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Ao descobrir que impulsos hipnóticos transformavam os

comandantes das naves em perfeitas marionetes, McLane teria


pela frente um enigma... E, em pleno hiperespaço, a Orion
travaria uma batalha contra o sugestor desconhecido!
HANS KNEIFEL

OS DESERTORES

Tradução de F. IMMERGUT

EDIÇÕES DE OURO

Título do original: “DESERTEURE"

By ERICH PABEL VERLAG — Rastatt, West Germany


Da tradução — EDITORA TECNOPRINT S.A., 1977

Sede: EDITORA TECNOPRINT S.A. Edições de Ouro


Rua Nova Jerusalém, 345 - RJ

Todos os personagens deste livro são fictícios. Qualquer semelhança com


pessoas ou acontecimentos da vida real é mera coincidência.

HISTÓRIA ou ESTÓRIA?
As Edições de Ouro e o Coquetel grafam a palavra história e não estória por julgar a primeira
forma mais correta, conforme dicionários mais categorizados, que julgam a segunda forma
imitação do inglês story, sem correspondente com raízes em nossa I íngua.
1

LUNA Secunda...
O satélite morto de um planeta estéril, desprovido de atmosfera,
jazia no cubo espacial Três/Leste 109 e representava um desses
incríveis caprichos da insondável natureza cósmica. Dentro de uma
esfera espacial de 900 parsec de diâmetro, em cujo centro estava o
sistema solar com o planeta Terra, havia duas luas perfeitamente
idênticas. A lua da Terra e Luna Secunda, a segunda lua. Uma era a
cópia fiel da outra, até os mínimos detalhes.
Cada cratera, cada campo de meteoritos, a topografia, as distâncias
da órbita ao planeta, a velocidade de rotação, a força gravitacional e
todos os outros dados eram idênticos. Luna Secunda era totalmente
desprovida de vida, desabitada... e era considerada zona militar.
Apenas alguns aparelhos de comunicação totalmente automatizados
estavam ancorados no solo lunar.
Cliff Allistair McLane era um cosmonauta experimentado e
calejado, mas um quadro desses sempre o fascinava de novo. Havia
algo de fantasmagórico em reparar como, de repente, um contorno
foiciforme se destacava da escuridão cósmica, permeada de estrelas. E
quando a nave se aproximou, este contorno transformou-se numa
esfera que uma linha divisória separava em dois hemisférios de luz e
de sombra. Crateras apareceram. Crateras de todos os tamanhos,
profundidades e diâmetros. Um mundo silencioso apresentava-se
sobre a grande tela circular, diante da qual McLane estava sentado.
Um contorno nítido surgiu no campo de visão: era o pólo sul da
segunda lua. A Orion VIII prosseguia no seu vôo de aproximação,
descrevendo um gigantesco arco a novecentos quilômetros de
distância da superfície do satélite. A reprodução fiel das conhecidas
crateras do quadrante nordeste da lua tornou-se visível; lá estavam os
bem delineados taludes anulares das crateras de Copérnico, Platão,
Aristilo e Arquimedes. A gigantesca superfície do Mare Imbrium, o
Mar das Chuvas, estendia-se na tela banhada na ofuscante luz solar.
Apenas um detalhe distinguia as duas luas: Luna Secunda refletia uma
luz fria e azulada.
O sol que emitia esta luz era uma estrela azul, que ficava a uma
distância de pouco mais de uma unidade astronômica. E esta luz
brilhante transformava a desolada lua numa paisagem fantástica, cheia
de fendas e fossas, mares poeirentos e cordilheiras escarpadas. A voz
gravada do piloto automático ressoou pela cabine.
— Objeto enquadrado. Alvo reconhecido.
McLane desprendeu a vista daquele quadro colorido e olhou para o
rosto magro de Silvan Rott a seu lado. Rott era um oficial
especializado em armas e voava há três dias com McLane.
— Nosso alvo é a cratera Harpalus — sussurrou Rott. Ele e o
comandante iam testar uma nova arma. E não havia campo de provas
melhor do que esta lua, na qual nada mais seria destruído além de
formações rochosas.
— Eu sei — respondeu McLane, no mesmo tom de voz. — O
nosso curso foi programado para isso — Rott acenou em silêncio.
— Harpalus! — disse Mario de Monti e apontou para uma folha
no grosso manual. — É uma cratera de cinco mil e trezentos metros de
profundidade. Não possui a elevação central característica. Um pouco
ao sul fica o Sinus Iridum. E a cratera tem um diâmetro de trinta e
cinco quilômetros. McLane soltou um assobio.
— Considerável! — comentou. Acionou uma chave. Uma malha
reticulada estendeu-se sobre a tela. No centro havia um dispositivo de
mira que encobria um setor daquela esfera azulada. Rott e McLane
entreolharam-se.
— Tudo pronto? — perguntou Rott.
— Podemos começar! — respondeu McLane, em tom sério. — O
que espera disso?
O rosto estreito, quase ascético, de Rott não mudou de expressão.
— Espero poder demonstrar a eficácia de uma arma nova — disse
ele. — E que, faço votos, não vamos precisar empregar jamais!
— Se não é para empregá-la — perguntou Hasso calmamente —
então por que se esforçaram tanto para desenvolvê-la?
— A fim de tornar impossível que se repitam aquelas horas
pavorosas, durante as quais um planeta em chamas se aproximou do
sistema para destruí-lo. Se os estranhos insistirem em atacar a Terra,
temos com que nos defender.
Cliff fez a Orion VIII descrever uma curva apertada e afastou-se
novamente da região do alvo.
— Transferi o comando para os controles do Overkill.
Ouviu-se o leve estalo de uma série de chaves e o computador
digital começou a trabalhar por trás das grossas paredes protetoras.
— O vôo agora é completamente automático — explicou Rott,
baixinho. — A mil quilômetros de distância, o controle da arma vai
assumir a aproximação final, e a quinhentos quilômetros, o Overkill
entra em ação.
A mão de McLane fechou-se sobre a bola reluzente na
extremidade da haste do acelerador. Empurrou a alavanca para a frente
até o último encaixe. A Orion começou a acelerar com a força total
das suas máquinas novas.
— Distância: mil e quinhentos quilômetros — anunciou o
astronavegador Atan Shubashi.
O elegante disco lançou-se em direção à cratera Harpalus,
seguindo uma reta matematicamente perfeita. A bordo, só se ouviam
os silvos dos propulsores.
Os contornos da imagem começaram a ficar difusos. Somente a
abertura da cratera permaneceu imóvel no centro da tela, debaixo da
divisão fina daquela malha reticulada e dos círculos autoluminosos
dos dispositivos de mira. A Orion havia sido provida de um controle
adicional, comandado pelo computador, e que calculava um curso
optimal. O emprego desta arma, capaz de transformar praticamente
qualquer tipo de matéria em gás, exigia extrema precisão e rapidez.
— Do comandante para o livro de bordo: operação Overkill
iniciada!
A imagem da cratera aumentava a cada segundo e a estruturação
das rochas e das zonas de matéria lunar pulverizada tornaram-se mais
nítidas.
— Novecentos quilômetros... — avisou Atan.
Rott estava de pé ao lado de McLane e apoiava as mãos sobre a
mesa de comando. Parecia prender a respiração. O quadro a sua frente
transmitia uma sensação de perigo iminente. Tinha-se a impressão de
que, dentro de segundos, a Orion se espatifaria contra o talude que
circundava a abertura da cratera.
— Oitocentos quilômetros.
A voz de Atan soava tranqüila. Confiava plenamente no curso
programado por Mário e sabia que a precisão do computador digital
era tal que a nave podia passar a milímetros daquela borda rochosa.
— Seiscentos quilômetros.
Na parte inferior da Orion, uma chapa, feita de uma liga de aço e
berílio, recolheu-se numa fenda do casco externo tornando visíveis os
elementos luminescentes de uma máquina de aspecto complicado. Ao
lado de uma peça tubular, havia um dispositivo cuja ocular estava
dirigida para o plano do Harpalus.
— Quatrocentos quilômetros.
Com velocidade alucinante, a Orion projetava-se em direção
àquela cratera, cuja imagem ocupava agora quase a metade da tela.
Mais alguns segundos se passaram e, então, aconteceu. Cinco apitos
ressoaram pela cabine e enquanto os dispositivos de mira mantinham
o alvo firmemente enquadrado, a nave lançou-se vertiginosamente
para o alto. Um segundo atrás, ainda se distinguia o plano com a
abertura da cratera. Agora, um fino véu de poeira turvava a visão.
— Caramba!... — exclamou McLane.
A cratera tinha desaparecido. Havia se transformado num
prolongamento do declive interno daquela cordilheira anular. No lugar
da planície, coberta de poeira e salpicada de minúsculos meteoritos,
havia um cone oco, invertido, cujas paredes pareciam ter sido sulcadas
por uma escavadeira gigantesca.
— Faça as leituras, Atan! — pediu McLane.
Atan utilizou-se de um telêmetro para curtas distâncias, a fim de
obter resultados mais precisos.
— O diâmetro continua inalterado em trinta e cinco quilômetros
— disse ele — a profundidade aumentou para cinqüenta quilômetros.
Clique! A alavanca do acelerador manual pulou do encaixe e
voltou à posição normal: o computador digital devolveu o controle da
nave ao comandante. O vôo de aproximação da Orion tinha sido
sustado a uma distância de quinhentos quilômetros. A nave continuou
a se projetar para o alto, afastando-se cada vez mais da segunda lua.
Os instrumentos automáticos registraram o tremor provocado pelo
súbito rompimento do equilíbrio estático daquelas massas rochosas,
nas quais, de uma hora para outra, havia surgido uma abertura cônica.
Durante um minuto, houve silêncio na cabine, enquanto o disco
prosseguia em seu vôo não dirigido, mas nem por isso descontrolado.
A imagem da segunda lua apareceu na tela. Luna Secunda apresentava
uma profunda ferida.
Finalmente McLane virou-se para Silvan Rott:
— Esta arma silenciosa é simplesmente pavorosa! Veja esta
cratera; a sua profundidade é agora cinqüenta vezes maior do que
antes!
— Distância: três mil quilômetros — disse Atan — iniciamos o
retorno à Terra?
— Sim, Atan — disse McLane — peça as coordenadas a Mario.
Rott acenou lentamente com a cabeça.
— Talvez algum dia — disse com a voz ainda abalada pela
emoção — vamos ter que nos empenhar numa luta decisiva com os
extraterranos. No último encontro, constatamos que os seus anteparos
são praticamente imunes às nossas armas energéticas.
Continuava recostado na mesa de comando e observava, pensativo,
as suas unhas amadas.
— Quer dizer, com isto, que os teóricos consideram obsoletos os
nossos lançadores energéticos e canhões laser?
A disposição de McLane não era das melhores; não se sentia
inteiramente à vontade com uma arma tão pavorosa a bordo.
— Ainda não são obsoletos — respondeu Silvan Rott. — Mas,
com o Overkill, estamos em condições de destruir naves inimigas a
partir de uma distância de cerca de mil quilômetros, apesar de
anteparos pesados e possantes. Dez naves equipadas com Overkill
poderiam devastar um planeta de tal maneira que não escaparia um
único ser vivo.
Cliff observou Rott com uma expressão meditativa.
— Isso não passa de mera teoria, Silvan — disse ele — mas as
coisas estão evoluindo de uma maneira que eu, decididamente, não
gosto. Seria uma afirmação idiota dizer que eu sou um pacifista
praticante, mas para que vamos pegar dez naves e destruir um planeta?
Fala como se tivéssemos um excesso de planetas no nosso domínio!
Rott exibiu um sorriso gélido e respondeu:
— Acho que ao senhor, comandante, não preciso lembrar os
perigos que a Terra correu nestes últimos tempos e que,
provavelmente, ainda vai correr. Ninguém tenciona empregar esta
arma uma única vez sequer, se não for preciso.
— Com exceção de você, Rott, que há três dias não fala em outra
coisa a não ser ângulos de aproximação, retardamentos e matéria
gaseificada.
Surpreso, o engenheiro da Orion virou a cabeça branca e observou
Cliff e Silvan. Rott retrucou:
— O senhor simplesmente realizou mais uma missão, comandante,
mais nada.
Prontamente, McLane replicou:
— Uma missão que só serviu para a destruição!
— Não arrancamos um fio de cabelo a quem quer que seja. Mas,
em compensação, vamos voltar à Base .104, dentro de três dias, com
um resultado que vai causar satisfação e alívio.
— Que resultado? — perguntou Cliff, laconicamente.
— A certeza de que possuímos uma arma com a qual podemos
proteger a vida na Terra e nas colônias se a situação assim o exigir.
Isto não o tranqüiliza também, comandante?
— Ainda não sabemos nada a respeito dos estranhos — respondeu
Cliff. — Talvez eles possuam uma arma superior ao Overkill.
— Talvez! — disse Silvan Rott.
O nome desta nova arma havia sido encontrado nos arquivos.
Tempos atrás, alguém tinha designado por Overkill a possibilidade de
infligir danos ao adversário que eram maiores do que os que ele
mesmo podia causar. E este nome tinha sido desencavado.
— O que sabemos dos extraterranos — observou Rott —
realmente não é muito, tenho que admitir isto. Ainda estamos tentando
desvendar os mistérios da tecnologia deles, representada por aquelas
naves que os seus homens descobriram em MZ-4. Mas, mesmo o
pouco que aprendemos desde então, já foi o suficiente para nos alertar
contra o que der e vier. Lembre-se apenas daquele planeta em chamas!
Cliff engoliu em seco. Ainda suava frio quando se lembrava
daquelas horas de tentativas frustradas e daquela enervante
permanência no hiperespaço.
— O senhor tem uma facilidade estupenda — disse ele com um
sorriso meio irônico — para me tranqüilizar e a minha tripulação;
parece que a vida na frota perdeu algo do seu encanto desde que eu fui
rebaixado.
Impassível, Rott encolheu os ombros estreitos.
— Helga? — disse Cliff e apontou para as lâmpadas do aparelho
radiofônico. — Dirija uma mensagem hiperespacial à Terra. Para
F.R.E.T. e S.C.E.
— E o teor da mensagem? — perguntou Helga.
— Bem lacônico: experiência Overkill concluída com sucesso!
***
A segunda lua situava-se no cubo espacial Três/Leste 109.
Isto significava que a constelação solitária, constituída por um sol
azul, um planeta gélido e sem vida, e seu satélite silencioso, pairava
no espaço interestelar a três zonas de distância da Terra, ou seja, a
aproximadamente cento e trinta parsec. A grosso modo, os
comandantes estimavam em vinte e quatro horas a duração do vôo
entre duas linhas de distância consecutivas e isto era válido, com boa
aproximação, para vôos normais, realizados com naves e propulsores
dos tipos mais comuns. Nessas condições, uma nave que partisse da
Terra levaria pouco menos de dez dias para atingir as regiões
limítrofes daquela esfera espacial, que constituía o domínio terrano. E,
para vencer cada zona de distância, era necessário efetuar um salto no
hiperespaço.
A nave era acelerada até que atingisse uma velocidade um pouco
inferior à da luz, ou seja, em torno dos 286.750 quilômetros por
segundo. Depois, os geradores eram ativados e a nave desaparecia no
hiperespaço, no qual percorria quarenta e cinco parsec. Vinte e quatro
horas mais tarde, retornava ao espaço normal.
Da mesma maneira, e sofrendo apenas um insignificante
retardamento, propagavam-se as ondas radiofônicas. A mensagem da
Orion VIII estava nas mãos da Suprema Comissão Espacial duas horas
após a destruição da cratera Harpalus naquele curioso gêmeo da lua
terrana.
O deslocamento ascensional da Orion foi contido e os impulsos de
comando da unidade de saída do computador digital assumiram o
controle dos propulsores. A nave foi acelerada e seguiu um curso
rumo à Terra. Após trinta minutos, a Orion estava se deslocando com
velocidade pouco inferior à da luz e mergulhou no hiperespaço. Cliff
virou a pequena alavanca e imediatamente o painel luminoso se
acendeu. As letras da inscrição destacavam-se nitidamente do fundo
luminescente e chamavam a atenção de qualquer parte da cabine:
Piloto automático. McLane levantou-se.
— Queridos amigos — disse, calmamente — durante as próximas
vinte horas não temos nada a fazer. Portanto, decreto folga geral. De
minha parte, vou me recolher ao camarote.
O olhar de Cliff vagueou de Rott para Hasso, de Atan para Mario e
depois para Helga. Um rosto não estava ali e ele sentia falta dele; se
bem que a ausência deste rosto melhorasse sensivelmente o estado de
ânimo na cabine de comando, como Cliff costumava afirmar
insistentemente.' Era o rosto de Tamara Jagellovsk!
— Vou ficar aqui mesmo — afirmou Mario e apontou para um
jogo de desenhos, empilhados na sua mesa.
— Vai montar guarda voluntariamente? — quis saber Atan, com
ironia — desde quando você é tão zeloso com os seus deveres?
Mario de Monti, o subcomandante, riu para Atan.
— Escute, pequenino — disse — controle esta sua língua ferina.
Eu vou estudar estas plantas para mais tarde poder lhe contar como
funciona o Overkill.
McLane fechou a porta semicircular do elevador e desceu ao
convés, no qual se encontravam os camarotes. Foi à cozinha, apanhou
um enorme copo de suco de frutas da geladeira e recolheu-se ao
camarote. Leu um pouco, ouviu um trecho de uma fita gravada e
acabou adormecendo.
Helga estabeleceu uma ligação entre o receptor de gravações e os
alto-falantes de sua cabine e retirou-se.
Rott, Atan e Hasso também se retiraram. Mario estava sozinho.
Estendeu as plantas sobre a mesa e enfronhou-se naquela confusão
de desenhos e símbolos. Durante uma hora havia acompanhado
atentamente os trabalhos de Rott e seus técnicos quando estes
instalaram o projetor Overkill a bordo da Orion; por isso conseguia
entender mais rapidamente o significado daquele emaranhado de
detalhes. Depois que compreendeu o princípio do funcionamento da
nova arma, foi fácil estudar o resto das plantas. Constatou que o
aparelho era capaz de romper as ligações atômicas de qualquer
matéria. O melhor efeito era obtido a uma distância máxima de mil
quilômetros e os contornos da área a ser atingida podiam ser
modificados à vontade. Não era, porém, conveniente chegar a menos
de duzentos quilômetros do local da destruição.
Overkill... uma arma mortífera!
Mario arrepiou-se quando se conscientizou que carga mortal a
Orion estava levando no bojo. Dobrou as plantas e recolheu-se ao
camarote.
Dormiu um sono agitado.
Nas proximidades da Terra, a Estação Avançada IV assumiu o
controle da nave.
Trocaram mensagens radiofônicas e a Orion iniciou a manobra de
pouso. Em posição horizontal, baixou entre as paredes verdes do
enorme cilindro de aço, iluminadas pelos holofotes, e pousou sobre os
raios antigravitacionais. O elevador telescópio baixou. A tripulação
desembarcou, acompanhada de Silvan Rott. Na pasta fechada, levava
as plantas do Overkill. Despediram-se na eclusa.
— Obrigado, comandante! — disse Silvan Rott e trocou um aperto
de mão com McLane.
— Obrigado por quê, Silvan? Rott deu um sorriso meio contido.
— Obrigado — respondeu, lentamente — por me ter dado a
oportunidade de testar esta arma sob o seu comando. Estou certo que
ambos prestamos um serviço à Terra!
— Só faço votos que não precisemos empregar o Overkill. —
disse Cliff — ao menos eu não o desejo!
Semanas mais tarde, Cliff iria se lembrar destas palavras. Trariam
um significado fatal para ele. Subiu à superfície e pouco depois estava
no seu bangalô, em Groote Eylandt.
2

COM passos cautelosos, como se estivesse carregando uma carga


pesada, a ordenança feminina desceu a pequena escada, virou à direita
e seguiu na direção da seta. No material luminoso do indicador havia
uma inscrição que dizia: Suprema Comissão Espacial — Estado-
Maior (Gabinete Wamsler).
A moça atravessou trinta metros de um corredor vazio e bem
iluminado até que uma porta lhe barrou o caminho. A ordenança
acionou uma pequena chave. Acima de sua mão, uma tela de
videofone se iluminou. O rosto do oficial da ante-sala de Wamsler
apareceu.
— Sim? — perguntou.
— Uma mensagem hiperradiofônica para o marechal Wamsler —
respondeu a ordenança.
— Da central de comunicações? — veio a pergunta seguinte. —
Por que as mensagens não são dirigidas diretamente à ante-sala?
O sorriso da ordenança manteve-se inalterado.
— O marechal Wamsler nos chamou uma hora atrás e pediu para
não ser incomodado. Só mensagens realmente importantes deveriam
ser encaminhadas a ele. O estado-maior está debatendo o caso Xerxes.
— Entendo — disse a moça da ante-sala de Wamsler. — Pode
entrar.
A porta abriu-se e a ordenança entrou. Na mão, carregava o
pequeno tubo que continha o comunicado.
— Vou desligar a barreira! — avisou a secretária de Wamsler.
A ordenança agradeceu e parou diante da faiscante e mortal cortina
de elétrons em movimento, que emanavam de uma barra projetora
embutida no piso. O jogo colorido extinguiu-se e a moça entrou no
gabinete de Wamsler. Em torno da grande mesa de conferência,
estavam sentados os membros mais importantes do estado-maior: Sir
Arthur, Kublai-Krim, Wamsler, o general Lydia Van Dyke e o coronel
Villa, acompanhado de um oficial de ligação. No momento, o coronel
Villa estava falando e silenciou ao ver o mensageiro.
— Marechal Wamsler — disse a moça, num tom modesto — uma
mensagem hiper-radiofônica para o senhor!
Wamsler olhou para ela com estranheza e depois compreendeu.
— De que se trata?
— É uma mensagem hiperradiofônica da Orion VIII — respondeu
a moça no mesmo tom de voz.
— Qual é o teor desta mensagem?
— Experiência Overkill concluída com sucesso!
— E o que eu vou fazer com isto agora?
— O senhor pediu para ser informado imediatamente. Disse que
esta mensagem teria prioridade...
Wamsler interrompeu a moça com um aceno e lançou um rápido
olhar para Villa, que ainda se mantinha em silenciosa expectativa.
— Foi isto mesmo, obrigado! — disse Wamsler à ordenança. A
moça bateu continência e retirou-se.
Imediatamente a barreira eletrônica restabeleceu-se, protegendo os
homens no gabinete.
— Queira desculpar, coronel Villa — disse Wamsler — prossiga,
por favor!
O coronel Villa, um homem pequeno, de cabelos quase prateados,
pigarreou e depois continuou.
— Conforme eu estava dizendo: desde que existe a frota espacial
terrana, eu não me lembro de qualquer incidente que fosse de uma
transcendência tão alarmante. Pela primeira vez, um comandante de
nave tentou desertar!
Por alguns segundos, uma ligeira inquietação apossou-se dos
presentes. Villa observava os rostos ao seu redor, em silêncio e com a
ironia de sempre; depois prosseguiu, dirigindo-se a Kublai-Krim:
— Em resumo: o comandante da Xerxes tentou desertar!
Com voz rouca, Kublai-Krim sussurrou:
— E logo para os estranhos! Desertou para os extraterranos!
Sir Arthur levantou a mão:
— Uma pergunta: esse homem ficou louco?
— Não, não ficou louco! — respondeu Villa. — Há vinte e um
dias o comandante encontra-se em rigorosa observação. Dia após dia,
hora após hora. Esse tal de Alonzo Pietro está entregue a uma equipe
de especialistas que o submeteram a exames radiológicos. Em seguida
o interrogaram sob hipnose e registraram e analisaram seus reflexos.
Comparamos seu encefalograma com os de doentes mentais.
Wamsler ergueu a mão larga e carnuda.
— Sim, e daí? Quais foram os resultados, Villa?
O chefe do serviço de segurança respondeu, secamente:
— O resultado foi tudo menos tranqüilizador. Não conseguimos
descobrir o menor indício de uma alienação mental. O homem não
sofre de psicose ou neurose, nem de mania de perseguição e nem
tampouco de autismo... Não há nada de errado com ele!
— Quer dizer que o comandante Pietro é normal? Tão normal
como o senhor ou eu? — perguntou Sir Arthur, espantado
Villa permitiu-se aquele seu sorriso temido e respondeu algo
hesitante.
— Bem, seria muita presunção de minha parte, considerar-me
como padrão de um comportamento normal. No seu caso, eu também
não estaria tão seguro de mim mesmo, amigo Arthur. Uma coisa é
certa: o comandante Pietro é mentalmente são. Tampouco quanto a
nós, jamais lhe ocorreria a idéia de se bater para o lado dos nossos
inimigos e ainda levar uma nave inteirinha de sobra.
Lydia Van Dyke pediu a palavra.
— Sim, general? — perguntou o coronel Villa suavemente.
— Eu não duvido do zelo e da competência dos seus especialistas,
coronel, mas o senhor tem certeza absoluta que não cometeram algum
engano?
— Estou absolutamente seguro que não! — respondeu Villa, com
voz dura.
Wamsler ergueu-se, apoiando as mãos sobre os braços da poltrona.
— Coronel Villa! — disse ele, com sua voz profunda — a sua
acusação pode ser bem fundamentada, mas é monstruosa! Contraria
frontalmente toda a razão e toda a experiência!
Villa acenou com a cabeça; o sorriso tinha desaparecido do seu
rosto.
— Acontece que o caso não admite mais dúvidas. Afinal de
contas, o computador não imprime estes algarismos sem a devida
programação prévia!
Empurrou a fita em direção a Kublai-Krim. O general examinou-a
de perto e decifrou as coordenadas. Era verdade. Aqui estavam as
ordens de comando para uma série de saltos hiperespaciais em direção
ao Cubo Dez/Leste 361. Uma posição na região limítrofe do domínio
esférico da Terra.
Uma pausa ominosa seguiu-se à constatação de Kublai-Krim.
Finalmente Sir Arthur rompeu o silêncio.
— Eu quero ver este homem! — disse. Parecia que tinha se
decidido a acreditar nas palavras de Villa. O chefe do SSG virou-se
para o seu ajudante e disse em tom baixo mas autoritário:
— Traga o comandante Pietro à nossa presença!
O oficial ligou o rádio de pulso e falou baixinho no pequeno
microfone, enquanto os outros se entreolharam em silenciosa
expectativa.
Estavam habituados a pesar as possíveis conseqüências de um
incidente espetacular como este. Se um comandante da maior
confiabilidade desertava, ou apenas o tentava, a frota inteira corria um
sério perigo. O inimigo devia ter descoberto um meio que lhe
assegurava a obediência cega de homens como o comandante Alonzo
Pietro. Era óbvio que, para lançar ou preparar um novo ataque, estava
precisando de informações e conhecimentos mais precisos do mundo
central daquele domínio. A conclusão era uma só: o adversário sabia
como influenciar os terranos... e estava planejando uma nova agressão
à Terra. Ninguém sabia de onde os estranhos vinham e por que razão
atacavam a Terra. Não havia nada que pudessem utilizar, porque a
atmosfera terrana, para citar apenas um exemplo, era puro veneno para
eles.
— Não me leve a mal, coronel Villa... — começou Wamsler.
— Certamente que não! — respondeu Villa, e mais uma vez
aquele sorriso irônico apareceu no seu rosto amassado.
— Estou cético! — continuou Wamsler — Para falar a verdade,
estou até um bocado cético. Não faz muito tempo que constatamos a
ocorrência de casos isolados de delírio espacial entre as guarnições de
algumas estações na fronteira.
— E foi exatamente o comandante Pietro — disse Lydia Van Dyke
com sua voz tranqüila e áspera. — O homem encarregado de voar para
esses postos a fim de render as guarnições. Lembro-me vagamente de
ter lido uma ordem de partida, que se referia a Dez/Leste 001.
— Posso lhe assegurar — respondeu o coronel Villa, com teimosia
— que o comandante Pietro não apresentou qualquer desses sintomas.
Se os tivesse, nós os teríamos descoberto.
— Talvez tenha outros sintomas? — perguntou Wamsler
rancoroso.
— Mesmo esses não teriam passado despercebidos, marechal!
— Mas como? Se o senhor e os seus psicólogos não sabem a que
doença estes sintomas se referem? Se o senhor não conhece nem a
verdadeira natureza dessa doença?
Villa respondeu pacientemente:
— Pode acreditar no que eu digo! Pietro foi observado e
examinado com todo o cuidado. Estávamos todos prontos para partir
da premissa de que havia uma perturbação parcial ou uma
inconsciência temporária. Torcemos para encontrar uma razão
plausível, que pudesse justificar o seu comportamento ou nos
fornecesse uma pista para o seu procedimento. Mas... Foi tudo em
vão. Não encontramos absolutamente nada neste sentido. Mental e
fisicamente, o comandante é são. Se não levarmos em consideração
dois dentes substituídos.
O tampo da mesa refletia a imagem de Wamsler. Parecia uma
rocha negra que se erguia da superfície de um lago imóvel. Apesar
dessa aparência, este homem podia ser abalado. Estava extremamente
agitado e disse em voz alta:
— Um comandante, meus senhores, que pretende desertar para os
estranhos com uma nave espacial não pode ser um homem sadio!
— Uma lógica irrefutável! — observou Villa, com ironia.
Kublai-Krim balançou a cabeça cinzenta.
— Se este caso chegar ao conhecimento dos comandos e demais
membros da frota, vai haver uma catástrofe. Toda a estruturação
interna vai ser destruída. Será o fim da autoridade das chefias!
— É, isto mesmo! — concordou Sir Arthur. — Se não pudermos
mais depositar confiança ilimitada nos nossos comandantes, a
segurança da Terra é coisa do passado.
Villa permaneceu sentado e dirigiu um olhar penetrante para Sir
Arthur.
— Não foi outro o raciocínio do SSG — disse ele. — E
conseguimos convencer a Suprema Comissão Espacial disso. Já faz
algum tempo que começamos a substituir as guarnições dos postos
avançados ao longo da fronteira por robôs; demos prioridade às
instalações maiores e agora falta pouco para completar a substituição.
Lydia Van Dyke não escondeu o seu aborrecimento e protestou:
— E somente agora estou sendo informada a respeito disto?
Villa encolheu os ombros.
— A senhora sabe muito bem que as nossas experiências com os
robôs têm sido as melhores possíveis, desde que acabamos com a
possibilidade de ocorrerem panes como aquelas que se verificaram na
última aventura de McLane. Robôs não têm sentimentos e, portanto,
não há mais panes. Não vejo razão alguma para não substituir também
os comandantes de naves espaciais por robôs, claro que dentro de
limitações razoáveis.
— Está querendo provocar um motim geral na frota? — indagou o
general Van Dyke, cinicamente. — É muita gentileza sua preocupar-se
com a minha aposentadoria prematura, coronel Villa! Não acha que
estes planos são um pouquinho utópicos?
Villa dirigiu um sorriso tranqüilizador para Lydia. Viu o sinal que
o ajudante de ordens lhe fez e disse:
— Acabo de ser informado que o comandante Pietro chegou.
Giraram as poltronas e fixaram o olhar naquela mortífera barreira
luminosa. Dois vultos destacavam-se contra o fundo claro da ante-
sala: um comandante e um oficial do SSG com a mão pousada no
cinto, perto da arma.
— Alonzo Pietro... — murmurou o general Van Dyke.
Pietro devia ter uns 40 anos de idade. Era um homem de estatura
média, cabelo louro-escuro e olhos calmos que, no momento,
pareciam um pouco inquietos. De resto, o seu aspecto era tão normal
que chegava a assustar. Os dois homens entraram calmamente no
gabinete, enquanto atrás deles a barreira se restabeleceu. Sir Arthur
levantou-se, com vagar.
— O senhor é o comandante Pietro? — perguntou, a meia voz.
Pietro acenou prontamente.
— Sou, sim senhor! — disse ele. — Sou o comandante do
cruzador rápido Xerxes e estou há vinte e um dias no rol dos
incapacitados para o serviço!
Não havia qualquer nervosismo ou inquietude nas suas palavras;
apenas tinha relatado um fato, com naturalidade.
— E o que tem a dizer? — perguntou Sir Arthur.
Pietro encolheu os ombros largos.
— Nada, Sir Arthur — disse ele, lacônico.
Sir Arthur resolveu empregar um tom mais incisivo:
— De acordo com as nossas investigações, Pietro, a sua nave
estava programada com as coordenadas de curso correspondentes ao
Cubo espacial Dez/Leste 361.
— Correto — respondeu Pietro, calmamente.
— Como é que foi fazer uma programação dessas? — perguntou
Wamsler, com a voz rouca de agitação. Pietro dirigiu-lhe um longo
olhar e respondeu:
— Isto eu não sei, marechal.
Pietro dava a impressão de um homem que já tinha sido
interrogado demais a respeito de um mesmo assunto. Há vinte e um
dias, tanto a bordo de sua nave quanto na clínica psicodinâmica da
frota, vinha respondendo a inúmeras perguntas acerca daquela
programação misteriosa. E, no entanto, o tempo todo só estava falando
a mais pura verdade.
— Afinal, o que é que o senhor sabe? — perguntou Wamsler, cada
vez mais inquieto.
— Não sei nada a respeito desta programação. Não sei como pude
registrá-la. Também não sei como obtive estas coordenadas
aproximadas para Dez/Leste 361. Simplesmente apareceram nas
minhas considerações. Estou falando a verdade, marechal.
Observou tranqüilamente os rostos a sua frente. Não tinha mais o
que dizer, não sabia mais nada. Subitamente, uma sensação de mal-
estar apossou-se dos presentes.
— Broderyki — chamou Wamsler; o homem que tinha
acompanhado Pietro virou a cabeça e olhou na direção de Wamsler.
— Sim, marechal? — perguntou.
— Pode levar o comandante Pietro. Por enquanto, está proibido de
voar!
— Perfeitamente, marechal!
O oficial do SSG bateu uma rápida continência e agarrou o braço
do comandante.
— Estou francamente abismada! — confessou Lydia Van Dyke.
— E com muita razão — respondeu Villa. — O problema é um
pouco mais complexo e apresenta várias facetas. Temos que nos
conformar com o fato de que os extraterranos possuem uma arma que
lhes permite influenciar mentes humanas até uma certa distancia. É o
que aconteceu a este homem. Mas, pelo visto, há certas condições
ambientais que limitam a possibilidade desta influência.
— Em que baseia esta afirmação? — perguntou Kublai-Krim.
— No fato de que aqui, na Base 104,
Pietro não apresenta o menor indício de estar seguindo alguma voz
ou orientação estranha. Simplesmente não se lembra dela.
Lydia Van Dyke, chefe de Pietro, sacudiu a cabeça.
— Parece que não compartilha a minha opinião? — perguntou
Villa, em tom amável.
— Entendo muito pouco deste assunto — respondeu Lydia. — Só
não posso acreditar que uma inteligência estranha seja capaz de
exercer tamanha influência num dos nossos comandantes. Mormente
se considerar que, até hoje, não estabelecemos qualquer tipo de
comunicação com eles.
— Já temos uma designação para este tipo de influência — disse o
coronel Villa. — Um neologismo.
Wamsler ergueu a mão e pediu a palavra.
— Será que um pobre marechal-do-ar que está ficando velho pode
solicitar uma explicação em termos populares? — perguntou, com um
traço de sarcasmo.
— Resolvemos dar a denominação de telenose a este fenômeno —
respondeu Villa. — O que significa: influenciação da vontade por
forças estranhas através de longas distâncias. Esta explicação lhe
satisfaz, marechal?
Woodrow Winston Wamsler acenou com a cabeça.
— E agora? O que vamos fazer? — perguntou Sir Arthur, de
repente.
— Creio que não entendi bem esta pergunta! — respondeu Kublai-
Krim. — Acho que devemos discutir o caso.
— Não é isso! — retrucou Arthur, irritado. — O que eu quero
dizer é: como vamos poder neutralizar este perigo?
Villa estendeu os braços num gesto de resignação.
— Confesso — disse — que isto eu também não sei.
— Que tal uma experiência? — sugeriu Lydia.
— Que tipo de experiência? — perguntou Arthur, prontamente,
com uma expressão de vivo interesse.
— Provocamos um outro caso. Ou, melhor, criamos todas as
condições para uma repetição do caso Xerxes. Com uma vigilância
sigilosa desta operação podemos evitar que alguém realmente deserte.
Wamsler refletiu durante alguns instantes, depois concordou.
— Acho esta idéia muito boa. Quem é a favor?
E levantou o braço. Três segundos depois, constatou que esta
proposição do general Van Dyke tinha sido aprovada por
unanimidade.
— O plano nós temos — disse Sir Arthur — agora só falta a nave;
talvez a Orion...
Lydia protestou:
— Sabe que pode contar com o meu apoio para tudo — disse ela.
— Mas tem que me prometer que vai conceder alguns dias de repouso
a McLane e sua equipe. Acabaram de realizar a missão Overkill e
ainda estão no espaço. Creio que merecem um descanso.
O marechal Wamsler, chefe das Formações de Reconhecimento
Espacial, pôs-se mais uma vez a refletir.
— Está bem — disse, finalmente. — Vou providenciar tudo para
garantir o sucesso desta experiência. Se aprendermos como funciona
esta tal de telenose, estamos a um passo da vitória.
No íntimo, estava pensando que talvez McLane pudesse...
Infelizmente, Lydia Van Dyke não olhou para o rosto do coronel
Henryk Villa. Por isso lhe escapou aquele sorriso esquisito...
3

A RIGOR, apenas parte das edificações do cassino fazia jus ao


nome de Starlight. O gigantesco estabelecimento, cujas formas
ultramodernas cobriam uma vasta extensão da praia de Groote
Eylandt. possuía uma série de instalações subaquáticas, enquanto o
outro trecho avançava sobre as águas da laguna, construído sobre
sólidos pilares.
O terceiro complexo era o mais interessante.
Situava-se no alto de uma colina, cuja encosta rochosa se erguia
diretamente da margem da laguna. Uma série de elevadores garantia o
fácil acesso àquela imensa sala circular, encimada por uma cúpula,
parte da qual podia ser removida. E através desta abertura via-se o
cintilar das estrelas no ar ameno e límpido da noite australiana. Havia
inúmeros nichos com mesas, iluminados por minúsculas luzes que
transmitiam uma sensação de tranqüilidade e aconchego. E raras eram
as vezes em que o imenso salão não estava lotado até o último lugar.
Astronautas e seus familiares, funcionários das repartições,
empregados dos escritórios... todos afluíam a este oásis. Cliff McLane
e Lydia Van Dyke apareceram na entrada, situada atrás do saguão dos
elevadores. Ouvia-se música.
— Esse compositor está em vias de se tornar uma celebridade
interplanetária — comentou Lydia. — Não se toca outra coisa senão
as músicas de Thomas Peter.
McLane sorriu e respondeu:
— É verdade; além do mais, escolhe títulos bastante originais para
as suas canções. Por exemplo: "Luz dos Asteróides!"
— Um lindo nome para uma ótima canção — confirmou Lydia.
Cliff e Lydia dirigiram-se a um nicho e, de relance, Cliff reparou que
Tamara Jagellovsk estava ocupando o nicho vizinho ao seu, em
companhia de um oficial de nome Becker, que ele só conhecia
superficialmente. Tinham acabado de jantar e Cliff prestou atenção no
diálogo.
— Posso pedir mais um drinque? — perguntou Tamara ao jovem
tenente. Cliff achou que o seu tom de conversa era um pouco forçado.
Becker acenou cheio de admiração.
— Mas é claro! — respondeu. — Não é por nada não, mas a
senhora tem uma capacidade...! Aprendeu isso com McLane?
Cliff riu intimamente e estudou a projeção cúbica do cardápio.
— A gente aprende muita coisa quando voa com McLane! —
respondeu Tamara filosoficamente.
— A propósito — disse Becker. de repente, e devia ter virado a
cabeça, pois a intensidade de sua voz se modificou. — É só falar no
terror do espaço cósmico...
McLane resolveu ignorar a conversa atrás de si. Fez seu pedido e
virou-se para Lydia.
— Não seja tão misteriosa, general! — disse ele, um pouco
aborrecido. — Podia muito bem me contar o que ficou resolvido
naquela reunião!
Os olhos verdes de Lydia estavam examinando o queixo bem
escanhoado de Cliff. Sacudiu a cabeça e disse.
— Sabe muito bem que a reunião era sigilosa! Mudando de
assunto, Cliff, devia usar um cavanhaque.
— Para quê? — perguntou McLane. E acrescentou: — Conheço
Pietro há oito anos e voamos juntos uma porção de vezes. Duvido que
seja verdade.
— Duvida de quê, Cliff?
— De tudo aquilo que andam contando a respeito dele. Dizem que
ele tentou desertar.
— Mas os fatos são esses, Cliff. Nenhum de nós quis acreditar
nisso, até que o próprio Pietro confirmou que pretendia entregar a
Xerxes aos estranhos.
— Quer dizer que fez uma verdadeira confissão? — perguntou
Cliff, atônito.
— Fez. Mas foi incapaz de dar uma razão plausível para sua
atitude.
Cliff encomendou o jantar e recostou-se, perplexo. A conversa às
suas costas estava agora sendo conduzida em voz tão baixa que não
conseguia mais acompanhá-la.
— A Xerxes estava em operação nas imediações dos Cubos
espaciais Dez/Leste 359 a 362; portanto, num dos numerosos distritos
limítrofes.
De repente a inquietude do comandante tornou-se mais intensa.
— E é exatamente naquela região que se encontra o posto que eu
vou equipar com uma instalação automática de Overkill dentro de
onze dias. É muito esquisito!
As bebidas chegaram. Lydia e Cliff ergueram os copos num brinde
recíproco.
— Essas estações de vigilância estão muito expostas — disse
Lydia. — É preciso defender as fronteiras do nosso domínio com a
arma mais eficaz de que dispomos no momento.
— Entendo. Além de localizar e identificar qualquer invasor, estas
instalações devem também contribuir para a defesa da Terra.
— Correto — confirmou Lydia Van Dyke. Após alguns momentos
perguntou: — Quando vai partir, McLane?
— Amanhã, às quinze horas.
— Desejo-lhe um bom êxito. Aquele oficial do SSG vai estar
novamente a bordo?
McLane fez uma careta.
— Vai sim, infelizmente! Não posso me afastar um único ano-luz
sem que alguém tome conta de mim! Se não é a camarada Jagellovsk,
é um especialista em armas, ou ainda algum psicodinâmico... É
horrível!
Lydia espetou um naco de carne com o garfo.
— Estou tão aborrecida quanto você — afirmou. — Mas não
posso mudar nada. Se pudesse, já o teria feito.
Becker não tirava os olhos da mesa vizinha. Através dos furos dos
tijolos plásticos da parede divisória, era possível vislumbrar quem
estava sentado lá. Também se conseguia ouvir algumas palavras.
— Afinal, por que ficou tão nervosa de repente? — perguntou
Becker e observou as mãos de Tamara, que brincavam com o copo.
— Eu? — perguntou ela, espantada. — Nervosa? Não estou, não!
Engano seu!
— Está sim. É só McLane estar por perto e pronto: fica assim!
Tamara ergueu-se de um salto.
— McLane está aqui? Estou ouvindo direito?
— Está sentada de costas para ele. Involuntariamente, Tamara
inclinou-se um pouco para a frente.
— McLane! — disse ela em voz alta. — Será que você não tem
outro assunto que McLane? Já basta que vou vê-lo logo mais!
O oficial apontou para ela, num gesto recriminativo.
— Afinal de contas, foi você que abordou este tema!
Através do teto aberto do salão via-se um magnífico céu estrelado.
O ambiente estava inundado pelos ruídos das vozes e da música, do
tinir dos copos e das risadas e dos passos dos freqüentadores.
— A rigor — disse Tamara — tínhamos a intenção de nos divertir!
— Está bem; então vamos falar a seu respeito! — disse Becker.
Tamara olhou, surpresa, para o rosto do oficial e concluiu que ele
tinha falado sério. Dirigiu-lhe um sorriso amável e disse:
— Se isto lhe dá prazer, pois não.
— A opinião geral no nosso meio é que você é um tipo bastante
desagradável...
E soltou uma curta risada. Tamara perdeu a fala, mas controlou-se
rapidamente.
— Psss! — fez ela. — Não fale tão alto! Não é necessário que isto
se propague ainda mais! Confidencialmente, eu só sou intragável
quando estou a serviço. Na vida particular, posso ser incrivelmente
encantadora, se estiver de bom humor.
— Está de bom humor agora? Ela balançou a cabeça.
— Estou e não estou. — disse ela. — O que você acha?
— Eu diria que no momento você se encontra numa fase de
transição entre o rigor do serviço e a esfera privada — declarou
Becker. — O que eu acho tão simpático é a sua tendência para uma
constante autocrítica. Por acaso também está lendo o livro de
Hammersmith?
Tamara ergueu o olhar, surpresa.
— Você também está?
— Leitura obrigatória! — afirmou ele, pesaroso.
***
Quando terminaram o jantar, Lydia Van Dyke olhou para McLane
com ar meio irônico.
— Permite uma pergunta indiscreta, Cliff?
— Claro! — disse ele. — O que quer saber?
— Por acaso tem medo do seu oficial de segurança?
— O que lhe faz pensar isso? — perguntou Cliff e olhou para
Lydia sem entender nada.
— Ou será que ela tem medo de você? Cliff riu abertamente.
— Eu não sei! — disse ele depois. — Mas tenho que admitir que
isto seria muito bom! Por que fez esta pergunta?
— Sempre que eu vejo vocês dois juntos, reparo que olham um
para o outro, como se cada qual estivesse com a arma destravada na
mão. Ou será que vocês estão morrendo de ciúmes?
McLane, mais que surpreso, foi dispensado de dar uma resposta.
Ouviu-se um estalo num dos numerosos alto-falantes espalhados por
todos os recintos do cassino. Depois, uma voz impessoal disse:
— General Van Dyke... general Van Dyke... por favor, compareça
ao gabinete do marechal Wamsler...
Lydia levantou-se e estendeu a mão a McLane.
— Obrigada pelo jantar — disse ela. — Na próxima oportunidade,
eu vou à forra!
— Não é preciso. Queria dizer mais alguma coisa?
Lydia exibiu uma expressão maliciosa.
— Queria, sim. Não olhe para mim com um sorriso exagerado
senão o seu oficial de segurança acaba pensando que você está
apaixonado por mim. Isto seria uma desgraça!
— É mesmo! — disse McLane e retribuiu o aperto de mão.
Sentou-se novamente e ocupou-se com o conteúdo do seu copo.
Como se sentia extremamente sociável, resolveu que poderia muito
bem conversar com Tamara. Mas só ele e ela. Apanhou o copo, no
qual havia apenas três milímetros de álcool, levantou-se e deu dois
passos para a esquerda. Becker levantou-se rapidamente e bateu
continência.
— Descansar! — disse McLane, em tom jovial. — Diga-me uma
coisa, tenente. Como vai a leitura obrigatória? Já releu aqueles dois
capítulos do Hammersmith?
Um pouco aturdido, Becker respondeu:
— Ainda não, major McLane. Ainda não reli!
Cliff acenou com uma expressão sombria.
— Mas devia ter relido! — disse, em tom severo. — É preciso
aprender cada vez mais a respeito desses assuntos psicológicos. O dia-
a-dia mostra essa necessidade!
Virou-se para Tamara e continuou:
— Mas não é mesmo uma coincidência, encontrá-la aqui? Estava
crente que, neste momento, estivesse examinando o regulamento de
serviço para ver com que coisas agradáveis poderia me encher a
paciência nos próximos vinte dias!
Tamara permaneceu impassível e estendeu-lhe o copo vazio.
— Não vai me oferecer um drinque? — perguntou.
— Qual é a velocidade nos pólos, major?
Cliff encarou Becker. A expressão do jovem oficial era um misto
de perplexidade e indecisão.
— Antes que me esqueça — disse Cliff, pronunciando as palavras
com clareza — o senhor deve apresentar-se imediatamente ao general
Van Dyke. Lydia ficou com pena de interrompê-los e me encarregou
de lhe dar o recado.
Becker franziu a testa e perguntou, surpreso:
— Como assim? Eu não pertenço ao comando do general Van
Dyke?
McLane encolheu os ombros sob o elegante uniforme de noite.
— Só me coube transmitir o recado — disse, em tom displicente.
— Parece que se trata de uma missão especial ou de uma daquelas
operações destinadas ao treinamento de oficiais jovens. É só o que sei.
Becker deu-se por vencido e desapareceu, rápida e
silenciosamente,
McLane sentou-se em frente a Tamara que lhe lançou um olhar de
censura.
— Sente prazer em tapear um jovem oficial desta maneira, major?
— perguntou aborrecida.
McLane respondeu, serenamente:
— Todos nós já fomos jovens alguma vez e tapeados da mesma
forma. Tudo isso faz, por assim dizer, parte do serviço na gloriosa
frota.
Tamara sacudiu a cabeça diante de tanto sangue-frio.
— Eu não sei bem se está com a razão... Parece que a sua
despedida de Lydia não foi nada fácil.
— Isto mesmo! — respondeu McLane e apontou para os dois
copos vazios. — Simpatizamos um bocado um com o outro. Dizem
que isto pode acontecer mesmo entre oficiais de postos diferentes.
— Ah! Ah! Ah! — fez Tamara. — O limpador de projetores e a
princesa, segundo Hammersmith!
— Logo quem faz uma observação destas! — respondeu McLane
e ergueu o copo para fazer um brinde a Tamara. — Está sentada aí,
fornecendo assunto para os sonhos de oficiais jovens!
— E você?
— Era como se eu estivesse a bordo da Orion — disse Cliff, bem-
humorado. — Já que quer saber: minha conversa com o general Van
Dyke girou exclusivamente em torno de assuntos relacionados com o
serviço!
— É uma outra maneira de interpretar o que realmente houve —
constatou Tamara, um pouco insegura. — Felizmente o senhor aqui
não tem qualquer poder de comando, major! Por isso, não lhe deve
fazer a menor diferença saber com quem, por quanto tempo e por que
eu estou sentada aqui. E também não lhe interessa saber se eu bebo
muito ou pouco!
McLane olhou fixamente para o rosto de Tamara.
"É o velho problema", pensou. Alguma coisa nessa mulher o atraía
mas, ao mesmo tempo, procurava se distanciar dela. O relacionamento
entre eles era uma intricada mistura de reconhecimento, ceticismo,
sonhos e realidade brutal.
— Está enganada! Tudo isto me interessa, e muito! — observou
ele.
— É mesmo?
— É sim! Meu interesse é de ordem pessoal. Sou o comandante da
Orion VIII e você voa comigo. E a próxima vez será amanhã, às 15
horas. De uma certa maneira, preciso tomar conta de você!
— Mas o que é isso, major! Não vai me dizer que está começando
a sentir emoções humanas?
McLane deu um sorriso malicioso.
— Confidencialmente: se eu perdê-la, receio que vou ter que
assinar não dez, mas cinqüenta relatórios de perda total. Mas não se
aflija. Dentro de poucos dias estaremos todos sofrendo de um acesso
de delírio espacial de dimensões planetárias.
— Delírio espacial? Por quê?
— É o que se pode apanhar naquela região em torno da estação
Destroy II. Meu colega Alonzo Pietro esteve lá... em Dez/Leste 359 a
362... É o que acabou de me relatar o general Van Dyke. Não creio
que a nossa nave vá se constituir numa exceção. Receio que vamos
enfrentar sérias dificuldades.
Tamara sacudiu energicamente a cabeça.
— Não há mais ninguém na estação Destroy II que pudesse ficar
biruta. Parece que seu general não está a par dos últimos
acontecimentos. Há uns dois meses, todo o serviço nessa estação é
executado exclusivamente por robôs.
— Robôs? Em Destroy II? — perguntou McLane, espantado.
— Isto mesmo! Modelos especiais, caríssimos!
— É o que me faltava! — disse Cliff. — Sabe que amanhã vamos
partir para Destroy II?
— Sei, sim! — disse Tamara. — O emprego desses robôs foi
mantido em segredo pelo SSG.
— Tenho certeza que isso é obra do seu chefe Henryk Villa! —
disse Cliff lentamente e com clareza. — Por que será que o Serviço de
Segurança Galático não se preocupa com assuntos mais imediatos?
Tamara encolheu os ombros.
— Será que o serviço de segurança não tem outras preocupações?
— perguntou McLane, com raiva.
— Tem sim! — afirmou Tamara com um sorriso meio velado. —
Preocupa-se com a sua saúde, major!
— Está brincando! — exclamou McLane e lançou um olhar de
censura para Tamara.
— Não estou, não! Por causa deste caso de delírio espacial, que
dizem ter constatado, vamos ter que levar um médico a bordo. Um
psicodinâmico. Ordens do SSG!
Cheio de amargura, McLane comentou.
— Continuam a tomar resoluções sem me consultar! Todo mundo
sabe de tudo, menos eu!
— Tive a incumbência — disse Tamara — de lhe informar a
respeito disso hoje de noite, comandante.
McLane levantou-se e acenou para o garçom.
— Minha paciência está chegando ao fim! — disse ele, e pagou a
conta. — Se as coisas continuarem assim, peço a minha exoneração.
Aí você vai ficar desempregada e Hasso vai finalmente poder testar
seu novo equipamento de mergulho; ou criar ostras. Posso levá-la para
casa?
— Pode, sim! — disse Tamara. — Afinal de contas, amanhã
recomeça o serviço!
— Certo! — confirmou McLane e riu. — E vai poder mostrar de
novo a sua verdadeira face, Tamara!
Ambos não imaginavam que estas observações jocosas se
pudessem transformar em terrível realidade.
4

QUINZE horas e trinta segundos...


O reluzente disco prateado da Orion VIII elevou-se verticalmente
do redemoinho, aumentando constantemente a velocidade. Através do
céu azul, sem nuvens, a nave deslocou-se para a direita, ligeiramente
inclinada. A baía de Melville e Saumlaki, na ilha de Tanimbar,
ficaram para trás. Depois, os contornos tornaram-se difusos e
confluíram para formar aquele mapa multicolorido em alto-relevo.
Nuvens passaram pelo quadro. A seis mil metros, um vento
atmosférico balançou a Orion imperceptivelmente. Em seguida, a nave
percorreu uma trajetória ascensional e penetrou na escuridão do
espaço cósmico. A Estação Avançada IV assumiu.
— Nave espacial Orion sob comando do major McLane —
anunciou-se Cliff.
— Confirmação: coordenadas do alvo Dez/Leste 361. Seu objetivo
final é a estação Destroy II; aproximação visual. Tempo de vôo
aproximado: duzentas e trinta horas. Desligo.
— Confirmação entendida. Desligo.
A Orion prosseguia no seu vôo vertiginoso. Havia sete pessoas a
bordo.
Cliff McLane sabia que estava empreendendo uma missão
perigosa. Pensava em Alonzo Pietro e seu estranho comportamento.
O professor Basil Sherkoff:
Um novo hóspede a bordo.
Era um homem calmo, de seus quarenta e cinco anos de idade,
olhos ágeis, que não paravam um instante sequer.
Nada lhe escapava e tinha-se a impressão de que era capaz de
formar, em questão de segundos, uma opinião concreta a respeito
daquilo que tinha visto. O rosto bem talhado e emoldurado pelo cabelo
castanho, ligeiramente grisalho nas têmporas, fazia de Sherkoff um
homem de boa aparência. Ao menos na opinião de Helga.
— Minha presença a bordo não é do seu inteiro agrado, não é,
comandante?
A voz de Sherkoff era agradável; sua pronúncia era a de um
cientista habituado a falar longa e intelegivelmente.
McLane rosnou:
— Ora, não diga isso; pessoalmente não tenho nada contra o
senhor. O que me aborrece é que, desde que fui condenado a servir na
Patrulha Espacial, cada qual faz comigo o que bem entende. Nem
mesmo me perguntam o que eu acho a respeito de uma missão.
Sherkoff riu levemente e levantou-se.
— Eu também só recebo ordens, comandante! — disse, como que
se desculpando.
A voz de Tamara veio dos fundos da cabine.
— É que o major afirma, professor, que não pode assumir mais
responsabilidades e, portanto, tomar conta de um médico. Acha que,
comigo a bordo, a sua capacidade já está esgotada. Ele já falou até em
pedir sua baixa do serviço ativo...
— Quer fazer o favor de calar a boca, sim? — pediu McLane.
Sherkoff pigarreou e enfiou a mão por dentro da jaqueta, que
encobria uma camisa cujos botões estavam pregados numa barra
rendada.
— No entanto, o que acontece é exatamente o contrário, major! —
respondeu Sherkoff. — Eu é que sou responsável pelo senhor e sua
tripulação. Ao menos, oficialmente. Proponho-lhe uma solução que
deve satisfazer a ambos. Vamos assumir uma responsabilidade
conjunta, quer dizer, vamos tomar conta uns dos outros. De acordo,
major?
— Por mim, que seja! — respondeu McLane.
Do seu lugar, junto à unidade de entrada do computador, Mario
disse:
— Até a hora do embarque, nós pensávamos que íamos levar a
bordo um daqueles homenzinhos eruditos, de cabelos brancos. No
entanto, tivemos uma surpresa agradável.
— Obrigado! — disse Sherkoff, e fez um aceno de agradecimento
para Mario. McLane iniciou uma conversa, conduzida em tom meio
carregado.
— O senhor é especialista em cérebros, professor? Deve ser uma
atividade interessante!
— É bastante interessante e não é isenta de aventuras. É quase tão
emocionante como a profissão de um comandante de nave espacial.
— Espere um pouco... — discordou Atan, gesticulando. — Afinal,
deve haver algumas diferenças substanciais, meu caro professor!
— É possível! — respondeu Sherkoff.
— Já ouviu falar daquele caso da Xerxes? — perguntou McLane.
— O caso que envolveu Alonzo Pietro, o comandante da nave?
— Esse mesmo! — respondeu Cliff.
— Eu li os relatórios e assisti a algumas das investigações.
— E o que o senhor acha desse caso?
Tamara Jagellovsk saltou da sua escora predileta e aproximou-se.
A conversa estava começando a interessá-la. Sherkoff sacudiu os
ombros, num gesto indeciso.
— Os relatórios não revelam muita coisa. Ao menos, nada que
pudesse me levar a seguir uma determinada pista. A coisa continua
mais ou menos um mistério.
McLane observou os instrumentos, que acusavam um constante
aumento da velocidade. Ainda levaria uma hora até que a nave
mergulhasse no hiperespaço.
— Como assim? Então Pietro não confessou tudo, como dizem?
Sherkoff recostou-se pesadamente contra o canto da mesa de
comando e observou a imagem da tela central.
— E daí? Essa confissão não provou nada! Além disso, as
investigações ainda não foram terminadas. Até agora, está-se propenso
a admitir uma deserção de livre e espontânea vontade e a explicar o
caso dessa maneira.
McLane explodiu.
— A Comissão ficou maluca! Jamais Pietro faria uma coisa
dessas!
— Por que isso seria tão impossível assim, comandante? —
perguntou Tamara e colheu um olhar ameaçador de McLane.
— Estaria muito interessado na opinião de homem prático, Cliff!
— disse Sherkoff. — Conseguiu formar uma opinião própria a
respeito deste caso?
— Há alguns pontos que eu gostaria de enumerar — disse Cliff
lentamente. — E cada um deles tem a sua razão de ser. Em primeiro
lugar: os estranhos vivem num ambiente inteiramente desprovido de
oxigênio ou, ao menos, numa atmosfera de composição
completamente diferente da nossa. Sem considerar a possibilidade de
viver anos enfiado num traje espacial. Este fato, por si só, já
significaria a morte certa para Alonzo.
"Em segundo lugar, os estranhos têm necessidade de se apoderar
de naves e seres humanos para obter conhecimentos básicos das
condições de vida dos seres adversários. Qualquer homem
medianamente inteligente pode imaginar que todos que caírem nas
mãos daqueles sujeitos serão mortos e autopsiados, sem mencionar os
intermináveis interrogatórios a que seriam submetidos antes disto. Em
terceiro lugar, uma raça estranha, que apresenta mortos como
argumentos básicos para uma negociação, veja o caso MZ-4,
dificilmente vai poder ser convencida com os meios da razão ou da
boa vontade. Pietro não teria tido uma única vantagem. Acredita
seriamente que estava querendo morrer?"
Sherkoff sacudiu lentamente a cabeça.
— Não deu esta impressão nem por um segundo!
— Está vendo! — respondeu Cliff num tom de inteira convicção.
— Alguma coisa deve ter mudado o seu modo de raciocinar —
observou o professor, pensativo. Os seus dedos brincavam com o
fecho retangular da jaqueta. — O que mudou, ainda não conseguimos
descobrir. Agora, a maneira pela qual foi mudado...
— Sim...? — perguntou Cliff, cheio de maus pressentimentos.
— É a razão pela qual me encontro, agora, a bordo desta nave.
— O quê? — gritou Helga Legrelle e girou a poltrona para poder
olhar melhor o professor. — Quer dizer que nós somos as suas
cobaias?
— Sob certo ponto de vista, são!
A voz de Hasso veio alta e nítida da tela do videofone, que
comunicava a sala de máquinas com a cabine de comando:
— O seu senso de humor é fora de série, professor!
Em seguida, sacudiu a cabeça; ainda não podia acreditar no que
tinha ouvido. Pouco depois a Orion VIII efetuou o seu primeiro salto
no hiperespaço.
***
Ao longo da mais extensa fronteira já estabelecida por seres
humanos, encontrava-se um sem-número de estações dos mais
diversos tipos. E todas elas não existiriam, com raras exceções, se os
homens não tivessem encontrado, a quatrocentos e cinqüenta parsec
de distância da Terra, em qualquer direção, o material de construção
necessário para estes postos de observação.
E este material existia em grande quantidade. Eram as luas.
A esfera espacial não era muito rica em estrelas e também não
continha grande quantidade de planetas. Mas o que as primeiras naves
cartográficas encontraram foi uma abundância de satélites menores.
Luas de todos os diâmetros, de dez metros a mil quilômetros. A
tecnologia proporcionou os meios para retirar essas luas das suas
órbitas e transportá-las para outros lugares. MZ-4 era uma lua dessas.
E a estação Destroy II, uma outra. E essa lua, uma esfera rochosa de
dois quilômetros de diâmetro, pairava no negrume do universo, longe
de qualquer planeta e de qualquer sol.
Apenas um sistema de antenas negras e uma cúpula escura
interrompiam a monotonia das fendas e gretas desta rocha. O satélite
tinha sido trazido para este local com um único fim. Proteger a Terra.
Suas antenas eram capazes de localizar qualquer objeto que fosse
maior do que um asteróide e que passasse a uma distância de cinco
anos-luz.
Os computadores digitais conseguiam definir, em um milésimo de
segundo, se o objeto localizado era de fabricação terrana ou não.
E os canhões de raio laser podiam destruir esse objeto se ele não se
identificasse. Agora, esta estação estava guarnecida por robôs.
Máquinas de precisão para tarefas de precisão.
Comunicavam-se entre si por radiofonia e era por impulsos
radiofônicos que operavam a maioria dos instrumentos ali instalados.
E a esta lua, ainda a uma distância de quatrocentos parsec, dirigia-se a
Orion VIII. McLane não sabia o que os esperava lá...

***
Nove dias mais tarde:
A Orion emergiu do ambiente cinzento do hiperespaço retornando
ao espaço normal. O firmamento estava cheio de estrelas; constelações
familiares apareciam nas telas. À frente, em algum lugar, devia
encontrar-se a estação Destroy II. Atan vasculhou as imediações com
os radares e finalmente captou um minúsculo impulso.
— Objeto enquadrado! — disse ele. — Está exatamente sobre a
trajetória!
Cliff corrigiu o curso de alguns traços dos instrumentos e
prosseguiu em direção àquele minúsculo ponto luminoso que se
destacava sobre o monitor acima do painel de comando.
— Do comandante para livro de bordo: estamos nos aproximando
de um objeto. Ainda não podemos afirmar que seja Destroy II.
Distância?
— Nove minutos-luz.
A nave deslocava-se com, mais ou menos, a metade da velocidade
da luz. Isto significava que, dentro de uns vinte minutos, o objeto seria
alcançado.
— Do comandante para o telegrafista: emitir sinal de teste!
— Do telegrafista para o comandante: entendido! — respondeu
Helga e procurou o sinal correspondente no manual.
A Orion correria perigo caso se aproximasse daquele satélite sem
emitir o impulso de identificação. Helga irradiou o impulso e ficou
aguardando. Em seguida veio a contrachamada automática.
— Do telegrafista para o comandante: fomos identificados!
— Está bem!
Cada palavra e cada movimento da nave eram registrados pelo
livro eletrônico de bordo. Dessa maneira tinha sido possível descobrir,
posteriormente, as manobras de Alonzo Pietro.
Mas um comandante experiente como McLane conhecia uma
porção de truques para ludibriar o livro de bordo; e Pietro também os
conhecia. Por isso, Cliff não acreditava que Alonzo quisesse desertar
voluntariamente. A nave, agora manobrada com os controles manuais,
reduziu a velocidade e aproximou-se da estação.
— Vou transferir uma ampliação para a mesa de comando — disse
Atan.
A imagem do asteróide apareceu na tela central. Sua massa
encobria um trecho circular do céu; fora isso, não se via nada. Uma
excelente camuflagem: preto sobre preto.
— Distância: três segundos-luz! — avisou Cliff em voz alta.
Com exceção de Hasso, toda a tripulação, inclusive Sherkoff,
encontrava-se na sala de comando. Hasso continuava a cuidar das suas
preciosas máquinas. Ao longo da sua carreira, ele já tinha conhecido
oito séries de construção de naves do tipo da Orion. McLane
comandava a sua oitava nave. As sete outras tinham sido destruídas
das maneiras mais diversas.
Lentamente, a Orion aproximou-se do satélite, com as máquinas
desligadas.
— Cento e cinqüenta mil quilômetros. Começavam a reconhecer
os detalhes. As rochas mais altas destacavam-se das demais, brilhando
fracamente na luz das estrelas distantes. Na curvatura da cúpula e ao
longo dos compridos tubos das antenas, cintilavam pequenas luzes;
eram visíveis também em torno da entrada circular da rede de
cavernas da estação.
— O que me comove é a incrível variedade da iluminação — disse
Cliff, admirado. — Nem mesmo luzes de posição infravermelhas!
Está tudo muito bem oculto.
McLane acendeu um jogo de faróis de pouso.
Uma zona foiciforme de rocha negra foi arrancada da escuridão.
Cada vez mais rochas e superfícies pétreas apareceram. O aparelho
radiofônico, que Helga tinha ajustado para o canal da estação,
silenciava. Todos sabiam que, por baixo daquelas rochas
ilusoriamente maciças, havia escotilhas de aço. Se fossem abertas,
transformariam aquele corpo rochoso num ouriço cujos espinhos eram
raios laser. E destruiriam, com indiferença mecânica, tudo o que o
computador digital classificasse de inimigo.
— Do comandante para telegrafista: estabeleça uma comunicação
com os robôs de guarda!
Helga ajustou o aparelho transmissor e depois apertou um botão.
Se McLane falasse agora no microfone, podia comunicar-se
diretamente com as máquinas na estação.
— De telegrafista para comandante — disse Helga. — Contato
estabelecido, pode falar!
Aparentemente, o professor Sherkoff não estava pela primeira vez
na vida a bordo de uma nave cuja tripulação evidenciava um
entrosamento tão perfeito. Parecia não se impressionar com a rapidez
e precisão das operações que se sucediam.
— Orion VIII chamando Destroy II! — disse McLane com voz
incisiva.
A nave estava apenas a trezentos metros daquela bola rochosa. A
tela central circular já era insuficiente para mostrar a estação toda. A
imagem consistia de uma linha fortemente curvada, por cima da qual
luminesciam as estrelas. O outro lado mostrava o reflexo da luz dos
faróis de pouso da nave.
— É curioso! — disse Mario que tinha se postado atrás de Cliff.
— Orion VIII chamando estação Destroy II! — repetiu McLane.
— Dentro de um minuto vamos acostar a lua. Abram o poço de acesso
à estação e liguem o abastecimento de oxigênio!
Nenhuma resposta.
— Comandante para telegrafista: sua caixinha eletrônica está com
defeito, Helga? — perguntou McLane, impassível.
— De telegrafista para comandante: de forma alguma. Está
funcionando perfeitamente bem!
— É misterioso! Sherkoff riu baixinho.
— Parece que o comitê de recepção é constituído todinho por
surdos-mudos! — comentou.
— Pior do que isso! É constituído por robôs! — disse Cliff. —
Não faz idéia como eu adoro esses homenzinhos de lata!
Cliff raciocinou febrilmente. Parecia impossível que nestas
condições ambientais os robôs tivessem entrado em colapso. Aqui não
precisavam realizar duros trabalhos de mineração, nem estavam
sujeitos às incessantes vibrações de enormes máquinas. Locomoviam-
se em recintos temperados, executando tarefas bem mais leves.
Ligavam e desligavam outras máquinas, tratavam da manutenção e,
além disso, não estavam ali há muito tempo. Eram, por assim dizer,
novinhos em folha.
— O que vamos fazer, Cliff? — perguntou Mario, aborrecido.
— Vamos tentar novamente!
Mais uma vez Cliff agarrou o microfone e disse:
— Estação Destroy II! A nave Orion solicita resposta imediata!
Confirmação do chamado! O que está acontecendo aí?
Apenas o fraco ruído da estática emanava dos alto-falantes. Fora
isso, nada. Nenhum estalo, nenhum impulso, nenhum sinal, nenhuma
voz gravada.
— Repito: respondam à nave Orion! É urgente!
— Alguém já ouviu falar em robôs dorminhocos? — perguntou
Tamara, que tinha voltado ao seu lugar cativo junto da escora.
— Tão pouco como de agentes inatentos do SSG! — respondeu
Cliff, num animado tom de conversação. — Eu não sei que
perturbação está ocorrendo lá!
— Proponho acostar logo. É claro que podemos entrar sem auxílio
dos robôs! — disse Hasso, que tinha ouvido as palavras do
comandante através do intercomunicador de bordo.
— Está bem, vou pousar a nave!
Cliff aproximou o disco e virou-o de tal maneira que o elevador
telescópico tocaria o solo horizontalmente, bem perto da entrada.
Apagou todos os faróis de pouso, com exceção de um único, que
continuou a iluminar a pequena praça.
A nave já não possuía mais qualquer impulso cinético próprio e
Cliff ativou possantes raios magnéticos, que ancoraram a Orion num
pedaço de rocha.
Manobras desse tipo tinham que ser realizadas com extrema
cautela porque a nave poderia alterar a trajetória do asteróide.
— Preparem os trajes espaciais! — ordenou Cliff.
— Entendido!
Depois Cliff tentou estabelecer novo contato com a Destroy II.
Desta vez, parecia ter mais sorte.
5

O RECINTO era de tamanho médio, uma sala cilíndrica de uns


quinze metros de diâmetro por seis de altura. As paredes eram
revestidas com peças feitas de um plástico altamente elástico, que
brilhava numa cor bronzeada. A estrutura superficial assemelhava-se a
um padrão constituído por minúsculos corpos piramidais. Somente as
escalas de numerosos instrumentos luminesciam; a iluminação era
suficiente para os olhos altamente sensíveis dos robôs. Baterias de
energia... Instrumentos de medição... vinte e cinco gigantescos
aparelhos de radar, ainda equipados para manejo de mãos humanas,
emitiam uma luz verde e fria e apresentavam os ofuscantes pontos
amarelos das estrelas.
Uma parte da parede oposta à entrada estava literalmente coberta
por escalas e faixas luminosas. As inscrições, em letras negras, que
normalmente designavam os diversos instrumentos, tinham sido
substituídas por símbolos matemáticos e por grupos simbólicos
característicos, aos quais a psique eletrônica das máquinas reagia.
Norteados pelas disposições das três leis do robô, essas máquinas
zelavam pelo bem-estar dos homens. Ou melhor dizendo: não
estavam zelando.
Uma abertura na parede dava acesso a um corredor circular, que
conduzia a uma outra parte da instalação escavada na rocha. Duas
comportas vedavam outros corredores. Diante de um painel de
comando flutuavam dois robôs. Pareciam inertes... paralisados. Um
silêncio sepulcral reinava na estação, que devia estar ressoando dos
ruídos variados dos instrumentos em funcionamento. A voz, que vinha
dos alto-falantes, explodiu na sala.
— Repito: respondam à nave Orion! É urgente!
E novamente aquele silêncio mortal dominava o recinto. Mas tudo
se modificou numa fração de segundos. O radar apresentou o pequeno
círculo da nave espacial. Sinais luminosos começaram a se deslocar;
ponteiros oscilaram violentamente e relógios voltaram a funcionar. E,
de repente, aquelas duas máquinas começaram a se mexer. Eram robôs
do tipo Supervisor.
Suas garras fecharam-se em torno das alavancas e as deslocaram...
A entrada fechada da estação era visível na tela central. Longos
segundos se passaram e nada aconteceu. As máquinas no interior da
estação não se mexiam. Mais uma vez Cliff gritou no microfone.
— Orion VIII chamando Destroy II! Abram imediatamente a
entrada! Urgente!
Um estalido agudo emanou dos alto-falantes.
— Mario, o que está acontecendo? — perguntou Cliff.
— Não sou vidente! — respondeu o subcomandante — Quando
muito, posso arriscar um palpite.
— Pode me explicar por que os robôs não respondem?
— Provavelmente há um defeito na ligação do aparelho
radiofônico.
Helga não concordou:
— Besteira! — disse ela. — Essas máquinas localizam e
consertam um defeito em três tempos. São muito mais rápidas do que
qualquer um de nós.
— Há alguma coisa de errado, comandante? — perguntou o
professor Sherkoff, preocupado.
Cliff apontou para o quadro sem vida que o holofote ligado estava
iluminando.
— Não tenho a menor noção, Sherkoff. Depois berrou no
microfone:
— Alô! Orion chamando Destroy II! Desta vez, parecia que algo
estava se mexendo. Sinais curtos e duros emanavam dos alto-falantes.
— Agora peguei o raio-piloto! — avisou Atan. — Está bem
ajustado. Só que não precisamos mais dele!
Cliff McLane ainda estava inquieto; mas decidido a descobrir a
razão dessa perturbação. Afinal, acreditava conhecer razoavelmente
bem as manias dessas máquinas.
— Parece que, finalmente, os robôs acordaram! — disse ele,
baixinho. — Só gostaria de saber o que os fez retornar à atividade!
— Provavelmente os seus berros! — respondeu Tamara, com
ironia.
— Podemos desembarcar agora? — perguntou Sherkoff.
— Sim, podemos. Mas não sem os trajes espaciais. Está com
medo?
— Estou um pouco receoso, sim. É uma situação inteiramente
nova para mim.
Mario e Helga retiraram-se da cabine para vestir os trajes
espaciais. Tamara os seguiu.
— O senhor suportou muito bem os nove dias de vôo através do
espaço cósmico — disse Cliff e desligou alguns setores da Orion. —
Por isso, não creio que vá achar o passeio pela estação muito fatigante.
Olhou para cima e viu o rosto de Hasso na tela.
— Comandante para casa de máquinas: manter nave em posição;
deixar campos magnéticos ligados.
— Entendido! — respondeu Hasso através do sistema de
intercomunicação de bordo.
— Quer que eu avise a Estação Avançada IV do nosso pouso, ou
melhor, do nosso acostamento, Cliff? — perguntou Atan, sentado
atrás do radiogoniômetro.
— Avise-os, por favor! — disse Cliff. Atan levantou-se e ocupou a
cadeira de
Helga diante da mesa do rádio. Em seguida emitiu a lacônica
mensagem através do transmissor hiperradiofônico para aquela
estação. De lá, foi retransmitida para a Central de Computação na
Terra e devidamente arquivada. Era apenas mais uma informação
rotineira da Orion VIII. Hasso comunicou:
— Da casa de máquinas para o comandante: Nave ancorada. As
máquinas estão desligadas. Pode baixar o elevador.
— Obrigado, Hasso! — disse Cliff. — Vamos desembarcar.
— Vou tratar de separar os caixotes que contêm as peças do
Overkill — disse o engenheiro de bordo.
— Perfeito. Conhece os números dos caixotes destinados a
Destroy II?
— De cor e salteado! — respondeu Hasso.
Cliff, Atan e Sherkoff estavam na cabine de comando.
Entreolhavam-se. Depois, como que obedecendo a um comando,
olharam para a tela circular. A comporta da escotilha continuava
fechada; as máquinas ainda não tinham obedecido às ordens de
McLane.
— Vou tentar pela última vez! — disse Cliff, aborrecido, e tornou
a ligar o microfone no transmissor.
Depois emitiu uma rápida seqüência de instruções para os robôs.
— Orion chamando Destroy II! Exijo confirmação urgente!
Um longo uivo fez-se ouvir.
— Até que enfim! Ativar imediatamente a instalação de oxigênio
em toda a estação! Ligar a calefação das salas e fechar todas as
escotilhas! Abrir comporta externa! Destacar dois robôs tipo Worker
para apanhar os caixotes! Entendido? Espero confirmação!
Mais uma vez ouviu-se aquele uivo.
— Gozado! — disse Atan, mais do que admirado. — Será que não
existe uma única fita automática que nos responda?
— Eu também não estou entendendo isto — finalizou McLane e
calcou alguns botões. — Agora vamos aos camarotes apanhar os trajes
espaciais. Sabe como vestir o seu, professor?
Sherkoff acenou, mas o gesto saiu meio inseguro.
— Não se preocupe, que vou ajudá-lo — prometeu Cliff.
Pegaram o elevador e desceram ao convés dos alojamentos. Pouco
depois, estavam nos camarotes e abriram os armários especiais,
destinados à guarda dos trajes espaciais, previamente inspecionados.
Eram de um tipo novo, bastante leve. Minutos após, seis pessoas,
envergando trajes claros e carregando caixas com ferramentas
voltaram à cabine. Todos os membros da tripulação, inclusive Tamara,
estavam armados. O pesado projetor HM-4 pendia dos cintos. Atan, o
último a entrar, fechou a porta do elevador e Cliff apertou o botão de
descida. Os elementos telescópicos do elevador, semelhantes a um
enorme periscópio, estenderam-se. Finalmente, os contatos da
plataforma tocaram o solo rochoso, rente à escotilha da entrada.
— Temos gravitação artificial lá fora? — perguntou Cliff, através
dos fones do capacete.
— Nas imediações da eclusa, sim! — respondeu Mario. — É
gerada por um servo-motor automático que independe das máquinas.
O elevador parou e Cliff abriu a porta. Estavam diante do vácuo do
universo, em contato direto com o cosmos, aquela escuridão permeada
de minúsculos pontinhos luminosos... Após alguns passos em direção
à eclusa, começaram a sentir os efeitos daquele campo de gravitação
artificial. Do alto vinha a luz do holofote.
— Vamos! — disse Cliff.
Sentiu que o seu corpo estava sendo atraído por aquele ilusório
plano horizontal do chão do asteróide e percorreu os poucos metros
que o separavam da rampa, situada por trás do teto da eclusa. As
luminárias emitiam uma luz suave. Os outros membros da tripulação
seguiam o comandante. Depois, Hasso fechou a porta do elevador por
meio do controle remoto. Os elementos telescópicos recolheram-se e o
elevador desapareceu no bojo da nave. Em seguida, ele abriu a
escotilha do compartimento de cargas; já tinha separado os caixotes
destinados a Destroy II. Cliff parou diante da segunda porta da eclusa,
que se recolheu lateralmente e depois voltou à posição inicial. Assim
que os contatos magnéticos se encaixaram, a porta interna se abriu. Os
microfones externos transmitiram o chiado do ar que penetrava no
recinto.
— Eles escutaram! — disse Cliff, baixinho. — Vamos entrar!
Entraram e toparam com dois robôs do tipo Worker. Não se
moviam, mas pareciam aguardar alguma ordem. As seis pessoas
passaram entre os robôs e enveredaram por um longo corredor que
descia suavemente. Aquela força de atração artificial ainda fazia sentir
os seus efeitos; equivalia a 80% da terrana.
Mario apontou para a frente e disse:
— Lá deve ficar a sala de controle!
Cliff McLane conhecia os sintomas; sentia algo de misterioso na
estação. Com cuidado, Cliff e a equipe tiraram os trajes espaciais e os
penduraram em ganchos fixados na parede da pequena sala atrás da
eclusa.
O ar era respirável e ligeiramente quente. O estranho
comportamento dos robôs preocupava a todos. E, ainda por cima, essa
calma... em algum lugar, o perigo estava a espreita. Cliff sabia disso;
só não conhecia a natureza desse perigo. Fez um gesto para Mario.
— Vamos adiante! — disse ele e colocou a mão direita sobre o
cabo da arma. — Vamos ver o que está se passando!
Helga, Mario, Atan e Cliff carregavam as maletas com as
ferramentas de precisão, indispensáveis para os trabalhos de
montagem. Seus passos ressoavam duros quando se dirigiam à sala
central da estação. E depois viram aquelas máquinas paralisadas.
Dois robôs do tipo Supervisor flutuavam silenciosamente diante da
mesa de comando. As seis pessoas se dispersaram; observaram
mostradores e escalas. Atan examinou a instalação renovadora e
constatou que havia a quantidade normal de ar em todos os recintos
que agora estavam sendo aquecidos. Ouviam-se os estalos da
serpentina de calefação. Em seguida, Atan dirigiu-se a um dos robôs e
parou diante dele. Cliff aproximou-se e perguntou, baixinho:
— Bem, Atan, onde é que está o defeito?
Atan encolheu os ombros e examinou as lâmpadas de controle
mais de perto.
— Parece que sofre de uma espécie de cansaço, isto é, de relês
gastos.
— Esses modelos novos? É altamente improvável!
Atan apontou para algumas chaves que estavam ao alcance da
máquina. Há muito tempo não tinham sido manipuladas e os
registradores gráficos, semi-automáticos, estavam funcionando à toa.
— Não emitem um som, um sinal sequer, Cliff! Em condições
normais, deviam falar por meio das suas luzes. Ou então, conversar
conosco através das fitas magnéticas.
Cliff aproximou-se mais um pouco e colocou a maleta no piso.
— Não elaboraram o relatório diário, tampouco processaram
quaisquer dados! — constatou.
Havia ar atmosférico no interior da estação, que poderia propagar
ondas sonoras. E isto capacitava estas máquinas, altamente
sofisticadas, a manter conversação com seres humanos. Só era preciso
que emitissem determinados impulsos característicos para os vocodes
que, então, formariam frases dessas palavras soltas e as transmitiriam
através dos alto-falantes. Além disso, a estação era sempre mantida
inundada por algum gás, cuja composição não precisa ser
obrigatoriamente a do ar respirável. Apenas, quando seres humanos
entravam na estação, os robôs procediam à composição correta,
dosando o teor de cada gás componente. E isto tinha acontecido agora.
— Robôs desse tipo são empregados apenas nas estações externas
mais avançadas — explicou McLane a Sherkoff, que estava
observando com interesse o equipamento técnico desta sala. — São
considerados como os mais confiáveis e os menos suscetíveis a
alguma perturbação.
Sherkoff acenou em agradecimento e sorriu.
— Mas não podem ser considerados muito amáveis, não é?
Cliff concordou.
— Caso contrário, já nos teriam cumprimentado!
Virou-se e viu Hasso caminhando atrás de dois robôs do tipo
Worker, que carregavam os pesados caixotes com as peças
desmontadas dos projetores Overkill.
— Escolha duas câmaras de raios laser diametralmente opostas —
disse Cliff. — Verifique se, de lá, os dois canhões podem varrer toda a
extensão da fronteira!
— Se ao menos entendesse um pouco mais da construção dessas
máquinas — disse Hasso, baixinho, e apontou para os robôs
Supervisor. — Mas não tive ocasião de trabalhar com tipos tão
modernos.
— Talvez Atan possa nos ajudar! — disse Cliff.
Atan estava se ocupando com a parte da cabeça de uma das
máquinas e arrepiou-se quando tocou no metal.
— Nem sei onde se localiza a chave principal! — disse ele. —
Preciso dar uma espiada nas plantas dos circuitos desses caras.
Hasso deu uma ordem aos dois robôs trabalhadores e eles se
afastaram com suas cargas: um para a direita e o outro para a
esquerda, passando pelas escotilhas que se abriram e fecharam
silenciosamente.
McLane apontou para um parafuso na cabeça do robô.
— Tente este aqui, Atan! — disse ele.
Shubashi soltou o parafuso-borboleta com os dedos e retirou a
placa de proteção do circuito.
— Você é um sujeito extremamente inteligente! — constatou, e
puxou um condensador do bloco dos encaixes.
— Afinal, quinze anos de serviço no espaço deviam dar em
alguma coisa positiva! — disse Cliff.
Sherkoff riu e disse:
— Já é comandante há quinze anos?
— Quase — respondeu Cliff. Aos dezoito anos, voou pela
primeira vez numa nave espacial; possuía sua patente há doze anos.
Agora, estava com trinta e cinco.
— Mas o senhor não aparenta nada disso, comandante! —
enfatizou Sherkoff.
— A gente faz o que pode! — respondeu Cliff e alisou o queixo.
— De uns tempos para cá, nada mais de interessante acontece aqui na
Via Láctea. Hoje em dia quase todo mundo sabe dirigir uma nave
espacial. E agora, ainda por cima, essa Patrulha Espacial... A gente
chega a pensar que é um cadete.
Cliff não queria intranqüilizar a tripulação mais que o necessário.
Reparou que os outros estavam sendo afetados pela calma aparente e a
ameaça oculta nessa lua oca.
— Cliff! — disse Atan, de repente.
Cliff estava de costas para as duas máquinas. No instante em que
Atan recolocou o condensador, a máquina girou cento e vinte graus e
deslizou com incrível rapidez em direção a Cliff. Dois dos seus braços
fecharam-se sobre a cintura de McLane, num aperto violento.
— Cuidado! — gritou Mario e sacou o projetor. — Ele está
atacando!
Cliff tentou desvencilhar-se daquele abraço. Sentiu que o tecido do
traje rasgou e conseguiu escapar, afastando-se, cambaleante, alguns
passos daquelas articulações que o podiam estraçalhar.
— Atire nele! — gritou Atan e saltou sobre a máquina, enfiou a
mão na cabeça ainda aberta e arrancou novamente o condensador. —
Está totalmente perturbado! — disse, ofegante, e olhou para aquela
peça na sua mão.
Mario ainda estava apontando o projetor destravado sobre o robô;
também Cliff tinha sacado a arma. Imóvel, o Supervisor flutuava
diante deles.
— Caramba! — sussurrou Cliff; sua voz soava alta naquele
silêncio. — Ficou louco! Já é a segunda vez que isso me acontece; e
ainda há quem diga que se pode confiar mais nos robôs do que nos
seres humanos!
Sherkoff virou-se, hesitante, para o comandante.
— Como... como isto pôde acontecer? — perguntou.
Cliff estava perplexo. Novamente sentiu o perigo que rondava o
satélite. Espreitando ele e sua equipe.
— Não sei dizer o que houve! Tamara, pode dar uma explicação?
Ela deu um leve aceno com a cabeça.
— Só vejo duas possibilidades. Ou eles nos encaram como
intrusos indesejáveis e, nesse caso, a perturbação se localiza no
sistema de identificação em frente ao cérebro, ou então sofrem
também de uma neurose, como aquelas máquinas de mineração em
Pallas Beta.
— Os modelos Supervisor são os mais perfeitos que produzimos
no momento!
— Mas quanto maior a complexidade do seu mecanismo, tanto
maior também a sua suscetibilidade a tais perturbações — explicou
Tamara.
— Como o senhor vê — disse o comandante a Sherkoff — o termo
aplica-se indistintamente aos robôs e aos homens. Designamos por
neurose também o raciocínio mecânico perturbado.
— Vá lá! — respondeu Sherkoff.
— O senhor tem alguma objeção? — quis saber McLane.
— Tenho, sim. Hoje em dia qualquer criança sabe que mesmo um
robô perturbado não pode infringir a primeira lei dos robôs sem uma
razão imperiosa, que o leva a agredir um homem da maneira que todos
vimos. Não acha que há algo mais atrás disso?
— Acredita então que alguém está influenciando este tipo de robô?
Pois aqueles dois do tipo Worker obedeceram perfeitamente às ordens
de Hasso! — respondeu Cliff, meio descrente.
— Estou quase certo disso! — disse o professor. — E não vejo
outra alternativa.
Cliff esforçou-se para não deixar transparecer que estava
assustado. Alguém capaz de influenciar uma das máquinas mais
complicadas — e de maneira tão decisiva que infringiam
tranqüilamente a tão rigorosa primeira lei — era, na verdade, um
inimigo poderoso. Nada estava ainda provado, mas a possibilidade
existia. Teriam sido mais uma vez extraterranos? McLane virou-se
para Atan Shubashi.
— Atan... desligue as duas máquinas. Shubashi sacudiu
violentamente a cabeça.
— Nem pense nisto! — asseverou, com raiva, e limpou o suor da
testa. — Tamara, naquela última recepção que Cliff deu, a senhora
não contou que tinha comprado um livro a respeito da vida interior
dos robôs e que havia memorizado os trechos mais importantes? É
verdade isso?
Tamara aproximou-se lentamente e parou entre as duas máquinas.
— Você conhece os elementos de ligação dos modelos
Supervisor? — perguntou Cliff, apressadamente.
— Mais ou menos! — disse Tamara, e começou a desaparafusar a
placa de proteção da segunda máquina.
— Então faça-me o favor de desligar esses dois robôs. Mais tarde
vamos ver que peças têm que ser trocadas — disse Cliff, virando-se.
Acenou para Hasso Sigbjörnson.
— Hasso, já montou os projetores Overkill?
— Estão montados! — respondeu Hasso. — O que você quer que
eu faça agora?
— Por favor, volte à nave e assuma a vigilância espacial; assim
que pudermos começar os trabalhos aqui, mando Tamara para cima.
Este lugar está ficando perigoso demais e não devíamos deixar a nave
desprotegida.
— Está falado! — disse Hasso e esperou que a comporta se
abrisse. Depois, vestiu o traje espacial e deixou a estação.
6

TAMARA retirou uma peça de formato cúbico do interior de cada


uma das máquinas. Essas peças estabeleciam a ligação entre o cérebro
ultra-sofisticado e a parte puramente mecânica dos robôs. Colocou os
dois elementos sobre uma das numerosas mesas de comando, e
começou a examiná-los.
— Não consigo encontrar nada! — disse ela, após alguns instantes.
— Vamos ter que nos arriscar a deixar as máquinas desativadas —
disse McLane. — Vá lá que seja. Está pronta?
Tamara ainda examinava os objetos cúbicos em cima da mesa.
— Estou, sim!
— Então vamos ao trabalho. Por favor, volte à nave, sim? Helga e
Atan vão ajustar as conexões para os dois projetores. Depois, Mario e
eu vamos ligar os projetores Overkill aos cabos de comando. De
acordo?
Os outros membros da tripulação concordaram.
— E eu? — perguntou Sherkoff.
— Pode nos acompanhar e observar os trabalhos! — respondeu
McLane e agarrou a maleta de ferramentas.
Cada grupo dirigiu-se ao seu lugar de trabalho. Helga e Atan
desdobraram desenhos de complicados circuitos e examinaram a
confusão de cabos e conexões, surgidos quando tiraram a chapa
dianteira do aparelho de comando dos raios laser.
— Quais são os canhões que devem ser substituídos pelos
projetores Overkill? — perguntou Helga, que segurava um alicate
especial entre os dedos.
— Os de números nove e dezoito — respondeu Atan.
Helga aplicou a ferramenta.
— Um lugar esquisito esta estação Destroy II, você não acha? —
perguntou Atan, de repente, e olhou fixamente para Helga.
— Acho! — disse ela. — Por assim dizer, estou sentindo o cheiro
do perigo. Estamos perto demais da fronteira.
McLane, Sherkoff e Mario voltaram pelo curto corredor e
enveredaram por uma passagem estreita e bastante íngreme. O
professor caminhava ao lado de McLane.
— Ainda acredita numa pane técnica? — perguntou.
McLane pressionou a chave de contato do mecanismo e uma
escotilha de aço deslizou para o alto.
— Eu não sei. Seria coincidência demais! — respondeu.
Pararam diante do pesado caixote e do canhão laser na câmara
nove e examinaram a instalação.
— Esses robôs sofrem de uma neurose inexplicável. Eles não
obedecem às ordens...
— Como se explica isso? — perguntou Sherkoff, em voz alta.
— Vamos tentar descobrir a razão! — respondeu McLane e
agarrou uma chave de parafusos.
— Ao trabalho, Mario! Enquanto eu tiro o projetor da embalagem,
você desmonta o canhão laser.
Sherkoff recostou-se na parede e acompanhou atentamente o
trabalho rápido e concentrado dos dois homens. Nada se ouvia além
dos ruídos das ferramentas e da respiração de Mario e Cliff. O
compacto canhão laser foi desmontado e retirado. A placa de base, em
cima da qual girava, ficou no lugar. O projetor Overkill começou a
tomar formato, peça por peça unidas pelas mãos de Cliff. Por fim,
ligaram os grossos cabos de alimentação e comando. Lentamente,
Mario enrolou os fios de um aparelho de teste. Sherkoff consultou o
relógio.
— Levaram meia hora! — observou ele, McLane acenou e ligou o
rádio de pulso.
— Aqui fala Cliff. Está me ouvindo, Atan?
— Estou, sim! — respondeu Atan, em menos de um segundo.
— Vamos testar o projetor na câmara nove; ligue a energia, sim?
Após uma pequena pausa, Atan respondeu:
— Energia ligada! — Mario olhou para Cliff, riu e ligou o contato
do aparelho de teste na extremidade do condutor.
— Está funcionando! — constatou, orgulhosamente.
***
Enquanto Tamara dormia no camarote, Hasso estava repousando
na poltrona do comandante, de pernas esticadas.
Os aparelhos mais importantes estavam ligados e enchiam a cabine
de comando com o cintilar de suas luzes.
Hasso parecia dormir. Na realidade, encontrava-se naquele estado
modorrento, que caracterizava a vigilância no espaço.
De repente, um som fino e misterioso atravessou a cabine. Tênue e
metálico... como a vibração de uma corda de aço.
Durou três ou quatro segundos. Hasso não acordou; o som era
agudo e sua freqüência devia beirar os quinze hertz. Depois...
novamente aquele som. Hasso piscou. Um forte zumbido ressoou.
Prontamente o engenheiro de bordo da Orion despertou. Assumiu uma
posição atenta e apertou um botão do rádio de pulso. A voz de
McLane fez-se ouvir.
— Alô! Orion, responda!... Hasso, está dormindo?
Aquele som misterioso desapareceu como se nunca tivesse soado.
— É você, Cliff? — perguntou Hasso e sacudiu a cabeça,
ligeiramente aturdido.
— Sim, sou eu!
— Está bem; o que quer?
Hasso friccionou as têmporas; sentia picadas leves na cabeça;
desagradáveis, mas não doloridas.
— Estamos trabalhando aqui que nem uns loucos e você dorme,
homem!
Hasso murmurou, aborrecido:
— O que eu devia fazer? Cantar?
— Não! Só quero que você me preste um favor!
Hasso estava atônito, como se tivesse acordado de um longo sono;
tirou as pernas de cima da mesa e levantou-se.
— Desculpe! — disse ele, lentamente. — Devo ter adormecido.
Vocês acabaram o serviço?
— Estamos pela metade. Montamos o projetor na câmara nove e o
testamos. Mario pede para você trazer o manômetro Liphard-Kercher,
que está na cabine dele, na prateleira da esquerda. Precisamos desse
aparelho.
— Está bem! — respondeu Hasso e cocou a nuca. — Já vou
apanhar o instrumento. Quanto tempo vocês ainda levam?
— Mais ou menos uma hora.
— Quer que eu apronte alguma coisa? Durante alguns segundos
Cliff permaneceu em silêncio, depois disse:
— Nesse meio tempo você podia programar um curso para
Dez/Leste 363.
— Entendido! — respondeu Hasso. — Mas, primeiro, vou levar o
aparelho de teste.
Desligou o aparelho radiofônico e parou. Novamente aquele som
misterioso invadiu a cabine de comando. Hasso virou-se e dirigiu-se
com os movimentos de um autômato para o elemento de entrada do
computador. Estava de olhos arregalados e levantou as mãos. De
repente, seus dedos se mexeram num ritmo alucinante.
Calcaram teclas e apertaram botões, elaborando uma seqüência de
instruções para o computador digital. Aquele débil som ainda
atravessava o seu crânio como um fio de aço. Depois Hasso parou.
Virou-se e dirigiu-se ao elevador. Estacou no meio do caminho,
sacudiu a cabeça e prosseguiu. Finalmente o elevador levou-o para
baixo e ele continuou a caminhar e a agir como se nada tivesse
acontecido. Não sabia o que tinha acabado de fazer. Era como se
tivesse dormido até este momento. Saiu da cabine de Mario segurando
um objeto em forma de haste, provido de duas escalas. Minutos
depois, vestido no traje espacial, desceu da Orion e dirigiu-se à
entrada da estação.
***
Mario e Cliff testaram a instalação do projetor Overkill em menos
de quinze minutos. O campo de tiro da arma cobria a metade de um
hemisfério com um diâmetro de quinze mil quilômetros. Em lugar dos
raios laser, o computador agora comandava esse novo projetor, que
poderia destruir qualquer nave inimiga que se aproximasse.
Compacto, o projetor Overkill não chegava a ocupar um metro cúbico,
e McLane esperava que jamais houvesse necessidade de empregá-lo.
— Como é que estão as coisas a bordo, Hasso? — perguntou
McLane, virando-se para o engenheiro que estava a seu lado e não
tirava os olhos do projetor Overkill.
— Está tudo na mais perfeita ordem, chefe! — respondeu Hasso.
Cliff colocou as ferramentas na maleta, apanhou o manômetro,
espreguiçou-se e disse:
— Meus senhores, agora vamos para a câmara dezoito. Dentro de
uma hora podemos partir para o próximo alvo. Hasso, faça-me o
favor, e volte a vigiar a bordo, sim?
Hasso acenou em silêncio e saiu. Os três homens o seguiram até o
próximo cruzamento. De lá, seguiram a orientação fornecida pelas
pequenas placas metálicas, cujos números indicavam a câmara
diametralmente oposta à outra: "Canhão número 18". Todos os
trabalhos repetiram-se na mesma seqüência. Setenta minutos depois,
as cinco pessoas reencontraram-se na sala de comando central. Os dois
robôs do tipo Supervisor ainda se encontravam diante da mesa de
controle, de cabeças abertas. Atan estava acocorado junto à maleta,
arrumando as ferramentas. Seu mau humor era flagrante. Com vagar,
enrolou o fio de um aparelho de teste em torno da haste.
— Muito bem! — disse ele, com ênfase, e olhou para o relógio. —
Chega por hoje!
Mario sentou-se no chão ao lado de Atan, olhou alternadamente
para Cliff e Sherkoff e rosnou, aborrecido:
— Se Wamsler nos der outra tarefa igual a essa, vou pensar
seriamente, em deixar o serviço. Podem acreditar nisso!
— O que importa — disse o professor Sherkoff — é que vocês
conseguiram realizar a tarefa.
Com um sorriso sarcástico, Mario respondeu:
— Vindo de quem vem, é um consolo especial!
— Alegro-me! — respondeu Sherkoff, rindo. — Vejo que pude
contribuir para a melhoria da sua disposição!
Mario não sabia bem o que responder.
— Esqueça isso, Mario! — disse Atan, em tom consolador, e
fechou a caixa de ferramentas. — Agora vamos para Dez/Leste 363,
montar a segunda instalação Overkill!
— Será que antes disso eu posso comer alguma coisa e tirar uma
rápida soneca? Que diz a respeito disso, comandante McLane?
— Concedido, Mario!
Mario e Atan dirigiram-se à pequena ante-sala da eclusa, na qual
estavam pendurados os trajes da tripulação. i — Eu ainda vou ativar
esses dois robôs
— disse McLane. — Helga, faça-me o favor de ficar a meu lado,
de arma na mão; só para o caso de esses sujeitos ainda estarem
birutas!
Inseriu os dois condensadores de blocos nas aberturas, prendeu-os
nos encaixes e depois que recolocou a placa de vedação, aparafusou
novamente as porcas-borboletas. Os robôs pairavam, imóveis;
somente as suas luzes dançavam doidamente. Helga não precisou
intervir.
— Helga, você também pode ir. Sherkoff e eu vamos em seguida.
Prepare alguma coisa para comer!
Helga bateu uma continência e virou-se para sair.
Cliff fez um sinal para Sherkoff, sacou a arma e sentou-se num
lugar livre em cima da mesa de comando.
— Tenho uma pergunta a fazer, professor! — disse ele.
— Não faça cerimônia, comandante! — respondeu Sherkoff e
recostou-se na bancada.
— O senhor não acha isso um bocado esquisito, professor?
— Esquisito, o quê? — perguntou o psicodinâmico.
— Passamos a metade da noite ou, para ser mais preciso, quase
cinco horas na contagem de tempo terrana, montando e desmontando,
e nada aconteceu!
Sherkoff fez um gesto indistinto.
— Não sei bem onde está querendo chegar, McLane!
— Se realmente houve alguém que tentou influenciar aqueles
robôs, então esse alguém não deu mais sinal de vida. Não aconteceu
mais nada. Absolutamente nada!
O professor torceu ligeiramente os lábios.
— Espere mais um pouco, comandante! — disse ele.
— O senhor acredita — perguntou McLane, insistente — que se
pode influenciar máquinas, como esses robôs, sem proceder a uma
intervenção mecânica direta?
— Admito a possibilidade — respondeu Sherkoff. — Mas nào
acredito que exista alguém que possua uma tecnologia tâo apurada!
— E aqueles extraterranos?
— É possível, mas bastante improvável. Seria bem mais simples
influenciar seres humanos. É muito mais fácil inculcar idéias idiotas
num cérebro orgânico, do que num eletrônico.
— Bem! — disse Cliff. — Nós fomos advertidos!
Dirigiram-se à escotilha atrás da qual Helga Legrelle tinha
desaparecido há pouco.
A suspeita não era mais sigilosa; tinha sido pronunciada em voz
alta. A desconfiança começou a tomar vulto e atordoava os
pensamentos da tripulação, que continuava a fazer as suas usuais
observações jocosas; mas essa alegria era falsa. Um mal-estar
indefinível havia se apossado de todos. Hasso estava sentado diante da
tela central na cabine de comando, com os cotovelos apoiados nos
joelhos. Sentia-se aturdido, embotado. Pouco a pouco emergiu das
profundezas de um pesadelo. Imperceptivelmente, seus nervos tensos
começaram a se relaxar. Seu rosto estava lívido; gotículas de suor
brilhavam na testa e no lábio superior.
Do elevador vinham as vozes de Atan e Mario.
— Menino! — foi só o que Mario disse. Mas essa palavra
exprimia tudo. A fadiga, mas também a alegria por uma tarefa bem
realizada.
— Sim, o que é? — perguntou Atan, laconicamente.
— Passei a metade da noite esfolando os joelhos e aparafusando
esses dois projetores. Foi o fim da picada. Não podem exigir mais
nada de nós. Agora bem que nos podiam devolver o nosso lugar na
frota. Mas, qual o quê! Ainda temos três estações para montar! Não
sei por quanto tempo meus nervos vão agüentar isso!
— Vai sobreviver também a isso, meu amigo! — disse Atan e
parou ao lado de Hasso.
O engenheiro de bordo ergueu a cabeça e olhou para Atan com
olhos que exprimiam o mais puro pânico. Atan assustou-se — nunca
tinha visto Hasso daquela maneira.
— O que há com você, Hasso? — perguntou, espantado. — Não
está se sentindo bem?
— Por quê? — murmurou Hasso. — Há alguma razão para eu não
me sentir bem?
— Eu só estava perguntando! — respondeu Atan. — Você está
com um aspecto bastante fatigado.
Mario estava trabalhando na sua mesa, no fundo da cabine. Ouvia-
se o clique de chaves que se encaixavam; algumas das luminárias
cônicas no teto se acenderam.
— Esses malditos aparelhos... — murmurou Mario amargurado.
— Provavelmente vão querer que instalemos essas armas idiotas em
tudo que for estação nas quatro direções cardeais... Não sabem como
isto me alegra, mas...
Ninguém prestava atenção no seu monólogo. Atan ainda lançou
um longo olhar para Hasso, depois desceu. Sentia uma vontade louca
de cair no chuveiro.
— Está tudo em ordem? — perguntou McLane.
Tinha se aproximado silenciosamente de Hasso, que ainda estava
sentado na poltrona do comandante.
— Está... sim! — gaguejou Hasso, cansado. — Está tudo em
ordem.
Cliff sentou-se no canto da tela central e fitou o rosto de Hasso. E
o que viu não lhe agradou.
— Você está cansado? — perguntou, preocupado.
Hasso levantou-se com movimentos flácidos, sem força, e ficou
em pé diante de Cliff.
— Eu? Cansado? O que lhe deu essa impressão?
Cliff sorriu ligeiramente.
— Olhe-se no espelho!
— E daí? — perguntou Hasso e sacudiu a cabeça, como se
quisesse espantar uma lembrança incômoda.
— Olhe só para sua cara! — disse Cliff.
— Nunca vi você tão exausto assim!
Hasso empertigou-se, com esforço.
— Não estou exausto! — disse, tentando firmar a voz. — Nem um
pouco, entenderam?
Sherkoff vinha caminhando lentamente do elevador e parou a
alguma distância de Hasso e Cliff. Lançou um olhar pela cabine de
comando. Sua mão estava novamente no interior da jaqueta.
— Então está bem, Hasso! — disse Cliff.
— Vamos nos preparar para a partida. — Virou-se para Sherkoff e
continuou: — O que eu devia dizer, professor, é que eu sinto que
esbanjamos o seu tempo precioso à toa. Na realidade, eu não sinto
nada disso; o que o senhor vai poder entender.
Sherkoff aproximou-se mais um pouco e olhou atentamente para
Hasso e também se assustou com o que viu.
— À toa? Por quê? — perguntou.
— É que nada aconteceu, além daquele comportamento estranho
dos dois robôs Supervisor. Não houve caso de delírio espacial;
ninguém tentou desertar, como o Alonzo Pietro, e...
Sherkoff o interrompeu.
— Não tire conclusões prematuras, comandante! — advertiu. —
Sua missão e, portanto, a minha, ainda não terminou! Devia ficar
satisfeito por não ter tido aborrecimentos até agora!
De repente, Cliff lembrou-se de um detalhe.
— Helga? — perguntou: — A estação retransmissora H5 enviou
alguma mensagem?
Helga viu que a fita não havia se mexido. Se tivesse registrado um
impulso radiofônico, as bobinas teriam girado.
Mas a marcação ainda permanecia parada no valor anterior.
— Ainda não. H5 não dá sinal de vida.
— Mas deviam ter entrado em contato com a Orion! E a estação
vizinha OL-AF-I?
— Também não fez chamado algum! — disse Helga, com ênfase.
Helga girou a poltrona e encolheu os ombros magros. A sua
expressão era de perplexidade.
— Devem ter coisas mais importantes para fazer — disse ela. —
Provavelmente a guarnição não toma conhecimento de nós sem ordens
expressas da Suprema Comissão Espacial. Isso não me preocupa,
porque essas mensagens não passam de pura rotina.
Cliff acenou. Não sabia como interpretar o silêncio daquelas duas
estações retransmissoras. Estariam apenas ignorando a Orion, como
Helga supunha? Ou esse silêncio representava mais uma dessas
ocorrências estranhas e anormais que se verificaram nas últimas
horas?
— O caso é o seguinte... — começou McLane. — Enquanto nada
nos acontecer, e isto pode ser testemunhado pelo professor Sherkoff e
por Tamara Jagellovsk, o Alonzo Pietro vai continuar a ser
considerado um desertor e traidor. E isso simplesmente não me entra
na cabeça. Eu vou tentar provar o contrário!
Atan Shubashi, que tinha tomado seu banho e retornava à cabine,
parou junto à porta do elevador e disse, cético:
— Estou um bocado curioso, chefe, em saber como você vai fazer
isso!
7

— PODEMOS decolar? — perguntou Cliff, ansioso.


A cabeça de Hasso acenou na tela do videofone; já se encontrava
na sala de máquinas.
Sherkoff estava atrás de McLane, à esquerda. Olhou para cima e
observou o rosto de Hasso.
— Tem certeza que está se sentindo bem? — perguntou,
preocupado.
Hasso fez um gesto desdenhoso.
— Só faltava o senhor, professor! — disse, aborrecido. — Vocês
estão começando a me irritar!
Sherkoff sacudiu a cabeça num gesto de desaprovação.
— Eu estou aqui para dispensar cuidados médicos a todos. É o
meu dever. Ficou o tempo todo aqui em cima, montando guarda? —
perguntou a Hasso.
— Fiquei, sim! — respondeu Hasso, admirado. — O que mais eu
podia fazer?
— O senhor observou constantemente o computador? — insistiu
Sherkoff. — Reparou alguma coisa?
— O que eu devia ter reparado? — respondeu Hasso com outra
pergunta.
Sherkoff encolheu os ombros.
— Poderia dar um pulo aqui em cima — pediu — para me explicar
como funciona um computador digital desses?
Hasso recusou-se.
— Então o senhor acha que eu, agora, tenho tempo para dar longas
explicações sobre processamento de dados? O que o senhor está
pensando?
McLane soltou o cinto de segurança. Tinha se lembrado de alguma
coisa.
— Por que não, Hasso? — disse o professor Sherkoff. — Estou
tremendamente interessado!
Hasso sacudiu a cabeça e olhou para McLane.
— O que você acha, Cliff? Não está na hora de partir?
— Espere mais um pouco! — respondeu Cliff. Depois dirigiu-se
ao elemento de entrada do computador e arrancou a fita, na qual Hasso
havia programado o curso. A fita continha uma série de combinações
codificadas. Cliff leu as coordenadas e estacou, como se tivesse
esbarrado contra uma parede de vidro.
— Mas isso!... — murmurou. — Hasso, por favor, suba um
instante, sim? Tenho algo a discutir com você.
Hasso deu um aceno resignado. Cliff virou-se rapidamente, correu
para a sua mesa e agarrou o microfone. Esperou exatamente cinco
segundos antes de falar. Era o tempo necessário para Hasso deixar a
sala de máquinas.
— O que houve, comandante? — perguntou Sherkoff. Cliff não
lhe deu atenção, e disse, em tom incisivo:
— Do comandante McLane para a tripulação da Orion VIII:
trancar eletronicamente todos os complexos! Bloquear energia de
propulsão! Isolamento total! Cortar comunicação radiofônica! Toda a
tripulação deve comparecer imediatamente à cabine de comando!
Alarme de Segurança!
Sua voz berrava dos alto-falantes em quase todos os recintos da
nave. McLane limpou o suor da testa e ouviu os ruídos causados por
uma série de ligações de emergência. Escotilhas se fecharam com
baques surdos, poços se vedaram e a tripulação entrou às carreiras na
cabine de comando. O último a entrar foi Hasso Sigbjörnson. De
repente, Sherkoff entendeu. A associação computador-Hasso-
coordenadas estava completa.
— Então está provado! — constatou, secamente. — Alguém
tentou nos influenciar!
— Tem razão! — respondeu McLane, com voz dura. — Só que o
caso não deve ser entregue a um médico!
— A quem, então? — perguntou Sherkoff, surpreso.
— A um agente de segurança! — finalizou McLane e acenou para
Tamara. Ela adiantou-se dois passos, fitou os olhos de McLane e
depois dirigiu o olhar para aquele pedaço retangular de fita plástica,
que o comandante segurava entre os dedos.
— O que aconteceu? — perguntou, com voz incisiva.
— As coordenadas de vôo foram programadas de maneira errada.
E foi Hasso, quem as programou!
Os demais membros da tripulação rodeavam Hasso, Cliff e
Tamara.
— E que curso foi programado? — perguntou a agente do SSG.
— Dez/Leste 361.
— Hasso apenas se enganou! — observou Atan. — Nós devemos
ir para Dez/Leste 363.
Cliff sacudiu a cabeça e não olhou para Hasso quando respondeu,
em tom sério:
— O importante não é isso. O importante são os números
complementares que foram programados em seguida às coordenadas
elementares deste salto hiperespacial!
Olhou para a fita e leu os valores.
— Alfa... 2 - 9 - 4 - 19,30 - 37... III. Tamara estava lívida.
— Mas essas... — começou ela, vacilante.
— Essas são as coordenadas para um salto através da nossa
fronteira. Se voarmos segundo esses dados vamos atingir um ponto
que se situa muito além da fronteira. E não é para lá que nós
tencionávamos ir; disso, eu tenho certeza!
Sherkoff sussurrou, meio rouco:
— São os mesmos números complementares que Pietro programou
quando quis desertar!
Lentamente Tamara se virou. Nunca Cliff a tinha visto tão tensa.
— Então temos um traidor a bordo! — constatou ela, quase sem
entonação na voz. McLane teve que acenar relutantemente.
— A julgar pelas aparências, tem toda razão.
Tamara respirou profundamente e colocou a mão no cabo da arma,
que trazia no cinto.
— De acordo com os parágrafos 238/9 da regulamentação
espacial, assumo, com efeito imediato, o comando da nave Orion VIII
e a investigação do caso.
Helga havia ligado o livro de bordo; o texto estava sendo gravado.
Um pouco menos formal, Tamara prosseguiu:
— Assim, como as coisas se apresentam, o assunto não vai nos
ocupar por muito tempo, tenente Sigbjörnson.
McLane levantou as mãos, pedindo moderação.
— Vá com calma, Tamara! — advertiu. Tamara ignorou a objeção
e perguntou, em tom frio:
— Tenente Sigbjörnson, o senhor estava de guarda a bordo?
— Sim! — respondeu Hasso, laconicamente e com uma calma que
não era natural.
— Relate o que se passou a bordo, enquanto o resto da tripulação
estava ocupada, montando os projetores Overkill na estação!
— Não tenho nada a relatar.
— E por que não?
— Muito simples, porque não há o que relatar.
McLane queria intervir para auxiliar Hasso e começou:
— Hasso...!
Sherkoff reteve Cliff com um forte aperto no antebraço.
— Deixe-o! — disse em tom quase inaudível. — Quero ver como
o tenente se comporta!
— O senhor orientou os dois robôs no transporte dos projetores
Overkill — disse Tamara. — Quando voltou a bordo, controlou a
programação?
Hasso estendeu as mãos num gesto de perplexidade.
— Não! E para quê?
— Não é obrigação dele! — disse Cliff. — Eu é que pedi a ele
para programar nosso novo curso!
— E não reparou nada de suspeito?
— Não reparei, não.
O que estavam vendo e ouvindo, deixou os presentes com uma
sensação de profundo mal-estar. No decorrer dos anos, uma série de
aventuras das mais perigosas havia amalgamado esta tripulação; e essa
amizade estendia-se também à vida privada. Todos os membros da
equipe se apreciavam e freqüentavam as respectivas casas.
E agora verificou-se que havia um traidor entre eles. Era
praticamente inimaginável, mas no mesmo raciocínio reconheceram a
necessidade desta investigação. Os acontecimentos tinham que ser
esclarecidos.
— Quer dizer que o senhor não consegue se lembrar de nada? —
perguntou Tamara.
— Não!
— E também não sabe explicar como, quando e por que razão
programou estas coordenadas na unidade de entrada do computador?
Hasso virou-se um pouco e apontou primeiramente para a poltrona
do comandante, depois para a mesa de comando e finalmente para a
tela central.
— Primeiro, eu estava aqui. Sentado na poltrona e dormindo um
sono leve. A senhora conhece esse sono dos astronautas; é tão leve
que basta uma simples mudança na intensidade luminosa de qualquer
instrumento, para que se acorde. Eu estava sentado de costas para o
computador, esperando um chamado de Cliff. O comandante me pediu
para apanhar um instrumento no camarote de Mario, e levá-lo para a
estação. Foi exatamente o que fiz. E mais nada.
— Estava dormindo, quando o comandante McLane o chamou?
— Não estava, não! Como acabei de dizer, estava ligeiramente
adormecido.
— E o serviço de vigilância?
— Podia vigiar perfeitamente bem o aparelho radiofônico, como
também os comandos da nave.
— Isso, aliás, é a regra geral em tais casos de vigilância de bordo,
Tamara. Só para sua informação! — observou Cliff tranqüilamente.
Tamara olhou rapidamente para ele e acenou, concordando.
— E depois?
— Depois? Nada!
— Mas o senhor programou o curso e estava sentado na poltrona
do comandante, quando nós retornamos.
Hasso acenou, com resignação.
— Sim. Fui até o elemento de entrada e registrei as coordenadas
que Cliff me tinha dado. Quer dizer: a rigor, eu as conhecia de cor.
— Essas coordenadas? — Tamara exibiu a fita.
Hasso protestou:
— Não. Essas não. O que eu programei, e disso eu me lembro
perfeitamente, foi Dez/Leste 363. Era o nosso segundo alvo.
— Então para que esses números complementares, que nos teriam
levado ao mesmo alvo que Pietro programou? Lá, os extraterranos
estão na espreita!
Hasso sacudiu a cabeça como se estivesse tonto.
— Quer dizer com isso que eu tinha a intenção de levar a nave aos
estranhos, assim como o Alonzo Pietro?
Tamara acenou com a cabeça e a sua expressão era séria.
— Sim, tenente Sigbjörnson! É isso que eu quero dizer!
— Mas... — Hasso ia dizer, porém Tamara lhe cortou a palavra.
— Vamos parar de rodeios! — disse ela, em tom ríspido. — Que
motivos o senhor tinha para programar as coordenadas que nos
levariam além da fronteira?
Hasso gritou:
— Mas eu não programei essas malditas coordenadas! O que eu
programei, já disse, foi Dez/Leste 363! E sem números adicionais!
— O senhor foi o único que estava a bordo. Nenhum membro da
tripulação, a não ser o senhor; e isso inclui o professor Sherkoff.
Ninguém mais podia tocar naquele elemento de entrada!
Tamara fez uma pausa.
— Somente o senhor, Hasso Sigbjörnson, podia ter registrado
essas coordenadas de vôo. Apenas o senhor... e mais ninguém!
Cliff meteu-se na conversa.
— Não acha, Tamara, que está se excedendo um pouco? Eu sou o
comandante desta tripulação e preciso...
Friamente, Tamara o interrompeu:
— Estamos em alarma de segurança e quem conduz esta
investigação sou eu! Tenente Sigbjörnson, quando vai resolver
confessar?
Hasso recuou.
— Mas eu estou lhe assegurando que não tenho nada a confessar!
— disse, em tom exortativo.
— Poupe as suas asseverações! — respondeu Tamara. Sua mão
ainda estava sobre o cabo da arma. — O senhor tinha a intenção de
entregar a Orion e sua tripulação ao inimigo. A um inimigo que não
pensa em outra coisa do que destruir a civilização do sistema solar!
— Mas isso é completamente absurdo! — gritou Hasso.
— Não é absurdo, não! — enfatizou Tamara. — E eu vou lhe dizer
o que isso é... isso é traição, uma vil traição!
McLane achou que estava na hora de intervir. Postou-se na frente
de Hasso e levantou as mãos.
— Mas, minha cara Tamara, acredite-me...
Tamara não o deixou concluir. A expressão do seu rosto era dura e
decidida.
— Eu não sou a sua cara Tamara! Atan soltou uma risadinha e
murmurou:
— Ainda não!
Tamara o ignorou completamente.
— Seja razoável! — disse McLane. — Hasso e eu estamos voando
juntos há uns dez anos e eu o conheço melhor do que a mim mesmo.
Hasso simplesmente se enganou; mais nada!
Tamara dirigiu-se furiosamente ao comandante:
— Se não foi ele, então quem foi? Seres interestelares? Fantasmas
cósmicos? Os extraterranos? Essas parecem ser as soluções de todas
as charadas, não é?
Depois virou-se e fez um sinal para Helga Legrelle.
— Do tenente Tamara Jagellovsk para livro de bordo: Esta noite o
tenente Sigbjörnson foi preso por mim, sob a forte suspeita de ter
praticado atos de sabotagem, colocando em risco o sistema de
segurança da Terra.
Virou-se para Hasso.
— Vou ter que paralisá-lo, Hasso. Sinto muito!
McLane permaneceu diante de Hasso e desviou a arma de Tamara
para o lado.
— Isso está fora de cogitação! — disse ele, laconicamente.
Os olhos de Tamara estavam ardendo em ira.
— De acordo com as regulamentações de segurança 59, os
membros das forças armadas espaciais, suspeitos de sabotagem,
devem ser paralisados!
— Besteira!
— E isto, até o momento em que o caso possa ser investigado
pelos órgãos do serviço de segurança. Previamente, a arma e o
aparelho radiofônico devem ser confiscados, juntamente com a
plaqueta de identificação.
Com um gesto resignado Hasso puxou a arma do bolso; esticou o
braço em torno das costas largas de Cliff e entregou a pesada HM-4 à
agente de segurança. Tamara recolheu a arma e destravou o seu
próprio projetor. Com o polegar, ajustou a intensidade de projeção,
transformando a arma destruidora num lançador de raios paralisantes.
Helga adiantou-se rapidamente.
— Cliff! — gritou, agitada. — Você não pode permitir isso!
Tamara virou-se para o oficial da vigilância espacial. Em tom
calmo, procurou esclarecer a situação.
— Tenente Legrelle, eu tenho... Helga não parou de falar.
— Você não pode assumir a responsabilidade de permitir que isso
aconteça! — disse ela e apontou para Hasso, que se mantinha
estranhamente impassível. — Já conhecemos Hasso há quase dez
anos!
— Sim, mas faça-me o favor, e deixe Tamara terminar! Nada
ainda está decidido.
Helga não estava dando ouvidos a ninguém. Virou-se para Tamara
e disse, com raiva:
— Hasso faz parte da nossa equipe! Não pode simplesmente
paralisá-lo, Tamara!
— Posso sim! — respondeu Tamara, prontamente. — O seu
querido Hasso está sob a suspeição de ter cometido um dos piores
crimes que nós humanos conhecemos. Ou preferia agora ser
prisioneira daqueles estranhos? Hasso bem que tentou que isso se
tornasse realidade!
— Tentou coisa alguma! — gritou Helga, fora de si. — Não há a
menor prova disso! A senhora só está querendo bancar a importante!
Encontrou uma maneira fácil de desopilar o fígado por causa da sua
vaidade ofendida e dos seus complexos! O seu ódio em relação à
McLane...
Tamara dirigiu-lhe um sorriso de puro gelo, baixou a arma de leve
e recuou dois passos.
— Tenente Legrelle! — disse ela, com voz controlada. — Preciso
chamar sua atenção para o fato de que, no momento, possuo o
comando absoluto dessa nave. Estou em condições de coibir,
prontamente, e com todos os meios ao meu alcance, qualquer forma de
sabotagem ou interferência nas minhas ações!
A ameaça era portentosa e Helga silenciou por alguns momentos.
— Além do mais, a culpa do tenente Sigbjörnson está mais do que
clara!
Sherkoff ainda se mantinha imóvel e estudava as reações dos
membros da tripulação; dedicou atenção especial a Hasso. Não estava
gostando das reações daquele homem. Achava-as inautênticas,
exageradas e não condizentes com o assunto.
— E quer saber por quê? Porque Hasso era o único que estava a
bordo naquele intervalo de tempo. E porque ele programou um
sistema de números, diferente daquele que McLane lhe havia
indicado. Por isso que a sua culpa é mais do que clara!
— Que graça! — disse Helga. — Isso não corresponde à verdade!
Ironicamente Tamara disse:
— Quer dizer que não é verdade? Então é mentira?
— Isso mesmo! É que havia mais alguém a bordo! E exatamente
durante aquele período de tempo!
— Ah! Muito bem! Mas agora eu estou ficando furiosa, mesmo!
— Esse alguém estava sozinho e inobservado — prosseguiu
Helga. — E podia ter feito tudo aquilo com a mesma facilidade que
Hasso.
— Quem é esse alguém, com todos os diabos? — gritou McLane,
impaciente.
— O tenente Tamara Jagellovsk!
Cliff olhou para Helga com olhos estarrecidos.
— Certo! — sussurrou ele. — Certíssimo!
Mario de Monti aproximou-se e cravou os olhos em Tamara.
— É uma verdade cristalina! Tamara estava sozinha a bordo
quando Hasso me trouxe aquele aparelho de teste!
Helga acenou enfaticamente.
— Alega que estava no seu camarote, dormindo; há alguma razão
que a torna menos suspeita que Hasso?
Tamara mordeu os lábios; depois respondeu, hesitante:
— Mas eu não deixei o meu camarote antes que o senhor chamasse
Hasso aqui para cima!
— Pode provar isso? — perguntou Cliff. Tamara baixou a cabeça.
— Não! — disse ela, baixinho. — Não posso!
8

ERA uma situação confusa. Não havia dúvida que as coordenadas


programadas levariam a nave a uma estação dos estranhos.
Mas quem teria programado essas coordenadas?
Hasso Sigbjörnson, o engenheiro de inteira confiança que já voava
com McLane há dez anos nas mais variadas missões? Ou o tenente
Tamara Jagellovsk, a ambiciosa agente do serviço de segurança? Para
o comandante, as duas possibilidades eram igualmente absurdas:
acreditava numa terceira. Numa influência externa. Mas exercida por
quem? Pelos extraterranos? Era possível. Com muito empenho, os
mistérios poderiam ser desvendados. E também com um pouco de
sorte.
— Portanto, tal como Hasso, a senhora não tem testemunhas que
possam corroborar a sua inocência! — disse Helga, e apontou o
indicador para Tamara. — Não tem testemunhas e não possui provas
ao contrário. Sendo assim, o comandante McLane tem que prendê-la
sob suspeita de ter praticado atos de sabotagem no espaço... e vai ter
que paralisá-la!
— Não vai fazer nada disso! — gritou Tamara, em tom
ameaçador.
— Acha, por acaso, que algum de nós tem medo da senhora? —
quis saber Helga, com rispidez.
— Afinal de contas, eu sou oficial do Serviço de Segurança
Galático! — exclamou Tamara.
— Num processo dessa natureza — disse Helga — o posto que
ocupa, ou a organização a que pertence, não tem a menor importância!
— Mas segundo o parágrafo 291 das disposições de segurança...
— começou Tamara.
— Pare de recitar os seus malditos parágrafos! A senhora é tão
suspeita quanto Hasso! Devia ter o máximo interesse em ver este
assunto completamente esclarecido!
— Afinal, o que quer de mim? — perguntou Tamara, inquieta.
— Já que o comandante McLane não parece propenso a se meter
com a senhora — disse Helga com uma calma impressionante —
peço-lhe o favor de me entregar as duas armas!
Tamara deu um passo para trás e esbarrou na escora, contra a qual
costumava se encostar.
— Antes que eu lhe entregue a minha HM-4 — disse ela, com uma
expressão estranhamente rígida no rosto — vou me defender até o
último alento!
Helga só estava a poucos centímetros de Tamara. As duas
mulheres estudavam-se com olhares tão ameaçadores quanto os
projetores destravados.
— Ah, é? — murmurou Helga. — A senhora acha?
Neste momento da mais alta tensão, o professor Sherkoff resolveu
intervir. Disse, com voz firme:
— Assim não vamos conseguir resolver nada, minha gente! Não
faz sentido lançar suspeita sobre fulano ou beltrano e ainda apelar para
insultos. Só porque nos aconteceu alguma coisa que não sabemos
explicar!
— Pra mim, o caso está resolvido! — disse Tamara obstinada.
— Nada está resolvido! — Sherkoff começou a enumerar. —
Vamos raciocinar com calma. Em primeiro lugar, temos coordenadas
e números complementares que foram programados sem ordem
expressa do comandante. Provavelmente nos teriam levado aos
estranhos. Depois, temos dois membros da nossa tripulação que são
suspeitos. A senhora, Tamara; e o senhor, Hasso. Se partimos da
hipótese de que não houve outras premissas do que o desejo de
entregar a nave, nada haveria a objetar contra estas suspeições. Mas já
que sou de opinião, e como cientista eu posso prová-lo, que aqui a
bordo não há um membro da tripulação com intenções de cometer
suicídio, o motivo traição para mim não existe mais. Lembrem-se das
ocorrências estranhas na estação Destroy II! Lembrem-se dos robôs
perturbados, dos aparelhos que não funcionavam e também das duas
estações retransmissoras que não nos chamaram! Será que tudo isso
não pode ter uma outra causa que não seja traição? Uma causa que
desconhecemos?
— Cliff! — disse De Monti. — Eu quero fazer uma experiência.
Cliff acenou.
— Concedido!
Com passos resolutos, Mario dirigiu-se à unidade de entrada do
computador e examinou rapidamente o teclado.
Depois começou a registrar as coordenadas do cubo espacial em
questão.
Mais uma vez, o misterioso som agudo soou. Quase na freqüência
do ultra-som. O registrador gráfico começou a martelar e uma fita
perfurada apareceu na fenda da unidade de saída. McLane estava ao
lado de Mario e olhou para a fita. Depois passou a observar Mario,
que parecia olhar apaticamente através do comandante. Também
Sherkoff reparou a modificação que se tinha processado no homem e
sorriu levemente. Sabia como a discussão iria terminar.
— Igualzinho! A mesmíssima coisa! — constatou Cliff.
A tripulação arregalou os olhos e prendeu a respiração.
— 361 mais as coordenadas complementares? — perguntou Atan.
— Exatamente isso! — respondeu Cliff.
— Não dá para entender! — disse o astronavegador e sacudiu a
cabeça.
— Quero dizer que Mario também está possuído pelo desejo
irrefreável de nos ver no cativeiro dos estranhos. Meus amigos, a esta
altura já temos três traidores a bordo! Vai ser uma comédia
ultradivertida! Devíamos copiar o livro de bordo e entregar o
manuscrito a um dramaturgo. Depois de darmos baixa do serviço,
poderíamos viver tranqüilamente de direitos autorais!
McLane riu rápida e iradamente.
— Se isso continuar assim — profetizou — então todos nós vamos
nos transformar em traidores e desertores. Isso é contagioso!
— Nada de pânico! — advertiu Sherkoff.
— Ah, não! — confirmou Cliff. — Agora não mais! Vamos
descobrir a causa desse negócio antes de partir!
Tamara perguntou, no mesmo tom de voz irônico do seu chefe
Villa:
— Como é que o senhor chegou a fazer isto, tenente De Monti?
Lentamente Mario aproximou-se do grupo. Parecia que a letargia o
havia abandonado. Olhou com olhos surpresos para os presentes.
Sherkoff disse rapidamente:
— Realmente este não é um caso para um agente de segurança e
sim, para um médico; portanto o caso é meu!
— É? — perguntou Mario, ainda meio aturdido. Com os ombros
caídos e os olhos meio cerrados, a sua aparência não era das melhores.
— Consegue me entender clara e nitidamente? — perguntou o
professor.
— Posso, sim. O senhor achava que eu não poderia? — respondeu
Mario com outra pergunta.
— Sabe exatamente o que acabou de acontecer? — continuou a
perguntar Sherkoff.
— Quando? — quis saber Mario, com voz pesada.
— Ainda há pouco; apenas alguns minutos atrás. Tente lembrar-
se!
— Eu estava sentado aqui, no elemento de entrada do
computador... — começou Mario, lentamente. Falava como se tivesse
um peso na língua. — Eu...
Depois disse, com surpreendente clareza e nitidez:
— Não! Fora disso, não houve nada!
— Nada, mesmo? — insistiu o professor Sherkoff.
— Não, absolutamente nada! — respondeu Mario.
— E o senhor também não está lembrado que programou as
coordenadas de vôo?
— Lembro-me que estava querendo fazê-lo — disse Mario,
sombriamente. — Quem programou essas coordenadas?
— O senhor mesmo! — disse Sherkoff, lacònicamente.
— E quais eu programei?
— Aquelas que nos levariam aos estranhos.
Atordoado, Mario de Monti gaguejou:
— Eu... o senhor afirma que eu... Sherkoff, ainda com a mão
dentro da jaqueta, respondeu duramente:
— Eu não afirmo coisa alguma. Estou apenas perguntando se o
senhor consegue se lembrar. — Mario sacudiu a cabeça num gesto de
desespero.
— Não, não posso. E totalmente impossível!
Com uma expressão de alívio no rosto, Sherkoff virou-se para
McLane:
— Bem, comandante, o que me diz agora?
— Ainda não sei bem o que devo pensar.
— O senhor não reparou — perguntou Sherkoff, baixinho — que
tanto Hasso quanto Mario estavam sentados diante da unidade de
entrada do computador, quando apresentaram aquelas falhas de
memória?
— Sim, tem razão!
Tamara estava prestando atenção e observou:
— É necessário sentar-se diante daquele teclado, para poder
programar coordenadas de vôo.
Impassível, Sherkoff prosseguiu:
— E reparou que os dois não conseguiram se lembrar de mais
nada?
— Professor! — exclamou Tamara, agitada. — Como é que o
senhor sabe que eles estavam querendo se lembrar?
— Ainda não está vendo a correlação? — perguntou Sherkoff.
— Não estou, não! — respondeu Tamara.
Cliff vislumbrou o que o professor tinha em mente, e deu um breve
sorriso.
— Preste atenção, tenente Jagellovsk — disse o psicodinâmico e
puxou Tamara pelo braço para perto de si. Depois a virou de frente
para o teclado do elemento programador. — Por favor, sente-se aqui.
E forçou-a suavemente com a pressão das mãos nos ombros.
— Para quê? — perguntou Tamara, relutantemente, e colocou os
dois projetores sobre a mesa do computador.
— Apenas um pequeno teste — tranqüilizou-a Sherkoff. — Vai
entender já, já!
— Está querendo me provar que eu também vou ter intenções
traiçoeiras se eu me aproximar desse elemento de entrada? —
perguntou Tamara, meio atônita.
Sherkoff esboçou um sorriso.
— É exatamente o que pretendo fazer!
— Só que o senhor vai ficar um bocado desapontado!
— Isso nós vamos ver! — disse Sherkoff. — Por favor, programe
o curso que o comandante McLane pediu!
Desta vez, todos ouviram o som fino e metálico que cortava os
seus cérebros como um fio incandescente.
Os dedos da agente do SSG calcaram as pequenas teclas pretas e o
registrador gráfico transmitiu a ordem ao computador digital. O
complicado processamento dos dados não levou mais do que um
segundo e a unidade de saída imediatamente expeliu um pedaço da
larga fita plástica.
Os olhos arregalados de Tamara estavam fixados num ponto na
distância. Encontrava-se inteiramente subjugada por aquele poder
desconhecido que dominava seu cérebro.
Durante o curto tempo em que os três tripulantes haviam ocupado
aquele lugar, tinham sido transformados em marionetes obedientes,
subjugados por um misterioso estado hipnótico.
Lentamente, Tamara tirou os dedos do teclado. Depois virou-se e
deixou os braços caírem inteiramente frouxos. Sherkoff arrancou a fita
de plástico.
Do fundo escuro, destacavam-se nitidamente os inúmeros pontos e
traços que constituíam a programação. O professor entregou a fita a
McLane, que leu as coordenadas e depois entregou a prova aos outros.
A fita passou de mão em mão e todos viram que também Tamara
havia registrado as coordenadas que levavam ao inimigo.
— Exatamente como eu tinha previsto! — explicou Sherkoff. —
Lá estão todos os números complementares para um salto através das
fronteiras!
Helga ajudou Tamara a se levantar do assento e ficou ao lado dela,
amparando-a.
— Bem, Tamara, o que diz agora?
Aos poucos, a agente do SSG voltou da letargia e começou a
piscar confusamente.
— Mas isso é totalmente impossível! — disse ela, respirando
profundamente.
— Infelizmente, é a verdade! — insistiu Sherkoff, e virou-se para
McLane. — O senhor consegue imaginar que Tamara Jagellovsk seja
uma traidora?
McLane soltou um riso de alívio.
— De jeito algum! — disse em voz alta.
— Eu também não consigo! — confirmou Sherkoff. — Por isso a
minha hipótese está inteiramente certa.
— Que hipótese? — perguntou Hasso, que parecia recuperado.
— A hipótese de que tudo que vimos durante essas últimas horas é
dirigido lá de fora.
— E quem é que está dirigindo tudo isso? — perguntou o
comandante.
— Aquele que esperou por Pietro e por nós e que ainda está
esperando!
— Os extraterranos!
McLane postou-se diante da tela central e observou as
constelações na região limítrofe leste. Com ar pensativo, e sem o
menor traço de sarcasmo, disse:
— Portanto, os estranhos devem ter conseguido determinar a
freqüência de operação do computador. Ou melhor dizendo, de todos
aqueles computadores que estavam em operação na estação Destroy
II, na Xerxes, e também na Orion VIII. Com isso, conseguiram
introduzir os seus padrões de pensamento no computador digital.
Donde se conclui que esta máquina serviu indistintamente como
receptor e emissor. Pelo visto, o elemento de entrada emite na
freqüência das ondas cerebrais dos seres humanos. Hasso, Mario e
Tamara foram as vítimas. Não podiam agir de outra maneira. Eu
dispenso qualquer outra prova e não vou me sentar neste elemento,
senão acabo ficando biruta também.
— Podemos designar esse processo por telenose — disse o
professor, depois que McLane tinha terminado sua explanação.
— Telenose? — quis saber Hasso. — O que é isso?
Sherkoff disse:
— Todo cérebro emite ondas. Dentro de certas limitações, podem
ser consideradas como ondas radiofônicas. Fundamentalmente, é
possível auscultar as emissões de um cérebro. Tente imaginar que foi
exatamente isso o que aconteceu com o computador digital. Dispondo-
se de amplificadores apropriados pode-se, por esse meio, transmitir
instruções a uma mente humana, juntamente com uma ordem pós-
hipnótica para esquecer essas instruções em seguida. Foi apenas isso
que aconteceu aqui. Mais nada.
— Aqueles robôs em Destroy II! — sussurrou Tamara.
— Correto! Pietro também foi uma das vítimas.
— Era só o que nos faltava! — disse McLane. — Mas estou começando
a pensar num daqueles planos, pelos quais eu fui removido.
Atan gritou, agitado:
— Bravo!
— Silêncio! — disse Cliff. — Continue a falar, professor! Estamos
escutando, fascinados!
— Essa telenose, ou seja, hipnose através de longas distâncias, pode,
portanto, restringir o campo consciente e, dentro de certas limitações,
também as reações de máquinas. É claro que me refiro à consciência de seres
humanos, como nós. Utilizando esse emissor — e Sherkoff apontou para a
placa de revestimento na cabine, atrás da qual se encontrava o computador
digital — o inimigo é basicamente capaz de fazer com que sua vítima
assuma qualquer atitude.
— É diabólico! — murmurou Tamara e deu a entender a Helga que
devolvesse o projetor a Hasso. — O senhor disse qualquer atitude,
professor? Isso significa que eles conseguem obrigar alguém a agir contra
suas próprias convicções morais?
Atan Shubashi perguntou, com um tom de ironia:
— O que a senhora entende por moral, tenente Jagellovsk?
Prontamente Tamara respondeu:
— Certamente não deserção, traição ou colaboração com os
extraterranos!
— Tem razão, tenente! — explicou o professor Sherkoff. — Com
esses raios telenóticos os estranhos nos tornam totalmente indefesos.
Assim que um de nós cair no campo de emissão desse computador, só
vai fazer o que eles ordenarem. O que nós fizermos, então,
independerá inteiramente da nossa vontade.
Hasso sentiu um calafrio quando disse:
— Se desenvolverem essa arma um pouco mais, podem subjugar a
Terra facilmente!
— E esses robôs em Destroy II também foram vítimas do raio
telenótico? — perguntou Helga Legrelle.
— Toda a região está sob o domínio desse raio — disse McLane.
— Os estranhos poderiam ter feito conosco o que quisessem.
Calmamente Mario perguntou:
— E por que não o fizeram? Sherkoff tinha uma explicação
bastante convincente:
— É que eles nos queriam vivos, assim como a Alonzo Pietro.
Além disso, queriam se apoderar dos nossos conhecimentos, das
nossas instalações técnicas bem como dos projetores Overkill. E é
provável que iam nos manter presos como cobaias naquela estação.
— Que estação? — perguntou Mario, sombriamente.
— Aquela da qual emitem os raios telenóticos — respondeu
Sherkoff.
— E essa estação se localiza no ponto determinado por aquelas
coordenadas?
— Correto!
— Do comandante para todos — disse Cliff. — Vamos imaginar o
que poderia ter acontecido. Se não tivéssemos descoberto o que se
passava aqui, teríamos obedecido à ordem telenótica e seguido para
aquelas coordenadas. Iríamos, forçosamente, encontrar a base
misteriosa dos estranhos e a esta altura já estaríamos prisioneiros
deles.
— É mais ou menos isso que eles devem ter tido em mente —
concordou Sherkoff.
— Agora não há mais dúvida alguma que meu amigo Pietro não
quis desertar — disse McLane. — Ele deve ter caído na mesma
armadilha que os estranhos prepararam para nós.
Tamara vislumbrou as intenções de McLane.
— Não vai me dizer que está querendo desertar? — perguntou,
estupefata.
— É exatamente o que pretendo fazer. Nós vamos desertar —
disse Cliff, em tom decidido. — Naturalmente não da maneira como
os nossos misteriosos mandantes o desejam. Mas vamos fingir que
queremos nos passar para o lado deles.
— Entendo! — respondeu Tamara. — É como se o truque deles
tivesse dado certo.
Cliff acenou com a cabeça.
— Vamos fazer de conta que não temos outro desejo neste mundo do
que entregar a nossa Orion VIII e sua tripulação aos extraterranos.
Atan virou-se para Mario e disse em tom conjurador:
— E depois nós os aniquilamos!
— Devíamos agir rapidamente! — disse Cliff. — Vamos logo! Preparar
para desertar! Ou há alguma regulamentação que proíbe isso, tenente
Jagellovsk?
— Não seja irônico! — disse Tamara. — Por hoje basta de vexame!
— Não acha melhor informar a Comissão Espacial? — perguntou Helga
e ocupou seu lugar na mesa do transmissor.
— Como? — perguntou Cliff. — Aquelas duas estações não funcionam.
E tem mais: se a mensagem passar, corremos o perigo de que ela seja
captada também pelos estranhos São capazes de decifrá-la e aí estão
avisados. E eu não tenho vontade alguma de enfrentar uma pequena frota
daquelas naves rápidas, como já aconteceu uma vez.
Tamara postou-se ao lado dele.
— E, se formos localizados, as estações ao longo da fronteira vão
registrar o nosso curso e transmiti-lo imediatamente às autoridades. E em
três tempos todas as naves da frota tática vão se lançar no nosso encalço para
nos destruir. O coronel Villa não vai correr o risco de perder uma nave para
os estranhos.
— Mas eu tenho que correr esse risco! — respondeu McLane.
No mesmo segundo Helga se virou e fez um gesto com a mão.
— Cliff! — disse ela, meio assustada. — Fomos localizados!
— Droga! Aumente o volume!
Uma série de impulsos de identificação veio dos alto-falantes.
— Aqui fala a estação retransmissora OL-AF-I. O nosso raio de busca
localizou a Orion VIII e a estação Destroy II. Pedimos comunicar a
conclusão dos trabalhos nessa estação e confirmação para o novo curso. É
urgente...
— Escutem bem — disse Cliff. — Dentro de poucos segundos eles vão
saber direitinho o que pretendemos. É provável que vão informar à frota
tática. E é mais do que provável que essas naves vão receber ordens para nos
abater porque acreditam que estamos praticando um ato de sabotagem. Mas
nenhuma dessas naves está nas imediações. Temos uma dianteira suficiente.
Quando essa frota chegar aqui, já estaremos de volta. Só tem uma coisa:
temos que partir imediatamente!
Hasso exibiu um sorriso aliviado.
— Já estou a caminho! Todos aos seus lugares!
Em poucos segundos a tripulação aprontou a nave para a partida. A
Orion soltou a ancoragem magnética e afastou-se lentamente da
pequena lua. Depois começou a acelerar e voou exatamente na direção
das coordenadas para Dez/Leste 361, complementadas pelos números
alfa 2-9-4 19,30 - 37... III. McLane acreditava ter uma dianteira de
dias. Enganou-se redondamente.
9

O CORONEL Henryk Villa gozava de um período de relativa


tranqüilidade. Apenas o caso Xerxes causava-lhe preocupações.
Estava habituado a trabalhar de maneira silenciosa, quase invisível e a
estar sempre à disposição, quando seus conhecimentos e capacidade
eram requeridos. Ainda não havia sido esclarecido de que modo
Alonzo Pietro fora influenciado. E depois veio o professor Sherkoff.
Se coisas esquisitas ocorressem com os cérebros dos membros da
tripulação, o professor iria intervir, tentando obter uma explicação para
o fenômeno. Compartilhava a responsabilidade dessa experiência com
McLane, Tamara e Lydia Van Dyke.
Lydia encontrava-se nas proximidades de McLane, sem que ele soubesse
disso. A nave de Lydia era quase tão rápida quanto a Orion VIII; além disso,
a nova Hydra II estava equipada com projetores Overkill e um dispositivo de
mira especial. E atrás de Lydia vinha a frota.
Lydia estava em condições de interceptar McLane dentro de poucas
horas, caso ele tentasse desertar; e, então, poderia obrigá-lo a voltar ou, se
necessário, abatê-lo. O coronel Villa não corria um único risco. Era sua
profissão impedir que riscos desta natureza surgissem. Uma cigarra soou.
— Sim? — disse Villa, sem levantar o olhar.
O chefe do seu estado-maior entrou no gabinete. Apesar do controle
impecável que o homem exibia, Villa pressentiu que tinha ocorrido algo que
não estava nos planos. Entendeu rapidamente.
— Sim, o que é? — disse com voz calma.
— Um comunicado da Vigilância Espacial — disse o oficial. — A
remota hipótese transformou-se num fato. Aconteceu!
— McLane? — perguntou Villa, laconicamente.
O oficial deu um aceno de cabeça. Sua expressão era séria.
— É, sim. A Orion está se dirigindo para as mesmas coordenadas
que Pietro tinha programado.
— Então está confirmado! Esses estranhos... afinal, o que querem
de nós?
Villa acenou e despachou o oficial. Depois refletiu durante alguns
segundos e finalmente apertou uma tecla larga, que transformava seu
videofone num aparelho destinado a divulgar ordens.
— Aqui fala o coronel Henryk Villa — disse ele, a meia voz.
— Comunicado alfa!
— Para o governo, para o Supremo Conselho Terrano, para a
Suprema Comissão Espacial e o quartel-general das Formações
Rápidas de Reconhecimento Espacial, para a Comissão de Defesa e
todas as repartições de segurança. O cruzador espacial rápido Orion
VIII, sob o comando do major Cliff Allistair McLane, encontra-se em
fuga para o campo de operações dos extraterranos além das nossas
fronteiras. Solicito assentimento para a operação Ajax. Todas as naves
espaciais que dispõem da nossa ordem especial devem imediatamente
modificar o seu curso e interceptar McLane. Em caso extremo, a nave
deve ser destruída. Em hipótese alguma a Orion deve cair nas mãos do
inimigo!
Villa soltou o botão de pressão do contato. Recostou-se novamente
e continuou a esperar. Fez o que tinha a fazer. Mas a sua inquietude
permaneceu, se bem que ele soubesse disfarçá-la muito bem.
***
Suprema Comissão Espacial. Gabinete de Wamsler.
Um jovem oficial estava postado ao lado de um dos alto-falantes
ocultos e ouvia, imóvel, o texto da mensagem.
— Comunicado alfa da Suprema Comissão Espacial para todas as
forças armadas espaciais na região da fronteira leste, cubos 360 a 368.
Ordem para iniciar a operação Ajax... Iniciar a operação Ajax. O
cruzador espacial rápido Orion VIII está em fuga para o campo de
operações dos estranhos. As coordenadas para o retorno do
hiperespaço são as seguintes: Dez/Leste 361, complementadas por alfa
2 - 9 - 4 - 19,30 -37... III.
Esses dados foram repetidos três vezes.
— É indispensável que a nave seja interceptada antes dessas
coordenadas. Todas as naves espaciais estão correndo perigo, uma vez
que o inimigo consegue influenciar a mente dos comandantes. Ordem
alfa a todos os comandantes: McLane deve ser preso imediatamente
após o retorno para o espaço normal. Em caso extremo, a nave deve
ser destruída.
— Ainda não consigo acreditar nisso! — disse Sir Arthur, abatido.
— Logo McLane! Se acontecerem mais casos desses, estamos fritos.
Quem é que vai proteger as nossas fronteiras?
— Com um robô — disse Villa da tela do videofone — isso não
teria acontecido, segundo as diversas teorias expostas.
— Tem certeza disso? — perguntou Wamsler; estava temendo por
McLane mais do que queria admitir. — Lembre-se daquele caso em
Pallas Beta!
— Aqueles robôs — explicou Villa — eram modelos primitivos da
série Worker. Para equipar uma nave espacial, só se pode cogitar de
modelos da série Supervisor.
Sir Arthur perguntou ao jovem oficial.
— Tentaram ao menos entrar em contato com a Orion VIII?
— McLane não respondeu a um único chamado. Ele simplesmente
partiu da estação Destroy II.
— Além disso, eu soube — disse Wamsler — que as duas estações
retransmissoras mais próximas não estavam funcionando
temporariamente. Esquisito. Foram tantas as precauções tomadas nas
construções dessas máquinas que se tornaram praticamente
indestrutíveis. Até agora, nenhuma dessas estações retransmissoras
deixou de funcionar.
O oficial objetou:
— Talvez as baterias de energia se esgotaram?
— Besteira! — respondeu Wamsler, grosseiramente. — Isso é
totalmente impossível! Aquelas baterias duram dois anos e, além do
mais, os comunicados indicam que as duas estações voltaram a
funcionar. Eu daria tudo para saber o que está se passando a bordo da
Orion neste momento!
Uma série de sinais luminosos acendeu-se num dos inúmeros
painéis. Conjuntos de lâmpadas caracterizavam as confirmações das
diversas esquadrilhas. Dentro de segundos, os comunicados da
conclusão da manobra estavam completos.
O oficial confirmou:
— Todas as formações espaciais estão empenhadas na operação
Ajax.
Sir Arthur levantou a voz e disse:
— Então emita a seguinte ordem: a Orion deve ser caçada com
todos os meios disponíveis; se necessário, deve ser destruída.
Wamsler levantou-se de um salto e apoiou-se pesadamente sobre o
tampo da mesa.
— Mas... o senhor não pode fazer uma coisa dessas! — gritou.
Sir Arthur lançou um olhar sério para o marechal.
— Posso sim, Wamsler! Tanto assim, que dei essa ordem!
— Mas isto é pura loucura! — gritou Wamsler. — McLane
desertar? Isso é totalmente impossível! Isso não existe!
Ouviu-se um pigarro. Sir Arthur e Wamsler olharam ao mesmo
tempo para a tela, na qual aparecia o rosto de Villa.
— O meu Serviço de Segurança obteve provas irrefutáveis! —
disse o coronel Villa calmamente. — O robô na estação Destroy II
transmitiu os dados. McLane está a caminho dos nossos misteriosos
inimigos.
Wamsler baixou o pesado crânio, num gesto de profunda
resignação.
— Então o garoto ficou doido! — sussurrou, rouco. — Estou
abalado!
Sir Arthur perguntou:
— Qual é a nave rápida que se encontra à menor distância daquele
cubo espacial, Villa? Manteve comunicação com ela?
— A Hydra II é a que se encontra mais próxima da nave de
McLane — respondeu Villa imediatamente.
Sem ser chamado, o oficial entrou na discussão e disse:
— Parece que a Hydra é a nave mais indicada para o caso. Em
relação à frota tática, McLane tem uma enorme dianteira. Como a
Hydra II também é uma nave rápida, ainda poderia alcançar a Orion
ou, ao menos, interceptá-la.
Sir Arthur dirigiu-se ao transmissor e disse em voz alta:
— Aqui fala Arthur. Estou chamando a Hydra II, sob o comando
de Lydia Van Dyke!
Dois segundos de silêncio; depois veio a resposta:
— Aqui fala Lydia Van Dyke. O que deseja, Sir Arthur?
— Da Suprema Comissão Espacial para o cruzador Hydra II...
programe imediatamente as coordenadas que acabamos de calcular.
Mergulhe no hiperespaço e intercepte Cliff McLane quando ele
retornar ao espaço normal naquele ponto além da fronteira. Em caso
extremo, a nave dele deve ser destruída com todos os meios
disponíveis.
Lydia manteve-se em silêncio, consternada, e depois perguntou,
baixinho:
— O que há com McLane? Eu não posso simplesmente pará-lo e
destruir sua nave! O que os senhores estão pensando?
— Eu vou lhe contar — respondeu Sir Arthur. — McLane é um
traidor! Está querendo se bater para o lado dos extraterranos.
Precisamos interceptar a Orion antes disso e destruí-la em qualquer
circunstância. Senão, vai haver uma catástrofe, entendeu?
— Entendi — respondeu Lydia Van Dyke. — Desligo!
A ligação foi cortada.
— Imagino como Lydia deve estai- contente com isso! — disse
Wamsler, aturdido.
***
Para esta missão, a Hydra contava com a tripulação completa,
composta de cinco membros.
Lydia Van Dyke estava sentada diante da tela central. Seu rosto
parecia petrificado. Mal se mexia, profundamente abalada com o que
tinha acabado de ouvir. Uma certa apatia havia se apossado dela.
— General... — disse o astronavegador. Lydia ergueu a cabeça e
olhou por cima da borda do painel para o rosto do homem. Viu que ele
não queria acreditar no que tinha sido divulgado pelos alto-falantes na
sala de comando.
— Do comandante para o astronavegador: programar as
coordenadas fornecidas.
Com poucos passos o astronavegador dirigiu-se à unidade de
entrada do computador digital e calcou as teclas: Dez/Leste 361 alfa 2
- 9 - 4 - 19,30 - 37... III. Assim que esses dados tinham sido
absorvidos pela memória do piloto automático, Lydia acelerou a nave
em direção a leste 361. Depois, ligou o intercomunicador de bordo e
disse, com voz meio apática:
— Do comandante para máquinas: preparar salto hiperespacial.
— De máquinas para o comandante: entendido!
Lydia continuou a falar.
— Do comandante para o posto de combate: aprontar projetores
Overkill. Ligar dispositivos de mira!
— Do posto de combate para o comandante: entendido!
O astronavegador havia ligado seus aparelhos e vasculhava o
espaço.
— Qual é a situação? — perguntou Lydia, preocupada.
O homem fez uma cara meio descrente e balançou a cabeça.
— Para termos êxito, precisamos retornar do hiperespaço, no local
indicado, no máximo dentro de cinco horas. Nesse caso, ainda
poderíamos interceptar McLane.
— E caso contrário?
O astronavegador ergueu as duas mãos até a altura do peito e
respondeu secamente:
— Caso contrário, a Orion vai conseguir escapar para os estranhos.
O que vai acontecer então, não preciso explicar, general!
— E nós conseguimos escapar de nos sujar para sempre! —
finalizou Lydia. — Esta é, sem dúvida, a tarefa mais repelente e
sórdida de toda a história da frota!
Um pouco surpreso o oficial disse:
— Mas, entenda, general! McLane é um traidor da humanidade!
Com uma voz que era um misto de raiva e tristeza, Lydia retrucou:
— Não me consta que eu tenha solicitado a sua opinião!
Do receptor veio o chamado de uma das naves-patrulha:
— Comandante da Argus chamando comandante da Hydra II!
Lydia agarrou o microfone e apertou a tecla correspondente ao
canal da chamada.
— Aqui Hydra! — disse laconicamente. — Pode falar.
— Estamos controlando os protocolos cronográficos das duas
estações retransmissoras. Constatamos que ambas estavam
temporariamente fora de ação por motivos totalmente inexplicáveis.
Assim que OL-AF-I voltou a transmitir, emitiu uma mensagem à
Orion mas ficou sem resposta.
— Obrigada! — disse Lydia. — E o que tem isso a ver com
McLane?
— Supomos — disse a voz do comandante — que McLane
sabotou os dois satélites, a fim de camuflar a sua fuga para os
estranhos.
O astronavegador e o general olharam um para o outro e pensaram
simultaneamente: uma ação bastante desmotivada.
Lydia sorriu ligeiramente, mas o seu sorriso era francamente
desesperado.
***
A Orion VIII estava se lançando através do hiperespaço em
direção ao seu alvo perigoso. Parte da tripulação havia se dedicado a
alguns momentos de sono e, depois, a uma sólida refeição. Os efeitos
da influência telenótica tinham desaparecido. Tamara havia
apresentado suas desculpas a Hasso. E o engenheiro assegurou-lhe que
a ação dela o tinha perturbado menos do que sua própria suspeita de
ter ficado maluco. A tripulação estava novamente reunida, animada
por um repentino espírito de luta. O comandante e o engenheiro,
diante dos instrumentos dos propulsores hiperespaciais, efetuavam
uma série de cálculos. Cliff manejava o computador e Hasso
comparava os dados obtidos com a tabela de cargas admissíveis.
Sherkoff desceu à casa de máquinas e postou-se ao lado da escotilha
da entrada.
— Cuidado! — advertiu Cliff. — Não se meta entre os pólos dessa
bateria de energia, professor! O senhor é uma testemunha importante a
bordo da Orion!
— O que é isso aqui? É a instalação hidropônica?
Os conhecimentos de Sherkoff a respeito das instalações das naves
espaciais deviam ser de natureza bastante rudimentar; era uma
verdadeira façanha conseguir confundir uma sala de máquinas,
altamente sofisticada, com uma instalação na qual se utilizavam algas
para a produção de oxigênio.
— Não! — disse Hasso, com um sorriso benevolente. — Isto aqui
é a casa de máquinas, com a mesa de comando para aquele grande
gerador lá no canto e os meus bichinhos de estimação: os propulsores
normais e hiperespaciais. Aquele negócio, contra o qual o senhor está
encostado no momento, é uma beleza de pilhazinha atômica, com uma
capacidade horária de 200 megavolts.
— Ah! E onde é que está o projetor Overkill? — perguntou
Sherkoff.
— Lá fora, atrás de uma portinhola, no bojo da nave.
— Como é que é comandado? McLane estava registrando uma
coluna de algarismos no computador.
— Já vou lhe mostrar! — explicou. — Durante o emprego do
projetor, o curso da nave é controlado por um computador auxiliar.
Faz a nave seguir uma trajetória parabólica. Quando o projetor começa
a disparar, a instalação automática interrompe o vôo de aproximação,
dirigindo a nave para o alto ou inscrevendo-a numa curva. Esta opção
depende do objetivo que estamos atacando. Pretendemos, porém,
desligar o piloto automático antes de entrar nessa curva, por isso que
estamos fazendo esses cálculos.
— Por que razão pretendem fazer isso? — perguntou Sherkoff,
admirado.
Cliff riu; seu bom humor tinha voltado.
— Pode ser que os nossos amiguinhos tenham condições para
acompanhar as nossas manobras. Eu digo pode ser, porque não tenho
certeza. Mas é provável que eles esperem que pousemos ou acostemos
onde eles se encontram. E se o computador digital dirige a nave
segundo um curso diferente desse curso de aproximação, o inimigo
estará avisado. Eu vou levar a Orion para perto deles com os controles
manuais. E isto com uma velocidade um pouco inferior à da luz.
— E por isso — explicou Hasso, ajustando o indicador de
sobrecarga para a potência imediatamente superior — vamos disparar
o Overkill com a mão.
— Os senhores pretendem...? — perguntou Sherkoff.
— Vou emitir as ordens certas, nos momentos certos! — disse
McLane. — Fundamentalmente, essa é a profissão de um comandante.
— Entendi! — disse Sherkoff. — Quando vamos sair do
hiperespaço?
McLane consultou o relógio.
— Dentro de 170 minutos — respondeu.
10

A ORION VIII estava sendo perseguida, mas ninguém a bordo sabia


disso. O cruzador espacial rápido deslizava através do hiperespaço com o
aparelho radiofônico desligado. Cento e sessenta minutos mais tarde, iria
aparecer novamente no espaço normal. Ainda havia tempo para discutir
pormenorizadamente as diversas etapas da operação. Tudo teria que ser
realizado de supetão, pois os estranhos podiam descobrir, através do
computador, quando e onde a Orion retornaria do hiperespaço. Cliff McLane
permaneceu calmo; tinha analisado esse ataque de surpresa sob todos os
ângulos. Os extraterranos acreditavam que ele e sua tripulação eram
meros escravos obedientes. E a Hydra II estava no encalço da Orion.
Na tela do videofone da casa de máquinas apareceu a cabeça de Atan.
— Cliff, rápido!
— Sim? — McLane ergueu os olhos das tabelas.
— Suba imediatamente para a cabine de comando!
Cliff abandonou Hasso e o professor Sherkoff e correu em direção
ao elevador. Segundos depois, estava ao lado de Atan, respirando
pesadamente. O astronavegador e Tamara estavam sentados junto à
mesa de navegação, observando as duas telas de radar. Cada antena
cobria metade da redondeza.
— Temos companhia! — declarou Atan. Apontou para as duas
telas.
— Obviamente quatro naves dos estranhos nos localizaram, e
agora estão nos acompanhando através do hiperespaço. Estou obtendo
uma imagem bastante clara deles, como você pode ver.
Ampliou um setor da tela esquerda e o projetou sobre uma terceira
tela à sua frente. O quadro já era conhecido. Lá estava um corpo
esférico com dois prolongamentos, compridos e esbeltos; a forma
característica das naves daqueles estranhos invasores, que Atan e
Hasso tinham descoberto em MZ-4. Cliff acenou. Tamara virou-se
para Atan.
— Podemos alcançá-los com o Overkill?
McLane sacudiu o indicador.
— Não queiram fazer alguma besteira com o Overkill! Não se
esqueçam: o nosso vôo de aproximação está sendo vigiado. Na
realidade, nós não passamos de um grupo de débeis mentais
gaguejantes. De maneira alguma devemos reagir. Entendido, Atan?
— Claro!
— Desculpe-me, comandante — disse Tamara — por um
momento eu tinha esquecido que nós não sabemos o que estamos
fazendo.
Shubashi apagou a ampliação e apontou para a tela direita. Lá, três
novos ecos tinham aparecido.
— Cliff! Já estamos sendo acompanhados por sete naves!
McLane torceu os cantos da boca.
— Isso significa — explicou — que ao menos estamos sendo
recebidos condigna-mente.
Minutos depois, as sete naves inimigas haviam cercado a Orion,
voando em formação circular e mantendo a mesma velocidade da nave
terrana. Essa escolta ainda acompanharia a Orion durante cento e
cinqüenta minutos. Atan rosnou.
— Se você soubesse, Cliff, como eu gostaria de liquidar esses
caras!
— Eu sei — respondeu Cliff e sentou-se na poltrona do
comandante. — Mas temos que esperar mais um pouco. Se tiverem a
mais leve suspeita, nos atacam e isso seria o nosso fim. Não temos a
menor chance; são sete naves contra uma. A superioridade numérica
deles é esmagadora.
— Sete eram ainda há pouco — respondeu Atan — Agora já são
dez!
Cliff McLane teve um vago pressentimento que nem tudo correria
da maneira que ele tinha imaginado. Começou a refletir; ao mesmo
tempo observava os instrumentos na sua mesa e o disco circular na
tela central, que só apresentava a escuridão embotada do hiperespaço.
***
Invisível para os aparelhos da Orion, a Hydra II projetava-se
através do hiperespaço com toda a força dos seus propulsores. Lydia e
sua tripulação não tinham a menor noção de que McLane havia sido
localizado e cercado pelos extraterranos. A Hydra voava contra o
tempo.
— Quanto tempo ainda falta? — perguntou Lydia calmamente.
— Se as nossas máquinas agüentarem essa velocidade —
respondeu o astronavegador — levamos mais cento e trinta minutos
até as coordenadas indicadas.
Lydia apertou um botão e falou no microfone do intercomunicador
de bordo:
— Do comandante para máquinas: desligue os sistemas
complementares. Não quero correr novamente o risco de boiar no
hiperespaço com uma nave aleijada.
O astronavegador lançou um olhar surpreso para o general Van
Dyke.
— General... mas nós recebemos ordem de perseguir McLane com
todos os meios disponíveis!
A resposta de Lydia era contundente.
— Dispenso ensinamentos quanto à interpretação de uma ordem!
De resto, tenho tempo de sobra para interceptar McLane. Não preciso
expor a minha nave ao perigo de ter que esperar vinte minutos ou mais
pela Orion.
Depois, repetiu:
— Do comandante para máquinas: desligar elementos
complementares!
— De máquinas para o comandante: já foram desligados!
— Obrigada! — disse aquela mulher de olhos cinzentos e
uniforme negro. Depois recostou-se.
— General! — cochichou o astronavegador, incrédulo — mas isso
é...
— Pode completar sua observação — animou Lydia Van Dyke e
sorriu ligeiramente. O astronavegador desistiu de terminar sua
resposta, virou-se e começou a tratar de seus instrumentos. Durante
alguns minutos, o silêncio reinou na cabine, só vez por outra
interrompido por ruídos de alguns aparelhos, pelos zumbidos dos alto-
falantes e pelos baques surdos que acompanhavam o acionamento de
alguma chave pesada.
De repente o astronavegador disse:
— Da Vigilância Espacial para o comandante: vou transferir essa
imagem para a tela central.
— O que há? — perguntou Lydia, arrancada dos seus
pensamentos.
— São cinco objetos voadores não identificados, provavelmente
naves inimigas; vêm em nossa direção.
Lydia ativou a tela negra e viu que cinco naves em forma de
libélula se aproximavam rapidamente da Hydra.
— Contatos radiofônicos? — perguntou Lydia ao telegrafista,
depois de ter olhado durante alguns segundos para os ecos daquelas
naves que se enfileiraram.
— Tentei captar um impulso — respondeu o telegrafista
prontamente. — Mas não obtive resposta alguma ao meu sinal de
identificação. Obviamente devem vigiar esse setor espacial.
— Trata-se, portanto, dos extraterranos! — constatou Lydia.
— É mais do que provável! — respondeu o telegrafista.
— Comparei a forma dos ecos com os dados disponíveis — disse
o astronavegador. — Os dois contornos coincidem. Por que a senhora
não os ataca?
— Primeiro quero ver o que eles pretendem.
— Isso pode se tornar um bocado perigoso! — disse o
astronavegador rapidamente. — Quer que eu apronte o Overkill?
— Eu quero ver se eles querem algo de nós! — insistiu Lydia. O
telegrafista acenou com uma expressão de raiva.
— Isso é mais do que óbvio, general! — disse ele, em voz alta. —
Não tenho a menor dúvida que, dentro de instantes, nossa nave será o
alvo das armas daqueles estranhos. Até agora sempre dispararam sem
fazer perguntas!
Depois, gritou:
— Torpedos! Estão atirando!
Nas suas telas e na tela central delineavam-se os raios diretores de
petardos cósmicos. Lydia desligou o piloto automático e agarrou os
manches dos controles manuais. Enquanto os torpedos se
aproximavam, a Hydra II executou uma série de manobras
complicadas. A nave tombou para o lado, baixou vertiginosamente e
reduziu a velocidade. Em seguida, descreveu uma seqüência de curvas
apertadas para ambos os lados e finalmente seguiu um curso que
ziguezagueava em torno de um sistema triaxial, em constante
variação. Parecia que a nave estava cambaleando através do espaço,
inteiramente sem direção e desprovida de qualquer controle. Dois dos
torpedos erraram o alvo e desapareceram no fundo escuro. Uma nova
manobra...
— Quando é que a senhora vai liberar o Overkill? — gemeu o
astronavegador.
Um terceiro torpedo deslizou rente à nave. Duas das naves
estranhas tinham se aproximado perigosamente e os ecos nas telas
cresceram assustadoramente.
— Não podemos fazer nada contra eles! — disse Lydia, em tom
incisivo e iniciou outra manobra, mais complicada e veloz do que as
precedentes.
— Isso a senhora não sabe!
— As armas que eles têm a bordo são muito superiores aos nossos
canhões. Lembre-se daquele planeta em chamas!
Incrédulo, o astronavegador sacudiu a cabeça. Da parte inferior da
nave vinham os ruídos das máquinas supersolicitadas. Tinham que
combater as enormes pressões da aceleração. Lydia disse:
— Para máquinas: aprontar retorno para o espaço normal!
O astronavegador mal pôde acreditar no que tinha ouvido.
— General Van Dyke, isso é...!
Lydia olhou calmamente para ele e respondeu, impassível:
— ...Loucura total, eu sei.
Lydia manipulou os controles. A Hydra II percorreu o ramo
descendente de uma elegante curva, passando pelo ponto crítico entre
as complicadas relações do contínuo riemanniano e o espaço normal
tridimensional. De repente, as estrelas apareceram em todas as telas e
em parte alguma havia uma nave inimiga. A Hydra tinha conseguido
fugir.
***
Ainda faltavam trinta minutos. A agitação a bordo da Orion tinha
aumentado consideravelmente. Os sete ocupantes da nave estavam
possuídos por aquela tensão nervosa, expectativa febril que antecedia
a luta esperada. Sentiam que o êxito ou o fracasso da missão estava
para ser decidido dentro de poucos instantes. Falavam pouco; estavam
suficientemente ocupados em lembrar-se dos detalhes da ação que
seria iniciada dentro de momentos. Toda uma série de manobras teria
que ser realizada com movimentos rápidos e precisos, somente depois
o projetor Overkill entraria em ação. Mario já o havia aprontado e
testado; funcionaria perfeitamente. Os minutos se passaram com uma
torturante lentidão. Atan parecia relutar em romper o silêncio e disse,
baixinho:
— Do astronavegador para o comandante: curso geral inalterado.
De repente ouviu-se a voz de Helga:
— Cliff! Captei uns sinais curiosos. Grupos ternários!
— Será que você pode determinar a localização dessa emissora no
espaço normal?
— Vou tentar!
Nos dez minutos seguintes, a tensão na central de comando tornou-
se quase insuportável. McLane tinha a impressão que no lugar do seu
estômago havia uma enorme pedra.
Helga estava examinando um mapa astronômico.
— Eu captei aqueles sinais e fiz a verificação que você pediu —
disse ela, baixinho. — Eles vêm de um ponto fixo que, segundo os
meus cálculos, se encontra a quatro mil quilômetros do ponto de
transição para o contínuo normal. Porém, não sei dizer, se é uma lua,
uma base planetária ou um corpo que paira livremente no espaço.
Esses sinais fazem parte de uma conversa radiofônica codificada entre
as naves e a base.
Cliff estudou o mapa, enquanto a Orion prosseguia no seu
caminho.
— Do comandante para o posto de combate!
Mario respondeu imediatamente. As condições agora eram bem
diferentes. Naquele primeiro teste, na superfície da segunda lua, o
projetor Overkill tinha sido dirigido e disparado por um computador
auxiliar. Agora, era um homem o responsável pelo disparo no segundo
apropriado: Mario de Monti, o subcomandante da Orion. Estava
sentado atrás do dispositivo de mira na câmara do posto de combate,
situado entre as suturas das duas cascas do disco e a cabine de
comando.
— Fala o posto de combate. O que há?
— Faltam dez minutos e três segundos, Mario!
— Estou pronto! — respondeu Mario, e riu para Cliff.
Atan e Helga trabalhavam nas suas mesas. Hasso estava na casa de
máquinas, controlando o suprimento de energia e o desempenho dos
propulsores. Como os demais, consultava constantemente o
cronômetro de bordo.
— Quantas naves inimigas você localizou, Atan? — perguntou
Cliff.
— O número delas aumentou para vinte e duas. Estão nos
cercando como um halo! — respondeu Atan. Cliff levantou-se,
dirigindo-se à mesa do astronavegador e observou durante alguns
segundos as duas telas. Depois sacudiu a cabeça.
— Devem estar muito interessados, mesmo, em capturar uma das
nossas naves e sua tripulação!
Voltou e sentou-se novamente na poltrona diante da tela de
imagem. Consultou rapidamente o relógio e começou a prender o
cinto de segurança.
— Um segundo após o início da operação Overkill, Hasso vai
liberar toda a nossa reserva de energia, pois vamos ter que realizar
uma série de ações simultâneas: precisamos voar, executar manobras
difíceis e tentar destruir aquelas vinte e duas naves. Mario, prepare-se,
porque você vai ter um trabalho insano. Hasso! Ainda faltam alguns
preparativos: temos que reforçar o nosso anteparo protetor e ligar os
defensores!
— Já estou com a mão nas chaves correspondentes! — assegurou
Hasso. — Por mim, pode começar!
Poucos segundos separavam a Orion do retorno ao espaço normal.
O comandante respirou profundamente e depois olhou para a tela.
De repente o universo apareceu. As telas, quase todas ligadas,
mostravam as estrelas e as nebulosas longínquas, a Via Láctea e a
poeira interestelar. E mais alguma coisa: um planeta. A uma distância
de quatro mil quilômetros. A imagem do planeta pairava imóvel na
tela circular diante de Cliff.
— Controles manuais liberados! — disse Atan.
Os receptores captavam sinais estranhos, de uma intensidade
impressionante. Os assovios estridentes estraçalhavam impiedosamente o
silêncio da cabine. A unidade de saída do computador digital começou a
matraquear: o raio telenótico dos estranhos estava novamente agindo sobre o
funcionamento das máquinas.
A voz rouca de Atan atravessou os ruídos na cabine:
— Cliff! Aqueles corpos voadores estão se aproximando da Orion!
— Estou vendo!
— Libere o Overkill, Cliff! Eu não confio nestes caras nem mais um
segundo! — disse Mario da tela do videofone. Olharam fascinados para
aquele planeta, cada vez mais perto. Um planeta no qual uma estação emitia
um raio maléfico, que por um triz não os tinha escravizado.
— Cada qual vai fazer exatamente o que foi combinado! — gritou Cliff.
— E nada de afobação! Controlem-se!
Atan viu que os vinte e dois pontinhos estavam apertando o cerco em
torno do reluzente disco da nave. A Orion seguia exatamente na direção do
raio captado por Helga e cujo ponto inicial ela localizara. A nave reduziu a
velocidade imperceptivelmente.
— Eu descobri a base! — gritou Atan.
— Então transfira a imagem para o meu monitor! — ordenou
Cliff.
Um trecho de uma imagem fortemente ampliada apareceu diante
dos olhos de McLane e Sherkoff.
No meio de uma profunda cratera, que se abria no alto de uma
colina vermelha, havia uma esfera e algumas torres ao lado de uma
gigantesca antena parabólica.
— Distância? — perguntou Cliff.
— 384 quilômetros! — respondeu Atan. McLane acenou para
Sherkoff. Sulcos e rugas marcavam-lhe a face. Suas mãos estavam
fechadas em torno dos manetes do comando manual.
— Overkill menos cinco segundos! — avisou.
Escoltada por vinte e duas naves inimigas, a Orion iniciou o vôo
de aproximação, descrevendo uma parábola precisa e apontando
exatamente para o centro da cratera na qual estava alojada aquela
construção esférica. O foco da antena parabólica, fortemente ampliado
por vários jogos de lentes, estava dirigido para a nave.
A voz de McLane veio nítida dos alto-falantes de bordo.
— 3... 2... 1... zero... fogo!
A Orion estava por cima da cratera. A uma altura de apenas cem
quilômetros. Tinha se aproximado quatrocentos quilometros mais do
que devia. Por um instante, a cratera com as três construções
permaneceu nitidamente destacada na tela central. Em seguida, como
que partindo do centro, a matéria da superfície planetária transformou-
se em nada. Uma névoa poeirenta e difusa turvou a imagem por
alguns segundos e depois desapareceu. As paredes da cratera
desabaram e soterraram os detritos. Aquela esfera estourou como uma
bolha de sabão e se desfez. As torres e a antena parabólica
esfarelaram-se e misturaram-se aos escombros. E depois só se via a
abertura profunda de um cone aguçado, invertido e oco. Os
propulsores da Orion emitiram um silvo agudo e lançaram a nave para
o alto, ao longo do outro ramo da parábola. A onda de choque da
destruição subatômica alastrou-se e influenciou o curso das naves
inimigas. A Orion subiu verticalmente; aumentou a velocidade e
tombou um pouco para o lado. A maioria das naves do adversário
tinha sido arrancada da sua trajetória e cambaleava pelo espaço.
Tensos, os homens observavam os instrumentos. Mario de Monti
manipulou as alavancas e o dispositivo de mira e liberou mais uma
vez a força aterradora do projetor. Três naves inimigas caíram no
campo de ação do Overkill e desapareceram sem deixar o menor
vestígio.
— Conseguimos destruir a base! — disse Cliff. — Aqueles sinais
emudeceram de uma hora para outra!
O disco subiu em espiral através do universo, estabilizou-se e
começou a descrever uma longa curva. As telas do radar de Atan
mostraram que as naves remanescentes tinham se reagrupado e
estavam agora empenhadas na perseguição da Orion.
— O raio telenótico sumiu! — confirmou Helga Legrelle.
A velocidade da Orion aumentava incessantemente. Por meio de
manobras rápidas e audaciosas, tentava escapar da ameaça
representada pelas naves que estavam no seu encalço.
Hasso confirmou:
— Energia repartida entre propulsão e Overkill. Ande ligeiro,
Mario!
Um som duro atravessou a nave. Soava como se uma mão
gigantesca estivesse rasgando uma folha metálica.
Com uma calma sobrenatural, Hasso avisou:
— Fomos atingidos. Os geradores 3 e 4 estão parcialmente fora de
ação!
McLane estremeceu.
— Será que dá para agüentar, Hasso? — gritou, agitado.
— Dá, mas não por muito tempo!
11

EM dado momento, um deles tinha olhado de relance para o


telêmetro, acoplado à complicada instalação do tacógrafo. E tinha
reparado uma marcação espantosa, fora do comum: encontravam-se a
451 parsec da Terra. Um parsec além da zona que ainda oferecia uma
segurança relativa; um parsec além da fronteira daquela esfera
espacial de 900 parsec de diâmetro, em cujo centro se encontrava a
Terra. A Terra, que já tinha sofrido duas agressões por parte desses
estranhos. E nessas duas ocasiões, somente a intervenção de McLane
havia evitado o desfecho fatal no último segundo. Agora, estavam se
enfrentando pela terceira vez. Uma luta silenciosa e encarniçada
desenrolou-se entre as naves que, a esta altura, já se deslocavam no
espaço normal, tridimensional. Dezenove naves inimigas contra a
Orion.
O ângulo de giro do projetor Overkill era bastante limitado; por
isso, Cliff tinha que posicionar a nave de tal maneira que Mario
pudesse enquadrar o alvo com segurança. McLane berrou para Atan:
— Atan! Transfira os ecos do radar para as telas de Mario no posto
de combate!
Rapidamente, Atan virou algumas chaves e em todas as telas
apareceram aqueles dezenove corpos que já se tinham aproximado
perigosamente da Orion. Mario estava com os olhos grudados no
dispositivo de mira.
— Atenção, Mario — gritou Cliff — Vou levar a nave para as
posições mais favoráveis! Sucessivamente da esquerda para a direita,
entendeu? Campo de tiro livre para o Overkill!
McLane comparou alguns dados, depois sustou o movimento da
Orion em torno do eixo vertical.
— Agora!
Duas naves entraram no campo aniquilador do Overkill.
Desapareceram do cosmos. Sem deixar vestígios, sem relâmpagos,
sem fumaça e sem indícios visíveis da destruição. Deixaram de existir
numa fração de segundos. Tamara gritou:
— Cliff, erigiram um campo de força entre nós e eles. Já
determinei a intensidade!
Cliff alterou a posição da Orion e olhou para o rosto de Hasso no
monitor.
— Hasso, reforce o nosso anteparo o quanto você puder. Não ligue
para o consumo de energia. Só precisamos de mais alguns minutos,
depois já não fará diferença se os projetores se derreterem!
Mario disparou novamente e teve sorte. Mais alguns pontos
desapareceram das telas. Por pouco, a manobra temerária de McLane
não provocou uma colisão. Fez a nave espiralar para o alto, girando
em torno dos dois eixos e acelerando continuamente. A Orion passou
raspando por cima de uma nave inimiga, e ganhou distância. Depois
McLane sustou o movimento e Mario estava de novo em condições de
mirar. Mais uma vez aquele duro rangido ressoou pela nave. Era um
ruído que parecia puxar pelos nervos como um gancho de aço. Uma
tela de imagem estourou a pouca distância do rosto de Tamara.
Durante alguns segundos, os gases liberados escureceram um trecho
da cabine de comando, mas logo foram sugados pelas turbinas.
I

— Estão empregando raios disruptores contra o nosso anteparo! —


gemeu Tamara. — Os absorvedores já começaram a se derreter! Estão
nos acertando sem cessar!
Cliff manteve a cabeça fria. Viu que Sherkoff tinha se agarrado aos
braços da poltrona e estava acompanhando os acontecimentos com o
pavor estampado no rosto lívido. Depois voltou a olhar para os
monitores e constatou que Mario estava semeando morte e destruição
entre as naves inimigas.
— Nós também estamos acertando sem cessar! — gritou em
resposta à observação de Tamara.
Cliff manobrava a nave com tamanha habilidade que cada disparo
era um tiro certeiro. O projetor de Mario criava campos de dimensões
variáveis a distâncias diversas. E toda nave inimiga que penetrasse
num desses campos, estava irremediavelmente perdida. O segundo
botão do disparador ativava o campo do Overkill e a nave
simplesmente desaparecia. Quatro corpos voadores começaram agora
a lançar raios em direção à Orion; longos e esbeltos tentáculos
luminosos. Interceptavam-se, vagueavam pelo espaço e passavam
rentes à nave. Cliff sabia que dentro de poucos segundos esses raios
mortíferos encontrariam o seu alvo. E isso significava o fim da luta
para ele e a Orion. Solicitou os propulsores ao máximo, e efetuou um
rápido mergulho, parando em seguida o movimento giratório.
Imediatamente Mario ativou o campo do Overkill. Os quatros pontos
desapareceram da tela; não se via mais um único raio luminoso. Cliff
recostou-se.
— Dessa escapamos por um triz! — murmurou e enxugou o suor
da testa. — Escapamos por muito pouco mesmo!
De repente, começou a sentir frio. Permaneceu sentado, porque
desconfiava da firmeza dos seus joelhos.
— Do comandante para máquinas — disse depois, um pouco
inseguro. — Volte a abastecer somente as máquinas, Hasso. Mario
não precisa mais de energia!
A cabeça de Hasso acenou na tela.
— A intrépida equipe da Orion sobreviveu a mais uma das suas
aventuras loucas! — comentou, em tom irônico. — Vou passar o resto do
tempo de vôo tentando consertar os condutores e blocos de fusíveis
atingidos.
Cliff acenou para ele, em silêncio.
— Do comandante para o posto de combate — prosseguiu. — Desligar e
recolher projetor. Fechar portinholas!
— Logo agora, que eu estava em ponto de bala! — lamentou-se Mario.
— Acabou tudo? — pigarreou secamente.
— Acabou, sim. Vamos Voltar.
Mario desligou todo o sistema e retirou-se do posto de combate. Cliff
ainda não havia terminado.
— Do comandante para Tamara Jagellovsk: reduzir anteparo
protetor até o valor 40. Proceder à verificação de rotina dos
absorvedores!
Depois, chegou a vez de Helga.
— Do comandante para telegrafista.
— Sim? — perguntou Helga Legrelle.
— Reforçar amplificadores e tentar captar impulsos inimigos.
Ainda existe o perigo de toparmos com mais naves extraterranas nas
imediações.
— Só preciso de cinco minutos, chefe.
— Do comandante para o astronavegador: vasculhar espaço com
telerradar. Tentar localizar ecos inimigos. Durante cinco minutos!
— Entendido! — respondeu Atan.
— E o senhor vai fazer o que agora, comandante? — perguntou o
professor Sherkoff, enquanto soltava o cinto de segurança.
— Vou me dirigir a esse maldito computador e programar um
curso. Faço votos que tenha deixado de ser biruta!
— Suponho — disse Sherkoff, e fracassou inteiramente na
tentativa de esboçar um sorriso — que esse curso vai nos levar para
Um/000?
— Acertou em cheio! — confirmou McLane.
Naturalmente não sabia que trinta e seis naves da frota tática
estavam à sua procura e que a Orion cairia diretamente na malha dos
radares se rumasse agora para a Terra. Aquelas naves tinham instruções
expressas para tratar McLane como traidor.
***
A Orion VIII mudou de curso. Descreveu uma curva circular e projetou-
se pelo espaço, seguindo em direção ao centro da esfera espacial na qual se
encontrava o sol terrano: apenas uma minúscula estrela entre muitas outras.
A nave apresentava avarias tanto internas como externas. Alguns dos
projetores dos anteparos de proteção estavam derretidos. Na casa de
máquinas, havia uma profusão de cabos defeituosos e fusíveis queimados. E
mais de 451 parsec tinham que ser percorridos. Um vôo espacial de nove
dias separava a Orion da Terra.
Helga comunicou:
— Vasculhei toda a redondeza, Cliff, mas não captei um único impulso
sequer dos nossos amigos. Sob ponto de vista radiofônico, esse espaço aqui
está morto!
— Uma notícia que nos alegra imensamente! — respondeu Cliff. — E os
radares, Atan?
Atan desligou as telas e recuou o assento.
— Negativo. Nenhum eco. Nem no planeta, que eu também examinei.
Aquela estação destruída devia ter sido a única em toda esta vasta
região.
McLane olhou ao redor e acenou, satisfeito.
— Muito bem! — disse ele calmamente. — Então está tudo na
mais perfeita ordem. Vamos iniciar a longa viagem de volta. Quando
retornarmos ao espaço normal na zona de distância nove, emitiremos
os nossos comunicados. Provavelmente estão nos procurando.
— Estou de acordo! — disse Tamara. — Quando vamos
mergulhar no hiperespaço?
— Talvez daqui a uns vinte e cinco minutos. Vai demorar um
pouco mais, porque não podemos voar com força total.
Sherkoff levantou-se. Estava extremamente fatigado.
— Gostaria de me recolher ao camarote. Ou ainda vão precisar de
mim como testemunha?
Cliff sacudiu a cabeça.
— Não vamos, não, professor. E muito agradecido por tudo!
— Não há de quê! — disse Sherkoff e dirigiu-se ao elevador. A
porta semicircular fechou-se e o sinalizador indicou que a cabine
estava descendo.
— Agora, escutem! — disse Cliff. — Não há necessidade de todo
mundo ficar aqui, vigiando. Helga e eu vamos assumir o primeiro
turno de cinco horas; os demais vão dormir, e é pra já, entendido?
— Às vezes — observou Hasso — suas ordens são até simpáticas,
comandante McLane!
— Sei disso! — respondeu Cliff. — Às vezes.
Minutos depois, Helga e ele estavam sozinhos na cabine de
comando. Sua presença era uma mera questão de segurança, porque o
comando da nave havia sido entregue ao piloto automático. Cliff sabia
que a tensão das últimas horas havia deixado os nervos de todos em
frangalhos e queria poupar a tripulação o mais que pudesse. Apagou
uma parte da iluminação da cabine, girou a cadeira e acomodou as
pernas em cima da mesa de comando.
— Foi uma parada dura, não foi? — perguntou Helga. Estava
ajustando os receptores para a freqüência usada pela frota.
— Foi mesmo! — disse Cliff. — Quase tão dura como a do
planeta em chamas. Não sei por que qualquer missãozinha inocente
acaba se transformando numa aventura cheia dos mais inesperados
perigos.
Helga riu, baixinho.
— Ontem, Tamara vislumbrou a hora mais gloriosa de sua vida.
Fiquei até com pena ter que desapontá-la.
— Você podia preparar um café bem quente para nós dois — disse
Cliff, e arreganhou os dentes. — Também, você defendeu Hasso como
uma leoa!
— Quem mandou ela me provocar? Foi agredir logo um sujeito
bom e pacato como Hasso!
Helga levantou-se e foi tratar do café. A velocidade da nave estava
aumentando gradativamente. Daqui a pouco atingiria o valor critico e
a Orion mergulharia no hiperespaço. Cliff e Helga não tinham o que
fazer e ficaram contemplando as constelações familiares na tela
central. O aparelho radiofônico silenciava. Um pouco mais tarde,
pegaram no sono; naquele sono leve, característico dos astronautas.
Faltavam três minutos e um quarto para o salto no hiperespaço. E,
então, aconteceu. Os sinais eram tão intensos que Cliff e Helga
acordaram sobressaltados. Testemunharam uma conversação que era
conduzida, em língua clara, no comprimento de onda da frota tática.
Após ouvirem as primeiras frases, Helga e Cliff entreolharam-se
assustados. O que ouviam era por demais ameaçador.
— Acredita que a Orion de McLane se encontra nas imediações?
A voz de um outro capitão, talvez fosse o comandante da frota,
respondeu:
— Creio que sim. Recebemos ordens inequívocas para interceptá-
lo nessa região.
— E o que pretende fazer?
— Dar um rápido aviso e atirar ao primeiro sinal de um movimento
suspeito. Não se esqueça que McLane está em vias de se passar para os
extraterranos! Com uma das naves mais modernas e rápidas e com a arma
mais evoluída que possuímos! Com o Overkill!
Houve uma pausa e depois Helga e Cliff ouviram outras vozes:
— Para mim, a idéia é simplesmente repugnante! Derrubar um colega
nosso! E isso sem falar na tripulação!
Cliff dirigiu-se à mesa radiofônica e agarrou o microfone.
— Estabeleça contato com eles! — pediu. Helga manipulou algumas
chaves e teclas. Depois Cliff disse, em voz alta e nítida:
— Aqui fala o comandante Cliff Allistair McLane da Orion VIII.
As vozes estranhas emudeceram, surpresas. Depois alguém, acostumado
a falar em tom de comando, perguntou:
— O quê? Está maluco, homem? Prontamente, Cliff respondeu:
— Não estou, não! Mas não consigo me lembrar que ultimamente meus
colegas da frota tivessem apertado o gatilho sem mais aquela, apesar das
suas ordens inequívocas!
— Comandante — veio a resposta — temos ordens de execução!
Cliff riu secamente.
— É exatamente disso que eu tenho receio! Se os cavalheiros me
permitem o esclarecimento, não é um desertor que está nas suas telas, mas
sim um comandante que eliminou as causas dessas deserções. E as eliminou
com o emprego do Overkill. O outro manteve-se descrente.
— Pode estabelecer comunicação visual?
— Claro! — disse Helga. — Qual é o canal?
— Dezessete.
Lentamente uma tela aclarou-se diante de Helga e Cliff. Quando a
imagem se firmou, viram o interior de uma cabine de comando que, afora
pequenos detalhes, era igual à da Orion. E viram os rostos incrédulos do
comandante e do telegrafista daquela nave.
— Deve entender que não podemos acreditar no que diz! — advertiu o
major.
— O eco da Orion está nas suas telas de radar? — perguntou Cliff.
— Está, sim. Claro e nítido. Daqui a dez minutos estaremos aí.
— Se um dos seus astronavegadores se der o trabalho de verificar o
nosso curso, vai constatar que estamos voando em direção ao centro. A não
ser que o meu computador e o piloto automático estejam com defeito. Só sei
que programei o curso para Um/000. Acredita em mim, agora?
Algum telegrafista ou astronavegador já devia ter verificado o curso da
Orion, pois uma voz disse claramente:
— McLane disse a verdade. Está se dirigindo ao centro!
— Quando vai mergulhar no hiperespaço?
— Dentro de alguns segundos — disse Cliff. — Pode me seguir e
escoltar até a Base 104. Quem foi que deu a ordem de me eliminar, por
assim dizer?
— A Suprema Comissão Espacial. Mais precisamente, Sir Arthur.
— Um homem encantador! — comentou Cliff. Dos fundos da cabine,
veio o tique-taque do cronômetro que havia iniciado a contagem regressiva
de cem segundos para o salto no hiperespaço.
— Para sua maior tranqüilidade — prosseguiu McLane — cumpre-me
ressaltar que se encontram a bordo da Orion a senhorita Jagellovsk, tenente
do SSG, e o professor Sherkoff, psicodinâmico dos mais renomados. E creio
poder afirmar que o senhor vai ter um bocado de aborrecimentos se esses
dois valiosos membros da sociedade forem eliminados juntamente com um
indigno capitão do espaço. Ainda disponho de setenta e quatro segundos.
Mais alguma pergunta?
— Não, nenhuma!
— Isso me alegra como quê! Vai me acompanhar?
O major lançou um olhar penetrante para McLane e disse, em tom sério:
— Continua gracejando, McLane, apesar da seriedade da situação. Sim,
vamos acompanhá-lo e pode ter certeza de que vamos começar a disparar
sem qualquer aviso se a Orion executar uma manobra suspeita!
Cliff acenou e sorriu ironicamente.
— Nesse caso, queira ter em mente as tolerâncias normais dentro das
quais os pilotos automáticos padronizados da frota costumam operar.
Confidencialmente... Estamos voando em companhia de dois cavalheiros e
uma dama que tentaram desertar. Só que não tiveram êxito. Em
compensação, conseguimos destruir vinte e duas naves inimigas e uma
estação do adversário. Muito obrigado pelo bate-papo!
Com essas palavras, Cliff pôs fim à conversa. E bem na hora, pois
enquanto esticava a mão para desligar a tela, a Orion VIII mergulhou no
hiperespaço. Nove dias mais tarde houve um verdadeiro rebuliço na Base
104. Trinta e seis naves de uma esquadrilha tática apareceram nas
imediações da Terra. A Estação Avançada IV recebeu, sucessivamente,
trinta e sete chamados: o último era da Orion. Durante minutos, o Centro de
Comunicações e a Suprema Comissão Espacial pareciam formigueiros
tumultuados antes que a agitação amainasse. Depois, a Orion aproximou-
se majestosamente, atravessou o remoinho e baixou ao fundo do
gigantesco cilindro de aço protegido pela cúpula de raios energéticos.
Os sete ocupantes desembarcaram e a turma de manutenção começou
a examinar as pesadas avarias no casco externo da nave.
***
Os três homens estavam sentados, um defronte ao outro, entregues
a meditações silenciosas. Sherkoff parecia interessado na imagem do
rosto enrugado de Henryk Villa, que o tampo espelhado da mesa
refletia. McLane, que estudava o perfil do chefe do serviço secreto, foi
o primeiro a romper o silêncio.
— Há um pormenor — disse ele — que eu gostaria de debater —
sua voz soava rouca e estava quase explodindo de raiva.
— Pois, não — respondeu Villa — pode falar! — a expressão do
seu rosto continuava impassível.
— Estou achando — começou McLane — que ultimamente ordens
para atirar e matar são expedidas com uma facilidade de estarrecer. E
tenho razões de sobra para supor que as diretivas nesse sentido nascem
no seu gabinete. Mas como no seu gabinete ninguém manda coisa
alguma a não ser o senhor mesmo, coronel Villa, é fácil chegar à
conclusão que se trata de ordens pessoais suas. E isso me incomoda um
pouco.
Villa deu um breve sorriso e olhou para Cliff. Ia responder, mas o
professor Sherkoff antecipou-se a ele.
— Posso afirmar, Villa, que já vivi metade de uma vida bastante agitada.
Alegro-me em saber que, graças à medicina e ao ar isento de poluição, a
média de vida subiu de alguns anos. Era minha intenção comprovar esses
dados por experiências próprias, o que quer dizer, em outras palavras, que
tenciono chegar aos oitenta anos. Não poderia estar pensando nisso, agora,
se aquelas trinta e seis naves tivessem seguido as suas instruções.
— Bem que poderia ter mandado apenas três ou quatro — disse McLane.
— Mas não fez por menos: enviou logo trinta e seis! Isso é até humilhante! E
ainda por cima mandou Lydia Van Dyke, a julgar pelos boatos que circulam
pelos corredores da Base 104.
Villa começou a tamborilar no tampo da mesa.
— Será que eu também posso dizer alguma coisa no meu próprio
gabinete?
— Fazemos questão de ouvi-lo — respondeu Sherkoff, sarcasticamente,
e riu.
— Major McLane! — começou Villa. — O senhor é um dos nossos
melhores comandantes. Mantém relações amistosas com Van Dyke e
com Wamsler. É considerado o homem das escapadas e do
infringimento dos regulamentos. Isso motivou a sua remoção para o
Serviço de Patrulha por um período de três anos, dos quais se
passaram apenas quatro meses. Mas, mesmo nesse novo serviço, o
senhor continua a dar os seus espetáculos extraprograma. Quem é que
lhe autorizou a sair da região limítrofe? Cliff engoliu um palavrão e
respondeu:
— Ninguém. Mas eu tinha que fazê-lo senão os extraterranos
teriam capturado outras naves. E todo mundo sabe que a minha
incursão naquela região além da fronteira se constituiu num êxito
total. Mas não vai poder me responsabilizar pelo fato de que duas
estações retransmissoras entraram em pane ao mesmo tempo. Nem
passei nas proximidades delas.
Villa recostou-se e cruzou os braços.
— Tem imaginação? — perguntou, calmamente. Cliff acenou.
— Então tente imaginar o que somos forçados a pensar plantados
aqui no gabinete. Só dispomos dos dados de algumas estações de
busca, da experiência dos nossos homens e de praticamente mais nada.
E, de repente, a 450 parsec de distância, uma nave proclama sua
independência. Uma nave que leva a bordo a arma mais temível do
nosso arsenal. Eu lhe pergunto: não tínhamos que acreditar que estivesse
desertando, como Alonzo Pietro?
Sherkoff largou a palma da mão na mesa.
— E a senhorita Jagellovsk assiste a tudo isso de braços cruzados? Sem
falar na minha insignificância? Um belo elogio esse que está tecendo às suas
agentes, Villa! Será que não confia em ninguém?
Villa sacudiu a cabeça.
— Não confio, não. Confidencialmente: não confio nem em mim
mesmo. Sei com que facilidade se pode mudar de opinião ou trocar de
convicção. Mormente quando se está sujeito a uma influência por meio de
raios telenóticos. Não posso afirmar que teria mantido a lucidez. Como
sabem, foram ao todo quatro pessoas que se tornaram vítimas daquele raio
perdendo a vontade própria.
— Pietro, Hasso, Mario e Tamara. Tem razão, coronel! — disse Cliff.
— A minha explicação é essa — respondeu Villa. — Eu teria mandado
caçar até o general Van Dyke se a sua nave tivesse seguido um curso
misterioso. Não se trata do senhor, McLane, e sim, da Terra. Trata-se do
nosso sistema solar e dos bilhões de pessoas que o habitam.
— Entendo! — disse Cliff. — De agora em diante, vou me cingir
direitinho aos regulamentos quando estiver frente a frente com um desses
estranhos. Aí eu vou perguntar primeiro se posso ou não defender a Terra. Se
a resposta for afirmativa, vou agir. Só que — fez uma pausa para aumentar o
efeito de suas palavras — provavelmente, nesse caso, será tarde demais.
Com a sua licença, vou me retirar — e retirou-se; estava tão furioso como no
início da conversa.
Villa acompanhou McLane com o olhar até que a barreira reerguida o
ocultou da visão. Depois virou-se para Sherkoff e sorriu.
— Um homem enérgico, esse McLane! — comentou.
Sherkoff concordou.
— E um comandante fora de série, Villa!
12

OS robôs de Cliff haviam arrumado a grande mesa redonda no terraço


espaçoso.
Velas legítimas, fixadas em castiçais caríssimos, espargiam uma suave
luz amarela sobre os dez rostos.
Cliff estava dando uma recepção, comemorando o feliz retorno. Com
poucas exceções, estavam reunidas todas as pessoas que tinham participado
da última operação. Mas, hoje, os convidados não poderiam saborear aquele
uísque autêntico, porque a intervenção salvadora de Cliff não se tinha
desenrolado em escala planetária. A tripulação havia comparecido em
peso. Hasso, pensativo, estava sentado ao lado de Atan e alternava o
olhar ausente entre o copo e o rosto de Lydia Van Dyke que trocava
idéias com Tamara. Mario estava conversando animadamente com
Helga; hoje tinha fugido ao hábito e não se fez acompanhar por um
dos ajudantes femininos das diversas ante-salas. Devia estar com as
finanças abaladas. Cliff McLane estava em pé ao lado da cadeira,
reabastecendo o copo de Alonzo Pietro pela segunda vez. O técnico de
armas Rott discutia em voz alta com o professor Sherkoff a respeito
do Overkill.
— Silvan — disse Cliff. — Será que não consegue esquecer ao
menos por uma hora que aquele troço foi desenvolvido sob sua
direção? Esse interminável papo profissional está acabando de vez
com os meus nervos esfrangalhados!
Rott concordou.
— Se achar o tema mais interessante, podemos falar sobre os
efeitos da telenose.
— Sim, ou sobre Villa, o chefe dessa encantadora senhora, aqui,
ao meu lado! — disse Cliff, aborrecido.
Tamara já tinha preparado o seu sorriso especial.
— Obrigada! — disse ela. — Está me cobrindo de gentilezas como
nunca.
Cliff parecia estar de muito bom humor, pois respondeu:
— Não há de quê. A verdade é sempre desagradável. Se as damas e os
cavalheiros estiverem com frio, podem se dirigir ao salão. Mas se vocês
pensam encontrar bebidas alcoólicas de alto nível, preciso desapontá-los;
está tudo vazio!
— Um anfitrião perfeito! — disse Mario e levantou-se. — Venha,
Helga! Vamos ver se Cliff falou a verdade!
Voltaram à grande sala de estar. Mario recostou-se contra o canto de um
pesado móvel e lançou um olhar indagativo para Helga.
— Há alguma coisa que você está querendo me confidenciar. Venho
reparando isso a noite inteira.
— Às vezes — respondeu Helga lentamente — você consegue me
surpreender, Mario. Como reparou?
Fingindo-se ofendido, o subcomandante respondeu:
— Pode ser que minhas boas maneiras deixem muito a desejar, mas não
ganhei a minha patente de oficial de mão beijada.
— De mim não a ganhou, não; disso eu tenho certeza! — respondeu
Helga. — Mas o que eu quis dizer é que os nossos atores principais estão em
vias de se apaixonar!
Mario recuou.
— Quem? — perguntou, mais do que surpreso.
— Cliff e aquele anjo do serviço secreto.
Mario emitiu uma risada oca e depois sacudiu a cabeça com
veemência.
— Está se vendo que você ficou tempo demais perto daquele
computador telenótico! — disse ele, rindo. — Essa é a maior piada
que eu ouvi desde que fui batizado. Cliff e aquela... Não tem
cabimento! Existe um abismo cósmico entre esses dois!
— Quer apostar? Mario fez que sim.
— Topo qualquer aposta — disse ele. — Todo mundo sabe que
Cliff está enrascado com aquela loura que mora na outra extremidade
da ilha e volta e meia aparece aqui com aquele carrão pesado. Cliff e
Tamara! Helga, você precisa ir a um oculista!
O indicador de Helga quase furou o tecido do uniforme de Mario.
— Eu aposto uma garrafa de dois litros de champanha legítima!
— Aposta aceita! — disse Mario. — Mas não vale se o nosso
comandante estiver completamente bêbado!
— De acordo! — disse Helga. — Agora, vamos nos certificar de
que realmente só há copos vazios no bar de Cliff! Duvido!
Mas foi só o que encontraram. Enquanto isso, Silvan Rott e Cliff
McLane estavam passeando em torno da piscina, debatendo os
resultados que o comandante havia obtido com o emprego do
Overkill. A conversa durou mais de meia hora; os outros convidados
cansaram-se de ouvir expressões como "intensidade de campo", "grau
de efeito", "distâncias", "intervalos", "forças subatômicas".
— Diga-me uma coisa — perguntou Lydia Van Dyke a Tamara.
— Como está se arranjando com esse herói obstinado?
Tamara balançou o copo e disse:
— Bem; de uma maneira bastante agradável. Vez por outra sou
obrigada a recitar os meus parágrafos. Mas, de um modo geral,
McLane não se afasta dos seus bons propósitos.
— Não conseguiu detê-lo quando quis atacar a base dos estranhos?
Tamara pensou com cuidado na resposta que ia dar.
— Só havia um meio de consegui-lo — disse ela — mas não pude
recorrer a esse meio por razões óbvias.
— Como assim? — perguntou Lydia. Tamara estava achando
Lydia Van
Dyke extremamente simpática. O que mais a fascinava eram
aquela voz serena e áspera e os olhos verdes e calmos.
— Teria sido necessário paralisar toda a tripulação, inclusive o
professor Sherkoff. Acontece que eu não tenho condições de manobrar
uma nave do tipo da Orion, ainda mais sozinha.
— Quer dizer que McLane não pôde ser dissuadido com
argumentação lógica?
Tamara sacudiu a cabeça.
— Vou apelar para o seu sigilo profissional e lhe confidenciar uma
coisa — disse Lydia. — Tente controlar o tremor dos seus joelhos.
— Estou curiosa.
— Por muito pouco não ataquei e destruí a nave de McLane com o
Overkill. Somente um ataque de naves inimigas, que eu
evidentemente poderia ter rechaçado dentro de minutos, me forneceu
o pretexto para não fazê-lo. Me expus às mais veementes críticas por
parte da minha tripulação.
Tamara arregalou os olhos numa expressão do mais puro espanto.
— Mas por quê... por que a encarregaram de... — perguntou, ela
gaguejando.
— Ordens expressas de Villa, Wamsler e Sir Arthur!
— E por que a senhora não disparou?
— Faça-me o favor! — respondeu Lydia. — Então nossa
civilização pode, de sã consciência, se dar o luxo de eliminar homens
como McLane?
Tamara manteve-se em silêncio por alguns segundos e depois
respondeu:
— Não pode, não! Certamente que não!
— Está aí a razão pela qual eu não disparei! — disse Lydia e
começou a prestar atenção na conversa entre Hasso e Alonzo Pietro.
Conseguiu captar algumas frases.
— Comandante, ainda se lembra de alguma coisa? — perguntou
Hasso. — Quero dizer, consegue se lembrar do estado em que se
encontrava sob efeito telenótico?
— Não me lembro de absolutamente nada!
— Eu também não. Há um lapso na minha memória que se estende
desde o instante em que caí no alcance daquele computador até o
primeiro contato com outro assunto importante.
A expressão de Pietro era muito séria quando acenou e respondeu:
— Foi uma sorte que o senhor também passou por isto. Sorte para
mim, bem entendido!
Hasso fez uma careta.
— É óbvio! — explicou Alonzo. — Se o senhor não tivesse
passado pela mesma coisa, eu estaria sendo vigiado e interrogado
pelos cavalheiros do Serviço de Segurança Galático até hoje. Estou
livre e fui reempossado no comando da minha nave. E isso eu devo
exclusivamente a essa casualidade e, principalmente, à elucidação do
caso.
— Agradeça isso também a Tamara, Cliff e Sherkoff. Porque, sem
eles, o senhor teria fatalmente caído nos braços abertos do inimigo! —
disse Hasso e acenou. Pietro esvaziou o copo de um só gole.
— Não vou me esquecer disso! prometeu.
Cliff levantou a voz e gritou no costumeiro tom de comando:
— Meus amigos! Aqui não temos nada para beber. Proponho
pegar meu carro e o do general Van Dyke e transferir o campo de
operações para o cassino. É provável que lá encontremos também o
marechal Wamsler, ao qual quase teríamos que agradecer o nosso
falecimento prematuro!
A proposta foi aceita por unanimidade. Vinte minutos mais tarde,
os dez invadiram o cassino. Como de hábito, estava superlotado,
ultrabarulhento e repleto de astronautas. A tripulação tomou de assalto
a mesa reservada e capturou algumas poltronas adicionais. Depois
dedicou-se a elaborar uma longa lista de pedidos.
Cliff virou-se em meio a uma frase. Sentiu que alguém tinha
cravado o olhar nas suas costas.
Atrás dele estava o marechal Wamsler. Risonho, enorme, e trajado
com o uniforme de serviço, negro como os olhos e o cabelo. Trazia
um copo semivazio na mão e disse, com sua voz de trovão:
— Queira aceitar mais uma vez as minhas congratulações,
comandante!
Cliff permaneceu sentado e olhou para o marechal com uma
expressão que não se podia chamar de amável.
— Obrigado! — disse, laconicamente.
— Se soubesse — continuou Wamsler em voz alta — o que eu
passei por sua causa...
A observação capciosa pôs fim à conversa na mesa. Os dez
convivas olharam para Wamsler como se fosse um extraterrano.
— Posso imaginar! — disse Cliff, rompendo o silêncio. — Devem
ter passado horrores aqui. Enquanto isso, nós fizemos um piquenique,
alegres e contentes. O senhor disse alguma coisa?
— Não falemos mais nisso! — disse Wamsler e liquidou o assunto
com um gesto da mão.
— Faço idéia, marechal! — disse Cliff. — Deve ter custado emitir
a ordem para destruir a oitava Orion. Afinal tratava-se de uma nave de
valor inestimável.
Wamsler entendeu.
— Se eu pudesse emitir ordens telenóticas... — disse no mesmo
tom de voz — então eu ordenaria o tempo todo: nada de
extravagâncias, Cliff McLane, nada de extravagâncias!
— Alegra-nos sobremodo — respondeu Cliff, com ironia — que o
privamos dessa possibilidade, marechal, por termos destruído a base
dos estranhos. Foi uma mera casualidade.
— E sem essas extravagâncias — disse Alonzo Pietro — eu estaria
morrendo de fome nos calabouços do SSG!
— Quanto a isso, o senhor não deixa de ter razão! — disse
Wamsler. — Posso me sentar?
Cliff tornou-se quase insolente.
— Se encontrar uma cadeira, será um prazer!
Hasso tentou amenizar um pouco a discussão acalorada e levantou-
se. Wamsler largou o pesado corpo na cadeira que o engenheiro lhe
havia oferecido.
A situação estava realmente tensa e o marechal tentava suavizá-la
ostentando um comportamento exageradamente jovial. Por seu lado,
escapando por pouco da instauração de um processo disciplinar, Cliff
tentou explicar ao marechal o que achava de umas determinadas
ordens e daqueles que as emitiam.
— Sabe, McLane — continuou Wamsler no mesmo tom de voz —
no fundo o senhor é um sujeito legal. Já nos causou uma infinidade de
preocupações mas, por outro lado, também nos aliviou de outras
tantas.
— A minha missão — explicou Cliff — é salvar a Terra a toda
hora.
— É uma bela missão! — confirmou Wamsler, dedo em riste.
Sherkoff levantou-se e parou ao lado de Tamara Jagellovsk. Há
poucos segundos, a música tinha começado a tocar.
— Fará alguma objeção — perguntou o psicodinâmico — se eu
lhe pedir para dançar comigo?
Tamara estava visivelmente surpresa com tanta formalidade;
levantou-se e seguiu Sherkoff para a pista de dança.
— Pelo contrário! — disse ela, em voz alta a fim de se fazer ouvir
através da música. — Com o maior prazer!
— Eu já estava receoso que a senhora tivesse algo contra mim...
Com o próximo passo complicado da dança, Tamara conseguiu
reaproximar-se do professor e perguntou:
— Por que eu devia ter algo contra o senhor?
Depois se lembrou.
— Já sei! Por que o senhor tinha razão com a sua tese a respeito
daquele tele... telenegócio. Acha realmente que sou tão orgulhosa?
Reparou com o rabo dos olhos que Cliff McLane a estava
observando com um olhar pensativo.
Helga Legrelle dirigiu-se ao comandante.
— Você, hoje de noite, está um bocado impressionado com a
camarada Jagellovsk, não é? — disse ela, e deu uma cotovelada nas
costelas de Mario que começou a rir.
— O quê? — perguntou Cliff, perdido em pensamentos. — Ah!
Sei! Num certo sentido, toda mulher me impressiona. Você também,
garota.
Helga tinha conseguido mudar o assunto da conversa, o que deixou
Wamsler visivelmente aliviado.
— Você não tem medo que um dia desses eu possa querer
desertar? — perguntou a telegrafista.
Cliff riu para ela. (
— Será que você teria coragem de fazer uma coisa dessas? —
perguntou, admirado.
— E sem pestanejar! — respondeu ela, prontamente.
— Nesse caso eu teria que comunicar isso imediatamente ao nosso
oficial de segurança. E você sabe que a camarada Tamara não leva
esse assunto na brincadeira!
Helga convidou Mario para dançar. Levantaram-se e enquanto
pousava o braço no do subcomandante, disse:
— Cliff, você sempre foi e sempre será um herói inescrupuloso!
Cliff concordou com um aceno.
Mario e Helga dirigiram-se à pista de dança. McLane não se
lembrou de imediato daquele jovem oficial que, agora, parou junto à
mesa e se apresentou a Wamsler. Era o tenente Becker, o que Cliff
tinha despachado de maneira tão ignóbil.
— Que vida boa o senhor leva, major! — constatou Becker.
— O que lhe faz dizer isso? — perguntou Cliff e lembrou-se
daqueles minutos nos quais ele e Lydia haviam debatido a destruição
da Orion.
— A mesa cheia de copos; todas as celebridades na sua roda; as
mais belas senhoras do cassino entre os seus convidados... vou
solicitar minha admissão na gloriosa equipe da Orion!
Cliff deu um sorriso meio azedo e observou Mario e Helga que
estavam se contorcendo ao ritmo de uma das danças atualmente em
voga.
— Faça isso! — respondeu, distraído. — Será bem-vindo. Vou
mandar construir um anexo.
Sherkoff e Tamara voltaram à mesa, rindo.
— Uma pergunta, professor Sherkoff. Diga-me... os raios
telenóticos produzem efeitos secundários?
Sherkoff ainda estava rindo.
— É possível que uma exposição demasiadamente longa a esses
raios possa causar lesões permanentes.
— E no caso de uma exposição de curta duração... também? —
quis saber Cliff. e apontou para Mario e Helga, que estavam fazendo
séria concorrência a um corpo de baile inteiro.
— Isso depende. Mas, como vimos — e Sherkoff indicou para
Hasso e Pietro — essas perturbações desaparecem rapidamente.
Cliff sacudiu a cabeça.
— É gozado! — finalizou. — É que, no momento, eu tenho a
impressão que, em certas pessoas, essas perturbações estão mal
começando.
Wamsler engasgou e tossiu fortemente.
— Está vendo! — disse o comandante Cliff Allistair McLane. —
Este é o castigo merecido pelas suas ordens!
Não se comoveu com os esforços ofegantes de Wamsler, que
lutava para recuperar o fôlego.
***
Mesmo desobedecendo uma ordem superior, o major Cliff resolve
o mistério que envolvia aquelas deserções. Ao voltar, é avisado que
algo de estranho acontecia ao sol de Terra: estava perdendo a
intensidade!
Em A Luta Pelo Sol, próximo título de mais uma emocionante
aventura da Orion, Cliff terá de ludibriar o raciocínio frio de uma
mulher...
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