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TRIGÉSIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM.

NOSSO SENHOR
JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

91. O REINADO DE CRISTO


– Um reinado de justiça e de amor.

– Que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, na nossa vontade, em todas as
nossas acções...

– Estender o Reino de Cristo.

I. O SENHOR SENTAR-SE-Á como rei para sempre, o Senhor abençoará o


seu povo dando-lhe a paz1, recorda-nos uma das Antífonas da Missa.

A solenidade que celebramos hoje “é como uma síntese de todo o mistério


salvífico”2. Com ela encerra-se o ano litúrgico: depois de termos celebrado
todos os mistérios da vida do Senhor, apresenta-se agora à nossa
consideração Cristo glorioso, Rei de toda a criação e das nossas almas. Ainda
que as festas da Epifania, Páscoa e Ascensão sejam também festas de Cristo
Rei e Senhor de todas as coisas criadas, a de hoje foi especialmente instituída
para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece
querer viver de costas para Deus3.

Os textos da Missa salientam o amor de Cristo-Rei, que veio estabelecer o


seu reinado, não com a força de um conquistador, mas com a bondade e a
mansidão do pastor: Eis que eu mesmo irei buscar as minhas ovelhas,
seguindo o seu rasto. Assim como um pastor segue o rasto do seu rebanho
quando as ovelhas se encontram dispersas, assim eu seguirei o rasto das
minhas ovelhas; e livrá-las-ei tirando-as de todos os lugares por onde se
tenham dispersado no dia das nuvens tempestuosas e da escuridão4.

Foi com esta solicitude que o Senhor veio em busca dos homens dispersos
e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os
e vendou-lhes as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. “Como Rei,
vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o
Redentor do homem. O Reino instaurado por Jesus Cristo actua como
fermento e sinal de salvação a fim de construir um mundo mais justo, mais
fraterno, mais solidário, inspirado nos valores evangélicos da esperança e da
futura bem-aventurança a que todos estamos chamados. Por isso, no Prefácio
da celebração eucarística de hoje, fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai um
reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de
paz”5.

Assim é o Reino de Cristo, do qual somos chamados a participar e que


somos convidados a dilatar mediante um apostolado fecundo. O Senhor deve
estar presente nos nossos familiares, amigos, vizinhos, companheiros de
trabalho... “Perante os que reduzem a religião a um cúmulo de negações, ou se
conformam com um catolicismo de meias-tintas; perante os que querem pôr o
Senhor de cara contra a parede, ou colocá-lo num canto da alma..., temos de
afirmar, com as nossas palavras e com as nossas obras, que aspiramos a fazer
de Cristo um autêntico Rei de todos os corações..., também dos deles”6.

II. OPORTET AUTEM illum regnare..., é necessário que Ele reine...7

São Paulo ensina que a soberania de Cristo sobre toda a criação cumpre-se
agora no tempo, mas alcançará a sua plenitude definitiva depois do Juízo
universal. O Apóstolo apresenta este acontecimento, para nós misterioso,
como um ato de solene homenagem ao Pai: Cristo oferecer-lhe-á toda a
criação como um troféu e apresentar-lhe-á finalmente o Reino cuja realização
lhe havia sido confiada até aquele momento8. A sua vinda gloriosa no fim dos
tempos, quando tiver estabelecido os novos céus e a nova terra9, representará
o triunfo definitivo sobre o demónio, o pecado, a dor e a morte10.

Entretanto, a atitude do cristão não pode ser de mera passividade em


relação ao reinado de Cristo no mundo. Nós desejamos ardentemente esse
reinado: Oportet illum regnare...! É necessário que Cristo reine em primeiro
lugar na nossa inteligência, mediante o conhecimento da sua doutrina e o
acatamento amoroso dessas verdades reveladas. É necessário que reine na
nossa vontade, para que se identifique cada vez mais plenamente com a
vontade divina. É necessário que reine no nosso coração, para que nenhum
amor se anteponha ao amor a Deus. É necessário que reine no nosso corpo,
templo do Espírito Santo11; no nosso trabalho profissional, caminho de
santidade... “Como és grande, Senhor nosso Deus! Tu és quem dá à nossa
vida sentido sobrenatural e eficácia divina. Tu és a causa de que, por amor do
teu Filho, possamos repetir com todas as forças do nosso ser, com a alma e
com o corpo: Convém que Ele reine!, enquanto ressoa a canção da nossa
fraqueza, pois sabes que somos criaturas”12.

A festa de hoje é como uma antecipação da segunda vinda de Cristo em


poder e majestade, a vinda gloriosa que se apossará dos corações e secará
toda a lágrima de infelicidade. Mas é, ao mesmo tempo, uma chamada e um
incentivo para que todas as coisas à nossa volta se deixem impregnar pelo
espírito amável de Cristo, pois “a esperança de uma nova terra, longe de
atenuar, deve antes estimular a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra, na
qual cresce o Corpo da nova família humana que já nos pode oferecer um certo
esboço do novo mundo. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser
cuidadosamente distinguido do crescimento do Reino de Cristo, no entanto o
progresso terreno é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em
que pode contribuir para organizar melhor a sociedade humana.

“Depois de termos propagado na terra – no Espírito do Senhor e por sua


ordem – os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da
liberdade, voltaremos a encontrar todos esses bons frutos da natureza e do
nosso trabalho – desta vez limpos já de toda a impureza, iluminados e
transfigurados – quando Cristo entregar ao Pai o Reino eterno e universal [...].
O Reino já está misteriosamente presente aqui na terra. E quando o Senhor
vier, alcançará a sua perfeição”13. Nós colaboramos na propagação do reinado
de Jesus quando procuramos tornar mais humano e mais cristão o pequeno
mundo que frequentamos diariamente.

III. JESUS RESPONDEU a Pilatos: O meu Reino não é deste mundo... E


quando o Procurador tornou a interpelá-lo, afirmou-lhe: Tu o dizes, eu sou rei14.
Não sendo deste mundo, o Reino de Cristo começa já nesta terra. O seu
reinado expande-se entre os homens quando eles se sentem filhos de Deus,
quando se alimentam d’Ele e vivem para Ele.

Cristo é um Rei que recebeu todo o poder no céu e na terra, e governa


sendo manso e humilde de coração15, servindo a todos, porque não veio para
ser servido, mas para servir e dar a sua vida para a redenção de muitos. O seu
trono foi o presépio de Belém e depois a Cruz do Calvário. Sendo o Príncipe
dos reis da terra16, não exige outros tributos além da fé e do amor.

Um ladrão foi o primeiro a reconhecer a sua realeza: Senhor – dizia-lhe ele


com uma fé simples e humilde –, lembra-te de mim quando entrares no teu
reino17. O título que para muitos foi motivo de escândalo e de injúrias, será a
salvação deste homem em quem a fé lançou raízes, quando mais oculta
parecia a divindade do Salvador. O Senhor “concede sempre mais do que
aquilo que lhe pedem: o ladrão só lhe pedia que se lembrasse dele; mas o
Senhor disse-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso. A vida
consiste em habitar com Jesus Cristo, e onde está Jesus Cristo ali está o seu
Reino”18.

Na festa de hoje, ouvimos o Senhor dizer-nos na intimidade do nosso


coração: Eu tenho sobre ti desígnios de paz e não de aflição 19. E fazemos o
propósito de corrigir no nosso coração o que não estiver de acordo com o
querer de Cristo.

Ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nos reforce a vontade de colaborar na


tarefa de estender o seu reinado ao nosso redor e em tantos lugares em que
ainda não o conhecem. “Foi para isso que nós, os cristãos, fomos chamados,
essa é a nossa tarefa apostólica e a preocupação que deve consumir a nossa
alma: conseguir que o reino de Cristo se torne realidade, que não haja mais
ódios nem crueldades, que estendamos pela terra o bálsamo forte e pacífico do
amor”20. Que o Senhor nos faça sentir-nos verdadeiramente comprometidos a
realizar um apostolado constante e eficaz.

Para tornarmos realidade os nossos desejos, recorremos uma vez mais a


Nossa Senhora. “Maria, a Mãe santa do nosso Rei, a Rainha do nosso
coração, cuida de nós como só Ela o sabe fazer. Mãe compassiva, trono da
graça: nós te pedimos que saibamos compor na nossa vida e na vida dos que
nos rodeiam, verso a verso, o poema singelo da caridade, quasi fluvium pacis
(Is 66, 12), como um rio de paz. Pois tu és um mar de inesgotável
misericórdia”21.

(1) Sl 28, 10-11; Antífona da comunhão da Missa do último domingo do Tempo Comum; (2)
João Paulo II, Homilia, 20.11.83; (3) cfr. Pio XI, Carta Encíclica Quas primas, 11.12.25; (4) Ez
34, 11-12; Primeira leitura da Missa do último domingo do Tempo Comum, ciclo A; (5) João
Paulo II, Alocução, 26.11.89; (6) S. Josemaría Escrivá, Sulco, n. 608; (7) 1 Cor 15, 25;
Segunda leitura da Missa do último domingo do Tempo Comum, ciclo A; (8) cfr. 1 Cor 15, 23-
28; (9) Apoc 21, 1-2; (10) cfr. Sagrada Bíblia, Epístola de São Paulo aos Coríntios, nota a 1 Cor
15, 23-28; (11) cfr. Pio XI, Carta Encíclica Quas primas, cit.; (12) S. Josemaría Escrivá, É
Cristo que passa, n. 181; (13) Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 39; (14) Jo
18, 36-37; (15) cfr. Mt 11, 29; (16) Apoc 1, 5; Segunda leitura da Missa do último domingo do
Tempo Comum, ciclo B; (17) Lc 23, 42; (18) Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de São
Lucas; (19) Jer 29, 11; (20) S. Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 183; (21) ibid., n. 187.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)