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Beto Hoisel

Dokt Bar Attón


ROMANCE FÁBULA

SÉCULO22EDITORA
2005
1
Copyright by Alberto Hoisel Junior, 2000
DOKT BAR ATTÓN
beto@hoisel.com.br
Pintura da capa e vinhetas: Chico Liberato
liberato@candidaluz.com.br

1ª edição – 3000 exemplares


Coordenação editorial: Cardan Dantas; Paulo Pedro P. R. da Costa
Capa e projeto gráfico: Beto Hoisel sobre pintura especial de Chico Liberato
Editoração eletrônica: Raimundo Cardoso
Foto do Autor: Ricardo Prado

Biblioteca Central
H719 Hoisel, Beto.

Dokt Bar Attón : romance fábula / Beto Hoisel ; pintura da


capa: Chico Liberato ; projeto gráfico: Beto Hoisel ; produção
editorial: Cardan Dantas ; editoração eletrônica: Raimundo Cardoso;
fotografia do autor: Ricardo Prado 1. ed. – Salvador : Século 22,
2005.
230 p. : il.

Esta edição foi realizada sob os auspícios da Secretaria da


Cultura eTurismo do Estado da Bahia, através do Programa
FazCultura.
1. Ficção brasileira - Bahia. I. Título.
CDU - 821(81)-31
CDD – 869. 3

HARP-DAN
Projetos Especiais

Século 22 Editora
R.M.G. Sadoc, 48 – 41760 200 – Salvador – Bahia – Brasil
Tel. (71) 3343 5576 / 3343 5789 – http://www.seculo22editora.hoisel.com.br
http://www.doktbaratton.hoisel.com.br
http://www.naqueletempoemarembepe.hoisel.com.br
http://www.simposio2008.hoisel.com.br

Bib. Nac. Reg. 202.554 – liv. 350 / fls. 214 – 13/06/2000


É proibida a reprodução desta obra, no todo ou em parte, por quaisquer meios técnicos,
sem autorização do proprietário do copyright.

2
Amigo(a) leitor(a),

O que você vai ler


exigirá o uso da razão para ser bem compreendido e desfrutado.
Mas não deixe que a razão comande sozinha
o processo da leitura.
Se você ler centrado(a) no sentimento, na empatia e no amor,
certamente estará assimilando ao máximo
o significado desta fábula.

Beto Hoisel

3
4
Time is out of joint

Hamlet

Este caminho
já ninguém o percorre.
Só o crepúsculo.

Bashô

5
Para
Sérgio de Almeida Rodrigues – que viu primeiro
e
Hannelore – que logo que viu entendeu.

6
SUMÁRIO
Irrupção 9
A Primeira Emenda 13
Primeira Parte – OS BLATÍDEOS
Cap. 1 Dokt Bar Attón estava desolado 27
Cap. 2 Pouco antes da meia-noite, Mz Faggio 39
Cap. 3 Kapp Coquerelle assumiu o comando 51
Cap. 4 Após alguns dias de excitação 61
Cap. 5 Naquela sexta-feira, a agenda do Presidente 67
Cap. 6 Na manhã seguinte, chegando a Martha’s 81
Cap. 7 O ozônio estratosférico e a vida na Terra 89
Cap. 8 Um ano após a chegada dos ortópteros 93
Cap. 9 Neste fim de semana, Bar Attón 101
Cap. & O número deste capítulo não está truncado 113
Cap. # O amplo elenco de linhas de pesquisa 119
Cap. 10 Koo Karashi, a cientista Ania Marque e Scara 125
Segunda Parte – OS MÂNTIS
Cap. 11 A viagem até Khonfessa 135
Cap. 12 Impaciente pela demora em ser atendido 143
Cap. 13 Pasmo. Não vejo outra palavra para qualificar 151
Cap. 14 “Meu nome é Gottesan Beterin 159
Cap. 15 Tônio vinha, desde muitos anos 167
Cap. 16 “Meu nome é Soothsayer, e venho dar 177
Cap. 17 Mais uma vez, peço licença aos leitores 187
Cap. 18 – Lindo! – exclamou Duvilen Ddu ao examinar 193
Cap. 19 Albino. Um ser quase transparente 197
Cap. 1& Icebergs deslizavam mansos, soltos no mar 207
Cap. 1# No aeroporto de Cakerlake, muitos amigos 215
Cap. 20 A partir da noite seguinte, este passou a ser 221
Apêndice 229

7
8
Irrupção

D
okt Bar Attón não é um livro grande. Mas é segu-
ramente o maior livro, o romance mais fantástico,
a maior fábula que o autor conseguiu trazer – com
ciência, humor e poesia – para dentro de duzentas e trinta
páginas.
Poucos textos da produção literária contemporânea ti-
veram escopo tão amplo como o de Dokt Bar Attón: um livro
em que o vilão (se é que cabe tal conceito naquele vasto domí-
nio) é a própria humanidade que, em seu crescente desvario,
parece prestes a autodestruir-se alegremente.
O primeiro estranhamento do leitor vem com a imen-
sa mudança de escala exigida para situar no tempo os perso-
nagens e a trama. A estória não é escrita na escala de tempo a
que estamos habituados, onde um período de mil anos é con-
siderado um longo lapso. Nem mesmo é na escala da antropo-
logia ou primatologia, onde cem mil anos já comparecem com
desenvoltura. Dokt Bar Attón está escrito sobre uma pauta
cronológica de dezenas de milhões de anos, uma escala pró-
pria dos geólogos e dos biólogos estudiosos do processo de evo-
lução da vida sobre a Terra.

9
Para muitos leitores, esta mudança tão radical na
vivência do tempo pode parecer um salto difícil de realizar.
Contudo, este será um empenho gratificante, porque se Dokt
Bar Attón exige ajustes e calibragens especiais por parte do
leitor, em compensação tem muito que oferecer em informa-
ção, reflexão e consciência mais aguda disto que chamamos
de realidade.
O leitor sairá desta leitura enriquecido pela experiên-
cia insólita de ver o mundo numa escala muito diferente da-
quela em que vivemos cotidianamente: uma escala muito mais
ampla, certamente bem mais próxima daquela com que a Or-
dem Invisível da Natureza promove e contempla a imensurável
aventura da vida e da consciência neste belo planeta azul.
Nesta fábula há uma moral, tal como nas fábulas clás-
sicas. Mas, ao contrário da colocação posterior da forma habi-
tual, ela vem logo no início, num texto introdutório e
desvinculado da trama denominado sugestivamente “A Pri-
meira Emenda”. Trata-se de uma alusão direta à Primeira
Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que
institucionaliza a liberdade de expressão do pensamento como
um dos pilares da democracia americana. Essa liberdade fun-
damental é vista aqui, por extensão, como o livre arbítrio es-
sencial do ser humano, o sagrado direito de errar, o direito e a
prerrogativa de formatar o mundo em volta de si e configurar
cada um seu próprio destino conforme as escolhas que vai fa-
zendo a cada passo, ao criar os fios individuais com que se vão
tecendo o destino coletivo e a história.
Todavia, a “moral” delineada nesse texto introdutório
é tão ambígua e polissêmica que transfere magicamente para
o leitor a liberdade de construir sua própria interpretação dos
muitos significados embutidos na fábula de doutor Bar Attón.

10
Neste instigante relato de um futuro possível, o autor
nos propõe vivenciar literariamente uma trilha estranha, mas
com alta probabilidade de vir a se concretizar. Após a extinção
em massa atualmente em curso, que vem desequilibrando o
ecossistema planetário e liquidando aceleradamente com mi-
lhares e milhares de espécies vegetais e animais – extinção
esta promovida e mantida pelos humanos em sua desastrosa
gestão do seu planeta natal – o Grande Plano prossegue paci-
entemente em nova tentativa.
Com o fracasso do ser humano, a evolução continua
através de seres mais adaptados ao novo ambiente, agora inun-
dado de ultravioleta: os ortópteros, nossas conhecidas bara-
tas e seus primos, em versões evoluídas ao longo das dezenas
de milhões de anos que virão na era pós-humana.
É possível navegar nesta fábula em diversos níveis de
compreensão, segundo a acuidade ou o interesse do leitor. Des-
de a simples fruição de uma curiosa estória de ficção científi-
ca, passando pela observação da elasticidade do tempo e sua
atual aceleração, até uma apreciação crítica do fazer científi-
co nos vacilantes enganos do seu lento avançar. Ou ainda,
mais amplamente, degustar como este romance/fábula exa-
mina as bases éticas e mitológicas em que se apóiam as civili-
zações.
Além de ser uma irrupção para fora do casulo ético/
mitológico em que vivemos, Dokt Bar Attón é também uma
irrupção para fora do casulo de tempo e consciência em que
todos vivemos cotidianamente confinados. O autor se man-
tém dentro de uma perspectiva que não entra em choque com
o método científico, mas assume uma visão altamente crítica
das limitações que a ciência se auto-impõe, tanto em nossa
civilização como na futura civilização dos ortópteros.

11
E, desse ponto de vista externo, dessa hiper-dilatada
“perspectiva histórica” – cerca de setenta milhões de anos – o
que se vê não é agradável para nossas retinas fatigadas.
Esta estória, esta fábula, é um retrato sem retoque
daquilo que coletivamente somos, é o espelho em que a huma-
nidade não quer se ver refletida, repetindo em nível globalizado
o conhecido aforismo de Jiddu Krishnamurti endossado pela
psicologia junguiana: o que as pessoas menos querem é se
autoconhecer.
O autor expõe, em tom de sátira feroz tangenciando o
humor negro, esta face da nossa civilização que todos intuem
– uns mais e outros menos – mas que ninguém quer ver. Por-
que, sob muitos aspectos, só nos resta esconder o rosto, enver-
gonhados do que estamos fazendo.
Contudo, não seria justo considerar o Dokt Bar Attón
como um livro fatalista, nem mesmo pessimista, apesar da
inexorabilidade com que os fatos vão se acumulando diaria-
mente em direção ao desastre. A imagem que melhor sinteti-
za o conteúdo e a intenção deste livro é a de um grito de deses-
pero de quem está vendo a velocidade crescente com que a
civilização se aproxima de um ponto de não retorno na sua
rota em direção a uma mega-catástrofe planetária.
Ainda há esperança de evitarmos o choque com o
iceberg de fogo que se aproxima?

Isto é o que cada um deve responder ao concluir esta


instigante leitura.

Maio de 2005

12
A PRIMEIRA EMENDA

A Primeira Emenda

...depois, começaram a acontecer inúmeras coisas não previs-


tas e a situação não mais se pode considerar sob controle. À
medida que se aproximava o fechamento do milênio, tudo se
foi acelerando de uma forma sem precedentes e não há mais o
que fazer para coordenar o processo, senão deixar correr o
barco para ver no que vai dar. Multiplicaram-se as realidades
superpostas –todas elas comprovadas e devidamente atesta-
das– só que inteiramente incompatíveis entre si e até mutua-
mente excludentes.
Uma situação assim, quando levada a extremos, é in-
suportável até mesmo para um Deus. Sei que do alto da Sua
infinitude suprema Você sabe perfeitamente como Me sinto.
Sinto muito.
Longe de Mim querer criticar Sua decisão de assentar
a estrutura da totalidade sobre inconsistências e paradoxos.
Não vejo como poderia ser de outro modo. Eu também amo os
paradoxos e Me sinto à vontade lidando com incompatibilida-
des ocasionais que sempre desfrutei como parte do Seu divino
jogo no campo da imanência. Mas, do modo como a conjuntu-
ra está evoluindo ultimamente, receio que alguns dos princí-
pios que Você estabeleceu já não estejam funcionando de acordo
com as Nossas expectativas iniciais, podendo conduzir a situ-
ações opostas àquelas que estabelecemos como desejáveis.

13
DOKT BAR ATTÓN

Não posso negar que tenho sido assediado por uma in-
quietação como ainda não tinha ocorrido desde os primórdios.
Lamento informar que estou Me sentindo –desculpe a expres-
são– incompetente, até mesmo para relatar o que se passa de
uma forma consistente e completa como Você determinou. Mes-
mo porque, talvez por uma falha Nossa (perdoe-Me por levan-
tar esta hipótese) deixamos em aberto na infra-estrutura ló-
gico-matemática da totalidade uma possibilidade que foi es-
perta e malevolamente aproveitada por um certo Gödel, que
provou que não é possível ser consistente e completo ao mes-
mo tempo, e isto não apenas em nível local ou ocasional, mas
em nível absoluto –o que pode ser entendido como um desafo-
ro. Depois que tomei conhecimento dessa limitação, assalta-
Me uma frequente insegurança inteiramente incompatível com
Meu status quanto à objetividade e clareza dos Meus relatóri-
os. Todavia, esta é apenas uma das razões que conduziram ao
persistente complexo de incompetência que tanto Me aflige.
Há outros motivos, possivelmente mais sérios. Antes
que Eu seja mal interpretado –aliás, uma impossibilidade em
se tratando de Você–, quero declarar que continuo inteiramente
à Sua disposição para cumprir aquilo que Me foi designado.
Minha postura continua –e continuará sempre, enquanto du-
rar a duração– a de colaborar da melhor forma que puder para
bem administrar o que Me compete, mantendo-O informado
de tudo que chegar ao Meu conhecimento, cuja infinitude –
bem o sabes– não é completa.
O que temo é que, dadas as circunstâncias, os meios
que Me foram concedidos sejam inadequados para o desem-
penho eficaz dessa tarefa. Até mesmo a divina capacidade de
estar atento a uma incontável multiplicidade de temas, indi-
víduos e objetos simultaneamente já não é o bastante para
assegurar um mínimo de eficiência, no sentido de atender a

14
A PRIMEIRA EMENDA

tudo aquilo onde vejo ser necessária a Minha atuação. A oni-


potência que Me foi outorgada tem sido insuficiente, mesmo
porque –como Você sabe–, este é um recurso que tem outra
séria limitação, uma vez que a Primeira Emenda não pode
ser contrariada e a autodeterminação das almas individuais
permanece intocável.
Mais uma vez, quero deixar claro que Minhas pala-
vras não refletem qualquer discordância quanto ao estatuto
legal definido para este cosmos, nem mesmo quanto à Primei-
ra Emenda. Também não estou recomendando que ela seja
modificada, mas cogito a hipótese de que seja complementada
por algum parágrafo que restrinja seu alcance, em alguns ca-
sos, o que muito facilitaria Minha tarefa de bem conduzir o
processo de orientação das almas. Se Me fosse facultado in-
terferir um pouco, de uma forma imperceptível, na disposição
dos indivíduos para seguirem suas próprias determinações
equivocadas, certamente o Meu desempenho seria mais efi-
caz. Contudo, a despeito das inegáveis vantagens que tal re-
curso traria, reconheço e acato Sua determinação superior de
manter intocável o livre-arbítrio das almas encarnadas.
Estou plenamente (desculpe-Me, foi sem querer: ple-
namente só Você) ciente que é desta forma que Você Se vê
presente em cada uma de Suas criaturas e co-participo
exultante da Sua infinita alegria quando uma delas consegue
ultrapassar as armadilhas de sedução e pecado, unindo-se a
Você da forma permanente e definitiva que configura a vitó-
ria final. Cada vez que isto acontece é motivo de grande júbilo
celestial na escala supracósmica em que Nos movimentamos;
sou inteiramente solidário com essas alegrias, desfrutando-
as também com empatia de sentimento e compreensão. Vejo
que é como se, naquele momento, Você experimentasse um
sucedâneo do nascimento –experiência que, em rigor, sabe-
mos que Você nunca teve.

15
DOKT BAR ATTÓN

Minha preocupação é que esta conclusão da caminha-


da espiritual, por parte das almas, tem sido uma ocorrência
muito rara, estatisticamente insignificante, em face da sua
multiplicação descontrolada, particularmente na época críti-
ca por que passa este planeta sob a Minha jurisdição. Mesmo
dispondo de eons para aguardarmos o crescimento e a espon-
tânea purificação de todas as criaturas em incontáveis
encarnações, através do labirinto de armadilhas colocadas pelo
Outro, parece-Me forçoso constatar que as tendências obser-
vadas não indicam que o objetivo de vê-las todas plenamente
evoluídas poderá ser atingido num período finito de tempo.
Isto, porque a taxa de multiplicação das criaturas inscientes
é muitíssimo maior, por muitas ordens de grandeza, do que a
parcela que chega efetivamente a completar o ciclo, unindo-
se a Você.


Numa avaliação quantitativa rigorosa (desculpe-Me
este racionalismo quase humano, mas foi Você mesmo Quem
recomendou precisão) verifiquei que a demanda de tempo a
ser consumido pelas almas inscientes tem aumentado muito
em consequência da liberalidade concedida pela Primeira
Emenda, ao cercear Minha capacidade de influir sobre o com-
portamento delas. Em face das tentações, vícios e seduções
que têm assumido formas sofisticadíssimas, tem-se tornado
cada vez mais inviável controlar o que se passa, principal-
mente depois da generalização das realidades virtuais, artifi-
cialmente geradas e vivenciadas.
Sei que não é necessário lembrar-Lhe de coisa alguma,
mas ocorre-Me incluir neste documento a informação de que
as criaturas encarnadas têm alta suscetibilidade à influência
das enzimas endógenas e hormônios que agem sobre as dis-

16
A PRIMEIRA EMENDA

posições aparentemente voluntárias com que fazem suas op-


ções. Esse equilíbrio –essa regulagem– é muito sensível e su-
til, permitindo variações de grande amplitude no espectro de
atuação da mente individual, a partir de alterações mínimas
na produção e liberação dessas endorfinas. As taxas de
interação psicossomática permanecem fixas desde épocas re-
motas, quando as solicitações aos sentidos e à imaginação eram
substancialmente menores. As endorfinas continuam a ser li-
beradas na mesma proporção desde a regulagem inicial pro-
cedida por ocasião do lançamento do modelo Sapiens sapiens.
Com a recente explosão dos apelos aos sentidos –am-
pla disseminação de cenários eróticos e generalizada exaltação
do hedonismo sexual–, um quadro de descontrole passou a
predominar em todo o planeta, particularmente nos segmen-
tos sociais mais sujeitos à ação da mídia, essa inquietante
inovação que os humanos introduziram para sua própria des-
graça. Quando se verifica que ela vem se tornando rapida-
mente acessível a todos, particularmente em sua forma ele-
trônica interativa, fica evidente por que se tornou inviável
sustentar o padrão de aperfeiçoamento e espiritualização das
almas que vinha se mantendo estável nos dois últimos milê-
nios.
Em face desta nova conjuntura, verifico que se Me fos-
se facultado alterar ligeiramente o equilíbrio hormonal des-
sas criaturas –o que Eu teria o cuidado de fazer de um modo
extremamente sutil e imperceptível–, isto iria aumentar a
capacidade de cada uma delas para resistir às seduções e abre-
viar a longa caminhada em direção a Você. Esta providência
traria como resultado a multiplicação das Suas inefáveis ale-
grias divinas, uma vez que mais facilmente as almas encar-
nadas completariam a jornada espiritual através do campo
minado das tentações, com menor sofrimento e maior –diga-

17
DOKT BAR ATTÓN

mos– economia de meios. Uma pequenina alteração na dosa-


gem bioquímica dos seres humanos poderia fazer com que, de
uma forma livre e espontânea, melhor resistissem às suges-
tões mais perigosas, especialmente no setor do erotismo –for-
temente influenciado pelo equilíbrio hormonal– que tantos
estragos têm causado, inclusive entre as almas pias que já se
encontram no limiar da purificação.
Obviamente, se estendêssemos essas intervenções bi-
oquímicas um pouco mais, também a agressividade e,
consequentemente, a violência, poderiam ser mais controla-
das, reduzindo significativamente os níveis de sofrimento in-
dividual e coletivo –o que data venia Me parece desejável.


Reconheço que, na condição de simples encarregado
deste sistema estelar, com jurisdição sobre este planeta onde
Você realiza a mais extensiva das Suas experiências de multi-
plicação e cultivo de mônadas autodeterminadas –a Opera-
ção Mamífero– não Me cabe sugerir coisa alguma que se pro-
ponha a alterar Suas disposições superiores. Contudo, diante
do quadro espiritual preocupante em que se encontra o plane-
ta Terra, sinto-Me constrangido a registrar neste relatório
milenar as inquietações que Me assediam. Nesta oportunida-
de, ouso também levantar hipóteses sobre outras possibilida-
des de condução dos processos sob Minha responsabilidade
que, na Minha ainda incompleta perfeição, sou levado a su-
por que sejam admissíveis.
Não fosse a intimidade que temos, já que Nos relacio-
namos desde a Origem, tendo participado juntos da elabora-
ção dos planos para este cosmos, Eu não externaria tais con-
siderações que não são inteiramente pertinentes diante da
Sua divina perfeição –esta sim, absoluta. Se nem mesmo na

18
A PRIMEIRA EMENDA

alta hierarquia em que Me situo tenho meios para compreendê-


Lo em Sua essência mais íntima que Você guarda tão zelosa-
mente, nem conhecer Seus secretos desígnios –que Me esca-
pam à compreensão– como então sugerir algo para alterar
disposições cujo significado não posso apreender?
Sei que Meu encargo é prosseguir fazendo o melhor
que puder, procurando agir segundo a Lei que juntos estabe-
lecemos na fase pré-Criação, embora desde então Eu já tives-
se receio das consequências em longo prazo daquilo que Você
decidiu acrescentar depois de tudo resolvido e formalizado –
lembra-Se?– e que passamos então a denominar a Primeira
Emenda.
Naquela ocasião –devo-Lhe confessar– cheguei a su-
por que a idéia da Primeira Emenda tivesse sido uma suges-
tão do Outro, feita em alguma ocasião que não pude presenci-
ar. Não estou certo disto e não tenho indícios objetivos que
sustentem tal hipótese. São apenas lembranças de uma era
muito remota, apesar de facilmente acessível para Nós. Tais
recordações Me ocorrem a partir dos resultados que estou pre-
senciando agora, nesta transição de ciclo do planeta, e que
Me parecem corresponder a objetivos mais próximos das pre-
tensões do Outro (vade retro!) do que dos Seus altíssimos de-
sígnios. Receio estar enganado e antecipadamente justifico-
Me ao lembrar que, se a onisciência que Você Me concedeu é
limitada por restrições, o mesmo ocorre, ainda mais significa-
tivamente, com a Minha onipotência que não é lá grande coi-
sa, se Me permite a expressão. Resta-Me a onipresença, cujas
duas únicas restrições consistem em não poder penetrar nos
Seus mais elevados desígnios nem nas obscuras elaborações
do Outro. A propósito, isto Me parece inadequado porque sus-
peito que ele esteja escutando secretamente as Minhas ínti-
mas cogitações e, talvez até, Nossos divinos diálogos.

19
DOKT BAR ATTÓN


Neste final de ciclo, o planeta Terra ultrapassou a po-
pulação de seis bilhões de humanos; criaturas dotadas de vida
espiritual superior, um pouco acima dos elefantes, bonobos,
cetáceos e psitacídeos. Sei perfeitamente (desculpe-Me, esca-
pou!) que este número é insignificante diante da infinidade
de orbes povoados, mas não é o número absoluto de almas
encarnadas que Me preocupa. Também para Mim isto pouco
representaria se não fosse o uso indiscriminado e abusivo que
elas fazem da Primeira Emenda, o que vem lançando todo o
planeta numa desenfreada orgia. Minha preocupação diz res-
peito especificamente à tendência para uma crescente diver-
gência entre o número total de Sapiens sapiens postos em
operação e o decrescente percentual daqueles que efetivamente
completam o ciclo, unindo-se a Você ao atingir a perfeição de
suas almas.
Em outras palavras: ou reduzimos acentuadamente o
total de almas que vêm se encarnando de forma aparente-
mente descontrolada, ou deveremos alterar suas condições de
suscetibilidade às tentações que ultimamente têm atingido
níveis exponenciais –vide a incrível sofisticação do erotismo
via internet, por exemplo. Ou teremos que admitir que a de-
sejada conclusão do processo de purificação das almas –obje-
tivo que estabelecemos ao planejar a Operação Mamífero– não
poderá ser atingido em tempo finito. Esta última possibilida-
de, a mais radical e indesejável, certamente Nos levaria a
deflagrar um expurgo de grande amplitude, mais abrangente
que o do dilúvio de seis milênios atrás, ou até maior que o da
extinção dos megassáurios, quando constatamos o irrecupe-
rável fracasso daquela experiência.

20
A PRIMEIRA EMENDA

Ao Meu ver, alguma intervenção no processo terá que


ser feita. Obviamente, a preocupação que ora manifesto tal-
vez –ao Seu ver– não tenha razão de ser, decorrendo possivel-
mente da Minha incompleta onisciência que não Me permite
abarcar the big picture, como se diz em inglês, a língua mun-
dial que agora substitui o latim. É certo que a decisão final é
Sua como, aliás, sempre foi, mas, no exercício das atribuições
que Me foram conferidas contratualmente, vejo-Me na con-
tingência de apresentar alternativas para que os processos
em andamento possam ser mantidos sob controle. Ou tere-
mos que admitir que, tal como os sáurios, o Sapiens sapiens é
também inadequado e inviável.
Para essa intervenção descarto, evidentemente, toda e
qualquer providência de natureza milagrosa, ou seja, aquelas
que contrariem as leis gerais que estabelecemos para o funci-
onamento da natureza e do cosmos. Assim, deve ser conside-
rado inaceitável intervir no livre-arbítrio da alma individual,
tornando-as magicamente boazinhas, destituídas de orgulho,
vaidade, egoísmo e ciúmes –ou subitamente livres de
agressividade e vícios arraigados. Isto seria violar a Primeira
Emenda e tornar letra morta a autodeterminação das
mônadas. É indispensável preservar nelas o sagrado direto
de errar, de pecar, de cometer todo tipo de abominações e de-
satinos, inclusive divergir radicalmente de Você, optando pelo
caminho da perdição, como fez o Outro.
Se assim não fosse, que valor teria equipar cada uma
dessas unidades autoconscientes com uma mente capaz de
decidir, dentro do seu limitado livre-arbítrio? Apesar de pro-
blemática, considero a Primeira Emenda um dos fundamen-
tos do Nosso projeto de almas individuais: a própria base do
presente experimento com mamíferos avançados. A alma in-
dividual consciente é e deve permanecer autônoma, tendo o

21
DOKT BAR ATTÓN

direito e a possibilidade de errar e prevaricar o quanto queira


e pretenda, até mesmo contrariar e inverter o tropismo em
direção a Você, de que foi dotada.
Afortunadamente, Sua divina sapiência introduziu o
karma (tecnologia inexistente na experiência anterior com os
répteis) um excelente sistema de correção para que tais dissi-
dências não continuem a proliferar indiscriminadamente sem
consequências para aqueles que a elas aderem. Considero, tam-
bém, a invenção do sofrimento um grande avanço –introduzi-
do, ainda sem função kármica, na experiência reptiliana– como
o principal instrumento didático para correção do comporta-
mento de que se vale o karma. Assim como reconheço que a
introdução da beatitude (ou bem-aventurança) foi um inesti-
mável fator de estímulo para a caminhada da alma no sentido
da busca da perfeição e da união conSigo, apesar de seu valor
somente poder ser apreciado quando já em usufruto.
Entretanto, há algo que não Me parece estar funcio-
nando bem no sistema. E isto não diz respeito às Leis, que são
perfeitas, como tudo que emana de Você. Como já mencionei,
o problema que estou constatando na prática, pela simples
observação do que vem ocorrendo neste planeta, é a regulagem
das velocidades de operação dos mecanismos kármicos e o ajus-
tamento da sensibilidade individual à influência das
endorfinas. Ao que tudo indica, trata-se de uma questão de
sintonia fina.
Numa escala maior, tenho observado que a atuação do
karma, como mecanismo de correção das trajetórias individu-
ais, poderia ser mais eficiente se suas respostas fossem mais
rápidas, portanto mais compatíveis com a velocidade dos pro-
cessos atuais de tentação e sedução. Tudo vem se acelerando
de forma exponencial na sociedade globalizada que o Sapiens
sapiens recentemente introduziu, ao tempo que as respostas

22
A PRIMEIRA EMENDA

kármicas permanecem lentas como na época em que o siste-


ma foi instalado, ou seja, por ocasião do lançamento desse
modelo de mamífero, cem milênios atrás.
Numa escala menor e mais próxima –ao nível das rea-
ções psicossomáticas do indivíduo– vejo que há uma grande
discrepância entre a possibilidade de reagir conscientemente
à pressão das endorfinas e à intensificação dos estímulos dis-
seminados pela mídia... pela mídia... pela mí... pela... ... ... ...
... ... ... ... ... ... .. .. .. . . . . . . .
. . . . . . . . . .
.

– Cala-te, Demiurgo!
Tens o discernimento de um parvo!
Estás demitido,
e para o teu lugar nomeio Sísifo.
Dou-te outra chance para recomeçar,
desta vez a partir do estágio
barata,
ao qual te reduzo...

23
AGORA!
– Sim, Senhor.

24
PRIMEIRA PARTE

OS BLATÍDEOS
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 1

D
okt Bar Attón estava desolado. Noite após noite, tudo
suportara com resignação e paciência confiante em
novas provas que viriam dar suporte às suas
descobertas. Mais uma vez tinha sido atingido emocionalmente
pela generalizada descrença entre os colegas da Akademia.
Era frequente perceber os rictos de ironia que disfarçadamente
trocavam entre si desde que apresentara o primeiro trabalho
sobre o controvertido tema da civilização vivípara*, anos atrás.
E havia tempo que suas publicações não apareciam nas refe-
rências bibliográficas de comunicações apresentadas em con-
gressos, artigos e livros, mesmo quando tivessem sido obvia-
mente utilizadas pelos seus autores.
O velho pesquisador sentia-se desacreditado por toda
a comunidade científica de Periplaneta, à exceção de uns pou-
cos amigos e discípulos de Cakerlat e Bakkerstor. Créditos
para as requisições indispensáveis às suas pesquisas, se ain-
da lhe eram concedidos talvez o fossem apenas por sua idade
e histórico de serviços prestados à ciência blatídea; não que
seu trabalho atual tivesse qualquer forma de reconhecimen-

*
Cf. Bar ATTÓN. INDÍCIOS DE AÇÕES ARTIFICIAIS SOBRE O MEIO FÍSICO EM ERAS
REMOTAS. Bakkerstor: Universidade de Bakkerstor Pubs. Neo, AC 4711.

27
DOKT BAR ATTÓN

to, ele bem o sabia. Era terrível sentir-se assim, rejeitado,


quem tantas honrarias recebera no passado. Mas sua confi-
ança raramente deixava-se abater. Em breve novos dados es-
tariam disponíveis e com eles as provas conclusivas daquilo
que o paradigma dominante mostrava-se incapaz de assimi-
lar.
Hoje, fatigado por ter-se prolongado além do horário,
voava para casa já com o dia lumiando incômodo, as asas can-
sadas mal podendo sustentá-lo no Sol claro da manhã.
Ao pousar na entrada do seu habitáculo percebeu que
Koo Karashi movimentava-se lá dentro com alguma inquie-
tação. Attón pousou e entrou.
–Que houve, minha ninfa? Por que ainda não está dor-
mindo?
–Não é nada não, amor. Apenas estava preocupada com
você, minhas antenas captando, e não consegui dormir cedo.
Como foi hoje?
–A mesma coisa. A mesma coisa de sempre. Nada é
mais triste para um pesquisador sério, ciente do que está fa-
zendo, do que ser vítima da incompreensão e dos rictos de
mofa dos colegas. Hoje apareceu mais um cartum no
jornalzinho dos estudantes.
–Escute, amor... eu estive pensando... talvez... se você
mudar um pouco o tema das pesquisas... por algum tempo,
apenas? Você já pensou que esta insistência na paleocultura
pode ser vista como uma espécie de... obsessão? Estive pen-
sando que poderíamos tirar umas férias... as cavernas de
Kaker Lake...
–Não, Koo! Não desisto. E lhe peço para não me falar
desta forma. Isto drena minha energia. Não vou tirar férias.
Nem mudar de rumo. Agora, a única coisa que me interessa é

28
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

reunir novas provas. Estou absolutamente confiante que a


civilização vivípara existiu e que sua tecnologia foi tão avan-
çada como a nossa. Ou mais, até. As implicações desta desco-
berta são muito vastas. Até mesmo o repentino desenvolvi-
mento dos artrópodes, ainda hoje sem explicação satisfatória,
pode estar conectado com a existência e a extinção daquela
civilização. Eu já lhe falei sobre isto... você sabe...
Koo percebeu um leve tremor no labro e nos palpos do
marido, que traçava no ar lentos movimentos circulares com
as antenas como se procurasse expressar algo que não conse-
guia. Ela compreendeu que para ele aquela pesquisa era uma
fixação. Uma obstinação, uma mania, um objetivo vital que
polarizava todas as suas energias mentais. Discutir seria inú-
til. Fazê-lo entender que estava à beira de uma estafa, impos-
sível. Insistir somente iria criar um ponto frágil no relaciona-
mento do casal.
Olhou o marido com ternura, afagou-lhe o protórax com
a patinha dianteira e beijou-o carinhosamente nos palpos la-
biais. Ele esboçou um leve sorriso e observou como as seis
coxas dela eram bem torneadas e brilhantes. Sentiu o perfu-
me insinuante da jovem esposa, acariciou-lhe os cercos e abra-
çaram-se.
O dia já estava alto e um Sol estridente brilhava no
céu quando finalmente adormeceram.


Na noite seguinte, ao chegar ao seu gabinete, Mz Scara
Faggio trouxe uma série de faxes chegados durante o dia. Bar
Attón passou a vista e destacou alguns vindos do Laboratório
de Paleocitologia, cuja criação tinha sido fruto de uma cam-
panha da qual participara. Nesses faxes estavam laudos de

29
DOKT BAR ATTÓN

novas análises dos tecidos moles de fósseis raros encontrados


em perfurações recentes dos gelos polares.
Bar Attón viu que as lâminas mostravam o que ele
queria. Seus discípulos tinham feito um excelente trabalho,
mostrando a ausência de proteção epitelial contra a radiação
ultravioleta do Sol na maioria das espécies de animais e vege-
tais cujos fósseis tinham sido datados até o horizonte da Tran-
sição Ortóptera que marcou o início da Era Quinquenária. É
nessa fase, ultracurta em escala geológica, que se registra o
desaparecimento de 10& por grosa das espécies desprovidas
de defesas contra a radiação UV na maior das extinções ocor-
ridas nas últimas 8# bigrosas de grosianos. Após a mudança
no espectro da radiação solar incidente na superfície de
Periplaneta, que anteriormente não era atingida pelo
ultravioleta, os artrópodes evoluíram e logo se tornaram do-
minantes, ocupando nichos ecológicos que eram exclusivos dos
endovertebrados e seus principais representantes –os
vivíparos.
Os indícios de que os vivíparos teriam desenvolvido
uma civilização ainda poderiam ser considerados tênues, o
que permitia entender a reação da comunidade científica.
Entender, mas não justificar, porque os dados reunidos por
Bar Attón eram provenientes de múltiplas observações
coletadas em diversas disciplinas e deveriam ser interpreta-
dos conjuntamente, não apenas no âmbito restrito de cada
especialidade. Contudo, o paradigma vigente estava condicio-
nado à visão estanque de cada ramificação da ciência e raros
cientistas se aventuravam aos vôos mais altos de uma apreci-
ação multidisciplinar. Dokt Bar Attón era um deles.
Além das análises paleocitológicas procedidas por seus
amigos do Laboratório havia outros dados reveladores, apa-

30
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

rentemente sem relação com os anteriores, que provinham do


Instituto de Mineralogia e Cristalografia onde não contava
com as mesmas simpatias. Aliás, podia-se dizer que o IMIC
era um reduto de adversários, dos que mais relutavam em
admitir a existência de uma civilização vivípara. Todavia, Bar
Attón persistia em solicitar-lhes análises mais e mais deta-
lhadas sobre os processos de metamorfização de algumas ocor-
rências de conglomerados calcários anômalos com inclusões
de ferro metálico que, ao seu ver, poderiam ter uma origem
artificial.
Se alguma dúvida ainda existisse no espírito de Dokt
Bar Attón, elas se desvaneciam a cada passo. E um grande
passo foi quando chegaram as radiofotos orbitais registrando
com maior nitidez as manchas que ele identificava como “ci-
dades”. Os testemunhos de uma remota civilização
periplanetária pareciam-lhe cada vez mais reveladores. Será
que os outros ainda resistiriam a essas novas evidências? Se
apreciados separadamente esses dados eram apenas indícios,
mas se vistos em seu conjunto formavam um cenário consis-
tente. “A inércia de um paradigma estabelecido é um peso
terrível para o avanço do conhecimento. Será que isto conti-
nuará assim por muito tempo? Por que ninguém quer ver além
da jaula conceitual em que se prendeu?”
Verdade que o registro fóssil dos vivíparos, sucessores
dos répteis, era escasso; bem menos rico que o dos grandes
sáurios, extintos numa catástrofe 3& bigrosas de grosianos
atrás. Isto dificultava o estabelecimento de correlações im-
portantes. Mas os sáurios eram enormes e deixaram vistosos
endoesqueletos, enquanto os vertebrados que os sucederam
tinham poucas espécies de porte. Pelo menos uma delas teria
assumido a hegemonia e desenvolvido alguma forma de inte-

31
DOKT BAR ATTÓN

ligência. Até aí, tudo bem, a Akademia podia aceitar


tranquilamente tal hipótese. Mas estender esta idéia a ponto
de admiti-los capazes de criar tecnologia de nível planetário,
com cidades, telecomunicações e satélites artificiais, positi-
vamente era um exagero inaceitável.
Para Dokt Bar Attón, não. A descoberta das formações
calcáreas com inclusões lineares de ferro não tinha explica-
ção através de um processo natural. Essas ocorrências, relati-
vamente raras, assemelhavam-se curiosamente ao concreto
armado, material amplamente utilizado pela civilização
blatídea. Além disso, as maiores formações desse tipo ocorri-
am em lugares que teriam sido antigos cursos de rios, confor-
me outros estudos sugeriam. Seriam remanescentes das es-
truturas de gigantescas barragens?
–Scara, traga-me por favor os dois últimos laudos do
Laboratório de Cristalografia. E faça-me uma ligação para
Dokt Duvilen Ddu, na Universidade de Bakkerstor. Se ele ain-
da não tiver chegado, deixe recado.
A localização das jazidas de conglomerados calcários
em pontos bem determinados –e somente neles– apresentava
uma significativa justaposição ao que teriam sido os vales de
grandes rios; raramente ocorriam formações tão grandes fora
desses locais. Daí para imaginar que fossem antigas barra-
gens bastava um pequeno salto da imaginação. “Desde que
essa imaginação não esteja bloqueada pelo dogma de que a
nossa civilização é a primeira a se estabelecer neste planeta”
–ponderou Attón.
–Alô, Duv, meu velho, como está?... Eu, bem... Koo está
bem, embora um pouco deprimida, ultimamente... Não, não,
fisicamente ela está bem, mas... esta situação comigo e a
Akademia, não é? Mas tenho uma novidade muito boa. É...

32
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Sim, sobre os vivíparos... recebi novas lâminas de


fotogrametria orbital e quero que você as veja logo. Para mim
já não são indícios e sim provas. Sim... sim. Certo... certo.
Passo-lhe um fax já, já.
Dokt Duvilen Ddu era um amigo de duzianos. Estuda-
ram juntos na Universidade e seu campo de trabalho era pró-
ximo ao de Bar Attón. Mas enquanto Bar Attón era membro
da Akademia, Duvilen Ddu ensinava arqueologia na Univer-
sidade Provincial de Bakkerstor –outra província limítrofe a
Cakerlat. Não havia certeza de que ele realmente acreditasse
na civilização dos vivíparos, mas as lâminas fotogramétricas
de alta definição o convenceriam. Talvez ele sugerisse solici-
tar uma reunião da Comissão de Paleontologia, que sempre
se mostrou tão cética... “Se Duv concordasse, tudo ficaria mais
simples”.


Naquelas noites, a grande excitação da blatideidade
em todos os continentes e nas mais remotas províncias de
Periplaneta era em torno da missão à Lua, programada para
a noite seguinte. Esse evento extraordinário vinha sendo ob-
jeto de reportagens noitárias, com ampla cobertura pela tele-
visão e entrevistas com a equipe de Cape Baratotal, onde enor-
mes estruturas rodeavam o grande foguete negro que levaria
os primeiros artrópodes ao satélite de Periplaneta. Era um
feito sem precedentes. Anunciava-se um marco na existência
da blatideidade somente comparável –no dizer de um desta-
cado cientista– ao momento em que os seres vivos deixaram a
proteção da vida subaquática para conquistar os continentes,
enfrentando a agressividade do Sol e os perigos da vida a des-
coberto.

33
DOKT BAR ATTÓN

Dokt Bar Attón, ao lado de Koo, assistia ao noticiário e


pensava por que Duvilen Ddu ainda não tinha comentado as
lâminas que lhe mandara. Apesar da intimidade dos dois
amigos não seria delicado telefonar cobrando uma opinião.
Seria possível admitir que ele ainda tivesse dúvidas? As man-
chas de revolvimento geológico eram tão claras, tão bem
delineadas, sugerindo mesmo estruturas organizadas do que
só poderiam ser... cidades. E essas manchas se prolongavam
em configurações lineares que só poderiam ser... estradas. Tra-
tava-se de um tipo de organização urbana diferente do predo-
minante em Periplaneta, mas tinha também uma racionalidade
perfeitamente admissível numa comunidade de seres inteli-
gentes, embora diferentes dos blatídeos. Queria muito ouvir os
comentários de Duv.
Na televisão um repórter destacava os sofisticados sis-
temas de manutenção da vida que protegeriam os lunautas,
especialmente da radiação solar que seria dúzias de vezes mais
perigosa do que num dia sem nuvens na superfície de
Periplaneta. Dokt Bar Attón ponderava se tudo aquilo que
estava sendo apresentado ali não já teria ocorrido antes...
“Quem sabe? Muitas bigrosas de grosianos antes? Positiva-
mente, parecia loucura. Pensando bem, era razoável que os
outros pensassem que ele delirava, ao imaginar tais coisas”.
Por um momento –apenas por um momento– Dokt
Attón chegou a pensar que ele estava mesmo criando deliran-
tes fantasias. Mas logo se recuperou: “A civilização dos
vivíparos realmente existiu.” –concluiu de si para si.
Koo Karashi adormeceu. No aposento ao lado um lin-
do ovo marrom e brilhante esperava o nascimento do segundo
filho do casal, enquanto Tarakan brincava sozinho no compu-
tador do seu quarto.

34
Primeira parte - OS BLATÍDEOS


No entardecer seguinte, quando Dokt Bar Attón des-
pertou depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama
convertido numa criatura monstruosa. Estava deitado sobre
os tecidos pouco firmes de suas costas e, ao erguer um pouco a
enorme cabeça, viu a figura convexa do seu ventre liso e co-
berto por alguns pêlos, que seu cobertor mal podia suportar,
estando a ponto de escorrer para o chão. Apenas duas pernas
lamentavelmente grossas, em comparação com suas seis ele-
gantes patas, ofereciam a seus olhos um espetáculo de flacidez
e inércia sem consistência.”Que me aconteceu?” –pensou, an-
gustiado.
Attón dirigiu o olhar para a janela; o tempo ensolarado,
lá fora, infundiu-lhe uma grande melancolia. “Bem” –pensou–
“que aconteceria se eu continuasse dormindo um pouco mais
e me esquecesse de todas essas fantasias?” Mas isto era algo
absolutamente irrealizável, porque ele tinha o costume de
dormir com o ventre para baixo e sua posição de costas não
lhe permitia virar o corpo, como tentou. Embora se empenhas-
se em virar-se, forçosamente voltava a ficar na mesma posi-
ção. Sentia-se grande e pesado, sem proteção, como se tives-
sem extirpado seu exoesqueleto, suas asas, suas antenas. Tudo
nele era flácido e desagradável. Com o esforço para mudar de
posição, pequenas gotas de líquido começaram a se formar
sobre a superfície do seu corpo, agora feito de partes moles e
esbranquiçadas. E –horror!– sentiu pêlos compridos na cabe-
ça.
“E agora? Que pensará Koo quando me vir transfor-
mado neste monstro?” –amargurou-se, enquanto tentava ain-
da uma vez se virar no leito e mais gotículas de líquido nojen-
to se formaram em sua pele.

35
DOKT BAR ATTÓN

–Attón!
Como se as nuvens de um pesadelo fossem aos poucos
se dissipando, escutou a voz de Koo.
–Attón, querido, que tem você?
Aos poucos veio despertando, voltando a sentir suas
patas se agitarem, seu corpo firme, suas asas brilhantes e o
carinho de Koo Karashi ali juntinho afagando-lhe o protórax.
–Você estava tremendo, querido. Está se sentindo bem?
Estava sonhando, não foi?
Estava. Foi apenas um sonho, aliviou-se. Sonhou que
se metamorfoseara num vivíparo. Tremeu mais uma vez ao
se lembrar do terror que sentira, tão nítido que parecia ver-
dade.

–Amigo Attón, você está exigindo muito de si mesmo.
Precisa se cuidar porque já completou cinco duzianos e não é
mais uma ninfa. Seus gânglios não suportam as tensões e os
esforços que você está lhes impondo. Tire umas férias, nem
que seja apenas por um mês. Sua companheira me disse que
até hoje vocês não conhecem as cavernas de Kaker Lake. Ela
tem muita vontade de ir lá com você e agora a Ohar organizou
um pacote muito interessante. Aceite meu conselho: você vai
gostar de lá. É sombrio e úmido, um friozinho gostoso e escu-
ro, uma delícia. E dentro das cavernas você nem sabe se é dia,
lá fora...
Durante o desjejum, enquanto olhava na televisão os
preparativos para o lançamento do NOTURNO-5 –foguete que
levaria à Lua os primeiros ortópteros– e comia um sanduíche
de celulose com mel, Attón escutava pelo telefone os conse-
lhos de seu médico. Era o famoso Dokt Kaakao Suklaa, prati-

36
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

cante de medicina natural, que não usava drogas industriali-


zadas e controlava apenas a dieta e os hábitos dos seus clien-
tes, conseguindo resultados admiráveis sem sequelas nem
efeitos colaterais.
Mas as palavras amigáveis do médico não eram o que
ele queria ouvir. Já tinha decidido que só iria ao paraíso de
Kaker Lake, com Koo e Tarakan, depois que tivesse obtido
um mínimo de reconhecimento da seriedade de suas pesqui-
sas por parte de pelo menos alguns dos seus colegas. E, além
disso, tinham que esperar o neném nascer.
Ao chegar ao seu gabinete perguntou a Mz Faggio se
Dokt Duvilen tinha ligado.
–Ainda não –disse ela com tato e compreensão, dei-
xando no ar a sugestão de que ele logo ligaria.
Bar Attón olhou mais uma vez para o delicado traçado
das linhas coloridas nas lâminas de radiogrametria. “Por que
Duv ainda não telefonou?” –era o pensamento que não lhe
saía da cabeça.
Ligou a televisão e desinteressadamente assistiu às
manifestações de excitação por toda Periplaneta, nas últimas
horas que antecediam ao lançamento do foguete que levaria
os lunautas em sua aventura sem precedentes.

37
DOKT BAR ATTÓN

38
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 2

P
ouco antes da meia noite, Mz Faggio entrou no ga-
binete anunciando a chegada de três visitantes. Ela
gostou: era isto que ele tanto esperava. Dokt Duvilen
Ddu, acompanhado de um colega estrangeiro da mesma Uni-
versidade e um membro da Akademia que ela já conhecia, o
Proff Csótány, biólogo maggyar de renome interprovincial. Es-
tranho é que tivessem vindo sem se fazer anunciar nem mar-
car entrevista. Mas... “o importante é que Dokt Bar Attón
fique feliz com a visita”.
–Bar Attón, meu querido, como está você? –O Proff
Csótány era visivelmente expansivo e comunicativo. Talvez
até se pudesse dizer que era simpático.
–Bar Attón –falou Duvilen Ddu– permita-me apresen-
tar-lhe Dokt Hlebarka, da Vulgárya, que tem se destacado
nos estudos de cosmobiologia. Meu caro Hlebarka, finalmen-
te estou podendo lhe apresentar o Bar Attón, amigo desde os
tempos de estudante e autor dos trabalhos sobre a
paleocivilização dos vivíparos.
Depois dos cumprimentos, acomodaram-se no gabine-
te, onde uma televisão na parede apresentava outra reporta-
gem sobre a expedição lunar.

39
DOKT BAR ATTÓN

–E então, Bar Attón –prosseguiu Duvilen Ddu– que


acha que os lunautas vão encontrar por lá? Alguma novidade
importante, além do que já se sabe?
–Não sei, eu não ousaria arriscar um palpite.
Attón ainda estava sem entusiasmo; nem pela Lua,
nem pela tripla visita, nem por qualquer outra coisa. Mas
estava se esforçando por parecer afável.
–Os levantamentos fotográficos e eco-radiográficos já
mostraram que lá só existe mesmo poeira e pedras. Não acre-
dito em qualquer forma de biologia lunar. A coisa mais inte-
ressante dessa expedição serão as amostras de rochas, que
poderão indicar se a idade da Lua é a mesma de Periplaneta
e dar indicações mais precisas sobre a sua formação. Uma
coisa que ainda não sabemos é a espessura da camada de
poeira. Esperemos que não seja tão grande a ponto de sub-
mergir o módulo de pouso –lecionou Hlebarka.
–E as pesquisas sobre os vivíparos, Attón, em que pé
estão? Eu vi as lâminas estratométricas... parecem trazer
indícios favoráveis à sua tese, não? –O Proff Csótány deixou
perceber pelo tom de sua voz que não se impressionara muito
com as lâminas.
–Para mim são algo mais que indícios! –reagiu Attón–
Para mim já podem ser consideradas provas da existência
das cidades. Ainda que não sejam provas conclusivas, são in-
dícios muito significativos. O mais importante não são as li-
nhas isoestratométricas e os caprichosos padrões que elas
delineiam. Para mim, o importante é a interpretação desses
dados a partir de como eles podem ser ajustados a outros...
Indícios. E realizar escavações em muitos pontos...
–Diga-nos, Bar Attón, qual é o cenário completo que
você imagina para juntar todos esses elementos num todo

40
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

consistente, que faça sentido? Qual é a sua teoria, em sua


versão mais completa?
O velho amigo Duv “não deixa claro se quer ajudar-me
ou ridicularizar-me...” –pensou Bar Attón– e logo arrepen-
deu-se de ter pensado isto. Mas ainda não podia provar tudo
o que propunha e facilmente poderia ser acusado de especu-
lar com dados insuficientes. Se ele expusesse todo o cenário
que montara em sua cabeça para explicar o que poderia ter
acontecido com os vivíparos, poderia ficar parecendo algo
fantasioso, até mesmo ridículo. Mas tudo indicava que era
para isto que o trio estava ali. “O jeito é falar” –concluiu– “e
esperar o que há de vir.”
–Então, Dokt Attón, você não acha que hoje é uma noi-
te bem adequada para nos contar a história completa? A via-
gem à Lua combina bem com uma espec... quero dizer, com
uma teoria assim, ousada, como a da civilização vivípara, não
lhe parece? –desafiou Hlebarka.
–Meus caros amigos, antes de tudo, quero manifestar
minha alegria por recebê-los aqui neste gabinete de traba-
lho, onde tenho tido, sucessivamente, momentos de grande
satisfação e outros de melancolia e tristeza. Os momentos de
alegria ocorrem quando recebo visitas como esta, de amigos
capazes de manter os diálogos de que preciso, numa pesquisa
em que me tenho sentido muito solitário, como vocês sabem.
Ou, então, fico alegre quando sou gratificado com os novos
dados que recebo constantemente de diversas instituições e
que se constituem em peças importantes de um fascinante
jogo de armar, confirmando progressivamente a teoria da ci-
vilização vivípara. Os momentos de tristeza ficam por conta
da solidão que sinto, ao perceber que não existe ainda uma
receptividade para as minhas descobertas, e que tenho pela

41
DOKT BAR ATTÓN

frente a resistência passiva de todo um sistema de pensar,


que reconheço como inadequado para que outros também
participem deste... jogo de armar.
Bar Attón fez uma pausa, bebeu um gole de néctar e
prosseguiu.
–Percebo que um dos obstáculos à compreensão do que
proponho é a dificuldade que o cientista tem para pensar li-
vremente, fora do âmbito restrito da sua própria área de tra-
balho. Cada especialidade que mobilizei para configurar a
teoria da civilização vivípara contribui com seus próprios da-
dos e informações, que por si só são insuficientes para sus-
tentar a teoria. Para bem apreciar a significação de cada um
desses indícios é indispensável correlacioná-los com outros,
de outras especialidades, que, por sua vez, também não seri-
am convincentes se vistos separadamente.
–Caro Attón, creio que deste pressuposto já estamos
cientes. Você tem insistido neste ponto e dele não discorda-
mos –interveio Csótány– portanto, pode ficar à vontade para
nos mostrar as diferentes peças do quebra-cabeças e de que
forma ele se configura, na sua teoria.
–Sim, sim. Procurarei ser mais específico. Por favor,
se algum de vocês tiver qualquer dúvida, interrompa-me para
que eu possa esclarecê-la, se puder.
Bar Attón percebeu alguma impaciência por parte de
seus interlocutores. A televisão estava, neste momento, trans-
mitindo a largada do NOTURNO-5 sob os aplausos da multidão
que se reunira em Cape Baratotal. Após uma breve pausa
para assistir o enorme foguete desaparecer no céu noturno
deixando um rastro de luz, Attón retomou sua explicação.
–São múltiplas as fontes de onde tive que recolher
dados e outras continuam a aparecer, reforçando a minha tese.

42
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Sinteticamente, minha proposta contempla a existência de


uma civilização tecnológica que teria surgido precisamente
no horizonte da Transição Ortóptera. Tal civilização teria sido
criada pelos vivíparos que, como vocês não ignoram, foram
seres dotados de endoesqueletos que se desenvolveram a par-
tir da extinção dos grandes sáurios. Estes, apesar de também
dotados de endoesqueletos, eram normalmente ovíparos, ape-
sar de algumas de suas espécies –muito raras– terem sido, ao
que parece, vivíparas. Hoje, a ciência reconhece que a natu-
reza cria seres experimentais que periodicamente descarta
quando não se ajustam às alterações ambientais. Foi assim
com os répteis e também com os vivíparos. Pelo que sabemos,
os sáurios foram extintos por um fenômeno natural ocorrido
há 3& bigrosas de grosianos. Está comprovado que a queda
de um asteróide provocou o escurecimento da atmosfera por
uma nuvem de detritos, bloqueando a maior parte das radia-
ções solares por algum tempo e liquidando com os vegetais
dependentes da fotossíntese que formavam a base da cadeia
alimentar dos animais, especialmente dos sáurios, que foram
rapidamente extintos. Isso abriu nichos ecológicos para a ex-
pansão dos vivíparos, que em 1& bigrosas de grosianos evo-
luíram, cresceram e se adaptaram. Esses seres ocuparam os
espaços liberados pelos sáurios e prosperaram durante todo
esse tempo, chegando a desenvolver inteligência e cultura,
sendo depois rapidamente extintos –ao que tudo indica por
outra alteração brusca no meio ambiente. Mas, ao meu ver,
desta vez não foi um fenômeno natural que provocou sua
extinção; a esta altura das minhas pesquisas posso afirmar
que somente uma alteração artificial do ambiente, possivel-
mente acidental, pode explicar o seu desaparecimento.

43
DOKT BAR ATTÓN

–É uma proposta ousada, Dokt Bar Attón, e, como tal,


deve-se apoiar em provas convincentes.
–Estou ciente disto, Dokt Hlebarka. A prova emerge
quando um leque de indícios se organiza de forma consisten-
te em torno de uma hipótese que os explica conjuntamente.
–Você propõe, então, que os vivíparos chegaram a se
constituir numa grande civilização de escala planetária, as-
sim como a nossa? E que teriam, por acidente, provocado uma
alteração ambiental tão violenta que teria determinado sua
extinção? Apesar de todo o tempo decorrido, uma tal civiliza-
ção teria deixado traços físicos identificáveis...
–Esses traços existem, Proff Czótány. São tênues e dis-
cutíveis, se olhados separadamente, mas adquirem significa-
ção quando constatamos que eles ocorrem sempre no hori-
zonte da Transição Ortóptera e se ajustam a um elenco de
outros indícios. Se admitirmos a hipótese de uma civilização
planetária, temos que procurar os remanescentes de sua or-
ganização do espaço físico, de sua ação sobre o meio natural e
investigar suas fontes de energia. Se sua energia não era re-
tirada diretamente do Sol, eles poderiam ter grandes usinas
que explorariam outras formas de geração, como fazemos com
a indústria pesada.
–E você pode mencionar algum desses indícios? –
Duvilen Ddu sabia que sim e quis que Attón falasse sobre os
dados que reunira e interpretara.
–Os dados de que disponho sobre a ação dos vivíparos
no meio físico provêm de duas fontes principais: os levanta-
mentos fotoestratométricos orbitais que mostram toda uma
configuração de ocupação territorial, especialmente nas regi-
ões cuja superfície não se alterou muito desde aquele perío-
do, e também as análises mineralógicas de alguns conglome-

44
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

rados calcários com inclusões de ferro estriado. Aqui estão as


lâminas que recebi recentemente.
–Como você interpreta essas configurações territoriais?
–Observem primeiro as lâminas estratométricas. Elas
mostram que há uma disposição racional das áreas onde as
camadas geológicas naturais foram misturadas, obedecendo
a uma lógica que dificilmente se poderia atribuir a fenôme-
nos naturais. Vejam como há uma rede de manchas de
revolvimento geológico, sugerindo o que poderia ser uma hie-
rarquia urbana. É certo que não se trata de uma organização
urbana contínua, como a nossa. Vejam que há grandes e mé-
dias concentrações bem localizadas que se ligam por linhas
finas sugerindo vias de comunicação. Se as concentrações
urbanas fossem menos compactas e se as estradas fossem mais
extensivamente ocupadas, em suas adjacências, teríamos uma
organização espacial tipicamente blatídea. Nas manchas
maiores superpõem-se algumas ocorrências metamorfizadas
do conglomerado calcário que sugere o nosso concreto. Estu-
dos cristalográficos desses minerais –vejam aqui– deixam
evidente a presença de óxido de ferro em disposição linear,
pelo interior do conglomerado, que facilmente se poderia iden-
tificar com as armaduras de ferro que utilizamos no passado.
Não foram encontradas ocorrências de titânio, que eles possi-
velmente não conheciam.
Os visitantes entreolharam-se, procurando evitar uma
manifestação óbvia do que pensavam. Bar Attón não se dei-
xou intimidar. Ele sabia que apenas um indício isolado não
os convenceria. E continuou.
–Mas a ocorrência desses conglomerados fica mais os-
tensiva em sítios afastados das grandes cidades, em áreas
que foram identificadas como antigos vales de grandes rios.

45
DOKT BAR ATTÓN

Aí, sim, essas formações podem ser encontradas em grandes


veios lineares –alguns gigantescos, se comparados com as
ocorrências em áreas urbanas. Não seria difícil supor que se
tratasse de imensas barragens para a acumulação de água.
–E para que quereriam eles tanta água?
–Creio que por sua constituição biológica eles precisa-
riam de muita água. Tudo indica que os vivíparos dominan-
tes eram os bípedes HSS, cujos corpos congelados foram re-
cuperados recentemente em perfurações profundas nos gelos
polares. Eles eram muito maiores do que nós e seus tecidos
orgânicos continham muita água. Por outro lado, eles tam-
bém poderiam usar as barragens para a produção de energia.
Como a massa corporal deles era cerca de quatro a oito dúzi-
as de vezes maior do que a de um blatídeo médio, para tudo
eles precisariam de muito mais energia do que nós: transpor-
tes, construções, produção de alimentos etc.
–Bom, meu caro Dokt Attón, o cenário que você nos
descreve não difere muito da civilização atual. As diferenças
entre o que somos hoje e o que você imagina para essa hipoté-
tica civilização vivípara são relativamente pequenas e não
vão além do que seria de esperar, a partir das diferenças bio-
lógicas entre o que somos e o que eles teriam sido. Não esta-
ria você incorrendo num blatideocentrismo? Veja que dificil-
mente podemos escapar dessa tendência. Recentemente, pu-
bliquei um artigo na ZIENTIFFIC AMERIKKANA mostrando os ví-
cios daqueles que procuram sinais de civilizações
extraperiplanetárias; mostrei claramente que todas as expec-
tativas de linguagens alienígenas, e portanto das possíveis
mensagens a receber, estão baseadas em perspectivas
blatideocêntricas... –Dokt Hlebarka já não procurava camu-
flar o seu ceticismo.

46
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

–Dokt Bar Attón, fale-nos agora da sua hipótese sobre


o desaparecimento dessa civilização, que você identifica com
a própria extinção ocorrida na Transição Ortóptera. Por que
você sugere que essa extinção teria sido provocada artificial-
mente? Que dados você tem para fundamentar essa suges-
tão? –interveio Duvilen Ddu para fugir do mal-estar que se
esboçava.
Dokt Bar Attón aprumou as antenas, fez uma pausa e
continuou.
–Quanto a este aspecto as informações mais impor-
tantes vêm do Laboratório de Paleocitologia da sua Universi-
dade, Duvilen Ddu, onde uma equipe de alto nível –que, ali-
ás, você conhece– vem estudando os tecidos de muitas espéci-
es de vivíparos fósseis congelados, principalmente de vege-
tais e do HSS. É um trabalho difícil. Os corpos encontrados
no gelo não podem ser reaquecidos para o estudo citológico,
porque se liquefariam instantaneamente. E fazer estudos de
microscopia a dúzias de graus abaixo do congelamento é uma
operação que exige instalações e cuidados especiais. Dokt
Hlebarka e o Proff Csótány, como biólogos, certamente estão
acompanhando essas investigações. Tenho recebido as lâmi-
nas e os laudos tão logo são elaborados.
–Você se refere à inexistência de proteção epitelial des-
ses seres contra a radiação ultravioleta? Sim, sim, tenho acom-
panhado os estudos realizados, mas não tenho visto nada que
se acrescente ao que já se sabia com relação a esses animais e
vegetais do Quaternário. Tudo indica que naquela era o Sol
não emitia raios ultravioletas, ou então esses animais vivi-
am em ambientes protegidos. Assim como nós.
Czótány procurava firmar seu ponto de vista.

47
DOKT BAR ATTÓN

–Discordo de ambas as sugestões que você apresenta,


meu caro Czótány. Primeiro, posso lhe assegurar que o Sol
não poderia alterar seu espectro de radiação num período tão
curto, na escala da evolução estelar. Consultei o observatório
de Pic du Cafard e tenho arquivada uma ampla exposição,
fundamentada em cálculos precisos, informando que não há
possibilidade do Sol alterar suas emissões em tão curto perí-
odo, nem haveria qualquer razão para que isto ocorresse. A
evolução solar é algo bem estudado e esclarecido e tal altera-
ção nas emissões de ultravioleta não faz sentido. É virtual-
mente certo que na Transição Ortóptera a radiação
ultravioleta do Sol era praticamente idêntica à de hoje.
–Realmente, isso é fato, Czótány –interveio Hlebarka,
cuja formação em cosmobiologia incluía o conhecimento das
linhagens de evolução estelar, particularmente do Sol. Con-
tudo –acrescentou– é possível que esses animais vivessem
em ambientes protegidos, cobertos...
–Os animais, sim, Dokt Hlebarka, mas... e os vege-
tais? Como procederiam à fotossíntese se não tinham prote-
ção contra o ultravioleta em suas folhas, como os vegetais de
hoje? Os estudos que o Laboratório de Paleocitologia proce-
deu em folhas do Terciário e do Quaternário preservadas em
resina congelada mostram que elas seriam queimadas pelo
ultravioleta, se expostas ao Sol, ainda que por pouco tempo.
Ora, de que servem folhas que não podem ser expostas à luz
solar? –Bar Attón começava a assumir um tom mais veemen-
te, em sua argumentação.
–Então, você insiste em que...
–Não havia radiação ultravioleta de média frequência,
destrutiva para as células vivas, incidindo sobre a superfície
de Periplaneta durante a Era Quaternária, embora o Sol as

48
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

estivesse emitindo regularmente –concluiu Dokt Bar Attón,


em tom incisivo.
–Donde se deduz que...
–Havia na atmosfera uma proteção qualquer que blo-
queava essa radiação! Foi essa proteção, que deve ter existi-
do por trigrosas de grosianos, que permitiu à vida evoluir,
criando experimentalmente animais e vegetais que somente
poderiam existir sem estar expostos ao ultravioleta de média
frequência, que para eles seria mortal!
–E essa proteção teria sido removida pelos vivíparos
num pacto coletivo de suicídio em massa? Suicídio não ape-
nas da espécie dominante, mas de quase todas as formas de
vida?
–Pode ter sido por acidente...
–É, meu caro Bar Attón... Uma hipótese puxa outra,
que por sua vez vai exigir mais uma suposição, e mais outra,
e mais outra, até que nos encontramos no terreno instável da
especulação. É até possível que você tenha razão, mas sinto
lhe dizer que é uma teoria que exige muito da imaginação de
um cientista que tem as patinhas no chão.
Hlebarka acabara de atingir o limite da falta de corte-
sia e, com apenas um passo a mais, corria o risco de ultrapassá-
lo. Bar Attón estava tenso, enquanto os demais escutavam
imóveis. Não havia mais clima para que a reunião prosse-
guisse. Dokt Duvilen Ddu parecia desconcertado e foi o últi-
mo a se despedir de Bar Attón, ao sair.


A televisão mostrava os lunautas flutuando no interi-
or de sua nave e cenas de todas as províncias, onde as multi-
dões aplaudiam o feito inédito da ciência ortóptera. Bar Attón

49
DOKT BAR ATTÓN

estava cansado, muito cansado, e não se interessava pelo gran-


de feito. Scara Faggio, atenciosa e preocupada, chamou um
veículo para levá-lo ao seu habitáculo. O dia estava amanhe-
cendo, trazendo a melancolia que sempre acompanha as ma-
drugadas, quando Bar Attón adormeceu e sonhou. Mas desta
vez não foi um pesadelo.
Ele passeava nos resplandecentes espaços interiores
do Parque Natural das Grutas de Kaker Lake. Estava ao lado
de sua amada Koo Karashi, com Tarakan e a linda ninfeta
recém-nascida que trouxera para sua família as alegrias que
seus gânglios fatigados bem mereciam. Compondo cenários
fantásticos, nos imensos salões subterrâneos docemente en-
voltos em luzes irisadas, brotavam do chão longas estalagmites
realçadas por células bioluminescentes. Pareciam esforçar-se
para encontrar as delicadas, finíssimas, cristalinas estalactites
vindas do teto. Bar Attón observava em silêncio a beleza que
o envolvia e pensava no esforço que também ele estava fazen-
do para promover o encontro de duas civilizações separadas
por dúzias de trigrosianos.
Lembrava-se daqueles que discordavam de suas idéi-
as, ou a elas eram indiferentes; dos jovens que troçavam dele
e da sua teorias. Mas o sentimento, em seu gânglio afetivo,
não era de mágoa nem de rancor. Bar Attón compreendia os
pontos de vista deles e, intimamente, perdoava a todos que o
combatiam. “É uma limitação cultural, que só o tempo pode
superar” –ponderava. Ele sabia que a fonte de toda discórdia
que faz sofrer os seres sencientes é apenas a ignorância –sob
qualquer das suas formas– e que o seu desaparecimento é
uma questão de perseverança e paciência. Ele permanecia fiel
à sua confiança na Ordem Invisível que certamente tudo es-
clareceria quando chegasse o tempo certo de maturação para
as idéias que estavam no ar.

50
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 3

app Coquerelle assumiu o comando do Módulo de

K Pouso tão logo atingiu a altitude prevista para en-


trar na órbita de baixa altura onde permaneceria
durante o tempo necessário para a escolha do ponto onde
desceria até a superfície lunar. A tripulação de oito lunautas,
atenta e bem treinada, ocupava-se das diversas funções de
pilotagem, monitoração dos sistemas de bordo, comunicações,
registro de imagens da superfície etc. Enquanto isso, outros
dezesseis blatídeos ficaram no Módulo Principal, de órbita
alta, supervisionando a operação de pouso, em contato com o
Controle da Missão.
A comandante Coquerelle observava atentamente a
rápida sucessão das imagens do árido solo lunar que desliza-
va velozmente sob o módulo, por vezes mandando repetir em
câmara lenta alguma passagem onde ela identificava forma-
ções dignas de maior interesse. Orbitando um pouco acima
das mais altas elevações lunares, num ângulo de seis
duzigraus em relação ao equador, a maior parte da superfície
da Lua seria detalhadamente escaneada em menos de oito
duzivoltas, graças ao desvio de dois graus que os motores
imprimiam a cada órbita, para permitir avaliar com segu-
rança qual o local mais indicado para o pouso. A atenção

51
DOKT BAR ATTÓN

aguçada da comandante nada deixava escapar, e algumas


vezes ela solicitou que algum trecho filmado fosse repetido e
gravado em alta definição.
Os ortópteros que permaneceram no Módulo Princi-
pal também participavam da escolha do lugar do pouso exa-
minando as imagens tridimensionais que lhes eram transmi-
tidas com riqueza de detalhes. Além do que já se esperava
encontrar na superfície da Lua, algumas manchas de cor di-
ferenciada por vezes apareciam, mas nada tão importante que
sugerisse a sua eleição para local do pouso. Até que na órbita
20...
–Aqui temos algo diferente! Retorne o filme, Blatte!
Mais, mais... mais um pouco. Aí, aí está bem.
Isto, sim, era algo inesperado. Nada parecido tinha
sido identificado pelos levantamentos orbitais que precede-
ram à Missão de Pouso. “Isto, sim” –pensou Kapp Coquerelle
emocionada– “pode trazer um significado surpreendente para
o enorme esforço da civilização ortóptera no sentido de che-
gar até a Lua. Pode até calar todos aqueles que se opuseram
a esta difícil jornada científica”.
Kapp Coquerelle comunicou-se com o Módulo Princi-
pal e, quase simultaneamente, com Cape Baratotal, procu-
rando conter a viva emoção que fazia seu gânglio afetivo vi-
brar em frequência mais alta.
–Vocês estão vendo?
..........
–Sim, sim, estamos atentos. As imagens são claras.
Transmita agora as de alta definição. Estamos comparando
com os registros de arquivo.
O Comando da Missão e o Módulo Principal mostra-
vam uma excitação deliberadamente contida, própria dos téc-

52
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

nicos e cientistas que foram treinados para não se deixar


empolgar por informações inesperadas, que depois podem
revelar-se algo trivial.
–Atenção, Kapp Coquerelle, desative a correção angu-
lar de órbita para sobrevoar mais uma vez o mesmo local,
certo? –A ordem vinha diretamente de Periplaneta.
..........
–É o que eu já tinha pensado em fazer. Mas o que é
que vocês acham?
Agora Coquerelle falava com o Controle da Missão.
Entretanto, o diálogo era arrefecido pela pausa de cinco se-
gundos entre perguntas e respostas, exigido pelas ondas ele-
tromagnéticas para transpor, de ida e volta, a distância entre
Periplaneta e a Lua. E teria que ser interrompido a cada vez
que o Módulo de Pouso sobrevoasse o hemisfério oposto da
Lua, a face que por tanto tempo permanecera oculta aos te-
lescópios dos ortópteros.
–Ainda não há um acordo entre os que já viram as
imagens. Mas não parece haver dúvida de que se trata de
algo de origem artificial. Estamos entrando em contato com
cosmobiólogos de diversas instituições e decidimos não trans-
mitir ainda essas imagens para as redes públicas de televi-
são. Pelo menos enquanto não se chegar a um primeiro con-
senso sobre o que significam.
Enquanto o Módulo de Pouso passava sobre a face opos-
ta da Lua, somente podia se comunicar com o Módulo Princi-
pal que o acompanhava numa órbita mais alta, embora com
algum retardamento em cada volta, exigindo correções perió-
dicas. Durante esse curto período, o contato com o Controle
da Missão ficava cortado e os lunautas dos dois módulos tro-
cavam impressões.

53
DOKT BAR ATTÓN

–É uma estrutura em ruínas, algo como uma constru-


ção tipo caixa apoiada numa espécie de tripé metálico que
desmoronou.
–Além disso, há os rastros de criaturas que se desloca-
ram em suas proximidades. Não temos qualquer dúvida de
que aquilo é o que restou de uma nave espacial.
–Ao lado do tripé –na verdade, são quatro grandes
patas que lembram as de um mântis*– há um brilho que pa-
rece de ouro, como se fosse um revestimento muito machuca-
do que se desprendeu.
–As pegadas são de criaturas anatomicamente muito
diferentes de nós. Não são hexápodes. E, ao que parece –
vejam o detalhe das pegadas, no filme!– seriam criaturas
gigantes, muito maiores do que um de nós.
–Interessante é que essa ocorrência está praticamen-
te sobre o equador lunar...
Subitamente, saíram da zona de sombra e as comuni-
cações com o Controle da Missão foram restabelecidas.
–Kapp Coquerelle, ao sobrevoar a região grave tudo
em alta definição e depois acione outra vez a correção angu-
lar. Vamos continuar a varredura da superfície lunar. Outras
ocorrências dignas de registro podem ainda aparecer. De qual-
quer forma esta área ficará como a opção 1.
..........
–Certo, Controle da Missão. Mesmo porque, na mar-
gem da nossa faixa de visibilidade parece-me que outra ocor-
rência semelhante começa ficar visível; na próxima órbita

*
Inseto conhecido popularmente como louva-a-deus. A palavra
mântis vem do grego e significa adivinho. Classificados na ordem
ortóptera são parentes próximos dos blatídeos – chamados, entre
os humanos, de baratas. N. do A.

54
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

poderemos verificar. Vocês já têm alguma hipótese sobre o


que seria aquilo?
..........
–Oficialmente nada temos a declarar. Estamos em rede
de conferência periplanetária com as instituições de
cosmobiologia. Já lhes transmitimos os filmes e aguardamos
os pronunciamentos. Por enquanto nada divulgaremos ao
público, mas logo todos saberão. Se silenciarmos por muito
tempo haverá desconfiança de que algo estranho ocorreu. Os
olhos de Periplaneta estão muito atentos para tudo o que fa-
zemos e a divulgação dos achados será uma questão de horas.
O Módulo de Pouso prosseguiu orbitando e sobrevoan-
do as crateras e planícies da Lua. Logo na órbita 21 outra
ocorrência ficou bem visível a uma distância de apenas sete
graus da primeira, um pouco mais afastada do equador lu-
nar, mas agora no hemisfério sul. Mais uma vez, uma man-
cha de cores variadas indicava que ali alguma coisa ruíra,
carcomida pelo tempo. Novamente rastros em volta e outras
manchas pequenas, indicando a possível existência de equi-
pamentos menores, igualmente arruinados por bigrosianos
de radiação solar. Outra vez tudo foi registrado e a nova área
indicada como opção 2.
Ocorrências análogas foram também registradas nas
órbitas 34 e 35. Nestas duas, além das pegadas típicas das
duas primeiras, apareceram outros rastros, contínuos e mais
marcados, que se estendiam para distâncias maiores do
quadripé-nave que mostrava ser o centro de cada missão. Além
desses rastros contínuos, que sugeriam claramente ser de
veículos com rodas, foram encontradas manchas-ruínas do
que teriam sido esses veículos, com proeminências nos qua-
tro cantos da mancha retangular que provavelmente seriam
o que restou de suas rodas. Todas essas manchas estavam

55
DOKT BAR ATTÓN

esmaecidas e somente um olhar treinado poderia distingui-


las do seu entorno. Isto decorria da deposição de uma fina
camada de poeira meteórica proveniente das pequenas crate-
ras que testemunhavam sua enorme antiguidade. As confi-
gurações encontradas na órbita 40 não apresentavam mar-
cas dos veículos com rodas e na órbita 46 essas marcas volta-
riam a se repetir.
Completado o levantamento da superfície lunar veri-
ficou-se que as ocorrências típicas eram seis, das quais três
mostravam a presença de veículos com rodas e seus respecti-
vos rastros e as outras não tinham essas marcas, apenas pe-
gadas de grandes criaturas, ao que tudo indicava bipedais.
Um dado adicional é que todas as ocorrências estavam na
face lunar voltada para Periplaneta, o que logo sugeriu a hi-
pótese de que as criaturas, “provavelmente visitantes extra-
solares”, tinham a intenção de observar Periplaneta, “onde
talvez não tenham descido, por alguma razão. Talvez a at-
mosfera fosse venenosa para eles, ou suas naves não tives-
sem condições de vencer a poderosa gravitação de
Periplaneta”.
Estas e muitas outras hipóteses foram levantadas, em
poucas horas, pelos cientistas de todos os continentes, empol-
gados com a descoberta de que realmente havia traços de vida
extraperiplanetária, ainda que esses traços se referissem a
ocorrências muitíssimo antigas, cuja datação ainda teria que
ser determinada pelo exame local das ruínas. A notícia final-
mente circulou pelas redes de televisão e toda a blatideidade,
em pulsos de intensa emoção, começou a acompanhar com
interesse bem maior o desenrolar da missão lunar.
O Módulo de Pouso desceu nas imediações da opção 4,
aquela que parecia apresentar maior riqueza de material a
ser examinado e onde a sempre presente estrutura em

56
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

quadripé estava em melhores condições, com o revestimento


de ouro da caixa octogonal ainda bem visível, apesar de amas-
sado. A opção 3 parecia ser o sítio mais prejudicado: uma cra-
tera próxima indicava a queda de um meteorito de maiores
dimensões que cobrira de detritos grande parte dos remanes-
centes.
Encapsulados em seus casulos individuais, Kapp
Coquerelle e mais três lunautas desceram pelo guincho do
Módulo de Pouso e começaram a se movimentar em direção
às ruínas. Examinaram os rastros, com suas marcas suave-
mente arredondadas pela deposição de poeira, constatando
que certamente seriam de gigantes bipedais muito maiores
do que eles. Pela profundidade das pegadas deixadas no solo,
cada uma delas do tamanho de um blatídeo, perceberam que
as criaturas teriam entre seis e onze dúzias de vezes a massa
corporal de um deles, embora esse cálculo preliminar deves-
se sofrer um desconto pelo peso dos seus equipamentos indi-
viduais. Cada um dos lunautas também estava pesando o
dobro do que pesaria na Lua, se não fosse esse indispensável
aparato de proteção.
Uma das lunautas foi encarregada de soprar o pó das
pegadas com o auxílio de um pequeno jateador acoplado ao
seu casulo para tentar reconstituir a forma original da im-
pressão deixada no solo, sem o arredondamento decorrente
da deposição de poeira. Outro lunauta procurou limpar uma
mancha mais extensa, provável remanescente de algum equi-
pamento que os bigrosianos destruíram. Removida a camada
superficial de poeira, ficou mais nítida a diferenciação dos
diversos materiais de que o equipamento seria feito, mas nada
havia que indicasse qual seria sua forma original e muito
menos para que serviria.

57
DOKT BAR ATTÓN

Kapp Coquerelle aproximou-se da estrutura principal


com um auxiliar. Parecia um grande tanque de forma
octogonal que caíra das patas onde originalmente se apoiava.
Essas patas, cujo material metálico estava tão frágil que não
resistia ao menor toque, conservavam parte da sua forma ori-
ginal e uma delas ainda se erguia, precariamente apoiada
num dos lados do “tanque”. Uma tentativa de tocar uma das
suas extremidades com um apontador telescópico provocara
o esfarinhamento de uma barra que parecia sólida. Tudo es-
tava tão friável que Kapp Coquerelle determinou não se to-
car em nenhuma estrutura remanescente, porque certamen-
te ela se desintegraria. Fariam apenas um levantamento
holofotográfico e recolheriam amostras de partes significati-
vas para análise posterior, em Periplaneta. Um pedaço da
lâmina de ouro que parecia ter revestido toda a nave foi re-
cortado e algumas peças que não se destruíram ao toque fo-
ram recolhidas. Na ruína do que seria o veículo com rodas foi
encontrado um material negro muito sólido do qual também
foi retirada uma amostra. E, finalmente, extensa documen-
tação holográfica dos rastros das criaturas e dos veículos foi
gravada.
Tão logo eram colhidas as imagens registradas eram
transmitidas para o Módulo de Comando e para o Controle da
Missão, e as equipes de estudos deliciavam-se com os elemen-
tos encontrados, embora todos lamentassem o estado de extre-
ma fragilidade das estruturas e dos poucos “equipamentos” que
ainda conservavam algo da sua forma original. Talvez essa for-
ma original pudesse ser parcialmente reconstituída em com-
putadores, a partir dos levantamentos que estavam sendo fei-
tos.


58
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Uma onda de excitação percorria toda Periplaneta à


medida que surgiam novos dados, novas fotos e novos ele-
mentos indicativos de que a tão longamente esperada exis-
tência de seres alienígenas inteligentes fora efetivamente
comprovada. E comprovada não através de telecomunicações
pelas ondas do espectro eletromagnético, como se esperava,
mas através dos testemunhos inequívocos de sua presença
física, ainda que essa presença tivesse ocorrido bigrosas de
grosianos atrás.
“Não estamos sós” era o refrão que mais se repetia atra-
vés dos meios de comunicação nos dias que se seguiram ao
retorno dos lunautas. A idéia de um cosmos pululante de vida
excitava grande parte dos periplanetários, tanto cientistas
qualificados como filósofos e especuladores em geral, muitos
deles jornalistas que facilmente se deixavam empolgar pela
novidade, sugerindo, sem fundamento, possíveis locais de ori-
gem dos visitantes extra-solares. Outro grupo enfatizava a
triste escassez das viagens interestelares, já que os indícios
encontrados pareciam ser todos da mesma época, dolorosa-
mente distante, não se tendo repetido em ocasiões mais re-
centes. Seria Periplaneta tão desinteressante que não mais
teria motivado visitas subsequentes? Teriam os visitantes,
por alguma razão, perecido na Lua? Mas não havia traços de
corpos... Além disso, o péssimo estado das ruínas oferecia pou-
cas possibilidades de se obter informações sobre a origem de
tais criaturas e sobre as razões de sua visita em época tão
remota.
Dúzias de comissões transdisciplinares foram consti-
tuídas nas principais instituições científicas para processar e
interpretar as informações, filmes e amostras trazidas pelos
lunautas –recebidos festivamente três dias depois. O princi-
pal interesse nos resultados da missão lunar deslocou-se para

59
DOKT BAR ATTÓN

os indícios da presença de alienígenas, o que ofuscou quase


inteiramente os seus objetivos iniciais, relativos à geofísica e
geoquímica lunar, à incidência de radiação solar, aos eventu-
ais remanescentes de uma atmosfera e possíveis indicações
sobre a origem da Lua que talvez esclarecessem antigas con-
trovérsias entre teorias conflitantes.
Em apenas quatro dias chegou-se a uma definição bas-
tante aproximada de como poderia ter sido a configuração
física das criaturas que seriam gigantes bipedais, eretos e
com massa corporal em torno de cinco a dez dúzias de vezes
maior que a de um blatídeo médio. Quanto aos restos da nave
e dos possíveis equipamentos por elas deixados quase nada
foi possível estabelecer de concreto. Apenas os materiais em-
pregados em sua confecção puderam ser identificados, embo-
ra reduzidos a simples elementos químicos, uma vez que as
moléculas de substâncias mais complexas tinham sido im-
placavelmente desintegradas pela radiação solar. Ficou evi-
denciado que muitos elementos químicos diferentes entraram
na composição dos equipamentos e da nave, com a predomi-
nância do alumínio, do ferro, do carbono, do cobre e do silício,
além do logo identificado revestimento de ouro. Nenhum
titânio foi encontrado, o que parecia indicativo de uma
tecnologia diferente da atual, já que este era o material pre-
dominante nas estruturas e revestimentos das naves dos
ortópteros.

60
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 4

pós alguns dias de excitação e especulação, em meio

A a uma generalizada perplexidade, surgiu a inevi-


tável conexão entre o que estava agora sendo des-
coberto e as proposições de um obscuro cientista de Cakerlat.
“E se os alienígenas fossem periplanetários?” foi a hipótese
levantada pela rede de televisão NKVD em seu programa
noticioso do entardecer, sugerindo que as idéias de um certo
Dokt Bar Attón, da Akademia de Ciências de Cakerlat &
Bakkerstor, deveriam ser examinadas. “Seriam os visitantes
da Lua os vivíparos de Dokt Bar Attón?” perguntava drama-
ticamente Sváboggar, o famoso apresentador da NKVD, no
final do programa.
Nessa mesma noite, um grupo agitado de repórteres e
fotógrafos voava para assediar Dokt Bar Attón em seu gabi-
nete de trabalho, procurando arrancar-lhe declarações sensa-
cionais, em uma entrevista que seria o início de uma revira-
volta na vida do velho cientista.

P –Dokt Bar Attón, dentre as hipóteses levantadas para
explicar a origem dos remanescentes artificiais encontrados
na Lua, uma delas é a de que essas ruínas teriam sido restos
de antiquíssimas expedições de habitantes de Periplaneta.

61
DOKT BAR ATTÓN

Sabe-se que você é o autor de uma teoria de que teria havido


neste planeta uma civilização tecnológica, bigrosas de
grosianos atrás. Você vê conexão entre os remanescentes lu-
nares e aquela civilização?
BAR ATTÓN –Como hipótese, não há porque descar-
tar tal possibilidade.
P –Pelo que se sabe, a maior parte da comunidade ci-
entífica de Periplaneta não acredita que essa civilização te-
nha existido. Por que essa descrença? Você tem provas da exis-
tência dessa civilização ancestral?
BAR ATTÓN –Não existe ainda uma prova conclusi-
va, irrefutável, de que a civilização vivípara tenha existido;
contudo os indícios são abundantes.
P –Você, pessoalmente, acredita que os remanescentes
encontrados na Lua teriam sido de origem periplanetária, ou
testemunhos de visitas de criaturas extra-solares?
BAR ATTÓN –Ambas as hipóteses devem ser estuda-
das. Ambas são em princípio possíveis, mas eu estou traba-
lhando com a hipótese da civilização vivípara, que teria flo-
rescido aqui em Periplaneta há cerca de duas dúzias de
trigrosianos. Quando um cientista desenvolve uma teoria e
busca reunir elementos para testá-la, ele tem que acreditar
nela. Pelo menos até que contraprovas irrefutáveis venham a
negá-la.
P –Então, na sua opinião, as ruínas lunares são de ori-
gem periplanetária, produzidas pelos vivíparos, como você os
chama, e que teriam habitado este planeta há trigrosas de
grosianos?
BAR ATTÓN –Como já disse, tanto a hipótese da ori-
gem local como a da origem alienígena devem ser examina-
das cuidadosamente. Mas agora existe um novo estímulo para
que se investigue melhor a existência da civilização vivípara.

62
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Mesmo porque a busca de sinais e mensagens de civilizações


alienígenas vem se mostrando frustrante, desde que foi inici-
ada, muitas dúzias de anos atrás.
P –Na sua opinião, qual o indício, ou prova, de que as
ruínas lunares poderiam ser de origem local, confirmando
assim a existência da civilização vivípara?
BAR ATTÓN –Eu gostaria muito de ter uma resposta
para esta pergunta, mas não tenho. Tal prova pode ocorrer
por algum dado inesperado contido nas próprias ruínas luna-
res, mas não posso imaginar o que poderia ser. A minha su-
gestão é que sejam intensificados os estudos transdisciplinares
sobre a civilização vivípara que até hoje têm sido desenvolvi-
dos apenas pelos esforços de uma pequena equipe.
P –Essa pequena equipe é liderada por você, pelo que
sabemos. A sua sugestão é que ela seja ampliada para uma
grande equipe?
BAR ATTÓN –Certamente. Precisamos de pessoal qua-
lificado e ampla disponibilidade de recursos para empreen-
der novas pesquisas de campo, especialmente arqueológicas.
P –Dokt Bar Attón, você poderia nos dar alguma indi-
cação sobre a natureza dessas pesquisas?
BAR ATTÓN –Temos que prosseguir com as perfura-
ções nos gelos polares, onde suspeito que muitos outros cor-
pos de bípedes HSS podem ser encontrados, assim como re-
manescentes de equipamentos por eles utilizados que dariam
importantes indicações do seu nível tecnológico. Precisamos
também escavar o subsolo de alguns pontos que suspeito se-
rem os sítios de cidades vivíparas. Precisamos fazer estudos
comparativos entre diferentes organismos fósseis do estrato
associado à Transição Ortóptera, procurando identificar as
causas da extinção maciça então ocorrida.

63
DOKT BAR ATTÓN

P –Você tem tido dificuldades para desenvolver uma


credibilidade em relação às suas teorias. A que atribuir isto?
BAR ATTÓN –Até o momento há uma descrença gene-
ralizada na possibilidade de existência dessa civilização que
precisamos superar. Para isso, vai ser preciso romper com a
inércia que caracteriza o atual paradigma científico, ainda
compartimentalizado em especializações que não permitem
ver além daquilo em que cada um se especializou. Sem uma
visão ampla dos elementos informativos disponíveis, não será
possível formar um quadro geral que explique a significação
de cada indício. Isoladamente um indício é apenas um indí-
cio, mas se cada indício for associado a outros que o
complementem, provenientes de outros campos do conheci-
mento, um quadro surpreendente pode emergir.
P –A descoberta das ruínas lunares pode ser o fator
novo que levará ao reconhecimento de que essa civilização
pode ter existido?
BAR ATTÓN –Certamente. E, ao meu ver, a revelação
de que a civilização vivípara efetivamente existiu deverá re-
presentar uma profunda reformulação na imagem que os
ortópteros fazem de si mesmos. Além de nos situar numa es-
cala cósmica em que o tempo se amplia de modo extraordiná-
rio, ficará também a evidencia de que somos apenas um expe-
rimento da vida, mais uma tentativa de organização do ser,
que poderá dar certo ou não.
P –Isto nos dará uma nova perspectiva sobre o que re-
almente somos?
BAR ATTÓN –Assim como os vivíparos foram extin-
tos, possivelmente pelo mau gerenciamento do seu ambiente,
também nós temos que estar atentos para nossa forma de ser,
para nossos pressupostos ao definir o que somos, diante da
imensidade e da eternidade. A descoberta de uma civilização

64
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

ancestral deverá representar um verdadeiro ponto de inflexão


nos rumos do conhecimento em Periplaneta. A atividade cien-
tífica precisa deixar de ser subdividida em compartimentos
estanques para se tornar ampla, geral e irrestrita, incorpo-
rando a visão de outras formas do conhecimento capazes de
mudar substancialmente nossa relação com o tempo e com o
cosmos.
P –Essa mudança de perspectiva também não ocorre-
ria, se ficasse provada a existência de civilizações alienígenas?
BAR ATTÓN –A descoberta de alienígenas seria de-
masiado perturbadora para nós, por isso acredito que eles es-
tejam muito longe, habitando segmentos muito distintos da
vastidão cósmica. A descoberta insofismável de uma civiliza-
ção alienígena nos traria muito mais dúvidas e insegurança
do que a descoberta de uma civilização ancestral, conectada a
nós pelo mesmo fluxo evolucionário.
P –Você pode esclarecer isto um pouco mais, Dokt Bar
Attón?
BAR ATTÓN –Há muitos anos que procuramos sem
sucesso sinais da existência de outras culturas no universo.
Essa busca, ao meu ver, pode ser entendida como uma tenta-
tiva de dividir com outros a nossa responsabilidade pela ad-
ministração do cosmos, pela correta condução da nossa exis-
tência, tal como a recebemos da Ordem Invisível, de onde nos
originamos. Tal descoberta seria uma interferência indesejá-
vel no fluir natural da vida em Periplaneta. Por outro lado, a
descoberta de ancestrais em nosso próprio caminho
evolucionário nos deixa mais centrados, mais ajustados a uma
realidade que nos pertence e nos cabe desfrutar e zelar com
ciência e arte.

65
DOKT BAR ATTÓN

66
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 5

aquela sexta-feira a agenda do Presidente Gray

N Powers estava cheia, mas ele se sentia particular-


mente bem disposto depois do intenso preparo físico
de uma hora com seus personal trainers na sala de aeróbica,
agora transferida para junto do Salão Oval. Tom e Dick eram
realmente fantásticos no domínio dos toques e da massagem
corporal, tendo desenvolvido técnicas pessoais para obter de-
terminados efeitos que deixaram o Presidente suavemente re-
laxado e –por que não dizer?– feliz, quando, mais tarde, se diri-
giu para sua mesa de trabalho, após o rápido breakfast de ar-
roz integral com chá de boldo.
Neste fim de semana, assim como nos próximos, não
abriria mão de levar os dois massagistas para Martha’s
Vineyard, pensou. Precisava também providenciar acomoda-
ções para eles a bordo do Air Force One, o suborbital da Presi-
dência, onde poderia desfrutar aquelas deliciosas massagens
durante os quarenta minutos em gravidade zero, entre Wa-
shington e Beijing, ou mesmo durante os quinze minutos en-
tre Washington e Londres. Teria que ser um compartimento
totalmente isolado do resto da aeronave, submetido a varre-
dura eletrônica antes de cada viagem, tal como se fazia nas
salas de aeróbica da Casa Lilás e da residência de verão, por
medida de segurança.

67
DOKT BAR ATTÓN

Ainda com o pensamento flutuando em doces devanei-


os, dos quais participavam Tom e Dick, o Presidente assumiu
seu posto às nove horas em ponto, no Salão Oval. A parede
curva diante da mesa presidencial estava parcialmente co-
berta por uma dezena de grandes monitores de vídeo que, si-
multaneamente, informavam tudo que ele precisava saber
para bem desempenhar seu cargo de autoridade máxima do
planeta, e para fundamentar as decisões que era chamado a
tomar quando os dispositivos automáticos não se mostrassem
adequados.
Um dos monitores apresentava os fluxos de produção
agro-industrial entre os diversos países do mundo, assim como
os indicadores da evolução da oferta de bens e serviços, com
projeções atualizadas continuamente para horizontes de um,
três e dez anos, mostrando os prováveis pontos de estrangu-
lamento futuro em decorrência de alguma queda setorial de
produção que pudesse afetar outras áreas. Outro monitor
mostrava em tempo real o deslocamento dos capitais migra-
tórios em quadros e gráficos que registravam instantanea-
mente o movimento de dezenas de trilhões de dólares pelas
bolsas do mundo, sinalizando os momentos em que os disposi-
tivos automáticos de segurança deveriam ser acionados, pre-
venindo assim a ocorrência de assaltos especulativos e crises
financeiras internacionais, que tantos transtornos causaram
no passado. Ao mesmo tempo em que o movimento financeiro
era detectado, a taxação sobre essas operações era automati-
camente debitada na conta de cada operador.
Um terceiro monitor informava os níveis de tensão
entre governos e populações nos diversos países, indicando
não apenas os índices de popularidade dos seus governantes
como também os focos potenciais de crise e as áreas onde fu-
turamente seria conveniente estimular e gerenciar possíveis

68
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

guerras. Evidentemente, esse tipo de informação sobre a po-


pularidade dos líderes era bem mais detalhada na União Es-
tados Unidos-Canadá, onde o nível de aceitação popular do
Presidente Powers e da Vice-presidente e primeira dama Lizzie
era aferida instantaneamente, em cada um dos 70 estados. Um
monitor militar mostrava imagens e gráficos indicativos da
evolução das diversas guerras locais, religiosas e étnicas em
andamento no mundo, dedicando mais tempo às que se mos-
travam mais interessantes e rentáveis em termos de dividen-
dos políticos e consumo de armamentos e material bélico.
O monitor cultural era dedicado exclusivamente a exi-
bir, em rápida sucessão, amostras selecionadas da tipologia
de entretenimentos televisivos em todo o mundo com seus
respectivos índices de audiência, deixando o Presidente per-
manentemente informado sobre o que os centros de comuni-
cação estavam produzindo, antecipando os modismos que se
delineavam em todos os quadrantes do planeta. Isso permitia
inibir ou estimular tendências culturais e oferecer ao público
aquilo que fosse mais indicado para o preenchimento de ca-
rências específicas uma vez que a Presidência, em última ins-
tância, era a responsável pelo equilíbrio psicológico da popu-
lação. No caso de se detectarem tendências indesejáveis em
outros países, os canais diplomáticos seriam rapidamente aci-
onados para sua devida correção.
O Presidente refletia com satisfação sobre as conquis-
tas sociais e econômicas do seu governo. Reclinado em sua
poltrona, passava os olhos sobre o panorama mundial com as
pernas sobre sua mesa de trabalho –era um antigo hábito que
ele se permitia, enquanto não chegavam outras pessoas– en-
tre as prazerosas baforadas matinais de Acapulco Gold. Ine-
gavelmente o seu sucesso político era devido em grande parte
ao talento de Lizzie que soubera assumir a sua parcela de

69
DOKT BAR ATTÓN

responsabilidade desde a memorável campanha que o condu-


ziu ao seu primeiro mandato. Foi Lizzie quem o estimulou a
assumir a sua personalidade gay sem receio de que isso vies-
se a pesar negativamente na balança eleitoral. Isto, oito ou
nove anos atrás, quando o homossexualismo era ainda vítima
de muitos preconceitos, hoje praticamente inexistentes gra-
ças à política de indução de tendências culturais.
Na economia, a automatização dos controles de produ-
ção agro-industrial e da distribuição de bens tivera sua
contrapartida na revolucionária política tributária. O novo
imposto instantâneo sobre a movimentação de capitais
especulativos permitia manter com serviços de alto nível os
inúmeros resorts para retirantes, onde residiam idosos, de-
sempregados, aposentados e retirantes voluntários que não
mais se interessassem em participar da luta pelo enriqueci-
mento. Esses belos resorts estavam sendo implantados não
apenas na América, mas em praticamente todos os continen-
tes, com a exceção das áreas refratárias ao progresso e à
globalização, onde se desenvolviam pequenas ações diplomá-
tico-militares para ajustamento cultural. No campo das dro-
gas, a liberação da marijuana foi saudada como uma das mai-
ores vitórias do seu primeiro mandato. Hoje, essa política se
desdobrava na distribuição controlada das cinco drogas bási-
cas e na manutenção de centros de pesquisa em drogas sinté-
ticas e estados especiais de consciência induzidos
fotoeletronicamente.
Pouco antes de autorizar a entrada do seu Chefe do
Gabinete Civil, o Presidente assistiu no monitor cultural com
um sorriso de deleite a um trecho do programa infantil VIVER
É FODER, em que uma jovem loura ministrava aulas práticas
de sexo anal para adolescentes, mostrando de forma poética e
bem humorada as melhores técnicas para o relaxamento dos

70
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

esfíncteres, o que seria considerado excessivamente ousado


na TV aberta, apenas alguns anos atrás. E lembrou-se de que
a redução do limite de maioridade para 12 anos tinha sido
outra de suas vitórias no campo sociocultural, uma idéia que
Lizzie estudara e desenvolvera na Associação Internacional
das Executivas Lésbicas. Há cinco anos, ele submetera ao
Congresso esse projeto de Lei e o aprovara sem dificuldades,
apesar do relativo custo político que tivera de assumir, facili-
tando aos congressistas a abertura de novos cassinos e par-
ques de recreação sexual em Nevada, na Escócia, na Louisiana,
em Cuba e na Colúmbia Britânica. Mas, como tudo isso con-
tribuiria para aumentar a arrecadação, em rigor não se pode-
ria considerar tais concessões como um custo político.


O primeiro grupo que procurava o Presidente, nessa
manhã, era formado pelo presidente da RATTHER ON CORP. e
seus assessores que trouxeram um estudo detalhado e con-
vincente sobre a viabilidade de uma nova guerra no Cáucaso,
com possíveis ramificações para a Ásia Menor e os Balcãs,
regiões tradicionalmente favoráveis a esse tipo de empreen-
dimento. O Presidente viu que os cálculos e projeções da
RATTHER ON eram merecedores de uma consideração mais cui-
dadosa e ficou de encaminhar o assunto com o Secretário de
Desenvolvimento de Negócios, tão logo examinasse mais de-
tidamente o OPR trazido pelo grupo.
Pouco depois, conforme estava previsto na agenda,
entrou o grupo de cientistas da EPA –Agência de Proteção
Ambiental, acompanhados do Secretário do Meio Ambiente,
Dr. Philip Morris. Era um pessoal antipático que, como
cassandras, somente viam o lado negativo das transforma-
ções ecológicas que o planeta vinha atravessando desde o fi-

71
DOKT BAR ATTÓN

nal do século 20. O Presidente encarava com paciência os es-


tudos e projeções que eles traziam em seus disquinhos e se
esforçava para ouvir os mesmos arrazoados de sempre, que
poucas novidades traziam sobre a crescente incidência dos
raios UV-B na superfície terrestre. Falavam também no aque-
cimento global, que inundaria os portos de todo mundo e tra-
ria transtornos terríveis, pela subida do nível dos oceanos,
em consequência do derretimento dos gelos polares. Ora, isso
vinha sendo anunciado havia décadas e nunca se concretiza-
ra; no entanto, as mesmas cassandras continuavam mostran-
do que o efeito estufa era inevitável e faziam negras previ-
sões. Paciência.
–Senhor Presidente, permita-me apresentar-lhe o Prof.
Marlboro, Diretor da Comissão de Monitoramento do Ozônio
Estratosférico. Estes são o Prof. Chester Field, Dr. Benson
Hedges e o Dr. John Player, integrantes da Comissão.
Após os cumprimentos de praxe, o Secretário Morris
continuou:
–Em face da gravidade da situação, constatada após
uma rigorosa análise de todos os fatores que podem influir no
processo, trazemos pessoalmente à Presidência a nossa preo-
cupação, com os dados mais recentes sobre o estado da atmos-
fera intermediária e superior. O que mais nos concerne, no
momento, é o incremento no ritmo de desaparecimento do ozô-
nio estratosférico que, depois de um período em que parecia
estabilizar-se, acelerou o seu processo de depleção e agora, ao
que tudo indica, ultrapassou um limiar em que se torna
irreversível.
–Você quer dizer que já não há perspectivas de sustar
ou reverter o processo?
–Isso mesmo, Excelência –confirmou o Prof. Marlboro–
certamente é do seu conhecimento que as indicações do monitor

72
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

ambiental que diariamente lhe informa sobre a evolução da


depleção do ozônio não corresponde a uma verdade factual
rigorosa, porque os efeitos registrados são “pasteurizados” para
divulgação, por determinação da própria Presidência.
–Cuidado com as expressões que utiliza, professor, e
com a inadequação das suas colocações. Vocês, cientistas da
ala mais alarmista, parecem desconhecer o leque de atribui-
ções da Presidência, que é também responsável pela
tranquilidade da população. Não posso autorizar a divulga-
ção oficial de dados e previsões que poderiam desestabilizar a
psique coletiva, mesmo porque muitas dessas previsões aca-
bam por não se concretizar. Mas sejamos objetivos e digam o
que pretendem da Presidência.
–Sr. Presidente –explicou o Prof. Field– se um míssil é
disparado em direção a um alvo e não há qualquer meio de
defesa contra ele, parece-nos evidente que esse alvo deve ser
considerado como destruído, antes mesmo que o míssil che-
gue lá. É matemático! Todos os cálculos da Agência mostram
que a camada de ozônio estará totalmente destruída em vinte
anos, no máximo.
–Mas a camada de ozônio já vem sendo reduzida há
décadas e a economia mundial vem sendo até estimulada em
consequência desse fato. Basta exemplificar com os crescen-
tes investimentos em agricultura hidropônica e o desenvolvi-
mento de cepas mais resistentes à radiação em muitas cultu-
ras de cereais básicos. Ademais, vinte anos é muito tempo,
em termos de avanços tecnológicos. Se o processo continuar,
evidentemente haverá outros cientistas –mais pragmáticos e
menos alarmistas– que desenvolverão os sistemas adequados
para fazer face às novas condições ambientais.
–Até agora isso tem sido possível, Presidente, porque
o ozônio remanescente exerce ainda seu papel, mesmo de for-

73
DOKT BAR ATTÓN

ma atenuada em até 50 por cento da eficácia original. Mas


quando o problema ficar mais agudo e todas as latitudes esti-
verem sendo atingidas por doses letais de radiação ultravioleta
já não haverá recursos para proteger todas as culturas, todo o
gado e as populações de todo o mundo. Os cultivos que ainda
podem ser feitos ao ar livre não mais resistirão. E não vemos
onde encontrar recursos técnicos e financeiros para cobrir
milhões de hectares com toldos de kervran.
–Há mais de trinta anos, a mesma ala de cientistas
com síndrome de apocalipse anunciava que o aquecimento
global iria derreter os gelos polares e a água daí resultante
faria o nível do mar subir vários metros e inundar portos e
cidades costeiras, invadir a Holanda e provocar inúmeras ca-
tástrofes. Isso nunca se concretizou e o nível do mar vem su-
bindo, pelo que sei, apenas dois milímetros por ano desde a
virada do século. As catástrofes anunciadas nunca se efetiva-
ram e as previsões alarmistas caíram em descrédito.
–Isto que você está dizendo é verdade, Presidente. Apa-
receram, depois, elementos novos que inicialmente não foram
computados e a elevação do nível do mar está sendo retarda-
da por várias décadas. Aparentemente, as geleiras da
Antártida cessaram de correr para o mar e a queda de neve
nas calotas polares aumentou muito, em consequência do pró-
prio aquecimento global. Mas o clima foi desestabilizado e, a
médio prazo, o nível dos oceanos fatalmente subirá.
–Se fatores não considerados passaram a ocorrer no
caso do nível do mar, fazendo com que suas previsões falhas-
sem, por que também no caso do ozônio não poderá ocorrer
algo equivalente, ou seja, fatores novos, ainda não considera-
dos, que poderiam estancar ou mesmo reverter o processo?
–Presidente, são duas situações muito diferentes e não
diretamente relacionadas. A radiação ultravioleta B, letal para

74
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

quase todos os tipos de organismos vivos, vem crescendo con-


tinuamente há mais de cinquenta anos e a depleção do ozônio
estratosférico é, indiscutivelmente, a causa desse aumento de
radiação incidente sobre a superfície terrestre. O sul do Chi-
le, parte da Patagônia, a Tasmânia e o sul da Austrália, a
Lapônia e grande parte da Finlândia já são praticamente ina-
bitáveis, em processo acelerado de desertificação. E a ocor-
rência de catarata e cegueira tem crescido acentuadamente
até nas regiões tropicais. A cultura da soja ao ar livre foi dizi-
mada, no Brasil, e o gado do Canadá e da Argentina somente
pode sobreviver confinado em ambientes cobertos. Os vaquei-
ros e trabalhadores do campo hoje se vestem com um rigor
quase que de astronautas e, mesmo assim, a mortalidade por
câncer de pele tem crescido continuamente entre eles, tanto
nas latitudes mais frias como em regiões tropicais.
–Seria ingenuidade sua, Dr. Hedges, pensar que a Pre-
sidência ignora esses fatos. Você se vale de dados conhecidos
pelo governo e tomados em consideração em nossas decisões
políticas e administrativas. Mas o nosso enfoque desses fenô-
menos é diferente do da Agência. Onde vocês –cientistas do
apocalipse– vêem problemas e catástrofes, nós, do governo,
vemos realisticamente que há uma transformação ambiental
de grande escala em andamento no planeta, mas vemos tam-
bém que isso é mais um fator de estímulo a inúmeros setores
da economia do que motivo para alarme. Visite Alberta,
Saskatchewan, Manitoba, Montana, as Dakotas, a Rússia ou
o sul do Brasil. Você verá extensas regiões agrícolas, onde as
culturas são protegidas por estruturas pênseis em cabos de
aço, revestidas com toldos de kervran translúcido ou cobertas
por enormes abóbadas geodésicas em treliça de alumínio e
aço. Isto significa que as técnicas agrícolas vêm-se adaptando
às novas condições ambientais e as grandes corporações con-

75
DOKT BAR ATTÓN

tinuam produzindo sem maiores problemas. Um novo merca-


do surgiu para essas estruturas e para os plásticos filtrantes
de ultravioleta, a película artificial que protege as culturas
da radiação: kervran, myrdal e tantos outros materiais no-
vos. Quando a camada de ozônio era mais espessa e filtrava o
ultravioleta, ninguém ganhava dinheiro com isso e não havia
geração de empregos daí decorrente. Era um serviço gratuito;
dir-se-ia improdutivo. Hoje, abriu-se um enorme mercado para
o alumínio, para as ligas leves de aço e para os diversos tipos
de plástico destinados a filtrar o ultravioleta. As empresas
construtoras prosperam construindo toldos, abóbadas e cúpu-
las em quase todo o mundo para proteger culturas e instala-
ções rurais, além de ruas, avenidas e bairros inteiros de mui-
tas cidades. Vejam que beleza ficou Nova York, com suas três
imensas cúpulas geodésicas com vários quilômetros de diâ-
metro cada uma. Observem como a tecnologia do cultivo de
legumes hidropônicos desenvolveu-se, nas últimas décadas.
Isto, sem falar na indústria do vestuário, dos óculos e capace-
tes de proteção, dos vidros e plásticos filtrantes, novos mate-
riais para arquitetura, para a blindagem de veículos etc. Nos-
sos pontos de vista são diferentes, senhores: onde vocês vêem
catástrofes, o governo vê novas oportunidades de investimen-
to, novas tecnologias sendo desenvolvidas e um sadio aqueci-
mento da economia global.
–Entretanto, Presidente, nas vastas camadas da po-
pulação mundial que não têm acesso a essas defesas
tecnológicas e à sofisticada e cara produção agrícola
hidropônica, ou produzida sob toldos e abóbadas, o que se vê é
a generalização da fome endêmica e das doenças da pele, da
cegueira em grande escala, resultando em índices de
morbidade e mortalidade sem precedentes.

76
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

–Meus amigos, eu não vou prosseguir com um diálogo


em que nos valemos de línguas diferentes. Pelo que percebo
existe sob o discurso de vocês um posicionamento filosófico
decididamente ultrapassado que contempla a possibilidade
de que sejam resolvidos os problemas de toda a população. É
esta a ilusão do que, no século passado, se chamou de pensa-
mento de esquerda. Hoje sabemos que essa utopia é inviável
e que pobres e desvalidos sempre haverá no mundo, por mai-
ores que sejam os esforços governamentais para suprir as de-
ficiências dessas faixas populacionais. São excedentes, resul-
tantes de um prolongado laissez faire demográfico que quase
leva a população mundial a explodir em muitos bilhões de
indivíduos, além dos níveis de conforto e bem estar que o pla-
neta e a economia mundial podem sustentar. O governo já
não tem a ilusão de que todas essas faixas de renda possam
ser atendidas em nível satisfatório de conforto e bem-estar.
Temos que admitir que é inevitável o sofrimento generalizado
desses excedentes. Todavia, nem por isso os deixamos despro-
vidos de assistência, enquanto o número absoluto de indiví-
duos não se reduz a níveis toleráveis. A indústria farmacêuti-
ca continua a desenvolver medicamentos quase milagrosos
para aliviar as dores dessa gente e as unidades hospitalares
móveis, em aviões, navios e submarinos, vêm fazendo um tra-
balho admirável em muitas regiões carentes do planeta. Não
sei até que ponto vocês estão informados.
–Presidente, a mortalidade vem crescendo em todo o
mundo de forma acelerada em consequencia da maior inci-
dência do ultravioleta-B, seja diretamente nos seres huma-
nos, seja nos animais de criação, seja nas culturas não prote-
gidas por abóbadas e toldos. Ou no mar, onde a cadeia ali-
mentar está seriamente comprometida, em vias de colapso

77
DOKT BAR ATTÓN

total. E muitas regiões de latitudes elevadas vêm-se


desertificando rapidamente.
–Sobre a questão da mortalidade, é necessário que vocês
tenham consciência da política atual nesse setor. As popula-
ções precisam atingir níveis ótimos para que todos tenham
condições de viver harmoniosamente, em regime de conforto
e relativa abundância. Até fins do século vinte, a política
demográfica adotada para que esses valores ótimos fossem
estabilizados agia exclusivamente sobre as taxas de natalida-
de, fazendo-as ceder e reduzir-se. Hoje, sabemos que isto não
é suficiente e que é preciso manter também taxas de mortali-
dade adequadas, principalmente nas faixas econômicas me-
nos viáveis. Isto sempre aconteceu de modo espontâneo, na-
tural. Historicamente, a mortalidade sempre foi o principal
fator de equilíbrio populacional nas populações de baixa ren-
da, e continua sendo nas regiões mais refratárias à
globalização e ao desenvolvimento. Mas, depois do que suce-
deu com a aids, na África, verificou-se a importância de acele-
rar esse processo natural e o que ocorre hoje com a morbidade
determinada pelo ultravioleta deve ser visto como mais um
fator de ajustamento demográfico e equilíbrio ecológico que
cumpre administrar, e não tentar combater. Além de inviável,
isto seria também uma política errônea e contraproducente.
–Presidente, conforme é praxe nas reuniões com você,
trouxemos o nosso OPR –relatório de uma página– que sinte-
tiza o problema exposto e aquilo que queremos comunicar.
Pedimos que ao examiná-lo seja observada a necessidade de
omitir muitos aspectos importantes do processo físico-
ambiental em curso, cuja descrição exata nunca poderia ser
comprimida numa só página. Mas o detalhamento de cada
tópico pode ser obtido pela ativação dos links em qualquer
computador; o documento, evidentemente, está ativado.

78
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

–Não se preocupem com isto. Quando estabeleci a exi-


gência do OPR limitado a 16 Kbytes, anos atrás, foi precisa-
mente para estimular a capacidade de síntese de grupos e
comissões que procuravam a Presidência e as agências do go-
verno com temas complexos que exigiam grandes esforços para
serem entendidos, se não houvesse um resumo adequado. A
intenção é, realmente, suprimir detalhes para melhor com-
preensão do todo. Examinarei cuidadosamente o documento
neste fim de semana e logo me pronunciarei ao Dr. Morris,
que em seguida deverá procurá-los. Muito obrigado a todos
vocês.

79
DOKT BAR ATTÓN

80
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 6

N
a manhã seguinte, chegando em Martha’s Vineyard
após a rápida viagem pelo shuttle presidencial, o
Presidente não pôde deixar de apreciar a plácida
beleza do enorme toldo de kervran translúcido que protegia
toda a área. Com suas curvas suaves e superfícies reversas de
toldo pênsil sem costuras, apoiado em mastros de diferentes
alturas, o conjunto de tendas gigantes protegia a casa, os
amplos jardins, os gramados e as grandes árvores, muitas
delas de espécies extintas, a não ser nas reservas biológicas.
A presença ameaçadora do Sol de primavera ficava ameniza-
da e muito mais bonita, porque passível de ser contemplada
através da película translúcida de plástico, que se estendia
em alturas de até oitenta, cem metros, nos vértices mais altos
dos postes estruturais. O tom, escolhido pessoalmente pelo
Presidente, variava entre o rosicler, muito delicado, e um lu-
minoso lilás, conforme o ângulo de observação. Eram estas as
cores preferidas do Presidente que as adotara para a pintura
da antiga Casa Branca, depois de um prolongado debate com
os membros mais conservadores do Patrimônio Histórico. Pou-
co depois que as principais superfícies da residência oficial
foram pintadas de lilás metálico e os detalhes arquitetônicos

81
DOKT BAR ATTÓN

em rosicler, todos se convenceram de que assim ficara muito


melhor do que o inexpressivo branco original.
Neste fim de semana o Presidente deveria receber em
visita de cortesia o Embaixador Souza Cruz, do Brasil, que
viria passar o sábado com ele e Lizzie, acompanhado do Em-
baixador Gomes de Sá, de Portugal. Apesar de ser um encon-
tro informal havia uma pauta de temas a conversar, princi-
palmente sobre a recente abertura do território brasileiro aos
países escandinavos, ameaçados pelas alterações ambientais.
O Brasil é um tradicional aliado da União Estados Unidos-
Canadá e a política internacional do Arcebispo-Presidente
Macedo Neto procurava refletir os interesses comuns do he-
misfério, em acordo com as diretrizes emanadas de Washing-
ton. O Brasil é hoje um dos países mais avançados em termos
de organização política por ter desenvolvido uma inovadora
estrutura social neoteocrática com o poder central exercido
pelo Arcebispo que também é o líder da Igreja Vegetariana do
Reino do Senhor, religião de mais de oitenta por cento da po-
pulação. Os índices de aceitação popular do Presidente Macedo
Neto e do seu Corpo de Conselheiros era dos mais elevados
em todo o mundo, conforme os registros que apareciam nos
monitores da Casa Lilás.
Enquanto esperava por Lizzie que praticava esqui aqu-
ático –como sempre, nua e com suas amigas– num trecho co-
berto de Nantucket Sound, o Presidente desfrutava de mais
uma sessão de massagens com Tom e Dick que vieram com
ele de Washington. A sala de massagens ficava no subsolo da
residência de verão, mas os monitores do circuito interno de
TV poderiam mostrar todas as dependências da vasta mansão

caso o Presidente quisesse saber o que ali se passava. Entre-

82
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

tanto isto dificilmente ocorreria, uma vez que as massagens


de Tom e Dick eram muito absorventes, exigindo grande con-
centração por parte do Presidente. Daí as instruções de que
nunca se deveria interromper uma sessão, a não ser em caso
de segurança nacional.
Antes de descer o Presidente já estivera com o jovem
Gray Powers II, de nove anos, que com seus amigos e amigas
assistia no home theater à semifinal do Gran-Prix de Fórmu-
la B. Era uma corrida de ônibus em pistas difíceis e monta-
nhosas, sempre ladeira abaixo, que tinha a particularidade
de levar no interior dos ônibus os participantes que iriam des-
frutar de emoções mortais, tendo disputado a peso de ouro os
ingressos para a competição. Raramente uma corrida dessas
chegava ao final sem que diversos ônibus se lançassem em
algum precipício, levando seus ocupantes a um fim emocio-
nante. Gray Junior informou ao Presidente que a corrida se-
ria no estado brasileiro da Bolívia, entre Potosí e Sucre, e que
ele e os amigos torciam pela equipe local, porque estavam sen-
do visitados pelo seu Embaixador.


Às onze horas chegou a limusine com os dois diploma-
tas. Pouco antes, a primeira dama e seu alegre grupo de ami-
gas voltaram da praia deixando o Presidente um pouco irrita-
do com o pedido de Lizzie para que suas amigas tivessem uma
sessão de massagem com Tom e Dick, cujos dotes eram co-
mentados como sendo de alto nível de qualificação. O Presi-
dente articulou uma desculpa qualquer e não permitiu que
seus personal trainers prestassem serviços a essas mulheres
que ele nem sequer conhecia bem. Lizzie não pareceu impor-

83
DOKT BAR ATTÓN

tar-se com a negativa e desapareceu jovialmente com as mo-


ças na ala íntima da mansão.
Com seus convidados já instalados ao lado da piscina,
o Presidente informou que Lizzie estava se arrumando e logo
viria juntar-se a eles.
–Magnífico o desenho destes toldos de proteção, Presi-
dente. Trata-se de um projeto muito bem concebido –comen-
tou o Embaixador Souza Cruz.
–Realmente, Embaixador, eu também aprecio muito a
suavidade destas curvas amplas e semitransparentes. Os ar-
quitetos chamam essas superfícies de parabolóides
hiperbólicos. Elas tornaram este espaço muito mais repousante
do que antigamente quando tudo isto era a céu aberto. Sinto-
me muito bem aqui e Lizzie também adora este lugar. Junior
se pudesse nunca sairia daqui.
–Em Portugal concluímos recentemente as cúpulas
geodésicas da área central de Lisboa, em dimensões razoavel-
mente grandes, e algumas outras menores para proteger
edificações individuais. Mas em nosso país a situação não che-
ga a ser urgente, porque a incidência do ultravioleta ainda
não é grande naquela região. Entretanto, estou-me cá a com-
provar que as estruturas pênseis são visualmente muito mais
atraentes do que as abóbadas e cúpulas geodésicas.
–É curioso observar que até os primeiros anos deste
século ainda se pensava que os grandes arquitetos do século
vinte teriam sido um europeu e outro americano: o francês Le
Corbusier e o americano Frank Lloyd Wright. Mas o que se
verifica, atualmente, é que a arquitetura predominante em
nossos dias foi efetivamente concebida e proposta por dois
arquitetos do século passado, realmente um europeu e o outro

84
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

americano; contudo não foi nenhum daqueles dois, na época


tão prestigiados. As cúpulas geodésicas –construídas inicial-
mente na Alemanha em pequena escala– foram extraordina-
riamente desenvolvidas pelo americano Buckminster Fuller,
hoje reconhecido como um dos grandes criadores do século
passado, um cérebro privilegiado. E as estruturas pênseis
tensionadas com cabos, formando superfícies reversas de du-
pla curvatura, foram desenvolvidas pelo europeu Frei Otto, o
outro gênio que concebeu as formas arquitetônicas predomi-
nantes no século 21, além das estruturas geodésicas de Fuller.
–Interessante esta observação Souza Cruz. Nem
Corbusier nem Wright deixaram traços marcantes de suas
propostas na arquitetura atual. E Frei Otto e Buckminster
Fuller –que não tiveram tanto destaque nem grandes honra-
rias em seu tempo– são os principais criadores das formas
predominantes no mundo em que hoje vivemos.
–São estas as estruturas mais adequadas para cobrir
grandes espaços, diante da crescente necessidade de proteção
contra as radiações agressivas do Sol que agora estão a atin-
gir a superfície, perturbando o equilíbrio ambiental e a amea-
çar a própria sobrevivência da vida na Terra. Não é fato, Pre-
sidente? –observou o Embaixador Gomes de Sá.
–Ao seu ver, Presidente Powers, como deverá evoluir
este quadro? Há dados novos sobre o tema? –Souza Cruz pro-
curava obter informações quentes sobre o que lhe parecia ser
um importante problema do mundo contemporâneo.
–A União Estados Unidos-Canadá vem acompanhan-
do a evolução do processo e as medidas de correção e ajusta-
mento aos problemas que surgem vêm sendo implementadas.
Apesar de se observarem alterações marcantes no meio am-
biente, como vocês não ignoram, a situação está sob controle.

85
DOKT BAR ATTÓN

–Entretanto, existem organizações não governamen-


tais que alardeiam catástrofes e fazem protestos em muitas
cidades da Europa e da Ásia...
–Hi, hi, hi... –riu o Presidente– esses agitadores sem-
pre estiveram tentando inquietar as populações menos infor-
madas. E algumas vezes chegam mesmo a criar problemas...
Afinal de contas estamos numa democracia globalizada e to-
dos têm licença para protestar, desde que nos limites da lei e
da ordem. Descontentes sempre houve e creio que sempre
haverá nos regimes democráticos. Na semana próxima, por
exemplo, está programada uma manifestação de minorias
heterossexuais em Washington. Os órgãos de segurança já
estão cientes do número de manifestantes e tudo farão para
que seu protesto seja pacífico e ordeiro, dentro das nossas mais
caras tradições democráticas. O que não se pode tolerar é a
violência ou a desordem.
–Mas a evolução do processo de depleção do ozônio está
sob controle, Presidente?
–Perfeitamente, Gomes de Sá. As pesquisas estão se
desenvolvendo em ritmo acelerado, lembrando até o que ocor-
re em situações de beligerância. Assim como as guerras esti-
mulam ao máximo o desenvolvimento de novas tecnologias,
hoje as alterações ambientais estão promovendo um rápido
desenvolvimento de novos materiais e novas técnicas para
fazer face ao que for necessário. Creio que vocês têm visto o
que está ocorrendo...
–Realmente, Presidente. Não há como negar que a su-
cessão de novas descobertas e de novos produtos está a sur-
preender até os menos atentos.
–De certa forma, Embaixador, podemos admitir que as
alterações ambientais trazem benefícios para o mundo, como

86
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

estimulantes do desenvolvimento e da produção... embora tam-


bém causem alguns problemas. Que, por sua vez, estão sendo
equacionados e resolvidos.
Os dois embaixadores ficaram satisfeitos e tranquilos
ao observar que o Presidente Gray Powers estava alerta para
os problemas do mundo e que não havia pontos que pudessem
trazer maiores preocupações quanto à questão ambiental. Logo
a conversa evoluiu para as ações políticas desenvolvidas por
seus países, ficando também claro que nada havia a acrescen-
tar ao que já vinha sendo negociado por via diplomática.
O Embaixador Souza Cruz confirmou que estavam em
fase final os entendimentos com a Suécia para a cessão
territorial a este país do que tinha sido o estado brasileiro de
Alagoas, e podia-se prever que no ano seguinte seria iniciada
a transferência em massa da população sueca para aquela
área, nos mesmos moldes que a Noruega já tinha sido
transferida para o antigo estado de Sergipe.
Constatava-se que a experiência do Japão Tropical –
que ocupava uma faixa na margem norte do Amazonas, desde
o antigo Amapá até o antigo Roraima– estava sendo um su-
cesso e que a negociação da soberania sobre segmentos de ter-
ritório era a forma mais criativa e eficiente de reajustamento
geopolítico do mundo. O interesse dos países cedentes de so-
berania era inteiramente compensado pelos países
superindustrializados que passariam a ser seus vizinhos, tra-
zendo capital, empregos, desenvolvimento e centros de reti-
rantes para regiões até então problemáticas. O Brasil, com
suas enormes reservas de capital/território, estava sendo o
país que mais se beneficiava desta política.
Como parte dos reajustamentos geopolíticos, a União
Estados Unidos-Canadá já fizera da Inglaterra o seu estado

87
DOKT BAR ATTÓN

europeu e, conforme asseguravam os dois embaixadores ali


presentes, em breve o mesmo ocorreria com Brasil e Portugal.


No domingo pela manhã, logo após a sessão de massa-
gens, o Presidente e seus personal trainers foram jogar golfe
no campo privativo –e coberto, naturalmente– da mansão de
verão. Após o almoço, em companhia da primeira dama e do
Júnior, o Presidente retirou-se para seus aposentos ainda um
pouco aborrecido pela presença das amigas de Lizzie que ele
mesmo não convidara para sentarem-se à mesa com o casal
presidencial, um raro privilégio, pelo menos até então. Quan-
do acordou da siesta dominical para o chá das cinco, lembrou-
se de que havia um documento que se comprometera a exami-
nar e o procurou na sua valise. Era o OPR dos apocalípticos.
Antes de descer para a sala de chá resolveu passar a vista no
papel, escrito em letra miúda, como geralmente eram os OPRs.

88
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 7

UUSC-EPA – AGÊNCIA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL


OPR 13/2029

O OZÔNIO ESTRATOSFÉRICO E A VIDA NA TERRA

A
TERRA FORMOU-SE HÁ 4.550 MILHÕES DE ANOS (MYR)
JUNTO COM TODO O SISTEMA SOLAR, A PARTIR DOS RESTOS
DE UMA ESTRELA ANCESTRAL : UMA SUPERNOVA QUE
EXPLODIRA MILHÕES DE ANOS ANTES. A PARTIR DOS 600 MYR DESDE
SUA FORMAÇÃO, A VIDA CHEGOU À TERRA PELO PROCESSO DENOMINADO
SEMEADURA CÓSMICA, ATRAVÉS DOS COMETAS ERRANTES QUE CIRCU-
LAM ENTRE OS SISTEMAS ESTELARES CONDUZINDO ESPOROS E OUTROS
PACOTES DE GENES . INICIALMENTE , OS ORGANISMOS VIVOS ERAM
UNICELULARES E ANAERÓBIOS TENDO-SE INSTALADO NOS OCEANOS PRI-
MITIVOS, ONDE FICAVAM PROTEGIDOS DAS RADIAÇÕES SOLARES NOCI-
VAS, PARTICULARMENTE DO ULTRAVIOLETA-B, DE COMPRIMENTO DE ONDA
ENTRE 280 E 320 NANOMETROS.
APENAS 100 OU 200 MYR DEPOIS, SURGIU UM TIPO DE ALGAS
AZUIS –DENOMINADAS CIANOBACTÉRIAS– QUE DESENVOLVEU O PROCESSO
DA FOTOSSÍNTESE, CAPAZ DE RETIRAR ENERGIA DA LUZ SOLAR EM SEU
ESPECTRO VISÍVEL, SINTETIZANDO OS COMPONENTES BÁSICOS DA VIDA A
PARTIR DO CO2, ENTÃO O GÁS PREDOMINANTE NA ATMOSFERA. UM

89
DOKT BAR ATTÓN

SUBPRODUTO DESSE PROCESSO É O OXIGÊNIO MOLECULAR QUE SE APRE-

SENTA SOB DUAS FORMAS: O2 E O3.


A PRIMEIRA FORMA, CUJA MOLÉCULA É BIATÔMICA E MUITO MAIS
ABUNDANTE QUE O O3, É O OXIGÊNIO UTILIZADO PELOS SERES VIVOS

AERÓBIOS QUE SE DESENVOLVERAM A PARTIR DE ENTÃO, TORNANDO-SE

MULTICELULARES E COMPLEXOS; SÃO OS ORGANISMOS SUPERIORES QUE

HOJE POVOAM A TERRA. A SEGUNDA FORMA, DE MOLÉCULA TRIATÔMICA

E MAIS RARA, DENOMINADA OZÔNIO, É VENENOSA SE RESPIRADA PELOS

SERES VIVOS, MAS TENDE A MIGRAR PARA A ESTRATOSFERA. ALI, DU-

RANTE BILHÕES DE ANOS, ACUMULOU-SE, FORMANDO A CONHECIDA E

AMEAÇADA “CAMADA DE OZÔNIO” QUE TEM A PROPRIEDADE DE BLOQUE-

AR A LETAL RADIAÇÃO ULTRAVIOLETA-B, PERMITINDO QUE A VIDA EVO-

LUÍSSE A CÉU ABERTO. A CAMADA DE OZÔNIO É O ESCUDO PROTETOR

SEM O QUAL A VIDA NÃO PODERIA SUBSISTIR. SEM RESPIRAR O2, OS

ORGANISMOS SUPERIORES NÃO EXISTIRIAM; SEM SER PROTEGIDA PELO

O3, O OZÔNIO ESTRATOSFÉRICO, A VIDA SERIA DESTRUÍDA TÃO LOGO SE


FORMASSE, OU NEM SE FORMARIA.


NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 20 FOI SINTETIZADA UMA

FAMÍLIA DE GASES INEXISTENTES NA NATUREZA QUE TINHA ALGUMAS

PROPRIEDADES FÍSICAS E QUÍMICAS PECULIARES, INDICADAS PARA DI-

VERSOS USOS INDUSTRIAIS. ERAM OS CLORO-FLUORO-CARBONOS, OU

CFCS, PRODUZIDOS A PARTIR DE 1930 SOB O NOME COMERCIAL DE

GASES FREON. FISICAMENTE SUA PROPRIEDADE MAIS INTERESSANTE

ERA O BAIXO PONTO DE EBULIÇÃO, QUE OS TORNAVA INDICADOS PARA

GASES DE REFRIGERAÇÃO. QUIMICAMENTE ERAM QUASE INTEIRAMENTE


INERTES, OU SEJA, NÃO REAGIAM COM NENHUMA OUTRA SUBSTÂNCIA.

SENDO INERTES, INCOLORES, INODOROS E INSÍPIDOS, ISSO OS TORNAVA


IDEAIS PARA PROPELENTES DE AEROSSÓIS, DESDE PERFUMES E PRODU-

90
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

TOS ALIMENTÍCIOS ATÉ INSETICIDAS E INÚMEROS OUTROS PRODUTOS,

QUE NÃO SOFRERIAM QUALQUER ALTERAÇÃO PELO CONTATO COM OS

CFCS. POR SEREM TÃO INERTES, ESSES GASES ERAM TOTALMENTE INO-
FENSIVOS AOS SERES VIVOS, MESMO QUANDO IMPREGNAVAM A ATMOSFE-

RA RESPIRÁVEL EM PERCENTUAIS ELEVADOS. QUANDO UM REFRIGERA-

DOR OU CONDICIONADOR DE AR ENVELHECIDO É ABANDONADO E LANÇA-

DO AO FERRO-VELHO, O GÁS ESCAPA IMPERCEPTIVELMENTE PARA A AT-

MOSFERA, MAS ISSO NÃO ERA MOTIVO DE QUALQUER PREOCUPAÇÃO. O

USO DOS CFCS, OU GASES FREON, RAPIDAMENTE SE DIFUNDIU E SUA

PRODUÇÃO MUNDIAL ATINGIU A UM MILHÃO DE TONELADAS/ANO NA DÉ-

CADA DE 70, DECLINANDO ATÉ O FIM DO SÉCULO QUANDO SUA FABRICA-

ÇÃO FOI PROIBIDA.


A PARTIR DE FINS DOS ANOS 70, DESCOBRIU-SE QUE A CAMADA
DE OZÔNIO ESTRATOSFÉRICO ESTAVA SE REDUZINDO A CADA ANO, NUM

PROCESSO INICIADO SOBRE A ANTÁRTIDA, O CHAMADO “BURACO DO OZÔ-

NIO”, QUE FOI DESPERTANDO PREOCUPAÇÃO CADA VEZ MAIOR. LOGO

FICOU COMPROVADO QUE ESSA REDUÇÃO DOS NÍVEIS DE OZÔNIO TINHA

UMA CAUSA NÃO NATURAL: ERA DEVIDA AOS GASES DA FAMÍLIA DOS CFCS

QUE, QUANDO LIBERADOS POR AEROSSÓIS, PROCESSAMENTOS INDUS-

TRIAIS POUCO RIGOROSOS, OU REFRIGERADORES E CONDICIONADORES

FURADOS OU ABANDONADOS, TAMBÉM MIGRAM LENTAMENTE PARA A

ESTRATOSFERA, ONDE SÃO DECOMPOSTOS PELO ULTRAVIOLETA AÍ INCI-

DENTE. AS MOLÉCULAS DE CFCS DECOMPOSTAS LIBERAM ÁTOMOS DE

CLORO, QUE PASSAM A PARTICIPAR COMO CATALIZADORES DE REAÇÕES

QUÍMICAS DESTRUIDORAS DO OZÔNIO ESTRATOSFÉRICO COM TERRÍVEL

EFICIÊNCIA.

VERIFICOU-SE QUE CADA ÁTOMO DE CLORO PODE DESTRUIR ATÉ


CEM MIL MOLÉCULAS DE OZÔNIO, AGINDO DURANTE DÉCADAS NUM PRO-

CESSO IMPOSSÍVEL DE SUSTAR. ESTÁ TAMBÉM COMPROVADO QUE O CLORO

91
DOKT BAR ATTÓN

LIBERADO PELOS CFCS NA ESTRATOSFERA JÁ REDUZIU A MENOS DE

METADE A CAMADA DE OZÔNIO, DEIXANDO PASSAR PARA A SUPERFÍCIE DA

TERRA, A CADA ANO EM MAIOR PERCENTUAL, OS RAIOS ULTRAVIOLETA-


B. E, MAIS AINDA, JÁ ESTÁ TAMBÉM CONSTATADO E QUANTIFICADO QUE
O CFC AINDA RETIDO EM CENTENAS DE MILHÕES DE VELHOS CONDICIO-

NADORES E REFRIGERADORES –E QUE FATALMENTE SERÁ LIBERADO

QUANDO ESSES EQUIPAMENTOS FOREM PERFURADOS PELA CORROSÃO,

OU APODRECEREM NOS DEPÓSITOS DE SUCATA DE TODO O MUNDO– SERÁ

MAIS DO QUE SUFICIENTE PARA DESTRUIR TOTALMENTE O OZÔNIO

ESTRATOSFÉRICO.

NA VERDADE, O CFC JÁ LIBERADO E ATUALMENTE EM LENTA

MIGRAÇÃO PARA A ESTRATOSFERA SERÁ O BASTANTE PARA LIQUIDAR A

CAMADA DE OZÔNIO. NÃO HÁ QUALQUER MEIO TÉCNICO CAPAZ DE IN-

TERROMPER OU REVERTER ESTE PROCESSO. A EXPECTATIVA ATUAL É DE

UM COLAPSO TOTAL DO SISTEMA ECOLÓGICO PLANETÁRIO NUM PRAZO

ESTIMADO ENTRE VINTE E TRINTA ANOS PODENDO, NO ENTANTO, OCOR-

RER ANTES DISSO.

92
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 8

U
m ano após a chegada dos ortópteros à Lua já se
podia avaliar o impacto que a descoberta das ruínas
lunares vinha causando no inconsciente coleti-
vo de Periplaneta, influindo de diferentes formas nas diver-
sas camadas sociais e nas muitas províncias culturais dos
quatro continentes.
Não fosse pelo seu envolvimento direto e pessoal com
as profundas alterações científico-filosóficas que estavam se
processando em Periplaneta, ainda assim Dokt Bar Attón se-
ria um dos mais afetados pela descoberta do ano anterior, por
estar ele na classe pensante, posicionado na região limítrofe
entre a faixa dos cientistas e a dos filósofos.
A classe pensante dos blatídeos mais cultos que com-
preendia os subgrupos dos cientistas, filósofos, poetas e mís-
ticos, foi o estrato social que mais sentiu o impacto das ruínas
lunares e que mais o evidenciava, por sua produção nos cam-
pos da literatura, da filosofia e da análise científica divulgada
pelas redes televisivas. Suas comunicações frequentes deixa-
vam claro que algo de fundamental viera a se acrescentar às
concepções tradicionais sedimentadas em Periplaneta e que
pareciam estáveis havia muito tempo.
Num fim de semana nublado, repousando sozinho em
seu habitáculo –Dokt Bar Attón amava a solidão– ele medita-

93
DOKT BAR ATTÓN

va e buscava exercitar a intuição para melhor orientar os pro-


gramas de pesquisa do Instituto de Investigação das Cultu-
ras Não-ortópteras, criado depois das descobertas lunares e
do qual tinha assumido o cargo de Orientador.
Em suas ponderações solitárias o cientista-filósofo bus-
caria conceber como teria sido a civilização que tanto o fasci-
nava a partir dos dados que aos poucos tomavam forma em
sua imaginação privilegiada. Este era o método de investigar
que mais lhe agradava. E, para melhor alimentar sua facul-
dade intuitiva com dados factuais, seria necessário ter em
mente como se organizava a civilização blatídea e em que ela
poderia distinguir-se de outras civilizações possíveis. Uma
visualização nítida de sua própria cultura funcionaria como
recurso para evitar o risco sempre presente do
blatideocentrismo, que quase sempre levava seus colegas a
conceberem civilizações extra-solares organizadas nos mes-
mos moldes dos ortópteros.
Refletindo e meditando, Dokt Bar Attón reconstituía
em sua mente as características de sua própria civilização,
tal como ela é atualmente e como teria sido desde que se for-
mara, entre os mitos e lendas de um nebuloso passado de
bigrosas de grosianos. Como membro da classe pensante essa
era a sua função natural na sociedade e ele tinha as melhores
qualificações para desempenhar o papel que dele se espera-
va.
Nessa faixa de elite, numericamente restrita, contudo
a mais influente e respeitada por toda a hierarquia social, as
transições de um subgrupo para outro são gradativas. Não há
fronteiras definidas pois a variação entre cientistas, filósofos,
poetas e místicos é contínua como as cores do arco-íris que
não apresentam entre si uma linha que as separe. Embora
haja cientistas que se ajustem bem a esta classificação e filó-

94
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

sofos que não se confundem com os limítrofes poetas ou cien-


tistas, há também indivíduos cujas características são de tran-
sição: cientistas quase filósofos ou filósofos quase poetas e
poetas quase místicos. Entretanto, seria difícil encontrar al-
guém que reunisse qualidades de dois subgrupos que não fos-
sem adjacentes. Assim, seria muito improvável encontrar um
cientista que também tivesse aptidões de poeta, ou filósofos
que também fossem místicos. Os poetas, denominação que
incluía dançarinos, plásticos, músicos, gente de teatro e ar-
quitetos, se não forem tipos puros –os mais comuns– podem
ter características de filósofos ou de místicos, se estiverem
nas zonas de transição para os subgrupos vizinhos.
À classe pensante compete estabelecer as bases míticas
em que a sociedade se estrutura, sendo esta a mais funda-
mental das funções sociais de Periplaneta. Poder-se-ia dizer
que os membros da classe pensante são os hierofantes, os ze-
ladores dos mitos disseminados para os demais estratos, para
assegurar a consistência e a estabilidade do tecido social. Não
são eles os administradores, portanto não podem decidir ou
encaminhar providências executivas: isto é função da classe
política, através de diversos subgrupos. Mas, com a autorida-
de moral de suas colocações, são os mentores da classe políti-
ca que respeitosamente lhes acatam as diretrizes e pondera-
ções.
A classe pensante produz textos e videoproduções de
interpretação histórico-mitológica, sociológica ou cultural do
que ocorre, seja à luz de um conhecimento transcendente, ela-
borado pelos místicos; de uma tradução livremente poética do
fatos; de uma interpretação filosófica ou, em última instân-
cia, de uma fundamentação criteriosamente científica. Esses
textos e vídeos, no entanto, reúnem quase sempre os quatro
diferentes enfoques, com maior ou menor predominância de

95
DOKT BAR ATTÓN

um deles, conforme sua procedência ou autoria. Se divergênci-


as houvesse entre diferentes textos ou videoproduções, as dife-
renças de ponto de vista seriam cuidadosamente estudadas até
que ficassem esclarecidos os pontos obscuros e porque teriam
ocorrido. Raramente divergências persistem durante muito tem-
po porque há um consenso de que o enfoque mais correto deve
prevalecer. Disputas entre grupos ou correntes divergentes fo-
ram coisas de um passado remoto, quase lendário, em que as
bases éticas e comportamentais da sociedade blatídea eram
ainda rudes e indefinidas.
A classe política é formada pelos subgrupos dos
planejadores, executivos, implementadores e fiscais, cada um
deles encarregado de um aspecto da tarefa de administrar e
canalizar os recursos da comunidade para atender às necessi-
dades do organismo social. Aos planejadores cabe estabelecer
os programas públicos de ação e definir o modo como as provi-
dências serão encaminhadas. Aos executivos cabe tomar as
decisões práticas sobre aquilo que será feito em cada período
administrativo, definir organogramas e fluxogramas de fun-
cionamento das diversas agências administrativas para um
eficiente entrosamento no seu funcionamento conjunto. Os
executivos têm autoridade para alterar projetos e providênci-
as, em função de novas condições que alterem o quadro ante-
riormente programado. Os implementadores cuidam da
viabilização das ações programadas através da liberação dos
recursos técnicos, equipamentos e mão-de-obra para que tudo
funcione a tempo e a hora. Aos fiscais cabe verificar, em cada
fase, se tudo está funcionando corretamente, cabendo-lhes
acionar os meios para corrigir eventuais desvios em relação
às metas e objetivos traçados. É sua função manter os
planejadores informados do que sucede na realização daquilo
que foi programado. Também a estes compete a manutenção

96
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

da ordem e dos sistemas de segurança e atendimento comuni-


tário.
Justaposta à classe política, porém mais numerosa, já
no nível empírico das diversificadas ações concretas, fica a
classe produtiva, de iniciativa particular, que se subdivide em
inúmeros subgrupos, conforme o setor da produção de bens e
serviços. Imediatamente adjacente à classe produtiva e qua-
se como um prolongamento desta, a classe trabalhadora que,
apesar de ser de todas a mais numerosa, é a que menor dife-
renciação individual apresenta, a não ser no campo específico
da especialidade de cada indivíduo e suas opções de lazer. A
vocação de cada jovem fica evidente desde a infância e o siste-
ma educacional –vinculado às unidades produtoras– promo-
ve o aperfeiçoamento profissional de cada um, a partir de uma
formação básica em instituições públicas de ensino.
Eventualmente, algum indivíduo das classes trabalha-
dora ou produtiva mostra uma vocação para o exercício da
política ou aptidões para ingressar na classe pensante, pas-
sando então, por consenso de seu grupo, a estudar nas acade-
mias de técnica administrativa, ou nas universidades e insti-
tutos de pesquisa. O processo de seleção por vocação é tranquilo
e auto-evidente, mesmo porque entre os blatídeos a noção de
seleção social há muito deixara de ser algo competitivo –se é
que o fora, algum dia. “Possivelmente” –ponderava Dokt Bar
Attón– “essa noção de competição é apenas lendária, uma idéia
ancestral existente tão somente nos mitos primordiais, sem
correspondência com uma realidade histórica.”
Embora haja sensíveis variações de ênfase e estilo nos
diferentes continentes, regiões e províncias de Periplaneta,
o exercício da atividade pensante, das funções administrati-
vas e do trabalho em geral não se diferencia daquilo que se
considera arte. Trabalho e arte são aspectos de uma mesma

97
DOKT BAR ATTÓN

coisa, assim como a idéia de ação implica necessariamente


no resultado dessa ação e a noção de causa não pode ser
desvinculada da idéia de efeito. De um modo geral não se
concebe um trabalho, seja ele individual ou coletivo, intelec-
tual ou concreto, que não seja também uma manifestação de
criatividade e arte, mesmo que, na maior parte das vezes,
isto ocorra em proporções modestas.
Toda a organização física do território, todo o tecido
urbano, que se entrelaça com o ambiente natural e com a ocu-
pação do campo por atividades vinculadas à terra, é desenvol-
vida sem choques ou desarmonia, tanto do ponto de vista fun-
cional como estético. Os elementos artificiais acrescentados à
paisagem natural constituem-se em fatores de valorização
dessa paisagem ainda que lhe causem profundas alterações,
em alguns casos, do mesmo modo que o escultor imprime subs-
tanciais modificações em sua matéria-prima para obter ines-
perados efeitos estéticos. A paisagem natural, quando assim
trabalhada, valorizava-se como algo esteticamente superior à
sua configuração original.
Em Periplaneta, a arte visual e plástica por excelência
é a arquitetura que não se distingue do urbanismo, num ex-
tremo, nem da decoração de interiores, no outro, onde a
cromatização e a criação de objetos estéticos complementam
os espaços habitados. A continuidade entre essas diversas es-
calas é uma constante, um padrão do qual não há desvios.
Os ortópteros vivem no interior de imensas obras de
arte, macroestruturas urbanísticas que se estendem num in-
terminável entrelaçamento de construções que se imbricam
umas nas outras. A harmonia do conjunto não exclui a diver-
sidade de formas, texturas, cheios e vazios, luzes e cores –
estas sempre em tons pastel e mate porque cores fortes são
consideradas agressivas e desagradavelmente excitantes. As-

98
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

sim, o mundo artificial dos blatídeos é uma continuidade e


uma extensão do mundo natural. Tudo isto é semi-subterrâ-
neo, aflorando parcialmente em estruturas de maior porte,
arredondadas, em superfícies de texturas ásperas ou lisas e
curvas livres de qualquer rigor geométrico. As linhas retas e
as curvas matemáticas como círculos e elipses são virtual-
mente inexistentes, exceto em algumas províncias. As aber-
turas para o mundo exterior são pequenas e sempre protegi-
das dos rigores do Sol por vidros filtrantes e recursos
arquitetônicos de sombreamento.
Apesar da variedade de soluções construtivas e expres-
são plástica o mundo artificial dos blatídeos não difere muito
do mundo dos irracionais térmites, criados nas fazendas de
pecuária para a produção de néctar e pasta orgânica. Inúme-
ras espécies de fungos com grande diversidade de formas, co-
res, texturas e tamanhos são cultivadas, não apenas para for-
necer alimento, mas também em jardins ornamentais exter-
nos e internos.


Dokt Bar Attón meditava. Repousava e meditava sozi-
nho em sua rede de dormir, na penumbra silenciosa e amiga
de seu novo e espaçoso habitáculo. Tentava capturar em sua
mente imagens de um mundo distante, de algo que há muito
deixara de existir na face real das coisas objetivas, mas que
certamente tem seus registros fixados em algum lugar da ver-
tente imaginária do universo, onde nada é inútil, nada é sem
propósito e nada se perde. Sabia que esses registros são aces-
síveis, pois estão armazenados na memória arquetípica que
alimenta a inspiração dos poetas e a criatividade dos cientis-
tas, os insights dos místicos e as proposições mais originais
dos filósofos. Ele sabia que é desse manancial que flui conti-

99
DOKT BAR ATTÓN

nuamente o impulso que anima toda existência, tanto indivi-


dual como das comunidades, das culturas e das civilizações.
Desde que assumira o cargo de Orientador do Institu-
to de Investigação das Culturas Não-ortópteras, o estado físi-
co e mental de Dokt Bar Attón tinha melhorado muito porque
passara a sentir-se aliviado do peso de estar trabalhando e
elucubrando contra a corrente geral do pensamento dos cole-
gas. Ele sabia o que significa viver pressionado por uma cor-
rente mental em sentido contrário, seja ela de hostilidade,
antagonismo ou simples descrença naquilo que está sendo feito
ou proposto. Tudo fica difícil e cansativo, qualquer tarefa a
realizar torna-se uma carga que levaria qualquer outro a de-
sanimar para seguir o caminho mais fácil e confortável da
maioria e do consenso. Mas, sabia ele, esse é o caminho dos
medíocres, dos que pouco ou nada produzem de inovador; é o
caminho acomodado dos que pensam que “se todos fazem ou
pensam assim, então é isto que é certo”. Ou, então, de quem
acredita que “se o dokt disse, então é verdade”, sem examinar
por si mesmo se aquele dokt está no lugar de dizer aquilo.
Dokt Bar Attón via claramente que tal postura poderia ser
apropriada para a classe trabalhadora, ou até mesmo para
setores da produtiva, mas inadequada para a classe dos polí-
ticos, e inadmissível no estrato pensante.
“Contudo” –lamentou-se em pensamento– “é esta a ati-
tude predominante”, mesmo entre a elite privilegiada a que
pertencia. “Isto somente torna mais árdua a tarefa dos que
verdadeiramente querem inventar e descobrir, criar o novo e
extrair o inédito da fonte secreta de onde brota o lento progre-
dir da civilização.”

100
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 9

N
este fim de semana Bar Attón teve a alegria de re-
ceber um grande amigo que há muito tempo não
via. Bar Ouchel era poeta e místico. Difícil era di-
zer se ele era mais poeta do que místico ou vice-versa.
Isso dependia do momento, do ambiente em torno e, princi-
palmente, de quem estivesse no diálogo. Bar Ouchel era pro-
vavelmente quem melhor poderia avaliar o alcance da visão
de Bar Attón e o sofrimento envolvido na prolongada saga do
amigo: os insights iniciais, muitos anos atrás; a confiança na
própria intuição; o processo de alimentar a mente com o má-
ximo de informações sobre o tema investigado sem classificá-
las; as primeiras descobertas; a ousadia de divulgar uma teo-
ria que dificilmente seria bem recebida; a fase do descrédito e
do progressivo ostracismo.
Depois, as descobertas na Lua e seu atual momento de
satisfação espiritual pela alegria –Bar Ouchel bem o sabia–
de sentir-se útil. Útil ao avanço do conhecimento; útil como
instrumento de dilatação do campo de consciência de seus co-
legas e concidadãos; útil por levar adiante a grande aventura
da ciência. Bar Ouchel bem sabia o que é essa alegria de sen-
tir-se útil e ter seu trabalho reconhecido tanto pelos seus pa-
res como pela Ordem Invisível. Aliás, Bar Ouchel era tão sen-

101
DOKT BAR ATTÓN

sível como Attón para perceber aquilo que existia por trás dos
fenômenos e das coisas –a face invisível dos acontecimentos
que ilude a maioria. Ambos eram intuitivos e da significação
daquilo que ocorria pouco lhes escapava.
Depois das manifestações de afeto, cumprimentos e
carinhos, instalaram-se na ampla sala abobadada do
habitáculo de Bar Attón.
–Nova fase, hem Attón? Demorou, mas chegou. Com-
partilho sua alegria!
–Sei disso, caro amigo... mas não acho que tenha de-
morado; foi no tempo certo. Eu estava acompanhando o anda-
mento das coisas e senti que a maturação dos fatos prosse-
guia num ritmo bom. O sofrimento que passei foi consequência
dos restos de vaidade, impaciência e falta de confiança ainda
aderentes ao ego. Mas o processamento do que ocorria trouxe
tudo isso à tona e dei uma boa melhorada nessas asperezas.
As descobertas na Lua não poderiam ter vindo antes que o
estado de amadurecimento dos meus insights pessoais o per-
mitisse. Chegou tudo no tempo certo.
–Estou ciente da riqueza de sua experiência íntima,
meu caro. Se disse que demorou foi para solidarizar-me com
seu sofrimento, na fase anterior. Mas estou vendo que você
colheu os frutos. Estou aqui para celebrarmos esta conquista
interior e o avanço da sua descoberta na psique coletiva de
Periplaneta. E o Instituto, como está? Já chegou ao patamar
de funcionamento normal?
–Estou numa fase de alegrias sucessivas, Ouchel. A
equipe é ótima e Duvilen Ddu e Czótány são meus assistentes
diretos, tal como solicitei. E ainda incorporei antigos adver-
sários da teoria vivípara que hoje se entregam a um trabalho
entusiasmado. O pessoal do Instituto de Mineralogia, por

102
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

exemplo, que era firme contra, agora está trabalhando com


afinco nas pesquisas que requisito. Até Hlebarka, o vúlgaro, é
hoje um colaborador inestimável embora lhe falte senso de
humor. Houve, realmente, uma mudança de expectativa cul-
tural em relação à teoria da civilização vivípara. Estou des-
frutando este momento raro.
–E já há descobertas novas a registrar?
–Alguma coisa. Nada materialmente conclusivo, mas
os indícios crescem e se harmonizam em torno da hipótese
vivípara. A misteriosa expedição que deixou as ruínas luna-
res foi datada precisamente na Transição Ortóptera, ou seja,
20 trigrosianos atrás, com erro máximo de cinco bigrosianos
para mais ou para menos. Isto bate com a hipótese de um
avanço tecnológico que teria levado os vivíparos à sua própria
extinção: na mesma época em que conseguem chegar à Lua
eles se autodestroem, por algum motivo que desconhecemos.
–Ignorância da função cósmica de uma civilização, cer-
tamente... Um desvio de rota.
–É a inferência que podemos fazer. Mas... o que teriam
aprontado eles, concretamente? É a pergunta que agora ten-
tamos responder; as pesquisas estão direcionadas para res-
ponder a esta questão. Mas não apenas isto: a nossa intenção
é reconstituir aquela civilização. Os traços físicos são míni-
mos, mas estamos juntando as peças.
–E você está trabalhando alguma hipótese sobre o que
teriam feito para se autodestruírem?
–Ao que tudo indica, eliminaram uma camada da
mesoatmosfera que protegia o planeta da radiação ultravioleta.
Antes da Transição Ortóptera a incidência de UV mortal so-
bre a superfície periplanetária era mínima. Isso permitiu o

103
DOKT BAR ATTÓN

prolongado desenvolvimento de bigrosas e bigrosas de formas


vivas que não tinham defesa contra essas radiações, como ocor-
re na fauna e flora atuais.
–E vocês têm idéia se a existência de uma tal camada
protetora seria realmente possível? Existe alguma forma de
bloquear o ultravioleta pela presença de um gás na atmosfe-
ra?
–Os ensaios de possíveis composições dessa camada
protetora indicam que teria sido constituída de ozônio, o oxi-
gênio triatômico que se forma naturalmente como subproduto
da fotossíntese vegetal e das descargas elétricas das tempes-
tades. Numa concentração adequada o ozônio filtra a radia-
ção ultravioleta, precisamente nas frequências mais agressi-
vas aos sistemas vivos. Fizemos experiências de laboratório
em condições rigorosas, que confirmaram a predição mate-
mática.
–Suponho que não teria sido muito difícil destruir um
escudo protetor de ozônio. Bastaria uma contaminação quí-
mica ou uma ação física que dissociasse a molécula de ozônio
que, pelo que me lembro, não é muito estável, não é? Vocês
estão investigando qual teria sido o processo?
–Ao que parece, teria sido um processo de contamina-
ção química provavelmente por halogêneos: flúor, cloro, bromo
ou iodo; todos têm o poder de dissociar o ozônio. Mas de que
jeito os vivíparos poderiam ter levado radicais halógenos, al-
tamente reativos, até a estratosfera é ainda objeto de estudo.
Deve ter sido um processo muito engenhoso. Há algumas hi-
póteses sendo investigadas.
Silêncio. Depois de um largo momento de ponderações
Bar Ouchel falou.

104
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

–Meu querido Attón, você sabe que desde o início de


seus estudos sobre os vivíparos eu compartilho o sentimento
de que eles existiram. Agora sinto que as descobertas vão-se
suceder e logo será provada a existência de uma civilização
tal como você vislumbra.
–Realmente, este é o meu sentimento. Espero manter
o necessário discernimento para enfrentar os novos desafi-
os, porque não basta termos a certeza de que eles existiram;
dentro do possível, é necessário reconstituir o que teria sido
tal civilização. Como seriam eles? Não digo apenas fisica-
mente, nem só tecnicamente, mas qual teria sido a base
mítica que os sustentava? Como seria o substrato subjetivo
deles? Que relações teriam eles consigo mesmos, com a na-
tureza e com o cosmos?
–Você tem meditado a respeito?
–Sim, claro. Tenho investigado, mas ainda não faço uma
imagem consistente; talvez ainda demore um pouco. Há algu-
mas cadeias dedutivas em formação, mas nenhuma delas me
parece confiável. Por enquanto é prosseguir na fase de ali-
mentar a memória com dados novos e indícios mais precisos...
Depois, a intuição vem.
–Sem dúvida, sem dúvida... Mas você sabe que pode
acelerar esse processo, não é?
–Estimulando os sonhos orientados?
–Sim, também isto. Mas estou pensando em algo mais
controlado.
–De que forma?
–Formando uma rede, é claro!
–Uma rede intersubjetiva? Se fosse possível... Mas não
vejo com quem... Você participaria?

105
DOKT BAR ATTÓN

–Claro! Isto é uma das coisas que já tinha a intenção


de lhe propor.
–Ótimo que você participe, mas entre os membros de
minha equipe não vejo mais que um ou dois que talvez sejam
capazes de participar de uma rede como essa. A introspecção
metódica e a meditação profunda ainda não são praticas ge-
neralizadas na pesquisa científica, você sabe. E uma investi-
gação dessas não é assunto para inexperientes ou
despreparados.
–Eu sei que não há muitos elementos disponíveis, por
aqui. Mas não é isto que eu estava pensando...
–Alguém de fora?
–Os mântis.
–Desconfiei que você estava pensando neles. E eles se
prestariam a isso? Você acha que é o caso de procurarmos?
–Ora, Bar Attón, não subestime a importância de sua
descoberta... é claro que é o caso! Acho que devemos procurá-
los.
–É uma idéia ousada. Eu não tinha focado atenção nes-
sa possibilidade.


Koo Karachi, Tarakan e a ninfeta Svab estavam numa
fazenda de turismo, neste fim de semana, com Scara Faggio.
Sabendo da chegada de Bar Ouchel, ela os convidou para esse
passeio e isto permitiu aos dois amigos momentos de grande
paz e introspecção compartilhada. Livres de chamadas ao te-
lefone, da presença incômoda da televisão e dos computado-
res de Tarakan, a conversa prolongava-se ininterrupta e os
assuntos subiam de nível. Meditar a dois era um raro privilé-

106
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

gio quando dois espíritos se afinavam tão bem. Ressonâncias


entre as duas mentes, cada vez mais frequentes, anunciavam
que em breve poderiam se unir intersubjetivamente, sob con-
trole voluntário.
–Você tem tido contatos mentais com os mântis,
Ouchel?
–Sim, ocasionalmente. Mas não quis fixar uma linha
de comunicação antes de lhe consultar. Ao meu ver, a profun-
da alteração que sua descoberta trouxe à mente coletiva de
Periplaneta não só justifica como recomenda uma visita aos
mântis.
–Você está sugerindo uma visita física aos mosteiros?
–Sim, depois de entendimentos telepáticos, é claro. No
meu entender você deve visitá-los, como têm feito todos os
grandes descobridores do passado. O último a visitá-los ofici-
almente, dois grosianos atrás, foi Arbeit Eisbein, quando pro-
pôs a teoria da intersubjetividade relacional. Acho que você
deve cumprir o ritual da visita aos mântis. Eu vou com você,
se você me convidar.
–Claro, claro. Mas, me diga: o que tem você conversa-
do com eles?
–Não chega a ser conversa. Apenas estou ciente de que
estão acompanhando o processo, principalmente a partir das
descobertas na Lua. E me passaram a tranquilidade que tudo
o que está acontecendo está de acordo com a Ordem Invisível
–como não poderia deixar de ser. Mas creio ter percebido, tam-
bém, uma expectativa de que você os visite. Entenda bem:
não é um recado que estou dando; é apenas um sentimento
que tive, mas sem nitidez. A iniciativa é minha.
Pouco depois os dois estavam em postura de medita-
ção, diante da lareira. Estabilizada a serenidade mental em

107
DOKT BAR ATTÓN

ambos, o tema sintonizado foi a comunidade dos mântis, a


misteriosa outra espécie de ortópteros com vida espiritual
superior que existia em Periplaneta, quase inacessíveis em
suas comunidades, no alto das cordilheiras. Os mântis eram
geneticamente muito próximos dos blatídeos, mas sua postu-
ra ereta, sua extrema magreza e seus grandes olhos
perscrutadores tornavam-nos muito diferentes destes. Eram
seres cuja origem se perdia nos mitos ancestrais. Seus conta-
tos visíveis com os blatídeos eram mínimos. Viviam reclusos
no interior de mosteiros brancos e aparentemente monolíticos,
sempre de forma piramidal, construídos em época imprecisa
de um passado remoto. Quase todos ficavam nas montanhas
da Cordilheira do Anel de Fogo, que contorna o Oceano Maior,
erguidos nas proximidades dos mais altos picos nevados,
mimetizando sua forma e confundindo-se com eles quando
vistos de longe.
Os mântis eram místicos. Ou mais do que isto: alguns
deles eram considerados seres semidivinos. Sabia-se que de
alguma forma eles estavam em contato permanente com a
Ordem Invisível e que tinham poderes psíquicos raramente
conquistados por blatídeos. Era crença generalizada que os
mântis deslocavam-se incorporeamente por todo o planeta,
mas não interferiam na vida individual dos blatídeos, poden-
do, no entanto –ao que se dizia– agenciar acasos e coincidên-
cias. Sob forma corpórea, no recesso dos seus mosteiros, en-
tregavam-se ao estudo, à música, à oração, à meditação, aos
cânticos sacros e às tarefas de manutenção da comunidade.
Todavia, quase tudo que se dizia dos mântis eram conjeturas
porque era raro que blatídeos conseguissem entrar num mos-
teiro e o que contavam, ao voltar, era sempre algo fantástico,
ilógico ou contraditório, que não se podia comprovar. Outros
mantinham enigmático silêncio sobre o que teriam visto.

108
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Havia uma antiga tradição de que os responsáveis por


mudanças significativas na psique periplanetária, os gran-
des descobridores de novas verdades que viessem a influir
decisivamente na mente coletiva, deveriam fazer visitas ritu-
ais aos mântis, levando consigo um ou dois acompanhantes de
confiança. Isto vinha se cumprindo desde tempos imemoriais.
Era isto o que Bar Ouchel estava propondo. E foi isto que, no
campo mental criado pela meditação a dois, ficou claro que de-
veria ser feito: aproveitar a visita ritual para propor aos mântis
a formação de uma rede intersubjetiva destinada a investigar
os vivíparos.
Meditaram durante quase todo o dia e ao entardecer
saíram a passeio até um monte próximo. Subiram a encosta
sem voar e chegaram a um patamar junto ao cume onde se
acomodaram para ver a esplêndida paisagem. Era o segundo
fim de semana do mês, portanto três noites antes da luaplena.
Ainda na força de crescimento da primeira quinzena, eles vi-
ram a lua quase redonda surgir por detrás das nuvens e en-
tão, inesperadamente, olharam-se nos olhos e exultaram numa
sonora gargalhada. Bar Ouchel logo fez um singelo poema para
celebrar a ocasião:
Ao cair da tarde, os dois subiram
ao pico solitário, pela encosta nua.
Por entre as nuvens claras, ele viu a Lua.
E ouçam a gargalhada que eles riram.

Compartilhar a alegria singela de estarem juntos,


meditando em uníssono, cientes de que estavam trilhando uma
via que os conduziria a alegrias ainda maiores, que bom! Ali,
no alto do monte, a brisa suave não chegava a incomodar.
Harmonia e paz.

109
DOKT BAR ATTÓN

–Attón, você tem meditado sobre a significação do tem-


po?
–Do tempo linear? Claro, claro. Se estou lidando com a
hipótese vivípara, certamente o tempo é um tema inescapável.
Mas não me deixo iludir. Sei que o tempo linear é uma forma
conveniente de organizar nossa percepção e entender o pro-
cesso evolutivo.
–É isto. Mesmo assim é espantoso, não acha? Que sig-
nificará a constatação inequívoca de que a civilização vivípara
realmente existiu, trigrosianos atrás?
–Certamente haverá um vasto elenco de significados
superpostos... É o que já estamos vendo. É um impacto de
grande escala na nossa compreensão do cosmos, e para cada
blatídeo haverá um feixe de ensinamentos que lhe caberá de-
bulhar e apreender.
–No entanto, sabemos que poucos são capazes de
aprofundar-se nas lições que a vida lhes dá, a cada dia, quan-
to mais nos eventos de maior repercussão, como esse dos
vivíparos.
–Você realmente acha os eventos excepcionais mais di-
fíceis de serem interpretados do que os incidentes cotidianos?
Neles, o impacto não é maior? O cotidiano não é só hábito?
–Sem entender as lições cotidianas que ajustam o in-
divíduo ao fluir do tempo e da vida, como se poderia assimilar
o feixe de significados que emana de algo altamente imprová-
vel? Vejo que somente através de muito treinamento na inter-
pretação do que nos acontece a cada dia é que podemos desen-
volver a capacidade para absorver os ensinamentos de um
evento extraordinário. Os eventos cotidianos já devem ser fa-
cilmente interpretáveis por aqueles que pretendam penetrar
em mistérios mais altos. O cotidiano é o mestre.

110
Primeira parte - OS BLATÍDEOS


O Sol finalmente mergulhou no horizonte abrindo mais
uma noite de clima ameno e doce tranquilidade que, do alto
daquele monte, parecia espalhar-se por todo o orbe. As borbo-
letas recolheram-se aos seus ninhos e alguns pirilampos apa-
receram piscando seu código de amar. Permaneceram em si-
lêncio ainda por muito tempo, até que Bar Attón convidou
Ouchel para voltar. Mas ele preferiu ficar ali por mais algum
tempo, prosseguindo num fio meditativo que não queria in-
terromper.
Com o olhar acompanhou Attón em sua descida, até
que este desapareceu numa curva do caminho. Então se aco-
modou melhor, observou os pontos e linhas de delicada
luminescência esverdeada que se filtrava pelas aberturas do
contínuo construído, lá embaixo. Somente as instalações de
um aeroporto, ao longe, emitiam luzes mais fortes, em tons
de violeta e amarelo. Bar Ouchel contemplou a vastidão do
cosmos e nela sentiu-se diluir, aos poucos. Mas ainda teve
tempo para criar um novo poema:
As borboletas diluem-se no céu,
a última nuvem já desaparece.
Ficamos sós, a montanha e eu.
Até que só a montanha permanece.

111
DOKT BAR ATTÓN

112
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo &

O
número deste capítulo não está truncado; é assim
mesmo. É o Capítulo 10 registrado na notação dos
ortópteros em transliteração para caracteres que
usamos. Convido o paciente leitor para um breve intermezzo.
Quero explicar como é o sistema numérico adotado nessa civi-
lização, seu calendário e outras informações que o ajudem a
prosseguir na leitura.
Provavelmente o leitor atento já observou que o siste-
ma numérico deles é duodecimal, ou seja, de base doze e não
dez como a nossa civilização adotou generalizadamente. Os
ortópteros dispõem de doze algarismos, dois a mais do que nós.
Transliterando seus algarismos para os sinais gráficos de que
dispomos, optei pelos signos & e # para representar os valores
dez e onze, respectivamente, ficando o valor doze representado
pelo primeiro algarismo seguido do 0. Ou seja, entre os
ortópteros escreve-se 10 para representar o valor doze, 11 para
representar o valor treze, 12 para significar catorze etc.
Para facilitar a leitura, quando aparecer no texto al-
gum desses números será melhor consultar a tabela abaixo,
onde se faz a correspondência entre a nossa notação e a dos
ortópteros, até um valor de cento e quarenta e quatro –uma
grosa– que na notação deles escreve-se 120.

113
DOKT BAR ATTÓN

Naturalmente, nesse sistema a dúzia e a grosa têm um


papel semelhante às nossas dezena e centena. Uma grosa são
cento e quarenta e quatro unidades; uma bigrosa são 144 ´ 144
unidades (notação nossa, nestes exemplos) ou seja, 20 736 uni-
dades. Uma trigrosa são 144 ´ 144 ´ 144 unidades, ou seja, 2
985 984. Como se vê, para uma conversão aproximada e rápi-
da, de cabeça, pode-se considerar uma bigrosa como aproxima-
damente igual a vinte mil e uma trigrosa como três milhões.

TABELA DE CONVERSÃO DOS NÚMEROS DE 1 A 144


PARA A NOTAÇÃO DOS ORTÓPTEROS

1-1 13 - 11 25 - 21 37 - 31 49 - 41 61 - 51 73 - 61 85 - 71 97 - 81 109 - 91 121- 101 133 - 111

2-2 14 - 12 26 - 22 38 - 32 50 - 42 62 - 52 74 - 62 86 - 72 98 - 82 110 - 92 122 - 102 134 - 112

3-3 15 - 13 27 - 23 39 - 33 51 - 43 63 - 53 75 - 63 87 - 73 99 - 83 111 - 93 123 - 103 135 - 113

4-4 16 - 14 28 - 24 40 - 34 52 - 44 64 - 54 76 - 64 88 - 74 100 - 84 112 - 94 124 - 104 136 - 114

5-5 17 - 15 29 - 25 41 - 35 53 - 45 65 - 55 77 - 65 89 - 75 101 - 85 113 - 95 125 - 105 137 - 115

6-6 18 - 16 30 - 26 42 - 36 54 - 46 66 - 56 78 - 66 90 - 76 102 - 86 114 - 96 126 - 106 138 - 116

7-7 19 - 17 31 - 27 43 - 37 55 - 47 67 - 57 79 - 67 91 - 77 103 - 87 115 - 97 127 - 107 139 - 117

8-8 20 - 18 32 - 28 44 - 38 56 - 48 68 - 58 80 - 68 92 - 78 104 - 88 116 - 98 128 - 108 140 - 118

9-9 21 - 19 33 - 29 45 - 39 57 - 49 69 - 59 81 - 69 93 - 79 105 - 89 117 - 99 129 - 109 141 - 119

10 - & 22 - 1& 34 - 2& 46 - 3& 58 - 4& 70 - 5& 82 - 6& 94 - 7& 106 - 8& 118 - 9& 130 - 10& 142 - 11&

11 - # 23 - 1# 35 - 2# 47 - 3# 59 - 4# 71 - 5# 83 - 6# 95 - 7# 107 - 8# 119 - 9# 131 - 10# 143 - 11#

12 - 10 24 - 20 36 - 30 48 - 40 60 - 50 72 - 60 84 - 70 96 - 80 108 - 90120 - 100 132 - 110 144 - 120

Na coluna da esquerda estão os valores em nossa notação; na da direita, os


mesmos valores segundo a notação dos ortópteros no sistema duodecimal.

114
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Quando se trata de períodos de tempo, os ortópteros têm


denominações próprias para eles. Assim, um grosiano é um
período de 144 anos e sua correspondência mais aproximada,
em nossa cultura, é o século, período de cem anos. Um bigrosiano
é equivalente a 20 736 anos e um trigrosiano corresponde a 2
985 984 anos –quase três milhões de anos. Se no texto aparece
uma referência a uma trigrosa de bigrosianos, isto é uma for-
ma simples de se referir a um período de 2 985 984 ´ 20 736
anos, ou seja, 429 981 696 anos, praticamente 430 milhões de
anos. Este é o tempo decorrido desde que, com os primeiros
vegetais terrestres, a vida começou a ocupar os continentes,
deixando o meio oceânico em que se desenvolvera até então, na
Terra primitiva. Mas isto é até nós, os HSS, ou melhor, nós, os
seres humanos; porque se for considerado o tempo decorrido
até os blatídeos serão 500 milhões de anos, ou seja, 70 milhões
de anos a mais.
Quanto à contagem do tempo, eles naturalmente se-
guiram os ciclos da natureza: o dia, significando o giro da Ter-
ra sobre si mesma; a lunação, que é o período em que a Lua
completa seu percurso em torno da Terra apresentando-se em
suas quatro fases e, finalmente, o ano, período em que a Terra
percorre sua órbita em torno do Sol.
Contudo, algumas alterações ocorreram nesses ciclos; o
mês lunar e o ano solar ficaram ligeiramente diferentes dos
nossos. Nos setenta milhões de anos que nos separam da civili-
zação ortóptera, a Lua terá se afastado um pouco mais da Ter-
ra e, consequentemente, o mês lunar ficou maior do que o nos-
so. Se a Lua está mais longe da Terra, então sua órbita será um
pouco mais longa e o período da lunação também. Enquanto
entre nós a Lua percorre o seu ciclo em aproximadamente vin-
te e oito dias, entre os ortópteros esse período será de exatos
trinta dias.

115
DOKT BAR ATTÓN

A velocidade de rotação da Terra permanecerá pratica-


mente inalterada e o dia continuará com as mesmas vinte e
quatro horas. O ano, entretanto, será um pouco mais curto, e
isso decorrerá de uma pequena aproximação da Terra em re-
lação ao Sol. O ano dos ortópteros terá exatamente 360 dias.
O fato evidente de que os períodos lunar e solar fossem tão
bem ajustados entre si, sendo 360 = 30 ´ 12, ambos múltiplos
de seis, aliado ao fato de terem eles seis patas, levou os
ortópteros ancestrais a adotar o sistema duodecimal. Isto não
é um fato historicamente documentado, inclusive porque sua
origem se perde no tempo dos mitos, dúzias de bigrosianos
antes dos primeiros registros histórico-mitológicos. A evidên-
cia desses ajustes astronômicos, entretanto, deixaria poucas
dúvidas –ou nenhuma dúvida, segundo eles que não cultivam
dúvidas– de que o sistema duodecimal tivesse uma origem
natural, um registro claro de que a Ordem Invisível da Natu-
reza está presente por detrás de tudo o que se faz visível e
manifesto no mundo objetivo.
A divisão do dia em vinte e quatro horas e a do mês em
cinco semanas de seis dias foram consequências lógicas desse
sistema natural de contar o tempo. Desse modo, entre os
blatídeos o ano tem exatamente 360 dias e é dividido em exatos
doze meses de 30 dias cada um, sendo cada mês composto por
cinco semanas de seis dias: quatro dias de trabalho convencio-
nal e dois de lazer. O primeiro dia do mês é sempre lua nova –
ou luausente, como eles a chamam– enquanto a luaplena –nos-
sa lua cheia– cai sempre quinze dias depois, no meio do mês.
A pequena diminuição na distância entre a Terra e o
Sol, relativamente ao que temos hoje, contribuiu para uma di-
latação dos períodos interglaciais, de clima ameno, e o encurta-
mento das idades do gelo, que nessa época são mais espaçadas
e menos rigorosas, fazendo de Periplaneta um local mais ajus-
tado à vida, apesar da perigosa incidência dos raios ultravioleta.

116
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Do mesmo modo, os fenômenos meteorológicos agres-


sivos que os humanos enfrentam com frequência, como ne-
vascas, furacões e tempestades destruidoras, são bem menos
intensos em Periplaneta. Pode-se dizer que em quase todo o
planeta predominam climas que variam entre o tropical e o
temperado ameno com estações bem marcadas. Nas latitudes
mais elevadas os invernos são frios, mas não rigorosos. Inun-
dações e secas desastrosas são desconhecidas dos ortópteros,
a não ser nas narrativas épicas dos mitos antigos. Os vulcões
são respeitados em seu poder ctônico e nenhum blatídeo ou-
saria residir nas proximidades de um vulcão ativo; isto seria
um desrespeito ao vulcão e à ordem natural das coisas. Em
sua maioria os grandes vulcões de Periplaneta estão distribu-
ídos pela imensa Cordilheira do Anel de Fogo que contorna
quase todo o Oceano Maior, em nossa época conhecido como
Oceano Pacífico.
A fauna e a flora do Quinquenário são constituídas de
espécies diferentes das atuais, porque quase todas aquelas exis-
tentes antes da Transição Ortóptera foram extintas. As novas
espécies têm como característica que mais as diferencia das
anteriores –além da morfologia geral– a presença de uma ca-
mada protetora contra os raios ultravioleta, tanto na membra-
na periocular como nas escamas e carapaças, nos élitros, na
pele ou no exoesqueleto dos animais (lembrar que agora predo-
minam os artrópodes) e também nas folhas e partes expostas
dos vegetais.
Os fungos desenvolveram-se muito mais do que na fase
anterior à Transição Ortóptera, principalmente a partir da
ação dos blatídeos que, na época em que viveu Dokt Bar Attón,
já os cultivavam por grosas de bigrosianos. Muitos sistemas
vivos capazes de provocar o fenômeno da bioluminescência
foram cultivados e aperfeiçoados, de modo que o mundo dos
blatídeos, funcionando principalmente à noite, era suavemente

117
DOKT BAR ATTÓN

iluminado por células bioluminescentes desenvolvidas a par-


tir de similares presentes em animais, plantas e inúmeras
espécies de cogumelos.
As necessidades domésticas de energia elétrica eram
supridas por células fotovoltáicas, que convertiam a energia
solar em eletricidade no próprio local em que esta seria utili-
zada. Parte dessa eletricidade era usada para acionar com-
pressores de ar, porque muitos equipamentos domésticos fun-
cionavam a ar comprimido, distribuído por tubulações e aces-
sível em tomadas. Mas a iluminação do interior dos habitáculos
era suprida principalmente pelos cogumelos fosforescentes dos
vasos, canteiros e jardins internos.
As metalúrgicas e usinas maiores que exigem muita
energia são sempre construídas nas vizinhanças de quedas
d’água, para o seu aproveitamento energético.
Contudo, caro leitor –ou gentil leitora– muitas outras
características da civilização blatídea terão que ser inferidas
a partir da leitura do texto, mesmo porque, sem ter escrito o
resto do livro, ainda não conheço muitas coisas a respeito des-
sas criaturas. O autor vai aprendendo sobre os blatídeos à
medida que escreve. É no processo da escritura que vêm che-
gando à mente do narrador informações provenientes de um
futuro remoto, fertilizando e fazendo brotar idéias latentes
em sua capacidade imaginativa.
Assim, quando você estiver lendo a história do Dokt
Bar Attón, esteja ciente de que está acompanhando passo a
passo a mesma sequência de revelações e descobertas que tanto
me espantaram enquanto escrevia. Agora mesmo, após intuir
as informações acima –inclusive sobre o uso da eletricidade e
do ar comprimido– estou sentindo um forte desejo, talvez in-
duzido, de interromper esta pausa, porque estou querendo
saber se Bar Attón e Bar Ouchel irão mesmo visitar os mântis
e como serão esses novos personagens.

118
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo #

O
amplo elenco de linhas de pesquisa que o Instituto
desenvolveu em menos de dois anos é realmente es-
timulante, pensou Bar Attón ao examinar o resumo
que Mz Scara Faggio deixara sobre a mesa. Uma decisiva
transdisciplinaridade era a característica mais singular nas
atividades do órgão que criara, marcando uma diferença acen-
tuada para as demais instituições científicas não só da pro-
víncia e do continente, mas de todo o planeta. O Instituto pas-
sou a ser o centro integrador de uma variedade de estudos e
pesquisas teóricas e de campo, muitas vezes realizadas por
outros órgãos que passaram a funcionar parcialmente sob sua
orientação, ou seja, sob a orientação de Bar Attón.
Dokt Bar Attón saboreava o nascimento de um novo
paradigma enquanto revia no monitor os relatórios setoriais
do Instituto. A eficiência de sua equipe produzira uma varie-
dade de projetos de pesquisa’ que agora começavam a mos-
trar os resultados positivos que mantinham aceso o interesse
da comunidade. Mas, além dos papéis e discos de computa-
dor, além dos registros de tudo aquilo que estava sendo feito,
o que mais lhe agradava era o clima mental de otimismo, a
força criadora de coisa nova e cheia de energia impulsionando

119
DOKT BAR ATTÓN

o crescimento, a descoberta e a emergência de novas sínteses


conceituais.
Ali, nas dependências e instalações do Instituto de In-
vestigação das Culturas Não-ortópteras, estava nascendo uma
nova era da sua própria civilização que emergia, paradoxal-
mente, a partir do estudo de uma outra civilização, talvez
muito diferente desta. E isto decorre, ponderava Attón, de duas
linhagens de fatos. Primeiro, a descoberta transcendental de
que os blatídeos não foram os primeiros a desenvolver uma
civilização tecnológica –e talvez espiritual; isto deslocava a
base mítica que sustentava as culturas ortópteras até então.
Segundo, a descoberta concomitante de que somente um ex-
tensivo e profundo entrelaçamento transdisciplinar tinha po-
der suficiente para conferir significação a algo intrinsecamente
novo, que emergia em variados campos do conhecimento. Isto
deslocava os pressupostos metodológicos que tinham prevale-
cido na ciência ortóptera por muitos grosianos.


A primeira linha de pesquisa (que começou a funcio-
nar antes mesmo que o Instituto fosse oficializado como insti-
tuição) foi a que passou a investigar as ruínas lunares. Esse
estudo começou, em diversas instituições, logo após o retorno
dos lunautas. De início, a Agência Espacial centrou-se no exa-
me e interpretação da vasta documentação trazida por eles,
mas, três meses depois do retorno da primeira missão, outra
missão foi à Lua para proceder a um extensivo levantamento
de quatro outros sítios de ruínas. A chamada opção 3 estava
em péssimas condições, quase inteiramente destruída e co-
berta de detritos provenientes da queda de um grande

120
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

meteorito em sua proximidade, mas um bom material foi re-


colhido em outros dois sítios.
O padrão das crateras de pequenos meteoritos encon-
tradas nas proximidades das ruínas permitiu datar a época
das missões precisamente na Transição Ortóptera, um dado
inestimável para dar suporte à teoria dos vivíparos. A
integração por computador das imagens holográficas obtidas
nas cinco ruínas visitadas permitiu uma reconstituição
tridimensional do tanque em forma de prisma octogonal so-
bre patas, que se repetia em todos os cinco lugares. Indiscuti-
velmente tratava-se do mesmo tipo de estrutura, da mesma
tecnologia, tudo da mesma época. Assim como as criaturas
presentes nessas missões seriam, obviamente, todas da mes-
ma espécie: bípedes, eretos e de quatro a oito dúzias de vezes
maiores do que um blatídeo médio. Isto coincidia perfeitamente
com os fósseis de endoesqueletos e os corpos congelados do
HSS, estes últimos encontrados a grande profundidade, em
gelos fósseis de regiões que não sofreram aquecimento desde
que os corpos ali tombaram, trigrosianos atrás. Outra impor-
tante confirmação de que o HSS seria o vivíparo civilizado do
Dokt Bar Attón eram as vestimentas que envolviam seus cor-
pos; os sistemas de fechamento, os detalhes e os materiais
utilizados não estariam ao alcance de criaturas que não dis-
pusessem de uma tecnologia desenvolvida.
Uma linha de pesquisa que de certa forma já existia
antes do episódio lunar era a que estudava os fósseis de ou-
tras espécies do Quaternário, mostrando a sua vulnerabilidade
aos raios UV. Agora, as pesquisas buscavam encontrar exce-
ções. Contudo, somente os ancestrais dos blatídeos –irracio-
nais, apenas instintivos e uma grosa de vezes menores que os

121
DOKT BAR ATTÓN

da linhagem atual– mostraram resistência à morbidade des-


sa radiação. O estrato geológico da Transição Ortóptera esta-
va claramente definido e a extinção então ocorrida registrava
o desaparecimento de 10& a 10# por grosa de todas as espéci-
es vivas de então.
Outra linha de pesquisa que já existia, embora não
direcionada para investigar diretamente a civilização vivípara,
era a dos levantamentos geoestratigráficos por satélite, que
mostrava locais onde havia evidências de revolvimento das
camadas geológicas e outros sinais de intervenção artificial.
Usualmente, tais locais formavam configurações que se pode-
ria atribuir a antigas cidades, das quais não restava outro
traço a não ser a ocorrência de blocos esparsos, muito
metamorfizados, do que poderia ter sido “concreto armado”.
Estes remanescentes às vezes apareciam junto a fragmentos
de rochas variadas, obviamente oriundas de locais distantes.
Eram traços ainda tênues, mas diversas equipes estavam pro-
cedendo a escavações em sítios onde outros indícios poderiam
ser descobertos. As pesquisas estavam agora se intensifican-
do numa área com essas características, em Amerikkana, e
também nas vastas planícies ao sul do Grande Continente.
Os exames que o Instituto de Paleocitologia vinha fa-
zendo nos tecidos e órgãos congelados do HSS eram
complementados por outros de instituições semelhantes, per-
mitindo conhecer com algum detalhe sua constituição biológi-
ca e deixando claro que eles teriam condições adequadas para
desenvolver uma civilização. A sua postura ereta, inclusive,
tinha algumas vantagens sobre a postura inclinada dos
ortópteros, fazendo-os assemelhar-se mais aos mântis. As ope-
rações do sistema nervoso de um HSS pareciam centralizar-

122
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

se num cérebro único que se prolongava numa só corda dorsal,


arranjo comum a quase todos os vertebrados, desde os peixes,
répteis e aves até os vivíparos de numerosas espécies. A dis-
secação dos corpos de HSS mostrara indícios de gânglios ner-
vosos secundários, mas, pelo seu pequeno tamanho relativa-
mente ao cérebro, não pareciam ter grande importância no
funcionamento geral do indivíduo.
Outros dados reunidos em torno da hipótese da civili-
zação vivípara eram relativos à evidência de extensiva mine-
ração do ferro, do cobre e do carbono fóssil. Os sítios arqueoló-
gicos desse tipo mostravam que a mineração era de estilo rude,
desconfigurando a morfologia das jazidas, que não chegaram
a ser explorados até a exaustão, muitas delas permanecendo
ainda com grandes quantidades de minério. A suposição de
Bar Attón era que a extinção dos HSS teria ocorrido antes do
esgotamento dessas jazidas.
O Instituto de Investigação das Culturas Não-
ortópteras estava fazendo um extensivo cadastramento e
mapeamento temático dos dados relativos à época da Transi-
ção Ortóptera. A esta altura podia-se dispor de uma boa
reconstituição do planeta naquele horizonte, com sua topo-
grafia e geologia de superfície, a configuração dos continen-
tes, dos oceanos e de algumas ilhas maiores. Um particular
interesse era dedicado às regiões que, no tempo decorrido en-
tre o HSS e os blatídeos, não tivessem sofrido alterações geo-
lógicas catastróficas e não foram submetidas a movimentos
orogênicos, como ocorreu em quase toda a periferia do Oceano
Maior, há cerca de três trigrosianos, dando origem à maior de
todas as cordilheiras do planeta. As áreas que não sofreram
grandes alterações, inclusive pela ação recente dos blatídeos,

123
DOKT BAR ATTÓN

passaram a ser o campo preferencial para as pesquisas ar-


queológicas.
Dokt Bar Attón deixava-se envolver em devaneios e
exercícios de imaginação enquanto olhava repetidas vezes cada
mapa hidrográfico, geomorfológico ou fitogeográfico, cada con-
figuração continental, cada sítio onde grandes cidades pode-
riam ter-se estabelecido. Desde que Bar Ouchel retornara à
sua província, ele vinha procurando intensificar seus exercí-
cios de imaginação dirigida e sua prática de sonhos e devanei-
os controlados. Os resultados eram ainda escassos, mas Bar
Attón era persistente em seus objetivos e esperava atingir em
breve um limiar crítico, a partir do qual os progressos seriam
mais rápidos. Na visita aos mântis ele precisaria estar bem
preparado no domínio de seus recursos mentais, para melhor
receber deles o que certamente haveria de vir.

124
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

Capítulo 10

K
oo Karashi, a cientista Ania Marque e Scara Faggio
entraram rindo. Dokt Bar Attón, em sua rede, teve
que interromper o fio de pensamento para dar aten-
ção a essas fêmeas, tão próximas e tão queridas. “E tão lin-
das” –pensou, agradecendo intimamente à Ordem Invisível
por ter colocado a seu lado, nesta vida, criaturas tão adorá-
veis como elas. Vinham de um espetáculo de dança espontâ-
nea, excelente, disseram.
–Dokt Bar Attón, há muito tempo que você não sai para
um teatro, um concerto ou show multimeios, não é? Não lhe
incomoda ficar tão confinado ao seu trabalho e a suas medita-
ções? Não gostaria de ir ver esta apresentação do Karaluch
comigo, Ania ou Koo Karachi? Você vai gostar, tenho certeza.
Ele está maravilhoso!
–Se você quiser, iremos nós quatro, ou até convidaría-
mos uma pequena turma...
–Não, minhas queridas. Agradeço o interesse de vocês,
mas prefiro manter a continuidade nas minhas linhas de in-
vestigação. Sei que Karaluch é um grande artista e que ele
está cada vez melhor. Mas vou ficar trabalhando e
aprofundando minha pesquisa. Está muito emocionante... e

125
DOKT BAR ATTÓN

vocês sabem que é uma pesquisa que se desenvolve em gran-


de parte no meu íntimo, não é? Não posso nem quero desper-
diçar energia psíquica em outras atenções.
–Ora, Attón, não será um espetáculo de duas horas que
vai desmontar suas linhas meditativas. Eu, Koo e Scara va-
mos levar você ao SEUREK KOLOSS, amanhã. É preciso ventilar
os neurônios!
–Vocês são maravilhosas e vejo que só querem solida-
rizar-se. Realmente, eu aprecio muito a companhia de vocês;
gosto de estar junto com qualquer de vocês ou com duas ou,
melhor ainda, com as três. Mas no momento não estou com
nenhum interesse em receber informações de fora. A intensi-
dade da sintonia subjetiva está forte e por enquanto não há
conveniência em dispersar esforços. Isto para mim está claro,
especialmente porque sei que se trata de uma situação tran-
sitória, embora não saiba dizer por quanto tempo ainda vai
ficar assim. Estou vivendo um momento muito especial e te-
nho que me concentrar no que ocorre a cada passo. Vocês com-
preendem?
Um pouco desapontadas, as três amigas não insisti-
ram. Elas o conheciam o suficiente para saber que isso de
nada adiantaria e que seria uma impertinência tentar. Ao sair
comentaram que o Bar Attón era de fato uma figura excepcio-
nal.
–Um espírito criador fora do comum, destes que têm
poder suficiente para empurrar toda a psique do planeta em
direção a um novo patamar de entendimento das coisas.
–Empurrar, não, Ania. Eu vejo mais como um puxar.
Bar Attón puxa os outros para o lugar onde ele já está –corri-
giu Koo Karashi.

126
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

–Espíritos como o de Dokt Bar Attón só aparecem de


grosiano em grosiano –sintetizou Scara Faggio.


Um dos temas que estavam ocupando algum espaço
mental de Bar Attón, ultimamente, era a escolha de quem
iria aos mântis com ele e Bar Ouchel. Seria muito interessan-
te para a fase operacional da rede intersubjetiva que um dos
seus componentes fosse seu auxiliar direto. Alguém que esti-
vesse em sintonia fina com ele e com seu método de investiga-
ção, que conjugava os fatos oriundos das pesquisas com seus
recursos de introspecção intuitiva. E que estivesse num pata-
mar de conhecimento e sabedoria compatível com uma pro-
veitosa visita aos mântis. A cada despacho com seus assisten-
tes, que eram também coordenadores setoriais e elementos
de contato com outras instituições, Bar Attón buscava aprumar
suas antenas e aguçar a percepção para detectar algum avan-
ço recente na visão de mundo desses auxiliares, algo que os
credenciasse a participar da missão.
Duvilen Ddu deixara suas atividades acadêmicas na
Universidade de Bakkerstor para engajar-se na investigação
dos vivíparos. Era um grande amigo e tinha motivações al-
truístas bastante definidas, mas não respondia com clareza
às emissões de Attón, quando este procurava testar sua capa-
cidade de ressonância e recepção. Desenvolver isto seria mais
fácil agora que estava trabalhando como seu assistente pes-
soal, mas levaria anos para que resultados consistentes fos-
sem observados.
Czótány era rigoroso na seleção e organização dos fa-
tos objetivos; um excelente auxiliar de engenharia do conhe-

127
DOKT BAR ATTÓN

cimento. Tinha grande acuidade de percepção e dificilmente


lhe escaparia algum dado importante ocultado pelo excesso
de fatos irrelevantes em sua periferia. Tinha aspirações na
vida ajustadas à satisfação de ser útil à comunidade científi-
ca e à alegria de montar um sistema coerente que funcionas-
se corretamente. Mas não tinha aquela sede de descobrir o
novo e sintetizar o inesperado, aquele toque de gênio que ca-
racteriza um espírito realmente inovador.
Hlebarka, Kak Kalakki, Prussakas, Ania Marque,
Kakaoen e outros auxiliares de excelente qualificação técnica
e boa estatura ética falhavam em aspectos íntimos. Que se
poderia resumir em falta de sintonia fina com a Ordem Invi-
sível, no sentido de que deixavam-se conduzir pelo fluir da
vida, mas ainda de forma pouco consciente. Isto é muito co-
mum entre os cientistas puros que não se aproximam do limi-
ar filosófico, ponderou Dokt Bar Attón durante um despacho
com Hlebarka.
Um despacho em que ele vinha comunicar um achado
arqueológico interessantíssimo. Hlebarka era cosmobiólogo,
mas Bar Attón o colocara como líder das pesquisas arqueoló-
gicas do Instituto.
–Attón, o sítio próximo ao norte do Oceano Médio, o
Sítio 1, a leste de Amerikkana, tem-se mostrado o mais inte-
ressante e rico de informações, até agora. Os achados de cam-
po têm correspondido, e até superado, as expectativas
sugeridas pelos levantamentos orbitais e aéreos. É uma área
que permaneceu em grande parte sem alterações significati-
vas desde a Transição Ortóptera, e nela encontramos muitas
configurações que permaneceram em boas condições: túneis
imensos, espaços de cavernas e construções subterrâneas re-

128
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

pletas de resíduos decompostos de variadas origens. Embora


quase tudo esteja desintegrado pelo tempo e reduzido a subs-
tâncias estáveis, como óxidos de metais e carbonatos diver-
sos, pelo menos ficamos sabendo que os conteúdos dessas cons-
truções subterrâneas eram muito diversificados. Há traços de
elementos químicos incomuns, que não poderiam estar ali se
não fossem trazidos intencionalmente. Isto é outro forte indí-
cio de que essas cavernas são de origem artificial. Só uma
civilização poderia manipular tal variedade de substâncias,
prováveis componentes de artefatos hoje reduzidos a pó.
–Excelente seu trabalho, Hlebarka. E as equipes de
empreiteiros, estão funcionado bem? Além dos bons resulta-
dos obtidos, como vai o estado de espírito dos grupos de traba-
lho?
–Bem, muito bem. Além de um simples interesse, te-
nho observado que há entusiasmo em todos os níveis de tra-
balho. Estou satisfeito e creio que logo teremos descobertas
mais significativas a registrar.
–Mas você anunciou que já tinha algo muito interes-
sante para mostrar. O que é?
–É um achado que, ao meu ver, pode ser a prova que
faltava para confirmar a civilização vivípara. É o conteúdo do
“grande cofre”, de que tinha lhe falado. Não foi encontrado no
Sitio 1 nem nas suas proximidades e sim a grande distância
para o oeste, no interior do continente. Você se lembra do enor-
me bloco quadrado de concreto, aparentemente maciço, que
foi localizado por satélite e que depois das escavações desco-
brimos que era oco? É aquilo.
–Muito suspeito, não? Retangular, aparentemente
maciço pela grande espessura de suas paredes, e depois mos-

129
DOKT BAR ATTÓN

tra-se oco. Certamente uma construção dos vivíparos. Que


mais vocês acharam, que torna esse item interessante? Con-
seguiram penetrar nele?
–Entramos, dois dias atrás. O que encontramos achei
melhor trazer ao seu conhecimento, antes de divulgar. Você é
o primeiro a tomar conhecimento do seu conteúdo, além da
equipe diretamente envolvida na operação. Acho que os
vivíparos podem ter sido civilizados, mas tinham também
curiosas peculiaridades. Alguma forma de crença, ou culto,
que precisa ser entendido, interpretado; e ninguém melhor
do que você...
–Mas o que é que vocês encontraram dentro desse
supercofre?
–Ouro, Bar Attón. Uma quantidade incrível de barras
de ouro. Muito mais do que se poderia obter atualmente em
todas as jazidas de Periplaneta. Parece que eles recolheram
todo o ouro que puderam encontrar, fundiram-no em barras e
armazenaram tudo num enorme cofre. Um metal sem resis-
tência mecânica, muito pesado e quase inútil. E raríssimo,
pelo menos em nossos dias. Para que teriam feito isso?
–Interessante... Mas só havia isso, lá dentro?
–Montes de pó de objetos desintegrados que talvez fos-
sem aparelhos, equipamentos ou algo assim. Manchas espes-
sas no chão, de coisas que o tempo derreteu, e um grande tubo
fechado de titânio que também já constatamos que é oco, mas
ainda não encontramos como abri-lo.
–Se esse tubo estava no interior do cofre, é possível
que represente ou contenha algo de precioso sobre os vivíparos.
Examine cuidadosamente se é possível abri-lo. Ou melhor,
providencie trazê-lo para o Instituto; aqui veremos o que fa-
zer. Quanto ao estoque de ouro me parece interessante essa

130
Primeira parte - OS BLATÍDEOS

descoberta, porque as características do depósito blindado


sugerem que, para eles, o ouro teria sido algo de grande valor,
sujeito a alguma forma de veneração ou culto. Pela sua rari-
dade e estabilidade química, mesmo após bigrosas de
grosianos, pela sua cor brilhante e grande peso, é possível
que para os HSS o ouro fosse algo de sagrado, apesar da sua
inutilidade.
–E, se havia alguma forma de culto, é possível que tam-
bém o tubo de titânio tenha algum significado simbólico, uma
representação de algo sagrado. Aliás, não é bem um tubo; na
verdade, é um elipsóide alongado, como um grande ovo, de
comprimento muito exagerado.


Mais tarde, nessa mesma noite, comunicou-se com Bar
Ouchel pelo face-a-face. O poeta tinha algo a dizer sobre a ida
aos mântis.
–Caro amigo, estive pensando sobre o terceiro mem-
bro do grupo para nossa visita aos mântis. Tenho acompanha-
do suas dúvidas e restrições a respeito de seus auxiliares e
compartilho a sua dificuldade. Mas tenho uma sugestão para
lhe fazer. Alguém que você ainda não pensou e que talvez re-
úna as qualificações necessárias para nos acompanhar. E que,
depois do retorno, lhe poderá proporcionar o apoio necessário
para garantir a eficiência da rede.
–Alguém que eu não tinha pensado? Mas já examinei
todos meus auxiliares diretos, Bar Ouchel. Trata-se de alguém
mais afastado?
–Não, meu caro. Trata-se alguém mais próximo de você
que seus auxiliares diretos.

131
DOKT BAR ATTÓN

–Não me diga que você está pensando em...


–Isso mesmo! Scara Faggio. Que acha?
–É curioso que eu não tenha pensado nela. Mas esta
idéia é um achado. Ela tem ressonâncias comigo em sintonia
fina!
–E, além de muito inteligente e sensível, conhece o tema
dos HSS como poucos. Percebo que ela estuda tudo que lhe
chega às mãos, não é verdade?
–Isto mesmo. Scara às vezes me surpreende, ao mos-
trar num simples comentário que está bem afinada com tudo
que diz respeito aos vivíparos...
–E afinada espiritualmente com você; isto é que me
parece o principal.
–Perfeito, Bar Ouchel, acho que você foi direto ao alvo.
Vou falar com ela logo depois que comunicar a Koo Karashi
que também vai achar a idéia excelente, tenho certeza.

132
SEGUNDA PARTE

OS MÂNTIS
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 11

A
viagem até Khonfessa, na costa oriental do Grande
Continente, durou doze dias. E ainda se prolonga-
ria além disso, se os dois amigos tivessem atendido
às sugestões de Scara Faggio para ficar mais algum tempo
nos lugares onde fizeram escalas. Contornando o Oceano Maior
pelo litoral a sucessão de montanhas nevadas parecia nunca
terminar. Na barquinha do aéreo, protegidos do Sol pela gran-
de ampola de gás, os viajantes assistiam a um deslumbrante
desfile de paisagens e caprichosas formações litorâneas, ten-
do altas montanhas como pano de fundo, neves e escarpas
que se alternavam com vales verdejantes. Às vezes, voando
baixo, o espetáculo era as longas praias brancas vez em quan-
do interrompidas pelas enseadas tranquilas emolduradas por
bigrosas de cogumelos de cores e padrões variados, onde os
blatídeos podiam se banhar.
Se quisessem chegar antes, poderiam ter optado por
uma viagem de torpedo que faria o mesmo percurso em ape-
nas três dias, com escalas em duas ilhas oceânicas. Mas num
torpedo não se tem a beleza dos panoramas desfrutada de um
aéreo. Além disso, eles não tinham pressa e Bar Ouchel já
dissera que –a viagem é o destino; o destino é a viagem.

135
DOKT BAR ATTÓN

–Dokt Bar Attón, sou-lhe muito grata pelo convite para


participar desta excursão. Na verdade, nunca esperei por isto
havendo tantos na equipe do Instituto que melhor se ajusta-
riam a esta missão. Assim como não podia imaginar que as
paisagens e os lugares que estou conhecendo seriam tão be-
los. Sinto que este é um dos melhores momentos da minha
vida e espero saber aproveitar da melhor forma tudo que es-
tou recebendo.
–Não me agradeça, Scara. A sua escolha foi espontâ-
nea e não representou um privilégio em detrimento de ou-
tros. Você viu como todos ficaram felizes quando anunciei que
você viria. Koo Karashi chegou a dizer que já tinha pensado
em você como a companhia ideal para Bar Ouchel e para mim.
Desfrute o momento, viva o agora e não deixe sua mente ocu-
par-se em imaginar outras alternativas para o que está acon-
tecendo. A vida é feita do que efetivamente ocorre e não do
que poderia ter sido, se de outro jeito fosse. Olhe que cachoei-
ra! Como é alta!
–Belíssima! E caindo diretamente no mar!
–Não é uma delícia viajar de dia? Dá para se ver muito
mais, na distância. Mas a sequência de montanhas e encostas
escarpadas não nos deixa dormir... Ah! Não dá para interrom-
per a leitura desta infindável escrita sem palavras, não é? Os
picos nevados, os vulcões fumegantes e os vales coloridos são
uma escritura narrando a história do mundo e da vida. Será
que poderemos, mais adiante, decifrar tudo isto? Entender
profundamente os mistérios da natureza, o porquê de cada
escarpa e a razão de ser de cada sombra? A natureza guarda
significados insuspeitados.
Bar Ouchel contemplava embevecido o desfilar da Cor-
dilheira diante dos seus olhos e tentava compreender tudo,
numa avidez calma de tudo absorver com seus gânglios emo-

136
Segunda parte - OS MÂNTIS

cionais de poeta. Scara Faggio não desviava o olhar do pano-


rama que deslizava ao longe. Ou também mais de perto, quan-
do o aéreo se aproximava de alguma formação mais pitoresca.
Mas o sentimento e a emoção de Bar Attón –ah!– estes, nem
mesmo ele poderia dizer até onde iriam quando a beleza o
impulsionava para além da superfície das coisas.
Pousaram em diversas localidades, saíram e conhece-
ram indivíduos e paisagens, costumes curiosos, os cantos e
danças de cada lugar, novas espécies de borboletas e grandes
besouros de élitros dourados, vaga-lumes piscando à noite em
códigos de luz que nunca tinham visto. Visitaram encostas
floridas e campos cultivados, fazendas de térmites e de pul-
gões, plantações de cogumelos raros, sentindo a brisa frouxa
do mar e o frio do norte que a cada nova escala aumentava-
lhes a vibração compartilhada de um indizível prazer. Num
desses passeios pelos arredores de uma aldeia costeira, ao
desfrutar a vastidão do oceano e o cântico das flores, Bar
Ouchel não se conteve e recitou:
Se a natureza pródiga suspira,
ouve-se um vento que silencioso
desperta as vozes de todos os seres.
Já não escutas o rumor das cores?
Em Khonfessa permaneceram mais um dia conhecen-
do o exótico lugar e puxando conversa sobre os mântis, os
vivíparos e a excursão que faziam. Observaram que os habi-
tantes locais eram reservados e, apesar de visivelmente feli-
zes, não demonstravam apreciar uma conversa prolongada.
Falavam pouco e, em silêncio ou assobiando baixinho, cuida-
vam das suas tarefas.
Na hospedaria foram informados que o veículo somen-
te os poderia levar até o fim da estrada, uma distante colônia

137
DOKT BAR ATTÓN

de retiro e meditação a meia encosta da serra. O último lugar


habitado antes do mosteiro. Daí em diante seriam mais al-
guns dias de caminhada por uma trilha pedregosa, fria e de-
serta.
–E cada vez mais íngreme! –enfatizou a recepcionista,
como que tentando demovê-los da idéia de prosseguir.
Bar Attón, Bar Ouchel e Scara Faggio estavam prepa-
rados. Ao descerem do veículo, nas imediações da solitária
colônia de retiro, afivelaram às costas suas mochilas de
andarilhos e contemplaram do alto o magnífico vale que fica-
ra para trás, desdobrando-se em outros, e outros, intermina-
velmente. Mas seu destino não era os vales e sim a trilha
árida e estreita que serpenteava subindo e descendo pelas
vertentes, onde outros vales estariam escondidos.
–O destino é a trilha e a trilha é o destino –cantarolou
Bar Ouchel abraçando Scara, ao iniciarem a caminhada. Le-
vando seus guarda-sóis e devidamente protegidos das botinas
às boinas, das luvas aos óculos escuros, teriam que caminhar
durante o dia; na segunda semana do mês ainda não havia
luar para uma marcha segura nas horas mais agradáveis da
noite.
Quando um blatídeo leva uma mochila de viagem não
pode voar; ela é afivelada nas costas por cima das asas impe-
dindo seu movimento. Isto não incomoda, se o peso da mochi-
la não for excessivo, mas torna muito perigosa a possibilidade
de queda num precipício, quando as asas seriam providenci-
ais. Mas nenhum dos três pensava em quedas ou acidentes.
–Não pensar nessas coisas é o primeiro recurso para
evitar que ocorra algo assim –advertiu Attón. Andaram du-
rante todo o dia num frio cada vez maior, sentindo alguma
dificuldade com o ar rarefeito das alturas. A paisagem varia-
da era complementada pelo canto das borboletas e das libélu-

138
Segunda parte - OS MÂNTIS

las da serra que os acompanhavam, aos casais ou em peque-


nos bandos.
Ao cair da noite, fatigados, após contornar uma ponta
de rocha que avançava sobre uma curva do caminho, despon-
tou num pequeno vale semi-encoberto pela espessa neblina
um grupamento de cogumelos verdes que escondiam alguns
habitáculos sob as abas luminosas. Blatídeos, vivendo longe
da civilização, formavam uma singela aldeia isolada, quase
um lugar de fantasia das histórias infantis. Aproximaram-se
e pouco depois apareceram dois deles. Ficaram a pequena dis-
tância com as antenas aprumadas, olhando fixamente os ines-
perados visitantes. Eram idosos e moviam-se devagar, quase
com solenidade. Por gestos convidaram os andarilhos para
entrar num dos habitáculos. Pareciam viver isolados naquela
aldeia por muitos grosianos.
–Você é Dokt Bar Attón, não é? Já o conhecemos pela
televisão.
–Sim. Estes são meus amigos Scara e Bar Ouchel.
Estamos a caminho do mosteiro de Per-shep.
–Meu nome é Schabe e esta é Raimunda, minha com-
panheira. Raramente ligamos a televisão, mas desde a mis-
são à Lua estamos mantendo contatos mais frequentes com o
mundo. Soubemos da sua descoberta e achamos que você vi-
ria visitar os mântis. E intuímos que escolheria o mosteiro de
Per-shep. Já os esperávamos.
Ele falava fazendo pausas entre as frases. Isto dava
uma singular respeitabilidade ao que dizia.
–Foi esta a orientação que recebemos dos mântis, por
via telepática.
–Vejo que estão cansados. Tirem as mochilas e repou-
sem. Depois tomaremos uma sopa. Sejam bem vindos à nossa
aldeia.

139
DOKT BAR ATTÓN

Schabe apresentou os vizinhos que apareceram depois


do jantar para conhecer os viajantes. Também eram idosos e,
sem mostrar interesse ou curiosidade, pouco depois se afasta-
ram. Por trás de um olhar parado e impenetrável, Schabe
parecia preocupado.
–Deve ser raro aparecerem viajantes por aqui, não é?
–perguntou Scara.
–Muito raro. Muito raro mesmo.
–Ainda fica longe, o mosteiro?
–Mais um dia de caminhada daqui. Se tudo correr bem.
–E haveria alguma razão para que algo não corresse
bem? –perguntou Attón.
–Não. Nenhuma razão. Tudo correrá bem. Vocês têm
algum receio?
–Não. Não temos. Mas você me parece preocupado. Ou
seria uma falsa impressão minha?
Bar Ouchel captava algo na mente do velho aldeão e
tentou descobrir o que seria. Depois de uma pausa mais lon-
ga, tendo encarado cuidadosamente cada um dos
interlocutores, ele falou.
–Estou preocupado, sim, mas não por vocês. Ou por
nós.
–Algo a ver com os mântis?
–Também não.
–Você não quer falar sobre isto?
–Não, não quero me estender sobre isto. Mas posso lhes
dizer que estou preocupado com o fluxo do tempo. A sua des-
coberta, Dokt Bar Attón, pode ser muito perigosa para tudo e
para todos. É o que sinto. Tenha muito cuidado com o fluir do
tempo. É só o que lhe digo. Mas não me peçam para falar
sobre isto. Estejam à vontade para repousar. Se precisarem
de alguma coisa, me chamem.

140
Segunda parte - OS MÂNTIS

Os viajantes entreolharam-se, sem entender. Depois


acomodaram-se para dormir.
Na manhã seguinte partiram bem cedo para outra ca-
minhada diurna. Uma caminhada mais cansativa que a do
dia anterior, porque a trilha agora era mais íngreme, mais
áspera e mais agreste, em estreitos socalcos entre os paredões
de pedra semi-encobertos pela neve e os profundos precipíci-
os. Mas a jornada no frio parecia se aproximar do fim. Seria o
mosteiro aquecido?
O Sol declinava no horizonte quando viram que um
pico nevado, daqueles que já tinham vislumbrado de longe,
agora despontava bem próximo, surgindo dentre as neves do
caminho no meio de uma neblina azulada. E viram que, na
verdade, este não era um pico. Era uma imensa pirâmide
engastada no topo da montanha, emergindo das neves eter-
nas. Uma enorme construção de seres inteligentes cuja ver-
dadeira dimensão seria difícil de estimar, pela ilusão criada
por suas faces planas e alvas como a neve de onde brotavam,
inclinadas e rigorosamente lapidadas, com as arestas
retilíneas e convergentes para o vértice lá no alto. O Mosteiro
de Per-shep. Suas faces lisas estavam na inclinação exata para
que a neve não se acumulasse sobre elas. A sua brancura per-
feita imitava com perfeição as neves eternas do cenário con-
tra o céu azul escuro arroxeado. Como foi possível construí-lo,
naquelas alturas quase inacessíveis?
Os três viajantes aproximaram-se devagar da austera
entrada, no final da trilha pedregosa. Acima do pórtico de pe-
dra, a inscrição. Em caracteres antigos, mas compreensíveis:

OH TEMPO E TUAS PIRãMIDES

141
DOKT BAR ATTÓN

142
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 12

I
mpaciente pela demora em ser atendido o Ministro
Elcimar Boss aceitou a revista que a recepcionista lou-
ra lhe ofereceu e que acabara de chegar pelo fax. “Óti-
ma. Um pau de mulher! Ah essas americanas...” Era intolerá-
vel que isto acontecesse num país que tradicionalmente tinha
todo respeito pelo tempo do cidadão. E, com maior razão, quan-
do se tratava do representante oficial de um país amigo que
trazia uma proposta de óbvio interesse da União Estados Uni-
dos-Canadá: uma promoção cultural das mais oportunas, con-
forme a própria Presidente Lizzie havia declarado em sua vi-
sita ao Brasil, no Carnaval passado. “Delícia, a fragilidade da
calcinha dessa recepcionista. E que perfeição de glúteos!”
Não dava para entender porque a Secretária de Entre-
tenimento e Cultura cometia tal desatenção, se desde o início
da semana anterior este encontro já estava agendado para as
nove horas de hoje. “Sim, isto é muito irritante, mas deve haver
alguma razão para este atraso. E tem que ser uma razão sé-
ria, porra! E as funcionárias que circulam rebolando pelo cor-
redor, entrando e saindo de misteriosas portas, nem sequer
tentam arrumar uma desculpa para a demora. Essas ameri-
canas gastam tudo em remodelação corporal; o volume da-
quela boceta está obviamente incrementado... e a cinturinha
dela é quase impossível de fina. Ou então esta garota é um

143
DOKT BAR ATTÓN

clone. Quase dez horas! O jeito é engolir a aporrinhação e fo-


lhear a revista... Se não fosse esta louraça...”


ZAPPING ON MAG. July/13/2037. WHAT’S NEW ON THE
SPOT.
“Teria saído o release?”

A M C D ONEWELL ANUNCIA QUE UMA VARIEDADE DO
FITOPLÂNCTON TRANSGÊNICO RESISTENTE AO ULTRAVIOLETA ESTÁ SEN-
DO TESTADA PARA ÁGUA SALGADA E QUE O REPEIXAMENTO DO MEDITER-
RÂNEO PODE-SE TORNAR UMA REALIDADE NOS PRÓXIMOS ANOS. “O SU-
CESSO DO PEIXAMENTO DO LAGO CONGO COM PLÂNCTON E ALEVINOS
RESISTENTES NÃO SERÁ UMA EXPERIÊNCIA ISOLADA”, DECLAROU NEL-
SON MCBILLY, DO DEPARTAMENTO DE PESQUISAS DA MCDONEWELL.
“E JÁ PODEMOS PENSAR NA RECUPERAÇÃO DOS OCEANOS, O QUE PODE-
RÁ OCORRER ATÉ 2050”, ACRESCENTOU.
–Quem quiser que acredite –riu o Ministro, ante o olhar
curioso da loura.

O PRESIDENTE JEAN-JOU LAPIN PRETENDE APELAR À CIRR
PARA INTERVIR NO PROBLEMA DOS REFUGIADOS. “JÁ CEDEMOS QUASE A
METADE DO TERRITÓRIO FRANCÊS E ELES CONTINUAM CHEGANDO. VÍ-
VERES E MEDICAMENTOS ESGOTAM-SE EM DEZ DIAS E NÃO TEMOS MAIS
OURO NEM OBRAS DE ARTE SUFICIENTES PARA PAGAR NOVOS PEDIDOS”.
O PRESIDENTE FRANCÊS DISSE QUE IRÁ A WASHINGTON NA PRÓXIMA
QUINTA-FEIRA, 16, EXPOR À PRESIDENTE LIZZIE A SITUAÇÃO DRAMÁTI-
CA DOS REFUGIADOS. “NÃO QUEREMOS TER O MESMO DESTINO DA
ESPANHA”, DECLAROU IRRITADO EM ENTREVISTA NA RTF, HOJE PELA
MANHÃ.

144
Segunda parte - OS MÂNTIS

A DINAMARCA RESISTE À PROPOSTA DE AMPLIAR MAIS UMA VEZ


OS DEPÓSITOS DE RESÍDUOS NUCLEARES NO INTERIOR DA GROENLÂNDIA.
“CONTUDO, PODEREMOS EXAMINAR ESTA POSSIBILIDADE NUM CONTEX-
TO DE AMPLA RENEGOCIAÇÃO DA NOSSA DÍVIDA EXTERNA” DECLAROU
ONTEM, EM NATAL, O PRÍNCIPE HAMLEAST, HERDEIRO DO TRONO DINA-
MARQUÊS. “O FATO DE A DINAMARCA SER HOJE UM PAÍS TROPICAL NÃO
QUER DIZER QUE TENHAMOS ABANDONADO NOSSAS POSSESSÕES DE CLI-
MA POLAR”, DISSE, RESPONDENDO A UM REPÓRTER QUE LHE PERGUN-
TOU “PARA QUE SERVE A GROENLÂNDIA?”


“AS LOURAS ESTÃO EM ALTA OUTRA VEZ”, ANUNCIA UM PORTA-
VOZ DO MONS VENERIS PARADISE, DE ATLANTA, O MAIOR PARQUE DE
RECREAÇÃO SEXUAL DO MUNDO. “DEPOIS DE QUASE DEZ ANOS DE DECI-
DIDA PREFERÊNCIA PELAS MORENAS E RUIVAS, PARECE QUE O MITO DA
DEUSA LOURA RECONQUISTOU SEU ANTIGO PRESTÍGIO”, OBSERVOU. “A
PROCURA PELOS CLONES DE LOURAS CLÁSSICAS, COMO MARILYN MONROE
E KIM NOVAK, TEM SUPERADO AS ENCOMENDAS DE MODELOS ATUAIS,
COMO BABY CHERRY E LOUISE DERRIÈRE. A BIOGENETIC LADIES JÁ
RECEBE MAIS DE 200 PEDIDOS DE MARILYN MONROES E 120 DE BABY
CHERRIES POR MÊS, NÃO SÓ DE CENTROS DE LAZER SEXUAL COMO TAM-
BÉM DE CONSUMIDORES PARTICULARES”. E ACRESCENTOU QUE O NOBRE
SAUDITA SHEIK HAZZYM ADQUIRIU NO MÊS PASSADO QUINZE MARILYNS
DE ÚLTIMA GERAÇÃO, A 850 MIL DÓLARES CADA. “SÃO PARA PRESENTE-
AR AMIGOS” FOI O QUE DECLAROU.
“Esta é boa” –entusiasmou-se Boss, em pensamento–
“Tenho que arrumar um jeito de dar um pulo em Atlanta, an-
tes de voltar para Brasília.”

A PREFEITURA DE NOVA YORK APROVOU EM CARÁTER DE UR-
GÊNCIA O PROJETO DA NOVA AMPLIAÇÃO DO METROPOLITAN MUSEUM
OF ART PARA ABRIGAR OS ACERVOS DO LOUVRE E DO HERMITAGE, DEN-

145
DOKT BAR ATTÓN

TRO DO PROGRAMA DE PRESERVAÇÃO DAS OBRAS DE ARTE DA HUMANIDA-


DE. O LOUVRE SERÁ TRANSFERIDO COMO PARTE DO PAGA-
ACERVO DO
MENTO DA DÍVIDA DA FRANÇA E O DO HERMITAGE PELA IMPOSSIBILIDA-
DE DE MANTÊ-LO ESTOCADO EM BOAS CONDIÇÕES EM SÃO PETERSBURGO
OU MOSCOU, HOJE DESABITADAS. A AMPLIAÇÃO DO METROPOLITAN
OCUPARÁ “UMA ÁREA SEM MAIOR INTERESSE” DO CENTRAL PARK, E DEVE
TRIPLICAR SUA CAPACIDADE, JÁ PREVENDO A TRANSFERÊNCIA DOS MU-
SEUS DO VATICANO, FLORENÇA E MILÃO, ORA EM NEGOCIAÇÕES COM O
GOVERNO DA ITÁLIA.


OS RUMORES DE FUSÃO DA RATTHER ON COM A VENUSBERG
PARADISES E A SULAMERICANA OTHER BREASTS DESPERTAM PREOCU-
PAÇÃO NOS MEIOS FINANCEIROS EM NOVA YORK. SAUL DAVID SOLOMON,
PRESIDENTE DO IBT –INTERNATIONAL BANKERS TRUST– DISSE NA
REUNIÃO DE ONTEM DA AAB QUE ESSA FUSÃO DEVE SER VETADA PELOS
ÓRGÃOS REGULADORES DA ECONOMIA MUNDIAL PORQUE “IRIA CRIAR UM
GIGANTE DE PODER INCONTROLÁVEL” NO SETOR DE PUTARIA, HOJE RA-
TEADO ENTRE TRÊS CORPORAÇÕES: A VENUSBERG, A OH YES! E A OTHER
BREASTS, QUE “AINDA MANTÊM UM CERTO EQUILÍBRIO” NO MERCADO
INTERNACIONAL DE RECREAÇÃO ERÓTICA. “A INJEÇÃO DE TECNOLOGIA
PSICOTRÔNICA NAS OPÇÕES DE LAZER SEXUAL , PRETENDIDA PELA
RATTHER ON, NÃO SERÁ ABSORVIDA FACILMENTE PELO MERCADO ERÓ-
TICO, DE CARACTERÍSTICAS RELATIVAMENTE CONSERVADORAS”, DECLA-
ROU SOLOMON.
“Ah aqui está!”

ELCIMAR BOSS, MINISTRO DA CULTURA E FUZARCA DO GOVER-
NO BRASILEIRO, ESTARÁ HOJE EM WASHINGTON APRESENTANDO O PRO-
JETO DE CARNAVALIZAÇÃO URBANA, DESENVOLVIDO E TESTADO EM SEU
PAÍS. A PRESIDENTE LIZZIE POWERS, QUANDO EM VISITA AO BRASIL EM
FEVEREIRO PASSADO, DECLAROU-SE FAVORÁVEL À IMPLANTAÇÃO DE UM

146
Segunda parte - OS MÂNTIS

PROGRAMA EQUIVALENTE PARA AS MAIORES CIDADES DA UEUC, VISAN-


DO AMPLIAR AS OPÇÕES DE LAZER ATIVO PARA OS AMERICANOS E AMERI-
CANAS DE RENDA MÉDIA, HOJE ABATIDOS PELAS CONSEQUÊNCIAS DIÁRI-
AS DAS CONDIÇÕES ADVERSAS QUE O PLANETA VEM ATRAVESSANDO. SÃO
FAIXAS DE RENDA QUE NÃO TÊM ACESSO AOS CENTROS DE RECREAÇÃO
ERÓTICA EM FACE DO ELEVADO CUSTO...


–Ministro, por favor. A Secretária o espera.
“Finalmente” –suspirou, mirando a esplendorosa bun-
da da recepcionista que sobrava da calcinha de renda cor de
vinho, enquanto ela gentilmente abria a porta do suntuoso
gabinete.
–Caro Dr. Boss, peço-lhe mil desculpas pela desagra-
dável espera, mas não pude evitar.
–Não foi desagradável, Ms Happynitz; eu compreendo
perfeitamente que no seu nível de responsabilidade...
–Devo-lhe dizer –atalhou a Secretária– que esta pe-
quena espera deveu-se a um telefonema da Presidente Lizzie,
precisamente sobre os entendimentos que iremos manter ago-
ra. E acrescento que as novidades são boas. Muito boas.
“Muito boa é você” –pensou Elcimar Boss, contendo-se
para não verbalizar o que pensava– “Quem sabe um
convitezinho para jantar, depois do expediente... um pulinho
até Atlanta...” –mas logo se deu conta de que esta era uma
fantasia improvável de se concretizar, enquanto encarava fir-
me os peitos da Secretária que pareciam ignorar a lei da gra-
vidade.
–Ótimo, Ms Happynitz. E posso saber do que se trata?
–Claro que sim, meu querido. Mas antes vamos ver
sua apresentação, ok?
“Meu querido, não é? Eu que caia nessa... Assédio se-
xual, desrespeito à autoridade, tentativa de agressão e, no

147
DOKT BAR ATTÓN

mínimo, fiança de um milhão de dólares. Além de um escân-


dalo diplomático internacional, ho, ho, ho! Se fosse eu a chamá-
la assim já estaria em cana. ‘É preciso respeitar os costumes
do país’ é uma das recomendações preliminares do Itamaraty.
E, aqui, as mulheres mandam. Mas eu ainda pego essa gatona
num bloco de carnaval... ali na Broadway... na Washington
Square...”
–Secretária, em linhas gerais você já conhece nosso
Projeto de Carnavalização Urbana, não é? Eu trouxe as ima-
gens que melhor ilustram a tecnologia brasileira para desen-
volver a satisfação popular numa época extremamente adver-
sa como esta que atravessamos. No Brasil, o Carnaval é uma
instituição secular, mas que só se desenvolveu plenamente
depois da Revolução Salvadora, de março de 33. Durante a
ditadura, o arbítrio dos religiosos quase sufocou esta mani-
festação cultural típica do nosso povo, que hoje se vem disse-
minando por todo o mundo habitado para amenizar o descon-
tentamento das massas.
–Muito bem Ministro. Mas não falemos da conjuntura
mundial e sim do que pode ser feito para trazer alegria e feli-
cidade para todos. Isto é a Bahia?
–Não, Secretária, é Recife. Que acha?
–Extraordinário! Eu já conhecia pela televisão, mas
estas imagens são bem mais impressionantes. No próximo
Carnaval quero ir pessoalmente. Mas... nas imagens que eu
conhecia havia mais afro-americanos...
–Veja! Aí está a Bahia. Ali, presença da cultura afro é
bem mais nítida, não acha?
–Sim. Que beleza! Eu, pessoalmente, tenho uma parti-
cular admiração por essa etnia e acho que ainda temos muito
que fazer no sentido de enfatizar seus melhores valores aqui
na UEUC. Olhe só! Que lindo exemplar de macho afro! Estas
manifestações de rua ocorrem o ano todo, Ministro?

148
Segunda parte - OS MÂNTIS

–Ainda não, Ms Happynitz; somente na primavera e


no verão. Mas como no norte do Brasil o inverno pode ser qua-
se tão quente como o verão, é nosso propósito ampliar a tem-
porada para o ano todo. A Suécia e a Noruega também estão
interessadas nesse projeto.
–E a nudez, complementada apenas por esses adere-
ços de fantasia, é sempre uma constante? Como se protegem
do ultravioleta?
–O Brasil é hoje o maior consumidor mundial de
Bronzetone. E todos usam vidros de contato para UV.
–Essa proteção é segura? Assim, todos nus, nessas ruas
sem toldo...
–Na verdade, a proteção não chega a ser perfeita, mas
em meu país poucos se importam com a longevidade. Você
sabe que uma das características do brazilian-way-of-life é o
lema “Queime a vela pelos dois lados”, não é?
–Não conhecia esta expressão. São todos bissexuais?
Aqui também...
–Sim, Secretária, também isto. Mas o que a frase quer
dizer é “Viva pouco, mas viva intensamente”, entende?
–Sim, sim, percebo. Mas diga-me: como é a proposta
brasileira para a UEUC? Quais seriam as etapas de transfe-
rência de tecnologia?
–Bom, está tudo detalhado no disquinho e resumido
no OPR. Em linhas gerais, a nossa proposta contempla a im-
plantação de uma montadora de trios-elétricos em Detroit, a
prestação de serviços de consultoria e treinamento para as
escolas de samba das principais cidades americanas, no con-
texto de um intensivo intercâmbio cultural com as institui-
ções carnavalescas do Brasil, além de estágios para treina-
mento em Salvador, Porto Seguro e Rio. Há muitos outros
itens. Está tudo aqui, inclusive a nossa minuta de um Trata-

149
DOKT BAR ATTÓN

do Binacional, que inclui cláusulas sobre a amortização da


nossa dívida etc.
–Devo-lhe dizer que, no telefonema de minutos atrás,
a Presidente deu-me instruções expressas para fechar todos
os entendimentos e encaminhar esta proposta do Brasil em
regime de urgência. Vamos examinar com carinho toda a do-
cumentação e, se não houver problemas, poderemos marcar a
assinatura do Tratado para o próximo mês, aqui em Washing-
ton.
–Este é um ponto que o Presidente Ologun quer sub-
meter à apreciação do governo americano. Para o nosso povo
será muito significativo que a assinatura do Tratado seja no
Brasil e não em Washington.
–Posso submeter esta proposta à Presidente Lizzie e
não creio que ela se oponha.
–Excelente, Ms Happynitz. A nossa sugestão é que a
assinatura do Tratado seja em Brasília, em cima de um trio-
elétrico, no próximo dia 7 de setembro, que marca a abertura
da temporada de Carnaval em nosso país.
–Quero estar lá, Dr. Boss. Mas depois pretendo ir à
Bahia... para... para me entrosar melhor com as maravilhas
da cultura afro, ok?
–Perfeitamente, Secretária. E me proponho a ser seu
cicerone particular, quando estivermos livres dos compromis-
sos oficiais.
Ao sair do gabinete da Secretária, a sorridente recep-
cionista foi até o elevador privativo acompanhando o Minis-
tro. Que ficou muitíssimo assustado quando ela se aproximou
e segurou-lhe firmemente o pênis por sobre a calça, dizendo
num sussurro ao pé do ouvido: “Adoro brasileiros, gatão”. Com
o coração aos pulos, Boss desceu até o térreo torcendo para
que, ao sair, nenhum segurança notasse sua ostensiva ere-
ção.

150
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 13

P
ASMO. NÃO VEJO OUTRA PALAVRA PARA QUALIFICAR O NOSSO
SENTIMENTO QUANDO, ACOMPANHADOS DOS DOIS MÂNTIS QUE

VIERAM NOS RECEBER À ENTRADA , PENETRAMOS TIMI -

DAMENTE NO MOSTEIRO –NOS VELADOS MISTÉRIOS DAQUELA IMENSA

PIRÂMIDE. AO PASSAR PELO PÓRTICO, SOB A SUA MISTERIOSA INSCRI-

ÇÃO, ENTRAMOS EM OUTRO MUNDO. UM ENORME ESPAÇO INTERNO COM

MUITOS ANDARES E VEGETAÇÃO PENDENTE EM SACADAS VOLTADAS PARA

O GRANDE OCO DA PIRÂMIDE, TUDO CONVERGINDO PARA O ALTO. IMPOS-

SÍVEL SABER O TAMANHO DAQUELE VAZIO, QUE PARECIA BEM MAIOR POR

DENTRO DO QUE MOSTRAVA POR FORA. AQUI REINA UMA LUZ CÁLIDA E

SUAVE INERENTE AO PRÓPRIO AR, PARCIALMENTE TOMADO POR UMA

DIÁFANA NEBLINA DOCEMENTE IRISADA QUE NÃO NOS PERMITIA DISTIN-

GUIR DETALHES À DISTÂNCIA NEM VER O QUE HAVIA NO VÉRTICE. NÃO


HAVIA SOMBRAS. ENTREOLHÁVAMO-NOS UNS AOS OUTROS CALADOS DE

ESPANTO, AS ANTENAS QUASE NA VERTICAL, EM ALERTA. PENSEI EM

VOCÊ E EM NOSSOS PEQUENOS... COMO REAGIRIAM A ESTA VISÃO?...


TARAKAN TEM-SE LEMBRADO DE MIM?... E SVAB?... VOLTAREMOS JUN-
TOS AQUI, ALGUM DIA?... QUE REPRESENTARÁ PARA MIM ESTE PERÍODO

EM QUE VOU FICAR NO MOSTEIRO DE PER-SHEP?... SEI QUE ESTOU NO

LIMIAR DE UMA EXPERIÊNCIA EXTRAORDINÁRIA, KOO! SINTO ISTO EM

TODOS OS MEUS GÂNGLIOS...

151
DOKT BAR ATTÓN

OS MÂNTIS QUASE NÃO FALAM. MAS SABEMOS PERFEITAMENTE


O QUE QUEREM DIZER. CONVIDAM-NOS PARA ENTRAR SABOREANDO O
SENTIMENTO DE QUE SOMOS POSSUÍDOS AO PENETRAR NA PRAÇA-JAR-
DIM INTERNA –UM CLAUSTRO GIGANTE, CONTORNADO POR ARCADAS
DESCONTÍNUAS – COM DELICADAS FOSFORESCÊNCIAS E SUAVE HARMO-
NIA NAS FORMAS ESCULPIDAS, NA VEGETAÇÃO FLORIDA E NOS COGUME-
LOS DE TODOS OS TONS. UMA MÚSICA SUTIL, PRESENTE, MAS QUASE
INAUDÍVEL, PREENCHE OS ESPAÇOS OCIOSOS DA NOSSA ALMA. E OS
MÂNTIS, SEMPRE DEVAGAR, ORANDO OU MEDITANDO –EM GRUPO OU
SOLITÁRIOS– PELOS CAMINHOS PAVIMENTADOS ENTRE OS CANTEIROS.
QUE IMENSO ESPAÇO DE SERENIDADE! UMA COLORIDA FONTE DE CAS-
CATAS ASSINALA UMA PEQUENA ELEVAÇÃO. UMA PAZ MUITO ALÉM DAS
ONDULAÇÕES INEVITAVELMENTE CAUSADAS PELAS MÚLTIPLAS PRESEN-
ÇAS, NA VIDA COTIDIANA LÁ DE FORA.
PERMITIRAM-ME PASSAR-LHE ESTE FAX, MAS SERÁ O ÚNICO EN-
QUANTO AQUI ESTIVERMOS. NÃO PODEREMOS USAR O FACE-A-FACE NEM
O TELEFONE. MINHA MENSAGEM FINAL É ESTA, E SE VOCÊ RESPONDER
SAIBA QUE SOMENTE RECEBEREI SUA RESPOSTA QUANDO DEIXAR O MOS-
TEIRO, DAQUI UMA SEMANA OU POUCO MAIS, PELO QUE IMAGINO. POR-
QUE AINDA NÃO SABEMOS QUANTO TEMPO FICAREMOS; ISTO CABE A ELES
DECIDIR, AO QUE PARECE. NOSSOS APOSENTOS SÃO SIMPLES E HARMO-
NIOSOS, NUM NÍVEL INFERIOR AINDA PERTO DA BASE. AMANHÃ VAMOS
ENCONTRAR-NOS COM UM GRUPO DE MÂNTIS DA “COMISSÃO DE RECEP-
ÇÃO”, PELO QUE ENTENDI, E QUE NOS DIRÃO QUAIS OS PASSOS SEGUIN-
TES. AO QUE TUDO INDICA, COM O CORRER DOS DIAS ESTAREMOS EM
CONTATOS SUCESSIVOS COM DIFERENTES GRUPOS DE MÂNTIS DE NÍVEIS
HIERÁRQUICOS MAIS E MAIS ELEVADOS “ATÉ ONDE PUDERMOS SUPOR-
TAR”, COMO LI NO PENSAMENTO DOS DOIS QUE NOS RECEBERAM E NOS
PASSARAM AS EXPLICAÇÕES INICIAIS.
LOGO DEPOIS DO NOSSO ÚLTIMO CONTATO PELO FACE-A-FACE
DA HOSPEDARIA DE KHONFESSA, VIEMOS PARA A CORDILHEIRA INICIAR
NOSSA JORNADA A PÉ PELAS ESTREITAS TRILHAS DAS ENCOSTAS GELA-
DAS. MARAVILHOSOS PANORAMAS DE VALES FLORIDOS INUNDADOS DE

152
Segunda parte - OS MÂNTIS

NÉVOA BRANCA. ALGUMAS SURPRESAS PELO CAMINHO. UM VALE DE


FUNDO PLANO, EMBORA A GRANDE ALTITUDE, COMPLETAMENTE TOMADO
DE FLORES LUMINESCENTES VERMELHAS E AZUIS, E POVOADO POR NU-
VENS DE ABELHAS COLORIDAS E BORBOLETAS RARAS.
DEPOIS, NA ÚLTIMA FASE DA CAMINHADA, UMA ALDEIA DE VE-
LHOS BLATÍDEOS VIVENDO NUM CURIOSO ISOLAMENTO ENTRE O MUNDO
E O MOSTEIRO. O QUE NOS HOSPEDOU PARA O QUE SERIAM NOSSAS
ÚLTIMAS HORAS DE SONO ANTES DE CHEGAR AO MOSTEIRO ERA UM SIM-
PÁTICO ANCIÃO DE FALA PAUSADA E POUCAS PALAVRAS. JÁ ME CONHECIA
PELA TELEVISÃO. ELES RESIDEM ALI HÁ GROSIANOS, EM UM GRUPAMENTO
DE NÃO MAIS QUE DUAS DÚZIAS DE HABITÁCULOS: UM BEATÍFICO RITMO
DE VIDA SEM HISTÓRIA NEM ORIGEM. É DE PERSONAGENS ASSIM QUE
SÃO FEITAS AS LENDAS, PENSEI. EM SUA FALA O ANCIÃO –DISSE CHA-
MAR-SE SCHABE– EXPRESSOU AO NOSSO GRUPO UMA PREOCUPAÇÃO QUE
PARECIA AFLIGI-LO. NADA COM RELAÇÃO AOS MÂNTIS OU A NÓS, VIAJAN-
TES, NEM A ELES PRÓPRIOS. FIQUEI PENSANDO NO QUE ELE DISSE SER A
SUA PREOCUPAÇÃO. JÁ MEDITEI A RESPEITO, MAS AINDA NÃO TENHO
UMA INTUIÇÃO CONCLUSIVA. “É COM O FLUXO DO TEMPO”, FALOU. “A
SUA DESCOBERTA PODE SER MUITO PERIGOSA PARA TUDO E PARA TODOS”.
E RECOMENDOU-ME “TER CUIDADO COM O FLUIR DO TEMPO”.
VOCÊ TEM IDÉIA DO QUE ELE QUERIA DIZER COM ISTO, KOO?
COMO POSSO TER CUIDADO COM O FLUIR DO TEMPO? E QUAL SERIA
ESSE PERIGO? SE HÁ PERIGO, POR QUE ELE NÃO QUIS FALAR A RESPEI-
TO? JÁ FALEI SOBRE ISTO COM BAR OUCHEL E SCARA, MAS NESTE MIS-
TÉRIO AINDA NÃO NOS FOI POSSÍVEL PENETRAR.
MEDITE SOBRE ESTE ENIGMA PARA CONVERSARMOS, QUANDO
NO MEU REGRESSO.
PELA CONFIGURAÇÃO EM PIRÂMIDE OS ESPAÇOS INTERNOS SÃO
MAIORES NESTE ANDAR INFERIOR –DIR-SE-IA O PAVIMENTO “TÉRREO”,
MAS ESTA NOÇÃO E ESTE NÍVEL DEVEM TER SIDO ARBITRADOS NA ÉPOCA
IMEMORIAL EM QUE O MOSTEIRO FOI CONSTRUÍDO. COMO ESTAMOS
SOBRE UM TOPO DE MONTANHA, O NÍVEL DESTE PAVIMENTO PRINCIPAL –
O DA PRAÇA DO CLAUSTRO– FOI FIXADO AO SE DECIDIR QUANTO DO TOPO

153
DOKT BAR ATTÓN

DA MONTANHA SERIA DESBASTADO, NA CONSTRUÇÃO. E, NA PERIFERIA

ABAIXO DESTE NÍVEL, HÁ TAMBÉM FRAÇÕES DE PAVIMENTOS, QUANDO A

CONFIGURAÇÃO DAS ROCHAS PERMITE. MAS ISTO SÃO MINHAS PRIMEI-

RAS ESPECULAÇÕES SOBRE ESTA EDIFICAÇÃO, BASEADAS NUM ESCASSO

ELENCO DE INFORMAÇÕES QUE PODEM SER ALTERADAS, QUANDO VIER A

CONHECER MELHOR ESTE LUGAR INCRÍVEL.

AQUI DENTRO A TEMPERATURA É MORNA E O CICLO DOS DIAS E


DAS NOITES É MANTIDO PERCEPTÍVEL, PORQUE GRANDES TRECHOS DO

REVESTIMENTO EXTERNO DA PIRÂMIDE SÃO TRANSLÚCIDOS, OU TRANS-

PARENTES, EMBORA PELO LADO DE FORA PAREÇAM SER OPACOS E CONTÍ-

NUOS. ASSIM, PODE-SE VER O CÉU ARROXEADO DO DIA OU ESTRELADO,

DE NOITE. ALÉM DISSO, NUM PERÍODO DE DUAS DUZIORAS, UM DIA, A

INTENSIDADE DA LUZ INTERNA –AQUELA QUE PARECE IMPREGNAR O AR–

VARIA IMPERCEPTIVELMENTE ENTRE UM MÁXIMO (MEIO-DIA) E UM MÍNI-

MO, AINDA CONFORTÁVEL PARA MUITAS ATIVIDADES (MEIA-NOITE).

DAQUI A ALGUNS MOMENTOS DEVEMOS COMPARECER AO REFEI-


TÓRIO, UM DOS MUITOS QUE CERTAMENTE O MOSTEIRO TEM. CONTU-

DO, NÃO LHE PODEREI COMUNICAR ATÉ O MEU RETORNO ESSA NOVA EX-

PERIÊNCIA DE UM CONTATO MAIS EXTENSIVO COM UM NÚMERO MAIOR

DE MÂNTIS, NA OCASIÃO DE UMA REFEIÇÃO, PORQUE A OCASIÃO ÚNICA

QUE ME DEIXARAM PARA LHE MANDAR ESTE FAX FOI AGORA, POUCO AN-

TES DA CEIA.

FIQUE TRANQUILA E AGUARDE O MEU RETORNO COM MUITO

AMOR, PARA DESFRUTARMOS JUNTOS. SCARA FAGGIO TAMBÉM ACABA DE


PASSAR UM FAX PARA A IRMÃ E BAR OUCHEL ESTÁ PASSEANDO NO CLAUS-

TRO. DISSE-ME COM ALGUMA INDIFERENÇA QUE “NÃO TEM PARA QUEM

PASSAR UM FAX”... QUE PERSONAGEM!...

ESTÃO CHAMANDO, QUERIDA KOO! ATÉ A VOLTA! TODO O CARI-


NHO DE SEU

Attón

154
Segunda parte - OS MÂNTIS


Depois de uma deliciosa sopa de cogumelos da região e
uma sobremesa à base de mel, o mântis que estava na cabe-
ceira da longa mesa –onde cerca de quinze deles cearam junto
com os visitantes– levantou-se e, por sua atitude, deixou per-
ceber que queria atenção e sintonia de todos. A primeira men-
sagem captada foi um singelo “Meu nome é Prega Diou. Se-
jam bem vindos. Nós os esperávamos e desejamos que a
vinda de vocês ao Mosteiro de Per-shep seja proveitosa para
todos.”
Maravilha, a clareza da comunicação telepática com
os mântis.
“Para esta noite não haverá programação. Estejam à
vontade, no claustro e nas dependências deste nível. Conver-
sem –sempre que possível telepaticamente– com quem esti-
ver disposto, mas não se aproximem de quem não der sinais
de que está querendo conversar. Aqui no Mosteiro não há
mestres nem discípulos; somos todos mestres de nós mes-
mos e também uns dos outros. Ao mesmo tempo, somos dis-
cípulos do fluir das coisas e dos acontecimentos. Se estiver-
mos acompanhando o ritmo da vida, então seremos todos
mestres e todos discípulos. Isto inclui também vocês.
Vivenciamos o fluir de tudo segundo a Ordem Invisível da
Natureza, que veneramos como Orinna –a Mãe Suprema–
manifestadora de Sutra –o Supremo Transcendente.”
“Há mântis de diferentes níveis de informação, conhe-
cimento e sabedoria. Logo vocês aprenderão a distingui-los,
quando se aproximarem de algum de nós de grau mais eleva-
do. Eles serão facilmente reconhecidos, mesmo sem os dis-
tintivos externos que vocês usam para assinalar o status e a

155
DOKT BAR ATTÓN

função social de cada um. Encontros com mântis de hierar-


quia mais elevada ocorrerão a partir de amanhã, quando pas-
saremos o dia no primeiro nível acima do claustro para a pri-
meira aula do curso. Será bom meditar sobre o tema exposto
pelo mântis que for designado para a palestra que assistirão
depois da primeira meditação do dia. As atividades aqui no
Mosteiro são preferencialmente programadas para as horas
diurnas; creio que já notaram.”
“Façam todas as perguntas que quiserem, mas este-
jam sempre mais dispostos a ouvir do que a perguntar. Apren-
dam a distinguir os diferentes sons dos tambores e dos sinos
de madeira ou metal que marcam as fases do dia e os even-
tos coletivos. Para vocês, visitantes, somente os sinos de
madeira interessarão; os outros sons marcam as tarefas dos
mântis e não lhes dizem respeito, salvo indicação em contrá-
rio. Aqui não usamos comunicações físicas com o mundo ex-
terior: nem telefone, nem face-a-face, nem televisão, nem
fax ou qualquer outro meio equivalente. Embora os aparelhos
existam, raramente são utilizados. É este aparente isolamen-
to físico que nos permite estar em contato permanente com
as fontes interiores do conhecimento e da sabedoria.”
“Se quiserem podem voltar agora aos seus aposentos
para repousar, mas se preferirem visitar nossa biblioteca ela
fica naquela ala de arcadas irregulares. Vocês terão mais duas
horas livres até o toque de recolher, que o sino de madeira
indicará. Amanhã cedo a meditação coletiva será no centro
do claustro. Logo depois será a primeira refeição do dia e, em
seguida, vocês irão para uma sala do primeiro pavimento onde
será dada a primeira palestra sobre o tema que mais direta-

156
Segunda parte - OS MÂNTIS

mente lhes interessa. Em seguida, poderão conversar infor-


malmente com o mântis palestrante e depois meditar. Escu-
tem o sino de madeira que toca de madrugada. Sejam bem
vindos e estejam à vontade e em paz. Caso precisem de algu-
ma coisa digam. Nos veremos amanhã.”


Concluída a refeição os visitantes levantaram-se e ape-
nas trocaram sorrisos e saudações mentais com os outros
mântis ali presentes. Ainda não havia motivação para fazer
novos contatos e puxar conversa.
–Vocês já notaram como desde que chegamos não fala-
mos quase nada? Como não sentimos vontade nem necessida-
de de falar, seja lá o que for, apesar do mundo extraordinário
em que entramos? –falou Bar Attón, enquanto se dirigiam às
alamedas do claustro.
–É certo que estamos vivenciando um estado de cons-
ciência semimeditativo o tempo todo. Neste ar suavemente
luminoso há uma sutil interação que nos une numa só com-
preensão. É como se respirássemos sincronizados –observou
Bar Ouchel.
–É um bem-estar difícil de entender e explicar.
–Não tente explicar nada, Scara –riu Bar Ouchel– a
explicação destrói o verso, mata a poesia. Explicar é enganar,
é distorcer, é mentir. Tudo que exige uma explicação é falso e
essa explicação será mentirosa; só convencerá aos tolos. Ex-
plicar é uma coisa; sentir e vivenciar é outra. É preciso ter
cuidado porque há quem vive de explicações e, com isso, es-
quece-se de viver. Eu prefiro que não me expliquem aquilo
que ainda não pude entender.

157
DOKT BAR ATTÓN

–Explicar só é uma necessidade quando se trata de


problemas técnicos e práticos do dia-a-dia, coisas do mundo
cotidiano, tarefas a executar...
–É isso, Scara. Mas Bar Ouchel está certo: há quem
viva querendo explicar tudo. Insistem em explicar coisas que
não podem nem devem ser explicadas. Nem tudo cabe nos
limites de uma explicação. Quando algo muito complexo é
explicado, fica-se na ilusão de que aquilo foi entendido. Mas a
essência escapou e não se dá conta disto.
–Há muitos tolos no mundo lá fora... –concluiu Bar
Ouchel.

158
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 14

“M
eu nome é Gottesan Beterin. Desejo-
lhes uma boa estada entre nós e que
sua vinda ao Mosteiro seja benéfica
para todos. Temos conhecimento dos esforços científicos do
Dokt Bar Attón, da relação amorosa de Bar Ouchel com a
vida e da dedicação pessoal de Scara Faggio ao serviço de
seus semelhantes. Temos acompanhado os acontecimentos
em Periplaneta, onde se destacam as descobertas na Lua e a
teoria da paleocivilização do Dokt Bar Attón. E, depois, a co-
nexão estabelecida entre as duas descobertas. A ocorrência
desses fatos científicos tem uma significação profunda para a
atual civilização ortóptera, significação esta que ficará mais
clara na medida em que desenvolvermos nossos estudos, até
o fim do curso.”
“Hoje vocês tomarão conhecimento de algumas infor-
mações básicas, indispensáveis à compreensão do que virá
em seguida. Sou eu quem vai passar essas informações para
vocês. A primeira delas é que vocês passarão por diversos
graus de conhecimento com relação aos humanos, o que
implicará também numa ampliação do conhecimento sobre
nós mesmos, os ortópteros. Para aqueles a quem Dokt Bar
Attón –buscando enfatizar uma singularidade biológica– de-
nomina vivíparos, nós adotamos a denominação mais preci-

159
DOKT BAR ATTÓN

sa de humanos. Chamá-los de vivíparos não é suficiente para


os caracterizar. Qualificá-los de humanos é uma necessida-
de, para assinalar a espécie dominante que assumiu a
hegemonia do planeta, no final da Era Quaternária.”
Dokt Bar Attón fez um gesto, pedindo para falar.
–Não precisa explicar-se, Professor –antecipou-se
Gottesan Beterin– compreendemos que essa foi a denomina-
ção preferível, quando você iniciou suas pesquisas. Para cha-
mar atenção sobre a singularidade do HSS foi necessário
enfatizar a característica de ele ser vivíparo. Foi esta curiosi-
dade que despertou o interesse para os HSS, quando deles se
conhecia apenas algumas ossadas fósseis. A denominação
permaneceu, mas já é conveniente adotar algo mais preciso.
Chamemos a essas criaturas –os HSS– de humanos. Seres
humanos. E à civilização deles, que vem revelando agora os
primeiros sinais objetivos de sua existência, chamemos de
humanorbis.
Fez-se uma pausa. O fato de ele se manifestar com
palavras criou uma variante agradável na interação de to-
dos. A palavra falada algumas vezes tem um efeito relaxante
durante uma comunicação telepática.
–Ainda quer falar, Dokt Bar Attón? Tem algo a dizer?
–Sim. Quero dizer que estou inteiramente de acordo
com a denominação sugerida, por ser mais exata do que a
vaga denominação de vivíparos adotada até então. Isto, por-
que existem grosas de séries fósseis diferentes, cientificamente
suspeitas de serem de vivíparos. Ou seja, podem ter existido
bigrosas de espécies extintas de vivíparos. Vamos, portanto,
denominá-los seres humanos e à sua civilização chamaremos
de humanorbis. Fica entendido que –no momento–
humanorbis está sendo estudada pela ortopterorbis. Está bem
assim?

160
Segunda parte - OS MÂNTIS

–Perfeitamente, Professor.
Silenciosamente, Bar Ouchel, Scara Faggio e mais uma
dúzia de mântis presentes à palestra manifestaram seu acor-
do e, também silenciosamente, Gottesan Beterin continuou.
A transmissão que ele canalizava não era um mero fluxo de
palavras, como num fax ou num antigo telegrama. Era, an-
tes, uma sucessão de imagens, idéias, informações, emoções
e sentimentos que se ajustavam significativamente no decor-
rer da explanação. Mas os pensamentos, fatos e sensações
que o palestrante manifestava diretamente também podiam
vir acompanhados mentalmente dos nomes e verbos que lhes
correspondiam. Era um vento de compreensão que soprava
as velas das jangadas de palavras, quase desnecessárias.
“Os seres humanos realmente existiram. Eles foram o
produto final de uma linhagem de vivíparos que aperfeiçoa-
ram eficientes mãos e cérebros, no período imediatamente
anterior à Transição Ortóptera. Desenvolvendo a faculdade
mental de antever sequências de ações, e assim planejar o
que fariam em seguida, assumiram a hegemonia do planeta,
que viam como um objeto a ser explorado para a satisfação
das suas necessidades e desejos. Para essa exploração do
planeta, aperfeiçoaram aceleradamente uma impressionante
tecnologia, mas o fundamento egoístico das suas motivações
obscureceu a visão anímica dos fenômenos e da natureza.
Nem todos os humanos pensavam assim, mas foi esta a vi-
são dominante que determinou seu destino.”
“Os mântis sempre estiveram informados da existên-
cia de humanorbis, assim como de saurorbis, que a prece-
deu. O estudo de humanorbis, da sua formação, desenvolvi-
mento, perda de rumo e naufrágio final são um dos mais
importantes objetos de estudos nos mosteiros dos mântis.
Mas este conhecimento –de alto potencial perturbador para a

161
DOKT BAR ATTÓN

psique de ortopterorbis– teve que permanecer secreto até


que a Ordem Invisível mostrasse, pelo desenrolar dos fatos,
que chegara o momento de divulgar a existência dos huma-
nos. Dokt Bar Attón foi o principal agente desse salto, mas
ele não poderia ter agido independentemente da vontade
suprema de Orinna. O processo de investigação do que foi
humanorbis está deflagrado e ainda vai longe.”
“Examinando o que ocorreu, para determinar o fra-
casso de humanorbis; os mântis vêm procurando depurar a
compreensão do que se passou, tanto do ponto de vista físico
e orgânico como espiritual. O nível de complexidade do fra-
casso de humanorbis é muito elevado e as generalizações
que podemos fazer comportam inúmeras exceções, dada a
grande variedade de casos especiais. Lembrem-se disto, quan-
do dizemos que as causas do que ocorreu foram estas ou
aquelas. Em linhas muito gerais e na amplitude que preten-
demos abarcar –no nível da mente com que estamos traba-
lhando no momento– chegaremos apenas a uma verdade
aproximada, mas que, de qualquer forma, não deixa de ser
um nível de compreensão do que de fato aconteceu.”
“Em sua fase final, a tecnologia dos humanos chegou
a superar a atual dos blatídeos em diversos aspectos. Nos
últimos duzianos de humanorbis, o fluir do tempo disparou
irrompendo para fora dos ritmos naturais. A violência e a
mentira, usadas para a dominação de outros humanos, exa-
cerbaram-se. Tudo girava em altíssima velocidade: o tempo
sendo avidamente consumido como mais um recurso natural
a ser dilapidado. Assim como exploraram todo o espaço do
planeta e seus conteúdos, exploraram também o tempo sem
lhe conhecer os conteúdos. Por tudo isso, humanorbis nos
pareceria muito diferente de ortopterorbis, tanto coletiva como
individualmente, tanto no aspecto físico dos indivíduos como
em seus traços psicológicos e sociais.”

162
Segunda parte - OS MÂNTIS

“A fase de cegueira mais aguda (exceto em raros indi-


víduos) durou apenas dois grosianos e meio até que a extinção
se consumasse. Mas este curto período foi o suficiente para
destruí-los e a quase todas as espécies vivas de Periplaneta.
Eles optaram pela desinformação sobre si mesmos e por per-
manecerem ignorantes da sua função cósmica e da dimen-
são espiritual de cada indivíduo. Com esta deficiência básica
de percepção não conseguiram superar sua herança de im-
pulsos animais, nem dar uma função predominante-mente
positiva à sua tecnologia. No fim do período, as redes
periplanetárias de telecomunicação estavam comandando
alegremente o processo de deterioração da alma humana e
isto foi o golpe final que os levou ao desastre.”
“Mencionei a existência de uma saurorbis, da qual vocês
não suspeitavam. A civilização dos sáurios existiu por poucos
grosianos e sua tecnologia só atingiu um nível muito abaixo
da dos humanos, que veio depois. Entretanto, nem por isso
deixaram de ser uma civilização complexa e diversificada,
apesar de extremamente feroz e cruel. Não chegaram a cons-
tituir-se numa única civilização periplanetária, embora esti-
vessem perto disto. Fisicamente não resta de saurorbis o mais
tênue traço, e mesmo os humanos não tiveram notícia dela,
que lhes apareceu na memória apenas como tema de ficção.
Numa comparação singela, podemos dizer que em suas li-
nhas gerais saurorbis estava para humanorbis assim como
humanorbis esteve para ortopterorbis.”
“Mas o estudo de saurorbis não vai ser desenvolvido
nesta visita de vocês, mesmo porque dela não restam traços
objetivos passíveis de serem estudados, nem o seu estudo
tem maior interesse para nós. O centro de nossos
ensinamentos, que direcionarão as próximas pesquisas do
Dokt Bar Attón e do seu Instituto será humanorbis, a civiliza-
ção que nos antecedeu e que –ainda que remotamente– nos

163
DOKT BAR ATTÓN

originou, porque temos com ela relações psicogenéticas que


precisam ser conhecidas. Esse conhecimento do que foi
humanorbis, entretanto, deverá ser filtrado por vocês ao
retornarem ao meio social de ortopterorbis. Nem tudo que
vocês conhecerão sobre eles estará ao alcance da compreen-
são de toda a população, como mais adiante ficará eviden-
te.”
Scara Faggio fez um gesto indicativo de que queria
fazer uma pergunta. Gottesan Beterin assentiu e ela falou,
suavizando mais uma vez o atento silêncio da comunicação
telepática.
–Pelo que entendi, nós fazemos parte de uma série de
civilizações, aqui em Periplaneta. Isto significa que a civili-
zação ortóptera também terá um fim?
–Tudo que teve um começo terá também um fim, Scara.
Esta é uma lei cósmica das mais abrangentes porque inclui
todo o universo objetivo. Mas como e quando será o fim de
ortopterorbis dependerá muito dos rumos que ela tomar. Tanto
para indivíduos como para civilizações há diferentes tipos de
fim. Há fins de fracasso e derrota e fins de vitória e ascensão
para algo superior. Este é um dos temas principais do estudo
que vamos empreender nos próximos dias.
–Houve outras civilizações antes de saurorbis?
“Não devemos sair do tema que estamos apresentan-
do. Mas, para não lhe deixar sem uma resposta, posso dizer
que como civilização tecnológica –mesmo que se tratasse de
uma tecnologia pouco desenvolvida– saurorbis foi a primei-
ra. Antes de saurorbis houve culturas periplanetárias, onde
as vivências psíquicas embrionárias foram intensas. Foram
culturas muito longevas e ricas de elaborações espirituais
como, por exemplo, a antiquíssima cultura oceânica das me-

164
Segunda parte - OS MÂNTIS

dusas. Mas civilizações, mesmo, essas culturas não chega-


ram a ser, porque não desenvolveram uma tecnologia objeti-
va e hereditária para ajustar o meio ambiente às suas neces-
sidades, como –bem ou mal– fizeram as três últimas. Agora
retornemos ao eixo dos ensinamentos.”
“Há diferentes níveis de compreensão para avaliar o
que aconteceu com os humanos e o que levou humanorbis
ao seu súbito fim. Uma constatação inescapável é que eles –
não todos, mas a grande maioria– optaram por negligenciar
a oportunidade que tiveram de ascender espiritualmente,
deixando-se dominar por instintos, impulsos e desejos ani-
mais. As advertências foram inúmeras, ao longo de muitos
grosianos, assim como as tentativas de resgate do destino
que lhes esperava. Mas a competição, o conflito, o ódio, a
violência, o assassinato individual e em massa e uma sensu-
alidade desmedida delinearam o quadro final onde ocorreu o
rompimento do equilíbrio ambiental que os levou à sua des-
truição e de quase toda a vida em Periplaneta.”
“Não é fácil para um ortóptero entender como foi pos-
sível construir uma civilização de tecnologia avançada e ex-
tensão periplanetária fundamentada em valores éticos tão
rudes como os predominantes em humanorbis. Mas a recen-
te determinação para que o mistério dos humanos fosse des-
velado é uma indicação de que esse conhecimento não só é
necessário como indispensável, na fase atual. Conhecer o
que aconteceu com os humanos é muito importante, no es-
tágio de evolução alcançado por ortopterorbis. Nos próximos
encontros veremos quais os diferentes aspectos pelos quais
aquela catástrofe espiritual pode ser compreendida e o que
ela tem para nos ensinar. Por hoje, ficamos neste ponto. Agora,
podemos conversar sobre os temas apresentados.”

165
DOKT BAR ATTÓN

166
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 15

T
ônio vinha, desde muitos anos, habituando-se a fa-
lar cada vez menos. Mesmo porque havia cada vez
menos com quem falar. Chegava a passar dias sem
dizer palavra. Semanas. A quem? Quando Mike estava vivo,
com ele. Depois, o silêncio definitivo e compulsório. Sem tele-
fone, sem televisão, sem amigos ou inimigos para dar notíci-
as: uma opressiva mudez de tudo que não era mais que o si-
lencioso clamor da morte triunfante.
Só tinha mesmo que concluir aquilo que se dispusera a
fazer, conformando-se à sua situação, literalmente singular.
Todos mortos, ao que sabia. Deixara Fort Belvoir de madru-
gada. Na véspera, tudo checou: a água potável, as frutas desi-
dratadas, os botijões de combustível, os guinchos portáteis, a
firmeza da ancoragem nas rodas da carreta onde repousava o
Ovo, dentro da carroceria-container do enorme caminhão. Tudo
correto, tal como planejado.
Muito acima das humanas miudezas estrelas e plane-
tas luziam indiferentes, pouco antes da alvorada. A Lua, no
oeste, há muito assumira um jeito ameaçador e agressivo de
quem fora duramente ofendida. Mas era o Sol que, raivoso

167
DOKT BAR ATTÓN

desde que surgia no horizonte, agredia. Do pai generoso que


fora tornara-se cruel, carrasco, vingador das humanas loucu-
ras. Já havia muitos anos, não era o mesmo Sol que sempre
tinha sido: o doador de vida. Mas Tônio ainda encontrava um
jeito de sorrir porque sabia que ver as coisas assim era uma
ilusão: o que o Sol agora nos dava era o mesmo que sempre
dera; o Sol não muda, na humana escala. Imperdoável foi te-
rem destruído sua obra paciente de bilhões de anos: a delica-
da proteção que pusera em torno de tudo que aqui criara –o
véu invisívela sem o qual nada poderia viver. O véu de Gaia,
que era o mesmo véu de Maya em outro destacamento. Mas
os homens nunca conseguiram acreditar em véus invisíveis,
nunca tiveram o sentimento do que era isto: do que isto pode-
ria ser.
O reluzente caminhão –o último que ainda se movia–
corria sem esforço nos trechos em aclive, buscando a via de
cumeada das Blue Ridge Mountains. Tônio sentia-se pilotan-
do um monstruoso ser de muitas rodas e grande ventre de
alumínio: o útero metálico onde viajava o enorme ovo cinzen-
to. Os olhos vermelhos e secos, salgados de todas as lágrimas
que tinha chorado e esquecido, Doutor Tônio sabia que sua
viagem era a mais arquetípica de todas as jornadas já empre-
endidas. A última. Viagem da solidão definitiva para a soli-
dão absoluta, como testemunha final da humana insanidade.
Muitos dos carros abandonados mostravam-se empoeirados e
sujos, já com alguma ferrugem, sinal de que havia anos ti-
nham morrido, talvez junto com seus donos. Outros, mais re-
centes, ao longo do trajeto. Alguns corpos ainda malcheirosos,
outros concentrados em grandes grupos que decidiram mor-
rer juntos. Devastação.

168
Segunda parte - OS MÂNTIS

Chegara ao divisor de águas, no alto da serra. Agora


seriam subidas e descidas alternando-se, com ampla visão para
leste e oeste, até os horizontes. Frequentes ataques da erosão
fazendo perigar a firmeza da antiga autoestrada, panorâmi-
ca, paisagística e turística, proibida para caminhões, uma das
mais belas do país, uma das atrações maiores de uma excur-
são pelos Apalaches. Sim, a Terra está virando Marte. Daqui
é que se pode ver, comprovar, que o título-metáfora de Eliot
tornou-se literal. Tônio contornava o Shenandoah Park sem
se importar em olhar do alto sua vasta ruína, sem qualquer
dor nem tristeza. Tudo seco. Morto. A estrada corria pela li-
nha de cumeada da serra para que ele pudesse apreciar com
seus olhos derradeiros a terra devastada estendendo-se pelas
duas vertentes até onde a vista podia alcançar. E silêncio.
Nenhum pássaro, borboleta, bichinhos, planta verde, nada.
Talvez alguns insetos, se bem procurasse. Se ele pára um pouco
o caminhão, pode tentar ouvir melhor algum som na distân-
cia. Mas somente o vento frio de outono às vezes se fazia escu-
tar, ao esquivar-se dos troncos e garranchos perto de um pos-
to de serviço há muito abandonado. Sempre muitos carros
batidos e virados, alguns queimados, na insanidade dos dias
finais. Havia muitas décadas –Tônio se lembrava– aqui era
colorido em todos os tons que as folhas assumiam nesta épo-
ca: dos muitos verdes ao laranja, ao ocre, salmão e vermelho.
Na primavera flores silvestres acrescentavam outras cores da
vida e se derramavam pelas encostas, ainda plenas de viço.
Mas isto foi antes, quando criança. “E já há muitos anos que
nem mais se fazem crianças” –divagou.
Depois, ensimesmado junto com outros visionários, ele
obstinadamente desenvolvera seu projeto ao longo de mais de
uma década, convencendo a cada um daqueles que lhe poderi-

169
DOKT BAR ATTÓN

am dar apoio, fosse no governo, quando ainda havia governo,


fosse no comando de Fort Belvoir enquanto houve algo como
um comando.
Seu projeto: o Ovo.
Primeiro, um trabalho de equipe. Vasta equipe de alto
nível, empenhados como se esse empreendimento fosse salvá-
los do destino inexorável. Destino que a todos engoliria, como
Saturno aos seus filhos. Depois, a equipe foi diminuindo como
tudo mais. Fort Belvoir tinha um crematório de corpos muito
conveniente. Ficava tudo mais higiênico para os que perma-
neciam. Já não havia emoções e nem mesmo comentavam as
novas mortes, à medida que se consumavam. O último foi
Mike, na semana anterior. A temida leucemia aguda que, em
três semanas, derrubava seus escolhidos: os sorteados da
morte. Meses atrás fora a companheira dele, a última mulher
de que havia notícia –certamente a última em todo o planeta,
dadas as condições excepcionais de sobrevida preservadas em
Washington e em Fort Belvoir.
À medida que o ultravioleta crescia de intensidade –
emissário de Xiva para cumprir sua missão de extermínio–
surgiam associações de luta pela sobrevivência e também clu-
bes de suicidas, que promoviam rituais periódicos de suicídio
coletivo para aqueles a quem repugnava permanecer assis-
tindo ao pervasivo, onipresente triunfo da morte. Estranha
sobrevivência a desses clubes, onde periodicamente as direto-
rias suicidavam-se em grupo.
Depois dos períodos de fome em escala continental, que
em poucos anos liquidaram bilhões de pessoas, depois que
todos estavam habituados à loteria da morte, fosse por um
câncer, pela imunodepressão generalizada ou pela leucemia

170
Segunda parte - OS MÂNTIS

aguda, veio a fase terrível dos colapsos urbanos e regionais.


Foi quando ficou evidente que as cidades morrem, do mesmo
jeito que as pessoas e os cães. E o tipo de morte que, uma após
outra, liquidou as metrópoles do mundo era uma pane simul-
tânea dos sistemas vitais: colapsos de comunicações, energia,
água potável e abastecimento. Quase sempre a coleta de lixo
já estava paralisada desde muito antes, fazendo das cidades
enormes pocilgas. Mas pocilgas sem porcos, nem ratos ou cães,
agora extintos, mortos de fome –porque foram cegados pelo
ultravioleta. Somente as baratas pareciam multiplicar-se ale-
gremente; era delas a festa.
A falha múltipla dos seus órgãos vitais deixava as ci-
dades em estado de coma, mas a morte definitiva sobrevinha
por trombose nas artérias que demandavam as saídas para o
meio rural. O excesso de veículos e o trânsito frenético,
desordenado, levavam invariavelmente a acidentes e estes a
engarrafamentos definitivos, totais, confinando milhões de
desesperados em cenários de horror. Os sobreviventes das
estradas que ocupavam os carros paralisados em filas duplas,
triplas, intermináveis, dividiam-se entre os que logo partiam
para continuar sua fuga a pé e os que se recusavam a abando-
nar seu carro, seus bens derradeiros, suas posses finais, fi-
cando ali até acabar a água de suas preciosas garrafas –ou
vê-las roubadas por outros mais fortes. Poucos dias depois de
morta começava a emanar da cidade o fedor absoluto de mi-
lhões de cadáveres apodrecendo. Cada metrópole que morria
estava sempre cercada por um grande halo de corpos e esque-
letos daqueles que tentaram em desespero fugir, fugir, fugir...
Mas fugir para onde, se tudo era desolação ante o olhar im-
passível de um Sol devastador?

171
DOKT BAR ATTÓN


A Blue Ridge Parkway –cruzando-a de vez em quan-
do– corre ao lado da Appalachian Trail, destinada aos
andarilhos de antigamente, quando as excursões a pé por tri-
lhas paisagísticas era um esporte popular. Isso até uns vinte,
trinta anos atrás. Foi quando se viu que essa prática era cada
vez mais arriscada, pela incidência crescente do ultravioleta
à medida que a camada de ozônio se desvanecia. “‘À medida
que a camada de ozônio se desvanecia’ é uma frase quase po-
ética” –pensou Tônio. Deixara de existir aos poucos, mas sem
recuos, o diáfano véu de Gaia, abandonando sua inacessível,
invisível existência, por si só tão próxima de uma inexistência.
A maior parte da humana população morria sem entender os
comos e os porquês das mortes vindas do céu. Somente a ex-
plicação mais ampla e definitiva que tudo resumia: uma re-
volta dos deuses –a explicação que todos entendiam.
Quando avaliou com precisão a inexorabilidade do fim,
quando fez os cálculos que ninguém ousava fazer –ou, se fazi-
am, logo procuravam esquecer e olhar para o outro lado– Dou-
tor Tônio, PhD em nanoinformática, impulsionado por uma
tradição de família, começou a conceber o seu projeto. Foi seu
bisavô quem criou as primeiras mensagens “a quem interes-
sar possa” produzidas pela humanidade.
Oitenta anos atrás, quando ainda não havia consciên-
cia de que o fim da humanidade e da vida estavam nos planos
de curto prazo dos deuses, Carl Sagan criara mensagens es-
peciais para colocar nas naves que sairiam do sistema solar
“para sempre”, rumo às estrelas e a um improvável encontro
com algum remoto destinatário. Na sonda PIONEER-10 seguiu
uma placa contendo dados sobre a época, o ponto da galáxia
de onde provinha e sobre os seres que produziram aquele ar-

172
Segunda parte - OS MÂNTIS

tefato. Nas naves VOYAGER, de alguns anos após, seguiu uma


gravação de sons do planeta Terra, mensagens de fraternidade
(Tônio não conseguiu evitar um sentimento de que ali havia
hipocrisia) em centenas de línguas e muitos outros dados so-
bre a orgulhosa civilização que construíra aquela nave. A quem
se destinariam aquelas mensagens, cuja sobrevivência intacta
no espaço interestelar poderia ser de bilhões de anos? Pelo
que se conhece da imensidão dos vazios cósmicos, nunca se
encontraria destinatário algum. Ninguém, na enormidade do
nada que –de longe– é o principal conteúdo do universo.
E, na trilha da sua inspiração, Tônio concebera e reali-
zara a maior e mais completa de todas as mensagens a Nin-
guém: o Ovo, que conteria no interior de sua casca de titânio a
mais elaborada de todas as sínteses da história, a definitiva
enciclopédia do saber científico e da humana passagem pelo
planeta Terra, em trilhões de bytes registrados. Quando en-
trou à direita, no trevo da US-64, e tomou esta via no rumo
oeste para iniciar o cruzamento transversal dos Apalaches,
ele sentia-se como o estafeta de sua própria mensagem.
Foram doze anos de elaboração. Um prolongado e com-
plexo trabalho de equipe que implicara em difícil consenso
sobre o que registrar e sob que enfoques, principalmente nas
fases iniciais do projeto, quando ainda havia discussões a res-
peito. Por trás desses debates, a desesperada pesquisa de meios
técnicos para registrar informações de forma indelével, capaz
de resistir por milhões de anos sem se deteriorar. Este era o
horizonte de Tônio: milhões de anos. Quanto aos conteúdos
registrados as controvérsias não se prolongaram, porque em-
bora ainda houvesse diversidade de pontos de vista entre gru-
pos e ideologias que coletivizavam pensamentos o que não

173
DOKT BAR ATTÓN

mais havia era entusiasmo, interesse, motivação para fazer


prevalecer posições. Nesta fase terminal da humanidade, as
ideologias, as teorias, as palavrosas elaborações do intelecto
perdiam o seu valor, se é que algum dia tiveram. Nada como
olhar essas coisas do ponto de vista privilegiado em que se
encontrava –sorriu Tônio.
As pesquisas sobre os meios técnicos para registrar da-
dos de forma que não se corrompessem conduziram à desco-
berta de que o melhor lugar para se gravar uma mensagem é
o interior das redes cristalinas, particularmente do quartzo.
Depois de milhares de anos de evolução dos muitos substratos
da escrita humana –da pedra ao papiro, do papel às fitas mag-
néticas e aos discos óticos– chegava-se à conclusão de que o
mais confiável de todos os materiais de suporte é mesmo a
velha pedra ancestral, agora trabalhada pelas nanoalterações
de átomos individuais em suas fileiras, nas estruturas crista-
linas. Em milhares de finas fatias de quartzo inquebrável,
Tônio e sua equipe conseguiram registrar petabytes de da-
dos, de forma inalterável durante milhões de anos –é o que
previam.
Essa pesquisa absorvera inteiramente Doutor Tônio e
sua equipe, cujo centro de operações e montagem era nos la-
boratórios de Fort Belvoir, uma instituição de pesquisa avan-
çada ao sul de Washington DC. Ele calculara –dir-se-ia previ-
ra– com intuição e perspicácia que Washington seria a última
cidade a entrar em colapso, quando a humanidade e a vida
entrassem na fase terminal. E, em Washington, o lugar mais
provável para resistir até o último dia seria Fort Belvoir: base
científica de origem militar, dotada dos mais completos recur-
sos de sobrevivência auto-suficiente sob regime de sítio. Os

174
Segunda parte - OS MÂNTIS

laboratórios de tecnologia de ponta ali instalados seriam a


incubadora, ou melhor, o ovário perfeito para produzir o Ovo
–intuiu Tônio com acerto, anos atrás.
A autoestrada 64 também tinha muitas rampas de su-
bida e, logo adiante, de descida, alternando-se à medida que o
caminhão cruzava as vertentes de serras paralelas onde jazi-
am sem vida dezenas de pequenas cidades. Isto era o que res-
tava dos velhos Apalaches, que ele algumas vezes percorrera
na juventude. A sucessão de ladeiras só teria fim quando en-
trasse em Kentucky, duzentos quilômetros adiante, lá pelo
fim da tarde, depois de passar ainda por muitas cidades fan-
tasmas. Aliás, tão mortas que nem fantasmas deixaram. No
início da última descida, antes das pradarias de Kentucky,
Tônio parou o caminhão para uma derradeira noite de sono.
Amanhã, se nenhum imprevisto ocorresse, chegaria ao seu
destino: Fort Knox.
Antes de dormir rememorou as ações finais que teria
que cumprir para depositar o Ovo no interior da fortaleza sub-
terrânea onde o governo americano armazenou todo o ouro
que pôde açambarcar, enquanto esteve convencido de que isso
valia à pena. Deitou-se no leito acima do banco e dormiu um
sono pesado e sem sonhos. Sonhar o quê?


No meio da tarde do dia seguinte, ele chegava às ou-
trora secretas instalações de Fort Knox que já fora o lugar
mais bem guardado do país. A sucessão de proibições e avisos
de ZONA MILITAR e ÁREA DE SEGURANÇA NACIONAL não fora reti-
rada, mesmo que há tempos nada significasse, porque nem
sentinelas havia mais. Antes do pôr-do-sol, o Ovo já tinha des-

175
DOKT BAR ATTÓN

cido em sua carreta elétrica e, no âmago da fortaleza, foi cui-


dadosamente depositado por Tônio numa espécie de berço que
ele arrumou em meio às pilhas de barras de ouro.
Depois, fechou as pesadas portas de segurança, andou
um pouco no calcinado ambiente exterior, tirou os óculos e as
proteções contra o ultravioleta, bebeu um gole de água e sen-
tou-se abraçando os joelhos no alto de uma pequena elevação.
Demorou-se fitando as nuvens vermelhas do oeste e o Sol que
se ocultava no horizonte. É o que estava previsto: água ele
tinha ao seu lado, mas nenhuma alimentação. É o que estava
previsto em seu plano: dali ele não mais se levantaria. Água,
ele beberia enquanto houvesse, mas não mais se alimentaria.
É o que ele previra, como parte integrante do seu projeto, mas
conservara em segredo até o fim: o que faria depois de coloca-
do o Ovo no interior do supercofre.
Tônio sentou-se em posição de lótus e dali não mais se
levantou. Com o olhar fixo no horizonte, imóvel dia e noite,
ele apenas se movimentava um pouco quando bebia um ou
dois goles da garrafa, ao seu lado, uma vez por dia. Aos vinte
e oito dias de contínua meditação, a pele descascada pelo Sol,
Tônio saiu da sua consciência cotidiana e flutuou. Mirou-se
do alto e sorriu.
Estava morto.

176
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 16

“M
eu nome é Soothsayer e venho dar
prosseguimento ao curso sobre os
humanos iniciado anteontem por
Gottesan Beterin e que ontem continuou com a aula de Prie
Dieu sobre o sistema nervoso e ganglionar dos humanos e
seu corpo de bioplasma. Espero que vocês estejam em paz,
aproveitando da melhor forma a comunhão com os mântis
do Mosteiro de Per-shep. Já vimos como o repertório
comportamental dos humanos ampliou-se consideravelmente
a partir dos seus ancestrais imediatos, instalando uma
liberdade de opções que a maioria deles não foi capaz de
administrar, a partir da sua frágil intuição ética. Eles utilizaram
sua capacidade superior de processar informações e imaginar
para mais completamente se entregarem a seus impulsos
animais.”
“Hoje desenvolveremos mais um pouco esta
interpretação mostrando como os agentes externos do
fracasso de humanorbis poderiam ter sido superados, se não
tivesse havido entre eles uma generalizada opção pela
ignorância. Os humanos descendiam de irracionais dotados
de instintos naturais que associados a determinadas emoções
comandavam seu comportamento nas ações básicas da vida:
sobrevivência do indivíduo, sobrevivência da espécie e

177
DOKT BAR ATTÓN

segurança da prole. Para cada uma dessas situações os


animais dispunham de um instinto a ela associado: o impulso
de alimentar-se, o impulso sexual e o impulso de defesa do
seu território para proteger sua descendência. Nesses níveis
elementares o comportamento é determinado pela busca do
prazer.”
“Quando se tornaram humanos –capazes, portanto,
de deliberar e decidir– seus corpos foram acrescidos de outros
centros vitais superiores não mais vinculados a essas
necessidades básicas. Tais centros deveriam ser os
instrumentos evolucionários da sua consciência para alcançar
níveis mais elevados de relacionamento com a Ordem Invisível
da Natureza. Contudo, isto sucedeu apenas com um número
reduzido de indivíduos, enquanto a maioria procurou valer-
se da nova capacidade que tinha adquirido para entregar-se
aos prazeres gerados nos centros vitais inferiores. A
necessidade de alimentar-se degenerou em avidez; a de
reproduzir-se degenerou em sensualidade desenfreada e a
necessidade de segurança tornou-se insaciável sede de poder.”
“Desde muito cedo, aqueles que perceberam o absurdo
dessa opção pela animalidade procuraram mostrar aos demais
o seu equívoco e para onde todos se precipitariam, se
persistissem na ignorância das suas potencialidades
superiores. Bem poucos ouviam e mudavam sua postura
diante da vida. A maioria –cega pelas seduções que os instintos
animais lhe proporcionavam– persistia nas suas práticas,
sujeitando-se a uma evolução muito lenta ao longo de
incontáveis encarnações didáticas. Dentre eles alguns
indivíduos davam-se conta da loucura em que se envolveram
e a tempo saltavam fora da nave de insensatos em que
humanorbis se transformava. Mas poucos entenderam o que
sucedia. E poucos optaram pelo real conhecimento.”

178
Segunda parte - OS MÂNTIS

“Nas últimas aulas deste curso, a mente que


utilizaremos será mais abstrata, além dos conceitos e das
categorias que estamos empregando agora. A compreensão
do que aconteceu em humanorbis será então em nível mais
espiritual. Por hoje, o que devemos registrar é muito simples:
o ser humano, dotado de um corpo e de um sistema nervoso
capazes de servir de suporte para os mais altos vôos do
espírito, preferiu permanecer na ignorância e abdicar das
conquistas espirituais a que tinha direito para gozar daquilo
que de mais animal possuía: sexo, avidez aquisitiva e sede
de poder –ou seja, sua herança instintiva. E isto se acentuava
na medida em que desenvolviam uma tecnologia que acabou
ficando a serviço desses objetivos subalternos.”
“A poderosa atração exercida sobre os humanos por
essas três forças da alma era então muito maior do que hoje
acontece com os ortópteros. A presença atuante desses fatores
retroativos, na escalada individual dos humanos, determinou
uma inflação do eu de superfície –identificado ao corpo físico–
que assumiu uma ilusão de imortalidade e forte tendência
aquisitiva. A principal característica do ego humano era a
avidez: o querer possuir cada vez mais, tanto objetos materiais
como algo imaginário, como títulos de glória e reconhecimento
social. Essa hegemonia do egoísmo constantemente
estimulado resultou em sociedades competitivas, onde a
mentira, a hostilidade e a violência eram instrumentos
utilizados para ferir, subjugar e dominar.”
“A consequência da manipulação constante desses
recursos foi a generalizada adoção da guerra como forma
normal de relacionamento entre grupos de uma mesma região,
ou entre diferentes regiões de Periplaneta. Guerras abertas e
declaradas e guerras invisíveis, entre grupos de diferentes
níveis de renda. A noção de renda é inseparável do conceito
de dinheiro, que era uma espécie de mercadoria artificial

179
DOKT BAR ATTÓN

convencionalmente aceita nas trocas e que estava diretamente


relacionada ao destaque social de cada um –equalizado ao
dinheiro que tinha ou demonstrava ter. Para os vastos
contingentes daqueles que optaram pela ignorância, a maior
ou menor posse de dinheiro passou a ser o critério para aferir
o prestígio e a importância de um indivíduo na sociedade.”
“Estou percebendo a dificuldade que vocês têm para
imaginar uma sociedade assim. Enquanto em ortopterorbis o
trabalho individual é motivado pelo prazer de ser útil, ou pelo
prazer de auxiliar o outro, ou de trazer visões mais lúcidas
sobre algum segmento da experiência do viver, em
humanorbis o que motivava os indivíduos a agir eram suas
ambições pessoais. Tais ambições eram o alimento da imagem
que o eu superficial fazia de si próprio. Poderiam ser ambições
de qualquer tipo, desde que representassem um ‘acréscimo’
capaz de inflar ainda mais o ego, num processo doentio e
ilusório. Reconheço a dificuldade em conceber tal civilização;
vejo que para imaginar humanorbis vocês devem abandonar
o seu natural blatideocentrismo.”
“Aqueles que desde cedo viram o absurdo do desvio
em que os outros penetraram procuraram mostrar onde estava
o véu de ilusão que os afastava do reconhecimento da verdade
nos fatos de cada dia. Esses ensinamentos eram
frequentemente mal compreendidos e seus divulgadores
acabavam reunindo grupos de discípulos que os distorciam
para formar ideologias ou sistemas filosóficos que iriam, mais
adiante, servir de base para seitas religiosas, políticas e
científicas. Assim, alguns dos que buscavam vencer a distorção
perceptiva que bloqueava a captação da verdade de cada
momento, fundaram linhagens de pseudo-conhecimentos que
permaneceram por muitos grosianos desorientando muitos
dos que tentavam escapar do domínio da ilusão.”

180
Segunda parte - OS MÂNTIS

“Nos últimos duzianos de humanorbis, quando o tempo


disparou para fora de qualquer padrão natural, a renúncia ao
conhecimento real era incentivada pela televisão planetária e
pelo estímulo tecnicamente elaborado à vaidade e aos instintos
aquisitivo e sexual. Nessa fase final, formara-se uma cultura
baseada na identificação de cada um com seu próprio corpo
físico e na gratificação desse ego ilusório cuja inflação era
artificialmente estimulada. Nos últimos anos, quase todos os
humanos, principalmente do sexo feminino, que reunissem
características sexualmente atrativas estavam vinculados a
organizações de prestação serviços sexuais e a maioria das
jovens tinha como objetivo dedicar-se ao sexo –real ou
imaginário– por dinheiro.”
“Para facilitar a compreensão do que se passou, temos
que esquecer os inúmeros detalhes que caracterizavam
situações especiais de indivíduos e de grupos para nos
fixarmos na essência do que determinou coletivamente a perda
de rumo entre os humanos. Essa essência pode ser resumida
assim: 1 –a opção pelos prazeres fáceis do nível animal pode
ser sintetizada na exacerbação do instinto aquisitivo, seja de
itens de poder, riqueza ou prazer. 2 –isto significava gratificar
o eu individual ilusório que assumiu o controle da
personalidade e passou a competir com seus semelhantes
pela satisfação de suas demandas. 3 –a mente aquisitiva
desses egos bloqueou o acesso à verdade dos fatos,
realimentando a ignorância e reforçando a opção por ela.”
“Tudo isto acontecia num ritmo frenético, que afastava
definitivamente a possibilidade de uma percepção ponderada
e meditativa da realidade; um ritmo cada vez mais acelerado
que não deixava qualquer espaço para a reflexão
contemplativa nem para o conhecimento direto da realidade
por parte de cada um –fatores indispensáveis para se viver
ajustado à Ordem Invisível da Natureza. Havia os que

181
DOKT BAR ATTÓN

entendiam o que se passava e muitos deles esforçaram-se


para se fazer ouvidos. Alguns os escutaram e perceberam a
tempo o abismo para onde humanorbis se precipitava
cegamente. Muitos foram resgatados, mas a grande maioria
não pôde mais escapar do destino final que se auto-infligiram.
E logo a hecatombe instalou-se em todo o planeta.”


–Bem, meus amigos, por hoje é o suficiente –falou
Soothsayer, aliviando a todos da longa exposição telepática, a
mais rica em imagens das três aulas até então ministradas–
ponderem no que lhes foi transmitido e procurem fixar as
imagens que os induzi a visualizar. O fato de que hoje não
tenha havido perguntas é um sinal de que a assimilação de
vocês está mais aguda. Agora será uma boa opção repousar,
meditando em seguida sobre a nossa aula. Que a Ordem Invi-
sível da Natureza prossiga orientando nossos passos e que os
novos conhecimentos que vocês estão recebendo logo se
transmutem em sabedoria.
–Soothssayer, antes que você se retire quero fazer uma
pergunta.
–Sim, Dokt Bar Attón, pode falar.
–Agora, perto de finalizar, ao mencionar o fato de
humanorbis em quase sua totalidade ter-se precipitado num
abismo, ou coisa assim, referindo-se ao processo de extinção
então deflagrado você disse que “alguns foram resgatados”.
Eu gostaria de ser esclarecido sobre esse resgate. Em que con-
sistiu? Então alguns humanos não foram extintos? Que res-
gate foi esse?
–Eu mencionei esse fato para que ele funcione como
ligação para uma próxima aula, onde será desenvolvido. Esse

182
Segunda parte - OS MÂNTIS

processo de resgate não significa que alguns dos humanos ti-


vessem escapado da extinção. Trata-se de outra coisa, tão
importante que a aula final do curso será dedicada a esse tema.
Tenha um pouco de paciência que essa informação virá. Espe-
cialmente porque você, Dokt Bar Attón, tem uma participa-
ção nesse processo de resgate de muitos humanos, naqueles
remotos acontecimentos...
–Muito bem. Teremos paciência para aguardar essa
aula. Mas agora surge outra dúvida mais urgente: que parti-
cipação é esta, que eu ou nós poderíamos ter em fatos sucedi-
dos há tanto tempo?
–Lembro-lhe que o fluir do tempo não é apenas linear
e contínuo, como parece a um exame superficial. Assim como
o que sucedeu em humanorbis tem relações com os fatos atu-
ais que sucedem em ortopterorbis, do mesmo modo, o que agora
sucede entre nós tem alguma influência sobre o que ocorreu
naqueles dias terríveis que antecederam à Transição
Ortóptera.
–O que agora está sucedendo conosco influi sobre o que
aconteceu em humanorbis? –espantou-se Scara Faggio.
–E por que não? –interveio Bar Ouchel– poetas e mís-
ticos nunca aceitaram que o tempo fosse um fluxo linear
unidirecionado e irreversível. Vejo claramente que o que está
acontecendo aqui pode encontrar ressonância em fatos acon-
tecidos em humanorbis.
–É isto mesmo, Soothsayer?
–Sim, Dokt Bar Attón. O que ocorre entre nós pode ter
ressonância nos acontecimentos de humanorbis. Evidentemen-
te, não se trataria de ressonâncias poderosas, a ponto de in-
fluírem no curso geral dos acontecimentos mais amplos da-
quele período, mas suficientes para interferir em pontos es-
pecíficos, tais como uma ampliação do resgate de humanos

183
DOKT BAR ATTÓN

que estivessem em condições de saltar da nau dos insensatos,


ou compreender antes do fim que o significado da sua existên-
cia era algo bem mais amplo e rico do que a louca opção pelos
prazeres, pela violência ou pela exacerbação de um eu ilusó-
rio, aquisitivo e vaidoso.
–Nós, daqui, podemos influir sobre eles? –duvidava
ainda Scara Faggio.
–Não só podemos influir, como estamos influindo,
Scara; posso lhe assegurar.
–E você pode nos dar um exemplo de como tal influên-
cia se exerceria sobre os humanos? De que modo, e em que
amplitude, essa ação de influir sobre eles ocorreria? –quis
saber Bar Attón.
–Dou-lhe um exemplo. Imagine que exista em nós um
forte desejo de alertar os humanos mais sensíveis no sentido
de que eles estão vivendo uma situação absurda, rumando
aceleradamente para uma tragédia planetária de dimensões
espantosas. Imagine que tenha existido em humanorbis al-
guém que, vendo por antecipação o que aconteceria fatalmen-
te ao cabo de alguns anos, estivesse empenhado num grande
esforço para mostrar aos demais a realidade dos fatos, mes-
mo conhecendo a relutância de todos em encarar a dura ver-
dade. Vocês não acham que essa identidade de pontos de vista
criaria as condições para a ocorrência de fenômenos de resso-
nância? Não lhes parece claro que esse ser humano sensível,
mesmo tendo existido dúzias de trigrosianos atrás, seria ca-
paz de sintonizar nossas emissões vindas do futuro distante?
–É verdade; sinto-me inclinado a admitir que isto é
possível. Em pequena escala, esses fenômenos de ressonân-
cia através do tempo linear efetivamente ocorrem entre nós e
as premonições não são raras, na atualidade. O que eu não

184
Segunda parte - OS MÂNTIS

tinha ainda imaginado é que isto pudesse ocorrer em lapsos


de tempo tão extraordinariamente longos –assentiu Bar Attón.
–Os fatos recentes que tanto alteraram a psique coleti-
va de ortopterorbis têm uma relação direta com fatos ocorri-
dos em humanorbis, trigrosianos atrás, como vocês não igno-
ram. E a troca de influências –que se manifesta através de
ressonâncias– ocorre nos dois sentidos.
–Os mântis têm alguma confirmação de que uma tal
influência, que tenhamos exercido sobre eles, tenha de fato
existido?
–Vejo que ainda há dificuldade para bem compreender
o que se passa, porque temos o hábito de nos comunicar ver-
balmente, optando por um tempo para os verbos que empre-
gamos: passado, presente ou futuro. Telepaticamente fica mais
fácil omitir essa opção e empregarmos os indicadores de ação
–que na linguagem falada chamamos de verbos– em um tem-
po desvinculado dessas noções de passado, presente e futuro.
Aí, sim, entenderemos que essa influência se exerce –quer
coloquemos isto no passado ou no presente. Os humanos a
colocariam no futuro. Mas não quero me estender sobre isto
que é parte das aulas finais de amanhã e depois.
–Existe alguém –coloquemos assim– entre os huma-
nos que tenha conhecimento de ortopterorbis? Alguém que
tenha tido ou –digamos– esteja tendo algum contato conosco?
–Sim. Existe. Ou existiu –noutra maneira de dizer. A
sua história, Dokt Bar Attón, a narrativa de suas descobertas
e do que a elas se seguiu e se seguirá, em ortopterorbis, foi ou
está sendo registrado sob a forma de ficção, em humanorbis.
Cada vez mais atônitos, os três blatídeos entreolha-
ram-se sem terem coragem de se declarar incrédulos. Como
ser incrédulo sobre uma informação vinda dos mântis?

185
DOKT BAR ATTÓN

186
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 17

ais uma vez, peço licença aos pacientes leitores

M para intervir nesta narrativa. Algo de novo sur-


ge agora exigindo esclarecimentos que não sei
se poderei dar de forma satisfatória. Se não conseguir dar as
explicações que gostaria, quero, pelo menos, deixar registra-
da minha posição diante do que está sucedendo.
No final do capítulo anterior, como vimos, aparece uma
alusão a interações e ressonâncias entre os ortópteros do fu-
turo distante e os seres humanos da atualidade, com uma
referência que me pareceu bastante clara a este livro que ora
escrevo –a não ser que haja outros autores nesta mesma situ-
ação, produzindo textos semelhantes a este. Isto foi, para mim,
uma surpresa. Mas não totalmente –confesso– porque a sen-
sação de estar sendo “assessorado” estava cada vez mais pre-
sente, à medida que prosseguia na minha tarefa de escrever a
história de Dokt Bar Attón.
Quero deixar claro que minha intenção inicial, quando
me dispus a escrever este livro, foi elaborar um tema ficcional
inspirado na loucura dos seres humanos que, nos primeiros
anos do século 21 davam sinais de ter enlouquecido definiti-
vamente, sem se darem conta disto. Mas, à medida que os
capítulos se sucediam no monitor do micro, crescia um senti-

187
DOKT BAR ATTÓN

mento, a princípio difuso, de que parte da minha criação vi-


nha de fora: algo como uma inspiração externa.
Talvez fosse apenas uma impressão –pensei– uma fan-
tasia a mais que eu estava alimentando, sem correspondên-
cia com um fenômeno real. Em sua forma benigna isto é uma
sensação comum em autores de ficção. Jorge Amado declara-
va que não tinha controle sobre alguns dos seus personagens,
que frequentemente começavam a se comportar de modo dife-
rente –e até oposto– do que ele pretendia. Muitos outros ro-
mancistas disseram o mesmo, entre eles Balzac e Graham
Greene, se não me engano. Guimarães Rosa referiu-se uma
vez ao caráter “mediúnico” do seu trabalho, o que talvez fosse
apenas uma manifestação de modéstia, diante da exuberante
genialidade de sua produção literária.
Mas o que sucede comigo parece ser diferente sem, no
entanto, chegar ao nível de uma psicografia. De um modo ge-
ral, estou gostando muito da civilização ortóptera que tem
aspectos de grande beleza, ao meu ver. Mas sinto-me às vezes
induzido a escrever coisas que me constrangem, como no ca-
pítulo da viagem de Tônio, que me deixou num estado de per-
plexidade e angústia, enquanto o redigia. As aulas dos mântis,
por sua vez, cuja interpretação do que sucedeu à humanidade
no decorrer do século 21 ainda me parece um tanto discutível
–pelo menos até o ponto em que interrompi a narrativa– seri-
am textos “telepáticos”, como lá está colocado, que me pare-
cem vir à mente em pacotes prontos, definitivos e completos,
em seus parágrafos modulares de tamanho estranhamente
uniforme.
É claro que estou ciente do que escrevo e posso me re-
cusar a colocar no papel algo que contrarie minha consciência
ou a minha vontade soberana; afinal de contas não estou hipno-

188
Segunda parte - OS MÂNTIS

tizado. Mas isto não chega a ocorrer e deixo o texto fluir com
naturalidade, atitude que também adoto na prática do viver
cotidiano, em que procuro deixar-me flutuar no rio do Tao.
Habituei-me a acatar tranquilamente os acontecimentos e
fases que pontuam minha vida, numa atitude que considero
de “obediência” à Ordem Invisível da Natureza –como os
ortópteros chamam a Divindade inerente ao cosmos.
Que o tempo não é apenas um fluxo linear e contínuo
do futuro para o passado, passando rapidamente por um fu-
gaz presente, disto estou convencido. Já escrevi sobre este tema
e minha posição é que o tempo é tridimensional, permitindo
que cada um de nós navegue em seu tempo próprio, que so-
mente coincide com o tempo próprio dos outros quando estamos
em mútua interação. Esta compreensão do que seja o tempo
já se tinha estabelecido em meu espírito desde anos atrás, e
configurou-se com mais detalhes a partir da conferência do
eminente Professor Kether Weisskopf, da Universidade
Hebraica de Jerusalém, no PRIMEIRO SIMPÓSIO INTERNACIONAL
PARA A CONSCIÊNCIA DE GAIA –realizado em setembro de 2008,

na Jamaica. Consultando os Anais daquele Simpósio, destaco


daquela conferência um trecho ilustrativo do que seja a não-
linearidade do tempo, segundo o Professor Weisskopf:

COMO PÔDE JONATHAN SWIFT PREVER , NAS VIAGENS DE


GULLIVER, QUE O PLANETA MARTE TEM DUAS LUAS E QUE ESTAS GIRAM
UMA EM SENTIDO CONTRÁRIO DA OUTRA, MAIS DE UM SÉCULO ANTES

QUE A CIÊNCIA DESCOBRISSE ISTO? COMO SOUBE JULIO VERNE, NA SUA

VIAGEM À LUA, COM UMA ANTECIPAÇÃO EQUIVALENTE À DE SWIFT, QUE


A CONQUISTA DA LUA SERIA FEITA POR UM VEÍCULO AMERICANO TRIPU-

LADO POR TRÊS HOMENS QUE SAIRIA DA FLÓRIDA PARA UMA VIAGEM DE

TRÊS DIAS E NO SEU RETORNO CAIRIA NO MAR? E COMO FOI QUE H.G.

189
DOKT BAR ATTÓN

WELLS, EM SUA NOVELA THE WORLD SET FREE, DESCREVEU UMA GUER-
RA QUE SERIA TRAVADA NOS ANOS 50 EM QUE BOMBAS ATÔMICAS DO
TAMANHO DE UMA BOLA DE FUTEBOL SERIAM LANÇADAS DE AVIÕES E
TERIAM PODER EXPLOSIVO SUFICIENTE PARA DESTRUIR UMA CIDADE IN-
TEIRA? ISTO EM1913, QUANDO NÃO SE TINHA IDÉIA DO QUE FOSSE UMA
REAÇÃO EM CADEIA NEM SE SABIA QUE O ÁTOMO PODIA SER DESINTE-
GRADO, LIBERANDO UMA ENERGIA FANTÁSTICA! E, FINALMENTE, PARA
NÃO NOS ESTENDERMOS DEMASIADO NA ENUMERAÇÃO DESSES FATOS,
COMO FOI POSSÍVEL QUE O OBSCURO ESCRITOR NORTE-AMERICANO
MORGAN ROBERTSON, EM SEU ROMANCE FUTILITY, DE 1898, DESCRE-
VESSE O NAUFRÁGIO DE UM GRANDE NAVIO DENOMINADO TITAN, QUE
AFUNDAVA EM SUA VIAGEM INAUGURAL ENTRE A INGLATERRA E OS ES-
TADOS UNIDOS PELO CHOQUE COM UM ICEBERG, COM CENTENAS DE
MORTOS EM CONSEQUÊNCIA DA FALTA DE BARCOS SALVA-VIDAS? ESSA
OBRA DESCREVIA COM TAL RIQUEZA DE DETALHES O NAVIO, A VIAGEM E O
QUE VEIO A ACONTECER EM 1912 COM O NAUFRÁGIO DO TITANIC QUE
DEVERIA SER OBJETO DE PROFUNDAS PONDERAÇÕES POR PARTE DE QUAL-
QUER PESSOA QUE SE PROPONHA A ESTUDAR SERIAMENTE O QUE SEJA O
TEMPO.*

Há pelo menos uma parte da minha consciência que


está convencida de que esta construção ficcional, DOKT BAR
ATTÓN, tem algo de profético –mesmo porque existem elemen-
tos informativos sobre a depleção da camada de ozônio que
correspondem aos aqui descritos. É terrível ter de admitir que
os devastadores cenários delineados nos capítulos que retra-
tam a chamada fase terminal da humanidade possam real-
mente ser da forma que aqui se antecipa. Estou ciente de que

*
Cf. ANAIS DE UM SIMPÓSIO IMAGINÁRIO. São Paulo: Palas Athena, 1998.
p. 61.

190
Segunda parte - OS MÂNTIS

o processo de destruição da camada de ozônio somente se po-


deria bloquear –mas não reverter: isto é tecnicamente impos-
sível– se todos os países começassem imediatamente uma cor-
rida frenética para retirar e destruir quimicamente todo o CFC
e HCFC de todos os milhões de aparelhos de refrigeração ins-
talados no mundo inteiro, antes que eles apodreçam como
sucata ou, furados, liberem o gás na atmosfera. E isto é prati-
camente inviável, porque não vejo como alguém poderia ga-
nhar dinheiro com um programa assim, ainda mais em escala
planetária. Se não há expectativa de alguém ganhar dinheiro
com isto, é óbvio que isto não será feito. “Sem lucro nada fei-
to” –é o que pensam os homens sérios desta humana civiliza-
ção. E talvez já seja tarde demais, mesmo para uma ação de-
sesperada como esta.
Contudo, desagrada-me profundamente servir de ins-
trumento para divulgar entre meus contemporâneos mensa-
gens vindas de um futuro remoto oriundas de seres não-hu-
manos, apesar de suas características comportamentais evi-
denciarem padrões de caráter bem superiores aos que preva-
lecem entre nós. Por melhores que sejam as intenções de Dokt
Bar Attón e dos mântis, repugna-me a idéia de que não passo
de um porta-voz de uma civilização de insetos evoluídos do
futuro distante. Estou ciente da gravidade do momento pre-
sente, em nosso planeta. Percebo a inconsciência generaliza-
da daqueles que talvez pudessem evitar o destino que nos
aguarda e estou querendo prestar minha colaboração da me-
lhor forma possível para reverter o quadro dantesco que nos
espera, a prazo não muito longo. Mas quero que o alerta que
eu puder gritar e proclamar seja da minha própria lavra. Nesta
minha atitude –que reivindica uma ingênua soberania cons-
ciente sobre meu texto, hoje contestada por alguns teóricos

191
DOKT BAR ATTÓN

da literatura com relação a qualquer autor– talvez ainda re-


sida uma defesa da pretensiosa autonomia de um ego de su-
perfície, tal como colocado pelos mântis. Talvez. Mas não pos-
so deixar de protestar quanto ao fato que agora se esboça de
que eu seja apenas um instrumento nas mãos de baratas evo-
luídas, por mais evoluídas que o sejam, inclusive eticamente.
Mas tenho que interromper esta digressão porque, mais
uma vez, sinto-me instado a prosseguir. Está ficando difícil
resistir. E, além disso, eu não pretendo resistir. Vejamos até
onde os mântis pretendem chegar.

192
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 18

indo! –exclamou Duvilen Ddu ao examinar as

–L finíssimas lâminas de quartzo que refletiam e


refratavam cores brilhantes e luminosas– que
maravilha tecnológica!
–Que beleza! –concordaram Ania Marque, Hlebarka e
os demais presentes, no momento em que finalmente conse-
guiram abrir a cápsula de titânio e olhar o seu conteúdo.
Desde que Bar Attón viajou para o Mosteiro, uma das
tarefas da equipe de cientistas do Instituto de Investigação
das Culturas Não-ortópteras foi tentar abrir o enorme elipsóide
encontrado no depósito de barras de ouro, dois meses atrás.
Agora, submetendo-o a campos magnéticos que rapidamente
invertiam sua polaridade –uma sugestão de Duvilen Ddu a
partir de uma sucessão de deduções e intuições que ele prefe-
ria não explicar– o misterioso objeto se abrira longitudinal-
mente com um discreto estalido, deixando uma de suas meta-
des ligada à outra por uma longa dobradiça interna em sua
parte mais larga. E o que se viu no seu interior não deixava
dúvida de que aquilo era o produto de uma tecnologia refina-
da, de algo elaborado com recursos técnicos possivelmente
superiores aos que os blatídeos tinham à sua disposição.

193
DOKT BAR ATTÓN

Eram grosas e grosas de estojos contendo bigrosas de


finas lâminas retangulares de cristal, onde certamente es-
tariam registradas as informações que os vivíparos conside-
raram importantes para legar ao futuro, ou talvez para
alienígenas que viessem a encontrar esta cápsula. Muito
grandes para serem manuseados com facilidade pelos
blatídeos, os estojos eram rotulados com caracteres em rele-
vo mostrando que as lâminas que continham referiam-se a
diferentes temas, como se fossem livros ou pastas de arqui-
vos sobre diferentes assuntos. Na parte superior dos estojos
ou, pelo menos, no que parecia ser a parte superior,
sequências lineares de pequenos círculos vazios e cheios dei-
xavam claro que se tratava da numeração destes em lingua-
gem binária. Tão logo foram encontrados os primeiros da
série, com apenas dois, três ou quatro caracteres facilmente
identificados como zero e um, estabeleceu-se toda a série dos
estojos, que foram retirados e colocados em ordem, evidenci-
ando também que a escrita dos vivíparos era da esquerda
para a direita, em linhas que se sucediam de cima para bai-
xo, tal como entre os blatídeos.
Decifrar a numeração dos estojos foi simples dada a
universalidade do sistema binário, mas decifrar os demais
caracteres em relevo seria mais difícil. Primeiro, foi feita uma
listagem dos signos adotados e a frequência com que apareci-
am; depois, uma listagem das combinações de dois, três, qua-
tro ou mais caracteres que apareciam nesses títulos, proce-
dendo da mesma forma quanto à frequência de aparecimento
dessas combinações. Lançando tudo isto em computador, os
cientistas em poucos dias tinham uma idéia de como se
estruturava a linguagem dos vivíparos, mas nada transparecia
sobre os seus conteúdos, sobre o que significaria o que ali es-
tava escrito.

194
Segunda parte - OS MÂNTIS

O problema central não era os registros externos dos


estojos –apenas rótulos ou capas de livros– e sim o que conti-
nham as lâminas de quartzo onde estava gravado o que inte-
ressou aos vivíparos legar “para quem interessar possa”. Mas,
por que não adotaram uma configuração circular, em discos,
que facilitaria a sua leitura em equipamento apropriado? Por
que retângulos, como para serem lidos diretamente? Quando
superpostas como as páginas de um livro as lâminas refleti-
am cores irisadas e padrões de interferência, conforme a inci-
dência da luz e o ângulo da observação. Não havia caracteres
visíveis, nem mesmo ao microscópio, indicando que as inscri-
ções estavam numa escala extremamente reduzida. À luz po-
larizada os efeitos de cores eram ainda mais espetaculares,
mas nada revelavam além do fato de que ali havia algo regis-
trado. Mas em que escala? E como acessar esses registros?
Os estudos sobre a técnica adotada nas lâminas pros-
seguiram no Laboratório de Pesquisas do Instituto de Mine-
ralogia e Cristalografia de Bakkerstor com a aplicação dos
recursos mais avançados para a investigação das estruturas
cristalinas do quartzo. As tentativas de identificação da esca-
la em que os sinais estavam registrados não tiveram resulta-
do, mesmo quando submetidos a microscópios eletrônicos de
alta resolução. Descobriu-se que ali havia algo porque o com-
portamento óptico das lâminas à luz polarizada indicava que
sua microestrutura cristalina tinha sido alterada. Contudo,
não foi possível identificar os sinais, mesmo quando as lâmi-
nas foram submetidas a exames com frequências mais curtas
do que a luz visível.
Depois de investigações rigorosas, ficou evidente que
os vivíparos não tinham gravado coisa alguma sobre as su-

195
DOKT BAR ATTÓN

perfícies do quartzo, mas dentro de suas estruturas, ou seja,


nos próprios átomos que formavam as redes cristalinas: uma
escrita na escala dos átomos cuja orientação de parte deles ti-
nha sido alterada para um ângulo diferente do natural. Os re-
gistros das modificações encontradas nos índices de refração
nessa escala, em que a resolução dos aparelhos disponíveis che-
gava ao seu limite, mostraram que os átomos de silício, nas
estruturas cristalinas onde havia algo gravado, estavam em
duas diferentes posições, formando sequências que se prolon-
gavam por trigrosas de átomos em cada linha. E que cada uma
dessas linhas era separada das subsequentes por uma linha
“neutra” onde o ângulo dos átomos permanecera inalterado.
Essas descobertas deixaram claro que as mensagens
estavam também no sistema binário e que o sentido da “escri-
ta” era o convencional: linhas gravadas da esquerda para a
direita que se sucediam em sequência vertical. Isto explicava
por que os vivíparos não usaram o sistema de discos: as redes
cristalinas, sempre retilíneas, determinaram a geometria re-
tangular das lâminas. Entretanto, isto complicava seriamen-
te o problema de sua leitura. Seria necessário construir um
aparelho capaz de leitura retilínea sequenciada em nível de
definição compatível com os espaçamentos entre os átomos
de uma mesma linha, e que pudesse também saltar de uma
linha para outra em escala extraordinariamente pequena.
Construir tal aparelho era, em princípio, factível, mas isso
iria exigir anos de trabalho dos cientistas de ortopterorbis.
De qualquer forma, Duvilen Ddu, Hlebarka e seus co-
legas estavam satisfeitos pelo sucesso na abertura da cápsula
e pelas descobertas realizadas até então. Quando Dokt Bar
Attón retornasse, haveria muito para ser mostrado.

196
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 19

A
lbino. Um ser quase transparente, deixando en-
trever seus órgãos internos latejando, pulsando,
os fluidos vitais circulando quando ele se posi-
cionava a contra-luz. O olhar suave e inquiridor
parecia atravessar aqueles a quem encarava, que aparente-
mente –é o que sentiam– ficavam translúcidos como ele. Des-
se ser extraordinário emanava um fluxo de simpatia e sere-
nidade que alterava a mente dos presentes facilitando a co-
munhão telepática e predispondo a um estado receptivo para
o que viria a seguir. Hoje, tanto os mântis que deram as au-
las anteriores como os que as tinham assistido estavam pre-
sentes. Todos. E, além deles, alguns que os viajantes já co-
nheciam e outros que somente estavam aparecendo agora. O
espaço onde se reuniram era frouxamente delimitado por su-
perfícies curvas e translúcidas, no sétimo nível da pirâmide.
Do balcão podia-se ver a intrincada geometria dos jardins do
claustro, permitindo fazer uma idéia mais clara das suas
harmoniosas proporções. Mas, olhando para cima, a neblina
dourada não permitia ver que configuração e quantos níveis
haveria ainda, acima do oitavo e do nono andares, ainda vi-
síveis.

197
DOKT BAR ATTÓN

“Encerramos hoje o nosso curso sobre os humanos.


Meu nome é Aabi-t. As informações a que vocês terão acesso
nesta aula devem ser utilizadas com cuidado, não apenas
quanto aos desdobramentos e associações por elas sugeridos
como, principalmente, quanto ao seu uso, ao retornar à vida
cotidiana em sociedade. Muito do que vocês terão conheci-
mento deve ser incorporado à sua compreensão do tempo, da
realidade e da vida, mas nada deve ser explicitado sem uma
consciência clara dos possíveis efeitos de sua divulgação.
Qualquer imprudência poderá prejudicar não apenas aquele
que receber uma informação que não lhe seja apropriada,
como também trazer consequências indesejáveis para a cole-
tividade como um todo.”
“Sutra e Orinna são a única Realidade. Nós somos o
sonho de ambos –que em sua inacessível essência são Um
Só. Qualquer especulação sobre a essência de Orinna Sutra
somente trará novas ilusões. O espaço e seus conteúdos são
seu corpo e o tempo e seus eventos são seu espírito, mas isto
é também uma ilusão –que varia de indivíduo para indivíduo,
na medida em que se diferenciam da massa, da coletividade.
A configuração do espaço total é impossível de ser conhecida,
mesmo para a mente mais audaz, assim como o tempo é só
uma forma conveniente de se entender a eterna simultanei-
dade. Todos os tempos e lugares coexistem na realidade de
Orinna Sutra. Alguns mistérios podem ser compreendidos;
outros devem ser respeitados.”
“Muito antes que a linhagem dos humanos dominasse
este planeta, a linhagem dos ortópteros já existia. E, assim
como os humanos eram apenas assustadas criaturas da noite
quando eclodiu saurorbis, também os blatídeos eram peque-

198
Segunda parte - OS MÂNTIS

nos seres noturnos assediados pelo medo, no período em que


os humanos dominaram. Tudo se interliga nas distâncias ilu-
sórias que separam tempos e espaços. Os humanos tinham o
sentimento inconsciente de que os blatídeos os sucederiam.
Por isso, nunca houve nos bigrosianos em que eles domina-
ram criaturas mais desprezadas, mais perseguidas, mais
execradas do que os ancestrais dos blatídeos. Sentindo vaga-
mente que os blatídeos herdariam o planeta, os humanos
odiaram os ancestrais de vocês.”
“Tendo optado pela ignorância de sua própria dimen-
são cósmica, os humanos nunca compreenderam que a aver-
são e o desprezo que tinham pelos blatídeos de então resu-
mia todo o corrosivo ódio de que eram capazes. Depois, aquela
hostilidade espalhou-se contaminando todo o relacionamento
que mantinham com os demais seres da criação, com a natu-
reza e com os outros seres humanos. Eles passaram, então, a
se considerar superiores a todas as demais criaturas e culti-
varam uma civilização destruidora, predatória e guerreira que
não poupava sequer seus próprios semelhantes. O grande
risco para ortopterorbis é que as sementes desse ódio ainda
existem, não foram extintas. Após duas dúzias de trigrosianos
de purgação, o perigo ainda está latente.”
“Ao se afastarem dos ritmos moderados que marcam
a evolução das formas orgânicas e psíquicas, o próprio tempo
saiu dos eixos que tudo regulam e entrou em progressivo
estado de aceleração, como nunca antes tinha ocorrido. Ape-
sar das muitas exceções individuais daqueles que entende-
ram o que se passava –mas não conseguiram fazer prevale-
cer esse entendimento– o ser humano optou pelo culto aos
prazeres oriundos do impulso aquisitivo, do sexo, do domínio

199
DOKT BAR ATTÓN

e da crueldade, desviando-se de um fluxo evolucionário ajus-


tado à Ordem Invisível. O tempo desvairado conduziu
humanorbis a estados cada vez mais graves de alienação,
resultando finalmente na destruição dos delicados equilíbrios
naturais que sustentavam a vida neste planeta.”
“A opção pela ignorância e pelos prazeres fáceis da
herança animal foi um erro grave, porque tinha a cumplicida-
de da consciência ética de que os humanos foram dotados.
Cada ser humano tinha, dentro de sua psique, uma noção
inata de que estava cometendo uma fraude contra si mesmo
e contra sua natureza mais elevada. Esses erros representa-
ram um fracasso em escala cósmica e tiveram como
consequência a extinção dos corpos aperfeiçoados que lhes
serviriam para um salto evolucionário que os colocaria em
contato com manifestações superiores de Orinna Sutra. Seu
complexo equipamento neuronial desapareceu e foram todos
submetidos a um período de expiação e recondicionamento
extremamente longo: duas dúzias de trigrosianos.”
“A revelação que agora lhes faço –e que deve ser
mantida em segredo para a sociedade blatídea como um todo–
é que os núcleos psíquicos que animaram os corpos dos hu-
manos naquele passado remoto são os mesmos núcleos psí-
quicos que hoje animam os ortópteros. Durante duas dúzias
de trigrosianos, eles foram reduzidos a padrões de existência
substancialmente mais limitados do que aqueles a que tinham
tido acesso, enquanto seres humanos. Por todo esse período,
os mesmos centros psíquicos outrora vaidosos, arrogantes e
cheios de ódio passaram por uma longa reciclagem psíquica
que lhes permitiu desenvolver uma nova civilização onde aque-
les valores éticos estivessem bem mais depurados: a civiliza-
ção atual de blatídeos e mântis.”

200
Segunda parte - OS MÂNTIS

“Somos, portanto, os mesmos. Humanos, blatídeos e


mântis são dotados da mesma individualidade psíquica, em-
bora em diferentes estágios evolucionários. Os seres huma-
nos que há duas dúzias de trigrosianos poderiam estar pene-
trando nos mundos superiores de Orinna e Sutra, tendo fra-
cassado na utilização do sofisticado equipamento orgânico que
seus corpos físico e de plasma representaram, foram subme-
tidos, como consequência de sua própria opção irrefletida e
leviana, a encarnar nos primitivos corpos dos blatídeos de
então, até que estes evoluíssem ao ponto de experimentar
uma nova oportunidade. Não se deve encarar esta redução
ao nível blatídeo como uma punição dos deuses, mas como
uma resultante das suas próprias atitudes.”
“Na desvairada opção que fizeram, em que a violência
era um dos traços predominantes, os humanos não apenas
destruíram os equilíbrios da natureza e fizeram o fluir do tem-
po saltar para fora dos ritmos naturais, como também deram
rumos às suas pesquisas tecnológicas em que a destruição e
a morte em larga escala era o objetivo principal. Sei que isto
parece repugnante a um blatídeo, que não pode imaginar tal
civilização sem um tremor de angústia em seus gânglios mais
sensíveis. Contudo, é necessário que vocês saibam que os
humanos conseguiram realizar algo que os blatídeos nunca
procuraram: desintegrar o núcleo atômico, liberando energi-
as fantásticas em artefatos de altíssimo poder de destruição,
visando principalmente a guerra.”
“Esta linha de pesquisa somente se desenvolveu entre
os humanos como uma expressão do seu culto à violência, à
dominação e à guerra, decorrente da ilusão de que os egos
individuais são entidades separadas, cujo estado normal de

201
DOKT BAR ATTÓN

convivência é a competição e a luta sem trégua pelo domínio


dos demais. Essas armas de destruição em massa por muito
pouco não liquidaram a vida em Periplaneta, antes mesmo
que o desequilíbrio ambiental o fizesse. Lamento ter que pas-
sar para vocês informações constrangedoras como esta, prin-
cipalmente quando esclareço também que os humanos e os
blatídeos são, em essência, as mesmas entidades psíquicas
que, separados por um considerável lapso de tempo, voltam
a se constituir em civilização planetária.”
“Agora faço a advertência mais importante, já esboçada
anteriormente. O risco de um retorno à violência e ao desva-
rio orientado para o culto do ego –que é o motor da involução
espiritual– não está inteiramente afastado. As sementes do
mal permanecem latentes e seu crescimento em direção ao
desastre é imperceptível, nos primeiros estágios. Fiquem aten-
tos aos primeiros sintomas de exaltação do próprio eu e te-
nham todo cuidado com os ritmos naturais do fluir do tempo.
Recentemente, houve em ortopterorbis uma pequena suces-
são de descobertas que pode ser o primeiro sinal de uma
aceleração no ritmo do tempo que, aos poucos, pode entrar
em retroalimentação e disparar fora de controle. É imprescin-
dível ter todo cuidado com isto.”
“E, para finalizar, quero esclarecer em que consiste o
‘resgate’ dos humanos. Na fase terminal de humanorbis, ha-
via uma bigrosa de trigrosas de seres humanos vivendo em
Periplaneta num vasto espectro que variava desde os domi-
nantes absolutos até as vastas massas de dominados, igno-
rantes, carentes e famintos. Bem poucos tinham consciência
do horror em que Periplaneta se transformara. Destes, al-
guns dedicavam suas vidas a mostrar aos outros o caminho

202
Segunda parte - OS MÂNTIS

para a libertação. Os mais conscientes tornaram-se mântis,


entre nós, e os demais encarnaram por trigrosianos em gera-
ções e gerações de blatídeos –que lentamente evoluíam. Pela
ressonância espiritual, nós, mântis, contribuímos para liber-
tar muitos humanos. Agora, vocês também participam.”


Quando Aabi-t concluiu sua nítida mensagem telepá-
tica fez-se um prolongado silêncio. Não apenas silêncio: ne-
nhum dos presentes se movimentava e o ambiente logo se ajus-
tou a um clima de meditação. Além da presença física dos
mântis e blatídeos, havia outras presenças no ar. Vibrações
sutis de percepção coletiva uniam a todos numa só compreen-
são. Ali, naquele espaço, somente os corpos individuais per-
maneciam nitidamente separados; nos diversos níveis men-
tais a sintonia intersubjetiva era tão afinada que se podia
perceber uma só entidade espiritual coletiva, embora de exis-
tência transitória.
Mas cada um dos presentes vivenciava também suas
próprias imagens mentais, sua maneira pessoal de interpre-
tar aquilo que tinham recebido daquele mântis albino. De-
pois de um tempo indefinido impossível de mensurar, Bar
Attón percebeu que não seria uma impertinência fazer uma
pergunta e, por um gesto, pediu e obteve o assentimento de
Aabi-t.
–Nesse longo período de purgação e evolução dos
blatídeos, onde estavam os mântis? Para os blatídeos, que
depois da Transição Ortóptera passaram a incorporar centros
psíquicos anteriormente encarnados em humanos, esta pro-
longada fase representou um avanço evolucionário, ao tempo

203
DOKT BAR ATTÓN

que para os antigos humanos representou um recomeço, uma


redução sofrida a corpos de um nível inferior. Mas já havia
blatídeos e mântis primitivos desde o Secundário, pelo que
sabemos. Que representou para os mântis esse período entre
a Transição Ortóptera e a atualidade? Onde estavam eles?
Quero dizer, vocês, seus ancestrais?
–Dokt Bar Attón, observe que sua pergunta procede de
um estrato mental em que predomina uma separação entre
passado, presente e futuro. É possível dar uma resposta à sua
pergunta dentro desse critério, que separa o tempo segundo a
concepção linear que vem do futuro e se acumula no passado.
Mas será sempre uma explicação, e todas as explicações onde
predominam os critérios da razão e da lógica são parciais e
limitadas, mostrando apenas a face externa do que acontece.
Se, entretanto, você se posiciona no nível em que o tempo é
percebido como uma simultaneidade unificada, a percepção
do que se passa é mais ampla e mais completa, embora não se
possa conter adequadamente na linguagem verbalizada.
–Percebo esta limitação, Aabi-t, mas minha intenção é
chegar a essa compreensão mais profunda valendo-me das
palavras como andaimes. Não pretendo incorrer no erro de
confundir os andaimes com o edifício. Acho que isto eu já apren-
di.
–Se é assim posso lhe dar a explicação solicitada.
Bar Ouchel e Scara Faggio pareciam emergir de pro-
fundos estados de meditação e agora acompanhavam o diálo-
go entre Bar Attón e Aabi-t.
–Embora os corpos físicos visíveis das diversas espéci-
es estejam associados a centros psíquicos, enquanto seres vi-
ventes a evolução desses dois aspectos segue caminhos que

204
Segunda parte - OS MÂNTIS

nem sempre estão vinculados. Blatídeos sempre houve desde


o Secundário, mas depois da Transição Ortóptera eles assu-
miram um impulso evolucionário mais dinâmico porque cen-
tros psíquicos que já tinham sido humanos passaram a ani-
mar seus corpos. Situação equivalente aconteceu com os
mântis, cujos corpos primitivos também eram muito antigos,
mas assumiram um novo impulso no Quinquenário. A maio-
ria dos humanos veio a animar corpos de blatídeos inicial-
mente rudes e primitivos, vivendo em comunidades subterrâ-
neas, com seu peculiar padrão de sofrimento, porque neles
persistiu uma vaga nostalgia do seu tempo de humanos. Os
demais humanos, aqueles que compreenderam a opção dos
demais pela ignorância e pela animalidade, aqueles que as-
sumiram uma relação superior com Orinna Sutra, passaram
a se valer dos corpos também primitivos dos mântis, que vivi-
am entre as árvores, num mundo mais pleno de luz. Ambas
as linhagens passaram por prolongada purgação, mas em vias
psíquicas diferenciadas. Enquanto o sofrimento dos blatídeos
decorria da memória do que tinham feito e da sua condição
atual, o sofrimento dos mântis decorria da percepção que ti-
nham do sofrimento dos demais, aos quais se sentiam ligados
pela consciência que já tinham desenvolvido da unicidade da
criação.
Aabi-t fez uma pausa e perguntou:
–Vocês vêem como neste nível verbal das explicações é
necessário usarmos muitas palavras para comunicar algo es-
sencialmente simples? E o resultado nunca é completo, neste
nível mental. Espero que vocês usem estes andaimes verbais
para chegar ao sentimento direto do que quero comunicar.
Bar Ouchel fez um gesto de que queria falar.

205
DOKT BAR ATTÓN

–Sou poeta e valho-me das palavras. Mas reconheço


que elas são realmente andaimes, ou, como prefiro dizer, si-
nais que apontam para aquilo que nelas não se pode conter.
Cada poema que faço tem duas faces: uma verbal e outra infi-
nita. Creio que tenho o sentimento do que você quer comuni-
car. Sou grato por tudo que recebi nesta temporada, no Mos-
teiro de Per-shep. Não quero deixar passar a oportunidade de
expressar minha gratidão a todos os presentes, especialmen-
te aos mântis que, nestes dias, nos trouxeram inestimáveis
conhecimentos e recordações.
–Agradeça não a nós, poeta, mas a Orinna Sutra, que
tudo nos concede, inclusive este momento de harmonia e luci-
dez.
–É o que eu quis dizer, mas não coube em minhas pa-
lavras, que apenas apontaram nessa direção... –riu Bar
Ouchel.

206
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 1&

cebergs deslizavam mansos, soltos no mar, lá embaixo,

I não muito longe. Pedaços de banquisas desprendidos da


unidade maior que as reunira na origem, mais perto
do pólo, semanas atrás. Nuvens aqui encimadas, sobrancei-
ras, corriam depressa nas janelas do aéreo. Quem espelhava
quem? “Os icebergs sonhavam, sim, que um dia seriam nu-
vens” –divagou Bar Ouchel– “mas, e as nuvens? Saberiam
que um dia retornariam icebergs? Ou cumes nevados bran-
quinhos, por perto de misteriosos mosteiros? Ou rios
tranquilos, transparentes, conduzindo barcos ao vento da tar-
de? Fontes cristalinas brotando no chão?”
Scara Faggio dormia; repousava num enlace apertado
em que havia amor. A cabina aquecida do aéreo zelava por
eles. Bar Ouchel viria residir em Cakerlake, já lhe propusera.
E ela então apenas sorriu, abraçando-o mais forte, ainda no
Mosteiro. Este é um compromisso agendado por Orinna, pen-
sou ele antes de adormecer.
De sua janela, Bar Attón olhava o céu/mar sorrindo
para o amor dos dois, que ali se confirmava. Pensou em Koo
Karashi e outra vez sorriu. “Quando estamos em harmonia
tudo flui sem atritos; a obra divina vai-se construindo pacien-
te, tranquila: nossas vidas.” Lembrou-se, ainda ontem, na
hospedaria de Khonfessa, do face-a-face com Tarakan, Svab e

207
DOKT BAR ATTÓN

a bela fêmea que resolveu um dia unir-se a ele para a experi-


ência do viver –tão plena de inesperados porque nunca sabe-
mos o projeto de Orinna para cada um de nós. E desejou que
Bar Ouchel e Scara tivessem também suas alegrias, ainda
que precedidas de sofrimentos e testes, como sempre aconte-
ce, porque é assim mesmo. A vida de cada um. Mais alguns
dias e estariam em Cakerlake: não queria recepções ou fes-
tas, já avisara. E, junto com Scara e Bar Ouchel, adormeceu
também. Sonharam com icebergs que um dia seriam nuvens
e nuvens que voltariam a ser icebergs, no interminável desli-
zar do tempo soberano.
E sonhou mais, Bar Attón. Um sonho luminoso, agora.
Imensas rampas vaporosas helicoidais de luz, escadarias
imateriais espiralando para o alto, por entre nuvens e nebli-
nas. Tudo é luminescente como cristais, refletindo cores que
vira em Kaker Lake. Envolta em maravilhas, uma figura fe-
minina. Não é blatídea, não é humana, não é mântis ou qual-
quer outra forma. É quase incandescente, em mornas cores
irisadas. Sorri e acena, sempre sorrindo muito leve.
Não falou; não parecia emitir qualquer mensagem
mental. Nenhuma palavra, nem mesmo pensada. Apenas o
sentimento de uma plenitude sem limites: silêncio, naquela
Presença. O tempo parou com Bar Attón dentro: a eternidade
em torno de si, carência nenhuma e paz. Nesse momento des-
velou-se uma ampla visão de sua saga pessoal. Nesse momento
ele soube o que teria de ser feito, tanto em si mesmo como em
ortopterorbis e em humanorbis. Deu-se conta de que estava
em posição de interferir na realidade de ambas as civilizações
e sabia ter a concessão para fazer isto; não havia como se ne-
gar ao cumprimento. Nem lhe passaria tal idéia. Ela mostrou
sorrindo assentir concordando quando viu Bar Attón enten-
der e assumir.

208
Segunda parte - OS MÂNTIS

Scara e Barouchel, no sonho prolongados, ficaram por


longo tempo ainda e também receberam a sanção.
Depois, ao emergir, enquanto a imagem se desvanecia,
Bar Attón fixava-se em pensar sua múltipla missão: em
ortopterorbis filtrar as informações colhidas dos mântis e pro-
curar retardar o processo de aceleração do tempo. Em
humanorbis manter o contato com o agente receptor do alerta
e sugestionar-lhe meios para consolidar a opção de quem qui-
sesse compreender. Agora, era um sonho dirigido: meditação.
O programa para ortopterorbis primeiro carece definir
o que não seria conveniente divulgar sobre os humanos. Por
exemplo, enfatizar o sistema competitivo/não-cooperativo tal-
vez desperte em alguns indivíduos tendências egoístas há
trigrosianos adormecidas, mas que ainda não se extinguiram
e que irrigadas talvez voltem à ativa. Pilotando seu sonho,
Bar Attón visualizava cenas do que era preciso evitar, o que
poderia ocorrer.
Não há razão, também, por que mencionar o ódio ge-
neralizado que os humanos tiveram aos blatídeos ancestrais
que com eles conviveram. Ódio gera ódio –conhecemos os mi-
tos– e sentimentos de hostilidade e revanche antigos e ador-
mecidos poderiam brotar de seu prolongado exílio. É certo que
os humanos –objeto desse previsível ódio– estariam extintos;
todavia, o mal não seria a consumação de atos hostis, mas o
sentimento que levaria um blatídeo a cometê-los, caso ainda
existissem. Se divulgarmos o ódio dos humanos aos
paleoblatídeos de sua era, um sentimento de ódio-revanche
poderá ser despertado na sociedade blatídea atual e, quando
esse sentimento se instala no gânglio afetivo de alguns indi-
víduos, o mal já está consumado.

209
DOKT BAR ATTÓN

Outro tema que deve ser evitado é a existência de ener-


gias fantásticas enclausuradas no núcleo atômico, e que po-
deriam ser libertadas mediante equipamento adequado. Bar
Attón recebeu o sentimento de que esse poder traria consigo
mais problemas materiais e psico-sociais do que as vantagens
que poderia, tornando desaconselhável divulgá-lo. Concluiu
então que não havia necessidade de acionar qualquer progra-
ma científico que visasse a fissão artificial do núcleo atômico.
Tanto ele como Bar Ouchel e Scara Faggio teriam que esque-
cer completamente essa informação, recebida dos mântis, por-
que qualquer vazamento poderia despertar a curiosidade de
estudar o assunto por parte de alguns indivíduos, instituições
ou províncias. E segurar uma curiosidade já despertada é
quase impossível, como sabemos. Este segredo terá que ser
mantido na mais completa reserva. E concluiu: “A sociedade
blatídea não precisa de energia atômica”.
O outro problema que começava a preocupar em
ortopterorbis, segundo os alertas dos mântis, era a incipiente
aceleração do ritmo-tempo. Era perceptível uma aceleração
nos processos sociais e tecnológicos de Periplaneta; o que não
havia consciência ainda é de que isto fosse algo a evitar. Na
verdade, um desequilíbrio: o início de um processo de reali-
mentação intensificante. Como fenômeno social parecia mui-
to difícil de controlar, porque se disseminava como uma onda
por todo o planeta –cuja civilização era única, apesar de suas
variantes locais– e, para corrigir isso, Bar Attón ainda não
tivera um sentimento claro do que deveria ser feito. Para se-
gurar esta tendência seria necessário intervir conscientemente
no andamento dos processos tecno-sociais; isso implicaria em
difundir uma idéia de difícil percepção e exigia uma estraté-
gia de comunicação. Esperava. Meditaria a respeito. A inspi-

210
Segunda parte - OS MÂNTIS

ração viria no momento certo.


Quanto a humanorbis, agora concebível numa perspec-
tiva de simultaneidade (ou algo parecido) que rumo poderia
tomar a interferência junto aos humanos? Que fazer para
alertar aqueles que estivessem dispostos a ver face-a-face o
que estava sendo programado por eles próprios para destruir
o ecossistema? Esta comunicação com os humanos teria que
ser na medida exata, para atingir seus alvos destinatários
sem provocar a hostilidade da grande maioria alienada que já
optara por permanecer de olhos vendados. Os meios desejá-
veis teriam que ser muito eficientes e discretos, porque certa-
mente haveria hostilidade por parte dos demais. E o objetivo
não é maximizar o número de alertados, não é uma meta quan-
titativa; a intenção é atingir todos aqueles que já fizeram sua
opção e precisam de informações e estímulos adicionais.
Pelo que ficou entendido a partir das aulas dos mântis,
esse contato com humanorbis já está sendo acionado sob a
forma de uma ponte literária ficcional para a civilização
blatídea, escrita por um autor humano. “Uma obra literária,
um livro, atinge poucos, mas atinge a quem interessa. Não há
porque me preocupar com o que já está sendo providenciado”
–refletiu Bar Attón.

“Uma ponte literária ficcional para a civilização
blatídea...” Essa daí surgiu assim, do nada, quase como se
fosse sem querer. E eu vendo aqui um romance-ficção de ad-
vertência sobre o que os poderosos estão fazendo com o plane-
ta e a vida. Só isto. Agora, estou suspeito de canalizar
ortópteros instalados num segmento do tempo muito adiante
do nosso! Vamos ver aonde isso vai chegar. Mas se eu não

211
DOKT BAR ATTÓN

estiver mais de acordo, se em algum momento não puder me


considerar cúmplice, fecho as comportas desta alegada cana-
lização.

Nas diversas fases da viagem Bar Attón meditou em
silêncio no aéreo e nas hospedarias das escalas. Scara e Bar
Ouchel passeando turismos, em doce romance de recém-casa-
dos.
“Já não sou um jovem. Começo a me aproximar da sex-
ta dúzia completa. Não me resta muito tempo e a tarefa que
me cumpre é pesada. Mas no curso e no fluir das coisas have-
rá facilidades, se estamos harmonizados. Resta-me saber qual
a melhor forma de usar o tempo que me resta em vida, no
destacamento Bar Attón. Voltarei a orientar o Instituto? Con-
tinuarei a pesquisar o HSS?”
“Tudo que pretendia saber sobre os humanos eu já sei.
E tanto aprendi que ultrapassei a necessidade e agora tenho
que me esquecer de alguns tópicos. Ódio aos paleoblatídeos;
energia atômica; separatismo egoístico e ambição; competi-
ção, mentira e violência; tanta coisa para esquecer... Mas fui
eu mesmo que forcei a conquista deste conhecimento. Para
que preciso eu saber tanto?”
“Reduzir a velocidade das pesquisas. O saber acadê-
mico prosseguirá, colecionando provas, elaborando modelos e
fazendo mapas. Não há mais necessidade de minha partici-
pação pessoal. Duvilen Ddu e Hlebarka –mais jovens– pros-
seguirão: preciso ensinar-lhes a reduzir o ritmo, ponderar e
desacelerar. Eles precisam de mais metafísica; como fazer?
Meu trabalho será prepará-los.”

212
Segunda parte - OS MÂNTIS

“Mas, como ensiná-los a desacelerar, se eu mesmo fun-


dei o Instituto e promovi o incremento nas pesquisas arqueo-
lógicas, paleocitológicas e mineralógicas? A cartografia de
humanorbis está avançada e a reconstituição do seu arranjo
continental, climatológico e fitogeográfico em todo o planeta
já pode ser vivenciada. Os humanos são o assunto do momen-
to; como refrear isto?”
“E como filtrar as informações que obtivemos sobre os
humanos sem incorrer em falsidade e sem deixar transparecer
que algo está sendo omitido? Tenho que elaborar um docu-
mento-resumo da nossa experiência no Mosteiro de Per-shep,
devidamente expurgado, e procurar ajustá-lo à memória de
Bar Ouchel e Scara Faggio –tarefa facilitada pela nítida cum-
plicidade dos dois.”
“Haveria conveniência em comunicar tais segredos a
alguns dos companheiros da direção do Instituto? Não, certa-
mente não. Talvez mais adiante Duvilen Ddu, se ele se apro-
ximar um pouco e compartilhar práticas meditativas comigo
e Bar Ouchel/Scara Faggio. Duvilen Ddu seria possivelmente
o próximo Orientador do Instituto, embora Hlebarka demons-
tre querer também o posto.”
“E Koo Karashi, deveria ser mais plenamente infor-
mada sobre humanorbis? Sendo um casal, o correto é que ela
saiba, pois somos um só sentimento e emoção. Mas, para que
serviriam a ela informações tão constrangedoras sobre uma
civilização ignorante e cruel, capaz de cometer todos os cri-
mes que pudesse conceber? É certo que tal conhecimento não
faria Koo Karashi feliz.”
“Ao chegar a Cakerlake, ao assumir meu posto de
Orientador do Instituto, primeiro tomarei conhecimento do
que foi elaborado na minha ausência. Depois das reuniões da

213
DOKT BAR ATTÓN

Diretoria marcarei uma conferência no Auditório Maior para


discorrer amplamente sobre a missão ao Mosteiro de Per-shep.
Aí é que vai ser preciso cuidado com o que vou dizer, princi-
palmente a jornalistas.”
“Quanto aos humanos e às influências que poderiam
ser canalizadas para humanorbis, não há muito com que me
preocupar. Os mântis foram claros ao informar que o contato
estava sendo feito e o que tinha cabimento estava sendo pro-
videnciado, nos limites do possível. Não há porque dedicar
tempo a este tópico, a não ser pelo eventual prazer de me
comunicar com o tal escritor.”

214
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 1#

N
o Aeroporto de Cakerlake muitos amigos, como não
poderia deixar de ser. Mas não a festa que Hlebarka
e outros quiseram promover. À imprensa presente,
respostas evasivas. Um excelente retiro espiritual; o repouso
de que todos nós precisamos; uma reordenação das idéias e
uma reavaliação do nosso estar no mundo; um encontro com
uma espiritualidade superior; muito difícil de explicar com
palavras, teria que ser vivenciado: não mais que essas gene-
ralidades. Sobre os humanos, os mântis se dispuseram a dar
assistência às pesquisas e auxiliar na intuição dos arqueólo-
gos; não mais que isso. Fotos, filmagens e só. Convite para
uma entrevista, prontamente recusado.
–Para cada um de nós foi uma experiência muito pes-
soal e íntima; não é assunto para entrevistas.
No habitáculo de Bar Attón Koo Karashi preparou o
ambiente para receber os amigos: tudo perfumado e sutil ne-
blina colorida. Dúzias de amigos dos três peregrinos, em gru-
pos, no jardim, conversando. Muitas perguntas. Muitas eva-
sivas. Mas, na intimidade, para aqueles mais próximos, o as-
sunto foi estendido um pouco mais.

215
DOKT BAR ATTÓN

Entre os três, reforços no acordo. Todo cuidado com os


temas interditos. Fixar apenas alguns pontos: o mosteiro é
um ambiente de meditação e paz; os mântis já tinham a con-
firmação de que os humanos existiram e que foram uma civi-
lização periplanetária: sobre os humanos no máximo isto. A
investigação sobre como teriam sido e como teria sido sua ci-
vilização caberia aos estudos que seriam procedidos pelo Ins-
tituto de Investigação das Culturas Não-ortópteras. Eles nada
acrescentaram, mas se dispuseram a ajudar. No mais, foi
muita meditação e muito repouso.
Com Koo Karashi e os filhos, toques e abraços, mani-
festações de carinho e saudade, felizes pelo retorno. Bar Ouchel
e Scara Faggio homenageados pela sua união. Com Duvilen
Ddu as notícias gerais dos ocorridos na ausência: a intuição
de como abrir o ovo. As lâminas de quartzo e a rapidez com
que o Instituto providenciara as investigações sobre a
tecnologia de registro das mensagens. De como ele verificara
a escala mínima em que os registros foram gravados: a grava-
ção na rede cristalina, átomo por átomo. A fácil decifração do
número de ordem dos estojos pela sua óbvia numeração biná-
ria. A impossibilidade de tentar decifrar os textos enquanto
não existisse um equipamento de altíssima precisão para a
leitura –que eles já estavam projetando. Duvilen Ddu estava
entusiasmado com a eficiência do Instituto em acelerar todos
esses programas, além dos outros já em curso em arqueolo-
gia, paleocitologia, mineralogia etc. Chegou a comentar que
“apenas alguns anos atrás as pesquisas eram bem mais len-
tas. Tudo está melhorando com a nova filosofia do Instituto,
meu amigo. Realmente, instalou-se um paradigma novo. Uma
nova era na ciência blatídea. Graças a você, Bar Attón.”

216
Segunda parte - OS MÂNTIS

Dokt Bar Attón escutava consternado sem encontrar


como veicular uma idéia tão contrária ao clima psicológico do
Instituto, a de desacelerar esses processos todos. Consterna-
do a princípio, depois quase angustiado, mas procurando não
demonstrar.
No jardim externo técnicos, cientistas e funcionários
do Instituto escutavam Hlebarka discorrer com eloquência
sobre as conquistas mais recentes da instituição, as descober-
tas em relação ao ovo e as perspectivas risonhas que todos
eles teriam pela frente com os resultados obtidos: mais apoio,
mais rapidez na liberação dos recursos técnicos e materiais
para a abertura de novas frentes de pesquisa etc.
–A tendência é para que o Instituto venha a se consoli-
dar como a mais importante instituição científica de
Periplaneta –explicava Hlebarka aos seus ouvintes.
Aproximando-se, enquanto conversava com Duvilen
Ddu, Dokt Bar Attón observou que o pequeno grupo parecia
contagiado com o discurso de Hlebarka, com as perspectivas
de um reconhecimento maior do Instituto e, por extensão, de
seus integrantes. Eficiência e rapidez eram idéias que chega-
ram para ficar, angustiou-se Attón desenhando amplos círcu-
los com as antenas, em lentos movimentos que revelavam seu
drama interior. Koo Karashi percebeu.


–Diga para mim, Attón, o que é?
–Nada não, Koo. São as preocupações próprias de um
líder que se afastou de sua equipe por algum tempo. É a
síndrome do reassumir.
–Não é não, amor. Sinto que tem algo mais sério. Por
que não quer me dizer?

217
DOKT BAR ATTÓN

Como revelar ou não revelar a Koo Karashi era uma


decisão que ainda estava pendente, naquele momento ficou
claro que ela deveria saber os segredos dos mântis. Marido e
esposa são um só, é claro. E, na hora e meia que se seguiram,
Bar Attón procurou resumir com palavras e emissões de ima-
gens perceptíveis por ela aquilo que os mântis lhe transmiti-
ram sobre ortopterorbis e humanorbis. Disse-lhe que vacilou
em contar porque sabia que esse conhecimento não a faria
feliz.
Koo Karashi escutou calada, mas manifestou repulsa
algumas vezes, quando ouviu as revelações mais repugnan-
tes sobre humanorbis. Depois, alguma inquietação com a
ameaça que paira agora sobre ortopterorbis.
Bar Attón explicou o que estava ocorrendo na socieda-
de blatídea. Ele próprio tinha, inadvertidamente, contribuído
para acelerar os processos de pesquisa e descoberta científi-
ca. Essa aceleração é um processo patológico e deve ser conti-
do até o ritmo certo –o ritmo compatível com a Ordem Invisí-
vel da Natureza– para que se faça um ajustamento adequado
e completo da psique individual e coletiva às inovações. Mas,
sem se dar conta do caráter pernicioso do processo, ele tinha
acelerado os ritmos do avanço do conhecimento e das desco-
bertas tecnológicas além do ponto de equilíbrio estável.
Reinvestindo a energia psico-social gerada pelo evento
arquetípico da viagem à Lua, Bar Attón estimulou a criação
do Instituto de Investigação das Culturas Não-ortópteras e
deu um impulso exagerado às pesquisas sobre os vivíparos.
Esse processo entrou em retroalimentação positiva, que ocor-
re quando o efeito amplifica ligeiramente a causa que, por
sua vez, vai amplificar aquele efeito. Esse padrão de equilí-
brio instável com retroalimentação amplificadora foi o que

218
Segunda parte - OS MÂNTIS

levou o tempo dos humanos a disparar, conduzindo rapida-


mente à sua autodestruição.
–E existe algum modo de deter ou reverter um proces-
so desses, Attón?
–Teoricamente a neutralização de uma tendência como
esta somente é possível pela criação de uma tendência igual,
mas de sentido contrário, entendeu? A interação das duas ten-
dências de retroalimentação –positiva e negativa– produziria
uma resultante neutra, equilibrada. A grande questão é: que
processo novo e de sinal contrário seria esse? Como instalá-
lo? Uma possibilidade seria refrear o processo com estratégi-
as de comunicação eficientes... Mas como veicular uma idéia
tão contraditória com tudo que fiz antes? Uma proposta tão
contrária ao consenso atual do Instituto, da comunidade cien-
tífica e da sociedade de um modo geral?
–Repouse, amor. Relaxe e durma. Há muito que você
não entrava em estados de tensão e não quero vê-lo outra vez
com esta síndrome. Vamos entrar em harmonia com Orinna
Sutra e aguardar uma orientação, porque ela certamente virá.
–É isso, amor. Durma tranquila, minha ninfa.
E, no sonho, Bar Attón recebeu a orientação de que
somente ele poderia liderar uma campanha de divulgação da
nova estratégia: reduzir os ritmos, retardar os processos em
curso, desacelerar o tempo. Para isso, ele teria que oportuna-
mente reconhecer que estava errado em sua política anterior
e que muito aprendera com os mântis, especialmente a im-
portância de não deixar o tempo disparar, na evolução cultu-
ral da coletividade.

219
DOKT BAR ATTÓN

220
Segunda parte - OS MÂNTIS

Capítulo 20

A
partir da noite seguinte, este passou a ser o objeti-
vo central de Dokt Bar Attón. Mas procurou abordá-
lo com calma e cuidado para não cair no mesmo pro-
cesso de tempo disparado, fora dos eixos. O trabalho de comu-
nicação da nova estratégia teria que ser necessariamente len-
to e cuidadoso. Durou anos e atravessou diferentes etapas,
para mais eficiente assimilação pela comunidade. Aos pou-
cos, o ritmo foi diminuindo e as velocidades recuando para
um equilíbrio cada vez mais estável. Essa campanha, conce-
bida e liderada por Dokt Bar Attón, representou para ele um
esforço tranquilo e contínuo, mas desgastante de suas energi-
as, não mais juvenis.
Com o ritmo de trabalho arrefecido no Instituto, o es-
tado psíquico generalizado ficou mais contemplativo e as ações
práticas e teóricas desenvolvidas pelos diversos grupos de
pesquisa passaram a ser compreendidas não apenas pelo seu
lado prático –que buscava resultados– mas também pelo seu
significado simbólico e pela sua inserção na ampla teia de
interdependências com tudo mais.
Um programa que prosseguiu sem alterações foi o que
visava decifrar os caracteres e as mensagens contidas nas lâ-

221
DOKT BAR ATTÓN

minas de quartzo do ovo de humanorbis. Quem o dirigia era


Hlebarka que renunciou à liderança das pesquisas arqueoló-
gicas para assumir o projeto de decodificação. Dois anos de-
pois de iniciado o programa, o aparelho destinado a ler a
nanoescritura das lâminas de quartzo estava pronto. Os si-
nais registrados na estrutura cristalina foram transpostos
para unidades de gravação usuais, utilizáveis pelos computa-
dores comuns. Como todos os registros eram em linguagem
binária, uma tarefa preliminar dos operadores foi procurar
as unidades de significação em que os sinais binários estari-
am agrupados. Com mais alguns meses de pesquisa, estava
organizada uma extensa listagem das unidades de significa-
ção –as palavras da linguagem dos humanos– desde as mais
frequentes até as que só muito raramente apareciam.
Apesar da política recomendada de manter sempre um
ritmo calmo nas atividades de pesquisa, Hlebarka acalentava
sua adesão aos ritmos mais acelerados do passado recente. E,
ao final do terceiro ano à frente desse programa, já podia anun-
ciar o acesso ao significado de muitos textos dos humanos, es-
pecialmente daqueles que tratavam de temas científicos.
Hlebarka secretamente ansiava pelo momento em que divul-
garia na comunidade científica o que descobrira de mais extra-
ordinário nos textos dos humanos: a fabulosa energia confina-
da no núcleo atômico e os meios técnicos para libertá-la.


Era quase meio-dia e todos dormiam. Koo Karashi era
sempre bela, talvez ainda mais bela quando dormia. Tarakan
adolescente e Svab, ainda uma ninfa, cansados de brincar nos

222
Segunda parte - OS MÂNTIS

computadores também cederam ao sono e certamente sonha-


vam. Bar Attón, depois de muito pensar sobre os rumos que
sua vida tomara, assumiu a postura de meditar e dirigiu seu
pensamento concentrado para a harmonia que comanda os
acontecimentos individuais e coletivos, mesmo quando pare-
cem cruéis e contraditórios, sob uma análise meramente raci-
onal.
Recolhendo os pensamentos de superfície e centrando-
se no momento presente com sua atenção firme, mas relaxa-
da, entrou vagarosamente em seu mundo interior –povoado
por imagens e intuições que o tornavam mais rico e variado
que o mundo exterior das coisas, dos fenômenos e dos aconte-
cimentos. Dokt Bar Attón meditava e em sua meditação o
mundo dos fatos exteriores mostrava ser apenas um reflexo
da sua própria experiência interior interagindo com a Ordem
Invisível da Natureza. A um exame racional e lógico, incapaz
de penetrar a essência das coisas, tudo parecia destituído de
significação e de finalidade. Mas dessa ilusão Dokt Bar Attón
já estava libertado.
Ortopterorbis parecia ter correspondido ao seu empe-
nho para reduzir o ritmo do tempo. Foram anos de esforços,
viagens, conferências, textos e videoproduções, convencendo
a indivíduos e grupos de opinião, soltando aos poucos alguns
fatos exemplares sobre os humanos que serviram de ilustra-
ções para o que poderia ocorrer com eles, se não estivessem
atentos. Sua posição atual era a de um sábio em nível
periplanetário, um líder inconteste da classe pensante, uma
palavra respeitada e acatada sem vozes discordantes. Tal po-
sição social trazia consigo algo de desagradável que ele supor-
tava sem demonstração; um incômodo para o seu caráter que

223
DOKT BAR ATTÓN

prezava a discrição e o precioso anonimato de que outrora


desfrutara.
Dokt Bar Attón sentia o peso da sua responsabilidade
e a importância de cada pronunciamento seu. Aos poucos –
com cuidado e paciência– foi divulgando o que sabia sobre os
humanos, procurando deixar evidente que cada civilização é
uma experiência de Orinna, assim como cada espécie viva tam-
bém é. Ambas estão sujeitas à extinção quando não mais
corresponderem às suas finalidades. Sim, há uma finalidade
em cada indivíduo, em cada espécie, em cada civilização, difi-
cilmente compreensível por uma apreciação racional e lógica.
No nível superficial essa finalidade não pode ser percebida.
“Uma vida bem aproveitada é aquela dedicada primor-
dialmente à expansão da consciência e da sabedoria, a partir
do ponto em que se encontrava ao se formar a personalidade,
na infância. Uma vida dedicada ao amor por todos os seres
sencientes que compõem o círculo onde a influência individu-
al se exerce. Amar e influir positivamente para que todos ve-
jam que esta é a forma correta de usar o tempo; amar e
ensinar a amar; conhecer e ensinar o que é o verdadeiro co-
nhecimento. Mas sem se deixar envolver pela sedução de ser
um líder: isso destruiria o que de bom tivesse sido repassado
aos demais.”
“Ortopterorbis, por enquanto, está salva da ameaça
do tempo disparar. Mas é necessário ter sempre um grupo de
vigilantes atentos, porque as sementes do mal não se extin-
guiram inteiramente. Manifestações de egoísmo latente reve-
lam-se em atitudes aparentemente insuspeitas de alguns co-
legas. Hlebarka parece particularmente sensível ao sucesso
pessoal e, talvez, em condições propícias, isto se transforme

224
Segunda parte - OS MÂNTIS

em sede de poder, influência e prestígio, desejos de liderar e,


por esse meio, formar um séquito de admiradores e admira-
doras que venham a lhe inflar o ego inseguro e carente de
tais estímulos.”
“Mas algo ainda me inquieta. Humanorbis. Como acei-
tar a erradicação catastrófica de toda uma civilização, um vasto
mosaico de culturas diversificadas como as nossas, talvez ainda
mais? Como entender o desaparecimento de trabalhos e obras
–certamente grandiosas– resultantes da harmonia que alguns
humanos teriam desenvolvido com as energias de Orinna vol-
tadas para a criação e a arte? Como admitir sem um senti-
mento de angústia que trigrosas de indivíduos, em sua maio-
ria induzidos artificialmente por seus dominadores a perma-
necer na ignorância, viessem a perecer num ambiente físico
desestruturado e letal?”
“Se o tempo não é apenas um fluxo linear e pode ad-
mitir alternativas e variantes, haveria talvez um outro cami-
nho evolucionário que conduzisse dos humanos aos ortópteros
sem passar necessariamente pela extinção daqueles? Há di-
ferentes tipos de fim. Há o fim que consuma um fracasso e o
fim que consagra uma ascensão. Como não sentir um aperto
no gânglio afetivo, ao saber que o fim de humanorbis teria
sido do primeiro tipo? Como não se sentir solidário com os
humanos que viram e sentiram a catástrofe se aproximar
empenhando-se em fazer os demais perceberem a tempo a
sua desvairada opção?”


Fatigado, Dokt Bar Attón mais tarde adormeceu. E
sonhou com uma via evolucionária que não passava pela

225
DOKT BAR ATTÓN

extinção de humanorbis. No sonho, ele flutuava muito alto e


podia ver continentes inteiros, mas sem perder de vista o que
se passava entre indivíduos nas cidades e no meio rural. Sua
visão onírica mudava continuamente de escala e distância,
para uma compreensão ampla e detalhada do que se passava
no planeta dos humanos.
Havia em Periplaneta, naquele tempo, uma região de-
nominada Bhárata situada ao sul do Grande Continente. Ti-
nha a forma de um triângulo com o vértice voltado para o sul,
apontando a trajetória do Sol em sua jornada diária através
do céu. Em Bhárata havia uma densa população de humanos,
em sua maioria pobres e ignorantes. Mas era lá que estavam
os sábios da mais elevada estirpe. No sonho de Bar Attón
manifestava-se ali, intensamente, o amor de Orinna Sutra
pelos pobres, pelos explorados, pelos que sofrem. E ele via um
vento suave de amor e lucidez, vindo de um castelo de marfim
localizado no centro-sul dessa região que, aos poucos, espa-
lhava-se por todo o planeta, tornando os indivíduos –não to-
dos, mas a maioria– capazes de ver por trás das aparências.
Como se abrisse uma visão clarividente.
Esse vento imaginário, verde claro e rosa-dourado, não
transformava o caráter das criaturas humanas; não era ca-
paz de influir nas suas decisões nem podia impedi-los de er-
rar, se assim o quisessem. O seu poder –percebia Bar Attón–
era tão somente o de fazer ver o invisível, fazer ver o signifi-
cado verdadeiro de cada incidente e de cada momento vivido,
ver as intenções ocultas dos indivíduos e os objetivos camu-
flados pelas organizações empresariais daquela civilização.
Ver claramente o secreto veneno disseminado até pelos pro-
gramas aparentemente mais inocentes da televisão. Esse vento

226
Segunda parte - OS MÂNTIS

mágico permitia conhecer o oceano de mentiras e traições em


que os humanos estavam sobrenadando, por conta da igno-
rância daqueles que só queriam adquirir mais e dominar mais.
Depois que o indivíduo se tornava capaz de perceber essas
coisas, aumentava a sua responsabilidade na decisão de per-
manecer na ignorância ou mudar de rumo.
O vento verde que vinha de Bhárata aos poucos se fir-
mou em névoa e logo envolveu o planeta em uma nuvem rosa-
dourada e luminosa. E os humanos foram despertados para o
desastre iminente que eles próprios estavam elaborando. Não
todos, mas muitos –talvez a maioria– acordaram sob a ação
daquele vento que transformou grande parte das transmis-
sões de televisão, agora desesperadamente dedicadas a sal-
var o planeta em perigo mortal. Um forte sentimento coletivo
passou a dominar humanorbis, sobrepujando o egocentrismo
generalizado de até então. No sonho, as derradeiras imagens
foram de uma corrida frenética para erradicar de todos os lu-
gares onde pudessem estar escondidos os gases que destruí-
am o delicado, sutil, invisível manto protetor da alta atmosfe-
ra. Eram imagens fragmentárias de uma paralisação progres-
siva nas costumeiras agressões à natureza: um coletivo arre-
pendimento em escala planetária como antes nunca houvera.
Entretanto, já anoitecia.
E Dokt Bar Attón acordou de seu sonho antes do desfe-
cho, ficando sem saber se a catástrofe foi –ou não– evitada.


227
Apêndice

Barata em algumas línguas


Alemão Kakerlake; Schabe
Árabe khonfessa
Búlgaro hlebarka
Castelhano cucaracha
Dinamarquês kkao; kakaoen
Esloveno seurek; ohar
Estoniano prussakas; tarakan
Finlandês kaakao; suklaa
Francês cafard; blatte; coquerelle
Galês duvilen ddu
Holandês kakkerlak; bakkerstor
Húngaro svábbogar; csótány
Inglês cockroach; cotton bug
Islandês kakkalakki
Italiano scarafaggio; blatta
Norueguês aniamarque
Polonês karaluch
Português barata
Sérvio e croata ohar
Tcheco svab

Louva-a-deus em algumas línguas


Alemão Gottesanbeterin
Egípcio antigo abit; bai-t; Aabi-t (o deus-mântis)
Francês prie-dieu
Inglês mantis; praying mantis; soothsayer
Português louva-a-deus
Provençal prega-diou
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Outras obras do autor:

Anais de um Simpósio Imaginário – entretenimento para ci-


entistas. Science fiction que prefigura um congresso científico
no ano 2008. Publicado pela Editora Palas Athena, SP, 1998.
Veja o site deste livro: http://www.simposio2008.hoisel.com.br

Naquele tempo, em Arembepe – Romance cuja ação se passa


nos anos 70, na Aldeia Hippie de Arembepe. Século 22 Edito-
ra, 2003. http://www.naqueletempoemarembepe.hoisel.com.br

Escolhendo a Realidade – Tradução de Choosing Reality, de


B.A. Wallace, físico americano que é também um lama budis-
ta. Ainda inédito.

A Última Jornada do Herói – Romance fantástico criado em


parceria com o escritor Carlos Ribeiro. Ainda inédito.