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A BÍBLIA FALA HOJE

A MENSAGEM DE

EFÉSIOS

A Nova Sociedade de Deus

JOHN STOTT

A \

Um

líM

A MENSAGEM DE EFESIOS

M ilhões de pessoas captaram a visão do Homem Novo e

da

Sociedade Nova apresentada por Karl Marx. “Paulo apresenta uma visão ainda mais grandiosa”, comenta John Stott. Na sua carta aos Efésios o apóstolo vê que “o ponto chave da questão é algo mais profundo do que a injustiça da estrutura econômica, e propõe então uma solução ainda mais radical. Escreve acerca de nada menos do que uma ‘nova criação’."

John Stott analisa o tema de Paulo. Todas as coisas serão unidas em Cristo começando com a igreja e será. derrubado tudo o que nos separa de Deus, tudo que separa um grupo étnico de outro, o marido da muiher, os pais dos filhos, e os senhores dos escravos. Um livro para todos os que procuram edificar a igreja para ser a nova sociedade que Deus planejou.

John R. W. Stott é conhecido mundialmente como pesquisador e expositor

bíblico. Serviu durante anos como pastor da Igreja de Ali Souls em Lon­

dres. E diretor do London Institute fo r Contemporary Christianity e

autor

de muitos livros, entre os quais: Os Desafios da Liderança Cristã, Ouça o Espírito - Ouça o Mundo, A Mensagem do Sermão do Monte, A Mensagem de Atos, e Crer é Também Pensar, A Mensagem de Romanos entre outros.

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EDITORA

Respostas bíblicas para o mundo hoje

ISBN

85-208-0295-8

A Bíblia Fala Hoje Editores da série: J. A. Motyer (AT) John R. W. Stott (NT)

A MENSAGEM DE EFÉSIOS

A Nova Sociedade

Principais Abreviações e Bibliografia

AG

A Greek-English Lexicon o f The New Testament and

OtherEarly Christian Literature de William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich (University of Chicago Press and Cambridge University Press, 1957).

Armitage

St PauTs Epistle to the Ephesians, with Exposition and Notes de J. Armitage-Robinson (Macmillan,

1903).

Barclay

The Letters to the Galatians and Ephesians em Daily Study Bible de William Barclay (The Saint Andrew Press, 1954. 2a. edição, 1958).

Barth,

The Broken

Wall: A Study o f the Epistle to the Ephe­

Broken Wall

sians, de Markus Barth (1959. Collins, 1960).

Barth, Ephesians, I, II

Ephesians, A New Translation with Introduction and Commentary de Markus Barth, na série Anchor Bi­ ble (Doubleday, 1974. Vol. I, Eph. 1-3; Vol. II, Eph.

4-6).

BJ

A Bíblia de Jerusalém (Edições Paulinas).

BLH

A Bíblia na Linguagem de Hoje (Sociedade Bíblica do Brasil).

Bruce

The Epistle to the Ephesians, A Verse-by-verse Expo­ sition de F. F. Bruce (Pickering & Inglis, 1961).

BV

A Bíblia Viva (Editora Mundo Cristão).

Caird

PauVs Letters from Prison por G. B. Caird, em The New Clarendon Bible (Oxford, 1976).

UMA NOVA ROUPAGEM

quem somos em Cristo, que crescerá dentro em nós o desejo de viver uma vida digna da nossa vocação e conforme convém para o nosso caráter da nova sociedade de Deus.

PRINCIPADOS E POTESTADES

inteira. Seu nome em Latim era scutum. “Consistia em

duas camadas

... de madeira coladas juntas, e cobertas primeiramente com linho e depois com couro: era fixado com ferro em cima e em baixo!’69 Era especialmen­ te projetado para apagar os perigosos mísseis incendiários que eram em­ pregados, especialmente as flechas mergulhadas em paz, que eram acen­ didas e atiradas. Quais, pois, são todos os dardos inflamados do maligno, e com que escudo os cristãos podem proteger-se? Os dardos do diabo sem dúvida in­ cluem suas acusações maliciosas que inflamam a nossa consciência com aquilo que (se estamos abrigados em Cristo) somente pode ser chamada de falsa culpa. Outros dardos são indesejados pensamentos de dúvida e de desobediência, de rebeldia, de concupiscência, de malícia ou de me­ do. Há, porém, um escudo com o qual podemos apagar ou extinguir to­ dos estes dardos com pontas de fogo. É o escudo da fé . O próprio Deus é “escudo para os que nele confiam”,70 e é pela fé que fugimos para ele, procurando refúgio. A fé, pois, toma posse das promessas de Deus em tem­ pos de dúvida e de depressão, e a fé toma posse do poder de Deus em tem­ pos de tentação. Apolião zombou de Cristão com a ameaça: “Vou arrancar-te a alma!’ “E, ao mesmo tempo!’ Bunyan continua, “expeliu com grande força um dardo de fogo contra o peito de Cristão. Este, que tinha o escudo no braço, aparou com ele o golpe e escapou do perigo!’71 O capacete do soldado romano, que é a peça da armadura que apa­ rece em seguida na lista, usualmente era feito de um metal resistente, tal como o bronze ou o ferro. “Um forro interno de feltro ou de esponja tor­ nava o peso tolerável. Nada, senão um machado ou um martelo, poderia furar um capacete pesado, e em alguns casos um visor móvel dava uma melhor proteção frontal.”72 Os capacetes eram decorativos e protetores, e alguns tinham plumas ou cristas magníficas. Segundo uma declaração anterior de Paulo, o capacete do soldado cristão é “a esperança da salvação”,73 ou seja, a nossa certeza da salva­ ção futura e definitiva. Aqui, em Efésios, é simplesmente o capacete da salvação (v. 17) que devemos tomar e usar. Mas se a proteção para a nos­ sa cabeça é a medida de salvação que já recebemos (o perdão, a liberta­ ção da escravidão a Satanás, e a adoção na família de Deus) ou a expec­ tativa confiante da plena salvação no último dia (inclusive a glória da res­ surreição e a semelhança a Cristo no céu), não há dúvida de que o poder salvífico de Deus é a nossa única defesa contra o inimigo das nossas al­ mas. Charles Hodge escreveu: “o que adorna e protege o cristão, que o capacita a levantar a cabeça com confiança e alegria, é o fato de ser sal­

  • 69 Armitage Robinson, pág. 251.

70 Pv 30:5.

71

O Peregrino, pág. 83.

  • 72 Barth, Ephesians, II, pág. 775 . 73

1 Ts 5:8.

6:21-24

Conclusão

E para que saibais também a meu respeito, e o que faço, de tudo vos in­ formará Tíquico, o irmão amado, e fiel ministro do Senhor. 22Foipara is­ so que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito e ele console os vossos corações. 23Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. 24A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Paulo chega ao fim da carta que estava ditando. Talvez, a esta altura, to­ me a pena da mão do escriba, e escreva umas frases autenticadoras com a sua própria letra. Certamente fez isso na conclusão das cartas aos Gá- latas,1 aos Tessalonicenses,2 aos Coríntios3 e aos Colossenses.4 A quem, pois, estava ditando? Provavelmente a Tíquico, que men­ ciona agora afetuosamente pelo nome. Tíquico era um nativo da Ásia. Lu­

cas

não somente diz que é proveniente “da Ásia”,5 como também o asso­

cia com Trófimo, a quem mais tarde chama de “o efésio”.6 Por isso, tal­ vez Tíquico fosse proveniente de Éfeso, também. Paulo certamente o en­ viou para lá durante a sua segunda prisão em Roma,7 e lendo entre as li­ nhas das cartas aos Efésios e aos Colossenses, parece que Paulo toma por certo que seus leitores já o conhecessem. O que fica claro, tenha sido Tíquico escriba de Paulo, ou não, é que Paulo confia a carta a ele para ser entregue, juntamente com a carta aos Colossenses.8 É evidente, então, que o apóstolo tem completa confiança no seu colega mais jovem. Chama-o de irmão amado, como também fiel ministro no Senhor (v. 21). Sua confiança nele é não somente para entre­ gar as cartas com segurança, como também para suplementar sua men­ sagem com algumas notícias pessoais. Diz que o está enviando, para que saibais também a meu respeito, e o que faço\ de tudo vos informará (v. 21). Na realidade: Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito (v. 22). Assim, Paulo reitera três vezes a sua intenção de que Tí-

1 GI 6:11.

 

2 2 Ts 3:17. 3 1 Co

16:21. 4 C14:18.

5 At

20:4.

6 At 21:29.

7 2 Tm 4:12.

8 Cl 4:7-8.

e f é si o s

6 :2 1 - 2 4

quico coloque os leitores a par das notícias sobre ele mesmo. Este fato ex­ plica, sem dúvida, a ausência incomum no fim da carta de mensagens e de saudações pessoais. Tíquico as levaria verbalmente. Há, então, outra razão para a visita de Tíquico a Éfeso e cidades cir- cunvizinhas. Entregaria a carta, diria aos membros das igrejas como Paulo estava passando e, além disso, Paulo o estaria enviando para que ele con­ sole os vossos corações (v. 22). É tocante ver o desejo do apóstolo no sen­ tido de forjar elos pessoais mais fortes entre si mesmo e estes cristãos da Ásia. Sua exposição da nova sociedade de Deus não é mera teoria teoló­ gica; porque ele e eles também são membros dela. Assim sendo, deviam aprofundar a comunhão uns com os outros, ao orarem uns pelos outros (registrou duas das suas orações em prol deles, nos capítulo 1 e 3, antes de pedir as orações deles para si nos versículos 19 e 20), por meio da sua carta a eles, e através de Tíquico que não somente lhes traria informações acerca de Paulo como também procuraria encorajá-los. A oração, a cor­ respondência, e as visitas ainda são três principais meios pelos quais os cristãos e as igrejas podem enriquecer-se mutuamente e assim contribuir à edificação do corpo de Cristo. Era costume no mundo antigo que correspondentes terminassem suas cartas com um voto — usualmente um voto secular, ainda que os deuses fossem invoncados — pela saúde ou felicidade do leitor. Paulo não viu razão para abandonar o costume como questão de princípio. Mas assim como cristianizou a saudação de abertura, também agora cristianiza o de­ sejo final. Realmente, o que escreve é metade desejo, metade oração. As bênçãos que deseja para os leitores viriam da parte de Deus Pai e do Se­ nhor Jesus Cristo. Que bênçãos seriam estas? O primeiro desejo-oração de Paulo é este: Paz seja com os irmãos, e amor com fé (v. 23). Paz é uma palavra característica desta carta. Na se­ ção doutrinária no começo ele explicou que Jesus Cristo “é a nossa paz”, já que derrubou a parede da separação e criou uma única nova humani­

dade, “fazendo a

paz”, e que, “vindo, evangelizou a paz”.9 Em conse­

qüência, na seção ética que se seguiu, Paulo os exortou a “preservar a uni­ dade do Espírito no vínculo da paz”, “suportando-vos uns aos outros em amor” (4:2-3), e até mesmo: “andai em amor, como também Cristo vos amou” (5:2). A paz e o amor permanecem juntos, pois a paz é a reconci­ liação e o amor é a sua fonte e a sua efusão. Paulo pinta um belo quadro da comunhão da igreja e do lar cristão permeados com o amor e a paz, embora não seja possível em qualquer tempo negociar um tratado de paz com os principados e as potestades do mal. Quando acrescenta a amor as palavras com fé, provavelmente estivesse pensando na fé como uma ca­

9 2:14-17.