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HÁ UMA VERDADE POR TRÁS DAS DIETAS?

08-03-2003

Dr. José Carlos Brasil Peixoto,


Médico Homeopata

Embora uma revista semanal tenha feita uma longa matéria


dedicando-se a mostrar que aquilo que todo mundo acredita é,
realmente, a verdade sobre as dietas, apesar de novas informações
– por sinal, de boa procedência - em contrário, parece mais
razoável admitir que a colocação do artigo definido no singular para
“as dietas” é uma mutilação cognitiva. Se há uma verdade sobre as
dietas, a única possível de ser dita sem temor de errar, é que são
todas fraudulentas.

A fraude começa pelo fato de que o início de uma dieta é


geralmente feito a partir de uma premissa do tipo: “estou acima do
meu peso, logo preciso comer menos!” É uma fraude colocar na
alimentação a causa do aumento de peso ou do eventual
surgimento de enfermidades. Ë como culpar o petróleo pela
poluição ou os automóveis pelos engarrafamentos. É no mínimo um
sofisma, um encurtamento do entendimento das perspectivas
dessas situações.

Não são feitas perguntas realmente mais apropriadas como:


“porque estou comendo mais do que preciso?”, ou “estarei gastando
minhas energias de forma saudável?” A obesidade, ou a diabetes,
ou a hipertensão e outras doenças do coração, ou tantas outras,
podem ser pioradas pela alimentação, ou podem ter muito pouco a
ver com o que comemos, pois geralmente têm suas origens em
processos humanos mais sutis, mais desafiadores para os olhos
mecânicos da medicina moderna.

Tais processos envolvem vários aspectos do sofrimento humano, do


seu afastamento de tradições milenares, da submissão a um estilo
de vida ocidental compulsório, da negligência com cuidados
afetivos, espirituais e de uma relação de dominação com os
recursos ambientais, o que, na soma, acaba gerando alterações
metabólicas e endócrinas, típicas da dificuldade adaptativa do “axis
do estresse (1)” dentro do organismo animal dos seres humanos.
As dietas e uma escolha
Do ponto de vista antropológico, podemos entender a necessidade
de se iniciar uma dieta como um dos mais malignos sintomas de
nossa perversa relação como meio ambiente. Só faz dieta quem
pode escolher. Em populações originais, que mantém uma relação
melhor com o meio ambiente, há pouco o que escolher. E isso não
significa qualquer prejuízo na qualidade alimentar ou nas
conseqüências sobre a saúde.

Talvez fosse melhor até dizer: não há porque escolher! Sim, uma
população que mantém uma relação de equilíbrio como seu meio
ambiente, come o que ele lhe permite comer! Os povos coletor-
caçadores são o melhor exemplo disso. É altamente improvável que
um índio amazônico, ou um inuit da Groenlândia, ao tomar nas
mãos um alimento, fique a se perguntar coisas tolas dos povos
civilizados como: “Será que aqui tem boa quantidade de zinco?”
“Será que vai faltar selênio na minha dieta?” “Será que faltam anti-
oxidantes na minha alimentação?”

Povos altamente integrados com a natureza, capazes de suportar


as mais extremas condições de vida fazem poucas perguntas sobre
tais temas, pois levam consigo uma experiência com seus alimentos
que atravessou gerações. Para o povo das cidades, civilizados, o
passado foi apagado pela precisão do marketing sobre a
inteligência, ou ingenuidade coletiva: os alimentos agora são
medicamentos, portanto precisam de absoluto cuidado no que
escolher.

Alimentos tremendamente alterados, travestidos pela indústria


alimentar, são alternativas seguras, abalizadas pelos profissionais,
que essa mesma sociedade de consumo formou, com a generosa
certeza: nossos formandos universitários jamais vão trair a ciência
do consumo, como fizeram tristes cientistas “traidores” do passado,
como Copérnico e Galileu, que deixaram a sociedade, e o poder de
seu tempo, fragilizado com suas ousadias subversivas.

Hoje em dia, a mesmisse do pensamento de médicos, nutricionistas


e da mídia em geral é mais eficiente no sentido de evitar que
pensamentos ousados demais possam trazer prejuízo para as
indústrias de alimentos e medicamentos.
Dieta surpreendente, entendimentos convencionais

Às vezes, as forças convencionais são tão abnegadas em defender


um credo científico, que buscam respostas esdrúxulas para
equacionar situações inesperadas, mas que podem falhar.

Nos anos 60 um pesquisador, George Mann, da Universidade de


Vanderbilt (Nashville) montou um laboratório móvel no Quênia, para
investigar o povo africano das tribos Masai. A idéia original era
provar a idéia de que alimentos ricos em gordura, de origem animal,
originavam problemas de colesterol, obesidade e doença do
coração, fábula que a maioria das pessoas (incluindo profissionais
da saúde) acredita piamente nos dias de hoje. Essas tribos
alimentam-se exclusivamente de carne, sangue e leite.

Particularmente, o homem masai chega a ingerir meio galão (cerca


de 2 litros) de leite, equivalendo a cerca de 230 gramas de nata, por
dia! (Outra tribo Queniana, os Sumbarus ingerem o dobro). Além de
ingerir quase 2 kg de carne ao dia. Nos dias de festas passam de
4,5 kg num dia! Os pastores quenianos criam um tipo de gado
particularmente generoso na oferta de lipídios. A equipe de
pesquisa estava eufórica em documentar com exames aquilo que
lhes parecia óbvio: muitos indicadores de má saúde - alto colesterol,
cardiopatia e obesidade.

Infelizmente, para a surpresa dos americanos, as taxas de


colesterol da população pesquisada eram muito baixas! Quase 50%
da média americana. Esses quenianos têm boa saúde cardíaca, e
não têm excesso de peso. Não podemos esquecer que os
quenianos têm os melhores atletas de corridas do mundo. Um outro
pesquisador americano, dr. Bruce Taylor (Chicago) tentou explicar
isso afirmando que esse povo estava muito bem adaptado à sua
dieta.

A genética, sempre parceira das boas explicações, na falta de


outras melhores, deveria ser a causa desse fenômeno. Logo, essas
boas taxas de colesterol melhorariam, ainda mais, em um local com
menos oferta de gordura alimentar. Mas os descendentes desses
povos que habitam a capital, Nairoibi, traíram de novo os cientistas:
num local mais civilizado e estressante as taxas eram piores que
dos habitantes campesinos, onde as tradições milenares
permaneciam mais intactas. A genética não foi a esperada boa
parceira, aliás, raramente é.
A história da indústria das dietas

Do rei obeso ao diabetes

Há relatos antigos a respeito de dietas. Em 1087 é relatada a


indignação de William, o conquistador, (que foi rei da Inglaterra,
após a batalha de Hastings), com o fato de não poder montar
cavalos pelo seu peso excessivo. Sua estratégia foi ingerir líquidos,
na verdade etílicos, para perder peso. Deve ter tido algum
resultado, visto que morreu num acidente de montaria.

Mas, sem dúvida, a dieta se transformou em algo popular no século


XX. Três situações foram, majoritariamente, as popularizadoras das
dietas: um melhor entendimento do diabetes, as pesquisas
populacionais, como a de Framingham, e a moda.

Antes de qualquer coisa, não podemos esquecer que a palavra


dieta diz respeito a um hábito alimentar. Do ponto de visto coloquial,
a palavra ficou associada a uma prescrição médica. Uma dieta visa
artificializar a postura de um indivíduo aos alimentos que costuma
consumir: dieta hipo-calórica (com baixa caloria), dieta hipo-
natrêmica (pouco sal), dieta hiper-calórica (quase um paradoxo para
o comum das pessoas, mas há quem precise ganhar peso), dieta
hipo-protêica (pouca proteína) etc. Ou seja: a expressão “dieta”
ganhou um status de receituário terapêutico - mude a alimentação
em função de alguma preocupação com a saúde, embora muitas
vezes essa alteração seja fruto de futilidades estéticas ou
proibições filosófico-religiosas, o que pode, ao invés de gerar
saúde, gerar mais enfermidade.

Infelizmente isso começou a colocar nas pessoas idéias errôneas


sobre as causas das doenças. Desafortunadamente há gente que
culpe as proteínas pelo surgimento da “gota” (doença artrítica) ou o
sal pela hipertensão arterial sistêmica. São doenças de sofisticadas
causas metabólicas, mas dificilmente originadas pela alimentação!

A diabetes é uma doença interessante. Parece ser conhecida desde


tempos pré-cristãos. Mas foi em função da guerra franco prussiana,
por volta de 1870, que ficou associada pela primeira vez que uma
dieta poderia beneficiar pacientes com diabetes. O médico francês,
dr. Bouchardat, percebeu o desaparecimento da urina doce
(glicosúria) nas pessoas diabéticas que se submeteram ao
racionamento alimentar de Paris durante o período de guerra.

Somente em 1940 que essa doença foi relacionada a uma série de


problemas crônicos de saúde (doenças renais e problemas
oculares). A insulina foi descoberta em 1921, e isso rendeu um
prêmio Nobel aos seus pesquisadores em 1923. Mas somente há
pouco tempo a diabetes mais comum, tipo II, do adulto, grave
problema de saúde pública em países como os Estados Unidos,
ficou mais bem compreendida.

Esse tipo de enfermidade não é causado pela falta de insulina, mas


por uma falta de resposta das células à esse hormônio. Essa
situação é denominada de “resistência à insulina”. Tal fato ocorre
pelo excesso de exposição celular à insulina, tendo em vista uma
continua entrada de carboidratos de baixa qualidade pela
alimentação.

Isso tem a ver com alterações estimuladas por órgão oficiais de


saúde que criaram a clássica pirâmide alimentar, onde se sugere
que a base nutricional das pessoas deva ser constituída por
produtos derivados de cereais, farináceos, massas etc.

Associado à transição para o emprego de lipídeos de origem


vegetal, de performance daninha ao organismo, combinado com
alimentos processados substitutos de toda a sorte, temos os
ingredientes comestíveis do diabetes, todos fornecidos pela
indústria alimentar. (Alimentos “in natura” dificilmente fazem parte
dessa problemática). Os outros ingredientes são o estresse, a vida
sedentária, a obesidade, a falta de sono, e o sofrimento em geral
das populações urbanas.

Os estudos populacionais e as estatísticas que interessam

Vista por muitos como a pedra preciosa das políticas de intervenção


na alimentação das pessoas, as pesquisas populacionais, que
incluem a investigação de hábitos alimentares e enfermidades,
ganharam notoriedade com a famosa Pesquisa dos Setes Países, a
pesquisa com os habitantes de Framingham, (Massachussets) e o
MRFIT, entre outras.

Um dos idealizadores foi o dr. Ancel Keys, pai do sofisma do


colesterol. Ele publicou em 1953 um gráfico que relacionava seis
países em dois quesitos: percentual de calorias provenientes de
gordura e doença cardíaca (mortes por doença coronariana). Esse
estudo foi publicado um ano mais tarde no jornal inglês “The lancet”
e ganhou notoriedade mundial. Como normalmente as bases de
dados não são revisadas pelas pessoas que se impressionam com
os números das estatísticas, é importante que sejam feitas algumas
“insolentes” perguntas a respeito desse trabalho.

Um dos aspectos mais intrigantes do gráfico apresentado pelo dr.


Keys, é o seu próprio desenho. Trata-se de uma reta, quase
perfeita, que se continuada em direção à intersecção dos eixos “x” e
“y” poderia levar um ingênuo leitor a um impressionante resultado:
quem consome zero quantia de gordura tem zero chance de ter
doença cardíaca. A bem da verdade, nem o mais crédulo dos
“dietocratas” conseguiria acreditar nessa burla. Retas gráficas
desse tipo são próprias das ciências exatas, mas improváveis em
estudos biológicos.

Um aspecto pouco lisonjeiro do âmago dessa pesquisa diz respeito


aos elementos que configuram o estudo. O mais inquietante é
saber que, na época da tabulação dos dados, o dr Keys poderia ter
usado, com a mesma fidedignidade pelo menos 22 países. Para
entendermos melhor, a pesquisa envolve as seguintes nações:
EUA, Austrália, Japão, Itália, Canadá e Grã-Bretanha.

Mas se colocados nesse mesmo gráfico, mais os 16 países em que


tais dados estavam bem documentados - Finlândia, França, Áustria,
Grécia, Ceilão, México, Chile, Dinamarca, Portugal, Suíça, Nova
Zelândia, Holanda, Alemanha Ocidental, Irlanda, Israel e Suécia - a
figura perderia seu principal significado, porque num mesmo gráfico,
a reta se dissolve! Desaparece a relação direta entre o consumo de
gordura e a doença do coração, e resultados antipáticos
resplandecem na singela verdade que a mãe natureza oferece: não
parece haver relação direta entre gordura ingerida e doença
coronária, e para a tristeza dos partidários da “dieta cardíaca”: há
países em que se consome mais gordura e se tem menos doença
do coração.

Nada pior que a frieza dos fatos para desalentar tão “honestos
cientistas”. É bem verdade que a pesquisa tem outras graves
fragilidades. A qualidade de informação das causas de mortes por
atestados de óbitos e a exatidão do item “calorias provenientes de
gorduras” poderiam ser bastante questionados.
Assim, a primeira incriminação do consumo de gordura na geração
de cardiopatias, envolve tantos erros de premissas que não pode
ter sua validade celebrada nos dias de hoje, passados mais de meio
século de sua publicação. Não é possível que médicos cuidadosos
exaltem suas qualidades. Mas podemos ressaltar uma triste
conseqüência, o terrível empobrecimento da compreensão das
doenças cardíacas, e o surgimento de uma faixa por demais estreita
da ação terapêutica sobre esse tipo de enfermidade. Fato que não
trouxe qualquer prejuízo para as indústrias alimentar, das dietas e
farmacêutica.

O dr Keys quis refinar suas impressões e chefia o chamado “Estudo


dos Sete Países”. Nessa pesquisa dezesseis populações locais da
Holanda, Iugoslávia, EUA, Finlândia, Grécia, Itália e Japão foram
submetidas à investigação de todo e qualquer fator que pudesse
demonstrar relação com doenças do coração. Dessa vez houve
uma incriminação, não mais do total de gorduras ingeridas, mas
somente das gorduras de origem animal.

Entretanto, dentro de um mesmo país, houve grandes discrepâncias


entre as localidades comparadas, ou seja, em uma única nação não
se consegue fazer uma relação direta entre o tipo de dieta e as
taxas de mortalidade cardíaca. Ao se divulgar os resultados, se os
valores estatísticos dessem suporte à idéia que se procurava
provar, tais resultados foram efetivamente divulgados e celebrados.

Se os resultados não fossem úteis para provar o que a pesquisa


precisava demonstrar eles são omitidos ou sumarizados como
“achados anormais”, irrelevantes ou que poderão ser explicados no
futuro (ou nunca mais!)

Outras pesquisas populacionais como a de Framingham ou a


pesquisa MRFIT utilizam essa tradicional estratégia estatística da
publicação de números que exaltam o que quer ser provado e
escondem os números que não precisam ser conhecidos.
No primeiro caso, a divulgação dos dados, após trinta anos de
acompanhamento, expõe as taxas de mortalidade em geral e as
taxas de colesterol. Por incrível que pareça, nesse estudo não é
sublinhado as reais taxas de mortalidade por enfermidade cardíaca!
E ainda mais interessante: em mortes após os 47 anos não faz
diferença a taxa de colesterol. Pessoas com colesterol alto ou baixo
morrem em iguais proporções. Outro aspecto importante, esse
estudo é somente com homens.
(Obs.: sobre a pesquisa MRFIT veja o artigo “A mágica das
estatísticas” nesse mesmo site.)

Com a aparente inutilidade, ou até mesmo pela temeridade que


representa, o emprego de medicamentos que reduzem taxas de
colesterol – como as idolatradas estatinas (2) – é mais um dos
apelos da mídia terapêutica que carecem de compassividade
genuína e respeito pelo ser humano. Num simpósio de 2000 foi
declarado que possivelmente a metade da população americana
deverá utilizar medicamentos que reduzam as taxas de colesterol.

Pior que os riscos que isso possa trazer, visto que as estatinas
podem estar ligadas ao derrame cerebral, aumento do risco de
suicídio, comportamento violento, e outros prejuízos ao sistema
nervoso central, e vários outros efeitos nocivos à saúde, ainda pior
que isso, é o fato de que a própria preocupação em reduzir as taxas
de colesterol parece ser absolutamente desnecessária e
potencialmente iatrogênica (enfermidades originadas por uma ação
terapêutica).

A dieta e a moda

Apesar de parecer algo absolutamente natural, plenamente


razoável, as dietas para emagrecer foram se popularizando nos
EUA a partir dos anos 1950. Um fator fundamental para isso foi a
mudança nos padrões de estética que foram se consolidando a
partir dessa época. Nos anos e séculos anteriores a magreza
estava longe de ser um sinal de boa saúde, beleza ou prosperidade.
Se houvesse dieta recomendada por médicos, estas teriam o
objetivo de ganhar peso, nunca de perder!

Nos anos 1920 surge a moda “flapper” – na realidade um estilo de


vida, que expõe moças com saias mais curtas, novos cortes de
cabelo e com novas maquiagens, elas ouvem jazz e abandonam
condutas tidas como corretas – o que introduz modelos femininas
mais magras como uma nova estética de vigor e jovialidade. Já nos
60 surge a modelo Twiggy, magra, ombros quadrados, pequeno
busto e silhueta extremamente esguia. Esse modelo se repetirá
anos mais tarde com outras modelos como Kate Moss.
Para alcançar pesos tão encolhidos as mulheres fariam de tudo, até
mesmo ingerirem vermes como a tênia solitária! Na medida em que
as mulheres eram liberadas de seus empregos voltados para a
segunda guerra mundial dos anos 50, a mídia de massa coloca seu
foco num emergente mercado de profícuo futuro: a moda da
magreza. Isso gerou milhares de publicações que se proporiam a
oferecer estratégias de perda de peso. Em 2002 o catálogo literário
listava 1412 títulos sobre dietas e 483 títulos sobre distúrbios
alimentares.

O foco original nada tinha a ver com a saúde. A obsessão levaria à


introdução de psicotrópicos, como as anfetaminas, como receituário
banalizado. A sociedade em seguida vê a disseminação de
enfermidades do tipo bulemia e anorexia nervosa acometendo
principalmente adolescentes. Em 1990 a indústria da perda de peso
envolve cifras astronômicas como 50 bilhões de dólares.

Em janeiro de 1960 surgem os primeiros grupos de auto-ajuda, tipo


“alcoólicos anônimos”, os “Vigilantes do Peso”, para que pessoas
ofereçam-se suporte mútuo para o controle de peso (Califórnia).
Embora não existam dúvidas de que o sobrepeso é um aspecto
extremamente comprometedor da saúde, é a estética o mais
eficiente estímulo ao consumo de dietas. Com essa finalidade, um
estado saudável acaba não sendo o resultado prático das mesmas.

A obesidade e um novo personagem

A fisiopatologia da obesidade é um dos maiores desafios da


atualidade. Como todo o seu processo não está bem compreendido
é muito árduo se estabelecer as mais eficientes formas de controle.
Provavelmente qualquer estratégia passa pelo que convencionamos
chamar de reeducação alimentar. Mas ela não um alvo fácil de ser
mantido pela maioria das pessoas. Seja pela aparente lentidão de
seus resultados, seja porque ela pode deixar o paciente exposto ao
seu universo de dramas psicológicos sem boas alternativas, ou
porque essa reeducação alimentar não funciona sozinha, sem
outras “reeducações”.

Um dos possíveis objetivos de uma boa terapêutica não poderá se


furtar de buscar a restauração do bom funcionamento de um
hormônio conhecido há pouco tempo. Na opinião de estudiosos de
vanguarda, como R. Rosadale, a obesidade passa por uma
situação similar à resistência à insulina do diabete do adulto. A
leptina é um hormônio produzido pelo tecido adiposo. Foi
descoberto em 1994 por Jeffrey Friedmann quando estudava
modelos de obesidade em ratos.

Sua liberação trabalha em locais específicos do cérebro e participa


de forma primordial na sensação de saciedade bioquímica, que é a
mais eficiente no controle do apetite. No entanto não é por falta de
leptina que ficamos obesos. A leptina já foi tentada como
terapêutica para a obesidade, mas não houve grande resposta.
Simplesmente porque não há falta desse hormônio. O problema
está na aparente resistência dos órgãos alvos em responder de
forma apropriada a ele. A resistência à leptina pode ter como
principal causa o excesso de ingestão de açúcares e carboidratos
na alimentação cotidiana. A base da tradicional pirâmide alimentar
(pães, massas, cereais etc.) pode ser o maior estímulo para a perda
da aptidão fisiológica da leptina, e por conseqüência, para a
obesidade.

Um fato que naturalmente nunca pode ser perdido de vista é que o


aumento impressionante nas taxas de indivíduos, de todas as faixas
etárias, com sobrepeso tem uma relação siamesa com o ufanístico
progresso das sociedades urbanas! Ë bem provável, mesmo não
gostando de admitir, que ambas as situações podem ter intensas
relações de causa e efeito.

As dietas, a salvação ou a loucura total

Uma pesquisa divulgada em outubro de 2005 aponta para números


impressionantes sobre obesidade: nos EUA, cerca de 90% dos
homens e 70% das mulheres terão excesso de peso. Por incrível
que pareça, as reais causas dessa pandemia nunca foram
realmente combatidas.

Até o século XVIII não havia consumo de alimentos processados.


Não havia preocupações específicas com os tipos de alimentos que
deveriam ser evitados ou estimulados para consumo. O escorbuto
da idade média não foi facilmente identificado como uma doença
ligada a carências nutritivas, visto que os marinheiros não adoeciam
da mesma forma e no mesmo tempo sob aparentes idênticas
condições. Marinheiros excepcionais e mais antigos como os
vikings, que usavam chucrute em conserva não conheceram o
drama do escorbuto.
A pelagra, doença causada pela falta de vitamina B foi uma das
primeiras que estabeleceu uma relação entre a qualidade alimentar
e a saúde. A rigor foi o processamento do arroz, que retirava a parte
mais nobre desse alimento que introduziu essa moléstia. A indústria
alimentar já demonstraria sua mais eficiente ação sobre as
pessoas. Mesmo assim, a maioria dos consumidores ingere arroz
polido nos “sabidos” tempos modernos.

As causas da obesidade envolvem fatores bem conhecidos. A falta


de atividade física é promovida pelo estilo de vida dos sítios
urbanos. Não é um mero fato do ocaso. Foi uma opção, foi uma
escolha de vida! As pessoas saem do meio rural marginalizado pela
mídia do conforto extremo e infinito! No fundo se propõe uma
situação meio absurda! Não faça quaisquer esforços. Use controle
remoto, vidro elétrico, direção hidráulica, elevadores, escadas
rolantes, câmbio automático, tele entregas, carro para qualquer
distância, máquinas para tudo que for necessário ser feito! A mídia
do super-consumo é clara: reserve toda a sua energia para... ficar
sentado vendo TV ou na frente de um computador.

Ao mesmo tempo as pessoas estão constantemente ocupadas com


obrigações burocráticas, financeiras, estratégicas, competitivas,
logísticas, formação intelectual etc. Existe um fenomenal estímulo à
ansiedade, a solidão, ao afastamento humano, ao pouco carinho,
ao medo, à insegurança, à desconfiança, à falta de amor e ao
belicismo em geral. A compensação mais fácil é obtida pela boca.

Além disso há uma profunda mudança nos próprios produtos


alimentares. Passam a ser produtos processados, embalados,
modificados no sabor, textura, cor e odor. A finalidade é uma só:
serem mais atrativos. Os alimentos ganham o status de produto de
consumo, e caem na terrível e única lei de consumo. Bons produtos
vendem bastante, mesmo para consumidores que nem precisariam
comprá-los. Além disso, algumas porções ganham versões
extragrandes.

Os resultados de pesquisas médicas, como as citadas


anteriormente, patrocinam a utilização de substitutos às gorduras
naturais, como a gordura vegetal hidrogenada, as gorduras “trans”,
a produção de alimentos com quantias absurdas de ácidos graxos
perigosos como o ômega-6, e a utilização de óleos vegetais para
feitura de frituras, óleos que se oxidam no calor e inundam o
organismo com radicais livres francamente patogênicos.
Ninguém toma água. A maioria dos adolescentes toma refrigerantes
carbonatados e cheios de açúcar ou adoçantes. As águas são
aditivadas com flúor, mesmo que o consumidor descubra seus
perigos e que desejasse mais não consumir esse mineral.

Mesmo com as taxas sempre crescentes de doenças cardíacas e


do diabetes, continua a substituição de gordura animal e saturada,
por óleos vegetais poliinsaturados. Os olhos das pessoas perderam
definitivamente a capacidade de enxergar a realidade.

O emprego de complementos minerais se tornou popular. Isso é


justificado por argumentos bizarros do tipo: nossos solos perderam
nutrientes. É estranho que se esqueça que se há perda de
nutrientes ela foi promovida pela irresponsável ação da indústria
dos fertilizantes e agro-tóxicos (as mesmas que produzem
medicamentos).

Se for verdade que já existam laranjas sem um miligrama de


vitamina C, a culpa não é da natureza. É do homem e a da
sociedade de consumo.

Fraudando o paladar

O apelo mais ardiloso da mídia sobre dietas é a construção do mito


dos super alimentos. Todos os dias se descobrem novos
maravilhosos predicados nos produtos alimentares, de maneira a
fazer uma fruta, uma raiz, uma folha, um peixe a ganhar um status
especial: o título honorífico de medicamento! A todo o momento
ébrios arautos de pesquisas alimentares assolam nossos ouvidos
com impressionantes relatos a respeito da mágica de bons e velhos
conhecidos de nossas mesas.

Quem sabe um dia compraremos brócolis ou tomates nas farmácias


e com receita! O bom senso é totalmente abandonado. Ao invés de
sermos estimulados a manter uma natural tendência de comer de
tudo um pouco, de acordo com as possibilidades, desejos e
tradições alimentares, somos seqüestrados pela onda da salvação,
ou até da mesma da purificação, pelo uso de alimentos
excepcionais.

Mesmo que esses produtos nada tenham a ver com a natureza


local. Mesmo que esses produtos possam até mesmo aniquilar um
ecossistema, trocando populações de vegetais e
animais nativos por verdadeiras pragas exóticas
além mar!

Outras vezes as pessoas ficam tão extasiadas em


saber que um alimento tem substâncias
potencialmente medicamentosas, que extraem tais substâncias
desses alimentos e as embalam em pequenas pílulas. O furto da
capacidade intelectual coletiva foi muito prodigioso: ninguém dá
valor ao todo, ao integral, ao original.

Obviamente, isso é fundamental para que o consumo de alimentos


transformados e mistificados por inúmeros recursos tecnológicos
passasse a ser visto com absoluta condescendência! É um aliado
importante da sobrepujante e inquestionável postura desconectada
da natureza de nossa sociedade.

O uso de adoçantes é outro aspecto que ressalta o aspecto


fraudulento das dietas. Se comer doçuras pode estar na raiz da
diabete ou no âmago de seu tratamento, porque é necessário
enganar o paladar? Que o indivíduo enfermo não coma doces, ou
os restrinja para dar um ar de festividade (com algumas
sobremesas) quando a enfermidade estiver sob controle. Inúmeros
povos originais ingerem poucas quantias de doces, geralmente
algumas frutas, disponíveis em certas épocas do ano.

Edulcorantes artificiais como o aspartame, o ciclamato e a sacarina,


afora os eventuais riscos que representem para a saúde, são óbvios
demonstrativos da malévola estratégia compensatória que os povos
civilizados tentam impor aos seus cidadãos. “Não se preocupem
com os danos que nossos alimentos artificiais lhes causem! Nós lhe
adoecemos e lhe salvamos com nossos próprios produtos, gerados
pela nossa infinita capacidade de arremedar a natureza e substituir
o mundo real!”

E assim alimentos light e diet, originalmente concebidos para


pessoas que não poderiam consumir açúcares ou calorias, passam
a ser artigos comuns, adquiridos por indivíduos que, certamente,
não precisariam desse tipo de (pseudo) alimento.

Não é a toa que a estratégia de compensações que a medicina


tradicional adotou, a tornou, pelo menos nos EUA, na terceira causa
de mortalidade (se já não for a primeira), atrás somente do câncer e
das cardiopatias.

O FDA, órgão de controle dos alimentos e remédios dos EUA,


endossa o uso de advertências positivas sobre virtudes de produtos
alimentares que possam parecer favoráveis à saúde. Assim
expressões incoerentes ou inverossímeis como “esse produto não
contém colesterol” aplicadas em rótulos de produtos vegetais, são
enxergadas sem qualquer pudor nas prateleiras dos
supermercados.

Um aspecto que também não pode deixar de ser lembrado, é que


existem pesquisas que indicam que os usos de produtos
alimentares, com pouca caloria, parecem não serem realmente
eficazes no objetivo de se perder peso. O comentário: “só vejo
obesos tomando refrigerantes light” pode ser mais do que uma
simples piada... (Não se deve esquecer que, no Brasil, produtos
light são aqueles que têm pelo menos 25% de redução de todos os
componentes calóricos, e produtos diet são aqueles que têm 99%
de redução em um único componente específico, e sempre sem
açúcar)

Afinal, é a comida que gera a doença?

Uma das perguntas que não quer calar é porque, a partir dos anos
50, foi implicada a comida como um dos fatores mais importantes
para as doenças cardíacas e a saúde em geral? Quando são
tabulados inúmeros fatores de risco, a alimentação não parece ser
um fator muito mais responsável pelos ataques cardíacos do que
uma série de outros que faz parte do estilo moderno de vida.

Não podemos esquecer que há inúmeros produtos e serviços que


são inerentes, ofertados ou mantidos, pelo moderno estilo urbano
de viver. Esses fatores não podem ser implicados em enfermidades,
pois isso levantaria dúvidas sobre as virtudes, que não podem ser
questionadas, da sociedade moderna. Sabemos que a tristeza e a
ansiedade geral das pessoas é fundamental gerador da postura de
consumo, e marca imperiosa das populações metropolitanas.

O único fator que pode ser incriminado, e que ao mesmo tempo


pode gerar ainda mais vantagens para a sociedade de consumo é a
alimentação. Para isso funcionar em sintonia com essa sociedade
fascinada por sua capacidade de progredir, mesmo que o progresso
não signifique mais felicidade, nem mesmo mais saúde, apenas
uma longevidade que pode aumentar o tempo de vida dos
consumidores, foi criada uma série de artimanhas, que alocaram
indivíduos de ótima intenção (nutricionistas, terapeutas, naturalistas,
médicos, meditadores etc.) como parceiros ingênuos da
“medicalização” ou a desmoralização dos alimentos tradicionais!

Qual será o futuro?

A perspectiva alimentar parece sombria.

O estudo Women’s Healths Initiative mostrou que mudanças


obedientes à “dietocracia” não revelaram qualquer vantagem na
saúde final das mulheres que se submeteram às restrições
alimentares tradicionais (baixo consumo de gordura animal, uso de
lipídeos de origem vegetal, entre outras orientações convencionais).

Esse estudo é um dos empreendimentos mais sérios, e


relativamente mais autônomo, em relação aos financiamentos
privados. Foi o mesmo estudo que expôs para a opinião pública que
a reposição hormonal tradicional (com hormônios artificiais,
Premarin e Farlutal) como prejudicial à saúde da mulher.

É incrível, que uma vez que esse estudo comprometa a visão oficial
das dietas, sugerindo que elas não sejam saudáveis ou úteis,
apareçam vozes que, irresponsavelmente, denigrem-no, invalidem
seus resultados, sem ao menos fazerem questionamentos
razoáveis sobre os resultados práticos dos benefícios alcançados
pela pirotecnia dietética em vigor, afora é claro, os benefícios
econômicos!

Nos tempos atuais é muito mais fácil continuarmos com a insana


abordagem compensatória moderna. Mutilamos a constituição
mineral dos campos. Empobrecemos as qualidades nutritivas dos
alimentos vegetais e animais. Utilizamos cada vez mais insumos
químicos para suprir a cadeia produtiva de transformação de
nossas comidas. Ficamos cada vez mais longe da natureza.

Todo aquele que acredita que o uso de suplementos alimentares


seja a melhor solução para esse tipo de problema, provavelmente
será lembrado no futuro como cúmplice da destruição cada vez
mais ampla de nossos ecossistemas. A mídia que reforça esse
percurso transgressor, em algum tempo, será ostensivamente
responsabilizada pela insana destruição de nossos recursos
alimentares naturais.

Os danos à ecologia, à saúde, ao homem e a todos os seres vivos


têm como cúmplices aqueles que deveriam proteger nosso bem
estar e salvaguardar nosso planeta! Reportagens com ambições de
serem uma única verdade sobre as dietas fazem parte dessa
sombria conspiração!

(José Carlos Brasil Peixoto, 080306)

Nota: A reportagem que foi inspiradora desse artigo foi: “A


verdade sobre as dietas” da revista Veja de 15/02/2006. Muitos
dos temas levantados são discutidos em outros artigos do site
outravisao.

Observações:

(1) “Axis do estresse” diz respeito ao conjunto de órgãos de um


organismo envolvido com o equilíbrio de relação com o meio
ambiente. Envolve partes específicas do cérebro, e praticamente
todo o sistema imunológico e endócrino.

(2) Estatinas, grupo de medicamentos que reduzem as taxas


sangüíneas de colesterol ao restringir o funcionamento normal do
fígado. São exemplos a sinvastatina, a pravastatina entre outros,
sob inúmeros nomes comerciais.

Fontes de referência:

01) Fallon, S & Enig, Mary – “Nourishing Traditions” (The


cookbook that challenges Politicaly Correct Nutrition and the Diet
Dictocrats) - 2nd ed.New Trend Pub, New York, 2001;

02) Fallon, S & Enig, Mary – “The danger of statins drugs: what
you haven’t been told about cholesterol-lower medication”;(a
tradução desse artigo sera publicada em breve nesse site);

03) Ranvskov, Uffe – “The Cholesterol Myths” – New Trend Pub.


New York – (em fase de revisão da tradução, por José C B Peixoto);
04) Dufty, William – “Sugar Blues”, Ed Ground, RJ, 1975;

05) Site official do Women’s Health Iniative (www.whi.org), um


estudo de longa duração, planejado para se estender por15 anos,
que está envolvendo mais de 160.000 mulheres, entre 50 e 79, com
foco em prevenção de doença cardíaca, câncer de mama, câncer
coloretal, e fraturas.

06) Outros sites da Internet:


http://www.rosedalemetabolics.com/ – site do médico pesquisador,
expert em medicina do metabolismo e alimentar Ron Rosedale,
PhD;
http://www.diabetes.ca/ – site da Associação Canadense da
Diabetes;
www.bookrags.com/history/popculture/diets
http://shop.store.yahoo.com/carbsmart/historydiets.html
http://www.naafa.org/press_room/history_obesity.html
www.mercola.com/2000/jul/30/doctors_healths.html sobre um artigo
publicado no Journal American Medical Association, July 26, 2000,
284(4): 483-5. (ver artigo nesse site: “Finalmente em primeiro lugar”
que aborda esse tema)

Fonte:
http://www.umaoutravisao.com.br/verdadedietas.html