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PALESTRA

Noções básicas de organização e segurança em laboratórios químicos.

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NOÇÕES BÁSICAS DE ORGANIZAÇÃO E SEGURANÇA EM LABORATÓRIOS QUÍMICOS

Vera Lúcia Tedeschi Savoy Instituto Biológico Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Proteção Ambiental E-mail: savoy@biologico.sp.gov.br

O laboratório deve ser visto como um local especial

de trabalho, pois o mesmo pode se tornar perigoso, caso não seja utilizado adequadamente. Devido ao tipo de trabalho desenvolvido nos laboratórios os ris-

cos de acidentes a que estão sujeitos os laboratoristas são os mais variados possíveis. Os laboratórios devem possuir um manual de segurança contendo normas gerais de segurança e técnicas laboratoriais básicas. O responsável pelo laboratório deve transmitir e orientar os seus colabo- radores quanto aos procedimentos corretos de trabalho e as atitudes que devam tomar para evitar possíveis acidentes. São comuns acidentes por exposições a agentes tóxicos e/ou corrosivos tais como queimaduras, incêndios, explosões e lesões causadas por condições inseguras de trabalho. Na maioria das vezes, o laboratório é montado em local já existente acarretando utilização inadequada dos espaços e mobiliários, disposição incorreta das instalações e falta de equipamentos de proteção cole- tiva e individual. O laboratório não deve ser um local improvisado, mas apresentar condições ideais para se desenvolver um trabalho dentro de padrões de segurança adequados. Os laboratoristas, estagiários e colaboradores necessitam serem orientados sobre as regras e os procedimentos básicos que devem ser implantados e utilizados em laboratórios visando a segurança de todos.

É interessante definir os termos mais empregados

em segurança de laboratório (SANTORO, 1985). Segurança no trabalho: é o conjunto de medidas técnicas, administrativas, educacionais, médicas e psicológicas que são empregadas para prevenir acidentes, quer eliminando condições inseguras do ambiente, quer instruindo ou convencendo pessoas na implantação de práticas preventivas. Risco: é o perigo a que determinado indivíduo está exposto ao entrar em contato com um agente tóxico ou certa situação perigosa. Toxicidade: é qualquer efeito nocivo que advém da interação de uma substância química com o orga- nismo. Acidentes: são todas as ocorrências não progra- madas, estranhas ao andamento normal do trabalho, das quais poderão resultar danos físicos e/ou funcio- nais e danos materiais e econômicos.

Atividades ou operações insalubres: são aque- las que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes noci- vos à saúde, acima dos limites de tolerância fixa-

dos em razão da natureza e da intensidade do agen-

te e do tempo de exposição aos seus efeitos. (NR 15,

CLT). Atividades ou operações perigosas: na forma da regulamentação aprovada pelo Ministério do Trabalho, são aquelas que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem o contato permanente com infla-

máveis ou explosivos em condições de risco acentuado. (NR 16, CLT). Os diversos agentes químicos podem entrar em contato com o organismo humano por inalação, absorção cutânea e ingestão, sendo a inalação a principal via de intoxicação. A absorção de gases

e vapores pelos pulmões e a disseminação pelo

sangue, leva-os a diversas partes do corpo poden- do causar distúrbios no organismo como tontei- ras, vômitos e falta de ar. Já, na absorção cutânea os efeitos mais comuns da ação de substâncias químicas sobre a pele são as irritações superfici- ais e sensibilizações decorrentes da combinação do contaminante com as proteínas. A pele e a sua gordura protetora são barreiras efetivas, sendo poucas as substâncias que podem ser absorvidas em quantidades perigosas. A ingestão geralmente ocorre de forma acidental pelo uso indevido de pipetas ou ao engolir partículas que estejam retidas no trato respiratório, as quais são resultantes da inalação de pós ou fumos. A agressão ao organismo por produtos químicos pode ser minimizada com o uso correto dos equipa- mentos de segurança que são instrumentos que tem por finalidade evitar ou amenizar riscos de aciden- tes. Os equipamentos de proteção individual (EPIs), óculos, máscaras, luvas, aventais etc. são utilizados para a prevenção da integridade física do laboratorista, enquanto que os equipamentos de pro- teção coletiva (EPCs) são equipamentos de uso no la- boratório que, quando bem especificados para as fi- nalidades a que se destinam, permitem executar ope- rações em ótimas condições de salubridade para o operador e as demais pessoas no laboratório. O me- lhor exemplo desses equipamentos são as capelas (VERGA FILHO, 2001).

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Os produtos químicos podem ser voláteis, tóxicos, corrosivos, inflamáveis, explosivos e peroxidáveis, requerendo cuidados especiais ao serem manipula- dos e armazenados. O estudo do local destinado ao almoxarifado é de especial importância. Quando são negligenciadas as propriedades físicas e químicas dos produtos químicos armazenados podem ser ocasio- nados incêndios, explosões, emissão de gases tóxicos, vapores, pós e radiações ou combinações variadas destes efeitos. As substâncias químicas devem ser armazenadas em locais adequados e, especialmente, destinados para este fim, permanecendo no laboratório apenas a quantidade mínima a ser utilizada. Os locais de armazenamento devem ser amplos, dotados de boa ventilação, protegidos dos raios solares, com duas saídas, com instalação elétrica a prova de explosões e prateleiras largas e seguras. Os produtos químicos não devem ser armazenados junto com as vidrarias utilizadas no laboratório. Os produtos corrosivos , ácidos e bases, devem ficar em armários e prateleiras próximo ao chão, se possível com exaustão; os inflamáveis e explosivos devem ser armazenados a grande distância de pro- dutos oxidantes e os líquidos voláteis necessitam de armazenagem a baixas temperaturas em refrigera- dores a prova de explosão. A tabela de classes de incompatibilidade das substâncias deve ser consul- tada a fim de se evitar o armazenamento, lado a lado, de reagentes incompatíveis (FEITOSA & FERRAZ). Os rótulos dos frascos devem ser protegidos e consulta- dos, pois contém as informações necessárias para a perfeita caracterização dos reagentes, bem como in- dicações de riscos, medidas de prevenção para o ma- nuseio e instruções para o caso de eventuais aciden- tes. Os símbolos ou pictogramas são simbologias ade- quadas e reconhecidas internacionalmente que ofe- recem informações sobre os riscos de segurança en- volvidos no uso de produtos químicos e os seus sig- nificados devem ser de conhecimento dos usuários do laboratório de química. As soluções preparadas em laboratório não devem ser armazenadas em ba- lões volumétricos e sim em frascos de vidro devida- mente identificadas e etiquetadas. Outra fonte de acidentes no trabalho é o transporte de frascos contendo produtos químicos. A maneira mais correta de se transportar frascos de grandes dimensões, ou um grande número de frascos ou vidrarias, é com o uso de carrinhos de transporte. Grandes frascos nunca devem ser transportados em contato com o corpo do operador. As vidrarias de pequenas dimensões podem ser transportadas em bandejas adequadas, tomando-se cuidado para que não ocor- ram colisões. Os laboratórios possuem vários tipos de equi- pamentos, entre eles, equipamentos que utilizam

gases sob pressão. Os gases sob pressão podem ser classificados como inertes, inflamáveis, corrosivos, asfixiantes, irritantes e anestésicos. Os cilindros de gás pressurizado devem ser manuseados e arma- zenados com cuidado e critério. O código de cores usado em tubulações, válvula (volantes) e no pró- prio cilindro serve para caracterizar os tipos de flui- dos, seu estado de temperatura e sua inflamabilidade. Os cilindros devem ser armaze- nados em local separado do laboratório, protegido do sol e chuva para que as válvulas de redução de pressão não sejam danificadas, devem ser fixados com cintas metálicas ou com correntes e cadeado e seu transporte deve ser feito com auxílio de um car- rinho apropriado. As tubulações ou conexões de- vem estar isentas de óleos ou graxas evitando as- sim a formação de misturas explosivas com alguns gases, como por exemplo, óxido de etileno. É impe- rativo realizar o teste de vazamento de gás em to- das as válvulas, conexões e uniões de linha utili- zando-se um pincel e solução detergente/água. O manuseio de cilindros que contenham gases vene- nosos ou tóxicos deve ser feito em local ventilado e com uso de EPIs, (LEONETTI, comunicação pessoal). Devido às várias atividades desenvolvidas nos laboratório é interessante um breve conhecimento so- bre o fogo. O fogo é formado pela união de três elementos: calor, comburente e combustível e esta união é conhecida como "Triângulo do Fogo" (MUNIZ,

2003).

Combustível é o material que alimenta o fogo e com- preende quase todos os materiais que possamos ima- ginar, como por exemplo papel, madeira, gasolina etc. Comburente é o elemento ativador do fogo, ou seja, que lhe dá vida e intensifica o fenômeno da combus- tão. O oxigênio é o principal comburente. Calor é o elemento que serve para iniciar a com- bustão. Os incêndios são subdivididos em quatro classes, a saber:

Classe "A" - formado por materiais que queimam em superfície e profundidade (madeira, papel, tecido etc.); Classe "B" – líquidos inflamáveis que queimam na superfície, tais como álcool, gasolina, querosene etc.; Classe "C" - equipamentos elétricos e eletrônicos energizados. Ex.: computadores, televisores, motores etc.; Classe "D" – materiais que requerem agentes extintores específicos, tais como, pó de zinco, sódio, magnésio etc. Os métodos de extinção do fogo, resfriamento, aba- famento e isolamento, visam retirar um, ou mais de um, dos três componentes do triângulo do fogo, pois na falta de um destes componentes o fogo não existirá. Os extintores portáteis de incêndio requerem uma ação rápida e devem ser utilizados para pequenos focos devido a seu rápido esvaziamento. Os extintores pos- suem cargas diferenciadas e devem ser utilizados

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Noções básicas de organização e segurança em laboratórios químicos.

somente para as classes de incêndio descritas em seus rótulos. Nunca manuseie produtos químicos sem conhe- cimento. Leia atentamente as informações constantes nos rótulos dos reagentes químicos e consulte as FISPQ - fichas de informações de segurança de produtos químicos. A segurança depende de cada um e prevenir acidentes é dever de todos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEITOSA, A C. & FERRAZ, F.C. Segurança em laboratórios. Bauru:

Joarte Gráfica e Editora. v.1, 134p. MUNIZ, A.A Cartilha do bombeiro [on-line]. Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.defesacivil.rj.gov.br> Acesso em: 31 mai. 2003. Santoro, M.I.R.M. Manual de segurança. São Paulo: Univer- sidade de São Paulo, 1985. 52p.

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