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2 Inclusão Florianópolis, novembro de 2009

Artistas apostam na interação Música é opção


para inclusão
social de surdos

entre cegos e obras de arte O Simpósio de Educação Musical Es-


pecial ganha sexta edição em São Paulo,
nos dias 19, 20 e 21 deste mês. Tem como
objetivo reunir profissionais da área mé-
Exposição tátil “Mundos Tangíveis” é a segunda mostra de projeto da Udesc que visa a dica e pedagógica para discutir assuntos
relacionados à inclusão social a partir do
formação estética e a integração de deficientes visuais aos museus de Florianópolis ensino de música. Pessoas com deficiência
auditiva severa podem não ouvir o que está
Fotos:Jessé Torres
acontecendo, porém, através das vibrações,
É comum chegar a uma exposição de são capazes de entender as intenções mu-
artes e se deparar com o aviso: “Proibi- sicais.
do tocar nas obras”. A mostra Mundos O campo é ainda pouco explorado no
Tangíveis – exposição tátil, aberta de Brasil. Mas segundo Viviane Louro, autora
4 de novembro a 9 de dezembro na Ga- do livro “Educação Musical e Deficiência:
leria Municipal Pedro Paulo Vecchietti, Propostas Pedagógicas”, tende a seguir
em Florianópolis, poderia muito bem o exemplo de outros países e crescer em
apresentar a recomendação: “Por favor, importância. “Música é importante para
toque nas obras”. Apesar de não haver todos, sem exceção. Inclusive para os sur-
nenhuma instrução, quem entra na dos.”
sala onde estão as seis peças de Alfonso O professor Dean Shibata, do Departa-
Ballestero e os “brinquedos” de madeira mento de Radiologia da Universidade de
de Michel Groisman sente-se impelido a Washington, é um dos pioneiros no estu-
tocar, mexer e sentir. do. Concluiu que apesar de os surdos não
Os dois artistas foram convidados ouvirem a música são capazes de senti-la
pela coordenadora do projeto “Forma- de forma tão real que o estimulo é equiva-
ção Estética do Público Cego – Museu e lente, fazendo com que a mesma área do
Inclusão Social”, Maria Cristina da Sil- cérebro seja trabalhada.
va, professora da Universidade Estadual Na Inglaterra, já existe balada direcio-
de Santa Catarina (Udesc). A iniciativa nada aos deficientes auditivos. Foi idealiza-
surgiu em 2006, mas naquele ano o pro- da por James Hoggarth, que tapou os ouvi-
jeto ainda era tímido, e se restringia à dos durante uma festa e reparou como os
tentativa de produzir material em Brail- graves da música eram sentidos no corpo.
le para as exposições. “Vimos que havia Voluntários e os dois artistas da mostra experimentam a “Máquina de Desenhar” de Groisman: o diálogo do corpo em movimentos interligados Além do som, para ajudar nas sensações,
o material (etiquetas e catálogos), mas usam iluminação especial que acompa-
não o público”. Em 2007 e 2008, com nha o ritmo da música. Parte do dinheiro
apoio financeiro da Udesc, o grupo liga- arrecadado é destinada a organizações que
do ao projeto passou a realizar maque- defendem os direitos dos surdos.
tes táteis, a promover encontros men- Regina Finck é professora do Departa-
sais com deficientes visuais, e a levá-los mento de Música da Universidade do Esta-
a vários espaços culturais da cidade. Em do de Santa Catarina. Sua tese de douto-
2008, o projeto recebeu financiamento rado “Ensinando música ao aluno surdo:
do edital ProExt, do Ministério da Cul- perspectivas para ação pedagógica inclu-
tura, o que levou à concretização de siva”, ainda está em fase de revisão, mas
exposições como a realizada em agosto é uma das primeiras pesquisas do gênero
com obras das artistas Jussara Maria da no sul do Brasil. Diz que as crianças surdas
Silva e Rosana Bortolin, e a que acon- são capazes de realizar todas as atividades
tece agora. que as crianças ouvintes fazem. “Diferente
é como você adapta os materiais e as estra-
Readaptação do clássico tégias de ensino. Todas as atividades devem
O paulista Alfonso Ballestero trabalha ser preparadas com apoio visual.”.
há mais de dez anos com a transposição No caso da oficina que ministrou para
de obras clássicas para versões acessí- escrever a tese, trabalhou pulso, silêncio,
veis, ou seja, que utilizam de alto relevo som, duração, intensidade, altura e timbre:
para a apreciação pelo público deficien- “Desenvolvemos jogos de percepção vibro-
te visual. Essas versões estão na Pinaco- tátil com o apoio de um computador, am-
teca de São Paulo. O artista conta que plificando as frequências graves dos sons.
nem sempre criou suas obras pensando “Hola”, de Alfonso Ballestero, abusa das formas e convida ao toque Os andadedos de Michel Groisman são como brinquedos para os dedos Outro recurso foi o contato físico com as
nesse público, mas acabou seguindo formações (nome, artista e ano em que man revela que ficou muito entusias- papel. Cada pessoa segura um lápis de caixas de ressonância dos instrumentos
esse caminho. “Eu faço as peças quase foram produzidas) tanto em caracteres mado quando recebeu o convite para cera e os movimentos combinados dos acústicos, como violão, piano e tambor.
inconscientemente para esse público. impressos como em Braille. criar para o projeto. Para ele, essa era participantes criam desenhos sobre a Também foi essencial a participação de
É automático”, revela. A inspiração, ele As esculturas e telas foram feitas uma oportunidade de desenvolver obras folha. um intérprete de libras.”
recorda, surgiu durante a 23ª Bienal de entre 2000 e 2003, mas Ballestero não que levassem ao diálogo de cada um Groisman também criou a série Segundo Regina, atividades práticas de
São Paulo, em 1996, quando trabalhou parou de produzir materiais para o pú- com o seu corpo, mas que não se res- “Andadedos”: são pequenas peças de ensino musical aos deficientes acontecem
como monitor e convidou um grupo de blico cego. Recentemente ele desenvol- tringissem ao público deficiente. “Todos madeira que se assemelham a carretéis esporadicamente em Santa Catarina, em
pessoas com Síndrome de Down para a veu uma série de xilogravuras (técnica têm deficiências que nos impedem de de linha. Feitos a partir de diferentes forma de oficinas e minicursos. Nenhuma
visitação. As quatro esculturas e as duas de gravura que utiliza madeira como estar em contato com os outros”, defen- madeiras - algumas com cheiros - os escola realiza ensino musical para surdos
telas de Ballestero expostas na mostra matriz para a reprodução sobre papel de Groisman. andadedos “funcionam” com o movi- de maneira fixa. “O principal problema é a
“Mundos Tangíveis” abusam das curvas ou outro material) táteis. O contato entre as pessoas é o que mento dos indicadores que, encaixados falta de preparação do professor. Não exis-
e dos formatos que convidam ao toque. move a “Máquina de Desenhar”, uma nas peças, fazem-nas girar. tem cursos de formação inicial e continua-
São grandes, com cerca de 50cm³ cada. Diálogo intracorporal de suas obras em exposição em Floria- Tudo pensado para incitar os senti- da para atuar no contexto inclusivo”, diz.
Feitas de concreto celular, brancas so- Enquanto Alfonso Ballestero está nópolis. Composta por placas de madei- dos – além da visão.
bre suportes pretos – não que as cores acostumado a trabalhar com deficientes ra unidas por lápis de cera, a estrutura
tenham grande importância – têm in- visuais, o artista carioca Michel Grois- é colocada sobre uma grande folha de Camila Chiodi Bibiana Beck