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O TRANSMISSOR
FANTASMA
Everton

Autor
CONRAD SHEPHERD

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Os calendários terranos marcam o dia 30 de novembro de
2.435. Depois que o robô gigante Old Man desapareceu do sistema
de Jellico, a Galáxia ficou livre de uma ameaça. Os agentes de
cristal não conseguiram fixar-se nos mundos do Império Solar.
Desta forma os escalões de comando do Império têm a
possibilidade de transferir para Magalhães contingentes cada vez
maiores das frotas que montavam guarda na Via Láctea, para
reforçar as unidades que já se encontram lá.
Isto é mesmo necessário, ainda mais que se espera que um
dia o poder concentrado de Old Man também acabe aparecendo
em Magalhães. Mas por enquanto o robô gigante está
desaparecido — da mesma forma que Perry Rhodan e seus
companheiros.
Há dias as vinte e duas naves de Atlan, inclusive a Crest IV,
nave-capitânia do Império Solar, e a nave do rei dos livres-
mercadores, a Francis Drake, estão bem espalhadas nas
profundezas da grande nuvem de Magalhães. O lorde-almirante
envia mensageiros e manda fazer medições, porque ainda tem
esperança de por um feliz acaso encontrar Perry Rhodan e seus
companheiros, desaparecidos desde a operação desenvolvida em
Modula. Enquanto isso a vida dos terranos corre um perigo grave.
Os guerrilheiros gurrados, para cujo quartel-general secreto
foram levados os terranos, sentem-se ameaçados em sua própria
existência por um misterioso hipertransmissor. Acham que existe
uma ligação entre o funcionamento deste transmissor e os
prisioneiros terranos e apresentam um ultimato a Roi Danton. O
transmissor, que pode trair sua posição, tem de silenciar — ou
então os prisioneiros morrerão!
Perry Rhodan e os dois ertrusianos são avisados por Roi — e
saem à procura do Transmissor Fantasma...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Oro Masut e Melbar Kasom — Acompanhantes e protetores
de Perry Rhodan.
Aron, Colar, Ruor, Regy, Onys e Ayos — Seis homens e
mulheres jovens pertencentes à tribo dos skaldales.
Roi Danton — Rei dos livres-mercadores interestelares e
filho de Perry Rhodan.
Roumbaki, Heykh e Sibala — Membros do triunvirato que
governa os guerrilheiros gurrados.
1

Pouco antes do pôr do sol o vento aumentou. A floresta de cristal cedeu gemendo ao
impacto, e a melodia da caixa de ressonância tocada pelo vento perdeu um pouco em
harmonia.
Dali a pouco a noite desceria das longínquas montanhas nevadas, percorrendo o
planeta a passos gigantescos.
Três meninas tremiam, agachadas numa depressão baixa e protegidas de todos os
lados pelas raízes aéreas duras que nem diamante de uma árvore-flecha que balançava
ligeiramente em cima delas. Os sons claros e suaves saídos da flauta de Regy fizeram-nas
sentir-se bem.
Os grandes olhos redondos das meninas olhavam atentamente para a selva colorida,
que parecia pegar fogo sob a ação dos dois fogos vitais. Na verdade tratava-se apenas de
um efeito da refração causada por milhares de folhas e galhos cristalinos.
O som da flauta de Regy aumentou por um instante, quando o vento se tornou mais
rijo, superando a música. A árvore-flecha estremeceu em cima deles. As grandes esferas
em cujo interior estavam guardadas as sementes pulsaram. Mas a árvore parou de tremer
assim que o som da flauta voltou a ser ouvido.
Regy, que era a mais jovem do grupo, encostou o funil acústico da flauta à abertura
de arejamento de uma das raízes. Cores cambiantes percorreram a árvore, quando o ar
contido no Interior da raiz começou a
vibrar e a ressoar.
Os skaldales sabiam como alcançar a
obediência de uma árvore-flecha e usá-la
em seu benefício.
Era que o algoz continuava sentado lá
adiante' numa ilha de capim-lança, olhando
para o grupo com uma expressão sedenta
de sangue.
Sua gula era tamanha que quase
esqueceu o perigo mortal que representava
a árvore-flecha sob a qual sua presa se
refugiara.
Ainda conseguiu dominar seus
instintos. Até quando? Os recipientes
esféricos que continham as sementes,
cheias de agulhas duras como aço,
apontavam em sua direção. A árvore já
notara sua presença.
O algoz sabia que qualquer passo que
desse poderia acarretar sua morte. No
momento em que se aproximasse da
árvore-flecha, as esferas com as sementes
explodiriam, despejando uma saraivada de
espinhos venenosos sobre ele.
Por isso resolveu esperar, cheio da impaciência gulosa do ser faminto, que vê o
alimento ao alcance da mão, mas não consegue chegar a ele. Aos poucos foi deixando de
lado os cuidados. A única coisa que existia para ele eram as três skaldales sentadas
embaixo da árvore-flecha. Já não tinha olhos para aquilo que acontecia atrás de suas
costas.
Por isso não chegou a ver os três companheiros das moças, que saíram
silenciosamente da floresta de cristal e entraram na ilha formada pelo capim-lança.
Aron e Colar, dois irmãos gêmeos, e Ruor, que chefiava o pequeno grupo,
caminharam com o maior cuidado na direção do algoz. Sua vestimenta consistia
exclusivamente num saio-te e num cinto de dez centímetros de largura. A pele, dura que
nem couro, apresentava uma luminosidade azulada e brilhava sob o efeito da seiva do
arbusto de óleo, que abafaria o odor de seus corpos, evitando que o algoz pudesse farejá-
los.
O algoz estava sentado na extremidade da ilha de capim-lança. Quase não possuía
inteligência, mas em compensação seu sistema nervoso era extremamente desenvolvido.
O algoz apareceu à sua frente.
Os três skaldales acabaram assustando-se com seu tamanho. As quatro pernas
saltadoras, muito robustas, eram do tamanho de um skaldale adulto. Seriam necessários
vinte homens para cercar com os braços o corpo achatado, em forma de prato. Era peludo
e exalava um cheiro repugnante. A face interior do corpo, coberta por uma córnea,
pulsava. Os braços robustos e ágeis, com os quais costumava estrangular suas vítimas,
estavam estendidos para a frente. De vez em quando eram sacudidos por um tremor, da
raiz até a ponta, na qual havia uma espécie de espinho que costumava gravar-se
profundamente na carne do inimigo.
O algoz não possuía boca, mas um braço em forma de tromba, em cuja abertura
redonda se via um círculo de dentes afiados. Prendia-se à vítima por sucção e tirava o
sangue de seu corpo.
O assassino possuía um único olho, praticamente imóvel, que ficava na frente, na
face mais estreita de seu corpo. O único meio de saber o que acontecia atrás dele eram os
braços apalpadores extremamente sensíveis — que no momento apontavam para as
moças, cujo cheiro quase o deixava louco.
Ruor fez um gesto rápido para que os gêmeos se separassem. Cada um cuidaria de
uma das pernas saltadoras, cortando o vigoroso tendão. Assim que o assassino caísse para
trás, o chefe do grupo saltaria sobre seu corpo e tentaria destruir com um golpe bem dado
o centro nervoso, que ficava no meio do corpo redondo.
Os gêmeos aproximaram-se cuidadosamente das pernas traseiras do assassino. Seus
punhos fortes agarraram as espadas cintilantes — e a um gesto de Ruor as lâminas
cortaram o ar.
A parte traseira do corpo do assassino caiu no capim-lança. Até parecia que fora
atingido pelo raio. Ruor soltou o grito de guerra de seu clã e deu um salto enorme para
cima do corpo cabeludo.
Durante um segundo de pânico viu os musculosos braços desferirem um golpe ágil
em sua direção. Mas logo enfiou a espada envenenada na massa entrelaçada do centro
nervoso, que era do tamanho de uma cabeça humana.
O algoz levou apenas alguns segundos para morrer.
Os gêmeos soltaram gritos de alegria. As moças responderam. Saíram correndo de
baixo da árvore-flecha e correram para junto dos homens.
— Foi um excelente trabalho, Ruor — elogiou a mais velha das moças, enquanto
admirava a figura vigorosa de Ruor.
Sua pele de couro brilhava num azul profundo. Havia um traço arrojado no rosto
marcante, enquanto as duas asas com penas que apareciam dos lados da cabeça calva
brilhavam num vermelho intenso.
Ruor sorriu por um instante, lisonjeado. Era bom ser admirado por Onys, que era
uma moça bonita.
As outras moças, Regy e Ayos, deram risadinhas e cutucavam-se de lado.
Ruor lançou-lhes um olhar enérgico, que fez com que se calassem. Em seguida deu
ordem para que os gêmeos trouxessem os arpões.
Aron e Colar voltaram ofegantes. Ruor saiu na frente. As moças foram atrás,
enquanto os gêmeos formaram a retaguarda.
Dali a alguns minutos o pequeno grupo atravessava a floresta de cristal. Enquanto
atrás deles os animais menores que comiam carniça brigavam por causa do cadáver do
algoz, Ruor lançou um olhar preocupado para os fogos vitais, que tinham baixado ainda
mais.
O som distante do vento que afagava as florestas chegava cada vez mais perto.
Neste som havia frieza e morte. Às vezes a melodia da caixa de ressonância aumentava
num crescendo. Era a hora da aranha, que começaria a acordar aos poucos do cochilo da
tarde.
Ruor sabia que se encontrava numa terra de ninguém.
Nunca antes um grupo penetrara tão profundamente nas florestas de cristal que
cercavam o grande trovão. E era a primeira vez que um grupo passava a noite fora das
cavernas aquecidas, em cujo interior os membros do clã se entregavam ao sono, reunidos
em torno do fogo sagrado.
Por quanto tempo ainda conseguiria acalmar as moças garantindo que logo
encontrariam uma caverna?
Enquanto caminhavam, viviam olhando assustadas para os fogos vitais.
Pela primeira vez naquele dia Ruor teve a sensação de uma solidão sem limites.
Tinham saído há trinta dias, para atingir as montanhas de vidro situadas além do
grande rio e dali chegar às colinas do vento. Ruor levava uma mensagem do membro
mais velho do clã, dirigida ao mais velho do clã vizinho.
Os skaldales tinham uma lei não escrita que proibia que alguém andasse sozinho.
Deviam andar sempre em grupo, para aumentar as possibilidades de sobrevivência nas
florestas de cristal. E os grupos deviam ser formados por moças e rapazes. Se não
conseguissem voltar, poderiam fundar um novo clã.
A mensagem foi entregue quinze dias depois que o grupo tinha saído. Ficaram dois
dias com o clã dos skopolones e iniciaram a viagem de volta.
No décimo nono dia arrebentou a corda estendida de uma margem a outra, durante a
travessia de um rio encachoeirado. A jangada em que se encontravam desceu o rio por
algumas horas, desgovernada e em alta velocidade. Finalmente uma barragem natural pôs
fim à viagem forçada. Felizmente encontraram uma caverna aquecida pelos fogos
sagrados, onde puderam passar a noite sem correr maiores perigos.
No vigésimo dia uma horda de esferas blindadas tangeu-os novamente na direção
errada.
Exaustos e sangrando de inúmeras feridas pequenas causadas pelas folhas afiadas da
floresta de cristal, acabaram descansando no labirinto de cavernas de uma árvore.
Mais tarde Ruor subiu numa rocha solitária para examinar o terreno.
Ficou abatido ao verificar que se tinham desviado muito para o sul.
A barreira gigantesca, cujo branco puro era absolutamente mortal, já não se
encontrava à sua esquerda, mas estendia-se quase de horizonte a horizonte.
Era uma barreira intransponível. Nem mesmo o capim-lança crescia em suas rochas
entrecortadas e nos cumes. Às vezes, nos dias muito claros, Ruor vira nuvens baixas
acumularem-se em torno da barreira e descarregarem uma poeira branca e agitada.
Para chegar ao clã dos skaldales teriam de contornar a barreira pelo leste. Mas não
havia mais tempo para isso.
Pelos cálculos de Ruor, teriam de caminhar cerca de sessenta e cinco dias para dar a
volta pela barreira. E até lá seriam alcançados pelo grande frio, que congelava tudo.
Ainda havia um meio de voltar para casa depressa. Teriam de atravessar as florestas
de cristal do planalto do grande trovão para chegar ao vale dos caçadores alados, que
atravessava a barreira como se tivesse sido aberto a golpe de espada.
O grupo discutiu ligeiramente o assunto e resolveu atravessar as florestas de cristal
e o vale dos caçadores alados para chegar à terra natal.
Ruor viu um movimento fugaz pelo canto dos olhos. Atirou-se para o lado e pediu
aos outros que tivessem cuidado.
A trepadeira fina de uma árvore-cipó passou chiando rente à sua cabeça e desceu
sobre Regy, que parecia paralisada de susto.
A moça gritou enquanto a liana assassina cingia cada vez mais fortemente seu
corpo, começando a arrastar a moça para dentro da selva, onde a boca do carnívoro
estava à sua espera. Novas lianas começaram a cercar a vítima.
Os gêmeos investiram contra elas a golpes de espada.
Aflito, Ruor olhou em volta para ver se encontrava alguém que pudesse ajudá-los.
Viu a uns cem metros de distância dois jovens dragões de fogo, que circulavam
precisamente no vento da noite. Suas asas bem abertas permaneciam quase imóveis.
Ruor tirou a flauta que trazia na sacola e arrancou dela uma série nervosa de sons
chilreantes.
Os dragões de fogo ergueram a cabeça. Em seguida soltaram um raio de fogo saído
de um bocal pulsante que ficava entre as asas. No mesmo instante colocaram-se em cima
do grupo.
Quando notou o perigo, a árvore-liana soltou imediatamente a presa e apressou-se
em penetrar na vegetação. Mas seus movimentos eram muito lentos. Ainda não tinha
tirado duas vezes as raízes do chão, quando os dragões de fogo caíram sobre ela. Suas
mandíbulas afiadas estraçalharam o tronco mole e desprotegido.
A árvore caiu e Regy ficou livre das lianas.
Os skaldales apressaram-se em sair do lugar em que fora travada a luta cruel. Dali a
alguns minutos foram engolidos pela floresta de cristal.
Aos poucos o medo foi tomando conta de Ruor.
Os ruídos da luta incessante travada na selva entraram-lhe pelo ouvido. As
penugens que ficavam ao lado de seu crânio captavam qualquer som, por menor que
fosse, conduzindo-o aos nervos supersensíveis de seu centro auditivo.
Atravessaram correndo uma clareira. De repente Ruor foi invadido pelo pânico, ao
notar que os fogos vitais tinham baixado mais um pouco.
Quase não acreditava mais que pudessem encontrar uma caverna para passar a
noite, capaz de manter constante a temperatura de seus corpos.
Uma cadeia de montanhas destacava-se ao longe. Atrás dela erguia-se a barreira,
gigantesca e ameaçadora. Regy começou a soluçar. Onys tentou consolá-la da melhor
forma possível. Também estava com medo, mas ainda lhe restavam forças para dirigir
palavras de alento à moça mais jovem.
Ruor começou a sentir certa admiração por ela. Seria uma mulher para ele. Valente
e destemida, mesmo quando encarava a morte de frente.
Caminhavam há algum tempo sobre uma crista estreita, que atravessava a floresta
de cristal na altura das copas das árvores, quando de repente bem ao longe, à sua direita, a
planície arrebentou, e um raio fulgurante subiu ao céu. A luminosidade era tão forte que
chegou a abafar a luz dos fogos vitais.
Os skaldales soltaram um grito e atiraram-se no chão rochoso. O grande trovão
estava com raiva deles. Certamente o tinham contrariado ao entrar na floresta de cristal.
Ruor cobriu os olhos com as mãos fechadas, enquanto tremia de medo, à espera da
voz do deus zangado. E ela se fez ouvir! Um rugido terrível fez balançar o céu em suas
cabeças. A floresta de cristal abaixou-se, assustada, e tudo permaneceu em silêncio em
seu interior.
Logo passou.
Ruor levantou a cabeça, incrédulo. Quase não conseguia acreditar que ainda
estivessem vivos.
Ruor levantou a voz para recitar um hino de gratidão e aos poucos foi sendo
acompanhado pelos outros. Esperava que desta forma pudesse aplacar o grande trovão,
embora ainda tivessem de permanecer algum tempo na área reservada a ele.
Em seguida prosseguiram na caminhada.
De vez em quando Ruor tirava da sacola o indicador de fogo.
Mas a pedra mágica continuou fria em sua mão. Por ali não havia nenhuma caverna
em cujo interior ardesse o fogo sagrado.
As primeiras sombras compridas cobriram a floresta de cristal. As cores foram
escurecendo.
Era a hora da aranha que saía à procura de uma presa pouco antes do anoitecer.
Tratava-se de um ser semi-orgânico, que passava as horas de calor do dia numa modorra,
para acordar somente na breve hora que separava a noite do dia — com toda força e uma
fome insaciável.
Esta aranha possuía um órgão do olfato que reagia a um único odor que todos os
mamíferos tinham em comum. Além disso possuía um órgão do tato, formado por
filamentos muito finos, que a qualquer contato, por menor que fosse, emitiam um
comando para que se deixasse cair, desde que o órgão do olfato entrasse em
funcionamento juntamente com o do tato. Ainda havia um órgão sensível à temperatura,
que punha em ação um alerta diante do calor, e um ferrão capaz de perfurar qualquer
mamífero. Este ferrão também servia para bombear o líquido, completando o
equipamento da aranha.
Qualquer entomólogo terrano classificaria esta aranha como um carrapato terrano
que em virtude de uma mutação fora afetada por um fenômeno de gigantismo, com
algumas diferenças de pouca importância, exigidas pelas características do planeta e do
meio ambiente.
Tal qual o carrapato, a aranha permanecia imóvel nas copas de algumas árvores, até
que um mamífero passasse embaixo dela, tocando nos órgãos do tato. Quando isso
acontecia, ela se deixava cair e agarrava a vítima com um sem-número de braços. Enfiava
o ferrão no corpo da vítima e sugava o líquido que havia nele. Em seguida voltava a subir
nas árvores, onde esperava a vítima seguinte.
A aranha não tinha inimigos. No planeta não havia nada que pudesse ser comparado
com ela em força e tamanho.
Foi Regy que se descuidou e tocou nos fios brilhantes prateados.
Soltou um grito de pavor, que fez os outros se virarem abruptamente.
Ruor sentiu a penugem que ficava do lado de seu corpo arrepiar-se de medo.
Incapaz de pensar claramente, viu Regy desaparecer embaixo do bolo de pernas agitadas
de uma aranha ainda jovem, que acabara de cair das árvores.
***
Os dois sóis de Boultat já estavam perto do horizonte.
Sombras compridas estendiam-se sobre as savanas e florestas. Três pontos escuros
apareceram ao longe e aproximaram-se em vôo rápido da cadeia de montanhas que ficava
ao norte da floresta de cristal.
Perry Rhodan voava entre os ertrusianos Melbar Kasom e Oro Masut. As florestas
virgens formadas por arbustos de dez metros de altura deslizaram embaixo dele. Estas
florestas cobriam quase completamente uma região do planeta. Só de vez em quando a
floresta de cristal se abria, dando lugar a áreas amplas, cobertas de capim ondulante de
quase dois metros de altura.
A luz variável e ofuscante dos dois sóis era amortecida até certo ponto pelos filtros
dos capacetes, mas apesar disso os olhos de Rhodan doíam. Ainda não compreendia que
alguém pudesse suportar este mundo infernal.
Boultat realmente era um mundo infernal, sob vários aspectos.
Mais uma vez, como já acontecera tantas vezes nas últimas duas horas, o
Administrador-Geral pensava no grupo de noventa e dois homens mantidos como
prisioneiros pelos comandantes supremos da guerrilha de Magalhães, em algum lugar das
profundezas do planeta.
Fazia cerca de duas horas que Roi Danton transmitira uma informação alarmante a
Perry Rhodan. Os centros de rastreamento dos gurrados, espalhados em todo o planeta,
de repente haviam detectado impulsos de hiperrádio de grande potência, irradiados para o
espaço em forma de sinais goniométricos.
O triunvirato logo suspeitou dos terranos. Pensou que os prisioneiros possuíssem
um aparelho escondido, que fora posto em funcionamento ou programado durante a luta
travada há pouco para enviar sinais goniométricos, cuja finalidade consistia em chamar a
atenção dos perlians e de seus agentes de cristal para o quartel-general secreto dos
guerrilheiros de Magalhães.
Roi Danton fez o possível para convencer os gurrados de que não era culpado da
transmissão dos sinais goniométricos, mas estes não lhe deram ouvidos.
Roumbaki continuava a acreditar que a qualquer momento poderia chegar uma frota
pilotada por generais submetidos à influência dos cristais, para apoderar-se do quartel-
general dos guerrilheiros...
Perry Rhodan efetuou algumas manobras ligeiras para corrigir o desvio causado por
uma súbita rajada de vento. A música da caixa de ressonância tocada pelo vento que
passava sobre as florestas de cristal era cada vez mais forte.
Bem ao longe, à esquerda do grupo, no lugar em que segundo os cálculos de
Rhodan devia ficar o vale cuidadosamente camuflado que os guerrilheiros usavam como
porto espacial, um raio chamejante saiu do chão. Uma nave-pêra apoiada sobre o raio
saiu para o espaço com um rugido selvagem.
A superfície do planeta parecia primitiva e intocada, mas seu interior tinha sido
escavado. Cidades gigantescas, centros industriais e enormes estaleiros espaciais, centros
de cultura e estabelecimentos de educação foram instalados lá. O único acesso ao
gigantesco quartel-general dos guerrilheiros de Magalhães eram os portos espaciais muito
bem camuflados, que ficavam no fundo de vales e desfiladeiros profundos.
Boultat era o centro nervoso da resistência contra os perlians e os agentes de cristal.
Se o planeta caísse nas mãos do inimigo, a resistência desmoronaria completamente.
Por isso era perfeitamente compreensível que para os gurrados as hipertransmissões
detectadas de repente representassem um perigo grave à sua existência.
Os comandantes supremos dos gurrados e dos demais povos que continuavam livres
não recuariam diante de nada para fazer com que os prisioneiros terranos revelassem o
lugar em que estava escondido o hipertransmissor. Roi Danton e os outros noventa e um
homens de seu grupo ainda eram considerados como sendo aqueles que tinham
provocado as transmissões.
Por enquanto os gurrados limitavam-se às ameaças, conforme Perry Rhodan foi
informado por Oro Masut, que mantinha contato ininterrupto com Roi Danton. Por
quanto tempo?
Os dois ertrusianos voavam em silêncio ao lado de Perry Rhodan.
Seus rostos pareciam tensos, e quando falavam sua voz tinha um tom preocupado.
Estavam cada vez mais perto das montanhas, e da caverna.
“É estranho”, pensou Rhodan um tanto admirado. “Um povo que domina uma
tecnologia e uma ciência bastante avançadas tem um medo quase supersticioso do poder
hipnossugestivo dos cristais!”
“Mas, o que é pior”, achou Perry Rhodan, “é que os gurrados e seus semelhantes,
os shangantes e os perlians, chegam a entrar em pânico por isso. Pelo que soubemos até
agora, o olho do tempo que estes possuem foi considerado muito mais eficiente do que
realmente é. Talvez seja uma coisa condicionada por sua natureza”, lembrou-se o
Administrador-Geral.
Alguma vez, num passado distante, certamente acontecera uma coisa nos gurrados
que deu origem a este medo supersticioso. Mas o que seria?
O Administrador-Geral só descobriria bem mais tarde que sua hipótese só era
verdadeira em parte.
De qualquer maneira já percebera que os misteriosos sinais transmitidos pelo hiper-
rádio poderiam representar a morte de Roi Danton, e os noventa e um sobreviventes
terranos. Ele e os dois ertrusianos tinham de encontrar um meio de descobrir quem era
responsável pela emissão dos sinais goniométricos.
Assim que chegara a informação de Roi Danton, Oro Masut tratara de abrir a bolsa
achatada que carregava nas costas.
Retirou dela um aparelho portátil muito potente, capaz de localizar o ponto de
origem das hipertransmissões. O Administrador-Geral não conhecia este modelo. Não
podia saber mesmo que o aparelho tinha saído dos laboratórios secretos do Dr. Geoffry
Abel Warringer, que era seu genro.
Oro Masut não teve a menor dificuldade em determinar a posição do
hipertransmissor desconhecido. Era bem verdade que este transmissor parecia ter vida
própria, o que era bem estranho.
Quando chegaram ao lugar em que devia ficar o transmissor, os três tiveram uma
decepção. Já não se encontrava no lugar determinado pelo guarda pessoal de Roi Danton.
Perderam mais de dez minutos para revistar a área num raio de alguns quilômetros.
Nada!
Desolados e preocupados, voltaram à caverna.
Passaram quarenta e cinco minutos martirizando-se com auto-recriminações que
culminavam no fato incontestável de que tinham seguido uma pista errada. De repente
Masut detectou outra transmissão de hiperimpulsos.
Logo compreenderam o que tinha acontecido.
Os impulsos só podiam ter saído de um transmissor portátil. Era por isso que não o
tinham encontrado da primeira vez.
Mas só se deram conta da rapidez com que o transmissor se movimentava quando
tentaram de novo localizá-lo.
Desta vez os dois ertrusianos voaram um de cada lado do Administrador-Geral e
saíram em alta velocidade, usando seus potentes equipamentos de vôo. Foi em vão.
Quando chegaram ao lugar em que deveria estar o transmissor, este já tinha desaparecido.
Perry Rhodan voltou à realidade presente.
Esta realidade consistia no vôo pelo anoitecer de Boultat, com um calor que fazia
tremeluzir o ar.
O vento aumentava cada vez mais à medida que o dia ia chegando ao fim. A música
da caixa de ressonância tocada pelo vento já não era tão harmoniosa. De repente parecia
mais estridente, aumentando num crescendo cujas dissonâncias cobriam a paisagem.
Melbar Kasom subiu mais algumas centenas de metros. Seus olhos viram grande
parte da superfície do planeta. Não notou nada de anormal. Protegidos pelos campos
defletores, os três homens quase não corriam nenhum perigo de serem descobertos. Os
centros de rastreamento dos gurrados certamente não vigiariam a superfície do planeta.
Dedicariam sua atenção principalmente ao espaço cósmico, de onde viria o inimigo.
Melbar Kasom voltou a descer.
Adaptou-se à velocidade dos companheiros e examinava atentamente a floresta de
cristal, que deslizava rapidamente embaixo deles.
O perigo eram os destacamentos dos gurrados que vasculhavam as florestas e
savanas de Boultat.
Kasom não viu nada disso.
Aos poucos a floresta foi-se tornando menos espessa. As primeiras rochas
interromperam a vegetação compacta. Os primeiros contrafortes da cadeia de montanhas
já faziam sentir sua presença. Havia superfícies extensas cobertas de um capim que
chegava a quase dois metros de altura. Na extremidade de uma destas ilhas de capim o
especialista da USO viu uma coisa que parecia importante.
Perry Rhodan proibira terminantemente as comunicações pelo rádio. Depois dos
sinais goniométricos, detectados pela primeira vez há cerca de duas horas, era provável
que houvesse grupos de reconhecimento dos gurrados viajando em planadores de alta
velocidade, para tentar descobrir a posição do hipertransmissor.
Por isso qualquer sinal de rádio saído das antenas instaladas nos capacetes dos
homens poderia ter conseqüências desastrosas para Perry Rhodan e os ertrusianos.
Mas a detecção ótica não era possível, uma vez que continuavam protegidos pelos
campos defletores.
Por isso Kasom era obrigado a usar outro meio para chamar a atenção dos
companheiros.
Acelerou um pouco, passando a voar à frente de Rhodan e Masut, e apontou
nervosamente com a mão esquerda para baixo.
Perry Rhodan e Oro Masut tiveram a atenção despertada e olharam na direção
indicada.
Junto à floresta de cristal, que naquele lugar se abria numa ilha de capim, havia
alguns seres de pele azul que lutavam para salvar a vida de um ser de sua espécie que
estava indefeso, preso nas garras de uma criatura monstruosa.
O monstro tinha certa semelhança com uma aranha terrana, mas era uma
comparação um tanto forçada. A aranha que se via lá embaixo não possuía propriamente
um corpo. Lembrava antes uma rede de malha grossa, que parecia ter uns dois ou três
metros quadrados. Dos nós da rede saíam filamentos compridos. Os nós da periferia eram
mais fortes, prolongando-se para formar braços muito flexíveis.
A aranha em forma de rede atirara-se sobre o ser de pele azul, que devia pertencer
ao grupo dos habitantes primitivos de Boultat.
Perry Rhodan fez alguns sinais apressados.
Oro Masut fez um gesto de consentimento. Aproximaram-se depressa do campo de
batalha.
O guarda pessoal do rei dos livres-mercadores pegou a arma energética pesada que
trazia no cinto. Apoiou o cano na curva do braço esquerdo e fez pontaria com muito
cuidado.
Encontravam-se bem em cima do palco dos acontecimentos.
No fundo o Administrador-Geral admirava os companheiros da vítima, que
tentavam arrancá-la das garras da aranha sem medo de sacrificar a própria vida.
Neste instante um feixe de raios muito largo passou perto de Rhodan e atingiu o
alvo.
A aranha feroz foi queimada numa questão de segundos, transformando-se numa
massa de poeira cristalina, que brilhou ligeiramente à luz do sol antes de descer ao chão.
Perry Rhodan e o ertrusiano baixaram lentamente sobre o chão.
***
As sombras tornaram-se ainda mais compridas. Dali a pouco anoiteceria de vez.
Eram em nove e estavam sentados em círculo: seis nativos de Boultat, de pele azul,
e três homens vindos de uma galáxia distante.
No meio deles havia um pequeno aparelho cúbico colocado sobre um tripé baixo.
Era uma tradutora que trazia a marca de uma grande empresa terrana.
O sistema positrônico do pequeno aparelho zumbia e estalava ininterruptamente.
Fazia alguns minutos que o especialista da USO o programara com alguns dados
fundamentais.
— É estranho, mas parece que não estão com medo — murmurou Oro Masut.
Os três homens estavam com os capacetes dobrados para trás, pois só assim
poderiam comunicar-se.
O calor era tão forte que quase não conseguiam respirar. Dentro de alguns segundos
o suor começou a brotar em sua testa e foi descendo junto à gola de seu traje de combate.
— Seria de esperar — prosseguiu Oro Masut — que três figuras horríveis
aparecendo de repente causassem certo pânico. E não há dúvida de que nós com nossos
trajes de combate somos figuras horríveis.
— Por quê? — objetou Perry Rhodan. — Acho que para eles somos deuses que
vieram em seu auxílio quando se encontravam em dificuldades.
— Se é assim, por que estão tremendo desse jeito? — perguntou Melbar Kasom
com um olhar curioso para os seres de pele azul.
— Quem sabe? — resmungou o Administrador-Geral, indignado. — Talvez estejam
com frio.
O especialista da USO deu uma risada sem graça.
— Com frio! — disse.
Enxugou desesperadamente o suor da testa e olhou para o termômetro embutido no
painel de controle de vôo do traje de combate.
—. A temperatura ainda é de quarenta e cinco graus — e lá vem o senhor dizer que
alguém pode estar sentindo frio.
O gigante ertrusiano calou-se, mal-humorado.
O zumbido da tradutora colocada no meio do grupo tornou-se mais forte. Mas a luz
verde que indicaria o fim do processo de adaptação ainda não se acendera.
Uma rajada de vento trouxe uma massa de ar quente, quase irrespirável. Era
estranho, mas o tremor dos nativos tornou-se mais forte. Juntaram-se como quem quer
proteger-se e lançaram olhares assustados para o céu.
Perry Rhodan olhou para o relógio. Era o dia trinta de novembro de 2.435, quatorze
horas e vinte e cinco, tempo padrão.
Em Boultat era noite.
Há vinte minutos tinham detectado mais uma hipertransmissão. Levaram somente
dez minutos para percorrer a distância de sessenta quilômetros — e não encontraram
nada.
Estavam perto do esconderijo. “Quando”, perguntou o Administrador-Geral a si
mesmo, “o rastreador de Oro Masut dará o alarme pela terceira vez?”
Perry Rhodan quase chegou a lamentar que estivesse perdendo tempo com um
acontecimento que não lhe dizia respeito. Mas logo chamou seus pensamentos à ordem.
Havia uma lei obedecida por qualquer ser inteligente. A lei que mandava prestar auxílio a
quem precisasse. E os nativos de Boultat precisavam muito.
— E agora, senhor? — perguntou Kasom em voz baixa.
— Ainda não sei — respondeu Perry Rhodan, pensativo.
Olhou para os seres que estavam sentados à sua frente.
O corpo dos nativos de Boultat era perfeitamente humano, com exceção da pele
azul. Tinham cerca de um metro e setenta de altura e eram robustos, apresentando
músculos que se destacavam perfeitamente embaixo da pele.
Mas a cabeça apresentava características diferentes. Era calva e apresentava uma
plumagem vermelha mais ou menos no lugar em que ficavam as orelhas do ser humano.
As penas podiam se encostadas ao crânio, tornando-se parecidas com um capacete.
Tinham certa semelhança com os capacetes alados dos vikings.
O rosto dos seres de pele azul não tinha muita semelhança com o dos humanos. A
ossatura era estreita, os maxilares muito salientes e tinham um nariz fortemente
encurvado, de crista estreita, que lhes dava um aspecto de pássaro. Esta impressão era
reforçada pelos olhos amarelos, que em vez das pestanas possuíam membranas.
Havia uma pele vermelha ligando a ponta do queixo à parte superior do tórax. Ao
que tudo indicava, seus antepassados tinham sido seres voadores, capacidade esta que foi
regredindo no curso dos séculos.
Três dos nativos eram homens. Os outros três deviam ser do sexo feminino. Nelas o
saiote fora substituído por uma vestimenta em forma de tubo, que deixava livre os
ombros e os joelhos.
Seus corpos eram mais estreitos e delicados. Os músculos do braço não pareciam
tão desenvolvidos.
Perry Rhodan voltou a olhar para o relógio. Estava impaciente. Eram quatorze horas
e trinta e cinco minutos, tempo padrão. Mais dez minutos, e ainda não tinham conseguido
nada.
Finalmente a luz verde acendeu-se.
A tradutora emitiu um grasnado e em seguida passou a falar, devagar e de forma
clara, aos nativos, cujas plumagens se abriram e se puseram de pé.
— Nossos cumprimentos! — foi a primeira coisa que Perry Rhodan mandou
introduzir na programação da máquina.
O mais alto do grupo dos nativos inclinou o corpo e começou a falar.
— Nossos agradecimentos, homens voadores sem asas — disse a voz saída da
tradutora.
Melbar Kasom soltou um grito de espanto.
— Como foi que ele nos chamou? — perguntou, incrédulo.
— O nome que nos deu tem sua razão de ser — respondeu Perry Rhodan com um
sorriso ligeiro. — Basta lembrar que descemos os últimos metros com os campos
defletores desligados — e sem asas. Parece que este sujeito tem uma inteligência bem
viva. Além disso de sua resposta podemos deduzir que neste planeta existem nativos
capazes de voar. Se não fosse assim, não haveria motivo para ele nos ter chamado assim.
O especialista da USO voltou a sacudir a cabeça, incrédulo, mas ficou calado
quando outras palavras saíram da tradutora.
— São embaixadores do grande trovão que vive na planície?
A mão do nativo apontou para o lugar em que, segundo sabia Perry Rhodan, ficava
o porto espacial camuflado dos guerrilheiros de Magalhães.
— Senhor! — murmurou Oro Masut, nervoso. — Ouviu como este sujeito chamou
os ruídos de pouso e decolagem das naves dos gurrados? Será que já esteve em contato
com um deles?
— Não acredito — resmungou Kasom enquanto enxugava o suor da testa. — Em
minha opinião a área em torno do porto espacial deve ser tabu. Certamente acham que é a
sede de alguma divindade...
— Ou de um demônio — interrompeu seu companheiro, O rosto de Masut,
desfigurado por grandes cicatrizes, estava voltado para o especialista da USO.
Perry Rhodan não manifestou sua opinião sobre as hipóteses levantadas. Ainda não
encontrara nenhuma resposta à pergunta do nativo.
Dissesse o que dissesse, provavelmente não seria compreendido.
Era simplesmente impossível superar por meio de palavras o abismo imenso que se
abria entre os acontecimentos que se verificavam no interior da nuvem de Magalhães e o
mundo dos seres de pele azul, cheio de deuses e demônios. Por isso Perry Rhodan
preferiu esquivar-se a uma resposta direta.
— Viemos de lá — limitou-se a dizer.
Os seres de pele azul demonstraram certo medo quando a máquina traduziu as
palavras do Administrador-Geral. Num gesto claro de submissão, os homens do grupo de
nativos depositaram as espadas curvas e os longos arpões à frente de Perry Rhodan e dos
ertrusianos. Em seguida desamarraram as sacolas de couro que traziam presas ao cinto e
colocaram-nas ao lado das armas.
Rhodan acreditava que nestas sacolas houvesse uma espécie de amuleto.
De repente o ruído da caixa de ressonância do vento foi superado por um barulho
bem mais forte. Um trovão desceu da fulgurante abóbada de luz do céu, para em seguida
tornar-se mais grave e retumbante. Em seguida parou.
Mais uma nave-pêra dos gurrados que acabara de pousar em Boultat.
Os seres de pele azul recitaram uma cantoria que a máquina não pôde traduzir. Era
formada somente por sons articulados ininteligíveis.
Viviam atirando-se ao chão à frente dos três homens, dando a impressão de que
suplicavam misericórdia para não sofrerem uma terrível vingança.
— Parem com isso! — disse Perry Rhodan em tom enérgico.
As lamentações dos nativos pararam imediatamente. Levantaram hesitantes e
ficaram numa posição sentada, olhando para os três homens que em seus trajes reluzentes
deviam parecer seres saídos de uma fábula. Seus olhos amarelos mostravam medo e
insegurança.
— Fizemos alguma coisa para provocar sua raiva, homem voador sem asas? —
perguntou o chefe do grupo depois de algum tempo a Perry Rhodan.
O Administrador-Geral respondeu com uma expressão condescendente e sacudiu a
cabeça.
— Não — respondeu. — Não estou zangado. Acontece que não podemos perder
tempo. Precisamos seguir viagem. Temos uma missão a cumprir. Talvez ainda nos
encontremos.
O próprio Perry Rhodan não acreditava nisso quando ia levantar, mas era o mínimo
que poderia dizer.
O ser de pele azul sacudiu a cabeça. De repente seu rosto mostrou uma profunda
resignação.
— Nunca mais nos veremos — disse a voz saída da tradutora. — Assim que o fogo
vital descer do céu, morreremos.
— Ein?
O grito de espanto partiu de Melbar Kasom.
Perry Rhodan, que estava colocando o capacete, interrompeu-se. Relutante e
indeciso, olhou para o ser de pele azul que acabara de dizer estas palavras — sem a
menor ênfase, como se encarasse um destino inevitável.
— Fique quieto, Kasom — disse o Administrador-Geral depois de algum tempo ao
gigante ertrusiano, que fazia perguntas com a voz retumbante. — Como você se chama,
amigo de pele azul? — perguntou Perry Rhodan ao nativo que sem dúvida era o chefe do
pequeno grupo. — E como se chamam seus companheiros?
— Meu nome é Ruor. Sou o filho mais velho do fabricante de arpões Rourhar, do
clã dos skaldales. Estes são Aron e Colar, os gêmeos. E estas aqui são Onys, Regy e
Ayos, que também pertencem ao clã dos skaldales. Há dias iniciamos uma viagem para o
clã vizinho, o dos skopolones. Na volta viemos parar nesta região inóspita, onde reina o
trovão e onde vivem nossos inimigos mais poderosos, o algoz e a aranha. Avançamos
bem longe das trilhas conhecidas, travamos inúmeras lutas, mas sempre encontramos
uma caverna para passar a noite.
Ruor calou-se. Seu rosto de pássaro magro brilhava e as plumagens vermelho-vivas
do lado da cabeça tremiam ligeiramente, enquanto seu corpo exalava um cheiro
penetrante, que Perry Rhodan achou parecido com o do anis.
— Quem são vocês, homens voadores sem asas? — perguntou Ruor depois de
algum tempo.
Os olhos do nativo não mostravam pânico nem medo exagerado. Os dois gigantes
blindados, Kasom e Masut, certamente o assustavam, mas ele não dava a perceber.
Perry Rhodan não metia tanto medo. Sua figura era maior que a dos skaldales, mas
guardava certa proporção com ela, mas a dos dois estrusianos saía das medidas.
— Nossos nomes são Rhodan, Kasom e Masut — respondeu Perry Rhodan com um
gesto vago.
— O que são vocês?
Perry Rhodan hesitou. Kasom não conseguiu reprimir um sorriso irônico.
— Está na hora de abrir o jogo, senhor — murmurou em tom desrespeitoso. —
Finalmente ficarei sabendo em que categoria o senhor se enquadra, Administrador-Geral.
Perry Rhodan fitou-o com uma expressão enérgica. Mas havia um brilho alegre no
fundo dos seus olhos. Não conseguiu zangar-se com as palavras de Kasom. Voltou a
dirigir-se a Ruor.
Respondeu à pergunta que este acabara de formular.
— Sou o administrador de um grande império — disse. — Estes dois são meus
guardas pessoais.
— De um grande império? — repetiu Ruor, espantado. — Não conheço nenhum
grande império aqui por perto.
— Caramba! Como este sujeito é curioso — resmungou Kasom em voz tão baixa
que a máquina não pôde traduzir suas palavras.
— O império não fica perto daqui — disse Perry Rhodan.
— Você certamente nunca ouviu falar dele.
— Onde fica? — perguntou Ruor, bastante interessado. O Administrador-Geral fez
um gesto amplo, que poderia significar qualquer coisa.
— Lá fora — respondeu.
— Além das montanhas nevadas, no fim do mundo? — perguntou Ruor, inclinando
o corpo, ansioso.
— Muito, muito mais longe que isso — respondeu o Administrador-Geral em tom
paciente.
Parecia que esta informação e as perspectivas que ela trazia consigo tinham sido
demais para Ruor, que ficou calado.
— Então, Masut? — perguntou Rhodan, dirigindo-se ao guarda pessoal de Roi
Danton. — Seu aparelho já deu sinal de mais alguma hipertransmissão?
Oro Masut olhara ininterruptamente para o detector de hiperondas, um aparelho
achatado, sem participar da conversa com o nativo.
— Por enquanto não, senhor — respondeu, sacudindo a cabeça. — E olhe que já faz
trinta e cinco minutos que detectamos os sinais pela última vez. O que pretende fazer,
senhor? — acrescentou.
Perry Rhodan olhou para Ruor. Parecia pensativo.
— Acho que estaremos ocupados por algum tempo — disse finalmente em tom
hesitante.
— O que é isso, senhor? — protestou Melbar Kasom. — E se não pudermos
localizar o ponto de origem da próxima hipertransmissão pelo simples motivo de
ficarmos presos aqui?
O gigante ertrusiano parecia preocupado exclusivamente em localizar o
hipertransmissor que enviava sinais goniométricos para o espaço.
— Não a perderemos, baixinho — acalmou Oro Masut.
— Nenhum movimento da agulha me escapará, por menor que seja. Pode pôr a mão
no fogo por isto.
Sem saber, Oro Masut acabara de usar um antigo provérbio terrano, que como
tantos outros tivera ingresso na linguagem moderna.
— Quietos! — disse o Administrador-Geral em tom enérgico. Em seguida dirigiu-
se ao especialista da USO. — Kasom, cale a boca e preste atenção. Masut, se detectar
uma hipertransmissão, avise imediatamente. Entendido?
Os ertrusianos fizeram um gesto afirmativo.
— Agora vejamos você, amigo — disse Perry Rhodan ao ser de pele azul. — Fale
logo! Diga por que terão de morrer assim que ficar noite. Se isso realmente acontecer,
então não temos muito tempo.
O Administrador-Geral olhou para o céu.
Os dois sóis de Boultat estavam junto ao horizonte. O vento tinha diminuído. Estava
tudo em silêncio. Não se ouvia mais a música da caixa de ressonância do vento. Tinha-se
a impressão de que o mundo prendia a respiração antes de entregar-se à noite.

— O frio nos matará — disse Ruor em meio ao silêncio carregado de tensão.


— O frio? — repetiu Perry Rhodan, perplexo.
Inclinou o corpo. De repente seu rosto estreito, cheio de energia, assumiu uma
expressão muito pensativa. Por algum tempo os pensamentos precipitaram-se em seu
cérebro. No início não quis acreditar, mas Ruor acabou confirmando indiretamente o que
estivera pensando.
— Quando a noite desce sobre nosso mundo, nenhum dos skaldales, dos skopolones
ou dos homens alados do vale sobrevive à escuridão com o frio terrível que traz consigo,
a não ser que consiga recolher-se às cavernas em cujo interior arde o fogo sagrado.
Depois disso todos ficaram em silêncio por algum tempo.
— Gostaria de saber uma coisa, senhor — cochichou Kasom em tom insistente. —
Que povo é este que sente frio quando a temperatura chega a quarenta graus?
— Você comete o erro de julgar os outros por nós, baixinho — respondeu Oro
Masut no lugar de Rhodan.
— Não compreendo... — principiou, desorientado.
— É simples — retrucou Oro Masut, enquanto seu rosto desfigurado pelas
cicatrizes se abriu num sorriso bonachão. — A temperatura do corpo de Ruor e seus
companheiros é muito mais elevada que a nossa. Para eles o calor sufocante que nos faz
sofrer certamente é como o ar fresco da primavera. Acho que a temperatura de seus
corpos deve ficar em torno de sessenta graus. Basta que a temperatura externa caia
durante a noite para que morram de frio, a não ser que recebam calor de uma outra fonte.
— As coisas também não são tão simples! — contestou o Administrador-Geral. —
O que o senhor acaba de dizer pode estar certo em linhas gerais. Mas em minha opinião
há vários outros fatores em jogo. Afinal, nós não morremos de frio pelo simples fato de a
temperatura externa ficar mais baixa que a de nosso corpo. Pelo contrário. Suportamos
temperaturas extremamente baixas. É claro que no momento não temos como verificar
qual é o elemento que falta no organismo de Ruor, ao contrário do que acontece conosco,
e que o obriga a passar a noite perto de uma fonte de calor uniforme. Devem ser vários
fatores, que certamente representarão um problema difícil para nossos fisiólogos. Mas
seja como for, uma coisa é certa. Ruor e seus companheiros têm de ser levados a uma
caverna em que haja bastante calor para mantê-los vivos.
— Que tal nossa caverna? — sugeriu Oro Masut.
— Já pensei nisso — respondeu Perry Rhodan. — Mas não tenho certeza se em
nossa caverna estão acesos os fogos sagrados de que falou Ruor.
— Acho que estão — interveio Melbar Kasom. — Quando descobrimos a caverna,
fiz uma inspeção e vi que bem nos fundos dela saem do chão grandes quantidades de gás
em combustão.
— Por Ertrus! — exclamou Oro Masut, batendo ruidosamente com a mão no ombro
blindado do companheiro. — Aí está a solução. Os fogos sagrados são gases queimando,
que saem de dentro do planeta. Geram bastante calor para que nossos amigos tão
sensíveis não morram de frio.
— Ainda resta um problema. Temos de transportá-los bem depressa — afirmou
Perry Rhodan e sorriu com uma expressão confiante para Ruor e seus companheiros, que
acompanhavam a conversa bastante confusos. A máquina não podia traduzir tudo ao
mesmo tempo, e por isso só tinham entendido algumas frases soltas.
— Deixe isso por nossa conta, senhor — respondeu Melbar Kasom. — Cada um de
nós pode transportar três destes pesos leves, sem que o desempenho de nosso
equipamento de vôo seja afetado.
2

Pouco depois da meia-noite a espessa camada de nuvens abriu um pouco. Dali a


pouco o céu de Boultat ficou completamente limpo.
A figura elipsóide fortemente achatada da galáxia distante espalhava uma luz
fantástica. Perto dela as constelações da grande nuvem de Magalhães brilhavam num
esplendor nunca visto. Davam a impressão de que os deuses tinham espalhado
quantidades enormes de pó de diamante num pano de veludo escuro.
O vento diminuiu. A melodia da caixa de ressonância do vento tocada pelas
florestas de cristal de Boultat transformou-se num leve sussurro. O perfume de flores
estranhas enchia o ar. Por uma breve hora teve-se a impressão de que o mundo estava
sonhando.
Até mesmo os ruídos da incessante luta pela vida travada pelos animais selvagens
tinham cessado.
De repente o novo dia anunciou sua chegada.
Por uma fração de segundo uma escuridão azul-escura cobriu a superfície do
planeta. Até parecia que uma mão de gigante varrera a luz das estrelas.
De repente uma chuva de fogo brilhante apareceu no horizonte e tingiu-o com a cor
do sangue. Dali a alguns segundos a bola do sol anão branco subiu repentinamente no céu
iluminado.
Em seguida apareceu o outro sol, bem maior.
Uma orgia de luzes fulgurante caiu sobre Boultat.
***
Perry Rhodan acordou antes do raiar do dia.
Em virtude do tempo muito curto que Boultat levava para dar uma volta em torno
de seus dois sóis, a noite do planeta não durava mais de quatro horas.
Tinham passado três das quatro horas quando o Administrador-Geral do Império
Solar acordou banhado em suor no meio de sonhos horríveis, olhando em volta
apavorado.
Finalmente compreendeu onde estava. Suspirou e deixou-se cair para trás. Apoiou a
cabeça na parede de rocha e contemplou a claridade trêmula produzida pelos dois fogos
sobre os quais os ertrusianos preparavam sua primeira refeição.
Os pedaços violetas de madeira quebradiça ardiam por alguns minutos com uma
chama azul muito quente. De repente desmanchavam-se em cinzas.
O Administrador-Geral contemplou Melbar Kasom enquanto este punha água para
ferver numa panela dobrável. Enchera a panela numa pequena nascente que descia do teto
mais para os fundos da caverna. O ertrusiano tirou alguns cubos de café concentrado das
provisões que levava e jogou-os na panela. Em seguida encheu os três canecos que se
encontravam sobre uma rocha, perto do lugar em que fora aceso o fogo.
Dali a alguns minutos Perry Rhodan pediu que enchessem de novo seu caneco,
enquanto se lamentava porque o café concentrado tinha o gosto de mofo geralmente
encontrado neste produto.
O Administrador-Geral suspirou de forma imperceptível e sorveu de um só gole o
café forte. Tentou iludir o sentido do paladar, imaginando o aroma do café moído na
hora.
— Como vão nossos amigos? — perguntou em seguida a Melbar Kasom, que
estava abrindo o segundo pacote de alimento concentrado.
— Estão dormindo — resmungou o ertrusiano, que estava com a boca cheia. —
Estive lá atrás há pouco tempo — disse depois de algum tempo, falando um pouco mais
claro. — Estão deitados entre as chamas de gás. Que criaturas estranhas! — o especialista
da USO sacudiu a cabeça enorme, espantado.
— Só agüentei alguns minutos por lá. Os gases queimando produzem um calor
infernal — prosseguiu. — Parece que Ruor e seus companheiros sentem-se bem com
isso.
— Infelizmente não temos tempo para conhecer mais de perto o povo de Ruor! —
disse Perry Rhodan com a voz triste. Em seguida dirigiu-se a Masut, que examinava
atentamente os instrumentos acoplados ao rastreador achatado, que colocara no chão bem
à sua frente. — Tem notícias de seu rei, Masut? — perguntou ao guarda pessoal de Roi
Danton.
Masut fez que sim.
— São notícias boas?
Masut sacudiu a cabeça. Felizmente concordou em dizer alguma coisa.
— Ainda estou em contato com meu rei, senhor. É verdade que a distância
aumentou muito. Há duas horas ainda consegui compreender algumas palavras, mas
agora isto já não é possível. Temos de usar o alfabeto Morse.
— O que acha que isso significa, Masut?
— Significa que nossos amigos foram levados a um lugar mais profundo situado
embaixo da superfície de Boultat.
Perry Rhodan confirmou com um gesto.
— O transmissor de hiperondas não entrou mais em atividade?
— Não senhor.
— Seria mesmo bem desagradável se tivéssemos de deslocar-nos rapidamente no
escuro e num planeta desconhecido — disse Kasom.
— Isso mesmo, Kasom — confirmou Perry Rhodan, embora não concordasse
completamente com o que o ertrusiano acabara de dizer.
Alguma coisa o impedia de manifestar-se inteiramente de acordo com esta
conclusão simples, que não deixava de ser lógica.
— Acho que nossos amigos que estão sentados atrás do transmissor não demorarão
a dar novamente um sinal de vida — disse Oro Masut enquanto olhava fixamente na
direção em que ficava a entrada da caverna. — Parece que já começou a clarear —
prosseguiu. — Acho que devemos estar preparados para partir de um instante para outro.
Na noite do dia anterior, quando tinham sido detectadas pela primeira vez, por meio
do aparelho de Oro Masut, as hipertransmissões mencionadas por Roi Danton, o local da
transmissão ainda ficava nas imediações do porto espacial camuflado. A segunda
detecção foi realizada quarenta e cinco minutos, e as transmissões tinham partido de um
lugar situado a sessenta quilômetros. Era um fato que permitia várias conclusões. Podia-
se admitir, por exemplo, que o transmissor traiçoeiro tivesse sido trazido para Boultat a
bordo de uma das inúmeras naves-pêra que tinham pousado no planeta — antes ou depois
do pouso da nave que trouxera os prisioneiros terranos. Da mesma forma que Perry
Rhodan e os ertrusianos, os desconhecidos tinham descoberto um meio de sair do porto
espacial sem serem notados, escondendo-se na selva de Boultat, de onde passaram a
transmitir os sinais goniométricos.
O que mais preocupava o Administrador-Geral era a distância, que mudava
constantemente. Bem que gostaria de dispor de um jato espacial de alta velocidade, em
vez dos equipamentos de vôo relativamente lentos instalados em sua mochila, que não
alcançavam mais de duzentos quilômetros por hora. Os modelos especiais dos ertrusianos
desenvolviam perto de trezentos quilômetros por hora, o que ainda era pouco para que se
pudesse localizar o transmissor nos poucos minutos que duravam as transmissões.
— Temos de encontrar o transmissor! — exclamou Oro Masut. Havia um traço de
desespero em seu rosto desfigurado pelas cicatrizes. — Se não conseguirmos, podemos
esperar o pior para o rei e os outros prisioneiros.
— Vamos encontrá-lo!
Havia uma resolução obstinada nos olhos de Perry Rhodan.
— Daqui em diante agiremos de outra forma — prosseguiu. — Partiremos assim
que sejam detectados os primeiros sinais goniométricos. Tenho certeza de que mesmo
assim não encontraremos o transmissor no local determinado. Mas em vez de voltar ao
ponto de origem permaneceremos no último local das transmissões. Desta forma
certamente nos aproximaremos cada vez mais do transmissor e acabaremos chegando a
ele enquanto ainda estiver em funcionamento.
Os ertrusianos fizeram um gesto de concordância.
Dali a pouco os três homens estavam sentados na entrada da caverna, preparados
para partir a qualquer momento e perscrutando o crepúsculo matutino com os olhos
atentos.
O dia primeiro de dezembro de 2.435 já começara.
A floresta de cristal deslizava em alta velocidade embaixo de Perry Rhodan e dos
ertrusianos.
Os três deslocavam-se em alta velocidade na direção nordeste. Parecia que o
transmissor portátil tinha seus caprichos. Mudava de posição ao acaso, para tornar mais
difícil a localização.
O dia mal começara com a temperatura em súbita elevação, quando o aparelho de
Masut captou os primeiros sinais goniométricos do hipertransmissor. Desta vez estava a
cerca de cento e vinte quilômetros de sua posição anterior.
Os três partiram dentro de alguns segundos.
Ruor e seus amigos ainda não tinham aparecido. Certamente continuavam
dormindo, embalados pelos fogos sagrados, que representavam a vida para estas
criaturas.
Perry Rhodan quase chegou a arrepender-se por não ter falado mais com Ruor. Mas
por enquanto o mais importante era encontrar o transmissor. O resto tinha de ficar em
segundo plano.
O tempo foi passando. Certa vez atravessaram um bando de dragões voadores, que
possuíam uma estranha câmara de combustão entre as asas. Foi pelo menos a impressão
que Perry Rhodan teve, uma vez que viu perfeitamente uma cauda de gases
incandescentes.
Quando tinham voado vinte e cinco minutos, os homens estavam nas imediações do
transmissor, que suspendera a atividade segundos antes. Mais uma vez chegariam tarde.
Mas Perry Rhodan esperava encontrar ao menos alguma indicação sobre os seres que
manipulavam o transmissor.
Mas esta esperança desapareceu no momento em que os três homens desceram
numa pequena clareira, que tinha cerca de dez metros de diâmetro. Via-se perfeitamente
que em certo lugar o capim cortante, de cerca de dois metros de altura, fora comprimido
por um objeto retangular. Devia ser um objeto bem pesado para quebrar os talos
vigorosos.
“Deve ser um transmissor muito grande para deixar uma marca tão forte no
capim”, pensou Perry Rhodan, admirado.
Era tudo bastante misterioso.
— E agora, senhor? — perguntou Melbar Kasom com a voz abafada.
O ertrusiano encostara seu capacete ao do Administrador-Geral para ser ouvido por
este. Era um método um tanto complicado.
— Ficaremos aqui, esperando — respondeu Perry Rhodan. — Ou melhor, ali.
Apontou para uma árvore de galhos largos, que ficava bem perto.
— Em cima dos galhos estaremos mais seguros que aqui, onde a visibilidade é
pouco superior a zero. O risco de sermos atacado por um animal selvagem ou uma planta
assassina será bem menor.
Subiram por meio dos projetores antigravitacionais, quando de repente um
movimento ligeiro fez tremer o capim. Alguma coisa atravessou o ar chiando e enlaçou o
pé esquerdo de Kasom com um forte estalo.
O ertrusiano começava a subir quando sentiu alguma coisa tocar seu pé. Resmungou
contrariado e olhou para baixo. Uma trepadeira flexível da grossura do dedo polegar de
uma pessoa enlaçava seu tornozelo. Kasom rosnou aborrecido.
Voltou a descer ao chão.
O capim passou a tremer com mais força em torno dele. Outros cipós atravessaram
o ar assobiando e enlaçaram o corpo robusto do ertrusiano.
Melbar Kasom sentiu que as plantas o puxavam de repente. Sorriu.
Firmou os pés no chão e puxou fortemente o cipó que se enrolara em tomo de seu
braço esquerdo.
Na orla da mata uma árvore brilhante, de tronco baixo, executou alguns
movimentos inseguros.
Mas não abandonou a luta.
Um líquido verde brilhante saiu de algumas aberturas muito finas do cipó. O líquido
espumou ao entrar em contato com o traje de combate de Kasom. Devia ser um veneno
usado pela árvore para pôr fora de combate os inimigos mais fortes.
O gigante ertrusiano resolveu acabar logo com a luta.
Segurou um feixe de cipós com as mãos que eram do tamanho de uma pá, firmou-se
sobre os calcanhares e começou a fazer força de verdade.
Os movimentos que se viam na orla da floresta começaram a ficar mais violentos. A
árvore de tronco baixo saiu do chão com um chiado e aproximou-se do ertrusiano,
deslocando-se sobre duas raízes bem abertas.
Kasom pegou o desintegrador superpesado e com um único tiro destruiu a árvore.
Só então percebeu que Perry Rhodan pousara perto dele e estava estabelecendo
contato direto por meio do capacete.
— O senhor foi leviano, Kasom — soou a voz abafada do Administrador-Geral.
— Acha que eu deveria ter deixado a árvore me estrangular? — retrucou o
ertrusiano.
— Não diga bobagens — respondeu Rhodan em tom enérgico. — Não me refiro à
árvore evidentemente mais fraca que o senhor. Estou preocupado com o tiro de
desintegrador, cuja emanação energética poderia perfeitamente ser detectada por uma
nave dos gurrados que por acaso se encontrasse por perto. Não se esqueça de que estes
guerrilheiros dispõem de rastreadores, Kasom.
— Está bem, Chefe — disse o gigante ertrusiano, deprimido. — Da outra vez não
usarei a arma. Estrangularei qualquer árvore que me atacar juntamente com os
respectivos galhos de cipó.
O ertrusiano parou no meio do movimento que estava fazendo. Com Perry Rhodan
aconteceu a mesma coisa.
Ouviram perfeitamente um forte ruído transmitido pelos alto-falantes externos, que
se aproximou rapidamente.
Uma pequena espaçonave gurrada em forma de flecha apareceu sobre a clareira.
Perry Rhodan e os ertrusianos ficaram deitados com os corações palpitantes nos galhos
da árvore em que estavam escondidos.
A nave-patrulha dos guerrilheiros de Magalhães ficou parada durante cinco longos
minutos sobre a clareira. Os canos duplos dos canhões energéticos giravam
ameaçadoramente nas cúpulas de artilharia.
Nestes minutos Rhodan não ouviu nada além das batidas do próprio coração e do
farfalhar do sangue nas veias.
Finalmente a nave-patrulha afastou-se devagar. Desapareceu na luz fulgurante dos
dois sóis.
Perry Rhodan ficou numa posição mais confortável. A única coisa que podia fazer
no momento era esperar.
Foi uma espera desgastante, que caiu sobre os nervos dos três homens, ainda mais
que Oro Masut soube de Roi Danton que entre os terranos reinavam a angústia e o
desespero.
3

A luz clara e ofuscante doía nos olhos. Havia vários centros geradores em
funcionamento perto dali.
Depois que tinham sido levados para as profundezas do planeta, Roi Danton tentara
dormir, mas não conseguira. Só cochilou alguns minutos, mas a luz forte logo penetrou
em seus sonhos agitados, despertando-o.
Danton acabou desistindo.
Em pensamento estava com o pai, que sabia estar esperando o raiar do dia para sair
à procura dos seres responsáveis pelas hipertransmissões, que há algumas horas tinham
sido detectadas de repente pelos centros de rastreamento dos guerrilheiros de Magalhães.
“Tomara que você consiga”, pensou Roi Danton.
Olhou para o relógio que não lhe tinham deixado. Era zero hora e trinta e seis,
tempo padrão. Feita a adaptação às condições reinantes em Boultat, chegava-se à
conclusão de que lá fora devia estar clareando.
Em seguida Roi Danton viu a data. Primeiro de dezembro de 2.435.
Dezembro! Os pensamentos de Danton voltaram ao passado. Imagens formaram-se
diante dos olhos de sua mente. Imagens da juventude. Lembrou-se da neve que caíra
suavemente no início da noite, da expectativa-que caracterizava este mês, até que
finalmente se celebrava o dia vinte e quatro de dezembro...
Uma voz áspera interrompeu as recordações de Roi Danton.
— Certamente não demorarão a aparecer, senhor — soou a voz de Art Huron perto
do rei dos livres-mercadores. O colono de Markos V estivera deitado a seu lado, e
também tentara em vão conciliar o sono.
— O que foi que o senhor disse, monsieur? — perguntou Roi, confuso.
O capitão, um homem de barba negra, encarou Roi Danton com uma expressão de
desconfiança. Certamente acreditava que sua mente lúcida fora afetada pelos últimos
acontecimentos.
Era uma idéia absurda.
Art Huron suspirou aliviado ao ver o olhar calmo de Roi Danton, que pediu em tom
enérgico que repetisse o que acabara de dizer.
O capitão repetiu pacientemente a frase.
— Ah, sim! — exclamou Danton em voz baixa. — O senhor se refere aos nossos
amigos Roumbaki, Heykh e Sibala.
— Isso mesmo, senhor — respondeu o colono de Markos V. — Pelo que estou
lembrado, Roumbaki nos concedeu um prazo de quatro horas. Disse que depois de
terminar nosso prazo voltaria para conhecer nossa decisão.
— É isso mesmo, capitão — confirmou Roi Danton num tom que quase chegava a
ser de tédio.
— Senhor! — disse Art Huron em tom ansioso. — As quatro horas já passaram.
Roumbaki poderá aparecer a qualquer momento.
— O que acha que os gurrados farão?
Danton tentou ficar numa posição mais confortável, mas o chão era duro em toda
parte.
— Roumbaki disse alguma coisa a respeito dos homens dos desertos de Leedon.
Devem ser especialistas em interrogatórios...
— De um tipo todo especial, por assim dizer — interrompeu Roi Danton.
— Não compreendo, senhor.
O Capitão Art Huron parecia confuso.
— O método que os homens dos desertos de Leedon usarão para interrogar-nos são
antiqüíssimos — respondeu Roi Danton. — Já foram usados no tempo dos faraós e dos
imperadores romanos. Certas tribos do velho planeta Terra até chegaram a desenvolver
uma habilidade toda especial nesta área. Será que alguém é capaz de dizer que a tortura
não solta a língua de qualquer pessoa?
— Será mesmo?
Art Huron balançou a cabeça num gesto de dúvida.
— Tenho certeza — confirmou o rei dos livres-mercadores. — Nesses tempos
horríveis só havia duas possibilidades de não ser obrigado a falar: morrer antes ou
enlouquecer.
— Por favor, senhor — interveio John Harvey. — Foi na época da barbárie. Esta
época só poderia mesmo produzir costumes bárbaros. Acontece que hoje estamos numa
época de progresso. Não se torturam mais as pessoas. Simplesmente se tira delas o que
sabem.
Roi Danton olhou surpreso para o cientista magro pertencente ao comando especial
que fora surpreendido pelos acontecimentos verificados em Modula II.
— Não sabia que o senhor possui um traço irônico — disse.
Um sorriso fugaz apareceu no rosto magro e enrugado de John Harvey.
— Basta abrir os olhos — disse em voz baixa. — As fraquezas e os aspectos
ridículos da época saltam aos olhos. É como disse Juvenal: Difficile est satiram non
scribere. O difícil é não se tornar satírico.
— Chega — respondeu Roi, calmo. — Vejo que se sente meio amargurado.
Acontece que adoro a vida como ela é.
— A vida como ela é logo vai acabar — disse Harvey em tom áspero e acrescentou:
— A não ser que o Administrador-Geral do Império Solar e os dois leais cavaleiros que o
acompanham encontrem este maldito transmissor que tanto enfurece os gurrados.
Uma onde de nervosismo agitou as fileiras dos prisioneiros, que se haviam
acomodado da melhor forma possível no chão duro. Ouviram-se passos e comandos em
voz baixa vindos de longe. Em seguida a pesada porta de correr deslizou ruidosamente.
Um tomando de gurrados fortemente armados com trajes de couro escuros e botas
de cano alto postou-se de ambos os lados da porta. O símbolo da resistência, formado por
uma bola vermelho brilhante atravessada por uma flecha, destacava-se perfeitamente na
parte dianteira das jaquetas.
Em seguida entraram os membros do triunvirato.
Na frente ia Roumbaki, um gurrado robusto, de juba vermelha, seguido do General
Heykh e de um shangante de cabelos brancos chamado Sibala. Roumbaki fez questão de
deixar perceber que quem mandava em Boultat era ele. E isto era mau. Roi Danton tinha
certeza de que seria capaz de convencer o General Heykh, um ser equilibrado, ou o
shangante Sibala, que tinha um bom gênio, a acreditar nele quando afirmava que não
partira deles a iniciativa de realizar as hipertransmissões.
Mas com Roumbaki isso não seria possível. Era um ser preconceituoso e
extremamente desconfiado.
Roi começou a desconfiar que só mesmo um milagre poderia salvá-los da sanha
vingadora de Roumbaki.
— Venham, messieurs — disse em tom indiferente para dissimular a grave
preocupação que ameaçava tomar conta dele. — Vamos ao encontro dos senhores do
Conselho.
Levantou e saiu caminhando todo empertigado. O Capitão Huron foi atrás dele,
enquanto fazia sinal para que alguns soldados selecionados seguissem seu exemplo.
Finalmente Roi Danton parou à frente de Roumbaki. Atrás dele havia sete homens
experimentados nos combates, que não recuariam diante de nada. Se necessário
sacrificariam a própria vida para defendê-lo, caso alguém quisesse fazer-lhe algum mal.
Fora Perry Rhodan em pessoa que dera esta ordem ao colono de Markos V.
Era bem verdade que Art Huron não compreendia que de repente Perry Rhodan
parecesse tão preocupado com o que pudesse acontecer com Roi Danton, ainda mais que
sabia que as relações entre os dois eram bastante tensas. Mas obedeceu.
Não podia mesmo saber que esta ordem fora dada a pedido dos dois ertrusianos, que
conheciam a verdadeira identidade de Danton.
Os sete homens, inclusive o Capitão Huron, tinham sido várias vezes campeões de
karatê da Frota Solar. Por isso seriam capazes de criar bastante confusão, caso isto se
tornasse necessário.
Um dos gurrados colocou, por ordem de Roumbaki, uma tradutora entre os dois
grupos, usando com grande habilidade o tripé telescópico.
Roi Danton cruzou os braços sobre o peito, endireitou o corpo e perguntou em tom
compenetrado:
— O que nos dá a honra de sua visita nas primeiras horas do dia, messieurs!
Roumbaki fitou-o com uma expressão selvagem.
— Já vi gente mais orgulhosa que o senhor implorando compaixão — informou em
tom ameaçador. — A dor fez com que todos eles ficassem pequenos, bem pequenos
mesmo.
— Vamos ao assunto, comandante — recomendou Roi Danton. Sabia que era
importante usar um tom duro. Qualquer atitude indiferente seria interpretada como um
sinal de covardia.
— Pois não — disse a voz saída da máquina tradutora, que estava tão bem
programada que reproduzia até mesmo o tom zangado da voz de Roumbaki. — Façamos
um resumo.
“Há poucas horas apresentei duas alternativas ao senhor e aos seus companheiros.
“Os senhores podem dizer onde mantêm escondidos o tal do aparelho para que
possamos inutilizá-lo, ou então podem ficar calados. Se preferirem a última alternativa,
ver-me-ei obrigado a submeter alguns dos seus homens a um interrogatório bastante
doloroso, que talvez poderá acarretar a morte da pessoa interrogada. Mas se chegarem à
conclusão de que seu silêncio será inútil, dispensaremos um tratamento honroso de
prisioneiros de guerra ao senhor e aos seus companheiros. Se continuarem a obstinar-se
em seu silêncio, na esperança de que a frota dos perlians chegue antes que seja tarde,
mandarei torturar os prisioneiros um por um.”
Havia uma carga de ódio e agressividade nas palavras violentas de Roumbaki.
Parecia que já não conseguia controlar-se.
Roi Danton percebeu que certo processo se desenvolvia na mente de Roumbaki. O
medo de que o resultado fosse descoberto e a destruição que isso acarretaria faria o ódio
de Roumbaki crescer cada vez mais, abafando qualquer pensamento sensato e fazendo-o
entrar em pânico. Os sintomas eram inconfundíveis.
Se isso acontecesse, a vida dos terranos realmente estaria em perigo.
— Que tal oferecer uma terceira alternativa? — sugeriu Roi Danton. — Para variar
o senhor, Roumbaki, poderia acreditar em nós quando afirmamos que não temos nada a
ver com estas transmissões. Liberte-nos, entregue armas a mim e a alguns dos meus
companheiros, coloque um planador à nossa disposição, e eu prometo que lhe
entregaremos as pessoas responsáveis pela transmissão dos sinais goniométricos.
Roumbaki resmungou com uma expressão de desprezo.
— Só iriam fugir. Certamente temem pela própria vida.
— Também estou com medo, mas não é por mim. A vida de milhões de gurrados
está também em perigo.
— Quer saber o estrago que causaram com suas hipertransmissões? — Roumbaki
quase chegou a gritar estas palavras. — Já espalharam o terror e o pânico em nosso povo.
E olhe que o inimigo ainda não apareceu.
— Infelizmente isso é verdade — interveio Sibala, interrompendo a discussão
travada em altas vozes. — Desde a primeira emissão dos impulsos goniométricos que
poderão trair-nos nossos guardas semi-orgânicos e semicristalinos, os quetkys, parecem
ter enlouquecido.
“Nossas cidades transformaram-se num inferno. Nas últimas duas horas os quetkys
vêm acusando tudo que é gurrado de ser responsável pelas transmissões. Na primeira
hora milhares deles foram executados pelos comandos de vigilância, mas finalmente
descobrimos o que estava acontecendo.
“Fomos privados dos serviços de nossos guardas leais, pelo simples motivo de que
já não podemos confiar neles. E tudo isto somente por causa de sua ação irrefletida.”
O shangante fitou Roi Danton com uma expressão reprovadora.
— Por que não diz logo onde podemos encontrar seu transmissor? — prosseguiu.
— Os senhores evitariam muitos dissabores para si mesmos.
Danton sacudiu a cabeça.
— A única coisa que posso fazer é insistir em que não temos nada a ver com estas
transmissões — disse. — Pense bem, monsieur. Onde poderia deixar escondido um
aparelho destes enquanto éramos prisioneiros dos senhores?
— Não se esqueça de que descobrimos grande quantidade de aparelhos muito
eficientes em seu poder — lembrou Sibala em tom delicado.
Danton sorriu com uma expressão um tanto presunçosa.
— Se soubesse — respondeu — que tamanho deve ter um transmissor de
hiperondas capaz de irradiar sinais com esta potência, certamente compreenderia que a
gente não pode carregá-lo consigo.
— Bem que gostaria de poder acreditar no que está dizendo — disse o shangante
em tom pensativo. Em seguida dirigiu-se ao general, que acompanhara a conversa em
silêncio. — Qual é a sua opinião, Heykh? — perguntou.
— Acho que a explanação dos prisioneiros não deixa de fazer sentido — respondeu
Heykh. — De fato, não consigo imaginar onde poderiam ter escondido o transmissor.
Pelo que informou o comandante Trikort, estavam sendo constantemente vigiados. É bem
verdade que não posso deixar de reconhecer — ressalvou depois de ouvir o som
contrariado emitido por Roumbaki — que traziam consigo às escondidas grande
quantidade de aparelhos minúsculos. Mas nenhum deles seria capaz de irradiar os sinais
goniométricos por nós detectados. Verifiquei isto pessoalmente.
— Não se deixe enganar por estes mentirosos! — berrou Roumbaki. — Tenho
certeza que foram eles que ativaram o hipertransmissor.
— Poderia fazer o favor de dizer como poderíamos ter feito isso? — perguntou Roi
Danton.
Numa atitude extremamente presunçosa, o rei dos livres-mercadores apoiou os
punhos fechados nos quadris e fitou o indignado comandante supremo dos gurrados com
uma expressão irônica.
— Vou dizer — escarneceu Roumbaki, sacudindo a juba.
Enfiou os polegares nas alças do cinto de couro e balançou várias vezes sobre os
calcanhares.
— Sou todo ouvidos, monsieur.
Danton aparentou muita calma.
— Este aparelho, que dizem ser tão grande e difícil de carregar, foi trazido para
Boultat por seus homens, dividido em muitas peças. Depois foi montado, programado e
colocado num momento em que os senhores não estavam sendo vigiados...
— E agora vai passeando por aí, emitindo bips para chamar os queridos perlians a
este planeta — interrompeu Danton com um sorriso irônico. Em seguida seu rosto
assumiu uma expressão sombria. — O senhor é capaz de explicar — prosseguiu — por
que ainda não conseguiram encontrar o transmissor? Será que seus excelentes soldados
são tão tolos que não podem localizar um transmissor que emite mensagens em alta
potência?
Os olhos de gato de Roumbaki exprimiram um ódio implacável, enquanto o
shangante Sibala sacudia a cabeça, triste, como se quisesse dizer: “Você está cometendo
um erro, rapaz. Deste jeito não consegue nada.”
— Meus excelentes soldados ainda não encontraram o transmissor — chiou o
gurrado, furioso — porque os senhores colocaram nele um dispositivo que o faz mudar
de posição imediatamente após cada transmissão. Pensando bem, sinto-me inclinado a
dizer que se trata de uma espécie de transmissor.
— Nada mau — retrucou Roi Danton em tom de admiração. — Isso explicaria
várias coisas.
— Não é mesmo?
Roumbaki olhou para Danton como se esperasse aplausos.
— Já compreendo por que está tão preocupado, monsieur — respondeu o rei dos
livres-mercadores, calmo. — Seus amigos são mesmo muito competentes. Parbleu!
Danton resolveu informar o pai sobre a hipótese que Roumbaki acabara de
formular. Talvez isso o ajudasse a encontrar o transmissor.
Mas logo teve que dar atenção novamente ao gurrado.
— É o cúmulo da insolência! — uivou Roumbaki, enquanto apontava para Danton.
— O senhor e seus companheiros são nossos inimigos, mais ninguém.
O ódio reprimido e o medo da destruição do quartel-general dos guerrilheiros abriu
caminho abruptamente. O pânico abafou o que ainda restava da capacidade de raciocínio
de Roumbaki.
Danton conhecia os sintomas — e sabia que dali em diante devia esperar o pior.
Olhava fixamente para o gurrado. As mãos de Roumbaki abriam-se e fechavam-se
convulsivamente, e o corpo contraiu-se, ficando parecido com um arco entesado.
Um silêncio carregado de tensão encheu a sala em que estavam os prisioneiros.
Parecia haver uma carga elétrica no ar, carga esta que poderia a qualquer momento
desabar sobre os homens.
— Voltarei dentro de trinta minutos — conseguiu dizer Roumbaki finalmente. —
Aí mandarei executar cinco dos seus homens — para servirem de exemplo aos outros. Se
continuarem a teimar, seu grupo será dizimado até que nos diga onde poderemos
encontrar o transmissor.
Roumbaki virou-se abruptamente, mas a voz de Danton fê-lo voltar-se mais uma
vez.
— Seria demais pedir que dê comida a um grupo de homens famintos? —
perguntou o livre-mercador com o rosto impassível.
— Comida? — repetiu Roumbaki em tom de incredulidade. — Para quê? De
qualquer maneira morrerão logo.
***
— Procure controlar-se, mon capitaine!
Havia um tom autoritário na voz de Roi Danton, que não se estava acostumado a
encontrar nela. O colono de Markos V capitulou.
Art Huron voltou a sentar, praguejando em altas vozes. Fitou com os olhos injetados
de sangue dez gurrados fortemente armados que estavam retirando ao acaso cinco
terranos pertencentes ao grupo de prisioneiros.
Em toda parte os terranos manifestaram sua raiva por meio de gritos. Mas ninguém
se descontrolou. Não teria adiantado mesmo. Havia mais de quarenta combatentes com
juba de leão postados junto à entrada, apontando as armas para os terranos.
— Quem são os homens? — perguntou o rei dos livres-mercadores com a voz
apagada.
— Quatro deles são sargentos — respondeu o capitão de pele negra. — Kendall
Harris, Charles Oleshette, Walt Ruggles e David Jones. O quinto é o Tenente Tony
Steward.
— São boa gente?
— O senhor pode achar-me presunçoso — respondeu Art Huron em tom exaltado
— mas para mim qualquer terrano é boa gente. Nem que seja apenas por uma questão de
lealdade — acrescentou a título de desculpa ao ver Roi Danton sacudir a cabeça num
gesto de reprovação.
— O senhor não está sendo muito objetivo, meu caro — disse o livre-mercador.
Art Huron preferiu não responder. Olhou para a frente, onde os cinco homens
estavam sendo arrastados através da grande sala, em direção à parede esquerda.
Sentiu certa admiração.
Será que daquele lado havia outra saída? Se houvesse, ela tinha sido muito bem
camuflada. Haviam examinado várias vezes a sala em que eram mantidos presos para ver
se encontravam um lugar pelo qual pudessem fugir, mas sem resultado.
Os gurrados fizeram os prisioneiros parar junto à parede. Um dos cabeças de leão
tirou de um cinto um disco de metal achatado e encostou-o à superfície lisa.
Faixas coloridas atravessaram a parede, que ficou transparente, deixando à vista
uma sala um pouco menor, que estava vazia.
Os guerrilheiros de Magalhães empurraram os cinco homens para dentro desta sala.
A parede mudou de novo, ficou mais sólida, mas continuou transparente. Havia um
campo energético separando a sala menor da maior.
Danton tinha certeza de que ninguém seria capaz de atravessar este campo
energético.
Dentro de alguns minutos os gurrados desapareceram.
Os terranos aglomeraram-se junto à parede transparente e acenaram para animar os
companheiros, que responderam aos acenos um tanto relutantes. Ainda não sabiam o que
pensar da separação.
— Diga uma coisa, Huron — perguntou o livre-mercador ao colono de Markos V.
— Há dois médicos em nosso comando, não há?
O capitão fez um gesto afirmativo. Olhou atentamente para Roi Danton, para ver se
descobria quais eram suas intenções.
— Pode desistir, mon capitaine — disse Roi. — Desse jeito nunca descobrirá o que
pretendo fazer.
— Desculpe, senhor — murmurou o capitão. — Quer que traga os médicos?
— Não para cá — decidiu Danton. — Leve-os para junto da barreira energética
transparente e trate de arranjar um lugar para mim perto deles.
— Não sei o que pretende fazer, senhor. Mas vamos lá!
Art Huron afastou-se enquanto passava os olhos pela multidão.
Danton fez sinal para que John Harvey se aproximasse.
— Venha comigo, monsieur — pediu. — O que será que vão fazer com aqueles
homens, doutor? — perguntou Roi Danton dali a pouco ao médico gordo que se
apresentara como Fred Blain. Seu colega, chamado Gerhard Beir, era um homem
pequeno e magro, de cabelo ralo.
Fred Blain deu de ombros.
— Por enquanto não aconteceu nada que permita uma conclusão concreta. Só
podemos formular hipóteses. Existem inúmeras maneiras de pôr fim a uma vida.
— O senhor devia ser um sacerdote — observou o Capitão Huron, aborrecido.
— No fundo todo médico é um sacerdote, meu chapa — retrucou o Doutor Blain
sem a menor ironia, enquanto o colono de Markos V era brindado com um olhar de
repreensão de Danton.
Art Huron ficou vermelho.
— Eu... — principiou, para ser interrompido imediatamente por Danton.
— Quieto, mon capitaine. Alguma coisa vai acontecer.
Os terranos, muito tensos, viram uma porta abrir-se na sala ao lado e dois generais
de estatura quadrada entrarem por ela. Atrás deles apareceu um delicado shangante, cujo
rosto estava cheio de cicatrizes. A longa juba prateada apresentava um brilho fosco e já
ficara bastante rala.
Gerhard Beir soltou um assobio baixo, mas não disse nada. Havia uma expressão
pensativa em seu rosto.
Danton ficou apavorado ao ver o shangante abrir uma bolsa achatada que trazia
consigo e entregar seringas de injeção aos generais. Os cinco terranos andaram
nervosamente pela sala.
Um dos generais fez um sinal e o shangante tirou da bolsa um aparelho pequeno em
forma de caixa. Apontou-o na direção dos prisioneiros, que pararam no meio dos
movimentos.
— Deve ser uma espécie de campo de contenção — murmurou John Harvey, que se
encontrava ao lado de Roi Danton.
O rei dos livres-mercadores respirava fortemente enquanto via a desgraça desabar
sobre os companheiros.
Rapidamente e com movimentos bem coordenados, que faziam acreditar que
houvera um treinamento prolongado, os generais injetaram alguma coisa na corrente
sangüínea dos homens. Depois foram para perto da saída e observaram o shangante com
uma expressão de indiferença enquanto este libertava os terranos do campo de contenção
e voltou a guardar seu aparelho. Em seguida atravessaram a porta e desapareceram.
— Será que esta é a forma de execução escolhida por Roumbaki? — perguntou Art
Huron em tom de incredulidade.
— Pelas atitudes que tomou, acho que sim — respondeu Danton.
— O gurrado diz que é uma forma de execução extremamente cruel — lembrou o
colono de Markos V e sacudiu a cabeça. — Mas pelo que vejo os homens estão passando
bem.
Roi Danton não pôde deixar de reconhecer que havia um fundo de verdade nestas
palavras.
Enquanto olhava preocupado através da barreira energética transparente, o rei dos
livres-mercadores viu o Tenente Tony Steward levantar a mão e acenar para os
companheiros. Era como se quisesse dizer que estavam bem.
— Em sua opinião, o que aconteceu por lá? — perguntou Roi a Fred Blain.
O médico deu de ombros.
— Parece que lhes injetaram algum germe — disse finalmente em tom hesitante. —
Temos de aguardar a reação dos homens.
Fred Blain permaneceu em silêncio algum tempo, refletindo.
— Deve ser uma doença que destrói o organismo gurrado com uma rapidez
extraordinária, causando um tremendo sofrimento — prosseguiu em tom pensativo. —
Mas faço questão de ressaltar mais uma vez que é apenas uma hipótese. Talvez seja falsa,
uma vez que nossos companheiros não demonstram a menor reação. Ou será que o
senhor não pensa assim, colega?
O médico rechonchudo olhou para Gerhard Beir.
— Tenho uma hipótese — respondeu este. — Mas por enquanto prefiro guardá-la
só para mim.
***
O tempo foi-se arrastando preguiçosamente.
Um novo dia estava raiando sobre as florestas de cristal de Boultat, mas os
prisioneiros terranos não perceberam nada. A luz ofuscante, quase dolorosa, que
iluminava a sala em que se encontravam criava uma atmosfera na qual perdiam a noção
do tempo. Só fazia algumas horas que tudo tinha acontecido, mas para os terranos
pareciam dias.
Várias vezes apareceram gurrados na sala ao lado para ver como iam as coisas.
Pareciam cada vez mais perplexos. Não se sabia quais eram suas expectativas, mas elas
não se tinham realizado.
Aos poucos Roi Danton começou a respirar mais aliviado. Ao que tudo indicava, as
injeções não tinham produzido nenhuma reação nos terranos.
Já pensava que tudo tinha acabado bem, quando notou que de repente os homens
começaram a sentir-se mal. Andaram cambaleantes pela sala e caíram como se tivessem
sido atingidos pelo raio. Bolhas escuras formaram-se nas partes visíveis de seu corpo.
— É exatamente o que eu imaginei — murmurou Gerhard Beir e olhou para o outro
lado da barreira energética com as pálpebras semicerradas.
— O que foi que o senhor imaginou, monsieur? — quis saber Roi Danton. O rosto
estreito e de traços fortes do livre-mercador trazia a marca de uma forte preocupação. —
Diga logo. Pelo amor de Deus!
Gerhard Beir olhou para o relógio. Seus lábios murmuraram palavras
incompreensíveis e o médico acenou várias vezes com a cabeça, como se quisesse dizer
que vira confirmada sua teoria.
— O tempo de incubação passou — disse finalmente. — Os germes mórbidos
começam a atuar. Por enquanto não existe nenhum perigo. Até sou de opinião que nas
próximas horas os homens ainda passarão relativamente bem. Se nestas horas
conseguirmos dispensar-lhes o tratamento de que precisam, e desde que arranjemos os
antibióticos, a execução não se consumará.
— Qual é a doença? Que bolhas escuras são estas?
Havia um tom ansioso na voz de Roi Danton. Gerhard Beir deu de ombros.
— A doença ainda se encontra em estado inicial. Por enquanto não é possível
diagnosticar a doença por meio da simples observação do paciente — informou o médico.
— Infelizmente não dispomos de outros meios de diagnóstico. Só nos resta esperar.
Danton bateu várias vezes com a mão direita fechada no punho da mão esquerda.
Fez isto para manifestar sua insatisfação. Lamentava profundamente ter de conformar-se
com aquilo que não podia mudar.
Não havia a menor chance.
Trancados nas profundezas de um mundo em que reinavam condições
extremamente rigorosas, sem armas, sem equipamentos, não tinham a possibilidade de
alcançar a liberdade. Roi praguejava baixinho. Só teriam uma esperança se seu pai e os
ertrusianos encontrassem os responsáveis pela transmissão dos sinais goniométricos.
Teria de ser depressa, bem depressa. Mas por enquanto tudo indicava que teriam de
passar mais algum tempo naquela sala.
Seguiu-se mais um período de espera desgastante. Depois de superarem o primeiro
ataque de febre, os cinco homens pareciam estar razoavelmente bem.
Mais ou menos no mesmo instante em que um terrano e dois gigantes ertrusianos
saíam para encontrar um hipertransmissor que se movimentava que nem um fantasma
pela superfície de Boultat, Roumbaki, Heykh e Sibala voltaram a aparecer perto de Roi
Danton. Vieram acompanhados de vários generais, que faziam perguntas das quais se
deduzia facilmente que se tratava de médicos e cientistas.
Não queriam acreditar que os terranos ainda estavam vivos. Ficaram perplexos
diante do fenômeno que para eles devia ser incompreensível e puseram-se a confabular
em voz baixa.
Das conversas, travadas principalmente entre os dois médicos terranos e os médicos
dos guerrilheiros de Magalhães, deduzia-se que um gurrado que contraísse esta doença
teria dentro de quatro horas uma morte acompanhada de grandes sofrimentos. Enquanto
isso os terranos somente naquele momento começavam a apresentar uma febre ligeira.
Roumbaki contemplou os generais com uma expressão sombria. Em seguida acenou
com a cabeça e deu ordem para que os combatentes do contingente de guardas
escolhessem mais cinco homens aos quais seria aplicada a injeção.
Eram dez homens ao todo, que esperavam a morte à frente dos oitenta e dois
prisioneiros restantes.
Tremendo de desespero e medo pelo que pudesse acontecer com os dez doentes,
Roi Danton entrou em contato com Oro Masut através do microrrádio implantado em seu
antebraço. O aparelho ainda não fora descoberto pelos gurrados.
O livre-mercador perguntou como iam as buscas do hipertransmissor traiçoeiro.
Ficou ainda mais desanimado ao saber que seu pai e os dois ertrusianos ainda não
haviam conseguido nada.
Cobriu o rosto com as mãos por alguns segundos. Finalmente levantou a cabeça.
— Chega! — exclamou entre os dentes cerrados e levantou.
Sentiu-se dominado por uma raiva tremenda contra a teimosia do velho gurrado.
— O que pretende fazer, senhor? — perguntou Art Huron e levantou.
— Vou dar em cima dos ilustres membros do triunvirato! — anunciou o livre-
mercador em tom sombrio.
— Como?
— Quer assistir a uma aula de técnica de intimidação, mon capitaine? Se quiser,
venha comigo.
Roi Danton ajeitou o uniforme verde-oliva, que passara a substituir as vestes do
século dezoito geralmente preferidas por ele. Finalmente atravessou em atitude resoluta a
multidão de seus companheiros de sofrimento, em direção à porta, acompanhado pelo
colono de Markos V.
Danton esmurrou a porta com o punho fechado.
— Abram, messieurs! — gritou. — Abram, em nome da República, senão
assaltamos a bastilha.
Fred Blain e Gerhard Beir levantaram preocupados. Pensaram que o livre-mercador
estivesse sofrendo um acesso de loucura. Mas Art Huron fez um sinal para que não se
preocupassem. O traço que trazia no rosto mostrava que era apenas um espetáculo que o
livre-mercador queria oferecer.
Depois de alguns minutos uma pequena fresta abriu-se repentinamente na porta e o
rosto de gato de um gurrado apareceu nela. Lançou um olhar zangado para Danton, que
recuou um passo e apoiou as mãos nos quadris.
Com um olhar ligeiro o livre-mercador certificou-se de que a máquina tradutora
tinha sido ativada. Estava bem perto dele.
— Escute, mon ami — disse. — Quero falar o mais depressa possível com
Roumbaki.
O gurrado pôs-se a refletir por um instante e sacudiu a cabeça com a juba comprida.
— Escute, seu idiota! — berrou o livre-mercador de repente. Sua voz perdera o som
frouxo e afetado. — Exijo que chame imediatamente Roumbaki. Tenho uma informação
importante sobre o transmissor.
O gurrado desapareceu assustado. As duas metades da porta voltaram a juntar-se
com um estrondo, isolando os prisioneiros do resto do mundo.
— Acha que Roumbaki vai aparecer? — perguntou Art Huron.
— Espero que sim — respondeu Danton. — Senão tenho de inventar outra coisa
para fazê-lo vir para cá.
Roumbaki apareceu mais depressa do que Roi acreditara.
De repente ouviram-se passos e vozes altas junto à porta. Dali a pouco esta se abriu.
Roumbaki e Sibala entraram.
Viram-se diante do livre-mercador, que parecia disposto a não recuar diante de
nada.
Sibala, um shangante de cabelos prateados, estava assustado. Estava cada vez mais
convencido de que era um erro manter presos os terranos e não acreditar no que diziam.
Um povo como este não precisaria do auxílio dos perlians, se quisesse subjugar os
gurrados e os outros povos da grande nuvem de Magalhães.
O shangante entrou em pânico por um instante, durante o qual via em sua
imaginação grandes armadas de naves reluzentes desfilando, preenchendo a distância
imensa entre a galáxia e a grande nuvem de Magalhães com uma força imensa, e
derramando-se sobre os mundos dos gurrados, dos shangantes, dos perlians e dos
generais.
A voz zangada de Roumbaki arrancou Sibala das reflexões sombrias.
— Finalmente resolveu abandonar as negativas obstinadas e revelar a posição do
transmissor capaz de trair nossa posição?
— O que lhe deu essa idéia, mon general?
Roi Danton olhou com uma expressão de escárnio para o gurrado baixo, de ombros
largos, que trajava o uniforme de couro usado por todos os guerrilheiros, com o símbolo
da resistência sobre o peito.
— Quer dizer que suas palavras a respeito do transmissor não passaram de conversa
mole? — fungou Roumbaki.
Suas mãos aproximaram-se perigosamente das duas armas energéticas que trazia no
cinto.
— De forma alguma — retrucou o livre-mercador em tom amável. — De fato
mandei chamá-lo para contar alguma coisa relacionada com o transmissor.
— Conte logo! — exclamou zangado o comandante dos guerrilheiros de
Magalhães.
O livre-mercador umedeceu os lábios, que de repente se tinham tornado
ressequidos. “Chegou o momento de você provar que é mesmo um livre-mercador”,
pensou com o coração palpitante. “Tem de usar o maior número possível de palavras
para convencer este tipo belicoso e desconfiado de uma coisa que nem existe. Afinal,
você fez isto muitas vezes durante suas viagens de negócios.”
— Então?
A voz de Roumbaki tinha um tom autoritário.
— O senhor deve estar lembrado dos aparelhos de rádio encontrados em nosso
poder depois que fizemos uma tentativa de fuga.
O gurrado fez que sim.
— Pois é! — o rosto marcante de Danton abriu-se num sorriso largo. — Usei um
destes aparelhos para enviar um pedido de socorro quando estávamos sendo
transportados ao sistema de Boultat — ou seja, para cá. Dei ordem à frota terrana de
destruir todos os planetas dos gurrados, a não ser que nos coloque em liberdade.
Por um instante todos ficaram em silêncio.
Mas em seguida Roumbaki irrompeu numa estrondosa gargalhada.
Danton lançou um olhar espantado para Art Huron. Parecia que queria perguntar: O
senhor é capaz de compreender uma coisa dessas?
O colono de Markos V encostou o dedo à cabeça.
Foi um movimento tão repentino que Danton não pôde deixar de sorrir.
— Escute, seu rei dos terranos — principiou Roumbaki. — Fui informado pelos
comandantes de nossas naves que há cerca de cem espaçonaves estranhas em nossa
galáxia. Acha mesmo que essas unidades poderão representar uma ameaça para nós?
Roumbaki fitou o rosto rígido de Danton e sacudia-se de tanto rir.
— Quer que lhe diga o que o senhor é? — disse finalmente, cruzando os braços
sobre o peito. — Um sujeito convencido e um mentiroso. Acontece que nem sabe mentir.
— Se fosse o senhor, não teria tanta certeza. — objetou Danton. — Já viu um
couraçado terrano de perto? Conhece o seu armamento? Sabe qual é sua velocidade e a
potência das máquinas? O senhor não sabe absolutamente nada.
“O senhor afirma que as cem naves, de cuja existência sabe só porque quisemos —
na verdade são muito mais — não representam nenhum perigo para os senhores.
“Por que não pergunta aos comandantes que lutaram pela vida em Modula II qual é
a sua opinião sobre o poder de fogo das unidades terranas. Pergunte, e tremerá de medo
ao reconhecer que suas naves não passam de canoas desengonçadas, que podem ser
destruídas por um comando de seis especialistas de nossa frota...”
Roi Danton ficou ameaçando mais alguns minutos.
Demonstrou tamanha habilidade que o shangante Sibala começou a tremer.
Provavelmente a possibilidade remota de ter de lutar com um novo inimigo, muito mais
poderoso, o deixava apavorado.
Roumbaki virou-se abruptamente e saiu acompanhado de Sibala. O livre-mercador
suspirou fortemente e enxugou o suor da testa.
— Mon Dieu! — gemeu, retomando por um instante o papel de homem afetado e
efeminado. — Mais alguns minutos, e não saberia mais que mentiras contar aos ilustres
membros do triunvirato. Acha que consegui convencê-los? — perguntou, olhando para o
capitão de barba negra.
O colono de Markos V fez um gesto de elogio.
— O senhor representou muito bem. Foi bastante convincente. Pelo menos
conseguiu perturbar o equilíbrio emocional de um destes senhores.
— Refere-se a Sibala?
— Isso mesmo — respondeu o colono de Markos V. — Via-se perfeitamente que o
shangante acabou acreditando em tudo que o senhor dizia.
— Excelente! — exclamou Roi. — Conheço este velho de mente delicada e cabelos
prateados. Sei que tratará imediatamente de ter Heykh do seu lado. É tudo que podemos
desejar por enquanto. Se o Conselho dos Três resolver pôr em votação o tratamento que
nos será dispensado, a atitude de Sibala e Heykh será muito importante.
4

O equipamento de climatização do traje de combate zumbia fortemente.


Os dois sóis de Boultat dardejavam seus raios de calor, fazendo com que a
temperatura se aproximasse da marca dos setenta graus centígrados. Parecia impossível
que alguém pudesse sobreviver num calor daqueles. Mas no planeta existia vida. E uma
vida bastante variada.
Perry Rhodan lembrou-se por um ligeiro instante de Ruor e seus companheiros.
Naquele momento deviam estar atravessando as florestas de cristal em direção aos seus
campos de caça distantes.
Estas criaturas não podiam viver sem este calor infernal. Era um fato que fazia o
Administrador-Geral menear a cabeça, incrédulo, quando se lembrava disso.
Ainda estavam sentados nos galhos da árvore em que se tinham escondido quando
uma nave-patrulha dos guerrilheiros de Magalhães apareceu sobre a pequena clareira de
onde o hipertransmissor enviara por alguns minutos seus sinais goniométricos para o
espaço.
Felizmente não foram descobertos pelos guerrilheiros gurrados, mas por causa da
presença deles Rhodan e os ertrusianos teriam de agir com mais cuidado.
Era uma situação difícil.
Deviam fazer o possível de encontrar o misterioso transmissor enquanto estivesse
em atividade, mas não deviam expor-se ao perigo de serem descobertos pelos gurrados
alvoroçados.
— Quem me dera que eu pudesse tomar um banho frio na Crest IV — disse Melbar
Kasom enquanto o suor brotava abundantemente em seu rosto. Para comunicar-se tinham
de abrir as viseiras dos capacetes. O contato capacete contra capacete era muito difícil
por causa dos galhos balançantes.
Oro Masut limitou-se a soltar um suspiro desolado. Agarrava firmemente o
rastreador portátil com o qual na noite anterior conseguira determinar a posição do
misterioso transmissor. Ficou com as pálpebras semicerradas enquanto olhava fixamente
para o mostrador, que permanecia imóvel há mais de vinte e cinco minutos.
— Primeiro um banho frio — prosseguiu o especialista da USO na suas fantasias —
e depois dois ou três screwdrivers gelados no bar...
— Cale essa boca escancarada, senão eu o derrubo desta árvore — interrompeu Oro
Masut, contrariado. — Você é um sádico.
— Que é isso, minha gente? — perguntou Perry Rhodan e abanou a cabeça num
gesto de reprovação.
— É isso mesmo — indignou-se Masut. — Este sujeito presunçoso sabe muito bem
que me faz sofrer com isso.
— Quer dizer que você não gosta mesmo de tomar banho! — escarneceu o
especialista da USO.
Um rugido selvagem saiu do peito de Oro Masut. Levantou ligeiramente o corpo,
quando seus olhos caíram no aparelho que segurava na mão.
— O transmissor! — exclamou e no mesmo instante fechou a viseira de seu
capacete.
A reação de Perry Rhodan e Kasom foi imediata.
Tinham discutido dez vezes, enquanto estavam esperando, sobre o que deviam fazer
quando o transmissor fantasma voltasse a entrar em atividade.
Os três homens realizaram uma decolagem de emergência que teria feito honra a um
jato espacial.
Dentro de alguns segundos subiram uns quatrocentos metros acima da clareira e
afastaram-se para o norte com os micro propulsores uivando. Era onde se via a gigantesca
barreira de uma cadeia de montanhas envolta na bruma que cobria o horizonte.
Oro Masut ia na ponta, seguido de perto por Perry Rhodan e Melbar Kasom.
Desta vez o vôo foi muito mais breve.
Pelos cálculos de Rhodan não deviam ter percorrido mais de cem quilômetros,
quando Oro Masut se deixou cair que nem uma pedra.
Embaixo do grupo estendia-se uma savana, no meio da qual se viam alguns grupos
de árvores.
O Administrador-Geral e Melbar Kasom caíam atrás do ertrusiano, quando um
lampejo apareceu junto a um dos maiores grupos de árvores.
Perry Rhodan esperou alguns segundos para ver se o lampejo se repetia. Só podia
ser uma arma que fora disparada contra eles.
No mesmo instante o Administrador-Geral deu-se conta de que acabara de cometer
um engano.
O lampejo não poderia ter sido dirigido contra eles, pois os campos defletores os
tornavam invisíveis. Restava saber o que significava a luminosidade.
Assim que tocou o chão ao lado de Oro Masut, amortecendo a velocidade da queda
com um movimento elástico dos joelhos, o Administrador-Geral abriu a viseira do
capacete.
— Mais uma vez chegamos tarde — rugiu a voz do ertrusiano. — Foi uma questão
de segundos.
— Que luminosidade foi esta? — quis saber Rhodan. — O senhor estava à nossa
frente. Viu qual foi a causa do lampejo?
Masut fez que sim.
— Eu vi — disse em tom exaltado. — Pensei que ainda pudesse alcançá-lo. Mas de
repente desapareceu. Que azar!
Via-se pelos olhos de Oro Masut que estava longe dali. Parecia zangado consigo
mesmo.
— Quem desapareceu, Masut? Vamos! Fale logo.
O Administrador-Geral sacudiu o ombro do ertrusiano. Era a mesma coisa como
sacudir uma rocha de algumas toneladas. Masut não sentiu nada.
— Abra a boca, baixinho — disse Melbar Kasom e bateu ruidosamente com a mão
enfiada numa luva blindada no ombro do patrício.
— O transmissor — respondeu Oro Masut finalmente. — Eu vi. Um grande
aparelho em forma de caixa. No momento em que estava vendo, desapareceu. A
luminosidade que o senhor notou foi um típico lampejo de desmaterialização.
— Então é assim que eles fazem — disse Perry Rhodan, esticando as palavras.
Havia um traço pensativo em seu rosto.
— Quer dizer, senhor — observou o especialista da USO — que não pode ser uma
unidade transmissora que funciona automaticamente.
— Quanto a isso não existe a menor dúvida — afirmou Rhodan.
— Não... não compreendo.
Havia uma expressão de perplexidade no rosto desfigurado pelas cicatrizes de Oro
Masut.
— Mas é bem claro, baixinho — disse Kasom com um sorriso indulgente. — Um
transmissor de matéria tem de incluir um pólo de transmissão e outro de recepção.
Entendeu?
Masut acenou com a cabeça.
Rhodan quase não prestava atenção às palavras de Kasom. Seus olhos examinavam
o céu.
— Se fosse uma instalação independente, robotizada — prosseguiu Kasom — ela
saltaria às cegas, porque não haveria ninguém para fazer o reconhecimento do terreno e
procurar um lugar para o qual o transmissor pudesse saltar em segurança. O risco de um
transmissor automático rematerializar em algum paredão de rocha e ser destruído seria
muito grande. Tão grande que quase não existem instalações automáticas desta espécie.
Especialmente num planeta desconhecido. E para o transmissor Boultat é tão
desconhecido quanto é para nós. Portanto, o transmissor é acompanhado por seres
inteligentes, que escolhem o local da próxima transmissão, onde colocam o pólo receptor.
Kasom calou-se.
Oro Masut fitou-o com uma expressão pensativa.
— Você poderia dizer como fazem os acompanhantes para chegar ao local da
próxima transmissão?
O especialista da USO acenou com a cabeça, numa expressão bonachona.
— Saltam pelo transmissor.
— Será?
Oro Masut franziu os lábios e sacudiu a cabeça enquanto olhava para Kasom.
— Você está caindo em suas próprias armadilhas. Acha que para os acompanhantes
do transmissor não existe a possibilidade de caírem num precipício ou rematerializarem
num paredão de rocha, ou finalmente voltarem à existência material diante da boca de
uma fera?
— Eu... eu... — Kasom calou-se, confuso. Perry Rhodan acenou com a cabeça.
— Está vendo, Kasom? — disse com uma ponta de ironia. — Nunca se deve tentar
explicar uma coisa que não se conhece.
— Conhece uma explicação melhor, Chefe? — resmungou o especialista da USO,
que sentiu o sangue afluir-lhe à face.
— Não tenho. Acontece que não tento forçar as coisas para encontrá-la.
Rhodan calou-se por um instante.
— Eu... — prosseguiu.
Não conseguiu dizer mais nada. Kasom agarrou-o e atirou-o para baixo de uma
árvore de folhagem densa.
A poeira irritou as mucosas nasais de Rhodan. Sentiu o gosto de sangue nos lábios.
Em seguida sentiu o abalo produzido pelos dois ertrusianos que se atiraram ao chão.
— Que bobagem é essa? — indignou-se Perry Rhodan, mas no mesmo instante saiu
rastejando atrás dos ertrusianos, para esconder-se na vegetação.
Ouvia-se perfeitamente o ruído dos propulsores de uma nave-patrulha dos gurrados.
O ruído crescia cada vez mais, para finalmente estabilizar-se em cima do grupo de
árvores.
— Desliguem todos os aparelhos cujas emissões energéticas possam ser detectadas
— disse o Administrador-Geral. — Rápido!
— Inclusive os campos defletores? — perguntou Masut em tom de incredulidade.
— Inclusive os campos — respondeu Rhodan prontamente. — Acha que podem
ver-nos de cima no meio desta folhagem?
Masut obedeceu sem dizer uma palavra.
— Por Ertrus — murmurou Melbar Kasom, olhando em volta, desconfiado. — E se
alguma fera vir em nós uma variação agradável em seu cardápio?
— E daí? — retrucou Perry Rhodan, aborrecido. — O senhor não vive se gabando
de sua força sobre-humana? Basta estrangular a fera. Caso pense em usar uma arma...
— Está bem, Chefe — resmungou Kasom. Havia uma expressão desolada em seu
rosto suado.
Felizmente nenhum dos ertrusianos teve de dar mostras de sua força.
Dentro de alguns minutos a nave voltou a afastar-se na direção oeste.
Os três homens suspiraram aliviados enquanto saíam do esconderijo. Preferiram
manter-se afastados da savana, cujo capim em forma de lança, de quase dois metros de
altura, balançava preguiçosamente ao vento.
— Aos poucos vai-se descobrindo um sistema... — disse Perry Rhodan aos
ertrusianos. — Vejam!
O Administrador-Geral estava sentado no chão. Desenhara alguma coisa na poeira,
entre as pernas afastadas.
Tratava-se de um mapa precário, que Rhodan elaborara com base nas indicações do
rastreador. Retirara os dados do banco acoplado ao aparelho, cujo tamanho não excedia o
de um punho humano.
— Aqui estão assinalados os contornos aproximados da área na qual nos
encontramos. Estes pontos representam os diversos locais de transmissão. Liguei os
pontos por meio de linhas...
— Hum — Kasom olhava atentamente para o mapa feito com traços ligeiros. — Se
não me engano, o transmissor segue uma direção bem definida.
— Isso mesmo — confirmou Perry Rhodan com um sorriso frio. — E para onde
aponta essa direção?
Melbar Kasom pôs-se de pé e apontou com o braço estendido para a cadeia de
montanha envolta na bruma que se via ao longe.
— Para lá — disse.
— Adivinhou — respondeu o Administrador-Geral. O sorriso frio tornou-se ainda
mais acentuado. — E isso me dá uma idéia de como poderemos pôr as mãos no
transmissor antes que ele nos escape de novo.
“Pelo que descobrimos até aqui, o transmissor fantasma percorre em cada salto
uma distância que varia entre oitenta e cento e cinqüenta quilômetros. Correto?”
Perry Rhodan fitou os companheiros.
Os ertrusianos confirmaram com um gesto.
— Se dividirmos esta distância pela metade — prosseguiu Rhodan — deve ser
possível alcançar o transmissor antes que ele desapareça. Por isso não esperaremos aqui
até que o transmissor volte a entrar em atividade. Ficaremos a meio caminho do local
provável da próxima transmissão.
***
Os dois sóis de Boultat tinham-se aproximado somente alguns graus do zênite.
Despejavam sua luz mortífera sobre o planeta, que refletia grande parte dela por
meio de uma flora cristalina.
“Uma vegetação normal já teria murchado e queimaria como palha”, pensou Perry
Rhodan. Mas a flora de Boultat tinha-se adaptado às condições reinantes do planeta,
produzindo espécies diferentes, até que finalmente a forma cristalina se firmou
definitivamente e passou a espalhar-se pelo planeta.
Nos lugares em que não podia crescer a floresta de cristal havia áreas gigantescas de
capim-lança. Nos lugares em que estas gramíneas duras e afiadas não encontravam
alimento erguiam-se rochas e montanhas íngremes para o céu ofuscante. E em toda parte
havia vida formada por espécies animais semi-orgânicas e semicristalinas, quase todas
elas dotadas de instintos assassinos.
Como por exemplo o lindo arbusto florido perto do qual Perry Rhodan e os
ertrusianos tinham-se instalado confortavelmente.
Há trinta minutos esperavam que o transmissor fantasma voltasse a entrar em
atividade. Encontravam-se num pequeno platô de rocha, que se erguia dois metros acima
das copas das árvores da floresta e parecia não possuir nenhuma vegetação além do
arbusto florido firmemente apoiado numa rocha saliente. A planta parecia possuir raízes
longas, que lhe permitiam absorver bastante alimento e umidade do solo.
Um vento escaldante soprou no platô, fazendo tremer ligeiramente as flores cor de
rubi, do tamanho de uma cabeça humana. A caixa de ressonância acionada pelo vento
produzia um som suave. Parecia que estava sendo abafada pelo calor insuportável.
A visão era perturbada pela luz ofuscante dos sóis, ainda mais que estes emitiam
comprimentos de ondas variáveis, produzindo efeitos estranhos.
Os três homens só abriam os capacetes para conversar. Fora disso fechavam-se em
seus trajes de combate, cujos equipamentos de climatização eram forçados ao máximo
para criar uma atmosfera mais suportável.
Melbar Kasom olhou para o céu com as pálpebras semicerradas. Podia fazer isso
graças aos filtros que cobriam a viseira de seu capacete, mas não por muito tempo. Em
seguida baixou os olhos e passou-os pelo pequeno platô.
Teve a impressão de ter visto um movimento pelo canto do olho. Virou o rosto e
resmungou decepcionado. Devia ter sido uma ilusão.
Estava tudo quieto.
O arbusto florido continuava entre as duas rochas.
Neste instante o especialista da USO teve um calafrio. Passou novamente os olhos
pelo platô.
Nada.
Será que devia informar Rhodan e Masut sobre o que acabara de ver?
“Bobagem!”, pensou. Acabariam rindo dele.
Mais uma vez teve a impressão de que vira um movimento pelo canto do olho.
“Droga”, pensou o gigantesco ertrusiano, “Será que dei para ver fantasmas?”
Desta vez tinha certeza de que vira um movimento, mas não seria capaz de dizer o
que se mexera no platô.
Precisava descobrir do que se tratava. Apoiou-se numa rocha e olhou fixamente
para a floresta de cristal, enquanto pegava o frasco polido de um magazin de munição
energética, que tinha uns cinco centímetros de largura e dez de comprimento.
Girou o frasco discretamente entre os dedos, o que lhe proporcionava uma visão
excelente, embora limitada, para trás. Viu o arbusto florido avançar em sua direção.
Kasom virou-se abruptamente.
Se não tivesse visto perfeitamente, poderia sentir-se inclinado a dizer que sofrera
uma ilusão ótica. O arbusto estava parado entre as duas rochas, nos fundos do platô, e
tremia ligeiramente sob o efeito do vento.
O único sinal de que se deslocara era que se encontrava mais perto da rocha do lado
esquerdo. O ertrusiano estava lembrado de que antes estivera exatamente no meio.
O ertrusiano levantou a parte anterior do capacete e em palavras lacônicas informou
Perry Rhodan e Masut sobre o que acabara de ver.
Os dois não tinham percebido nada. Estavam de costas para o arbusto.
Os três discutiram em voz baixa, sem tirar os olhos de arbusto. Dali a alguns
minutos já não havia a menor dúvida de que realmente se deslocava em sua direção.
— Como é que ele nos vê? — perguntou Oro Masut. — Estamos com os campos
defletores ligados.
— Talvez estes campos não afetem a capacidade de percepção do arbusto —
respondeu Perry Rhodan.
— Pode ser — confirmou o especialista da USO. — Acontece que sou de opinião
que ele não nos vê, mas nos sente.
— O que será isso? — perguntou o guarda pessoal do rei dos livres-mercadores,
apontando com a cabeça para o arbusto. — Algum carnívoro?
— Sem dúvida — respondeu Perry Rhodan.
— Tanto faz — observou Kasom. — Temos de dar um jeito de tirá-lo daqui. Não
me sinto bem perto dele.
— Tem uma idéia de como fazer isso?
O Administrador-Geral fitou Melbar Kasom.
— Se tenho! — retrucou o especialista da USO. — Preste atenção.
O ertrusiano levantou, pediu aos companheiros que recuassem para uma das
extremidades do platô e saiu correndo para a extremidade oposta.
O arbusto estava no meio deles.
Perry Rhodan ainda estava refletindo sobre quais eram as intenções do ertrusiano
quando este começou a agir.
Kasom desligou o campo defletor, tornando-se visível para o arbusto.
Os homens depararam-se com um quadro apavorante. Numa questão de segundos o
arbusto florido, de aspecto inofensivo, transformou-se num monstro que parecia ter saído
de um pesadelo.
Assim que Melbar Kasom se tornou visível na extremidade do platô, as flores
vermelhas em forma de cálice transformaram-se em bocas providas de dentes afiados, das
quais pingava uma baba branca. Os galhos transformaram-se em cipós parecidos com
cobras, que viviam se agitando. De repente o arbusto começou a deslocar-se em alta
velocidade sobre suas raízes, em direção ao especialista da USO, que permanecia imóvel.
Perry Rhodan sentiu os pêlos da nuca se eriçarem.
O Administrador-Geral teve vontade de soltar um grito de alerta, mas conseguiu
controlar-se. Kasom sabia o que estava fazendo. E nunca fazia nada sem pensar bem.
Antes que a planta assassina alcançasse o ertrusiano, este subiu repentinamente,
afastando-se alguns metros do platô.
O arbusto não teve tempo de frear a corrida. Por alguns segundos ficou agarrado
com algumas raízes na beira do platô. Os galhos debatiam-se desesperadamente.
Finalmente caiu na floresta de cristal, que começou a movimentar-se de repente.
Como todas as formas de vida de Boultat, fossem elas animais ou vegetais, o
arbusto florido tinha seus inimigos, que se precipitaram sobre ele antes que tocasse o
chão.
Apavorados, os homens que se encontravam no platô acompanharam a luta
silenciosa. Finalmente viraram-se e voltaram aos seus lugares.
Oro Masut ficou desconfiado. Examinou cada pedra do platô, mas realmente não
havia mais nada por lá.
— Quanto tempo ainda nos resta? — perguntou o Administrador-Geral dali a
alguns minutos, olhando para Oro Masut, que voltara a observar os mostradores de seu
rastreador.
— Já passaram quarenta e três minutos — respondeu Masut sem levantar o rosto. —
A transmissão pode começar de um instante para outro.
— Tomara que desta vez cheguemos em tempo — resmungou Kasom.
***
Chegaram em tempo.
Conseguiram alcançar o local minutos antes que o transmissor fantasma voltasse a
desmaterializar.
Embaixo dos três homens estendiam-se os contrafortes das montanhas cujas
encostas íngremes se erguiam bem ao longe.
Encontraram o transmissor junto a um vale de pedra. Ao lado do transmissor, que
era um aparelho em forma de caixa com dois metros de altura e três de comprimento,
estava para a figura quadrada de um general.
Os três homens sentiram uma alegria efusiva. Enquanto se aproximavam do
transmissor em alta velocidade, sob a proteção dos campos defletores, viram outro
general sair da abertura violeta do transmissor.
“É o general que montou o pólo receptor no local da próxima transmissão”, pensou
Rhodan.
Por enquanto não estava muito interessado em saber como este general conseguira
chegar a este ponto através do transmissor. Isto poderia ficar para mais tarde. O
importante era evitar que o transmissor desaparecesse de novo.
— Lá estão eles, senhor! — berrou Melbar Kasom, que abrira o capacete. Sua voz
potente superou o ruído do vento provocado pelo deslocamento dos homens.
Perry Rhodan sentiu-se dominado por uma raiva profunda. Esqueceu as precauções
e ativou o rádio-capacete.
— Escute, Kasom — disse sua voz contrariada saída do alto-falante. — O senhor é
o maior idiota que existe na nuvem de Magalhães. Onde já se viu gritar desse jeito? Até
parece que ainda não descobriu que esses aparelhos têm ouvidos muitos sensíveis. Se
tivermos de lutar, a responsabilidade será sua. Entendido?
Dali em diante os acontecimentos se precipitaram.
Rhodan mal acabara de falar, quando os dois generais olharam abruptamente para
cima. Deviam ter percebido numa questão de segundos que alguém se aproximava num
campo energético que o tornava invisível.
A reação dos generais foi instantânea. Enquanto um deles levantava uma pesada
arma energética, o outro mexeu nos controles do transmissor.
Por um instante Perry Rhodan pensou que os generais tentassem escapar. Mas o
chiado da arma energética mostrou que não era nada disso. O raio mortífero passou perto
de Oro Masut, perdendo-se no espaço.
Os três homens reduziram a velocidade, para não serem levados além do ponto de
destino.
Kasom desligou seus projetores antigravitacionais no último instante, caindo uns
cinqüenta metros que nem uma pedra. O raio energético fulgurante passou bem acima do
ertrusiano.
Perry Rhodan cerrou os dentes. Parece que seus receios se confirmavam. Por causa
da imprudência cometida por Kasom já não podiam contar com o fator surpresa.
O transmissor devia estar equipado com um sensor infravermelho que projetava
numa tela os aparelhos em funcionamento montados nas mochilas dos três homens.
Os micropropulsores geravam tanto calor que deviam aparecer em forma de feixes
luminosos até mesmo na atmosfera escaldante de Boultat.
— Separem-se — gritou Rhodan apressadamente. — Depressa. Antes que este
sujeito acerte a mira.
Rhodan viu pelo canto do olho os dois ertrusianos se afastarem para os lados, com
os propulsores uivando. Passaram um de cada lado do transmissor, perseguidos pelos
tiros do general, que ficavam cada vez mais perto do alvo.
Guiando-se exclusivamente pelas indicações fornecidas pelo companheiro, o
general desenvolveu uma excelente pontaria. Rhodan ainda percebeu outra coisa. O fato
de os dois generais se defenderem em vez de fugir através do transmissor provava que a
tensão da corrente saída do banco energético do aparelho ainda não era suficiente para
provocar a desmaterialização do pesado aparelho.
O Administrador-Geral subiu quase na vertical, passando por cima do transmissor.
Achava que não era necessário participar da luta.
Os dois ertrusianos desceram que nem duas aves de rapina. Aumentaram a potência
dos campos antigravitacionais pouco antes do impacto no chão. Pousaram suavemente —
e no mesmo instante abriram fogo com suas armas pesadas.
Bem acima dos combatentes uma pequena pedra desprendeu-se em virtude dos
abalos. A pedra desceu rolando, seguida por rochas maiores e desprendendo um volume
cada vez maior de material rochoso. Finalmente uma grande avalanche desceu trovejando
pela encosta.
Finalmente o ruído cessou e a poeira desapareceu. As armas dos ertrusianos também
silenciaram.
Perry Rhodan olhou para o relógio e viu que tudo não durara mais de dois minutos.
Não havia mais nada com vida perto do transmissor. Os generais estavam jogados
no chão, com os corpos estranhamente contorcidos.
O Administrador-Geral pousou amortecendo a queda com os joelhos. Abriu o
capacete. Os ertrusianos saíram dos seus abrigos e aproximaram-se devagar.
Rhodan voltou a olhar para o transmissor. Ficou apavorado ao notar que um campo
brilhante branco-azulado começava a formar-se em torno do aparelho. Certamente um
dos generais conseguira ativar no último instante o mecanismo de salto do transmissor, na
esperança de que desta forma o aparelho não caísse nas mãos dos perseguidores.
Isso tinha de ser evitado de qualquer maneira. Se não pudessem apresentar o
transmissor como prova, Roumbaki nunca concederia a liberdade aos prisioneiros
terranos.
— O que está fazendo, senhor? — gritou Kasom.
— O transmissor — respondeu Perry Rhodan. — Está desaparecendo! Tenho de
desligar os controles...
Rhodan mal acabara de falar quando um raio energético passou em cima de sua
cabeça, atingindo os controles do transmissor e fundindo o lado direito do aparelho.
Melbar Kasom agira instintivamente ao perceber que o Administrador-Geral não
atingiria aos controles em tempo. Evitara o desaparecimento do transmissor.
A luminosidade branco-azulada que anunciava a desmaterialização desapareceu.
O transmissor nunca mais saltaria.
E o rádio fora silenciado.
5

— Então, doutor?
Roi fez a pergunta em tom impaciente. O Dr. Blain dirigiu os olhos claros para Roi
Danton e acenou lentamente com a cabeça.
— Droga! — praguejou o livre-mercador, furioso.
Os cinco homens contaminados em primeiro lugar estavam com febre alta. Beir e
Blain constaram através da simples inspeção visual que a febre se aproximava do limite
mortal.
Os lábios rachados, os corpos sacudidos pelo frio e pela febre mostravam os
sofrimentos pelos quais os homens estavam passando.
— Será que não está enganado, doutor?
Fred Blain sacudiu a cabeça, cansado. Seu rosto mostrava que estava
completamente exausto. Sofria ao ver os companheiros se defrontarem com a morte
inevitável, sem que pudesse fazer nada para evitar que isso acontecesse.
— Não existe a menor dúvida — respondeu. — As grandes chagas escuras já me
fizeram desconfiar desde o estágio inicial da doença de que se trata de uma variedade da
peste bubônica negra que conhecemos na Terra. Parece que na nuvem de Magalhães
existem germes semelhantes.
— Sou da mesma opinião que meu colega — observou Gerhard Beir. — Ainda se
lembra do velho shangante que acompanhou os dois generais quando contaminaram
nossos companheiros?
Roi Danton fez um gesto afirmativo.
— Viu as cicatrizes no rosto dele? — prosseguiu Beir. — O cabelo ralo? São os
sinais da peste bubônica à qual o shangante sobreviveu.
— E não se pode mesmo fazer nada? — perguntou Danton com a voz apagada.
— Até que se poderia fazer muita coisa — retrucou Gerhard Beir em tom violento.
— A peste bubônica já não é aquela doença apavorante. Os antibióticos modernos a
dominaram, e os cosmobióticos que fazem parte das nossas provisões são ainda mais
eficientes. Acontece...
— Acontece que não podemos pôr as mãos nestes cosmobióticos! — concluiu Fred
Blain.
“E isso certamente será a morte de nossos companheiros”, pensou Roi,
amargurado. Mantinha a mente ocupada com os acontecimentos das últimas horas.
Quando ficou sabendo que o primeiro grupo de terranos contaminados ainda não
tinha morrido, Roumbaki deu ordem para que os germes fossem inoculados num terceiro
grupo. Mais ou menos ao mesmo tempo o segundo grupo contaminado apresentou os
primeiros sinais de febre. O gurrado de juba vermelha mal conseguia esconder a raiva
pela falha evidente, ainda mais que os quinze terranos escarneciam dele quando aparecia
para assistir à “dolorosa” execução.
Os homens temiam a morte, mas eram orgulhosos demais para confessar isso diante
do gurrado.
Art Huron foi para perto do livre-mercador. Havia uma expressão sombria em seus
olhos.
— Parece que o Administrador-Geral também não está tendo muita sorte.
— Parece — confirmou Roi. — Oro Masut ainda não entrou em contato comigo.
Os dois voltaram a mergulhar num silêncio carregado de angústia.
Em torno deles os prisioneiros conversavam aos cochichos. Quase se chegava a ter
a sensação física do desânimo reinante.
Roi tentara de tudo nas últimas horas.
Ameaçara Roumbaki, suplicara, gritara e o insultara. Fora tudo em vão. Não havia
nada que pudesse fazer com que o gurrado desconfiado e odiento não visse inimigos nos
terranos. Quando Roi lançou seu grande trunfo, informando o comandante supremo dos
guerrilheiros de Magalhães sobre a existência do perigo imenso representado por Old
Man, que sem dúvida correria em auxílio dos perlians, Roumbaki só reagira com um
sorriso irônico. Não acreditava no que Roi lhe dizia sobre o objeto lendário, em cujos
hangares estaria guardada uma frota imensa de gigantescos couraçados espaciais.
Desesperado, Danton cobriu o rosto com as mãos. De repente um músculo tremeu
no antebraço enorme — o livre-mercador saltou como se tivesse levado um choque
elétrico.
O minúsculo rádio implantado em sua carne acabara de reagir a um impulso.
— Que houve, senhor? — perguntou Art Huron, preocupado, inclinando-se sobre o
chefe.
— Finalmente Oro resolveu chamar — exclamou o livre-mercador, apressado. — O
microaparelho acaba de emitir o sinal de chamada... Depressa! Um lápis e alguma coisa
em que possa fazer anotações.
Trêmulo, o colono de Markos V tirou uma esferográfica de um dos bolsos do
uniforme de campanha, arrancou uma folha de sua agenda de bolso e entregou-a a
Danton, que começou a escrever apressadamente.
Oro Masut informou que tinham encontrado o transmissor fantasma juntamente
com dois generais. Já se verificara que havia grande quantidades de pó de cristal no
estômago e nas vísceras dos generais. Dali se concluía que tinham sido submetidos à
influência dos perlians, que não se sabia como tinham levado um transmissor de grande
potência para Boultat, numa nave-pêra.
— Até que enfim!
Roi Danton nem foi capaz de exprimir por meio de palavras a alegria que estava
sentindo.
Por alguns segundos a confusão reinou entre os prisioneiros.
Alguns riram.
Outros soluçaram de alegria.
— Então, capitão? Satisfeito?
Roi Danton dirigira estas palavras a Art Huron, que tentava bater nos ombros de
todos os companheiros ao mesmo tempo.
— Muito mais que isso, senhor — respondeu o Capitão Huron. — Só falta
comunicar a novidade a Roumbaki.
***
Quando o gurrado apareceu com os dois outros membros do triunvirato, o livre-
mercador lhe comunicou o que acabara de saber de Masut.
Como de costume, Roumbaki não acreditou nele. Reclamou por ter sido molestado.
Neste instante germinou uma semente que Danton lançara pessoalmente horas atrás.
Sibala e Heykh surpreenderam todo mundo colocando-se contra o gurrado, que
esbravejava em altas vozes, e obrigando-o a enviar um comando ao local indicado por
Roi, onde estariam o transmissor e os cadáveres dos generais.
Perry Rhodan dera ordem para que Oro Masut transmitisse os dados três vezes, pois
queria ter certeza de que não errassem o lugar.
Mais uma vez os prisioneiros tiveram de esperar.
***
Tudo estava parado naquele calor infernal.
Os dois sóis estavam quase a pino sobre o vale estreito, no qual não havia nenhuma
sombra.
Os paredões de rocha refletiam o calor, gerando temperaturas iguais às que deviam
reinar no foco de uma lente.
O único ruído que Perry Rhodan ouviu no meio do calor escaldante foi o do sangue
correndo pelas veias.
Estava sozinho ao lado dos cadáveres dos generais. Atrás dele erguia-se o pólo de
remessa do transmissor.
Rhodan mandara embora os ertrusianos. Não queria que aparecessem por enquanto.
Não sabia qual seria a reação de Roumbaki quando o visse. Era bem possível que ainda
precisasse bastante dos dois ertrusianos — e então teriam de estar livres.
Ele os conhecia e sabia que naquele momento estariam com o terreno adjacente ao
transmissor sob a mira das armas térmicas.
Para Rhodan era bom que fizessem isso.
De repente o silêncio do vale estorricado foi interrompido por um apito estridente.
Rhodan protegeu os olhos com a mão e examinou o céu.
Viu um ponto escuro em cima das montanhas. O ponto aproximou-se em alta
velocidade e assumiu os contornos de uma nave em forma de flecha.
A nuvem de areia e poeira levantada pelos propulsores da pequena nave
desmanchou-se. No mesmo instante uma rampa desceu do terço inferior do veículo que
acabara de pousar sobre as aletas da popa. Um comando de guerrilheiros fortemente
armados desceu por ela e espalhou-se.
Perry Rhodan estava com os braços cruzados sobre o peito. Ao lado dele via-se uma
pequena tradutora apoiada sobre um tripé.
O Administrador-Geral fitou os guerrilheiros com os olhos semicerrados. Um
sorriso de desprezo apareceu em seu rosto quando viu um canhão energético sair da
carlinga em forma de gota, apontando a tela de projeção para ele.
— Não acham que é demais para uma pessoa só? — murmurou. — É um sinal de
que estão com medo. Farei tudo para tirar proveito desse medo.
Perry Rhodan viu atrás dos guerrilheiros que se espalhavam pela área dois homens
que pelas atitudes pareciam ser os chefes. Caminharam em direção ao Administrador-
Geral sem tirar os olhos dele.
O gurrado: um ser de juba vermelha, rosto selvagem e arrojado, traços fortes.
O shangante: uma figura delicada, que quase chegava a ser frágil. Traços finos, juba
prateada. Uma expressão suave nos olhos. Perry Rhodan quase chegou a ter a impressão
de que havia neles um medo indefinível.
Roi Danton informara o Administrador-Geral sobre tudo que tinha acontecido
depois que a nave em que tinham vindo pousara em Boultat. Por isso não teve a menor
dúvida de que os seres que se encontravam à sua frente só podiam ser Roumbaki e Sibala.
— Parados!
Perry Rhodan não falou muito alto, mas havia alguma coisa no tom de sua voz que
fez Roumbaki parar a alguns metros deste homem alto, de rosto estreito, que podia ser
facilmente identificado como terrano.
Sibala tremeu por dentro. Ouvira falar num terrano que fugira da prisão num planeta
situado a vários anos-luz dali. Mas achou que seria um absurdo estabelecer uma ligação
entre este terrano e o que se encontrava à sua frente, ignorando as armas
ameaçadoramente apontadas para ele.
A raiva reprimida fez Roumbaki tremer. Mas o olhos frios e cinzentos do homem
que se encontrava à sua frente mostravam uma determinação inflexível e uma autoridade
muito forte, à qual nem mesmo o gurrado poderia opor-se. A voz de comando do terrano
voltou a soar.
— Ouça primeiro o que tenho a lhe dizer, Roumbaki.
Um grito rouco soou bem ao longe. No lugar em que se encontravam nenhum ruído
perturbava a paz aparente daquele tarde.
Roumbaki sacudiu a juba, zangado. Seu rosto assumiu uma expressão sombria.
Apoiou as mãos no cinto, inclinou-se lentamente e fitou o homem que era uns trinta
centímetros mais alto que ele.
— Aqui o senhor não dá ordens, terrano! — resmungou.
— Será mesmo?
O rosto duro e irônico de Rhodan abriu-se num sorriso malicioso.
— É bom que saiba o que aconteceu. À sua esquerda o senhor vê os cadáveres de
dois generais que, segundo apurei sem a menor sombra de dúvida, foram assumidos pelos
agentes de cristal dos perlians. Controlavam o transmissor de matéria que se encontra
atrás do senhor, e que consegui destruir.
“Desta forma já não existe qualquer motivo para que continue a manter presos os
homens pertencentes ao meu grupo. Exijo que sejam libertados imediatamente.
“Acho que ficou perfeitamente claro que nós, que fomos envolvidos por acaso no
conflito entre os perlians e os gurrados, nunca revelamos a posição de Boultat aos seus
inimigos. Aguardo seu pronunciamento, Roumbaki.”
Havia uma expressão de espanto no rosto de leão de Roumbaki.
— Quem é o senhor? — resmungou enquanto fitava Perry Rhodan com uma
expressão de expectativa. — E por que resolveu falar como representante dos
prisioneiros?
Rhodan respondeu à pergunta.
O shangante que se encontrava ao lado de Roumbaki começou a balançar. Agarrou
o braço de um guerrilheiro que se aproximou às pressas e cochichou com os lábios
trêmulos:
— E o senhor... Como veio parar aqui?
— No momento isso não importa — respondeu Perry Rhodan. — O importante é eu
estar aqui.
— O que é isso? — queixou-se o gurrado de juba vermelha e lançou um olhar
desconfiado para o shangante de cabelos prateados.
Sibala endireitou o corpo frágil e apontou para Perry Rhodan.
— Este é o homem que, segundo informa o relatório do comandante Trikort,
escapou na base planetária de Aysoor e fugiu para o deserto, onde ficou.
Os pensamentos atropelaram-se na cabeça de Roumbaki. O fato de o chefe dos
terranos aparecer de repente nas montanhas desérticas de Boultat, quando deveria estar
em Aysoor, fez com que encarasse certas coisas de uma perspectiva bem diferente. De
repente uma luz nova fora lançada sobre as histórias contadas pelo “rei”. O gurrado
enxergou certas coisas que até então tinham permanecido ocultas pelo simples fato de
que não queria que estas coisas existissem.
Roumbaki sentiu-se inclinado a acreditar em tudo que o terrano acabara de dizer.
Quando se lembrou do que o tal do rei lhe contara a respeito da gigantesca máquina de
guerra chamada Old Man, que entraria na luta ao lado dos perlians, Roumbaki
empalideceu.
Perry Rhodan não tirara os olhos de Roumbaki. Imaginava o que este pensava, e
resolveu aproveitar a confusão do gurrado.
— Se fosse o senhor, decidiria logo, Roumbaki — disse em tom áspero. — Uma
frota terrana de mil naves muito poderosas aproxima-se do sistema de Boul. Meus
comandantes receberam ordem de atacar imediatamente, a não ser que eu entre em
contato com eles. Neste caso só poderão supor que estamos mortos. Acho que não
preciso explicar o que significaria um ataque destes para Boultat, não é mesmo?
Perry Rhodan teve a impressão de que a cena tinha algo de irreal. Os diálogos
pareciam ter sido escritos pelo autor de um livro de péssima qualidade. Os bastidores que
cercavam o quadro pareciam ter sido feitos por um diretor de teatro despedido.
Mas era uma questão de vida ou morte.
A realidade, percebeu Rhodan, não era boa nem ruim: era neutra. Só a
representação das criaturas que usavam a inteligência com uma sorte e uma habilidade
variável a transformaria num drama, numa comédia, numa tragédia — ou simplesmente
num nada.
A voz gutural de Roumbaki interrompeu as reflexões de Perry Rhodan a respeito do
valor e da insignificância de toda ação.
— O que devemos fazer? — traduziu a máquina.
Por uma fração de segundo Rhodan teve a impressão de não ter ouvido bem. Mas
logo se deu conta, satisfeito, de que aquelas palavras representavam o primeiro passo da
capitulação de Roumbaki.
— Leve-me para junto dos meus companheiros — disse.
Roumbaki gritou algumas ordens. Seus guerrilheiros foram voltando à nave.
Nem sequer pedira que Perry Rhodan entregasse as armas. O Administrador-Geral
dirigiu-se à nave como homem livre.
Rhodan ia subir pela rampa, quando o alto-falante instalado em seu capacete deu
um estalo.
— O que será de nós, senhor? — perguntou a voz nervosa de Melbar Kasom.
— Quer que morramos de fome por aqui, senhor?
Foi a voz de Masut.
— Alguns dias de regime até que não lhe fariam mal, Masut — retrucou Perry
Rhodan, para em seguida prosseguir: — Venham logo! Avisarei ao desconfiado
comandante supremo dos guerrilheiros de Magalhães que tem mais dois convidados para
transportar. Nem pensem em só desligar os campos defletores quando estiverem bem
perto. Isso poderá levar algum guerrilheiro supernervoso a atirar nos senhores.
Uma expressão de alerta surgiu nos olhos dos gurrados quando viram os
gigantescos ertrusianos, que em comparação com os cabeças de leão só podiam ser
mesmo chamados de gigantes.
Um povo que possuía combatentes desse porte certamente era invencível.
Dali a pouco a pequena nave subiu ao firmamento, apoiada sobre um raio de fogo.
***
— Pronto!
O Doutor Fred Blain suspirou aliviado, enquanto levantava, depois de ter estado
inclinado sobre Tony Steward, que estava deitado no chão e precisava de três homens
para segurá-lo. Nos últimos trinta minutos os acessos de febre do tenente tinham-se
tornado cada vez mais freqüentes. Quase parecia que iria morrer, mas finalmente veio a
virada pela qual tanto se ansiava.
Perry Rhodan apareceu com os ertrusianos. Era fortemente vigiado, mas andava à
vontade de um lugar para outro.
Ouviu com o rosto impassível os relatos dos médicos. Em seguida ordenou com a
voz acostumada a dar ordens que os doentes fossem libertados imediatamente. Além
disso fez com que os equipamentos médicos fossem devolvidos ao grupo.
A parede energética transparente que separava as duas salas em que estavam
guardados os prisioneiros tinha desaparecido.
Fred Blain começou com Tony Steward, enquanto seu colega Gerhard Beir cuidava
de outro doente. Os cosmobióticos modernos, que os médicos injetaram prontamente nos
homens atacados pela peste, fariam baixar a febre dentro de quinze minutos e dariam
início ao processo de restabelecimento.
— Será que Tony voltará a ficar bom, doutor?
Art Huron apareceu ao lado do médico, empurrando energicamente um gurrado que
queria levar muito sério a tarefa de vigilância.
Fred Blain fitou o colono de Markos V com os olhos cansados.
— Não acredito — respondeu o médico, distraído, abrindo a embalagem
hermeticamente fechada de outra ampola pressurizada. — Sei, Capitão Huron. Não se
preocupe. Tony Steward continuará vivo, da mesma forma que os outros. Aquilo que os
gurrados consideravam uma forma de execução extremamente cruel no fim não passará
de uma brincadeira de mau gosto.
O Doutor Blain inclinou-se sobre outro doente.
Art Huron suspirou aliviado e estufou o peito enorme, para em seguida ter o
interesse despertado por um espetáculo. Chegou mais perto de Danton e dos dois
ertrusianos. No momento não se via Perry Rhodan.
Pelo que sabia Art Huron, o Administrador-Geral estava examinando as reservas de
alimentos e medicamentos, juntamente com alguns homens e os gurrados incumbidos de
vigiá-los.
Depois disso Oro Masut despertou a atenção de Huron.
Há pouco tempo estivera deprimido, mas naquele momento os que o cercavam
começaram a sorrir quando viram o gigantesco ertrusiano Masut abrir caminho num
grupo de guerrilheiros que se afastavam, assustados, para cair de joelhos à frente de Roi
Danton.
Havia uma expressão de êxtase em seu rosto desfigurado pelas cicatrizes.
— Meu rei está vivo! — exclamou com a voz retumbante. — O senhor nem
imagina o quanto meu coração se alegra. Masut, seu servo mais humilde, derrama
lágrimas de alegria ao revê-lo.
Roi Danton sorriu e inclinou-se sobre o amigo.
— Levante, mon cher ami — disse. — Está tudo em ordem.
O idílio foi perturbado de repente por uma voz não menos forte que a de Masut.
— Ora vejam, o pirata e seu levanta-peso desajeitado. Que reencontro...
Melbar Kasom sorriu com uma expressão maliciosa.
— Não lhe dê ouvidos, rei — resmungou Oro dando acintosamente as costas a
Kasom. — Este campônio ertrusiano não merece que ninguém lhe dê atenção.
O ertrusiano não estava mais para brincadeiras. Seu rosto assumiu uma expressão
sombria.
— Retire imediatamente a expressão campônio, senão conto a todo mundo que vive
roubando os alimentos — exclamou em tom de ameaça.
Esta colocação foi demais para Masut. Levantou fungando furiosamente e soltando
repentinamente seu rei, que caiu sobre o traseiro com um baque surdo.
As garras enormes do guarda pessoal do rei abriam-se e fechavam-se numa
perspectiva muda. O crânio enorme afundou entre os ombros gigantescos...
Neste instante uma voz habituada a comandar mandou que os dois tipos briguentos
parassem.
Perry Rhodan entrou acompanhado de alguns oficiais gurrados.
— O que é isso? — gritou para os ertrusianos, que baixaram a cabeça, embaraçados.
Roí Danton, que acabara de levantar, sorriu afetado.
— Se permite, grandseigneur — disse em tom solene — eu enfiaria este galo de
briga ertrusiano que atende pelo nome de Kasom num internato. Este jeca não tem nem
um pouco de boas maneiras.
O livre-mercador afastou-se do especialista da USO, que pôs o dedo na testa, nem
gesto bem claro.
— Está vendo, grandseigneur? — disse Danton indignado. — É como já disse. Ele
não sabe mesmo como deve comportar-se diante de uma pessoa de sangue real.
— Mister Danton!
Havia um tom de reprovação na voz de Rhodan. Por um Instante Roi, ou melhor,
Michael Reginald Rhodan, imaginou que estivesse no palácio de Terrânia City, em cujos
salões soara, há muito tempo, essa mesma voz reprovadora, quando ele, Mike, tinha feito
uma das suas e acreditava poder escapar ao castigo ficando escondido.
O pai e a mãe! A irmã Suzan! Terrânia City! A Terra! As recordações desfilaram
diante da imaginação de Roi que nem as figuras de um caleidoscópio.
Notava-se perfeitamente que havia um ponta de ironia na voz de Rhodan, que
interrompeu as reflexões de Roi.
— Obrigado, grandseigneur! — disse o livre-mercador, aproximando-se do pai. —
Agradeço antes de mais nada em nome dos homens que esperaram confiantes que sua
ação fosse bem-sucedida. Se não tivesse sido bem-sucedido, estaríamos numa situação
extremamente grave.
Eram palavras singelas, nas quais não havia a menor ironia.
A figura alta e esbelta do livre-mercador entesou-se. Danton fez um gesto amplo
com a mão direita e em seguida encostou-a ao peito.
Perry Rhodan ficou em dúvida por um instante. Não sabia se este gesto
correspondia a uma gratidão real, vinda do fundo do coração, ou se era mais uma das
brincadeiras do livre-mercador. Encarou atentamente o rosto de Danton, os olhos azuis
profundos, que pareciam lembrar outro par de olhos, e ficou perplexo ao reconhecer que
Danton realmente estava profundamente emocionado. Era um dos inúmeros segredos que
o livre-mercador sabia oferecer.
Roi Danton comportava-se com certa freqüência — com uma freqüência demasiada,
disse Rhodan a si mesmo — como um dos cortesãos decadentes de Luís Dezessete.
Mas desta vez abandonara as maneiras afetadas. Era um jovem perfeitamente
normal. Parecia exausto, estropiado, sujo, barbudo, com escoriações sangrentas no rosto,
produzidas por uma tentativa de fuga malsucedida, mas havia uma expressão de
felicidade em seus olhos.
A máscara atrás da qual Danton se escondia para ocultar sua verdadeira
personalidade caíra por um breve espaço de ponto.
Perry Rhodan obrigou-se a não pensar mais nisso.
— Dispenso seus agradecimentos, jovem — disse e ficou aborrecido ao notar que
não conseguia controlar a própria voz.
— Afinal, ainda não sabemos se saímos mesmo vitoriosos. Roumbaki ainda está
bastante desconfiado. Já reconheceu que não temos nenhuma ligação com os sinais
goniométricos que poderiam ter revelado a posição dos gurrados ao inimigo e que nos
deve desculpas, mas o fato é que não confia em nós. Parece que não aceita a idéia de que
existe um povo que não está interessado em perseguir e subjugar os guerrilheiros de
Magalhães.
— Deveria acontecer alguma coisa — disse Danton, pensando em voz alta — capaz
de captar-nos a amizade de Roumbaki.
— Que argumentos poderiam ser usados para convencer este velho teimoso? —
indagou Perry Rhodan.
Danton deu de ombros.
— Se a gente soubesse, as coisas seriam mais fáceis — disse em tom pensativo.
— Quer dizer que por enquanto será mantido o status quo. — interveio Art Huron,
aproximando-se.
O Administrador-Geral baixou os olhos. Parecia pensativo. De repente acenou com
a cabeça.
— Concordo em que seja mantido — desde que haja alguma melhora.
Sessenta minutos depois disso apareceu um comando formado por quatro gurrados,
que solicitaram formalmente ao Administrador-Geral que comparecesse diante do
triunvirato.
— Boa sorte, grandseigneur! — desejou Roi Danton.
— Obrigado — respondeu Rhodan com um sorriso. — Bem que...
Era uma sala circular, de teto alto, completamente vazia, com exceção de uma
barreira baixa que ficava do lado oposto à entrada.
Havia três homens sentados atrás da barreira lisa e simples: Roumbaki, um gurrado
de juba vermelha, o General Heykh e o shangante Sibala.
Perry Rhodan, cujos guardas tinham ficado junto à porta, caminhou altivamente
sobre o piso brilhante, em direção à barreira. Finalmente parou.
Três pares de olhos fitaram-no.
Nos oblíquos olhos de gato de Roumbaki ainda havia uma expressão de
desconfiança. Mas o Administrador-Geral teve a impressão de que ainda havia outro
coisa nestes olhos: medo. Roumbaki parecia ser um homem torturado pela dúvida.
Os enormes olhos do general, como sempre, não demonstravam nenhuma emoção.
O Administrador-Geral viu nos olhos amáveis de Sibala uma alegria que este mal
conseguia reprimir.
— Vocês queriam falar comigo — principiou Perry Rhodan. — Aqui estou.
Roumbaki brincou nervosamente com algumas folhas que se encontravam sobre a
superfície ligeiramente inclinada da barreira.
— Tenho aqui os relatórios de três dos meus comandantes — disse em tom
hesitante.
Perry Rhodan esperou.
Cruzou os braços sobre o peito e fixou os olhos cor de aço em Roumbaki, que bateu
violentamente com a mão aberta sobre as folhas de papel.
— Não está interessado em saber o que dizem estes relatórios? — resmungou
indignado.
— Acho que de qualquer maneira ficarei sabendo — retrucou Perry Rhodan. —
Certamente fui convocado por causa disso.
O rosto de Roumbaki assumiu uma expressão de espanto. Os lábios de Sibala
abriram-se num sorriso de compreensão. Parecia que tinha uma simpatia inexplicável por
aquele terrano alto.
— Prossiga, Sibala! — ordenou Roumbaki em tom violento.
Empurrou as folhas de papel para o shangante, recostou-se e mergulhou num
silêncio ostensivo. Só de vez em quando lançava um olhar para o terrano.
A voz suave de Sibala saiu do alto-falante da tradutora.
— Os comandantes das três naves que presenciaram o ataque ao planeta que os
senhores chamam de Modula II são unânimes em declarar que viram os agentes de cristal
serem destruídos por um grande contingente de naves. Posso saber a que frota pertence
este contingente?
— Por que não? — respondeu Perry Rhodan. — À minha frota.
“Desculpe, Atlan, velho amigo, por ter dito que a 14 a Frota Ofensiva Pesada
comandada pelo Almirante Con Bayth é minha”, pensou Perry Rhodan. “Mas os fins
justificam os meios. Além disso fica tudo em família.”
Sibala pigarreou antes de prosseguir.
— Os comandantes ainda viram grupos enormes de robôs porem os perlians fora de
ação, tornando possível a fuga de grande número de prisioneiros gurrados. Acho que nem
é necessário perguntar se esses robôs pertencem à sua frota.
Perry Rhodan ficou calado. O sorriso que esboçou dizia tudo.
O shangante tossiu ligeiramente, enquanto se ouvia Roumbaki resmungar.
— Por que só agora tivemos acesso a este relatório? — indagou de repente o
Administrador-Geral em tom enérgico. — Será que não retardaram a libertação dos
prisioneiros somente para que continuássemos a procurar o transmissor? Se foi assim, os
senhores terão de sofrer as conseqüências.
Estas palavras foram proferidas com a voz fria. Havia nelas uma ameaça bem clara.
Parecia que Roumbaki não se sentia muito à vontade, inclinou-se para Sibala e
começou a falar insistentemente com ele.
— Faço questão de ressaltar — disse o shangante finalmente, dirigindo-se a Perry
Rhodan — que só há pouco tivemos conhecimento destes relatórios. As respectivas naves
pousaram há menos de noventa minutos no porto espacial deste planeta.
— Como se explica — indagou Rhodan, desconfiado — que estas naves só
chegaram agora, quando já estamos aqui há mais de um dia?
O shangante ergueu os ombros delicados.
— Os comandantes das três naves perderam muito tempo realizando grande número
de transições para chegar ao quartel-general instalado em Boultat.
Rhodan acenou com a cabeça.
“Sibala está dizendo a verdade”, pensou. “Pelo que estou lembrado, o comandante
Trikort reduziu por conta própria os oitos saltos de transição previstos para apenas três,
para que pudéssemos suportar a viagem.”
De repente a batida de um gongo ressoou pela sala abobadada.
Neste instante o Administrador-Geral percebeu que na face interna da barreira devia
haver telas de imagem. Uma luz azulada refletiu-se no rosto de Roumbaki, produzindo
sombras profundas em suas estranhas feições.
A voz gutural de um gurrado saiu de um alto-falante. Era muito baixa para poder ser
processada pela máquina tradutora.
Roumbaki e o shangante ouviram em silêncio. Finalmente a luminosidade da tela
desapareceu.
O velho gurrado de juba vermelha levantou a cabeça. Parecia deprimido. Encarou
prolongadamente o terrano sem dizer uma palavra.
Perry Rhodan viu perfeitamente a agitação que havia naquele rosto estranho.
Finalmente Roumbaki começou a falar.
— O comandante do porto espacial acaba de comunicar que outra nave pousou. O
comandante desta unidade afirma ter visto pelo menos vinte mil espaçonaves terranas no
sistema de Modula...
Roumbaki ficou calado. Via-se um sinal de desespero em seu olhar, nos
movimentos das mãos que colocou sobre a barreira.
Perry Rhodan sabia perfeitamente o que preocupava o gurrado naquele momento.
Era a possibilidade de com seu comportamento obstinado ter arranjado mais um inimigo:
os terranos. Para o gurrado não havia a menor dúvida de que os terranos se vingariam
pela humilhação sofrida.
Perry Rhodan nem pensava em vingar-se. Pelo contrário. Estava disposto a fazer
uma aliança com os guerrilheiros de Magalhães.
O comandante supremo dos gurrados mostrou-se muito surpreso ao ouvir a proposta
do terrano, enquanto Sibala não escondeu sua alegria.
Finalmente havia uma possibilidade de saírem vitoriosos na guerra com os perlians.
Com o apoio de aliados tão poderosos como os terranos, isso devia ser possível.
— O que o senhor pede em troca? — indagou Roumbaki depois de algum tempo.
— Pouca coisa — respondeu Rhodan, que já esperara a pergunta. — Aquilo que se
pode esperar de um aliado. Planetas para instalar bases. Estaleiros. E principalmente livre
trânsito no interior de sua galáxia anã.
Roumbaki ficou perplexo. Parecia não acreditar no que acabara de ouvir. Será que o
terrano realmente se contentaria com aquilo que fora pedido? Era incrível!
— É só o que quer? — voltou a perguntar.
Perry Rhodan respondeu que não. O rosto de Roumbaki assumiu uma expressão
sombria. O principal ainda estava para vir.
— Além das condições formuladas — prosseguiu Perry Rhodan — exigimos
informações precisas sobre o número de planetas que fornecem matéria-prima aos
agentes de cristal. Além disso gostaria de ficar sentado. Assim poderemos discutir melhor
as coisas.
Sibala sugeriu que fossem a uma sala menor. Garantiu que lá o terrano encontraria o
conforto que estava pedindo.
A sala menor a que Sibala aludira era um amplo conjunto de salas, no qual havia
numerosas poltronas e um número ainda maior de mesinhas feitas de uma madeira com
desenho forte.
Guardas com trajes de couro vermelho carregavam pesadas jarras de cristal.
Perry Rhodan olhou ligeiramente em volta, à procura de um caneco ou de um copo.
Mas constatou, alegre, que os guerrilheiros eram grandes beberrões. Roumbaki encostou
a jarra aos lábios e sorveu gulosamente o líquido.
Rhodan seguiu o exemplo.
Era um excelente vinho, muito encorpado. Perry Rhodan reconheceu isto mal havia
tomado o primeiro gole.
O Administrador-Geral descansou sua jarra numa mesinha baixa.
— Voltando à pergunta já feita: Quantas destas armadilhas mortais existem no
espaço?
Olhou fixamente para Sibala.
— Vinte e nove! — foi a resposta do shangante saída da tradutora.
Ainda restavam vinte e oito, lembrou Perry Rhodan. Um dos mundos atravessados
por veios de cristal já fora destruído. Tratava-se de Danger I.
Mas as vinte e oito armadilhas restantes ainda representavam um perigo imenso
para os povos livres da grande nuvem de Magalhães. Enquanto existissem estes mundos,
os perlians não teriam a menor dificuldade em obter suprimentos para os agentes de
cristal ainda não programados.
Isso tinha de ser resolvido dentro de muito pouco tempo...
***
Ainda era o dia primeiro de dezembro de 2.435.
A insuportável luz ofuscante dos dois sóis projetava sombras compridas na
paisagem. O dia de dezessete horas estava chegando ao fim.
Pouco antes de os dois sóis mergulharem sob o horizonte, o rugido selvagem de
uma espaçonave decolando se fez ouvir na pista.
O jato de fogo agitado saído das enormes câmaras de combustão da nave-pêra de
mil e cem metros de comprimento e seiscentos de diâmetro no ponto mais largo produziu
um trovejar intenso e prolongado.
Dali a instantes a espaçonave atravessou a camuflagem ótica que cobria o porto
espacial. Dentro de mais alguns segundos saiu da atmosfera e afastou-se acelerando
constantemente. A velocidade ainda era relativamente reduzida. Os navegadores tiveram
um trabalho enorme para evitar que a força gravitacional dos dois sóis arrastasse a nave
para a destruição.
Cada passagem era um jogo arriscado, no qual se devia compensar os campos
gravitacionais dos dois sóis, que ficavam a apenas dez milhões de quilômetros um do
outro.
Dentro de mais algumas horas a nave atravessou as gigantescas nuvens de
hidrogênio que formavam um anel compacto em torno do sistema de Boul e constituíam
uma das características deste centro situado em uma das espirais da grande nuvem de
Magalhães.
Havia dez terranos a bordo da espaçonave comandada por Trikort. Todos eram
especialistas de rádio. Queriam estabelecer contato com as vinte e duas unidades que se
encontravam nas profundezas da grande nuvem de Magalhães.
Sem preocupar-se com a possibilidade de serem detectados pelos contingentes de
belonaves dos perlians, Trikort deu ordem para que os dez terranos usassem os aparelhos
de rádio no máximo de sua capacidade.
Mas por enquanto não conseguiram nenhum resultado.
***
O cruzador pesado Kartika Sari parecia flutuar imóvel no espaço salpicado de
estrelas.
Mas era uma falsa impressão.
Na verdade a espaçonave de quinhentos metros de diâmetro desenvolvia exatamente
trinta e dois por cento da velocidade da luz, em vôo normal através da grande nuvem de
Magalhães.
A Kartika Sari era uma das vinte unidades pertencentes ao 82 o Grupo Misto de
Estabilização comandado pelo General Ems Kastori, o “alegre”, que tinham sido
colocadas sob o comando do Lorde-Almirante Atlan.
Atlan acompanhava os vinte cruzadores pesados com a Crest IV. Além disso a
nave-capitânia de Roi Danton, rei dos livres-mercadores, a poderosa Francis Drake, fazia
parte do contingente ligeiro e fortemente armado.
A Kartika Sari ficava em uma das extremidades de uma linha imaginária de três mil
anos-luz de comprimento. Sua tarefa consistia em descobrir algum sinal de vida de Perry
Rhodan e dos outros membros do comando Modula. Era uma tarefa que tinha levado
vários tripulantes da Kartika Sari à beira de um colapso nervoso, conforme o Coronel
George O’Connor teve de reconhecer, contrariado.
O comandante do cruzador pesado, um homem baixo e magro de quarenta e três
anos, com um rosto corriqueiro, estava mal-humorado.
Se alguém fizesse uma pergunta a este respeito aos seus tripulantes, ficaria sabendo
que O’Connor quase sempre andava mal-humorado. No 82o GME era conhecido como o
“carrancudo”, numa comparação negativa com o General Ems Kastori, o “alegre”.
Dificilmente passava um dia sem que O’Connor fizesse ouvir sua voz azeda, para dar
uma demonstração de mau humor, geralmente diante de uma pessoa inocente.
Mas naquele dia as coisas estavam piores que de costume.
E isso por dois motivos.
Primeiro, como de costume tinha comido demais, o que sempre lhe dava uma forte
azia. Além disso seu segundo imediato, Steven Allen, estava doente.
Era bem verdade que a presença do segundo imediato não era absolutamente
necessária. Até chegava a ser pouco importante para o serviço de bordo normal de
Kartika Sari. O imediato poderia cuidar de suas atribuições. O que deixava George
O’Connor mais aborrecido era o fato de não poder contar com Steven Allen nas partidas
de bilhar que costumava jogar todas as noites. Além de outros defeitos menores, o
comandante da Kartika Sari era um homem pedante, e por isso qualquer desvio de seu
minucioso cronograma o deixava furioso. E o jogo de bilhar noturno fazia parte deste
cronograma. Mas o estado-maior não dava importância a estas pequenas fraquezas
humanas, que em nada prejudicavam a competência de O’Connor como comandante, que
o tornara conhecido.
***
O Comandante da Kartika Sari fez desfilar em sua imaginação todos os membros da
tripulação, para ver se encontrava ao menos uma pessoa que entendesse um pouco de
bilhar.
Não descobriu ninguém.
O Coronel O’Connor ergueu-se da enorme poltrona de comando com o rosto de
quem acaba de defrontar-se com todas as maldades da galáxia.
— Está passando mal, senhor? — perguntou uma voz preocupada.
— Por que está tão interessado nisso? — perguntou O’Connor em tom azedo ao seu
imediato, o Major Ed Powers. — Cuide do centro de rastreamento — prosseguiu,
contrariado. — Ontem fiz uma inspeção e descobri um número considerável de damas
escassamente vestidas.
O rosto do imediato abriu-se num sorriso.
— Damas de carne e osso, senhor? — perguntou. O’Connor fitou o imediato com
uma expressão gelada nos olhos.
— Está bem, senhor — resmungou Ed Powers. — Acho que uma brincadeira de vez
em quando não faz mal.
— Não gosto desse tipo de brincadeira — resmungou George O’Connor.
Ed Powers olhou para ele.
— Pois é — confirmou. — O senhor não gosta mesmo.
O imediato sacudiu os ombros enquanto se afastava. Os técnicos que estavam de
serviço na sala de comando voltaram a ficar com os rostos sérios quando O’Connor olhou
para eles. Mas quando o comandante estava a uma distância em que não podia ouvi-los
soltaram algumas risadinhas.
A figura baixa e magra do comandante da Kartika Sari atravessou a sala de
comando, duro que nem uma vara. Quando estava passando pelo último posto de
controle, a campainha estridente do intercomunicador se fez ouvir.
— Senhor! — gritou a voz de um técnico, atravessando a sala alta. — O Major Sam
Keenan que falar com o senhor.
George O’Connor fez um gesto ligeiro em direção a uma tela do sistema de
intercomunicação perto da qual se encontrava.
O técnico transferiu a ligação para esta tela.
— O que há de tão urgente, major? — perguntou o comandante, aborrecido.
Pretendia ir ao seu camarote, onde o café noturno estaria à sua espera. Mas naquele
dia o café teria de esperar um pouco mais.
O rosto do Major Sam Keenan apareceu na tela. O chefe de rádio da Kartika Sari
parecia nervoso. Suas palavras confirmaram esta suposição.
— Senhor! — exclamou em tom apressado. — Há cerca de dez segundos
recebemos sinais de rádio em texto não codificado, num impecável intercosmo.
Acredito... Sou de opinião...
— O que é mesmo? — gritou O’Connor, zangado, apoiando os braços curtos nos
quadris. — Acredita ou é de opinião? Qual é o texto da mensagem? Vamos! Diga logo.
— Com sua permissão, senhor — respondeu o chefe de rádio. — Sou de opinião
que se trata de uma pista que nos levará a Perry Rhodan. Um instante...
O Major Sam Keenan desapareceu por um instante do campo da objetiva. Quando
voltou, começou a falar muito feliz:
— Se o que tenho não são os dados sobre a posição de um planeta que nos levará
diretamente ao comando Modula II, eu como um okrill adulto com pele e pêlos.
— Tenha cuidado — recomendou o comandante em tom de deboche. — Pode
arranjar uma indigestão...
Atenção! — disse neste instante uma voz saída de um alto-falante que até então
permanecera em silêncio. — Rastreamento falando. Major Sanders. Acabamos de
localizar uma das canoas cósmicas dos guerrilheiros de Magalhães, senhor. A posição
exata é 343 traço 54.
— Qual é a velocidade? E a rota? — perguntou o “carrancudo” em tom apressado.
— Um quinto luz — constante. A esta velocidade a rota que a nave segue a levaria
num futuro distante a um ponto situado aproximadamente no centro da galáxia.
— Qual é mesmo a posição da nave guerrilheira? — gritou o Major Sam Keenan,
cuja imagem continuava na tela.
— O senhor ouviu, Major Sanders? — perguntou o comandante, dirigindo-se ao
chefe do centro de rastreamento, cuja imagem também aparecera na tela.
Sanders repetiu os dados.
— É exatamente o lugar de onde veio a mensagem que acabamos de receber —
exclamou Keenan, apressado, enquanto esfregava as mãos de alegria.
— Faça o favor de abster-se desses gestos — resmungou o comandante, zangado.
— São próprios de uma verdureira, mas não de um oficial da Frota Solar.
— Está bem, senhor — respondeu Sam Keenan sem abalar-se. — Aguardo suas
instruções.
O “carrancudo” não perdeu tempo. Mostrou mais uma vez que era um comandante
de primeira.
— Sala de rádio, entre em contato com a Crest IV. Forme uma cadeia de rádio entre
a nave gurrada e a Crest IV, usando nossa nave como estação retransmissora. Feito isto,
transfira para mim.
“Sala de máquinas, coloque a Kartika Sari numa rota de aproximação à nave que
acaba de ser detectada. Os centros de navegação e rastreamento fornecerão os dados.
“Centro de rastreamento, transfira as imagens para a grande galeria panorâmica da
sala de comando. Quero estar informado a qualquer instante sobre o que está
acontecendo.
“Major Keenan! Ainda não conseguiu contato com a nave guerrilheira?”
— Consegui, sim senhor. Transferirei ao senhor.
Enquanto a Kartika Sari acelerava, correndo em direção ao destino relativamente
próximo, a tela ligeiramente côncava do hipercomunicador iluminou-se.
O comandante, que acabara de voltar à sua poltrona, inclinou-se ligeiramente e
examinou com um interesse visível a tela de imagem, sobre a qual ainda corriam faixas
coloridas.
Dali a pouco apareceu um rosto jovem; via-se logo que era de um terrano.
O terrano fez uma continência impecável ao reconhecer o Coronel O’Connor.
— Tenente Reiyer, senhor — disse a voz alegre saída do alto-falante. — E mais
nove membros do comando Modula II. Eu...
Neste instante a imagem do Major Keenan apareceu no ângulo superior esquerdo da
tela de imagem.
— Senhor! — disse a voz saída da parte acústica do aparelho, fazendo com que o
tenente se calasse. — A cadeia de rádio com a Crest IV acaba de ser formada.
Antes que o comandante pudesse dizer qualquer coisa, outra tela iluminou-se. Um
alto-falante emitiu um estalo, e o rosto de um homem de olhos um tanto oblíquos
apareceu na tela. Em seguida a voz deste homem saiu da grade sonora que ficava
embaixo da tela.
— Crest IV, sala de rádio, Major Wai. Que houve, Kartika Sari?
George O’Connor aproximou o microfone dos lábios e virou o rosto para a objetiva.
— Coronel George O’Connor falando — respondeu. — Sou o comandante da
Kartika Sari. Acho que descobrimos uma coisa muito importante, major.
O Major Wai não parecia nem um pouco impressionado. Encarou o “carrancudo”
com um ar estóico.
— O que é? — perguntou.
— Descobrimos uma pista que nos levará a Perry Rhodan e ao resto do comando.
Há alguns minutos conseguimos estabelecer contato de rádio com os membros deste
grupo, que receberam ordens do Administrador-Geral para, através do rádio da nave
gurrada, irradiar ininterruptamente a posição de certo sistema planetário, e...
— Vou transferir a ligação ao Lorde-Almirante Atlan — interrompeu o Major Wai.
A imagem mudou. Dali a pouco o busto do arcônida de dez mil anos apareceu na
tela.
O “carrancudo” não se sentiu nem um pouco à vontade ao ver dois olhos atentos
que pareciam dissecá-lo.
— O senhor me entende, Coronel O’Connor? — perguntou a voz enfática do
arcônida saída do alto-falante.
— Eu o entendo muito bem, senhor — respondeu o comandante da Kartika Sari.
— Poderia fazer a gentileza de repetir a informação, coronel?
A voz de Atlan parecia calma e controlada. Só mesmo um observador muito atento
seria capaz de notar a ansiedade do arcônida.
— Naturalmente, senhor!
O “carrancudo” fez um relato ligeiro sobre os últimos acontecimentos.
— Obrigado, coronel — disse o arcônida depois que ele terminara. — Faça o favor
de colocar-me em contato com este jovem.
O Major Sam Keenan fez um excelente trabalho, como o “carrancudo” não pôde
deixar de reconhecer.
O Coronel O’Connor viu o arcônida e o tenente em duas telas acopladas. Os
homens que estavam a alguns anos-luz de distância um do outro conversavam como se
estivessem sentados em torno de uma mesa.
O Tenente Reiyer fez um relato resumido dos acontecimentos dos últimos dias.
Contou o que tinha havido em Boultat e ao concluir informou por que tinham sido
libertados.
— Coronel O’Connor! — disse o arcônida em tom enérgico, assim que o tenente
concluiu.
— Pois não, senhor.
— Faça uma manobra de aproximação à nave gurrada. Uma vez lá, aguarde a Crest
IV e a Francis Drake. Em seguida receberá novas instruções.
— Entendido, senhor! — exclamou George O’Connor enquanto fitava a tela, que
escurecera abruptamente. O arcônida desligara sem maiores explicações.
Dali a pouco a Kartika Sari entrou na zona de libração e percorreu a distância em
vôo linear.
***
Na tela panorâmica da Crest IV o planeta Boultat aproximava-se em velocidade
alucinante.
Atlan estava de pé atrás da poltrona especial do comandante epsalense, enfiado num
traje de combate completo. Colocou a mão no ombro blindado do Coronel Merlin Akran.
— Foi um excelente trabalho, coronel — disse em tom de elogio.
— Que é isso, senhor? — retrucou o epsalense. — Com uma nave como esta é fácil.
Atlan sorriu ligeiramente. Logo se lembrou de que Merlin Akran não dissera isto
por falsa modéstia. Estava apenas fazendo uma avaliação objetiva das circunstâncias.
A Crest IV realmente era uma nave formidável — sob todos os aspectos.
Estava equipada com quatro kalups do último tipo, em versão ultra compacta, que
lhe garantiam uma autonomia de um vírgula dois milhões de anos-luz por conjunto. Com
um ultra-couraçado do tamanho da Crest IV podia-se percorrer a distância de quatro
vírgula oito milhões de anos-luz sem que a nave tivesse de entrar num estaleiro para ser
submetida a uma revisão.
Atlan olhou para as duas telas, que mostravam a Francis Drake e a Kartika Sari. As
naves seguiam a Crest IV com os campos defensivos hiperenergéticos ativados a plena
potência.
O Tenente Reiyer, que se encontrava a bordo da Kartika Sari, alertara contra as
perigosas naves de hidrogênio e pelos campos gravitacionais cambiantes gerados pelos
dois sóis.
Para o gigante esférico terrano isso não representava nenhum obstáculo.
Os computadores positrônicos de grande precisão calcularam uma rota segura
através do sistema. As nuvens de hidrogênio que formavam um anel em torno do sistema
não conseguiriam atravessar os campos defensivos hiperenergéticos.
— A decisão tomada pelo senhor ainda vale? — perguntou o Coronel Akran ao
arcônida, que acompanhava atentamente nas telas panorâmicas a manobra de
aproximação ao planeta Boultat.
— Como? Ah, sim. Naturalmente, Coronel Akran. Ou será que o senhor acha que
dei ordem para que a Crest IV ficasse de prontidão apenas para divertir-me? —
prosseguiu em tom muito sério. — Pois então — continuou o arcônida ao ver o
comandante sacudir a cabeça.
Todos os lugares da sala de comando da Crest IV estavam ocupados. Havia duas
pessoas à frente de cada instrumento, e o pessoal das máquinas fora triplicado.
Atlan não estava disposto a assumir qualquer risco. Enquanto não tivesse certeza
absoluta de que Perry Rhodan e o rei dos livres-mercadores, bem como os demais
membros do comando estivessem em liberdade, teria de supor que estavam entrando
numa armadilha.
Os três gigantes espaciais terranos desceram no planeta com os campos
hiperenergéticos ativados, dando a impressão de que iriam perfurá-lo.
A atmosfera deslocada pela força das naves e incendiada pelo atrito produzia um
barulho infernal.
Para os gurrados, que acompanhavam a aproximação dos gigantes esféricos em
inúmeros centros de rastreamento, eles deviam ser os mensageiros do inferno.
— Ninguém deu um sinal de vida lá embaixo? — perguntou o arcônida. Estava com
o rosto pálido. — Não recebemos notícias de Perry?
— Nem um único impulso, senhor — respondeu o Major Wai Tong, chefe do
centro de rádio, cujo rosto apareceu numa tela menor.
Atlan soltou um palavrão arcônida que felizmente não foi compreendido por
nenhum dos oficiais presentes.
Boultat estava perigosamente próximo. Era apenas uma questão de segundos, e as
naves já não poderiam mudar de direção sem causar danos graves ao planeta.
Atlan estava para suspender a manobra de intimidação, quando uma voz ansiosa que
parecia atropelar-se saiu do comunicador.
— Rápido! — gritou o comandante da Crest IV. — Transmita a ligação para minha
tela.
A tela de imagem que ficava à frente de Merlin Akran iluminou-se. O comandante
pôs a mão direita nos controles — e o ultracouraçado interrompeu a corrida louca.
As duas naves que o acompanhavam fizeram a mesma coisa.
Finalmente Atlan tirou as mãos crispadas de cima dos ombros de Merlin Akran.
— Você está chamando em cima da hora... — disse o arcônida, com o rosto voltado
para a tela, e sacudiu a cabeça.
— Sei disso, meu chapa — retrucou Perry Rhodan. — Acontece que dormi um
pouco. Demorou um pouco para eles me avisarem de que três naves enormes se
aproximavam e para eu chegar ao setor de rádio do porto espacial.
— Ainda mais que seus novos amigos ainda devem estar bastante desconfiados —
respondeu o arcônida.
— Procure compreendê-los — observou o Administrador-Geral e por um instante
olhou para fora do campo da objetiva. Parecia haver outras pessoas perto dele. — Meus
amigos pensavam que nossas naves fossem unidades dos perlians ou de outro povo
subjugado pelos cristais.
— Está bem — resmungou Atlan. — No fundo compreendo a desconfiança dos
seres que há séculos têm sido escravizados em toda parte.
— Vejo que nos entendemos muito bem — disse o Administrador-Geral.
O lorde-almirante ficou satisfeito ao constatar que já havia novamente um brilho
irônico nos olhos cor de aço do amigo.
— Você envelheceu, meu chapa — disse Rhodan. — Acho que deveria tratar de
descer quanto antes — prosseguiu.
— Por quê? — perguntou Atlan e ergueu as sobrancelhas.
Uma expressão gulosa apareceu no rosto do Administrador-Geral.
— Eles têm um vinho! — exclamou. — Um vinho...
O arcônida sacudiu a cabeça ao ver Perry Rhodan encostar um jarro de vidro aos
lábios e tomar um grande gole.
6

No dia três de dezembro de 2.435, pelas oito horas da manhã, a 14a Frota Ofensiva
Pesada da USO, comandada pelo almirante epsalense Con Bayth, atingiu a área adjacente
ao sistema de Boul.
As oitocentas unidades pesadas e superpesadas deixaram apavorados os
guerrilheiros de Magalhães, que nunca tinham visto tantos gigantes espaciais ao mesmo
tempo.
Finalmente estavam dispostos a acreditar nas palavras dos terranos, que por
enquanto lhes haviam prometido um apoio militar reduzido. Até mesmo as histórias de
Roi Danton sobre a coisa misteriosa chamada Old Man foram encaradas de um ângulo
bem diferente. Até então nenhum dos oficiais gurrados acreditara de verdade que o
monstruoso robô gigante pudesse aparecer na nuvem de Magalhães, lançando na batalha,
do lado dos cristais e dos perlians, cerca de quinze mil gigantescas naves esféricas iguais
às que se encontravam perto do sistema.
Na verdade, ninguém acreditara seriamente nisso. Especialmente Roumbaki. Mas
naquela altura o velho guerrilheiro teimoso se sentia muito feliz com a aliança celebrada
com os terranos e a promessa de dar proteção às naves relativamente lentas e mal
armadas dos guerrilheiros de Magalhães.
Em troca disso Perry Rhodan só exigiu o pleno apoio cosmonáutico dos gurrados.
No dia anterior houvera um banquete bastante descontraído, que acabara se
afogando no vinho.
Antes do fim alegre, o shangante Sibala fornecera aos terranos as coordenadas
cosmonáuticas dos vinte e oito planetas que eram armadilhas mortais, tal qual Danger I.
Na manhã daquele dia Atlan e Perry Rhodan apareceram ao pé da rampa, curtindo
uma ligeira ressaca. Esta rampa levava à eclusa polar inferior da Crest IV. Os dois
acompanharam o recolhimento dos membros do comando Modula II.
Roi Danton e Oro Masut formavam o fim da fila.
Quando chegou sua vez de subir a rampa, o livre-mercador espalmou as mãos, num
gesto de recusa, e começou a falar com a voz chorosa.
— Isso tem de ser mesmo, Oro? Serei obrigado a entrar nesta nave fedorenta? Você
sabe que não suporto o odor dos terranos. Ele logo me dá uma enxaqueca.
Os olhos de Perry Rhodan brilharam numa expressão contrariada.
— Ninguém o obriga a entrar nesta nave, monsieur! — disse em tom áspero. —
Compreendo sua raiva. Infelizmente não pude conceder permissão de pouso à Francis
Drake. O lugar mal dá para a Crest IV.
Uma veia começou a latejar na testa de Rhodan.
— Acha isso bonito? — perguntou Danton em tom azedo. O livre-mercador voltara
ao papel que costumava desempenhar. — Primeiro a gente dá seu sangue, e depois
querem obrigar a gente a subir a bordo.
— O senhor é um insolente! — berrou Rhodan e deu um passo na direção do rei dos
livre-mercadores.
Alguns soldados pertencentes à tripulação da Crest tiveram despertada a
curiosidade.
Oro! — gritou o livre-mercador com a voz estridente. — Ajude-me! Ele quer me
atacar.
Danton refugiou-se nos braços robustos de seu guarda pessoal, que logo entrou no
jogo, revirando os olhos, indignado. O rosto do ertrusiano, coberto por queimaduras
vermelho-azuladas, transformou-se numa máscara de pavor.
— Deixe-me em paz! — uivou Danton quando o Administrador-Geral quis dar uma
explicação, avançando um passo em sua direção.
Atemorizado, o livre-mercador olhou por baixo do cotovelo do ertrusiano.
— Vá para o inferno, monsieur — resmungou o Administrador-Geral em tom de
desprezo. Virou-se abruptamente e saiu em direção à rampa da Crest IV. — Estou curioso
para saber o que faria este sujeito presunçoso se de fato o deixássemos aqui — murmurou
quando Atlan ia passando.
— Não se iluda, meu caro — disse o arcônida com um sorriso matreira — Basta
virar o rosto, e você terá uma surpresa.
Perry Rhodan parou, virou a cabeça — e aspirou fortemente o ar.
Um jato espacial pintado em cores berrantes pousou ao lado da Crest IV. A eclusa
abriu-se e uma figura estranhamente vestida saltou dela. Desenrolou uma passadeira
vermelha, estendendo-a para junto da rampa da Crest IV. Em seguida o livre-mercador
tirou da cabeça o chapéu de formas arrojadas e dobrou os joelhos diante de seu rei.
Roi Danton fez um gesto benevolente para o Administrador-Geral, que continuava a
contemplar o quadro com uma expressão de espanto e exclamou:
— Passe bem, grandseigneur, e o senhor também, sire! As últimas palavras tinham
sido dirigidas a Atlan, que retribuía os cumprimentos sorrindo.
— Tomara que voltemos a encontrar-nos dentro em breve — soou a voz do rei dos
livres-mercadores, que caminhava pela passadeira vermelha com a graça de um bailarino.
— Tomara que não... — gritou Perry Rhodan e irrompeu numa estrondosa
gargalhada, no que foi acompanhado por Atlan.
Os dois sacudiram a cabeça e entraram na eclusa enorme da Crest IV.

***
**
*
Os mal-entendidos que separavam os gurrados e
os terranos puderam ser esclarecidos, graças aos
últimos acontecimentos, mais depressa do que os
terranos esperavam.
Os gurrados e os terranos tornaram-se aliados. E
este fato novo torna possível uma operação em grande
escala, cuidadosamente planejada, desencadeada pela
frota contra os agentes de cristal. A operação é
designada por um nome em código — Operação-
Relâmpago.
Operação-Relâmpago — é este o título do próximo
volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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