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Cultura

Florianópolis, novembro de 2009

A música livre de Peter Gossweiler

Criador de um dos maiores festivais de música alternativa, artista já representou o Brasil no Japão e nos EUA

Peter Gossweiler é músico experi- mental, produtor e curador do festival Música Livre, surgido em agosto de 2006 em Mariana, Minas Gerais. É um dos poucos festivais brasileiros dedica- dos ao experimentalismo, ao noise e à música de vanguarda. Desde então, 17 edições trouxeram músicos de vários lugares do mundo para interagir e criar algo novo. Peter flertou com a música experimental em 2004, e em 2009 este- ve no Japão, para o Extreme Music Fes- tival, em Fukuoka, ao lado de grandes músicos da cena noise japonesa. Mais recentemente esteve na Califórnia, EUA, onde participou de uma residência ar- tística patrocinada pela Unesco. De lá, trouxe alguns novos trabalhos em ví- deo, com os quais pretende fazer uma mostra em Florianópolis. Durante a en- trevista, Peter estava em Porto Alegre, e conversamos por e-mail sobre música, trabalho e planos.

Como começou seu interesse pela música, e mais especialmente pela música experimental, pela improvi- sação, noise etc.? Você acha que seu trabalho está mais ligado a um des- tes gêneros, especificamente?

Sou filho de músicos de orquestra e fui, logicamente, educado com muita música

e arte erudita. Na adolescência fui metalei- ro e, quando adulto, mergulhei na música experimental. Foi em 2004 que comecei

a experimentar sons de forma inocente e

sem conhecer o que o mundo fazia nesse

sentido. Usava gravador de rolo, bateria,

colheres, piano, minha própria voz

Isso

me deu uma base e independência criati- va. Chamo o que faço de “música livre”, por isso, não me considero um músico experimental ou improvisador.

O festival Música Livre tem um

público bem específico, muito dife- rente da música mais mainstream (que tem divulgação nos meios de massa). Conte-nos um pouco sobre

a criação, como você reuniu artis-

tas e público interessado. Existia uma produção de música experimental que era divulgada pela internet e que não tinha palco para per- formances. Então, em agosto de 2006, em Minas Gerais, realizamos o primeiro festival Música Livre. Como produtor e curador, não consigo definir qual é o per- fil do público e tampouco o que é “músi- ca livre”. Acho que faz parte do conceito geral de liberdade. Essa é a nossa manei- ra de ser livre, e, graças à insistência, reu- nimos um público interessado.

Muitos músicos são mais reco-

nhecidos no exterior que no país.

A web te ajuda com os contatos e

também com a divulgação da sua

música?

A cada ano, conheço pela internet mais e mais pessoas no mundo que fa- zem o mesmo que eu faço com a música:

“Amo especialmente ver o aço vibrar e se mover. Parece que Aurora deveria soar. Estou
“Amo especialmente ver o aço vibrar e se
mover. Parece que Aurora deveria soar.
Estou tocado e honrado pelo seu excelente
trabalho”, diz, em tradução livre, Del Geist,
autor da escultura com que o artista
interage em Rubber Hammer
Divulgação/Jang Suk Joon
12ª edição do Música Livre, no Teatro Álvaro de Carvalho, com Diogo de Haro Divulgação
12ª edição do Música Livre, no Teatro Álvaro de Carvalho, com Diogo de Haro
Divulgação

deturpá-la. Você junta um grão de areia em cada cidade e no fim você tem um deserto. Acho que é esse o caminho para quem faz música e arte ter o seu traba- lho reconhecido. Lento, mas duradouro. Não é o caminho de tocar no Faustão e no dia seguinte vender milhões de CDs piratas [risos].

Tocar no Japão foi um sonho realiza- do. O público japonês recebeu com muito respeito o meu trabalho e recebi também

elogios de Toshiji Mikawa, a lenda viva

do japanoise [cena noise japonesa] que

encerrou a noite do festival. Mas foi du- rante a turnê pela China e Taiwan no ano anterior que descobri o j-pop [pop-rock japonês], estilo alucinante e embaraço-

Somos consumistas de uma cultura em inglês que muitos nem compreendem”

muitos nem compreendem. Não digo que devamos consumir mais samba. Longe disso! Essa “brasilidade” também deve ser banida. Só nos faz mais presos a uma ilusão de que ser brasileiro é ser malandro, alegre, etc. De fato, o brasilei- ro é muito mais do que só isso.

Você esteve recentemente na Califórnia em residência artística patrocinada pelo Djerassi Resident Artist Program. Era o único brasi- leiro lá. Certamente, seu trabalho com o festival e sua trajetória in- fluenciaram na decisão de levá-lo até lá. Como você foi selecionado? Definitivamente, o intercâmbio de artistas internacionais no Música Li- vre colaborou para a decisão da Unes- co em me patrocinar. Esse programa de que participei é importantíssimo. Ele incentiva a união entre as nações através dos artistas. Quando recebi a notícia estava no meu primeiro dia no Japão numa loja da Apple (vendo meus e-mails de graça!) fiquei muito feliz e saí para buscar um restaurante vegan. No caminho começou a nevar. Nunca tinha visto neve. Estava nevando, eu es- tava no Japão e a Unesco ia pagar para eu tocar na Califórnia! Tudo ao mesmo tempo! A felicidade foi forte. O resultado desta residência na Califórnia está em

Neste ano você esteve no Japão

representando o Brasil no Extreme Music Festival, em Fukuoka. Como foi a experiência de tocar no Japão e a recepção do seu trabalho? Quais foram as influências que você trou- xe do outro lado do mundo?

so

ao mesmo tempo. Toda a inocência e

vídeos postados na internet. Em breve

maluquice dos orientais está nesse tipo

pretendo fazer uma mostra em Floria-

de

música. Eles adoram e isso movimen-

nópolis desses vídeos, incluindo um de

ta

uma indústria gigante que vive sem

70 minutos.

a

existência do pop americano. É um

fenômeno! Me fez ver como somos con- sumistas de uma cultura em inglês que

Percebe-se que você não faz uma separação entre a performance e

a música, tanto no festival (que é para música experimental, per- formance e artes visuais) quanto nos vídeos. Qual a sua ligação com estas formas de arte e quais as po- tencialidades que essas linguagens poderiam trazer à experiência mu- sical? Você tem razão. É tudo a mesma coi- sa, não deveria separar. Veja o exemplo do filme O sol da meia-noite, de 1985, com Mikhail Baryshnikov atuando e dançando. Você chamaria de um filme com um dançarino atuando ou um ator dançando? É filme apenas. Obras como essa explicam muito o que eu faço hoje em dia. Minha música está mais com- pleta com a elaboração de um vídeo. Se eu achar importante apareço nele, se- não busco outras imagens para entreter o “telespectador” [risos].

Conte um pouco sobre seus trabalhos mais recentes com vídeo feitos na Califórnia. Rubber Ham- mer, por exemplo: foi gravada uma única performance em plano-se-

quência, ou foram feitas várias to- madas? Como foi a preparação e o “esboço” desta performance e qual

a interação com a videomaker Jang

Suk Joon? Você ajuda na edição do material? Tenta colocar no audiovi- sual um pouco do experimentalis- mo sonoro? Quando admiro um artista, procuro fazer projetos em parceria. Com Joon foi assim. Ela é uma fotógrafa coreana que tem um pensamento muito maduro sobre o que faz. Eu expliquei através de referências, como uma fotografia de um prédio com um céu azul de fundo e o filme Koyaanisqatsi [documentário de 1983] como ideia de fusão da imagem com o som. Depois fomos construindo um roteiro livre durante as filmagens. Ela operava a câmera e eu, o gravador de som, posicionava o microfone, grita- va “gravando!”, dava uma porrada na escultura e gritava “corta!”. A edição levou um dia e fiz sozinho. Antes de gra- var pedi permissão para o escultor [Del Geist]. Ele gostou muito do resultado sobre sua obra, Aurora.

Há trabalhos seus de registro da performance, como Duracell. Nos mais recentes há mais pós-produ- ção, e aparentemente há um trata-

mento de áudio posterior. O que você considera a obra: a performance ou

o vídeo? Seu trabalho está indo em

direção à videoperformance? Um outro dia meu irmão gêmeo chamou meus vídeos de videoclipes. Acho que isso vulgarizou o que é uma videoperformance. Tenho todo o equi- pamento necessário para essa inde- pendência de produção. Apenas ligo a câmera e registro.

Jessé Torres

todo o equi- pamento necessário para essa inde- pendência de produção. Apenas ligo a câmera e