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2
O que é arte para o Sr.?
EDGAR ALLAN POE – Se eu tivesse que definir, com toda
a brevidade, a palavra arte, diria que é a reprodução do que
os sentidos percebem na natureza pelo véu da alma. A imi-
tação pura e simples da natureza, por exata que seja, não
autoriza ninguém a tomar o título sagrado de artista. É ver-
dade que algumas vezes nossos sentidos percebem de
menos, mas poderíamos acrescentar que, num grande
número de casos, eles percebem de mais!
Pode falar mais sobre a percepção por meio dos sentidos?
EAP – Considero, por exemplo, que os perfumes têm
poderes dos mais particulares para provocar em nós asso-
ciações de idéias. Essas associações diferem essencialmente
das nascidas nas sensações que provêm do gosto, do tato, da
vista e do ouvido.
Acredita haver pensamentos que ultrapassam a esfera das
palavras?
EAP – Não acredito que um pensamento propriamente dito
possa estar fora do alcance da linguagem. Quanto a mim,
jamais tive pensamentos que não pudessem ser expressos
por palavras, até mesmo com mais nitidez que os pensa-
mentos concebidos. O pensamento se torna mais claro pelo
esforço exigido em sua representação escrita.
Mas não há fantasias impossíveis de serem transformadas em
palavras?
EAP – Há uma classe de fantasias, de uma delicadeza rara,
que não são pensamentos, as quais, até aqui, achei absolu-
tamente impossível adaptar à linguagem. Sirvo-me da
palavra fantasias ao acaso e unicamente porque necessito
empregar uma palavra qualquer, mas essa palavra nem de
longe representa as sombras das sombras a que me refiro,
mais psíquicas que intelectuais.
3
Como o Sr. toma consciência dessas fantasias?
EAP – Só me torno cônscio dessas fantasias quando
estou à beira do sono e com a consciência do meu estado.
Essas fantasias contêm um êxtase delicioso, muito afasta-
do dos êxtases mais deliciosos do mundo da vigília ou do
sonho. Nessas fantasias, que também podemos chamar
de impressões psíquicas, não há realmente nada que se
aproxime do caráter das impressões geralmente experi-
mentadas. É como se os cinco sentidos fossem suplanta-
dos por cinco miríades de outros sentidos, estranhos à
natureza mortal.
Como surgem os temas de suas obras?
EAP – Procuro sempre indagar: “Dentre os inúmeros
efeitos ou impressões a que são suscetíveis o coração, a
inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na
ocasião, escolher?”.
Tem predileção por algum desses efeitos?
EAP – Devo confessar alguma predileção por temas
melancólicos. De todos os temas melancólicos, um, segun-
do a compreensão universal da humanidade, é o mais
melancólico. Esse tema é a Morte. E há uma ocasião em que
o mais melancólico dos temas se torna também o mais
poético. É quando ele se alia à Beleza.
Suas histórias extraordinárias nascem de sua própria experiên-
cia?
EAP – Muitas vezes sou eu próprio o herói de uma aventu-
ra inexplicável, de cunho tão inquietante, que eu teria sido
desculpado por tomá-la como um sinal funesto. Fico ater-
rorizado e, ao mesmo tempo, tão assombrado e perturbado,
que vários dias se passam antes de poder decidir-me a
comunicar os pormenores aos meus leitores.
A quem dedica a sua obra?
EAP – Àqueles poucos que me amam e a quem amo – àque-
les que sentem, mais do que àqueles que pensam –, aos so-
nhadores e àqueles que depositam fé em sonhos, como úni-
cas realidades.
Dizem os que o conhecem que o Sr. possui um caráter singular,
como se fosse ao mesmo tempo duas pessoas, uma afável e gen-
til e outra arrogante e irritável. O Sr. concorda com essa afir-
mação?
EAP – Sabe-se que os poetas e, em geral, todos os artistas
têm um caráter irritável. A razão desse temperamento espe-
cial, no entanto, tem sido ignorada. Um artista somente o é
pelo seu sentimento refinado de beleza, que para ele se
torna assim uma fonte de gozo e êxtase. Esse fato, todavia,
implica um sentimento igualmente sutil de fealdade, de
desproporção.
A irritabilidade dos poetas seria uma marca de genialidade,
então?
EAP – A irritabilidade dos poetas não é genialidade, no sen-
tido vulgar da palavra, mas simplesmente uma perspicácia
superior com relação ao mal. Isso provém de que o poeta
sente fortemente o correto, o justo, a proporção. Parece-me
evidente que quem não se mostra irritável (no sentido
comum da palavra) não é poeta.
Pode dar um exemplo de fealdade, de desproporção?
EAP – Veja um exemplo curioso e banal, colhido aqui
mesmo, em nossa Baltimore. Admire estas imensas bolsas,
semelhantes ao pepino gigante, que estão em moda entre as
nossas beldades. Não têm, evidentemente, origem
parisiense, como se pensa. Por que tal moda existiria em
Paris, onde uma mulher não guarda na bolsa senão seu di-
nheiro? A bolsa de uma americana! É preciso que essa bolsa
4
seja bastante vasta para que ela possa ali encerrar todo o seu
dinheiro – e mais a sua alma!
Uma última pergunta. O Sr. imaginava, quando compôs seu
célebre poema O corvo, que ele fosse fazer tanto sucesso? O se-
nhor pensa que sua obra vá perdurar por mais um século, por
exemplo?
EAP – Nunca tive dificuldade em relembrar os passos pro-
gressivos de qualquer uma de minhas composições. Porém
devo encarar como falta de decoro de minha parte imaginar
a posteridade de minhas obras, daqui a mais de cem anos.
A criação de uma obra é um vai-e-vem de questões e dúvi-
das. Na composição do poema O corvo, tive de quebrar a
cabeça para definir o símbolo da morte. Custei a conseguir
casar a sonoridade com a imagem de mau agouro.
Dizem que o Sr. se decidiu pelo corvo apenas no último momento.
EAP – É verdade, não nego. Confesso que cheguei a pensar
em usar um papagaio...
[Neste ponto, o manuscrito se interrompe. No papel amar-
fanhado pode-se notar com dificuldade uma série de man-
chas azuis de tinta e outras, irregulares, de um vermelho
escuro semelhante a sangue ou vinho. No canto inferior
esquerdo, em letra diferente daquela do resto da carta,
numa caligrafia apertada, perturbada e irregular, podem-se
ler com dificuldade as palavras que transcrevemos a seguir.]
“(...) Por Deus, é verdade, sempre fui, e sou, nervoso, nervosíssi-
mo, medonhamente nervoso! Mas por que dizem que sou louco?
A enfermidade não me destruiu os sentidos, nem os embotou.
Pelo contrário, aguçou-os de maneira extraordinária. Sou capaz de
ouvir tudo, no céu e na terra, e muita coisa no inferno. Como é
possível, portanto, que seja louco? Escutem! Ajudem minha pobre
alma! (...) Nenhum ser humano jamais passou por isso. Tudo
começou quando (...).”

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