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Universidade Federal do ABC Bacharelado em Ciências e Humanidades

Fábio Henrique Donaire RA 21062312

CONSTRUÇÃO DE SENTIDO E INTENCIONALIDADE EM “A FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO” DE MAURICE MERLEAU-PONTY

Professor Dr. Alex de Campos Moura

São Bernardo do Campo SP

2014

Introdução

O

intencionalidades (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 558)

tempo

não

é

uma

linha,

mas

uma

rede

de

Para Merleau-Ponty a construção do sentido acontece através das relações. O sentido é a decorrência do contato. Não há o mundo interior, isolado do meio que o cerca, delimitado por suas próprias subjetivações. Diz o autor que a verdade não habita apenas o ‘homem interior’, ou, antes, não existe homem interior, o homem está no mundo, é no mundo que ele se conhece(MERLEAU-PONTY, 2011, p. 6)

O mundo é dado. Estava “ali” antes do indivíduo ou antes da reflexão. Entretanto, o que sabemos do mundo decorre de nossas experiências. Sem a experiência não há conhecimento. O conhecimento é discurso, discursos são ideias. É possível experimentar o mundo anterior ao discurso, um mundo pré-discursivo. A busca de um mundo anterior à tematização do mundo é retornar ás coisas mesmas. O mundo não é aquilo que eu penso mas aquilo que eu vivo, eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 14).

Porém, estar no mundo é estar “condenado ao sentido”. Podemos retornar ao mundo anterior mas não há mundo fora de seu aspecto relacional, logo, não há mundo sem sentido. A construção do sentido é concomitante às relações.

Para entender a construção de sentido, é necessário recorrer à noção de estrutura. A estrutura é esse princípio carnal de uma experiência ontológica indivisível, coesão de princípio, que interliga o dito e o não-dito, o sentido e o não- sentido. Por isso, o sentido não pode ser um registro fixo, um signo ostensivo, uma figuração eidética. Ele, enquanto devir, se constrói no contato com a contingência, em meio aos fenômenos. Movimento de transcendência, ele se transfigura como um sentido encarnado, ou seja, se inscreve na estrutura do acontecimento, imanente em cada comportamento ou, ainda, "pregnante em cada sensação" (SILVA, 2012, p.

151).

Também

não

“estar

no

mundo” sem a intencionalidade.

Reconhecer a própria consciência como projeto do mundo, destinada a um mundo que ela não abarca bem possui, mas em direção ao qual ela não cessa de se dirigir (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 15), eis como Merleau-Ponty define a intencionalidade.

Merleau-Ponty amplia o conceito de intencionalidade apresentando a distinção que Husserl faz entre “intencionalidade do ato”, ligada aos juízos e às tomadas de posição voluntárias, e a “intencionalidade operante”, a que forma a “unidade natural e antepredicativa do mundo e de nossa vida, que aparece em nossos desejos, nossas avaliações, nossa paisagem, mais claramente do que no conhecimento objetivo, e fornece o texto do qual nossos conhecimentos procuram ser a tradução em linguagem exata (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 16).

O autor, no prefácio de “A Fenomenologia da Percepção”, apresenta ao leitor os conceitos de sentido e intencionalidade e como ambos não podem ser desemaranhados.

A Construção do Sentido

Para Merlau-Ponty o sentido é intrínseco à estrutura. Não pode existir sem ela. Não haveria estrutura sem que suas partes se relacionassem, logo, sem relação, também não há sentido possível. O "fenômeno de estrutura" já é manifesto por um "sentido latente" (SILVA, 2012, p. 148). Para propor a teoria de uma gênese do sentido imanente aos próprios fenômenos (SILVA, 2012, p. 151), Merleau-Ponty vai buscar a ideia de estrutura conforme apresentada pela teoria da Gestalt.

Em tal direção, é tomando esse contexto mais amplo de abordagem que a noção de estrutura (Gestalt) ganha corpo, entrando em cena como uma categoria promissora, demandando uma compreensão rigorosamente profunda acerca das relações do organismo com o meio. Ela parece instituir um sentido, de fato, integral do comportamento, seja em sua condição patológica, seja em seu quadro particularmente salubre da experiência normal. Assim, não é gratuito que a

Gestalttheorie viria, metodologicamente, promover tal categoria, incorporando-a como mote de sua própria escola (SILVA, 2012, p. 143).

A unidade da estrutura faz-lhe desabrochar o sentido e o sentido desvela-se totalidade mantendo o significado das partes com relação a si mesmas e ao todo. Cada elemento é significativo do conjunto, mesmo quando os demais elementos não parecem ter relação alguma entre si (SILVA, 2012, p. 143). As diferenças são preservadas na unidade proposta por Merleau-Ponty. O fenomênico se desvela como uma experiência não mais fragmentada do indivíduo situado. Há um sentido total, um efeito global e indivisível entre o organismo e o meio (SILVA, 2012, p. 143).

O sentido não é dado pela expressão ou pelo expresso porque Merleau-Ponty recusará a distinção clássica entre ambos. Usando a obra de arte como exemplo ele nos dirá que um romance, um poema, um quadro, uma peça musical são indivíduos, quer dizer, seres em que não se pode distinguir a expressão do expresso, cujo sentido só é acessível por um contato direto, e que irradiam sua significação sem abandonar seu lugar temporal e espacial (MERLEAU-PONTY, 2011, p.209).

A Intencionalidade

A ideia de intencionalidade não surge em Merleau-Ponty. Vêm dos escolásticos e é retomada pelo filósofo alemão Franz Bertano, que fora professor de Husserl e Freud em Viena (COELHO JÚNIOR, 2002, p. 98). O conceito de intencionalidade (do latim intentio) foi primeiramente usado em filosofia pelos escolásticos para indicar o caráter representativo do objeto imanente em relação ao objeto exterior, e, portanto, para designar a consciência como luminosa, como tendo um sentido relativamente a esse objeto (COELHO JÚNIOR, 2002, p. 98).

Husserl dará outro sentido ao termo, associando-o ao ato de conhecimento. O ato de conhecer sempre se refere a algo, implica em um objeto de conhecimento. Entre consciência e objeto não há mais um abismo intransponível, ou

a necessidade de uma consciência que constitua seus objetos, ou ainda de objetos que constituam uma consciência, mas sim, uma intencionalidade, que é um movimento, se assim podemos descrever, entre uma consciência que só é, se aberta para os objetos, e objetos que se mostram, que se colocam enquanto intencionais à essa consciência (COELHO JÚNIOR, 2002, p. 98).

Merleau-Ponty amplia e aprofunda as noções de consciência e intersubjetividade, e passa a chamar a consciência de consciência intencional. A concepção de uma consciência intencional implica no fato da consciência ser sempre consciência de, consciência aberta ao mundo, sempre consciência de algo (COELHO JÚNIOR, 2002, p. 98)

Merleau-Ponty trará a própria noção de existência como meio no qual se compreende a comunicação entre o corpo e o espírito a vida corporal ou carnal e

o psiquismo estão em uma relação de expressão recíproca (MERLEAU-PONTY,

2011, p.87).

Sua noção de intencionalidade em A Fenomenologia da Percepção evidencia que a consciência intencional perpassa a unidade entre corpo e espírito, a existência toda. A existência corporal que crepita através de mim sem minha cumplicidade é apenas o esboço de uma verdadeira presença no mundo (MERLEAU-PONTY, 2011, p.229)

Merleau-Ponty também trará a ideia de um correlato psíquico dos processos corporais. Ele afirma que o acontecimento corporal tem sempre uma significação psíquica (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 221). Essa fala nos evidencia mais uma vez uma unidade na qual suas partes não se separam, mas não se confundem.

Conclusão

O sentido para Merleau-Ponty não é meramente uma construção intelectual. Não se trata de atribuir sentido aos objetos. Pelo contrário, a significação válida, para o autor, têm sua origem no mundo vivido. Ele afirma que cada uma

dessas palavras, assim como cada uma das equações da física, pressupõe nossa experiência pré-científica do mundo, e essa referência ao mundo vivido contribui para constituir sua significação válida (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 579)

O

mundo

vivido

pressupõe

uma

intencionalidade,

uma

intencionalidade que não é a pura "consciência de algo" (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 217).

O autor vai recusar a concepção anterior de intencionalidade. Ele nos diz que a reflexão não refaz em sentido inverso um caminho já percorrido pela constituição, e a referência natural da matéria ao mundo nos conduz a uma nova concepção da intencionalidade, já que a concepção clássica, que trata a experiência do mundo como um ato puro da consciência constituinte, só consegue fazê-lo na exata medida em que define a consciência como não-ser absoluto e, correlativamente, recalca os conteúdos em uma “camada hilética'' que é o ser opaco. (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 327)

A intencionalidade não é um pensamento. Ela é concomitante a um saber do corpo. Está na existência. Sua demonstração dessa unidade perpassará a sexualidade. Mesmo com a sexualidade, que, todavia, durante muito tempo passou pelo tipo da função corporal, nós lidamos não com um automatismo periférico, mas com uma intencionalidade que segue o movimento geral da existência e que inflete com ela (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 217)

Será na motricidade que Merleau-Ponty localizará a intencionalidade original. Não se trata de conhecimento, mas de uma maneira de se relacionar ao objeto. Enfim, esses esclarecimentos nos permitem compreender sem equívoco a motricidade enquanto intencionalidade original. Originariamente a consciência é não um "eu penso que", mas um "eu posso" (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 192)

Concluímos que, assim como sem estrutura não há a construção do sentido, o sentido depende também do reconhecimento da própria consciência como objeto no mundo. Como dissemos na introdução deste trabalho, estar no mundo é estar condenado ao sentido ao mesmo tempo em que não há estar no mundo sem a intencionalidade.

Bibliografia

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