta ao princípio 11 Entendendo-se por isso a exis- democrata-burgueses e contra-re-
fundamental de todas as associa- tência de uma organização revo- volucionários.

24 Nº1- Maio de 2009


O Estatismo na História:
experiência e teoria

Uma das principais formulações nizar-se em função do Estado; 2º) a no: reforma protestante e revo-
do pensame nto ana rquista de tendência à disseminação de uma lução francesa.
Bakunin é a idéia de que o Estado é “doutrina” ou “ideologia” que afirma Bakunin em uma conferência
uma das forças agentes que deter- a necessidade do Estado e da exten- dada aos operários do Vale Saint-
minam as formas de organização da são de suas atribuições, legitimando- Immier, traça dois acontecimentos
sociedade. Logo, o Estado aparece a e glorificando-a; 3º) uma etapa his- para demarcar as origens do Estado-
não somente como um fenômeno tórica em que ao mesmo tempo tais Moderno, Nacional e Burguês:
der ivado da estrutura “Dos hechos históricos,
econômica, mas como um dos revoluciones memorables
fator determinante da estrutu- habían constituido lo que
ra sociedade, inclusive da eco- llamamos el mundo moderno,
nomia. Ao mesmo tempo o el mundo de la civilización bur-
Estado apresenta-se como for- guesa. Uno, conocido bajo el
ma histórica que marca o pró- nombre de Refor ma, al
prio desenvolvimento das so- comienzo del siglo XVI, había
ciedades humanas, desde a an- roto la clave de la bóveda del
tiguidade até a modernidade. edifico feudal, la omnipotencia
A emergência de Estados cada de la iglesia; al destruir ese po-
vez mais vastos e com maio- der preparo la ruina del poderío
res poderes, e a tendência de independiente y casi absoluto
sua expansão, é apontada por de los señores feudales que,
Bakunin como um dos princi- bendecidos y protegidos por la
pais fatores a influenciar histó- iglesia, como los reyes y a
ria da humanidade, inclusive do menudo también contra los
desenvolvimento econômico. reyes, hacían proceder direc-
Nesse sentido, o conceito tamente de la gracia divina; y
de estatismo recobre esta re- por eso mismo dio un impulso
levância e importância atribuí- nuevo a la emancipación de la
da ao Estado enquanto unida- clase burguesa, lentamente
de política, e mesmo não es- preparada, a su vez, durante
tando plenamente sistematiza- los dos siglos que habían pre-
do em Bakunin, sintetiza algu- cedido a esa revolución religio-
mas teses e análises históricas sa, por el desenvolvimiento
do autor que cabe aqui dar sucesivo de las libertades
forma teórica mais acabada. comunales y por el del comer-
A teorização e a crítica do cio y de la industria, que habían
estatismo podem ser defendi- sido a l mismo tie mpo la
das como os principais elemen- Capa do livro O Leviatã de condición y la consecuencia
tos do pensamento sociológi- Thomas Hobbes - 1650 necesaria.” (Bakunin, Confe-
co de Bakunin. O “estatismo” rência, p. 1)
em Bakunin compreende três signifi- tendências sociais e doutrina afirmam- Nesse sentido, a reforma pro-
cados distintos: 1º) a tendência do se e tornam-se dominantes dentro da testante criou as condições necessá-
Estado-Nacional moderno estender sociedade. É a definição de tal con- rias para a derrocada do feudalismo
de forma “geométrica” suas funções ceito a partir da obra de Bakunin que e declínio do poder da Igreja. O de-
e atribuições, tanto social como iremos realizar adiante. senvolvimento comercial nos séculos
territorialmente, e da sociedade orga- 1. A Origem do Estado Moder- XIV e XV teriam exatamente possibili-

- Uma revista de teoria Anarquista 25


tado as condições econômicas e so- institucionais da idade média: o Esta- a emergência da autonomia do Esta-
ciais da reforma, que foram seu do deixa de ser um instrumento da do Moderno transformou também o
corolário político e ideológico e ao Igreja e esta passa a ser um instru- papel da burguesia.
mesmo tempo expressão final dessas mento do Estado. A teoria do direito “Por la Reforma, la burguesía se
transformações. divino dos reis quebra a antiga medi- había visto completamente libertada
E Bakunin complementa: ação do papado e do clero e funda de la tiranía y del saqueo de los
“De esa revolución surgió un assim a autonomia do Estado e dá señores feudales, en tanto que ban-
nuevo poder, que todavía no era el legitimidade ao absolutismo. A didos o saqueadores independientes
de la burguesía, sino el del Estado redefinição do papel da Igreja e dos y privados; pero se vio entregada a
monárquico constitucional y aristo- Estados, o deslocamento do poder una nueva tiranía y a un nuevo
crático en Inglaterra, monárquico, do clero para a nobreza real, indica saqueo y en lo sucesivo regulariza-
absoluto, nobiliario, militar, burocráti- mudança nas relações de classe. dos, bajo el nombre de impuestos
co sobre todo en el continente de O Estado, o estatismo, surge as- ordinarios y extraordinarios del Esta-
Europa, a no ser dos pequeñas sim das ruínas da feudalidade, reali- do (…) Esa transición del despojo feu-
republicas, Suiza y los Países Bajos. zando ao mesmo tempo a centraliza- dal al despojo mucho más regular y
(…) Examinemos las relaciones de las ção política na figura do re i e mucho mas sistemático del Estado
clases, la situación política y social, institucionalizando a doutrina do ab- pareció satisfacer primero a la clase
después de la Reforma. “ (Ibid) solutismo que se torna o fundamen- media. Hay que conceder que fue
Dessa forma vemos que a re- to do Estado Monárquico, primeira primero para ella un verdadero alivio
forma protestante e religiosa, é o mar- forma de manifestação do estatismo. en su situación económica y social.
co do surgimento de um novo po- Ao mesmo tempo surge uma razão Pero el apetito acude comiendo, dice
der e de um novo sistema político; o de Estado e um culto do Estado, que el proverbio. Los impuestos del Esta-
poder do Estado – constitucional e legitima tal processo. Mas essa trans- do, al principio ta n modestos,
absoluto – e de um sistema de Esta- formação e deslocamento de pode- aumenta ron cada año en una
dos em toda a Europa. Esse novo res não se encerram com a reforma proporción inquietante, pero no tan
poder que surgiu é exatamente o do religiosa, mas outros processos e formidable, sin embargo, como en los
estatismo. acontecimentos seriam fundamen- Estados monárquicos de nuestros
Na realidade, a reforma religiosa do tais, especialmente a mudança nas días. (Ibid).
século XVI tem um duplo efeito: rea- relações de classe que afetariam o Nesse sentido, a redefinição do pa-
liza um deslocamento do poder próprio desenvolvimento do pel da burguesia – categoria social
econômico, do poder político e da pró- “estatismo” enquanto força históri- existente desde período do feudalis-
pria forma de legitimação do poder, ca. mo, se dá pela sua emancipação re-
de maneira que surgem outras teori- lativa do jugo do senhor feudal e sua
as de legitimação da autoridade. A 2. O “caráter de classe” parti- subordinação ao Estado centralizado
Igreja e os sacerdotes eram os “ver- cular do Estado-Moderno e ao Rei. Além disso, certas liberda-
dadeiros senhores da terra e os direi- Como conseqüência direta da re- des políticas antes concedidas à bur-
tos dos reis e imperadores derivavam forma religiosa e da centralização do guesia foram eliminadas. Antes da
do consentimento da Igreja”. A luta Estado, mudanças ocorreram nas re- Reforma Religiosa, a Burguesia era a
dos Estado contra a Igreja caracteri- lações de classe e fundamentalmen- aliada “preferencial” dos Reis e do
zou o final da idade média: te, uma absorção dos antigos senho- Estado na sua luta contra a Igreja e
“La Reforma puso un termino a res e nobreza feudais como funcio- os senhores feudais (nobreza), mas
esa lucha a l pr ocla mar la nários dentro da burocracia estatal. depois da reforma a burguesia per-
independencia de los Estados. El “Todas las funciones militares y civiles deu essa sua “função” e teve vários
derecho del soberano fue reconocido del Estado, a excepción de las me- benefícios anteriormente concedidos
como procedente inmediatamente de nos importantes, fueron ocupadas pelo monarca, eliminados. Assim, a
Dios, sin la intervención del Papa y por nobles. Las cortes de los grandes Burguesia foi colocada numa condi-
de cualquier otro sacerdote, y natu- y las de los mas pequeños monarcas ção de inferioridade quando compa-
ralmente, gracias a ese origen celes- de Europa se llenaron con ellos. Los rada com os estratos da nobreza e
te, fue declarado absoluto. Es así más grandes señores feudales (…) se do clero, que ocuparam os postos da
como sobre las ruinas del despotis- transformaron en los criados titulares administração do Estado. O poder de
mo de la Iglesia fue levantado el edificio de los soberanos”. (Id., p.2) Estado estava então associado a uma
despotismo monárquico. La iglesia, Logo, o deslocamento de pode- classe nobiliárquica e clerical.
después de haber sido ama, se res não implicou no desaparecimen- Nessa nova configuração das re-
convirtió en sirviente del Estado, en to dos estratos dominantes do feu- lações de poder, a burguesia, o
su instrumento de gobierno en ma- dalismo, mas sim na sua inserção su- campesinato e os trabalhadores ur-
nos del monarca.” (Ibid) bordinada dentro do novo poder que banos ocupavam uma posição de
Dessa maneira, a emergência do se formava, digamos que houve uma subalternidade na estrutura de clas-
novo poder se caracteriza por uma nova hierarquização da nobreza den- ses da sociedade. Surge paralelamen-
inversão e mudança das relações tro do Estado Moderno. Além disso, te uma “moral de estado”, que colo-

26 Nº1- Maio de 2009


ca o Estado como “fim” das ações to popular. Entretanto, segundo el gobierno político burgués. (Id.,
dos súditos. Bakunin, a contradição econômica p.13).
Essa estrutura de classes que entre a burguesia e os trabalhadores Do ponto de vista das ideologias
acompanhou a emergência do Esta- ficando ocultada temporariamente e mentalidades, o domínio burguês se
do Moderno engendrou então uma por uma série de fatores. expressa sob uma nova forma de
contradição de interesses entre a bur- “Os dije la última vez cómo la pensamento: o individualismo literá-
gue sia, o prole tariado e o burguesía, sin tener completamente rio, político e econômico. A “teoria do
campesinato de um lado, e a nobre- conciencia de sí misma, pero en par- contrato social” e da competição en-
za e o clero de outro lado. A revolu- te también y al menos en una cuarta tre os indivíduos, e toda a teoria dos
ção francesa marcaria então uma parte, conscientemente, se ha servi- filósofos liberais irá coroar esse domí-
outra etapa no desenvolvimento do do del brazo poderoso del pueblo nio político. Num certo sentido, é por
estatismo e que daria sua forma defi- durante la gran revolución de 1789- isso que Bakunin identifica a teoria in-
nitiva. 1793 para asentar su propio poder dividualista dos contratualistas como
“Los dos siglos que separan a las sobre las ruinas del mundo feudal. teoria essencialmente estatista (ver
luchas de la Reforma religiosa de las Desde entonces se ha convertido en Federalismo, Socialismo e Anti-
de la gran Revolución fueron la edad la clase dominante. Erróneamente se teologismo).
heroica de la burguesía. Convertida imagina que fueron la nobleza emigra- Um elemento fundamental então
en poderosa por la riqueza y la da y los sacerdotes los que dieron el é que o Estado Moderno, nacional,
inteligencia, atacó audazmente todas golpe de Estado reaccionario de centralizado, estaria associado a uma
las instituciones respetadas por la termidor, que derribó y mato a estrutura de classes caracterizada
iglesia y del Estado. Minó todo, Robespierre y a Saint Just y que pela exploração do trabalho e pela
primero, por la literatura y por la criti- guillotinó y deporto a una multitud de profunda desigualdade econômico-
ca filosófica; mas tarde lo derribo todo sus partidarios.” (Id., p.11). social, e pelo seu desenvolvimento
por la rebelión franca. Es ella la que A revolução francesa marca senão burguês. Seja na primeira fase histó-
hizo la revolución de 1789-1793. Sin a completa ascensão da burguesia a rica de desenvolvimento do
duda no pudo hacerlo más que condição de classe dominante, pelo estatismo, entre os séculos XV-XVII,
sirviéndose de la fuerza popular.; pero menos a irreversibilidade do proces- seja na segunda, entre XVIII e XIX,
fue la que organizó esa fuerza y la so de Ascenso da burguesia a condi- seja sob a exploração do campesinato
dirigió contra la iglesia, contra la rea- ção de classe dominante. Mas seria pela nobreza, ou do proletariado pela
leza y contra la nobleza. Fue ella la que somente no século XIX que tal domí- burguesia, o que caracteriza o
pensó y tomó la iniciativa de todos nio burguês se consolidaria na maior estatismo é sua tendência de garan-
los movimientos que ejecutó el parte dos países da Europa. tir e se viabilizar pela exploração do
pueblo. La burguesía tenía fe en sí “De 1830 data verdaderamente la trabalho. Nesse sentido, é preciso
misma, se sentía poderosa porque dominación exclusiva de los intereses apresentar a relação do estatismo
sabía que tras ella, con ella, tenía al y de la política burguesa en Europa, com a economia.
pueblo.” (Id., p.5). sobre todo en Francia, en Inglaterra,
A burguesia cumpriria seu papel en Bélgica, en Holanda y en Suiza. En 3. A Relação com a “Econo-
revolucionário graças a sua aliança otros países, tales como Alemania, Di- mia”: expansão marítima e re-
necessária com o campesinato e a namarca, Suecia, Italia y España, los pressão da força de trabalho.
plebe operária. A burguesia atuou en- intereses burgueses habían prevale- A relação do desenvolvimento do
quanto força dirigente do movimen- cido sobre todos los demás, pero no Estado com a economia será analisa-
da por Bakunin em seu livro
“Estatismo e Anarquia” em que fica
nítido que o estatismo estaria articu-
lado com o capital, e dialeticamente,
o capital ao estatismo. Essa articula-
ção teria uma materialização históri-
ca particular, de maneira que o Esta-
do Burguês, amparado no capital
monopolista, seria a forma mais aca-
bada do estatismo.
“Esta reação nada mais é senão a
realização acabada do conceito anti-
popular do Estado moderno, o qual
tem por único objetivo a organiza-
ção, na mais vasta escala, da explo-
ração do trabalho, em proveito do ca-
pital, concentrada em pouquíssimas
Intervenção do Estado na Greve da CSN de 1988 mãos (...) A indústria capitalista e a

- Uma revista de teoria Anarquista 27


especulação bancária modernas ne- tuindo na realidade no único Estado ponente econômico essencial do Es-
cessitam, para se desenvolverem em soberano da Europa, e num certo tado Moderno, que constitui parte
toda a amplitude desejada, destas sentido, num protótipo daquilo que fundamental do seu poderio. A análi-
grandes centralizações estatais, que, se poderia chamar de estatismo. A se de Bakunin do Ascenso da Alema-
sozinhas, são capazes de submeter à competição entre os Estados, ali- nha no século XIX mostra sua busca
sua exploração os milhões e milhões mentadas pela lógica da economia incessante por se tornar hegemônica
de proletários da massa popular.” capitalista, levaria então a formação no mar Báltico, neutralizando a
(Bakunin, 2003, p. 35). da supremacia do Império, que Rússia, e como o poderio da Ingla-
Nesse sentido, existe uma dialética seria um outro elemento componen- terra estava associado exatamente
geral entre economia e política, e te da idéia do estatismo. A repres- ao desenvolvimento de uma marinha
uma dialética mais particular entre a são e controle da força de trabalho mercante e o controle de rotas co-
tendência centralizadora dos poderes é assim um dos principais papeis merciais. Assim, a propensão ao do-
do Estado moderno, o autoritarismo, econômico do Estado moderno. mínio dos Impérios, levava que esses
com a tendência de centralização Mas o principal desdobramento impérios se tornassem também ma-
monopólica de capitais na grande in- dessa articulação e lógica de concor- rítimos, no sentido do controle das
dústria em grandes bancos e grandes rência entre os Estados está na rela- rotas comerciais marítimas.
empresas industriais. Há uma corres- ção de controle não somente dos Assim, a r elação orgânica e
pondência entre centralização de territórios e da força de trabalho (po- dialética do estatismo com a eco-
poderes e concentração de capi- pulação), mas dos mares e portos e nomia capitalista, dada a partir da
tais. navegação comercial. repressão da força de trabalho, mas
“...a sociedade só pode constituir e “É um axioma bem conhecido também e especialmente pelo contro-
permanecer um Estado se ela se trans- que nenhum Estado pode elevar-se le das rotas marítimas e comerciais,
forma em Estado conquistador. A mes- ao nível de grande potencia, se não fazendo do Estado não somente uma
ma concorrê ncia que , no pla no possuir vastas fronteiras marítimas, unidade territorial, mas também, ul-
econômico, esmaga e devora os pe- que lhe assegurem comunicações tramarina. Essa então é uma outra
quenos e até mesmo os médios capi- diretas com o mundo inteiro e lhe característica do estatismo, desen-
tais, estabelecimentos industriais e pro- permitam tomar parte, sem interme- volvido sob a égide do Estado Mo-
priedades fundiárias e casas de comér- diário, na evolução do mundo, tan- derno e sob impulso da economia ca-
cio, esmaga e devora os pequenos e to material quanto no plano social, pitalistas.
médios Estados, em proveito dos Im- político e moral. (...) A estas condi- “Eis o resultado inevitável do sis-
périos. Doravante, todo Estado que ções vêm-se somar, por necessida- tema capitalista de monopólios, que,
não se contentar em existir no papel e de, a navegação e o comércio marí- em todos os lugares, e sempre,
pela graça de seus vizinhos, pelo tem- timo, porque as comunicações pelo acompanha os progressos e a expan-
po que estes quiserem tolerar, mas de- mar, em razão de seu baixo custo são da centralização estatista. O ca-
sejar ser um Estado real, soberano, in- relativo, se sua rapidez, assim como pital privilegiado e concentrado em
dependente, deve ser necessariamen- de sua liberdade, uma vez que o mar pouquíssimas mãos tornou-se, pode-
te um Estado conquistador”. (Id., p. não pertence a ninguém, são supe- se dizer hoje, a alma de todo Estado
35). riores a todos os meios de comuni- (...), que , financiado por ele e por ele
Um outro elemento fundamental cação conhecidos, inclusive, é evi- apenas, lhe assegura em retorno o
dessa dialética entre economia capita- dente, as ferrovias. Pode acontecer direito ilimitado de explorar o traba-
lista e estatismo é a concorrência que que um dia a navegação área se re- lho de todo o povo.” (Id, p. 228).
preside também as relações internaci- vele ainda mais cômoda sob todos Mas além dessa relação com eco-
onais entre os Estados. Dessa manei- os aspectos e adquira uma impor- nomia, Bakunin aponta ainda para fa-
ra a tendência é a formação de uma tância particular (...) A Roma Antiga tores internos ao próprio Estado, tan-
hierarquização de “Estados” e a trans- só foi um estado poderoso, mundi- to da sua constituição interna quan-
formação dos pequenos e médios Es- al, a partir do momento em que se to da sua forma (forma de governo
tados em Satélites do Império (do Es- tornou um Estado marítimo” (Id., ou regime político) que são funda-
tado moderno hegemônico numa de- pp. 118-119). mentais para o desenvolvimento do
terminada configuração histórica, da Nesse sentido, o controle de ter- estatismo. São estes fatores que ire-
mesma forma que na economia a con- ritórios estratégicos, vitais para a mos analisar.
corrência leva ao monopólio). existência do Estado, se definem
O livro “Estatismo e Anarquia” é de- também pelas necessidades e impo- 4. A Centralização Burocráti-
dicado à análise da formação de uma sições do comercio exterior, realiza- co-Militar e o caráter secundário
nova hegemonia na Europa, com a do – até hoje – fundamentalmente das “Formas do Estado”
queda do poderio do Estado francês através da marinha mercante, ape- Para entender as tendências
e a disputa entre Rússia e Alemanha sar da importância adquirida pela na- verificadas dentro no desenvolvimen-
para a ocupação do lugar de “potên- vegação aérea. Logo, o controle do to do Estado, é preciso identificar qual
cia maior” no continente. Bakunin pre- complexo território/mares/portos/ é o seu princípio e quais as condições
vê que a Alemanha estava se consti- rotas comerciais se torna um com- de sua existência num sistema inter-

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nacional de Estados. O Estado-Naci- como os interesses de toda a huma- Knuto-Germânico” e “A Situação Po-
onal é necessariamente conquistador. nidade. A doutrina imperialista norte- lítica da França”). O primeiro argu-
O “Império” é o Estado-Nacional americana da “democracia como va- mento para sustentar o caráter se-
hegemônico em relação os demais no lor universal” no inicio do século XXI cundário da forma do Estado diz res-
sistema de Estados, aquele que de- é um perfeito exemplo da manifesta- peito a sua relação com economia
tém a supremacia política e militar. ção atual dessa tendência. capitalista, já que:
Um elemento fundamental do E aqui chegamos a uma outra ca- “O ideal dos burgueses é em to-
estatismo é sua tendência militarista racterização decisiva do Estado Mo- das as partes invariavelmente o mes-
e conquistadora. Dessa maneira, a vi- derno: a tendência ao desenvolvimen- mo: o sistema representativo liberal,
olência, a autoridade e a força, são to da polícia e do exército permanen- constituído em monarquia constitu-
os principais mecanismos de opera- tes, de um lado, e da burocracia, de cional ou ainda em republica federal,
ção e de constituição dos Estados. outros. E isso está relacionado aos ins- como nos EUA e Suíça; isto é, nome-
“O Estado moderno, por sua es- trumentos de Estado, identificados ando as coisas por seu nome, a liber-
sência e pelos objetivos que se fixa, é por Bakunin: dade política real para as classes po-
por força um Estado militar, e um Es- “Para exercer eficazmente os po- derosas, fictícia para as massas po-
tado militar está condenado, não me- deres de Estado, é preciso ter em pulares e fundada sob a subordina-
nos obrigatoriamente, a se tornar um mãos uma potencia, não fictícia, mas ção econômica destas últimas” (Id.,
Estado conquistador; se ele próprio real; é preciso ter a plena disposição p. 293).
não se lançar à conquista, será con- de todos os instrumentos de Estado. Mas não podemos nos enganar,
quistado, pela simples razão de por Quais são esses instrumentos? Primei- supondo que o argumento se reduz
toda parte onde q força existe, é pre- ramente, um exército numeroso, a sua dimensão econômica. Na reali-
ciso que ela se mostra ou aja.... o Es- bem organizado, armado, disciplina- dade, diz respeito também ao proble-
tado moderno, militar por necessida- do e alimentado, e sobretudo bem ma da eficácia e das necessidades in-
de, traz em si a irresistível aspiração a dirigido. Logo, um pressuposto bem ternas da dominação estatal:
tornar-se um Estado universal; mas equilibrado, bem administrado e rico, “... a indústria capitalista e a espe-
um Estado universal, sem duvida qui- um credito capaz de bastar a todos culação bancária acomodam-se mui-
mérico, só poderia em todo caso ser os gastos extraordinários que se fize- to bem com a democracia dita repre-
único (...) A hegemonia nada mais é rem necessários pela situação parti- sentativa, pois esta estrutura moder-
senão a manifestação tímida e possí- cular do país. Enfim, uma administra- na do Estado, fundada na pseudo-
vel desta aspiração quimérica ineren- ção honesta, abnegada, inteligente e soberania da psudovontade do povo,
te a todo o Estado; a impotência re- ativa.” (Bakunin, 1980, p. 268). pretensamente expressa por falsos
lativa ou pelo menos a sujeição de to- Ou seja, o desenvolvimento da representantes do povo em pseudo-
dos os Estados vizinhos, é a condi- “burocracia” ou da administração era assembléias populares, reúne as duas
ção primeira da hegemonia. Assim, uma exigência do processo de desen- condições previas que lhes são ne-
enquanto durou a hegemonia da volvimento do Estado, que para ser cessárias para atingir seus fins, isto é,
França, teve como condição a impo- forte, precisa fortalecer seus instru- a centralização estatal e a sujeição
tência nacional da Espanha, da Itália mentos administrativos, policiais-mili- efetiva do povo soberano à minoria
e Alemanha...” (Id, pp. 36-37). tares e também o seu orçamento. O intelectual que o gover na...”
Daí decorre que “ser um Estado desenvolvimento da repressão e bu- (Bakunin, 2003, p. 36).
conquistador, significa manter subju- rocracia são assim os pilares do de- Nesse sentido, a democracia re-
gados pela violência muitos milhões senvolvimento do estatismo. presentativa mantém a concentra-
de indivíduos de uma nação estran- A Democracia torna-se a Forma ção de poder decisório, da autorida-
geira”, “significa o sacrifício da liber- Preferencial do “Estado” para dar le- de, verificadas nas grandes monar-
dade e bem estar do povo trabalha- gitimidade à exploração e domina- quias e impérios. E mais, como qual-
dor” (Id, pp. 66-67). Nesse sentido, ção. A tendência da “Democracia” ser quer outro Estado, os Estados De-
a violência se torna o principal instru- a forma acabada do “estatismo” que mocráticos precisam fortalecer atra-
mento de uma dominação simul- recobre a centralização e a violência. vés do exército e da administração,
taneamente nacional e de classe. Nesse sentido, quando considera- ampliando-os de acordo com sua
Poderíamos dizer ainda que a idéia mos o desenvolvimento do Estado capacidade e posição no sistema in-
do Estado Universal, o “Império”, é pelos seus aspectos principais – o ternacional de Estados. Quanto mai-
uma outra forma da ideologia estatista principio do Estado e seus instrumen- or a posição hierárquica, mais a de-
de legitimação do Estado. E dizer que tos – vemos que na realidade a “for- mocracia pode se ajustar a regimes
da mesma maneira que acontece nas ma” do Estado (regime ou forma de de acumulação capitalista e ao mes-
relações internas de uma sociedade governo) são importantes, mas se- mo tempo ao militar ismo e
o Estado serve para apresentar os in- cundárias em uma série de sentidos. autoritarismo.
teresses da classe burguesa como os Essa apreciação de Bakunin acerca da De outro lado, a própria luta de
interesses de toda a sociedade, por forma do Estado se encontra disper- classes determina o valor – relativo –
meio do Império uma burguesia par- sa em alguns dos seus principais livros e não absoluto da democracia para a
ticular apresenta os seus interesses (“Cartas a um Francês”, “O Império burguesia:

- Uma revista de teoria Anarquista 29


“Logo que as aspirações e as idéi- e sociais, como as transformações do mocracia, que não elimina nem o
as contrárias começam a penetrar feudalismo, expansão comercial, que caráter centralizador, nem policial-mi-
nas massas (...) O liberalismo político antecederam e possibilitaram a refor- litar, nem conquistador do Estado
dos burgueses desaparece e não fal- ma religiosa. moderno em sua foua quistador do
tando em si mesmo os meios nem a Enquanto etapa histórica, a idéia Estado moderno em f, nemtatismo
força para reprimir as massas, imo- de estatismo recobre duas tendênci- seria a drma capitalista.
lando-se em beneficio da conserva- as distintas; em primeiro lugar, e de Ao mesmo tempo, existe uma di-
ção dos interesses econômicos da maneira fundamental, a relação de nâmica entre Democracia e Ditadura
burguesia, deixo o posto a ditadura correspondência ou dialética entre que é determinada pela luta de clas-
militar” (Bakunin, 1980, p.293). centralização estatal e monopolismo ses e pela revolta e resistência políti-
Isto porque, a análise do Estado econômico, de maneira que uma ali- ca do proletariado. A Ditadura Militar
Moderno ignora o estatismo como menta e reforça a outra. É impossível se apresenta como fórmula mais ade-
um conjunto de tendências políticas então pensar o estatismo sem pen- quada para resolver as contradições
e organizacionais, como expostas an- sar o aumento das taxas de explora- de classe numa determinada situação
teriormente: ção e das formas de extração de mais histórica, mas a Democracia se colo-
“Ignoram que o despotismo não valia absoluta. Ao mesmo tempo, essa ca como forma mais adequada ao
está tanto na forma do Estado ou do dialética centralização/monopólio é monopólio e a centralização. O
poder, como no principio do Estado expressão e conseqüência do caráter estatismo tem uma tendência de
e do poder político, e que, por con- que o Estado Moderno assumiu com apresentar-se em sua forma moder-
seguinte, o Estado republicano deve o desenvolvimento do estatismo, ou na e burguesa, pela forma de Demo-
ser tão despótico como o Estado go- seja, um caráter burguês (apesar de cracia, o que não elimina nenhum
vernado por um Imperador ou por que nas suas primeiras manifesta- dos traços característicos e essenci-
um Rei” (Bakunin_2, 1980, p. 95). ções, houve um “estatismo” relacio- ais do estatismo definidos acima. A
Assim, há uma tendência ao au- na do a uma cla sse dominante Ditadura é sempre um dispositivo es-
mento progressivo e contínuo da nobiliárquica e clerical). tratégico sacado de acordo com a
centralização estatal, autoritária, Decorre desse caráter burguês do luta de classes. Enfim, a forma do
burorático-militarista, da extensão dos Estado capitalista e da economia, que Estado é secundária em relação aos
trabalhadores improdutivos que em- o próprio sistema de Estados se pau- traços essenciais do estatismo, que
prega, das forças armadas, do milita- te numa competição entre os Esta- aume ntam a centra lização e o
rismo e da repressão policial, indepen- dos pela hegemonia, e mesmo pela monopolismo graças e através da
dentemente da forma do Estado – supremacia, que caberá sempre ao Democracia, e não contra ela.
monárquica ou republicana, demo- Estado mais vasto, que conseguir O conceito de estatismo pode ser
cracia ou ditadura. E para a burgue- controlar territórios(comércio exteri- assim empregado para análise das
sia, a opção entre democracia e dita- or), mares e povos. A centralização transformações políticas, mas espe-
dura é condicionada pela possibilida- de poderes no Estado levará também cialmente a dinâmica política das so-
de maior ou menor de eclosão da re- no sistema de Estados a uma centra- ciedades capitalistas, apreendendo as
volução social. Quer dizer, a analise da lização de maiores poderes nos mai- tendências que surgem de proces-
forma do Estado tem de ser realizada ores Estados, que assumirão então a sos aparentemente contraditórios de
sempre em face do estágio em que forma de Impérios – que se torna o disputa entre os Estados e de forma-
se encontra a luta de classes. conceito para exprimir e descrever ção de hegemonias.
Para concluir, devemos compre- Estados que são potências militares e _______
ender que o conceito de estatismo geopolíticas. O Império é um tipo par- Notas:
1
designa um processo: o de exten- ticular de Estado que consegue a A analítica histórica de Bakunin vê
são do Estado e formação de uma hegemonia numa região e que dispu- na formação de um “Império Knuto-
“razão do Estado” e de diversas dou- ta a supremacia no sistema mundial Germanico” exatamente a expressão
trinas de sua legitimação (teoria do de Estados. O desenvolvimento do dessa lógica. A supremacia da Fran-
direito divino dos reis, contratualismo, estatismo sempre leva a formação, no ça na Europa sucedida pela da Ale-
na cionalismo). O conce ito de sistema internacional de Estados, pela
manha marca exatamente essa ten-
estatismo supõe uma análise histó- lógica de competição e conquista que
rica em que o Estado Moderno ante- lhe é inerente, de um Império que de-
dência ao estabelecimento do domí-
cede a formação do capitalismo, e a tém a supremacia sobre outros Im- nio de um Império, e subordinação
tomada deste Estado pela Burguesia périos e Estados rivais1. dos demais Estados vizinhos.
2
consolida a transformação econômica Por fim, existe uma outra formu- Especialmente a de que a Demo-
capitalista da sociedade feudal. Por lação associada à noção de estatismo, cracia é uma salvaguarda a centra-
outro lado e dialeticamente, este Es- e que num certo sentido contraria al- lização de poderes e bens,
tado Moderno surgido da reforma gumas formulações clássicas sobre o correspondendo idealmente a socie-
protestante, Estado emancipado da Estado2. A forma do Estado que ten- dade baseada numa classe média, ou
Igreja e que a subordinou, foi condi- deria a melhor se ajustar ao desen-
seja, sem grandes poderes
cionado pelas mudanças econômicas volvimento do estatismo seria a De-
econômicos.
30 Nº1- Maio de 2009
Forças Coletivas e
Classes Sociais:
o funcionamento da economia e
sociedade.
Uma das designações adotadas por um Manuscrito divulgado sob o titulo de de ambos. Notemos que eu deixei de
Bakunin e pelos membros da Aliança dos “O Sistema Capitalista”. O texto se de- considerar a seguinte questão: de que
Socialistas Revolucionários era a de dica a analisar e fazer a crítica do pen- maneira a propriedade e o capital caí-
“coletivistas” (citar Netlau). Essa desig- samento burguês e das noções de “li- ram nas mãos dos presentes proprie-
nação dever ser remetida tanto ao mé- berdade e igualdade” aplicadas às re- tários? Esta é uma questão que, quan-
todo sociológico que toma a noção de lações de classe (no caso dentro do sis- do considerada do ponto de vista da
experiência coletiva como base da tema capitalista, a burguesia e o prole- história, lógica e justiça, não pode ser
análise cientifica, quanto a um outro tariado). A critica do descompasso en- respondida em qualquer outro modo
conceito, que está relacionado à teoria tre a ordem legal burguesa e a ordem além do que serviria como uma acusa-
geral da sociedade e da economia: é social burguesa é o ponto de partida da ção contra os proprietários. Eu me res-
o conceito de “força coletiva” que é tringirei aqui à afirmação de que pro-
empregado em alguns textos de prietários e capitalistas, visto que
Bakunin e que foi formulado teori- como eles vivem não pelo seu tra-
camente por Proudhon. A idéia de balho produtivo mas de extrair ren-
força coletiva está associada à de- da da terra, alugueis, no interesse
finição de uma análise das classes de seu capital, ou pela especulação
sociais e das suas relações. sobre a terra, edifícios e capital, ou
O coletivismo não é então so- pela exploração comercial e indus-
mente um posicionamento trial do trabalho manual do proleta-
programático favorável à proprieda- riado, todos vivem as expensas do
de coletiva, como muitos autores proletariado (especulação e explora-
reconhecem, mas remete a uma ção sem duvida constituem um tipo
teoria acerca do funcionamento da de trabalho, porém um trabalho im-
economia e sociedade, das suas produtivo).” (Bakunin, Manuscrito
bases coletivas em contraposição as Greve dos mineiros Franceses de 1906 Sistema Capitalista).
análises individualistas e seus fun- Aqui vemos que a existência da
damentos cognitivos. Sem partir dessa análise econômica. O argumento então propriedade privada confere o “poder
teoria, é impossível compreender ou é direcionado a critica da visão liberal, e o direito (legal)” de viver da explo-
assumir integralmente o programa de que considera a existência da “liber- ração do trabalho daqueles que não
coletivista. dade e igualdade” de condições nas re- são proprietários nem capitalistas e são
A idéia de força coletiva, nesse sen- lações entre capitalistas e trabalhado- forçados a vender sua força produtiva.
tido, se liga a própria caracterização da res na sociedade moderna. Do ponto do vista metodológico, a criti-
sociedade capitalista, baseada na pro- Dentro da sua critica, o primeiro fato ca aborda a questão apenas da ótica
priedade privada do capital, que engen- a ser identificado como central por da lógica interna gerada pela existên-
dra as relações de exploração do tra- Bakunin para questionar a existência da cia da propriedade privada, deixando de
balho, trabalho realizado especialmen- igualdade e liberdade, é existência da lado o problema histórico da origem da
te sob a forma de forças coletivas. propriedade privada capitalista: propriedade privada. É importante ob-
Faremos agora uma recuperação “O que é a propriedade, o que é o servar que Bakunin associa a proprie-
das principais análises de Bakunin so- capital na sua presente forma? Para o dade privada capitalista enquanto fato
bre a economia capitalista e a proprie- capitalista e o proprietário ela significa econômico ao fato jurídico-político, que
dade privada, para determinar as prin- o poder e o direito, garantido pelo Es- consagra e estabelece as relações an-
cipais teses e conceitos que se articu- tado, de viver sem trabalhar. E desde teriores.
lam com sua teoria do estatismo, des- que nem a propriedade nem o capital N esse tex to f ica nítido um
crita anteriormente. produzem nada quando não fertilizados posicionamento teórico assumido por
pelo trabalho – significa o direito e o Bakunin na polemica existente econo-
1 – “Liberdade e Igualdade” sob poder de explorar o trabalho de todos, mistas, e que se relaciona a origem do
o capitalismo: crítica da proprieda- o direito de explorar o trabalho daque- próprio socialismo como corrente de
de privada e da exploração do tra- les que nem possuem propriedade nem pensamento: ele assume a teoria do
balho. capital e que desse modo são forçados valor trabalho, ou seja, de que a ori-
O texto de Bakunin utilizado aqui é a vender sua força produtiva aos donos gem do valor está no trabalho e não na

- Uma revista de teoria Anarquista 31


“utilidade” de um determinado produ- ploração do “trabalho livre” é baseada igualdade “de mercado”, de que o capi-
to. Isso tem uma série de implicações. na coação e no medo que a existência talista dependeria do “trabalhador” na
A principal é que sendo o trabalho o dessa diferenciação básica e elemen- mesma medida em que o trabalhador
fator gerador do valor, o capital torna- tar em proprietários do capital e tra- do capitalista. A dependência existente
se apenas “valor acumulado” e sendo balhadores vendedores da força de entre trabalhadores e capitalistas não
fator determinado e não determinante. trabalho engendram. A fome, enquanto é recíproca, até porque os trabalhado-
As atividades dos burgueses são defi- pressão material e natural opera em res são subordinado s ao poder
nidas como um tipo particular de tra- favor dessa relação social de explora- econômico do capitalista.
balho, o trabalho “improdutivo” que di- ção, e para Bakunin a coação material Essa igualdade “ideal” e “formal” en-
ferencia a atividade dos capitalistas das é o principal elemento dessa organiza- tre capitalistas e trabalhadores indivi-
atividades do proletariado. ção econômica1 . duais é neutralizada pela lógica da eco-
Bakunin faz uma critica dos princípi- A coação estabelecida então anula- nomia capitalista, pela tendência ao mo-
os básicos da sociedade burguesa mo- ria a idéia do “trabalho livre”, pois exis- nopólio e a concentração de capital:
derna: a igualdade e liberdade. Ele con- tia um diferencial de poder estrutural “Esta igualdade não existe porque
fronta esses princípios liberais e repu- entre trabalhadores e capitalistas que na moderna sociedade onde a riqueza
blicanos com a organização econômica não desapareceria dentro do mercado é produzida pela intervenção do capital
baseada na exploração do trabalho, em razão da leia abstrata e formal da pagando salários ao trabalhador, o cres-
para tentar determinar se essa liber- oferta e da demanda, como vemos: cimento da população excede o cresci-
dade e igualdade são realmente mento da produção, que resulta em
factíveis de um ponto de vista prole- que a oferta de trabalho supera ne-
tário. cessariamente a demanda e conduz
Da ótica econômica e sociológica a relativa queda do nível de salários.
assumida por Bakunin, ele afirma que A produção desse modo constituída,
essas idéias de “liberdade e igualda- monopolizada, explorada pelo capi-
de” não expressam relações concre- tal burguês é empurrada de um lado
tas: pela competição mútua dos capita-
“Deixe-nos mesmo supor, como listas para concentrar sempre mais
está sendo sustentado pelos econo- nas mãos de um sempre diminuto
mistas burgueses e com eles por to- número de poderosos capitalistas ou
dos os legisladores , to dos os nas mãos de empresas de estoque-
adoradores e crentes no direito jurí- comum que devido à fusão de seu
dico, todos os padres do código civil capital, são mais poderosos que os
e criminal – deixe-nos supor que este maiores capitalistas isolados. E os
relacionamento entre o explorador e capitalistas pequenos e médios, não
o explorado é completamente legíti- sendo capazes de produzir ao mes-
mo, que é a inevitável conseqüência, mo preço como os grandes capitalis-
o produto de um a eterna e tas, naturalmente sucumbem numa
indestrutível lei social, todavia será luta mortal). De outro lado, todas as
sempre verdade que a exploração im- empresas são forçadas pela mesma
po ssibilita a igualda de e a competição a vender seus produtos
fraternidade. Sem dizer que ela im- ao preço mais baixo possível. Isto
possibilita a igualdade econômica. Su- (monopólio capitalista) pode ater este
ponha que eu sou seu trabalhador e Trabalhadoras em fábrica Chinesa duplo resultado som ente ao
você é meu empregador. Se eu ofe- exmpulsar sempre crescente nume-
reço o meu trabalho ao mais baixo pre- “Porém – os economistas dizem-nos ro de pequenos e medios capitalistas,
ço, se eu consinto que você viva do meu – os proprietários, os capitalistas, os especuladores, mercadores ou indus-
tra balho, não é certamente por empregadores são do mesmo modo for- triais, dos mundo dos exploradores ao
fraternidade ou devoção a você. E ne- çados a procurar e comprar o trabalho mundo do proletariado explorado, e ao
nhum economista burguês nos desafi- do proletariado. Todavia, é verdade, mesmo tempo extrair sempre maiores
aria a dizer que era porém seu raciocí- eles são forçados a fazer isso, porém economias dos salários do mesmo pro-
nio torna-se ingênuo e idílico quando não na mesma medida. Tinha havido letariado.
eles começa a de falar de afeições re- igualdade entre aqueles que oferecem “De outro lado, a massa do proleta-
cíprocas e relações mútuas que existi- seu trabalho e aqueles que compram, riado, crescendo como um resultado
riam entre empregados e empregado- entre a necessidade de vender traba- geral do aumento da população – que,
res. Não, eu faço isso porque minha e lho à necessidade de comprá-lo, a es- como nos sabemos, nem mesmo a po-
eu morreríamos de fome se eu não tra- cravidão e a miséria do proletariado não breza pode parar efetivamente – e atra-
balhasse para um empregador. Desse existiriam. Porém então nem existiram vés do aumento da proletarização da
modo, eu sou forçado a vender a você capitalistas, proprietários, nem prole- pequena-burguesia, ex-proprietarios,
meu trabalho ao menos preço possível, tariado, nem ricos, nem pobres: seri- capitalistas, mercadores e industriais,
e eu sou forçado a fazer isso pela ame- am somente trabalhadores. É precisa- crescendo como eu tenho dito, em uma
aça da fome”. (Bakunin, Manuscrito mente porque tal igualdade não existe taxa muito mais rápida do que as capa-
Sistema Capitalista). que nós temos e somos limitados por cidades produtivas de uma economia
Acima vemos que na base da rela- exploradores.” (Bakunin, Manuscrito que é explorada pelo capital burguês –
ção de exploração está a “pressão ma- Sistema Capitalista). esta massa crescente do proletariado
terial”, e nesse sentido a relação de ex- O trecho acima critica a noção de é localizada e uma condição onde os

32 Nº1- Maio de 2009


trabalhadores são forçados a uma com- dos de desemprego que freqüente entre senhor e escravo. Juridicamente
petição desastrosa uns com os outros. e cruelmente interrompem seu tra- eles são iguais: porém economicamente
Desde que eles não possuem nenhum balho, como também pelos aciden- economicamente o trabalhador é o ser-
outro meio de existência além de seu tes imprevistos e doenças que vo do capitalista, mesmo antes da
próprio trabalho manual, eles são leva- atingem sua família. Os acidentes transação de mercado ter sido concluí-
dos, pelo medo de verem-se substituí- e doenças que podem alcança-lo da por meios de que o trabalhador ven-
dos por outros, a vendê-lo pelo menor constituem um risco que faz todos de sua pessoa e sua liberdade por um
preço. Esta tendência dos trabalhado- os riscos do empregados nada com- dado tempo. O trabalhador na posição
res, ou ao contrário, a necessidade a parável; por que para o trabalha- de um servo por causa dessa terrível
que eles são condenados por sua pró- dor as doenças podem destruir sua ameaça da fome que diariamente pen-
pria pobreza, combinada com a tendên- habilidade produtiva, sua força de de sobre sua cabeça e sobre sua famí-
cia dos empregadores a vender os pro- trabalho. Sobretudo, a doença pro- lia, forçara-lo a aceitar quaisquer con-
dutos dos seus trabalhadores, e conse- longada é a mais terrível bancar- dições impostas pelos lucrativos cálcu-
qüentemente comprar seu trabalho, ao rota, uma bancarrota que significa los do capitalista, industrial, o empre-
menor preço, constantemente reproduz para ele e seus filhos, fome e mor- gador”.
e consolida a pobreza do proletariado. te”. (Bakunin, Manuscrito Sistema (Bakunin, Manuscrito Sistema
Desde que ele encontra-se em um es- Capitalista). Capitalista).
tado de pobreza, o trabalhador é com- Vemos aqui que a coação se esta- Assim, existe uma condição de su-
pelido a vender seu trabalho por quase belece também pelo processo de tra- jeição do trabalhador enqua nto
nada, e porque ele vende aquele pro- balho, através dos ciclos de desempre- individuo e enquanto classe diante de
duto por quase nada, ele afunda-se go, das doenças e acidentes de traba- capitalista que atua como um agente
sempre uma pobreza maior.” (Bakunin, lho, que constituem para o trabalhador “livre”.
Manuscrito Sistema Capitalista). uma verdadeira camisa-de-força sócio- A analogia do capitalismo com o
A “coação” engendrada por fatores econômica. O desemprego é agravado escravismo e o feudalismo não é gra-
naturais (como a fome) combina-se com pela impossibilidade de poupança, e es- tuita. O problema da liberdade na soci-
a “coação” gerada por fatores sociais ses fatores colocam o trabalhador numa edade capitalista é então visto de uma
(como a competição entre proletários permanente situação de perspectiva dialética: a propriedade
no mercado de trabalho). Isso é conse- vulnerabilidade. privada do capital engendra a liberda-
qüência de uma tendência do cresci- Essa imobilização ou aprisionamen- de de ação do capitalista e ao mesmo
mento populacional, associado à expan- to econômico da força de trabalho é tempo a sujeição (“escravização”, “ser-
são capitalista, que leva a um contraposta pela “liberdade do capital”. vidão”) do trabalhador.
desequilíbrio entre a taxa de oferta Liberdade de movimentação entre di- Nesse sentido, a “liberdade” do tra-
da força de trabalho e a taxa de ferentes ramos da economia. balhador é anulada pela existência da
demanda de força de trabalho, que “Se, como uma conseqüência das propriedade privada capitalista e pelas
leva a diminuição progressiva da taxa circunstancias particulares que constan- relações de classe a ela associada. A
dos salários. temente influenciam o mercado, o ramo sujeição do trabalhador é então abso-
De outro lado, a competição capita- da indústria em que ele primeiro luta dentro das relações econômicas, o
lista leva a uma proletarização crescen- planejou aplicar seu capital não ofere- que implica também um tipo de depen-
te de setores pequeno-burgueses e o cem todas a vantagens que ele espera- dência política, uma vez que o capita-
aumento da competição gerado pelo va, então ele ira mudar seu capital para lista tem um poder de comandar o cor-
aumento da oferta, cria uma segunda qualquer lugar; desse modo o burguês po e as ações do trabalhador.
pressão depreciativa sobre os salários, capitalista não é ligado por natureza a “É uma vez o contrato tendo sido
que combinada com a primeira, leva ao qualquer industria especifica, porém ten- negociado, a servidão dos trabalhado-
aumento da pobreza. Podemos falar de a investir (como é dito pelos econo- res é duplamente aumentada; ou colo-
estabelece a tese de que na economia mistas – explorar é o que o nos dize- cando melhor, antes do contrato ser ne-
capitalista, existe uma tendência a ta- mos) indiferentemente em todas as gociado, guiado pela fome, ele e so-
xas crescentes de oferta de força industrias possíveis. Deixe-nos supor, fi- mente potencialmente um servo; depois
trabalho e uma tendência decrescen- nalmente, que aprendendo de alguma de negociado, ele torna-se um servo de
te da demanda da força de trabalho e incapacidade ou infortúnio industrial, ele fato. Porque ele se vendeu como mer-
dos salários. Essa tendência dissolve decide não investir em uma dada in- cadoria a seu empregador? Isto é seu
completamente a idéia de “trabalho li- dústria; ele comprará estoques e anui- trabalho, seus serviços pessoais, as for-
vre e igualdade” na economia capitalis- dades; e se o interesse e dividendos ças produtivas de seu corpo, mente e
ta moderna2 . parecem insuficientes, então lê se espírito estão nele e são inseparáveis
Os demais argumentos demonstram engajará em alguma ocupação, ou nos de sua pessoa – isto é por essa razão
a inexistência de relações de “liberda- dizemos, venderá seu trabalho por um em si próprio. A partir de então, o em-
de” entre as classes sociais, exatamente tempo, mas em condições muito mais pregador o observará, quer diretamente
por conseqüência da inexistência da lucrativas do que ele tinha oferecida a ou por meio de feitores; todo dia du-
“igualdade” na relação capital-trabalho seus próprios trabalhadores. rante horas de trabalho e sob condi-
no mercado. A ausência de liberdade O capitalista então vem ao mercado ções controladas, o empregador irá ser
do trabalhador é produzida por meca- na capacidade, se não de um agente o proprietário de suas ações e movi-
nismos especificamente econômicos: absolutamente livre, pelo menos de um mentos. Quando ele diz: Faça isso, o
“Se acontece algumas vezes agente infinitamente mais livre do que trabalhador é obrigado e fazer; ou ele
que o trabalhador faz uma peque- o trabalhador. O que acontece no mer- diz: Vá lá, ele precisa ir. Não é isto que
na poupança, ela é rapidamente cado é uma reunião entre um (agente) é chamado de servo?” (Bakunin, Ma-
consumida pelos inevitáveis perío- dirigido pelo lucro e outro pela fome, nuscrito Sistema Capitalista).

- Uma revista de teoria Anarquista 33


O “contrato” (que é na visão bur- pulares. Se sirve de la fuerza colec- (Proudhon, 1988, p. 4). Logo, a formu-
guesa a expressão de um ato livre) é tiva de todo el mundo para asegurar lação original do conceito de força
para Bakunin o que materializa a sujei- la dicha, la prosperidad y los privilegios co letiva s e inscreve também
ção integral do trabalhador. O contrato de algunos, en detrimento del derecho diretamente no debate acerca das de-
torna efetivo o potencial controle exer- humano de todo el mundo. Es un sigualdades sociais e sobre a origem
cido pelo capitalista sobre o corpo, establecimiento en que la minoría da propriedade (privada). Proudhon for-
mente e ações do trabalhador em de- desempeña el papel de martillo y la mula então uma critica da “proprieda-
terminadas horas do dia todos dias de mayoría forma el yunque.” (Bakunin, de” como fundamento (econômico, le-
trabalho. Nesse sentido, a propriedade Conf., p.4). gal e ideológico) da desigualdade soci-
privada capitalista engendra ao mesmo Mas para entender a idéia de força al entre as classes.
tempo a exploração e dominação, con- coletiva, é preciso entender o lugar e o A critica de Proudhon é dirigida para
trole e coação dos trabalhadores pelos significado da categoria trabalho para os argumentos econômicos e filosófi-
capitalistas. O “trabalho livre” e a “igual- Bakunin e para Proudhon. Em termos cos que fundamentam o direito de pro-
dade perante a lei” não são senão uma econômicos o trabalho é o fator criador priedade: especialmente a teoria de a
outra forma histórica de dominação. do valor:“Os capitais, as ferramentas e propriedade seria um “direito natural”
Há uma relação de dependência e as máquinas são igualmente improdu- e tem origem na “ocupação imemorial”
subordinação do trabalhador enquanto tivos. O martelo e a bigorna,sem fer- ou que a propriedade tem “origem no
individuo e classe em relação aos capi- reiro e sem ferro, não forjam: o moi- trabalho4 ”. Assim, ele analisa as teori-
talistas, que se apresentam como úni- nho, sem moleiro e sem trigo, não as de explicação e legitimação da pro-
cos agentes “livres” – sendo essa liber- mói,etc. Colocai juntas as ferramentas priedade, que a fazem derivar de um
dade relativa expressão do exercício da e as matérias primas; lançai um arado trabalho “individualizados” e da diferen-
coação e controle sobre os trabalhado- e sementes num solo fértil; montai uma ças de “capacidades individuais”.
res. As relações de classe na economia forja, acendei o fogo e fechai a oficina, É pela critica a teoria da proprieda-
capitalista assim expressam a sujeição nada produzireis.” (Proudhon, ibdem, p. de como originada do “trabalho” que
econômica e política do proletariado di- 145). No sentido econômico, o trabalho Proudhon formula e define o conceito
ante da burguesia. A liberdade e a igual- é atividade produtiva e criativa. Somente de força coletiva. A idéia de força
dade sob o capitalismo são apenas for- o trabalho transforma a natureza e o coletiva visa apreender a contradição
mas da exploração3 . mundo material. Dessa posição teóri- entre o processo de trabalho e a pro-
Dessa maneira, o problema social ca, chega-se a um posicionamento po- priedade privada:
central da sociedade moderna, identifi- lítico filosófico: tomando o trabalho “O capitalista, diz-se, pagou as di-
cado por Bakunin, é a propriedade pri- como atividade, a classe trabalhadora árias dos trabalhadores; para ser exato,
vada, que enquanto fato econômico en- (ou a classe dos que realizam atividades é preciso dizer que o capitalista pagou
gendra relações de classe que expres- produtivas, através de ocupações ma- uma diária tantas vezes quantos traba-
sam formas de exploração e domina- nuais e intelectuais) passa a ser depo- lhadores empregou por dia, o que não
ção política. sitária de um poder fundamental, que é a mesma coisa. Pois a força imensa
não condiz com sua situação de misé- que resulta da união e harmonia dos
2 – O trabalho e significado do ria, subordinação política e desprestigio. trabalhadores, da convergência e simul-
conceito de força coletiva. Há assim uma posição “obreirista”, no taneidade de seus esforços,essa ele
A critica nas noções de liberdade e sentido em que há a valorização da não pagou. Duzentos granadeiros levan-
igualdade burguesas, leva então a afir- classe trabalhadora (do trabalho ma- taram em algumas horas o obelisco do
mação de algumas teses acerca da eco- nual em particular, e do trabalho em Luqsor sobre a base; um só homem,
nomia e sociedade capitalista, como geral), e que essa classe por ser prota- em duzentos dias, faria o mesmo? En-
apresentadas acima. Também levou a gonista do processo econômico de tretanto, na conta do capitalista, a soma
formulação de alguns conceitos que transformação da matéria, de coisas em dos salários era idêntica. Pois bem, um
marcam a especificidade do pensamen- valores, passa a ser teoricamente con- deserto a cultivar, uma casa a construir,
to de Bakunin e sua sociologia, especi- siderada como a protagonista do pro- uma manufatura a explorar,é como er-
almente sua definição de classes soci- cesso de transformação social, das ins- guer o obelisco, é como deslocar uma
ais e o emprego do conceito de força tituições políticas e econômicas. A teo- montanha. A menor fortuna, o mais
coletiva. ria do valor trabalho como assumida modesto estabelecimento, a instalação
A temática assumida por Bakunin, a pelo bakuninismo, representa também da mais acanhada industria exige um
critica da concepção de igualdade e li- esse posicionamento obreirista, que concurso de esforços e talentos tão di-
berdade burguesas, e caracterização do valoriza a condição do trabalhador e versos que um só homem nunca con-
problema da desigualdade social e de defende o protagonismo de classe. seguiria.” (Proudhon, 1988, p. 103).
classe, e da exploração como as ques- Por fim, para entender completa- Divide et impera:divide e reinarás;
tões sociais por excelência, mostram mente os parâmetros da analise socio- divide e te enriquecerás; divide e en-
uma continuidade de temática (ou de lógica “coletivista” é preciso entender o ganarás os homens, e empánarás sua
objetos teóricos-políticos) que caracte- significado da definição de força razão e zombarás da justiça. Separai
riza a análise sociológica “coletivista”. coletiva, formulada por Proudhon no seu os trabalhadores pode suceder que a
A idéia chave é a de força coletiva, livro “O Que é a Propriedade ou Pes- diária paga a cada um ultrapasse o va-
como vemos pelo trecho abaixo: quisas sobre o princípio do direito lor do produto individual: mas não é
“Del mismo modo, el Estado no es e do governo”. A questão ou o pro- disso que se trata. Uma força de mil
otra cosa que la garantía de todas las blema do livro é formulado como “o que homens, atuando por vinte dias foi paga
explotaciones en beneficio de un é o princípio da hereditariedade? Quais como a força de um único atuando por
pequeño número de felices privilegia- os fundamentos da desigualdade? O cinqüenta e cinco anos; contudo, a for-
dos y en detrimento de las masas po- que é a propriedade privada? ” ça de mil homens fez em vinte dias o

34 Nº1- Maio de 2009


que a força de um só não faria em um
milhão de s éculos: o negócio é
eqüitativo? Mais uma vez, não: quando
tiverdes pago todas as forças individu-
ais, não tereis pago a força coletiva;
em conseqüência resta sempre um di-
reito de propriedade coletiva não ad-
quirido por vós e do qual gozais injus-
tamente.” (Proudhon, op.cit, p. 103).
A discussão desenvolvida pelo au-
tor estabelece nitidamente a recusa na
aceitação do individualismo teórico, tí-
pico da economia política clássica do
século XIX. A percepção do “agente
coletivo” como fenômeno distinto é as- Crianças operárias no século XIX
sim estabelecida. Para o autor, a frag-
mentação social, a redução individua- Aqui fica estabelecido o estatuto te- Proudhon chega à necessidade de eli-
lista das operações econômicas, é uma órico da noção de força coletiva: ela é minação da “propriedade” e defesa da
forma de dominação e exploração do o elemento que compõem os proces- propriedade coletiva.
trabalho. A noção de força coletiva se- sos sociais e produtivos. A força coletiva A critica da desigualdade de clas-
ria assim a base sintética de uma for- é uma unidade de ação diferente dos ses, é vinculada diretamente a teses
mulação teórica e política, numa analí- indivíduos e dos agregados de indivídu- acerca da origem da propriedade, das
tica da economia e sociedade capitalis- os. No plano econômico-social, repre- relações de classe e a caracterização
ta. senta uma contradição direta com a da própria sociedade. A força coletiva
Na sua obra mais volumosa, “De la existência da propriedade privada. designa a contraposição a uma visão
Justice dans Revolution e de la Iglesie” A contradição detectada por individualista da economia e da socie-
(1857), Proudhon retoma a noção de Proudhon, está entre o “direito de gan- dade, enfatizando que o produto do tra-
forças coletivas: ho” engendrado pela propriedade pri- balho é sempre indivisível, e por isso a
“Os indivíduos não são os únicos do- vada para os proprietários e os princí- economia leva necessariamente a idéia
tados de força; as coletividades tem pios do processo de produção dos va- de propriedade coletiva, pela impossi-
também a sua. lores, já que a relação de bilidade de estabelecimento da propri-
Uma fábrica, formada por operári- assalariamento ao invés de resolvê-la edade individual. É uma critica e um
os cujos trabalhos convergem para um a institui. É o trabalho que produz o valor, enfrentamento direto da sociedade bur-
mesmo fim, que é obter este ou aquele e o salário direcionado aos trabalhado- guesa e seus fundamentos cognitivos.
produto, possui enquanto fábrica ou res individuais não paga “jamais” a for- Ao demolir o argumento de que o direi-
coletividade, uma força que lhe é pró- ça coletiva (que a ação resultante da to de propriedade nasce do “trabalho”
pria; a prova está em que o produto divisão do trabalho). Por isso ele con- (individual) Proudhon associa o concei-
desses indivíduos, assim agrupados, é clui, “Que, sendo toda a produção ne- to de trabalho ao coletivismo proletá-
muito superior ao que constituiria a cessariamente coletiva, o trabalhador rio, e tira o conceito de sua dimensão
soma dos seus produtos particulares, tem direito, na proporção do seu tra- burguesa.
se tivessem trabalhando separadamen- balho, à participação nos produtos e Nesse sentido, a analise sociológica
te. lucros”. (Proudhon, 1988, p. 103). Quer sintetizada na noção de força coletiva
Do mesmo modo a tripulação de um dizer, a produção coletiva, mas a pro- baseia-se nas seguintes premissas:: 1)
navio, uma sociedade em comandita, priedade privada gera um direito de o trabalho, especialmente sob a
uma academia, uma orquestra, um ganho individualizado. forma de “força coletiva” é que pro-
exército, etc., todas estas coletividades Esse elemento presente na formu- duz o valor. Há uma sob produção capi-
contém força, f orça sintética lação de Proudhon é fundamental; a talista uma contradição permanen-
e,conseqüentemente, específica do gru- existência da propriedade priva gera o te entre o direito de ganho deri-
po, superior em qualidade e em ener- “direito de ganho”. Esse direito de gan- vado da propriedade privada e a
gia à soma das forças elementares suas ho se ampara no emprego da força e produção baseada na força
componentes ... da legalidade estatal. A máxima “Toda coletiva, motor da contradição de clas-
Consequentemente, sendo a força propriedade é um roubo” é apenas a ses sociais. Sob produção capitalista, a
coletiva um fato tão positivo como a for- síntese de que não somente na sua ori- força coletiva jamais será remunerada
ça individual, a primeira perfeitamente gem a propriedade está fundada na e o salário individual será mantido sem-
distinta da segunda, os seres coletivos ocupação pela força ou pela “astúcia”, pre no valor socialmente necessário a
são realidades do mesmo modo que os mas indica que o proprietário expropria reprodução física do trabalhador; 2) isso
indivíduos. diariamente as forças coletivas dos tra- porque a propriedade privada (enquanto
Pelo seu poder, que é de todos os balhadores. O “direito de ganho indivi- fato econômico e jurídico) tem sua ori-
seus atributos o primeiro e o mais subs- dual” (o lucro, o juro, a renda ou alu- gem não na ocupação (do território) ou
tancial, o ser apresenta-se pois na qua- guel são suas formas) é produto da pro- no trabalho,.mas (assim como o Esta-
lidade de realidade e de vida;apresenta- priedade privada. Mas o processo de do) na conquista ou em contratos ba-
se, entra na criação, da mesma manei- trabalho e produção material somente seados em desigualdade de poder, pos-
ra e sob as mesmas condições de exis- é viabilizado pela existência de forças sibilitando uma expropriação diária e
tência que os outros seres.” (Justice, coletivas (Proudhon, 1988, p.106) É por cotidiana dos trabalhadores e sua for-
L´Etat, apud in 1976 p. 273). essa construção teórica e filosófica que ça coletiva, o direito de exploração e

- Uma revista de teoria Anarquista 35


acumulação; 3) em termos históricos, os setores de ofícios melhor remunera- terização em relação à estrutura de
a propriedade foi constituída sob a base dos sofriam a influencia “espiritual” da classes e as contradições existentes
do direito romano, como “direito de uso civilização burguesa (Bakunin, 1980, nela. Depois de 1793, a contradição en-
e abuso” ou direito de “domínio”. A “pro- p.133). tre burguesia e proletariado passou a
priedade privada” foi transformada pela Essa caracterização visa compreen- ocupar – inclusive na consciência bur-
revolução francesa, em principio do di- der e explicar o processo político da guesa – o lugar principal. Nesse senti-
reito e do governo (da gestão da socie- França e possibilidade da revolução so- do, a solução política para a França para
dade) e a revolução francesa instituiu cial na Europa. Bakunin analisa como a crise da França não era a formação
ao mesmo tempo o Estado moderno e cada partido poderá oferecer um pro- de um novo governo, mesmo o republi-
a Economia moderna (capitalistas), sen- grama de “salvação” da França diante cano (Bakunin, op.cit., p.157) e que
do a propriedade privada e as relações da eminência da ocupação prussiana e Gam beta (personificação do
de exploração derivadas da dialética diante da opressão interna bonapartista. jacobinismo) só tinha duas alternativas:
existente entre “domínio” e direito de Como ele vai chegar as suas conside- destruir a máquina estatal (já que uma
“ganho”. 4) a existência da proprieda- rações para definir uma estratégia e um reforma constitucional e administrativa
de privada e capitalista engendra uma programa para a França? É pela análi- era impossível) ou conciliar com os mo-
taxa crescente de desigualdade e se comparada da experiência histórica narquistas, utilizando os orleanistas e
da miséria (entre os trabalhadores). – do movimento revolucionário de 1793 mesmo os bonapartistas que ocupavam
Quer dizer, partindo da critica das com a experiência de 1848 e os dife- a burocracia e contra quem os republi-
noções burguesas de igualdade e liber- rentes papéis históricos da burguesia e canos lutavam (Bakunin, op.cit, p. 164)
dade, constata-se que a sociedade bur- do jacobinismo (republicanismo “radi- Qual é a solução postulada por Bakunin:
guesa não somente era desigual, como cal”). A “revolução burguesa” de 1848 “...a França não pode ser salva mas que
a desigualdade tenderia a se agravar; já tinha consciência de seu antagonis- pela sublevação espontânea e livre,
e que liberdade, relativa à burguesia, mo com a revolução proletária 5 . O completamente livre da tutela da admi-
era inexistente para o proletariado en- republicanismo radical (ao contrário dos nistração, do governo, do Estado, qual-
quanto classe, nos seus locais de tra- jacobinos de 1793) passou a buscar quer que seja a forma desse Estado ou
balho e atividade social, e sob o siste- mobilizar as classes privilegiadas, a con- desse governo.” (Bakunin, 1980, p. 155)
ma da propriedade privada, a liberda- vencer o proletariado a ter paciência e A revolução, a insurreição armada
de seria exclusiva a burguesia. depositar suas esperanças no “governo popular, é apresentada como Bakunin
provisório”. como solução para crise interna (a luta
3 – Análise de classes E aqui vemos a importância das te- contra o “bonapartismo” ou a monar-
bakuninista e revolução social. ses acerca da economia e sociedade quia) e externa (contra a conquista
A analise sociológica exposta acima capitalista. Bakunin indica a importân- movida pelo Império Prussiano). Não
está necessariamente encadeada as cia da Revolução Francesa para a for- seria pela formação de um “governo
conclusões políticas. Mas essas conclu- mação do Estado Moderno; Proudhon provisório”, nem de uma “assembléia
sões serão estabelecidas a partir de um indica que a Revolução Francesa con- constituinte”, nem mesmo uma “revo-
método: a análise comparada da expe- sagrou o principio da propriedade pri- lução burguesa” (que a essa altura, era
riência histórica. Nesse sentido, é pela vada na constituição de 1789, instituin- impossível, por não poder se apoiar nas
análise de alguns processos históricos do assim os mecanismos principais da massas para se realizar, e não contar
e pelos posicionamentos sustentados sociedade moderna: 1) a “soberania da com forças próprias para tal) que se
por Bakunin, que podemos perceber vontade do povo” ou o “despotismo”; resolveria o problema interno e exter-
como as teses sociológicas são usadas 2) desigualdade de fortuna e de classe; no.
como base de uma teoria política revo- 3) o principio da propriedade privada. Ao mesmo tempo, Bakunin indica
lucionária. Desse modo, as condições foram cria- que mesmo em termos da luta de li-
No livro “Cartas a um Francês” das para consolidação da burguesia bertação nacional, a burguesia era po-
(1870) Bakunin se dedica a análise da como classe autônoma, baseada no di- liticamente impotente.
situação pré-revolucionária inaugurada reito de ganho derivado da proprieda- “Somente os operários das cidades
pela Guerra entre Prússia e França, e de privada e na exploração do traba- podem salvar hoje a França. Não há
tenta definir uma política para a revo- lho. A burguesia
lução social na França. Apresenta en- passou então a
tão uma análise de classes e sua rela- ser desde então
ção com o processo revolucionário e ca- uma força con-
racteriza a existência de diferentes tra-revolucioná-
“partidos”: jacobinos, orleanistas, en- ria , ta nto nas
tre a burguesia, e socialistas, anarquis- sua s relaçõ es
tas entre o proletariado. Na França e concretas, quan-
na Europa, constata “a burguesia é um to nas suas idéi-
corpo mais numeroso do que se pen- as políticas.
sa” e leva suas “raízes” ao proletariado Assim, para
nas suas “capas” superiores. Na Ale- explicar o com-
manha os operários e camponeses, e portamento es-
mesmos os socialistas, estavam profun- trutural e históri-
damente imbricados no mundo burgu- co dos partidos e
ês. Na França, apesar da separação do tendências políti-
proletariado como classe autônoma ter cas, é preciso São Bernardo do Campo (SP): linha de montagem
alcançado níveis maiores, ainda assim, fazer sua carac- da Volkswagen do Brasil

36 Nº1- Maio de 2009


que contar com a burguesia. Desenvol- em bonapartistas de certas localidades. volvimento de uma revolução “burgue-
vi amplamente o porquê. Os burgueses Bakunin indica que essa combinação de sa”, ou seja, que muda os mecanismos
não vêem, não compreendem nada fora alianças e plataformas políticas levaria e parâmetros de exercício da explora-
do Estado. (...) É certo que a burguesia a ruína da França, a perda da Guerra ção. A revolução política, ou seja, a re-
não é capaz. (...) Se ajustará melhor para a Prússia, que por sua vez signifi- volução burguesa (que tem finalidades
com a dominação dos prussianos e dos caria a vitória da contra-revolução 6 ”. exclusivamente políticas) diante da re-
bonapartistas que com a sublevação da Somente a aliança operário-campone- volução social (que é uma revolução po-
barbarie popular (...) Eu penso que nes- sa na base de um programa socialista pular ou proletária) é uma contra-re-
sa hora não há na França, e também revolucionário seria capaz de resolver volução, exatamente por preservar a
em todos os demais paises, não exis- a crise política nacional, através da re- propriedade privada capitalista e a ex-
tem mais que duas classes capazes de volução popular. ploração do trabalho.
tal movimento: os operários e os cam- Nesse sentido, vem os que Assim, Bakunin adverte criticamen-
poneses.” (1980, p. 166) Bakunin a partir das teses sobre o Es- te que na realidade, o caráter eclético
Ou seja, as contradições econômicas tado e a economia capitalista, interpre- do programa levaria ao sacrifico dos
da burguesia com os operários e os ta uma situação histórica particular, e elementos socialistas:
camponeses, impediam uma aliança aponta a dinâmica estrutural (relações “É impossível chegar a dois fins con-
para lutar contra a ocupação estrangei- de classe) e como esta afeta as possi- traditórios. Ao implicar o socialismo a
ra. A associação com o Estado invasor bilidades históricas (as ações, progra- revolução social, a destruição do Esta-
seria preferível à revolução popular que mas e estratégias) dos diferentes par- do, é evidente que quem tende ao Es-
poderia destruir sua condição de clas- tidos. A sua política está assim ampa- tado deve renunciar ao socialismo, deve
se dominante. Ao mesmo tempo, a bur- rada numa teoria social e sociológica. sacrificar a emancipação econômica das
guesia radical por si só não tinha for- Mas para completar a sua visão do massas a potencia política de um parti-
ças para barrar a ocupação estrangei- processo de mudança social, é preciso do privilegiado qualquer. O partido da
ra sem conciliar com os monarquistas, indicar o seu próprio conceito de revo- social democracia alemã deve sacrifi-
e assim a causa “democrática” da bur- lução, de como esse conceito está ri- car a emancipação econômica e por
guesia era sacrificada em prol dos seus gorosamente ligado à caracterização da conseguinte também a emancipação
interesses econômicos comuns, por contradição entre classes sociais e a política do proletariado, ou melhor sua
uma aliança com os setores monarquis- existência da propriedade privada ca- emancipação da política, a ambição e
tas (que representavam à monarquia e pitalista, de um lado, e do Estado en- ao triunfo da democracia burguesa. Isso
no caso dos bonapartistas, a ditadura quanto organismo vinculado a classe do- resulta claramente dos II e III artigos
militar). Por isso, somente a aliança minante, de outro. E essa definição se do seu programa”. (Bakunin, 1980, p.
operário-camponesa seria capaz de estabelece pela crítica que Bakunin re- 231)
resolver ao mesmo tempo o problema aliza do programa do partido operário As condições para a capitulação da
interno (derrubada da ditadura social democrata alemão. social-democracia estavam dadas des-
bonapartista) e da liberação nacional (da “Segundo a opinião quase unânime de sua fundação e nas suas bases es-
ocupação estrangeira). As contradições dos socialistas alemães, a revolução tratégicas e programáticas. E na reali-
(derivadas de pré-conceitos e manipu- política deve preceder a revolução so- dade ao separar o problema político –
lações ideológicas do Estado) entre ope- cial – o que segundo minha opinião é dando primazia a ele – do econômico,
rários e camponeses e que tinham pa- um, grande e fatal erro, porque toda os social-democratas sacrificariam tan-
ralisado a revolução social, e para de- revolução política que se faça antes, e to os interesses econômicos quanto po-
fender a revolução social seria preciso por conseguinte, fora da revolução so- líticos dos trabalhadores. E mais que
resolver tal questão (Bakunin, 1980. p. cial, será necessariamente uma revo- isso. A tese “etapista” não somente im-
170). lução burguesa, e a revolução burgue- plicaria na capitulação da revolução so-
O processo político francês seria sa não pode servir para produzir mais cialista, mas na abdicação mesmo de
definido então pela dinâmica estrutural que um socialismo burguês, ou seja, uma “revolução burguesa”, que se apre-
das classes e pelo comportamento con- deve chegar infalivelmente a uma nova sentaria, na grande maioria dos casos,
creto das frações de classe e partidos. exploração mais hipócrita e mais sábia apenas como fraseologia porque: “Eis
As frações monarquista (orleanista e talvez, mas não menos opressiva do aqui o que constitui o verdadeiro objeto,
bonapartista) e republicana da burgue- proletariado pela burguesia. Essa des- o fim real, atual, desse partido: uma
sia tinham suas contradições; os graçada idéia da revolução política que reforma exclusivamente política do Es-
orleanistas visavam a restauração, ou deve anteceder, dizem os alemães, a tado, das instituições e das leis de Es-
seja, a derrubada dos bonapartistas, o revolução social, abre de par em par tado. (Bakunin, op.cit, p.232). Recuan-
mesmo que os jacobinos – que se se- as portas do partido operário da demo- do da revolução proletária para a revo-
paravam dos orleanistas pela defesa de cracia socialista a todos os democratas lução burguesa, o passo seguinte e ne-
uma forma de Estado republicana. Os radicais da Alemanha, exclusivamente cessário seria o recuo da revolução
bonartistas manipulavam a aliança com políticos e muito pouco socialistas”. burguesa para o reformismo puro e sim-
os camponeses e incitavam sua oposi- (Bakunin, 1980, p. 220) ples.
ção aos operários das cidades, e tam- A formulação acima indica o caráter A revolução social para Bakunin, de-
bém durante a guerra começavam a burguês (us ando um a linguagem veria destruir simultaneamente o Esta-
pender para um acordo com o Estado atualizada, “democrático-burguês”) do do-Nacional, burocrático e policial, e
prussiano contra a rebelião interna que programa social democrata. A separa- também a propriedade privada, atra-
se gestava. Os republicanos impossibi- ção da revolução “política” (mudança vés da coletivização.
litados de uma aliança revolucionária das formas do Estado ou de Governos) “A revolução social não exclui de ne-
com os operários e os camponeses, bus- da resolução da questão econômica – nhum modo a revolução política. Ao con-
cavam apoio nos orleanistas e mesmo propriedade privada- implica no desen- trário, a implica necessariamente, mas

- Uma revista de teoria Anarquista 37


imprimindo-lhe um caráter novo, o da A teoria anarquista da revolução – noção no sentido da “pressão materi-
emancipação do povo do jugo do Esta- das condições necessárias à realização
al” para dar conta d e u ma
do Posto que todas as instituições e toda de uma insurreição geral – foi
as autoridades políticas não foram cri- estabelecida a partir da análise de um
multiplicidade de outros fatores mate-
adas, em ultimo termo, mas que em processo histórico particular, o desen- riais (naturais e sociais) que se com-
vista de proteger e de garantir os privi- volvimento das revoluções francesas, e binam e produzem a relação de coação
légios econômicos das classes possui- da critica da tese que afirmava que a indicada acima.
doras e exploradoras contra as rebeli- revolução burguesa como etapa ante- 2 “Thus, while being equal from the
ões do proletariado, é claro que a re- rior e necessária da revolução socialis- point of juridical fiction, the capitalist
volução social deverá destruir essas ins- ta. Ao realizar uma análise sociológica and the worker are anything but equal
tituições e autoridades, nem antes, nem do conflito de classes e da crise política from the point of view of the economic
depois, mas ao mesmo tempo que po- francesa desencadeada pela guerra
nha sua mão audaz sobre os fundamen- franco-prussiana de 1870, Bakunin re-
situation, which is the real situation.”
tos econômicos da servidão do povo. A alizou um exercício de aplicação de seu (Bakunin, Manuscrito Sistema Capi-
revolução social e a revolução política método materialista e de demonstra- talista).
serão pois, inseparáveis, como devem ção de suas teses acerca do estatismo 3 Bakunin retoma então a ênfase cri-
ser em efeito, pois que a primeira sem e da propriedade privada, bem como tica iniciada por Proudhon sobre a pro-
segunda será uma impossibilidade, um do papel das classes sociais e partidos priedade privada capitalista. Proudhon
contra-senso; e a primeira sem a se- diante de cada situação política possí- indicou que a propriedade engendra o
gunda uma simulação. vel. Assim, a análise da sociedade é despotismo e a tirania (citar proprie-
A revolução política, contemporânea construída a partir da análise da dinâ-
dade é domínio).
e realmente inseparável da revolução mica entre “revolução X reforma” e
social – daqui será por assim dizer, a “revolução X contra-revolução”, ou 4 “Os jurisconsultos modernos, se-
expressão ou manifestação negativa – seja, entre revolução burguesa e revo- guindo os economistas, abandonaram
não será uma transformação mas uma lução proletária. Aquilo que seria esta- quase todos a teoria da ocupação pri-
liquidação grandiosa do Estado, e a abo- belecido como estratégia e programa mitiva, considerando-a ruinosa demais,
lição radical de todas as instituições po- político anarquista (a greve geral de e adotaram com exclusividade a que
líticas e jurídicas que tem por objeto o massas, a insurreição geral campo-ci- faz a propriedade nascer do trabalho”.
submetimento do trabalho popular a dade, o boicote a democracia burgue- (Proudhon, 1988, p. 77)
exploração das classes privilegiadas. Ao sa, a aliança operário camponesa e a
5 “Esse antagonismo da revolução
mesmo tempo que destruirá a potencia defesa da federação das comunas so-
econômica dos proprietários, dos capi- cialistas) seriam conclusões políticas
burguesa e da revolução popular não
talistas, dos proprietários, dos patrões, extraídas dessa análise sociológica de existia todavia em 1793 nem na cons-
destruirá a dominação política de to- base essencialmente coletivista, e do ciência do povo nem da burguesia. Não
dos os chamados representantes coro- materialismo filosófico que lhe susten- havia desabrochado da experiência his-
ados ou não coroados do Estado, des- ta. E as teses principais acerca da eco- tórica esta verdade de todos os tem-
de os Imperadores e Reis, até o ultimo nomia e sociedade seriam firmadas a pos: que a liberdade de toda classe pri-
gendarme ou guarda florestal, de to- partir da análise de fatos sociais e da vilegiada, e por conseguinte também da
dos os grandes e os pequenos corpos experiência histórica.
burguesia, está fundada essencialmen-
de Estado, de todas as classes e indiví- OBS: desigualdade entre trabalho
duos que – em nome de um poder fun- manual e intelectual como outra dimen-
te na escravidão econômica do prole-
dado sobre o direito divino e para ou- são importante da negação da desigual- tariado.” (Bakunin, 1980, p. 147)
tros sobre a eleição popular e sobre o dade - a desigualdade dos salários por 6 “Depois da guerra de 1815 houve a
sufrágio universal..7 . (Bakunin, 1980, p. conta das “capacidades” é injustificável Santa Aliança política de todos so Es-
308) (p. 112) é preciso distinguir a 1) dife- tados contra o liberalismo burguês. De-
Nes se s entido, o co nceito rença de funções; 2) diferença de rela- pois da guerra presente, se termina
bakuninista de revolução sintetiza tan- ções na divisão do trabalho, de manei- com a vitória da Prússia, a dizer, da
to a concepção filosófica geral da ra que nenhum trabalho é superior ao reação internacional, haverá a Santa Ali-
dialética entre política e economia, outro na escala social de produção, são
ança política e econômica a vez dos
quanto às teses acerca da propriedade funcionalidades distintas.
privada e do estatismo, e a análise da _____ mesmos Estados, fortalecidos pela co-
experiência histórica das classes soci- Notas: operação interessada da burguesia de
ais nas revoluções de 1793, 1848 e 1 Nesse sentido, vemos como a anali- todos os paises contra o socialismo re-
1871. Logo, não somente a revolução se materialista de Bakunin expressa a volucionário do prolet ariado”.
política não é uma etapa necessária e sua concepção filosófica de articula- (Bakunin, 1980, p. 209)
anterior à revolução social, como ela é ção do mundo social com um mundo 7 Trecho de um outro livro “A Situa-
antagônica a revolução social, ou seja, ção Política da França”, que conti-
natural, por meio de uma continuida-
proletária (em caráter) e socialista (em
de objetiva. Até porque, como veremos, nua a análise do conflito de classes na
programa). Além do mais, essa teoria
da “revolução em etapas” (esboçada no o próprio Bakunin adiciona inúmeros França, só depois da derrubada da
programa de 1869-70 dos social-demo- outros elementos de coação especifica- Monarquia em setembro de 1870.
cratas) abre as portas do partido aos mente sociais. Poderíamos dizer que a 8 Bakunin chama a atenção para as
oportunistas democratas e burgueses idéia de fome é um elemento natural negociações então em curso entre so-
comprometendo o seu caráter operá- que serve de base ao outros elementos cial-democratas e liberais na Alema-
rio8 . sociais. Por isso preferimos alargar a nha.

38 Nº1- Maio de 2009


Construção de Comitês de Propaganda da
UNIPA
Como o objetivo de divulgar a teoria e a ideologia bakuninista e
intervir na luta de classes, a União Popular Anarquista (UNIPA) está
fomentando a construção de Comitês de Propaganda por todo o país.
Os Comitês de Propaganda têm a função de distribuir os boletins e
os documentos da UNIPA, organizar seminários e debates, bem como
auxiliar com apoio material em geral. Além de contribuir com informes
locais, podendo enviar textos e análises, que poderão ser publicados de
acordo com nossa política editorial, e também propor pautas para os
boletins.
O bakuninismo é um importante instrumento para a construção da
revolução proletária, por isso, convidamos todos os companheiros e
companheiras para difundir sua teoria e sua ideologia.

Construção de Pró-Núcleos da UNIPA


O atual contexto da luta de classes no Brasil exige um posicionamento
ideológico e teórico correto dos militantes dos movimentos sindical,
estudantil e popular. O bakuninismo fornece a teoria, a estratégia e o
programa revolucionário capaz de romper com o reformismo e avançar
para a construção da ruptura socialista e revolucionária.
A União Popular Anarquista (UNIPA) convoca todos os companhei-
ros e companheiras dos movimentos sindical, estudantil e popular, que
tenham acordo político com o bakuninismo e desejem ingressar nos
quadros da nossa organização, para a construção de Pró-núcleos da
UNIPA por todo o país.
Além da propaganda, os Pró-núcleos da UNIPA atuam na luta de
classes à partir da unidade teórica, estratégica e programática com a
organização.
O bakuninismo é um importante instrumento para a construção da
revolução proletária, por isso, convocamos todos os companheiros e
companheiras para se organizarem em torno de sua teoria e sua ideolo-
gia.

Entre em contato com a UNIPA: unipa_net@yahoo.com.br


www.unipa.cjb.net

Ousar lutar, ousar vencer!


Pela Construção da Revolução Proletária!
Viva a UNIPA!

- Uma revista de teoria Anarquista 39


Na luta pela Libertação
Proletária!!
40 Nº1- Maio de 2009