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IV CONALI - Congresso Nacional de Linguagens em Interação Múltiplos Olhares 05, 06 e 07

IV CONALI - Congresso Nacional de Linguagens em Interação Múltiplos Olhares

05, 06 e 07 de junho de 2013

ISSN: 1981-8211

Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 A CONSTRUÇÃO DO ETHOS DISCURSIVO

A CONSTRUÇÃO DO ETHOS DISCURSIVO DE LULA EM SUA TRAJETÓRIA POLÍTICA

Eliana Alves GRECO (UEM)

Introdução

A noção de ethos foi desenvolvida na antiga Retórica por Aristóteles e designada

como o caráter moral do orador. Posteriormente, essa noção foi apreendida pela Análise do

Discurso e conceituada como a personalidade do enunciador revelada pela enunciação. De

acordo com Maingueneau, o texto possui uma voz ou tom que possibilita ao interlocutor

construir uma representação do enunciador, a partir de índices presentes no texto. O autor

não possui o controle de seu discurso, uma vez que o tom é produzido pela formação

discursiva em que está inserido. Nesse sentido, o ethos é a imagem do sujeito enunciador

construída no discurso.

O objetivo deste artigo é discutir a noção de ethos na perspectiva da Análise do

Discurso tanto do ponto de vista teórico como de sua aplicação na análise. Considerando

que a noção de ethos teve seu início na Retórica, partiremos do ponto de vista de

Aristóteles (1998) sobre o ethos e, em seguida, discutiremos o modo como foi apreendido

pela Análise do Discurso, por intermédio de Maingueneau (1997, 2001).

Quanto à segunda parte do artigo, analisaremos a construção do ethos de Luiz

Inácio Lula da Silva, em sua trajetória política, como candidato à presidência da república.

O corpus de análise é constituído por debates políticos televisivos entre os candidatos à

presidência da República nas eleições de 1989, 1994 e 2002.

1. O ethos

1.1. O ethos na Retórica

A Retórica surgiu na Sicília por volta de 485 a.C., tendo sido usada por aqueles que

se dirigiam ao tribunal em defesa ou contra uma causa. Aproximadamente um século

a.C., tendo sido usada por aqueles que se dirigiam ao tribunal em defesa ou contra uma
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 depois, em 384 a.C., nasceu

depois, em 384 a.C., nasceu Aristóteles, o responsável pela valorização e o prestígio da Retórica. A maior preocupação dele foi com o processo argumentativo, passando a ser a argumentação o eixo dos estudos retóricos.

a capacidade de descobrir o que é

adequado a cada caso com o fim de persuadir” (p. 48). Para ele, sua função não é persuadir,

mas “

meios de persuasão, Aristóteles apresenta as provas inartísticas (não técnicas) e as artísticas (técnicas), sendo que as primeiras não são inventadas pelo orador, como testemunhos, estatísticas, confissões ou documentos escritos, enquanto as segundas são criadas pelo

orador e produzidas pelo discurso. O que nos interessa para este artigo são as provas fornecidas pelo discurso, que são de três tipos: derivadas do caráter moral do orador, que é o ethos, derivadas do modo como se dispõe o ouvinte, que é o pathos, e do discurso, o logos. Segundo Aristóteles (1998, p. 49-50), “persuade-se pelo carácter quando o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé”; persuade-se pelo modo como se dispõem os

ouvintes, quando eles “

que emitimos variam conforme sentimos tristeza ou alegria, amor ou ódio”. E pelo

discurso, “

persuasivo em cada caso particular”. Os três tipos de provas contribuem para a argumentação, contudo Aristóteles considera como principal o caráter do orador, a confiança que ele passa aos ouvintes. Essa confiança é resultado do discurso e não de uma opinião prévia sobre o caráter do orador.

A noção de ethos foi reformulada por Ducrot sob o ponto de vista da Pragmática. O linguista, em sua Teoria Polifônica da Enunciação, afirma que o caráter do orador, que não é o verdadeiro caráter do indivíduo, mas a imagem que ele pretende atribuir a si próprio através de seu discurso, é um dos segredos da persuasão, uma vez que, quando o orador dá uma imagem favorável de si, conseguirá seduzir o ouvinte. Entretanto, Ducrot (1987, p. 189) frisa que essa imagem não é originária das afirmações autoelogiosas que o orador

pode fazer em seu discurso, “

E como acrescenta Fuchs

mas da aparência que lhe confere a fluência, a entonação,

calorosa ou severa, a escolha das palavras, os argumentos

quando mostramos a verdade ou o que parece verdade, a partir do que é

são levados a sentir emoção por meio do discurso, pois os juízos

descobrir os meios de persuasão sobre qualquer questão dada” (p. 49). Dentre os

Aristóteles (1998) define Retórica como “

”.

meios de persuasão sobre qualquer questão dada” (p. 49). Dentre os Aristóteles (1998) define Retórica como
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 (1985), o ethos é construído

(1985), o ethos é construído no processo de discurso; é aquilo que emerge do discurso e no discurso.

1.2. O ethos na Análise do Discurso

A noção de ethos foi integrada pela Análise do Discurso, porém com um duplo

deslocamento. O primeiro é que, na Retórica Antiga, o autor definia o tom empregado pelo discurso em função dos efeitos que pretendia produzir sobre seu auditório. Para a Análise do Discurso, esse autor não possui o controle de seu discurso, porque o tom é produzido pela formação discursiva em que ele está inserido. Com relação ao segundo deslocamento,

é necessário relembrar que a Retórica trabalhava apenas com o texto oral, em que se observavam não só a palavra viva, como também os gestos do orador e sua entonação.

Entretanto, na Análise do Discurso, o ethos também é aplicado ao texto escrito, pois, “ mesmo quando escrito, um texto é sustentado por uma voz – a de um sujeito situado para além texto.” (MAINGUENEAU, 2001, p. 95).

O texto possui uma voz ou tom que possibilita ao co-enunciador construir uma

representação do enunciador, a partir de índices de diversas ordens fornecidos pelo texto. Essa representação desempenha o papel de um fiador, que se encarrega da responsabilidade daquilo que é dito. Assim, é o fiador, o responsável pelo tom da enunciação e não o autor.

O fiador possui um “caráter” e uma “corporalidade” que são inseparáveis. O

“caráter” corresponde a um conjunto de traços “psicológicos” que o co-enunciador atribui ao enunciador pelo seu modo de dizer. Já a “corporalidade” consiste nas determinações físicas do enunciador, no modo de ele se vestir e de se portar no espaço social. Tanto o caráter como a corporalidade se originam de um conjunto difuso de representações sociais, que podem ser valorizadas ou desvalorizadas, sobre as quais a enunciação se apoia, podendo, em troca, confirmá-las ou modificá-las. Na realidade, são estereótipos presentes em uma determinada cultura, que circulam em diversos domínios, como literatura, cinema, publicidade. (MAINGUENEAU, 2001). Maingueneau introduz a noção de “incorporação”, designando a ação do ethos sobre o co-enunciador. A incorporação atua no momento da enunciação sobre três registros indissociáveis. Inicialmente, a enunciação leva o co-enunciador a conferir uma

da enunciação sobre três registros indissociáveis. Inicialmente, a enunciação leva o co-enunciador a conferir uma
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 corporalidade ao enunciador, textualmente. Em

corporalidade ao enunciador, textualmente. Em seguida, essa corporalidade possibilita aos sujeitos do discurso “incorporarem” os esquemas que definem uma determinada maneira de se relacionar com o mundo, na sociedade. E por fim, esses dois fenômenos permitem a “incorporação” imaginária do destinatário ao grupo dos adeptos daquele discurso. De acordo com Maingueneau (1997), a noção althusseriana de “assujeitamento” para designar a identificação de um sujeito a uma formação discursiva, explica pouco o funcionamento desse processo. Para ele, se o discurso pode “assujeitar” é porque sua enunciação está ligada a essa possibilidade, e a noção de “incorporação” possibilita compreender melhor tal fenômeno. O ethos é construído pelo interlocutor, que não somente decodifica o sentido de um texto, como também participa “fisicamente” do mesmo mundo que o fiador. Entretanto, devemos acrescentar que, para exercer esse poder de captação, “o ethos deve estar afinado com a conjuntura ideológica”. (MAINGUENAU, 2001, p. 100). Tanto na Análise do Discurso como na Retórica, o ethos é um meio de persuasão. E, no debate político, o sujeito político tem como objetivo persuadir o telespectador a aprová- lo, atribuindo imagens positivas para si e negativas ao adversário. Nessa interação, constrói-se o ethos dos sujeitos envolvidos.

2. O debate político televisivo O debate é um tipo de interação verbal oral, definida por Kerbrat-Orecchioni (1990) como uma troca comunicativa entre dois participantes que exercem influências recíprocas uns sobre os outros. É uma discussão em que se verifica um confronto de opiniões, entretanto possui um caráter mais organizado que as demais interações verbais – a discussão, a entrevista e a conversação – por desenvolver-se dentro de um quadro “pré- fixado”, visto que a duração e a ordem das intervenções, bem como o nome dos participantes e o tema são pré-determinados. A presença de um moderador e de um público completa o quadro participativo e contribui para o seu bom desenvolvimento. Esse gênero discursivo funciona como um modelo de conversação, por ser uma interação eficaz e disciplinada, em que se aplicam as regras conversacionais, ou seja, os participantes se submetem à troca de papéis de locutor e de ouvinte.

se aplicam as regras conversacionais, ou seja, os participantes se submetem à troca de papéis de
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 No debate político televisivo, embora

No debate político televisivo, embora o candidato à eleição esteja frente a frente com o adversário e com o mediador, não deseja convencê-los. Na realidade, quer influenciar os eleitores telespectadores, que, muitas vezes, são excluídos do cenário. O debate é elaborado para o público, pois é a sua existência e a imagem que os debatedores fazem dele que influenciarão a elaboração do discurso. O debate político tem como características a desqualificação da fala do adversário, o confronto de posições antagônicas, opiniões contrárias, acusações mútuas e a negação do discurso do outro. Nesse processo, é construído o ethos de todos os participantes, porém, nesta pesquisa, iremos nos deter somente no ethos de Lula, desconsiderando a imagem dos demais sujeitos envolvidos.

3. Análise do ethos de Lula Com o objetivo de se analisar a construção do ethos de Lula, escolhemos como corpus os debates entre candidatos à presidência da República do Brasil, nas eleições de 1989, 1994 e 2002. Considerando a amplitude do corpus, escolhemos para a análise fragmentos do discurso de Lula de cada debate. Primeiramente, analisaremos o segundo debate do segundo turno da campanha de 1989, realizado em 14 de dezembro, entre Fernando Collor de Melo, do PRN, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. A eleição de 1989 é marcada por ser a primeira eleição direta para a presidência da república após 29 anos. O povo brasileiro, com quase 30 anos sem escolher seu presidente, estava aprendendo a lidar com a democracia. Nesse debate, encontramos o predomínio da primeira pessoa do plural. De acordo com Benveniste (1995), o nós não é uma coleção de eu, mas uma junção entre o eu e o não- eu. Esse não-eu pode ser o você ou o eles. Dessa forma, quando o nós inclui o interlocutor, temos o nós inclusivo (eu + você) e, quando o interlocutor não é incluído, temos o nós exclusivo (eu + eles). Na sequência abaixo, há o predomínio do nós inclusivo, em que o enunciador introduz o co-enunciador no seu discurso. Esse interlocutor incluído era, na maioria das vezes, a classe trabalhadora. Nesse sentido, o candidato se apresentava como parte de uma

incluído era, na maioria das vezes, a classe trabalhadora. Nesse sentido, o candidato se apresentava como
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 coletividade e atuava em conjunto

coletividade e atuava em conjunto com ela, construindo o ethos de representante da classe trabalhadora:

Eu jamais sonhei poder disputar as eleições para presidente da república, porque nós que pertencemos à classe trabalhadora sabemos perfeitamente bem que a nossa luta titânica é pra escapar da fome, é pra escapar do desemprego, é pra escapar da favela debaixo de uma ponte.

Além dos trabalhadores, o nós inclusivo também se referia ao “eu nordestino” + “você nordestino”:

se a fome continuar a crescer no nordeste, como está crescendo, nós, os nordestinos, estamos predestinados a virarmos uma sub-raça.

Bem, primeiro, sempre que responder à pergunta, é importante dizer – e vou reiterar aqui, aos meus irmãos nordestinos – se nós continuarmos a ter governantes no Brasil, como tivemos o ex-candidato de Alagoas

esse brasileiro saiu do nordeste pra não morrer de fome; vai voltar pro nordeste, pra junto com os nordestinos acabar com a fome do nordeste, que é acabar com a fome desse Brasil.

Nessas partes do debate, Lula fala do lugar de nordestino e se dirige aos seus irmãos nordestinos, mostrando que o nordeste é a sua preocupação principal enquanto candidato. É construído o ethos de retirante nordestino, e o co-enunciador, chamado como interlocutor, identifica-se com o enunciador. Na campanha de 1989, construiu-se um ethos de pertencente à classe trabalhadora, de homem pobre – escapou da fome, do desemprego, da favela – e de retirante nordestino, identificando-se com o co-enunciador e havendo o processo de incorporação, ou seja, a ação do ethos sobre o co-enunciador. (MAINGUENEAU, 2001). A cena eleitoral das eleições presidenciais do Brasil de 1994 ficou polarizada entre Fernando Henrique Cardoso – candidato oficial do governo – e Luiz Inácio Lula da Silva – representante da oposição. Durante a campanha, Lula foi vítima do discurso do preparo, uma vez que seus adversários políticos, como eram pertencentes à elite política brasileira, exploravam a sua falta de experiência administrativa e a de escolaridade. A exploração das faltas também se configurou no debate político televisivo, realizado entre os sete candidatos

A exploração das faltas também se configurou no debate político televisivo, realizado entre os sete candidatos
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 do primeiro turno, em 17

do primeiro turno, em 17 de agosto. Entretanto, enquanto os adversários de Lula exploravam as faltas de forma negativa, ele as explorava em seu favor. Analisaremos o fragmento abaixo, que é uma resposta de Lula ao candidato Enéias Carneiro, ao afirmar que Lula não está preparado para assumir a presidência por não possuir estudo:

Até porque sabe o candidato que eu sou muito preparado, porque pouca gente conhece esse país como eu conheço, conhece os problemas do Brasil como eu conheço, viveu os problemas como eu conheço e teve a competência de elaborar propostas para tirar o Brasil da crise, como eu conheço. Esse preconceito não é um preconceito contra o Lula, porque se sabe que eu sou um vencedor. Eu escapei de morrer com fome antes de cinco anos de idade em Pernambuco, sobrevivi, criei o maior partido de esquerda da América Latina e estou preparado para dirigir.

A repetição de quatro vezes da expressão “como eu conheço” reforça o conhecimento que o candidato tem da realidade do povo brasileiro. Ele conhece os problemas brasileiros, porque os vivenciou – escapou da morrer de fome antes dos cinco anos de idade, sobreviveu, criou o maior partido de esquerda da América Latina, elaborou propostas para tirar o Brasil da crise –, construindo uma identidade com o povo pobre. Também é construído um ethos de homem preparado, conhecedor do Brasil e de seus problemas e competente para elaborar propostas para tirar o país da crise.

O discurso mostra, em sua materialidade, o ethos de vencedor, que deseja estar na

presidência para mudar a vida de pessoas que vivenciam o que ele já viveu. O sujeito, ao utilizar o pronome de primeira pessoa, restringe características próprias dele e pressupõe que muitos indivíduos “não são vencedores”, “não escaparam da fome”. Essas pessoas é que sofrem o preconceito. Alguns expectadores se identificarão com os pobres e não

vencedores e se sentirão vítimas do preconceito dos políticos, colocando-se contra eles e a favor de Lula.

O sujeito explora sua condição social, deixando transparecer sua origem de homem

pobre, que passou fome, não teve moradia, não estudou e que lutou pela sobrevivência. A exploração das faltas, na biografia de Lula, leva ao processo de identificação com as camadas mais pobres da população, que associam a história do candidato com a suas. Essa exploração faz com que haja a incorporação do co-enunciador com o ethos do enunciador.

do candidato com a suas. Essa exploração faz com que haja a incorporação do co-enunciador com
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 A vida de privações de

A vida de privações de Lula lhe possibilitou conhecer a realidade do povo brasileiro porque

foi um deles e vivenciou os mesmos problemas do povo. A posição do sujeito é a de representante do povo pobre brasileiro, o verdadeiro representante popular. Miguel (2000, p. 173), com relação a esse tema, afirma que “a origem social de Lula tanto era um atrativo quanto um estigma. Ele era alguém com quem os humildes se identificavam, mas também sofria com todos os preconceitos associados ao trabalho manual e à baixa escolarização”. De acordo com Barreira (1998), a identificação sugere semelhança entre as características dos candidatos e as de seus eleitores. Sendo assim, a “biografia de lutas” dos candidatos populares leva ao processo de identificação que associa a “história” do candidato com a de seus eleitores:

As candidaturas populares que trabalham fundamentalmente com os critérios de identificação buscam aliar princípios ideológicos a símbolos construídos a partir de uma mesma situação de classe. Moradia, modos de vestir e falar constituem indicadores simbólicos de uma identificação colada a um grupo específico de referência: os moradores.” (BARREIRA, 1998, p. 211).

O último debate a ser analisado é do segundo turno da campanha de 2002, realizado em 25 de outubro, entre José Serra, do PSDB, que representava o governo, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que representava a oposição e a mudança. A eleição de 2002 marcava

a quarta eleição direta para a Presidência da República e a quarta tentativa de Lula de se eleger presidente. No debate de 2002, o candidato continua mostrando sua vida de privações, para que haja novamente uma identificação entre eleitor e candidato:

Mas o mais importante mesmo é que mesmo a favela num lugar bom, a gente vá construindo habitação e substituindo os barracos, porque morar em barraco não é privilégio pra ninguém. Eu morei, quando eu tinha doze anos de idade em Santos, e não é agradável morar e hoje/

O enunciador continua falando do lugar do pobre, vítima da fome e do desemprego, para se identificar com o povo, porém se utiliza de verbos no passado, criando o efeito de sentido de que já fora pobre, mas conseguiu vencer na vida. Outra diferença com o debate

no passado, criando o efeito de sentido de que já fora pobre, mas conseguiu vencer na
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 de 1989 é que, em

de 1989 é que, em 2002, o sujeito se utiliza preferencialmente do eu. O uso de verbos no passado e do pronome eu marcam que o sujeito diferencia-se dos seus eleitores, porque conseguiu vencer, visto que não é mais pobre, não mora mais na favela e não passa mais fome. O discurso mostra em sua materialidade o ethos de vencedor, que deseja estar na presidência para mudar a vida das pessoas pobres, como no debate de 1994.

A origem de homem pobre também continua transparecendo, em seu discurso,

quando trata da questão emprego/desemprego:

] [

porque transformei isso numa obsessão minha. [

perseguir porque eu sei o que é o desemprego. E eu acho que o emprego é

eu vou

nós precisamos fazer com que o Brasil tenha emprego e eu vou fazer,

]

E

isso

o que dá dignidade ao ser humano.

O eu que predomina nessa fala marca o estatuto do trabalhador que já foi vítima do

desemprego – “eu vou perseguir porque eu sei o que é o desemprego” – e, por saber o que é o desemprego, fará tudo para resolver esse problema: “e eu vou fazer, porque transformei isso numa obsessão minha.”

O enunciador constrói, em seu discurso, o ethos de homem que foi vítima do

desemprego, sabe o que é estar desempregado, ocorrendo a identificação do candidato com os desempregados. Essa identificação é reforçada com a repetição excessiva de a gente:

Nada dá mais dignidade do que a gente trabalhar, no final do mês receber um salário e com o salário da gente, a gente comprar o que comer,

comprar o que vestir e levar as coisas pra dentro da casa da gente. (o grifo

é nosso)

O a gente corresponde ao on do francês, que é considerado polivalente, por

Maingueneau (2001, p. 133), visto que,

sua referência varia de acordo com o modo como é mobilizado no interior de um processo enunciativo particular. Segundo os contextos, pode ser interpretado como se referindo ao enunciador, ao co-enunciador,

à dupla enunciador + co-enunciador, à não-pessoa, a um indivíduo, um grupo ou a um conjunto indefinido (= ‘as pessoas’).

Nesse contexto, o a gente se refere ao enunciador (Lula) + co-enunciador (trabalhador), correspondendo ao nós inclusivo de Benveniste (1995). Há um sujeito formado por eu (Lula) e você (povo brasileiro trabalhador), ou seja, Lula junta ao seu

Benveniste (1995). Há um sujeito formado por eu (Lula) e você (povo brasileiro trabalhador), ou seja,
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 discurso a voz do trabalhador,

discurso a voz do trabalhador, fazendo com que haja uma identificação entre Lula e o povo

trabalhador e reforçando o processo de incorporação.

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi o de discutir a noção de ethos na Retórica Antiga e na

Análise do Discurso, bem como analisar a construção do ethos de Luiz Inácio Lula da

Silva, por meio dos debates entre os candidatos à presidência da República, nas eleições de

1989, 1994 e 2002.

Na Retórica, Aristóteles designava o ethos como o caráter moral do orador,

constituindo-se numa das provas utilizadas para persuadir seu auditório. Essa noção foi

posteriormente desenvolvida pela Análise do Discurso pelos estudos de Maingueneau, que

inclui o texto escrito na discussão do ethos e o conceitua como a personalidade do

enunciador revelada pela enunciação. É a imagem que o enunciador pretende atribuir a si

pelo seu discurso, sendo construído no processo discursivo.

O ethos, seja na Retórica, seja na perspectiva da Análise do Discurso, é um meio de

persuasão. O poder de persuasão de um discurso consiste em parte em levar o leitor a se

identificar com a movimentação de um corpo investido de valores socialmente

especificados.

No que se refere à construção do ethos de Lula, a análise evidenciou que ele não

apaga sua consciência de classe, pelo contrário, normalmente fala do lugar social do pobre

e do oprimido. O sujeito busca transparecer, nos seus discursos, sua condição de retirante

nordestino, vítima da miséria e da fome. Ele explora sua “biografia de faltas”, para que o

povo brasileiro se identifique com o candidato e ocorra o processo de incorporação do co-

enunciador com o ethos do enunciador. Entretanto, o que os diferencia do povo pobre

brasileiro é que ele conseguiu vencer e está preparado para governar o país.

Referências

ARISTÓTELES. Retórica. Coimbra: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1998.

BARREIRA, Irlys. Chuva de papéis: ritos e símbolos de campanhas eleitorais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998.

Irlys. Chuva de papéis : ritos e símbolos de campanhas eleitorais no Brasil. Rio de Janeiro:
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Olhares 05, 06 e 07 de junho de 2013 ISSN: 1981-8211 BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística

BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral I. 4. ed. Campinas: Pontes, 1995.

DUCROT, Oswald. “Esboço de uma teoria polifônica da enunciação”. In: O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.

FUCHS. Catherine. As problemáticas enunciativas: esboço de uma apresentação histórica e crítica. Alfa. São Paulo, 29:111-120, 1985.

KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine. Les interactions verbales. Paris: Armand Colin, 1990. T.1.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. 3. ed. Campinas:

Pontes, 1997.

Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.

MIGUEL, Luis Felipe. Mito e discurso político: uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994. Campinas: Unicamp, 2000.

Luis Felipe. Mito e discurso político : uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994.