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Superior Tribunal de Justiça

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 115.251 - RS (2011/0270422-2)

RELATOR

:

MINISTRO MARCO BUZZI

AGRAVANTE

:

EXPRESSO CONVENTOS LTDA

ADVOGADO :

ÉRIKA FABÍOLA SILVA GOMES E OUTRO(S)

AGRAVADO :

CELTA EMPREENDIMENTOS E TELECOMUNICACOES LTDA

ADVOGADO

:

PATRICIA KOBE DA SILVEIRA E OUTRO(S)

AGRAVADO

:

AUTO LOCADORA IRIGARAY LTDA

ADVOGADO

:

RUI INÁCIO HOSS E OUTRO(S)

INTERES.

:

BRAULINO TAVARES JÚNIOR

ADVOGADO

:

ROBERTO STAUB

DECISÃO O inconformismo não merece prosperar.
DECISÃO
O inconformismo não merece prosperar.

Trata-se de agravo (art. 544 do CPC), interposto por EXPRESSO CONVENTOS LTDA, contra decisão que, nos autos de ação de reparação de danos em acidente de veículos, negou seguimento ao recurso especial, sob o fundamento de que a revisão do valor fixado a título de honorários advocatícios esbarra no óbice contido no Enunciado n. 7, da Súmula do STJ. Em suas razões, aduz a agravante que o Tribunal de origem exorbitou da sua competência ao proceder uma análise valorativa do mérito recursal em sede de juízo de admissibilidade. Sustenta ainda, que o decisum merece reforma, uma vez que o exame do mérito recursal não demanda a reapreciação das provas carreadas aos autos. É o relatório. Decido.

1. Não há usurpação de competência do STJ quando o Tribunal local não admite o recurso especial sob o fundamento da inexistência de contrariedade ou negativa de vigência à lei federal, pois, conforme tem reiteradamente decidido esta Corte, “é possível o juízo de admissibilidade adentrar o mérito do recurso, na medida em que o exame da sua admissibilidade, pela alínea 'a', em face dos seus pressupostos constitucionais, envolve o próprio mérito da controvérsia” (AgRg no Ag 173.195/SP, Rel. Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, Quarta Turma, DJ 21/09/1998).

Esse entendimento, aliás, foi cristalizado, em 1994, na Súmula 123 do STJ:

“A

decisão

que

admite,

ou

não,

o

recurso

especial

deve

ser

fundamentada,

com

o

exame

dos

seus

pressupostos

gerais

e

constitucionais”.

 

O mesmo raciocínio vem sendo aplicado ao recurso extraordinário, tendo o

STF, após longos debates, pacificado a questão em 1909, à época em que vigia a Lei 221 de 1894, conforme o relato de Benjamin do Carmo Braga Junior, in Apontamentos Sobre O Recurso Extraordinario (Doutrina e Jurisprudencia). Rio de Janeiro: A Judicial, 1922, p. 62-65. Com a superveniência dos Códigos de Processo Civil de 1939 e 1973, a orientação jurisprudencial do STF não se alterou (cf. REsp 948/GO, Rel. Ministro Nilson Naves, Terceira Turma, julgado em 26/09/1989, DJ 30/10/1989). Nesse sentido: José Afonso da Silva. Do Recurso Extraordinário no Direito Processual Brasileiro. São

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Paulo: Revista dos Tribunais, 1963, p. 365; Athos Gusmão Carneiro. Recurso Especial, agravos e agravo interno: exposição didática: área do processo civil, com inovação à jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça – 6ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009, p. 95-96; e José Saraiva. Recurso Especial e o Superior Tribunal de Justiça. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 347-351. Confiram-se, a propósito, os seguintes precedentes do STJ: AgRg no Ag 4.609/SP, Rel. Ministro Waldemar Zveiter, Terceira Turma, julgado em 11/09/1990, DJ 17/12/1990; AgRg no Ag 414.804/PE, Rel. Ministro Paulo Gallotti, Sexta Turma, julgado em 03/06/2002, DJ 02/09/2002; ostentando este último a seguinte ementa:

PROCESSO CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. USURPAÇÃO DE COMPETÊNCIA DO STJ. VIOLAÇÃO AO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO. INOCORRÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA 182/STJ. 1. Não há que se falar em usurpação de competência quando o juízo monocrático de admissibilidade adentra no mérito do recurso especial, uma vez que o Tribunal de origem ao não acolher o apelo extremo pela alínea "a", em face dos

2. 3. 4.
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pressupostos constitucionais (art. 105, III, "a", CF), deve verificar se o acórdão contrariou ou negou vigência a dispositivo de lei federal, o que corresponde, na realidade, à análise do próprio mérito da controvérsia.

O Superior Tribunal de Justiça não fica vinculado aos fundamentos da

decisão proferida no juízo de admissibilidade do recurso especial.

Incontestável a incidência da Súmula nº 182 do STJ, porquanto o ora

agravante não atacou todos os fundamentos do decisum que não admitiu o recurso especial, especificamente, aquele relativo à aplicação da Súmula nº 284/STF.

Agravo regimental a que se nega provimento. (grifo nosso)

E do STF: AI 28870, Rel. Ministro Luiz Gallotti, Primeira Turma, julgado em 27/06/1963, DJ 12/08/1963, RTJ 25/158; Rcl 391 AgR, Rel. Ministro Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 29/06/1992, DJ 14/08/1992, RTJ 143/46; este último assim ementado:

RECURSO EXTRAORDINÁRIO - JUÍZO PRIMEIRO DE ADMISSIBILIDADE - ATUAÇÃO - AGRAVO DE INSTRUMENTO - RECLAMAÇÃO. Interposto o recurso, cumpre ao Juízo primeiro de admissibilidade proceder ao exame dos pressupostos de recorribilidade. Tratando-se de recurso de natureza extraordinária - a revista e os embargos a serem julgados pelo Tribunal Superior do Trabalho (artigos 894 e 896 da Consolidação das Leis do Trabalho), o especial, submetido ao crivo do Superior Tribunal de Justiça (artigo 105, inciso III da Constituição Federal) e o extraordinário estrito senso, cabível para o Supremo Tribunal Federal (artigo 102, inciso III da Constituição Federal), incumbe-lhe não só examinar os pressupostos gerais - adequação, oportunidade, interesse de agir na via recursal, representação processual e preparo, como também os específicos previstos nos citados dispositivos legais e

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constitucionais. Este procedimento longe fica de implicar a usurpação da competência de qualquer dos Tribunais referidos. Frente à organicidade e à dinâmica que norteiam o Direito, especialmente o instrumental, a decisão que se mostre negativa ao processamento do recurso interposto desafia agravo de instrumento e não reclamação. Especialmente em Direito, que ciência é, o meio justifica o fim, mas não este aquele. A tramitação menos célere do agravo e o fato de não encerrar, em si, a possibilidade de obtenção de liminar são inidôneos ao respaldo da alternativa quanto à via a ser trilhada. A medida excepcional da reclamação pressupõe a invasão de competência ou a inobservância da autoridade de provimento da Corte e nenhuma das duas hipóteses ocorre quando o Órgão reclamado atua no âmbito que lhe é reservado pela ordem jurídica em vigor. Ao Supremo Tribunal Federal não é dado assentar, pela vez primeira, o enquadramento, ou não, do extraordinário em um dos permissivos constitucionais. Descabe, assim, enveredar pela via dupla da interposição do agravo de instrumento e da apresentação da reclamação.(grifo nosso)

e da apresentação da reclamação.(grifo nosso) Conforme se depreende da exposição acima, sem embargo do

Conforme se depreende da exposição acima, sem embargo do entendimento doutrinário contrário (v.g., por todos José Carlos Barbosa Moreira. Comentários ao Código de Processo Civil. 14 ed. Vol. V, arts. 476 a 585. Rio de Janeiro:

Forense, 2008, p. 608), a questão já se encontra há muito pacificada nesta Corte (desde o início de suas atividades jurisdicionais – 1989) e no Supremo Tribunal Federal (desde 1909), razão pela qual é forçoso reconhecer que o pleito recursal, nessa parte, é manifestamente improcedente. 2. Passada a preliminar, consoante pacífica jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, só é permitido modificar valores fixados a título de honorários advocatícios se estes se mostrarem irrisórios ou exorbitantes, exigindo-se, ainda, que as instâncias ordinárias não tenham emitido concreto juízo de valor sobre o tema. A propósito, transcrevo as ponderações da Ministra Eliana Calmon, em seu voto proferido no AgRg no Ag 1.198.911/SP:

"Tenho notado, outrossim, que alguns recursos especiais vêm trazendo, para demonstrar que os honorários são irrisórios, uma comparação entre o valor da causa e o valor da verba de sucumbência. Essa hipótese poderia até ensejar o reexame do quantum pelo STJ, desde que tais aspectos fáticos tenham sido abstraídos pelo Tribunal a quo".

A ementa do julgado acima referido restou assim redigida:

PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO . AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO . APLICAÇÃO DA SÚMULA 126/STJ. COMPROVAÇÃO DA INTERPOSIÇÃO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO . NECESSIDADE . HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS . REVISÃO . POSSIBILIDADE. ABSTRAÇÃO DA SITUAÇÃO FÁTICA PELO TRIBUNAL A QUO . VALOR NÃO FIXADO EM PERCENTUAL IRRISÓRIO OU EXORBITANTE. [ ] 2. Possibilidade de revisão da condenação em honorários advocatícios (ínfimos ou excessivos) na instância especial, somente se abstraída a situação fática na análise realizada pelo Tribunal de origem.

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3. Verba honorária arbitrada fixada em patamar razoável que se mantém.

4. Agravo regimental não provido.

(AgRg no Ag 1.198.911/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 20.4.2010, DJe 3.5.2010).

No presente caso, conforme consignado na decisão agravada, o Tribunal de origem analisou os elementos fáticos para concluir que, no caso, a fixação da verba honorária pelo magistrado a quo em R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais), deveria ser redimensionada para ser fixada em percentual sobre o valor da condenação, na forma do disposto no art. 20, § 3º, do CPC, situação que impede a revisão no Superior Tribunal de Justiça, em razão do óbice previsto na Súmula 7/STJ. É o que se infere da leitura do seguinte excerto do voto condutor do acórdão recorrido (fl. 330, e-STJ):

1.
1.

Quanto aos honorários advocatícios, devem ser fixados em percentual sobre o valor da condenação, na forma do disposto no art. 20, § 3º, do CPC. Assim é que, nesse tópico, dou parcial provimento ao apelo da locadora, para redimensionar os honorários advocatícios devidos pelos réus em 15% sobre o montante da condenação.

Logo, houve evidente exercício de juízo de valor pela Corte de origem acerca da atividade profissional desenvolvida na lide ao fixar os honorários em 15% sobre o valor da condenação, razão pela qual resta claro que o novo enfrentamento da matéria pressupõe, necessariamente, o ingresso nos aspectos fáticos da demanda, atividade cognitiva esta a que não se presta a via do recurso especial. No mesmo sentido, cito os seguintes precedentes:

PROCESSUAL CIVIL – ADMINISTRATIVO – DANO MORAL –

INDENIZAÇÃO – RAZOABILIDADE – IMPOSSIBILIDADE DE REVISÃO – ÓBICE DA SÚMULA 7/STJ – PRESCRIÇÃO – PRINCÍPIO DA 'ACTIO NATA' – VERBA HONORÁRIA.

Noticiam os autos que o autor/agravado veiculou pedido de reparação

de danos morais, ante o fato de ter sido detido pela Polícia Militar, em um de seus boxes de vigilância na Praça Deodoro, no dia 10.7.1993, tendo sido constrangido moral e psicologicamente, por ter intercedido em favor de um menor que se encontrava sob o poder de policiais, identificado como cometedor de fato delituoso (roubo). A atitude do autor foi no sentido de evitar o espancamento do menor delinqüente, tendo se identificado como estudante de Direito e estagiário de um Centro de Assistência a Menores.

2. Em relação à prescrição, aplica-se a regra segundo a qual começa a

viger do dia em que a ação poderia ser proposta, e não o foi, prestigiando o princípio da "actio nata". Consectariamente, o termo inicial do prazo prescricional qüinqüenal é a data do ato ou fato gerador da pretensão de direito material, no caso, 10.7.1993. O termo final ocorreu em 10.7.1998 (CC/2002, art. 132, § 2º). Considerando-se, portanto, que

a ação foi ajuizada/protocolada no cartório judicial exatamente em 9.7.1998, não se há falar em prescrição do fundo de direito. 3. O controle do Superior Tribunal de Justiça sobre o quantum indenizatório fixado na instância ordinária ocorre somente quando o valor

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da condenação mostrar-se irrisório ou exorbitante. Verifica-se que o arbitramento do valor indenizatório operou-se dentro da razoabilidade (duzentos salários mínimos); portanto, aferir a adequação da fixação de tal valor, como requer o recorrente, demandaria o reexame do contexto

fático-probatório dos autos, o que é defeso a este Tribunal em vista do óbice da Súmula 7/STJ.

4. A revisão do critério adotado pela Corte de origem, por eqüidade, para

a fixação dos honorários, encontra óbice na Súmula 7 do STJ. Agravo regimental improvido.

Martins,

Segunda Turma, julgado em 16.10.2008, DJe 06.11.2008).

(AgRg

nos

EDcl

no

REsp

688522/MA,

Rel.

Min.

Humberto

7/STJ. 2.
7/STJ.
2.

PROCESSUAL CIVIL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. ARBITRAMENTO POR EQUIDADE. VALOR IRRISÓRIO. NÃO CONFIGURAÇÃO. SÚMULA

1. O Tribunal de origem entendeu possível a fixação de honorários

advocatícios na fase do cumprimento de sentença, com base em julgado do STJ que se posicionou no mesmo sentido, desde que se procedesse de forma razoável para não autorizar novo ônus excessivo. Consignou que, no caso, não se assemelha desarrazoado o arbitramento da importância de R$ 3.000,00, tal como o fez a eminente Juíza a quo, a título de honorários advocatícios, para a fase de cumprimento de sentença do feito em curso naquele Juízo e-STJ fl. 132.

'Estabelecido está pela Corte Especial que em princípio não pode este

Tribunal alterar o valor fixado pela instância de origem a título de honorários advocatícios, por eles serem fixados em consideração aos fatos ocorridos no processo, cujo reexame é vedado em recurso especial, a teor da Súmula 7/STJ. A mesma Corte Especial admite, em situações excepcionalíssimas, que o STJ, afastando o referido enunciado sumular, exerça juízo de valor sobre o quantum fixado, para decidir se

são eles irrisórios ou exorbitantes, quando delineadas concretamente no acórdão recorrido as circunstâncias a que se refere o art. 20, § 3º, do CPC, o que não ocorreu no caso dos autos' (REsp 1.127.886/DF, Rel. Min. Eliana Calmon, DJe de 05.10.09).

3. Não havendo delimitação específica das circunstâncias previstas nas

alíneas do § 3º do art. 20 do CPC, a eventual manifestação do Superior Tribunal de Justiça acerca do alegado valor irrisório fixado passaria, necessariamente, pelo reexame do conjunto fático-probatório dos autos, providência de todo incompatível com a natureza do recurso especial. Aplicável, portanto, o óbice previsto na Súmula 7/STJ.

4. Nesse mesmo raciocínio, é patente que a divergência jurisprudencial

suscitada não atende ao requisito da identidade fático-jurídica entre os acórdãos confrontados, uma vez que as peculiaridades do caso vertente não se encontram espelhadas nos paradigmas, os quais, a toda

evidência, lastrearam-se em fatos, provas e circunstâncias distintas das constantes dos autos sob análise.

5. Agravo regimental não provido.

(AgRg no Ag 1.260.277/DF, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma,

julgado em 16.3.2010, DJe 26.3.2010).

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3. Do exposto, com

fulcro

no artigo 544,

§

4º,

provimento ao agravo. Publique-se. Intimem-se. Brasília-DF, 23 de março de 2012.

MINISTRO MARCO BUZZI Relator

II,

"a",

do CPC,

nego

MINISTRO MARCO BUZZI Relator II, "a", do CPC, nego Documento: 21205876 - Despacho / Decisão -