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O CENTRO DOS
GUERRILHEIROS
Everton

Autor
CONRAD SHEPHERD

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Estamos no dia 28 de novembro de 2.435 do calendário
terrano. Com o desaparecimento do robô gigante Old Man,
que estivera estacionado no sistema de Jellico, a Galáxia
ficou livre do perigo. Os agentes de cristal não conseguiram
fixar-se nos mundos do Império Solar, e desta forma os
comandantes do Império têm a possibilidade de transferir
para Magalhães um número cada vez maior de unidades da
frota que vigiavam a Via Láctea, a fim de reforçar os
contingentes que operam naquele setor.
Isto é mesmo necessário, ainda mais que se espera que
um dia o poder concentrado de Old Man acabe aparecendo
em Magalhães. Mas por enquanto o robô gigante está
desaparecido — da mesma forma que Perry Rhodan e seus
companheiros. Há alguns dias as 22 espaçonaves de Atlan,
juntamente com a nave-capitânia solar, a Crest IV, e a
Francis Drake, uma nave pertencente ao rei dos livres-
mercadores, estão espalhados pelas profundezas da Grande
Nuvem de Magalhães. O Lorde-Almirante envia mensageiros
e manda fazer medições. Ainda espera que algum acaso feliz
o leve para perto de Perry Rhodan e seus companheiros,
desaparecidos depois da operação realizada em Modula.
Enquanto isso a nave dos gurrados na qual se encontram os
desaparecidos vai-se aproximando do Centro dos
Guerrilheiros...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — O Administrador-Geral do Império Solar.
Roi Danton — Rei dos livres-mercadores interestelares e filho
de Perry Rhodan.
Atlan — O lorde-almirante que não desiste das operações de
busca dos desaparecidos.
Melbar Kasom e Oro Masut — Dois ertrusianos que protegem
Perry Rhodan.
Trikort — Comandante de uma nave guerrilheira.
Roumbaki, Heykh e Sibala — Chefes do centro dos gurrados.
1

Aborrecido, o comandante Trikort voltou a apagar a fita. Era a quarta vez que fazia
isso.
Ficou profundamente zangado ao dar-se conta de que não conseguia concentrar-se.
O barulho na nave era demais.
Zumbia e retumbava. O ruído profundo e ininterrupto das paredes e estruturas
forçadas além de sua capacidade abalava a nave de mil e cem metros de comprimento até
a ponta em agulha. A pulsação das máquinas titânicas fazia-se ouvir nos corredores
compridos, escassamente iluminados, soando fortemente na ponte de comando e nos
conveses de navegação, bem como nos amplos porões de carga.
Não havia como proteger-se contra isso.
Deprimido, Trikort lembrou-se de que a última revisão geral a que a nave fora
submetida em um dos estaleiros secretos não passara de uma série de remendos precários.
As máquinas montadas na ocasião eram potentes demais para o velho casco. O
comandante quase se sentia inclinado a dizer que a única coisa que impedia a
desagregação da nave era a vontade férrea e o ódio de seus homens.
O ódio!
Nervoso e distraído, o comandante Trikort guardou as microfitas. Apresentaria um
relato verbal.
O comandante surpreendeu-se experimentando uma sensação parecida com o medo.
Contrariado, disse a si mesmo que isso não era digno de um gurrado. Quem tinha medo
eram as mulheres e os fracos. E ele poderia ser tudo, menos um fraco.
Mas Trikort sabia que o medo que estava sentindo era um medo diferente. Tratava-
se antes de uma profunda resignação. Era um sentimento de cansaço cada vez mais
acentuado, a indiferença diante de um destino que parecia inevitável.
“Um povo”, pensou Trikort, “só pode viver por tempo limitado sob uma pressão
constante, fugindo sempre, sem um lugar do qual possa dizer: esta será nossa pátria
daqui para o futuro.”
Depois de séculos de perseguição e de uma caçada impiedosa, simplesmente
bastava. Não se agüentava mais fugir constantemente. Chegava-se a um ponto em que
não era mais possível.
O setor acústico que ficava em cima da tela de imagem montada na parede do
camarote do gurrado emitiu um zumbido ligeiro, o gurrado cujo rosto apareceu na tela
inclinou a cabeça com juba de leão, demonstrando o respeito que era devido ao
comandante.
— Que houve? — perguntou Trikort.
— O prisioneiro que afirma ser um rei quer falar com o senhor, comandante.
— Indicou algum motivo?
Os olhos de gato de Trikort ficaram quase completamente fechados.
— Sente-se ofendido em sua honra, comandante.
Se havia alguma coisa que um gurrado respeitava, era a honra de um homem.
— Ouvirei o que ele tem a dizer — disse o comandante Trikort.
A tela escureceu. Trikort saiu com muita agilidade da enorme poltrona giratória,
cujo estofamento tinha sido coberto por um couro de bardaj. Tratava-se de uma presa da
qual o comandante se orgulhava bastante. Ele mesmo abatera a fera de seis pernas com
um punhal do comprimento de seu antebraço.
O gurrado fechou a jaqueta de couro com um movimento enérgico, pondo à mostra
o símbolo dos guerrilheiros de Magalhães: uma bola vermelha atravessada por uma
flecha. Depois caminhou em passos felinos para a parede esquerda de seu camarote,
pegou um cinto largo pendurado num gancho, no qual estavam guardadas duas armas
energéticas pesadas. Prendeu o cinto com movimentos automáticos. Em seguida atirou
resolutamente para trás os cabelos compridos e saiu do camarote.
Respondia com gestos mecânicos às continências dos subordinados com os quais se
encontrava. Seus pensamentos estavam ocupados com o grupo de estranhos prisioneiros
que com um evidente orgulho costumavam chamar-se de terranos. Deduzira dos
gravadores de pensamentos que os terranos tinham vindo da galáxia distante parecida
com um gigantesco escudo, ligeiramente abaulado, cuja luminosidade superava até
mesmo a das estrelas mais próximas.
Trikort ainda não sabia o que pensar do aparecimento dos terranos. Simpatizava
cada vez mais com estes homens duros, mas ainda estava desconfiado.
A desconfiança estava enraizada nas profundezas do ser de qualquer gurrado, por
causa de séculos de perseguições e opressão incessantes, e não podia ser afastada sem
mais aquela.
A desconfiança e o ódio eram as forças que dominavam a vida dos gurrados.
Quando finalmente entrou no corredor largo, atrás do qual ficava a sala em cujo
interior estavam alojados os prisioneiros, seu rosto assumiu a expressão impassível de
sempre.
Fez um gesto enérgico para que o contingente de guardas, formado por vinte bravos
combatentes dos desertos de Leedon, abrisse a eclusa.
***
“Quase não dá mais para suportar este barulho”, pensou Roi Danton, enquanto
prestava atenção, com o rosto desfigurado pela dor, aos ruídos incessantes no interior da
grande nave-pêra.
Estava sentado no chão do depósito não muito grande, com as pernas encolhidas e
as costas apoiadas na parede, e cobriu o rosto com a gola do casaco do uniforme verde-
oliva. Esperava que isso o protegesse do barulho incessante que desde a decolagem em
First Stop maltratava os ouvidos de todos.
Mas a esperança não se confirmou.
Os abalos dos propulsores que funcionavam a plena potência se faziam sentir não
somente dentro do limite das percepções acústicas. Também se propagavam na faixa do
ultra-som, causando uma pressão constante que aos poucos ia se transformando em dor.
Será que suas exigências tinham sido transmitidas ao comandante dos gurrados?
Roi Danton esperava ansiosamente que sim. No primeiro contato com o combatente
de juba de leão notara claramente que este, tal qual todos os gurrados, possuía um
sentimento de honra bastante acentuado.
Com alguma habilidade podia-se aproveitar esta circunstância, alcançando certas
vantagens.
Roi Danton olhou para o relógio. Eram quatro horas e cinqüenta e cinco minutos. O
dia vinte e oito de novembro logo iria amanhecer.
O que seu pai estaria fazendo neste momento? Um sorriso ligeiro brincou em torno
dos lábios de Roi. Sabia que Perry Rhodan estava em segurança, sob a proteção dos
gigantes ertrusianos Melbar Kasom e Oro Masut. Logo, por enquanto não havia motivo
para preocupar-se com ele.
Além disso Roi mantinha contato permanente com o microrrádio de Oro Masut,
através do pequeno transmissor secreto que trazia implantado no antebraço esquerdo. O
gigante ertrusiano não deixaria de avisá-lo imediatamente se houvesse qualquer
modificação.
Por enquanto seu esconderijo não fora descoberto.
O mais urgente era melhorar a própria situação e a dos noventa e nove homens que
se acotovelavam com ele na pequena sala.
Roi passou os olhos pelos homens.
Os primeiros sinais de exaustão estavam em toda parte. Os olhos injetados de
sangue pareciam cansados no meio dos rostos barbudos. O que acabava com os homens
eram exclusivamente as transições às quais não estavam acostumados, não o fato de
estarem em poder dos gurrados.
— Se não interpretei mal seu olhar atento, o senhor está preocupado com a saúde de
nossa gente — disse de repente uma voz rouca perto de Roi.
O rei dos livres-mercadores levantou a cabeça, surpreso, e olhou para o homem que
acabara de falar. Seus lábios foram-se abrindo num sorriso quando viu o Doutor John
Harvey piscando os olhos. Era um homem magro, de mais de dois metros, que
acompanhara a tropa de Rhodan em Modula II como cientista especializado. Tentavam
descobrir a natureza das misteriosas freqüências de radiações do campo antimodulador
que se estendia sobre as gigantescas instalações industriais em cujo interior os
hipnocristais recebiam sua verdadeira programação.
— Parbleu, monsieur, o senhor sabe ler pensamentos?
— Não é isso — respondeu o sábio com um sorriso. — Acontece que sou um
excelente psicólogo. Gostaria de fazer mais uma pergunta, senhor...
— O que é? — perguntou Roi Danton, quando notou que Harvey se calara,
pensativo.
— Fico me perguntando — prosseguiu John Harvey — como pretende convencer
estes selvagens a lhe entregarem sua espada.
— Como? — um sorriso irônico atravessou o rosto marcante do rei dos livres-
mercadores. — Mon Dieu, Monsieur Harvey. Não seja tão impaciente. É só esperar.
Tenho certeza de que conseguirei.
John Harvey fez uma careta.
— Dicique beatus ante obitum nemo suprema que funera debet — murmurou em
tom sombrio.
Os olhos azuis de Roi demonstraram surpresa ao ouvir esta língua.
— É claro que ninguém pode ser chamado de feliz antes do falecimento e do
sepultamento — respondeu. — Mas repito. É só esperar, monsieur.
O rosto de Harvey parecia espantado.
— O senhor entende esta língua morta? — perguntou, falando com dificuldade.
— Não existe nada que eu não saiba — afirmou Roi Danton em tom presunçoso. —
Mas gostaria de saber quem lhe ensinou esse latim excelente.
— Além de ser hiperfísico, também aprendi filologia. Concentrei meus estudos
principalmente nas línguas arcaicas.
— Estes terranos! — murmurou o rei dos livres-mercadores e sacudiu a cabeça. —
Sempre têm uma surpresa guardada para a gente...
— O senhor não é um deles? — perguntou o sábio magro com um sorriso.
— Pois é justamente por isto — confirmou Roi Danton, preocupado. — Se a ralé
começa a imitar o pensamento dos senhores, as coisas estão pretas.
O corpo de mais de dois metros de John Harvey foi sacudido por uma risada
silenciosa. Quis dizer uma coisa, mas Roi Danton interrompeu-o, colocando a mão sobre
seu ombro.
— Quieto! — disse. — Parece que vamos receber visita. Levantou com uma rapidez
surpreendente, olhando por cima das cabeças dos homens.
Do outro lado do depósito notou-se um movimento junto à eclusa. A eclusa abriu-
se, permitindo que se vissem os robustos gurrados da tripulação em seus uniformes de
couro cinza-claros. Roi reconheceu o comandante Trikort pela bela juba, que chegava
quase até as nádegas. O rei dos livres-mercadores ainda viu outra coisa. Um dos gurrados
carregava o gravador de pensamentos, cujo conversor reproduzia o conteúdo do cérebro
humano em forma de quadros concretos. Roi teve de fazer um esforço para não
demonstrar a sensação de triunfo que experimentava. Seu pedido de falar com o
comandante fora prontamente transmitido.
Ficou de pé à frente do comandante Trikort, com os braços cruzados sobre o peito, e
viu os outros gurrados assumirem posição junto à eclusa. As armas energéticas pesadas
que tinham nas mãos falavam uma linguagem bem clara. Nenhum dos terranos se
atreveria a aproximar-se da eclusa um passo além do permitido.
— E agora, senhor? — murmurou John Harvey atrás das costas de Roi. Permanecia
nos calcanhares do rei dos livres-mercadores.
— Cale-se, Harvey — disse Roi.
Baixou os olhos semicerrados para o comandante Trikort, que tinha uns vinte
centímetros menos que ele. Mas isso não causava nenhum complexo de inferioridade no
gurrado.
Trikort apoiou as mãos nos quadris, num gesto de desafio, e dirigiu os olhos de
felino verde-brilhantes para o terrano.
Roi ouviu o murmúrio dos homens atrás de suas costas. Havia uma tensão no ar.
Finalmente o comandante Trikort estendeu o braço direito e estalou os dedos. No
mesmo instante o gurrado que carregava o gravador de pensamentos aproximou-se e
colocou o aparelho no chão, à frente do comandante.
Trikort emitiu um som impaciente. A reação do gurrado foi imediata.
Roi Danton percebeu que não subestimara a inteligência destes combatentes.
O guarda retirou o envoltório de plástico imitando couro que cobria o gravador de
pensamentos, abriu o tripé e montou o aparelho.
O gravador de pensamentos era parecido com uma máquina fotográfica.
A caixa de plástico do aparelho, tingida de vermelho, possuía uma tela na parte
dianteira e outra na parte traseira. Na parte superior saíam alguns cabos elásticos, que
podiam ser esticados à vontade e terminavam em contatos prateados.
O funcionamento do gravador de pensamentos baseava-se numa ampliação das
ondas cerebrais, além da conversão dos pensamentos em vibrações eletrônicas, que por
sua vez geravam uma imagem projetada em ambas as telas. O aparelho sempre fora
usado com bons resultados nos casos em que as máquinas tradutoras não reagiam
adequadamente a uma língua estranha.
O gurrado manipulou com grande habilidade os controles do gravador de
pensamentos, acompanhou com atenção a agulha que tremia na escala, e finalmente ligou
o aparelho.
Com um gesto enérgico o comandante Trikort mandou que o gurrado voltasse para
junto dos outros. Em seguida encostou os contatos à cabeça e criou uma imagem mental
cujo sentido era mais ou menos o seguinte:
— Fui informado de que o senhor se sente ofendido em sua honra. Por quê?
Trikort desprendeu os contatos da cabeça. Roi prendeu-os agilmente às têmporas e
gerou imagens numa rápida seqüência, desesperado com a precariedade desta forma de
comunicação. Como explicar a um gurrado que para ele, Roi, a espada era o símbolo da
honra de um homem? Roi fez um grande esforço para concentrar-se. Tinha que dar certo.
O comandante Trikort olhava para a tela do gravador de pensamentos. Roi Danton
mostrou algumas imagens nas quais um gurrado puxava outro indivíduo de seu povo
pelos cabelos. Trikort encolheu-se. Quase chegou a fechar os olhos de gato e um chiado
saiu de seus lábios. Os outros gurrados, que também viam a imagem, começaram a ficar
nervosos.
Parecia que Danton tocara num ponto extremamente sensível dos gurrados. E era
exatamente o que pretendia. Achava que a cabeleira ondulante dos gurrados devia estar
ligada pela origem ao sentimento de honra deste povo.
O suor começou a brotar na testa de Roi. O que viria em seguida poderia tornar-se
extremamente perigoso. Não se sabia se Trikort interpretaria as imagens seguintes como
uma ofensa pessoal, ou se saberia enxergar nelas aquilo que realmente eram: um símbolo
da honra.
Uma nova imagem apareceu na tela, gerada pela imaginação do livre-mercador. Um
terrano, no qual os expectadores tiveram certa dificuldade em reconhecer Roi Danton,
cortava os cabelos de um gurrado.
Ouviram-se algumas risadas atrás das costas de Roi. Parecia que alguns dos homens
ainda não tinham compreendido que aquilo era uma questão de vida ou morte. Mas as
risadas terminaram abruptamente quando se viram as reações dos gurrados.
Trikort tremeu de tão indignado que ficou. Algumas ordens chiadas saíram de seus
lábios. Os gurrados levantaram os pesados fuzis energéticos e obrigaram os terranos a
recuar ainda mais. Roi Danton e John Harvey eram os únicos que continuavam de pé à
frente do comandante Trikort, que fitava o rei dos livres-mercadores de arma energética
apontada e pronto para saltar que nem um felino selvagem.
John Harvey, que continuava de pé atrás de Roi, murmurou em tom apavorado:
— O senhor é um demônio? Tomara que este homem-leão seja capaz de distinguir
entre quadros reais e imaginários, senão as coisas ficarão pretas.
— Também acho, monsieur — murmurou Roi sem mexer com os lábios. Levantou
devagar as mãos desarmadas até a altura dos ombros, virando-as para fora, e fez aparecer
novas imagens na tela. Dois gurrados seguraram um Roi Danton trêmulo de raiva,
enquanto outro lhe tirava a espada e o lorgnon. Danton fez esta imagem aparecer três
vezes na tela do gravador de pensamentos. Ficou aliviado ao ver o comandante Trikort
guardar a arma energética.
Tinha certeza de que conseguira explicar ao gurrado que seria uma ofensa
imperdoável obrigar o livre-mercador a continuar sem a espada.
Roi foi encarado por muito tempo pelos olhos oblíquos. Finalmente Trikort deu uma
ordem em voz alta.
Um dos guardas separou-se do grupo e saiu do depósito.
— Estou curioso para ver se o senhor conseguirá o que quer — cochichou o
cientista magro atrás das costas de Roi.
— Acho que sim — respondeu Roi, falando devagar. Soltou os contatos do
gravador de pensamentos.
Em seguida pôs-se a esperar.
Os minutos foram-se arrastando. Roi ouviu o murmúrio dos companheiros atrás de
suas costas. À sua frente continuava parado o comandante Trikort, um homem com o
rosto de um leão africano.
Os gurrados eram seres estranhos. Sobre isso não havia a menor dúvida. Mas
tinham algo em comum com os terranos. Danton tinha certeza de que já teria conseguido
uma compreensão melhor, se pudessem usar uma língua comum.
Roi Danton foi interrompido no meio dos pensamentos. O gurrado que saíra por
ordem do comandante Trikort voltou. Trazia a espada de Roi, além do lorgnon, um par de
óculos de cabo revestidos de pedras preciosas, com uma correntinha de ouro.
O comandante fez um gesto e o gurrado entregou estes objetos ao terrano de
estatura alta, que os recebeu com evidentes demonstrações de alegria.
— Merci, mon capitaine! — exclamou Roi, entusiasmado, enquanto com a mão
esquerda colocava a espada sobre o coração. Levou a direita à testa para em seguida
baixá-la num gesto de agradecimentos.
O rosto de Trikort não mostrou o que ele pensava do espetáculo encenado por
Danton. O rosto largo permaneceu imóvel como se fosse esculpido em pedra. Somente os
olhos se abriram.
Finalmente Trikort deu algumas ordens em voz alta. Seus homens retiraram-se. A
eclusa de correr voltou a separar os terranos do resto da nave.
— Caramba! — exclamou John Harvey, enquanto enxugava o suor da testa. —
Cheguei a pensar que fôssemos esquartejados. Achei formidável como o senhor enganou
o tal do Trikort. Mas não compreendo por que fez tamanho espalhafato em torno de uma
simples peça de aço.
O cientista apontou para a espada de Roi, que possuía uma bainha muito bem
trabalhada. Sacudiu a cabeça estreita, num sinal de espanto com a mania de Danton.
— Só falta o senhor me dizer que estava falando sério ao falar na sua honra —
prosseguiu. — Neste caso acabarei enlouquecendo de vez. Diga logo o que há atrás disso,
senhor.
Roi Danton amarrou cuidadosamente a espada na cintura. Em seguida encostou o
lorgnon aos olhos e encarou John Harvey com uma expressão severa, enquanto seu rosto
assumia uma expressão compenetrada.
— Monsieur! — disse. — Se voltar a duvidar de nossa honra, serei obrigado a
desafiá-lo para um duelo.
— Não compreendo — Harvey parecia apavorado. — Nossa honra? Só falei no
senhor.
— Mon Dieu! — Roi Danton pôs a mão na testa, num gesto de desespero. — Será
que por aqui só há campônios? O senhor diz que é um homem culto, monsieur, mas nem
sabe como costumam exprimir-se os reis. É simplesmente lamentável.
Roi balançou a cabeça num gesto de desprezo e encarou John Harvey com uma
repugnância fingida. Na verdade tinha de fazer força para não rir.
“Se você soubesse o que há nesta espada e neste lorgnon, você enlouqueceria de
vez, meu caro Harvey!”, pensou.
Roi virou-se com o rosto trêmulo, deixando a sós o cientista, que parecia confuso.
De repente o barulho ficou mais forte. Parecia representar uma ameaça física. Roi
descobriu numa fração de segundo o que aconteceria dali a instantes.
“Meu Deus! Já é a primeira transição”, pensou, apavorado. Gritou para que os
homens deitassem no chão. Assim resistiriam melhor à tremenda carga física.
A nave vibrava e rangia. Roi ouviu alguém praguejar em altas vozes bem a seu lado.
Não conseguiu ficar zangado com isso... Não havia nada mais doloroso que o
rompimento violento do conjunto espácio-temporal einsteiniano e...
Os pensamentos de Roi foram interrompidos abruptamente, quando a nave-pêra dos
gurrados abandonou com um choque tremendo o espaço normal para mergulhar no
hiperespaço.
***
O dia vinte e oito de novembro de 2.435 tinha começado há cinco horas e meia.
Fazia oito dias que o Lorde-Almirante Atlan e Rasto Hims tinham deixado às
pressas a área adjacente a Modula II, o primeiro a bordo da Crest IV e o último como
comandante substituto da Francis Drake, porque ficaram sabendo que Perry Rhodan, Roi
Danton, os ertrusianos Melbar Kasom e Oro Masut e outros noventa e nove homens
pertencentes ao grupo de comando de Modula se encontravam a bordo de uma das
trezentas naves-pêra dos gurrados.
A Crest IV e a Francis Drake eram acompanhadas por vinte couraçados modernos
pertencentes ao 82o GOP, comandado pelo General Ems Kastori, “o alegre”, conforme
era conhecido.
Logo depois da decolagem as unidades de Atlan detectaram um tremendo
hiperchoque, provocado por cerca de trezentas naves dos guerrilheiros de Magalhães que
efetuaram uma transição. As naves-pêra logo desapareceram no hiperespaço. A única
coisa que Atlan podia fazer era permanecer no espaço normal, à espera dos ecos de
reentrada das naves guerrilheiras. Só assim poderia perseguir a frota dos gurrados.
Os ecos de reentrada foram recebidos — mas não adiantaram quase nada. Antes que
as unidades de Atlan pudessem deslocar-se ao lugar do qual tinham vindo, os gurrados
deram início a outra transição. Depois disso os guerrilheiros dividiram-se em dez grupos
de trinta naves, o que tornava muito mais difícil a perseguição. Depois da quarta transição
já era praticamente impossível localizar as naves. As naves dos gurrados voaram em
todas as direções, que nem os pedaços de chumbo de caça depois do disparo.
Atlan teve que reconhecer que seria impossível perseguir as trezentas naves dos
gurrados com as vinte e duas unidades de que dispunha, ainda mais que não sabia em
qual das naves se encontravam Perry Rhodan e seus companheiros. Por isso não teve
alternativa. Foi obrigado a separar cada vez mais as naves de seu grupo, instruindo os
diversos comandantes a seguirem, sempre que possível, qualquer onda de choque
detectada, e tentarem permanecer em contato. Nestes oito dias tinham penetrado nas
profundezas da grande nuvem de Magalhães — sem conseguir nada.
Atlan não desistiu das buscas. Ainda tinha esperança de encontrar por acaso os
amigos desaparecidos, através dos choques de transição que fossem detectados.
Na manhã do dia vinte e oito de novembro voltou a fazer a mesma coisa.
O arcônida de estatura alta e Owe Konitzki encontravam-se à frente das telas dos
rastreadores estruturais, guarnecidas por três homens. Tratava-se de aparelhos cujo
funcionamento se baseava nas hiperondas, e que forneciam a posição aproximada das
naves guerrilheiras que saltavam pelo hiperespaço, na hora da des e da rematerialização.
Atlan fitava com os olhos ardentes as superfícies ligeiramente côncavas.
As últimas espirais irregulares, características das ondas de choque de uma
transição, estavam desaparecendo. Mas antes que isto acontecesse, voltaram a iluminar-
se, espalharam-se pela tela para sumir de vez. Era o eco da reentrada no espaço normal.
Os homens que guarneciam os rastreadores estruturais faziam um trabalho calmo e
seguro. Para eles isso já se tornara uma rotina. Os dados do ponto de reentrada foram
armazenados. Depois que não fosse mais detectada qualquer onda de choque, as vinte e
uma naves examinariam detalhadamente a respectiva posição.
— Droga! — exclamou de repente o chefe do centro de rastreamento, que estava de
pé perto de Atlan. — Não podemos fazer nada.
O terrano louro-claro estalou nervosamente os dedos.
— Podemos, sim! — contestou o lorde-almirante, encarando Owe Konitzki com os
olhos semicerrados.
— O que podemos fazer, senhor?
Um brilho de esperança surgiu nos olhos de Konitzki.
— Podemos esperar, major.
Os lábios de Atlan abriram-se num sorriso irônico, que não foi capaz de dissimular
a preocupação do velho arcônida.
— Não leve a coisa muito a sério — procurou consolar Atlan. — No momento a
melhor coisa que podemos fazer é mesmo esperar. Seria uma loucura fazer vôos de
reconhecimento por conta própria e às cegas. Com isso só desperdiçaríamos nossas
forças.
— Sei disso, senhor — respondeu o chefe do centro de rastreamento. — Mas a
espera cansa.
— O senhor diz isso logo a mim! — murmurou o arcônida.
Atlan voltou a olhar atentamente para os homens que trabalhavam no centro de
rastreamento. Em seguida deu as costas à sala e voltou à sala de comando principal.
Atravessou a sala absorto em pensamentos e deixou-se cair em sua poltrona.
Perguntou-se desesperado se realmente fizera tudo que era possível pelos amigos. Não
teria esquecido alguma coisa?
— Não! — concluiu o setor lógico de seu cérebro suplementar, ativado há mais de
dez mil anos terranos. — Você fez tudo que a situação permitia.
Atlan ficou entregue durante mais de trinta minutos a pensamentos desagradáveis.
Recriminou-se amargamente por ter concordado que Perry Rhodan comandasse
pessoalmente a operação Modula... De repente a campainha estridente do
intercomunicador interrompeu suas reflexões.
Atlan ativou o videofone.
O rosto liso de Wai Tong apareceu na tela. O chefe da sala de rádio exibiu o sorriso
formal que costumava enfeitar seu rosto.
— Que houve, major? — perguntou Atlan, inclinando-se ligeiramente.
— Recebi uma chamada de telecomunicador da Francis Drake. Rasto Hims quer
falar com o senhor.
— Complete a ligação, major.
O rosto do chinês desapareceu da tela, que escureceu por um instante. Quando
voltou a brilhar, mostrou Rasto Hims.
— Quer falar comigo?
— Quero, sim senhor! — respondeu a voz potente de Hims saída da abertura
gradeada que ficava embaixo da tela. O epsalense parecia indignado. Suas palavras
confirmaram a suposição. — Não acha que já está na hora de iniciarmos a perseguição,
senhor? — perguntou. — Se os relógios da Francis Drake não divergem muito dos da
Crest IV, já faz mais de trinta minutos que captamos o último eco de reentrada. Ou será
que estou enganado?
— Não está, não — respondeu Atlan, erguendo as sobrancelhas. Ainda não tinha
certeza se aquilo que pensava a respeito das intenções de Hims era verdade, mas
imaginava perfeitamente o que ocupava a mente do livre-mercador.
— Se é assim, por que não inicia logo a perseguição, senhor? Esqueceu que a vida
de meu rei também está em jogo?
Os olhos do arcônida chamejaram de raiva.
— O senhor não tem o direito de criticar minhas decisões, Hims — respondeu
amargurado. — Sei o que devo fazer. Não preciso que ninguém me ensine.
“Além disso não podemos afirmar que a reentrada realmente foi a última, somente
porque faz trinta e cinco minutos que detectamos a última onda de choque.
“Finalmente, o senhor está me deixando nervoso com suas lamentações por causa
da saúde do homem que chama de rei.”
Atlan quase chegou a gritar as últimas palavras. Muito nervoso, agarrou as
braçadeiras da poltrona com tanta força que as juntas dos dedos branquearam.
A sala de comando da Crest IV estava com a guarnição completa. Todos prenderam
a respiração. Fazia muito tempo que não se via o lorde-almirante tão zangado.
Atlan dispôs-se a dizer mais alguma coisa. Finalmente exclamou:
— Se não está satisfeito com o que estou fazendo, vá procurar os desaparecidos
sozinha
— O senhor sabe perfeitamente que isso não adiantaria, senhor — respondeu Hims,
surpreso com a manifestação de raiva de Atlan.
— Pois então faça o favor de ficar com a boca calada. Estou tão preocupado com o
destino de Roi Danton como com o de Perry Rhodan, embora este último me fale mais ao
coração, por motivos que o senhor há de compreender. Aliás, sua objeção perdeu o
sentido. Vejo numa tela separada que os rastreadores estruturais estão recebendo novos
ecos de entrada no espaço linear...
Rasto Hims desligou sem dizer uma palavra.
Atlan suspirou e recostou-se na poltrona. Apoiou a cabeça na mão direita.
Oito dias de esperanças vãs, de nenhum progresso representavam uma carga pesada
para os tripulantes das vinte e quatro naves e os homens que estavam no comando.
— Tomara que logo aconteça alguma coisa — murmurou Atlan sem que ninguém
entendesse. — Temos de encontrá-los. O que seria do império terrano se não fosse Perry
Rhodan?
***
O homem em torno do qual giravam os pensamentos de Atlan estava sentado
naquele dia vinte e oito de novembro, gemendo, com a cabeça dolorida apoiada num
tanque. O Administrador-Geral levou alguns minutos para recuperar-se dos efeitos
adversos da primeira transição.
Círculos vermelhos dançavam à frente dos olhos de Perry Rhodan. O
Administrador-Geral sentiu um fluxo vivificante sair do ativador celular e espalhar-se por
todo o corpo, realizando a regeneração das células e dos nervos maltratados pelo choque.
Aos poucos Perry Rhodan foi recuperando as forças.
Uma grande sombra fez com que a luz das raras lâmpadas protegidas por grades
ficasse ainda mais escura.
O gigante ertrusiano Melbar Kasom inclinou-se sobre Rhodan. Sua voz retumbante
parecia preocupada quando perguntou como estava o Administrador-Geral.
— Não grite tanto — murmurou Perry Rhodan enquanto tentava afastar a mão do
ertrusiano que queria apoiá-lo.
— Que é isso, senhor? — perguntou o especialista da USO em tom de reprovação.
— Nunca me atreveria a gritar com o Administrador-Geral do império terrano. Estava
somente cochichando...
— Pensei que fosse uma britadeira trabalhando — interrompeu Oro Masut.
O rosto do segundo ertrusiano abriu-se num sorriso largo..
— O senhor não tem jeito — disse Kasom ao guarda pessoal de Roi Danton e
sacudiu a cabeça num gesto de reprovação. — Acha que sua voz é agradável como a de
uma ave cantora ertrusiana? Alguém já lhe disse que apanhou demais na cabeça durante a
infância...?
— Vamos parar com as discussões — disse Perry Rhodan e endireitou o corpo. Os
efeitos da transição já estavam desaparecendo.
Os gigantes ertrusianos ficaram calados.
Perry Rhodan quase não percebia a cortina sonora da nave guerrilheira enquanto
refletia sobre a situação.
Chegou à conclusão de que não era muito boa.
Pouco depois de terem sido libertados pelos dois ertrusianos e após a partida
apressada de First Stop, haviam abandonado o primeiro esconderijo dos dois gigantes,
que ficava na sala de bombas do mecanismo hidráulico de uma das colunas de
sustentação da nave, porque com o aparecimento de Rhodan o lugar ficara muito
apertado. No momento encontravam-se numa sala situada em cima da de bombas, que
tinha o dobro do tamanho desta, em cujo interior se encontravam os tanques
pressurizados para o líquido usado no sistema hidráulico. Havia muito mais lugar para ele
e os dois ertrusianos. Além disso não existiam fios de alta tensão, que exigiam um
cuidado especial. Já estavam mais ou menos habituados ao burburinho e aos chiados do
líquido usado no mecanismo hidráulico.
— Já recebeu notícias de Monsieur Danton? — perguntou Perry Rhodan depois de
algum tempo a Oro Masut.
Masut fez um gesto negativo.
— Receio que meu rei e os cavalheiros que o acompanham ainda estejam
inconscientes — disse em tom preocupado.
— Provavelmente — respondeu o Administrador-Geral em voz baixa, como se
estivesse falando consigo mesmo. — O tal do Monsieur Danton é um sujeito esquisito —
prosseguiu Rhodan em tom pensativo. — Às vezes não sei como comportar-me diante
dele. Muitas vezes sinto-me inclinado a ver nele um grande idiota, por causa do jeito
presunçoso. Mas há alguma coisa que me fascina nele e o torna muito simpático aos meus
olhos. Existe uma estranha contradição em tudo que faz...
Perry Rhodan calou-se. Se o depósito de tanques fosse mais iluminado certamente
teria notado o jeito com que Kasom e Masut se entreolharam.
Rhodan prestou atenção por algum tempo ao burburinho e aos chiados vindos de
trás dele. Fechou os olhos e ficou absorto em seus pensamentos. Foi acordado por um
estranho ruído, ao qual não estava acostumado.
Perry Rhodan levantou e pôs-se a escutar.
— Ouvi alguma coisa! — disse a Melbar Kasom, que parecia embaraçado. — Não
ouviram?
O ruído fez-se ouvir de novo. Parecia o rosnado de um animal selvagem.
Um animal selvagem? Aqui? O Administrador-Geral pôs instintivamente a mão na
arma energética pesada que trazia presa à cintura.
Melbar Kasom ficou ainda mais embaraçado.
— É meu estômago, senhor — conseguiu dizer a muito custo. Apesar da iluminação
escassa via-se que estava ficando vermelho.
Perry Rhodan deu uma risada, mas logo voltou a ficar sério. Preocupado, deu-se
conta de que a necessidade enorme de alimentos dos dois ertrusianos começava a
transformar-se num problema. Seu metabolismo básico era mais elevado, por causa do
tamanho do corpo e do organismo adaptado a um ambiente agressivo.
— Quanto resta de sua provisão de mantimentos, Kasom? — perguntou Perry
Rhodan.
— Nada, senhor — respondeu Oro Masut, triste, no lugar de Kasom. — Nada além
de meio pacote de alimento concentrado. Está na hora de fazermos alguma coisa para
combater a fome, senão Kasom e eu acabaremos definhando.
— Daria tudo para poder comer uma perna de boi assada no espeto! — principiou
Melbar num devaneio e olhou para Rhodan, que respondeu com um sorriso irônico:
— Por que está olhando para mim desse jeito, Kasom? Será que tem idéias
esquisitas a meu respeito?
O especialista da USO apressou-se em responder que não. Parecia tão desolado que
Oro Masut soltou uma estrondosa gargalhada.
— Fique quieto, seu escandaloso! — pediu o Administrador-Geral. — Quer que os
gurrados descubram nosso esconderijo?
O guarda pessoal de Roi Danton calou-se.
As pulsações das máquinas sacudiam a nave-pêra até o último rebite. O veículo
espacial vibrava que nem uma gigantesca caixa de ressonância. Uma grande mancha de
ferrugem desprendeu-se acima dos três homens tão diferentes, derramando um fino pó
amarelo sobre eles, que deixou um gosto estranho nos lábios. Um rebite estourou nos
fundos do depósito de tanques, batendo com um ruído surdo na parede de um dos
tanques, em cujo interior o líquido borbulhava constantemente.
— Está chegando a hora de fazermos alguma coisa... — disse Perry Rhodan em tom
sério em meio aos ruídos incessantes.
2

No início da era astronáutica terrana — a chamada época das naves-saltos — voava-


se exclusivamente em naves de transição.
Isto enquanto não foi descoberto o sistema de propulsão linear.
A transição era a saída forçada do conjunto espácio-temporal einsteiniano, durante a
qual a liberação repentina de energia na quinta dimensão provocava a desmaterialização
completa de todos os objetos. Estes se transformavam em espirais energéticas, que
passavam a existir no hiperespaço da quinta dimensão.
Um salto de transição de dois ou três mil anos-luz exigia uma quantidade enorme de
energia.
Por ocasião do choque de reentrada ocorria um fenômeno inverso.
A espiral energética, que se conservava estável na quinta dimensão, voltava a
transformar-se, durante a ruptura da curvatura espácio-temporal, em corpos
materialmente estáveis que voltavam a existir na quarta dimensão. Esta
desmaterialização, seguida imediatamente por uma rematerialização, acarretava uma
separação completa de todos os grupos atômicos e moleculares de qualquer objeto. Uma
das peculiaridades deste tipo de transição pela quinta dimensão consistia no fato de os
grupos atômicos voltarem a reunir-se exatamente nos mesmos grupos a que pertenciam
antes.
Acontece que este processo acarretava graves distúrbios orgânicos, que os terranos
do século vinte e cinco não suportavam mais. Por isso não era de admirar que dos cerca
de cem homens que se encontravam a bordo da nave guerrilheira, vinte por cento
mergulhassem num estado de inconsciência profunda já depois da primeira transição.
Depois da segunda transição já eram cinqüenta por cento dos homens pertencentes
ao grupo operacional de Modula...
***
Só fazia alguns minutos que tinha terminado a segunda transição.
O comandante Trikort estava recostado na enorme poltrona giratória, olhando com
uma expressão pensativa para a grande tela frontal que mostrava todas as constelações
conhecidas.
Em cima de Trikort os técnicos e navegadores trabalhavam num corredor circular,
iluminado somente pela luz fraca dos instrumentos. Parecia que um dos disjuntores
principais, ligado ao sistema de iluminação da nave, falhara na sala de geradores durante
a última transição. Enquanto não fosse encontrado o defeito, os técnicos eram obrigados a
contentar-se com a luz dos instrumentos.
Era um dos defeitos mais freqüentes, menos perigoso que os outros.
“Seria bem pior se a alimentação de energia das telas de imagem e rastreamento
tivesse entrado em pane, como já aconteceu”, pensou Trikort. Enquanto os técnicos não
descobriram o defeito, a nave tivera de prosseguir em vôo cego. Concluídos os reparos,
os navegadores constataram que o veículo espacial se encontrava bem longe da rota
prevista.
O gurrado fez um movimento ligeiro. Já podia alcançar os controles das telas do
setor da popa.
O comandante Trikort fitou prolongadamente a figura elipsóide achatada, que
enchia quase trinta graus do ângulo de visão em forma de um escudo chamejante. Sabia
que se tratava da galáxia distante da qual tinham vindo os “terranos”. Tratava-se de um
povo orgulhoso e destemido.
A pátria de um povo!
O comandante Trikort conhecia o sentido desta palavra.
A pátria significaria o regresso de uma viagem longa e perigosa, cheia de aventuras.
Seria a companhia do ser querido — o afago delicado de uma mão e uma voz carinhosa
— a atmosfera suave de um entardecer de verão — as horas passadas embaixo do telhado
saliente de uma casa gurrada, juntamente com os companheiros de caçada — o riso feliz
de uma criança — o pôr do sol numa savana...
Havia inúmeras formas pelas quais se exprimia o conceito de pátria. No fundo todas
elas significavam uma coisa: tranqüilidade.
Um sentimento de profunda resignação tomou conta do comandante Trikort. Para o
povo dos gurrados o conceito de tranqüilidade só existia nas lendas e nas histórias
contadas pelos velhos.
Há muito a palavra pátria para os gurrados estava ligada às idéias de medo e ódio,
de fuga e luta, de opressão e perseguição.
Um dos painéis de controle embutidos na parede inclinada iluminou-se. No mesmo
instante soou a campainha de chamada.
— Que houve? — perguntou Trikort. Um tanto nervoso, notou uma expressão
preocupada no rosto do oficial que fora incumbido de vigiar os terranos trancados com
um grupo de vinte combatentes selecionados.
— Receio que a última transição tenha sido demais para os prisioneiros,
comandante. Na tela de vigilância vê-se que mais de metade deles está deitada no chão,
enquanto os outros se contorcem de dores.
— Vou dar uma olhada — respondeu o comandante Trikort.
Levantou com muita agilidade, enquanto o rosto do gurrado empalidecia na tela de
imagem. Trikort ainda deu algumas instruções ligeiras a fim de preparar a transição
seguinte. Em seguida fez sinal para que dois oficiais o acompanhassem.
Enquanto descia pelos corredores e elevadores antigravitacionais, o comandante
Trikort ficou muito calado. Seu rosto sombrio não revelava os pensamentos que se
agitavam em seu cérebro.
Quando atingiu a escotilha do depósito em cujo interior estavam presos os terranos,
o comandante deu ordem para que o oficial da guarda lhe contasse outros detalhes e
certificou-se pessoalmente através das telas sobre o estado de saúde dos prisioneiros.
Seu rosto assumiu uma expressão ainda mais sombria. Em tom áspero mandou que
a eclusa fosse aberta.
Passou entre as figuras contorcidas dos terranos caídos no chão. Apavorado,
percebeu a verdadeira extensão da dor física que as transições causavam aos terranos.
Ficou inclinado alguns minutos em cima de um jovem que segurava a cabeça com
as mãos e tremia em convulsões. Soltava gritos agudos, que causavam calafrios no
gurrado.
Finalmente o comandante Trikort endireitou o corpo e deu algumas ordens
enérgicas.
Quando ouviram as ordens, os gurrados hesitaram um instante. Mas a voz de Trikort
não admitia nenhuma rebeldia. Por isso os gurrados começaram a mudar a posição dos
corpos que se contorciam no chão. Três combatentes saíram correndo para providenciar
alimentação farta na cantina.
Trikort olhou para os dois oficiais que o acompanhavam.
— Roual Kartog!
— Pois não, comandante.
O segundo oficial de Trikort era um gurrado muito jovem, com pouca experiência
de combate, mas um excelente navegador.
— Cuide do terrano que se chama de rei. Oorgad Beandor!
— Pois não, comandante.
— Cuide para que a transição que está sendo preparada seja imediatamente
interrompida.
— O que deseja mesmo, comandante?
Oorgad Beandor era um homem velho, que já participara de muitas lutas. As
cicatrizes grossas que apareciam em seu rosto eram o resultado de inúmeras batalhas. Sua
juba fora artisticamente enfeitada com tiras de couro, cobertas com pérolas de vidro
brilhantes. Fitou o comandante. Bem no fundo de seus olhos via-se que não compreendia.
— Será que não fui claro? — gritou Trikort, indignado. — A transição será
interrompida imediatamente. Entendido?
— Por quê, comandante? — indagou Beandor. Via-se perfeitamente que não
concordava com a idéia de Trikort. — Não venha me dizer que pretende perder um tempo
precioso por causa destes frouxos — disse, apontando para os terranos deitados no chão.
— Não se esqueça de que é bem possível que descubram nossa pista. O espaço está cheio
de naves dos condicionados em terceiro grau que estão á nossa procura.
O rosto de Trikort ficou vermelho de raiva.
— Providencie imediatamente para que o pessoal da sala de comando interrompa a
transição que está sendo preparada. Isto é uma ordem!
Oorgad Beandor sacudiu obstinadamente a cabeça.
— Peço licença para ressaltar que o senhor está jogando com nossa segurança —
murmurou. — Não acredito que o Conselho dos Anciãos tenha muita compreensão pela
preocupação que está demonstrando para com os tais dos terranos. E o Conselho ficará
sabendo disso. Não tenha a menor dúvida.
— Não gosto de repetir a mesma ordem quatro vezes!
Os olhos de Trikort estreitaram-se. O comandante apoiou os braços musculosos nos
quadris, tocando o cabo das pesadas armas energéticas com a ponta dos dedos, e
balançando ligeiramente sobre os calcanhares.
Oorgad Beandor era o fanatismo em pessoa. A única coisa que valia para ele era a
causa dos gurrados. O resto era covardia ou fraqueza. Era um velho gurrado amargurado,
que não conhecia outros compromissos senão os que o ligavam a seu povo.
Trikort não se abalou nem um pouco com sua ameaça. O Conselho estava bem
longe, e o poder de comando da nave estava em suas mãos. Beandor seria obrigado a
ceder, como já acontecera tantas vezes. No fundo Beandor era um excelente oficial, que
há anos desejava o posto de comandante, mas nunca o conseguiria por causa de sua
mentalidade estreita. O fato de estar sob as ordens de um comandante jovem tornara-o
ainda mais rebelde e obstinado.
— Então, Beandor?
Havia alguma coisa na voz de Trikort que fez com que Oorgad Beandor julgasse
conveniente obedecer.
— Muito bem! — exclamou o velho gurrado, sacudindo a juba trançada. — Farei o
que deseja, mas recuso toda responsabilidade. Quero que isto fique bem claro,
comandante.
— Até parece que alguma vez o senhor já deixou de recusar qualquer
responsabilidade — resmungou Trikort em tom irônico.
Fitou com os olhos entreabertos o oficial que se afastava. “Alguma vez, num futuro
bem próximo, haverá uma crise”, pensou. “E então qualquer erro de minha parte fará
com que este tipo teimoso lidere um motim.”
Mas ainda não se tinha chegado a este ponto.
***
A única coisa que Roi percebeu foi uma série de explosões luminosas ofuscantes.
Em seguida veio uma dor intermitente, que partia da extremidade superior da nuca,
espalhando-se por todo o sistema neurovegetativo e sacudindo fortemente o corpo.
Roi gritou.
Parecia que alguém lhe arrancava o couro cabeludo aos poucos. Este alguém ainda
parecia divertir-se usando seu crânio como gongo.
Roi levantou abruptamente as mãos — ao menos tentou. Parou no meio do
movimento. O gesto violento provocava uma dor lancinante acompanhada de enjôos
angustiantes.
O coração martelava no peito. Parecia que estava sendo martirizado durante uma
eternidade por uma torrente de fenômenos luminosos, de ruídos enlouquecedores e de
dores ardentes.
Finalmente abriu os olhos.
A luminosidade ofuscante foi sendo substituída aos poucos pela iluminação escassa,
na qual Roi reconheceu o rosto de um gurrado inclinado sobre ele, que lhe dirigia a
palavra numa voz gutural.
O rei dos livres-mercadores deixou-se envolver por alguns segundos por esta voz
tranqüilizadora. Acabou sentando, apoiado pela mão solícita do gurrado.
Roi ficou espantado. O que poderia ter levado este leão a consolá-lo como se fosse
uma criança?
Os círculos coloridos voltaram a dançar à frente dos seus olhos, e por alguns
instantes as coisas que o cercavam mergulharam numa agitada escuridão. Mas as dores
foram diminuindo. A névoa colorida que cobria os olhos de Roi começou a desfazer-se.
O campo de visão aumentou — e o olfato voltou. De repente sentiu muita fome e aspirou
o cheiro delicioso de uma forte sopa. No mesmo instante viu o gurrado colocar uma tigela
embaixo de seu nariz e dizer alguma coisa em sua língua, que ninguém entendia.
— Muito obrigado, amigo — mesmo que você não entenda — disse Roi Danton e
pegou a tigela.
Sentiu-se cada vez mais forte. Enquanto tomava a sopa forte, que tinha um sabor
estranho, mas agradável, passou os olhos pelo depósito — e assustou-se porque metade
dos homens continuava inconsciente. Os que tinham acordado estavam apoiados à parede
que nem ele, e recebiam os cuidados de alguns gurrados que alimentavam os terranos.
Perto da escotilha da eclusa via-se um pequeno carro elétrico com um enorme tacho
cheio de sopa.
Alguém começou a gemer perto de Roi. Em seguida praguejou em voz cada vez
mais alta.
Roi olhou para aquele lado. Era John Harvey, que tentava resistir às mãos fortes de
um jovem gurrado que queria obrigá-lo a tomar a sopa.
— Droga — resmungou o cientista. — Acha que sou uma criança? Dê o fora,
imitação imperfeita de leão. Sei cuidar de mim.
O gurrado não se abalou. Segurou o queixo de Harvey com a mão direita. O
cientista escancarou a boca por causa da dor que isso lhe causava. Com a mão esquerda o
gurrado levou a colher cheia à boca de Harvey.
O cientista teve de engolir para não morrer sufocado. E fez isto com toda força. O
rosto do guerrilheiro abriu-se num sorriso satisfeito. Deu uma batidinha na cabeça do
terrano, como quem quer advertir um menino malcriado para que seja bonzinho e tome
sua sopa. Em seguida pôs a tigela e a colher em suas mãos.
— Até que enfim — murmurou John Harvey e passou a sorver a sopa.
— Está gostando, monsieur? — perguntou Roi.
John Harvey encarou Roi.
— Estou gostando muito, senhor — respondeu Harvey sem parar de comer.
— Dá para ouvir, monsieur — murmurou Roi e exibiu um sorriso afetado.
— Não importa — retrucou o cientista. — O importante é a gente recuperar as
forças.
— Tomara que recuperemos — confirmou Roi Danton e ficou triste ao notar que
sua tigela estava vazia. Segurou-a nas mãos, indeciso, por alguns instantes, mas decidiu
não pedir a repetição.
— Por acaso ainda tem um dos excelentes bastões de fumaça? — perguntou a John
Harvey.
— Será que está ficando viciado? — perguntou o cientista com um sorriso doloroso.
A segunda transição afetara-o mais do que queria confessar.
— Nada disso, monsieur! — indignou-se Roi Danton. — Só quero recuperar o
equilíbrio, que ficou um pouco abalado.
— Pois recupere — retrucou o cientista e deu um cigarro de astronauta ao rei dos
livres-mercadores.
— Merci beaucoup!
Roi Danton pegou o cigarro que continha uma droga de efeitos estimulantes e
calmantes ao mesmo tempo.
— Pas de quoi! — respondeu John Harvey. — Não há por quê.
— Parbleu, monsieur! — exclamou Roi. — O senhor me deixa cada vez mais
surpreso com seus conhecimentos lingüísticos. Primeiro o excelente latim e agora a
pronúncia perfeita de minha querida língua materna.
— Vous êtes bien aimable, sir! — John Harvey sorriu lisonjeado. — O senhor é
muito amável.
Roi Danton sugou fortemente o cigarro, que levou alguns segundos para acender-se.
Roi fumou de olhos fechados. Soltava a fumaça gostosamente pela boca e pelo
nariz, enquanto sentia a droga contida em quantidades insignificantes no tabaco
descontrair e acalmar seu sistema neurovegetativo.
— Por acaso tem mais um cigarro destes? — perguntou Roi a John Harvey.
O cientista deu uma risadinha.
— Não acho recomendável que fume mais de um — disse em tom seco. — O
senhor poderia entrar numa euforia que não combina com a situação grave em que nos
encontramos. E verdade que compreendo perfeitamente que alguém queira escapar desta
situação.
Roi sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. Harvey o desmascarara. Ia dizer alguma
coisa para justificar-se, quando uma sombra caiu sobre ele.
Danton levantou os olhos — e viu o comandante Trikort parado à sua frente. Havia
dois gurrados atrás dele.
O comandante dirigiu-se a Roi em sons guturais.
Roi deu de ombros e amaldiçoou o fato de não dominar a língua dos guerrilheiros.
“Quem dera que a gente pudesse programar as máquinas tradutoras para a língua dos
gurrados”, pensou. “Neste caso não haveria mais nenhuma dificuldade de
comunicação.”
Mas Roi sabia que estas tradutoras estavam fora de seu alcance, depositadas em
algum lugar da nave, juntamente com as armas e os equipamentos técnicos.
— Olhe, senhor! — disse John Harvey. — Os dois gurrados que acompanham o
comandante trouxeram uma tradutora. Parece que finalmente resolveram comunicar-se
conosco.
Roi, que só via parte dos corpos dos dois gurrados porque Trikort os encobria,
inspirou fortemente. Será que seu desejo se cumpriria? Haveria mesmo uma comunicação
entre as duas formas de vida que habitavam galáxias diferentes?
***
Roi não sabia quantas horas já tinham passado quando finalmente saiu o primeiro
som inteligente da abertura gradeada da tradutora.
Estavam sentados frente a frente.
De um lado Roi Danton, John Harvey e mais alguns cientistas, e do outro lado o
comandante Trikort com três oficiais.
A máquina tradutora em forma de cubo fora colocada entre os dois grupos.
— O senhor me compreende, comandante? — disse Roi Danton para dentro do
microfone.
A tradutora emitiu alguns sons guturais. Uma expressão de alegre surpresa apareceu
nos rostos de leão dos gurrados. Trikort respondeu numa rápida sucessão de palavras.
— Eu o compreendo, rei — disse a tradutora de forma bem compreensível. — Até
que enfim! Já podemos conversar como pessoas sensatas — conforme se deve fazer entre
povos civilizados.
— Excelente! — exclamou um dos cientistas que se encontravam ao lado de Roi
Danton. — O funcionamento da tradutora é quase perfeito. Já notaram que o aparelho até
traduz o prenome de Monsieur Danton em sua verdadeira forma — rei! É uma coisa
notável!
Roi voltou a dirigir-se ao comandante dos guerrilheiros.
— O senhor já deve ter notado, mon capitaine — disse — que somos muito
sensíveis às transições violentas que transportam a nave a grande distância. Não quero
acusá-lo por isso, mas não posso deixar de dizer que nos matará devagar, mas com
certeza, se saltar mais algumas vezes, conforme nós terranos costumamos chamar o
fenômeno. Seremos mortos porque há séculos conhecemos uma forma de deslocamento
bem diferente, que nos leva de forma rápida e segura de um ponto da galáxia a outro.
Nossos corpos não estão mais acostumados a ficar expostos às energias tremendas
desencadeadas numa transição. Reagem de uma forma bem diferente.
— Não tenho a intenção — disse Trikort — de causar a morte do senhor e de seus
homens. Se quiséssemos, facilmente poderíamos tê-los matado há alguns dias. Também
já notei que suas condições físicas pioram depois de cada transição e andei refletindo
num meio de evitar isso.
“Resolvi fazer uma coisa. Mandei interromper imediatamente a terceira transição,
que já estava sendo preparada.”
— Fez isso, comandante? Por nós?
John Harvey parecia muito surpreso. O gurrado fez um gesto afirmativo.
— Fiz, sim — respondeu em tom enfático. — Contra a vontade de alguns dos meus
oficiais.
— O que certamente lhe causou problemas — conjeturou Roi Danton.
Estava emocionado com a manifestação de simpatia do gurrado.
Trikort resmungou alguma coisa e fez um gesto de pouco-caso. Parecia que não
eram estes problemas que o preocupavam.
— Mandarei executar mais um único salto que nos levará para perto do destino —
disse. — Estarei desobedecendo às instruções que me foram dadas. Recebi ordem de dar
pelo menos oito saltos para dissimular o ponto de destino...
— Oito transições? — interrompeu um dos cientistas terranos, apavorado. — Meu
Deus! Se sua intenção foi esta, poderia ter-nos fuzilado logo. O efeito final seria o
mesmo.
— De quem queria esconder o ponto de destino dando mais alguns saltos? Dos
terranos? — perguntou Roi.
Roi Danton inclinou-se ligeiramente e olhou com uma expressão tensa para o rosto
largo e musculoso do comandante. Trikort sacudiu a bela juba cor de areia.
— Não foi por causa do senhor ou de seus companheiros, rei — transmitiu a
tradutora de forma entrecortada. — Temos inimigos muito mais poderosos dentro de
nossa galáxia!
— Os perlians? — arriscou Danton.
Trikort voltou a fazer um gesto afirmativo.
— Os perlians ou condicionados em terceiro grau, como por vezes são chamados —
confirmou em tom sombrio. — E os agentes de cristal que estão a seu serviço.
Trikort calou-se.
O tempo passou devagar. Os segundos enfileiraram-se em minutos. Finalmente
Trikort voltou a falar. A máquina tradutora não foi capaz de vibrar com os sentimentos
que havia em sua voz. Mas os homens viram pelo rosto do gurrado que este se sentia
muito emocionado.
— Há muitos anos — disse o comandante Trikort — vivemos fugindo dos perlians.
“Nós, que por muito tempo convivemos pacificamente com outros povos em nossa
galáxia, de repente fomos obrigados a trocar as casas sólidas pelas tendas dos nômades.
“Um planeta após o outro do antigo império dos gurrados teve de ser evacuado. E
assim desapareceu o esplendor e a beleza de nossa cultura.
“Durante as ocasionais guerras-relâmpago e as longas e sangrentas retiradas não
pudemos carregar nossas tradições gloriosas. E por isso nos transformamos dentro de três
séculos, nos quais os perlians foram restringindo cada vez mais nosso espaço vital, em
livres atiradores, em bárbaros, em guerrilheiros.
“Só nos restava a luta e a fuga.
“Se reconquistávamos um planeta, éramos obrigados a abandonar dois ou três...”
O Capitão Trikort ainda disse muita coisa.
Falou na beleza de seu antigo mundo central, nos tesouros imensos acumulados nas
caixas-fortes das grandes cidades.
Ainda falou nas conquistas técnicas e descreveu o auge da cultura de seu povo.
Falava e falava.
Descreveu para os terranos, que o ouviam com muita atenção, as cidades
gigantescas de seu império interior, de onde era administrado seu povo.
Em seguida Trikort contou como o medo e o pavor começaram a espalhar-se em sua
galáxia há trezentos anos, quando os perlians apareceram pela primeira vez na grande
nuvem de Magalhães.
Estes perlians vieram em grandes espaçonaves.
Estavam envoltos em bolhas energéticas vermelho-brilhantes, em cujo interior
desciam em segurança nos planetas escolhidos.
Nesses dias o céu de muitos planetas adquiriu a cor do sangue; foi o início do caos...
Os terranos ficaram calados por muito tempo. O que poderiam dizer sobre a
desgraça que atingira os gurrados? Deveriam demonstrar compaixão? Tristeza? Era
preferível ficar quieto.
Finalmente os guerrilheiros de Magalhães levantaram.
Roi Danton também levantou. Pegou a tradutora.
— E agora, comandante? — perguntou.
— Daqui a pouco iniciaremos a terceira transição — respondeu Trikort. — Será a
última — apressou-se em acrescentar quando viu o espanto estampado no rosto dos
prisioneiros. — Infelizmente isso não pode ser evitado, senão a viagem demora demais.
O perigo de sermos descobertos pelos agentes de cristal ou pelos perlians aumenta à
medida que permanecemos neste setor espacial. Mas os senhores ainda dispõem de
quatro horas. Tem mais alguma pergunta, rei?
— Gostaria de saber o que significa isso — respondeu Danton, pensativo, enquanto
encostava o dedo no emblema bordado na jaqueta de couro cinza de Trikort.
— É o símbolo de nossa resistência — explicou Trikort em tom sombrio. Seus
olhos verdes chisparam de ódio, fazendo com que Danton recuasse instintivamente. —
Esta bola vermelha atravessada por uma flecha representa as bolhas energéticas
vermelho-brilhantes que trouxeram a miséria e a desgraça para nosso povo — prosseguiu
Trikort.
“A flecha é a flecha da nossa vingança destruindo a bolha energética, da mesma
forma que um dia nosso ódio há de destruir os perlians.”
“Compartilho seus sentimentos, caro amigo de rosto de leão”, pensou Roi Danton
enquanto seguia o gurrado com os olhos. “Faço votos de que você e seu povo saiam
vitoriosos nesta luta.”
3

Durante a segunda transição algumas das lâmpadas que precisavam mesmo de


reparos falharam de vez. O depósito de tanques em cujo interior se encontravam Perry
Rhodan e os gigantes Melbar Kasom e Oro Masut estava mergulhado numa penumbra
que desmanchava os contornos dos objetos.
O depósito de tanques transformara-se numa caverna em cujo interior o burburinho
e os chiados incessantes do agitado líquido do sistema hidráulico lembravam as histórias
místicas de bruxas e duendes.
Desta vez Perry Rhodan se saíra bem melhor.
Desde o início da era astronáutica terrana voara exclusivamente em naves de
transição, até que esta forma um tanto violenta de locomoção foi substituída pelo sistema
de propulsão linear, e por isso conseguira adaptar-se bem depressa aos incômodos que
para ele não eram nenhuma novidade. Além disso o ativador de células com seu fluxo
vital de grande intensidade ajudou-o a recuperar-se bem depressa.
Desta forma o Administrador-Geral estava completamente em forma alguns
minutos depois da transição.
Os dois ertrusianos de qualquer maneira não eram afetados pelos choques da
transição. Estavam acostumados a uma gravitação de 3,4 gravos, e por isso sua
constituição orgânica era capaz de suportar cargas bem mais pesadas.
Os três homens ficaram deitados, com o corpo bem esticado, no recinto mal
iluminado.
Permaneceram em silêncio.
Cada um estava absorto em seus pensamentos, que giravam quase exclusivamente
em torno de um único problema: Como estavam os cem homens trancados num porão de
carga bem distante?
Nenhum dos soldados e cientistas seria capaz de suportar por muito tempo os
desgastantes choques de transição. Seu organismo seria gravemente afetado.
Perry Rhodan estava muito preocupado.
Depois de algum tempo Oro Masut ergueu-se abruptamente. Enfiou o dedo
indicador no ouvido esquerdo, onde estava escondido o microrrádio produzido pelo
laboratório secreto de um cientista genial chamado Dr. Geoffrey Abel Warringer.
— Algum problema, pequeno? — resmungou Melbar Kasom.
Também se ergueu, curioso.
— Quieto — pediu Masut e fez um gesto. Em seguida concentrou-se. — Roi
Danton acaba de chamar — informou.
Em seguida ficou calado por algum tempo.
— Parece que finalmente está havendo uma forma de entendimento entre os
gurrados e nossa gente — prosseguiu. — Há alguns minutos o comandante Trikort trouxe
uma máquina tradutora...
— Preste atenção ao que for dito, Masut!
Perry Rhodan falou depressa e com a voz entrecortada. Não sabia quanto tempo
Danton ficaria calado. Só sabia que precisava aproveitar o tempo.
O Administrador-Geral não queria perder uma única palavra do que fosse falado no
porão de carga.
— Vamos ficar bem quietos — prosseguiu. — O senhor nos transmitirá aquilo que
ouvir no microrrádio, Masut. Palavra por palavra! Entendido? Assim teremos uma idéia
precisa da situação.
— Está bem, senhor — respondeu o gigante ertrusiano com um aceno de cabeça.
As horas que se seguiram foram preenchidas pela voz de Oro Masut, que repetia em
tom monótono, não muito alto, cada palavra que ouvia pelo aparelho de rádio.
— Repita a última frase do comandante — pediu Perry Rhodan quando Masut
terminou.
O ertrusiano repetiu as últimas palavras de Trikort.
— Quer dizer que ainda dispomos de quatro horas para fazer alguma coisa —
murmurou Perry Rhodan.
— Será que o tempo de espera finalmente vai chegar ao fim, senhor? — perguntou
Melbar Kasom. Sua voz parecia tensa. Para seu gosto o especialista da USO já descansara
por muito tempo. Estava ansioso para movimentar o corpo — e se este movimento
acarretasse algum perigo, tanto melhor.
— Temos de aproveitar a situação — confirmou o Administrador-Geral. Em
seguida levantou e fez um movimento enérgico, fechando o traje de combate. — O que
estão esperando? — perguntou, dirigindo-se aos ertrusianos.
Parecia que estes ainda não se tinham dado conta de que Rhodan estava falando
sério. Finalmente levantaram-se com muita agilidade e arrumaram seus trajes de
combate. Via-se pelo seu rosto que não recuariam diante de nada.
Perry Rhodan acompanhou em silêncio os preparativos dos dois gigantes.
Dali a dez minutos estavam prontos para sair.
***
A vários anos-luz do local destes acontecimentos vinte e duas espaçonaves estavam
bem espalhadas na região central da grande nuvem de Magalhães.
Deslocavam-se em velocidade reduzida.
Suas manobras hesitantes pareciam indicar que se tratava de unidades de combate
que não sabiam muito bem o que combater. De fato. O inimigo que as vinte e duas
unidades estavam procurando era astuto que nem um lobo das estepes e cheio de ardis
que nem um patriarca dos saltadores. Além disso ninguém conhecia essa confusão de
estrelas tão bem quanto ele.
Atlan, que comandava as vinte e duas unidades, não suspendeu as buscas. De vez
em quando enviava um mensageiro. Ainda tinha esperança de encontrar por acaso os
amigos desaparecidos, em meio às inúmeras ondas de transição que eram detectadas
constantemente.
Mas por enquanto as investidas não tinham passado de golpes no ar.
O arcônida caminhava de um lado para outro da enorme sala de comando principal
da Crest IV, nervoso, com as mãos nas costas.
Q Coronel Merlin Akran estava sentado no seu lugar, observando as andanças
irregulares do lorde-almirante. O epsalense sacudiu ligeiramente a cabeça ao ver como o
arcônida estava nervoso. Disse a si mesmo que se estivesse no lugar de Atlan estaria
muito mais nervoso.
— Senhor! — chamou o comandante da Crest IV quando as caminhadas de Atlan o
fizeram passar perto dele.
Atlan parou e levantou os olhos.
— Pois não, coronel!
— Não quer descansar em seu camarote por algum tempo, senhor? Parece cansado
— se permite que eu diga isto. Parece que dormiu pouco nestes últimos dias.
O epsalense parecia preocupado, mas o lorde-almirante sacudiu a cabeça.
— O senhor seria capaz de dormir se estivesse no meu lugar, coronel? —
perguntou.
— Acho que não, senhor.
— Pois então, Coronel Akran! Ainda é de opinião que deve mandar-me para a
cama?
— Não senhor.
Akran quis dizer mais alguma coisa, mas neste instante soou uma campainha.
No mesmo instante Merlin Akran fez girar a poltrona para ficar de frente para a
parede em que tinham sido instalados os instrumentos. Uma das telas do
intercomunicador iluminou-se.
A imagem de Owe Konitzki apareceu nela.
— O lorde-almirante está aí, senhor? — perguntou.
— O que houve? — perguntou o arcônida. Colocara-se atrás do epsalense e
inclinou-se por cima de seu ombro para ser visto pelo chefe do setor de rastreamento.
— Ora veja! — disse o terrano atlético com um suspiro de alívio. — Aí está o
senhor.
— Então, major?
Atlan parecia impaciente.
— O Major Bob McCison está voltando com a KC-42. Quer falar pessoalmente
com ele?
— Transmita a ligação para esta tela. Depressa!
A imagem de Owe Konitzki desapareceu, sendo substituída pelo rosto largo do
Major Bob McCisom. O major dobrara para trás o capacete de seu traje de combate,
pondo à vista os cabelos curtos castanhos-claros. McCisom era temido por causa das
piadas que costumava fazer. Além disso era conhecido pelas comparações forçadas.
Mas desta vez seu rosto, geralmente alegre, assumiu uma expressão sombria quando
viu o lorde-almirante na tela e ouviu sua pergunta.
— Descobriu alguma coisa, major?
Atlan inclinou o corpo e cravou os dedos nos ombros robustos de Merlin Akran.
Este nem percebeu, de tão ansioso que estava.
— Mais um insucesso, senhor — respondeu Bob McCisom, contrafeito. — Os
planetas dos quais nos aproximamos estavam tão vazios quanto meu estômago está neste
momento. Nem sinal de uma nave-pêra.
Bob McCisom, chefe da Quinta Flotilha, safra pessoalmente na KC-42, quando os
homens que trabalhavam nos rastreadores estruturais da Crest IV tiveram a impressão de
que o eco de reentrada de uma das naves silenciara perto de um sistema planetário sem
importância e não voltou a aparecer em qualquer outro lugar. Dessa forma a nave só
poderia estar escondida em um dos quatro mundos deste sistema.
— Tem certeza? — perguntou Atlan em tom desanimado.
— Tanta certeza quanta tenho de que minha noiva não me engana, senhor —
confirmou o major.
— Quer dizer que não sabe nada — afirmou Merlin Akran.
Bob McCisom ergueu a sobrancelha esquerda.
— Isso mesmo! — respondeu com um sorriso cansado.
Alguém deu uma risadinha nervosa quando as palavras de McCisom foram ouvidas
na sala de comando principal. Um forte chiado do epsalense fez com que o atrevido se
calasse.
— Quer dizer que não descobriu nada, major? — insistiu o lorde-almirante. —
Onde acha que se poderia ter metido esta nave depois do eco de reentrada que
detectamos?
McCisom deu de ombros, perplexo.
— Não sei, senhor — reconheceu prontamente. — Nos planetas não pode estar.
Nossos detectores não registraram nenhum sinal da presença de uma nave. Na minha
modesta opinião, o eco de reentrada não foi medido com a necessária precisão.
“Pude escolher entre dez sistemas planetários diferentes. Optei por aquele em que às
chances seriam melhores, segundo o resultado dos computadores. Mas estávamos
enganados. Logo, a nave deve ter-se escondido em outro sistema. Para descobrir qual é
este sistema, levaremos vários dias e teremos de usar toda a flotilha...”
— Deixe para lá — concluiu Atlan. — E trate de entrar logo. Pelo que sei, na
cantina número sete será servido um excelente guisado de veado...
— Há há ha — riu Bob McCisom meio sem graça. — Já conheço este prato.
Constou do cardápio há dois anos.
— E daí? — perguntou o lorde-almirante, espantado. — Não gostou?
— Pouco importa que eu goste ou deixe de gostar. O que adianta o tal do guisado de
veado, se só fica no papel, senhor?
Aposto que caso resolva almoçar na cantina número sete, só encontrará papa de
sorgo à La Tchai Kulu.
— Dizem que isto faz bem à saúde — retrucou o Lorde-Almirante com um sorriso
irônico.
A imagem de Bob McCisom desapareceu da tela.
O arcônida virou-se cornos ombros caídos de tão cansado que estava e voltou a
caminhar nervosamente de um lado para outro.
***
O corredor estava mergulhado na luz mortiça das lâmpadas de emergência. Parecia
não haver ninguém, mas às vezes o chão tremia sob o impacto de uma massa pesada — o
que não era de admirar.
Tanto Melbar Kasom como Oro Masut andavam constantemente com seus
microgravitadores. Habituados a uma gravitação de 3,4 gravos, tinham de gerar este valor
artificialmente, para evitar que constantemente dessem saltos involuntários. Era claro que
com isso o peso de seu corpo também era multiplicado.
Perry Rhodan e os ertrusianos andaram quase sem o menor ruído pelos corredores,
protegidos por seus campos de deflexão. Não precisavam temer a descoberta por acaso.
Os defletores, que os tornavam completamente invisíveis, lhes proporcionavam uma
razoável segurança.
— Onde estão Danton e os outros? — perguntou Perry Rhodan a Oro Masut.
— No convés número oito, senhor — respondeu o guarda pessoal de Roi Danton,
que era o único que conhecia a verdadeira identidade do rei dos livres-mercadores, com
exceção de Melbar Kasom, ao qual teve de confiar o segredo em First Stop.
— Quer dizer que se encontram quatro conveses acima de nós — constatou o
Administrador-Geral.
O grupo prosseguiu com Kasom na ponta.
A plataforma antigravitacional, sobre a qual costumavam transportar seu
equipamento, foi deixada para trás. Praticamente não havia mais nada para ser
transportado. Os alimentos concentrados, que representavam o grosso da carga, tinham
sido consumidos. E as armas, bem como os raros aparelhos técnicos, estavam amarradas
nas numerosas fitas e laços de seus trajes de combate.
Melbar Kasom e Oro Masut seguravam suas gigantescas armas de choque nas mãos,
enquanto a arma de Perry Rhodan continuava pendurada no cinto.
O Administrador-Geral confiava nos campos defletores.
Gastaram os primeiros dez minutos para sair do corredor e atravessar um corredor
circular que os levou ao elevador antigravitacional desativado, pelo qual os dois gigantes
ertrusianos já tinham fugido uma vez. Era bem verdade que naquela oportunidade tinham
vindo de cima, enquanto agora seguiam o mesmo caminho em sentido inverso.
Os projetores antigravitacionais instalados em seus trajes de combate fizeram-nos
subir.
Todos permaneceram em silêncio.
Perry Rhodan nem sequer ouviu o ruído de uma respiração mais forte pelo alto-
falante instalado em seu capacete. Os dois ertrusianos não demonstravam medo ou
qualquer outra emoção.
Para eles a excursão não passava de uma operação de rotina.
Os campos defletores funcionavam perfeitamente. Desviavam os raios de luz
visíveis, tornando invisíveis os três homens.
Perry Rhodan só via os dois ertrusianos através da janela eletrônica embutida em
seu capacete, que neutralizava os efeitos do campo defletor.
Enquanto os três subiam lentamente, não ouviram nenhum ruído além daquele
provocado pela vibração constante das paredes do elevador.
— Parece que ninguém se lembra mais de nós, senhor! — anunciou a voz de
barítono de Kasom através do alto-falante de Rhodan.
— Tomara — respondeu o Administrador-Geral.
— Parece que o senhor ainda tem suas dúvidas — observou Kasom.
— A certeza só por si não nos ajudará em nada — disse a voz de Masut vinda de
baixo. — Concordo com o senhor. Não temos qualquer prova de que os gurrados tenham
desistido de procurar-nos. Ê possível que nos estejam espreitando na primeira curva.
Quem sabe lá?
— Até parece que a fome afetou sua capacidade de raciocínio, Masut — escarneceu
o especialista da USO.
— Ouça o que diz um homem de muita experiência — prosseguiu. — Os gurrados
pensam que ainda nos encontramos em First Stop.
Durante o tempo restante da subida os três permaneceram em silêncio.
Quando se encontravam na altura do sexto convés, ouviram ruídos. Alguns dos
gurrados gritaram palavras incompreensíveis em tom gutural. Um gurrado solitário
respondia nas imediações do poço do elevador antigravitacional. Devia estar bem perto,
provavelmente junto à entrada do convés VI.
Os três homens pararam imediatamente. Imóveis, com o coração palpitante e
prendendo a respiração, ficavam suspensos embaixo da entrada do poço, aguardando os
acontecimentos.
As vozes ficaram mais fortes. Estavam cada vez mais perto. Ouviram-se as pisadas
de volta — e de repente o rosto selvagem, cortado de cicatrizes, de um gurrado de juba
longa apareceu no interior do poço.
Os três homens pararam de respirar de vez. Até parecia que tinham medo de que o
gurrado pudesse ver os movimentos de seu tórax.
O que era completamente impossível.
Os campos defletores davam uma proteção cem por cento.
O gurrado olhou para cima e para baixo, atirou um objeto grande no elevador, para
fazer um teste, objeto este que passou rente ao nariz de Kasom, e gritou algumas palavras
decepcionadas por cima do ombro.
Desapareceu, depois de cuspir no poço.
As vozes e as pisadas afastaram-se bem depressa.
Os três homens soltaram o ar com força. Parecia que um obstáculo fora vencido.
Será que dali em diante continuariam a ser tão felizes?
— Isso é jeito de atirar um pé de salada podre na cabeça da gente? — indignou-se
Kasom.
— Será que o Tarzan de juba de leão descobriu alguma semelhança entre sua
cabeça e um pé de salada? — perguntou Oro Masut em tom de deboche. — Parece que
sim! — prosseguiu, respondendo à pergunta que acabara de fazer.
Melbar Kasom ficou vermelho.
— Se é assim, por que cuspiu em sua cabeça, seu bicho escandaloso? — perguntou
entre os dentes.
— Não fez nada disso! — respondeu Masut, contrariado.
— Fez, sim — insistiu o especialista da USO com um sorriso irônico.
— Chega! — ordenou Perry Rhodan, que não estava muito interessado na discussão
dos dois gigantes. — Vamos ver se conseguimos algum progresso. Só dispomos de mais
três horas e vinte e cinco minutos. Precisamos apressar-nos.
O grupo prosseguiu sem dizer uma palavra. Dali a quatro minutos atingiram a saída
que dava para o convés oito.
Kasom olhou cuidadosamente para o corredor principal, que estava fortemente
iluminado.
— Droga! — chiou, nervoso. — Este corredor está atulhado de gurrados. Se
quisermos passar, teremos de usar as armas.
O especialista da USO afastou-se da saída.
— E agora? — perguntou.
— Se não me engano, o senhor certa vez aludiu a corredores de manutenção —
observou Perry Rhodan. — Atravessou alguns deles voando — há algum tempo. Não é
verdade?
— Atravessei, sim senhor! — exclamou Kasom. — Acho que estes corredores
existem em todos os conveses. E no interior do poço do elevador antigravitacional deve
haver uma escotilha de passageiros pela qual se possa chegar a um dos corredores de
manutenção que liga as diversas instalações e as salas de máquinas do respectivo convés.
Mal Kasom começara a falar, Oro Masut saíra voando. Usando seus projetos
antigravitacionais, contornou junto à parede o poço de seis metros de diâmetro.
Melbar Kasom seguiu na direção oposta, enquanto Perry Rhodan permanecia junto
à saída.
— Aqui, senhor — gritou Masut dali a pouco. — Descobri a escotilha de
passageiros.
Os três levaram apenas um minuto para atravessar a abertura estreita. Em seguida
saíram caminhando por um corredor comprido, em cujas paredes havia escotilhas
irregularmente distribuídas. Atrás destas escotilhas ficavam os recintos aos quais se
chegava por esse caminho, embora às vezes por qualquer motivo o acesso normal não
fosse possível.
Não encontraram ninguém no corredor.
Pelos cálculos de Perry Rhodan já deviam ter caminhado uns quinze minutos pelo
corredor de reparos quando Oro Masut, que ia na ponta, parou de repente e levantou o
braço.
O Administrador-Geral e Melbar Kasom também pararam.
— Está ouvindo alguma coisa, Masut?
Rhodan e Melbar Kasom encararam o ertrusiano com uma expressão interrogativa.
Oro acenou com a cabeça.
— Meu rei acaba de chamar. Estamos perto do porão de carga em cujo interior está
trancado juntamente com os outros.
— É possível chegar lá por este corredor de manutenção? — perguntou Perry
Rhodan.
Oro fez um gesto negativo.
— Infelizmente não — afirmou, triste. — O único acesso é a eclusa de correr. E à
frente dela há pelo menos vinte gurrados montando guarda.
— E as aberturas no teto pelas quais os senhores fugiram certa vez?
Desta vez Melbar Kasom resolveu falar.
— Podemos excluir esta possibilidade, por mais sedutora que possa parecer.
Monsieur Danton já nos informou, quando ainda nos encontrávamos em First Stop, de
que os gurrados tomaram providências para transformar este caminho numa armadilha.
Perry Rhodan praguejou em voz baixa. Os dois ertrusianos sorriram.
— Acho que por enquanto não podemos pensar em visitar este tipo enfeitado —
disse Kasom.
Oro Masut resmungou zangado.
Um braço da grossura de uma coxa humana passou junto ao rosto de Rhodan.
Melbar Kasom soltou um grito assustado quando o soco desferido por Masut o
arremessou de encontro à parede.
— Não se atreva a chamar meu rei de enfeitado — resmungou Oro Masut com a
voz gutural. — Se fizer isso outra vez, o senhor vira um filé à La Masut. Entendeu?
— A gente nem pode brincar com o senhor — afirmou Melbar em tom resignado.
— Fiquem quietos! — gritou o Administrador-Geral. — O que ia dizer quando este
bárbaro resolveu interrompê-lo, Kasom? E interrompeu-o de uma forma muito violenta,
se me permitem esta observação.
O rosto de Rhodan continuou sério, mas havia um brilho alegre em seus olhos.
O especialista da USO fitou-o com uma expressão de desconfiança. Certamente não
sabia o que pensar da observação que Rhodan acabara de fazer.
— Ia dizer — principiou, indignado — que não julgava conveniente fazer uma
visita a este... bem, a este rei, porque em minha opinião nossa tarefa mais urgente deve
ser localizar o depósito em que estes gatos de olhos verdes guardaram os mantimentos e
as armas do grupo.
Oro Masut, que olhara o patrício com uma expressão tensa quando este aludira a seu
rei, ficou mais descontraído.
— Este Kasom é mesmo um comilão — disse com uma risada. — Só pensa no
estômago.
— Até acho a idéia dele bem razoável — concordou Perry Rhodan.
— Muito bem — murmurou Oro Masut. — Vamos às panelas de carne de Ertrus!
Os três seguiram um atrás do outro.
Chegaram à sala de geradores na qual os terranos se haviam recolhido depois que a
nave decolara de Modula II. Ainda havia alguns sinais de luta.
Os três homens atravessaram apressadamente a galeria estreita que contornava a
sala dos geradores a meia distância entre o piso e o teto. Estavam protegidos por seus
campos defletores.
Mais embaixo estavam trabalhando. Ninguém tomou conhecimento de sua
presença.
O grupo voltou a desaparecer no corredor, do outro lado da sala. Prosseguiu sem
que ninguém tentasse impedi-los.
Depois de mais de trinta minutos suas buscas foram coroadas de êxito. Descobriram
nas imediações do lugar em que se encontravam os prisioneiros outro depósito no qual os
gurrados tinham guardado todo o equipamento do grupo de Modula. A luz que penetrava
no corredor desapareceu quando Oro Masut voltou a fechar a escotilha pela qual tinham
entrado no depósito, que não estava sendo vigiado.
No interior do depósito reinava uma escuridão completa. Os dois ertrusianos e Perry
Rhodan desativaram os campos defletores e ligaram os faróis montados na altura do peito
de seus trajes de combate.
Um montão de equipamentos jogados de qualquer maneira destacou-se na luz
ofuscante. Eram aparelhos montados em mochilas e caixas com grandes quantidades de
munição energética; microlança-foguetes e a respectiva munição; hiper-rádios portáteis
dos mais diversos tipos; caixas de plástico soldadas com medicamentos e alimentos
concentrados.
Oro avançou rapidamente e agarrou uma das caixas com alimentos concentrados.
Não conseguiu abri-la com os dedos.
Por isso pegou a faca vibratória que tirara de um gurrado e com um único
movimento vigoroso cortou a caixa em dois pedaços.
Os alimentos concentrados guardados na caixa rolaram pelo chão.
Os dois ertrusianos sentaram no chão, abriram os capacetes e começaram a saciar a
fome.
Perry Rhodan contemplou-os por algum tempo. Finalmente sentou perto deles,
numa caixa. Começou a comer. “Quem sabe quando teremos comida de novo”, pensou.
Levantou dali a dez minutos. Pediu em voz baixa aos ertrusianos que se
apressassem.
Das quatro horas de que dispunham já tinha passado uma hora e dezesseis minutos.
O Administrador-Geral caminhou de um lado para outro, para examinar os
equipamentos espalhados num momento. De que precisariam? Antes de mais nada de
medicamentos, para que os homens exaustos voltassem a ficar em forma e não sentissem
tantas dores. Depois disso um microrrádio, para facilitar as comunicações.
Perry Rhodan guardou vinte radiofones do tamanho de uma cabeça de alfinete no
bolso da calça. Além disso pegou vinte armas energéticas muito pequenas, que
lembravam uma esferográfica um pouco mais grossa.
Rhodan passou perto de um monte de pequenos videofones e prendeu um dos
aparelhos cúbicos no cinto. Talvez ainda pudesse tornar-se muito útil.
Enquanto isso os dois ertrusianos não permaneceram inativos. Pegaram algumas
mangueiras de plástico que serviam de embalagem para a munição dos lança-foguetes.
Soldaram algumas das mangueiras de vinte centímetros em peças de dois metros, usando
um raio minúsculo de arma energética. Encheram as mangueiras assim formadas com
alimentos concentrados. Conseguiram guardar o conteúdo de quatro caixas desta forma.
Finalmente as mangueiras ficaram bem cheias.
As aberturas foram amarradas. Cada ertrusiano colocou uma mangueira gigante
sobre o ombro.
Os homens fecharam os capacetes e ativaram os campos defletores.
Dali a pouco o depósito ficou novamente mergulhado na escuridão.
Ninguém notou a presença das três figuras pesadamente carregadas que voltaram a
desaparecer no corredor de emergência.
***
O uivo abafou os outros ruídos.
Satisfeito, Perry Rhodan reduziu o volume do alto-falante externo de seu capacete.
No fim só ouvia um ligeiro sussurro.
— Que barulho infernal! — disse o Administrador-Geral. — Sufocará qualquer
ruído.
— Excelente — retumbou a voz de tenor de Melbar Kasom nos alto-falantes de
Rhodan e Masut. — Assim não precisarei ter tanto cuidado.
O ertrusiano sacudiu a grade de ventilação de dois por dois metros, da qual saía o
ruído.
Parafusos enferrujados arrebentaram, batendo nos trajes de combate blindados dos
três homens.
Há uns cinco minutos encontravam-se um convés mais em cima, num corredor sujo,
que parecia estar fora de uso há muito tempo, em cuja parede esquerda acabavam de
descobrir a grade de ventilação.
Atrás da parede ficava um grande tubo do sistema de renovação de ar.
Havia um motivo especial para terem escolhido justamente este lugar. O tubo de
ventilação abastecia a sala em cujo interior estavam presos os cem homens do grupo de
comando de Modula. Os três homens chegaram a esta conclusão depois de terem feito
alguns cálculos minuciosos. Além disso os dois ertrusianos lembravam-se perfeitamente
das ligações existentes em cima do porão de carga, pelas quais tinham fugido.
Seria bem mais simples se pudessem descer diretamente desta sala. Mas Roi
Danton, que era constantemente informado através do rádio de Oro Masut, recomendou
que não fizessem isso. Disse que os gurrados deviam ter notado a fuga dos ertrusianos.
Deixaram um grande contingente de guardas nesta sala.
Precisavam descobrir outro meio de chegar aos prisioneiros sem serem vistos.
O caminho encontrado foi o tubo de ventilação.
Era bem verdade que não podiam entrar nele bem em cima do recinto em cujo
interior se encontravam os presos, mas somente a uns duzentos metros dali, onde
encontraram um lugar mais ou menos seguro em que os dois ertrusianos podiam ficar.
— Será que vai dar certo, senhor? — murmurou Oro Masut em tom de dúvida
quando o Administrador-Geral começou a retirar do seu traje de combate todas as peças
que pudessem ser dispensadas.
Não podia arriscar-se a ficar preso no tubo.
— Vai dar certo — tranqüilizou Rhodan com um sorriso ligeiro.
Como guarda pessoal Oro Masut sentia-se muito mais ligado ao seu rei, mas muitas
vezes parecia bastante preocupado com o bem-estar do Administrador-Geral.
Se Perry Rhodan soubesse por que isso acontecia, certas coisas ficariam bem mais
claras para ele.
— Digo isto porque sei que no lugar em que o tubo entra na sala dos prisioneiros
existe um compressor — prosseguiu o ertrusiano.
Perry Rhodan interrompeu-se.
— Dentro do tubo? — perguntou com o rosto pálido.
— Não — respondeu Masut em tom sombrio. — Fica bem em cima do tubo, no
lugar em que este desce para atingir a sala em que estão os prisioneiros. Há uma turbina
numa ramificação superior. Mais adiante os dois tubos voltam a juntar-se.
— Então é por isso que o barulho é tão grande por aqui — constatou Kasom.
— Isso mesmo — respondeu seu patrício enquanto olhava com uma expressão
desolada para Perry Rhodan, que fitava a mangueira cheia de medicamentos com uma
expressão indecisa.
— Quer dizer — disse finalmente em voz baixa, como se estivesse pensando em
voz alta — que terei de me cuidar para não ser aspirado pelo tubo superior da bifurcação.
— Senhor! — gritaram Kasom e Masut em tom insistente.
— Não venha me dizer que pretende...
— Pretendo, sim — respondeu Rhodan em tom enérgico, sem deixar margem a
dúvidas.
Atirou resolutamente a mangueira cheia de medicamentos por cima do pescoço,
deixando as duas extremidades penduradas sobre o peito, e deu ordem para que Kasom e
Masut arrancassem a grade de ventilação.
A grade foi vergando sob o esforço concentrado dos dois ertrusianos e acabou
saltando dos suportes. Os gigantes levantaram o Administrador como se estivessem
lidando com uma criança e o empurraram para dentro do tubo com os pés na frente.
Deixaram-no entrar devagar.
— Cuidado — disse Rhodan. — Segurem-me até que eu tenha certeza de que os
projetores de vôo são capazes de resistir à força de sucção. Depois poderão soltar-me.
Entendido?
Os ertrusianos resmungaram alguma coisa para mostrar que tinham entendido.
A mão enorme de Kasom agarrou a alça presa ao ombro do traje de combate,
enquanto Perry Rhodan regulava com as mãos a intensidade do equipamento de vôo.
Quando o regulador de potência do equipamento de vôo chegou na marca dos
setenta e cinco por cento, Kasom percebeu que não precisava segurar mais o
Administrador-Geral. Perry Rhodan “boiava” na sucção do tubo de ventilação, no interior
do tubo que tinha cerca de dois metros de diâmetro.
— Pode soltar, Kasom — disse a voz de Rhodan saída dos alto-falantes dos dois
ertrusianos. — Não temos tempo a perder.
— Só farei isso sob protesto — resmungou Kasom.
Em seguida soltou a alça.
Os ertrusianos ainda viram Perry Rhodan por um instante, mas ele foi
desaparecendo no interior do tubo.
À medida que se afastava da entrada, foi escurecendo. Rhodan ligou o farol que
trazia no peito. A luz ofuscante iluminou a face interior do tubo, que apresentava o brilho
da prata polida.
Perry Rhodan mantinha as mãos firmemente sobre os controles dos projetores de
vôo.
Desligou completamente os microfones externos, mas o barulho infernal no interior
do tubo ainda era percebido sob a forma de um chiado surdo.
As paredes do tubo que pareciam deslizar perto dele mostraram que se deslocava
em velocidade cada vez maior. Rhodan aumentou a potência dos projetores. Certamente
já se aproximava do compressor. Começou a transpirar quando se lembrou do que
poderia acontecer se entrasse nos rotores. Rhodan viu pelo canto dos olhos o traço
luminoso do termômetro externo, preso à face interna do capacete.
Estava na marca dos oitenta graus centígrados.
Parecia que o vento ululante que atravessava o tubo era aquecido. Era bem verdade
que no interior do traje de combate não se notava o calor. O equipamento de climatização
era uma obra-prima saída dos laboratórios da Frota Solar.
Um zumbido agudo começou a misturar-se ao chiado surdo.
Perry Rhodan, que estava bem estendido no interior do tubo, com os pés na frente,
abriu ligeiramente as pernas para ver o que havia à sua frente.
A bifurcação destacava-se nitidamente à sua frente. O tubo inferior descia
ligeiramente, enquanto na entrada do tubo superior se viam os rotores sincronizados, que
formavam uma superfície circular cintilante. Quem tocasse nela morreria imediatamente.
O Administrador-Geral percebeu que seus pés começaram a executar movimentos
descontrolados. Era como se fossem puxados por forças tremendas.
Aumentou ainda mais a potência do projetor de vôo e parou perto da bifurcação.
Não sabia como continuar. Sabia perfeitamente que a turbulência reinante na
bifurcação fatalmente arremessaria seu corpo para cima e para dentro dos rotores se
tentasse entrar no tubo inferior.
Durante um instante o pânico tomou conta dele. Rhodan sentiu-se tentado a voltar.
Mas logo voltou a raciocinar friamente.
Precisava inventar alguma coisa que fizesse seu corpo entrar no tubo inferior.
De repente soltou uma risada de alívio.
Lembrara-se das solas magnéticas de suas botas, que manteriam pelo menos os pés
presos ao chão. E os projetores de vôo de correção de rota existentes na altura do peito de
seu traje de combate evitariam que a sucção o puxasse para cima. Ligados à potência
máxima, fariam seu corpo entrar no tubo inferior. Era ao menos o que esperava.
Depois de cinco minutos e vários centímetros cúbicos de transpiração Perry Rhodan
finalmente entrou no tubo inferior, onde estava em relativa segurança. A sucção era
muito mais fraca que no tubo principal. Mais adiante Rhodan viu na luz de seu farol que
o tubo subia de novo, para juntar-se com a outra ramificação.
Sentiu bem embaixo de seu corpo a grade de ventilação. Ligou o alto-falante
externo e ouviu vozes vindas da sala.
Chegara ao destino. O resto seria uma brincadeira em comparação com aquilo que
já fizera.
Perry Rhodan cortou a grade com um microdesintegrador e usou um pequeno mas
potente grampo magnético para prendê-la à face interior do tubo. Tinha de recolocar a
grade, para dissimular sua visita.
Desceu por meio do equipamento de vôo para junto dos homens, que o receberam
com gritos de boas-vindas. O Administrador-Geral ficou cercado nada menos que um
minuto pela multidão, que não parava de fazer perguntas.
Finalmente aconteceu aquilo que Rhodan esperara.
Uma figura alta e esbelta abriu caminho na multidão.
Perry Rhodan sorriu. Sabia o que aconteceria em seguida.
Roi Danton, que era de quem se tratava, chegou perto do Administrador-Geral.
Ficou parado, com as pernas afastadas, fez um gesto amplo com a mão direita,
fazendo de conta que tirava um chapéu imaginário, e executou uma elegante mesura.
— Ah — chiou encantado. — Bonjour, grandseigneur! Comment allez-vous?
— Merci beaucoup — respondeu Perry Rhodan, calmo. — Três bien, monsieur.
Roi Danton parecia fora de si de alegria. Ficou saltitando em torno do
Administrador-Geral, contemplou-o extasiado através do lorgnon e dava a impressão de
que nunca mais se acalmaria. Tirou o lenço de rendas perfumado e pôs-se a polir o visor
transparente do capacete de Rhodan, enquanto murmurava.
— Mon Dieu, grandseigneur, quem foi o lourdaud que lhe arranjou este capacete
imundo?
Perry Rhodan recuou, contemplou o rei dos livres-mercadores com as sobrancelhas
levantadas e franziu o nariz.
— Diga-me uma coisa — principiou com o rosto impassível. — O senhor ainda
costuma lavar-se, monsieur?
— Como?
Roi Danton estremeceu fortemente.
Os que estavam mais perto sorriram. Até se ouviram algumas gargalhadas. Os
homens que há dias viviam cansados e deprimidos deleitaram-se com o espetáculo.
— O senhor está cheirando mal, monsieur — prosseguiu Perry Rhodan. Deu um
passo rápido na direção de Danton e encostou as pontas dos dedos ao seu uniforme,
enquanto se sacudia enojado. — O que vejo, monsieur? — exclamou em tom enérgico.
— A sujeira conspurcando o uniforme glorioso da Frota Solar? Como justifica isso
perante sua consciência — se é que não a perdeu, o que quase chego a recear.
Roi Danton caiu de joelhos.
— Perdão, grandseigneur — choramingou, enquanto cobria o rosto trêmulo com as
mãos. — Perdão! Eu morro! Já morri.
O rei dos livres-mercadores contorcia-se de auto-compaixão, tendo o cuidado de
esconder o rosto. Soluçando constantemente, pediu que Rhodan o perdoasse por ter
desonrado o uniforme esplendoroso da Frota Solar.
Danton encostava o lencinho de rendas aos olhos e chorava em altas vozes.
Em torno dele os homens também choramingavam e gritavam — mas de tanto rir.
Finalmente Perry Rhodan, cujos lábios tremiam de forma suspeita, disse:
— Levante, monsieur. Desta vez ainda está perdoado.
Danton levantou apressadamente.
— Vous êtes bien aimable, grandseigneur — murmurou em tom abafado. — O
senhor é muito gentil.
Os dois entreolharam-se e irromperam numa estrondosa gargalhada.
Chegaram à conclusão de que tinham feito um excelente espetáculo, que os fizera
esquecer por alguns minutos a situação desagradável em que se encontravam.
Perry Rhodan olhou para Art Huron. O colono de Markos V, um homem muito alto,
de barba negra, enxugava as lágrimas dos olhos, enquanto segurava desesperadamente a
sacola na qual estava guardado o ovo primitivo dos vingas.
— Capitão!
— Pois não, senhor.
Art Huron voltou a ficar sério muito depressa. Os traços que as lágrimas haviam
deixado em seu rosto sujo eram o único sinal que restava da alegria dos últimos minutos.
— Quero que escolha os vinte homens mais competentes e que ainda estejam bem
de saúde — prosseguiu o Administrador-Geral. — Inclusive sua pessoa. Traga-os para
cá. Tenho uma pequena surpresa para cada um deles.
Perry Rhodan recolheu-se a um canto, juntamente com Roi Danton e alguns
cientistas. O grupo começou a discutir uma possível libertação.
Enquanto isso o capitão de nariz adunco postou alguns guardas junto à eclusa de
correr.
Deviam evitar de qualquer maneira que os gurrados notassem a presença do
Administrador-Geral.
Em seguida Huron reuniu os homens escolhidos e foi para perto de Perry Rhodan.
Rhodan passou os olhos pelo grupo.
Havia alguns rostos conhecidos. Eram homens que já se tinham destacado em
Modula II. Rhodan sorriu satisfeito e deleitou-se com o espanto dos homens enquanto
distribuía vinte armas energéticas pequenas, fáceis de esconder, além dos radiofones.
Neste instante as sereias emitiram um som estridente.
Roi Danton, que estivera conversando animadamente com o Administrador-Geral,
sobressaltou-se.
— É a terceira transição, grandseigneur — informou apressado ao ver os olhos de
Perry Rhodan pousados nele. — Volte enquanto é tempo, senão esta forma bárbara de
locomoção o atirará ao chão enquanto estiver em caminho. O risco de ser descoberto em
seguida seria muito grande.
Perry Rhodan apressou-se em fechar o traje de combate.
Dali a instantes subiu ao teto e entrou no tubo de ventilação, atravessando a abertura
da grade.
Os que ficaram viram-no recolocar a grade.
As sereias voltaram a soar.
Os prisioneiros voltaram apressadamente aos seus lugares. O que estava para vir
consumiria todas as suas forças.
Em pensamento Roi Danton estava perto do homem que era seu pai.
“Tomara que consiga voltar antes que seja tarde!” pensou, preocupado. Em seguida
estendeu-se no chão e esforçou-se para esquecer a transição.
O rangido e as vibrações do casco da espaçonave, que já eram tão bem conhecidos,
começaram no momento em que a potência das máquinas era aumentada abruptamente.
Alguém começou a rezar.
A voz aguda e assustada era perfeitamente ouvida em meio aos ruídos cada vez
mais fortes.
Mais uma vez um punho gigantesco atingiu os homens, abafando qualquer som
saído de uma boca humana e comprimindo-os de encontro ao chão duro e sujo do porão
de carga. As dores seriam capazes de enlouquecer qualquer um.
Felizmente os homens perderam os sentidos antes que as dores se tornassem
insuportáveis...
***
Perry Rhodan e os ertrusianos correram às pressas para seu esconderijo.
Chegaram no momento exato.
Mal se tinham estendido no chão do depósito de tanques, o ruído dos reatores e
geradores funcionando ao máximo de sua capacidade transformou-se num forte bramido.
O chão vibrou e balançou suavemente. Os gemidos e rangidos vindos de toda parte eram
um sinal de que as paredes e vigas estavam sendo forçadas ao máximo de sua capacidade.
Num instante de pânico Perry Rhodan perguntou a si mesmo se a nave seria capaz
de agüentar a sobrecarga.
Os ruídos começaram a atropelar-se. Cresceram numa escala enervante — e de
repente a nave dos guerrilheiros rompeu a estrutura espácio-temporal do universo
einsteiniano.
Desapareceu no hiperespaço para voltar ao espaço normal a vários anos-luz do
ponto de entrada.
Mais uma vez a nave foi sacudida por forças tremendas. Mas Rhodan não percebeu
nada; estava inconsciente.
Tal qual setenta e cinco por cento dos prisioneiros terranos.
***
O Administrador-Geral do Império Solar não ficou inconsciente por muito tempo.
Seu corpo, treinado há cerca de quatrocentos anos para este tipo de locomoção no
espaço, acostumou-se às condições reinantes com uma facilidade que o deixou espantado.
Mas não devia esquecer que seu ativador de células tinha algo a ver com isso.
De forma que Perry Rhodan acordou assim que a transição chegou ao fim. Tomou
um dos medicamentos retirados do porão de carga. As fortes dores de cabeça que eram
uma das conseqüências da desmaterialização total seguida de perto de uma
rematerialização diminuíram.
Além dos dois ertrusianos, cujo organismo extremamente robusto os tornava imunes
aos efeitos da transição, somente Roi Danton e outros vinte e cinco homens recuperaram-
se relativamente depressa do choque provocado pela transição. Era bem verdade que
sentiram dores angustiantes nos nervos. Nem mesmo os medicamentos distribuídos por
Rhodan puderam aliviar estas dores.
No entanto, o rei dos livres-mercadores fez questão de informar o pai, assim que
acordou, sobre as condições reinantes no porão de carga, usando o videofone do pai e a
microcâmera escondida no cabo de sua espada.
Os outros homens ainda estavam inconscientes. Levaram bastante tempo para
acordar.
Os gurrados fizeram tudo que estava ao seu alcance para ajudar os terranos. Mas
Rhodan não demorou a perceber que, embora bem recebida, esta ajuda era praticamente
inútil.
Os guerrilheiros de Magalhães não possuíam medicamentos específicos. Para quê?
Afinal, não eram afetados pelas transições. Mas os gurrados trataram de melhorar um
pouco o estado de ânimo dos homens, por meio de comida quente e fortificantes que
continham álcool na fórmula.
Nas horas que se seguiram Trikort apareceu várias vezes no porão de carga para
conversar com Roi Danton.
Nestas horas as tradutoras foram programadas de forma tão exata que passaram a
exprimir em intercosmo até mesmo os termos mais difíceis da língua dos gurrados.
Perry Rhodan e os ertrusianos ficaram sabendo quase tudo sobre o destino da nave-
pêra.
O comandante Trikort informou que havia um sol geminado à frente da nave. A
estrela principal era um gigante azul, e seu companheiro, um anão branco bem menor. Os
dois sóis ficavam extremamente próximos um do outro — a distância que os separava era
de apenas dez milhões de quilômetros — e esta circunstância gerava tremendas forças
gravitacionais, o que transformava a navegação espacial em torno do sistema num
verdadeiro jogo de azar.
A estrela geminada era conhecida pelo nome de Boul, e o sistema costumava ser
designado pelo mesmo nome. Este sistema possuía cinco planetas, planetas estes que
descreviam órbitas extremamente complicadas, como costumava acontecer em todos os
sistemas de estrelas geminadas.
A órbita de dois destes mundos passava entre os dois sóis. Eram desertos
incandescentes ressequidos. Os outros mundos descreviam amplas órbitas elípticas em
torno de seus sóis.
O planeta número três era o mundo principal, que servia de quartel-general aos
guerrilheiros de Magalhães. O nome deste mundo era Boultat.
Danton — e também Rhodan, este por meio do interfone — foram informados pelo
comandante Trikort de que o sistema se encontrava em um dos braços do extremo sul da
nebulosa em espiral. O estranho era que neste sistema existia uma espécie de centro
secundário, em cujo interior a densidade dos sóis não era menor que no centro
propriamente dito da grande nuvem de Magalhães.
Uma das características do sistema de Boul e do centro secundário localizado no
braço exterior da espiral eram as gigantescas nuvens de hidrogênio que faziam com que a
navegação espacial se tornasse bastante arriscada. Por isso, explicou Trikort ao rei dos
livres-mercadores, os perlians nunca se tinham arriscado a ir para lá.
A espaçonave dos guerrilheiros atravessou cuidadosamente o cinturão de hidrogênio
que cercava os sóis geminados e seguiu em direção ao terceiro planeta.
As horas que se seguiram à transição foram suficientes para que Perry Rhodan e
seus companheiros recuperassem os sentidos.
Os homens comiam, dormiam, comiam e voltavam a dormir.
Durante outra visita do comandante Roi Danton foi informado sobre outros detalhes
do planeta que era seu destino.
Boultat tinha 12.919 quilômetros de diâmetro, sua gravitação chegava a 1,02 gravos
e a temperatura era extremamente variável, por causa da órbita que percorria. O
movimento de rotação era muito rápido. Completava-se em apenas 1,73 hora. Durante o
ano, que era muito longo, havia um verão quente, com temperaturas médias que
chegavam a cinqüenta graus centígrados. Quando o planeta percorria a parte da órbita
mais próxima ao gigantesco sol azul, a temperatura média alcançava a marca dos oitenta
graus. Em seguida vinha um inverno cruel, com temperaturas médias que chegavam a
menos oitenta graus centígrados.
O tempo que o planeta levava para percorrer sua órbita em torno dos dois sóis era
de exatamente 8,4 anos terranos. O planeta possuía uma atmosfera de oxigênio que era
perfeitamente respirável. A superfície do planeta, inclusive a fauna e a flora, chegava a
extremos tal qual o resto. As plantas eram seres adaptáveis às mais variadas temperaturas
e condições meteorológicas. Geralmente predominavam as formas cristalinas, que
apareciam até mesmo no mundo animal.
Nos períodos de frio mais rigoroso os seres vivos endureciam e mergulhavam numa
espécie de hibernação. Muitas espécies vegetais penetravam no chão que nem brocas para
ficarem protegidas até que a temperatura voltasse a subir.
Apesar destas condições estranhas, a água era abundante em Boultat. Havia
gigantescas cadeias de montanhas, savanas cobertas de capim cristalino que quase
chegava a dois metros de altura e gigantescas florestas, cujas árvores chegavam a cerca
de dez metros de altura.
O que mais incomodava era a luminosidade variável, que por causa dos dois sóis se
tornava desagradável e ofuscante, doendo bastante nos olhos.
Enquanto a nave-pêra descia sobre o planeta, preparando o pouso, Perry Rhodan
refletiu sobre o que deveriam fazer em seguida.
Sabia que vinte homens além de Roi Danton estavam armados e possuíam
microrrádios. Contando as armas dos ertrusianos e do próprio Rhodan, isso representava
uma força considerável, capaz de oferecer uma forte resistência.
Além disso havia no cabo da espada do rei dos livres-mercadores, além da câmera
de televisão, uma arma energética de alta capacidade, absolutamente mortal, e um
paralisador muito eficiente. Além disso a lâmina da espada podia ser usada como faca
vibratória, capaz de cortar até mesmo peças de aço. O corte não se realizava somente por
causa do movimento extremamente rápido, mas também por meio de um campo
desintegrador que se formava durante a vibração junto à própria lâmina. A dureza do aço
não seria suficiente para cortar rapidamente peças feitas de outros metais.
Quem contara isso a Rhodan fora Oro Masut, e também o próprio Danton.
Perry Rhodan e os dois ertrusianos aguardavam o que estava para acontecer...
4

O comandante Trikort acompanhou na tela oval o movimento intenso do porto


espacial de Boultat.
Fazia apenas alguns minutos que a nave em forma de pêra de mil e cem metros de
comprimento pousara com os propulsores rugindo na superfície calcinada.
Esta superfície ficava num gigantesco vale de encostas quase verticais, que formava
um círculo de mais de quinze quilômetros de diâmetro.
As encostas deste vale, que nas eras primitivas de Boultat talvez tinham abrigado
um mar interior, possuíam cerca de dois quilômetros de altura. Era o suficiente para que
as pontas das proas das naves mais altas, apoiadas sobre as colunas de sustentação
embutidas na popa, não sobressaíssem sobre os cumes. Além disso o vale fora camuflado
na parte superior por meio de um sistema genial de imagens projetadas. As redes anti-
rastreamento completavam a camuflagem.
Para um forasteiro que se aproximasse do planeta por acaso, Boultat devia parecer,
quando visto do espaço, um mundo desértico e abandonado, quando na verdade uma vida
intensa se agitava embaixo de sua superfície. Muitos milhões de seres habitavam as
gigantescas cidades e centros industriais construídos embaixo da superfície.
Até mesmo Trikort e seus companheiros sentiam certo nervosismo quando sua nave
parecia cair numa superfície sólida — para em seguida atravessá-la como se fosse uma
névoa.
Trikort continuava com os olhos presos na tela de imagem.
Em toda parte as espaçonaves enfileiravam-se lado a lado.
Boultat era o quartel-general dos gurrados neste setor da grande nuvem de
Magalhães. Mas não havia uma única povoação na superfície do planeta. Todos os povos
livres da nuvem de Magalhães tinham-se abrigado embaixo da superfície dos planetas
que habitavam, para escapar aos perlians e aos agentes de cristal.
Geralmente tratava-se de gigantescas escavações, interligadas por amplos sistemas
de cavernas. No caso de Boultat isto significava que o mundo tinha sido escavado até
uma profundidade de três mil metros. Ainda significava a existência de gigantescas
instalações industriais de todos os tipos, principalmente estaleiros espaciais com os
equipamentos mais modernos. E centros de desenvolvimento para as mais diversas áreas
técnicas e científicas.
Depois da ameaça dos perlians, o maior problema dos gurrados era o abastecimento
de matérias-primas. Até chegava a ser o problema número um. O planeta e os mundos
dos sistemas adjacentes, aos quais se podia chegar sem correr muito perigo, já tinham
sido completamente explorados.
Se saíssem para mais longe a fim de lavrar e explorar minas poderiam atrair a
atenção dos perlians.
Quer dizer que esta forma de abastecimento estava fora de cogitação.
Diante das circunstâncias adversas, surgiu uma idéia diferente.
Durante os ataques-relâmpago aos mundos dos perlians, os guerrilheiros de
Magalhães tentavam apoderar-se de espaçonaves e materiais de todos os tipos. E
geralmente conseguiam.
As naves apresadas eram reparadas e montadas de novo. E isso vezes seguidas, o
que lhes dava um aspecto bizarro.
Mas houve uma coisa que os gurrados conseguiram criar com muito esforço: novos
propulsores, mais aperfeiçoados, que tornavam as arrojadas naves-pêra muito mais
potentes.
***
A campainha instalada em cima da tela tocou suavemente. O comandante Trikort
foi interrompido no meio dos pensamentos. Levou uma fração de segundo para voltar à
realidade. Uma fração de segundo durante a qual a campainha voltou a tocar.
Trikort apertou a tecla, e a imagem do porto espacial desapareceu da tela, que
passou a mostrar um rosto.
O homem inclinou ligeiramente o corpo. A juba prateada caiu sobre o rosto estreito,
com ares de intelectual.
— Comandante Trikort? — perguntou a voz suave do shangante.
— Pois não.
— O Conselho dos Três quer falar imediatamente com o senhor — e com os
forasteiros que estão em seu poder.
— Imediatamente? Mal acabamos de pousar — disse Trikort com o rosto
contrariado. — Os bocais de jato ainda estão incandescentes. Gostaria de dar algumas
horas de descanso aos meus homens.
O shangante levantou os ombros estreitos.
— Sinto muito, comandante — disse com a voz calma. — O Conselho faz questão
absoluta. Pode mandar os tripulantes de que não precisa para vigiar os forasteiros aos
seus alojamentos ou para junto das famílias.
Trikort não disse uma palavra. Desligou.
Levantou, fechou a jaqueta de couro com movimentos agitados e apertou o cinto em
que estavam guardadas as armas. Deu um empurrão na poltrona, fazendo-a girar em torno
do próprio eixo e abandonou a sala de comando.
***
O calor atingiu-os que nem um golpe quando desceram pela rampa da nave.
No interior do vale a temperatura certamente chegava a cerca de quarenta graus
centígrados. Por isso tornava-se ainda mais estranho que os homens vissem
constantemente estranhos objetos voadores. Tratava-se de esferas azuis brilhantes de
cerca de dez centímetros de diâmetro.
Os objetos desceram para perto dos prisioneiros, ficaram balançando algum tempo,
indecisos, para em seguida subir rapidamente e desaparecer.
Não soprava nenhum vento. Dentro de alguns segundos os terranos ficaram
banhados em suor. Dali a vários minutos suas roupas estavam completamente
encharcadas. Os dois sóis encontravam-se lado a lado, emitindo uma martirizante luz
trêmula.
Cem homens cercados por guerrilheiros fortemente armados passavam pela
superfície do porto espacial, que parecia estar em ebulição, dirigindo-se a um círculo
perfeitamente demarcado de cem metros de diâmetro, em cujo interior tiveram de entrar
em forma. Os homens espantaram-se ao notar que seus equipamentos também foram
retirados da nave às pressas, sendo atirados em outra superfície circular.
— Tem uma idéia do que isto pode significar, senhor? — perguntou John Harvey a
Roi Danton, que enxugava o suor com um lencinho de renda.
— Devemos estar em cima de um elevador, monsieur.
— Ei! — o cientista fitou o rei dos livres-mercadores com uma expressão de
espanto. — De um elevador? — repetiu em tom de incredulidade. — Tem certeza?
— Tanta certeza quanta tenho de que este calor maldito nos matará, se não sairmos
logo desta frigideira que os gurrados chamam de porto espacial.
— Acho a hipótese perfeitamente razoável — disse um tenente que estava perto de
John Harvey. — Sabemos que há séculos este povo vive fugindo. Por isso é
perfeitamente natural que tenha aprendido a esconder-se. E qual é o melhor lugar para
isto? Fica ali!
O tenente apontou para baixo.
Roi Danton sorriu ligeiramente para o jovem.
— Admirável. O senhor percebeu muito bem. A idéia cresceu no seu canteiro?
— Naturalmente, senhor — respondeu o tenente, ofendido.
— Devemos ficar de olho nele — prosseguiu Danton com a voz nasal, retomando
por alguns segundos o papel de corte-são afetado. — Se a gente encontra no meio do
povo comum um homem capaz de pensar, este homem deve ser tirado da ralé. Todo rei
precisa de um servo inteligente.
— Com licença — mas trate de engraxar seus próprios sapatos — resmungou o
tenente e afastou-se, indignado.
Danton soltou uma risada efeminada, mas interrompeu-a quando o chão baixou de
repente.
A gigantesca plataforma de elevador desceu em alta velocidade.
Os homens enfrentaram súbitas tonturas, antes que seu organismo se adaptasse às
novas condições.
O círculo pelo qual penetrava a luz do sol foi diminuindo, enquanto a plataforma
descia. Escureceu e ficava cada vez mais fresco, o que provocava manifestações de
alegria entre os homens.
Mas a escuridão não durou muito.
Pelos cálculos de Roi Danton deviam ter penetrado uns quinhentos metros no
interior do planeta, quando as paredes do gigantesco poço de elevador se iluminaram.
Dali em diante os terranos não pararam mais de espantar-se.
Foi uma viagem através de um mundo estranho; um mundo das profundezas.
A enorme plataforma desceu pelo poço, cujas paredes se tinham tornado
transparentes, atravessando regiões cheias de uma vida agitada. Havia pavimentos
gigantescos, em cujo interior tinham sido construídos arranha-céus. Estradas
atravessavam ou contornavam os edifícios em curvas arrojadas. Nestas estradas havia um
tráfego intenso.
Atravessaram um pavimento no qual só havia um parque. Era uma imitação tão
perfeita que não faltava nem sequer o sol na projeção do céu. Uma brisa fresca atingiu os
terranos. O canto de pássaros estranhos enchia o ar. Havia animais pastando calmamente.
Finalmente a viagem chegou ao fim. Os gurrados fizeram um sinal para que os
terranos saíssem da plataforma e subissem nos planadores que estavam à sua espera.
Dali a alguns minutos seis planadores saíram com uma carga pesada, passando por
cima de uma rua larga que subia em espiral em torno de um grande edifício, para seguir
em linha reta depois de ter atingido metade da altura deste.
Roi Danton ficou satisfeito ao notar que o comandante estava no assento da frente,
ao lado do motorista.
Os homens abriram alas quando o rei dos livres-mercadores saiu caminhando para
frente.
Finalmente Roi Danton ficou bem atrás do comandante.
— Para onde estamos sendo levados, comandante? — falou para dentro da tradutora
que trazia pendurada sobre o peito.
O gurrado de estatura larga virou a cabeça. Sorriu, exibindo uma dentadura muito
robusta. O vento provocado pelo deslocamento do veículo agitava sua juba.
— O Conselho dos Três que falar com o senhor e seus companheiros — respondeu
Trikort.
— O Conselho dos Três?
A tradutora já estava em condições de ressaltar perfeitamente os diversos níveis
emocionais de quem estava falando. Por isso o comandante Trikort compreendeu pelo
tom da voz de Danton que este não compreendera muito bem a informação.
Trikort começou a explicar.
Roi Danton ficou sabendo que além dos gurrados e dos generais havia um terceiro
povo na nuvem de Magalhães, que era obrigado a esconder-se dos perlians. Tratava-se
dos shangantes.
Segundo disse Trikort, os shangantes representavam uma variação dos gurrados.
Eram muito parecidos com estes, mas havia uma diferença. Eram de constituição muito
mais frágil e delicada. Não eram combatentes. Ocupavam o lugar de pensadores e
cientistas na hierarquia dos gurrados. Eram por assim dizer a elite intelectual dos
gurrados. Não tinham mais de 1,50 metro em média, eram estreitos e possuíam jubas
brancas ou prateadas. Tratava-se das criaturas mais pacatas encontradas entre os povos
belicosos da grande nuvem de Magalhães.
O Conselho dos Três era formado por um gurrado, um general e um shangante.
Este triunvirato governava o planeta Boultat. Tomava decisões, promulgava normas
e exercia as funções de juiz.
Roi Danton estava curioso, muito curioso para ver o Conselho dos Três. Era uma
oportunidade de, por meio de negociações conduzidas com muita habilidade, convencer o
triunvirato de que não deviam ser inimigos dos terranos, mas, conforme as condições,
amigos. A viagem prosseguiu.
A rua ficara mais larga. Havia quatro faixas de rolamento, todas elas congestionadas
com planadores e outros veículos. O motorista do primeiro planador que conduzia os
prisioneiros, no qual se encontravam Danton e Trikort, fazia soar ininterruptamente uma
buzina estridente, que sem dúvida identificava este veículo e os que vinham atrás como
viaturas do governo, uma vez que os outros se apressaram em sair do seu caminho.
Roi Danton pensava nas negociações que teria de encetar com o Conselho dos Três.
Gostaria que seu pai pudesse participar delas.
***
Fazia pelo menos cinqüenta e cinco minutos que os ruídos que enchiam a nave
tinham desaparecido.
Perry Rhodan e os dois ertrusianos estavam sentados no chão, com as costas
apoiadas na parede do depósito de tanques. O videofone encontrava-se à sua frente. O
brilho fosco da tela era a única iluminação que havia no interior do esconderijo.
Kasom e Oro Masut insistiram em sair para tentar ajudar os companheiros, mas
Perry Rhodan manteve-se inflexível. Resolveu que ficariam no esconderijo.
Os gigantes ertrusianos resmungaram, mas acabaram se conformando. Nem
imaginavam que a decisão de Rhodan, com a qual não concordavam, ainda acabaria por
revelar-se muito vantajosa.
Obedeceram, ainda mais que mantinham contato através do som e da imagem.
Podiam ver a qualquer momento para onde estavam sendo levados Roi Danton e seus
noventa e nove companheiros.
A câmera de televisão montada no cabo da espada de Roi funcionava perfeitamente.
Fornecia imagens nítidas e precisas. Desta forma os homens que se encontravam no
esconderijo ficaram sabendo tudo a respeito dos shangantes e do Conselho dos Três.
Perry Rhodan ficou impressionado com a habilidade de Danton, que conseguiu
arrancar de Trikort quase tudo que estavam interessados em saber.
Descobriram o que vinham a ser os objetos esféricos que se viam em toda parte.
Tratava-se de seres semi-orgânicos inteligentes, orientados pelo instinto, naturais de
Boultat.
Trikort chamou-os de quetkys e disse que desempenhavam as funções de guardas.
Roi perguntou, espantado, de que eles cuidavam, e o comandante Trikort explicou
que cada quetky se incumbia da vigilância parapsíquicas de três ou quatro seres
inteligentes que viviam em Boultat.
Os quetkys eram capazes de localizar o modelo individual de determinada pessoa e
de interpretá-lo. Este instinto natural inato lhes permitia verificar se o ser merecia
confiança, ou se tinha em mente alguma coisa que contrariasse os interesses da
comunidade.
Trikort ainda explicou que os quetkys permaneciam em contato com um gigantesco
centro de controle. Se davam o alarme, não podia haver dúvida de que tinham descoberto
um traidor. Dificilmente alguém escapava a seu extraordinário faro psíquico.
— Quer dizer que é uma polícia telepática? — foi a pergunta dirigida por Danton a
Trikort, que Perry Rhodan ouviu pelo videofone.
— Não — foi a resposta saída depois de algum tempo da tradutora do rei dos livres-
mercadores.
Danton virou o cabo da espada de um lado para outro, proporcionando a Rhodan
algumas imagens excelentes de Trikort e arredores.
— Não, eles não lêem pensamentos — prosseguiu Trikort. — São uma espécie de
rastreadores, que diante de um estado de excitação crescente da pessoa vigiada têm uma
percepção emocional de que havia algo de errado com esta pessoa.
De repente Perry Rhodan teve uma idéia.
— Masut! — disse com a voz tensa.
— Pois não, senhor.
— O senhor poderia transmitir uma mensagem ao seu rei?
— Naturalmente, senhor — resmungou Oro Masut.
— Pois então peça-lhe que pergunte ao comandante Trikort o que acontece com as
pessoas que são desmascaradas como traidores.
Oro Masut tratou de cumprir a ordem.
Logo se viu que conseguira transmitir a mensagem, pois Roi Danton fez exatamente
esta pergunta a Trikort.
O comandante gurrado demorou bastante para responder. Seu rosto apareceu o
tempo todo na tela de imagem.
— Um alarme de um quetky sempre provoca mortes em toda parte.
Os dois ertrusianos emitiram um som preocupado. Tal qual Perry Rhodan,
perceberam perfeitamente o que significava isso para os cem companheiros. Se os
quetkys estivessem em condições de sondar também a mente de um terrano por via
emocional — e ao que tudo indicava estavam — as conseqüências seriam imprevisíveis.
Não se podia exigir que um preso não pensasse em fugir.
Esta mesma idéia fez com que o rosto de Danton assumisse uma expressão sombria.
O que aconteceria se um dos quetkys descobrisse que a maioria dos prisioneiros só
pensava em fugir?
De repente Danton previu dificuldades tremendas.
Em seguida aconteceu uma coisa que aumentou ainda mais suas preocupações.
Os seis planadores em que viajavam os prisioneiros pararam na extremidade de uma
praça junto à qual havia um edifício alto.
Os gurrados fizeram sinal para que os homens saíssem dos veículos e caminhassem
em direção ao edifício.
O comandante Trikort ficou no planador, que deu partida, saindo na frente dos
prisioneiros. Danton já não podia fazer perguntas. Mas Roi sabia para onde estavam
sendo levados.
O edifício ao qual se dirigiam certamente era a sede do triunvirato. O quartel-
general.
Bem no alto Danton distinguiu o “céu” que se estendia sobre a cidade. Era uma
superfície luminosa, que proporcionava uma luz sem sombras. A ilusão quase chegava a
ser perfeita.
E então aconteceu.
Dois generais de estatura quadrada aproximaram-se dos prisioneiros. Roi Danton
viu que nenhum deles trazia sobre os ombros os recipientes esféricos, que pareciam de
vidro, em cujo interior boiavam os olhos do tempo dos perlians.
Tratava-se de perlians que não estavam sujeitos a qualquer influência estranha.
Mas de repente dois ou três guardas ergueram as pesadas armas energéticas e
fuzilaram os generais.
Quando o quetky, que permanecera o tempo todo suspenso sobre os dois, viu o que
tinha acontecido, ele subiu cambaleante e afastou-se.
Os terranos soltaram um grito de indignação ao verem aquilo que parecia ser um ato
arbitrário dos gurrados. Punhos foram sacudidos, e por um instante pavoroso Danton
chegou a acreditar que fossem abrir fogo contra os gurrados.
Mas parecia que o pai soubera escolher os homens aos quais entregara as armas.
Todos eles ficaram quietos.
O planador de Trikort aproximou-se em alta velocidade. O comandante gritou
algumas ordens enérgicas.
— Não acha que seus homens se mostram mal-agradecidos diante do alívio que lhes
proporcionei, rei? — perguntou, contrariado, dirigindo-se a Roi Danton.
— Por que acha que meus homens reagiram desta forma, comandante?
Danton também se sentia contrariado, e nem tentou esconder isso.
Os representantes de dois povos tão diferentes encararam-se por alguns instantes.
— Por que, por tudo que existe na galáxia, seus homens fuzilaram dois generais? —
perguntou Danton finalmente.
Trikort parecia estupefato. De repente sorriu.
— Então foi isso que deixou seus homens tão nervosos — disse com a voz gutural.
— Podem ficar tranqüilos. Meus homens receberam ordens de matar os dois traidores.
— Ordens? — repetiu Roi Danton, espantado. — De quem?
— Bem, rei — respondeu o gurrado. — Os vigias dos dois generais avisaram o
centro de que haviam detectado neles um fluxo individual de grande intensidade.
Pretendiam fugir. Foi por isso que meus homens receberam ordem de matá-los.
Satisfeito?
Danton preferiu não responder. Estava apavorado.
Era um sistema de espionagem, de perseguição, de execução de âmbito planetário
que acabara de ser revelado pelas palavras de Trikort. Um sistema que não se deteria nem
mesmo diante dos terranos.
Precisavam encontrar uma saída. Quanto antes.
***
Era uma sala ampla, de teto amplo e formato circular.
Estava vazia, com exceção de uma barreira baixa que ficava do lado oposto à
entrada.
Havia três vultos sentados atrás da barreira. Ainda não se distinguiam os detalhes.
Mas Roi Danton, que caminhava pelo chão brilhante à frente dos terranos, acreditava que
só pudesse ser o triunvirato.
Os prisioneiros aproximaram-se da barreira, flanqueados por guardas fortemente
armados.
O triunvirato era formado por um gurrado de estatura pesada e juba vermelha,
chamado Roumbaki, um general que se chamava de Heykh e um shangante cujo nome
era Sibala.
Três pares de olhos diferentes fitaram Roi Danton e seus companheiros.
Nos olhos de Roumbaki havia desconfiança, malícia e desprezo.
Os gigantescos olhos azuis-escuros do general não eram capazes de revelar qualquer
emoção. Foi pelo menos a conclusão a que chegou Danton.
Já os olhos de Sibala eram amáveis e acolhedores. Eram de um tom dourado forte e
mostravam compreensão e boa vontade.
As tradutoras já tinham sido devidamente programadas. Não havia nada que
impedisse a comunicação.
O comandante Trikort apresentou um relato em tom áspero e entregou uma pasta
fina a Roumbaki.
Roumbaki examinou em silêncio o relatório que Trikort elaborara em viagem,
relatório este no qual fora registrado o comportamento dos terranos, o primeiro contato e
a primeira palestra de verdade através das máquinas tradutoras. O relatório ainda
informava de onde vinham os terranos e que estes em hipótese alguma pretendiam voltar-
se contra os gurrados. Pelo contrário. Se houvesse um entendimento entre os povos, os
terranos ajudariam os gurrados na luta pela liberdade.
Roumbaki resmungava espantado, enquanto lia o documento. Em seguida entregou-
o a Sibala.
O shangante de cabelos brancos leu depressa e acenou várias vezes com a cabeça,
especialmente quando lia as anotações que Trikort fizera à margem do relatório, nas quais
Trikort afirmava que os terranos eram bons combatentes, e que uma aliança com eles
seria bastante vantajosa, ainda mais que se devia tratar de um povo muito grande, que
possuía naves gigantescas e armas formidáveis.
Quem leu o documento mais depressa foi o general. Guardou-o com sinais de
absoluta falta de interesse.
— Vejo que afirmam terem vindo em boa paz — disse Roumbaki, rompendo o
silêncio.
— Não só afirmamos — respondeu Roi, calmo. — Viemos mesmo em boa paz.
Roumbaki rosnou ameaçadoramente, mas calou-se diante das palavras de Sibala.
— Gostaria que explicasse — disse o shangante em tom suave — o que foram fazer
no mundo em que penetraram em uma das nossas naves.
— Perdão, monsieur — retrucou Danton. — Está cometendo mais um engano. Não
penetramos em uma das suas naves, mas fomos empurrados para dentro dela sem que
tivéssemos feito nada para que isso acontecesse. Pergunte ao comandante Trikort, e ele
confirmará que sua nave foi inundada por perlians mantidos prisioneiros. Estávamos no
meio deles. Tivemos de correr com o rebanho, senão teríamos sido pisoteados. É por isso
que estamos aqui.
— O senhor há de compreender — disse o shangante com um sorriso — que
estamos desconfiados e não podemos confiar simplesmente em suas declarações. Boultat
está cheio de agentes e espiões. É por isso que mantemos os guardas.
Sibala apontou com a mão direita para o teto, onde deslizava um quetky solitário.
— Se não fossem nossos amiguinhos — prosseguiu Sibala — Boultat há muito
tempo teria caído nas mãos dos perlians, que há séculos tentam desesperadamente
localizar o misterioso quartel-general dos gurrados. Se Boultat for encontrado e
destruído, nossa resistência desmoronará de vez, pois é aqui que existem nossos maiores
e melhores centros industriais.
“Os quetkys apontam qualquer traidor que exista por aqui. Foram eles que
impediram que a posição de Boultat se tornasse conhecida do inimigo.”
— Se fosse o senhor, não lhes contaria tanta coisa — resmungou Roumbaki,
indignado. — Tem certeza de que não são agentes dos perlians?
— Não fique zangado com ele — disse Sibala para acalmar o rei dos livres-
mercadores, que protestava indignado. — Meu amigo Roumbaki ficou amargurado com
os anos de resistência inútil. Fareja traidores em toda parte.
— E tenho motivo para isso — observou o velho gurrado, sacudindo a juba
vermelha.
— Tem mesmo — disse o shangante, voltando a dirigir-se a Roi Danton. — Já
tentaram várias vezes introduzir agentes de cristal dos perlians em nosso planeta. Não foi
fácil pôr o inimigo fora de ação.
— Permita que lhe assegure, monsieur, de que no caso seus receios são infundados
— disse Roi Danton assim que Sibala se calou. — Somos exatamente aquilo que diz o
relatório do comandante Trikort. Estamos dispostos a ajudar seu povo escravizado com
todos os meios ao nosso alcance, desde que...
Neste instante aconteceu uma coisa que destruiu todas as esperanças de que os
terranos e os gurrados finalmente iriam chegar a um acordo.
— Estamos sendo espionados por uma verdadeira nuvem destas coisas infernais,
senhor! — gritou um dos terranos que se encontravam atrás de Danton.
Roi atirou a cabeça para trás. Entrou em pânico ao ver a nuvem azul brilhante
formada por cerca de cinqüenta quetkis agitar-se em cima de suas cabeças.
“Um espião para dois de nós”, pensou, apavorado.
Danton virou abruptamente a cabeça ao ouvir a voz retumbante de Roumbaki.
— Agarrem os traidores! Os quetkys descobriram que estão transmitindo
constantemente sinais pelo rádio. Agarrem-nos e matem-nos!
O gurrado chiava de raiva.
Roumbaki levantou atrás da barreira. Segurava uma arma energética pesada, que
acabara de disparar.
O tiro saiu com um rugido, e uma trilha fumegante que atirava bolhas atravessou a
sala. A superfície brilhante do chão desmanchou-se num cinza apagado. Felizmente
ninguém foi atingido.
Roi Danton pigarreou surpreso.
— Que é isso, monsieur? — perguntou em tom de reprovação, enquanto tirava a
espada muito bem trabalhada. A lâmina cintilante descreveu um círculo — e no mesmo
instante Roumbaki, que gritava furiosamente, só segurava a coronha de sua arma.
Roi Danton ativara o processo de vibração durante o movimento. Este processo
criou um campo desintegrador ao longo da lâmina.
Com a arma modificada o rei dos livres-mercadores poderia perfeitamente
despedaçar a barreira, mas contentou-se em cortar a arma de Roumbaki junto à coronha.
O gurrado de juba vermelha continuava a soltar gritos furiosos. As tradutoras só
transmitiram sons desarticulados. Parecia que as palavras rápidas de Roumbaki excediam
sua capacidade de processamento. Simplesmente não conseguiam traduzi-las fielmente.
Mas mesmo assim os terranos imaginaram o que significavam os gritos do gurrado.
E pautaram sua ação de acordo com isso.
Um gurrado de peito largo saído da fileira dos guardas apareceu à frente de Danton,
na intenção evidente de desarmá-lo. O rei dos livres-mercadores encostou a face mais
larga na lâmina da espada à sua cabeça.
O guarda caiu ao chão, em silêncio.
Roi Danton passou os olhos pela sala. Ficou apavorado ao notar que os terranos
estavam pondo os guardas fora de ação com socos.
“Tomara que dê certo”, pensou, confuso.
Por enquanto ninguém dera ordem de abrir fogo.
Enquanto se defendia habilmente a golpes de espada — evitando sempre ferir
alguém — enfrentado quatro gurrados ao mesmo tempo, Danton gritou:
— Para a esquerda, messieurs. Por esta porta. Vamos...
Roi Danton parou apavorado.
Ficou paralisado por alguns instantes ao ver que os gurrados estavam usando suas
armas energéticas. Um jovem sargento rodopiou ao ser atingido por um raio energético e
caiu gritando na trilha de fogo de outro tiro.
O sargento teve morte instantânea.
Dali em diante a sala transformou-se num inferno.
Os soldados espaciais e cientistas, que de repente tinham percebido que os gurrados
não tinham dúvida em usar armas mortais, entraram em pânico.
Já não se podia falar numa resistência organizada.
Os vinte homens aos quais Perry Rhodan entregara armas também abriram fogo.
As trilhas de fogo saídas das armas térmicas de todos os calibres atravessavam a
sala.
Os terranos teriam sido trucidados na sala em que não tinham onde abrigar-se, se o
Capitão Art Huron não se tivesse lembrado da sugestão de Danton, retirando-se para a
sala ao lado.
O colono de Markos V convidou os companheiros em voz estridente a seguirem seu
exemplo.
Cinco terranos já tinham tombado. Três deles morreram durante a retirada
apressada.
As perdas do inimigo foram bem maiores.
Os terranos muito bem treinados e com uma grande experiência de combate
infligiram-lhe perdas graves.
Roi Danton foi um dos últimos a abrigar-se do outro lado da porta de dois batentes.
Usando ora a espada, ora o paralisador oculto em seu cabo, abriu caminho entre as
cabeças de leão que o cercavam.
— Pardon, mon ami — fungou Danton enquanto golpeava um gurrado com a face
da lâmina, ao sentir-se acuado.
Dois outros gurrados apareceram à sua frente. Havia nos rostos largos dos
guerrilheiros uma decisão selvagem de matar o odiado terrano.
— Um momento, messieurs — gritou Danton.
Enfiou a espada embaixo do braço direito e com a mão que ficara livre encostou aos
olhos o lorgnon cheio de brilhantes.
Os dois gurrados pararam, estupefatos. Demoraram em acionar suas armas
energéticas.
Pior para eles.
Um raio da grossura de um lápis saiu da armação revestida de brilhantes. Uma vez,
e outra.
Os guerrilheiros berraram de dor e largaram as armas, que de repente se tinham
tornado incandescentes.
Roi passou por cima deles, distribuindo golpes vigorosos, e passou pela porta
fungando.
Olhou rapidamente em volta e certificou-se de que os soldados e cientistas se
haviam abrigado atrás dos computadores e aparelhos de forma cúbica.
— Aqui, senhor! — gritou uma voz áspera em tom insistente.
Danton viu o Capitão Art Huron no meio do grupo que possuía vinte armas
energéticas muito finas. Seu rosto barbudo não podia ser confundido.
Roi atravessou às pressas a área livre que ficava logo atrás da porta e atirou-se atrás
de um computador de cerca de quatro metros de altura, que estava em pleno
funcionamento. As superfícies cobertas por inúmeras lâmpadas tremeluziam.
— Droga! — praguejou Roi Danton indignado e de forma nada real. — Já pensava
que tivéssemos convencido os três velhos de que nossas intenções são pacíficas, quando
apareceu esta força de espionagem. O que será que despertou a atenção deles?
Danton fitou o rosto suado de Art Huron.
Mas foi um dos cientistas que deu a resposta.
— Um dos nossos deve ter tido a idéia brilhante de informar um companheiro que
se encontrava mais atrás pelo microrrádio sobre o que estava acontecendo junto à
barreira.
O cientista prosseguiu em tom amargurado.
— Os outros devem ter participado da troca de mensagens, fazendo com que dentro
de alguns minutos as comunicações pelo rádio no interior da sala atingissem um nível
bem elevado. É claro que os paraguardas não tiveram nenhuma dificuldade em detectá-
las. O resto foi apenas uma conseqüência lógica.
— Obrigado, monsieur — murmurou Roi Danton, enquanto com o paralisador
instalado no cabo de sua espada punha fora de ação um gurrado que avançara demais. Em
seguida dirigiu-se a Huron. — Quantos homens perdemos? — perguntou com a voz
embargada.
— Oito, senhor — murmurou o atleta de barba negra. — Selinko, Josephson,
McCallum e Ryer...
Danton interrompeu-o com um gesto.
— Não me deixe ainda mais triste — disse em tom deprimido. — Isso não poderia
ter sido evitado?
— Evitado? — repetiu o colono de Markos V. — Dificilmente, senhor.
O rosto do capitão não parecia muito confiante.
Danton preferiu não responder. Sabia que Art Huron tinha razão. Se não se tivessem
defendido, as baixas provavelmente teriam sido ainda maiores. E tudo isso somente
porque alguém tivera a idéia brilhante de usar o microrrádio. Danton ficou com raiva
desse alguém.
“Espere aí!”, pensou Roi Danton, pondo em ordem os pensamentos. “Também
podem ter sido as ondas de rádio saídas da câmera de televisão escondida no cabo de
minha espada.”
Não poderia culpar exclusivamente os outros.
O rei dos livres-mercadores não teve tempo para continuar a entregar-se a este tipo
de pensamento. Os gurrados fizeram mais uma investida.
O pedaço de chão que separava as duas partes começou a derreter ao ser atingido
pelas trilhas incandescentes das armas térmicas.
Lampejos provocados por curto-circuitos saíram dos aparelhos e computadores atrás
dos quais se tinham abrigado os terranos. A fumaça do isolamento impedia a visão. O
revestimento de um cabo queimou chispando com uma chama azul, que produziu uma luz
fantástica no meio da escuridão.
Em seguida tudo voltou a ficar em silêncio. O ataque acabou tão de repente como
tinha começado.
A fumaça foi desaparecendo quando os exaustores começaram a chiar em algum
canto da sala. O equipamento automático de extinção de incêndio dos computadores
apagou o fogo.
Danton perguntou a si mesmo quanto tempo duraria esta calma enganadora.
5

Mais ou menos ao mesmo tempo, mas num lugar bem diferente, o Lorde-Almirante
Atlan estava saindo de seu camarote na Crest IV e se dirigia para a sala de comando
principal.
O arcônida acabara dormindo mesmo algumas horas.
Um banho e uma massagem de quinze minutos realizada por um robô espantara o
cansaço pesado produzido pelos sonhos agitados.
O arcônida só precisava de mais uma coisa, que encontraria na sala de comando: a
cafeteira automática.
Mesmo que não se considerassem as outras conquistas dos terranos, sempre restava
uma grande realização. Tinham inventado o café, que era uma bebida dos deuses.
O arcônida atravessou a sala alta em que funcionava a sala de comando,
distribuindo cumprimentos para todos os lados.
Encontrou um homem sentado no canto aconchegante em que ficava a cafeteira
automática.
O Major Bob McCisom levantou assim que viu Atlan.
— Fique à vontade, major — disse Atlan e tirou um caneco do suporte.
Antegozou o prazer ao ver a bebida negra enchê-lo.
Em seguida sentou numa poltrona perto de McCisom e tomou seu café em silêncio.
Levou alguns minutos para fazer uma pergunta ao major, que era um homem louro.
— Voltou a sair, major?
O chefe da Quinta Flotilha fez um gesto afirmativo.
— Vejo pelo seu rosto que também desta vez não conseguiu nada.
— Isso mesmo, senhor — murmurou o major e contemplou o caneco cheio pela
metade. — Enquanto não pararem estes malditos ecos de reentrada, não conseguiremos
nada — prosseguiu em tom sombrio. — Somente depois que tudo ficar quieto no espaço
poderemos procurar, a partir dos ecos detectados por último, os mundos em que
eventualmente possam ter pousado as naves-pêra. E olhe que nem se tem certeza se
pousaram mesmo.
As últimas palavras de McCisom foram proferidas em voz mais alta.
Atlan acenou com a cabeça, parecia pensativo.
— Acertou em cheio — respondeu.
— Na mosca — confirmou o Major Bob McCisom, numa tentativa desastrada de
fazer uma brincadeira.
Em seguida caiu num estado de silenciosa depressão. Até parecia que esquecera o
lorde-almirante.
Atlan tomou outro caneco de café.
“É de enlouquecer”, pensou pela centésima vez e à falta de uma comparação mais
adequada acrescentou em pensamento: “vivemos pisando no mesmo lugar”.
***
O silêncio terminou no momento em que se ouviram vozes de comando e o ruído de
inúmeros passos do outro lado da porta enegrecida pelos tiros energéticos. Os reforços
tinham chegado.
Por enquanto não se via ninguém. Quanto tempo duraria isso?
Roi Danton fitou o rosto do Capitão Huron, que estava coberto de crostas de
sangue.
O colono de Markos V limitou-se a sacudir a cabeça, o que significava: “Não temos
mais nenhuma chance”.
O rei dos livres-mercadores chegara à mesma conclusão.
Neste instante uma voz forte saída da tradutora que ficava do lado de fora gritou:
— Entreguem-se, terranos. Vocês não têm muito tempo. Se não atenderem, serão
defumados.
Roi Danton olhou em volta. Só viu rostos cansados e desesperados. Um fogo
implacável brilhava nos olhos injetados de sangue. Parecia que ninguém estava com
vontade de prosseguir na luta sem esperança.
Danton olhou para Huron. O homem de barba negra acenou com a cabeça.
Roi levantou e colocou a tradutora sobre um painel de controle baixo.
— Está bem — gritou. — Desistimos...
“A derrota final é assim mesmo”, pensou Roi, deprimido, enquanto cerrava os
dentes para não gritar de dor sob as mãos dos guerrilheiros que o apertavam.
O tratamento dispensado aos terranos não foi nada delicado.
Os gurrados usavam sem a menor consideração as coronhas de seus fuzis
energéticos assim que encontravam um sinal de resistência ou quando alguém hesitava.
Obrigaram os prisioneiros a ficar em fila junto à parede. Em seguida postaram-se à
sua frente, com as armas energéticas prontas para disparar.
— E agora, senhor? — perguntou Art Huron que se encontrava à esquerda de Roi
Danton.
O rei dos livres-mercadores levantou os ombros. No mesmo instante o gurrado que
se encontrava à sua frente levantou a arma. Danton teve um calafrio quando viu os olhos
de gato do gurrado pousados nele. Só murmurou alguma coisa quando a tensão do
gurrado diminuiu um pouco.
— Desta vez seremos trancados numa sala segura, onde estejamos isolados do resto
do mundo. E eles nos tirarão as armas e os rádios.
— Quanto a isso não pode haver dúvida — confirmou Art Huron, também num
murmúrio. — Tomara que não me tirem o ovo primitivo dos vingas.
— Talvez consiga enganar estes gatos dizendo que este ovo faz parte de sua
personalidade — sugeriu John Harvey.
O cientista magro estava bem ao lado do colono de Markos V. Também tinha sido
marcado pelas lutas.
— Como? — quis saber Huron.
— Diga aos guerrilheiros que sua alma está neste ovo. Mas receio que os gurrados o
colocarão na frigideira.
Art Huron ficou vermelho. Ia dar uma resposta áspera, quando apareceu o Conselho
dos Três.
O Conselho era acompanhado por dois shangantes de cabelos prateados, que
carregavam um aparelho cúbico, além do comandante Trikort, em cujos olhos Danton
teve a impressão de ver uma recriminação.
— Sinto tê-lo decepcionado, amigo — murmurou Roi. — Fomos obrigados a agir
assim.
Trikort continuou impassível. A tradutora não reagiu às palavras murmuradas de
Roi. Logo, o gurrado não tinha compreendido.
Roumbaki fez um gesto enérgico, ordenando que os dois shangantes colocassem o
aparelho cúbico entre si e os terranos. Em seguida olhou com uma expressão sombria
para Danton, que o fitava de uma forma franca e destemida.
— Onde as esconderam? — gritou Roumbaki para o rei dos livres-mercadores. A
tradutora que Danton trazia sobre o peito transmitiu perfeitamente a mensagem.
— O quê, monsieur?
Roi resolveu fazer-se de bobo.
Roumbaki começou a berrar, fazendo retumbar a sala abobadada.
— Revistem-nos — gritou, indignado.
Os guardas precipitaram-se sobre os prisioneiros, que praguejaram em altas vozes
aos receberem um tratamento tão grosseiro. Demorou apenas alguns minutos para que os
vinte homens fossem desarmados e tivessem os rádios tomados.
— Agora vamos ao senhor — disse Roumbaki, enquanto dava um passo na direção
de Roi Danton e estendia a mão como quem exige alguma coisa.
Se a situação não fosse tão grave, Roi não poderia ter deixado de dar uma risada
quando viu o gurrado muito baixo parado à sua frente, com as pernas bem afastadas,
sacudindo a juba num gesto de desafio.
Roi levantou os ombros para dar a entender que não tinha compreendido, embora
soubesse perfeitamente o que queria o gurrado.
Roumbaki tremeu por todo o corpo. Um ódio tremendo parecia sair de seus olhos.
As mãos se abriam e fechavam em movimentos convulsivos e sua costa encurvou-se que
nem a de um felino que se prepara para dar o salto. Antes que pudesse explodir, a voz
calma de Sibala se fez ouvir.
— Sua faca comprida — pediu, aludindo à espada de Roi.
Ainda acrescentou um insistente “por favor”.
Roi Danton segurou a espada nas mãos e encostou-a aos lábios, dando a impressão
de que resolvera beijar a arma para despedir-se dela. Em seguida entregou-a ao
comandante Trikort, cujos olhos revelavam certo espanto. Certamente conhecia o gesto.
Era o derrotado entregando a espada ao vencedor, para que este a guardasse de forma
honrosa.
Trikort recebeu a espada com os olhos chispando e contemplou-a bastante
admirado. O combatente não teve a menor dúvida de que a espada de Roi devia ser uma
arma muito eficiente.
Roumbaki fungou ao ver que fora posto para trás. Mas se soubesse que ao beijar a
espada Roi Danton transmitira uma mensagem ao pai, certamente o teria executado no
mesmo instante.
Danton avisara Perry Rhodan de que deveria ter cuidado com os quetkys, que eram
capazes de detectar os modelos das vibrações individuais.
Os dois shangantes voltaram a levantar o aparelho cúbico e a uma nova ordem de
Roumbaki puseram-se a caminhar à frente dos prisioneiros. Provavelmente estavam à
procura das armas restantes, que não tinham sido descobertas pelos guardas.
Não encontraram nada.
Quando chegaram perto de Roi Danton, o aparelho emitiu uma espécie de ronco.
Nervosos, os shangantes inclinaram-se sobre o campo transparente que ficava na face
superior do aparelho e examinaram os ponteiros, que saltavam de um lado para outro.
Um deles começou a falar apressadamente ao Conselho dos Três.
Antes que este pudesse tomar qualquer providência, o comandante Trikort
aproximou-se rapidamente de Danton e pegou seu lorgnon.
O aparelho cúbico certamente detectara os impulsos emitidos pela carga da arma
energética embutida na armação.
— Cuide bem das minhas coisas, mon ami — disse Roi Danton ao comandante
Trikort.
— O senhor não precisará mais delas, rei — respondeu o gurrado de juba de leão.
Danton teve a impressão de que havia certa decepção na voz de Trikort.
— Não fique triste, amigo — murmurou Danton atrás de Trikort, que estava
voltando para junto dos outros. — Por que acha que entreguei a espada a você?
Dali a pouco os terranos foram obrigados a reunir-se e levados para fora da sala.
“Só me resta esperar que a mensagem tenha sido recebida”, pensou Roi Danton,
deprimido.
***
A mensagem realmente fora recebida por Perry Rhodan — mas há tempo o
Administrador-Geral e os ertrusianos não se encontravam na nave dos gurrados.
Assim que os companheiros chegaram à sede do triunvirato, os homens saíram à
procura de um esconderijo melhor.
Não podiam continuar na nave.
O perigo de serem descobertos era muito grande. Parecia que a nave estava sendo
reformada.
Mas o mais importante era que dentro da nave não poderiam ajudar os amigos. Por
isso Perry Rhodan sugerira que abandonassem a nave e tentassem encontrar um
esconderijo nas montanhas que cercavam o vale.
Passaram rapidamente sobre o campo de pouso, protegidos pelos campos defletores
e impelidos pelos equipamentos de vôo, depois de terem saído da nave sem serem
notados.
O calor do fim da tarde era insuportável. O ar tremeluzia e ondulava sobre o porto
espacial, fazendo com que mal se distinguissem os contornos das encostas que subiam
quase na vertical.
O Administrador-Geral proibira qualquer tipo de comunicação entre os membros do
grupo.
Como estavam com os capacetes fechados, a comunicação só poderia ser feita pelo
rádio e as transmissões seriam facilmente detectáveis pelo sistema de vigilância do porto
espacial.
E o calor não permitia que deixassem os capacetes abertos. O sistema de
climatização dos trajes de combate criava uma temperatura suportável ao menos no
interior deles.
O grupo atingiu o limite oeste do porto espacial quando os amigos estavam
envolvidos no combate. Mas nem os dois ertrusianos nem Perry Rhodan sabiam disso.
Os três estavam mais que ocupados para evitar uma colisão com os planadores.
Mais de uma vez foram atingidos pela sucção de um veículo que passava muito perto.
Geralmente os planadores estavam ocupados por gurrados fortemente armados.
Boultat oferecia um cenário bélico. Era o ponto de concentração das naves dos
gurrados onde eram treinados os exércitos. Era dali que os gurrados lançavam seus
ataques de surpresa.
De repente ouviu-se um rugido selvagem.
Oro Masut girou com um movimento suave, ficando de costas para olhar para cima.
O quadro com que se deparou quase o deixou louco. Bem em cima deles uma gigantesca
nave-pêra descia quase na vertical. Ainda se encontrava fora do vale, mas a cauda de
fogo de mais de um quilômetro de comprimento já chicoteava o chão.
Parecia que o comandante da nave era obrigado a realizar um pouso de emergência.
Fazia o veículo espacial descer muito depressa.
Masut percebeu que, se não conseguissem sair em tempo da via de entrada da nave,
seriam queimados pelo furacão térmico que nem mariposas sobre um fogo aberto.
Num instante o ertrusiano compreendeu a situação.
Não se incomodou mais com a proibição de falarem pelo rádio, emitida por Perry
Rhodan. Gritou algumas ordens enérgicas para Melbar Kasom.
— Que é isso, Kasom? — exclamou Perry Rhodan, surpreso, ao ver o especialista
da USO agarrá-lo pelas alças que seu traje de combate trazia na altura do ombro.
— Cale a boca, senhor! — retumbou a voz exaltada de Kasom no alto-falante de
Rhodan. — Trate de facilitar nosso trabalho. E, o que é o principal, não procure resistir.
Se perdermos o senhor, o Império Solar ficará sem seu Administrador-Geral.
Antes que Perry Rhodan compreendesse o que estava acontecendo, os dois gigantes
ertrusianos cobriram-no com seus corpos, que voavam lado a lado. Fizeram isto para
protegê-lo contra os efeitos devastadores da tormenta de fogo, enquanto aceleravam.
Tiraram de seus equipamentos de vôo tudo que estes eram capazes de dar. Sua
potência era bem superior que a dos aparelhos geralmente encontrados nas mochilas dos
membros da Frota Solar.
Normalmente os centros de rastreamento dos gurrados, instalados em torno do porto
espacial, teriam sido perfeitamente capazes de detectar os fortes jatos de partículas saídos
dos trajes de combate dos ertrusianos. No entanto, os técnicos que estavam de serviço nos
centros tiveram de concentrar a atenção exclusivamente na nave que realizava um pouso
de emergência. Além disso as chamas saídas dos equipamentos de vôo de Masut e Kasom
se perdiam no furacão de fogo saído das gigantescas câmaras de combustão da nave-pêra.
Passaram-se alguns minutos de angústia.
Os dois ertrusianos transpiraram, o que provocou o colapso de seus sistemas de
climatização.
Mas logo passou.
Os ertrusianos alcançaram, juntamente com sua preciosa carga, a encosta vertical
que limitava o vale.
Enquanto atrás deles as câmaras de combustão da nave-pêra despejaram um último
furacão de fogo antes que o veículo pousasse, os três homens subiram junto ao paredão.
Perry Rhodan já percebera que os dois ertrusianos tinham evitado sua morte. Com o
equipamento embutido em sua mochila nunca teria sido capaz de alcançar a velocidade
necessária.
Bem que caberiam algumas palavras de agradecimento. Mas o Administrador-Geral
ficou em silêncio. Limitou-se a apertar as mãos dos gigantes.
Ainda não estavam fora do alcance dos centros de rastreamento, que apareciam bem
abaixo deles, ao pé da encosta, em forma de elevações semi-esféricas. Por isso não
podiam comunicar-se pelo rádio.
Perry Rhodan tinha certeza de que os centros de rastreamento propriamente ditos
ficavam nas profundezas do paredão de rocha. O que se via eram apenas as cúpulas das
antenas de longo alcance.
Foram subindo devagar, ajudados pelas correntes térmicas ascendentes que saíam
do vale borbulhante. Bastava ligar os projetores antigravitacionais. Era bem, verdade que
corriam o risco de que uma súbita rajada de vento os arremessasse contra uma rocha
pontuda.
Perry Rhodan olhou para cima.
Até mesmo atrás dos filtros absorventes de seu capacete, a luz das duas bolas de
fogo chamejantes — o gigante azul e o anão branco — fazia doer os olhos, à frente dos
quais pareciam dançar círculos vermelhos.
“Que mundo horrível”, pensou o Administrador-Geral.
De repente Oro Masut começou a agitar fortemente os braços. Voava um pouco
mais baixo que os outros dois, formando a retaguarda.
Oro apontava constantemente para certo lugar no fundo do vale.
Rhodan teve a atenção despertada. Olhou melhor.
Uma nuvem de esferas azuis brilhantes atravessava o espaço aéreo em movimentos
que pareciam indolentes.
“Quetkys!”, pensou o Administrador-Geral. Qual seria sua reação diante dos três
homens? Rhodan acompanhou atentamente o vôo dos objetos esféricos. De repente dois
quetkys separaram-se da nuvem e dirigiram-se em alta velocidade para o paredão de
rocha.
Rhodan e os ertrusianos encontravam-se mil metros acima do porto espacial.
Perry Rhodan estava neutralizando a ação das correntes ascendentes, por meio de
correções insignificantes do campo antigravitacional, quando uma das esferas brilhantes
apareceu bem à sua frente.
Rhodan teve a impressão de que de vez em quando uma série de pequenas
ondulações atravessava o azul puro, mas não tinha muita certeza. A luz ofuscante dos
dois sóis tornava difícil a observação.
Os dois quetkys ficaram voando por cerca de trinta segundos em torno dos três
homens. De repente voltaram algumas centenas de metros e permaneceram imóveis.
Perry Rhodan ainda sentia certa admiração pelo estranho comportamento dos
objetos esféricos, quando por acaso olhou para baixo e viu quatro planadores levantarem
vôo do campo espacial e subirem com uma aceleração extremamente elevada.
Os veículos pararam bem perto dos três homens. Os enormes canos duplos de um
canhão energético saíram ameaçadoramente das abóbadas achatadas. Uma tampa abriu-se
no abaulamento superior de um dos planadores. Do veículo saiu um gurrado em cujo
rosto se via uma expressão de surpresa. Certamente esperara ver alguma coisa, mas não
conseguia distinguir nada.
Os dois quetkys voltaram a aproximar-se depois que os planadores tinham
aparecido. Circulavam rapidamente em torno do gurrado que se encontrava do lado de
fora.
De repente Perry Rhodan sentiu um princípio de pânico. As esferas azuis, de
aspecto inofensivo, tinham detectado suas emanações cerebrais. Avisaram imediatamente
o centro de controle ao qual aludira Trikort. Este por sua vez prevenira os gurrados.
Os quetkys provavelmente não enxergavam pela via ótica, mas estavam em
condições de localizar as vibrações individuais e orientar-se pelas ondas sonoras ou
fontes de energia. E os gurrados não possuíam esta capacidade.
Não viam nada, porque os três homens voavam protegidos por seus campos
defletores.
Já se tinham afastado mais um pouco. Estavam cada vez mais próximos do limite do
vale. Não demoraram a sobrevoar o ponto mais alto. Um planalto coberto de capim e
arbustos estendia-se à sua frente. Alguns quilômetros adiante este planalto se limitava
com os contrafortes de outra cadeia de montanhas.
Perry Rhodan olhou para o relógio instalado no pulso rígido de seu traje de
combate.
Fazia somente dez minutos que tinham saído da nave.
O Administrador-Geral virou a cabeça, mas não pôde ver mais o vale. No lugar em
que deveria estar, o planalto coberto de arbusto estendia-se até o horizonte visual.
Era uma excelente projeção ótica, uma camuflagem perfeita.
A luz ofuscante do sol geminado lançava sombras fortes sobre o chão. No alto o
calor não era tão angustiante.
Um vento fresco soprava ininterruptamente entre os arbustos, que tinham cerca de
dez metros de altura. Suas estranhas folhas em forma de ponta de flecha brilhavam em
todas as cores do espectro.
Os alto-falantes externos transmitiram um tilintar áspero, que acompanhava o ritmo
do vento.
A forma predominante da flora de Boultat era a cristalina. Era este o motivo do
estranho tilintar, quando um galho se esfregava em outro galho, uma folha em outra
folha.
O planalto com suas florestas de arbustos e a savana de gramíneas de quase dois
metros de altura, de aspecto cristalino, eram uma gigantesca caixa de ressonância tocada
pelo vento.
Os três homens voaram junto à vegetação, cujas cores geralmente cambiavam entre
o vermelho e o violeta, seguindo em direção às montanhas.
De repente um ruído diferente misturou-se ao tilintar ininterrupto.
O Administrador-Geral percebeu no último instante que se tratava do sinal de
chamada do videofone cúbico que trazia sobre o peito.
Com um movimento rápido colocou-o à frente do visor de seu capacete.
A tela minúscula mostrou o rosto de Roi Danton, que estava sujo e trazia as marcas
da luta.
Perry Rhodan regulou o volume do som para o máximo — e de repente a voz
angustiada do livre-mercador se fez ouvir.
— Senhor! Tome cuidado com os quetkys. Além de poderem detectar as vibrações
individuais, são capazes de localizar, não se sabe como, as ondas de rádio. Cuide-se,
portanto, se esses espiões aparecerem perto do senhor e houver qualquer rádio em
funcionamento, por menor que seja...
A voz de Danton silenciou.
A melodia sussurrada de uma estranha orquestra exótica voltou a ser transmitida
pelos microfones externos. Pareciam as vozes de uma civilização desaparecida há muito
tempo.
— Masut!
A voz de Rhodan tinha um tom enérgico.
— Pois não, senhor — soou o barítono gutural de Masut no alto-falante de Rhodan.
— Tente entrar em contato com Roi Danton através de seu microrrádio. Rápido!
Deve ter acontecido alguma coisa que nem imaginávamos...
Enquanto o guarda pessoal de Roi Danton tentava estabelecer contato com seu
microrrádio, Perry Rhodan informou os dois ertrusianos sobre a notícia que acabara de
receber de Danton. Disse que em sua opinião devia ter havido um imprevisto.
— Ainda não conseguiu estabelecer contato, Masut? — perguntou o Administrador-
Geral em tom insistente.
O gigante ertrusiano respondeu que não.
Roi Danton não respondia. Talvez não pudesse, por ser muito arriscado, ou então já
não estava em condições psíquicas.
Oro Masut nem se atreveu a considerar a terceira possibilidade. Seu rei poderia
estar morto.
— Acho que seu patrão não responde porque há muitos destes espiões por perto —
observou Kasom. — Monsieur deve ter medo de que possam descobrir o excelente
aparelho que traz escondido no antebraço e resolvam amputar-lhe o braço.
— Não diga bobagens — disse Perry Rhodan. — Não podemos perder tempo com
brincadeiras.
— Isso mesmo — observou Masut. Via-se perfeitamente que lançava olhares
furiosos para o especialista da USO.
Neste instante Melbar Kasom pegou seu gigantesco desintegrador portátil. Antes
que Perry Rhodan e Masut pudessem dar um grito de pavor, o especialista da USO atirou.
Um feixe de raios bem aberto passou perto de Oro Masut e atingiu o alvo.
Ouviu-se um grito estridente, que atingiu alturas incríveis antes de terminar aos
poucos.
Um par de gigantescas asas brilhantes coloridas bateu mais uma ou duas vezes, já
sem forças, e uma boca cheia de dentes afiados se abria e fechava convulsivamente. Em
seguida a fera parecida com um morcego caiu ruidosamente na floresta.
— Eu lhe mostro o que acontece com quem ataca um ertrusiano — esbravejou
Kasom. — Mesmo que este ertrusiano se chame de Masut e seu trabalho consista em
polir as botas de um rei.
— Obrigado, irmão — disse Oro Masut com a voz apagada.
Finalmente atingiram os primeiros contrafortes das montanhas, que eram quase
inacessíveis. Kasom pôs em ação seu detector de espaços ocos, que era um produto dos
swoons. Levou somente dez minutos para encontrar uma caverna que terminava num
trançado de corredores e galerias.
Parecia que tinham encontrado um lugar em que podiam ficar escondidos por algum
tempo.
Os dois ertrusianos ergueram uma barreira formada por grandes rochas junto à
entrada da caverna. Em seguida usaram as armas térmicas para fundi-la numa sólida
muralha.
Oro sentou num canto e tentou novamente entrar em contato com Roi Danton.
***
Os prisioneiros estavam trancados numa sala igual àquela em que tinham ficado na
nave, com uma única diferença. Reinava o silêncio.
Os terranos estavam sentados no chão liso, com os rostos desolados, entregues a
pensamentos desagradáveis.
— Foi uma breve excursão para a liberdade — observou Art Huron.
O colono de Markos V, um homem de nariz adunco, puxou distraidamente a barba.
— Ou não foi? — perguntou o capitão, olhando para Roi Danton e John Harvey,
que estavam sentados à sua frente.
Danton acenou com a cabeça. Estava com o rosto sombrio. Enquanto isso o cientista
perguntou, aborrecido:
— Por que não deixa em paz a sua barba?
Parecia que os últimos acontecimentos tinham criado uma hipersensibilidade no
cientista.
— Já vou parar — prometeu o colono de Markos V. — Precisava verificar se ele
ainda está lá.
— Ele? — repetiu Danton, espantado.
Art Huron pôs a mão na barba. Em seguida estendeu a mão fechada e abriu-a bem
devagar.
Roi Danton deu uma risada. O ovo primitivo dos vingas se encontrava na mão de
Huron, entre fios de barba arrancados.
— Mon Dieu, mon capitaine — exclamou. — Já sei por que sua barba cresceu tanto
nestes últimos minutos.
— E isso mesmo, monsieur — confirmou Art Huron com um sorriso que não
contribuiu nem um pouco para tornar mais atraente seu rosto marcado por inúmeras lutas.
— Eu... quieto! — chiou de repente. — Vem vindo alguém.
O capitão devia ter um excelente ouvido para perceber os passos que Roi Danton só
ouviu dali a alguns segundos.
A pesada porta abriu-se com um estrondo e bateu na parede. Alguns gurrados
armados até os dentes saltaram por ela e tomaram posição junto à parede.
Em seguida apareceram Roumbaki e Heykh.
Danton e o capitão levantaram devagar. John Harvey permaneceu obstinadamente
sentado.
— Que deseja, monsieur? — perguntou Roi Danton, calmo, quando o gurrado de
juba vermelha ficou parado à sua frente, fungando de raiva.
— Não vamos perder tempo em conversas — transmitiu o aparelho, traduzindo as
palavras furiosas de Roumbaki. — Faz cerca de cinco minutos que nossos centros de
rastreamento espalhados por todo o planeta detectaram hiperimpulsos expedidos com um
grande volume de energia. Estes impulsos foram enviados para o espaço em forma de
sinais goniométricos. Dali tirei a seguinte conclusão: os senhores ainda possuem
aparelhos que mantêm escondidos em algum lugar.
“Os impulsos de hiperrádio só podem ter uma finalidade. Os senhores que,
conforme já ficou provado, são agentes dos perlians, tentam despertar a atenção de nosso
inimigo declarado para Boultat, para que este quartel-general seja destruído de vez.
“O senhor tem duas alternativas. Pode dizer onde estão escondidos os aparelhos,
para que possamos inutilizá-los. Neste caso receberão um tratamento honroso como
prisioneiros de guerra. Se preferir, pode ficar calado. Neste caso — os olhos de
Roumbaki chisparam numa expressão de raiva selvagem — na melhor das hipóteses
ainda terão alguns dias de vida.
“Sua agonia — e isto lhe prometo desde logo — durará várias horas. De qualquer
maneira ficaremos sabendo onde mantêm escondidos os aparelhos. Até hoje qualquer
pessoa entregue aos homens dos desertos de Leedon soltou a língua. Trate de decidir
quanto antes.”
Roumbaki girou sobre os calcanhares e saiu acompanhado por Heykh.
***
Alguns minutos depois, bem longe dali, um homem natural de Ertrus saltou do chão
úmido da caverna como se tivesse levado um choque elétrico.
— Conseguimos o contato, senhor! — gritou. — Contato! Mas a exaltação feliz
causada pelo sinal de vida dado por Roi Danton e seus companheiros logo foi substituída
por uma expressão muito séria.
Oro Masut repetiu com a voz entrecortada as palavras que ouvia pelo microrrádio
implantado em seu ouvido esquerdo.
Ficou calado por algum tempo. Os dois ertrusianos e o Administrador-Geral
entreolharam-se com uma expressão de perplexidade.
— Acho que nossos planos que prevêem a libertação rápida de nossa gente caíram
na água — disse finalmente Perry Rhodan com a voz apagada. — Antes de mais nada
precisamos tratar de encontrar aqueles que de fato transmitem os sinais de hiper-rádio e
entregá-los aos gurrados, senão a vida de nossos companheiros não valerá um centavo.
Perry Rhodan ficou emocionado ao notar a preocupação quase doentia de seus fiéis
companheiros.
Nem desconfiava de que entre os homens cuja vida estava em perigo se encontrava
seu filho.

***
**
*

Seres que estão quase sempre cercados de perigos


mortais e que lutam desesperadamente pela liberdade
são desconfiados por natureza.
Por isso não é de admirar que, à falta de provas
em contrário, os gurrados acreditem que haja alguma
ligação entre o funcionamento do transmissor
planetário e os terranos que são seus prisioneiros.
Os gurrados apresentam um ultimato. Se o
transmissor fantasma não silenciar, os prisioneiros
morrerão.
Leia sobre isto no próximo Volume da série Perry
Rhodan, que traz o título O Transmissor Fantasma.

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