Você está na página 1de 5

GENEALOGIA DA ESCOLA

Norberto Dallabrida Doutor em HistÛria Social pela USP, autor do livro ìA FabricaÁ„o Escolar das Elites: o Gin·sio Catarinense na Primeira Rep˙blicaî e professor do Programa de PÛs-GraduaÁ„o em EducaÁ„o da UDESC E-mail: f2nd@udesc.br

VARELA, Julia; £LVAREZ-URÕA, Fernando. ArqueologÌa de la Escuela. Madrid: La Piqueta, 1991. (GenealogÌa del Poder, 20).

Nas ˙ltimas dÈcadas, a histÛria da educaÁ„o vem sendo renovada pelas metamorfoses

da historiografia, bem como pelas transformaÁıes ensaiadas pela pedagogia. Ela deixa de se

restringir ‡ histÛria das idÈias pedagÛgicas e da legislaÁ„o do ensino e procura se interessar

por toda a atividade educativa, desbravando novos e sedutores objetos de investigaÁ„o. Ao se

oxigenar, a histÛria da educaÁ„o passa a colocar o foco sobre os atores educativos,

contemplando experiÍncias de alunos e vidas de professores. Desloca o olhar histÛrico para as

pr·ticas no interior das instituiÁıes escolares, dando visibilidade ‡s operaÁıes de recorte e

organizaÁ„o das ìdisciplinas-saberî, aos regimes disciplinares e ‡ constituiÁ„o social de

clientelas. Passa a contemplar o estudo dos sistemas educativos e das redes escolares, que s„o

cotejados em nÌvel regional, nacional e global e procura compreender tambÈm as idÈias

pedagÛgicas na arena dos jogos de poder escolares e sociais.

O olhar histÛrico sobre os velhos e novos objetos educativos vem sendo feito a partir

de abordagens inÈditas. O tempo curto dos eventos pontuais È enriquecido pela multiplicidade

temporal, em que se destaca a descontinuidade visualizada na longa duraÁ„o. Essa concepÁ„o

temporal est· vinculada ‡ virada historiogr·fica que opera a desnaturalizaÁ„o dos objetos

histÛricos, pelo simples fato de eles n„o terem existÍncia trans-histÛrica. A pesquisa histÛrica

contempor‚nea vai alÈm dos documentos escritos, passando a contemplar fontes iconogr·ficas

e depoimentos orais, que s„o lidos a partir de suas condiÁıes sociais de produÁ„o, entranhadas

de relaÁıes de poder. Ademais, a escola e outras instituiÁıes educativas deixam de ser vistas

como meras inst‚ncias de reproduÁ„o das condiÁıes econÙmicas, e s„o concebidas como

instituiÁıes produtoras de sujetividades e identificaÁıes, geralmente contribuindo para a

manutenÁ„o das desigualdades sociais.

Genealogia da Escola

140

A colet‚nea de ensaios que compıem o livro ìArqueologÌa de la escuelaî apresenta uma releitura da funÁ„o social das instituiÁıes educativas da Espanha no mundo pÛs- medieval, ou seja, da chamada Idade Moderna atÈ o final do sÈculo XX. Essa obra elaborada pelos sociÛlogos espanhÛis Julia Varela e Fernando Alvarez-UrÌa se inscreve no movimento contempor‚neo de inovaÁ„o da histÛria da educaÁ„o, que procura fazer leituras temporais inquietantes acerca da pr·tica educativa. Rigorosamente, trata-se de uma genealogia da

escola, ou seja, uma forma especÌfica de fazer histÛria da instituiÁ„o escolar, que privilegia (re)invenÁıes e sublinha diferenÁas, buscando a alteridade com o passado. Aplicando o ìmÈtodo genealÛgicoî, Varela e Alvarez-UrÌa propıem a desnaturalizaÁ„o da escola, acreditando que a sua universalidade e eternidade n„o passam de uma ilus„o e pretendem reler

o passado para ajudar a compreender o presente, ìrastrear continuidades obscurasî e,

sobretudo, constatar que os modos de educaÁ„o escolar s„o plasmados por m˙ltiplas e sutis relaÁıes de poder e configuraÁıes de saber. No entanto, neste trabalho genealÛgico, h· uma

preocupaÁ„o sociolÛgica instigante na medida em que os autores procuram vincular os discursos e as instituiÁıes educativas aos grupos sociais que os propıem e impıem para se legitimarem socialmente. N„o por acaso o livro comeÁa com o contraste entre as pr·ticas educativas medievais e

as formas modernas de escolarizaÁ„o. Nesta direÁ„o, os autores defendem que a instituiÁ„o

escolar moderna foi inventada no sÈculo XVI pelos reformadores protestantes e catÛlicos, motivados pelo desejo de manufaturar a alma de seus fiÈis. Em torno desse ìacontecimentoî e de seus desdobramentos giram os dois primeiros ensaios do livro, que procuram vincar a descontinuidade provocada sobremaneira pela fragmentaÁ„o do cristianismo resultante das

reformas religiosas. No primeiro ensaio intitulado ìLa maquinaria escolarî, os sociÛlogos espanhÛis analisam com acuidade a emergÍncia das peÁas da engrenagem escolar espanhola ñ e europÈia ñ, que contribuiu para construir a primeira modernidade ocidental. Entre as peÁas dessa maquinaria escolar plasmadas por reformadores religiosos na virada da Idade MÈdia para os tempos modernos destacam-se a criaÁ„o do estatuto da inf‚ncia, a instituiÁ„o do espaÁo escolar fechado, a formaÁ„o de um corpo de especialistas, a individualizaÁ„o dos alunos, que desqualificou formas medievais de socializaÁ„o. No mundo catÛlico, do qual a Espanha faz parte, os sociÛlogos espanhÛis chamam a atenÁ„o para o surgimento dos colÈgios

e da pedagogia jesuÌtica, oficializada na Ratio Studiorum, e sua disseminaÁ„o na Europa

catÛlica, bem como no mundo colonial ibero-americano, africano e asi·tico. As reflexıes genealÛgicas e sociolÛgicas sobre as atitudes perante a inf‚ncia est„o detalhadas em ìFiguras de infanciaî ñ o segundo e muito instigante ensaio. A inf‚ncia

LINHAS, FlorianÛpolis, v. 8, n. 2, p. 139 ñ 143, jul. / dez. 2007

Norberto Dallabrida 141

tambÈm È desnaturalizada, indicando a sua quase inexistÍncia no mundo medieval e o seu

nascimento impreciso nos sÈculos XVI e XVII. Aqui se pode perceber a presenÁa dos trabalhos brilhantes de Philippe AriËs, considerado o pioneiro na an·lise histÛrica da inf‚ncia, mas tendo seus limites apontados ‡ luz do enfoque sociolÛgico. Desta forma, Varela e Alvarez-UrÌa constatam com sutiliza que, na Idade Moderna, as figuras de inf‚ncia variaram segundo classe social e gÍnero, indicando que as crianÁas que passaram a ter relevo social foram sobretudo aquelas das elites cortes„s e do sexo masculino. A nova sensibilidade perante as crianÁas È percebida nos discursos dos humanistas e dos reformadores religiosos e tambÈm nas pinturas da corte espanhola ñ em que se destacam os quadros inebriantes de Diego Vel·zquez. Por outro lado, os sociÛlogos espanhÛis afirmam: ìAriËs relega a um segundo plano um tanto longÌnquo as t·ticas empregadas no recolhimento e moralizaÁ„o dos meninos pobres. Esta relegaÁ„o impede-o de perceber que a constituiÁ„o da inf‚ncia de qualidade

forma parte de um programa polÌtico de dominaÁ„o [

O terceiro ensaio da obra, sob o sugestivo tÌtulo ìLa ilustraciÛn y su sombra. DominaciÛn cultural y pedagogÌa social en la EspaÒa del siglo de las Lucesî, realÁa as sombras do iluminismo espanhol, procurando constatar permanÍncias obscuras e curiosas. A ilustraÁ„o È vista como um movimento de uniformizaÁ„o cultural, uma ìmaquinaria sÛcio- culturalî, que procurou desqualificar e colonizar a cultura das classes populares. Assim, no sÈculo XVIII, houve a imposiÁ„o do castelhano como lÌngua nacional e a marginalizaÁ„o dos diversos dialetos falados no territÛrio hisp‚nico ñ processo autorit·rio similar ‡quele colocado em marcha pelas reformas pombalinas em Portugal e no Brasil. O processo de violÍncia simbÛlica È analisado de forma mais detalhada na educaÁ„o popular, na qual a utopia iluminista se materializou efetivamente, homogeneizando o mosaico de manifestaÁıes culturais existentes ‡ Època. Essa quest„o È tratada especificamente no texto ìLa educaciÛn popular ilustrada o cÛmo fabricar sujetos dÛciles y ˙tilesî. Neste ponto, os sociÛlogos espanhÛis carregam as tintas para sublinhar a sua tese de fundo: a elite iluminista laicizou as peÁas principais da maquinaria escolar produzida pelos reformadores religiosos no fervor e no terror das guerrras de religi„o. E concluem que o fanatismo ñ religioso ou iluminista ñ È uma das chaves da modernidade. O quinto ensaio, ìLa escuela obligatoria, espacio de civilizaciÛn del niÒo obreroî, procura mostrar que a escola prim·ria obrigatÛria, instituÌda na Espanha ñ e nos paÌses europeus ñ a partir do final do sÈculo XIX, teve por finalidade educar, moralizar, adestrar, ìcivilizarî as classes populares para o trabalho manual produtivo e obediente. … uma reflex„o sociolÛgica enervante para quem pensa, romanticamente, que a expans„o do sistema escolar

]î (p.25).

LINHAS, FlorianÛpolis, v. 8, n. 2, p. 139 ñ 143, jul. / dez. 2007

Genealogia da Escola

142

de corte nacional proporcionou a democratizaÁ„o da educaÁ„o. Trata-se de um texto-chave no livro em tela, porque dialoga com os perÌodos histÛricos pÛs-medievais anteriores na medida em que argumenta que a maquinaria escolar da escola nacional obrigatÛria n„o se institui como um fato novo ñ como quer certa historiografia da educaÁ„o ñ, mas ela se apropriou, aprimorou e deu forma nacional ‡ maquinaria escolar inventada pelas associaÁıes religiosas ñ protestantes e catÛlica ñ desde as reformas religiosas do sÈculo XVI. Por outro lado, esse texto se desdobra nos ensaios seguintes intitulados ìLos niÒos ëanormalesí. ConstituciÛn del campo de la infancia deficiente y delincuenteî e ìEscuela de delincuentesî, na medida em que ele argumenta que a obrigatoriedade escolar criou dois tipos de inf‚ncia: a delinq¸ente ñ isto È, os meninos de rua ñ e a anormal, formada pelos alunos que n„o se adaptam ‡ normalizaÁ„o da escola prim·ria nacionalizada. No pen˙ltino ensaio, ìLa escuela empresa: neotaylorismo y educaciÛnî, Varela e Alvarez-UrÌa analisam as novas tecnologias de ìgovernoî reinventadas nas prisıes, nas f·bricas, nas escolas, entre outras instituiÁıes sociais, durante o sÈculo XX, com destaque para os EUA, considerados a ìp·tria do taylorismoî. Eles constatam que o ensino taylorizado, calcado no mÈrito individual, que destrÛi os movimentos estudantis e desconsidera as desigualdades sociais, foi introduzido na Espanha por tecnocratas, discÌpulos em boa medida do monsenhor Escriv·. Ademais, a partir do mÈtodo genealÛgico, que procura compreender um misto de transformaÁıes e de ìcontinuidades obscurasî, os sociÛlogos espanhÛis afirmam, de forma provocativa: ìEm realidade, a escola-empresa mantÈm e reforÁa as peÁas essenciais que constituem o molde pedagÛgico criado pelos jesuÌtas na Contra-Reformaî. E concluem que o neotaylorismo contempor‚neo opera uma ìreadaptaÁ„o dos velhos mÈtodosî ‡s novas condiÁıes de produÁ„o econÙmica e escolar. Por fim, em ìClasses sociales, pedagogÌas y reforma educativaî, o ensaio que desfecha a obra, Varela e Alvarez-UrÌa sublinham as suas convicÁıes teÛricas acerca da an·lise sÛcio- histÛrica da educaÁ„o e refletem sobre as reformas educacionais contempor‚neas na Espanha. Esse texto reafima a import‚ncia da ìsociologia histÛrica da educaÁ„oî para compreender a educaÁ„o no presente, que em boa medida È construÌda por heranÁas de mÈdia e longa duraÁ„o. A sociologia genealÛgica produzida por Varela e Alvarez-UrÌa È de inspiraÁ„o foucaultiana, entranhada nas narrativas analÌticas e espirituosamente presente nos tÌtulos dos ensaios. Nos seus trabalhos, Michel Foucault faz referÍncias esparsas e muito oportunas sobre a educaÁ„o escolar ñ como por exemplo as an·lises sobre a educaÁ„o dos jesuÌtas e dos lassalistas e a escola normal em ìVigiar e Punirîñ, mas n„o se debruÁou em torno da quest„o da escolarizaÁ„o. A originalidade das reflexıes dos sociÛlogos espanhÛis reside justamente no

LINHAS, FlorianÛpolis, v. 8, n. 2, p. 139 ñ 143, jul. / dez. 2007

Norberto Dallabrida 143

fato de eles pensarem as instituiÁıes escolares a partir das lentes genealÛgicas do filÛsofo francÍs. No entanto, a an·lise genealÛgica È ìsociologizadaî por meio da introduÁ„o de marcadores sociais como gÍnero e, principalmente, classe social, apoiando-se em trabalhos instigantes de Norbert Elias e Pierre Bourdieu. As descontinuidades ou as permanÍncias histÛricas n„o s„o abstratas, mas estreitamente vinculadas aos grupos sociais. Dessa forma, n„o h· referÍncia ao processo educativo, mas uma reflex„o consistente sobre os modos de educaÁ„o, que variam historicamente de acordo com os grupos sociais e suas estratÈgias de aquisiÁ„o, manutenÁ„o e legitimaÁ„o do poder. O livro ìArqueologÌa de la escuelaî È, portanto, uma excelente an·lise histÛrica da educaÁ„o espanhola ñ mas tambÈm europÈia e ocidental ñ no perÌodo pÛs-medieval, que procura perceber a permanÍncia e atualizaÁ„o da ìmaquinaria escolarî plasmada pelo catolicismo jesuÌtico nos modos de educaÁ„o contempor‚nea.

LINHAS, FlorianÛpolis, v. 8, n. 2, p. 139 ñ 143, jul. / dez. 2007