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Blumenau: reconstrução e vigília

Especial Design: André Rodrigues


Rafael Amaral
Textos: Cecília Cussioli
Letícia Arcoverde Fotos: Pedro Dellagnelo
Pedro Dellagnelo Sofia Franco
Sofia Franco

As chuvas abriram uma cratera no terreno da Escola Básica Municipal Júlia Strzalkowska, no bairro Valparaíso. Mesmo com a área condenada pela Defesa Civil, moradores da região querem que o colégio seja reconstruído no mesmo lugar

Os 600 mm que derrubaram a cidade


Um ano depois, poucos sinais de recuperação: apesar das ações da prefeitura, sobram escombros e improviso
Falar sobre Blumenau é falar de dois rando mudanças no plano diretor e no escombros encontrados na beira da es- abaixo”, explica Neusa Felizetti, con- Catarina, um tipo mais estável e com
períodos diferentes, o antes e o depois código ambiental para priorizar a ver- trada ou nas sete moradias que ainda sultora da Central de Reconstrução de menos morros. Já ao sul, a formação
da tragédia de novembro do ano passa- ticalização das construções e aumentar são o único lugar que 324 famílias têm Blumenau. Para especialistas, caracte- por rochas sedimentares do grupo de
do. Em especial, três dias desse mês, 21 a área de proteção ambiental. Também para morar. Para Neusa, não há como rísticas do solo e do relevo e condições Itajaí faz com que o relevo seja mais
a 23, as 72 horas em que choveu mais formou a Central da Reconstrução, for- definir hoje quanto tempo Blumenau climáticas anômalas foram os respon- acidentado, e o solo de alta fragilidade.
que o esperado para o mês inteiro. Acos- ça-tarefa que pretende revisar os dez demoraria para se recuperar: “A cidade sáveis pela tragédia. Segundo Maurício Pozzobon, da Direto-
tumada e preparada para lidar com en- mil cadastros de atingidos para retirar nunca mais será a mesma. Só daqui a A região sul do país é uma frontei- ria de Geologia, os três meses de chuvas
chentes, a cidade nunca havia presen- pessoas de casas condenadas ou áreas mais 150 anos de história para saber”. ra climática, ou seja, área que sofre ininterruptas que antecederam o desas-
ciado deslizamentos tão graves. de risco. influência de diversas massas de ar. O tre enfraqueceram a terra, que sofreu
Dos 135 óbitos causados pelas chu- Criada em maio, a Central tem 20 Geografia peculiar encontro entre massas quente e fria todos os movimentos possíveis de massa
vas em 16 cidades catarinenses, 24 fo- pessoas de diversas secretarias. Até ago- A enchente em Tubarão, em 1974, causou precipitações que se intensifica- causados por água. “Esses movimentos
ram em Blumenau – número que só ra, a equipe já fez dois mil relatórios de as fortes chuvas que alagaram o Vale ram com a presença de um anticiclone sempre existiram e sempre vão existir. A
não foi maior porque a Defesa Civil já casas em áreas de risco, sendo que 60% do Itajaí, em 1983, o que trazia umidade do cidade se instalou em uma janela tem-
havia começado a retirar pessoas das já estavam destruídas ou rachadas. A furacão Catarina, em Deslizamentos litoral. O Centro de In- poral em que não ocorreu nada [desli-
áreas de risco semanas antes. Segundo
a prefeitura, 20 mil foram atingidas pe-
consultora da Central, Neusa Felizetti,
que acompanhou de perto os trabalhos
2004. Nas últimas qua-
tro décadas, pelo menos
surpreenderam formações Ambientais
e de Hidrometereolo-
zamentos], mas 150 anos de história é
pouco na escala geológica”, explica.
las chuvas. Dessas, 5400 deixaram suas na época das chuvas, diz que a priori- dez desastres naturais famílias que, gia de Santa Catarina Em novembro de 2008, Blumenau
casas e ficaram em 63 abrigos monta-
dos em escolas, clubes e igrejas, e dez
dade é de quem precisa usar políticas
de habitação, como o auxílio-aluguel,
de grandes proporções
ocorreram em Santa
fugindo das (Ciram/Epagri) espe-
rava 180 milímetros
oficializaria o Plano Municipal de Re-
dução de Riscos, um estudo geológico
mil famílias se cadastraram para rece- no valor de R$ 300, ou o uso das mo- Catarina. Ao todo, foram enchentes, de chuva por mês. Mas do relevo da cidade, mas a cerimônia
ber auxílio financeiro.
Um ano depois, as consequências
radias provisórias. A Central também
possui um trabalho de monitoramento
mais de 400 mortes e
cerca de 650 mil pesso-
mudaram-se entre os dias 21 e 23
de novembro, choveu
foi cancelada. Realizado através do
Ministério das Cidades, o estudo anali-
dos deslizamentos ainda podem ser vis- de áreas de risco quando chove, pois as desabrigadas nesses para os morros 200 milímetros por sou 17 áreas ao longo de quatro anos,
tas em vários pontos da cidade. Alguns muita gente não saiu de suas casas episódios. O ano de 2008 dia. “Este era um ano a maioria ao sul da cidade, onde estão
barrancos já foram tomados por vege- mesmo após a condenação da área. No se junta a eles, e traz um de La Niña, ou seja, as áreas que o Ministério considera “as-
tação nova, e alguns lugares onde ruas entanto, Neusa diz que a maioria tem agravante: os desabamentos. esperava-se chover pouco. Com esta sentamentos precários”: áreas de baixa
inteiras foram levadas pela terra ga- consciência do perigo: “Quando chove, Em Blumenau a história tornou-se combinação excepcional de fatores, renda, com ocupação ilegal, as mais
nharam caminhos improvisados. Para eles saem e vão para casa de parente ou comum. Famílias que perderam tudo não foi possível prever com muita ante- sujeitas a riscos. As chuvas do mesmo
trabalhar na prevenção de novos desas- amigos.” nas enchentes de 1983 e 1984, decidi- cedência”, justifica o metereologista do mês causaram deslizamentos em três
tres, a Prefeitura de Blumenau tenta se Uma sétima moradia provisória foi ram reconstruir suas casas nos morros, Ciram, Marcelo Martins. mil pontos da cidade, 65% dos quais
adaptar. Criou a Diretoria de Geologia, criada em outubro deste ano, e outras como alternativa às cheias do rio Ita- No município de Blumenau, houve estavam nas áreas pesquisadas.
que analisa as áreas de desmoronamen- nove famílias já foram realocadas. Em jaí. “O município já estava preparado ainda outro agravante: o relevo. O solo
to para ver quais ainda oferecem risco um ano, as lembranças da tragédia e acostumado com as enchentes, o que da parte norte da cidade é formado Cecília Cussioli
e notificar os moradores. Está conside- ainda estão muito visíveis, seja nos ninguém esperava é que a cidade viesse pelo complexo migmatítico de Santa Letícia Arcoverde