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Concurso «Jovens autores de histórias ilustradas»

Depois das lágrimas poluírem

de histórias ilustradas» Depois das lágrimas poluírem Texto : Joana Silva Ilustrações : Débora Fonseca Colégio

Texto: Joana Silva

Ilustrações: Débora Fonseca

Colégio Cidade Roda

Podia escrever um conto de fadas, com tudo perfeito, com um final feliz, começar por «Era uma vez…» ou «Um dia…» mas não! Prefiro escrever uma história bem real, com sentimentos verdadeiros, lágrimas derramadas, sofrimento quanto baste e uma grande pitada de coragem.

Conheço esta protagonista como se de mim mesma se tratasse. As suas lágrimas também tocaram o meu rosto, o seu sangue também escorreu pelas minhas mãos, o meu coração sentiu o que ela própria sentiu. Vejo-me no espelho com se a visse a ela.

Bem sei que escrever uma história destas é complicado, um caderno em branco não é o muro das lamentações, mas para um futuro de zero emissões temos de começar já e começar já é começar por não chorar mais… As emissões de lágrimas e sofrimento para a atmosfera têm de acabar, se queremos um planeta feliz, quem cá vive também tem de estar feliz!

Para iniciar esta história tenho de recuar alguns anos atrás, já devia saber que o futuro não dá presentes a quem vive no passado, mas, neste caso, eu vou só recordá-lo, e se recordar é viver, então sim, posso dizer que vou vivê-lo outra vez.

Se tivesse uma máquina do tempo programava-a para 2010, quatro anos atrás para ser bem precisa. É aqui que tudo começa: o sofrimento, a dor, o isolamento, a vontade de morrer… Tudo isto vem de acréscimo àquela data: 2010. Dava um bom nome para filme mas, como não sou crítica de cinema, vou limitar-me a contar a história tal e qual como ela aconteceu, sem efeitos especiais e duplos de atores principais, sem lágrimas provocadas pela cebola e o sangue, esse, é bem mais real do que a melhor das tintas.

Só quero avisar que, a partir daqui, as minhas palavras vão ser menos meigas, a verdade nua e crua vai ser revelada. Pedia aos leitores mais sensíveis para pararem por aqui e para passarem esta leitura a alguém com um coração mais forte.

Um insulto hoje, outro amanhã, mais um depois de amanhã. Um riso aqui, outro acolá, mais um além… Subvalorizada, subestimada como se fosse menos do que eles, como se não fôssemos todos seres humanos dignos de respeito, como se fosse um extraterrestre diferente de todos nós. Tratada a baixo de cão, sim, porque até com isso gozaram: «Até a minha cadela é mais bonita do que tu!». Esta frase nunca me há-de sair da cabeça, nem da minha que apenas estive aqui como segundo plano, nem da dela porque apesar de sermos diferentes sinto e vivo tudo tal e qual como ela…

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Ouvir insultos a toda a hora não é fácil. Primeira estratégia: fingir que se ignora. Nunca resulta porque, por mais que façamos as pessoas à nossa volta acreditar que não ligamos, é mentira! Quanto mais tentamos esquecer mais a memória nos trai e traz as recordações de volta. Segunda estratégia: disfarçar. Fingir que não é nada connosco e que a boca que mandaram para o ar não era para nós, segunda tentativa falhada. Por mais que tentemos fazer ouvidos de mercador e continuemos a caminhar e a rir como se não fosse nada para nós, pior

é, quem humilha odeia desprezo e vai fazer ainda pior.

Estratégia número três:

responder às provocações. Quando se chega a esta etapa, a paciência está a chegar ao limite e nem a cabeça nem o coração aguentam mais. Mais uma tentativa falhada, este esquema também não resulta. Resposta é o que eles querem e se lha dão, aí que vai ultrapassar todos os limites.

e se lha dão, aí que vai ultrapassar todos os limites. Quarto passo: isolamento. A cabeça

Quarto passo: isolamento.

A cabeça está a rebentar e

a vontade da vida acabar é tanta… Intervalos fechada na casa de banho com medo, as horas de almoço com os que se diziam amigos, esquecidas, nem saía da ao pé porta da sala de aula só de pensar que eles podiam passar e fazer troça de qualquer coisa, como costumava ser o prato do dia. Mesmo assim, nunca ninguém a viu chorar, todos os dias lá estava com um sorriso, ainda que fingido, para toda a gente pensar que não se passava nada quando se passava tudo por de trás daquela máscara de

pessoa forte.

«És um pão com bolor! Não vales nada!». Custa-me ainda hoje pensar no momento em que lhe disseram esta frase… O meu coração partiu, só de imaginar o dela…

A partir daqui, foi bem pior, quando ela pensava que tudo ia acabar, era

quando voltavam e continuavam o que já tinham começado há muito tempo atrás. Desta feita, com um acrescento, cada vez eram maiores as

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humilhações, os insultos mais graves e os maus pensamentos… Cada vez mais na linha da frente.

Como se já não bastasse tudo o que lhe tinham feito até ali, criaram um boato que ia sendo o fim desta história.

Os boatos podem ser mentiras, todavia quando são ditos pelas superstars da escola toda a gente acredita. Eu sabia que não era verdade, seria ela capaz de roubar o namorado a alguém? Por amor de Deus, é óbvio que não! Tudo o que ela queria era ser feliz e que a deixassem em paz, mas paz era tudo aquilo que ela não tinha naquele momento da sua vida.

Chegaram ao ponto de escrever declarações de amor nos muros da escola, assinadas como se fosse ela a declarar aquilo. Acho que não havia necessidade de mais, já não bastava tudo o resto? Ela também pensava assim e foi isso que a levou ao desespero, acusada de «ladra de namorados», humilhada a todo o momento e ainda lhe pediam boas notas e que trabalhasse em casa, mais do que ninguém, estava farta de tudo e decidiu acabar com a sua própria vida.

farta de tudo e decidiu acabar com a sua própria vida. Não perdeu tempo, um dia,

Não perdeu tempo, um dia, à tarde, chegou a casa, farta de tudo e daquele dia que tinha sido horrível, pegou numa faca e fugiu de casa…

Sozinha, chegou ali, ao meio do nada, em pânico, assustada e farta de ser constantemente rebaixada por todas as outras pessoas, decidiu acabar ali consigo própria. Sim, sozinha, sozinha no mundo, como sempre esteve e como tinha a certeza que sempre iria estar, pegou na faca que tivera trazido consigo e nem ela sabe muito bem como teve coragem, mas cortou os seus próprios pulsos, ali, assim, a sangue frio, sem dó nem piedade de si própria.

Com as mãos a escorrer em sangue, sangue que também passou na palma da minha mão, parou uns momentos e pensou, pensou em tudo o que lhe haviam feito, os risos, os gozos, as humilhações, todos os olhares maldosos, todas as provocações, tudo tem o seu limite e aquele era o dela.

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Pegou na faca novamente para acabar aquilo que já tinha começado e apontou-a ao seu coração mas quando ia para a cravar no seu peito, não foi capaz, não foi porque não quis, foi porque uma força incrível não deixou acabar ali. A sua mão parou. Nem ela sabe o que aconteceu mas ainda bem que aconteceu. Voltou para casa, lavou e tratou as feridas.

A partir daqui tudo mudou, ganhou confiança em si própria e fez uma

promessa ao seu destino: nunca mais ia deixar que alguém lhe voltasse a fazer o mesmo. Sim, porque também foi a partir daquele momento que tudo acalmou. Mais ninguém voltou a gozar, a fazer troça e a maltratá- la. Até hoje continua a não saber porque é que tudo aconteceu. Será que era preciso passar por tudo isto para crescer e se transformar na pessoa que hoje é? A vida é ingrata, no entanto também premeia

aqueles que merecem. E se a vida a premiou é porque ela mereceu. É assim que hoje pensa. Que tudo na vida tem um prepósito para acontecer e se cá estamos é para a aproveitarmos.

Tudo corria bem, com altos e baixos como toda a gente tem, até ao dia 01/08/2013. Este dia, mais de três anos depois de tudo aquilo que já tinha acontecido, veio mudar definitivamente a sua vida de uma maneira que ela nunca esperou. Neste dia, em que ficou a saber que ia mudar de turma, pois tinha de repetir o ano, e ia para a turma daqueles que já a tinham feito sofrer tanto, daqueles que já a tinham feito bater bem lá no fundo, aqueles que iam sendo os responsáveis pela sua morte, o seu mundo desabou naquele momento. Pensou que ia voltar ao mesmo, que a sua vida ia voltar ao inferno que já tinha sido, iam voltar

a fazer-lhe o mesmo, iam voltar a ser cruéis como sempre foram… Teve

muito medo, mas enfrentou o mundo sozinha e, no primeiro dia de aulas, lá estava ela com armas e canhões, pronta para enfrentar tudo e todos e mostrar o que valia, tudo o que era capaz de ser e fazer, estava disposta a calar toda a gente

que um dia a quis calar.

disposta a calar toda a gente que um dia a quis calar. D igo -vos uma

Digo-vos uma coisa, hoje tem valor! Conseguiu, está lá em cima agora, está por cima de quem um dia a rebaixou. Já não está sozinha, tem pessoas que a amam de verdade e que só querem o melhor para ela. As mesmas pessoas que um dia a fizeram desistir, hoje são o seu pilar e são as

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pessoas em quem mais confia, com quem está á vontade, com quem conta sempre e para sempre. Por tudo isto é que uma dessas pessoas era a única, até agora, que sabia desta história para além de mim e da respetiva protagonista. Para pedirmos a alguém para nunca nos deixar cair é porque essa pessoa é mesmo muito especial e importante. A pessoa a quem ela pediu isto, há uns tempos atrás humilhava-a…

Se isto não é acreditar nas pessoas, ter mentalidade de adulto e ter coragem para dar uma segunda oportunidade àqueles que um dia gozavam, então o que é? Digam-me porque eu não sei mais como defini- lo.

Foi nesta turma que também encontrou a melhor amiga: linda, incrível

quase perfeita que nunca a deixava ficar mal, apoiava-a sempre, em tudo… Eu digo quase perfeita porque um dia tudo isso acabou. O sentimento mudou e a amizade nunca voltou ao mesmo. Não sei o que aconteceu, simplesmente tudo mudou.

e

mesmo. Não sei o que aconteceu, simplesmente tudo mudou. e O namorado, que ela julgava ser

O namorado, que ela julgava ser o homem da sua vida, afinal, não passou do homem dos sete meses mais perfeitos de sempre. Sim, só sete meses, o rapaz traiu-a, desapontou-a muito e fê-la sofrer ainda mais…

Por tudo isto, nos últimos tempos chorou, pela primeira vez e depois de tudo, chorou. As lágrimas caíram mesmo.

A primeira vez que chora é pelas duas únicas duas pessoas por quem

nunca esperou chorar, em quem mais confiava e que mais amava.

Morrer, desaparecer, fugir. Era tudo o que lhe apetecia. Para que é que andava aqui? Para sorrir a fingir? Assim não dá, não aguenta mais. Já aguentou tanto e enfraqueceu outra vez, porquê? Nem ela própria sabe. Quer dizer até sabe, mas não vale a pena dizê-lo mais uma vez. Ninguém quer ouvir, ninguém quer saber.

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Quando chorou, a sensação não foi boa, sentiu que estava fraca, reles e

a desaparecer. Mas acabou. Já parou. O coração dói. A cabeça está a rebentar. Mas ela? Ainda aqui está!

As suas pernas continuam aqui, prontas para andar. Os seus braços também estão prontos para continuar a mexer. A energia? Vai voltar e há-de regressar o mais rapidamente possível.

Precisa de tempo. Tempo para pensar. Pensar naquilo que quer. E o que

é que ela quer? Ser feliz. Vai lutar até ao fim, até o coração parar, até o cérebro morrer.

Vai estar aqui sempre. Para o que der e vier. Para lutar contra tudo o contra todos. Para lutar contra os problemas. Para lutar contra si própria se for preciso.

Acho que é mesmo aí que está. A lutar contra si própria e é a maior luta que já travou. Neste momento, está a perder a batalha mas eu sei que um dia ainda vai ganhar a guerra. É o que quer, mais do que qualquer outra coisa. Por isso está sozinha e sempre há-de estar.

Jura que vai conseguir.

Só confia em si própria porque é forte. O que não faltam por aí são pessoas a querer vê-la cair na poça para voltar a fazer troça.

porque é forte. O que não faltam por aí são pessoas a querer vê- la cair
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Deixa um aviso: quem a subestima ainda vai ter muitas surpresas porque quem diz que ama, não o sente. Quem diz que adora, mente. E que nunca disse nada? É quem está sempre presente!

Acabou-se! A fonte secou e nunca mais vai voltar a ter lágrimas. Já chega de lamentações, de ver a vida passar e ela ficar para trás, está farta de não fazer nada por si própria e só se preocupar com os outros… Agora vai ser apenas ela própria, quem gostar gosta, quem não gostar nem sequer tem de olhar.

Atropelou os sonhos, venceu as mágoas, conviveu com os fracos, suportou os falsos e hoje? Hoje sabe a força que tem para ultrapassar qualquer obstáculo.

E assim conseguiu, agora está em paz, está de bem com a vida e com

todas as pessoas, mesmo com aqueles que a fizeram sofrer muito.

É isto que o tema «Um futuro de zero emissões» me transmite. Que

todos devemos ser fortes e andar felizes por poder viver. Chega de emissões de tristeza, de lágrimas, de medos, de anseios, de lamentações e, principalmente, chega de desistências. Isto pode ser apenas uma história real de alguém que já sofreu muito e que agora fez as pazes com a vida mas o objetivo é que sirva de lição a muita gente, tanto aos que rebaixam como aos que se deixam rebaixar porque não há pessoas

fracas, basta acreditar e continuar a lutar contra o mundo.

É nisto que todos devemos pensar e tirar conclusões. A vida é curta,

nós temos de a aproveitar e andar felizes. Provavelmente, a maior parte das pessoas perante o tema deste texto, pensava imediatamente que eu só ia falar em poluição, carros, emissões de CO 2 … Mas não, associei esta história ao tema porque, se todos andarmos felizes e bem na vida, podemos também fazer mais pelo planeta, encontrar soluções e resolver muitos dos problemas que

também fazer mais pelo planeta, encontrar soluções e resolver muitos dos problemas que nos ocorrem sobre

nos ocorrem sobre o tema.

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A felicidade é o que nos faz mexer os motores, se todos trabalharmos a 100%, as emissões de CO 2 vão baixar, o planeta vai agradecer, o ambiente vai ficar alegre e nós? Nós, vamos viver melhor e, acima de tudo, aproveitar a vida porque ela dura tão pouco. Nunca devemos é desistir daquilo que somos.

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