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Fique mais

Jovem a
Cada ano
Chegue aos 80 anos com saúde,
O vigor e a forma física
De um cinqüentão

Chris Crowley e
Henry S. Lodge, M.D.

Atrase seu relógio biológico

SEXTANTE
“Fique Mais Jovem a Cada Ano” – Chegue aos 80 anos com
saúde, o vigor e a forma física de um cinqüentão. Chris Crowley e
Henry S. Lodge, M.D. – Atraze seu relógio biológico – Editora
Sextante, 2007.

GMT Editores Ltda.


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Livraria Saraiva
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Sumário

PARTE I ASSUMA O CONTROLE DO SEU CORPO 13

CAPÍTULO 1 O fim do mundo 15

Minha contribuição: um relatório do campo de batalha 18


A contribuição de Harry: a verdade 18
Meu encontro com Harry e um recomeço 20

CAPÍTULO 2 Como está sua mulher? 24

Prepare-se para a aposentadoria o mais cedo possível 26


Apóiem-se um no outro 28

CAPÍTULO 3 A nova ciência do envelhecimento 31

O “envelhecimento normal” não é normal 33


Mudança no âmbito celular 34
Boas notícias e um problema 35
A decadência é opcional 36
Primavera na savana 36
A química cerebral do crescimento 42
A era da informação 43
A linguagem da natureza 44
Pulando fora do cadinho da evolução 46
Pág. 15
>PARTE 1

ASSUMA O CONTROLE DO SEU CORPO

CAPÍTULO 1
O FIM DO MUNDO

> Chris Crowley

Você está com 53 anos de idade, por aí. Um garotão. Bem-


sucedido. Cheio de energia. Um homem sério vivendo uma vida
séria. Além disso, está mais ou menos em forma. Bom atleta de fim
de semana, musculatura ainda firme. Quer dizer, razoavelmente
firme. Talvez esteja um pouco acima do peso. Sua bicicleta fica
parada na garagem a maior parte do tempo, porém você está
sempre dizendo que pode voltar a usá-la a qualquer momento.
Há cerca de dois meses, você abriu os olhos no escuro e pensou:
“vou fazer 60 anos de idade! Sou quase um sessentão!” fico
acordado o resto da noite.
Ou talvez estivesse no escritório e um zero à esquerda que
trabalha ali o tenha encarado de modo estranho, trespassando-o
com o olhar. Como se você nem existisse. Quando ele se afastou,
você se surpreendeu pensando: “Esse cara acha que estou
acabado, pronto para a despedida final”.
De manhã, você suspira, vai trabalhar. Cumpre suas tarefas.
Assim como nos últimos 30 anos. Mas um pensamento não sai da
sua cabeça. Está lá o tempo todo: “Logo vou fazer 60 anos. O que
será de mim?”
A questão principal deste livro é a seguinte: sua idéia sobre esse
assunto está errada. Você sabe qual foi o significado de completar
60 anos para o seu pai e o pai dele, porém as regras estão
mudando. Suas perspectivas agora são inteiramente diferentes.
Nos seus capítulos, Harry – isto é, Dr. Henry S. Lodge, meu
médico e coautor deste livro – faz uma apresentação muito bem
fundamentada da nova biologia evolutiva para que, em primeiro
lugar, você conheça o funcionamento

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Do corpo humano. Será uma visão revolucionária para praticamente
todos os leitores. Uma vez que você entenda essa mecânica e faça
algumas das coisas que, depois dessa leitura, parecerão óbvias,
conseguirá viver aos 80 anos como se ainda estivesse 50! Pode
acreditar. Tudo bem, nada impede que você sofra um acidente e se
espatife contra uma árvore nem que um tumor cresça no seu
cérebro e o mate em pouco tempo. Mas, na realidade, a maioria de
nós não precisa envelhecer num ritmo acelerado.
Melhor ainda. Quase todos nós poderemos ficar funcionalmente
mais jovens a cada ano pelos próximos 5 ou até 10 anos. Isso pode
parecer um disparate cruel ou pura fantasia, porém é verdade.
Apenas alguns aspectos do envelhecimento biológico são
imutáveis. Por exemplo, o fato de que nossa freqüência cardíaca
máxima diminui um pouco a cada ano e de que a pele e o cabelo
perdem o viço. Contudo, 70% do que sentimos como
envelhecimento é opcional. Não precisamos aderir à velhice. Isso
não é brincadeira nem estou exagerando. Existe um modo novo e
seguro de agir em relação a esse assunto. E você é candidato a
mudar de rumo. Basta que aprenda o caminho das pedras.
Isto é o que você acredita que sabe: ao entrar na casa dos 60
anos, passa a achar que seus pés estão deslizando por uma
encosta escorregadia. A cada ano, fica um pouco mais gordo, mais
lento, mais fraco, mais acometido por dores. Começa a perder a
audição e a visão. Seus quadris doem. Seus joelhos também.
O que acontecerá. Mas isso é uma escolha, e não uma
condenação dos céus. Você poderá decidir com a maior facilidade
que deseja viver como se tivesse 50 anos, talvez até menos, pela
maior parte do resto da sua vida. Se estiver disposto a dizer isso a
seu corpo, enviando-lhe alguns sinais específicos, será capaz de
evitar a encosta escorregadia. Conseguirá manter-se num nível
apenas ligeiramente inclinado até os 80 anos ou mais. Há pessoas
nessa faixa de idade que correm maratonas. E outras que sobem e
descem de bicicleta as íngremes colinas nos arredores de
Barcelona, cumprindo metas, levando uma vida boa e divertida.
Há quem não seja tão interessado em esportes, mas que, mesmo
assim, permaneça em grande forma,desfrutando de uma velhice
vigorosa. Portanto, a mensagem deste livro é: você não precisa
ficar velho do jeito que está imaginando. Poderá fazer todas as
coisas praticamente do mesmo

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modo. Andar de bicicleta, correr, nadar e amar. Usando quase a
mesma energia, tendo quase o mesmo prazer, sendo quase a
mesma pessoa. Na realidade, ainda que você não esteja com um
bom condicionamento físico agora, conseguirá melhorar de maneira
substancial nos próximos anos e, depois, manter-se nivelado por
cima.
Se você ainda não passou por isso, não faz a menor idéia de
quanto o “envelhecimento normal” é ruim. Acredite, é horrível
mesmo. Harry e eu estamos pedindo, ou melhor, implorando, que
você se retire da encosta escorregadia. Isso estabelecerá uma
mudança fundamental na próxima fase de sua vida: a terceira
idade.
O que está em jogo – as mudanças potenciais pelo resto da sua
vida – é algo muito importante. Pense por um minuto nos seguintes
dados: Harry diz que mais de 50% de todas as doenças e de todos
os ferimentos acidentais que ocorrem no último terço da vida podem
ser evitados, se a pessoa alterar seu estilo de vida de acordo com
as nossas sugestões. Não se trata de adiar os males para uma
idade mais avançada, e sim de impedir sua ocorrência e manter-se
a salvo dos tormentos, das despesas e da perda de prazer que eles
causam. Você sabia que 70% das mortes prematuras nos Estados
Unidos estão relacionadas com o estilo de vida? Nesse caso,
“prematuras” quer dizer estar bem longe da casa dos 80 e muitos
anos.
Ainda mais importante para mim é a declaração de Harry de que
cerca de 70% do declínio “normal” associado ao envelhecimento – a
fraqueza física, as articulações doloridas, a falta de equilíbrio, a
sensação de pessimismo – pode ser adiado até quase o final da
vida. Essa é a diferença significativa. Eu tive momentos de
envelhecimento normal. Minhas articulações doíam tanto que o
simples ato de andar era um sacrifício. Eu era obrigado a procurar
um rebaixamento no meio-fio para não ter que erguer a perna nem
míseros 10cm. Pense nisso. Imagine-se tão franzino que precise
tomar impulso para se levantar de uma cadeira comum. Isso
acontece. Será assim com você, de verdade. Embora não tenha
que ocorrer necessariamente.
Tudo isso soa um exagero, mas não é. Harry abordará as ciências
emergentes para provar todas essas questões. O que ele diz é
admirável. E eu falarei sobre a vida, a respeito de andar de
bicicleta, de esquiar, de fazer coisas novas, de me sentir
funcionalmente mais jovem do que era há 10 anos e de estar em
grande forma na maior parte do tempo. Você poderá passar dos 60
e sentir-se

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funcionalmente rejuvenescido a cada ano pelos 5 ou 10 anos
seguintes. Portanto, o assunto é sério.

Minha contribuição: um relatório no campo de batalha


Minha participação neste projeto é simples: depois que passei dos
60 anos de idade, vivi como aposentado por um tempo. Aos 70, já
tinha assimilado e seguido a mensagem deste livro por alguns anos.
Por causa disso, estou preparado para contar toda a verdade a
respeito do processo. Meu relatório vem do campo de batalha, da
prática. Otimista, sem dúvida, no entanto honesto e sem floreios.
Vamos às boas notícias. Consegui me sair muito bem. Claro que
não extraordinariamente bem, afinal não tenho 40 anos. Mas sou,
diria, um “cinqüentão”. Isso apesar dos seguintes fatos: na melhor
das hipóteses, me exercito apenas o suficiente. Tenho muita
tolerância comigo mesmo (houve uma época em que eu estava 20%
acima do peso). Tomo bebidas alcoólicas quase todos os dias e sou
muito ligado aos prazeres da vida. Ligadão. Porém, desde que me
conscientizei do que estava em jogo e quanto era simples o
compromisso exigido – em comparação com os resultados –, fui em
frente. Fiz o “papel do homem”, que todos nós conhecemos. E
tornei essa questão uma espécie de trabalho que tenhoa cumprir.
Mais um ponto a favor: o processo não é ruim. Uma parte – a dos
exercícios – parece estarrecedora, e você pensará que estamos de
brincadeira. Nem uma coisa nem outra: não há nada de assustador
no que propomos e nós não brincamos em serviço. Eu não teria
feito metade disso nem por um mês, muito menos por anos a fio, se
não fosse agradável. E é mesmo, graças a Deus. Na realidade,
vicia um pouco. Explicarei essa questão mais adiante. O trabalho é
duro, mas divertido. E funciona.

A contribuição de Harry: a verdade

Clínico geral e gerontologista, Harry é um modelo de integridade e


dedicação. Aos 48 anos de idade, apontado por pesquisas de âmbito
nacional como um dos melhores médicos dos Estados Unidos.
Lidera uma excelente equipe de 23 clínicos em Manhattan e é
membro da Faculdade de Medicina

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Clínica do Colégio de Médicos e Cirurgiões da Universidade de
Colúmbia. É também um estudioso atento das descobertas mais
recentes da biologia celular e evolutiva. Elaborou um relatório
sobre essa ciência, ainda não publicado em revistas médicas, e
sobre suas experiências no tratamento, há mais de 15 anos, de
pacientes nas faixas dos 50 e 60 anos ou mais. A ciência é barra-
pesada, porém Harry a torna fácil de entender e convincente. Tudo
bem, quase fácil. Seja como for, durante a leitura dos seus capítulos
(que praticamente se alternam com os meus), a lógica – ou quase
necessidade – de seguir suas sugestões parece absolutamente
clara.
A propósito, como essa ciência é muito nova, Harry avisa que
parte do que ele diz agora poderá se revelar errado à medida que
as pesquisas forem avançando. Mas os temas básicos, não. A
revolução de que ele fala está acontecendo neste momento, e a
ciência é uma realidade. Harry demonstra que existem forças
notáveis no corpo humano – nas células, por toda parte – que
trabalham sem parar nos processos de construção e destruição. As
forças darwinianas – a questão da preservação das espécies – têm
tudo a ver com quem somos e com a nossa forma de viver. Nos
seus capítulos, ele explica o que são essas forças e como elas
funcionam. Também diz de que modo manipulá-las e redirecioná-las
em nosso benefício para mantermos o envelhecimento a certa
distância e durante um bom período. Não por completo nem para
sempre. No entanto, por muito mais tempo do que você está
disposto a acreditar neste momento.
Parte do que você aprenderá é algo que já é do seu
conhecimento. Existem marés na vida que nos arrastam para a
frente ou para trás. Quando somos crianças, a maré está por trás
de nós e nos empurra para a frente, não importa o que fizermos.
Somos mais fortes, temos mais capacidade de concentração e
coordenação. Possuímos mais facilidade de entender e enfrentar
qualquer situação. Mas, a certa altura, a maré dentro do nosso
corpo perde a força, e esse movimento que nos faz ir adiante chega
ao fim. Em seguida, num instante, a maré se volta contra nós. O
corpo se enfraquece, nosso equilíbrio se torna instável, nossos
ossos ficam frágeis. Começamos a nos esquecer das coisas.
Depois, temos a sensação de que dentro de pouco tempo essa
maré será bem mais violenta e nos jogará contra as rochas, onde
gaivotas e caranguejos estarão esperando para nos devorar.
O curioso é que a maré não tem toda essa força. Ela parece
poderosa

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constante e implacável. No entanto, é controlável: podemos desviar
seu poder inclemente para favorecer nossos próprios interesses.
Temos como usar a aterradora força do vento que nos joga contra
as rochas para soprar nossas velas e voltarmos a velejar com
segurança. Harry é extremamente inteligente, e suas palavras
merecem um estudo atento. Tudo o que ele espera de você é que
mude sua maneira de viver – de forma radical e para sempre. Eu
também.

Meu encontro com Harry e um recomeço

Procurei Harry por indicação de uma dermatologista ruiva


chamada Desiree. Embora essa mulher tivesse acabado de tirar
metade do meu nariz com anestesia local, não deixei de continuar
louco por ela. Eu estava de volta a Nova York após deixar o
Colorado, onde fiquei esquiando por cerca de dois anos depois de
me aposentar. (Não vivi essa fase na juventude porque me casei
com 19 anos e tive três filhos antes de terminar o curso de Direiro).
Perguntei a Desiree se ela aceitava ser minha médica. Sua
resposta foi negativa. Em todo caso, disse que conhecia a pessoa
certa para me atender. Era um profissional inteligente, íntegro,
especial. Tida sido seu professor na faculdade de Medicina. Eu iria
gostar dele.
E lá estava eu, desconfiado como um gato, na sala de exames de
Harry. Confesso que não tenho simpatia por médicos. Não gosto da
altivez com que alguns deles me tratam e muito menos de ter que
esperar uma hora para ser atendido. Sem falar no que eles fazem
com a gente.
As maneiras de Harry, porém, são encantadoras, e ele é uma
pessoa claramente correta. Mesmo assim eu continuava
desconfiado. Passamos por todo aquele desagradável processo de
consulta, incluindo o toque retal. Por fim, veio a velha frase: “Por
favor, vista-se e venha à minha sala para conversarmos mais um
pouco”.
Eu já sabia o que ele iria dizer: Encontrei um caroço do tamanho
de uma romã em você. Portanto, vamos interná-lo e...”. Entrei na
sala, mas não, ele não havia achado nada em meu corpo. Na
realidade, segundo Harry, eu estava razoavelmente em forma.
Acima do peso, porém, não muito. O fato de eu fazer exercícios
com regularidade ajuda bastante.
Harry é alto e estranhamente tímido para um homem que tem
essa profissão.

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Olha para o computador muitas vezes enquanto fala com o
paciente. Jamais se poderia dizer que sua aparência é
desagradável. Na realidade, ele é até bonitão. Foi remador na
universidade e isso transparece, embora se vista e se apresente de
forma relaxada. O que, claro, não é problema para mim, pois me
visto e me apresento assim também. Harry e eu viemos do mesmo
lugar, North Shore, em Boston. Crescemos a cerca de 8km de
distância um do outro e nossa diferença de idade é de 25 anos.
Ele continuou a falar sobre números, parâmetros, etc. Como meu
objetivo era entrevistá-lo para a importante função de meu médico,
perguntei:
– Afinal, qual é a área da medicina que mais o atrai?
– O que realmente aprecio é o conceito de relacionamento de longo
prazo com os pacientes e a possibilidade de mantê-los a ter uma
vida melhor, e não apenas a ficarem bons disso ou daquilo.
– O que você quer dizer com isso? – perguntei.
– Sempre me interessei por gerontologia, pela questão do
envelhecimento, assim como pela clínica geral. Na realidade, sou
diplomado nessas duas áreas, embora não saiba dizer exatamente
em que medida a gerontologia está separada da clínica geral. –
Nesse momento, ele se virou e, com toda a calma, deixou cair a
bomba. – Minha única certeza é de que existe uma revolução
fundamental acontecendo no que diz respeito ao modo como as
pessoas envelhecem. – Fez uma pausa e começou a falar sobre a
questão da curva lenta e contínua que vai dos 50 anos até a morte,
por um lado, e do novo patamar, por outro. Traçou as linhas no ar
com a mão. – E você, Chris, pode estar no limiar dessa mudança.
– Eu?
– Sim. Com base nos seus dados pessoais e no resultado dos seus
exames. Ah! Você não fuma. Com esses resultados e o hábito de
praticar exercícios físicos mais intensos, tem condições de
continuar do jeito que está hoje, até completar, digamos, 80 anos.
Talvez 90. Na realidade, se fizer umas poucas coisas, conseguirá se
tornar funcionalmente mais jovem. Você está em melhor forma do
que a maioria dos homens que vem aqui pela primeira vez. Mas
poderia ficar mais jovem no ano que vem em todos os aspectos que
interessam. Mais novo no próximo ano. E por alguns anos mais.

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Eu me levantei e me aproximei dele.
– Verdade?
– É claro. Você esquia. Pois bem, poderá continuar a esquiar muito
durante seus 70 anos. Só diminuirá um pouco o ritmo a certa altura
dos 80 anos. Quanto a andar de bicicleta, isso você fará para
sempre. Claro, por fim, sofrerá um certo declínio. Porém,
basicamente, até chegar aos 80 anos ou mais, será capaz de
permanecer tão atlético, vigoroso e ativo quanto foi aos 50 anos. E
nos primeiros cinco ou mais anos, conseguirá ficar funcionalmente
mais jovem.
– O que devo fazer?
– É difícil resumir, contudo existem três fatores fundamentais
envolvidos nessa questão: exercícios, nutrição e compromisso. O
elemento mais importante e o que proporciona a maior mudança
para as pessoas é a prática de exercícios. É o segredo para se ter
saúde. Você deve se exercitar de maneira intensa quase todos os
dias da sua vida. Digamos, seis dia por semana. E realizar um
treinamento de força, com pesos, a chamada musculação, em dois
desses seis dias. A atividade física é a grande chave no processo
de envelhecimento. Esse longo deslizamento poderá simplesmente
desaparecer. Ou fazer o movimento inverso por algum tempo. E
você terá condições de continuar a ser aquilo que é pelo resto da
vida.
Eu tinha mais umas 500 perguntas na ponta da língua. Mas,
contrariando o hábito, fiquei sentado, esperando.
Harry prosseguiu.
– A nutrição também. Você deveria se alimentar do jeito certo, mas
provavelmente não faz isso. Se possível, procure voltar para seu
peso ideal. Você está com 88Kg – disse ele enquanto lia esse dado
na tela do computador.
– Qual é seu peso ideal, uns 80Kg?
– Acho que 75Kg, talvez menos. Durante a faculdade fiz um pouco
de remo e pesava 70KG. Consegui me manter assim até os 40
anos.
– Se você for capaz de chegar a 77Kg, será ótimo. De qualquer
modo, não se preocupe muito com isso. Seja qual for seu peso, o
mais importante é se exercitar e depois aprender a comer de forma
sensata. Pare de consumir aquelas coisas que você sabe que
fazem mal, como fast-food, gorduras em excesso e carboidratos
simples. E reduza as porções de tudo.
Ele disse que meu peso baixaria com o tempo se eu me exercitasse
e deixasse de comer bobagens.

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– E quanto aos genes? Pensei que tudo já estivesse decidido desde
que nasci e que só me restava aguardar a derrota.
– Não – afirmou Harry enfaticamente. – Isso é um grande mal
entendido e uma desculpa vergonhosa. Os genes representam no
máximo 20% dessa questão. O resto é definido pela própria pessoa.
– e a bebida?
Ele olhou de novo para a tela do computador.
– Bebedor social! – disse ele, lendo o questionário que preenchi. –
Duas doses por noite. – E, então, entraram em cena suas boas
maneiras. Em vez de se debruçar por cima da mesa e me chamar
de mentiroso, Harry apenas falou do hábito saudável de consumir
uma ou duas taças de vinho. Mais do que isso passa a ser
prejudicial. Muito mais do que isso se torna uma tremenda bomba.
Obviamente.
– Compromisso. – Ele encolheu os ombros como se quisesse
demonstrar que esse era um assunto mais difícil de abordar. – A
questão é a seguinte: você tem que se envolver com outras
pessoas. E deve escolher algo a que possa se dedicar: metas,
ações de caridade, família, trabalho, hobbies. Especialmente depois
da aposentadoria, será fundamental que arregace as mangas e
assuma o controle da sua vida. De outro modo, as coisas poderão
tomar um rumo desfavorável. – Harry parou, olhou em volta e disse:
– Deve ser algo específico para seu caso, não dá para generalizar.
É necessário que haja pessoas e causas com as quais você se
importe. Tanto faz que causas sejam essas. Elas não precisam ser
lucrativas nem de interesse para a sociedade, mas devem ter valor
para você. É essencial que existam pessoas com quem você se
preocupe e algo que lhe dê razão para viver. Senão – um pequeno
sorriso –, você morrerá.
– Isso é tudo? – perguntei.
– Em resumo, sim.
– Muito bem. – E me aprontei para sair. – Quantos exercícios? E o
que devo comer?
Mas isso está ao longo do livro. Você vai gostar. Salvará sua vida.

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CAPÍTULO 2
COMO ESTÁ SUA MULHER?

Chris Crowley

Antes que chegue a vez de Harry entrar na conversa, quero lhe


fazer uma pergunta: como está sua mulher? OU sua companheira
ou sua amiga íntima? Seja lá quem você conseguiu conquistar ou
quem o tenha conquistado, como vai essa pessoa?
De que modo ela está encarando a idéia do seu envelhecimento,
da sua aposentadoria? Está aceitando a vida do jeito que ela é com
otimismo ou já se cansou? Está do seu lado para valer ou apenas
acompanha seu caso à distância? Ela gosta de você? Você gosta
dela? Afinal, o que vocês pensam um do outro agora que estão
envelhecendo? Na realidade, a pergunta é a seguinte: a união de
vocês é forte o bastante para se tornar o alicerce dessa vida muito
diferente que está indo ao encontro de ambos a 200km por hora?
Vocês ainda conseguem utilizar as mesmas pedras fundamentais,
as antigas vigas mestras, aquele velho amor? Continuam juntos de
verdade?
Vou explicar a razão dessas perguntas. É extremamente difícil
passar por isso sozinho. E é de grande ajuda ter alguém para amar
e que também o ame. Alguns homens pensam de uma forma
melancólica: “Se eu pudesse dar o fora daqui e me divertir com
alguém mais jovem, então, por Deus, minha vida começaria de
novo. Ou se eu simplesmente tivesse como passar um tempo solto
por aí apenas por alguns anos, como seria bom.”
Bem, talvez fosse. Mas tenho que confessar uma coisa: acredito
que não. Fiquei um longo tempo solteiro e adorei essa situação. Foi
uma época maravilhosa, vivi muitas aventuras. Excelente, como no
cinema. No entanto, isso

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foi antes, agora a situação é outra. Hoje eu sei que nessa nova fase
da sua vida – chegando aos 60 ou 70 anos e já pensando na
aposentadoria –, será muito mais fácil se você tiver uma
companheira. E se ela tiver você.
Caso não haja ninguém ao seu lado ou se a relação que você tem
é um verdadeiro horror, tudo bem. Este livro não foi escrito apenas
para pessoas casadas. Existem caminhos alternativos. Amigas
servem. Uma amiga apenas, bem íntima, pode operar milagres.
Redes de almas gêmeas também, especialmente se vocês
estiverem ligados por uma grande paixão por algo. O grande
segredo é estar interagindo com alguém para que você tenha algum
tipo de apoio quando entrar nessa nova etapa da vida. Nós fomos
criados para viver aos pares. Os solitários se resfriam, sobretudo
quando o inverno está chegando.
Mais adiante, Harry apresentará dados muito interessantes sobrfe
como os mamíferos são inteiramente voltados para a vida em
grupo. Ele mostrará como nosso cérebro funciona nesse sentido. É
algo estranho, mas verdadeiro. A disposição para agir aos pares e
em equipe está profundamente enraizada no nosso corpo e na
nossa mente. Não há como fugir disso. Portanto, voltemos à
pergunta inicial: como está sua mulher? Ou sua companheira ou
sua amiga íntima? E preste atenção neste excelente conselho: se
você estiver vivendo uma relação especial, não a destrua durante o
turbilhão de mudanças que surgirá na fase da aposentadoria. Você
precisará dela.
Considero importante mencionar esse detalhe porque,
surpreendentemente, existem muitos homens que agem da forma
errada. Relacionamentos que duraram 30 anos ou mais desabam
de repente quando os parceiros chegam à faixa dos 50 ou 60 anos.
As pessoas desistem no momento exato em que sua relação
poderia se tornar algo de fato muito bom. Talvez isso seja uma
conseqüência do fato de elas agora estarem passando muito mais
tempo juntas ou do estresse causadoi pela aposentadoria. Nem
sempre, porém, a separação é uma grande idéia, pois, nessa fase,
todos nós, precisamos de uma boa companhia e de raízes
profundas. Essa é uma época em que muitas raízes estão sendo
arrancadas e as coisas começam a parecer assustadoras.
Sou um otimista e você também deveria ser. É a melhor maneira
de encarar a vida. Vou ser franco mais uma vez: fazer 60 anos
poderá ser um momento muito ruim se você não se cuidar. E
mesmo que se cuide. Pense no seguinte: muita gente morre nessa
faixa de idade. Não por atropelamento nem por cair da bicicleta, e
sim por causas seminaturais, como problemas cardíacos ou

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algum tipo de câncer. Mas é improvável que você morra cedo, claro.
Especialmente se fizer tudo aquilo que eu e Harry recomendamos.
A morte chegará, sem dúvida. E essa idéia o deixará desalentado.
O fará escutar o barulho de uma cachoeira lá longe. E você se
perguntará o tempo todo: que som é este? Como se não soubesse,
tomado, tomado de medo, de muito medo. Uma das regras básicas
deste livro é: seja homem, faça o que tem que fazer, aproveite tudo
até o fim. É um grande conselho, porém difícil de seguir. Embora
seja possível enfrentar a cachoeira sozinho, será mais fácil passar
por isso na companhia de alguém, de preferência ao lado de uma
pessoa que você conheça a fundo. Sobretudo quando estiver
deitado, escutando o barulho da cachoeira à noite. Nós somos
animais gregários. Aninhe-se.

Prepare-se para a aposentadoria o mais cedo possível

Harry e eu falamos sobre aposentadoria muitas vezes neste livro


mesmo sabendo que há uma boa chance de que você ainda esteja
em atividade e que permaneça assim por algum tempo. Fazemos
isso porque esse assunto é muito importante – é fundamental que
você comece a se preparar para essa fase o mais cedo possível.
Para simplificar as explanações, partimos do princípio de que você
está para se aposentar ou já se aposentou.
Planeje seu esquema, monte-o e esteja preparado. Estabeleça
novas redes de amizades e assuma outros compromissos para que
tudo isso já esteja à sua espera quando você se afastar do trabalho.
Reflita um pouco sobre a possibilidade de construir um novo “eu” e
um novo tipo de relacionamento com sua companheira, se tiver
uma. Caso esteja pretendendo trabalhar durante uma parte do dia
ou numa atividade diferente da que desenvolvia antes, comece a
estudar o assunto a partir de agora. Defina o que quer fazer e de
que forma executará isso enquanto ainda está em atividade. A
aposentadoria pode ser uma experiência fascinante e
enriquecedora, uma das coisas mais interessantes e importantes da
sua vida. No entanto, não é algo fácil. É uma idiotice você se
aposentar sem refletir previamente sobre essa situação. Pois bem,
agora vou retornar a história do relacionamento.
Uma das razões básicas para você ficar sozinho a caminho dos
60 anos é que a aposentadoria é um estágio que oferece perigos. A
ciência lhe deu mais 30 anos de vida. Mais 40, no caso de alguns
homens. Porém, não é isso

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o que aquela antiga e querida empresa para a qual você trabalha
fará. As pessoas ali querem vê-lo longe amanhã mesmo e vão
conseguir o que desejam. E com uma surpreendente rapidez. De
um dia para o outro, você perderá seu papel de elemento
fundamental naquela organização social complexa, isto é, deixará
de ser um membro da turma. Talvez o transformem em consultor ou
o admitam no escritório de vez em quando. Mas isso não interessa
mais, você já é parte da história. Eles vão lamentar sua situação por
cerca de 30segundos e seguirão em frente. Como se você já
estivesse morto.
É duro. Toda aquela estrutura de apoio, toda aquela rede de
colegas, de amigos e inimigos, o grande centro da sua vida: tarefas
a executar, conquistas das quais se orgulhar, acontecimentos a
temer, situações em que está indo bem e outras às quais não está
se conseguindo se ajustar. Tudo isso desaparece num piscar de
olhos. E não resta muito mais na nossa sociedade com que
possamos preencher este espaço vazio. Precisamos de mudar a
maneira de organizar a sociedade para termos condições de
aproveitar melhor o último terço da nossa existência.
Para o bem ou para o mal, você terá que inventar uma nova vida
num mundo desconhecido e muito estranho – você e sua
companheira, se possuir uma. Talvez pensem em se mudar, quem
sabe para uma pequena cidade de praia ou para o interior. E a nova
casa terá que durar um bom tempo. Antigamente, os homens
morriam poucos oanos depois de se aposentar, no entanto essa
realidade mudou de forma drástica em muitos países.
Caso você tenha a sorte de estar num relacionamento que
consegue suportar alguns fardos – ou se vocês forem capazes de
reinventar o que construíram juntos de modo que possam agüentar
o tranco –, o mais provável é que os dois se tornem o elemento
principal na vida um do outro por um longo tempo. Talvez pelo resto
dos seus dias. Assumirão esse papel em termos de companhia, de
parceria, de encorajamento – enfim, em todos os aspectos da vida.
Para um grande número de homens, isso corresponderá a uma boa
parte da estrutura social por um período considerável. É claro que o
melhor dos relacionamentos do mundo não pode ser um substituto
para tudo aquilo que o trabalho proporcionava. Seria uma loucura
pensar assim. Mas ele será o fator principal quase com certeza.
Portanto, trate de iniciar as negociações emocionais o mais rápido
possível. Vocês agora são verdadeiros sócios, independentemente
do que tiverem sido no passado. Falem um com o outro de

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maneira franca e procurem saber quem está mais interessado em
fazer o que, isto é, que cargas cada um deseja e consegue
carregar.
E façam coisas novas em dupla. Pensem, por exemplo, nas
orientações sobre a prática de exercícios físicos que Harry e eu
apresentaremos neste livro. Se houver uma chance no mundo de
que o executem juntos – ou pelo menos uma parte deles –, isso
será suficiente para transformar esse compromisso num prazer
maior e numa tarefa muito mais fácil de cumprir. Você poderá
pensar: “O problema é que minha companheira não gosta dessas
coisas”. Ou: “Ela jamais conseguiria levar isso adiante.”
Talvez você tenha razão. Talvez não.
Vou dar um exemplo. Quando minha mulher, Hilary, e eu nos
conhecemos, a piada corrente era de que ela jamais saia de casa,
exceto para ir a clubes, e sempre se vestia de preto. Depois de nos
mudarmos para o Colorado, Hilary despiu-se rapidamente da
pessoa que era, tal qual o Super-Homem mudando de roupa numa
cabine telefônica. De um momento para o outro, começou a esquiar,
a caminhar, a andar de bicicleta e sabe Deus o que mais. Ela não
se tornou uma “atleta”, muito menos eu. Mas decidiu praticar
atividades físicas. Quando voltamos para o leste e eu passei a
seguir o que chamo de Regras de Harry, Hilary estranhou no início.
Depois, porém, aderiu aos exercícios, e hoje fazemos uma boa
parte deles na companhia um do outro, uns dois dias por semana. É
até difícil descrever como é muito melhor me exercitar com ela.
Não tenha tanta certeza de que sua companheira rejeitará os
exercícios. Talvez ela o esteja enganando. Na terceira idade, há
coisas importantes que ela fará melhor que você. Por exemplo:
estabelecer novas amizades, manter vivo o contato com os filhos e
os netos para que você possa ser útil a eles e buscar
relacionamentos e compromissos que sejam positivos para os dois.
Essas e outras áreas essenciais em que ela será capaz de carregar
uma boa carga

Apóiem-se um no outro

De certo modo, o casamento torna-se mais fácil com a chegada


da terceira idade. Tende a ser como era no passado, nos tempos da
vida no campo: menos divórcio e menos desentendimentos, porque
tanto o marido quanto a mulher desempenhavam papéis
importantes mantendo a fazenda em fun-

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cionamento. É o que costuma acontecer agora: ambos assumem
funções essenciais para trocar sua nova vida, de tal maneira que
passam a se respeitar mais e a demonstrar mais atenção um com o
outro. Simplesmente cuidam-se mais mutuamente do que faziam
antes. A propósito, nessa altura da vida o fluxo de testosterona
diminui um pouco. Isso ajuda.
Mais um momento de franqueza. Com a idade, alguns homens
chegam a pensar em abandonar o relacionamento por acharem sua
mulher muito envelhecida fisicamente. Como se eles ainda fossem
bonitões, como se sua barriga proeminente, sua careca e seus
dentes amarelados não existissem. Seja como for, isso acontece.
Há uma crença de que nós conseguimos envelhecer em melhor
forma do que as mulheres. Não quando estamos morrendo. É
evidente. E isso acontece conosco em média cinco anos mais cedo
do que com elas! E não ficamos mais bonitos quando estamos
mortos, embora muitos homens costumem se esquecer disso.
Pensam que são galãs de cinema e que viverão para sempre. Não
passa por sua cabeça que estão envelhecendo também, e tudo o
que desejam é dar o fora.
Esse sentimento lastimável, provavelmente uma projeção dos
seus próprios medos em relação ao que está acontecendo com
eles, não é uma boa base para ação. Neste livro, eu e Harry não
falamos nada a respeito de divórcio, de esposas jovens e assuntos
desse tipo. São questões muito pessoais. No entanto, temos uma
idéia. Em vez de você e sua mulher ficarem sentados em silêncio,
dando espaço para o desânimo enquanto observam o que está
errado com cada um dos dois em termos físicos, por que não se
concentram no vigor que ambos ainda têm? Que tal dizerem !Sim!”
um para o outro nesse momento crucial, quando ainda estão em
condições de fazer isso? Por que não reforçam o estoque do que
existe de melhor e mais forte entre vocês e reafirmam seu
compromisso com a vitalidade recíproca?
De qualquer modo, observe que há limites para o que sua
companheira pode fazer por você. Caso esteja na faixa dos 40 anos
e ainda cheio de si, talvez não acredite nisso, porém existe o risco
de você tentar se apoiar excessivamente no seu relacionamento
quando estiver passando pelos primeiros estágios da
aposentadoria. Os homens – mesmo os fortes, como você e eu –
adotam uma atitude tola quanto à necessidade de se preparar para
a aposentadoria. Em geral, nos negamos a fazer isso. Por isso,
quando esse dia chega, muitos de nós voltam para casa com algo
parecido com lágrimas nos olhos, na esperança

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de que nossa companheira assuma toda a responsabilidade de nos
manter interessados na vida, amados e entretidos. Desculpem,
senhores, mas as mulheres não podem se encarregar disso. Não só
não podem como não devem aceitar esse obrigação, mesmo que
sejam loucas por seus maridos ou companheiros.
Você terá que se dedicar a renovar contatos e compromissos para
que sua vida siga em frente. Precisará exercitar seus encantos, sua
persuasão, seus talentos, sua capacidade de se entusiasmar diante
de algo e de despertar o interesse de outras pessoas por isso
também – atributos desenvolvidos durante toda uma vida – da
mesma forma que deverá fazer exercícios físicos. Quanto mais
ampla e variada sua maneira de administrar seus relacionamentos e
se comunicar com as pessoas antes da aposentadoria e durante
esse período, mais preparado você estará para enfrentar essa nova
situação.
Mas tudo isso é, por enquanto, uma questão secundária. A regra
básica para este capítulo em particular é a seguinte: entre em
contato com sua mulher, companheira ou melhor amiga. Revitalize,
reestruture e fortaleça essa relação, seja ela qual for. E avancem os
dois para a terceira idade como parceiros plenos, como novos
moradores num ambiente hostil. Se fizerem essa caminhada juntos,
ela será muito mais divertida e seu desfecho será bem melhor.
Comece por este livro. Peça à sua companheira que o leia e
troquem impressões. Utilizem as idéias de Harry sobre a biologia
evolutiva para induzir seu corpo e sua mente a se manterem fortes
pelos próximos 30 anos. Essa é uma história romântica,
surpreendente depois de todos esses anos. E vocês estão nela
juntos.

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CAPÍTULO 3
A NOVA CIÊNCIA
DO ENVELHECIMENTO

Dr. Henry S. Lodge

Quando completei 10 anos de atuação como clínico geral, parei


para pensar criticamente sobre meu trabalho. As conclusões a que
cheguei mudaram minha vida, modificaram a maneira como eu
praticava a medicina e, por fim, deram origem à criação deste livro
com Chris. Tudo estava correndo bem. Eu amava minha profissão,
adorava meus pacientes e tinha colegas maravilhosos. Mas os
pacientes, que vinham se consultando comigo por um longo tempo,
estavam chegando ao final dos 50, 60 e 70 anos de idade – um
momento em que as coisas começam a acontecer. Alguns deles se
tornaram meus amigos, porém a maioria eu via apenas de vez em
quando – no exame anual e quando surgiam problemas. Os
checkups anuais eram como fotografias com intervalos de tempo.
Essas imagens mostravam que as pessoas com quem eu me
preocupava estavam envelhecendo num ritmo alarmante. Muitas
delas eram sedentárias, contudo mesmo as que se mantinham
ativas num nível moderado estavam cada vez mais acima do peso,
fora de forma e apáticas. Outras vinham adoecendo gravemente.
Haviam tido derrames e ataques do coração, complicações
circulatórias e hepáticas – e numa fase da vida em que isso ainda
não era esperado.
Uma das coisas mais difíceis para um médico é dar as más
notícias: “Precisamos realizar mais alguns testes...”, “Isto é
preocupante...”, “Por favor, sente-se para que possamos conversar”.
Usamos frases desse tipo para dizer que a

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vida, de repente, tomou um rumo triste e irreversível. Fiquei cada
vez mais convencido de que a maior parte dessas conversas estava
acontecendo antes da hora apropriada. E por motivos evidentes e
que poderiam ser evitados.
Não que eu tivesse fornecido diagnósticos errados ou falhado na
identificação de algo nas radiografias. Pelo contrário, eu havia feito
o que os médicos em geral sabem fazer muito bem: tratar as
pessoas quando elas chegam ao seu consultório já doentes. Assim,
concluí que, embora meus pacientes tivessem recebido boa
assistência médica, eles não haviam tido grandes cuidados de
saúde. Na maior parte dos casos, a decadência e os males físicos
eram resultantes de 30 anos de problemas ocasionados pelo seu
estilo de vida, e não por doenças. Como a maioria dos médicos do
meu país, eu vinha realizando com toda a competência um trabalho
equivocado. A medicina moderna não tem se preocupado o
suficiente com as complicações decorrentes do estilo de vida.
Os médicos não costumam tratar desse assunto e as faculdades
ensinam pouco a esse respeito. Comecei a perceber que não havia
justificativa para isso. Sempre me dediquei ao estudo dessas
questões, porém jamais as tornei o ponto mais importante. E muitos
dos meus pacientes, incluindo pessoas extremamente inteligentes e
capazes, estavam vivendo de forma péssima. Alguns deles já
estavam morrendo.
Na revisão que fiz dos meus 10 anos de experiência profissional,
cheguei a mais conclusões. A maior parte da medicina moderna
é aquilo que os advogados e banqueiros costumam chamar de
transacional: um negócio que é feito apenas uma vez. Após
sofrer um ataque do coração ou fraturar um joelho, a pessoa
procura um especialista. O médico a submete a um período de
tratamento intensivo de recuperação ou de cura para aquele
problema específico. Depois disso, as partes se separam e seguem
por caminhos distintos, em geral para sempre.
Observei que, no meu consultório, a situação era outra. Eu tinha
relacionamentos de 20, 30 anos com os pacientes, e isso é uma
das melhores coisas para um clinico geral. O privilégio de
acompanhar a vida das pessoas por um longo período me coloca
numa posição diferente em relação a meus colegas especialistas.
Estou “a par” de como meus pacientes estão vivendo e de como
estão morrendo. Estou “a par” de que estilo de vida adotado hoje
em dia é perigoso e, por vezes, letal, sobretudo durante a
aposentadoria. Estou “a par” de que, por melhor que seja a
assistência médica, todos nó
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pecisamos de grandes cuidados de saúde. E são muito poucos
aqueles que recebem esse benefício.
Não há justificativa para o fato de que a sociedade, sofrendo com
as pragas do aumento dos custos médicos e das epidemias de
obesidade, de doenças cardíacas e de câncer, dedique tão pouca
atenção a esse assunto. Sabemos perfeitamente o que precisa
ser feito. Nos Estados Unidos, cerca de 70% dos casos de morte e
envelhecimento prematuros estão relacionados com o estilo de
vida. Derrames, ataques cardíacos, tipos comuns de câncer,
diabetes e a maior parte das quedas, das fraturas e dos ferimentos
graves, além de muitos outros males, são causados sobretudo pela
maneira como vivemos. Se tivéssemos uma forte determinação,
poderíamos evitar a ocorrência de mais da metade de todas as
doenças que acometem homens e mulheres com mais de 50 anos.
Não estou falando em adiar, mas em evitar. Em vez disso, porém,
tornamos esses problemas invisíveis, deixando que permaneçam
como parte da paisagem “natural” do envelhecimento: Ah, isto já é
velhice natural chegando.”

O “envelhecimento normal” não é normal

Quanto mais observo a ciência, mais se torna claro para mim que
essas doenças e a deterioração física não são uma parte normal do
envelhecimento, e sim um ultraje. Acabamos por nos habituar a
essa situação porque nivelamos a meta vergonhosamente por
baixo. De modo inconsciente, muita gente acredita que “vai
envelhecer e morrer”; uma expressão, quase uma só palavra e, sem
dúvida, um conceito sem fundamento. Essas pessoas crêem que
morrerão logo depois que ficarem idosas e frágeis, portanto não se
importam com a queda da sua qualidade de vida. Essa é uma idéia
totalmente errada e uma premissa perigosa que não deve constar
do planejamento da sua vida. Na verdade, é possível “envelhecer e
viver”. Se você quiser, poderá ficar decrépito, porém talvez não
morra logo. Pode ser que chegue aos 90 anos, o que é uma boa
razão para tornar a última parte da sua existência uma época
formidável, e não uma triste combinação de obesidade, articulações
doloridas e apatia. O “envelhecimento normal” é intolerável e pode
ser evitado. Temos como nos proteger de grande parte das piores
coisas e envelhecer não apenas dignamente, mas com verdadeiro
prazer.

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Essa foi minha epifania: “Como médico, não posso ficar
sentado sem fazer nada, apenas olhando para as pessoas com
as quais me preocupo enquanto elas despencam ladeira
abaixo na direção de um lugar horroroso. Qual o mérito de
esperar o carro bater para depois fazer um bom trabalho no
tratamento dos feridos e moribundos? Se 50% das doenças
graves que vejo podem ser evitadas, então meu trabalho terá
que ser de prevenção.”
Desde então, adoto com cada um dos meus novos pacientes a
mesma linha de conversa que tive com Chris. Sempre que um deles
se mostra receptivo de algum modo, dou início a um novo trabalho.
A grande notícia é que a maioria das pessoas compreende esse
raciocínio, e muitas delas já estão seguindo firmes na trilha que leva
ao rejuvenescimento.

Mudança no âmbito celular

Estamos em meio a uma revolução na ciência do envelhecimento.


Ela é parte de uma revolução ainda maior na nossa compreensão
de como o corpo funciona no âmbito celular, o que tem pavimentado
o caminho para um envelhecimento saudável. Vasta e
extraordinária, a ciência por trás dessa revolução inclui campos tão
diversos quanto a fisiologia celular, a estrutura protéica, a
bioquímica, a biologia evolutiva, a fisiologia do exercício, a
antropologia, a psicologia experimental, a ecologia e a
neuroanatomia comparativa. Embora as conclusões definitivas
desse estudo ainda estejam surgindo, suas linhas básicas já estão
suficientemente claras para que homens e mulheres, dos 40 aos 90
anos, possam segui-las. Se fizerem isso, viverão melhor, mais
felizes e mais saudáveis do que seus pais e avós e do que qualquer
pessoa que não siga essas diretrizes.
Dez anos atrás, a ciência básica em termos de saúde era um
território desconhecido, um enorme espaço em branco num mapa.
Mas, a partir de tudo o que aprendemos com o estudo das doenças,
passamos a entender da saúde – e acabamos descobrindo que ela
é biologicamente mais complicada. Na situação de doença, o trem
descarrila e as leis da física assumem seu lugar – a colisão é
terrível e destrutiva, no entanto, a ciência é simples. Com a saúde
acontece o contrário. Mecanismos de controle foram elaborados
com todo o cuidado para manter o trem nos trilhos. E a ciência
desses mecanismos – o “projeto” do nosso corpo – é muito
complexa. Felizmente para nós, os controles são fáceis de operar.
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Você precisa entender apenas dois pontos fundamentais a
respeito da evolução da nossa biologia para assumir o controle da
sua saúde. O primeiro deles é que o corpo humano não é um
pacote projetado de forma perfeitamente integrada. A comunidade
maravilhosa, mas biologicamente inusitada, que chamamos de
corpo foi montada com partes que evoluíram de modo isolado em
diferentes espécies animais durante milhões, talvez bilhões de
anos. O polegar, que se opõe aos outros dedos, e alguns gramas a
mais de cérebro são as únicas áreas do corpo especificamente
“humanas”. Todo o resto se origina de outras espécies. E não pense
apenas em chimpanzés. Estou me referindo a bactérias,
dinossauros, aves, serpentes, gazelas, leões – a lista pode encher
páginas. A estrutura básica e a operação das células que compõem
a maior parte do corpo foram desenvolvidas por bactérias a bilhões
de anos. As mensagens que orientam essas células não são
pensamentos conscientes, como os que deram origem à
Renascença, por exemplo. Na verdade, nem sequer chegam a ser
pensamentos – são impulsos elétricos e químicos primitivos que
precedem o surgimento da consciência em muitos bilhões de anos.
O segundo ponto é que você pode controlar essas células
altamente primitivas por meio daquele miraculoso cérebro que é
capaz de criar a Renascença. Mas não conseguirá fazer isso da
maneira que imagina. Será necessário que fale com seu corpo
usando um código e seguindo certas regras imutáveis. Neste livro,
eu e Harry lhe fornecemos o código e explicamos as regras, que,
aliás, não são nossas. Foram estabelecidas pela natureza e não
podem ser dribladas.

Boas notícias e um problema

Herdamos uma fortuna biológica. Temos um corpo formidável,


excelente, além de um cérebro verdadeiramente assombroso. Na
verdade, possuímos três cérebros separados que funcionam em
conjunto – todos eles admiráveis e originários de três fases da
evolução. Em termos simples, trata-se do cérebro físico, do cérebro
emocional e do cérebro racional. Embora sejam distintos em termos
químicos e anatômicos os neurocirurgiões conseguem separá-los
como se fossem gomos de uma laranja) e tenham finalidades
diferentes, os três são profundamente conectados e, desse modo,
podem nos atender em nossas necessidades diárias.

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E o problema está justamente nisso. O corpo e os cérebros são
perfeitos para desempenhar suas funções naturais, mas nenhum
deles foi “prejetado” para a vida moderna e seus elementos típicos,
como fast-food, televisão e aposentadoria. Eles foram criados para
a vida na natureza, um ambiente onde só os mais capazes
conseguiam sobreviver. A maioria das partes do corpo humano tem
tanto a ver com um shopping center quanto um tigre-de-bengala.
Deixados à mercê dos seus próprios mecanismos, o corpo e os
cérebros sempre interpretarão de forma errada os sinais do século
XXI.

A decadência é opcional

Existe uma distinção fundamental entre envelhecimento e


decadência que você deverá ter em mente daqui por diante.
Envelhecer é inevitável, porém esse é um processo que está
biologicamente programado para ser lento. A maior parte do que
chamamos envelhecimento é, na realidade, decadência – e é ela o
que mais nos apavora. Isso tem uma importância crítica, pois é
impossível não envelhecermos, no entanto a decadência é
opcional. Portanto, em grande medida, o envelhecimento funcional
também é uma escolha.
Há uma biologia imutável do envelhecimento, e a respeito disso
não existe nada que possamos fazer: o cabelo fica grisalho, a força
da gravidade começa a cobrar seu pedágio e até o preço do cinema
cai pela metade. A freqüência cardíaca máxima (Fmax) diminui de
forma contínua, seja qual for nosso nível de atividade física. Isso é
muito importante. A pele também se degenera, independentemente
do estilo de vida que adotamos. Portanto pareceremos velhos, não
importa o que façamos. Mas não precisamos agir como velhos nem
nos sentir velhos. E é isso o que conta. Não conseguimos descobrir
um modo de viver para sempre, porém o envelhecimento pode ser
um processo lento, brando e surpreendentemente belo. E até no
campo da aparência existe uma diferença abismal entre uma
pessoa idosa saudável e bonita e outra que não soube se preparar
para essa fase da vida.
A natureza equilibra o crescimento com a decadência, regulando o
corpo com uma tendência inata para esta última. Embora os sinais
desse processo não sejam muito intensos, eles são contínuos. Não
param nunca e tornam-se um pouco mais fortes a cada ano. Chris
refere-se a isso como uma maré implacável, o que é uma boa
metáfora. Nas faixas dos 40 e dos 50 anos, o corpo
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entra num esquema que chamo de adrão de decadência”, e a
cavalgada livre da juventude acaba. Na ausência de sinais de
crescimento, o corpo e o cérebro começam a entrar em declínio, e
nós, a “envelhecer”. Mesmo que não gostemos disso, não há como
evitar que aconteça. O que podemos fazer, com incrível facilidade, é
modificar esse padrão de sinais, nadar contra a maré e substituir a
decadência por crescimento.
Então, como você pode evitar esse processo de deterioração?
Mudando os sinais que manda para seu corpo. As chaves para
evitar o código da decadência são exercícios diários, compromissos
emocionais, uma nutrição razoável e uma dedicação incondicional à
vida. Mas tudo começa com os exercícios. E atenção: antes de
adotar um programa de atividades físicas, agende uma consulta
médica para uma avaliação do seu estado de saúde. No capítulo 6,
Chris falará mais sobre essa questão.
Caso esteja liberado para se exercitar, é fundamental que faça
isso de forma contínua, pois é assim que o corpo funciona. Mais
importante ainda: era assim que ele funcionava. É assim que vem
funcionando a milhões de anos. Seu corpo é um presente de
trilhões de ancestrais, e o fato de você estar aqui agora mostra que
cada um deles sobreviveu. Cada um deles agia da maneira certa.
Cada um deles transmitiu um pouco de força, de velocidade e de
engenhosidade para a geração seguinte.
O corpo e a mente são instrumentos de precisão criados para
viver em harmonia com a natureza que nos rodeia. Somos feitos,
literalmente, para crescer nos bons tempos, quando ficamos alerta,
corremos, nos curamos, amamos e sobrevivemos. Tudo isso exige
que o corpo e a mente estejam fortes, ativos e inteiramente
sincronizados.
No outro lado da equação biológica, contudo, devemos permitir
que a decadência ocorra quando necessário porque cada grama da
estrutura corporal exige energia para se manter. Cada fibra
muscular, cada lasca de osso e de cartilagem, cada conexão
cerebral, cada célula da pele e até cada pensamento consome sua
parcela de combustível. Todos esses elementos têm que contribuir
para a sobrevivência e a reprodução. Caso contrário, nos tempos
ruins, nos períodos de estresse e nas épocas de seca, fome e
inverno, estamos preparados para fechar as portas, hibernar, bater
em retirada, isto é, partir para a atrofia e o declínio

Pág
o mais rápido possível. Do ponto de vista das espécies, passados
os anos reservados à gestação e ao cuidado com as crias, essa é
uma boa maneira de envelhecer. Viver desse modo requer menos
quantidade de comida e, evidentemente, a morte chega mais cedo,
fazendo com que sobrem mais alimentos para a nova geração.
Esse é o código darwiniano relativo ao envelhecimento. Foi assim
que a natureza “projetou” o corpo e é por isso que a decadência se
torna um pouco mais intensa a cada ano. É o chamado ciclo da
vida. Isso lhe parece bom, já que você está prestes a entrar nessa
fase?
Talvez não. Do ponto de vista individual, ou seja, do ponto de vista
de cada um de nós, existem problemas. Por outro lado, esse é um
modo apavorante de viver e, por outro, faz sentido. Estamos numa
época em que podemos controlar a temperatura da nossa casa, e
não mais na idade do gelo. Hoje a maioria de nós tem à disposição
comida suficiente, e não de menos. Então, se o frio e a fome
paralisantes não existem mais, por que o corpo não se ajusta a
essas novas condições e descarta a semi-hibernação defensiva?
Acontece que foi há pouco mais de 100 anos que nos livramos
desses dois grandes motivos de tensão – sem dúvida, um tremendo
acontecimento no que se refere ao desenvolvimento humano, mas
algo insignificante em termos de tempo na evolução da nossa
espécie. Nossos mecanismos fisiológicos não se adaptaram de
forma nenhuma ao mundo moderno da aposentadoria nem vão se
adaptar. Na verdade, eles não apresentam a mínima mudança em
relação aos sistemas que foram criados há milhões de anos para
funcionar num mundo hostil, cheio de perigos, e onde nunca havia
alimentos na quantidade necessária. As alterações evolutivas são
possíveis, no entanto, somente em milhões de anos. Por isso,
talvez você prefira pensar em outras saídas. Pode ser que queira
enfrentar desde já seu velho corpo darwiniano e saber que recursos
estão ao seu alcance para forçar algum tipo de adaptação enquanto
ainda está em condições de fazer isso. Lembre-se: sem sua
interferência, seu corpo continuará a interpretar mal os sinais da
vida moderna. Ele colocará em ação o esquema “padrão de
decadência” e começará a se deteriorar, a morrer. Para entender
por que isso acontece, você precisa conhecer os bons e os maus
tempos na natureza e aquilo que nossos ancestrais faziam para se
ajustar a eles, utilizando os mecanismos e sinais que ainda
trazemos conosco.

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Primavera na savana

Comecemos pelos sinais do crescimento, da juventude. É


primavera na savana africana: época da fartura no lugar em que
crescemos. As chuvas chegaram, a grama está viçosa e a água
abundante nos buracos que servem de reservatórios. Os
predadores são relativamente poucos e não representam grande
perigo. Exigem atenção e respeito, mas não despertam ansiedade.
Embora a quantidade de presas seja abundante nesse ambiente, os
antílopes, as amoras e as nozes estão dispersos numa área
extensa. Assim, a coleta de alimentos e a caçada requerem
caminhadas de horas todos os dias. Esse exercício – o trabalho
físico de coletar alimentos e de caçar nessa estação – sempre foi o
sinal singular mais poderoso emitido por nós de que a vida está
boa, de que é primavera e está na hora de viver e crescer.
Em resposta aos sinais químicos enviados pelos exercícios
realizados, o corpo torna-se esguio, poderoso e eficiente. O
acúmulo de gordura passa a ser supérfluo, uma vez que o
suprimento de energia é satisfatório e constante. O corpo mantém
apenas uma modesta reserva de gordura para utilizar nos tempos
de escassez – mais do que isso seria perigoso, pois movimentar-se
com excesso de peso consome mais energia e retarda o poder de
reação. A resistência dos ossos e das articulações aumenta para
agüentar o impacto repetitivo da carga durante a viagem. As
funções cardíaca e circulatória intensificam o fornecimento de
sangue e oxigênio para os músculos. Os próprios músculos ficam
mais fortes, mais alongados e coordenados. A função imunológica
se amplia para proteger o corpo dos desgastes – entorses, cortes,
ferimentos e pequenas infecções – que fazem parte da vida ativa ao
ar livre. O cérebro também se modifica. À medida que recebe esses
contínuos sinais fisiológicos do corpo, ele desenvolve a química do
otimismo: o estado de espírito ideal para caçar.
Esguio, bem-condicionado, feliz, otimista e cheio de energia, força
e vigor: foi assim que a natureza o “projetou” para viver no ambiente
ideal – o modo como o preparou para desfrutar a primavera. Essa é
a chamada vida boa, e ela está aí esperando por você. Uma vida
que se caracteriza por músculos fortes e tonificados, um coração
saudável, um corpo delgado, ossos resistentes, um bom sistema
imunológico, uma atividade sexual intensa e uma mente atenta,
inquiridora, positiva, voltada para o trabalho em grupo e para a
construção de relacionamentos sociais sólidos.

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Este livro lhe mostrará como alcançar esse patamar. Antes,
porém, eu o convido a dar uma olhada no lado ruim da história, na
maneira como vivemos hoje. Pense no estilo de vida moderno com
seus elementos característicos: comida prejudicial, muitas horas
diante da televisão, longos deslocamentos para chegar ao local de
trabalho, estresse profissional e conjugal, noites maldormidas, luz
artificial, excesso de barulho e, talvez o pior de tudo, falta de
exercícios físicos. E há também a aposentadoria, uma situação
em que o estresse gerado pelo trabalho e o tempo gasto nos
transportes urbanos costuma dar lugar ao tédio e à solidão.
Primavera na savana? Dificilmente. Na natureza, esse estilo de vida
emite sinais de perigo de morte, e o corpo e o cérebro reagem
efetuando mudanças extremas.
Há um paradoxo que precisa ser obrigatoriamente entendido: o
excesso de calorias e a falta de exercícios são uma indicação para
o corpo de que existe uma expectativa de fome à qual poderemos
não sobreviver. Em resposta a esse perigo, o corpo e o cérebro
entram num tipo de depressão de baixa intensidade. Por ironia, a
depressão é normal na natureza. É uma estratégia extrema de
sobrevivência. Peço a você que agora pense na natureza tal como
ela é – não nos maravilhosos crepúsculos e nos passarinhos
cantando no jardim, mas nos campos de matança. Um cenário onde
50% dos filhotes de antílopes são devorados por coiotes nas duas
primeiras semanas de vida, onde matar ou morrer não é uma
probabilidade remota, e sim um acontecimento diário. Nessa
natureza não existe margem para erro, por menor que seja. Ajustar-
se aos bons tempos é fácil. Adaptar-se aos maus tempos – à seca,
ao inverno e ao perigo – é uma questão crítica. Animais mortos não
se reproduzem.
Então, o inverno chega à tundra. A maior parte da pouca comida
que o corpo conseguiu estocar como energia é queimada com o
tremor causado pelo frio apenas para mantê-lo vivo. Tem início a
longa fome de inverno. No transcorrer daqueles meses, o corpo
definha até ficar pele e osso. A gordura “armazenada” vai
desaparecendo no combate ao frio e à fome. A vida está presa a
uma lenta corrida contra a morte, à espera da primavera.
O que temos dificuldade de entender hoje é que essas imagens
que acabei de descrever foram uma parte normal da experiência
humana e que o mecanismo de usar a depressão como defesa
extrema está entranhado em nós até os ossos. Nossa espécie o
utilizou em todos os invernos e períodos de seca e fome. Entrar em
depressão nos permitiu sobreviver. Não estou me referindo
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à depressão clínica, que é tratada com remédios, mas à depressão
para a sobrevivência: aquela em que desaceleramos o
metabolismo, criamos reservas de gordura, batemos em retirada,
nos voltamos para dentro de nós mesmos, hibernamos e reduzimos
tudo ao mínimo. O momento em que nos fechamos inteiramente,
deixando que todos os sistemas, com exceção daqueles que são
essenciais, declinem e se atrofiem.
Na realidade, o estresse crônico – tanto o físico quanto o mental –
funciona dessa maneira. Ele adverte o corpo de que o ambiente
mudou para pior e que estamos diante de um longo desafio à
sobrevivência. A depressão de baixa intensidade combinada com a
decadência física é o estado de saúde preferido do corpo para
enfrentar uma situação desse tipo. A questão é que os sinais desse
estado de saúde são mais ou menos iguais aos que caracterizam o
estilo de vida adotado na aposentadoria: sedentarismo, ausência de
contatos sociais e ingestão de tudo que está à mão. Essas são as
indicações primárias da fome ou do inverno, e o corpo manifestará
uma reação. E ele responderá a esse comportamento com a
certeza inabalável adquirida ao longo de bilhões de anos de
sobrevivência.
O sinal mais importante da decadência é o sedentarismo. O
corpo está atento àquilo que fazemos, ao nosso comportamento
físico, todos os dias, como se fosse uma ave de rapina. Na
natureza, nada justifica o sedentarismo, exceto a falta de comida.
Vale lembrar que nossa espécie se desenvolveu na África. Embora
houvesse muita caça naquele ambiente, a comida apodrecia em
poucas horas. Não havia geladeira, lojas de conveniência nem
pipoca para microondas. Nossos ancestrais precisavam se levantar
e caçar durante horas diariamente. O único motivo que impedia
essa busca por alimento era a inanição. Assim, não importa quanto
comemos: é essa a informação que estamos dando ao corpo cada
dia que passamos sem nos exercitar. E nessas ocasiões lhe
dizemos que está na hora de envelhecer. De apodrecer. De entrar
em depressão pela sobrevivência – de reduzir a energia, de ficar
apático. É o momento de armazenar cada grama excedente de
comida como gordura, de baixar a atividade do sistema imunológico
e de deixar que a musculatura e as articulações se enfraqueçam. É
hora de encontrar uma gruta, encolher-se num canto e começar a
tremer.
E tudo isso começa de repente, porque os sinais de decadência
são enviados sem parar, não importa o que façamos. Essa é a maré
mencionada por
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Chris. Os tecidos do corpo e os circuitos neurológicos estão sempre
tentando se deteriorar. Os músculos, os ossos e o cérebro
procuram continuamente se derreter tal qual um sorvete ao sol. Se
não conseguimos enviar nenhuma indicação de crescimento, os
sinais da decadência vencerão. A boa notícia é que esses sinais,
embora constantes, são fracos, enquanto até uma modesta
indicação de crescimento – um exercício razoável, uma boa
caminhada – ajuda a reverter a situação. Portanto, a questão é a
seguinte: você precisa fazer uma atividade física todos os dias para
dizer ao seu corpo que é “primavera”. Essa é a chave desse livro.
Não é complicado, mas você terá que se exercitar com grande
freqüência.
Tenha em mente que decadência e envelhecimento biológico não
são a mesma coisa. A decadência manifesta-se num conjunto de
males causados pelo nosso atual estilo de vida sedentário. Ela se
desenvolve quando entramos numa lanchonete para engolir
rapidamente uma comida gordurosa e todas as vezes que abrimos
mão de nos exercitar e ficamos em casa sozinhos. Começa quando
desistimos de viver e assumir compromissos. Contudo, ela pode ser
interrompida ou desacelerada significativamente com a utilização
dos mecanismos darwinianos de que falei. O envelhecimento é um
efeito da natureza, enquanto a decadência é algo que podemos
controlar.

A química cerebral do crescimento

Digamos que você tenha resolvido escolher o estado de saúde


típico da “primavera”. O que fará para que seu corpo entenda que
você tomou essa decisão? Com a prática de exercícios, uma prática
dessa mensagem é automaticamente compreendida pelos
músculos e por outros tecidos. Porém, há um componente crucial
que é controlado pelo cérebro. Não pelo cérebro racional, mas pelo
cérebro físico – aqueles que recebemos como herança de milhões
de anos.
O cérebro é cego, surdo e mudo. Literalmente. Com exceção do
olfato, ele não tem nenhuma conexão direta com o mundo. Dentro
do crânio é sempre escuro, úmido e um pouco salgado, e a
temperatura é de 37 gráus. O cérebro físico sabe apenas aquilo que
lhe dizemos pela maneira como levamos a vida. Ele e o corpo
evoluíram num mundo hostil, onde não havia segundas chances, e
seus mecanismos são tão básicos quanto a órbita da Terra ao redor
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do Sol. Até à data da nossa morte, eles vão continuar acreditando,
com certeza absoluta, que ainda moramos naquele antigo ambiente
natural. É por isso que nosso modo de viver cada dia determina
nosso estado de saúde, bom ou mau, quer queiramos, quer não. A
saúde é a adaptação perfeita que o cérebro físico faz do nosso
corpo ao mundo em que ele “pensa” que estamos. Isso não tem a
ver com a doença, que é outra história. Ninguém opta por viver
doente. Quando isso acontece, é pura falta de sorte, embora muitas
vezes decorra da má condição da saúde. porém, somos nós que
escolhemos nosso estado de saúde. E podemos ver isso como
obrigação ou privilégio, presente ou maldição, não entanto não
temos como ignorar essa questão nem fugir dela. Caso você
entenda as regras, essas são boas notícias, pois não é muito difícil
assumir o controle.
Seu primeiro passo nesse sentido deve ser compreender como
todo o sistema foi projetado, o que nos leva ao início dos tempos.
Os primeiros sinais de vida apareceram há 3,5 bilhões de anos,
com nossos ancestrais diretos – algas, fungos e depois bactérias.
Essa linhagem não é humilhante, mas digna de admiração – e
devemos ser gratos por ela. Prestaríamos a nós mesmos um
grande desfavor se pensássemos que podemos nos divorciar da
evolução das espécies. Nossa árvore genealógica data de 3,5
bilhões de anos, e cada segundo desse tempo foi dedicado a
aperfeiçoar o corpo e o cérebro que herdamos.

A era da informação

Cerca de metade do nosso sistema metabólico básico origina-se


diretamente das bactérias, sem modificações, e opera de forma
perfeita há milênios. Esses ancestrais unicelulares, junto com os
fungos e as algas, viveram numa constante briga de rua em que
cada célula lutava por si própria, sozinha. Todos os organismos
avançados, do verme ao ser humano, têm células múltiplas
organizadas que trabalham em conjunto. O todo é maior do que as
partes pela mesma razão que, muitas vezes, as organizações são
mais bem-sucedidas do que os indivíduos: a comunicação.
Os organismos simples comunicam-se deixando vazar substâncias
químicas diretamente entre as células. Em geral, quanto mais
células existem no corpo, mais informações são necessárias para
que todas elas funcionem. Assim, como evoluímos para corpos
maiores, com tecidos mais sofisticados,
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desenvolvemos sistemas nervosos primitivos com sinais químicos
transportados pelo sangue que chamamos de hormônios. Com a
continuidade da evolução, nossos sistemas neurológicos e
hormonal progrediram em termos de complexidade e de capacidade
de adaptação, o que nos permitiu explorar um universo cada vez
maior de possibilidades biológicas.
Hoje somos inundados por informações. Possuímos bilhões de
células, e cada uma delas emite de forma contínua para suas
vizinhas sinais de mensagens químicas altamente diversificadas.
Cada pequeno pedaço de tecido apresenta uma riquíssima rede de
conexões nervosas e de receptores hormonais, e milhões de seus
sinais viajam sem parar pelo corpo.
Disparamos trilhões de sinais internos durante todo o dia,
diariamente, do momento da nossa concepção até a morte.
Conversamos com o corpo numa corrente ininterrupta de diálogos,
dia e noite, ano após ano. Jamais ficamos calados – na verdade,
não conseguimos nos manter em silêncio. E todos os nossos
tecidos e cada pequena parte do nosso corpo e do nosso cérebro
escutam o que estamos dizendo. Permanecem à espera de cada
palavra, obedecendo a todos os nossos comandos, mas não falam
nosso idioma. Eles lêem a linguagem do corpo. E você estremecerá
quando souber o que está lhes dizendo.

( ... vai até à página 223)

Livro:

“Fique Mais Jovem a Cada Ano” – Chegue aos 80 anos com


saúde, o vigor e a forma física de um cinqüentão. Chris Crowley e
Henry S. Lodge, M.D. – Atraze seu relógio biológico – Editora
Sextante, 2007.

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