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A mina da colônia Alpha Vinte e Um não estava mais produzindo o

importante minério... Desobedecendo a uma ordem, Cliff tenta


solucionar este mistério. Porém, ao pousar, surgem as
complicações: os robôs estavam amotinados!
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A REVOLTA DOS ROBÔS


Tradução de A. F. IMMERGUT

Título do original: “DIE HÜTER DES GESETZES"


By ERICH PABEL VERLAG — Rastatt, West Germany
Da tradução — EDITORA TECNOPRINT S.A., 1977

Todos os personagens deste livro são fictícios. Qualquer semelhança


com pessoas ou acontecimentos da vida real é mera coincidência.

HISTÓRIA ou ESTÓRIA?
As Edições de Ouro e o Coquetel grafam a palavra história e não estória
por julgar a primeira forma mais correta, conforme dicionários mais
categorizados, que julgam a segunda forma imitação do inglês story, sem
correspondente com raízes em nossa língua.
1

ABRIGADA no fundo do Golfo de Carpentaria, em forma de U e


situada no extremo norte do continente australiano, encontrava-se uma
das maiores bases espaciais da Terra: a Base 104. O vasto complexo
compreendia o campo de pouso submerso, as salas das possantes
máquinas energéticas e dos reatores atômicos, bem como os
incontáveis escritórios das diversas repartições e a central de
comunicações. Uma extensa rede de corredores, aberta nas rochas,
interligava os diversos setores, enquanto numerosos elevadores
facultavam o acesso aos vários níveis da instalação, conduzindo até a
superfície.
Port Musgrave ficava na orla ocidental do golfo, quase na ponta
extrema da península do Cabo York. Eram dezessete horas, e o sol
poente, uma enorme bola alaranjada, já começava a desaparecer por
trás de Wessel Island. À distância, ouvia-se o silvo dos propulsores de
algum cargueiro espacial; afora isso, reinava o silêncio.
A sala de aulas encontrava-se no alto de um dos sistemas de túneis
submersos, meio embutida no declive suave da margem do golfo.
— Minhas senhoras e meus senhores — disse o oficial-instrutor
Typhoon C. Rott — peço-lhes a fineza de prestarem um pouquinho
mais de atenção.
— Com muito prazer! — gritou alguém, do meio do auditório.
Umas vinte pessoas acomodavam-se em confortáveis poltronas
dispostas em torno de um estrado, sobre o qual havia uma série de
peças de equipamento com um desenho inteiramente novo. Ao lado
desse material, estavam dois robôs; eram modelos atarracados,
providos de articulações cambiáveis e destinados a serviços pesados.
Rott ignorou o comentário insolente e prosseguiu, impassível:
— Como já estou exercendo a minha profissão há algum tempo,
permito-me fazer uma observação: Tenho certeza de que vão achar as
exposições que pretendo fazer enfadonhas ao extremo. Por outro lado,
contem com a possibilidade de recorrer, a qualquer instante, a um
psicólogo de robôs que lhes enumere as leis da cibernética, que,
evidentemente, já esqueceram há muito tempo.
Rott, um homem magro, com um riso sardônico nos lábios
estreitos, já vinha desempenhando as funções docentes há muito
tempo. Estava mais do que escaldado. Por essa razão, aquele sorriso
nunca abandonava seu rosto e, a cada curso que ministrava, sua
maneira de falar tornava-se mais irônica. Somente poucas pessoas
possuem o dom de encarar, com calma estóica, os constantes fracassos
dos seus esforços.
— Mas o que fazem — continuou Rott, analisando Tamara
Jagellovsk com interesse profissional — quando o sempre
menosprezado psicólogo não se encontra à disposição? Não fazem
nada! Ficam entregues ao robô, completamente indefesos,
desamparados, meus caros ouvintes. Suponho que todos estão a par do
que aconteceu, recentemente, na colônia Alpha Vinte e Um?
— Não soube de nada — disse Mario de Monti — o que se
passou?
— Um destacamento de robôs tinha sido programado para a tarefa
de represar água — disse Rott, sem dar uma resposta direta. — Pois
bem; represaram tanta água que quase afogaram a colônia inteira... e
por quê? Só porque o psicólogo não estava presente e ninguém tinha a
menor noção de como se muda a programação de um robô.
Tamara, em pé ao lado de McLane, apoiava-se no espaldar de uma
cadeira desocupada. Aliás, parecia que nenhum dos presentes prestava
a devida atenção às palavras do instrutor.
— É só trocar as fitas eletrônicas, ora bolas! — murmurou
Tamara. McLane levantou os olhos para ela e sacudiu a cabeça.
— É uma pena — disse, em tom mordaz — que a senhora não
estivesse lá quando a água subiu. Eu teria dado pulos de
contentamento se tivesse sido transferida após o episódio em Alpha
Vinte e Um.
Tamara sorriu e encolheu os ombros, num gesto de indiferença.
Estava voando com McLane há um mês e, desde o primeiro dia,
uma inimizade declarada reinava entre o comandante e a agente do
SSG. Vez por outra, havia um lampejo de compreensão ou lucidez,
mas o fim dessa hostilidade não parecia estar perto. E ainda faltavam
trinta e cinco meses... Tamara arrepiou-se, ao se lembrar disso.
— Portanto, senhoras e senhores, é do seu próprio interesse
prestarem a máxima atenção. Deixem de lado a má vontade; preleções
fazem parte da cultura geral e, pelo comportamento dos senhores quer
me parecer que a cultura deixa muito a desejar. Repito mais uma vez:
Os robôs da série WK são máquinas destinadas a trabalhar ou a
combater, em seus cérebros foram firmemente implantadas as três leis
fundamentais dos robôs, e essas leis não são afetadas pela respectiva
programação.
O auditório estava agora um pouco mais calmo e atento,
observando os detalhes dos robôs. Os dois modelos, de aspecto
idêntico, pertenciam à série WK, mais conhecida pela designação
Worker, deduzida das letras da sigla. O corpo, em forma de um disco
inflado, possuía seis braços e era encimado por um "cabeça"; para a
locomoção, existiam um pé curvo e um apêndice antigravitacional.
— Como sabem, existem três Leis do Robô. Foram concebidas,
em priscas eras, por um cientista-escritor e mostraram-se inteiramente
satisfatórias e suficientes até o dia de hoje. A primeira Lei do Robô é a
seguinte: Um robô não deve ferir qualquer ser humano, e não se deve
manter inoperante quando algum ser humano corre o perigo de ser
agredido por terceiros.
Atan e alguns dos ouvintes riram, e Rott olhou para o
astronavegador com aquele vivo interesse com que os cientistas
costumam examinar um inseto raro.
— A segunda Lei, indelevelmente gravada no cérebro de todo e
qualquer robô em operação, diz o seguinte: Um robô tem que
obedecer às ordens dadas por um ser humano, salvo o caso em que
essas ordens venham a conflitar com o estabelecido na primeira Lei.
Rott apontou para um dos dois robôs.
— Acontece que, com esse equipamento, os nossos robôs
conseguem pensar de maneira lógica mas nem sempre racional. Isto
significa que não podem se adaptar a uma situação modificada.
Recolhem impressões, mas processam estas impressões de modo
incompleto, originando assim incertezas e dúvidas. Isto, por sua vez,
pode levar a perturbações na programação e a interpretações
voluntariosas das ordens recebidas. No caso dos modelos mais
simples, a terceira Lei do Robô contribui para criar tais incertezas. Diz
o seguinte: Um robô deve proteger a própria existência, desde que
essa proteção não contrarie o que rezam as duas primeiras Leis.
Um dos robôs flutuava, imóvel, acima de uma placa brilhante de
uns três metros de diâmetro e com espessura de, no máximo, dois
centímetros.
Um cabo grosso ligava a placa a um objeto semi-esférico, cuja
seção plana se apoiava diretamente no chão; era o transformador da
corrente da placa de impulsos.
— Este aqui é um robô do tipo WK, Worker, uma máquina para
trabalhos meio-pesados. Para efeitos de demonstração, causamos uma
ligeira perturbação no centro de correlação. As fitas de comando
eletrônicas estão perfeitas. Por assim dizer, este robô está sofrendo de
uma neurose cibernética.
Algumas pessoas no auditório deram uma leve risada; obviamente,
entendiam alguma coisa de robôs e fitas automáticas. Rott caminhou
até uma das grandes placas de comando, passando pelo robô, que
estava preso por uma rede de raios gravitacionais.
— O outro robô é perfeitamente normal; não tem perturbação
alguma.
Com uma voz de comando incisiva, Rott deu uma ordem.
— Worker 3184!
O robô reagiu, acendendo e apagando, em rápida sucessão, uma
série de luzes num dos lados da sua cabeça.
— Quadro de controles! — disse Rott, com voz dura.
Lenta e silenciosamente, o robô pôs-se em movimento. Deslizava
por cima de um campo de raios antigravitacionais, seguindo o
caminho que o dispositivo de busca no seu pé lhe indicava por meio
de células fotoelétricas e de selênio.
— Pare!
O robô estacou quando a ordem ainda pairava na sala.
— Quadro de controles!
Mais uma vez a máquina avançou sem o menor ruído. Os circuitos
eletrônicos reagiam praticamente em nanossegundos. O robô deslizou
até o quadro, no qual se destacavam alguns botões reluzentes,
especialmente instalados para os braços mecânicos do autômato.
— Liberte o Worker 2714!
Um dos braços telescópicos do robô ergueu-se ligeiramente,
estendendo o fole de proteção prateado. O braço encompridou-se e o
pulso girou, assumindo a posição "Abrir". Pouco a pouco, a mão
artificial aproximou-se do botão, agarrando-o, por fim, com um
movimento incrivelmente delicado. Com esta ferramenta de aço-
cromo um robô era capaz de arrancar pedaços de uma parede rochosa
e de dobrar barras de ferro.
O robô empurrou o botão deslizante para a direita, desligando a
corrente que alimentava a placa de impulsos. O robô "neurótico"
estava livre. Um motor começou a funcionar no seu interior; por um
instante, ouviu-se o débil uivo do arranque; depois o ruído
desapareceu. De repente, os assistentes pararam de cochichar e fitaram
a máquina com olhos curiosos. Pressentiam que algo de surpreendente
ia acontecer agora, já no final da monótona demonstração. Rott sabia
perfeitamente o que o robô libertado iria fazer, e pôs-se a observar o
auditório com um olhar de maliciosa expectativa; aquele sorriso
tornou-se ainda mais sarcástico. O robô avançou, em câmara lenta. A
força que o impelia era suficiente para arrastar toneladas de minério
ou levantar fardos pesadíssimos a metros de altura. Um dos braços da
máquina baixou violentamente sobre a balaustrada que separava o
auditório da plataforma de demonstrações, reduzindo-a a cacos de
madeira e Plexol, em meio a um tremendo fragor.
— Rott quer mostrar o que seus bichinhos de estimação podem
fazer! — comentou McLane e tirou a mão do encosto da cadeira.
— Não vai me dizer que tem medo de um robô? — observou
Tamara, exatamente naquele tom irônico que mais irritava McLane.
— Nem dele, nem da senhora, tenente! — disse McLane e sacou a
arma. Não estava disposto a correr riscos. Enquanto as outras pessoas
se levantaram, sobressaltadas, das cadeiras, a equipe da Orion
permaneceu sentada, mas atenta. Na última fila, o capitão de um
cargueiro começou a rir desbragadamente; à sua risada, misturavam-se
os rangidos e estalos da balaustrada demolida, por cima da qual o robô
continuava o seu avanço. Os raios lançados pelo seu aparelho de
locomoção reduziam a frangalhos o que tinha sobrado das peças de
madeira e das barras de aço. Calmamente, McLane destravou o
projetor. O robô estava a três metros de distância. Nem mesmo Atan
fez um dos seus gestos estabanados; lívido, manteve-se agarrado aos
braços da poltrona.
— Alto! — berrou Rott em meio àquela balbúrdia, lançando um
olhar de advertência para McLane. Agiu com surpreendente rapidez.
Em três tempos, passou pelo robô, que ainda estava diante do quadro
de controle, e lançou-se sobre o "perturbado"; com a mão esquerda
abriu uma pequena janela na cabeça de 2714 e enfiou a mão no
interior do centro de comando da máquina. O robô estacou na hora, a
dois metros de McLane. Cliff travou a arma e os assistentes voltaram
aos seus lugares, em silenciosa expectativa.
— Como tiveram ensejo de notar — disse Rott, com sua
indefectível ironia — os acontecimentos fizeram-se acompanhar de
uma certa dramaticidade, não há como negá-lo. Nosso valente
comandante McLane estava até mesmo em vias de destruir um robô
do mais alto valor, por se sentir ameaçado na sua integridade física.
Todavia, os controles embutidos permitiram-nos corrigir os reflexos
básicos orientados. Só precisamos extinguir os potenciais criados pelo
robô. Eu os extingui, recorrendo ao simples expediente de apertar o
botão neutraliza-dor, o botão "Zero".
Rott virou-se para o robô paralisado e recebeu um olhar maléfico
daquele olho enorme.
— Worker 2714, posição a!
O robô girou lentamente e voltou à sua posição inicial, no centro
da placa de impulsos. Rott encaminhou-se para o quadro de controle e
disse:
— Por favor, prestem bem atenção, agora. Vou lhes mostrar como
proceder para trocar ou corrigir os relês eletrônicos.
Apontou para um desenho afixado no quadro. Alguém entrou na
sala. McLane virou-se e viu uma ordenança que vinha caminhando
lentamente pela passagem entre as filas de cadeiras; assim que
descobriu o comandante, apressou os passos e apresentou-se, com um
olhar de indisfarçada admiração. Tamara ergueu as sobrancelhas, num
gesto desdenhoso.
— Sim, o que é? — perguntou McLane, sem se levantar.
A moça limpou a garganta e ruboresceu ao reparar o sorriso
malicioso de Atan.
— Comandante, deve se comunicar imediatamente com o quartel-
general das Formações de Reconhecimento Espacial. É urgente!
McLane lançou um olhar irritado para a ordenança, mas logo se
desculpou com um sorriso. Olhou para Tamara e Mario com uma
expressão de surpresa e indagação e encolheu os ombros. Rott elevou
a voz:
— Todo relê eletromagnético possui apenas duas posições: Ligado
e Desligado...
Apontou primeiro para o crânio aberto do robô, e depois para o
esquema do circuito no quadro.
— É urgente, Major! — insistiu o oficial feminino.
Irado, McLane disse a Tamara:
— Fico extasiado com a riqueza do vocabulário dos meus
superiores. E igualzinho ao dos robôs. "Urgente!", "Ultra-secreto!",
etc. e tal. E tudo seguido de um ponto de exclamação desse tamanho!
Vamos embora, meninada! — Tamara não sabia ao certo se a
expressão de McLane a incluía, mas levantou-se por via das dúvidas.
Atan, Helga, Mario e McLane dirigiram-se à saída, seguidos de
Tamara.
— ...e uma insignificante variação da intensidade dos impulsos
destas fitas eletromagnéticas de comando já é o suficiente. Porém é
preciso, senhores e senhoras, que esta modificação seja feita
corretamente. Para isto, alternamos as conexões. Transferimos a
ligação de ípsilon 18 para ípsilon...
Foram as últimas palavras que McLane conseguiu ouvir, antes que
a porta automática da sala de conferências se fechasse atrás dele.
Seguindo a ordenança, caminharam pela noite amena. Nem McLane
nem seu vigilante feminino suspeitavam que esta última frase em
breve iria assumir uma importância inesperada.
***
O comandante Cliff Allistair McLane ocupava uma posição à parte
na sociedade. Por um lado, já tinha se tornado indispensável a
presença desse homem alto, de cabelos castanhos curtos, nas reuniões
e festas que se sucediam. Por outro, havia os que o marginalizavam,
chocados com a sua maneira de comandar uma nave espacial e a
interpretação pessoal que dispensava ordens e regulamentos. E por
isso tinha sido removido para o Serviço de Patrulhamento.
Logo no início das novas funções, McLane viu-se envolvido em
aventuras até mais complicadas e perigosas que aquelas que haviam
servido de justa causa para a sua transferência; mas isto não chegou a
comover seus superiores. A descoberta de invasores estranhos, que
haviam capturado um satélite retransmissor, contava tão pouco quanto
a destruição do planeta que tinha ameaçado a Terra de extinção total
— Cliff permanecia no Serviço de Patrulhamento, e as tarefas que lhe
incumbiram eram de natureza tão elementar que podiam ser realizadas
por um cadete "qualquer. E o tempo todo McLane sentia na nuca o
olhar vigilante de Tamara Jagellovsk que, com o irritante pedantismo
de todos os oficiais do SSG, mantinha-se atenta para impedir que Cliff
ou algum membro da sua equipe se desviasse um milímetro sequer
dos caminhos prescritos pelos rígidos regulamentos de serviço.
A ordenança bateu continência, lançou um olhar ansioso para Cliff
e retirou-se, caminhando para a direita. Mario seguiu-a com os olhos,
até que uma escotilha hexagonal se fechou por trás dela.
— Tome cuidado com seus olhos, Mario! — alertou Cliff —
assim, podem saltar das órbitas!
Mario engoliu em seco e deu um aceno meio desalentado. Cliff
perguntou a Tamara:
— O SSG ainda não inventou uns antolhos para oficiais que
correm sério perigo de ficar sem os olhos por qualquer rabo-de-saia?
Com toda calma, enveredaram por um longo corredor; alguém
havia dito que o assunto era urgente. Tamara respondeu, sem sorrir:
— Ainda não. Mas eu soube, por vias extra-oficiais, que todo o
contingente feminino vai ser substituído por robôs do tipo Worker.
Mario não se deu por vencido e retrucou, com malícia:
— A senhora também, tenente?
O rosto de Tamara derreteu-se num sorriso doce; Mario viu logo
que a doçura era falsa como quê.
— Eu? substituída? — disse Tamara, baixinho. — Então não sabia
que eu também sou apenas um robô, se bem que dos mais
sofisticados?
McLane começou a rir; tinha que admitir que Tamara às vezes
sabia dar ótimas respostas.
— Nesse caso, tome bastante cuidado, Tamara! — advertiu Mario,
ignorando a risada do seu chefe.
— Cuidado com quê? — indagou o tenente Jagellovsk.
— Vai chegar o dia — profetizou Mario, imitando os movimentos
de uma chave de parafusos — em que vou desmontá-la todinha, só
para ver se descubro o que a torna tão desagradável!
Entraram na cabine espaçosa de um elevador de alta velocidade.
Atan registrou o andar e o corredor no quadro seletor e apertou o
botão de partida. Minutos mais tarde, estavam na ante-sala do gabinete
de Wamsler. Um aspirante feminino levantou-se e fez a saudação
regulamentar.
— Comandante McLane! Tenho que transmitir-lhe uma ordem
urgente do marechal!
A equipe de McLane enfileirou-se diante da escrivaninha do
aspirante.
— Que novidade é essa? Agora já vamos ser despachados na ante-
sala de Wamsler, é? — quis saber o comandante do cruzador espacial
Orion VIII, em tom altivo. A esta altura, a Orion VII já era parte
integrante do resto de uma névoa luminosa, que pairava, a minutos-luz
do sol terrano, entre as estrelas da constelação dos Cães de Caça,
dificultando a observação.
— O marechal envia-lhe cordiais saudações — disse a ordenança
— mas está participando de uma sessão do estado-maior interestelar.
Se preferir, major, pode ser atendido pelo tenente Spring-Brauner...
McLane espalmou as mãos na altura dos ombros e lançou um olhar
furioso para o aspirante.
— Mantenha esse sujeito longe de nós! A senhora ao menos tem a
vantagem de ser bonita. Portanto, dê-me logo a pílula amarga!
Mario fez um gesto efusivo e declarou:
— Por você, garota, sou capaz de me lançar na mais obscura
nebulosa!
— Não é preciso — disse a moça, alegre. — Não precisa ir tão
longe.
— Para onde vamos? — perguntou McLane e pegou a pasta das
mãos da ordenança, sem olhar para ela.
— Só até o cubo espacial Quatro/Oeste 034.
— Ah, é? Fazer o quê, lá? No momento, estamos nos esforçando
para aturar aquele curso de aperfeiçoamento.
O aspirante feminino contemplou McLane com um sorriso
radiante.
— Vai ter que coletar os registros automáticos das ondas espaciais
que foram dispostas em torno do planeta de Larsen. Os dados
astrofísicos colhidos por esses instrumentos são indispensáveis para o
relatório mensal.
McLane sentiu uma necessidade premente de se sentar.
— Isso para cima de nós? — perguntou, incrédulo. — Mas não é
possível!
— E não se esqueça de avisar o nosso escritório assim que chegar
ao cubo Quatro/Oeste 034! — disse a ordenança, lembrando-se das
palavras de advertência do seu chefe.
Coisas desagradáveis sempre aconteciam com uma repentinidade
inesperada.
— Vou lhe avisar — disse De Monti, rindo — quando estivermos
de volta, aspirante; em pessoa!
Neste instante, a porta de um dos escritórios anexos se abriu, e
Spring-Brauner entrou em cena.
— Será um prazer, De Monti — estava respondendo a moça. — E
desejo-lhe um vôo tranqüilo!
— Tirou as palavras da minha boca! — disse Spring-Brauner.
O comandante McLane virou-se, lentamente.
2

Os dois homens estudaram-se, em silêncio. Um detestava o


outro, mas, no momento, Spring-Brauner levava uma nítida vantagem.
Finalmente, McLane respondeu, com voz dura:
— Logo o senhor devia pensar três vezes, antes de soltar uma
observação supostamente espirituosa!
Spring-Brauner franziu as sobrancelhas, num gesto presunçoso.
— Creio que não entendi bem, comandante — disse, fingindo.
— Então pensa que eu não sei quem inventa essas missões idiotas
para mim e minha equipe? Coletar dados de sondas espaciais! Isso é
tarefa para monitores de turma de uma academia de navegação
espacial! Esgotou seu estoque de cadetes?
— Major McLane! Não se esqueça que foi removido para o
Serviço de Patrulha-mento Espacial! No seu lugar, não faria tantas
exigências no que se refere à natureza das tarefas! Lembre-se de que
foi punido!
— Isso não é nada — disse McLane, quase sem entonação na voz
— castigo muito maior estou sofrendo agora, tendo que discutir com o
senhor!
Virou-se e abriu a pasta que continha as instruções da missão.
— Tenho um assunto importante a tratar, comandante; com sua
licença, vou me retirar — disse Spring-Brauner com o sarcasmo
habitual, e retirou-se.
— Quatro/Oeste 034 — disse McLane, pausadamente, e pôs-se a
examinar as posições das sondas marcadas no mapa astronômico.
Alguns meses atrás os pioneiros haviam descoberto um planeta de
características nitidamente terranas. Colocaram uma série de sondas
em órbitas estáveis ao redor do surpreendente achado e, desde então,
esses instrumentos ultra-sensíveis vinham registrando quantidades de
radiação, campos magnéticos e intensidade solar. A Terra tinha
intenções de colonizar o planeta de Larsen.
— Quando partimos? — perguntou Mario de Monti, que
continuava a derramar seu charme sobre a ordenança.
— Amanhã — respondeu o comandante. — Às doze e trinta. A
Orion VIII já está sendo abastecida. Até lá, estamos de folga. E eu
bem que preciso de algumas horas de repouso, para me recuperar do
impacto dessa missão e da personalidade única de Spring-Brauner.
— Sendo assim — disse Helga — vamos tirar o máximo proveito
dessas horas de folga. Porque depois o comandante McLane e sua
valorosa tripulação vão iniciar a sua terceira missão, enfrentando
corajosamente as inenarráveis ameaças das sondas espaciais.
Acompanhados por Tamara, retiraram-se da ante-sala e, poucos
minutos depois, estavam de novo na superfície do continente,
respirando o ar puro da noite estrelada. Despediram-se. Pensativo,
McLane caminhou em direção ao bangalô em que morava na
companhia de uma dúzia de robôs caríssimos: era um solteirão
inveterado — e podia dar-se a esse luxo.
Duas horas após a despedida, McLane ainda estava acordado.
Refestelado numa enorme poltrona, lia um livro de bolso e escutava
música que emanava dos alto-falantes. Aos compassos de "Sons de
Uma Estrela Distante" misturou-se, subitamente, o assobio estridente
do videofone. McLane baixou o volume da sinfonia de Thomas Peter
e apertou um botão. O rosto de Hasso apareceu na tela aclarada.
— Cliff falando, Hasso. O que há?
— Acabei de falar com Helga. Ela disse que seria bom que eu
desse uma ligada para você — disse Hasso e olhou preocupado para a
verdadeira natureza-morta que Cliff havia espalhado ao seu redor. Na
mesa baixa e no chão ao lado dela, havia copos, garrafas, cassetes e
livros.
— Foi, sim. Partimos amanhã às doze e trinta.
— Entendi direito? Vamos para o planeta de Larsen?! —
perguntou o engenheiro de bordo da Orion, que não participava do
curso, nem tinha estado na ante-sala de Wamsler. Soube de tudo por
Helga e agora estava obtendo pormenores do seu comandante.
— Entendeu perfeitamente — disse Cliff McLane. — Mas o pior
não é isso. Sabe o que querem que a gente faça lá? Registrar os dados
colhidos pelas sondas e depois rebobinar as fitas! Não é uma beleza?
Hasso soltou uma risada curta e seca.
— Receio que esse tipo de trabalho vai esgotar as nossas
capacidades mentais — respondeu. — A propósito, quem é que assina
como responsável por essas ordens de serviço?
— Um amigo muito caro a todos nós, Spring-Brauner! — disse
Cliff.
— Algum dia nós pegamos esse sujeito — prometeu Hasso. — E a
nossa vingança vai ser terrível. Mudando de assunto... acabo de
examinar a Orion VIII.
— Ah, é? — perguntou Cliff, interessado. — Que tal?
Hasso esticou o polegar para cima, num gesto de total aprovação.
— Está perfeita. Estive a bordo com a turma da revisão, e
controlamos todos os aparelhos e seu funcionamento. A nave é
superior à Orion VII: Introduziram uma série de melhoramentos;
pequenos, mas decisivos. Podemos partir sem a menor preocupação.
— Ótimo, Hasso — respondeu o comandante McLane. — Então
nos encontramos amanhã, devidamente equipados, no lugar de
sempre. Recomendações a Ingrid!
— Obrigado. Até mais tarde.
Cliff apagou a tela e aumentou novamente o volume do aparelho
de som. Os compassos marcantes da sinfonia de Thomas Peter
voltaram a ribombar pela sala. Em seguida, absorveu-se na leitura
interrompida. Era a resenha pormenorizada de uma peça levada ao ar
pela televisão terrana.
***
Doze horas e dezessete minutos: A tripulação trajava os macacões
de bordo, os projetores energéticos pendiam dos cintos. Tamara
destacava-se dos demais pelo cinza do uniforme do SSG. Em fila
indiana, dirigiram-se à Orion VIII, que pairava no centro do poço de
partida. A discrepância era flagrante: no meio de um cilindro de aço
de mil metros de diâmetro, jazia um objeto com apenas cinqüenta
metros de extensão. O piso do elevador telescópico pousava no chão
do poço.
Tamara caminhava atrás da equipe de McLane, ostentando a
costumeira expressão reservada. Mas nem agora, a minutos da terceira
missão, sentia-se inteiramente à vontade: ainda não tinha encontrado a
maneira certa de lidar com este problema.
E este problema chamava-se McLane.
Mario de Monti e McLane foram os últimos a sair do pequeno
elevador. Cliff disse, baixinho:
— Desconfio que esse vôo vai ser chateação que não tem tamanho,
Mario. Programe um curso através do hiperespaço que nos leve até
uma distância de duas horas-luz do planeta de Larsen. Aqui estão as
coordenadas.
Entregou a pasta ao subcomandante, e observou:
— Faltam doze minutos.
— Entendido, Cliff. Não acha que devíamos fazer uma pequena
excursão complementar até Zeta Aurigae? — perguntou Mario, rindo
maliciosamente, e apontando o indicador para as costas de Tamara,
que, neste momento, tomava o elevador para a cabine de comando. A
porta fechou-se.
— Por que logo Zeta Aurigae? — perguntou McLane, inquieto.
— Gostaria de observar essa estrela variável das imediações, e
tirar algumas fotos.
— O SSG vai nos acorrentar! — objetou McLane. — Não, Mario;
nos próximos trinta e cinco meses só vamos realizar vôos normais e
idiotas, como se fôssemos cadetes. Se você está à procura de
aventuras, desligue-se do serviço!
— Muito obrigado, Cliff! — disse Mario, abatido — não há nada
como um bom conselho!
Entraram na cabine de comando. Seguiram-se as operações de
rotina, apreendidas e aperfeiçoadas em algumas centenas de missões.
Programaram o curso e Hasso ativou, uma por uma, as diversas
máquinas. Os instrumentos acordaram da sua letargia, repentinamente
cheios de luz, cores e sinais fugazes; colunas de algarismos passaram
em rápida sucessão pelas telas de minúsculos monitores. E,
finalmente, a voz arrastada do computador central da base, que
registrava e catalogava todos os pousos e partidas, iniciou a contagem
regressiva:
— Dez... nove... oito...
Os ruídos na cabine de comando aumentaram. Helga calcava as
teclas do aparelho radiofônico; era como se tocasse uma melodia
composta pelos sinais eletrônicos, do mais grave ao mais agudo; o
livro de bordo estava sincronizado.
— ... três... dois... um... Partida!
A Orion desprendeu-se e o remoinho apareceu na baía. A nave
elevou-se no poço, em posição horizontal, rompeu a superfície da
água e lançou-se para o alto.
A radiosa luminosidade do dia transformou-se num crepúsculo
difuso; depois, as sombras da noite cósmica envolveram o casco
metálico. As estrelas apareceram e a Orion projetou-se pelo espaço,
seguindo um curso que a afastava do plano da eclíptica num ângulo de
75 graus.
***
Uma sala: esférica e escura. Iluminada apenas por minúsculas
luzes, de uma intensidade dura, penetrante. Da cúpula pendia uma
bola feita de uma substância cor de fumaça. Era um modelo perfeito
do sistema solar terrano. Um sol. Nove planetas.
Um anel radiante de pequenas luzes que deslizavam com
velocidade constante entre as órbitas de Marte e Júpiter: o cinturão dos
asteróides. Trinta e duas luas planetárias. Entre elas, a décima lua de
Saturno, descoberta pelo Dr. Baudoin Dolfus, em 15 de dezembro de
1966. Pouco depois, a descoberta seria confirmada pelo observatório
astrofísico do Instituto Smithsoniano, em Cambridge, USA.
E ainda as órbitas e as posições dos planetóides, que não podiam
ser enquadradas num esquema anular fixo: Hidalgo, Apollo, Ícaro,
Amor... bem como os elementos das trajetórias dos cometas de Halley,
Morehouse e Biela. E no meio desse quadro moviam-se incontáveis
pontinhos vermelhos: naves espaciais! Era uma das salas da Estação
Avançada IV. Uma mesa de controle circular, que só servia para os
comandos de registro, cercava uma pesada poltrona giratória, ocupada
por um homem solitário que segurava a haste flexível de um pequeno
microfone.
— Estação Avançada IV chamando Centro de Computação na
Terra: o cruzador espacial rápido Orion VIII vai atravessar a fronteira
do sistema solar dentro de dezenove minutos.
Os olhos do homem seguiram a trajetória do pontinho luminoso.
Dirigia-se do plano da eclíptica para cima, em direção à estrela
Polar; a uma distância de alguns segundos-luz da Terra, mudou de
direção, formando um ângulo, para depois se manter constante. O
prolongamento dessa linha penetrava nas angulosas dimensões do
contínuo riemanniano e lá terminava em algum ponto, nas imediações
do planeta de Larsen.
O pontinho luminoso afastou-se continuamente e apagou-se
exatamente na linha limítrofe daquela esfera. A seção vertical, que
passava pelo centro dessa esfera, representava o apogeu da órbita de
Plutão; 39,5 unidades astronômicas.
A Orion ultrapassou a fronteira desse espaço esférico de quarenta
unidades astronômicas de diâmetro e desapareceu no hiperespaço.
***
A tripulação estava reunida na cabine de controle, com exceção de
Hasso, que permanecia na sala de máquinas cuidando dos seus
comandos e se mantinha em constante comunicação através do
videofone do sistema de bordo. McLane recostou-se na poltrona e
soltou o cinto de segurança. Os instrumentos mostravam que a nave
tinha retornado ao espaço normal no ponto exato fixado pelas
coordenadas programadas.
— Do comandante para máquinas — disse McLane. — Aguardar
final da última manobra de aproximação.
— De máquinas para comandante — respondeu Hasso. —
Entendido.
McLane registrou os dados referentes à posição da primeira sonda
no pequeno calculador de curso. Não queria efetuar a delicada
manobra de aproximação por meio dos controles manuais: as sondas
espaciais eram instrumentos frágeis. Decidiu levar a nave a uma
posição mais ou menos eqüidistante de todas as dezesseis sondas.
Normalmente, a conversa a bordo não era tão formal e tão fiel às
instruções contidas no manual, mas McLane havia aprendido que
podia evitar uma série de aborrecimentos se falasse, e obrigasse a
falar, o texto oficial enquanto o registro eletrônico de bordo estivesse
ligado. McLane reduziu a velocidade; à frente, ainda longe, estava o
planeta: uma bola dourada, com um ligeiro tom castanho; uma das
telas fornecia uma excelente imagem desse corpo. Fracamente
iluminado pela luz do sol daquele planeta, a Orion VIII se
aproximava. O vulto do planeta cresceu; seu contorno já não cabia na
tela, e Helga reduziu a ampliação da imagem. Finalmente atingiram
um ponto no espaço situado mais ou menos no meio das sondas.
— Do comandante para máquinas: gerar campo gravitacional.
Várias máquinas foram desligadas. A velocidade reduziu-se
abruptamente; a nave deslocava-se apenas alguns quilômetros por
segundo. Depois, os raios frenadores entraram em ação e a Orion
parou.
— De máquinas para comandante: campo gravitacional gerado.
— Obrigado. Estabilizar! — respondeu McLane.
Mais uma série de mostradores e faixas luminosas se apagaram.
McLane agarrou o microfone e disse:
— Do comandante para livro de bordo: Orion VIII no campo de
operações. Máquinas e geradores desligados. Posição estabilizada por
campo gravitacional. Fim do registro.
Helga girou a poltrona e desligou um último relê. Os tripulantes
reuniram-se em torno do comandante; Hasso veio da sala de máquinas
e postou-se ao lado de McLane.
— Bem — disse McLane e levantou o olhar. Reparou que Tamara
estava abatida. — Parece que está pressentindo coisas horríveis,
tenente Jagellovsk. Há uma acentuada palidez em torno do seu
narizinho encantador!
Impassível, Tamara retrucou:
— Desde quando se interessa pelo meu estado de saúde,
comandante McLane?
De Monti deu uma risada seca.
— Não seja tão sensível, tenente. Um bom comandante tem que
saber de tudo que se passa a bordo, e fora dele, também.
— Obrigada pela explicação.
Helga tinha efetuado uma série de leituras e projetou as posições
das dezesseis sondas na grande tela circular em frente à mesa do
comandante. Ao lado de cada pontinho, encontravam-se as respectivas
coordenadas. Em duas outras telas apareciam, nitidamente, as sondas
mais próximas. Pareciam espécimens de algum tipo de aranha
extraterrana.
— Quer dizer que nesses traços estão os dados que devemos
coletar — disse McLane. — Então, mãos à obra, para acabar logo com
essa brincadeira. Depois, vamos ter tempo de sobra para pensar se vale
a pena ou não fazer uma pequena excursão até Zeta Aurigae.
— Ouvi direito: "excursão"? — perguntou Tamara, desconfiada.
— Uma piadinha! — disse De Monti e fez um gesto negativo com
o indicador.
— Da próxima vez vão nos mandar recolher latas de lixo! —
observou Hasso, mal-humorado
— Aqui temos dezesseis sondas espaciais — disse McLane,
recapitulando os pontos principais da tarefa. — Estão espalhadas em
posições diversas e a distâncias variáveis do planeta. Temos que
transferir os dados registrados naquelas fitas para outras, e depois
rebobinar as primitivas. Atan e Helga, vocês serão os primeiros a sair.
Peguem a Lancet I, mas antes chequem a nave auxiliar mais uma vez;
é novinha em folha! Vão ficar lá fora dezenove horas e se encarregar
das sondas de números um a oito.
Helga voltou à mesa do transmissor e retirou um minigravador de
uma gaveta. Enquanto McLane apontava para oito dos pequenos
pontos na tela, Helga anotou os diversos dados.
— Hasso! Por favor, ajude-os. Controle o lançamento da Lancet e
certifique-se de que está tudo em ordem!
— Entendido, Cliff!
De Monti dirigiu-se à mesa do aparelho radiofônico, a fim de
estabelecer uma ligação entre a cabine de comando e a câmara de
ejeção da Lancet; ajustou também as freqüências para a comunicação,
o que, a rigor, era tarefa de Helga.
— Bem — disse McLane — era isso; obrigado a todos.
Helga e Atan dirigiram-se ao pequeno elevador, seguidos de
Hasso. A porta circular fechou-se atrás deles. Segundos depois, a
setinha luminosa indicou que tinham chegado à parte inferior da nave.
Tamara virou-se para McLane e disse:
— Não faça cerimônia comigo, comandante McLane; também
quero fazer parte de um grupo de trabalho.
Mario levantou os olhos das chaves e teclas, surpreso.
— Alguma vez já trabalhou com um propulsor preso às costas? —
perguntou McLane, espantado. — Sabe como se mexer, flutuando
livremente no espaço?
— Não sei, não — respondeu o tenente do SSG — mas...
— Que ótimo! — respondeu o comandante, irado. — E se alguma
coisa lhe acontece, é claro que o culpado sou eu. E na maioria das
vezes, algo costuma acontecer mesmo. É melhor que se recolha ao seu
leito de espuma de borracha e se dedique ao livro de Hammersmith. E
mais: Isto é uma ordem!
Contemplou-a com um sorriso formal. Tamara estava furiosa.
Encolheu os ombros e retirou-se da cabine de comando.
A voz de Hasso veio dos alto-falantes:
— Mario... dê uma espiada na mesa do transmissor, sim? — pediu.
Mario levantou-se do seu lugar junto ao computador e dirigiu-se
ao aparelho radiofônico, seguido do olhar de McLane. Ambos
notaram o pisca-pisca de uma lâmpada de controle.
— Alguém está procurando estabelecer contato — disse Mario
após três segundos. — No canal 18, junto ao ponto 106.
McLane respondeu, meio desinteressado:
— Ligue o aparelho automático de busca e regule o amplificador!
— Estou captando um impulso de identificação. Se me lembro
direito, deve ser um daqueles cargueiros de minério bem velhos.
Cliff riu.
— Seja gentil e emita nosso sinal de identificação. E também o
código de "boa viagem".
— Está bem.
Cada nave dispunha de um impulso característico, invariavelmente
emitido toda vez que o eco de uma outra nave aparecia no radar. Desta
maneira, todos os encontros podiam ser registrados e controlados.
O espaço era incomensurável e, por isso mesmo, esses encontros
não eram freqüentes.
McLane ligou o sistema de comunicação de bordo e disse:
— Do comandante para a tripulação. Por favor, vão dormir. Helga
e Atan constituem o primeiro turno; vão ser substituídos daqui a
dezenove horas.
Ouviu-se um zumbido e uma outra tela aclarou-se.
— Lancet I pronta para lançamento — avisou a voz de Hasso;
Atan acenava no videofone.
— Então chute logo esse negócio para fora! — gritou McLane.
Na parte superior da Orion VIII os segmentos do diafragma de
vedação se recolheram. Vestidos nos trajes espaciais, mas sem os
capacetes, Atan e Helga estavam sentados diante dos controles da
nave auxiliar, um disco composto de duas cascas de acentuada
curvatura. Atan fez o sinal de "tudo pronto" para Hasso. A catapulta
magnética arrastou a Lancet pelos trilhos e a lançou para fora da
Orion. Os ímãs desprenderam-se do casco da nave e, segundos depois,
as vinte pequenas cúpulas apareceram, luminosas, na tela de imagem.
Lentamente, e sem emissão de energia perceptível, a Lancet afastou-se
na nave-mãe, dirigindo-se para a posição da sonda número um, que
registrava os fenômenos magnéticos na região limítrofe entre a
atmosfera do planeta de Larsen e o universo. A imagem da Lancet
diminuía constantemente. Alguns minutos depois, Atan reduziu a
velocidade.
Aparentemente imóvel, a primeira das dezesseis sondas pairava na
escuridão do cosmos, a menos de vinte metros da Lancet. Um objeto
constituído por uma fita espelhenta, dividida em setores. Minúsculos
sensores cobriam esses trechos e, no centro da sonda, encontrava-se a
microcentral de energia do estabilizador. Na extremidade de um braço
rígido, havia uma esfera altamente polida. E nesta esfera estavam
alojados os carretéis da fita magnética. O primeiro objetivo...
3

TAMARA, Hasso e Mario estavam nas suas cabines,


provavelmente dormindo. McLane, sozinho na cabine de comando,
tinha desligado toda a iluminação. Uma fraca luminosidade era
irradiada pela imagem do planeta na tela em frente a ele. Cliff
cochilava, acomodado na poltrona e com os pés em cima da mesa de
controle. Uma hora tinha se passado desde o lançamento da Lancet.
O receptor emitiu um zumbido duro. McLane mexeu-se.
Novamente... Cliff tirou os pés da mesa e assumiu uma posição mais
rígida; ouviu o terceiro sinal. Bocejando, levantou-se e foi até o
receptor Apertou um botão vermelho e imediatamente uma voz disse,
rente ao seu ouvido.
— Alô, Orion!... estou chamando o cruzador espacial Orion... por
favor, responda!
McLane acenou e aproximou o queixo do microfone de Helga.
— Aqui fala a Orion VIII — disse, com voz meio baixa. —
Comandante McLane. Estou lhe ouvindo bem.
A resposta veio imediatamente.
— Aqui fala o telegrafista de plantão do cargueiro espacial Sikh
XII. Meu comandante gostaria de bater um papo com o senhor. Pode
fornecer uma imagem?
Cliff esboçou um sorriso e procurou a chave do transmissor de
imagens. Perguntou:
— Posso saber quem é o seu chefe?
— O comandante Ruyther! — foi a resposta.
— Ruyther! — exclamou McLane e ligou a tela do receptor. — O
quê...?
Anos atrás, ainda aspirante, McLane havia servido sob as ordens
de Ruyther, e conhecera nele um superior compreensivo, porém, com
uma indefectível mania de espalhar lorotas cosmonáuticas. A tela do
videofone aclarou-se e mostrou a imagem de um homem mais velho
que McLane, trajando um uniforme semelhante. Ruyther mostrou os
dentes num riso aberto.
— Faz um bocado de tempo, McLane! Suponho que ficou grã-fino
demais para manter contatos radiofônicos com um cargueiro de
minério, hein?
— Nada disso! — disse McLane, extremamente cordial. — Mas
que surpresa, comandante Ruyther! Que está fazendo a bordo de um
cargueiro? Foi removido?
Ruyther riu.
— De forma alguma! Esta nave faz parte da frota; o minério é tão
valioso que o transporte tem que ser cercado de toda a segurança.
— Compreendo — respondeu McLane. — E como vai indo com
esse negócio?
De repente, a expressão do rosto de Ruyther tornou-se mais séria
que a ocasião ensejava.
— McLane, seu malandro — disse, com voz meio baixa. — Tive
uma sorte danada de encontrar logo você! Tenho que lhe contar uma
coisa!
— Sou todo ouvidos — disse Cliff e acomodou-se na poltrona de
Helga.
— Você ainda está cumprindo aquela punição? — perguntou
Ruyther.
Cliff acenou, resignadamente. Parecia que não havia ninguém na
frota que não soubesse do triste destino de McLane e sua tripulação.
— Estou transportando minério de Pallas beta para a Terra —
disse Ruyther. — É por isso que a minha velocidade é relativamente
baixa. Daqui, Pallas beta dista apenas um e meio ano-luz. Não temos
pressa. Quatro vezes por ano arrasto uma tremenda carga de
germanicum para a Terra. Claro que tudo isso é altamente sigiloso.
— Deve ser um trabalho excitante? — perguntou McLane, com
total hipocrisia.
— Nem imagina quanto! — respondeu Ruyther. — Há anos,
Pallas beta abriga setenta colonos e vinte e um robôs do tipo WK.
Minha nave é grande demais para poder pousar lá; por isso,
simplesmente disparam foguetes cheios de minério e colocam-nos em
órbita. Depois, eu os recolho, mas...
— Isto é alguma fábula interestelar, capitão? — interrompeu
McLane, incrédulo.
— Não é, não, Cliff! — respondeu Ruyther. — É a mais pura
verdade. Agora, escute só essa. O que é que você acha que estava nos
foguetes-containers quando pousei na Terra da última vez?
— Poeira de estrelas? — perguntou Cliff, com a expressão de uma
criança ouvindo um conto de fadas.
— Nada disso! Só pedras. Entulho. Nenhuma grama de minério!
Pode imaginar o que os cavalheiros da Comissão Espacial me
disseram! Acusaram-me praticamente de todos os delitos cabíveis,
desde simples sabotagem até alta traição. E não tive mais contato com
os colonos, Cliff!
— Desde quando, Ruyther? — perguntou McLane.
— Ontem, foi a segunda vez. Nas vezes anteriores, um deles subia
num dos foguetes, e depois nós o levávamos de volta numa das
Lancet; mas parece que resolveram nos boicotar. Ou então estão todos
mortos e só os robôs ainda trabalham...
— Estou escutando, comandante! — disse McLane. — Você
comunicou isso?
— Claro que sim! Mas tudo indica que minha comunicação
extraviou-se nas tramitações burocráticas.
— E uma coisa dessas acontece mesmo? — disse McLane, falando
com seus botões. — Mas um aviso sobre um dos meus pequenos
deslizes não se extravia nunca! É gozado!
— É realmente curioso — disse Ruyther, sem sorrir. — Você está
prestando bem atenção, Cliff McLane?
— Estou sim! E como continua a história?
— Desta vez, foi a mesma coisa; nenhum colono nos procurou; e
ninguém respondeu aos nossos chamados radiofônicos. Mas os
foguetes estavam em órbita, na hora prevista.
— Mas... — disse Cliff. Ruyther levantou a mão.
— Como disse, não recebemos nenhuma resposta. As órbitas
circulares dos foguetes eram as mesmas de sempre, exatas até o
último centímetro. Mas nada de nos avisar se tinham recebido
direitinho os containers de abastecimento que lançamos. Nem mesmo
um aviso luminoso, nenhum sinal... nada. Como se Pallas beta
estivesse morto ou desabitado.
— Isso me cheira um bocado mal! — disse Cliff, pensativo.
— O termo não é bem este, garotão! — respondeu Ruyther. —
Comuniquei o fato imediatamente, mas parece que os burocratas
cometeram algum engano. Só estão interessados no suprimento de
minério. Tenho a ligeira desconfiança que, desta vez, também só estou
transportando entulho.
Cliff passou a mão pela nuca, pensando qual seria o tipo de
cargueiro, a que a Sikh pertencia.
— Não pode fazer uma checagem? — sugeriu.
Ruyther sacudiu a cabeça.
— Não, não podemos. Os foguetes-transportadores estão presos ao
casco da nave por meio de ímãs. E não dispomos de equipamento
adequado para abrir os containers e verificar o que contêm. Afinal,
estamos voando com a Sikh e não com a Orion.
McLane logo compreendeu a que tipo o cargueiro pertencia.
Ruyther tinha razão. Correria sério perigo de vida se tentasse sair da
nave em pleno espaço. Uma suspeita nítida formou-se nos seus
pensamentos.
— E o que tem essa história a haver comigo, comandante?
Com uma expressão resignada o ex-superior de McLane
respondeu:
— Anos atrás, McLane... ainda há um ano, você já estaria a
caminho de Pallas beta.
— Por que logo eu?
— Por quê? Porque a Orion está suficientemente perto daquela lua
gigante. Porque o comandante e sua equipe figuram entre os homens
mais audaciosos da frota! Porque o destino de uma colônia da Terra
não pode nos deixar indiferentes. Eis porque essa história tem muito
que haver com você, McLane!
— As coordenadas estão no manual — murmurou McLane, mas
Ruyther ouviu a frase.
— Estão lá, sim senhor!
McLane continuou a refletir. Observou os instrumentos no painel e
depois olhou novamente para o rosto descrente de Ruyther, que estava
adquirindo uma expressão de esperança. Cliff começou a retorcer a
boca. Quem o conhecia sabia o que isto significava. Apertou uma
pequena chave no painel. Os despertadores tocaram estridentemente
nos alojamentos da tripulação.
— Está bem, comandante — disse Cliff.
— Quer dizer que vai tentar pousar em Pallas beta? — perguntou o
capitão do cargueiro.
— Acertou! — respondeu McLane.
— Olhe! Eu não disse absolutamente nada; só trocamos algumas
gentilezas. Está claro, Cliff?
— Claríssimo, chefe! — respondeu McLane exibindo o seu sorriso
temido. — E dê lembranças aos seus garotos. Já estou a caminho!
— Boa sorte!
— Obrigado! Desligo.
A tela apagou-se; o contato foi interrompido. Daqui a pouco, o
cargueiro mergulharia no hiperespaço.
***
Mario e Hasso chegaram à cabine quase ao mesmo tempo.
— Sentem-se — disse Cliff e apontou para a pequena cafeteira ao
lado da mesa de Mario. — Ligue esse negócio aí, e depois escutem o
que eu tenho para lhes contar.
Resumiu em poucas palavras o que Ruyther havia relatado.
— O que você acha, Hasso? — perguntou, ao finalizar.
Hasso baixou a cabeça; em seguida esticou o lábio inferior e disse.
— O que estamos esperando?
— Apenas o resultado do plebiscito — disse McLane. — É uma
fraqueza minha; adoro plebiscitos. Mario.
Mario já tinha agarrado o manual e estava lendo as coordenadas de
Pallas beta, a lua de Greenwood. O sol estava catalogado sob o
número p-900229.
— Ligo o computador? — perguntou Mario, com displicência
exagerada.
— Três votos a favor, e uma abstenção, já que Tamara está
dormindo e não pôde comparecer às urnas — disse Cliff.
— O que se deve principalmente ao fato de que ela não foi
acordada — constatou Hasso, secamente, e caiu na risada. — E o que
acontece com a Lancet?
— Vou chamar Atan e Helga e coloco-os a par. Ainda dispõem de
reservas para dezoito horas.
— OK. Vou tratar das máquinas. Hasso retirou-se e um minuto
depois
apareceu na tela, avisando que estava tudo pronto no seu setor.
— Assim que estivermos a caminho, vou avisar o nosso tenente do
SSG — disse McLane.
Ajustou a freqüência e chamou Helga e Atan. Explicou-lhes o que
tinha em mente, prometendo voltar antes de decorridas as dezoito
horas do seu turno. Atan desejou boa sorte e informou que já estavam
tratando da sonda número dois.
— Tem mais uma coisa, Atan — disse Cliff, num tom sério.
— Sim. O que é?
— Pode acontecer de nos procurarem com o que têm e o que não
têm; você conhece as autoridades e o nosso amigo Spring-Brauner tão
bem quanto eu. A senha é Laurin.
Atan entendeu na hora.
— Laurin? Está falando sério, mesmo? McLane acenou com a
cabeça, vigorosamente.
— Assim que você perceber o mais leve impulso de um raio de
busca, já sabe: Laurin para eles! Entendido?
— De acordo; mas consome um mundo de energia.
— Olhe, Atan, consegui chegar a treze horas numa Lancet velha
antes que as baterias virassem sucata. Vocês vão conseguir oito a dez
horas fácil.
— Vamos, sim. E bom sucesso!
— Obrigado. Não demora e estamos de volta para apanhar vocês!
Desligo.
McLane acelerou a Orion com valores na faixa vermelha,
imprimindo-lhe quase instantaneamente uma velocidade alucinante. O
planeta de Larsen afastava-se na tela como um projétil.
Tamara apareceu na cabine alguns segundos após o leve choque
que a Orion sofreu quando mergulhou no hiperespaço.
Perguntou o que tinha acontecido e ouviu o curto relato de
McLane, em silêncio e aparentemente calma. Depois, explodiu:
— Nunca deixa de fazer exatamente aquilo que lhe dá na veneta,
não é, major? — sua voz tremia de raiva.
— Escute, minha filha... — começou McLane mas Tamara lhe
cortou a palavra. Mario assistia à discussão sentado no lugar de Atan;
Hasso acompanhava os acontecimentos na tela do videofone.
— Não vou escutar coisa alguma! A minha função a bordo desta
nave é zelar pelo cumprimento rigoroso das ordens. Agora, para mim
chegou. Eu tenho que comunicar imediatamente que o senhor, major
McLane, abandonou a posição predeterminada. Vou ter que denunciá-
lo, entendeu?
A seriedade com que McLane encarava Tamara parecia irritá-la
ainda mais.
— É quase certo que vidas humanas estão correndo sério perigo
em Pallas beta — disse Cliff. — Pode assumir essa responsabilidade?
Fora de si, Tamara gritou:
— Isto é da alçada da Comissão Espacial, e não de um comandante
indisciplinado que está entediado!
— Eu acabei de lhe expor, claramente, que as autoridades
espaciais não estão se incomodando com os acontecimentos em Pallas
beta.
McLane espalmou as mãos, como que se inocentando, e depois
apontou para os instrumentos. Tamara reparou que só faltavam
quarenta segundos para voltar ao espaço normal.
— Major! — disse, em tom exortativo — sou capaz de entender
tudo isso e mais alguma coisa; mas vão lhe mover um processo
disciplinar quando uma estação qualquer, ou um raio de busca,
descobrir que se afastou do campo de operações!
— Para impedir isto, alguns cosmonautas inteligentes inventaram
uma pequena brincadeira — disse Cliff. — Uma gracinha inofensiva.
— Uma gracinha, para não ser descoberto? — perguntou Tamara,
estupefata.
— Uma artimanha para fingir uma posição que não existe.
— E como conseguem fazer isso?
— Laurin! — foi só o que Cliff disse.
— Quem ou o que é Laurin? — perguntou Tamara, curiosa.
Parecia um pouco mais calma.
— Laurin, o Rei dos Anões, era o personagem principal de uma
antiqüíssima lenda da Terra. Possuía um manto mágico que o tornava
invisível. E é isso o que Atan vai fazer. Com uma parte de energia dos
acumuladores da Lancet, ele vai gerar um campo em forma de disco,
que qualquer raio de busca vai tranqüilamente identificar como sendo
a Orion VIII.
Mario completou a explicação:
— Portanto, nós não nos desviamos um centímetro sequer da nossa
posição, entende? Nós simplesmente não estamos aqui!
A nave retornou do hiperespaço; diante dela estava a luz do sol p-
900229. Com velocidade alucinante, consumiu uma e um quarto
unidades astronômicas até o planeta Greenwood; depois, McLane
reduziu a potência das máquinas; o tempo todo, estava discutindo o
caso Laurin.
— Em resumo, pretende engabelar as autoridades — constatou
Tamara.
— Perfeitamente! — respondeu McLane, num tom de indisfarçado
contentamento.
— Só temos que tomar cuidado para que não descubram a
tapeação — disse Mario e estalou os dedos. — De resto, este é apenas
um dos muitos truques de que dispõe uma tripulação bem entrosada.
Tamara estava vivendo um conflito íntimo; finalmente, tomou uma
decisão verdadeiramente heróica, consideradas as suas atribuições.
— Escute, McLane... eu não vejo nada, não ouço nada e não digo
nada. Pode garantir que não vão dar pela fraude?
— Tenho noventa e nove por cento de certeza que não —
respondeu McLane, inabalável.
— E o que acontece com Helga e Atan?
— Vamos apanhá-los em seguida à nossa inspeção. E isso não vai
demorar nada, pois só pretendo examinar esse lugar, e não me
estabelecer lá.
— Muito bem; a partir desse momento, faço parte da conjuração.
Tamara reforçou a afirmação com um aceno da cabeça e ignorou o
riso aliviado dos três homens.
Mario apontou para o cronômetro de bordo e disse:
— Cliff! Temos que voltar no máximo dentro de dezessete horas,
senão a Lancet fica sem um pingo de energia!
— Não vamos ficar um minuto além do necessário.
A nave descreveu uma elegante curva na direção da lua Pallas
beta, que, neste instante, estava emergindo da sombra do planeta
Greenwood.
***
Em uma das numerosas estações retransmissoras o texto era
repetido sem parar. A esfera metálica flutuava na fronteira de
Leste/Três 702 e dispunha de instalações internas semelhantes às da
pequena lua MZ-4.
Baterias de amplificadores tornaram os impulsos audíveis.
— Aqui fala a Hyperion 099 — disse a voz. — As estações
retransmissoras até o cubo Quatro/Oeste 034, o objetivo da nave
Orion, comunicam: a nave está na posição predeterminada, porém não
responde aos chamados.
Parecia que alguém precisava falar urgentemente com McLane.
Incessantemente o chamado ziguezagueava pelo espaço cósmico. Mas
a Orion silenciava.
Spring-Brauner estava furioso.
— Mas, tenente, os aparelhos de busca mostram claramente que a
nave está nas proximidades do planeta de Larsen! — objetou o
aspirante.
— Então por que este sujeito não responde? — gritou Spring-
Brauner.
— Isso eu também não sei — disse o aspirante. — Será que
alguma coisa aconteceu a ele?
— Nada acontece a esse sujeito, jamais! — finalizou o tenente.
4

PALLAS beta era um asteróide de arestas vivas que, à distância,


assemelhava-se a uma esfera de superfície revolvida. Agora, que se
encontrava a menos de quinhentos metros da reluzente nave espacial,
os três homens e a mulher viram seu verdadeiro aspecto. Em meio a
rochas negras-azuladas, cheias de fendas e gretas, erguiam-se agulhas
pontiagudas que lançavam longas e duras sombras sobre o terreno
escarpado, aumentando a sensação de perigo que pairava sobre este
lugar. O resto da superfície visível era fracamente iluminada pela luz
irradiada pelo planeta Greenwood.
— Não é de uma beleza estranha? — perguntou McLane e apontou
para a imagem colorida, tridimensional, na tela circular.
— Distância: quatrocentos metros — disse Mario, a meia voz.
— É belo, sim. E dentro desse fragmento de rochas existe uma
colônia de mineiros? — perguntou Tamara.
— Setenta colonos e vinte e um robôs trabalhadores. Além disso,
máquinas e instalações de transporte, um poço de partida para
foguetes primitivos, e as pilhas atômicas que produzem a energia. A
cada seis meses vem um navio de abastecimento fora disso, eles só
dispõem dos containers lançados pelos cargueiros de minério.
Tamara acenou com a cabeça.
— E o senhor quer pousar lá?
Pallas beta era um pedaço de rocha com uns novecentos metros de
diâmetro no seu trecho mais largo. Supunha-se que essa lua era um
resto do planeta de Amoníaco. Mas a extração do minério era rendosa
e absolutamente indispensável para uma determinada indústria na
Terra; o germanicum era um minério muito raro.
— Não, não vou pousar, apenas acostar. Para isso, ancoramos o
nosso campo gravitacional na superfície lunar. Oficialmente este
corpo é chamado de lua, porque descreve uma órbita em torno de um
planeta; pelo seu tamanho deveria ser designado por asteróide.
Recorrendo ao controle manual, McLane começou a manobra de
aproximação.
— Distância: trezentos metros — avisou Mario de Monti.
Um anel de luzes piscantes de um amarelo intenso, que se
acendiam e apagavam em intervalos de quinhentos microssegundos,
contornava um trecho plano nas proximidades do poço de lançamento
dos foguetes de minério. O ruído das máquinas tornou-se quase
inaudível.
— Altura? — perguntou Cliff.
— Duzentos metros.
A massa negra enchia completamente as telas. Exatamente abaixo
do disco luminesciam aquelas lâmpadas amarelas. McLane ligou o
dispositivo de pouso automático que, comandado eletronicamente, se
encarregaria dos últimos cinqüenta metros.
— Vou ver Hasso na sala de máquinas — disse e calcou o botão
do piloto automático.
— Está bem — disse Mario. Evidentemente o livro de bordo
estava desligado.
— Cinqüenta metros.
Com um forte clique, o autopiloto se ligou. A nave rastejava em
direção àquelas paredes rochosas, dilaceradas e escarpadas. Hasso
estava diante dos altos e estreitos armários de comando das suas
máquinas e observava atentamente os instrumentos. Todos os
ponteiros apontavam para valores normais. McLane entrou na casa de
máquinas, deu um breve aceno e começou a farejar, desconfiado, o
cheiro que emanava das máquinas novas, dos esmaltes recém-
aplicados e dos pontos de soldas. Afora um ligeiro zumbido, o silêncio
era total. Cliff deu uma leve pancada no ombro de Hasso.
— Agora preste bem atenção, engenheiro!
Hasso lançou um olhar duvidoso para McLane.
— Eu sempre presto atenção quando você planeja surpresas como
essa, Cliff o que há? Algum perigo?
Cliff encolheu os ombros.
— É possível. Eu não sei o que nos espera em Pallas. Por isso,
gostaria que a Orion estivesse pronta para uma partida de emergência,
enquanto nós procuramos pelos colonos.
— Entendo! — disse Hasso e acompanhou com os olhos o
desenvolvimento de uma curva luminosa, projetada por um aparelho.
A nave pairava agora, imóvel, cinco metros acima daquela superfície
plana, cercada pelas luzes piscantes.
— Quanto tempo temos se deixarmos as máquinas funcionar em
ponto morto, quer dizer, quando mantemos a força total na reserva?
— Oito horas — respondeu Hasso. — Mas, depois disso, você
pode fritar ovos nas baterias de energia.
— Não mais do que isso, Hasso? — perguntou McLane e olhou,
pensativo, para o relógio.
— Se eu permanecer só cinco minutos mais de prontidão, todos os
blocos de fusíveis vão se derreter.
— Mas essas oito horas você garante? — insistiu Cliff.
— Não! Apenas seis horas, de acordo com o regulamento.
— Então as máquinas vão ficar de prontidão durante oito horas,
entendido?
— O chefe é você — disse Hasso, calmamente.
A voz de Mario veio do sistema de comunicação de bordo.
— Comandante! — disse, em voz alta.
— Estamos pairando sobre Pallas.
— Ótimo. Transfira o comando para a casa de máquinas. Hasso
vai tomar as providências necessárias.
— Está bem.
— Já vou, Mario! — prometeu McLane e acenou para Hasso. —
Está tudo bem claro, Hasso?
— Tudo claro! — disse o homem alto, de cabelos brancos e olhos
azuis penetrantes. O elegante corpo da Orion pairava, imóvel,
exatamente por cima daquela área limitada pelas luzes piscantes.
Nenhum sinal de vida indicava de que ali se encontravam setenta
mineiros altamente qualificados. E vinte e um robôs, da força de um
urso!
***
McLane dirigiu-se a Mario e Tamara.
— Vamos vestir os trajes leves e levar as armas; saímos juntos e
não nos separamos.
— Não vai ter vigilância à bordo? — perguntou Mario.
— Não, não vai. Vamos fechar a comporta do elevador
telescópico.
Tamara e Mario acenaram.
— Dentro de cinco minutos todo mundo na cabine do elevador —
advertiu , McLane. — E não se esqueçam: temos muito pouco tempo.
Atan e Helga nos aguardam.
Foram rapidamente às suas cabines e vestiram os trajes espaciais
leves por cima dos macacões de bordo. Reencontraram-se na cabine
de comando, com os capacetes sob os braços.
Ajudaram-se mutuamente a atarraxar os capacetes e ligaram os
aparelhos radiofônicos de pulso, certificando-se que as minúsculas
lâmpadas de controle estavam acesas. Cliff deu um rápido aceno com
a cabeça, ajeitou o seu projetor e apertou o botão do dispositivo
hidráulico. Lentamente os elementos telescópicos do elevador se
estenderam. Parecia a tromba de algum inseto gigante. O piso do
elevador encostou na superfície lunar e um relê estalou. Uma lâmpada
acendeu-se acima da porta circular do elevador. Tinham chegado em
Pallas beta.
— Será que a nave não se afasta? — perguntou Tamara,
preocupada.
— Está presa à lua por três possantes raios magnéticos — explicou
Hasso.
— Entendo — disse Tamara. Mario abriu a porta do elevador, que
era ao mesmo tempo a comporta da eclusa.
Cautelosamente, com a arma destravada na mão, o subcomandante
saiu do elevador. Os ímãs nas suas botas aderiram ao reluzente
revestimento metálico estendido entre as luzes de posição que
continuavam a piscar ininterruptamente. Subitamente, os quatro
tripulantes começaram a sentir uma sensação de perigo. Hasso seguiu-
se a Mario, depois veio Tamara, e finalmente Cliff McLane. Olharam
ao redor. Nada reconheciam naquela escuridão, a não ser os contornos
das rochas, algumas sombras e linhas difusas, que formavam a
transição entre a rocha escura e o universo com suas estrelas. O ritmo
das lâmpadas manteve-se inalterado. Cuidadosamente, Cliff fechou a
eclusa e registrou o segredo necessário para abrir a porta.
— Acho que estão se divertindo às nossas custas, Cliff — disse
Mario e continuou a caminhar.
— Talvez estão brincando de esconder — disse Hasso, e ninguém
sabia se ele estava falando sério ou não. Avançaram, numa fila
indiana, em direção à luz vermelha que brilhava por cima de uma
eclusa retangular. Dentro dela estava a última parada do elevador na
superfície dessa minúscula lua.
— Hasso — disse Cliff — até parece que aqui não tem mais
ninguém.
Estavam a vinte metros do elevador.
— Então você pode me explicar de onde vêm aqueles foguetes de
minério?
Os nervos da tripulação estavam tensos. Se esta estação estivesse
ocupada, os trabalhadores teriam reparado a aproximação da Orion e a
manobra de acostamento. E poderiam ter visto os visitantes, porque
dispõem de uma profusão de aparelhos, capazes de registrar o contato
das botas magnéticas com a chapa metálica da plataforma de pouso.
Mas ninguém veio para cumprimentar McLane e sua equipe.
— Talvez os robôs ainda estejam trabalhando — observou
McLane, falando para si mesmo.
— Vamos verificar isso logo, logo — disse Mario de Monti. — Ao
menos as pilhas atômicas estão trabalhando, senão as luzes de posição
não estariam ligadas.
Estavam diante da entrada do elevador, de forma cúbica. McLane
tinha encostado a mão enluvada sobre a placa de contatos. Tamara
virou-se para ele e perguntou:
— E quem é que vai ficar aqui, comandante?
— Ninguém — respondeu McLane. — Vamos descer todos juntos.
Tamara sacudiu a cabeça.
— O parágrafo vinte e oito, inciso dois, do regulamento de serviço
reza: durante um pouso, ou por ocasião do acostamento em bases
avançadas ou outros pontos de apoio, a casa de máquinas e a cabine de
controle de uma nave espacial não devem ficar desguarnecidas para
impedir a perda total de uma nave. Tinha se esquecido disso,
comandante?
— De forma alguma, tenente! Mas não posso assumir a
responsabilidade de deixá-la procurar sozinha pelos colonos. O que é
que eu vou contar a Villa, se eu volto sem a sua companhia?
Ainda nada se mexia. Nem abaixo deles, na extensa rede de
galerias da mina, nem na grande eclusa diante deles. A situação
tornava-se cada vez mais enigmática e perigosa.
— Não há necessidade de vigilância, tenente Jagellovsk — disse
Hasso. — As máquinas estão de prontidão..Mas se insistir, é claro que
eu fico aqui.
Mario de Monti aliviou a tensão com um gracejo.
— Vamos trocar, Hasso... se a senhorita Tamara quiser se arriscar
a ficar sozinha comigo, eu me apresento voluntariamente!
— Não! — disse McLane, com voz incisiva. — Se aqui tiver
alguma coisa de podre, vou precisar de todo mundo!
— Então vamos logo — disse Mario. — Estou com frio.
Riram, e Cliff calcou a placa de impulso, que cedeu sob a pressão
de sua mão. Lentamente a eclusa se abriu. Ao mesmo tempo a
iluminação do elevador se acendeu. Os quatro membros da tripulação
entraram na eclusa e esperaram que a porta externa se fechasse
novamente. Depois abriram a placa transparente que dava acesso ao
elevador. Pararam.
— O elevador está funcionando! — disse Cliff e apontou para o
seletor iluminado junto às teclas retangulares, nos quais estavam
indicadas as diversas paradas. Os botões podiam ser manejados pelos
braços hidráulicos ou pelas garras de um robô do tipo Worker.
— E o abastecimento de ar também está trabalhando normalmente
— disse Mario apontando, por seu lado, para uma larga fita luminosa
que, em diversas cores, apresentava o teor dos gases na composição do
ar atmosférico.
— Vamos economizar a energia dos trajes — disse Hasso e fechou
seu suprimento. — Podemos tirar os capacetes.
Poucos segundos depois estavam todos com os capacetes debaixo
dos braços. Cliff deu um aceno afirmativo para Mario, que tinha
colocado o indicador sob o botão ao lado da inscrição "entrada".
Mario calcou o botão e imediatamente a cabine começou o seu
movimento descendente. O elevador parou... Com um chiado agudo,
as duas folhas da porta, à prova de pressão, recolheram-se para o lado
e finalmente a entrada da galeria se estendeu diante dos quatro
tripulantes.
— O ar é perfeitamente respirável — disse Hasso — devíamos
tirar os trajes.
— Estou de acordo — disse Cliff. — Se bem que eu não veja por
que ainda não estamos rodeados por trabalhadores jubilosos.
Avançaram mais alguns metros para o interior da galeria,
encontraram uma porta e a abriram: era um almoxarifado. A equipe
tirou os trajes, recolocou os projetores no cinto e afixou novamente os
rádios de pulso. Cliff testou seu aparelho: estava funcionando.
— Então vamos indo.
Com um tiro rápido, Hasso inutilizou a fechadura da porta. A
qualquer momento poderiam reaver seus trajes espaciais. Mario
ajustou o seu rádio de pulso para a freqüência normalmente utilizada
para contatos radiofônicos a curtas distâncias.
— Aqui fala a Orion! — disse ele no pequeno microfone. — Tem
alguém aí?
Nenhuma resposta.
— Vamos mais adiante e olhamos atrás de cada porta — disse
Cliff.
Destravou o seu projetor e colocou-se à testa do pequeno grupo.
Atravessaram rapidamente o largo corredor. As três primeiras portas
que abriram davam acesso a recintos secundários, cheios de peças de
equipamentos e material de mineração. Não havia sinais de vivos ou
mortos; nem mesmo cinzeiros usados encontraram. Chegaram a um
cruzamento.
— Estou descobrindo certas analogias com a nossa aventura em
MZ-4 — disse Hasso. — A instalação interna é inteiramente
semelhante...
Seis galerias desembocavam neste cruzamento. Era uma sala com
base hexagonal. As paredes, com as aberturas circulares das galerias,
eram constituídas de um plástico reforçado com aço e apresentava
aquela estruturação alveolar, característica das paredes destinadas a
suportar elevadas pressões. Os homens sabiam que atrás delas havia
espessas camadas isolantes e telas de uma matéria sintética altamente
elástica, que impedia a infiltração de água bem como o escapamento
de ar atmosférico do corredor.
— Para a direita! — disse McLane e enveredou pelo corredor
seguinte. Era curto e desembocava na ante-sala de um bangalô. As
máquinas tinham escavado um recinto na rocha, encimado por uma
cúpula. Por toda parte havia luminárias acesas e o sistema de
ventilação soprava uma torrente de ar quente contra o revestimento do
piso.
— Nada! Está tudo vazio!
Hasso examinou um pequeno quarto ao lado da entrada. Também
aqui viu confirmada a sua observação. Lentamente dirigiram-se mais
para o interior da grande sala de estar.
Cada um deles examinou um dos quartos adjacentes. Estavam
arrumados; não havia nada fora do lugar. Quando a porta automática
diante de um quarto circular deslizou para o alto, ouviram uma voz.
Cliff girou nos calcanhares e apontou para o interior do recinto.
— Beta — disse a voz. — ípsilon menos setecentos; gama: AZ
menos seis mil. Campos magnetos inalterados. Delta: mais
quatrocentos e noventa e oito; lábil.
A voz emanava de um alto-falante acima de uma escala iluminada;
o ponteiro estava parado diante da marcação que dizia "produção".
— Isto nada mais é do que o relatório de produção — explicou
Hasso, sombriamente, e desligou o alto-falante.
— Portanto, a mineração está funcionando — disse Mario,
pensativo — mas afinal onde estão os nossos amigos? Diabos! Estou
começando a achar que aqui tem assombração.
Avançou cautelosamente, com passos curtos.
— Alguém deve ter ligado esse aparelho! — raciocinou Cliff em
voz alta. — Mas quem?
Tamara parou diante dele e respondeu:
— Vai ver que esse aparelho já está funcionando há meses, sem
que ninguém esteja escutando!
Hasso observou calmamente:
— Se vocês me perguntam... aqui houve uma catástrofe!
— Não vejo nenhum indício, Hasso! — disse Cliff. — Nem
escombros, nem cadáveres, nem tampouco qualquer sinal que tivesse
sido empregado violência.
— Talvez — disse Mario de Monti, de um outro recanto da sala —
os trabalhadores estejam fazendo um piquenique com os robôs?
— Nós vamos encontrá-los! — disse Cliff, com voz dura. —
Vamos adiante!
Hasso e Mario abriram uma outra porta e penetraram num corredor
que, como supunham, levaria à terceira galeria que desembocava
naquele ponto do cruzamento. Tamara agarrou McLane pelo braço e o
reteve. Com um tom exortativo na voz perguntou:
— Não acha que está na hora de soltar um comunicado para a
Comissão Espacial, comandante?
Cliff deu uma risada.
— Por quê? Por acaso está com medo?
— Não, não estou — disse ela — mas tenho a impressão que aqui
houve alguma coisa que nós não podemos resolver sozinhos!
— Tamara — disse Cliff, pesando as palavras — se nós emitirmos
um comunicado agora, vamos denunciar a nossa nova posição. E, com
isso, eu a denuncio também, porque nós viemos para cá com seu
consentimento. Ainda temos muito tempo para enviar um informe.
Mas, por enquanto, vamos apenas continuar a procurar; está bem?
Tamara acenou com a cabeça; no mesmo momento Hasso e Mario
voltaram.
— Precisamos atravessar este corredor — disse Hasso. — A julgar
pelos barulhos, é lá que se encontra a central dessa mina.
Quando saíram da galeria, era como se estivessem penetrando na
nave de uma catedral: uma imensa sala, com um diâmetro não inferior
a cem metros, encimada por uma cúpula. Uma audaciosa obra de
engenharia nesse pedaço de rocha chamado Pallas beta. As paredes
alisadas e as superfícies do teto estavam revestidas com massa isolante
e refletiam a luz de projetores judiciosamente distribuídos. O martelar
de possantes máquinas inundava o gigantesco recinto rochoso. A
conversa tinha que ser feita em voz muito alta.
— É a central! — gritou Hasso.
— Claro que é! — berrou Cliff. — E aqui está a pilha atômica!
No meio da sala encontrava-se o enorme bloco de uma pilha do
tipo Nishwitz-Achmann. Ao lado dele, erguia-se o eixo do gerador.
Uma extensa fila de grandes telas de imagem apresentava aspectos do
trabalho de extração. A balança contínua, com registrador automático,
estava agarrada em torno de uma esteira rolante, que se deslocava com
velocidade acentuada.
— Se não me engano — berrou Hasso — isto aqui é a central da
lua!
— Que boa vida eles têm! — gritou Mario. — Tudo aqui é
inteiramente automatizado!
— Sim, mas eu não vejo nenhum serviço de controle! —
respondeu Hasso, berrando. Lentamente o engenheiro dirigiu-se ao
centro da mesa de comando e observou atentamente alguns
mostradores e ponteiros. Voltou e disse: — Está tudo em
funcionamento; a extração está correndo a pleno vapor; o
abastecimento de oxigênio e a instalação de renovação de ar, aliás
muito possante, estão funcionando normalmente; todo sistema de
corredores está perfeitamente abastecido com ar respirável.
McLane observava o seu rádio de pulso; embora pudesse captar
ondas radiofônicas, o aparelho não dava qualquer sinal de que uma
conversa radiofônica estivesse sendo mantida. De repente... Viraram-
se rapidamente; um apito agudo sobrepujou o barulho e cessou
abruptamente; à direita deles repararam um movimento. Mario virou-
se e dirigiu o projetor sobre as duas placas que, nas paredes,
retrocediam para a direita e para a esquerda. Reluzente e clara, a
cabine do elevador apareceu por trás delas. Estava vazia. Mais um
apito agudo, as portas fecharam-se novamente e a sinaleira luminosa
ao lado da moldura mostrou que o elevador descia.
— Esse lugar está cheio de assombrações cósmicas! — constatou
Mario com voz alta, aproximando-se um pouco mais da moldura.
— Algum de vocês viu algum trabalhador sair? Eu não! —
observou Hasso. — A coisa está ficando cada vez mais enigmática!
— Talvez os mineiros tenham sido soterrados — disse Tamara e
postou-se ao lado de McLane. — Ou então alguma galeria explodiu ou
desabou. Talvez...
— Fique quieta! — disse Cliff, apressadamente, e olhou para a
cara lívida da agente do SSG. — Se esse elevador parar mais uma vez
aqui, nós vamos pegá-lo e descer.
— Eu acho melhor esperar mais um pouco, comandante — objetou
Tamara Jagellovsk.
Cliff sacudiu a cabeça; no meio do seu movimento ouviu
novamente aquele assovio estridente; o sinalizador luminoso manteve-
se inalterado. As portas se abriram... o elevador estava parado.
— Vamos! — disse McLane e estalou os dedos. — Entrem!
Entraram no elevador e viraram-se lentamente.
— Olhem! — gritou Hasso, assustado. Surgindo do nada, dois
robôs do tipo Worker barravam a entrada do elevador com seus corpos
elipsóides. Estavam em plena função. Flutuavam, imóveis, sobre os
campos magnéticos e estendiam os braços telescópicos aos quatro
tripulantes. Nas extremidades dos braços havia mãos de quatro dedos,
feitos de aço e aparafusados a articulações de bronze. E estes quatro
dedos estavam firmemente agarrados ao cabo de uma HM-4. A ponta
dos projetores apontava para McLane e sua equipe.
— Robôs trabalhadores armados! — exclamou Tamara.
Agora os quatro intrusos vislumbraram a razão pela qual o sistema
de galeria estava tão abandonado. Os vinte e um robôs haviam se
revoltado.
5

COM um chiado ominoso as duas folhas da porta deslocaram-se


uma em direção a outra, tocaram-se e fecharam a cabine.
— Robôs armados! — disse McLane e tentou ocultar a sua
apreensão. O elevador não possuía uma velocidade de descida muito
grande.
— E armados com os projetores dos trabalhadores, Cliff! — disse
Hasso, espantado.
— Mas o que essas máquinas estão fazendo aqui em cima, na
central? — perguntou Mario, falando consigo mesmo. — Pelo que eu
sei, a sua função é impelir as máquinas para a frente e tratar que o
minério seja extraído nas galerias.
— E onde é que estão os colonos?
Os ruídos de pesadas máquinas de mineração tornavam-se cada
vez mais altos. As vibrações transmitiam-se às guias da cabine do
elevador.
Havia uma porção de perguntas... Mas nenhuma resposta.
— Robôs rebelados! Workers amotinados! Isso é inédito! — disse
Hasso. — Digam-me uma coisa: vocês não estavam freqüentando
aquele curso de aperfeiçoamento...?
Tamara deu uma risada curta e sarcástica.
— Freqüentamos o curso, mas o abandonamos prematuramente.
Silenciou de repente, ao sentir que o barulho aumentava e a
velocidade da cabine tinha se reduzido consideravelmente. Com voz
dura, Cliff deu algumas ordens decididas.
— Tamara fica atrás de nós! Hasso e Mario, assim que estivermos
lá embaixo e as portas se abrirem, atirem imediatamente!
— Mas apontem para a cabeça — disse Tamara — senão, não
adianta nada!
— Que coisa mais agradável — comentou Mario e apontou seu
projetor sobre a parede à sua frente, que parecia deslizar para cima.
— Aconteça o que acontecer — disse McLane rapidamente —
lembrem-se que eles não passam de meras máquinas!
— Mas — disse Hasso quando o elevador parou — é óbvio que
estão reagindo da maneira errada. E isto eu não entendo!
— Os robôs entendem alguns milhares de impulsos de comando e
são capazes de realizar incontáveis operações. Mas é claro que eles
"pensam" de uma maneira diferente de um cérebro humano. A sua
lógica não é a da razão, a do raciocínio prático, e sim a da matemática.
As portas automáticas se abriram; diante da tripulação da Orion
estava um dos colonos de Pallas beta. Junto a ele flutuavam dois
Worker, que o ameaçavam com a arma. As pontas dos projetores
estavam firmemente encostadas no tecido brilhante do seu macacão. A
velocidade de reação de um robô era cem vezes maior do que a de um
ser humano — era inútil um ataque!
— Não atirem! — disse o trabalhador, resignadamente.
Houve uma pausa. Nada e ninguém se mexia; apenas os olhos dos
três homens examinavam a cena. Talvez houvesse alguma chance de
iludir as máquinas. Uma galeria retangular levava ao interior da lua; a
intervalos regulares, vários corredores secundários ramificavam desta
galeria. Um pouco à distância, viam-se discos luminosos que
iluminavam as paredes negras e nervuradas. Mais a frente, havia uma
máquina que penetrava, centímetro por centímetro, na rocha viva e
lançava uma torrente de rocha britada sobre uma esteira rolante.
— Guardem os projetores — disse o colono. — Não há a menor
chance.
Travaram os quatro projetores e os recolocaram nos cintos.
— Meu nome é Hall — disse o colono. — Nigel Hall.
Um dos robôs deslizou para a frente, ergueu-se na entrada do
elevador e estendeu as mãos em direção às armas. Retirou uma após a
outra e virou-se, expulsando os intrusos da cabine com seu corpo
maçudo. O outro robô entrou no elevador, as portas se fecharam e o
elevador voltou a subir. Tudo isso aconteceu no mais total silêncio, o
que aumentou a impressão de um perigo mortal; os homens nem
ousaram se mexer. Finalmente McLane rompeu o silêncio e virou-se
para Nigel Hall.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou, com voz dura.
Aos poucos a sala em frente ao elevador começou a se povoar de
mineiros em macacões claros e com os característicos protetores nos
joelhos e cotovelos. Um deles adiantou-se e agarrou Hall pelo braço.
— Vocês — gaguejou, aturdido e exaltado — conseguiram
paralisá-los? Os robôs estão liquidados?
McLane aproximou-se; sua cara era dura e fechada. Perguntou:
— Afinal o que está acontecendo aqui, Hall? Meu nome é
McLane... — Hall ergueu a cabeça, surpreso, e um traço de esperança
voltou a seu rosto.
— O quê? O senhor é o comandante McLane?
Cerca de cinqüenta colonos já rodeavam o pequeno grupo.
— Controle-se, homem! — exortou-o Cliff. — O que está
acontecendo aqui?
— Eu sou Nigel Hall. O chefe desses homens aqui. Estamos há
uns dois anos em Pallas beta. No início, tudo corria bem, e os robôs
aceitaram as nossas ordens e fizeram o que pedíamos. Nos instalamos,
perfuramos as galerias e enviamos os primeiros containers de minério
para o alto. Para a pista de estacionamento dos cargueiros, bem
entendido.
— Eu sei — disse McLane, com pressa. — Continue!
— Aí houve um tiroteio...
— Entre vocês e os robôs? Mas eles de jeito algum estavam
armados!
McLane cerrou os olhos, meio incrédulo.
— Nada disso! Não foram os robôs, esses trabalharam a contento.
O tiroteio foi entre nós; houve dois mortos.
— E por que atiraram?
— Um homem de nome Foerster tinha contrabandeado euforita
para dentro da colônia... Essa maldita droga que transforma homens
em sonhadores. A briga foi por causa da euforita.
Tamara, Mario e Hasso escutavam quase de respiração presa.
— Um mês depois — continuou Hall, um pouco mais calmo — já
eram oito homens. Foerster e sete dos seu asseclas. Não queriam fazer
mais nada; muito menos trabalhar.
— Ele tem razão! — gritou alguém lá dos fundos.
— Tomaram euforita sem parar. E o responsável aqui sou eu. Sou
responsável pelas quantidades de minério extraído, pelas máquinas, e
pela quota de produção.
— Entendo — disse McLane. Tamara, agitada, agarrou-se ao
braço de Cliff, como se ele fosse a escora de bordo da Orion.
— Houve uma violenta discussão entre mim e os homens de
Foerster; a conseqüência foi uma verdadeira revolta. Lançaram-se
contra mim com as armas na mão e tive que matar Foerster e um de
seus seguidores. Não é o que eu queria, mas agi em legítima defesa. E
aí, de repente, os robôs se revoltaram.
— Onde foi que houve o tiroteio? — perguntou McLane.
— Aqui embaixo, na mina — disse Hall preocupado.
— Os robôs testemunharam isso? — perguntou Tamara, agitada, e
soltou o braço de McLane.
— Sim, assistiram a tudo.
— Então é isso! — constatou o tenente Jagellovsk.
Todos viraram a cabeça em sua direção.
— A primeira Lei do robô diz o seguinte: Um robô não deve ferir
qualquer ser humano e não deve se manter inoperante quando algum
ser humano corre o perigo de ser agredido por terceiros — disse o
oficial do SSG — e estas regras estão gravadas no cérebro eletrônico
do robô.
— Certo, garota! — prosseguiu Hasso — é isso mesmo! E esta
primeira regra é a mais importante. A fim de proteger a colônia de
novos danos, e isso, na opinião deles, significa mais mortos e uma
redução na produção, não menos perigosa, desarmaram os homens e
assumiram o controle de toda a mina!
— Sim, e desde então trabalhamos que nem uns loucos sob a
supervisão dos robôs!
— Nunca tentou estabelecer contato com alguém? — perguntou
Mario de Monti.
— De que jeito! Bem que quisemos emitir um chamado de
emergência. Mas os robôs ocuparam a central, não tivemos mais
acesso ao aparelho radiofônico.
Um outro colono cortou a palavra de Hall.
— Enfiamos notícias em cilindros metálicos e os ocultamos no
meio do minério; mas não houve resultado algum.
McLane riu, desalentado.
— Pudera! — disse, quase sem entonação na voz. — É que o
minério nunca chegou. Já é a segunda vez que os cargueiros só
transportaram entulho, ou seja, pedra sem valor algum, para a Terra.
Por seu lado, parece que os robôs estão querendo limpar sua
consciência suja, jogando entulho dentro dos containers.
Quase que Hall teve um acesso de histeria. Deu uma risada curta,
fraca, e perguntou:
— Ouvi direito? Consciência suja? Esses robôs?
— É isso mesmo! — respondeu Tamara, tranqüilamente. —
Empregando o termo com a devida reserva, os robôs podem ser
considerados neuróticos. Eles sabem que o seu comportamento não é
lógico, se bem que corresponde basicamente ao que estabelece a
primeira Lei. E é por essa razão que eles precisam fazer alguma coisa,
a fim de chamar a atenção de uma instância superior para si e os seus
problemas. E então enviam detritos para a Terra, na esperança de
alertar alguém que venha a acabar com esse estado anormal; mas até
lá, eles não vão modificar o seu comportamento.
— Nesse caso, estamos perdidos! — disse um dos mineiros. — E
isso inclui o senhor, comandante; o senhor e sua tripulação. Nós não
vamos conseguir sair daqui antes que estejamos todos mortos ou
alguém na Terra repare o que se passa aqui!
Hall virou-se lentamente e estendeu os braços num gesto desolado.
— Voltem ao seu trabalho! — disse em voz alta. — Senão eles
vem imediatamente aqui pra baixo.
— Eles obrigam vocês a trabalhar? — perguntou McLane,
espantado.
— Claro! — respondeu Hall.
— E parece que isso está funcionando às mil maravilhas! —
observou McLane.
Os mineiros se dispersaram. Cinco pessoas permaneceram junto ao
elevador e entreolharam-se em silêncio. Todas as mentes estavam
funcionando. Devia haver uma possibilidade de desarmar essas
máquinas ou, ao menos, de reprogramá-las. Lentamente Hasso
empurrou o seu rádio de pulso para cima. Desde o momento que a
nave tinha deixado Helga e Atan no planeta de Larsen tinham-se
passado duas horas.
— Só faltam seis horas, Cliff — disse Hasso com uma certa
insistência. Cliff acenou com a cabeça e cerrou os dentes.
Os segundos se passaram. As máquinas continuavam a trabalhar e
os robôs dominavam Pallas. Enquanto isso, o Laurin criava uma
posição que não existia na realidade. E Helga e Atan esperavam pela
volta da Orion. Vinte e um robôs malucos... E equipados com pesadas
armas energéticas...
— Eu acho — disse McLane e sorriu para Tamara — que alguma
coisa devia nos ocorrer para que pudéssemos libertar essa estação e a
nós também. Não tem alguma idéia?
— Ainda estou ocupada em fazer uma análise comparativa das leis
dos robôs. Deve haver alguma coisa que os obrigue a agir. Mas a agir
da maneira que nós desejamos. Para isso preciso de um pouco de
calma e de um bloco de apontamentos.
— Sei onde a senhora pode encontrar as duas coisas! — disse Hall.
— Venha comigo, por favor.
Cliff, Hasso e Mario permaneceram na sala.
***
Como uma enorme casca, a superfície cobria todo o hemisfério: o
disco castanho-dourado do planeta encobria a metade de todas as
estrelas visíveis. O planeta de Larsen jazia plenamente iluminado pela
luz do seu sol. Era dia nesta metade do planeta. Nuvens cobriam uma
parte dos continentes. Em algum lugar, um tufão estava se formando.
Os homens podiam reconhecer os cursos d'água, os desertos e as
florestas, bem como as superfícies prateadas e brilhantes dos lagos e
dos mares; praias em forma de foice estendiam-se ao longo do litoral.
O planeta Larsen não possuía lua, apenas dezesseis satélites artificiais,
as sondas espaciais.
Pairavam sobre o planeta e observavam com os olhos das câmaras,
com todos os instrumentos e antenas, aquele mundo rico em cores.
Mediam a camada magnética, os campos de energia solar em
constante movimento, as temperaturas, e as variações e mudanças das
estações do ano. Os satélites mediam... comparavam, observavam e
anotavam... registravam e tiravam conclusões; armazenavam tudo isso
nos pequenos trechos magnetizados de uma larga fita, que rodava em
solavancos curtos, nervosos e rápidos. Eram dezesseis sondas,
colocadas ali por uma das naves cartográficas da Terra. De mês em
mês, os milhões de dados e informações registrados por essas sondas
tinham que ser recolhidos. Depois, as fitas originais eram apagadas e
rebobinadas. Os minúsculos elementos de armazenamento tinham
capacidade para registrar até 65.536 valores alfanuméricos. Bilhões de
tais impulsos seriam um dia reunidos e entregues à Central de
Computação da Comissão Espacial. Após o devido processamento
desses dados, o gigantesco computador tiraria as conclusões finais e
um aparelho periférico as imprimiria em páginas plásticas. Coletar os
dados das fitas daquelas sondas era tarefa de cadetes do segundo
semestre da academia espacial; Helga e Atan não eram cadetes, mas
sim experimentados cosmonautas.
Já estavam trabalhando no nono satélite. Ao lado de um deles,
pairava, imóvel, a Lancet. A eclusa estava aberta; dela saía um cabo
em confusas laçadas para dentro do espaço. Na extremidade
encontrava-se Atan; tinha ligado os seus dois aparelhos nas chaves das
conexões do elemento externo. Abaixou-se cuidadosamente... um
movimento curioso na imponderabilidade do espaço. Depois
conseguiu ligar o cabo, e o gravador magnético começou a girar. Atan
esperou pacientemente até que os quase sessenta e seis mil sinais
tivessem sido regravados. Através dos fones de capacete, Helga ouvia
a respiração regular do seu companheiro. Estava sentada à mesa de
comando da Lancet e tinha ligado seu fone de capacete na instalação
radiofônica da nave auxiliar. A moça de cabelos negros acionou a
chave.
— Lancet I chamando Orion VIII... por favor responda... Lancet
chamando Orion... por favor responda! — nenhuma resposta. Helga já
um pouco nervosa, apertou novamente o botão e mais uma vez
chamou a nave-mãe.
Atan tinha transferido os impulsos colhidos pela sonda para a
bobina do seu gravador. Acompanhava a transmissão de Helga e
esperou até que ela transferisse o aparelho novamente para a recepção.
— Por que você está chamando McLane? — perguntou Atan. —
Ainda não voltaram e nós ainda dispomos de uma porção de tempo.
Helga esperava por uma resposta no aparelho. Mas só ouvia os
estalidos da estática. No meio do campo dos satélites estava o Laurin.
Helga podia vê-lo, se mexesse a cabeça um pouco e olhasse para fora
de uma das cúpulas redondas. As vinte cascas semi-esféricas
ofereciam uma excelente visão direta para o universo. Uma elipse
luminosa, um disco semi-inclinado, feito de energia pura, pairava
imóvel diante da superfície cintilante do planeta. Iludiria qualquer
aparelho de busca, qualquer radar. Exibiria uma imagem fantasma da
Orion VIII. Atan continuou a trabalhar, rebobinando a fita.
— Atan? — perguntou Helga, com os primeiros sintomas de
pânico na sua voz. — A Orion não dá sinal de vida. Há quatro horas
não temos contato com eles!
Comedidamente Atan respondeu:
— Não fique nervosa, garota! Não há motivos para isso.
— E se estiverem em dificuldades?
— Pare de imaginar coisas, Helga! — respondeu Atan. — Daqui a
pouco nós vamos adiante e coletamos os dados do décimo satélite, a
coisa vai muito mais depressa e dá muito menos trabalho que Cliff
imaginou.
— Mas se tivesse alguém a bordo da Orion, teria respondido ao
meu chamado!
— Então a conclusão é simples — disse Atan, com a maior
tranqüilidade e fechou a tampa de um mecanismo" da sonda. — É que
não tem ninguém a bordo da Orion!
O pequeno punho enluvado de Helga martelava com raiva na mesa
de comando.
— Duvido que McLane abandone sua preciosa nave durante duas
horas sem deixar ninguém a bordo, e faz quatro horas que eles já
foram embora!
— E por que não? — perguntou Atan, olhando cautelosamente ao
seu redor. Desenrolou dois laços do seu cabo de segurança e, depois
que se virou numa posição mais favorável, acionou o minúsculo
propulsor preso às suas costas. Flutuou lentamente de volta à eclusa da
Lancet.
— Sem guarda durante algumas horas? Numa lua desconhecida?
— Helga estava duvidando das informações tranqüilizadoras de Atan.
— E daí? — perguntou Atan e fechou a comporta externa da
eclusa. — Eles pousaram e agora estão quebrando um pouco a
monotonia da vida daqueles mineiros.
Abriu a porta interna da eclusa.
Helga girou o regulador da instalação de aquecimento e virou a
tampa. Dentro de segundos, o café congelado — já misturado com
leite e açúcar — seria aquecido por ultra-som e raios infravermelhos;
podia ser sorvido por largos canudos plásticos. Atan jogou-se
pesadamente na outra poltrona.
— Quando Cliff voltar, já teremos colhidos os dados de todas as
dezesseis sondas. Vai ficar um bocado contente. Quanto tempo
decorreu desde que ele partiu?
Helga olhou para os algarismos que se sucediam incessantemente
nos minúsculos mostradores da mesa.
— Mais de quatro horas! — disse.
— Então temos, no mínimo, mais duas horas — disse Atan. — Só
depois disso, nossas reservas estarão esgotadas.
Helga acenou e levantou a tampa.
— Tome seu café! — disse ela.
Atan estendeu a mão e agarrou a caneca. Ao mesmo tempo, viu o
longo olhar que a moça lhe lançava com os olhos escuros, e
perguntou, surpreso:
— O que é isso, Helga?
— Estou com medo, Atan! — disse ela, quase sussurrando...
6

MAIS um vez o objeto quase esférico moveu-se através do


universo. Comparado à gigantesca superfície negra do fundo e ao
disco do planeta, não passava de um grãozinho de poeira na luz do sol.
Enquanto Atan dirigia a Lancet, Helga mantinha o Laurin
incessantemente na mira da instalação de projeção. Lentamente, a não
mais de cinqüenta quilômetros por segundo, a nave auxiliar se
aproximava da posição do próximo satélite. Helga calculou a distância
e reforçou o campo do Laurin analogamente à velocidade, com a qual
estavam se afastando daquele reluzente disco de mentira, feito de
energia pura, de um azul-claro e penetrante.
— O número dez — disse Atan e freou a Lancet.
— Eu suponho que você sabe — disse Helga e apontou para o
mostrador do controle de carga — que aquele nosso navio fantasma lá
fora consome um bocado das nossas reservas de energia, e que essa
diminui, não aumenta!
— Claro que sei. Em compensação não gastamos quase nada.
A Lancet flutuava ao lado de uma das sondas.
Era uma construção que se assemelhava ao broto de uma flor rara:
de um núcleo esférico erguiam-se tubos esguios com cápsulas nas
extremidades, nas quais se alojavam os diversos instrumentos. Os
tubos eram dourados e possuíam comprimentos diferentes. Helga
colocou o capacete e Atan ajudou a atarraxá-lo. Controlou a posição
correta do propulsor nas costas do traje e depois pousou a mão no
ombro da moça.
— Dentro de, no máximo, vinte e cinco minutos você pode estar
de volta na Lancet — disse ele — você sabe o que tem a fazer, não?
Ela acenou em silêncio; os alto-falantes ampliaram a sua
respiração rápida e ofegante.
— Tome cuidado para que o seu cabo de segurança não se enrole
na sonda. Conheço uma história, em que um negócio desses foi
arrastado por uma nave espacial e confundiu a estação receptora,
porque estava emitindo dados diferentes.
— Apesar da sua história gozada, Atan, estou com medo — disse
Helga e abriu a porta interna da eclusa; estava pronta para sua tarefa,
com as ferramentas presas ao cinto e o gravador na mão...
***
O ambiente era dominado pelo martelar da gigantesca máquina
que abria furos retangulares na lua. Dentes feitos de aço especial
cravavam-se na rocha e a trituravam. Dentro de alguns anos a lua
estaria totalmente oca e apenas uma crosta ainda ostentaria o nome de
Pallas beta. Depois de fundidos, os detritos eram utilizados para
formar uma malha de proteção, que evitava o esfarelamento da lua, e
também para encher as galerias abandonadas, já exploradas. Os
trabalhadores controlavam as máquinas e as esteiras rolantes, os
fornos e a remoção da escória. Acompanhados de Hall, os quatro
tripulantes estavam em volta de uma mesa, examinando algumas
folhas de plástico cobertas de desenhos e anotações. Acima das suas
cabeças brilhava uma luminária redonda.
— Você vê alguma chance para nós e para Pallas, Cliff? —
perguntou Mario.
— Eu não sou psicólogo especializado em robôs; só me lembro do
que aprendi no meu tempo de academia.
Mario olhou para seu relógio.
— Depende — continuou McLane — de quanto tempo dispomos.
Hasso agarrou uma das folhas e seguiu as linhas atentamente com
os olhos.
— Tempo para quê? — perguntou Hasso.
— Para pensar, Hasso — respondeu McLane. — Estamos
procurando um meio de obrigar os robôs a nos obedecer.
Hasso acompanhava com interesse o desenho que Tamara estava
fazendo.
— Você acha que vamos conseguir dominar essas máquinas
enlouquecidas com pensamentos? — McLane acenou enfaticamente.
— É isso mesmo — confirmou. — Não vejo outro jeito de
dominá-las, a não ser pelo raciocínio. Tamara?
— Sim?
— A senhora é que mais entende de cibernética. O que pode ter
acontecido a esses malditos cérebros? Será que pode descrever, em
linguagem técnica, o que se processou naquelas caixolas eletrônicas?
— Nada que se relacione com o programa de trabalho
propriamente dito, pois a motricidade dos Worker não foi perturbada.
Dentro das suas faculdades técnicas, mexem-se e reagem de maneira
inteiramente normal.
— Portanto, a perturbação reside na programação básica, isto é, no
relê de correlação entre as três leis do robô? — perguntou McLane.
— Na minha opinião, sim! — disse Tamara.
— Se é assim — murmurou Cliff — há um fator conflitante nas
relações entre as três leis, ou nas ligações de transmissão entre elas e a
motricidade.
— É mais ou menos isso — concordou Hasso, que cocava a nuca
perdido nos seus pensamentos.
— Deve haver uma irregularidade na ligação do relê de
transmissão — disse Tamara e acrescentou alguns algarismos e
símbolos ao desenho que estava fazendo.
— E isso, por sua vez, quer dizer o quê? — perguntou Mario.
— Obviamente as funções estão trocadas. Por exemplo: "ligado"
foi trocado por "desligado" e assim por diante.
Tamara acenou com a cabeça.
— É, podia ser isso!
— Essas três leis podem ser influenciadas pelos próprios robôs? —
perguntou McLane. Tamara disse que não.
— Conforme o tipo de ordens recebidas, eles criam potenciais de
intensidade variável para poder ponderá-las. Os dois mortos na mina
reforçaram o potencial de execução da segunda lei. E esta pressão
predomina.
— Um robô — recitou McLane, em voz alta — tem que obedecer
às ordens dadas por um ser humano, salvo o caso em que estas ordens
venham a conflitar com o estabelecimento na primeira lei.
— Na sua interpretação, os robôs acharam que as ordens dos
homens eram incapazes de defender os próprios homens contra a
morte; e aí agarraram a iniciativa. Mas tudo isso não basta para
explicar o comportamento maluco.
— Eles não reagem às nossas ordens — disse Hall, de repente — e
quando eles obedecem, fazem exatamente o contrário.
Tamara levantou-se de um salto.
— O que o senhor quer dizer com isso, fazem o contrário? —
perguntou, agitada.
Hall estava profundamente abatido.
— Eu não sei — disse ele — é que me lembrei disso agora.
— Não pode descrever isso com um pouco mais de detalhes? —
perguntou Tamara, sacudindo o chefe pelo braço.
— Eles sempre realizam outras tarefas programadas. Mas nunca
aquelas que nós ordenamos a eles.
Na curta pausa, durante a qual idéias notáveis pareciam estar
ocorrendo simultaneamente a duas pessoas, ouvia-se novamente o
martelar daquela máquina. Pequenos carros atravessaram as galerias,
levando grandes blocos de detritos fundidos, já sem qualquer minério,
e que eram descarregados automaticamente.
— Fazem sempre o contrário... — raciocinava Tamara, em voz
alta.
— Certo. Por exemplo, em vez de minério, eles mandam detritos à
Terra.
Hall passou a mão pela testa e disse, quase aliviado:
— E eles não devem, em hipótese alguma, agarrar alguma coisa
que pudesse ser considerado uma arma. E agora eles praticamente
estão de posse de todas as nossas armas!
McLane riu; mas era uma risada dura.
— E em vez de trabalhar, eles obrigam os próprios homens a
realizar esses trabalhos!
— A rigor — intrometeu-se Hasso e olhou novamente para o
desenho de Tamara — nós, homens, é que devíamos comandar e os
robôs obedecer; acontece que tudo se passa exatamente ao contrário!
— E o que significa isso? — perguntou Mario.
Tamara explicou.
— Eu desconfio que o impulso de energia emitido pelo cérebro
tenha alterado parcialmente a ligação; os relês estão dispostos no lado
errado. Em vez de "sim", as posições significam "não" e vice-versa.
Entendeu?
— Perfeitamente! — exclamou McLane. Hasso levantou a mão.
— Eu suponho que também o bloco de relês no crânio de um robô
primitivo deve obedecer às mesmas leis da fabricação em série, como
muitas outras coisas; sabe alguma coisa a esse respeito, Tamara?
— Acho que sim. Na realidade não sei muita coisa. Mas eu já vi
uma vez um desses blocos com microrrelés; não se diferencia em nada
de um relê do aparelho hiper-radiofônico.
— Sim. E pode-se obrigá-los a voltar à posição normal — disse
Hasso. — Só é preciso transferir o trajeto da corrente de alimentação.
É claro que não conhecemos as posições; sabemos apenas que a atual
ligação não presta e que temos que substituí-la por um outro caminho.
— E como podemos fazer isso? — perguntou McLane,
sombriamente.
— Me dê um bloco de relês desses, e eu vou lhe mostrar como —
disse Hasso.
— Tragam-me um robô imóvel e eu vou lhe dar o bloco de relês!
— respondeu McLane, com sarcasmo.
— Repito — disse Tamara Jagellovsk — para que saibamos ao
menos o caminho, precisamos obrigar um ou mais robôs a se
aproximar e aí temos que imobilizá-los; uma rajada de raios gama
pode paralisar temporariamente um robô. Infelizmente não dispomos
desses raios; podemos, porém, consegui-lo por meio de um jato de luz
forte, dirigido às células visuais. Isso nós aprendemos no nosso curso.
Se temos o robô, precisamos abrir a parte correspondente à sua
cabeça. Então retiramos a ponte entre o cérebro e a motricidade e a
alternamos com o truque simples de Hasso. A propósito, Hall, vocês
dispõem de um cibernético aqui em Pallas?
— Tivemos um, sim — disse Hall entristecido — chamava-se
Foerster.
— Droga! — disse McLane.
— Então o seu trabalho preparatório foi uma verdadeira obra-
prima! — constatou Mario de Monti. Nigel Hall parecia se encolher
cada vez mais sob o olhar recriminador do subcomandante.
— Mesmo que Foerster ainda estivesse vivo, não teria adiantado
nada. Os robôs não deixam ninguém se aproximar deles.
— Claro — disse Tamara, compreensiva — isso se deve à
inversão das suas reações.
— Afinal, quando é que esses robôs costumam descer para cá,
Hall? — perguntou McLane.
— Em intervalos irregulares; às vezes, vêm de hora em hora, e
outras vezes, eles não aparecem durante dias.
— Podíamos nos valer dessa inversão.
— Como? — perguntou Hall, com a esperança renascendo.
— Se nós desligarmos as máquinas, os robôs vão descer para ver o
que houve. Segundo tudo que eles fizeram até agora, não há dúvida
quanto a isso.
— Isso nós podemos fazer; simplesmente desligamos a energia.
— Nesse caso nós aumentamos a ameaça para essa lua ainda mais.
O plano de McLane começou a tomar formato.
— E como vai querer fazer isso? — perguntou o chefe dos
trabalhadores.
— Aqui, nas proximidades, existe alguma galeria bem estreita, na
qual duas das máquinas podiam ficar entravadas?
Hall apontou para a esquerda.
— Lá, aquela galeria com as pedras empilhadas.
— Ótimo! — disse McLane. — Nós nos ocultamos num ponto
bem distante dessa galeria. Depois iluminamos a galeria, colocamos
uma barreira diante do corredor principal e obrigamos os robôs a
passar pelo corredor transversal. E aí...
— O que é que o senhor quer com os robôs no corredor
transversal? — perguntou Hall, que ainda não tinha entendido.
— Explodimos a galeria. Os robôs vão ser soterrados e nós
podemos nos aproximar deles!
Hall virou-se e gritou:
— Hei, Joyce!
Um homem destacou-se do grupo dos trabalhadores e veio
correndo em direção a Hall.
— Esse é nosso técnico em explosivos — disse Hall e apontou
para Joyce — Fale com ele!
McLane perguntou ao perito:
— Pode dosar a explosão de tal maneira que o teto da galeria
desmorone e soterre os robôs? Nós precisamos deles intactos mas
imobilizados; além disso, a detonação tem que abalar a lua, quero que
os robôs fiquem com medo.
Joyce olhou para o teto da galeria circular e respondeu:
— Creio que posso realizar essa explosão mais ou menos como o
senhor quer.
— Os robôs precisam acreditar que a lua está em vias de se
quebrar em mil pedaços, ou que vai apresentar fendas através das
quais o ar pode escapar. Isso vai apressar o nosso plano.
— Entendo.
— Então nós abrimos as suas cabeças e alternamos a ligação do
bloco de relês. Assim os dois robôs devem voltar a obedecer
corretamente às nossas ordens.
— Pode me dar uma meia hora? — perguntou o técnico.
— Posso. Mas não mais do que isso.
Hall dirigiu-se ao seu colaborador:
— Joyce — disse ele — os mineiros não devem ser feridos pelas
explosões. Quando eu der o sinal, nós paramos as máquinas. E... não
estique os cabos de maneira que os Worker possam tropeçar neles e
destruí-los!
— Entendi tudo, chefe! — assegurou o técnico.
Os homens começaram a trabalhar enquanto McLane e sua equipe
passaram em revista mais uma vez as diversas fases do seu plano.
Hasso consultou novamente o relógio e constatou que desde a partida
da Orion tinham decorrido quase seis horas.
— Cliff? — perguntou ele, baixinho.
— O que é, Hasso?
— Só temos mais onze horas... e, caramba!
Hasso empalideceu e colocou a mão na testa.
— Esquecemos uma coisa! — disse ele, lentamente.
O comandante compreendeu imediatamente, e disse:
— As reservas de energia da Lancet!
— É isso mesmo! Eles sabem que nós queríamos apanhá-los no
máximo dentro de seis horas. Até lá, nós ainda teríamos umas duas
horas. Mas a projeção do Laurin consome um bocado de energia. Eu
não sei quando as baterias estarão vazias. Alimentos e oxigênio há da
sobra a bordo da Lancet, mas Helga e Atan podem ser congelados;
devíamos nos apressar!
— Isso acontece justamente a nós! — disse McLane. — Espero,
porém, que eles fiquem de olhos abertos assim que o nível de energia
tenha baixado para um valor perigoso.
— Pode ser — disse Hasso e observou os homens que estavam
erigindo a barreira. Utilizando as pedras destinadas a encher as
galerias exploradas, construíram uma parede que se estendia do
elevador até a entrada daquele corredor que ia ser explodido. Ligaram
placas luminosas. O martelo pneumático furou os orifícios para o
explosivo e alguns homens estenderam cabos, da cor da rocha, desses
orifícios até os dispositivos de detonação, que Hall vigiava
atentamente. Alguns grupos de trabalhadores retiraram-se para trechos
mais fundos do sistema de galerias e lá se ocultaram. Joyce
aproximou-se de McLane; trazia o disparador nas mãos.
— Está quase pronto, comandante — disse ele.
Tamara estava ao lado de McLane; trocaram um longo olhar.
— De qualquer maneira, só detonem a carga quando eu der o sinal;
está claro?
— Perfeitamente! — confirmou o técnico.
— E nós vamos nos esconder aqui perto e esperar. Assim que os
robôs estiverem soterrados, saímos correndo. Ainda se lembra como
se abre a cabeça de um robô?
— Claro que sim!
— Ótimo!
— Estamos bem perto do local da detonação — disse McLane —
não acha que podemos correr algum perigo? — o técnico sacudiu a
cabeça.
— Não; a obstrução foi feita de tal maneira que a onda de choque
não vai poder atravessar a galeria principal.
A cabeça de Mario surgiu de trás da barreira. Gritou alto para
McLane:
— Se vocês realmente conseguem transpor os relês, que tipo de
ordens os robôs vão então executar?
McLane virou-se.
— Vão impedir você para o resto da sua vida de fazer perguntas
como essa!
— Estamos prontos! — avisaram os homens das máquinas.
— Desligar as máquinas! — gritou McLane.
Em quatro pontos de controle, homens viraram pesadas alavancas
isoladas.
Todas as luzes se apagaram. Os barulhos das máquinas tornaram-
se cada vez mais baixos. O violento martelar da gigantesca instalação,
que escavava galerias retangulares, cessou. Só algumas grandes
luminárias ainda estavam acesas. Iluminavam a porta diante do
elevador e a barreira negra, constituída de blocos de pedra
quadrangulares. E iluminavam o pequeno corredor transversal.
— A energia foi cortada! — avisou uma voz calma no interior de
uma das galerias.
Satisfeito, McLane deu um aceno na escuridão. Ele e Tamara
haviam se escondido atrás de uma pilha de chapas de aço e de um
carro transportador freado.
— Olhe! — sussurrou o agente do SSG. McLane olhou na direção
do indicador esticado. Os campos luminosos do sinaliza-dor ao lado
da moldura das portas do elevador acendiam-se em rápida sucessão,
de cima para baixo.
— Aí vêm eles — disse McLane. — Está com medo?
— No momento, não — respondeu Tamara.
— Atenção! — disse McLane, em voz alta.
A quatro metros de distância, Joyce estava acocorado atrás de uma
pilha de caixotes, cheios de peças de máquinas. O elevador parou e,
com um chiado, as duas folhas da porta se abriram. A cabine do
elevador estava iluminada.
Dois robôs estavam na cabine; ficaram parados. As células ópticas
debaixo da cúpula protetora de Plexol brilhavam. Depois, os dois
pesados corpos deslizaram para a frente, saíram do elevador e pararam
novamente. As cabeças se mexiam lentamente. As células
vasculharam as imediações, descobriram a barreira e transmitiram os
sinais aos cérebros. Em seguida, os robôs se viraram e deslizaram em
direção à galeria. O primeiro desapareceu, seguido do outro a um
metro de distância. Os braços, que podiam carregar os mais pesados
fardos, pendiam soltos e sem impulso de comando nos lados dos
esferóides. McLane estalou os dedos.
— Agora, Joyce! — disse, quase num sussurro.
O técnico ativou o mecanismo de ignição; imediatamente seguiu-
se uma violenta pancada. Parecia que a cúpula rochosa da grande sala
ia despencar a qualquer momento. Ofuscantes línguas de fogo
irromperam do teto e do chão da galeria circular. O trovão rolava
pelos corredores e galerias do sistema e o chão tremia. A galeria...
todo o seu teto desabou. Detritos de pequenas rochas caíram de todos
os lados sobre os robôs e os soterraram.
— Vamos, Tamara! — disse McLane e saltou sobre a barreira.
Entrou correndo na galeria no meio do pó de pedra, atravessado pelos
raios de uma luminária semidestruída. Hasso e Mario estavam ao lado
do seu chefe. Removeram febrilmente os fragmentos de rocha e em
pouco tempo descobriram a cabeça de um dos robôs.
— O que foi que ele fez? — perguntou McLane, ofegante, e
sufocou um acesso de tosse.
— Quem fez o quê? — perguntou Tamara.
— Esse tal de Rott abriu a cabeça daquele robô maluco no nosso
curso e disse alguma coisa. Lembra-se do que ele disse?
McLane virou um grampo magnético e abriu a janelinha na cabeça
do robô.
— ...uma insignificante variação de intensidade dos impulsos das
fitas eletromagnéticas de comando já é o suficiente... foi isso que Rott
disse — respondeu Tamara, que se lembrava perfeitamente das
palavras do instrutor.
— Aqui está o segundo! — gritou Mario apontando para trás. Os
colonos estavam chegando e iluminavam a escura galeria. Uma
turbina começou a aspirar o pó; aos poucos a visibilidade melhorou.
— Foi isso mesmo! — disse McLane a Tamara — mas Rott ainda
falou numa ligação; que ligação era essa?
Tossindo, Tamara respondeu:
— Era uma ligação ípsilon.
— Se fizermos algo de errado — disse Hasso e segurou
cuidadosamente o bloco de relês entre os dedos — então teremos dois
robôs não apenas desobedientes, mas totalmente loucos, e isso não
serve para ninguém!
— Ele disse... transferimos a ligação de ípsilon dezoito para... e
mais do que isso nós não ouvimos! — disse Tamara, quase
desesperada.
No ínterim, McLane também havia retirado o bloco de relês dos
contatos e o examinava. Os dois robôs eram incapazes de exercer
qualquer função — estavam paralisados.
— Nada de afobação! — disse Hasso, na sua voz grave e
tranqüilizante. A luz dos refletores portáteis chegou mais perto.
— Ípsilon dezoito é a posição normal — afirmou Cliff; disse isso,
porque tinha visto a seqüência das ligações.
— Os números vizinhos são dezessete e dezenove — observou
Hasso — provavelmente, uma correção está relacionada a uma
numeração mais alta.
Hasso e McLane trocaram um olhar por cima das cabeças dos dois
robôs. Hasso encolheu os ombros largos.
— Assumo a responsabilidade — disse Cliff. — Hasso, por favor,
ligue o dezenove, vamos ver o que o robô vai fazer.
Os dedos habilidosos de Hasso modificaram a ligação naquele
bloco branco, de forma cúbica, dos relês, viraram-no e o inseriram
cuidadosamente na cabeça do robô. Depois manteve a sua mão em
cima daquele grampo magnético.
— Worker! — disse, com voz incisiva.
Uma série de lâmpadas, protegidas pela placa de Plexol, acendeu-
se.
— Escave-se cuidadosamente e retire-se até o elevador; vamos!
Os braços do robô começaram a se mexer. Afastaram rochas e
lançaram bateladas de brita para os lados; pouco a pouco as duas
cascas côncavas, que constituíam o seu corpo, apareceram.
— Alto! — disse Hasso.
Os homens prenderam a respiração. Imediatamente o robô estacou
no meio do seu movimento.
— Prossiga!
Finalmente a máquina liberou-se do resto dos detritos, ergueu-se e
ativou os raios.
— Em direção ao elevador! — disse Hasso.
O robô deslizou por ele e saiu da galeria, esquivando-se
habilidosamente dos escombros e dos homens que estavam obstruindo
a entrada. Parou a um metro da porta do elevador.
— Não é que funciona! — sussurrou Hall, e recostou-se, aliviado,
na parede da galeria. Agora tinha chegado a vez de McLane. Ajustou
o bloco e recolocou-o. Uma série de comandos e também esse se
libertou sozinho e deslizou até o elevador. Lá estavam agora as duas
máquinas e pareciam esperar por novas instruções. Das outras partes
do sistema, os homens estavam voltando e reuniram-se em torno de
McLane e seu grupo.
— Pode ligar as máquinas de novo — disse Hasso — lá em cima
ainda estão esperando dezenove robôs parcialmente armados. Por
enquanto, só conseguimos normalizar dois.
— E agora vamos fazer o quê? — perguntou Hall.
Algumas das máquinas voltaram a funcionar e luzes começaram a
se acender. Os dois Worker ainda estavam imóveis diante do elevador.
— Vamos fazer uma experiência — disse McLane.
— E os outros robôs?
— Desses nós nos encarregamos! — declarou Mario — para isso
só precisamos das nossas armas.
— Worker! — disse McLane, em voz alta.
Sinais luminosos foram a resposta.
— Está me entendendo claramente? Novamente sinais afirmativos.
— Vocês dois vão para cima e voltam com nossas armas;
entendido?
Os sinais disseram: "entendido".
— E isso com a máxima velocidade! — disse Tamara.
As folhas das portas do elevador recolheram-se e os dois Worker
flutuaram para dentro da cabine. O sinalizador luminoso mostrou que
o elevador subia; finalmente parou.
— Dentro de alguns segundos vamos ver se tivemos êxito — disse
Cliff. — Se alguns voltarem armados, é sinal que tivemos azar.
Hasso apontou para o relógio.
— E não apenas nós, Cliff! — disse em tom de advertência.
Hall, o técnico em explosivos, e os tripulantes da Orion ficaram
esperando em silêncio. Estavam de mãos vazias diante do elevador, e
não sabiam se teriam êxito. A sorte de Pallas beta estava em jogo... e
também a da Lancet.
7

OUVIA-SE o zumbido leve e ininterrupto de uma microturbina,


que aspirava o ar e o forçava através dos jogos de filtros. Ouvia-se
ainda o clique de teclas e os ruídos que emanavam dos alto-falantes.
Helga calcou novamente o botão do emissor e disse em voz alta!
— Lancet chamando Orion VIII... por favor respondam... por favor
respondam...
Largou o botão e ligou o receptor.
— Pare com isso — disse Atan, baixinho — você bem que está
vendo que ninguém responde!
Tinham terminado o seu trabalho.
Dezesseis cassetes de fitas magnéticas tinham sido empilhados ao
lado dos gravadores. Os capacetes dos trajes espaciais estavam
colocados sobre o piso macio ao lado das poltronas.
— E como é que você acha que isso vai continuar? — perguntou
Helga, cansada. Atan deu de ombros e tomou mais um gole de café.
— Eu também não sei — disse ele. — Só vejo duas alternativas.
— O fato é que estamos fornecendo energia a esse Laurin além do
que devíamos, e isso já há mais de cinco horas.
Atan olhou para Helga, a jovem oficial da Vigilância Espacial.
Helga era jovem e bonita. O fato de não ceder aos cortejos de
diversos cosmonautas, fazia com que se tornasse ainda mais
interessante... para cosmonautas. Era capaz e ambiciosa, uma
excelente telegrafista, e faria uma brilhante carreira se permanecesse
sob o comando de McLane. O seu grande defeito era o seu eterno
ceticismo que, nesse momento, se manifestava de maneira acentuada.
— É que nós estamos quase sem reservas — disse ela.
— Temos comida. Bebidas também. Quanto ao oxigênio, a nossa
reserva é suficiente. Portanto, não vamos nem morrer de fome nem de
sede, nem tampouco de asfixia — disse Atan. — Nunca McLane
deixou de fazer o que era possível. Eu lá sei, o que está se passando
em Pallas beta?
— As nossas baterias estão ficando cada vez mais vazias —
objetou Helga. — Parece que isso não está lhe impressionando muito,
não é, amigo Shubashi?
Atan ergueu-se e observou as escalas. A marcação ainda estava
longe do ponto vermelho. Helga levantou-se e postou-se ao lado de
Atan.
— Só nos restam vinte por cento! E está se reduzindo cada vez
mais! — disse ela e bateu com o dedo no vidro da escala.
Inabalável, Atan respondeu:
— Eu confio em Cliff; no máximo dentro de uma hora ele está
aqui e vai colocar a Lancet no seu poço.
Para economizar energia, tinham levado a nave auxiliar bem para
perto daquela reluzente configuração energética em frente ao planeta.
A menos de dois quilômetros diante deles, pairava, imóvel, o Laurin.
Algumas das sondas eram visíveis; as outras encontravam-se longe
demais.
Atan olhou através de uma das pequenas cúpulas e acompanhou
uma formação de nuvens do planeta de Larsen.
— Se não tomarmos uma resolução, ficamos sem energia alguma.
E aí, todo mundo entra em colapso; não apenas o Laurin, mas nós
também. Além disso, não podemos mais alimentar as máquinas e o
planeta vai nos atrair.
O planeta de Larsen flutuava diante deles, exibindo sua magnífica
coloração castanho-dourada...
— Vamos ser consumidos na atmosfera desse gigante lá fora —
disse Helga, e apontou para o planeta. — E se Cliff realmente passar
mais uma vez por aqui, não vai nos encontrar; seria gozado, não é?
— Qual é o nível das nossas reservas? — olharam
simultaneamente para o mostrador.
— Só dezenove por cento! — sussurrou Helga.
Atan lançou um rápido olhar para a tela do relógio digital de
bordo.
— Você está querendo matar-nos, Atan? — cochichou Helga.
Atan sacudiu lentamente a cabeça.
— Vamos esperar mais uma hora. Aí então desligamos os
projetores, deixamos o Laurin entrar em colapso e nos afastamos do
planeta para não sermos atraídos por ele. Depois Cliff nos apanha.
Atan também já não tinha mais tanta certeza...
***
A grande sala estava meio às escuras, e em dois pontos do
gigantesco mapa tridimensional cintilavam minúsculas luzes. Este
mapa era a reprodução daquela esfera espacial de novecentos parsec
de diâmetro, considerada o domínio terrano. Uma das lâmpadas
piscantes encontrava-se no cubo espacial Quatro/Oeste 034. Quatro
pessoas estavam postadas diante do mapa e fixavam o olhar naquelas
luzes.
— E o marechal Wamsler? Quando virá? — perguntou um chefe
de seção, em voz baixa.
Spring-Brauner virou-se lentamente. Seu rosto bonito, queimado
de sol, ostentava uma expressão aborrecida, desalentada.
— Lá pela meia-noite — respondeu.
— Ele já está a par da situação? — perguntou o outro homem,
naquele uniforme inconspícuo.
— Não. Não está não. Se Wamsler souber dessa história, eu estou
liquidado!
A minúscula lâmpada ainda cintilava.
— Durante o seu encontro, a Sikh XII e a Orion VIII trocaram
mensagens radiofônicas; o próprio comandante Ruyther confirmou
isso. Ele disse que as duas naves emitiram o código de identificação e
ainda desejaram boa viagem uma para outra.
Spring-Brauner deu um gemido e cobriu os olhos com a mão.
— Se McLane manteve contato com a Sikh, ele poderia ter
mantido contato conosco também. Ou o raio do transmissor funciona
ou não funciona!
O aspirante aguardou uma pausa na conversa e comentou:
— E que tal uma ação de busca em grande escala?
— O quê?! — exclamou Spring-Brauner, virando-se rapidamente.
— Nesse momento a décima oitava frota está realizando manobras
no quarto setor de distância. Se estou corretamente informado, ela se
encontra também no lado oeste. E nesse caso ela poderia participar da
ação.
— Por todas as luas! — gemeu o oficial — tudo, menos isso! Essa
frota compreende vinte e duas naves de combate de grande porte,
quarenta cruzadores e cem naves lança-satélites. Wamsler vai mandar
me fuzilar!
— Seria a sua última chance de descobrir o paradeiro de McLane,
antes que alguém coloque Wamsler a par deste equívoco portentoso!
O aspirante olhou para Spring-Brauner com o rabo dos olhos e
constatou que, nesse estado de desespero, o ajudante perdia muito da
sua boa aparência.
— Está bem — disse Spring-Brauner, finalmente. — Obviamente
não tenho outra escolha. Meu pai sempre queria que um dia eu me
tornasse marechal... Agora a vaca foi ao brejo; emita uma ordem de
ação, a frota deve aguardar as minhas disposições.
O aspirante bateu continência e retirou-se da sala.
— Passe bem — disse o outro — e... mantenha a cabeça erguida!
Nesse estado de ânimo, não conseguiram aborrecer nem mesmo
Spring-Brauner; esperaram até que a barreira se extinguisse e saíram
em silêncio do gabinete do marechal. Spring-Brauner estava se
apoiando na mesa e xingava veementemente McLane, seus
antepassados, e eventuais descendentes.
***
Um clima de tensão reinava no recinto diante do elevador. A
barreira já tinha sido removida e os trabalhos de limpeza estavam em
pleno andamento no que se referia aos danos imediatos; as luzes do
sinalizador ao lado da porta do elevador alternavam-se, de cima para
baixo... o elevador estava descendo.
— Vão aparecer a qualquer momento! — disse Tamara e postou-
se entre Hasso e Cliff. Nem reparou que estava tremendo. Era duro ser
condenada à passividade total.
— Acha que deu certo? — perguntou Mario, baixinho.
— Espero que sim — respondeu Cliff. — Consertamos dois
Worker, como eles vão reagir, nem Rott sabe.
O ruído do elevador, que estava parando, submergiu sob o martelar
das máquinas.
— Estão chegando! — sussurrou Hall, quase sem fôlego; ele sabia
o que o sucesso de McLane significava para ele e sua mina lunar.
McLane virou-se rapidamente e lançou um olhar aos poucos
trabalhadores que se encontravam atrás dele.
— Escute, Hall — perguntou, agitado — tem certeza que pode
confiar nos seus homens?
— Tenho sim, major McLane.
As duas folhas da porta se recolheram. Na cabine iluminada
flutuavam dois Worker. Nos braços estendidos, carregavam os
projetores. Lentamente, as máquinas se aproximaram. Pararam diante
de Hasso e de McLane. As pontas dos projetores estavam dirigidas
para os corpos dos dois homens; depois baixaram-se com infinita
lentidão e, num movimento dramático daqueles dedos de aço, as
articulações dos pulsos viraram-se nos mancais de bronze e de berílio.
Oito projetores foram entregues a Hasso e McLane. Liberta da tensão,
Tamara tonteou, mas foi imediatamente amparada pelos braços de
Mario.
— Obrigada — disse ela, pegando o projetor que McLane estava
lhe entregando. Gritando desordenadamente, os mineiros saíram
correndo dos seus esconderijos e se aproximaram da equipe da Orion
para cumprimentá-la. McLane destravou seu projetor.
— Não há motivo algum para festejos! — gritou Cliff, com voz
incisiva. — Precisamos subir e tentar eliminar as outras máquinas,
ainda preciso de quatro bons atiradores!
Hall, Joyce e dois outros homens se adiantaram. Cliff levantou sua
arma.
— Esta aqui é uma HM-4 — disse ele. — Uma arma para várias
finalidades. Giramos esse botão totalmente para a direita. Com isso, a
torrente de partículas aniquiladoras transforma-se num raio laser de
cor branca. E com este raio podemos paralisar as células visuais das
máquinas.
— Portanto devemos apontar para os olhos deles? — perguntou
Hall.
— É isso mesmo, Nigel — respondeu McLane. — Vamos entrar
no elevador. No momento que ele parar lá em cima, cada um de nós
atira. Suponho que não se encontram todos no mesmo recinto e que
nem todos estejam armados. Apontem exatamente para os dispositivos
ópticos das máquinas. Entendido?
O grupo entrou apressadamente na cabine do elevador.
— Prestem atenção! — disse McLane. — Cada um escolhe um
alvo. Os robôs reagem muito mais rapidamente do que os homens.
Hasso! Coloque-se na extrema direita, o seu alvo vai ser o robô que
estiver mais afastado do seu lado... e assim por diante. Entendido?
— Entendido! — disseram várias vozes ao mesmo tempo.
Com as armas destravadas nas mãos, os homens esperavam o
segundo em que a placa de aço se afastaria da sua frente. O elevador
parou suavemente. A placa recolheu-se e ao mesmo tempo o disco
transparente afastou-se na outra direção. Havia oito robôs na
antecâmara, dois deles diante de um quadro de comando. Com um
chiado agudo, as armas de Hasso e Atan emitiram um raio ofuscante
que quase cegava os homens. Os dois astronautas tinham acertado em
cheio o sistema óptico debaixo da capa protetora de Plexol e os robôs
estacaram em meio ao movimento. No mesmo segundo, McLane
dirigiu sua arma para um robô que deslizava em direção ao elevador;
acertou em cheio. O robô parou como se tivesse esbarrado numa
muralha de aço. A coordenação dos movimentos falhou e o campo
magnético, sobre o qual deslizava, entrou em colapso. Três máquinas
jaziam no chão entortadas e desamparadas. Os braços tremiam e as
garras abriam-se e fechavam-se com movimentos bruscos; Hall,
Tamara e Joyce começaram a atirar. Hall errou o primeiro tiro e tomou
mais cuidado com a pontaria. De um canto da sala um robô deslizou
rapidamente em direção ao elevador. De repente desabou, liquidado
por um dos colonos. Dois segundos depois oito máquinas estavam
paralisadas no solo.
— Hall! — gritou McLane. — Nós não conhecemos a sua
instalação. Portanto, pegue seus homens e vasculhe os outros recintos.
Nós vamos normalizar esses oito robôs; depois nos encarregamos do
corredor principal até a central.
McLane enfiou a arma travada no bolso do macacão de bordo e
abriu a cabeça do primeiro robô. Hasso, Mario, Tamara e Cliff não
levaram mais que meio minuto para completar aquelas religações tão
simples e fecharem novamente as pequenas janelas. Assim que os
twistores e bobinas superaquecidas estivessem em condições de
funcionar, os robôs poderiam ser novamente dirigidos.
— Agora só faltam onze máquinas — disse Tamara; pegou a arma
e saiu correndo, seguida por Cliff.
A mina havia sido equipada com vinte e uma dessas máquinas.
Dois Worker tinham sidos normalizados após a detonação da galeria.
Outros oito jaziam paralisados no piso daquela sala. Encontraram duas
máquinas nos recintos do bangalô e atiraram antes que elas pudessem
se aproximar.
— Faltam apenas nove — constatou Hasso e continuou a correr.
Atravessaram um longo corredor e encontraram uma máquina no
primeiro cruzamento. Tamara ficou para trás e encarregou-se da
religação. Minutos após, mais um robô tombou sob os tiros dos
homens. Estava deslizando num recanto da central.
— Quantos? — perguntou Cliff, respirando pesadamente.
— Seis nós pegamos.
— Então são sete, com esse aqui? — perguntou McLane a Hall,
que tinha entrado na central juntamente com ele.
Hall acenou afirmativamente. Cliff olhou ao redor e viu, além de
Mario e Hasso, também Tamara, que tinha chegado a central
ligeiramente esgotada. Carregava a arma com uma displicência que
denunciava uma longa prática.
— Apanhou mais algum? — perguntou Hall apressadamente.
— Não — disse Tamara — não peguei mais nenhum. — Mas eu
religuei nove, sem falar daqueles que estão tão decorativamente
dispostos em frente ao elevador.
— Portanto, ainda precisamos achar o último — disse Hasso.
— Certo. Onde será que ele está?
A pergunta era dirigida a Hall. O chefe da mina encolheu os
ombros e virou-se para seus homens.
— Abrimos todas as portas que encontramos no nosso trajeto do
elevador até aqui, e verificamos o que havia atrás delas — disse
McLane, com raiva. — Hall, encarregue-se das galerias. Existe mais
algum recinto onde uma máquina pudesse se ocultar?
Os homens puseram-se a pensar febrilmente.
— Ninguém esteve no almoxarifado, Nigel! — disse Joyce
finalmente.
Nigel deu uma curta risada e saiu correndo, enquanto Tamara
cuidava da religação daquele robô que jazia ao lado da pilha atômica.
— Cliff! — disse Hasso — está na hora de partir!
— Só mais alguns minutos, Hasso — respondeu McLane, e seguiu
Nigel Hall. E, no entanto, estava mais que preocupado com Helga e
Atan.
8

— NOSSA reserva de energia está reduzida a oito por cento! —


disse Helga, com voz assustada. A Lancet ainda pairava no espaço
diante do planeta de Larsen. E os dígitos continuavam a correr
implacavelmente pelos minúsculos monitores. Seis horas e um
minuto!
— Vamos ter que suspender o fornecimento de energia para o
Laurin! — disse Atan, abatido.
Exatamente na linha de cintura da Lancet, onde a casca inferior
cônica e a casca superior hemisférica se juntavam com as pequenas
cúpulas, corria, no interior da nave, um ressalto que terminava num
recesso, no qual se encontravam todas as instalações de comando e as
poltronas. Estavam colocadas, uma ao lado da outra, diante do painel
de controle semicircular. E nestas poltronas estavam acomodados
Atan e Helga.
— Olhe aqui! — disse ela, apontando para uma estreita fita
luminosa à sua direita.
— O que é? — perguntou Atan, cansado.
— A temperatura está baixando! Estavam bem abastecidos de
oxigênio e
alimento, mas o problema era a energia, indispensável para a
locomoção da Lancet. Estava sendo consumida, lá fora, por aquele
vulto energético, em forma de disco, destinado a fornecer uma falsa
imagem a qualquer raio de busca. A Lancet estava perdendo calor e a
sua capacidade de locomoção. As máquinas auxiliares também
dependiam das reservas das baterias.
Uma hora atrás, a voz de Atan ainda era firme e convincente;
agora, tinha se tornado insegura e bem mais baixa. Parecia que ele
mesmo não mais acreditava que Cliff pudesse retornar a tempo.
— Temperatura ambiental: vinte e três graus centígrados — disse
Helga, preocupada. — Por que Cliff não chega logo?
Atan olhou para a moça e encolheu os ombros.
Estavam encolhidos nas poltronas e sentiam arrepios de frio. Isto
refletia seu estado psicológico, porque a temperatura ainda não havia
baixado sensivelmente.
— Vinte e três graus... desligue a metade das placas de calefação,
Helga — disse Atan.
— Em vez disso, por que não desligamos logo o Laurin?
— Porque seria a maior besteira! — disse Atan e estendeu a mão
em direção ao painel, para poder girar o botão. — Cliff correu em
socorro da pequena lua de mineração Pallas beta. Sabia do risco que
esta decisão representava para a nave e a tripulação. E ele não pode se
expor agora, nem a Tamara, admitindo que abandonou o seu posto. E
é exatamente isso que vai acontecer se nós desligarmos essa projeção,
entendeu?
Helga acenou com a cabeça.
— Está tudo muito bonitinho e muito certinho — respondeu ela.
— Mas, para mim, isto não é motivo suficiente para morrer de frio ou
me espatifando contra o planeta.
— Nada disso vai acontecer — finalizou Atan.
O isolamento das pequenas naves não era dos mais fortes. Mesmo
assim, fornecia proteção adequada contra as radiações cósmicas.
O perigo não estava apenas no interior da Lancet mas também lá
fora, no universo: era representado pelo planeta — pelo planeta de
Larsen.
Era uma gigantesca esfera, de densidade igual à da Terra. Porém a
sua força de atração e sua massa excediam as terranas em vinte por
cento. O fato de possuir uma atmosfera rica em oxigênio, por si só, já
era um convite à colonização que, no entanto, não podia ser iniciada
de imediato. Havia um impedimento. O teor de oxigênio no ar
atmosférico era alto demais, e isto implicava em condições
modificadas para a vida humana. Somente os resultados de longos e
intensivos estudos revelariam se o homem podia ou não se estabelecer
neste planeta.
— Só mais dez minutos, Atan! — advertiu Helga.
O tempo passava com uma lentidão torturante. Tudo parecia
demorar uma eternidade. Mesmo a chegada da morte. Mas os dois
tinham plena consciência de que era preferível morrer congelados do
que queimados no choque contra a atmosfera.
— Vou me lembrar disso! — disse Atan. O planeta de Larsen
estava agora mergulhado na escuridão da noite.
Essa massa colorida e movimentada, constituída de magma, terra,
rochas e água, atraía a nave auxiliar com uma força suave mas
insistente. Se não dispusessem mais de energia, não poderiam afastar a
nave; e neste caso cairiam fatalmente sobre a superfície do planeta.
— Faz alguma idéia do que possa ter acontecido a Cliff e a Orion?
— Claro que não! — disse Atan, e olhou para Helga. — Se eu
soubesse, já teria feito alguma coisa. A nave estava perfeita; não pode
ter falhado. O mesmo vale para a tripulação, estava em plena forma.
Portanto, algo deve ter acontecido em Pallas beta, e isso os reteve.
Estou certo que, dentro de mais alguns segundos, a Orion aparece e
nos recolhe. Nisto eu acredito piamente.
— Esse comandante vai ouvir algumas coisas de mim! — afirmou
Helga.
Apesar de seu mal-estar, Atan teve que rir desbragadamente.
— Não vai me dizer que você vai brigar com seu ídolo? —
perguntou, e entendeu no mesmo instante que tinha abordado um tema
que podia manter Helga ocupada durante os próximos minutos ou
mais tempo ainda. Isso era importante, porque ele mesmo já estava
acreditando numa desgraça.
— Eu? McLane meu ídolo?
Helga fuzilou Atan com os olhos. Ele deu um sorriso malicioso.
— Por favor, não queira mentir para seu velho amigo, colega e
companheiro Atan Shubashi. É claro que você está enrabichada pelo
comandante Cliff Allistair McLane! Só existe uma pessoa que não
sabe disso!
— Quem? — perguntou Helga, com raiva.
— O próprio Cliff! — respondeu Atan secamente. — A
propósito... 264 sarou!
— Não mude de assunto! — disse ela. — Isso que você afirma é
uma besteira; eu admito que Cliff é homem de boa aparência e tem um
certo charme. Não é mesquinho, é muito corajoso e é solteiro.
— Qualquer dessas qualidades — assegurou Atan, rindo — é mais
que suficiente para torná-lo cobiçável para telegrafistas miúdas e de
cabelos escuros. Alguma vez já esteve na toca dele?
Helga enrubesceu e sacudiu a cabeça.
— Você se refere ao bangalô dele, em Groote Eylandt? —
perguntou ela depois. — Nem de longe isso me passa pela cabeça, o
meu lema é que não deve existir nada entre os membros de uma
tripulação além de uma boa amizade; aprendi a ser cautelosa, meu
caro!
Atan sacudiu a cabeça.
— Tão jovem e já tão escaldada! — disse ele. — Parece que você
também está lendo a Psicologia dos Astronautas do nosso mui digno
senhor Hammersmith. Ou estou me enganando?
— Não, não está, não. Tamara me recomendou esse livro — disse
Helga, com um sorriso meio encabulado. — E é uma leitura que vale a
pena. Esse sujeito revela umas tantas verdades fundamentais...
Atan consultou o relógio.
— Nada mais vai poder nos salvar — disse Helga de repente — se
você não desligar essa energia agora mesmo!
Atan olhou para o ponteiro dos segundos, que avançava
implacavelmente sobre a marcação do mostrador. Inclinou-se
abruptamente para a frente e fechou a mão sobre a bola brilhante na
extremidade daquela alavanca. Virou-a de um golpe só. De uma hora
para outra a projeção de desfez.
— Muito bem — disse ele, calmamente. — O campo energético
entrou em colapso. Pode ligar a calefação de novo.
— Estava ficando frio — disse Helga — muito frio!
Atan acenou e acelerou a nave com quantidade exata de propulsão
que, para o máximo de reação, requeria um mínimo de energia.
Finalmente a nave se afastou do campo de atração do planeta e
manteve o impulso cinético próprio.
— É verdade — disse Atan. — Agora faça-me o favor e fique
quieta, senão eu também acabo ficando nervoso.
— Por quanto tempo você acha que o material isolante ainda pode
nos proteger?
— No mínimo, o tempo de que Cliff precisa para nos apanhar —
disse Atan, e desligou a máquina. — Aumente a calefação! —
ordenou, e Helga obedeceu sem dizer uma palavra.
— Você está mentindo para nós dois, Atan! — disse ela, em
seguida.
— Vá lá que seja!
Olharam ao mesmo tempo para a marcação do indicador de
energia. O triângulo estava parado em cima do algarismo sete.
— Está na marca sete — disse Atan, calmamente — então
podemos deixar a calefação acesa bem umas duas horas.
— Você está mentindo de novo, Atan! — disse Helga,
apaticamente.
— Cale a boca e tente dormir! — berrou Atan, de repente. Helga
olhou para ele com o rabo dos olhos e constatou que também Atan
estava em vias de perder o controle. A temperatura no interior da nave
parou de baixar e manteve-se constante em torno de vinte e três graus.
Nesta marca permaneceria durante cerca de cento e vinte minutos e
depois cairia, sem que alguém pudesse impedir esta queda. Neste caso
era necessário fechar os trajes e ligar os fios de aquecimento
embutidos. As baterias dos trajes durariam apenas uma hora. Cento e
oitenta minutos separavam Helga Legrelle e Atan Shubashi da morte.
***
O grupo, que compreendia sete homens e uma mulher, tinha se
dispersado. Tamara avançou lentamente pelo corredor onde Cliff
havia desaparecido há alguns segundos. Conduzia para o interior de
uma das primeiras cavernas escavadas, depois dobrava abruptamente
para a direita e, um pouco mais adiante, Tamara encontrou uma parede
de aço.
Vagarosamente Tamara se aproximou. Na mão direita trazia
aquela versátil arma energética, agora ajustada para emitir apenas
fortes raios luminosos que paralisariam os robôs. Tamara ligou o rádio
de pulso e perguntou no minúsculo microfone:
— Cliff McLane?
— Aqui McLane; é a senhora, Tamara?
— Sim, sou eu. Viu o robô que nos falta? — perguntou ela.
— Não, ainda não vi.
— Já vou aí! — avisou Tamara. Cliff não respondeu mais.
McLane tinha entrado num grande magazine. Acendeu a
iluminação e deparou-se com um verdadeiro labirinto, constituído por
umas quarenta pilhas de grandes caixotes com embalagens de várias
cores. Cautelosamente, contornou a primeira dessas pilhas.
No mesmo instante, o tenente Jagellovsk entrou no recinto e
deixou a porta aberta. Tamara não viu Cliff, e ele também não a
reparou. Cliff avançava cuidadosamente com a arma engatilhada. É
claro que ele não sabia se aqui estava o vigésimo primeiro robô e
também não sabia se os Worker faziam parte de um tipo de máquinas
que se comunicavam entre si por radiofonia, trocando as informações
colhidas. Cliff virou-se lentamente e não reparou nada. Continuou a
percorrer os corredores estreitos entre as pilhas, olhando para a
esquerda e para a direita, para a frente e para trás. Mas não viu nada.
Parou e recostou-se numa das pilhas nos fundos do magazine. Quando
ouviu aquele silvo finíssimo, quase na gama do ultra-som, já era tarde
demais. Cliff levou uma violentíssima pancada no pulso. Rodopiou e
acabou agarrado por dois braços de aço impiedosos. O golpe tinha lhe
arrancado o projetor da mão. A arma chocou-se ao solo com forte
estalo metálico. Um robô prendia-lhe os braços como um par de
tenazes, imprensando-os contra o corpo, porém sem quebrá-los.
— Droga maldita! — rosnou Cliff e fez uma tentativa para se
libertar.
O robô recuou uns trinta centímetros, depois avançou novamente e
finalmente deslizou com velocidade moderada por entre as paredes
das pilhas de caixotes. Cliff não conseguiu encostar as solas das botas
no piso. Sem reduzir a velocidade, o robô contornou uma pilha e
dirigiu-se para a saída. Cliff reparou um brilho metálico à distância.
Muito longe e indistinto.
— Tamara! — berrou ele — um robô me desarmou e está me
levando em direção à saída!
Nada se mexeu. Com uma velocidade que para Cliff significava a
morte certa se houvesse um choque contra uma das pilhas, a máquina
se lançava em direção a abertura da escotilha. Talvez conhecesse o
destino que tinha alcançado os seus vinte companheiros e estava
querendo extorquir os mineiros com Cliff. Ainda faltavam dez metros
até a saída... Cliff sentiu um impacto atrás de si, seguido de um grito
sufocado; depois... conseguiu virar a cabeça. Tamara havia se lançado
de lado sobre o corpo do robô e estava arrancando aquele grampo
magnético. O robô balançou ligeiramente e continuou no seu caminho.
Agora a sua trajetória era sinuosa; Cliff conseguiu tirar o pé no último
segundo. O braço da máquina chocou-se contra a pilha e arrancou uma
lasca de madeira com restos de uma fita de aço. De repente a máquina
estacou. A desaceleração fez Cliff ver círculos vermelhos diante dos
olhos. Inteiramente desprovidos de força, os braços telescópicos da
máquina se abriram, e Cliff desabou. Ergueu-se com dificuldade e,
através da sua vista turvada, viu a esbelta figura do tenente. Tamara
estava neste momento religando o relê; inseriu cuidadosamente o
bloco na cabeça da máquina. A construção de aço do robô voltou a se
mexer.
— Worker! — disse Tamara, com voz dura.
Uma seqüência de sinais luminosos afirmativos se acendeu.
— Você sabe onde o comandante McLane, este homem aqui a meu
lado, perdeu a sua arma; vá e apanhe-a. E rápido.
Imediatamente o robô girou, desviou-se elegantemente de Tamara
e deslizou rapidamente de volta por entre as paredes das pilhas.
Depois de percorridos alguns metros dirigiu-se para a esquerda e
desapareceu.
— Este era o número vinte e um, comandante — disse Tamara —
podemos partir!
Cliff contemplou-a com um curto sorriso.
— Muito obrigado! — disse ele. — A senhora devia ter seguido a
carreira de navegador espacial e não oficial da segurança. Às vezes me
surpreende com reações verdadeiramente humanas e com um
comportamento exemplar. Mas agora vamos embora!
Ligou seu rádio de pulso e disse em voz alta:
— McLane para todos. Parem imediatamente. Tamara Jagellovsk
conseguiu normalizar o vigésimo primeiro Worker.
Vamos nos reunir em frente ao depósito onde guardamos os nossos
trajes. Desligo.
O robô voltou, deslizando na maior pressa, e parou rente às duas
pessoas. Na sua mão, presa àquela possante articulação de bronze,
estava a HM-4 do comandante. Mecanicamente, o robô esticou,
levantou e abriu a mão, e McLane recolheu o seu projetor.
— Worker! — disse ele. — Você desce imediatamente na mina e
ajuda os seus colegas no trabalho. Entendeu?
— Afirmativo! — o robô deslizou por McLane e dirigiu-se à saída.
Tamara caminhou ao lado de McLane e ambos saíram
rapidamente; agora já conheciam o caminho; dois minutos depois
estavam no depósito diante do elevador. Em silêncio, Cliff e Tamara
vestiram os trajes brilhantes.
— Estamos com muita pressa, Hall — declarou Cliff.
Hall disse em voz baixa:
— McLane... quero lhe agradecer em meu nome e no dos meus
mineiros.
A resposta de McLane era lacônica mas acompanhada de um
sorriso:
— Não foi nada. Provavelmente isto foi uma experiência bastante
útil para você e seus homens.
Hall acenou e Joyce, a seu lado, enxugou o suor da testa larga.
Esses homens davam a impressão de terem acordado de um pesadelo.
— Foi mesmo uma experiência e tanto! — respondeu Hall, em
tom sério.
— Então tome cuidado para que os robôs não tenham nova
oportunidade de presumir que sejam eles os responsáveis pela
manutenção da ordem e o respeito à lei. E outra coisa, Hall, devia
requerer o envio imediato de um cibernético. Não podemos garantir
que a nossa rápida ajuda vá durar uma eternidade. Um exame mais
minucioso não faria mal algum a esses robôs.
Hall deu um profundo suspiro.
— Tudo isso vai ser da alçada do meu substituto — disse ele. —
Mas, enquanto isso, qual vai ser o nosso comportamento? Porque
oficialmente, como seu oficial do SSG mencionou, o senhor não
estava aqui, não é mesmo?
— Não estava, não! Nem oficial, nem extra-oficialmente! O
senhor me conhece apenas dos noticiários cinematográficos e de
histórias que andam contando a meu respeito. Está claro?
Hall acenou, e o rosto magro do dinamitador embelezou-se com
um sorriso da mais profunda compreensão.
— Não vamos contar coisa alguma quando estivermos na Terra!
— disse Joyce.
— Ah, então é isso! Os senhores acham que depois desta aventura
mereciam umas feriazinhas?
— Certo! — confirmou Hall, olhando a equipe da Orion entrar na
cabine do elevador e se agrupar em volta do seu chefe. — E eu estava
pensando em férias pra todo mundo! — acrescentou.
— Isso eu posso compreender. Viver em Pallas beta não deve ser
muito divertido, não é?
— Pode não ser divertido, mas é melhor do que viver a bordo de
uma nave espacial — respondeu Hall, novamente orgulhoso do
desempenho dos seus homens e... máquinas. — Todos os vinte e um
robôs voltaram a funcionar, e Pallas está salvo. Sem a sua ajuda,
major McLane, eu não sei o que teria acontecido!
Cliff estava ouvindo pelos fones externos e fez um gesto
displicente com a mão. Colocou seu dedo sobre o botão ao lado da
inscrição: "Superfície".
— E mais uma vez muito obrigado por tudo! — gritou Joyce.
McLane cumprimentou-o com um sorriso e disse:
— Boa sorte!
Em seguida as folhas da porta se juntaram e o elevador arrancou.
Parou na superfície da lua e os homens abriram a comporta interna.
Entraram e fecharam-na novamente. Depois atravessaram a comporta
externa e, com as placas magnéticas nas solas das botas aderindo
firmemente à plataforma metálica, caminharam a passos pesados até a
entrada do elevador da nave. Cliff manipulou o segredo e a porta
circular do elevador abriu-se silenciosamente.
O elevador desapareceu no interior da nave e Hasso foi o primeiro
a se lançar para fora da câmara cilíndrica. Cliff arrancou o capacete do
encaixe e correu para a mesa de comando. Com umas poucas ordens,
precisas e rápidas, orientou os preparativos para a partida. Três
segundos depois a Orion estava pronta para decolar.
Cliff desprendeu os raios magnéticos do campo da lua e acelerou a
nave com valores que, a rigor, só deveriam ser utilizados por ocasião
de uma partida de emergência. Em menos de trezentos segundos a
Orion mergulhou no hiperespaço.
9

INCESSANTEMENTE O frio continuou a se alastrar. Provinha do


vácuo do universo, onde não havia mais qualquer molécula em
movimento. Incidiu sobre o casco reluzente da Lancet, foi fracamente
retido pelas camadas de isolamento e continuou a sua penetração.
Encontrou-se com o ar quente, aspirado da cabine cada vez mais fria e
recirculado entre os elementos de calefação. Não havia mais luz na
cabine. O planeta encobria a luz do sol como um disco negro. Era
noite nessa parte do planeta de Larsen. Helga estava dormindo.
Atan ligou o livro de bordo, mas os carretéis giravam com uma
velocidade lenta demais. Conectou então o aparelho radiofônico do
capacete ao circuito da rede de bordo e apertou um botão. Uma
lâmpada de controle incandesceu-se.
— Atan Shubashi a bordo da Lancet I para livro de bordo — disse
ele com voz fraca. — Último relatório. As reservas de energia da
Lancet I estão totalmente esgotadas. O frio avança pela nave e já está
atravessando os trajes. Não conseguimos mais nos afastar com força
própria, senão teríamos saído da sombra do planeta de Larsen.
Fez uma pausa para tomar fôlego e ordenar os pensamentos.
Depois prosseguiu:
— O tenente Legrelle está dormindo; provavelmente não vai mais
acordar. Nenhum contato radiofônico com a nave espacial Orion.
Após este comunicado vou fazer uma última tentativa. O comandante
McLane não responde. Desligo.
Desligou o livro de bordo e acionou a chave do transmissor.
— Alô... Orion VIII...
Seus dedos enrijecidos largaram o botão, que voltou à sua posição
primitiva, impelido pela pequena mola.
***
A tela de radar da Orion girava sem parar. A onze mil quilômetros
de distância do planeta de Larsen, a nave tinha retornado do
hiperespaço e se lançava, com velocidade um pouco inferior à da luz,
para dentro da sombra do planeta.
— Só quero ver os olhos esbugalhados deles — disse Mario de
Monti e ampliou a imagem de uma das sondas, que tinha aparecido na
sua tela — quando nós lhes contarmos o que nos aconteceu nestas
poucas horas!
— Se você contar — disse a imagem de Hasso da tela — vão
pensar que tudo não passa de uma história da carochinha.
— Eu também aposto que eles não vão nos acreditar — disse
McLane, à procura de um impulso da Lancet. Tamara estava sentada
no aparelho transmissor e falava em voz baixa e com os lábios bem
perto da malha metálica do microfone.
— Atenção! Estamos chamando a Lancet... aqui fala a Orion!
Mas a nave auxiliar não respondeu.
— Peguei eles — disse McLane, calmamente; ampliou o impulso
das telas de radar e transferiu a grande imagem para a tela circular à
sua frente. Lentamente Mario atravessou a cabine e postou-se ao lado
do comandante. Apontou para a tela.
— Não acenderam nenhuma luz! — constatou.
— A energia deles deve estar no fim — respondeu McLane. — O
Laurin já não existe mais.
Tamara virou-se e disse:
— Se o juízo que faço do tenente Legrelle está certo, ela vai achar
tudo isso uma mentira deslavada só porque eu tomei parte na
excursão!
Deu uma risada meio insegura. Mario cutucou Cliff e observou:
— As nossas damas são simplesmente encantadoras, uma com a
outra, não acha?
— Ainda bem que em condições normais temos apenas uma dama
na equipe! — resmungou Cliff, e dirigiu a Orion manualmente, em
linha reta, para a nave auxiliar. Tamara encolheu os ombros, girou a
poltrona e repetiu o seu chamado.
— Se elas continuarem a demonstrar a mesma capacidade como
agora, por mim podem brigar à vontade — disse Cliff e freou a nave.
— A propósito: eu nem sei como é que eu teria saído daquele
magazine sem a sua ajuda, Tamara!
Tamara enrubesceu e perguntou, baixinho e meio tímida:
— Comandante... posso considerar isso como um elogio?
McLane reduziu a velocidade ainda mais e posicionou a grande
nave por baixo da Lancet, que pairava muda e completamente às
escuras no espaço.
— Atan deve estar esperando — disse ele. — Mario, por favor vá
para a câmara de ejeção!
Mario saiu da cabine de comando e desceu. Vedou a câmara e
abriu a eclusa do poço de lançamento. Lentamente Cliff fez a nave
subir, metro após metro, até que seus instrumentos lhe indicaram que
os grampos magnéticos já tinham aderido ao casco da Lancet.
— Está presa, Cliff! — anunciou Mario.
— OK. Feche a eclusa.
A hidráulica freou a queda da nave auxiliar através do poço de
pouso. O diafragma da câmara de pressurização vedou a abertura e as
possantes bombas injetaram ar no recinto. Mario viu de relance o que
tinha acontecido a bordo da nave auxiliar.
— Cliff!
— Sim? — perguntou o comandante.
— Todos imediatamente para o poço de lançamento! Helga e Atan
parecem ter desmaiado; talvez até não estejam mais com vida!
— Pelo amor de Deus! — disse Cliff, num tom desesperado
acenando para Tamara. Com dois saltos alcançaram o elevador.
Tamara fechou a porta rapidamente atrás de si e acompanhou-o para
baixo. Atravessaram aos pulos os quatro metros de corredor, cheio de
tubulações e luminárias, e em três tempos estavam na pequena
antecâmara, de onde se alcançava facilmente a eclusa da Lancet.
Hasso já estava na escada, abrindo o fecho manual da comporta. Com
poucos passos, Mario, Hasso, e Cliff estavam no interior da Lancet.
— Rápido! Desatarraxem os capacetes! Apenas alguns segundos e
as mãos treinadas dos homens tinham arrancado os capacetes. As
partes metálicas, sensivelmente frias, não deviam estar a mais que dois
ou três graus acima do zero da escala centígrada. Os rostos de Helga e
Atan estavam gelados e lívidos. Pareciam mortos.
— Para a enfermaria! Depressa! Ducha de oxigênio e injeções
revitalizantes! — gritou Cliff, pegando Helga nos braços. Pulou da
escada, atravessou correndo uma passagem e abriu a porta da
enfermaria com um empurrão. Deitaram Helga num leito e colocaram
a máscara de oxigênio sobre o seu rosto. Cliff abriu o regulador até o
batente e esperou que Hasso e Mario chegassem com Atan. Tamara
encheu uma seringa de alta pressão com um remédio que ativava a
circulação e colocou o injetor primeiro na carótida de Helga, depois na
de Shubashi. Por duas vezes ouviu-se o chiado do ar comprimido.
Lentamente, a coloração voltou aos dois rostos. Cliff desligou o
oxigênio. Atan foi o primeiro a abrir os olhos e piscar aturdido.
— Eu nunca imaginei — arquejou — que eu fosse encontrar você,
Cliff, logo aqui, no céu dos astronautas!
Cliff estava rindo.
— Escapamos por muito pouco mesmo! — disse Atan. — Será
que ninguém aqui se lembra que o álcool realiza verdadeiros milagres
em casos como esse?
Tamara saiu da enfermaria, voltando após um minuto com copos e
uma caixinha verde-cinza. Encheu os copos com água até a metade;
depois esvaziou em cada copo uma das ampolas que tinha trazido. O
cheiro de uísque sintético invadiu a enfermaria. Helga acordou.
— Quer dizer que vocês ainda chegaram a tempo — constatou.
— Sim; depois nós contamos a vocês o que nos reteve.
Tamara apoiou o corpo da moça e estendeu-lhe o copo.
— Como é que está se sentindo? — perguntou, enquanto Helga
ingeria o uísque artificial.
— Mais ou menos — disse a telegrafista.
— Foi um bocado ruim, não foi? — perguntou Tamara.
Helga lembrou-se agora quão perto havia estado dos umbrais da
eternidade.
— Não senti mais nada — disse ela baixinho e olhou ao redor. —
Ruim mesmo foi a obstinação de Atan, que não queria desligar aquele
maldito Laurin.
Atan esboçou um sorriso e ergueu-se.
— Foi uma sorte — disse ele, em voz alta, pigarreando várias
vezes — que eu não tenha dado ouvidos a você. Senão a nave teria
sido descoberta pelos raios de busca. Ou melhor, a sua ausência!
McLane não tirava os olhos de Atan e Helga; pegou mais dois
copos com uísque sintético. Entregou um a Helga e outro a Shubashi.
— Vocês não vão querer continuar a brigar? — disse ele e sacudiu
a cabeça num gesto de recriminação. — Admito que a coisa estava
ficando um pouco apertada.
— Um pouco, uma ova, Cliff — disse Atan.
— É, mas que chegamos ainda a tempo, chegamos!
— De modo que, finalmente, temos tempo para fazer aquela
pequena excursão para Zeta Aurigae — disse Mario. — Estou louco
para tirar uns retratos de Zeta Aurigae!
— Não comece a inventar coisas originais, De Monti! — disse
Tamara. — Sabe muito bem que isso é impossível. Aliás... O que tem
uma estrela variável de tão interessante?
— Isto — disse Mario e estendeu os braços num gesto de
resignação — é uma coisa que a senhora jamais vai entender. É o
aspecto das estrelas; é o elixir de vida de todos os astronautas. Não é
mesmo, Atan?
— Certíssimo! — disse Atan. — E, além disso, ainda posso
assegurar ao meu mui prezado comandante que as fitas de todas as
dezesseis sondas estão a bordo da Lancei
— Concedido! — disse McLane. — Daqui a sessenta minutos nos
reunimos todos na cabine de comando. Tomaremos café e mais um
pouco de álcool dos nossos inesgotáveis estoques de bordo. De
acordo, tenente Jagellovsk?
Tamara acenou, hesitante.
— Considerando a situação fora do comum em que se encontra a
tripulação, julgo essa exceção como justificada e conciliável com as
minhas atribuições.
Atan recostou-se novamente.
Hasso, Tamara e Cliff, seguidos de Mario, deixaram a pequena
enfermaria e fecharam silenciosamente a escotilha de pressão atrás de
si. McLane virou-se aos seus homens.
— Hasso — disse ele. — Você vai me fazer o favor de transferir
todas as ligações da sua sacrossanta casa de máquinas para a cabine de
comando.
— Está bem — respondeu o engenheiro espacial e dirigiu-se à
"sacrossanta" casa de máquinas.
— Quanto a você, Tamara Jagellovsk... Tamara deu um sorriso
doce; todos viram que o sorriso era falso como quê.
— Pode me chamar apenas de Tamara, Cliff — disse ela com a
voz mais doce que o seu sorriso.
Mario teve um acesso de riso.
— Quanto à senhora, tenente de primeira classe Tamara Jagellovsk
— continuou McLane, impassível e com uma expressão formal, no
rosto — gostaria que providenciasse uma pequena refeição
acompanhada das respectivas bebidas, e um pouco de aconchego.
Nesse momento, a sua gentileza formal era tão inautêntica quanto
o sorriso e a voz de Tamara ainda há pouco.
— Mas com muito prazer! — disse ela. — Talheres para seis?
— Evidentemente! — respondeu Cliff — digamos, dentro de uma
hora.
— Vai estar tudo prontinho — disse ela e afastou-se na direção
oposta. Lá se encontravam os depósitos e a cozinha totalmente
automatizada, que também abastecia as cabines com as refeições
prontas.
— E eu vou fazer o quê? — perguntou Mario, rindo.
— Você vai me fazer o favor de apanhar aquelas fitas na Lancet.
Depois vai tratar de eliminar os trechos perigosos do livro de bordo;
sabe muito bem como fazer isso, não é? Finalmente vai ligar as
baterias da nave auxiliar na rede de bordo. Ninguém precisa saber
quanta energia um Laurin consome.
— E você vai fazer o quê? — perguntou Mario, agressivo. — Vai
programar um curso para Zeta' Aurigae?
— Eu — disse Cliff já a caminho da cabine de comando — vou
assumir a responsabilidade por tudo isso.
— Ótimo! — disse Mario e voltou ao poço de pouso da Lancet.
Há exatamente vinte e sete horas a Orion tinha decolado da Base
104. A aventura em Pallas beta tinha durado pouco menos de seis
horas. Cliff sentiu que ainda havia algo no ar. Anotou cuidadosamente
as diversas horas no seu pequeno bloco e olhou para o relógio de
ponto do livro de bordo. Constatou que esse registro eletrônico tinha
sido desligado exatamente no momento em que haviam partido em
direção a Pallas beta. O comunicado que, em seguida, registrou no
livro de bordo, era uma mentira deslavada, mas elevaria a tripulação
da nave acima de qualquer suspeita, caso alguém tivesse a brilhante
idéia de querer saber o que tinha acontecido com aquelas seis horas
"sumidas". Depois Cliff pegou uma ferramenta especial e afrouxou
alguns parafusos nos cantos de uma grande placa. O lacre do selo de
segurança apresentou-se ligeiramente lascado.
O álibi agora estava perfeito.
Cliff reajustou o relógio de ponto e ligou novamente o livro de
bordo. Depois relaxou e dormiu durante uma hora. Recuperou-se
esplendidamente com esse curto sono e acordou perfeitamente
restabelecido, quando Helga e Tamara apareceram na cabine de
comando.
— Do comandante para todos — disse McLane, depois de
inclinar-se para a frente e ter ligado o microfone do intercomunicador
de bordo. — Solicito a presença da tripulação e da nossa hóspede na
cabine de comando. A conclusão dos trabalhos bem sucedidos nas
sondas espaciais merece um pequeno repasto. Desligo.
— Meus senhores — disse Helga e apontou para a bandejinha com
os recessos para louça e talheres — o jantar vai ser servido.
Viraram as seis poltronas de maneira que pudessem olhar um para
os outros. A tripulação avançou na refeição, bebeu o café quente e o
álcool servido com parcimônia.
— Uma pergunta, Mario — disse Tamara e ergueu a xícara cônica.
— Afinal, o que há em Zeta Aurigae?
— Zeta Aurigae é um sistema curioso de estrelas variáveis —
declarou Mario em tom docente. — Imagine duas estrelas; uma, clara
e quente, do tipo B8, e a outra, uma estrela gigante vermelha, do tipo
especial K5. A estrela menor tem um diâmetro sete vezes maior que o
do sol terrano, enquanto o diâmetro da grande estrela vermelha é
superior a duzentos diâmetros solares. Caso isso possa interessar a
alguém... não quero ser importuno... mas o seu aparelho radiofônico
parece querer se desfazer, Helga!
Helga virou-se e olhou para as lampadazinhas acesas.
— Parece — disse ela — que no mínimo vinte estações diferentes
estão emitindo na nossa freqüência. Estão querendo alguma coisa de
nós. Vamos entrar em contato com eles.
— Após a refeição — prometeu Cliff. — O nosso aparelho não
está pronto para funcionar.
— Não está mesmo? — perguntou Tamara.
— É verdade! — asseverou Hasso — não está vendo?
A tripulação estourou na gargalhada; exatamente aquela, que mais
aborrecia Tamara. Ela sabia que o entendimento secreto entre esses
cinco era o resultado de uma longa convivência. Raras vezes entendia,
de que a equipe estava rindo. Como agora.
— E essas diferenças gigantescas significam o quê? — perguntou
Tamara.
— O sol vermelho circula em torno do sol branco e o oculta de
tempos em tempos. Durante trinta e sete dias há um eclipse solar total
e durante outras trinta e duas horas o eclipse é parcial...
Tamara ouvia as explicações de Mario com a máxima atenção.
10

CLIFF riu e olhou para o cronômetro de bordo.


— Bem, está na hora — disse ele, finalmente. — Pode ligar o
receptor.
A confusão de ruídos das numerosas vozes emitidas por
microfones normais e por fitas automáticas inundaram a cabine de
comando. Com muita dificuldade e cautela, Helga conseguiu filtrar
uma única voz. Aquela que gritava mais alto.
— Estou chamando a Orion VIII... eu estou chamando a Orion
VIII... Comandante McLane... responda por favor...
Com um movimento de cabeça, Cliff pediu a Helga para ligar o
microfone da sua mesa ao transmissor da nave.
— Pois não? Aqui é a Orion, comandante McLane falando.
A voz do aspirante feminino na ante-sala de Wamsler revestiu-se
de um tom da mais completa surpresa.
— Comandante, há dez horas estamos tentando entrar em contato
com o senhor! Já estávamos convictos que alguma coisa tinha lhe
acontecido!
— E alguma coisa realmente me aconteceu! — respondeu
McLane, em tom severo.
Durante um instante a moça silenciou, perplexa.
— O que foi que lhe aconteceu? — perguntou ela, depois.
— Fui removido para a Patrulha Espacial. E isso em caráter
punitivo!
Uma ligeira risada veio dos alto-falantes.
— Não estava me referindo a isso. Já não acreditávamos mais que
o senhor estivesse vivo; por que não se manifestou?
McLane deu uma perfeita imitação de um bocejo e respondeu:
— Enquanto dois homens da tripulação estavam tratando das
sondas, aproveitamos o ensejo para substituir alguns twistores da
nossa instalação radiofônica. Tinham sido acoplados de maneira
errada. Portanto, fizemos algo de útil no intervalo dessa missão
tremendamente excitante. O que tem de errado nisso?
Tamara levantou-se, agarrou a sua bandeja com uma das mãos e
fez um gesto negativo com a outra.
— Eu não estou aí! — disse ela. — Eu estou dormindo!
Cliff acenou e olhou para as pernas dela quando se dirigiu ao
elevador
— Já estávamos imaginando que a nave tivesse sido atacada. O
estado-maior e a Suprema Comissão Espacial estavam vivamente
preocupados com o senhor, comandante! — disse a aspirante, agitada.
Com indisfarçável ceticismo, McLane quis saber:
— Preocupados? A senhora disse preocupados?
A voz soava mais agitada do que o necessário.
— Ouviu direito, comandante, eu disse preocupados. Toda a frota
em manobras está a caminho do seu cubo espacial, a fim de procurar a
Orion.
— Essa não! — disse Mario de Monti, quase sufocando.
— E pra que essa exaltação toda? — perguntou Cliff, calmamente,
se bem que pressentia o que viria em seguida.
— Eu mal ouso dizer, McLane! — disse a aspirante, com
hesitação.
— Confie-me todos seus problemas! — respondeu McLane.
— O quartel-general emitiu uma ordem errada para o senhor.
— Ordem errada? — perguntou McLane e franziu a testa.
— É isso mesmo. A missão no cubo espacial Quatro/Oeste 034
devia ser realizada pela Arion, uma nave-escola de cadetes, e não pela
Orion.
Hasso, Mario, Atan e Cliff entreolharam-se em silêncio e depois
dirigiram seus olhares para Helga. Um silêncio glacial reinava na
cabine de comando.
— Aspirante! — disse McLane.
— Sim, comandante?
— Quem que é o responsável por esse negócio?
Havia um tom de lamentação naquela voz, que vinha de uma
distância de cento e oitenta parsec:
— Infelizmente, não estou autorizada a lhe prestar informações a
este respeito, quer oficial, quer extra-oficialmente.
— É uma pena! — disse McLane. — Mas, de qualquer maneira,
nós vamos descobrir quem cometeu essa asneira. Aborrecer uma
equipe qualificada com uma missão que pode ser realizada por
cadetes! Quais são as outras ordens para a Orion VIII?
— Retorno imediato para a Terra.
— Entendido. Obrigado, aspirante — finalizou McLane.
— Não há de quê.
McLane olhou para os rostos da sua tripulação.
— Nós agora vamos voar para casa com toda calma. Vocês todos
sabem o que aconteceu: enquanto a tripulação da Lancet tratava de
recolher os dados daquelas sondas espaciais, nós desmontávamos o
aparelho radiofônico; está claro?
***
A Terra controlava uma gigantesca região, cujas fronteiras eram
inteiramente arbitrárias. Consistia de dez cascas esféricas com uma
espessura de quarenta e cinco parsec cada uma. O conjunto era uma
esfera espacial com um diâmetro de novecentos parsec, na qual
pairavam as naves e os satélites, os planetas e as luas, as incontáveis
estações retransmissoras, e os corpos cúbicos dos robôs de busca.
A primeira missão de McLane no Serviço de Patrulha, para o qual
ele tinha sido removido em caráter punitivo, o levou para o cubo
espacial Dez/Norte 219. Era uma estação retransmissora na região
limítrofe do domínio terrano, longe, incrivelmente longe, da Terra. A
segunda missão foi realizada nas proximidades da Terra, e a terceira
tinha sido terminada nesse instante no cubo Quatro/Oeste 034.
As máquinas estavam sendo aceleradas. A Orion moveu-se
lentamente, emergindo das sombras do planeta de Larsen. Descreveu
uma enorme curva e depois seguiu uma trajetória retilínea, que
apontava para o sol terrano. A velocidade aumentava continuamente e
os ruídos se tornavam cada vez mais altos e intensos.
Durante duas horas, a Orion acelerou com valores médios e depois
a nave desapareceu na escuridão do hiperespaço. Cliff ligou o piloto
automático. A tripulação da Orion dirigiu-se às suas cabines e dentro
de minutos todos estavam dormindo. As horas se passaram... muitas
horas.
A nave retornou ao espaço normal, a cinco minutos-luz da Terra, e
apareceu nas telas da vigilância espacial.
Os avisos sonoros reverberaram através dela.
As instalações de supervisão entraram em ação. A Estação
Avançada IV entrou em contato e exigiu o código de identificação.
Depois instruiu McLane a esperar durante três minutos. Em seguida
autorizou o pouso na Base 104. A nave aproximou-se da Terra, voou
com velocidade cada vez menor através da atmosfera e parou acima da
costa norte do continente australiano. Quando o gigantesco remoinho
apareceu, a Orion desceu verticalmente e pousou no gigantesco
cilindro de aço abaixo do mar, que martelava incessantemente contra
os anteparos energéticos.
Cliff desligou todos os instrumentos, reduziu o suprimento de
energia e fez o gigantesco disco pousar sobre os raios
antigravitacionais. A distância que o elevador telescópico teria que
vencer com as seis pessoas a bordo era de uns dez metros. Além da
leve bagagem de bordo, Atan e Helga ainda carregaram os dezesseis
cassetes das fitas magnéticas.
— Muito bem, amigos — disse McLane — nos encontramos
amanhã no cassino. Como de hábito, a nossa mesa já está reservada.
***
Cliff estava esticado na cama, absorto em pensamentos. Pensava
em sua nave, no incidente em Pallas beta e em tudo aquilo que tinha
ocorrido nestes últimos dois dias. Nesta época do ano, fazia bastante
calor e um dos robôs de Cliff tinha removido o domo no teto do
dormitório. Exatamente acima dele, um recorte circular mostrava um
trecho do céu com as estrelas brilhantes.
O bangalô de Cliff consistia de algumas edificações retangulares
rasas, com elementos cupulares semi-esféricos. Tinha sido construído
na encosta rochosa da margem do golfo e se apoiava parcialmente em
estacas metálicas. Cliff não era pobre, pois o soldo na frota era
excelente. Ele olhava através daquela abertura, agora sem o domo
protetor, que era uma reprodução plástica da obra de Warhols = Hydra
3000.
Nesta terceira missão, Tamara já tinha se mostrado mais
compreensiva.
Mas McLane sabia que esta transigência tinha que ser avaliada.
Era devida a um sentido seguro para necessidades — em outras
circunstâncias não deveria esperar um tratamento tão tolerante por
parte de Tamara. Mesmo assim... essa moça estava seguindo uma
carreira errada; se ela tivesse tido uma formação diferente e pudesse
viajar durante um ano com McLane, daria uma excelente
subcomandante.
Infelizmente!
Mas por que estava pensando tanto em Tamara Jagellovsk? Afinal
ela não passava de um mal desnecessário. Uma mera imposição. Uma
carga adicional. Um verdadeiro freio para as suas idéias!
Quando se tornou necessário dominai os robôs, Tamara tinha
reagido com uma rapidez fantástica. E atirava excelente' mente. Cliff
constatou toda uma série de pontos positivos nestes minutos calmos.
Descobriu que se aborrecia porque Tamara não estava propensa a
aceitar a sua superioridade masculina sem provas que a justificassem.
As suas conquistas até agora tinham se intimidado com a sua
capacidade — e a isso ele estava acostumado. Tamara porém era uma
criatura diferente.
Isto mudou o rumo dos seus pensamentos. Desconfiava vagamente
que o responsável pela troca do nome da sua nave era Spring-Brauner.
Na verdade, não se tinha entediado durante esta missão; mas dois
seres humanos, dois membros da sua tripulação, tinham ficado
expostos a perigos mortais por causa dessa troca. Se não o tivessem
enviado com a Orion na direção Quatro/Oeste 034, Atan e Helga não
precisariam ter ficado tão preocupados. Imaginou como enfrentaria
amanhã Spring-Brauner e, pensando nisso, adormeceu.
11

A ENORME extensão abaixo do Golfo de Carpentaria evidenciava


a escala e a multiplicidade das atividades realizadas na Base 104.
Além da sua importância como estaleiro de naves espaciais, e como
ponto de apoio, a instalação contava com centenas de escritórios das
diversas repartições, uma parte das moradias dos que aqui exerciam
sua atividade, e uma rede labiríntica de cavernas, corredores, galerias
e rampas. Na manhã seguinte, McLane tinha descido à base e seguiu o
seu caminho a pé, pois estava bem descansado e tinha tempo.
Além disso, conhecia suficientemente este labirinto de pedra.
Estava à procura do culpado por esta troca quase trágica das missões.
Mas primeiro... McLane pulou sobre um dos passeios rolantes e três
minutos depois tinha chegado a sede das Formações de
Reconhecimento Espacial da Terra. Havia uma profusão de arranjos
de flores e árvores minúsculas, impedidos no seu crescimento, que
exalavam um aroma inebriante. McLane perambulou através da larga
praça, cumprimentou alguns colegas e depois dirigiu-se para um dos
corredores, que daqui se irradiavam para todos os lados. Ali reinava a
atividade pulsante da repartição que exercia a sua autoridade sobre
grande parte dessas instalações.
Minutos depois, estava diante da porta da ante-sala de Wamsler.
Acionou o sinal.
— Comandante McLane!
Cliff deu um sorriso para a imagem e perguntou calmamente:
— Posso entrar?
A porta abriu-se. McLane entrou numa sala quadrada, de teto alto,
atravessado por algumas passarelas de comunicações internas. Ao lado
de uma parede, repleta de telas de imagem, estavam vários conjuntos
de escrivaninhas brancas e poltronas modernas. Nos fundos da sala,
luminescia e cintilava a barreira eletrônica, que protegia Wamsler.
— Deseja alguma coisa em especial, comandante? — perguntou a
aspirante, depois que Cliff se sentou. Cliff deu um aceno vago com a
cabeça.
— Um nome — afirmou. — Como é que trocaram os nomes das
naves?
— Isso nós não sabemos, comandante — respondeu a aspirante. —
Foi tão ruim assim?
— Não se trata de saber se foi ruim, mas sim que eu fui enviado
pra lá à toa. Acresça a isso que realmente foi humilhante para toda
tripulação ter que realizar essa tarefa. Qualquer robô teria feito isso.
A aspirante teve a atenção desviada por um chamado do videofone
e transferiu a ligação. Imediatamente voltou-se para McLane.
— Isso não duvido — disse — mas eu não posso lhe dizer quem
trocou as ordens de operação; não estou autorizada a dizê-lo, entende?
Cliff reparou nas mãos cuidadosamente manicuradas e no anel de
sinalização, largo e retangular, que trazia o código do segredo do
cofre. A jovem aspirante parecia gozar de prerrogativas especiais e de
uma confiança elevada na ante-sala do marechal Wamsler.
— Quando notaram que a nave errada tinha sido enviada para
realizar essa missão?
A aspirante refletiu durante alguns segundos, depois respondeu:
— Vinte e uma horas após a sua decolagem.
Cliff recostou-se confortavelmente, observou os dedos ágeis da
moça, e teceu uma série de considerações mentais. Depois dirigiu-se
ao quadro que mostrava a distribuição das missões e os detalhes das
diversas tarefas. Os pequenos algarismos e letras brancas tremiam e
cintilavam sobre o fundo negro das telas.
— Ah! — disse McLane, plenamente satisfeito.
— Descobriu alguma coisa? — perguntou a aspirante, curiosa.
— Descobri mesmo! — disse McLane com voz dura. — Descobri
os nomes dos oficiais que estavam de plantão naquela hora. Fiz um
cálculo retroativo.
— Posso lhe pedir, major, para enfatizar bem que não conseguiu
saber de mim? Posso contar com isso?
Cliff riu para a moça e disse:
— É claro que pode contar com isso; longe de mim espalhar
notícias falsas! Apoio está aí? — perguntou McLane. — Quero dizer,
no momento ele se encontra na sua sala?
McLane reforçou o sorriso, mas a moça apenas sacudiu a cabeça.
Apoio era o apelido do belo Spring-Brauner e ele tinha acessos
cada vez que o ouvia. Sem dúvida, Spring-Brauner era um oficial
capaz e inteligente, mas distinguia-se por uma qualidade negativa: o
seu senso de humor era igual ao de um videofone.
— Não está, não. Ele está em conferência com seu chefe.
— Quer dizer que Wamsler também já chegou?
— Chegou sim — respondeu a moça. — Mas ele também não
atende ninguém, nem mesmo o senhor, major McLane.
Cliff levantou-se e cumprimentou a moça com polidez.
— Nesse caso vou andando para voltar numa oportunidade mais
propícia. Vou tentar obter informações em outro lugar. Quer apostar
que antes do meio-dia eu conheço o nome do tal sujeito?
A aspirante levantou-se para acompanhá-lo até a porta.
— Longe de mim querer apostar com o senhor! — disse a moça.
— Já que é tão conhecido por só apostar quando tem certeza que vai
ganhar!
— É isso mesmo! — disse Cliff e saiu da ante-sala.
***
A divisão de comunicações estava instalada numa sala que se
assemelhava a um cubo gigantesco. Todas as paredes, o teto — cheio
de instrumentos e refletores com centenas de lentes pequenas — e o
revestimento do piso eram negros como piche. No meio da sala
pairava uma daquelas projeções tridimensionais do domínio terrano,
dividido nas dez zonas de distância, seccionadas, por sua vez, segundo
as direções cardeais.
Milhares de estrelas, planetas, luas, corpos errantes, estações
retransmissoras e cubos de busca estavam caracterizados por lâmpadas
de cores diversas. No meio delas havia alguns pontos cor de laranja.
Eram as naves espaciais. Aqui podia se saber que nave tinha estado
naquele cubo àquela hora. E essas informações podiam ser
complementadas com o objetivo e a duração da missão, com o nome
do comandante, com as horas da decolagem e de pouso, e com mais
uma série de detalhes de interesse no caso em questão.
— Sim, major? — perguntou um cadete, ao lado da entrada.
— Preciso de alguns dados — disse McLane.
— Dispõe de tempo, major?
— Claro que sim! A senha é Arion.
— Arion, a nave-escola?
— Certo! — respondeu McLane. — Onde se encontrava essa nave
setenta e cinco horas atrás?
Em uma das mesas, o cadete apertou as teclas correspondentes às
letras A-R-I-O-N e esperou durante alguns segundos. O símbolo para
"linha desocupada" apareceu e o cadete acrescentou a data. Uma série
de linhas alfanuméricas apareceu sobre a tela; o computador havia
vasculhado a memória e agora estava projetando as informações sobre
a tela:
Arion, nave-escola. Na referida data a nave estava em repouso na
Base 104. Não houve ordens de operação. Tripulação recebeu licença
especial. No momento Arion está na Base 104, hangar três, vaga
trinta. Requerer mais dados com ordem adicional.
— Isso basta? — perguntou o cadete. Cliff sacudiu a cabeça.
— Não, não basta, não. Ainda preciso de mais algumas coisas. Vai
ser um pouco difícil; não acha melhor falar com o seu chefe?
McLane lembrava-se nitidamente como, há alguns anos, ficava
satisfeito quando capitães, comandantes ou pilotos de cargueiros
dirigiam-lhe a palavra — sentia-se orgulhoso de poder fornecer-lhes
as informações pedidas.
— Não é necessário, major! Posso arranjar-lhe todos os dados.
Tudo a respeito da Orion VIII, não é?
— Exatamente! — disse McLane. — Eu quero saber o nome
daquele que assinou a ordem de partida, a letra do escritório do qual
esta ordem veio e, de uma maneira geral, todo o caminho burocrático
que essa ordem de partida percorreu. Pode me arranjar isso?
— Não tem problema, major! Pode voltar dentro de vinte minutos?
— Com muito prazer! — disse Cliff. — Vou aproveitar o intervalo
para tomar café.
— Vou-lhe dar tudo por escrito, comandante — asseverou o
cadete, solícito.
Cliff saiu da sala e montou num dos passeios rolantes. Desceu de
um pulo quando viu Helga Legrelle sentada num dos pequenos cafés.
Comandada pelas células fotoelétricas, a porta recuou diante de Cliff e
ele sentou-se ao lado de Helga.
— Bom dia, miss Legrelle — disse ele e levantou um dedo quando
o garçom olhou indagativamente para ele; depois apontou para a
xícara de Helga. — Estou gostando de ver, garota — disse McLane.
— Você se recuperou rapidamente daquele susto. Eu estou na pista de
uma comunicação falsa.
— Ah! — disse Helga. — Trata-se da Arion, não é?
— Dela mesma! — respondeu Cliff. — No momento estou
esperando um cadete acabar de coletar todos os dados dessa misteriosa
ordem de partida. É sempre de grande proveito quando a gente
enfrenta os superiores com bons argumentos, não acha?
— Está querendo fazer chantagem com alguém? — perguntou
Helga, tão baixinho que nenhum dos presentes conseguiu ouvi-la.
Cliff mexeu na sua xícara, recolocou a colherinha no pires, e disse:
— Nada disso! Só quero ver a cara de Spring-Brauner se petrificar
quando ele começar a falar bonitinho e eu julgar necessário responder.
— Já é alguma coisa — respondeu Helga. — Eu vim aqui só para
comprar algumas miudezas. Nos encontramos hoje de noite?
— Hoje de noite, no cassino.
Helga despediu-se de Cliff, que ainda esperou um pouco e depois
voltou para a central de comunicações. Poucos minutos depois saiu;
na fina folha de plástico que levava no bolso estava a prova que
procurava.
***
Era meio-dia; os raios inclementes do sol chocavam-se contra o
anteparo energético cinzento que pairava por cima daquele bloco
retangular de concreto. O arranha-céu, uma das numerosas
construções na praia de Groote Eylandt, erguia-se como uma rocha
calcária acima do verde-escuro da floresta. Era uma caixa com cento e
cinqüenta andares e quatrocentos e dez metros de altura. E em cada
andar abrigavam-se quarenta e oito residências de vários tamanhos. O
apartamento de Tamara Jagellovsk ficava no centésimo décimo
primeiro andar. E no momento se sentia muito bem, refestelada na
espreguiçadeira futurística — lendo, ouvindo música, e se
recuperando.
O pequeno balcão dava para o lado sul e lá fazia muito calor.
Tamara trajava apenas um biquíni, banhava-se ao sol e acompanhava
os compassos do último sucesso de Thomas Peter "A Segunda Lua de
Marte".
Após algum tempo, sentiu calor demais; saiu do balcão e apanhou
um drinque na geladeira. Estava descalça no meio da sala quando o
sinal do videofone zumbiu.
Refletiu durante dois segundos. Seria o coronel Villa? Se fosse,
não teria importância; ele poderia reparar que ela era uma mulher.
Acionou a tecla de resposta e viu a imagem se estabilizar; quase
deixou cair o copo de estupefação.
— Tenho o prazer de falar com Tamara Jagellovsk? — perguntou
uma voz bem conhecida.
O esboço de um sorriso estava nos lábios de Cliff McLane, que
olhava para Tamara da tela.
— Provavelmente é ela — disse Tamara e ficou séria. — E a que
devo a honra do seu chamado, comandante?
— Deixe o "comandante" pra lá; no momento estou em missão
particular. Estou me chateando.
Tamara tomou um longo gole e nem sentiu o sabor que o álcool
dava ao suco de frutas.
— Está se chateando, Cliff? — perguntou, estendendo as palavras.
— Sim e eu pensei...
Os conhecimentos psicológicos de Tamara não vinham apenas do
livro de Hammersmith, mas também das experiências da vida diária. E
como ela não tinha mais dezessete anos, reconheceu imediatamente a
transparência do chamado de McLane. Resolveu manter-se firme,
mesmo correndo o perigo de ser taxada de estraga-prazeres.
— Então o senhor pensou que uma conversa com miss Jagellovsk
seria o melhor remédio para o seu tédio, não é, camarada major?
— Bem — disse ele. — Não é bem assim. Inicialmente, eu
pretendia lhe fazer uma proposta.
— Talvez uma excursão para Zeta Aurigae? — perguntou Tamara,
com malícia.
— Talvez não; poderia ter escolhido entre natação, vela, remo ou
esqui aquático, só para citar algumas coisas do meu catálogo.
— Muito embaraçoso! — disse Tamara e exibiu novamente aquele
seu sorriso falso.
— O que é tão embaraçoso?
— No momento eu estava doida para participar de um jogo de
pólo. O senhor não teria por acaso alguns cavalos sobrando?
Cliff deu uma risadinha oca.
— Cavalos? — perguntou. — Entendi direito: a senhora disse
cavalos?
— Foram mais ou menos esses os termos que eu empreguei. É que
eu não sei nadar — disse Tamara, com mais malícia ainda. — E o
senhor parece ser um timoneiro bastante razoável, mas não posso
imaginar que seja um bom professor de natação.
Cliff estava apreciando o apartamento e sua instalação.
— Bonitinho, esse seu lugar — disse ele. — E o que é que eu
estou descobrindo lá naquele leito? Não é um livro que faz parte da
leitura obrigatória de todos os cadetes espaciais? Posso me recordar de
tê-lo lido uns cem anos atrás.
— Está exagerando, comandante — disse Tamara. — Também
não parece ser tão velho assim.
— Obrigado! — rosnou McLane, sombriamente.
— Uma pergunta objetiva — disse Tamara, de repente muito séria.
— O que é que o senhor estava querendo na realidade"; Eu não posso
imaginar que o senhor faça questão da minha companhia fora do
serviço.
Atrás de Cliff McLane, Tamara vislumbrou uma parte da
decoração de bom gosto de um dos pequenos quartos do grande
bangalô na outra extremidade de Groote Eylandt. Cliff engoliu alguma
coisa que ia dizer e depois disse, lentamente e acentuando bem as
palavras, como se tivesse que pensar várias vezes antes de falar:
— Eu estava pensando que, nas nossas próximas missões, a
senhora talvez pudesse ser um pouco menos formal, um pouco mais
humana que de hábito. Bastaria que houvesse uma aproximação maior
com a vida dos astronautas.
— Obviamente, major McLane — disse Tamara, em tom severo
— o senhor desconhece a verdadeira situação.
— Como assim? — perguntou Cliff, espantado.
— Eu fui enviada pra cá pelo Serviço de Segurança Galático para
vigiar cinco pessoas, cujo líder, o senhor, costuma enfeitar as suas
obrigações de serviço com um bocado de fantasia e imaginação, e com
isso põe em perigo a nave, a tripulação, a disciplina, a ordem, os
prazos, e o material. Não tenho outra coisa a fazer e não há outra coisa
que eu vá fazer. Se acha que pode conseguir com seu charme já
bastante esfarrapado que eu feche tudo quanto é olho, está se
enganando redondamente!
Cliff tinha ouvido a preleção em silêncio. Deu um profundo
suspiro e olhou para Tamara com uma seriedade incomum no seu
rosto.
— É uma pena — disse ele, com tristeza. — Realmente, trajando
um biquíni, não dá a impressão de ser um robô do tipo Supervisor.
Durante um momento eu tive a impressão que a senhora fosse um ser
humano. Mas me enganei.
— Não contribuí em nada para fomentar esse engano — disse
Tamara.
— Realmente nada fez. Vejo-a hoje de noite no cassino?
— Claro que sim!
— Neste caso vai me permitir oferecer-lhe um copo de uísque com
as minhas escusas pela importunação. Bom dia.
A tela apagou-se. Cliff tinha interrompido a ligação. Tamara
permaneceu em pé, olhando interessada para a tela cinza do
videofone; depois esvaziou o copo de um só gole e começou a rir
desbragadamente. À sua risada misturaram-se os últimos compassos
da música.
12

O MARECHAL Wamsler, que nutria sentimentos bastante


contraditórios em relação a McLane, podia tornar-se extremamente
sarcástico; bastava esforçar-se um pouco. Por um lado, condenava a
indisciplina de McLane. Por outro, tinha que admitir, mesmo com
relutância, que com a sua falta de disciplina McLane salvava situações
que outros comandantes de naves teriam considerado perdidas; tinham
escrúpulos demais. Oficialmente, porém, Wamsler só podia ter uma
única opinião e esta ele expôs nua e cruamente a McLane.
— Qual é o motivo dessa comemoração, Cliff McLane? —
perguntou e recostou o pesado corpo contra o bar do cassino Starlight.
O vasto terraço jazia sob a luz azulada do entardecer. O ruído da
ressaca misturava-se à música que emanava dos alto-falantes,
formando uma curiosa cortina de sons.
— Não temos qualquer razão especial, marechal — respondeu
Cliff, também recostado no bar e olhando para a pista de danças.
— Porque se o senhor tivesse uma razão especial, estaria
imensamente interessado em conhecê-la — disse Wamsler e soltou
uma risada trovejante.
— Somos apenas astronautas jovens, quase garotos, alegres por
estarmos vivos.
O marechal Wamsler arreganhou os dentes e balançou seu corpo.
— Eu ouvi falar que o senhor exerceu uma considerável atividade
nas minhas ante-salas — observou. — E pelo que me consta, nunca se
distinguiu por trabalhos excessivos...
Cliff encolheu os ombros sob o tecido sedoso do custoso uniforme
de saída. Sua plaqueta de identificação, aquela fita comprida e estreita,
era de ouro, incrustada com minúsculas pedras preciosas — uma
extravagância que se permitia, mesmo sabendo que muitos o
hostilizavam por causa dela.
— É que eu estava interessado em alguma coisa — disse num tom
corriqueiro. — Processamentos internos na sua esfera de mando,
marechal.
Os enormes alto-falantes lançavam cascatas de sons sobre o
terraço. Cliff viu uma porção de rostos conhecidos e os respectivos
corpos: Helga, Tamara e as moças que normalmente povoavam, em
turnos alternados, as ante-salas de Wamsler.
— É mesmo?
— É sim. Saúde!
— Saúde, McLane... e meus parabéns pelo seu feliz achado!
— Então já sabe de tudo, marechal? — perguntou Cliff e olhou
para Tamara que estava dançando com Mario bem perto deles. Às
vezes os modistas inventam umas maluquices, achou McLane. Assim,
por exemplo, quando eles criavam vestidos abotoados na frente até o
pescoço, em compensação desnudavam ombros e costas.
— Eu quase sempre sei de tudo, McLane! — disse Wamsler.
— Difícil conceber isso — observou Cliff, secamente — mas
obviamente deve corresponder a verdade.
Wamsler não respondeu.
Observava a mesa que a equipe da Orion havia mandado reservar.
Mario de Monti, também trajando o seu melhor uniforme, estava
recostado na poltrona e balançava um copo meio cheio na mão. Sua
disposição parecia a melhor possível. Ouvia-se a sua retumbante
risada até aqui, apesar da música.
Tamara estava agora sentada ao lado dele e bebia um suco de
frutas com poucas gotas de álcool; obviamente estava com receio de
se comportar mal, ou de não mais poder exercer sua função de
vigilante, se bebesse demais.
— Bem, eu não sei — disse Wamsler de repente. — Para uma
conversa de rotina, o senhor está exagerando um bocado. E esses
uniformes caros, essas bebidas não menos caras, essa animação... eu
estou tendo uma certa suspeita, McLane!
Cliff manteve-se impassível; a expressão do seu rosto não traiu um
único dos seus pensamentos.
— Não posso lhe impedir de ter suspeitas, marechal — disse. —
Pode provar alguma coisa?
— E o que eu deveria poder provar? — perguntou Wamsler
desconfiado.
Cliff deu uma risada curta e cordial.
— Provar sua própria suspeita, marechal! — disse ele, secamente.
— Não seja impertinente, McLane! — respondeu Wamsler. —
Não devia dar importância excessiva ao fato de saber quem é que
trocou uma ordem!
— Marechal — disse McLane, pronunciando as palavras
claramente. — Não dou muita importância a esta simples troca de
ordens. O importante para mim é que existe alguém que não me tolera
e apregoa isso em qualquer oportunidade, seja apropriada ou não, e
que este alguém comete erros. Erros pelos quais eu fui removido. E
este homem por acaso foi removido em caráter punitivo, marechal
Wamsler?
— Não — disse Wamsler — não foi. Encomendou mais um copo
de uísque e continuou:
— Não, ainda permanece no seu lugar costumeiro; e é lá que ele
vai ficar.
— E com que justificativa, posso saber? Os dedos de Wamsler
cutucaram o peito de McLane.
— Quer saber por que não foi punido? Pois vou lhe dizer. Porque
eu não puno um homem com uma remoção porque ele falhou uma
vez. E não fui eu que mandei lhe remover; o senhor sabe disso!
— Correto. Mas não vai poder me condenar se saio atirando ao ser
atingido por uma observação idiota.
Wamsler fez um gesto desdenhoso com a mão.
— Por mim, pode duelar até com laranjas — disse ele — ou então
com ovos podres.
Juntos, caminharam lentamente em direção à mesa. Mario os
reparou e disse algo baixinho a Helga e Hasso, e os rostos viraram-se
atentamente para os dois homens.
— Tenente Jagellovsk! — disse Wamsler, formalmente.
— Sim, marechal? — perguntou Tamara.
— Não tem nada a comunicar? — perguntou Wamsler com voz
calma.
— Nenhum acontecimento especial — disse Tamara com
brevidade militar. — Realmente não tenho nada a comunicar.
Hasso e Helga trocaram um rápido olhar e voltaram a prestar
atenção na conversa.
— Não tem nada a comunicar que eu precisasse saber? Ou algo
que o coronel Villa consideraria da mais alta importância? —
Wamsler era obstinado e continuou a insistir no ponto.
Seguiu-se uma curta pausa, cheia de tensão.
Por um momento, Tamara mostrou-se insegura e essa insegurança
não escapou a Wamsler. Olhou ao redor de si; de alguma maneira
havia um entendimento nessa mesa e estavam escondendo algo dele.
Wamsler sorriu novamente.
— Eu não me lembro de nada que o senhor precisaria saber,
marechal Wamsler! — disse Tamara. — Nada mesmo!
Wamsler disse, com ironia:
— Excelente!
— Excelente, por quê? — perguntou Hasso com sua voz grave.
Seus olhos azuis contemplavam Wamsler com uma expressão da mais
completa inocência.
— Porque com uma resposta dessas, tenente — respondeu o
marechal — ninguém vai poder lhe incriminar de coisa alguma.
Lembre-se dessa formulação para o futuro. Provavelmente vai ter que
usá-la muitas vezes se continuar a voar com Cliff McLane! A
propósito: que tal a vida a bordo da Orion? Um sonho de um emprego,
não é?
A tripulação, inclusive McLane, estourou na gargalhada. Tamara
respondeu, com calma e comedimento exemplares:
— Vida mansa, marechal. O major McLane é um cavalheiro como
poucos; um autêntico "gentleman", um apoio moral e técnico da
Patrulha Espacial. É um verdadeiro prazer voar com ele. E quanto à
sua equipe — seu olhar deu a volta pela roda — não fica nada a dever.
Helga é simplesmente encantadora e com respeito aos três outros
senhores... me faltam as palavras!
— Isto — murmurou Cliff, sombriamente, e só Tamara conseguiu
ouvi-lo. — Isto a senhora vai me pagar; é só esperar!
— A senhora tem uma verbosidade espantosa! — constatou
Wamsler. Era óbvio que estava se divertindo. — Não embaralha as
palavras uma vez sequer. Realmente o colega Villa capricha na
formação dos seus auxiliares.
— Não é mesmo? — perguntou Tamara e acenou enfaticamente
com a cabeça.
Cliff McLane mudou de assunto.
— A propósito — disse ele, estendendo as palavras — preciso lhes
comunicar que Spring-Brauner, mais conhecido pela alcunha de
Apoio, é o responsável por aquela falsa ordem de partida. Que me
dizem disso?
Atan Shubashi pensou mais uma vez naquele momento em que a
energia da Lancet tinha se esgotado e um medo mortal havia se
apossado dele e de Helga. A estarrecedora revelação de McLane
arrancou-o das suas divagações e mal conseguiu sufocar um palavrão.
— A rigor — disse Hasso e riu para o seu chefe — não vejo por
que não convidamos Apoio. Tenho certeza que ficaria encantado com
nossa bem-humorada companhia!
— Uma excelente idéia! — constatou McLane — mas eu não lhe
pago nem um suco de fruta!
— Isso me dá uma outra idéia, comandante — disse Tamara, em
voz tão alta que todos tinham que ouvi-la. — O senhor está me
devendo no mínimo um Steinhäger duplo!
— Pelas areias de Marte! — gritou Atan Shubashi. — Isto vai
entrar na história dos astronautas! Imaginem só! Cliff convida Tamara
para um copo de álcool! É fabuloso!
Cliff, Wamsler e Tamara estavam ao lado da mesa. A aspirante da
ante-sala aproximou-se lentamente e parou junto a seu chefe.
— Não tenho nada contra o Steinhäger — disse Wamsler — mas
seria preferível que fossem descansar. Infelizmente Spring-Brauner
hoje está de serviço e não pode atender ao seu gentil convite.
— Que pena! — respondeu um coro de quatro vozes.
— Descansar, por quê? — perguntou Hasso.
— Aproveitem bem os dias que antecedem a próxima tarefa para
fortalecer os nervos. Ainda não conhece a sua nova missão,
comandante McLane? — perguntou Wamsler, com cara de santo.
— Não; ainda não conheço. Será que vai querer acabar com a
nossa alegria e estragar essa noitada tão agradável, marechal?
— Sempre adivinha as coisas, não é, Cliff? — disse Wamsler e
chamou a aspirante com um gesto do indicador.
— Pode dizer a ele! — ordenou Wamsler.
— Aqui mesmo e agora, sem piedade! — Wamsler arreganhou os
dentes num riso malicioso, depois pigarreou.
— Daqui a três dias, a Orion VIII vai partir com destino a Pallas
beta com um carregamento de 80 robôs.
— Não! — gritou Tamara.
— Robôs Worker! — gemeu Cliff e procurou o encosto da cadeira
de Wamsler. — Só faltava essa!
— Pallas beta? Qual é a graça? — gritou Atan, agitado.
Hasso ficou calado e somente dois leves sulcos nos cantos da boca
evidenciaram que ele estava se divertindo à grande com a visualização
desta tarefa. Levar robôs logo para onde...
— O que vem a ser Pallas beta e para que os robôs? — perguntou
Cliff à aspirante, com uma calma ominosa.
— É uma mina de germanicum. Eles estão com robôs defeituosos
lá, e essas máquinas devem ser substituídas. Além disso, precisamos
de mais minério. A pequena lua Pallas beta, lua do planeta
Greenwood, deve ser escavada com mais rapidez. Isso é tudo.
— Entendo — respondeu McLane e silenciou, amargurado.
— Major? — perguntou Tamara e tocou o braço de Cliff.
Virou a sua cara amarrada para ela e perguntou:
— Sim?
— Nós podemos protestar contra isso! — disse Tamara agitada. —
E com veemência!
— Ah, é? Podem? Com que justificativa a senhora pretende
protestar, tenente Jagellovsk? — perguntou Wamsler, nem um pouco
abalado ou aborrecido.
— Cruzadores da Patrulha Espacial não podem ser empregados
para transportes dessa natureza! — respondeu Tamara com raiva. — E
através da minha repartição posso requerer a suspensão dessa ordem!
Espantados, os membros da tripulação seguiram a resistência
daquela mulher, que, a rigor, só tinha a função de vigiá-los. Seria isso
um sinal de uma mudança de mentalidade?
— Bravo, Tamara! — gritou Atan, em I tom triunfante. — É
verdadeiramente fantástico! Nem eu teria me lembrado disso!
Calmamente Wamsler observou:
— É claro que pode protestar, tenente! A observação de Wamsler
tinha sido calma demais para ser verdadeira.
— Mas... — queria saber Tamara. Wamsler virou-se, sorrindo,
primeiro para Cliff depois para tamara.
Olhou nos olhos de ambos e seu sorriso tornou-se mais malicioso.
Da mesa ouviu-se a respiração agitada de Atan.
— Só que no seu lugar eu não o faria.
Tamara arregalou as sobrancelhas e fuzilou Wamsler com os
olhos.
— E por que não?
— Alguma vez já ouviu falar num conceito designado por Laurin?
Tamara sacudiu a cabeça, num perfeito gesto de total ignorância
do assunto.
— Não ouvi, não. E o que é isso? Uma figura de algum conto de
fadas?
Wamsler riu novamente. Todos sentiam que ele estava se
divertindo com essa conversa, conduzida com as armas da ironia e da
dialética.
— Sou de opinião que boas relações com os superiores deviam ser
aproveitadas, marechal Wamsler — disse Hasso. — Principalmente,
se forem tão boas como as que a nossa jovem amiga aqui possui.
O marechal encarou o engenheiro de bordo da Orion com uma
expressão de puro espanto.
— Laurin é uma invenção curiosa — disse Wamsler depois, como
se estivesse lendo uma estatística. — Com o auxílio de certos
projetores, que se encontram a bordo de qualquer nave espacial, pode-
se criar certas configurações no espaço livre, que se apresentam ou se
comportam perante raios de busca como certas naves.
— Isso é verdade? — perguntou Mario de Monti em voz alta. —
Preciso me lembrar disso! Com que tipo de projetor pode-se
estabilizar esse negócio?
— É muito simples — disse Wamsler. — Esse processo já foi
usado no meu tempo de cadete, quando se pretendia usar a nave para
voar a algum jantar longe da academia. É suficiente reduzir o ângulo
do projetor Cunsdorff-Santner em três graus. Até um objeto em forma
de lente pode ser projetado dessa maneira. É claro que o Laurin
consome horrores de energia. Mas certos comandantes de nave
conseguem se ausentar durante umas seis horas.
— Incrível! — respondeu McLane. — E coisas desse gênero
acontecem no seu gabinete?
— Piores ainda! — retrucou o marechal Wamsler. — Até meus
melhores comandantes utilizam-se de meios tão grosseiros!
— É irresponsabilidade total! — rosnou McLane. — Isso nunca
me teria ocorrido!
— Ninguém está duvidando disso, major! — disse a aspirante,
com voz clara. — O marechal Wamsler só quis externar uma vaga
suposição!
— Correto! — finalizou Wamsler.
Fez uma pausa longa, de muito efeito.
— Major McLane? — perguntou em seguida, calmamente e sem
rir.
— Sim, marechal?
— Eu lhe pergunto aqui, diante de testemunhas: Vai assumir o
transporte de oitenta robôs, do tipo Worker, números de série 3912 a
3991, daqui para Pallas beta, lua de Greenwood, sol p-900229?
— Realmente não sei para que essa cerimônia toda, marechal —
disse McLane. — É evidente que me encarrego desse transporte. Se
for preciso, levamos os robôs nas próprias mãos a bordo da Orion e os
deitamos nas nossas camas.
— Isto não será necessário, comandante — disse a aspirante. —
Essas máquinas têm uma resistência incrível. E são empregadas em
trabalhos de mineração.
Cliff dirigiu-se a Tamara.
— Fico-lhe muito grato pelo seu oferecimento, miss Jagellovsk!
— e riu como se Wamsler tivesse contado uma excelente piada. —
Mas pessoalmente eu não tenho nada contra os Worker. Eu
simplesmente os adoro; é um pessoal muito útil.
E depois dirigiu-se à sua tripulação:
— Vocês têm alguma coisa contra os robôs, garotões? Desculpe,
Helga?
Um coro de quatro vozes fez-se ouvir. Os copos tremiam sobre a
mesa quando a resposta veio:
— Não!
Com um movimento de mão, que somente o comandante Cliff
Allistair McLane podia executar com tamanha arrogância e
displicência, consultou o relógio e disse:
— Minhas senhoras e meus senhores. Vou agora cumprir a minha
promessa e convidar a camarada Jagellovsk. Em breve estaremos de
volta, continuem festejando bonitinho e com bastante barulho. E
deixem que o marechal Wamsler participe de sua alegria; está quase
sendo soterrado por oficiais estúpidos, aspirantes de ante-sala
arrogantes, capitães espaciais esquisitos, e uma porção de problemas
da pior espécie. Sejam bonzinhos com ele... Ele bem que precisa.
Saúde a todos.
Agarrou Tamara galantemente no cotovelo e a conduziu a um
ponto no extremo balcão do bar, longe de todas as mesas e dos
tronejantes alto-falantes.
— Quer um simples ou um duplo? — perguntou e levantou a mão.
Tamara olhou para ele atentamente.
— Um triplo, por favor!
***
— Nada mais me causa espanto, porque eu sou um homem
escaldado que cresceu em meio a surpresas, foi amamentado com
problemas e educado por privações e necessidades — começou Cliff e
imprensou a sua plaqueta de identificação de ouro sobre a conta,
avalizando-a. Depois continuou: — Mas nos últimos minutos eu
comecei novamente a me admirar, a me espantar. Por sua causa,
Tamara!
Ela estava sentada ao lado dele na banqueta do bar, muito calma,
muito esbelta, e muito empertigada; olhava para a rebentação que se
espraiava abaixo deles.
— Por quê? — perguntou.
— Estou espantado com seu comportamento — respondeu Cliff.
— E o que tem o meu comportamento de tão notável? —
perguntou ela rapidamente.
— Alguma coisa. Basta que a bordo da Orion eu gire um botão no
sentido errado, e a senhora começa a citar regulamentos. E hoje de
noite discordou até de Wamsler. Se isto foi sincero, o que significa?
— Hoje de manhã eu tive ensejo de lhe expor exatamente quais
eram as minhas atribuições e a minha tarefa, Cliff — respondeu
Tamara e aspirou o cheiro do álcool que estava se esquentando entre
as suas mãos.
— Ocasião, em que trajava um dos biquínis mais encantadores que
eu já vi! — disse Cliff, rindo.
— Não tente fugir do assunto. Eu me esforço para conseguir
diferenciar o que ainda pode ser admitido do que não pode mais ser
tolerado. Pallas beta e a incerteza do que tinha acontecido com o
minério e os trabalhadores pertencem a última categoria. Devia
procurar me entender. Eu não levo uma vida fácil a bordo da Orion.
— Eu acredito — disse Cliff — que a nossa cooperação no
decorrer dos próximos anos poderia até se tornar agradável. Enquanto
isso, continue lendo aquele livro que eu encontrei sobre a
espreguiçadeira.
Que tal sobre Steinhäger?
Os olhos verdes de Tamara entre as ondas do cabelo louro
miravam Cliff com um brilho estranho. Espantado, Cliff McLane
ouviu Tamara dizer:
— Esta noite, nessa praia e nesta companhia, meu caro
comandante McLane, uma moça como eu apreciaria até água salgada
com groselha!
— Caramba! — disse Cliff. — Eu não acredito numa só palavra do
que diz!
Tamara soltou um riso insolente.
— É gozado. E sempre que o senhor banca o capitão atencioso, eu
não acredito numa só sílaba do que diz. A primeira impressão é
sempre a duradoura.
Cliff reparou que ela possuía dedos muito bem feitos.
— E qual foi a primeira impressão, Tamara?
Friamente ela deu como resposta:
— Que o senhor era um moleque como poucos, Cliff!
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