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HEGEMONIA ÀS AVESSAS

HEGEMONIA ÀS AVESSAS

NOTA DA EDIÇÃO ELETRÔNICA

Para aprimorar a experiência da leitura digital, optamos por extrair desta ver- são eletrônica as páginas em branco que intercalavam os capítulos, índices etc. na versão impressa do livro. Por este motivo, é possível que o leitor perce- ba saltos na numeração das páginas. O conteúdo original do livro se mantém integralmente reproduzido.

HEGEMONIA ÀS AVESSAS

C U LT U R A

NA ERA DA SERVIDÃO FINANCEIRA

E C O N O M I A ,

P O L Í T I C A

E

ERA DA SERVIDÃO FINANCEIRA E C O N O M I A , P O L

FRANCISCO DE OLIVEIRA, RUY BRAGA e CIBELE RIZEK (orgs.)

ERA DA SERVIDÃO FINANCEIRA E C O N O M I A , P O L

Sobre HEGEMONIA ÀS AVESSAS

De um ângulo crítico, os trabalhos enfeixados neste volume buscam dar conta de uma pluralidade de assuntos contemporâneos. Da experiência representada pelos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva à frente do governo brasileiro ao significado da crise financeira de 2007-2008 para o futuro do capitalismo, o livro apresenta um conjunto de reflexões úteis para os que desejam não apenas compreender o mundo, como transformá-lo. As dificuldades postas para o entendimento da atualidade não são esquivadas pelos autores. A perplexidade diante de políticas adotadas por forças cuja vitória foi tão aguardada nos países aqui analisados, Brasil e África do Sul, assim como diante de um contexto internacional em intensa transformação, não é varrida para baixo do tapete. Ao contrário, ela impulsiona um movimento de procura dos melhores instrumentos para dar conta das contradições do real. Categorias sugeridas no pensamento de Karl Marx estão entre eles. Mostram, assim, que as hipóteses de Marx ainda ajudam a desembaraçar fios de alta tensão presentes no começo do século XXI. A obra de Antonio Gramsci, em particular, que se encontra referida no título deste livro, é um exemplo da altura capaz de alcançar um empreendimento in- telectual inspirado em Marx. Em busca da totalidade, a questão da hegemonia, cuja elucidação abre as portas para uma percepção do sentido geral do período, é vista neste livro sob ângulos tão diversos quanto o das mudanças no campo do trabalho, da arquitetura e da “estrutura de sentimentos”, em uma ousadia temática digna da tarefa proposta. Se ao final muitas indagações persistem, resta a certeza de que o pro- jeto crítico permite pesquisar as respostas. Sorte a do país que pode contar com ele.

André Singer

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência.”

Walter Benjamin

Copyright desta edição © Boitempo Editorial, 2010

Coordenação editorial

Ivana Jinkings

Editora-assistente

Bibiana Leme

Assistência editorial

Elisa Andrade Buzzo e Gustavo Assano

Preparação

Mariana Echalar

Revisão

Alessandro de Paula e Ana Lotufo

Capa

Acqua Estúdio Gráfico

sobre foto de Lula e Nelson Mandela em Maputo, Moçambique, 16/10/2008. © Ricardo Stuckert/PR.

Diagramação

Acqua Estúdio Gráfico

Produção

Paula Pires

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H363

Hegemonia às avessas : economia, política e cultura na era da servidão finan- ceira / Francisco de Oliveira, Ruy Braga e Cibele Rizek, (orgs.). - São Paulo :

Boitempo, 2010. -(Estado de Sítio)

Inclui bibliografia

ISBN 978-85-7559-164-2

1. Brasil - Política e governo - 2003 -. 2. Brasil - Condições econômicas. 3. Brasil - Condições sociais. 4. Capitalismo. 5. Ciência política. I. Oliveira, Francisco de, 1932-. II. Braga, Ruy. III. Rizek, Cibele Saliba, 1950-. IV. Série.

10-4292.

CDD: 320.981

CDU: 32(81)

27.08.10

03.09.10

021226

É vedada, nos termos da lei, a reprodução de qualquer parte deste livro sem a expressa autorização da editora.

Esta edição, que contou com o auxílio financeiro da CAPES – Brasil, atende às normas do acordo ortográfico em vigor desde janeiro de 2009.

1 a edição: setembro de 2010

BOITEMPO EDITORIAL Jinkings Editores Associados Ltda. Rua Pereira Leite, 373 05442-000 São Paulo SP Tel./fax: (11) 3875-7250 / 3872-6869 editor@boitempoeditorial.com.br www.boitempoeditorial.com.br

SUMÁRIO

Apresentação

7

Ruy Braga

Homenagem

15

Ruy Braga

1. HEGEMONIA ÀS AVESSAS: DECIFRA-ME OU TE DEVORO!

Hegemonia às avessas

Francisco de Oliveira

A hegemonia da pequena política Carlos Nelson Coutinho

21

29

2. TRABALHO E CAPITALISMO, ANTES E APÓS O DESMANCHE

O

trabalho precário nos Estados Unidos

47

Arne L. Kalleberg Trabalho e regresso: entre desregulação e re-regulação Leonardo Mello e Silva Política e arte na verdade e na ficção do trabalho:

61

elementos para uma comparação história entre o Oriente socialista e o Ocidente capitalista

93

Yves Cohen Capitalismo financeiro, estado de emergência econômico e hegemonia às avessas no Brasil Leda Maria Paulani

109

3. CULTURA, CIDADE E SERVIDÃO FINANCEIRA

Moedas e moedeiros (e um pintor na contramão) Luiz Renato Martins

149

A

renda da forma na arquitetura da era financeira Pedro Fiori Arantes

161

Cidades para poucos ou para todos? Impasses da democratização das cidades no Brasil e os riscos de um “urbanismo às avessas” João Sette Whitaker Ferreira

185

Verde, amarelo, azul e branco: o fetiche de uma mercadoria ou seu segredo Cibele Rizek

215

4. AMÉRICA LATINA E ÁFRICA DO SUL NA ENCRUZILHADA

A

teoria da conjuntura e a crise contemporânea Carlos Eduardo Martins

237

Construindo a hegemonia na América Latina: democracia e livre mercado, associações empresariais e sistema financeiro Ary Cesar Minella

255

Que tipo de liderança é Chávez? Gilberto Maringoni

287

A

desorientação do “Estado desenvolvimentista” na África do Sul Patrick Bond

299

Do apartheid ao neoliberalismo José Luís Cabaço

319

5. O SOCIALISMO APÓS O DESMANCHE

Reencontrando o comunismo da emancipação Álvaro Bianchi

339

Política como práxis: Hegemonia às avessas, um exercício teórico Wolfgang Leo Maar

351

O

avesso do avesso Francisco de Oliveira

369

Bibliografia

377

Sobre os autores

395

APRESENTAÇÃO

“Decifra-me ou te devoro!”, ameaçava a Esfinge os viajantes amedron- tados, antes de recitar o mais famoso enigma da história. Na verdade, a hegemonia “lulista” representa nossa incontornável esfinge barbuda. Este livro origina-se de uma “provocação gramsciana” feita por Chico de Olivei- ra no artigo “Hegemonia às avessas” 1 – que serviu de ponto de partida para o seminário homônimo organizado pelo Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da Universidade de São Paulo (Cenedic) 2 , do qual resultou este livro –, no intuito de esboçar uma possível solução para o enigma. Trata-se de empreendimento de grande monta: perscrutar os fundamentos econô- micos, políticos e culturais dessa forma sui generis de dominação social que se enraizou no país, alcançando, em um mundo capitalista marcado pela crise econômica, pela guerra, pelo colapso ambiental e pela carência de exemplos políticos emuladores, inéditos prestígio e admiração internacio- nais. “É o homem”, respondeu Édipo. “Ele é o cara!”, exclamou Obama, admirado. E o que diria Chico? Em seu artigo, Chico nos alertava de início para os efeitos politicamen- te regressivos da hegemonia lulista: ao absorver “transformisticamente” 3 as

1 Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”, neste livro.

2 Seminário internacional “Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira” (USP, 21 a 24 de outubro de 2008). Esse evento não teria acon- tecido sem o apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura e do Programa de Pós-Gra- duação em Sociologia da FFLCH da USP; do Conselho Nacional de Desenvolvi- mento Científico e Tecnológico (CNPq); e de Néia Almeida, secretária do Cenedic.

3 Sinteticamente, Gramsci chamou de “transformismo” o processo de absorção pelas classes dominantes de elementos ativos ou grupos inteiros, tanto dos grupos aliados como dos adversários.

8 Hegemonia às avessas

forças sociais antagônicas no aparato de Estado, desmobilizando as classes subalternas e os movimentos sociais, o governo Lula teria esvaziado todo o conteúdo crítico presente na longa “era da invenção” dos anos 1970- -1980, tornando a política partidária praticamente irrelevante para a trans- formação social. A medida dessa desmobilização poderia ser apreendida pelo escasso interesse depositado pelos eleitores no pleito presidencial de 2006. O efeito social regressivo consistiria exatamente nisto: sob Lula, a política afastou-se dos embates hegemônicos travados pelas classes sociais antagônicas, refugiando-se na sonolenta e desinteressante rotina dos gabi- netes, ainda que frequentados habitualmente por escândalos de corrupção. A partir daí, Chico adiantou sua conjectura: no momento em que a “di- reção intelectual e moral” da sociedade brasileira parecia deslocar-se no sentido das classes subalternas, tendo no comando do aparato de Estado a burocracia sindical oriunda do “novo sindicalismo”, a ordem burguesa mostrava-se mais robusta do que nunca. A esse curioso fenômeno em que parte “dos de baixo” dirige o Estado por intermédio do programa “dos de cima” Chico chamou “hegemonia às avessas”. Um paralelo interessante poderia ser encontrado na experiência histórica da superação do apartheid. Daí uma sessão do seminário ter sido dedicada à África do Sul. “Ok, nós temos o Estado, mas onde está o poder?”, costumava provocar o sociólogo Patrick Bond durante o período em que trabalhou como conselheiro no gabinete de Nelson Mandela, nos primeiros anos de governo do Congres- so Nacional Africano (CNA). À procura de um poder fugidio, a vitória do CNA sobre o apartheid congelou o mito do poder popular apoiado pelo advento de novas classes médias negras, enquanto legitimava as relações de exploração características do capitalismo mais desavergonhado 4 . Os mo- çambicanos que o digam Eis a tal “hegemonia às avessas”: vitórias políticas, intelectuais e morais “dos de baixo” fortalecem dialeticamente as relações sociais de exploração em benefício “dos de cima”. No Brasil, décadas de luta contra a desigual- dade e por uma sociedade alternativa à capitalista desaguaram na incon- testável vitória lulista de 2002. Quase que imediatamente, o governo Lula racionalizou, unificou e ampliou o programa de distribuição de renda conhecido como Bolsa Família, transformando a luta social contra a misé-

4 Ver Patrick Bond, Elite transition: from apartheid to neoliberalism in South Africa (Londres, Pluto Press, 2000).

Apresentação 9

ria e a desigualdade em um problema de gestão das políticas públicas. Chi- co diz que Lula instrumentalizou a pobreza ao transformá-la em uma questão administrativa. O programa Bolsa Família garantiu a maciça ade- são dos setores mais depauperados das classes subalternas brasileiras ao projeto do governo. Jogando no campo de seu adversário eleitoral, isto é, no campo da instrumentalização da pobreza e da gestão burocrática dos

conflitos sociais, o governo Lula soube derrotar o Partido da Social Demo- cracia Brasileira (PSDB), mas ao preço da despolitização generalizada das lutas sociais.

Já tendo refletido a respeito do “transformismo” da burocracia sindical

lulista em seu influente ensaio “O ornitorrinco” 5 , não foi difícil para Chico

perceber o “sequestro” dos movimentos sociais pelo “Estado integral” brasi- leiro – os fundos de pensão das estatais aí incluídos. Ao praticamente desa- parecerem da pauta política reivindicativa nacional, com exceção dos valen- tes acampados do MST, os movimentos sociais, tendo o outrora poderoso movimento sindical “cutista” na vanguarda (do atraso), salgaram o terreno para uma oposição de esquerda autêntica ao governo, quase anulando o an- tagonista histórico e encurralando os conflitos sociais no plano cinzento da política dos gabinetes 6 .

A “hegemonia às avessas” não estaria preparando igualmente uma nação

sem qualquer sofisticação política, como diria Weber sobre Bismarck, total- mente subsumida à hegemonia da pequena política, como bem nos lem- brou Carlos Nelson Coutinho? Afinal, se, como diz Chico, parece que atualmente os dominados dominam, os sindicalistas se transformaram em capitalistas, os petistas controlam o parlamento, a economia está definiti- vamente blindada contra a crise mundial, trata-se, antes de mais nada, de um conjunto de aparências “necessárias”, pois, para o marxismo crítico, a

5 Francisco de Oliveira, Crítica à razão dualista/ O ornitorrinco (São Paulo, Boitempo,

2003).

6 Não nos esqueçamos do “legado de Bismarck”, analisado por Weber em um de seus dois “Colóquios de Lauenstein”, intitulado “Parlamentarismo e governo numa Ale- manha reconstruída”. Segundo o grande sociólogo de Heidelberg, Bismarck teria deixado atrás de si uma nação sem qualquer vontade política própria, acostumada à ideia de que o grande estadista ao leme tomaria as decisões políticas necessárias. Ver Max Weber, “Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída: uma con- tribuição à crítica política do funcionalismo e da política partidária” (São Paulo, Abril, 1980, Os Pensadores), p. 1-85.

10 Hegemonia às avessas

aparência não é simplesmente a face espúria da essência, seu “outro” fictício e enganoso – existe sempre uma íntima relação dialética entre aparência e essência. Os capítulos que formam este livro buscam, cada um a seu modo, contribuir para a compreensão dessa relação. De minha parte, confesso que continuo me sentindo bastante atraído pela hipótese da “revolução passiva à brasileira”, que, juntamente com Ál- varo Bianchi, esboçamos quando da primeira eleição de Lula 7 . Naquela ocasião, avançamos duas conjecturas:

1) O governo Lula não seria simplesmente mais um exemplo “neoliberal”, à la Fernando Collor ou FHC, exatamente porque, no intuito de constituir certas margens de consentimento popular, ele deveria responder a determinadas de- mandas represadas dos movimentos sociais. Empregamos então a noção – um tanto quanto frouxa, admitamos – de “social-liberalismo” para tentar dar conta da ênfase nas políticas de distribuição de renda, ainda que plasmadas pela re- produção da ortodoxia rentista.

2) O vínculo orgânico “transformista” da alta burocracia sindical com os fundos de pensão poderia não ser suficiente para gerar uma “nova classe”, como disse Chico, mas seguramente pavimentaria o caminho sem volta do “novo sindica- lismo” na direção do regime de acumulação financeiro globalizado. Apostáva- mos que essa via liquidaria completamente qualquer possibilidade de retomada da defesa dos interesses históricos das classes subalternas brasileiras 8 . Chama- mos esse processo de “financeirização da burocracia sindical”.

Sei que Carlos Nelson Coutinho, nosso principal interlocutor ao longo dessa desafiadora odisseia gramsciana, é cético em relação à hipótese da “revolução passiva à brasileira” como critério interpretativo do atual mo- mento hegemônico. Ele prefere falar em “hegemonia da pequena política” para destacar a natureza do lulismo: uma forma de hegemonia mais afinada com as características principais do neoliberalismo, pois apoiada naquilo que Gramsci chamou de “consentimento passivo”, isto é, a aceitação natu- ralizada de um existente tido e havido como inelutável. Não colocaria repa- ros nessa opinião de Carlos Nelson, pois me parece que, de fato, a hegemo- nia lulista apoia-se, sim, em boa parte, nesse tipo de consentimento passivo.

7 Para mais detalhes, ver Álvaro Bianchi e Ruy Braga, “Brazil: the Lula government and financial globalization”, Social Forces, Chapel Hill, v. 83, n. 4, 2005, p. 1745-62.

8 Gramsci entendia que o “transformismo” destruía a força política das classes subal- ternas decapitando suas lideranças, desarticulando os grupos antagonistas e semean- do desordem no terreno adversário.

Apresentação 11

Aliás, as observações do afamado comunista sardo acerca de Giovanni Gio- litti serviriam perfeitamente bem para descrever Lula 9 . Não compartilho, entretanto, do ceticismo de Carlos Nelson quanto à hipótese da “revolução passiva à brasileira”, pois intuo que a hegemonia lulista satisfaz, se não completamente, em grande medida, as premissas gramscianas a respeito tanto da “conservação”, isto é, a reação “dos de cima” ao subversivismo inorgânico das massas, quanto à “inovação”, ou seja, a incorporação de parte das exigências “dos de baixo”. Trata-se naturalmente de uma dialética multifacetada e tensa (“inovação/conservação”, “revolu- ção/restauração”) que catalisa um reformismo “pelo alto”, conservador, é verdade, porém dinâmico o suficiente para não simplesmente reproduzir o existente, mas capaz de abrir caminhos para novas mudanças – progressis- tas (no caso do fordismo, analisado pelo genial sardo no Caderno 22) ou regressivas (no caso do fascismo). Na minha opinião, a “hegemonia às aves- sas” nada mais é do que essa via de modernização conservadora, plasmada pelos limites inerentes à semiperiferia capitalista, em que o avanço nutre-se permanentemente do atraso. No tocante ao processo de modernização conservadora do mundo do trabalho no Brasil, por exemplo, eu mesmo busquei mostrar por meio de uma pesquisa do setor que mais cresceu em termos ocupacionais durante o governo Lula, isto é, o do telemarketing, como a “avançada” acumulação financeira dos bancos atuantes no país nutre-se permanentemente da repro- dução de modalidades “arcaicas” de discriminação social, como o racismo, o sexismo e a homofobia. Na realidade, uma das principais fontes de adap- tação do teleoperador ao fluxo tensionado nas Centrais de Teleatividades (CTAs) é seguramente a natureza “invisível” desse tipo de trabalho. Co-

9 Grande política (alta política) – pequena política (política do dia a dia, política parla- mentar, de corredor, de intriga). A grande política compreende as questões vinculadas à fundação de novos Estados, à luta pela destruição, defesa e conservação de deter- minadas estruturas orgânicas econômico-sociais. A pequena política compreende as questões parciais e cotidianas que surgem no interior de uma estrutura já estabeleci- da pelas lutas de preeminência entre as diversas facções de uma mesma classe política. É, por isso, grande política tratar de excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo à pequena política (Giolitti, rebaixando o nível das lutas internas, fazia grande política; mas seus fanáticos eram objeto de grande política, con- tudo eles mesmos faziam pequena política)”. Antonio Gramsci, Quaderni del carcere, (Turim, Einaudi, 1975), caderno 13, parágrafo 5. Tradução livre. [Ed. bras.: Cader- nos do cárcere, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999-2003.]

12 Hegemonia às avessas

mo o teleoperador utiliza exclusivamente a voz na relação com o público, a aparência torna-se secundária e o setor de telemarketing emergiu como uma espécie de “refúgio” para mulheres, sobretudo negras, além de gays e porta- dores de necessidades especiais, justamente aqueles grupos que estão entre os mais fragilizados do mercado de trabalho brasileiro 10 . Carlos Nelson levanta muito corretamente a questão: se estivermos diante de uma revolução passiva, parte das exigências dos “de baixo” de- verá ser acolhida pelo governo reformista e moderado. Mas não é exata- mente isso que verificamos quando analisamos o Bolsa Família, a amplia- ção do sistema universitário federal com o patrocínio das cotas, o impulso na direção da “reformalização” do mercado de trabalho 11 , a política de reajuste do salário mínimo acima da inflação, a retomada dos investimen- tos em infraestrutura ou, mais recentemente, o incentivo ao consumo de massas por meio do crédito consignado? É pouquíssimo em se tratando da nossa imensa dívida social. Além disso, tais realizações são totalmente insuficientes para garantir Lula no panteão dos reformistas, ao lado de Willy Brandt, Olof Palme e tutti quanti. Contudo, e isso diz muito sobre o handicap das classes dominantes brasileiras, consegue ser suficiente pa- ra, num país onde o epíteto de “pai dos pobres” é predicado de um dita- dor oriundo da aristocracia fundiária, alçar Lula à condição de incontes- tável liderança popular.

10 Naturalmente, o fato de ser uma espécie de “refúgio” para esses grupos de trabalha- dores não implica que a discriminação nas “modernas” CTAs inexista. Ao contrário, é muito comum verificarmos que as funções mais qualificadas, isto é, aquelas que exigem algum tipo de conhecimento tecnoprofissional, são, com muita frequência, ocupadas majoritariamente por homens, assim como a estratégia de promoção das empresas tende a privilegiar os teleoperadores brancos. Para mais detalhes, ver Ri- cardo Antunes e Ruy Braga (orgs.), Infoproletários: degradação real do trabalho vir- tual (São Paulo, Boitempo, 2009).

11 Somos perfeitamente conscientes de que a atual tendência à “reformalização” do mercado de trabalho originou-se no segundo governo de Fernando Henrique Car- doso, mais precisamente após a desvalorização do real motivada pela crise financeira do Sudeste asiático de 1997, associando-se intimamente, portanto, às necessidades da política fiscal do Estado brasileiro. Em resumo, “reformaliza-se”, basicamente, para arrecadar mais e continuar a pagar os elevadíssimos juros da dívida pública. Contudo, independentemente do impulso original ou do papel desempenhado pela atual “reformalização” do mercado de trabalho, os efeitos benéficos relativos à proteção social não se alteram. Para mais detalhes, ver Paulo Eduardo Baltar e José Dari Krein, “O emprego formal nos anos recentes”, Carta Social e do Trabalho, Campinas, v. 3, 2006, p. 3-10.

Apresentação 13

Ainda que mantida a política profundamente regressiva dos juros es- tratosféricos – é surpreendente que nem mesmo a atual crise econômica mundial tenha sido capaz de alterar o comportamento visceralmente ren- tista do Banco Central –, sabemos que a relativa desconcentração de renda experimentada por aqueles que vivem dos rendimentos do trabalho 12 pode perfeitamente coexistir, num contexto marcado por certo crescimento eco- nômico, com a reprodução da desigualdade entre as classes sociais, quando comparada aos incrementos de rendimentos dos que vivem da propriedade de ativos, como títulos, imóveis etc. Uma simples análise da distribuição funcional da renda nacional que confrontasse os dados da Pesquisa Nacio- nal por Amostra de Domicílios (PNAD) relativos à remuneração dos em- pregados, o rendimento dos autônomos e o Excedente Operacional Bruto do Sistema de Contas Nacionais poderia ilustrar bem isso. Contudo, parece-me meridianamente claro que o governo Lula conse- guiu coroar a incorporação de parte das reivindicações dos “de baixo” com a bem orquestrada reação ao subversivismo esporádico das massas, repre- sentado pelo “transformismo de grupos radicais inteiros”. Da miríade de cargos no aparato de Estado até a reforma sindical que robusteceu os cofres das centrais sindicais, passando pelos muitos assentos nos conselhos ges- tores dos fundos de pensão, pelas altas posições em empresas estatais, pelo repasse de verbas federais para financiamento de projetos cooperativos, pela recomposição da máquina estatal etc., o locus da hegemonia resultan- te de uma revolução passiva é exatamente o Estado 13 . O fato é que o sub- versivismo inorgânico transformou-se em consentimento ativo para muitos militantes sociais, que passaram a investir esforços desmedidos na conserva- ção das posições adquiridas no aparato estatal. Se Chico tem toda razão ao afirmar que a “hegemonia às avessas” sim- plesmente não significou verdadeiros “avanços na socialização da política em termos gerais e, especificamente, alargamento dos espaços de participa-

12 Para mais detalhes, ver “Distribuição pessoal da renda do trabalho: Brasil 1995- -2005 (Tabela 7)”, em Dieese, Anuário dos trabalhadores 2007, São Paulo, Dieese, 2007, p. 41.

13 Álvaro Bianchi nos lembra, recorrendo a fartas citações dos Quaderni, que “revolu- ção passiva” não significa hegemonia de uma classe em relação à totalidade social, mas sim de uma fração das classes dominantes sobre o conjunto delas por meio da mediação do Estado. Para mais detalhes, ver Álvaro Bianchi, “Revolução passiva: o pretérito do futuro”, Crítica Marxista, São Paulo, v. 23, n. 23, 2006, p. 34-57.

14 Hegemonia às avessas

ção nas decisões da grande massa popular, intensa redistribuição da renda num país obscenamente desigual e, por fim, uma reforma política e da po- lítica que desse fim à longa persistência do patrimonialismo” 14 , também é verdade que Lula soube “excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena política”. Assim procedendo, fez grande política, isto é, “representou o maquiavelismo de Maquiavel contra o ma- quiavelismo de Stenterello”, ainda que “para conservar uma situação mi- serável” 15 . Quando Chico fala em “regressão política” para se referir ao go- verno Lula, é nisso que ele está pensando. Aos meus olhos, a “hegemonia às avessas” é o ponto comum entre duas formas sociais distintas de consentimento: a ativa e a passiva. “Vanguar- da do atraso” ou “atraso da vanguarda”? O governo Lula apoia-se em uma forma de hegemonia produzida por uma revolução passiva empreendida na semiperiferia capitalista que conseguiu desmobilizar os movimentos sociais ao integrá-los à gestão burocrática do aparato de Estado, em nome da apa- rente realização das bandeiras históricas desses mesmos movimentos, que passaram a consentir ativamente com a mais desavergonhada exploração di- rigida pelo regime de acumulação financeira globalizado. Por seu turno, emaranhada em uma rede de dependências das políticas públicas governamentais, e esgotada por uma década e meia de cruentas lutas sociais ofensivas somada a outra década e meia de obstinadas lutas sociais defensivas, parte considerável das classes subalternas brasileiras con- sente passivamente. Cansadas de inovar politicamente e de se defender eco- nomicamente, as classes subalternas brasileiras preferem, à primeira vista, retomar momentaneamente o fôlego e seguir hipotecando prestígio ao go- verno da esfinge barbuda. Eis aqui o cerne da questão: após sete anos de “regressão política”, 85% de aprovação no Ibope não pode ser obra da di- vina providência. Parece-me ser esse o enigma que a odisseia gramsciana contida neste livro ajuda a decifrar.

Ruy Braga

Outubro de 2009

14 Ver Francisco de Oliveira, “O avesso do avesso”, neste livro.

15 Antonio Gramsci, Quaderni del carcere, cit., caderno 13, parágrafo 5. Tradução livre.

HOMENAGEM

Eu sou o exílio

Eu sou o exílio Sou o andarilho O trovador (digam o que disserem)

gentil eu sou, e calmo e com passo distraído absorto em planejar, amável com a submissão

mas gemidos invadem as alcovas de meu coração e em minha cabeça por detrás de meus olhos quietos eu ouço os gritos e as sirenes.*

Dennis Brutus

O poeta sul-africano Dennis Vincent Brutus foi uma das presenças mais aguardadas de nosso seminário internacional “Hegemonia às avessas: eco- nomia, política e cultura na era da servidão financeira”. Debateu com nos- sos colegas Omar Ribeiro Thomaz e José Luís Cabaço o tema em que, quer por sua inesgotável experiência de vida, quer por sua singular trajetória política, se tornara referência obrigatória: “Do apartheid ao neoliberalis- mo”. Todos aqueles que tiveram a oportunidade e o privilégio de assistir a sua concorrida palestra, em que examinou as múltiplas divergências e con- vergências das realidades brasileira e sul-africana, certamente não se es- quecerão de seus ensinamentos e de seu sincero interesse em inaugurar um amplo diálogo, demonstrado por suas intervenções e questionamentos em praticamente todas as mesas de nosso seminário. Permaneceu de sua visita ao Cenedic a decisão de estreitar laços de colaboração com o Centre for Civil Society (CCS), ligado à Universidade de Kwazulu-Natal, em Durban, onde trabalhava e militava.

* Tradução de Anna Rüsche. (N. E.)

16 Hegemonia às avessas

Filho de pais sul-africanos, Dennis Brutus nasceu na capital do Zimbá- bue, Harare, em 1924, e, ainda muito jovem, mudou-se para a África do Sul, onde se graduou no início da década de 1940 em psicologia e literatu- ra inglesa. A retomada dos estudos na faculdade de direito da Universidade de Witwatersrand, contudo, foi interrompida pela sua primeira prisão mo- tivada pelo radical ativismo anti-apartheid. Sua militância política esteve, de início, associada ao trabalho de organização da nova associação espor- tiva sul-africana, que se apresentava como uma alternativa ao segregacio- nismo nos esportes, além, naturalmente, de atuar nas fileiras do Congresso Nacional Africano (CNA). Com a radicalização política e social ocasionada pelo Massacre de Shar- peville 1 , e após uma onda de forte repressão às organizações anti-apartheid promovida pelo governo sul-africano – cujo momento culminante tal- vez tenha sido a promulgação, em 1961, do Suppression of Communism Act –, Dennis Brutus decidiu escapar para Moçambique, onde foi captura- do pela Pide, a polícia secreta portuguesa, e deportado para Johannesburgo. Nessa cidade, em 1963, ele foi alvejado três vezes pelas costas, enquanto tentava escapar da tutela policial. Quase morto, ficou alguns meses aprisio- nado na mesma cela em que, mais de meio século antes, Mahatma Gandhi também foi feito prisioneiro. Ainda não de todo recuperado dos ferimen- tos, Dennis Brutus foi transferido para a famosa ilha Robben, onde perma- neceu cativo durante dois anos em uma cela próxima a de Nelson Mandela. Na prisão, escreveu duas de suas obras mais conhecidas: a coleção de poe- mas Sirens, knuckles, boots e Letters to Martha 2 .

1 Dennis Brutus dedicou um de seus mais conhecidos poemas ao Massacre de Shar- peville, bairro construído pelo regime racista sul-africano para acomodar os negros que trabalhavam nas cidades industriais de Vanderbijlpark e Vereeniging. Nesse bairro operário ocorreu, no dia 21 de março de 1960, um protesto contra a chama- da Lei do Passe, que obrigava os negros a usar cadernetas em que estavam definidos os locais por onde podiam circular. A polícia sul-africana reprimiu o protesto atiran- do com metralhadoras contra a multidão e matando 69 pessoas. Sobre o massacre, Brutus escreveu: “Recordem Sharpeville/ no dia das balas nas costas/ pois encarnou

a opressão/ e a natureza da sociedade / mais claramente que qualquer outra coisa;/ foi o evento clássico” (tradução livre).

2 Ver Dennis Brutus, A simple lust (Portsmouth, Heinemann, 1986). Essa seleção de

poemas inclui: “Sirens, knuckles, boots”, “Letters to Martha”, “Poems from Algiers”

e “Thoughts abroad”.

Homenagem 17

Exilado pelo governo sul-africano, estabeleceu-se primeiramente em Lon- dres, em 1965, e logo em seguida em Chicago, em 1971, para então fixar-se na cidade de Pittsburgh, em cuja universidade lecionou literatura e estudos africanos durante cerca de duas décadas, obtendo ampla notoriedade como poeta e crítico literário. Fora da prisão, Dennis Brutus destacou-se co- mo uma das principais figuras da luta que culminou na exclusão da África do Sul dos jogos olímpicos da Cidade do México, em 1968, e no posterior banimento, em 1970, de qualquer participação sul-africana em atividades esportivas internacionais. Com o fim do apartheid, Dennis Brutus regressou à África do Sul, asso- ciando-se ao Centre for Civil Society. Ali, notabilizou-se por sua militância socialista contra o neoliberalismo dos novos governos sul-africanos e a glo- balização capitalista. Esteve presente em todas as edições do Fórum Social Mundial e foi figura central na crítica ao New Partnership for Africa’s De- velopment (Nepad), uma espécie de “Consenso de Washington” para o continente africano, proposto e implementado pelo ex-presidente sul-afri- cano Thabo Mvuyelwa Mbeki. Em 2007, homenageado com um lugar de honra no “hall da fama” dos esportes sul-africanos, recusou-se a receber o prêmio, alegando que os dirigentes esportivos da África do Sul ainda não haviam feito uma crítica consequente do racismo. Dennis Brutus nos prometeu o texto de sua exposição em nosso se- minário para ser publicado neste livro. Por meio das trocas de e-mails que mantivemos com ele após o seminário para informá-lo dos prazos para o encaminhamento do capítulo anunciado, soubemos que o câncer que o aco- metera estava fugindo ao controle. Ao manifestar minha absoluta pros- tração com a notícia, Dennis Brutus mostrou-se bem-humorado e confian- te, afirmando que “aquele que conhece a polícia sul-africana não se assusta com um simples câncer” e complementou dizendo se tratar de “apenas mais uma luta”. De comum acordo, então, tendo em vista seu delicado quadro de saúde, decidimos substituir o capítulo prometido pelo de Patrick Bond, coordenador do Centre for Civil Society e um de seus mais íntimos colabo- radores. Dennis Brutus foi desses incorrigíveis lutadores sociais que deixam or- gulhosos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-los e de aprender com seu exemplo e sua inesgotável experiência. Infelizmente, a “voz cantante do movimento sul-africano de libertação”, como era conhecido, silenciou no dia 26 de dezembro de 2009. A notícia de sua morte, ocorrida na Cidade

18 Hegemonia às avessas

do Cabo, apesar de não ser de todo inesperada, nos encheu de profunda tristeza. Sua luta por uma sociedade igualitária, socialista e emancipada de todas as formas de discriminação, exploração e opressão não será es- quecida. Hamba kahle, camarada Dennis Brutus! Este livro é dedicado a sua memória.

Ruy Braga

Janeiro de 2010

1

HEGEMONIA ÀS AVESSAS:

DECIFRA-ME OU TE DEVORO!

HEGEMONIA ÀS AVESSAS *

Francisco de Oliveira

Depois de levar um susto no primeiro round, quando seu adversário ime- diato abocanhou 40% dos votos, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou fácil o segundo turno das eleições. Há uma gama variada de interpretações para a retumbante vitória. A mais óbvia acentua a influência do Bolsa Família, que teria garantido uma maciça votação dos estratos mais pobres da sociedade. Tanto que no Nordeste, região que recebe o maior contingente assistencial do Bolsa Família, Lula ultrapassou os 70% em quase todos os municípios. É mais complicado explicar por que Geraldo Alckmin teve tantos votos no primeiro turno. E por que perdeu uns 2 milhões do primeiro para o se- gundo. A interpretação majoritária sustenta que o tucano foi o opositor ideal para Lula: pouco conhecido além de São Paulo, com cara de paulista, jeito de paulista e fama de paulista – um handicap fora de São Paulo. Para completar, Alckmin não tinha nenhuma mensagem e foi muito mal na campanha televisiva. Outra interpretação corrente, assumida pelo próprio Lula e por jornais do exterior, é que o Brasil eleitoral se dividiu entre ricos e pobres, e os pobres venceram. Seria ótimo, se fosse plausível, que os 40% de votos a favor de Alckmin fossem dos “ricos”, e que a votação de Lula fosse exclusivamente dos “pobres”. Um dos resultados formidáveis da eleição, incluindo os pleitos para os estados e a renovação do Congresso, foi a salada de coligações e coalizões. Siglas de suposta orientação ideológica oposta uniram-se indiscriminada- mente com toda espécie de agrupamentos, incluindo os de salteadores. Traições abertas às próprias hostes foram a regra. Por exemplo, o governa-

* Uma primeira versão deste artigo foi publicada em Piauí, Rio de Janeiro/ São Paulo, n. 4, jan. 2007. (N. E.)

22 Hegemonia às avessas

dor de Mato Grosso, Blairo Maggi, apesar de ser o maior sojicultor do mundo, apoiou Lula abertamente, enquanto o partido do qual é membro – o Partido Popular Socialista (PPS), sigla herdeira do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – fez campanha por Geraldo Alckmin. Essa

falta de consistência confirma a irrelevância da política partidária no capita- lismo contemporâneo. Irrelevância que é mais grave na periferia do que no centro. Os partidos representam pouco, e a política está centrada sobretudo nas personalidades. Sempre foi assim na tradição brasileira, mas depois da criação dos partidos de massa – vale dizer, depois da criação do Partido dos Trabalhadores (PT) – houve um período de forte valorização dos partidos.

O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), metamorfo-

se do antigo partido de oposição à ditadura militar no período 1964-1984,

fez a maior bancada na Câmara. O PMDB é, tipicamente, um partido de

caciques regionais. Não tem sequer unidade programática. Dessa vez, o que

é importante como símbolo, não teve candidato à Presidência, seja em coli- gação com o PT, seja com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

O Partido da Frente Liberal (PFL, atual DEM) foi derrotado fragorosa-

mente na Bahia e no Maranhão, mas ainda assim formou a maior bancada

no Senado.

O PT manteve-se com a segunda maior bancada da Câmara Federal,

mas pela primeira vez em sua história teve uma diminuição em seu número

de

deputados. Fez apenas quatro governadores, sendo a Bahia o único esta-

do

politicamente importante – até porque derrotou um coronel pefelista

tido como imbatível, Antônio Carlos Magalhães. Lula distanciou-se osten- sivamente do PT. Somente recorreu ao partido, e a setores de esquerda fora

dele, no segundo turno, quando viu a reeleição ameaçada. Proclamados os resultados, logo fechou um acordo com o PMDB para dominarem juntos a Câmara dos Deputados e o Senado.

O ceticismo é geral quanto ao segundo mandato. Ninguém, à direita e

à esquerda, espera grandes alterações nas políticas governamentais. Lula pa- rece uma barata tonta, clamando por soluções para, conforme diz, “destra- var” o desenvolvimento. Afora a continuidade do Bolsa Família e a manu- tenção do conservadorismo na política econômica, o presidente parece ter perdido inteiramente o rumo. O desnorteio mostra uma das consequências

de sua vitória, nas proporções em que ocorreu: Lula não tem objetivos,

porque não tem inimigos de classe. Alguns poucos que vocalizaram a espe- rança de mudanças na política econômica foram imediatamente repreendi-

Hegemonia às avessas 23

dos pelo próprio presidente reeleito – caso de Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais, tido como o ideólogo do governo, e Dilma Roussef,

a poderosa chefe da Casa Civil, considerada o motor do Executivo. Eles esta- vam entre os “mudancistas” e foram logo calados.

O governo terá maioria no Congresso, mas é quase certo que o balcão de negociações entre as várias siglas e o Executivo será mais amplo que no pri- meiro mandato. Dito de forma mais direta, o governo será mais fraco e a cobrança dos apoios será mais forte, na forma de nomeações para cargos de primeiro escalão e para grandes entidades federais. A agenda das denúncias de corrupção não está encerrada, embora se espere que o governo seja mais cuidadoso e as oposições, menos assanhadas. Aparentemente, o espaço da esquerda se ampliou. Até este escriba votou em Lula, no segundo turno, com essa perspectiva. A oposição da esquerda

a Lula e ao tucanato chegou a uns 7% dos votos para presidente, materia-

lizada no voto a Heloísa Helena e à Frente de Esquerda PSOL-PSTU-PCB- -Consulta Popular. A ilusão quanto ao peso da esquerda se desfez com as primeiras declarações do presidente reeleito, que reendossou a política eco- nômica, manteve nos cargos algumas figuras emblemáticas (caso de Henri- que Meirelles na presidência do Banco Central) e defendeu a “era Palocci”. No mesmo movimento, Lula aventou nomes para compor o novo Ministé- rio que estão entre os mais reacionários do meio empresarial – a começar por Jorge Gerdau Johannpeter, proprietário do maior conjunto de siderúr- gicas do Brasil (e de algumas no exterior), compradas na bacia das almas das privatizações do governo FHC. Os votos nulos alcançaram a marca dos 4%, mesma porcentagem para os votos em branco, e 23% dos cadastrados não compareceram às seções eleitorais, apesar da obrigatoriedade do voto. De fato, as eleições presiden- ciais não interessaram a 31% dos votantes. Ou então as candidaturas não motivaram esses 31% de eleitores. É a porcentagem mais alta de “indife- rença” eleitoral da história moderna brasileira, aproximando-se dos números da abstenção dos norte-americanos nas eleições presidenciais. De novo, essa indiferença quer dizer que a política não passa pelo conflito de classes, evita e trapaceia com ele. Nas ruas, o fracasso da “mudança” não poderia ser mais evidente: nenhuma vibração, nenhuma bandeira do PT ou de qualquer outro partido, nenhuma mobilização. A grande maioria dos elei- tores se desincumbia da obrigação com ar de enfado. Muitos deles logo tomaram o caminho das praias.

24 Hegemonia às avessas

O presidente reeleito não lamentou essa indiferença expressiva do elei- torado. Queixou-se amargamente, isso sim, de não ser o preferido dos “ri- cos”, cobrando-lhes o fato de que nunca os banqueiros ganharam tanto dinheiro como em seu governo, para logo depois dizer que os “pobres” ha- viam ganho a eleição. Essa interpretação logo foi encampada pela imprensa:

o Brasil havia se dividido entre “pobres” e “ricos”. Esqueceram-se de expli- car os 40% de votos em Geraldo Alckmin no primeiro turno: aí já seríamos um país do Primeiro Mundo! Qual será a cara do mandato que agora se inicia? Certamente, haverá uma nova ampliação do programa Bolsa Família, e é aí que mora o perigo. Nos outros setores, as mudanças serão superficiais. Talvez seja feita a grande transposição do rio São Francisco para os estados mais sujeitos à seca no Nordeste e algumas obras de infraestrutura. Por aí ficará. A perspectiva para o futuro requer uma reflexão gramsciana. Talvez este- jamos assistindo à construção de uma “hegemonia às avessas” típica da era da globalização. A África do Sul provavelmente anunciou essa hegemonia às avessas: enquanto as classes dominadas tomam a “direção moral” da socieda- de, a dominação burguesa se faz mais descarada. As classes dominadas no país, que se confundem com a população negra, derrotaram o apartheid, um dos regimes mais nefastos do século XX, mesmo levando em conta que o século passado conheceu o nazifascismo e o arquipélago gulag. E, no entan- to, o governo sul-africano oriundo da queda do apartheid rendeu-se ao neo- liberalismo. As favelas de Johannesburgo não deixam lugar a dúvidas 1 . As- sim, a liquidação do apartheid mantém o mito da capacidade popular para vencer seu temível adversário, enquanto legitima a desenfreada exploração pelo capitalismo mais impiedoso. Algo assim pode estar em curso no Brasil. A longa “era da invenção” 2 forneceu a direção moral da sociedade brasileira na resistência à ditadura e alçou a questão da pobreza e da desigualdade ao primeiro plano da política. Chegando ao poder, o PT e Lula criaram o Bolsa Família, que é uma espé- cie de derrota do apartheid. Mais ainda: ao elegermos Lula, parecia ter sido borrado para sempre o preconceito de classe e destruídas as barreiras da

1 Ver Mike Davis, Planeta favela (São Paulo, Boitempo, 2006).

2 Ver Francisco de Oliveira, “Política numa era de indeterminação” e “O momento Lenin”, em Francisco de Oliveira e Cibele Rizek (orgs.), A era da indeterminação (São Paulo, Boitempo, 2007).

Hegemonia às avessas 25

desigualdade. Ao elevar-se à condição de condottiere e de mito, como as re- centes eleições parecem comprovar, Lula despolitiza a questão da pobreza e da desigualdade. Ele as transforma em problemas de administração, derrota

o suposto representante das burguesias – o PSDB, o que é inteiramente

falso – e funcionaliza a pobreza. Esta, assim, poderia ser trabalhada no ca- pitalismo contemporâneo como uma questão administrativa. Já no primeiro mandato, Lula havia sequestrado os movimentos sociais

e a organização da sociedade civil. O velho argumento leninista-stalinista de que os sindicatos não teriam função num sistema controlado pela classe operária ressurgiu no Brasil de forma matizada. Lula nomeou como minis- tros do Trabalho ex-sindicalistas influentes na CUT. Outros sindicalistas estão à frente dos poderosos fundos de pensão das estatais. Os movimentos sociais praticamente desapareceram da agenda política. Mesmo o MST vê-se manietado por sua forte dependência do governo, que financia o assenta- mento das famílias no programa de reforma agrária. Nas condições em que se deu, a vitória eleitoral anula as esquerdas no Brasil. Toda crítica é imediatamente identificada como sendo de “direita”

– termo inadequado para defender um governo que tem na direita pilares

fundamentais, do pequeno PP a setores do PMDB, como os de Jader Bar- balho e José Sarney. Um rancor surdo torna difíceis as relações entre a es- querda independente e o PT e, em particular, o governo Lula. Por outro lado, a mídia, sobretudo os grandes jornais, segue atacando o governo com ferocidade, o que contribui para confundir a crítica da esquerda com a crí- tica da própria imprensa. O principal partido da oposição a Lula, o PSDB, esfrangalhou-se – e também confunde toda a crítica com suas posições. Caso o programa Bolsa Família experimente uma grande ampliação, o que será possível simplesmente com uma redução de 0,1% do superávit primário, os fundamentos da “hegemonia às avessas” estarão se consolidan- do. Trata-se de um fenômeno novo, que exige novas reflexões. Não é nada parecido com qualquer das práticas de dominação exercidas ao longo da existência do Brasil. Suponho também que não se parece com o que o Oci- dente conheceu como política e dominação. Não é patrimonialismo, pois o que os administradores dos fundos de pensão estatais gerem é capital-di- nheiro. Não é o patriarcalismo brasileiro de Casa-grande e senzala, de Gil- berto Freyre, porque não é nenhum patriarca que exerce o mando nem a economia é “doméstica” (no sentido do domus romano), embora na cultura brasileira o chefe político possa se confundir, às vezes, com o “pai” – Getú-

26 Hegemonia às avessas

lio Vargas foi apelidado de “pai dos pobres” e Lula pensa tomar-lhe o lugar, mas o que ele gere, com sua classe, é capital. Não é populismo, como sugere

a crítica da direita, e mesmo de alguns setores da esquerda, porque o popu-

lismo foi uma forma autoritária de dominação na transição da economia agrária para a urbano-industrial. E o populismo foi – de forma autoritária,

enfatize-se – a inclusão sui generis da novel classe operária, desbalanceando a velha estrutura de poder no Brasil e deslocando fortemente os latifundiários da base da dominação. Nada disso está presente na nova dominação. Muitos críticos e analistas consideram que o Bolsa Família é o grande programa de inclusão das classes dominadas na política. Isso é um grave equívoco, sobretudo por parte daqueles que cultivam a tradição marxista gramsciana. Entre eles estão Walquíria Domingues Leão Rego, o próprio ministro Tarso Genro e Luiz Jorge Werneck Vianna, sendo que este último considera o Bolsa Família, e o próprio governo Lula, a continuação da “via passiva” na longa e permanentemente inacabada revolução burguesa brasilei- ra. A nova dominação (e arrisco a hipótese de que ela seja própria e funcional ao capitalismo mundializado) inverte os termos gramscianos. Vejamos. Parece que os dominados dominam, pois fornecem a “direção moral” e, fisicamente até, estão à testa de organizações do Estado, de modo direto ou indireto, e das grandes empresas estatais. Parece que eles são os próprios capitalistas, pois os grandes fundos de pensão das estatais são o coração do novo sistema financeiro brasileiro e financiam pesadamente a dívida inter- na pública. Parece que eles comandam a política, pois dispõem de podero- sas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado. Parece que a econo- mia está finalmente estabilizada, que se dispõe de uma sólida moeda e que tal façanha se deveu à política governamental, principalmente no primeiro mandato de Lula. O conjunto de aparências esconde outra coisa, para a qual ainda não te- mos nome nem, talvez, conceito. Mas certamente será nas pistas do legado de Antonio Gramsci, o “pequeno grande sardo”, que poderemos encontrar o caminho de sua decifração. O consentimento sempre foi o produto de um conflito de classes em que os dominantes, ao elaborarem sua ideologia, que se converte na ideologia dominante, trabalham a construção das classes do- minadas a sua imagem e semelhança. Esse é o núcleo da elaboração de Marx

e Engels em A ideologia alemã *, que o pequeno grande sardo desdobrou ad-

* São Paulo, Boitempo, 2007. (N. E.)

Hegemonia às avessas 27

miravelmente. Estamos em face de uma nova dominação: os dominados realizam a “revolução moral” – derrota do apartheid na África do Sul e elei- ção de Lula e Bolsa Família no Brasil – que se transforma, e se deforma, em capitulação ante a exploração desenfreada. Nos termos de Marx e Engels, da equação “força + consentimento” que forma a hegemonia desaparece o elemento “força”. E o consentimento se transforma em seu avesso: não são mais os dominados que consentem em sua própria exploração; são os dominantes – os capitalistas e o capital, explicite-se – que consentem em ser politicamente conduzidos pelos do- minados, com a condição de que a “direção moral” não questione a forma da exploração capitalista. É uma revolução epistemológica para a qual ainda não dispomos da ferramenta teórica adequada. Nossa herança marxista- -gramsciana pode ser o ponto de partida, mas já não é o ponto de chegada.

A HEGEMONIA DA PEQUENA POLÍTICA

Carlos Nelson Coutinho

1. A expressão “hegemonia às avessas”, inventada por nosso querido Chico de Oliveira, é certamente provocativa. Trata-se de uma das muito ins- tigantes e sempre oportunas provocações (no bom sentido da palavra!) pos- tas por ele. Lembro aqui, por exemplo, suas formulações sobre o modo de produção social-democrata, o antivalor, o ornitorrinco e o surgimento de uma nova classe formada pelos gestores dos fundos públicos etc. Mesmo que dis- cordemos de Chico em alguns casos, aprendemos sempre – e muito – com essas provocações, pois nos obrigam a pensar. É o caso também de “hege- monia às avessas”. De minha parte, porém, para caracterizar as relações de hegemonia hoje, prefiro falar de “hegemonia da pequena política”. Para entendermos essa ca- racterização, recordemos, antes de mais nada, o que Gramsci chama de “pe- quena política”. Cito o autor de Cadernos do cárcere:

A grande política compreende as questões ligadas à fundação de novos Estados, à luta pela destruição, pela defesa, pela conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais. A pequena política compreende as questões par- ciais e cotidianas que se apresentam no interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre as diversas frações de uma mesma classe política (política do dia a dia, política parlamentar, de corredor, de intrigas). Portanto, é grande política tentar excluir a grande política do âm- bito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena política. 1

Ora, é precisamente assim – ou seja, através da exclusão da grande política – que se apresenta a hegemonia na época do neoliberalismo ou,

1 Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999- -2003, v. 3), p. 21.

30 Hegemonia às avessas

para usarmos o subtítulo de nosso seminário e deste livro, na época da servidão financeira. Registremos o seguinte: seria equivocado pensar que só há batalha hege- mônica quando grandes projetos de sociedade se enfrentam. É verdade que foi assim durante algum tempo na Europa, no tempo em que partidos com diferentes propostas de sociedade competiam entre si, como, por exemplo, conservadores e trabalhistas na Inglaterra ou comunistas e democrata-cris- tãos na Itália. Nos Estados Unidos, ao contrário, nunca foi assim: ali, a hegemonia dos valores do capitalismo nunca foi posta em discussão pelos dois grandes partidos nacionais, nem mesmo pelas principais organizações sindicais. E, infelizmente, está sendo assim, hoje, também na Europa e em muitos países da América Latina. Que diferença substantiva existe atual- mente, por exemplo, entre conservadores e trabalhistas na Inglaterra? Ou entre o governo FHC e o governo Lula no Brasil? 2 Hegemonia, portanto, nem sempre se baseia no que Gramsci chamou de “ideologias orgânicas”, aquelas que expressam de modo claro e siste- mático a concepção do mundo das classes sociais fundamentais. Indepen- dentemente de basear-se ou não numa ideologia orgânica, uma relação de hegemonia é estabelecida quando um conjunto de crenças e valores se en- raíza no senso comum, naquela concepção do mundo que Gramsci definiu como “bizarra e heteróclita”, com frequência contraditória, que orienta – muitas vezes sem plena consciência – o pensamento e a ação de grandes massas de mulheres e homens. Ora, podemos constatar que predominam, hoje, no senso comum, determinados valores que asseguram a reprodução do capitalismo, ainda que nem sempre o defendam diretamente. Refiro-me, em particular, ao individualismo (tão emblematicamente expresso na famo- sa “lei de Gerson”, ou seja, a que nos recomenda tirar vantagem em tudo), ao privatismo (à convicção de que o Estado é um mau gestor e tudo deve ser deixado ao livre jogo do mercado), à naturalização das relações sociais (o capitalismo pode até ter seus lados ruins, mas corresponde à natureza humana) etc. Cabe lembrar ainda que hegemonia é consenso, e não coerção. Existe hegemonia quando indivíduos e grupos sociais aderem consensualmente a certos valores. Mas, como Gramsci observa, existe consenso ativo e consenso

2 Voltarei a isso adiante, no item 3.

A hegemonia da pequena política 31

passivo 3 . A hegemonia da pequena política baseia-se precisamente no con- senso passivo. Esse tipo de consenso não se expressa pela auto-organização, pela participação ativa das massas por meio de partidos e outros organismos da sociedade civil, mas simplesmente pela aceitação resignada do existente como algo “natural”. Mais precisamente, da transformação das ideias e dos valores das classes dominantes em senso comum de grandes massas, inclu- sive das classes subalternas. Hegemonia da pequena política existe, portan- to, quando se torna senso comum a ideia de que a política não passa da disputa pelo poder entre suas diferentes elites, que convergem na aceitação do existente como algo “natural”. Quantas vezes ouvimos a frase “os políti- cos são todos iguais”? Escolhem-se uns ou outros por motivos que, com frequência, nada têm a ver com o conteúdo de suas propostas (as quais, na maioria dos casos, não apresentam nenhuma divergência essencial ou sim- plesmente não têm conteúdo algum). Essa concepção da política como disputa de elites, e não como ação de maiorias, foi teorizada por alguns expoentes da teoria política do século XX, como Mosca, Schumpeter, Sartori e muitos outros 4 . Para eles, a política é sempre ação de minorias, de elites. Schumpeter, por exemplo, reduz a de- mocracia ao processo de seleção das elites por meio de eleições periódicas; mas, ao mesmo tempo, também afirma que o povo não sabe combinar in- teresse e razão, de modo que tais eleições não teriam como fundamento a disputa entre diferentes propostas de sociedade, mas estariam baseadas em escolhas irracionais. Também contribuem para difundir essa hegemonia da pequena política todos os que dizem que vivemos o fim das ideologias, que

a diferença entre esquerda e direita desapareceu. Como dizia o hoje esque-

cido Alain, filósofo francês, quem nega a diferença entre esquerda e direita

é sempre de direita. Uma versão mais sofisticada dessa posição é aquela de-

fendida hoje pelo chamado “pós-modernismo”: para os autores dessa cor- rente, a era das “grandes narrativas” morreu, e, no lugar de um ponto de vista totalizante e universal, devemos nos preocupar com as diferenças, com as identidades, com a defesa do multiculturalismo etc. Essa fragmentação das lutas setoriais – que, separadas de uma visão universal, não põem em

3 Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, cit., v. 3, p. 333.

4 Ver Carlos Nelson Coutinho, “Democracia: um conceito em disputa”, em Interven- ções: o marxismo na batalha das ideias (São Paulo, Cortez, 2006), p. 13-27.

32 Hegemonia às avessas

questão o domínio do capital e podem, assim, ser por ele assimiladas – con- tribui também para o triunfo da pequena política. Repetindo: existe hegemonia da pequena política quando a política dei- xa de ser pensada como arena de luta por diferentes propostas de sociedade

e passa, portanto, a ser vista como um terreno alheio à vida cotidiana dos

indivíduos, como simples administração do existente. A apatia torna-se as-

sim não só um fenômeno de massa, mas é também teorizada como um fator positivo para a conservação da “democracia” pelos teóricos que con- denam o “excesso de demandas” como gerador de desequilíbrio fiscal e, consequentemente, de instabilidade social. Mas, como também vimos, é expressão de grande política reduzir tudo à pequena política. Em outras palavras, é por meio desse tipo de redução, que desvaloriza a política en- quanto tal, que se afirma hoje a quase incontestada hegemonia das classes dominantes. Em situações “normais”, a direita já não precisa da coerção para dominar: impõe-se através desse consenso passivo, expresso entre ou- tras coisas em eleições (com taxa de abstenção cada vez maior), nas quais nada de substantivo está posto em questão.

2. Para identificar melhor a situação atual da hegemonia no mundo, ca- beria tentar conceituar a chamada “época neoliberal” ou, se preferirmos, a época da servidão financeira. Uma análise sistemática da presente época do capitalismo “globalizado” é uma tarefa ainda não concluída por parte dos

marxistas. Contudo, ao que me parece, pode contribuir para essa análise ainda in progress uma discussão sobre a possibilidade de compreender carac- terísticas essenciais da contemporaneidade à luz do conceito gramsciano de revolução passiva. Sou cético em face dessa possibilidade. Creio que, antes de falar em revolução passiva, seria útil tentar compreender muitos fenôme- nos da época neoliberal através do conceito de contrarreforma, que também faz parte, ainda que só marginalmente, do aparato categorial de Gramsci. Antes de mais nada, recordemos brevemente as principais características da revolução passiva, termo que Gramsci recolhe do historiador napolitano Vincenzo Cuoco, mas atribuindo-lhe um novo conteúdo. Trata-se de um instrumento-chave de que Gramsci se serve para analisar os eventos do Ri- sorgimento, ou seja, da formação do Estado burguês moderno na Itália. Mas

o conceito é também utilizado por ele como critério de interpretação de

fatos sociais complexos e até mesmo de épocas históricas inteiras, bastante diversas entre si, como, por exemplo, a Restauração pós-napoleônica, o fas- cismo e o americanismo.

A hegemonia da pequena política 33

Quais são, segundo Gramsci, os traços principais de uma revolução pas- siva? Ao contrário de uma revolução popular, “jacobina”, realizada a partir de baixo – e que, por isso, rompe radicalmente com a velha ordem política e social –, uma revolução passiva implica sempre a presença de dois momen- tos: o da “restauração” (trata-se sempre de uma reação conservadora à possi- bilidade de uma transformação efetiva e radical proveniente de baixo) e o da “renovação” (no qual algumas das demandas populares são satisfeitas “pelo alto”, através de concessões das camadas dominantes). Nesse sentido, falan- do da Itália, mas expressando características universais de toda revolução passiva, Gramsci afirma que uma revolução desse tipo manifesta:

o fato histórico da ausência de uma iniciativa popular unitária no desenvol- vimento da história italiana, bem como o fato de que o desenvolvimento se verificou como reação das classes dominantes ao subversivismo esporádico, elementar, não orgânico, das massas populares, através de “restaurações” que acolheram uma certa parte das exigências que vinham de baixo; trata-se, portanto, de “restaurações progressistas”, ou “revoluções-restaurações”, ou ainda “revolu- ções passivas”. 5

O aspecto restaurador, portanto, não anula o fato de que ocorrem tam- bém modificações efetivas. A revolução passiva, portanto, não é sinônimo de contrarrevolução e nem mesmo de contrarreforma; na verdade, numa revolução passiva, estamos diante de um reformismo “pelo alto” 6 . Em outra passagem, Gramsci diz:

Pode-se aplicar ao conceito de revolução passiva (e pode-se documentar no Risorgimento italiano) o critério interpretativo das modificações moleculares, que, na realidade, modificam progressivamente a composição anterior das for- ças e, portanto, transformam-se em matriz de novas modificações. 7

Podemos resumir do seguinte modo algumas das características princi- pais de uma revolução passiva: 1) as classes dominantes reagem a pressões que provêm das classes subalternas, ao seu “subversivismo esporádico, ele-

5 Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, cit., v. 1, p. 393; grifo meu.

6 Christine Buci-Glucksmann e Göran Therborn, depois de caracterizar o Welfare State como revolução passiva, definem-no como “reformismo de Estado” (Le défi social-démocrate, Paris, Maspero, 1981).

7 Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, cit., v. 5, p. 317.

34 Hegemonia às avessas

mentar”, ou seja, ainda não suficientemente organizado para promover uma revolução “jacobina”, a partir de baixo, mas já capaz de impor um novo comportamento às classes dominantes; 2) essa reação, embora tenha como finalidade principal a conservação dos fundamentos da velha ordem, implica o acolhimento de “uma certa parte” das reivindicações provindas de baixo; 3) ao lado da conservação do domínio das velhas classes, introdu- zem-se modificações que abrem caminho para novas modificações. Portan- to, estamos diante, nos casos de revoluções passivas, de uma complexa dialética de restauração e revolução, de conservação e modernização. Ao contrário de “revolução passiva”, que é certamente um dos conceitos centrais dos Cadernos do cárcere, Gramsci emprega muito pouco o termo “contrarreforma”. Além do mais, na esmagadora maioria dos casos, o termo se refere diretamente ao movimento pelo qual a Igreja Católica, no Concí- lio de Trento, reagiu contra a Reforma protestante e algumas de suas conse- quências políticas e culturais. Mas pode-se também registrar que Gramsci não apenas estende o termo a outros contextos históricos, como busca ain- da extrair dele algumas características que nos permitem, ainda que só apro- ximativamente, falar da criação, por ele, de um conceito. Sobre a possibilidade de estender historicamente o termo, pode-se cons-

tatar que Gramsci, num parágrafo em que fala do humanismo, refere-se a uma “contrarreforma antecipada” 8 . É assim, claro, que, para ele, pode ocor- rer uma contrarreforma também diante de fenômenos históricos que não a Reforma protestante. Em outro parágrafo, no qual caracteriza as utopias como reações “modernas” e “populares” à Contrarreforma, Gramsci apre- senta um dos traços definidores desta última como sendo próprio de todas

as restaurações: “A Contrarreforma, [

de resto, como todas as restaurações,

não foi um bloco homogêneo, mas uma combinação substancial, se não for- mal, entre o velho e o novo9 . Parece-me importante sublinhar que, nessa passagem, Gramsci caracteri- za a contrarreforma como uma pura e simples “restauração”, diferentemente do que faz no caso da revolução passiva, quando fala em “revolução-restau- ração”. Apesar disso, porém, ele admite que há, até mesmo nesse caso, uma

“combinação entre o velho e o novo”. Podemos supor, assim, que a diferen-

]

8 Ibidem, v. 2, p. 157.

9 Ibidem, v. 5, p. 143; grifo meu.

A hegemonia da pequena política 35

ça essencial entre uma revolução passiva e uma contrarreforma reside no fato de que, enquanto na primeira certamente existem “restaurações” – mas que “acolheram uma certa parte das exigências que vinham de baixo” –, na segunda é preponderante não o momento do novo, mas precisamente o do velho. Trata-se de uma diferença talvez sutil, mas que tem um significado histórico que não pode ser subestimado. Uma vez esboçadas as principais determinações que as duas noções assumem em Gramsci, podemos retornar à questão formulada acima: a época neoliberal, iniciada nas últimas décadas do século XX, aproxima-se mais de uma revolução passiva ou de uma contrarreforma? A pergunta, evidentemente, não tem nenhum sentido para a própria ideologia neoli- beral. Os ideólogos do neoliberalismo gostam hoje de se apresentar como defensores de uma suposta “terceira via” entre o liberalismo puro e a so- cial-democracia “estatista” e, assim, como representantes de uma posição essencialmente ligada às exigências da modernidade (ou, mais precisa- mente, da chamada pós-modernidade) e, portanto, ao progresso 10 . Assim, a versão atual da ideologia neoliberal faz da reforma (ou mesmo da revo- lução, já que alguns gostam de falar de uma “revolução liberal”) sua prin- cipal bandeira. A palavra “reforma” foi sempre organicamente ligada às lutas dos subal- ternos para transformar a sociedade e, por conseguinte, assumiu na lingua- gem política uma conotação claramente progressista e até mesmo de es- querda. O neoliberalismo busca utilizar a seu favor a aura de simpatia que envolve a ideia de “reforma”. É por isso que as medidas por ele propostas e implementadas são mistificadoramente apresentadas como “reformas”, isto é, como algo progressista em face do “estatismo”, que, tanto em sua ver- são comunista como naquela social-democrata, seria agora inevitavelmente condenado à lixeira da história. Desta maneira, estamos diante da tentativa de modificar o significado da palavra “reforma”: o que antes da onda neoli- beral queria dizer ampliação dos direitos, proteção social, controle e limita- ção do mercado etc., significa agora cortes, restrições, supressão desses di- reitos e desse controle. Estamos diante de uma operação de mistificação ideológica que, infelizmente, tem sido em grande medida bem-sucedida.

10 Ver, entre muitos outros, Anthony Giddens, A terceira via (Rio de Janeiro, Record,

1999).

36 Hegemonia às avessas

Ao contrário, é com razão que a noção de revolução passiva pode ser ligada à ideia de reforma, ou mesmo de reformismo, embora se trate em última instância de um reformismo conservador e “pelo alto”. Como vi- mos, um verdadeiro processo de revolução passiva tem lugar quando as classes dominantes, pressionadas pelos de baixo, acolhem – para continuar dominando e até mesmo para obter o consenso passivo dos subalternos – “uma certa parte das exigências que vinham de baixo”, nas palavras já cita- das de Gramsci. Foi precisamente o que aconteceu na época do Welfare State e dos gover- nos da velha social-democracia 11 . Com efeito, o momento da restauração teve um papel decisivo no Welfare: por meio das políticas intervencionistas sugeridas por Keynes e do acolhimento de muitas das demandas das classes trabalhadoras, o capitalismo tentou e conseguiu superar, pelo menos por algum tempo, a profunda crise que o envolveu entre as duas guerras mun- diais. Mas essa restauração se articulou com momentos de revolução ou, mais precisamente, de reformismo, no sentido forte da palavra, o que se manifestou não apenas na conquista de importantes direitos sociais por parte dos trabalhadores, mas também na adoção, pelos governos capitalis- tas, de elementos de economia programática, que até aquele momento era defendida apenas por socialistas e comunistas. É certo que as velhas classes dominantes continuaram a dominar, mas os subalternos foram capazes de conquistar significativas “vitórias da economia política do trabalho sobre a economia política do capital” 12 . Deve-se recordar que o Welfare surgiu num momento em que a classe trabalhadora, através de suas organizações (sindi- cais, políticas), obtivera uma forte incidência na composição da correlação de forças entre o trabalho e o capital. Não se deve esquecer também que a revolução passiva welfariana é também uma resposta ao grande desafio ao

11 Não posso aqui desenvolver o tema, mas me parece que algumas (ainda que não mui- tas) das conquistas do Welfare State foram asseguradas aos trabalhadores urbanos, na América Latina, durante o chamado período populista. Talvez isso explique o fato de que hoje, em nosso subcontinente, o termo “populismo” venha sendo utilizado pelos neoliberais para desqualificar qualquer tentativa de escapar dos constrangi- mentos impostos pelo fetichismo do mercado.

12 A expressão é de Marx (“Manifesto de lançamento da Associação Internacional dos Trabalhadores”, em Karl Marx e Friedrich Engels, Obras escolhidas, Rio de Janeiro, Vitória, v. 1, 1956, p. 354), referindo-se à limitação legal da duração da jornada de trabalho e ao movimento cooperativista.

A hegemonia da pequena política 37

capital representado não só pela Revolução de Outubro, mas também pela presença da União Soviética, que emergia da Segunda Guerra Mundial com um enorme prestígio entre as massas trabalhadoras e os progressistas de todo o mundo. Não creio que se possa encontrar no que chamei (de modo um pouco simplista) de “época neoliberal” essa dialética de restauração-revolução que caracteriza as revoluções passivas. Na conjuntura em que estamos imersos, as classes trabalhadoras – por muitas razões, entre elas a chamada “reestru- turação produtiva”, que pôs fim ao fordismo e, portanto, às formas corres- pondentes de organização dos operários – têm sido obrigadas a se pôr na defensiva; suas expressões sindicais e partidárias sofreram um evidente re- cuo na correlação de forças com o capital. Além disso, com o colapso do “socialismo real”, diminuiu em muito a força de atração das ideias socialis- tas, que uma habilidosa propaganda ideológica identificou com o modelo “estatolátrico” vigente nos países da Europa do Leste. A luta de classes, que certamente continua a existir, não se trava mais em nome da conquista de novos direitos, mas da defesa daqueles já conquistados no passado. Não temos assim, na época em que estamos vivendo, o acolhimento de “uma certa parte das exigências que vêm de baixo”, que Gramsci considera- va, como vimos, uma característica essencial das revoluções passivas. Na época neoliberal, não há espaço para o aprofundamento dos direitos sociais, ainda que limitados, mas estamos diante da tentativa aberta – infelizmente em grande parte bem-sucedida – de eliminar tais direitos, de desconstruir e negar as reformas já conquistadas pelas classes subalternas durante a época de revolução passiva iniciada com o americanismo e levada a cabo no Wel- fare State. As chamadas “reformas” da previdência social, das leis de prote- ção ao trabalho, a privatização das empresas públicas etc. – “reformas” que estão atualmente presentes na agenda política tanto dos países capitalistas centrais quanto dos periféricos (hoje elegantemente rebatizados de “emer- gentes”) – têm por objetivo a pura e simples restauração das condições pró- prias de um capitalismo “selvagem”, no qual devem vigorar sem freios as leis do mercado. Estamos diante da tentativa de supressão radical daquilo que, como vi- mos, Marx chamou de “vitórias da economia política do trabalho” e, por conseguinte, de restauração plena da economia política do capital. É por isso que me parece mais adequado, para uma descrição dos traços essenciais da época contemporânea, utilizar não o conceito de revolução passiva, mas sim

38 Hegemonia às avessas

o de contrarreforma. (De resto, pelo menos nos países ocidentais, não se trata de uma contrarrevolução, porque neles o alvo da ofensiva neoliberal não são os resultados de uma revolução propriamente dita, mas o reformis- mo forte que caracterizou o Welfare State.) Decerto, a época neoliberal não destrói integralmente algumas conquistas do Welfare, fato que se deve so- bretudo à resistência dos subalternos. Por outro lado, nos círculos neoli- berais mais ligados à chamada “terceira via” (e até mesmo em organismos financeiros internacionais como o Banco Mundial) vem se manifestando nos últimos tempos uma “preocupação” em face das consequências mais desastrosas das políticas neoliberais (que continuam, malgrado isso, a ser aplicadas), entre as quais, por exemplo, o aumento exponencial da pobreza. Mas essa “preocupação” – que levou à adoção de políticas sociais compen- satórias e paliativas, como é o caso do Fome Zero no Brasil – não anula o fato de que estamos diante de um indiscutível processo de contrarreforma. Lembremos que Gramsci nos adverte, como vimos antes, para o fato de que “as restaurações [não são] um bloco homogêneo, mas uma combinação subs- tancial, se não formal, entre o velho e o novo13 . O que caracteriza um processo de contrarreforma não é a completa ausência do novo, mas a enorme pre- ponderância da conservação (ou mesmo da restauração) em face das even- tuais e tímidas novidades. Como se sabe, Gramsci chamou a atenção para uma importante con- sequência da revolução passiva: a prática do transformismo como modali- dade de desenvolvimento histórico, um processo que, através da cooptação das lideranças políticas e culturais das classes subalternas, busca excluí-las de todo efetivo protagonismo nos processos de transformação social. Em- bora se apresente, nas palavras de Gramsci, como uma “ditadura sem hegemonia” 14 , o Estado protagonista de uma revolução passiva não pode prescindir de um mínimo de consenso. E Gramsci nos indica o modo pelo qual as classes dominantes obtêm esse consenso mínimo, “passivo”, no caso de processos de transição “pelo alto”, igualmente “passivos”. Ele se refere à Itália, mas avança observações válidas, quando devidamente concretizadas, também para outros países e outras épocas:

13 Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, cit., v. 5, p. 143; grifo meu.

14 Ibidem, v. 5, p. 330.

A hegemonia da pequena política 39

O transformismo como uma das formas históricas daquilo que já foi observado

sobre a “revolução-restauração” ou “revolução passiva” [

transformismo: 1) de 1860 até 1900, transformismo “molecular”, isto é, as per- sonalidades políticas elaboradas pelos partidos democráticos de oposição se in- corporam individualmente à “classe política” conservadora e moderada (caracte- rizada pela hostilidade a toda intervenção das massas populares na vida estatal, a toda reforma orgânica que substituísse o rígido “domínio” ditatorial por uma “hegemonia”); 2) a partir de 1900, o transformismo de grupos radicais inteiros, que passam ao campo moderado. 15

Dois períodos de

].

Uma das razões que parecem justificar o uso do conceito de revolução passiva para caracterizar a época do neoliberalismo é precisamente a gene- ralização de fenômenos de transformismo, seja nos países centrais, seja nos periféricos. Embora não me proponha aqui a discutir mais diretamente a questão (que merece, porém, uma atenção especial), creio que o transfor- mismo como fenômeno político não é exclusivo dos processos de revolução passiva, mas pode também estar ligado a processos de contrarreforma. Se não fosse assim, seria difícil compreender os mecanismos que, em nossa época, marcaram a ação de sociais-democratas e de ex-comunistas no apoio a muitos governos contrarreformistas em países europeus, mas também fe- nômenos como os governos Cardoso e Lula num país da periferia capitalis- ta como o Brasil 16 . A definição de nossa época como caracterizada pela contrarreforma e não por uma nova revolução passiva tem implicações para nossa discussão sobre as características das atuais formas de hegemonia. Para Gramsci, como vimos, as revoluções passivas respondem a grandes desafios históricos. A época de revolução passiva iniciada com a Restauração, na Europa do sécu- lo XIX, pode ser vista como uma resposta “pelo alto” às exigências postas pela Revolução Francesa: muitas das conquistas dessa Revolução são reco- lhidas, mas ao mesmo tempo emasculadas, gerando aquilo que poderíamos

15 Ibidem, v. 5, p. 286.

16 É também o transformismo que explica a conversão, no Brasil de Lula, de impor- tantes lideranças sindicais em gestores dos fundos previdenciários públicos, ou seja, em uma nova fração das classes dominantes. Prefiro considerar que esse processo transformista gera uma fração de classe e não, como afirma Francisco de Oliveira, em Crítica à razão dualista/ O ornitorrinco (São Paulo, Boitempo, 2003), p. 147, uma nova classe.

40 Hegemonia às avessas

chamar de passagem da democracia radical para o liberalismo moderado. Algo similar ocorre no americanismo (e em sua expansão no Welfare State):

a “concessão” de direitos sociais, a adoção keynesiana de elementos de “eco- nomia programática” etc. são tentativas de responder ao desafio anticapita- lista representado pela Revolução de Outubro e pela União Soviética. Em ambos os casos de revolução passiva, ou seja, tanto na Restauração oitocen- tista quanto no americanismo-welfarismo, estavam em jogo, em última ins- tância, questões de “grande política”: no primeiro caso, a alternativa entre a democracia plebeia dos jacobinos (que já apontava para o socialismo, ainda que utópico) e o liberalismo burguês moderado; no segundo, a oposição entre socialismo e capitalismo. Ao contrário, a contrarreforma neoliberal não tem como pano de fundo nenhuma questão de “grande política”: na disputa entre republicanos e democratas nos Estados Unidos, entre traba- lhistas e conservadores na Inglaterra, entre direita e “centro-esquerda” na Itália etc., não está em jogo nenhuma opção entre diferentes modelos de sociedade. Podemos assim dizer que, na era da contrarreforma neoliberal, predomina sem grandes contrastes a hegemonia da pequena política.

3. Vivemos também, no Brasil de hoje, a hegemonia da “pequena polí- tica”. Malgrado todos os seus limites, a transição que o país experimentou entre o fim dos anos 1970 e meados de 1980 revelou, em seu ponto de chegada, um dado novo e extremamente significativo: o fato de que o Bra- sil, após mais de vinte anos de ditadura, havia se tornado preponderante- mente uma sociedade “ocidental” no sentido gramsciano do termo, ou seja, na qual existe uma “justa relação” entre Estado e sociedade civil 17 . Mas, se observarmos as sociedades “ocidentais”, veremos que elas apre- sentam dois “modelos” principais de articulação da disputa política e da representação de interesses. De um lado, há um modelo que poderíamos chamar de “norte-americano”, caracterizado (como ocorre em toda situação “ocidental”) pela presença de uma sociedade civil forte, bastante desenvol- vida e articulada, mas na qual a organização política e a representação dos interesses se dá, respectivamente, por meio de partidos frouxos, não progra-

17 “No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa; no Oci- dente, havia entre o Estado e a sociedade civil uma justa relação” (Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, cit., v. 3, p. 262).

A hegemonia da pequena política 41

máticos, e de agrupamentos profissionais estritamente corporativos 18 . De outro lado, temos um modelo que poderíamos designar como “europeu”. Neste, havia uma estrutura partidária centrada em torno de partidos com base social razoavelmente homogênea, que defendiam projetos de sociedade definidos e diversos entre si; havia ainda um sindicalismo classista, politiza- do, que não se limitava a organizar pequenos grupos profissionais, mas bus- cava agregar e representar o conjunto da classe trabalhadora. Portanto, en- quanto no “modelo norte-americano” temos partidos que defendem um mesmo projeto hegemônico de sociedade, no “modelo europeu” havia uma salutar disputa entre propostas hegemônicas alternativas. Se, nos Estados Unidos, o socialismo foi sempre uma “ideologia exótica”, na Europa ele es- teve com frequência no centro da agenda política. Para voltarmos a nosso tema: no primeiro caso, estamos diante de um modelo político centrado na “pequena política”, enquanto no segundo são postas em movimento ques- tões de “grande política” 19 . Logo após o fim da ditadura, o Brasil se viu diante dessas duas possibi- lidades de organizar sua recém-criada sociedade “ocidental”, ou seja, segun- do um modelo americano (neoliberal) ou um modelo europeu (democráti- co). Se observarmos a vida brasileira dos últimos anos, veremos que esses projetos estiveram presentes e marcaram a agenda e o cenário políticos de nosso país por quase duas décadas. Durante esse período, era marcada a distinção entre nossas duas maiores centrais sindicais: uma que se originou claramente inspirada num tipo de organização próximo do modelo europeu (CUT) e outra que de modo explícito queria imitar o modelo norte-america- no (Força Sindical). Também não é casual que tenhamos tido partidos – em particular o PT, mas também outros partidos de esquerda – organizados segundo um padrão europeu, ao mesmo tempo que tínhamos (e temos)

18 Não posso aqui aprofundar a questão, mas parece tratar-se precisamente do modelo de sociedade defendido pelos liberais que se inspiram em Tocqueville.

19 Ao falar do modelo europeu, usei sempre os verbos no passado. É que, na própria Europa, em função da atual expansão da hegemonia neoliberal no mundo inteiro, esse modelo está sendo progressivamente substituído por um modelo de tipo nor- te-americano. Os partidos políticos europeus (inclusive os partidos social-democratas e ex-comunistas) assemelham-se cada vez mais aos norte-americanos, perdendo suas características programáticas tradicionais; ao mesmo tempo, o movimento sindical começa a assumir no Velho Continente alguns traços próprios de um sindicalismo de resultados.

42 Hegemonia às avessas

partidos muito próximos do tipo “norte-americano”, como, por exemplo, o PMDB, que hoje não passa de uma federação de diversificados interesses pessoais e regionais. A presença simultânea de aparelhos de hegemonia próprios desses dois diferentes modelos revelava, de certo modo, a persistência de uma indefini- ção quanto ao tipo de sociedade ocidental que iríamos construir. Infelizmen- te, a chegada do PT ao governo federal em 2003, longe de contribuir para minar a hegemonia neoliberal, como muitos esperavam, reforçou-a de modo significativo. A adoção pelo governo petista de uma política macroeconômi- ca abertamente neoliberal – e a cooptação para essa política de importantes movimentos sociais ou, pelo menos, a neutralização da maioria deles – de- sarmou as resistências ao modelo liberal-corporativo e assim abriu caminho para uma maior e mais estável consolidação da hegemonia neoliberal entre nós. Estamos assistindo a uma clara manifestação daquilo que Gramsci cha- mou de “transformismo”, ou seja, a cooptação pelo bloco no poder das principais lideranças da oposição. E esse transformismo, que já se iniciava no governo Cardoso, consolidou definitivamente o predomínio entre nós da hegemonia da pequena política. Esse tipo de hegemonia se manifesta no fato de que a disputa política entre nós tem se reduzido a um bipartidarismo efetivo, ainda que não for- mal, centrado na alternância de poder entre um bloco liderado pelo PT e outro pelo PSDB, que não só aplicam a mesma política econômica e social, mas também praticam métodos de governo semelhantes, que não recuam diante de formas mais ou menos graves de corrupção sistêmica. Não é casual o comum compromisso desses dois blocos no sentido de “blindar” a econo- mia, ou seja, de reduzir a uma questão “técnica”, e não política, a definição daquilo que verdadeiramente interessa ao conjunto da população brasileira. Mais uma vez, hegemonia da pequena política.

4. Todas essas reflexões – certamente apressadas – são postas em questão pela atual crise global do capitalismo, que veio à tona no último trimestre de 2008. Será que teremos de novo, para essa crise, uma solução à direita, como foi o caso da vitória do nazismo depois da crise de 1929 (temor ex- presso, em recente entrevista, pelo historiador Eric J. Hobsbawm)? Será que voltaremos à adoção de políticas keynesianas, ainda que sem muitas conces- sões aos trabalhadores, como parece resultar de algumas propostas hoje postas em prática pelos principais países capitalistas? Será que continuarão

A hegemonia da pequena política 43

a vigorar, ainda que sob novas formas, as mesmas políticas neoliberais?

Ou será que, em consequência da crise, voltará a predominar a “grande política”, com uma retomada do papel antagonista das forças da esquerda e do mundo do trabalho?

É precisamente diante dessas questões que se coloca o angustiante desa- fio que atravessou nosso seminário: “decifra-me ou te devoro”. São bastante débeis hoje os recursos políticos, organizativos e teóricos de que dispõe a esquerda em todo o mundo. Por isso, ainda que viéssemos a decifrar teori- camente os enigmas de nosso tempo, o que está ainda longe de ser feito, talvez continuássemos a ser – como, de certo modo, já estamos sendo – pra- ticamente devorados. De qualquer modo, o principal desafio da esquerda hoje é recolocar a grande política na ordem do dia, único modo de quebrar

a hegemonia da pequena política e, portanto, do capitalismo em sua forma

atual, a da servidão financeira. Não se trata de uma tarefa simples. Temos muitos motivos para ser pessimistas. Mas, precisamente por isso, cabe recordar sempre o mote de Gramsci: pessimismo da inteligência, sim, mas também otimismo da vontade. Ou seja, realismo sem ilusões na análise da conjuntura, mas, ao mesmo tempo, empenho na luta para transformar essa conjuntura, para fazer com que a esquerda volte a ter uma palavra a dizer – e um papel a desempenhar – no quadro que se está abrindo em consequência dessa devastadora crise.

2

TRABALHO E CAPITALISMO, ANTES E APÓS O DESMANCHE

O TRABALHO PRECÁRIO NOS ESTADOS UNIDOS *

Arne L. Kalleberg

O crescimento do trabalho precário emerge como centro das preocu- pações contemporâneas nos Estados Unidos e em todo o mundo desde os anos 1970. Por “trabalho precário”, entendo a relação de emprego incerta, imprevisível, e na qual os riscos vinculados a ele pesam mais sobre os traba- lhadores que sobre os empregadores ou o governo. São exemplos de trabalho precário atividades no setor informal e o trabalho temporário no setor for- mal. O trabalho precário não é algo novo: existe desde os primórdios do trabalho assalariado. Contudo, certas forças sociais, políticas e econômicas que operam há décadas têm tornado o trabalho cada vez mais precário – tan- to nos Estados Unidos como no mundo 1 . Pierre Bourdieu via a précarité como a raiz da problemática social do século XXI 2 . Ulrich Beck descreveu o surgimento de uma “sociedade do risco” e uma “nova economia política da insegurança” 3 . Também se refere a esse fenômeno como um “abrasileiramento do Ocidente”. Argumenta que a sociedade do pleno-emprego chegou ao fim e vem ocorrendo uma acele- rada expansão do emprego inseguro e temporário, com descontinuidade e informalidade difusa nas sociedades ocidentais que antes eram os bastiões

* Tradução de Fernando Rogério Jardim. (N. E.)

1 Arne L. Kalleberg, “Precarious work, insecure workers: employment relations in transition”, American Sociological Review, no prelo.

2 Pierre Bourdieu, “La précarité est aujourd’hui partout”, em Contre-feux (Paris, Liber- Raison d’Agir, 1998), p. 95-101.

3 Ulrich Beck, The brave new world of work (Cambridge, Polity Press, 2000).

48 Hegemonia às avessas

do pleno-emprego. Outros autores 4 chamam os eventos do último quarto de século de “a segunda grande transformação” 5 .

O trabalho precário tem consequências de longo alcance que atravessam

inúmeros campos de interesse para cientistas sociais, bem como para traba- lhadores e suas famílias, governos e negócios. Tem gerado insegurança para muitas pessoas e consequências disseminadas e de longo alcance não apenas para a natureza do trabalho, o ambiente de trabalho e as experiências das pessoas no trabalho, mas também para diversos fatores não relacionados

a ele – fatores individuais (por exemplo, estresse e educação) e sociais (por

exemplo, família e comunidade) –, assim como para a instabilidade po- lítica. Por isso, é muito importante entender esses novos arranjos trabalhis- tas que produzem o trabalho precário e a insegurança. Tentarei, em primeiro lugar, resumir algumas das razões do crescimento do trabalho precário nos Estados Unidos. Por questão de clareza, tratarei nes- te capítulo somente do caso norte-americano, muito embora defenda que o trabalho precário constitui um desafio global. Em seguida, descreverei algu- mas das evidências do crescimento do trabalho precário e apresentarei al- gumas de suas consequências. Por fim, tecerei alguns comentários sobre os desafios que o crescimento da insegurança e do trabalho precário apresentam às políticas públicas.

As razões do crescimento do trabalho precário nos Estados Unidos

O trabalho precário das últimas décadas resulta da disseminação da glo-

balização (isto é, a interdependência econômica e seus correlatos, tais como

o aumento do comércio internacional e a aceleração dos fluxos de capital,

produção e trabalho) e da predominância do neoliberalismo (isto é, a ideo- logia que prega a desregulação, a privatização e o fim das garantias e dos direitos sociais). Tais mudanças são alimentadas pelas transformações tec- nológicas, como a computação, a informatização e os recentes avanços nas tecnologias da informação, que, por sua vez, tornaram possíveis diversos

4 E. Webster, R. Lambert e A. Bezuidenhout, Grounding globalization: labour in the age of insecurity (Oxford, Blackwell, 2008).

5 Karl Polanyi, The great transformation (Nova York, Farrar & Rinehart, 1944). [Ed. bras.: A grande transformação, Rio de Janeiro, Elsevier Campus, 2000.]

O trabalho precário nos Estados Unidos 49

aspectos da globalização. Em vários países, também vem ocorrendo uma di- minuição generalizada dos sindicatos e um crescimento pronunciado do in- dividualismo. Todos esses fatores têm contribuído para o aumento do tra- balho precário. Nos Estados Unidos, convencionou-se dizer que o período mais recente da precarização trabalhista começou na segunda metade dos anos 1970. Os anos 1974-1975 marcaram o início das transformações macroeconômicas (tais como a crise mundial do petróleo) que ajudaram a conduzir ao acirra- mento da concorrência internacional de preços. A indústria norte-americana foi desafiada de início por empresas japonesas e sul-coreanas dos setores au- tomotivo e siderúrgico, respectivamente. O processo que ficou conhecido como globalização neoliberal intensificou a integração econômica, acirrou a competição entre as companhias, ofereceu mais oportunidades para que des- locassem suas atividades para países onde os salários são mais baixos, bem como encontrassem novas fontes de mão de obra na imigração. Os avanços tecnológicos, ao mesmo tempo que forçavam as empresas a ser mais compe- titivas globalmente, tornavam isso possível para elas. Padrões diferentes de trabalho (por exemplo, nos países asiáticos) encorajaram os empregadores a transferir a produção para além-mar. Mudanças em instituições legais e outras mediaram os impactos da glo- balização e da tecnologia no trabalho e nas relações de emprego. Os sindi- catos continuaram a declinar, enfraquecendo uma fonte tradicional de ga- rantias e de proteções aos trabalhadores e rompendo o contrato social entre capital e trabalho do pós-guerra. As regulamentações governamentais que estabeleciam os mínimos padrões aceitáveis no mercado de trabalho erodi- ram com as normas que governavam a competição no mercado de produ- tos. Os sindicatos declinaram, e a desregulação trabalhista e econômica reduziu o poder das forças de equilíbrio que permitiam aos trabalhadores compartilhar ganhos de produção. Com isso, a balança do poder pendeu dos trabalhadores para os empregadores. As inúmeras mudanças políticas associadas à eleição de Ronald Reagan em 1980 aceleraram a ascendência dos negócios e o declínio do trabalho e deram liberdade às empresas e aos capitalistas para perseguir seus interes- ses desenfreados. A desregulação e a reorganização das relações de emprego permitiram uma expressiva acumulação de capital. As políticas públicas nos Estados Unidos – como a substituição dos programas assistenciais [welfare] por frentes de trabalho [workfare] em meados dos anos 1990 – tornaram

50 Hegemonia às avessas

essencial para as pessoas ter um trabalho pago remunerado, forçando-as com frequência a empregos mal pagos. Mudanças ideológicas na direção do individualismo e da responsabili- dade pessoal pelo trabalho e pelo sustento deram suporte àquelas mudanças estruturais. O lema “você está em suas mãos” [you’re in your own] substituiu

o “nós estamos juntos nisso” [we’re all in this together] 6 . A revolução neoli- beral se espalhou pelo mundo, enfatizando a centralidade dos mercados e as soluções de mercado: a privatização dos recursos públicos e o fim das pro- teções estatais em vários países. Essas mudanças no nível macro, iniciadas na metade dos anos 1970, levaram os empregadores a buscar mais flexibilidade em sua relação com os empregados. O ideário neoliberal no plano social espelhou o importante papel desempenhado pelas forças de mercado nos locais de trabalho, ero- dindo o modelo organizacional burocrático dos vínculos empregatícios pa- drões, pelos quais se admitia que os empregados trabalhassem a vida toda para determinado empregador em particular, frequentemente progredindo na carreira devido ao mercado interno de trabalho 7 . As tentativas em busca da flexibilidade conduziram os gerentes a vários tipos de reestruturação, os quais, por sua vez, levaram ao aumento do trabalho precário e a transforma- ções na natureza da relação de emprego 8 . Tudo isso teve e continua a ter efeitos de longo alcance em toda a sociedade.

O duplo movimento

O trabalho precário não é algo novo, mas pode ser visto historicamente como condição “normal” das economias capitalistas. Nos Estados Unidos,

a maior parte do trabalho era precária e a maioria dos salários era instável

até o final da Grande Depressão 9 . Até os anos 1930, pensões e planos de saúde eram coisas das quais nem se ouvia falar entre a classe operária; e os

6 Jared Bernstein, All together now: common sense for a new economy (São Francisco, Berrett-Koehler Publishers, 2006)

7 Peter Cappelli, The New Deal at work: managing the market-driven workforce (Bos- ton, Harvard Business School Press, 1999).

8 Paul Osterman, Securing prosperity: how the American labor market has changed and what to do about it (Princeton, Princeton University Press, 1999).

9 Sanford M. Jacoby, Employing bureaucracy: managers, unions and the transformation of work in the 20 th century (Nova York, Columbia University Press, 1985).

O trabalho precário nos Estados Unidos 51

demais benefícios – como aqueles associados às experiências do capitalismo de bem-estar social do fim do século XX – dependiam mais da docilidade dos trabalhadores que dos direitos adquiridos e manifestos 10 .

A criação de uma economia de mercado no século XIX exacerbou a pre- cariedade durante esse período. Em A grande transformação, Karl Polanyi des- creveu os fundamentos organizacionais da sociedade industrial dos séculos

XIX e XX em termos de uma luta de “movimento duplo”. O primeiro deles

foi guiado pelos princípios do liberalismo econômico e do laissez-faire, os quais encorajaram o estabelecimento e a manutenção de mercados flexíveis e livres (eis a primeira “grande transformação”). O segundo foi dominado por mudanças na direção das proteções sociais, que foram, por sua vez, reações às disrupções psicológicas, ecológicas e sociais que os mercados desregulados impuseram à vida das pessoas (essa é a segunda “grande transformação”). A longa luta histórica em torno das garantias trabalhistas, que emergiram como reação às consequências negativas da precariedade, foi vencida nos anos 1930 pelas conquistas do New Deal e outros planos 11 .

Evidências do aumento do trabalho precário nos Estados Unidos

Podemos coletar várias evidências de que o trabalho precário vem real- mente crescendo nos Estados Unidos. Vejamos.

1. Declínio do vínculo empregatício

Vem ocorrendo um declínio geral no tempo médio que o trabalhador permanece com um empregador. Isso varia conforme subgrupos específi-

cos: a estabilidade no emprego tem crescido no caso das mulheres, ao passo

que vem decaindo no caso dos homens (apesar de os níveis de estabilidade

das mulheres continuarem substancialmente inferiores aos dos homens no

setor privado). O declínio da estabilidade no emprego é especialmente pro- nunciado entre homens brancos mais velhos – o grupo que havia sido o

mais protegido pelos mercados internos de trabalho 12 .

10 Richard Edwards, Contested terrain: the transformation of the workplace in the twen- tieth century (Nova York, Basic Books, 1979).

11 Sanford M. Jacoby, Employing bureaucracy, cit.

12 Peter Cappelli, Talent on demand: managing talent in an age of uncertainty (Boston, Harvard Business Press, 2008); Henry S. Farber, “Short(er) shrift: the decline in

52 Hegemonia às avessas

2. Crescimento do desemprego de longa duração

Os trabalhadores desempregados há muito tempo (definidos como aque- les sem emprego por seis meses ou mais) são os mais propensos a sofrer danos psicológicos e econômicos. Em contraste com o que acontecia nos períodos anteriores, a porcentagem de desemprego de longa duração se manteve relativamente alta nos anos 2000. A considerável proporção de indivíduos desempregados que encontraram dificuldade para obter nova colocação no mercado de trabalho após a recessão de 2001 deve-se, prova- velmente, tanto às baixas taxas de crescimento do emprego quanto aos desafios enfrentados pelos trabalhadores em indústrias como a da manufa- tura, cujos empregos foram perdidos 13 .

3. Aumento da percepção de insegurança no emprego

A precariedade está intimamente relacionada à percepção de insegurança

no trabalho. Embora existam diferenças individuais na percepção da insegu-

rança e do risco, as pessoas têm, em geral, cada vez mais medo de perder seu emprego – em grande parte porque as consequências dessa perda se torna- ram muito mais graves nos últimos anos – e estão menos seguras de conse- guir postos comparáveis.

A análise feita por Kalleberg e Marsden sobre os dados da General So-

cial Survey para o período de 1977 a 2006 mostrou que a percepção de insegurança no emprego – tanto a probabilidade de perder o atual como a dificuldade de conseguir outro semelhante – aumentou durante o período estudado, após ajustes em variações cíclicas no desemprego intimamente relacionadas com a insegurança perceptível 14 . Esse aumento na percepção da insegurança no emprego é regularmente disseminado no interior das forças de trabalho, sustentando a visão de que o trabalho precário tem se

worker-firm attachment in the United States”, em Katherine S. Newman (org.), Laid off, laid low: political and economic consequences of employment insecurity (Nova York, Columbia University Press, 2008).

13 Lawrence Mishel, Jared Bernstein e Heidi Shierholz, The state of working America 2008/2009 (Ithaca/ Nova York, ILR/ Cornell University Press, 2009).

14 Arne L. Kalleberg e Peter V. Marsden, “Labor force insecurity and U.S. work atti- tudes, 1970s-2006”, em Peter V. Marsden (org.), Social trends in the United States, 1972-2006: evidence from the General Social Survey (Princeton, Princeton University Press, 2009).

O trabalho precário nos Estados Unidos 53

tornado mais difundido. Além disso, podemos encontrar algumas evidên- cias que mostram que a insegurança no emprego cresceu mais rapidamente entre aquelas ocupações que antes eram as mais estáveis e seguras (como os trabalhadores de colarinho branco).

4. Aumento do trabalho temporário e dos arranjos de trabalho não usuais e não formais

Os empregadores conseguiram facilmente ajustar suas reservas de mão de obra às condições da demanda, criando cada vez mais arranjos de trabalho não usuais e não formais, como os trabalhos temporário e subcontratado. Em meados dos anos 1990, dados coletados de uma amostra represen- tativa de empresas norte-americanas indicaram que mais da metade delas comprava produtos ou serviços de outras empresas 15 . Exemplos de tercei- rização em setores específicos ilustram a predominância e a disseminação desse fenômeno: indústrias de alimentos, serviços de zeladoria, contabili- dade, atividades burocráticas e rotineiras, transporte hospitalar, atividades militares (como o emprego de soldados mercenários da Blackwater * no Iraque) e a terceirização das atividades de repressão à imigração, agora nas mãos de oficiais de justiça locais, refletindo a deliberação contida na se- ção 287(G) do programa de Segurança Nacional. Contudo, o ponto-chave com respeito à terceirização é a ameaça que oferece, porque virtualmente todos os empregos podem ser terceirizados (exceto, talvez, aqueles que re- queiram contato pessoal, como assistência médica domiciliar e preparação de alimentos), inclusive os bem-remunerados colarinhos-brancos, vistos an- tes como protegidos. O setor ligado às agências de auxílio temporário cresceram numa taxa anual de mais de 11% entre 1972 e o fim dos anos 1990 (o crescimento do percentual da população empregada nos Estados Unidos foi de 0,3% para

15 Arne L. Kalleberg e Peter V. Marsden, “Externalizing organizational activities: where and how U.S. establishments use employment intermediaries”, Socio-Economic Re- view, n. 3, 2005, p. 389-416.

* Fundada em 1996 pelo milionário republicano Erik Prince, a empresa Blackwater destacou-se após a invasão do Afeganistão, fornecendo mercenários subcontratados ao governo norte-americano. O Pentágono transformou então as empresas privadas de segurança em uma força integrante das operações contra o terror, colocando par- te das baixas e dos crimes de guerra fora do escrutínio da opinião pública. (N. T.)

54 Hegemonia às avessas

2,5% em 1998) 16 . Os trabalhadores temporários continuam sendo uma porção relativamente pequena da mão de obra total, porém a instituciona- lização da indústria de assistência temporária faz aumentar a precariedade, dado que torna todos nós potencialmente substituíveis por trabalhadores temporários. Nem os salões da Academia estão imunes às transformações na América. Por exemplo, houve um declínio dos postos e dos cursos de tempo integral nas universidades entre 1973 e 2005, acompanhado do cres- cimento do regime de tempo integral para cargos não formais e cursos em período parcial durante o mesmo período. Com isso, a profissão que Aro- nowitz chamou de “o último bom emprego na América” 17 está também se tornando precário, com prováveis consequências negativas no longo prazo, como a queda da qualidade dos professores.

5. Crescimento da transferência dos riscos dos empregadores para os empregados

O último indicador do aumento do trabalho precário é a transferência para os empregados dos riscos dos empregadores 18 – o que muitos autores encaram como a principal característica do trabalho precário 19 . Essa trans- ferência de riscos é ilustrada pelo crescimento proporcional de planos de pensão e assistência hospitalar (em que os empregados pagam a maior parte dos prêmios e correm mais riscos do que seu patrão) e o declínio de planos de benefícios (em que os patrões absorvem mais riscos que os empregados, ao garantir certos níveis de benefícios) 20 .

16 Arne L. Kalleberg, “Nonstandard employment relations: part-time, temporary, and contract Work”, Annual Review of Sociology, n. 26, 2000, p. 341-65.

17 Stanley Aronowitz, The last good job in America: work and education in the new global technoculture (Lanham, Rowman & Littlefield, 2001).

18 Michael J. Mandel, The high-risk society: peril and promise in the new economy (Nova York, Random House, 1996); Richard Breen, “Risk, recommodification and strati- fication”, Sociology, v. 31, n. 3, 1997, p. 473-89; Jacob Hacker, The great risk shift (Nova York, Oxford University Press, 2006).

19 Ulrich Beck, The brave new world of work, cit., e Sanford M. Jacoby, “Risk and the labor market: societal past as economic prologue”, em Ivar Berg e Arne L. Kalleberg (orgs.), Sourcebook of labor markets: evolving structures and processes (Nova York, Klu- wer Academic/ Plenum Publishers, 2001).

20 Ver Lawrence Mishel, Jared Bernstein e Sylvia Allegretto, The state of working Ame- rica 2006/2007 (Ithaca/ Nova York, ILR/Cornell University Press, 2007).

O trabalho precário nos Estados Unidos 55

Consequências do trabalho precário

É importante examinarmos o trabalho precário porque ele traz inúme-

ras consequências negativas para indivíduos, famílias e sociedades. O traba-

lho está relacionado a vários outros aspectos sociais, políticos e econômicos,

e, por isso, o crescimento da precariedade e da insegurança traz efeitos de

longo alcance, tanto para fenômenos ligados ao trabalho como para aqueles alheios à questão.

O trabalho precário causa insegurança e volatilidade econômica para os

indivíduos e seus familiares, contribui para o crescimento da desigualdade econômica e reforça os sistemas distributivos já desiguais e injustos dos Estados Unidos.

O trabalho precário também traz uma vasta gama de consequências

para indivíduos que estão fora do mercado de trabalho. Polanyi afirmava

que o funcionamento desregulado do livre mercado deslocava as pessoas

física, psicológica e moralmente 21 . Os impactos da incerteza e da inseguran-

ça sobre a saúde e o estresse dos indivíduos são fartamente documentados 22 .

A experiência da precariedade também corrói a identidade individual e pro-

move a anomia, como afirma Sennet 23 .

Além disso, o trabalho precário tem tornado a vida das famílias mais difícil e insegura. A incerteza sobre o futuro pode afetar o processo de to- mada de decisões dos casais sobre questões importantes, como a escolha do momento mais adequado para casar e ter filhos, ou o número de filhos que poderão ter.

O trabalho precário afeta também as comunidades, podendo conduzir

à perda do engajamento social, como indica o declínio da participação em

associações de voluntários e organizações comunitárias, da confiança e do capital social em geral 24 . Isso pode provocar mudanças na estrutura das co- munidades, porque as pessoas que perdem seus empregos por falência da

21 Karl Polanyi, The great transformation, cit., p. 73.

22 Hans De Witte, “Job insecurity and psychological well-being: review of the litera- ture and exploration of some unresolved issues”, European Journal of Work and Or- ganizational Psychology, v. 8, n. 2, 1999, p. 155-77.

23 Richard Sennett, The corrosion of character: the personal consequences of work in the new capitalism (Nova York, W. W. Norton, 1998).

24 Robert Putnam, Bowling alone: the collapse and revival of American community (No- va York, Simon & Schuster, 2000).

56 Hegemonia às avessas

empresa ou redução de custos podem não estar mais aptas a viver na comu- nidade (embora também não possam vender suas casas, se o período sem emprego for prolongado) e os recém-chegados podem não ser capazes de se fixar num trabalho sem garantias.

A insegurança também aumenta as tensões sociais. A precariedade

pode contribuir para atitudes negativas dos nativos contra os imigrantes, já que as comunidades experimentam uma usurpação por parte dos re- cém-chegados – tanto legais como ilegais – que se dispõem a trabalhar por salários mais baixos e a tolerar condições de trabalho piores do que aquelas aceitas pelos nativos. A insegurança e a perda de oportunidades de recontratação também podem agravar a criminalidade e o enfraqueci- mento da vida política.

O trabalho precário e as políticas públicas

O crescimento do trabalho precário gera novos desafios e oportunida-

des para sociólogos que buscam explicar esse fenômeno e desejam contri- buir para a criação de políticas públicas eficazes para enfrentar suas caracte-

rísticas e consequências emergentes. Atualmente, há um vácuo teórico em nossa compreensão dos mecanismos produtores de precariedade, bem como de suas soluções. Esse vácuo oferece um espaço intelectual para que cientis- tas sociais expliquem a natureza do trabalho precário e ofereçam possíveis soluções em políticas públicas. Os economistas atualmente dominam as discussões. Os especialistas em trabalho, por exemplo, saíram à frente ao elaborar estudos detalhados sobre o que vem acontecendo no universo do trabalho, oferecendo aos responsáveis pelas políticas públicas importantes descrições e dados que merecem ser discutidos. Visto que as questões acerca do trabalho precário e da insegurança no emprego têm raízes nas forças sociais e políticas – e visto que a economia, como Polanyi e tantos outros notaram, está incrus- tada nas relações sociais –, os sociólogos e demais cientistas têm hoje a extraordinária oportunidade de ajudar a formar políticas públicas, ex- plicando como os fatores culturais e institucionais em sentido amplo produzem a insegurança e a desigualdade. Tais explicações são o primei- ro passo essencial para o planejamento de políticas eficazes que visem atingir as causas e os efeitos da precariedade e, com isso, reescrever o con- trato social.

O trabalho precário nos Estados Unidos 57

Todos os países industrializados enfrentam hoje o dilema básico de equilibrar segurança (devida à precariedade) e flexibilidade (devida à com- petição) – as duas dimensões do “movimento duplo” descrito por Polanyi. Os governos têm conseguido solucionar o dilema de diversas maneiras; contudo as soluções são sempre locais e específicas a contextos particulares. Em alguns países, o socialismo foi implantado justamente para lidar com as incertezas associadas à rápida mudança social. Mas, por volta do fim dos anos 1980, esse sistema caiu em desgraça e o capitalismo se tornou o sistema econômico predominante. A questão agora é saber que arranjos institucio- nais alternativos serão postos em prática para reduzir os riscos dos emprega- dores e a insegurança dos empregados. O grau com que os empregadores conseguem transferir seus riscos para os empregados depende do poder re- lativo dos operários diante dos patrões. Nesse aspecto, diferentes regimes de emprego têm produzido diferentes soluções.

Segurança no emprego versus segurança no mercado de trabalho

A relação entre a precariedade e a insegurança econômica e outras tende

a variar conforme o país, dependendo das garantias trabalhistas e sociais

oferecidas além das condições do mercado de trabalho. Por isso, o emprego

precário não varia de país para país da mesma forma que a insegurança. Isso corresponde à distinção entre insegurança no trabalho e insegurança do mercado de trabalho: os trabalhadores em países com melhor proteção so- cial são menos propensos a experimentar a insegurança do mercado de tra- balho, embora não necessariamente menos insegurança no emprego 25 . As políticas públicas devem buscar atingir dois objetivos centrais. Em primeiro lugar, é improvável que as forças que conduziram ao crescimento do trabalho precário venham a perder impacto tão logo e tão fácil, dado o atual modelo hegemônico do livre mercado global. Sendo assim, políticas públicas eficazes devem ajudar as pessoas a lidar com o caráter inseguro e incerto de seu trabalho ou emprego (e a consequente confusão, incerteza

e caos em suas vidas) e ao mesmo tempo manter algo da flexibilidade que

25 Christopher J. Anderson e Jonas Pontusson, “Workers, worries and welfare states:

social protection and job insecurity in 15 OECD Countries”, European Journal of Political Research, v. 46, n. 2, 2007, p. 211-35.

58 Hegemonia às avessas

os empregadores demandam para competir num mercado de âmbito mun-

dial. Em segundo lugar, as políticas públicas também precisam estimular (sempre que possível) a geração de empregos não precários.

A necessidade mais premente é a assistência médica a todos os cidadãos

que não esteja ligada a nenhum empregador particular, quer dizer, um ser-

viço médico pessoal e portável*. Isso reduziria muitas das consequências negativas associadas ao desemprego e à mudança de emprego. Outra neces- sidade é a cobertura de pensões transferíveis que complementem a previ-

dência social e ajudem as pessoas a se aposentar com dignidade. Melhores serviços assistenciais são indispensáveis para contrabalançar os riscos do de- semprego e da volatilidade do salário e da renda 26 . Essas formas de assistên- cia e segurança devem estar disponíveis a todos. Também devemos gerar empregos menos inseguros. As políticas públi- cas devem encorajar os empresários a criar vagas mais estáveis e melhores, restabelecendo os padrões mínimos do mercado de trabalho (por exemplo, um salário mínimo) ou oferecendo isenções fiscais às empresas que investi- rem no treinamento de funcionários e outras estratégias “pró-ativas”. Con- tudo, depender da iniciativa privada para gerar empregos bons e estáveis é uma estratégia limitada, uma vez que as próprias empresas estão relati- vamente precarizadas. Abordagens tipicamente keynesianas de criação de cargos públicos podem gerar empregos mais seguros, bem como satisfazer muitas das necessidades nacionais prementes, como a reforma da infraes- trutura e a melhoria da situação de empregos atualmente mal pagos e pre- cários em setores ligados à saúde e aos cuidados com idosos e crianças. A atual crise financeira tem contribuído para criar oportunidades de imple- mentação de medidas à la Keynes.

A habilidade dos trabalhadores no exercício da representação coletiva –

por meio de sindicatos e outros órgãos – é essencial para o sucesso de esforços sérios para lidar com o trabalho precário e criar contramovimentos democrá- ticos que possam implementar modalidades de fomento e proteção social a fim de resolver os problemas gerados pelo trabalho precário ou produzir em-

* Serviços “portáveis” são aqueles que continuam disponíveis a seus titulares mesmo após estes serem desligados da empresa que os oferecia. Por exemplo: caso seja por- tável e pessoal, o plano de saúde de um funcionário continuará sendo oferecido a ele mesmo após sua demissão. (N. T.)

26 Jacob Hacker, The great risk shift, cit.

O trabalho precário nos Estados Unidos 59

pregos mais seguros. Além disso, a natureza mundial dos problemas rela- cionados à precariedade evidencia a necessidade de as soluções nacionais estarem ligadas a organismos transnacionais, regulamentações trabalhistas internacionais e outros esforços globais 27 . Esse contramovimento democrático também deve estar engajado com as políticas públicas por meio de um sério debate sobre as formas da globa- lização. Devemos criar uma nova consciência internacional que veja a glo- balização como um conjunto particular de escolhas políticas, e não como uma característica inevitável e imutável do progresso econômico. Esse de- bate é cada vez mais crítico hoje, dado o agravamento e a amplitude mun- dial da atual crise financeira. O caso dinamarquês mostra que é possível ter um aumento de precarie- dade para o empregador e, mesmo assim, as políticas públicas locais conse- guirem garantir uma segurança relativamente alta e boa no mercado de trabalho. Na Dinamarca, a segurança em qualquer emprego (individual) é relativamente baixa, porém a segurança no mercado de trabalho (como um todo) é razoavelmente alta, visto que é oferecida uma boa dose de proteção e auxílio aos trabalhadores desempregados para que encontrem uma nova colocação (como complemento de renda e treinamento profissional). Esse famoso sistema de “flexigurança” combina “regras flexíveis para empregado- res contratarem e demitirem e mecanismos de segurança social para todos os trabalhadores” 28 . O exemplo da “flexigurança” sugere que temos boas razões para ser otimistas quanto à eficácia de intervenções adequadas nas políticas públicas dirigidas ao problema da precariedade.

Conclusões

As mudanças estruturais que conduziram às relações de emprego ins- táveis e ao trabalho precário não são constantes – nem são irreversíveis e inevitáveis as consequências das forças econômicas. Os níveis de precarie- dade variam de organização para organização dentro dos Estados Unidos,

27 Beverly J. Silver, Forces of labor: workers’ movements and globalization since 1870 (Cambridge, Cambridge University Press, 2003) [ed. bras: Forças do trabalho: movi- mentos de trabalhadores e globalização desde 1870, São Paulo, Boitempo, 2005]; E. Webster, R. Lambert e A. Bezuidenhout, Grounding globalization, cit.

28 Niels Westergaard-Nielsen (org.), Low-wage work in Denmark (Nova York, Russell Sage Foundation, 2008), p. 44.

60 Hegemonia às avessas

dependendo do poder relativo de empregados e empregadores, assim como da natureza de seus contratos sociais e psicológicos. Além disso, a ampla variedade de soluções para o dilema da flexibilidade e da segurança, adota- das por diferentes regimes de emprego ao redor do globo, sublinham o potencial das forças políticas, ideológicas e culturais para moldar a organi- zação do trabalho e a necessidade de soluções mundiais. Há muitos obstáculos à implementação de formas de proteção e promo- ção social como os que destaquei aqui. Não obstante, o claro entendimen- to da natureza do problema combinado com a identificação de alternativas possíveis e a vontade política para alcançá-las – apoiada pela força coletiva dos operários – oferecem a promessa de um contramovimento efetivo.

TRABALHO E REGRESSO:

ENTRE DESREGULAÇÃO E RE-REGULAÇÃO

Leonardo Mello e Silva

Quando se trata de enfrentar a discussão sobre classes sociais é difícil, na abordagem sociológica convencional, fugir a certo esquematismo classi- ficatório. A inclusão da temática dos movimentos sociais tornou, sem dúvi- da, mais complexo o debate sobre classes, mas é discutível que tenha avan- çado na direção de um patamar que se possa dizer que tenha colocado os termos do debate em um plano superior àquele em que os clássicos o deixa- ram. O recurso ao historiador Edward P. Thompson não é tão incomum, mas, afora a apropriação que dele fazem os historiadores do trabalho, a re- missão à noção de que a classe é seu “fazer-se” e que, no fim, “esta é sua única definição” 1 parece muito menos uma solução que um atalho para fu- gir do verdadeiro problema de seu tratamento sistemático. Na verdade, o que a “definição” thompsoniana de classe indica é que o trabalho analítico começa desse ponto, e não termina nele – como se não houvesse nada mais a fazer além dessa constatação. É preciso demonstrar o “fazer-se”. A ideia subjacente de que não existe uma classe trabalhadora, mas clas- ses trabalhadoras é estimulante, porém esbarra numa objeção que também é provocativa: se as classes trabalhadoras são sempre definidas de forma alar- gada, baseada em experiências comunitárias, religiosas e consuetudinárias que vão muito além e aquém do trabalho fabril, então o que torna a classe trabalhadora historicamente específica? Será que a devastação neoliberal foi tão completa a ponto de ter apagado inteiramente os valores (igualdade, solidariedade, companheirismo) que a classe trabalhadora capitaneou por longos e heroicos tempos?

1 Edward P. Thompson, A formação da classe operária inglesa: A árvore da liberdade (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997, v. 1), p. 12.

62 Hegemonia às avessas

Em texto anterior 2 , foi apresentado o funcionamento de um tipo de ino- vação organizacional e produtiva – as células de produção – em sua conexão com as exigências de qualidade, flexibilidade e reestruturação das empresas. Ali, o mote era o “desmanche” da classe social. Este capítulo segue no mes- mo caminho e pode ser visto como continuidade do anterior. São evidencia- das agora as precondições institucionais para as mudanças que ocorrem no nível dos processos de trabalho fabris. As medidas oriundas das chamadas “reformas trabalhistas” são aqui abordadas, sempre tendo em vista sua cone- xão com o trabalho concreto e a maneira como os agentes sociais afetados reagem a elas. Esses agentes são – mesmo que à custa da enorme heteroge- neidade e diversidade das situações – participantes de uma classe social. A maneira que este texto escolheu para tratar do problema da classe so- cial diante das mudanças contemporâneas do trabalho foi a de considerar círculos concêntricos de abrangência que partem de uma situação particu- lar (micro) e caminham para uma órbita mais includente (macro). Assim, o caminho foi: 1) considerar a população das fábricas que foram objeto de estudo anterior, no setor de confecções, com carteira assinada e direitos, co- mo classe trabalhadora (no singular); 2) analisar a relação salarial sob a qual ela está submetida; 3) perseguir as mudanças advindas em um dos susten- táculos mais importantes da forma institucional da regulação entre capital e trabalho: as leis trabalhistas (duas medidas em particular são elencadas e discutidas: a Participação nos Lucros e Resultados e o Banco de Horas); 4) colocar em perspectiva as expectativas políticas da parcela até então mais combativa do movimento sindical, a CUT, diante da disjuntiva recusa ver- sus instrumentalização do aparato regulatório, e quanto tal disjuntiva escon- de um dilema mais fundamental entre corporativismo e pluralismo.

1. A produção celular, o taylorismo e o fordismo:

um olhar do presente para o passado

No sistema dito “de linha”, que é o da produção em série, uma mesma operação é repetida de modo contínuo por várias operadoras num mesmo espaço físico, possibilitando uma escala razoavelmente conhecida em ter-

2 Leonardo Mello e Silva, “O desmanche da classe: apontamentos em torno de uma pesquisa”, em Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, A era da indeterminação (São Paulo, Boitempo, 2007).

Trabalho e regresso 63

mos de quantidade, baseada num tempo médio associado àquela quanti- dade. A produtividade é média, uma razão entre quantidade de peças (ou produtos em processo) e tempo, em que a diferença de performance de cada uma das operárias é diluída no grupo. O balanceamento entre as peças ou

produtos em processo é feito apenas a posteriori, quando se comparam os estoques de uma seção com outra (a fornecedora com a cliente), e pode-se então mensurar qual das seções complementares está “atrás” ou “à frente” da outra. Nesse caso, o ajuste, ou balanceamento, é um ajuste entre seções.

O que ocorre no sistema “em linha” é o processo clássico e bem conhe-

cido da linha de montagem, isto é, o reconhecimento de um conjunto de operações relativamente desqualificadas (especializadas), em que as operá- rias que realizam as mesmas tarefas não têm razão para cobrar produção umas das outras, uma vez que o sequenciamento é, por assim dizer, coleti- vo, e não individual. As chances de conflito interindividual em torno de quantidades, prazos e qualidade tornam-se, em tese, bem diminutas, por-

que isso é feito adiante, não por elas e nem sequer pelas operárias das pró- ximas seções, mas pelos encarregados funcionais de zelar pelo equilíbrio de produção das seções. Alguns monitoram os parâmetros de preferência dos escritórios, como os engenheiros de produção; outros circulam pela fábrica, como os encarregados, os supervisores e outro tipo de pessoal intermediário que age como correia de transmissão entre o planejamento da produção e sua efetivação concreta.

O sistema de células de produção funciona como exato reverso do mo-

delo descrito acima. Agora são as operárias que devem realizar o ajuste que antes ficava a cargo das seções. A compatibilidade é verificada não mais a posteriori, ou seja, não é mais “lançada para a frente”, mas sancionada em tempo real, no momento em que as peças são manufaturadas, uma vez que a célula se encarrega de produzir a peça inteira – ou quase inteira. Nesse de- senho, não há mais possibilidade de diluir as cobranças entre as operá- rias, pois a proximidade e a evidente checagem das quantidades e qualida- des complementares das peças fazem com que a atenção esteja voltada não apenas para a própria operação, mas também para a operação da colega. Portanto, o sistema de produção celular é “coletivo” e “agregador” ape- nas na aparência; na verdade, ele é individualizante, e não “grupal”. O gru- po encontra-se aqui inteiramente submetido a uma lógica socioeconômica mais ampla, mediada pela inserção da fábrica no circuito de valorização das

mercadorias que ela produz. Lógica que, por sua vez, obedece às regras

64 Hegemonia às avessas

da competição interempresas no mercado (global) de produtos de seu ramo de atividade, e que rebate na forma como as operárias se comportam em seu labor diário: uma forma em que a flexibilidade é incorporada no julgamen- to de si e das colegas, isto é, do entorno próximo, bem como na constitui- ção de sua própria subjetividade. Do ponto de vista da extração da produtividade, as coisas se passam de maneira não tão evidente, uma vez que estão envolvidos níveis desiguais de análise: um nível mais empírico e outro mais subterrâneo, cujas lógicas respectivas nem sempre se superpõem, conduzindo, por isso mesmo, a uma certa confusão terminológica – afinal, como um sistema baseado na produ- tividade individual (o taylorismo) pode ter se convertido num parâmetro coletivo de medida da produtividade (o fordismo) e como o atual modelo flexível se situa diante desses dois? A produção em linha evoca imediatamente o fordismo. Como se sabe,

o

fordismo parte do princípio de decantação de tarefas associadas a tempos

e

movimentos, típico do taylorismo 3 . No entanto, o fordismo não se presta

a

um tipo de remuneração “por produção”, como ocorre nas células. O tipo

característico do salário fordista é uma remuneração que traduz uma orga- nização coletiva da produção, inadequada para um tipo de remuneração baseada no rendimento individual dos operários, como no taylorismo. Este último pressupõe a mecanização dos ciclos de movimentos do trabalhador, sua simplificação e repetição sistemática, a fim de que possam ser inseridos no processo de trabalho. Sua unidade é o tempo necessário para efetuar completamente a operação. Uma tarefa é um conjunto de operações pres- critas, porque previamente decantadas – estudadas, analisadas e reduzidas a unidade de tempo. A remuneração que advém da tarefa cobre a eficiência (número de peças por unidade de tempo) do ato individual de trabalho, não o conjunto das tarefas diferentes e complementares, que se encontram separadas sequencial e fisicamente na fábrica. O salário taylorista dá conta da variabilidade do trabalho individual (porque modula, enquadra seu mo- do operatório), mas não da variabilidade do conjunto. O problema do tay- lorismo é o problema da integração das seções que são responsáveis por ta- refas específicas para a confecção do produto final.

3 Michel Aglietta, Regulación y crisis del capitalismo (Cidade do México, Siglo XXI, 1979); Benjamin Coriat, L’atelier et le chronomètre (Paris, Christian Bourgois, 1982).

Trabalho e regresso 65

Quando as trabalhadoras do setor de confecção do caso estudado 4 se queixam de que seu trabalho é muito intenso porque têm de “dar produção”, elas estão denunciando o caráter taylorista das células. Nesse sentido, a indi- vidualização é a experiência que traduz objetivamente o tipo de inserção pro- dutiva da operária sob o sistema celular. Elas são, no fundo, cobradas por sua produtividade individual, não por uma suposta “produtividade coletiva”. No entanto, a existência de um “salário-base”, ao lado do “prêmio” ou “bônus” por produtividade, denuncia também a persistência de um rendimento mé- dio para o trabalho naquele ramo. A diferenciação de remuneração que o prêmio possibilita dá-se, contudo, sob uma base reconhecida de remune- ração média para o trabalho da costureira na indústria de confecção, uma remuneração que resulta de uma norma social. Por outro lado, a posição re- lativa entre o salário-base e o salário por produtividade na equação final da remuneração das operárias varia de acordo com a capacidade da categoria profissional das costureiras de forçar uma norma coletiva da remuneração social (média) do ramo ou setor: quanto mais o salário por produtividade se impõe, como resultado da percepção de que ele traduz com mais fidelidade a produtividade do posto de trabalho, mais o salário-base decresce em rela- ção ao salário por produtividade. E é de fato isso que ocorre nos exemplos estudados, quando as informantes acusam o papel fundamental do prêmio para a composição do ganho salarial no fim do mês. O efeito líquido é a in- dividualização dos salários e o incremento da competição entre trabalhado- res 5 , além da percepção distorcida de que tal ganho é o correspondente fiel do esforço empreendido por cada uma em sua especificidade produtiva, en- tendido aquele como o conjunto agregado e indissociável, na pessoa, de vá- rios componentes: dispêndio de energia, cuidado, treinamento, dedicação e investimento subjetivo na execução da tarefa. O salário, ao fim e ao cabo, remuneraria esse conjunto agregado para cada uma individualmente:

O interesse de todos os capitalistas coincide com o de cada trabalhador indivi- dual, considerado isoladamente. O salário por empreitada apresenta, pois, para a classe capitalista a vantagem ideológica, nada desprezível, de fazer crer que o salário está ligado ao trabalho como categoria econômica, já que os salários in- dividuais variam em função das diferenças na intensidade do trabalho. 6

4 Leonardo Mello e Silva, “O desmanche da classe”, cit.

5 Michel Aglietta, Regulación y crisis del capitalismo, cit., p. 120.

6 Idem.

66 Hegemonia às avessas

Fazer desaparecer o nexo social de constituição da classe trabalhadora, sua qualificação coletiva, seus vínculos de aprendizado, de trocas recíprocas de ajuda material e de entendimento simbólico do mundo, na medida em que consolidam uma posição de “nós” por oposição ao “eles” 7 , eis a resul- tante da individualização dos salários, um processo social que corresponde ao que Bourdieu denomina propriamente de “amnésia de origem”. No entanto, a relação salarial que consagra a individualização do rendi- mento é a rigor pré-fordista, isto é, corresponde a uma fase da produção capitalista em que a coletivização dos meios de trabalho e das forças produ- tivas não atingiu um nível de maturidade a ponto de anular as diferenças de produtividade de postos de trabalho desbalanceadamente diferentes. Quan- to mais se aproxima desse nível forçosamente coletivo, mais a contraparti- da salarial se aproxima do salário-base, ao invés do salário por produtivida- de. Ao fim e ao cabo, o que o capitalista paga é sempre o valor médio de um determinado bem ou serviço, embora essa correspondência esteja escondida pela relação (aparente) de retribuição justa entre esforço e rendimento. Nas formas mais coletivas (mais fordistas) de processo de trabalho, o ajuste des- ses desbalanceamentos é feito via modificação da norma de produção: colo- cando a meta num patamar mais elevado ou difícil, mais tempo os operários terão de despender para alcançá-la. O trabalho se intensifica e se enrijece, enquanto a norma de rendimento pelo trabalho efetuado naquele interva- lo dilui os ganhos para aqueles que eventualmente são capazes de ir além da norma. O perigo dessa estratégia de forçar a norma de produção é provocar a unificação do coletivo de trabalho, pois fica claro que ninguém é capaz de alcançar a meta. No sistema de células, a norma coletiva de produção é deliberadamente quebrada pelo arranjo flexível das máquinas e dos grupos responsáveis por elas (o layout em U), e os lotes não são mais contínuos, mas diversificados, de acordo com a demanda. A integração do processo produtivo não é mais buscada no fim (a posteriori), mas no início, no momento da manufatura, pelos próprios trabalhadores 8 . Isso muda a concepção de como o rendimen-

7 Stéphane Beaud e Michel Pialoux, Retour sur la condition ouvrière (Paris, Fayard, 1999) [ed. bras.: Retorno à condição operária. São Paulo, Boitempo, 2009]; Theo Nichols e Huw Beynon, Living with capitalism (Londres, Routledge/Kegan Paul, 1977).

8 No mesmo sentido em que se fala em uma “gestão pelos estoques” no modelo japo- nês (Benjamin Coriat, “Ohno e a Escola Japonesa de Gestão da Produção: um pon- to de vista de conjunto”, em Helena Hirata, Sobre o modelo japonês: automatização,

Trabalho e regresso 67

to coletivo do trabalho pode ser salarialmente recompensado. As formas já conhecidas de salário por produtividade têm de novo lugar. As células põem em funcionamento uma modalidade já experimentada de relação salarial, fazendo agora a parcela do salário por produtividade avançar sobre a parce- la do salário-base. Quando se adiciona a observação histórica de que os con- vênios coletivos e a negociação salarial são elementos lacunares do arcabou- ço institucional das relações industriais no Brasil, torna-se mais nítido um quadro em que começa a fazer sentido a ideia de uma formação social na qual o taylorismo pode germinar sem necessariamente desembocar no for- dismo, como aconteceu de modo paradigmático com as economias desen- volvidas do centro do capitalismo. Os limites da gestão pelo grupo e as formas deletérias que daí derivam para os participantes das células, como foi fartamente documentado pelo estudo das células de produção, são de dois tipos: econômicos e sociais. Econômicos porque dependem da capacidade do coletivo de trabalho de assegurar o avanço do componente do salário-base contra o componente do salário por produtividade. No fundo, é aquele que fornece o parâmetro para a norma de rendimento produtiva, e para a relação salarial então pre- dominante. Sociais porque dependem do grau de tolerância e de aceitabilidade em relação ao tipo de competição interpares, ao contínuo autocontrole e à des- confiança mútua, enfim, um ambiente organizacional carregado e tenso, que parece duro de manter sem acarretar sérios danos ao bem-estar físico e men- tal dos que nele estão imersos todos os dias. Com relação aos primeiros, veremos a seguir as peripécias recentes, no Brasil, das formas institucionais que mais diretamente afetam as relações de trabalho: as mudanças na legislação trabalhista, a partir do governo FHC. Com relação aos segundos, os relatos de estudos de caso (aqui, das fábri- cas de confecção e vestuário), conquanto parciais e limitados a um único setor industrial, parecem falar por si mesmos.

2. As principais medidas da reforma trabalhista hoje

Os argumentos empresariais direcionam suas críticas basicamente para dois aspectos das relações de trabalho vigentes no país: em primeiro lugar,

novas formas de organização e de relações de trabalho, (São Paulo, Edusp/ Aliança Cul- tural Brasil-Japão, 1993), pode-se falar aqui em uma “gestão pelo grupo”.

68 Hegemonia às avessas

para o que consideram a excessiva carga de contribuições associadas ao tra- balho assalariado formal (alguns cálculos chegam a 100% do salário-base); em segundo lugar, para a excessiva proteção legal, que dificulta a demissão. Isso teria estimulado o recurso à subcontratação e a formas de contrato atí- picos, isto é, diferentes do padrão do trabalho assalariado formal no país atualmente (44 horas semanais, com carteira de trabalho). Tais formas de trabalho atípicas seriam: o contrato por tempo determinado, o trabalho por tempo parcial, o recurso aos estágios como forma disfarçada de trabalho, a perenização dos trabalhadores subcontratados etc. Na visão dos empresários, seria justamente o excesso de regulação estatal do mercado de trabalho que alimentaria a segmentação: como a legislação trabalhista é muito detalhista, estimularia o descarte dos trabalhadores oriundos do mercado formal (porque seriam muito “caros”) e sua substitui- ção por trabalhadores do mercado informal. Um núcleo muito pequeno de trabalhadores e empregados essenciais seria mantido, enquanto a larga maioria seria buscada nas margens desse mercado. Caso a regulação do tra- balho não fosse tão rígida, as diferenças entre os dois “mercados” talvez pu- desse ser menor, aproximando os dois e minando as fontes da heterogenei- dade. Para os empresários, o mercado informal aproxima-se mais do modelo de um verdadeiro mercado de trabalho liberal do que o mercado formal, que não seria propriamente um “mercado”, em razão da alta inci- dência de externalidades. Os argumentos críticos, sustentados pelos sindicatos e pelos assalariados em geral, vão exatamente no sentido oposto: reconhecem a clivagem entre o formal e o informal, porém afirmam que uma maior homogeneidade do mercado de trabalho deve ser buscada não pela aproximação das condições do primeiro (mais regulado) às do segundo (menos regulado), mas o contrá- rio, isto é, pela inclusão da massa de trabalhadores atípicos no padrão do contrato de trabalho formal por tempo indeterminado, com todos os direitos e benefícios associados a ele. Portanto, ambas as posições admitem a realida- de “partida” do mercado de trabalho brasileiro, no entanto o diagnóstico é divergente, dependendo de para que polo o conjunto deve se orientar – for- mal ou informal. Como se pode depreender, esse não é um quadro muito diferente da tendência mundial, exceto pelo fato de que, nos países emergen- tes em geral, com passado populista ou corporativista, o informal é exces- sivamente desregulado e o formal é excessivamente regulado, se tomarmos como parâmetro de comparação os países de industrialização mais antiga.

Trabalho e regresso 69

O que se vai apresentar a seguir são as principais medidas flexibiliza- doras do contrato de trabalho formal no Brasil, desde mais ou menos uma década e meia. São proposições do Executivo ou do Legislativo que intro- duzem, a partir dos anos 1990, emendas na Consolidação das Leis do Tra- balho (CLT) ou em artigos da Constituição que tratam das relações de trabalho ou da proteção social em sentido amplo (os direitos sociais). Os projetos de mudança legal significam uma importante tentativa de altera- ção dos marcos institucionais das relações industriais no país. Essas medidas são todas de caráter flexibilizante, como apontam os autores que estudam a matéria há mais tempo 9 . Tais medidas atravessaram dois governos, de orientações políticas di- ferentes: o governo de Fernando Henrique Cardoso, de orientação marca- damente neoliberal, e o governo Lula, de centro-esquerda. A postura de ambos tem se pautado, no tocante às reformas da legislação trabalhista, por um comportamento muito similar quanto ao procedimento. Esse com- portamento pode ser definido da seguinte forma: delegar ao máximo para os “agentes” ou “atores coletivos” (capital e trabalho) o formato que a nova legislação trabalhista deve tomar, pois os dois lados admitem, em tese, que

a velha ordem (a CLT) é antiquada e deve ser substituída. A palavra de or-

dem nos dois campos é o bipartismo, uma vez que a interferência estatal

é considerada prejudicial pelos empresários. Já a principal central sindical

(a CUT) persegue exatamente uma distância formal do governo, evitando com isso uma identificação direta com ele, pois essa era a imagem do antigo trabalhismo dos anos 1940-1960, corrente do “velho sindicalismo” da qual

ela busca se distanciar. Não há uma articulação orgânica e explícita entre sindicatos e governo (conforme se pôde vivenciar nas experiências so- cial-democratas ou neocorporativas), devendo os primeiros disputar seu espaço como qualquer outro ator coletivo no “‘mercado político”. O plu-

9 Márcio Pochmann e Amilton Moretto, “Reforma trabalhista: a experiência interna- cional e o caso brasileiro”, Cadernos Adenauer, Rio de Janeiro, ano 3, v. 2, 2002; Andréia Galvão, Neoliberalismo e reforma trabalhista no Brasil (tese de doutorado em Ciências Sociais, Campinas, Universidade Estadual de Campinas, 2003); José Dari Krein, “Balanço da reforma trabalhista no governo FHC”, em Marcelo Weishaupt Proni e Wilnes Henrique, Trabalho, mercado e sociedade: O Brasil nos anos 90 (São Paulo, Unesp, 2003); idem, Tendências recentes nas relações de emprego no Brasil (tese de doutorado em Economia Aplicada, Campinas, Universidade Estadual de Cam- pinas, 2007).

70 Hegemonia às avessas

ralismo passa a ser o tom dominante do governo no tratamento com as centrais sindicais. Com esse panorama do conjunto de medidas para a reforma das leis tra- balhistas, a partir de meados dos anos 1990, chega-se à conclusão inequívo- ca de que o vetor originário dessas medidas de reforma é o Poder Executivo, porém o complicador é que elas pareciam fazer eco a uma longa e histórica demanda do “novo sindicalismo” (autonomia em relação ao Estado). Tais medidas reformistas vieram “de cima”, como que forçando à negociação. Neste texto, vai-se proceder à análise de duas dessas medidas: a Partici- pação nos Lucros e Resultados (PLR) e o Banco de Horas. A primeira será vista com mais detalhe; a segunda, de forma mais rápida. Ambas afetam de modo direto a organização do trabalho, uma vez que passam a incorporar na norma legal o mesmo princípio por trás do just-in-time e da flexibilidade.

2.1. A Participação nos Lucros e Resultados (PLR)

2.1.1. Histórico

A Participação nos Lucros e Resultados (PLR) foi instituída inicialmen-

te para substituir a política salarial do governo. Por causa da cultura infla-

cionária vigente até 1994, quando foi lançado o plano de estabilização da moeda (Plano Real), a política salarial era muito importante para proteger

os salários, pois concedia reajustes automáticos. O governo buscava desven- cilhar-se de qualquer forma de indexação e, por isso, passou a estimular a livre negociação. Não por razões democráticas, mas por razões econômicas.

A política salarial funcionava como baliza para as categorias profissionais,

ainda que não fosse capaz de repor as perdas acarretadas pela corrosão infla- cionária. Mal ou bem, os trabalhadores tinham a certeza de que teriam uma compensação salarial – ao menos anualmente – e que esse direito poderia ser reivindicado legalmente, no caso de os patrões se recusarem a provê-la. A li- vre negociação, ao contrário, jogava a responsabilidade para as partes, isto é, empresários e sindicatos, sem a interferência do governo. Por essa razão, não se pode caracterizar essa medida como neocorporativa, uma vez não está pre- sente uma concertação de interesses de base tripartite, com contrapartidas recíprocas entre Estado, empresários e sindicatos. A livre negociação conce- bida pelo governo de então assentava-se sobre uma base de justificação plu- ralista, cuja raiz doutrinária reside no direito individual de escolha.

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A livre negociação e a contratação coletiva como bandeiras históricas do

movimento sindical representado pela CUT assentam-se, ao contrário, no direito coletivo de escolha, e é com base nessa compreensão que ela criti- ca o sistema corporativista de relações de trabalho (1943-1988, porém não completamente extinta em alguns artigos) 10 , pois o trabalho não é nem livre nem autônomo: é compulsório, atrelado e tutelar. A justificativa dos for- muladores desse sistema, os chamados pensadores autoritários do primeiro terço do século vinte, era a de que o povo brasileiro não estava ainda madu- ro para a democracia 11 .

Já a principal central concorrente da CUT, a Força Sindical, seguindo

nesse tópico o mesmo entendimento da CGT, da qual saiu, objetava que a livre negociação poderia beneficiar os sindicatos fortes e prejudicar os me-

nores e sem recursos para fazer face ao poder do patronato. Por razões di- versas (basicamente porque não estão preocupados com a solidariedade de classe, mas com os “cidadãos” atomizados vivendo em um mercado ideal-

mente perfeito, em que todos podem escolher sem constrangimentos), os economistas liberais da escola da escolha pública chegam à conclusão aná- loga: políticas setoriais ou orientadas devem ser substituídas por políticas horizontais, dado que privilegiar uns em detrimento de outros poderia le- var à injustiça; situações diversas no ponto e partida devem, portanto, ser evitadas por princípio. Os sindicalistas da Força Sindical também defen- dem as pequenas e médias empresas (PMEs) em nome da justiça.

O mesmo raciocínio, deslocado para um nível mais abstrato, vale muta-

tis mutandis para o sindicalismo em sentido largo: como a parcela dos tra- balhadores sindicalizados é sempre bem menor do que o universo dos traba- lhadores potencialmente “sindicalizáveis”, entendidos estes últimos como a população ocupada, os sindicatos representam na verdade uma minoria dos trabalhadores como um todo – e menos ainda as centrais, uma vez que há muitos sindicatos que não estão ligados a nenhuma central. Desse modo, qualquer acordo firmado entre a parcela organizada dos assalariados e o em- presariado se dará necessariamente a expensas dos setores menos organiza-

10 Atualmente está em discussão uma reforma sindical que pretende atacar a maior parte dos itens remanescentes do sistema corporativista de relações de trabalho, reu- nidos na Consolidação das Leis do Trabalho (editada em 1943) e ainda vigente.

11 Maria Célia Paoli, “Os direitos do trabalho e sua justiça: em busca das referências democráticas”, Revista da USP, São Paulo, n. 21, 1994, p. 101-15.

72 Hegemonia às avessas

dos e desprotegidos por instituições com poder de fogo. Eis a tese da “coa- lização de interesses” entre os sindicatos mais fortes e os setores empresariais igualmente mais fortes. Quando o governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), elei- to logo após o lançamento do Plano Real, propõe a livre negociação, ele o faz em nome de um antigo pleito de liberdade sindical e de negociação di- reta – um pleito que, doutrinariamente, estaria dentro do espírito da mo- dernização das relações de trabalho e com o qual, como vimos, a CUT também concordava, mesmo antes de constituir-se como central (1983), ainda quando seus principais dirigentes eram apenas líderes sindicais com- bativos do “novo sindicalismo”. O sentido da modernização em FHC, no entanto, já fora contaminado pelo entendimento liberal do termo – sua expressão na racionalidade instrumental se tornaria saliente quando co- locada em perspectiva com os demais elementos de seu projeto: privati- zações, redução do papel social do Estado, competitividade como selecio- nador de talentos, extensão do contrato como relação social dominante, inserção da economia no mercado globalizado e demais medidas destina- das a tirar o país do “atraso”. No entanto, a livre negociação, tal como concebida pelo governo, tinha limites: os acordos tinham um teto, isto é, não poderiam caracterizar um aumento real de salário, a fim de evitar comportamentos de reajustes de preços. Em suma, a livre negociação foi imposta de cima (por Medidas Pro- visórias, um instrumento jurídico excepcional pelo qual o Presidente da Re- pública edita leis que passam a vigorar sem a apreciação do Parlamento, que só posteriormente pode derrubá-las ou acatá-las) e sob condições (estabele- ce patamares de tolerância para os acordos salariais), de maneira que se tor- na impreciso chamá-la verdadeiramente de “livre”. Os efeitos da medida no plano da organização do trabalho e, portanto, na relação entre empregados e gerentes nas firmas particulares fazem-se sentir de modo direto e indireto. Indiretamente porque impõem uma fle- xibilidade salarial que se desvencilha das antigas amarras da política sala- rial. Diretamente porque, ao conectar-se com as demais ferramentas da lean production (produção enxuta), permitem associar o rendimento do trabalho com a produtividade obtida pela aplicação de métodos raciona- lizadores na produção. Enquanto a política salarial resumia uma época de maior previsibilidade e estabilidade (a despeito do ritmo cumulativo de remarcação de preços), a livre negociação e, depois, a PLR vão caracterizar

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mais adequadamente o período subsequente, de flexibilidade e inconstân- cia. Sai de cena um tipo de regulação do trabalho, ainda que autoritário, e entra a desregulação. O novo panorama, no entanto, muito mais pró-empresa porque den- tro do espírito da reestruturação produtiva e da globalização, não foi alcan- çado por um desenvolvimento autônomo dos principais atores coletivos (capital e trabalho), mas induzido abertamente pelo Estado, com um novo conjunto regulatório das relações de trabalho que inclui, além da PLR, o Banco de Horas, a obrigatoriedade das Comissões de Conciliação Prévia, a possibilidade do trabalho por tempo determinado etc. Trata-se de um con- junto de medidas que visam adequar o mercado de trabalho ao ambiente de flexibilidade. A partir de 1995, os sindicatos embarcaram no experimento, realizan- do negociações em que esteve presente a PLR. A ideia era “‘usar” a oportu- nidade para fazer valer a livre negociação tal como pensado antes. Muitos advertiram que a conjuntura poderia ser desfavorável, dado que a iniciativa estava com “os patrões” e assumir a proposta poderia significar perda de di- reitos. Outros, mais realistas, lembravam que o quadro crescente de crise e desemprego, com a constante ameaça de fechamento de fábricas ou des- locamento para áreas com custos menores, não deixava muita alternativa além de negociar para tentar perder o mínimo. Outro fator que contribuiu para a adesão dos sindicatos foi que a PLR, nos termos da lei, exige a participação sindical na negociação, que é feita na forma de uma comissão de PLR. Na concepção original da CUT, era preci- so forçar a entrada dos sindicatos na negociação de resultados e metas, pois isso levaria a aumentar sua importância no interior das fábricas, onde têm dificuldades para atuar por falta de espaços institucionais que prevejam sua atuação ali: as comissões de fábrica, embora previstas em lei, não são a re- gra, e menos ainda as comissões sindicais de fábrica. Também prevista na lei estava a possibilidade de acesso aos dados eco- nômicos da empresa, para que se possa checar se os montantes distribuí- dos como acréscimo nos salários correspondem efetivamente a tudo o que a empresa pode ceder, se ela não está “escondendo o jogo” etc. Portanto, um apelo persuasivo de transparência e democratização da informação nas rela- ções de trabalho também acabou desempenhando um papel não negligen- ciável na aceitação da proposta pelos sindicatos, afinal eles sempre bateram na tecla da importância de os trabalhadores não serem tratados como meros

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“braços”, mas também como “‘cidadãos”, o que significa ter acesso a infor- mações para poder escolher e deliberar de modo consciente sobre todos os assuntos, inclusive aqueles da fábrica. O apelo da PLR no sentido da trans- parência e da participação parecia um eco longínquo da histórica bandeira de “intervenção no processo de trabalho”. Duas consequências podem ser indicadas com a medida. Em primeiro lugar, aproximar a PLR da “remuneração variável”, antiga proposta patro- nal. Em outros termos, a produtividade deixa de ser concebida como um

prêmio coletivo e passa a ser concebida como uma questão individual, não sendo mais incorporada ao salário. Do ponto de vista das empresas, a pro- dutividade coletiva, por ser uma média, falseia os custos; já a produtividade do pequeno grupo (célula ou time) – e, no limite, a produtividade de cada trabalhador – é mais fiel. Nas fábricas que adotam o sistema de prêmio ou bônus, estes passam a cobrir a diferença entre a percepção do salário “cheio”

e o salário decomposto em parte fixa mais parte variável, sendo que esta

última fica vinculada à produtividade. Assim, os operários ou operárias têm de trabalhar mais para obter o mesmo montante que antes, como remune- ração pelo labor despendido. Não deixa de ser curioso que, de acordo com levantamento do Dieese, as cláusulas de reajustes ligados à produtividade, anteriormente negociadas no âmbito das convenções coletivas, ficaram de fora dos acordos de PLR. Em segundo lugar, a PLR permite ao patronato um poderoso instru- mento para esterilizar a negociação coletiva, uma vez que esta não corres- ponde às realidades diferenciadas das empresas, em termos de tamanho, rentabilidade, origem de capital, tecnologia etc. Realidades diferenciadas deveriam levar, reza o argumento, a negociações diferenciadas, por em- presa. De fato, a PLR afastou-se pouco a pouco da negociação coletiva

de ramo ou setor e concentrou-se no âmbito das empresas. Hoje, ela é

parte constitutiva da regulação interna da vida das fábricas e afeta as po- líticas de recursos humanos na medida em que estas últimas têm de levar em conta mais um reforço dos métodos de gestão baseados em resultados

e metas. É como se a política de remuneração estivesse em harmonia com

a política de gestão. Relatos de representantes e assessores de sindicatos fazem saber que a PLR ganhou espaço e legitimidade na base, deixando

a negociação salarial em segundo plano; ademais, ela significa um acrés-

cimo monetário na renda do trabalhador, o que atrai imediatamente o in-

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teresse 12 . Nesse último aspecto, é um poderoso componente que indivi- dualiza a classe. Há ainda dois aspectos que merecem ser mencionados. O primeiro é que os benefícios da PLR não são incorporados ao salário fixo e, por isso, não recai sobre ela a carga fiscal que incide, por sua vez, sobre aquele, o que é claramente vantajoso para os empregadores. O segundo é que, paradoxal- mente, a PLR normatiza a flexibilidade, tornando-a uma regra geral: se an- tes esses abonos eram uma complementação cujo parâmetro era o salário fixo, agora o parâmetro são as metas, além dos resultados (lucros) da empre- sa 13 . O deslocamento é sutil (porque, do ponto de vista nominal, o rendi- mento percebido pelo trabalhador pode não ter sofrido grande variação), mas está em fase com a ideia geral de substituir a política salarial, que pres- supõe uma massa homogênea, por uma remuneração variável, que pressu- põe, ao contrário, diferenças específicas associadas à inconstância do ciclo econômico. Trata-se de uma estaca no coração do fordismo. E uma confu- são para um sindicalismo que, historicamente, vem pleiteando a negociação direta com o patronato 14 . Com a proposta de um “sistema democrático de relações de trabalho”, um modelo influenciado pela arquitetura negocial macro-micro idealizada pela central CGIL italiana e veiculado pela CUT a partir de meados dos anos 1990, buscava-se escapar dessa armadilha, cha- mando a atenção para os perigos da derrogabilidade do macro pelo micro, fato que foi corrigido a tempo.

12 Ciente disso, a recomendação da CUT foi que, nas negociações da PLR, um teto de 15% da remuneração anual do trabalhador não poderia ser transposto, pois isso po- deria comprometer a própria negociação salarial em si, isto é, os reajustes e aumen- tos válidos para toda a categoria. Atualmente, os acordos já estão desimpedidos do controle anterior quanto ao teto.

13 Na verdade, a resolução normativa sobre a PLR nada mais fez do que sancionar igualmente para todas as categorias, ramos e empresas a “regra” da flexibilidade da remuneração, uma vez que, antes da lei, muitas empresas na prática já adotavam procedimento semelhante, por meio de abonos, prêmios, décimo quarto salário ou dedicações acrescidas ao salário fixo, a título diverso, como riscos à saúde, acessibi- lidade ao local do trabalho e, finalmente, lucros auferidos no período.

14 Por causa das características do sistema de relações de trabalho corporativo, essa pos- sibilidade sempre foi relegada. O grande salto representado pelo chamado “novo sindicalismo”, quando este surgiu em 1978-1979, foi exatamente a instituição da negociação direta entre metalúrgicos e representantes patronais, sem a mediação do Estado.

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2.1.2. Como a PLR é negociada

São três os âmbitos institucionais em que a PLR pode ser implementa- da: 1) na convenção coletiva de categoria; 2) no acordo coletivo de empresa; 3) unilateralmente, quando a empresa apresenta uma proposta fechada. A sequência obedece a um gradiente de maior para menor abrangência públi- ca e geral. Nos dois primeiros casos, a implementação é feita por intermédio de comissão formada para esse fim, com participação sindical. No último caso, não há propriamente negociação e o sindicato fica de fora. Numa pu- blicação de 1999, o Dieese acusa 1.659 acordos coletivos por empresa e apenas 59 convenções coletivas, quando se trata de cláusulas que incluem alguma forma de remuneração variável que possa caracterizar uma modali- dade de PLR. O que ocorre é que as convenções coletivas acordam metas para serem atingidas pelo conjunto do setor, porém não estipulam valo- res – estes ficam na dependência do desempenho das empresas em parti- cular. Portanto, como se pode notar, a PLR é talhada para a empresa. Como é um tipo de acordo que obedece às características desta (em termos de ta- manho, origem do capital, histórico de rentabilidade etc.), é muito difícil estabelecer uma regulamentação generalizante. Ela pode associar o ganho complementar a algum resultado imediato do grupo ou de cada trabalha- dor individualmente, sem ter de remeter a um acordo guarda-chuva. “Cada realidade é uma realidade”, reza o mantra gerencial, e não é “justo” que uma seção (de fábrica) ganhe o mesmo que outra, se a primeira é mais produtiva que a segunda. Alguns observadores ponderam que as metas são ardilosamente monta- das umas contra as outras para evitar justamente que sejam atingidas. Por exemplo: a meta de atendimento ao cliente versus a meta de redução de despesas indiretas (reduzir despesas indiretas implica deixar de atender ao cliente); ou ainda: as metas de redução de acidentes e maior segurança do trabalhador versus aumento do ritmo e intensificação do trabalho. O exem- plo de uma fábrica de ferramentas de São Paulo mostra, pelo acompanha- mento da série de metas desde a sua implantação, que elas parecem ter sido colocadas num patamar impossível de ser atingido na integralidade 15 . Re- latos a respeito dessa empresa chamam a atenção, ademais, para a mecânica de funcionamento: o acompanhamento mensal das metas era efetuado em

15 A descrição da qual foi extraído o exemplo está em Debate & Reflexões, n. 12, maio 2004, p. 51-65.

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reuniões periódicas com os trabalhadores e isso gerava um sentimento dis- seminado de cobrança; um quadro de indicadores acompanhava o anda- mento comparativo entre o que fora estipulado e o que fora de fato reali- zado, o que foi interpretado pelo sindicato como uma forma de pressão e intensificação do trabalho. Essas reuniões eram ocasiões em que um traba- lhador cobrava do outro o não atingimento de metas, pois isso significava, afinal, uma remuneração menor. Assim, de forma lenta, mas persistente, observou-se uma junção entre a remuneração de tipo variável em substitui- ção da fixa e a intensificação do ritmo e da carga de trabalho. Exatamente como acontece nas células de produção das fábricas estudadas 16 . O processo de fazer passar a antiga compreensão da responsabilidade coletiva para a no- va compreensão da responsabilidade pessoal e individual é mediada, preci- samente, pelas mudanças na remuneração, naquele ponto, portanto, que afeta diretamente a sobrevivência e apela para a necessidade. Pode-se constatar, então, que o que acontece com as células tem um cor- respondente funcional na PLR e, como se verá mais à frente, no Banco de Horas. Quanto à modalidade da negociação da PLR, pode-se dizer que os acor- dos têm formato bipartite, por “autocomposição dos interesses”, ou seja, não há intervenção da Justiça do Trabalho nem casos de conciliação, media- ção ou arbitragem, mesmo privada 17 . Quanto à justificação da negociação da PLR entre empregados e patrões, vale a pena explorar um argumento que circulou no meio sindical e que, por tabela, toca num tópico importan- te das relações de trabalho no país. Ele diz respeito ao poder das bases para impor um acordo favorável à coletividade do trabalho, seja no setor, seja na empresa. O argumento a favor da livre negociação, sustentado pelo sindica- lismo cutista, opõe o sistema tutelar do corporativismo à organização por local de trabalho, vista como meio de assegurar uma representação de fato dos trabalhadores, aproximando o sindicato das bases. Esse argumento foi levantado muitas vezes em nome da “autonomia” da ação diante da institui- ção (sindicato).

16 Leonardo Mello e Silva, “O desmanche da classe”, cit.

17 No entanto, há registros de casos em que o auxílio de uma terceira parte é buscado. Ver artigo de José Dari Krein e Ana Tércia Sanches em Debates & Reflexões, n. 12, maio 2004, p. 161-75.

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Aos olhos dos cutistas, portanto, a livre negociação era o ácido que iria corroer o sistema corporativo, quebrando o círculo funcional de interesses de cúpula, presente mesmo depois que a Constituição de 1988 permitiu a organização de centrais sindicais. A PLR deveria aproveitar a “janela de oportunidade” oferecida pela reforma trabalhista e impor o projeto original da “democracia no local de trabalho”. A livre negociação ou livre contratação, formulada nos primórdios de constituição do novo sindicalismo, era contrária à presença estatal nos as- suntos entre empregados e empregadores, fosse esse ou não um traço de postura “liberal pluralista” na negociação coletiva 18 , o que ensejou muita polêmica entre os analistas. De toda a forma, é lícito conjecturar que a pre- valência do ideário sobre democracia, autonomia e participação que atingia o mundo do trabalho correspondia também, na época, à crítica à presença do Estado na vida social e à valorização do associativismo, da auto-organi- zação da sociedade e da sociedade civil. Essa convergência é vista por alguns autores como a confirmação da dominância de temas liberal-democráticos no interior da intelligentsia brasileira, com ramificações nos debates sobre organização sindical e estrutura corporativa, o que forçosamente conduzia, em termos mais abstratos, à discussão sobre a relação entre Estado e socie- dade – ou Estado e sociedade civil 19 . No entanto, entre os elementos do conjunto do ideário liberal-demo- crático estão incluídos, além dos temas da democracia, do pluralismo, da autonomia e da participação, a valorização dos direitos individuais. Ora, essa caracterização não é muito apropriada para o movimento sindical, pois ali se trata exatamente da representação de direitos coletivos. Como mui- tos autores têm enfatizado, os direitos individuais do trabalhador estão muito bem guardados na CLT (enquanto os direitos individuais qua cida- dão possam estar reprimidos na esfera pública – como aconteceu no perío- do ditatorial), diferentemente dos direitos coletivos, que são abafados em sua manifestação autônoma. A agenda e a bandeira da “contratação coleti- va” visavam justamente clarificar essa ótica, separando-a de uma mera tra- dução liberal 20 para as relações de trabalho.

18 Maria Hermínia Tavares de Almeida, Crise econômica e interesses organizados (São Paulo, Edusp, 1996), p. 153.

19 Ibidem, p. 154.

20 “Barganha coletiva entre agentes situados no mercado”, afirma Maria Hermínia Ta- vares de Almeida, em Crise econômica e interesses organizados, cit., p. 163.

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Já do outro lado do debate, o movimento sindical representado pelo

“novo sindicalismo” significava a possibilidade de unir o movimento ope- rário e sindical como um movimento social, agora não como parcela saída do Estado, isto é, não como um “membro” de seu corpo (imagem, de res- to, muito própria ao corporativismo), mas como parte e parcela da socie- dade civil.

A breve digressão histórica sobre o significado da livre negociação ajuda

a explicar certas escolhas programáticas do presente, entre elas a estratégia de ganhar influência. Na negociação da PLR com as empresas, o sindicato tenta influenciar no âmbito do acordo coletivo, e quando não há represen- tantes do sindicato na comissão instituída para esse fim precípuo. As comis- sões têm de ser eleitas pelos trabalhadores da empresa, e muitas vezes o sin- dicato não está presente nelas. Como a legislação que instituiu a PLR prevê sempre a participação sindical, isso força que esse ator social não esteja

ausente do processo 21 . A inclusão dessa exigência foi sem dúvida o resultado do peso social considerável que o movimento social adquiriu no processo de redemocratização, já com as centrais sindicais consolidadas, em meados dos 1990, quando o processo dito de “flexibilização das leis trabalhistas” começou pela via da remessa de Projetos de Lei e Medidas Provisórias.

A ideia dos sindicatos era que a comissão de PLR poderia servir como

uma modalidade de organização por local de trabalho. O aconselhável era comprometer os trabalhadores da própria empresa na negociação, em vez de simplesmente alocar para a comissão um diretor sindical que não conhe- cesse as realidades específicas, o histórico das relações de trabalho micro etc. Ao invés de de cima para baixo, de baixo para cima: essa era a máxima or- ganizativa do sindicalismo. Há, porém, um problema sério relacionado às garantias dos membros que negociam o acordo. Não há previsão de estabi- lidade para os trabalhadores que fazem parte da comissão de PLR. Isso acar- reta, na prática, a substituição por negociadores sindicais e o esvaziamento do propósito de aproximar a comissão de uma OLT (organização por local de trabalho), como deseja a CUT.

21 Embora o sindicato possa ser apenas comunicado da decisão tomada pela comissão, sem ter tido qualquer participação no acordo. Ele corre riscos se se colocar frontal- mente contra o acordo, porque a empresa pode atribuir a culpa a ele pelo emper- ramento de negociações que, ao fim ao cabo, renderão um acréscimo salarial para os empregados. De qualquer forma, o sindicato deve chancelar o acordo. Ele se torna o “depositário” do acordo de PLR.

80 Hegemonia às avessas

Por outro lado, em setores ou empresas sem presença sindical, o argu- mento de que a comissão de PLR pode reforçar a OLT passa a ser mais per- tinente: ao assegurar ganhos materiais via PLR, forçando às empresas a conceder mais do que propõem de início, os membros dos sindicatos que participam das negociações, na melhor das hipóteses, ganham legitimidade

diante dos empregados da empresa, os quais passam a se mobilizar para de- fender a atividade deles ali e eventualmente para se tornar os próprios líde- res. Na pior das hipóteses, começam a ter um conhecimento melhor do lo- cal de trabalho, até então impenetrável. Um dado, contudo, confirma a suspeita de que a PLR veio para quebrar um padrão coletivo de demandas da classe trabalhadora, padrão que reforça

a homogeneidade ou igualdade de seus membros e que se consubstanciava

na política salarial: ela passa a ser incorporada aos momentos de campanha salarial das categorias e, portanto, deixa de ser encarada como um “acessó- rio”, sendo agora tomada como “parte” do salário. Nesse sentido, as empre- sas passaram a jogar com a possibilidade de propor um reajuste bem abaixo do esperado (tendo como baliza a inflação passada), a fim de sacar a PLR da manga para chegar ao índice proposto pelo lado sindical. Em suma, ela dei- xou de seguir seu propósito original e foi sendo utilizada como arma nas convenções coletivas, a favor do lado patronal: a PLR joga as negociações por salário para baixo, ao rebaixar o nível a partir do qual se inicia o proces- so de negociação. Ora, não por acaso, os setores mais organizados do sindicalismo são jus- tamente aqueles em que a discussão da PLR é desvinculada da negociação salarial, como no caso dos petroleiros. Os químicos, por seu turno, vêm tentando utilizar uma estratégia de “avalanche”: primeiro asseguram os ga- nhos salariais na convenção coletiva, em seguida passam a discutir ganhos

por empresa (onde entra a PLR), a partir das grandes corporações do setor,

e só então passam para as médias e pequenas. Nesse último caso, trata-se de uma tentativa de elevar o nível dos acordos, partindo de um patamar mais “alto” (mais includente) para outro mais “baixo” (menos includente), de forma que os segundos se mirem nos primeiros. Já entre os bancários, por exemplo, os acordos coletivos com os bancos são uma coisa, a campanha

salarial (que desemboca na convenção coletiva) é outra, ou seja, os acordos não derrogam os níveis mais includentes e asseguram um patamar mínimo

e fixo, dos quais os acordos têm de partir.

Trabalho e regresso 81

O setor patronal também é acossado pelo dilema do tipo “negociação por baixo ou por cima”, só que num sentido inverso ao dos sindicatos de trabalhadores. As firmas pequenas pressionam o sindicato patronal a recu- sar os acordos muito benéficos para o trabalho, pois caso fossem estipulados como norma geral poderiam “quebrar” muitas delas. Para elas, um patamar minimalista de direitos e benefícios deveria ser seguido de acordos que in- corporassem ganhos proporcionais ao poderio econômico das empresas, do contrário os negócios seriam inviabilizados 22 . Exatamente o inverso da es-

tratégia “em avalanche”. Outro aspecto – esse muito mais delicado – é a própria definição das me- tas para as quais está associada a participação nos resultados ou lucros. Esse aspecto conecta a PLR com as formas diversas de flexibilidade do trabalho.

A PLR não é apenas uma distribuição de lucros; na verdade, ela condiciona

a participação nesses lucros ou resultados a certo comportamento (mesmo

disciplinar) racionalizado no processo de trabalho, por exemplo faltas, per- formance etc. Por essa razão, os resultados ou metas costumam ser mais ade- quados para o caso de acordos coletivos (empresas) do que para o caso de convenções coletivas (setor ou ramo). Nada impede, porém, que metas sejam acordadas para o setor inteiro, o que em geral é obtido graças à capacidade de pressão do sindicato, sendo, por isso mesmo, mais raro. Os casos bem-su-

cedidos de bancários, químicos e petroleiros só confirmam a regra, pois esses sindicatos são historicamente mais fortes. Os bancários conseguiram reduzir

a dispersão de valores na distribuição dos ganhos com PLR entre os empre-

gados, pois estabeleceram certas regras para parcelas mínima e máxima na

forma de um teto para o maior valor recebido. As empresas preferem uma remuneração diferenciada e sem limites “artificiais” – até porque, seguindo a regra do valor distribuído proporcionalmente conforme a escala salarial na empresa, os cargos de supervisão e de chefia são os mais bem aquinhoados,

e isso reforça a estrutura de comando interna. Mas, afinal, o que são, propriamente, os “resultados”? A que se referem?

O que é mais vantajoso: participação nos resultados ou nos lucros?

22 Antônio Moreira de Carvalho Neto, “Reestruturação produtiva, jornada de traba- lho e participação nos lucros e resultados: novos temas negociados entre empresários e trabalhadores brasileiros, de 1992 a 1998”, em Maria Regina Nabuco e Antônio Moreira de Carvalho Neto, Relações de trabalho contemporâneas (Belo Horizonte, PUC-Minas/ IR, 1999), p. 178-9.

82 Hegemonia às avessas

Os resultados são aquilo que foi acertado ou “contratado” de antemão com a empresa: os trabalhadores recebem um valor correspondente às me- tas acordadas no contrato. Essas metas referem-se a âmbitos bem dife- renciados: produtividade, rentabilidade, quantidade de produção, vendas, redução de custos, assiduidade, acidentes de trabalho, funcionamento do

sistema de qualidade, certificação pelo sistema ISO, limpeza, reclamações de clientes e introdução de técnicas de gestão, além de outros quesitos.

A contratação das metas abre o caminho para a intensificação do traba-

lho. Os trabalhadores estão contratando seu desgaste e a própria corrosão daquilo que poderia protegê-los disso. A única coisa que poderia esconder as diferenças individuais e os “poros” devidos ao desbalanceamento entre um operador e outro (afinal, operadores não são máquinas iguais) no pro- cesso de trabalho era exatamente a regra geral do salário contratado coleti- vamente, isto é, o salário fordista. Já com relação aos lucros, o grande problema está relacionado a sua aferição. Como medir os lucros? Pelo balanço operacional publicado em jornais? É usual no meio sindical, e entre o pessoal de produção, que qual- quer operário ou operária saiba muito bem se a empresa vai bem ou mal;

isso é percebido empiricamente, sem necessidade de qualquer planilha ou balanço. Contudo, do ponto de vista formal, as coisas se passam de ma-

neira diferente. A informação é chave aqui, mas, como se viu, ela é consi- derada um bem privado. A empresa não precisa “comunicar” sua situação para ninguém. Há casos em que a PLR não está vinculada nem a resultados nem a lu- cros: por acordo, a empresa simplesmente se compromete a oferecer um abono, sem entrar em detalhes de como tal abono será constituído ou qual será seu critério. Os empregados apenas aceitam o abono, sem se perguntar se poderia ter sido maior, por exemplo. Isso costuma funcionar quando a conjuntura está pró-empresa (por exemplo, após o Plano Real, quando os aumentos reais estavam proibidos porque poderiam causar inflação), mas fica um pouco desacreditado quando a situação se inverte.

A PLR acaba substituindo a discussão sobre aumento real para toda a

categoria. Como a quantia distribuída sob a PLR pode ser significativa – uma “bolada” paga de uma vez ou dividida em parcelas, mas que pode che- gar a oito vezes 23 o valor do salário base – ela atraiu mais a atenção dos as-

23 Debate & Reflexões, n. 12, maio 2004, p. 168.

Trabalho e regresso 83

salariados e diluiu o interesse pelas campanhas gerais, pois os ganhos obtidos nestas últimas são menos generosos. No entanto, nunca é demais lembrar que a PLR depende do ciclo econômico e varia de acordo com o desempe- nho das empresas no mercado – até aqui, o movimento tem sido expansio- nista, mas, num cenário de contração da atividade, é possível que a negocia- ção salarial volte ao proscênio na relação com os empregadores. Seja como for, a parcela fixa deixa de ser o “nó” da questão; este é deslo- cado para a parcela variável, num esquema muito similar ao que ocorre com os prêmios ou bônus das células de produção. A PLR pode acabar se tor- nando assim um mero complemento do reajuste salarial: quando a negocia- ção coletiva não repõe as perdas com a inflação, ela entra quase a título de complemento a fim de cobrir o percentual que ficou faltando. Sua incidên- cia, porém, exclui terceirizados, estagiários, inativos (aposentados ou afas- tados por acidentes) e prestadores de serviço, o que pode gerar conflitos. Além disso, a PLR deslocou o tema da produtividade de um problema co- letivo para um problema particular à empresa. Como virou uma “meta” da PLR, a produtividade não consta mais da negociação salarial da categoria. A tendência de substituir o salário fixo pela remuneração variável tem ainda mais duas implicações, não mencionadas anteriormente. Em primeiro lugar, ela desorganiza não apenas o componente direto do salário – aquilo que poderíamos chamar de “salário-base” –, mas também o componente indireto, tais como certos benefícios e adicionais atrelados a ele (alguns previstos na CLT, outros em convenções coletivas): cesta básica como proporção do salário, vales de transporte, refeição, farmácia, convê- nios médicos e outros, além de escalas de classificações como Plano de Car- gos e Salários 24 . Também é importante ressaltar que a PLR não esgota todas as formas possíveis de remuneração variável (algumas já vigentes antes da lei que a instituiu), mas pode desorganizá-las, seja incorporando-as, seja subs- tituindo-as, seja mantendo-as à margem da comissão da PLR, o que vale dizer, à margem da influência sindical. Em segundo lugar, ela tem incidência indireta no financiamento dos programas sociais do governo, pois é da massa salarial arrecadada de manei-

24 Outros benefícios eram informais e faziam parte de certos arranjos entre trabalha- dores e chefia imediata, por exemplo: os trabalhadores se revezam nos turnos da noite, a fim de ganhar os 50% do adicional noturno (relato de uma experiência de PLR em Debate & Reflexões, n. 12, maio 2004, p. 55).

84 Hegemonia às avessas

ra constante e previsível da população empregada (folha de pagamento) que sai a garantia de execução desses programas, entre os quais podemos citar a seguridade social, os programas de habitação e de educação, o seguro-de- semprego e o principal fundo público, que é o Fundo de Amparo ao Traba- lhador (FAT). Por todas essas razões, não há sentido em falar de “disputa” em torno da PLR. Parece claro que o estratagema flexibilizante obedece a uma lógica de usurpação dos valores do público em nome dos interesses privados. Dito dessa forma, parece um chavão. No entanto, se “disputa” de fato há, no caso da PLR ela se situa não num nível abstrato, mas prático. Envol- ve certos hábitos e costumes, certo estilo de comportamento, palavras e ges- tos que denotam uma linhagem de classe, na qual os atores reconhecem (de modo consciente ou inconsciente) lugares de classe onde se sentem “à von- tade” ou estranhamente incomodados por estar num espaço que “não é o seu”. Pois, afinal, é da mudança num certo mapeamento das posições de classe de que se trata. Enquanto o sindicato faz uma assembleia na porta de fábrica para explicar os motivos da PLR, a empresa faz uma reunião in- terna, numa sala climatizada e com grupos pequenos, sem o representante sindical, para apresentar sua proposta, numa tática de persuasão cujo pro- pósito é individualizar e quebrar a força coletiva representada pelo sindica- to e pela comissão da PLR. Depois, apresenta os resultados mensalmente, de maneira metódica, comparando as metas colocadas no mês anterior e os resultados alcançados no mês em curso. Irrepreensível – como a demons- tração de um teorema. Os trabalhadores se veem assim participando de um “projeto”, encontram sentido naquele ritual de assepsia e de investimento organizativo: não é algo abstrato, mas, ao contrário, algo bem concreto. “Os números são x% menores do que havíamos estipulado etc.”

2.2 O Banco de Horas

O Banco de Horas está relacionado à jornada de trabalho. Durante sua vigência, o trabalhador é dispensado quando não há necessidade de produ- ção e chamado de volta quando a produção é retomada. Nesse período, ele não pode ter redução de salário nem ser demitido. É importante frisar que, pela legislação vigente, o contrato de trabalho é individual, passado entre empresa e trabalhador. As entidades coletivas (sindicatos) não podem, pela lei, se sobrepor a esse contrato, embora as ne- gociações coletivas não estejam impedidas, e possam até fornecer as balizas

Trabalho e regresso 85

para as contratações individuais. Os sindicatos têm um reduzido poder de contratação de fato. Portanto, desse ponto de vista, a criação do Banco de Horas restabelece o poder coletivo do sindicato na contratação. Além disso, o Banco de Horas pode ser visto também como uma “im- posição à negociação” vinda de cima, tal como as outras inovações institu- cionais (a PLR, conforme vista acima, a Suspensão Temporária do Contrato ou o Contrato por Tempo Determinado). Antes de a medida ser promulga- da, em 1998, já havia registro de negociações coletivas (acordos ou conven- ções) sobre a jornada de trabalho envolvendo contrapartidas entre tempo e salário: no setor de telecomunicações, entre 1994 e 1995, houve acordos de diminuição da jornada, sem diminuição do salário, para atendentes de re- clamações de usuários e reparadores externos de linhas telefônicas; entre os químicos do ABC, nos acordos de 1996 e 1997, as negociações sobre a jor- nada tomaram a forma de discussão sobre turnos (as empresas desejavam o maior número possível de turnos ininterruptos, enquanto os trabalhadores forçavam turnos menores na semana, com redução das horas semanais tra- balhadas e sem diminuição de salários) 25 . Os turnos são importantes porque envolvem a jornada de trabalho diá- ria: se o turno é de seis horas, e não de oito ou doze horas, como anterior- mente, isso significa que a redução do número de turnos na semana leva concomitantemente à redução do número de horas trabalhadas semanais. Quando os trabalhadores lutam por cinco turnos semanais (como os quí- micos), sem diminuição do salário, na verdade tentam inverter a razão tem- po/ remuneração a seu favor – e justificam a medida como uma forma de combate ao desemprego, uma vez que, para preencher o mesmo número de horas, os empresários têm de contratar mais pessoal. A contrapartida pa- ra tal concessão foi a diminuição do percentual incidente sobre as horas ex- tras e o adicional noturno. Os chamados “adicionais” (horas extras e traba- lho noturno) incidem apenas sobre a jornada diária (ou “turno”): menos turnos na semana, menor a incidência de adicionais, o que ameniza o custo para as empresas. Em outros acordos, ao invés de redução do percentual dos adicionais, alguns deles (horas extras) foram simplesmente suprimidos, contrabalançando a manutenção de outros (noturno e riscos) 26 . Todas essas

25 Antônio Moreira de Carvalho Neto, “Reestruturação produtiva, jornada de traba- lho e participação nos lucros e resultados”, cit.

26 Idem.

86 Hegemonia às avessas

medidas fazem parte de acordos e negociações sobre a flexibilização da jor- nada, e envolvem mais ou menos redução de salário. O Banco de Horas acabou com essa possibilidade, pois passou a norma- tizar as compensações de uso do tempo, não permitindo que a remuneração entrasse mais como moeda de troca. Os trabalhadores, contudo, estavam acostumados aos ganhos complementares com os “adicionais”, em especial

as horas extras, e queixam-se da nova medida. Já os sindicatos, afeitos à de- núncia moral de que os trabalhadores não devem “negociar sua saúde” (isto

é, submeter-se a horas extras e riscos para obter um ganho adicional do sa-

lário), tentaram converter a nova medida em um impedimento para o ex- cesso de trabalho nos períodos de “vacas gordas”, estabelecendo um teto de duração de trabalho por dia, quando o trabalhador estivesse compensando seu tempo acumulado no período de “vacas magras”. De fato, há limites na variação das horas que cada trabalhador pode compensar. Esses limites podem ser estabelecidos nos acordos coletivos

com as empresas. Entre as montadoras de veículos, por exemplo, foi estabe- lecido um limite máximo de 44 a 48 horas por semana para o período em que as horas acumuladas são utilizadas ou “creditadas”; além desse limite,

o tempo suplementar seria considerado “hora extra” e cada hora extraordi-

nária teria um percentual crescente 27 . É importante ter em mente que, quando o Banco de Horas veio à luz, a economia brasileira enfrentava um período de forte desemprego e crise (1996-1999). Muitos acordos descentralizados, como, por exemplo, nas montadoras de veículos, foram feitos para tentar evitar demissões, com ne- gociação de jornada de trabalho, salários e benefícios. Os Planos de Demis- são Voluntária foram sacados pelas empresas para que pudessem se desfa- zer de parte de sua força de trabalho. No caso das grandes empresas, que já vinham tentando uma via negociada para o downsizing, o Banco de Horas não foi uma grande novidade 28 , mas para as médias e pequenas, em que a norma era simplesmente demitir sem mais explicações, ele trouxe um hábi- to novo para a prática das negociações.

27 Idem.

28 Na verdade, grandes montadoras como Ford e Volkswagen anteciparam a medida:

em 1996, utilizaram um banco de horas informal nas negociações por redução da jornada sem redução de salário.

Trabalho e regresso 87

Outro aspecto do Banco de Horas é que ele torna o tempo de trabalho mais de acordo com a sazonalidade da produção, que tanto pode ser uma característica inerente a certos ramos (como o de peças de vestuário para praia, cujo pico de vendas ocorre no verão) como pode obedecer a uma flu- tuação devida ao mercado, como uma crise no fornecimento de matérias-pri- mas ou outros motivos variados. As implicações para a flexibilidade produ- tiva são evidentes, assim como para uma gestão meramente disciplinar do trabalho: as horas não trabalhadas podem ser debitadas, por exemplo, de au- sências referentes a atrasos e saídas antecipadas, de “pontes” em feriados ou idas a médicos ou dentistas, todas sendo acumuladas na “conta corrente” do tempo de cada trabalhador. Podem surgir conflitos referentes à definição de um afastamento médico ser ou não uma ausência injustificada. Pausas até então toleradas, tais como ir ao banheiro e tomar um cafezinho, passam a ser computadas pela empresa como horas efetivamente não trabalhadas. O fluxo produtivo torna-se assim mais cerrado, mais tensionado, com a justificativa empresarial de compensar a redução do tempo efetivamente trabalhado. Tudo acordado, contratado, negociado. Uma gramática liberal do contrato vai tomando conta tanto dessa como das outras medidas da reforma, a ponto de consolidar, agora sim, um sindicalismo de barganha e de toma lá dá cá. A ideia inicial de uma “troca justa” por trás dessa con- cepção cede vez a um sentimento de espoliação, já que, ao fim e ao cabo, no acordo moderno passado entre patrões e empregados, os últimos acabam sempre perdendo. É o mesmo sentimento que aflora quando se percebe que, na confecção que utiliza o sistema celular, a trabalhadora que fica inicialmente como “vo- lante” para cobrir a ausência de alguma costureira, ou a pausa de alguma colega, acaba se perenizando como quebra-galho permanente, na medida em que o enxugamento de pessoal de produção a força a fazer o serviço nor- mal que antes era atribuição da força de trabalho que foi dispensada. Também estão previstas, como no caso da PLR, comissões de negociação com presença sindical. Os sindicalistas, como no caso da medida anterior, reivindicam que aos membros dessa comissão seja assegurada a estabilidade.

3. Ensaios de negociação e pactuação:

antecedentes da Reforma Trabalhista

Os sindicatos brasileiros ensaiaram uma governabilidade neocorporati- va em meados dos anos 1990: queriam participar das políticas econômicas,

88 Hegemonia às avessas

se não como formuladores, ao menos como avalizadores. Além disso, que- riam participar das políticas sociais e trabalhistas, porque entendiam que esses três tipos de políticas (econômicas, sociais e trabalhistas) estavam (co- mo estão) inerentemente intrincados e articulados. Não era possível parti- cipar da formulação de políticas sociais ou do trabalho – o que é, aliás, um âmbito histórico da atribuição sindical – sem enfrentar os constrangimen- tos cuja origem se encontrava na definição de políticas econômicas: opção desenvolvimentista ou opção pela abertura dos mercados, eis um exemplo. Esse era o entendimento que animava os sindicatos cutistas quando do pe- ríodo das câmaras setoriais (1992-1994). As centrais, enquanto instituições responsáveis pela contenção dos con- flitos laborais, são um traço comum aos corporativismos, sejam eles estatais ou societais. Mas a questão estava do outro lado, isto é, do lado do Estado e dos empresários. No cenário dos anos 1990, com a globalização e o neolibe- ralismo, o aval das centrais e dos sindicatos passou a ser prescindível. A polí- tica econômica poderia ser tocada sem eles. Foi o que o governo FHC fez. O âmbito democrático estreitou-se e a feição decisionista tomou o lugar da fei- ção deliberativa no campo das políticas sociais em geral e das políticas do trabalho em particular 29 . Não havia mais necessidade dos sindicatos como asseguradores da “paz social”, pois o desemprego, a crise econômica e indus- trial, juntamente com a repressão (greve dos petroleiros de 1995) 30 se encar- regaram desse papel. O Estado tomou o proscênio no pacto, destruindo-o. Como paradigma de organização de interesses coletivos, o neocorpora- tivismo perdeu força nas economias desenvolvidas, porque se tornou in- compatível com a flexibilidade do mercado de trabalho e com a “excessiva” regulação do processo de trabalho (leis, normas, exigências dos sindicatos), bem como com o poder operário (greves, paralisações, influência em comi- tês ou conselhos de empresa). No Brasil, os sindicatos nunca tiveram assen- to em organismos tripartite; portanto, não se tratava de destruir o que havia de construção institucional, mas de evitar a consolidação de uma efetiva

29 Francisco de Oliveira, “Apocalipse now”, em Francisco de Oliveira e Alvaro Augusto Comin, Os Cavaleiros do Antiapocalipse: Trabalho e política na indústria automobilís- tica (São Paulo, Entrelinhas/ Cebrap, 1999).

30 Cibele Rizek, “A greve dos petroleiros”, Praga, São Paulo, n. 9, 1998; Edson Mia- gusko, Greve dos petroleiros de 1995: A construção democrática em questão (dissertação de mestrado em Sociologia, São Paulo, Universidade de São Paulo, 2001).

Trabalho e regresso 89

barreira neocorporativa ao ajuste produtivo das empresas em termos de ra- cionalização e flexibilidade. Assim, as antigas leis trabalhistas do período varguista, reunidas na CLT, acabaram servindo, na transição, como o único porto seguro ao qual se

agarrar para evitar o pior, isto é, a total dizimação de qualquer influência sindical na conformação das políticas sociais. Embora isso seguramente não estivesse entre os propósitos originais do corporativismo estatal, elas asse- guravam, contudo, alguns patamares de publicização forçada, vestígios do período anterior, quando a produtividade média dos setores industriais compensava as diferenças de performance intra e inter-ramos produtivos, e distribuía os ganhos marginais (ainda que à custa de eventuais “expurgos”) para a contraparte assalariada, organizada ou não nos sindicatos.

A transição do corporativismo estatal para o corporativismo societal (ou

neocorporativismo) não se concretizou, como a CUT acalentava, por cau- sa da avalanche neoliberal, que passou a definir toda organização coletiva de interesses como um complô contra o bem público, entendido este último como um agregado de indivíduos isolados em sua privacidade e idealmente dotados de vontade e capacidade de escolha, independentemente de qual- quer interação e troca de informações. A abordagem institucionalista ape- nas buscou “consertar” esse vício de origem da escola da “escolha pública”, adicionando, no lugar de indivíduos atomizados, instituições que defen- dem interesses definidos, no entanto, de maneira muito próxima à aborda- gem anterior. Tudo somado, em termos práticos, a noção predominante entre os sin- dicatos, na transição, passou a ser a de que era melhor ficar com alguma coisa (a CLT) do que não ficar com nada. As negociações coletivas passam

a se tornar alvo das investidas empresariais para “subtrair direitos”, e esse foi

o mote da resistência dos sindicatos durante o período: opor a lei ao contra- to – exatamente o inverso do período imediatamente anterior do ciclo das lutas operárias, que se caracterizava por opor o contrato à lei.

A lei passava a ser vista como mais protetora do emprego, do salário e

das condições de trabalho. A crise havia anulado os ganhos de “contratuali- dade”, numa virada em direção a um comportamento defensivo por parte dos sindicatos, o qual os empresários chamavam, por sua vez, de “vetusto”

e “atrasado”. Outro pilar da crítica neoliberal referia-se ao nível de proteção da indús- tria, então impeditiva de competição nos mercados internacionais. Rezava

90 Hegemonia às avessas

o argumento que tal proteção, mantida de maneira artificial como resquício

da era de substituição de importações, escondia níveis de produtividade muito baixos nos principais setores. Por essa visão, a dinâmica da acumula- ção deveria passar do Estado (por causa da crise fiscal) para o mercado, o que exigia novos padrões de qualidade dos produtos e consequente reorga- nização das empresas. O resto da história é bem conhecido.

4. Balanço: que classe trabalhadora para que tipo de hegemonia?

Ao subtrair-se de uma regulação pública, por meio da convenção coleti- va, a PLR e o Banco de Horas reafirmam uma tendência de descentraliza-

ção da negociação – também outra bandeira do novo sindicalismo. Quando

o último propugnava pela descentralização, no fim dos anos 1970, o alvo

era o Estado corporativo e autoritário. A contrapartida era a liberdade sin- dical (por isso, muitos na época identificaram aquele sindicalismo como de

matiz americana ou business union). Hoje, mais do que nunca, a descentra- lização impera e a “obrigação de negociar” impele à “liberdade de negocia- ção”, sem a participação do Estado, que lava as mãos. O Estado escondido observa de longe a sociedade civil – essa é a imagem que rondava a cabeça

dos administradores políticos. É também a imagem que informantes da área gerencial gostam de repetir, referindo-se a sua própria postura autorre- presentada como antipaternalista e moderna: “ao invés de dar o peixe, ensi- nar a pescar”. A relação salarial que se cristalizou com o ciclo das lutas operárias do ABC e se espraiou depois para os outros setores de atividade continha uma raiz fordista inegável, porque apontava para a unificação da classe como produto da industrialização intensiva vinda desde os anos 1950, os anos do desenvolvimentismo. As características de uma regulação monopolista, com

o fechamento do ciclo de implantação de indústrias de insumos e infraes-

trutura do II PND (a “marcha forçada”), estavam presentes, permitindo mais um lance – importante – na endogenização das condições de reprodu- ção do capital. Mas essa raiz foi como que ocultada pelo jargão democrati- zante e pelo elã libertário das lutas de classe do período, que apontava para descentralização (o que significava tanto o afastamento da ingerência do Estado quanto a possibilidade de negociação por local de trabalho), auto- nomia, liberdade de contratação e outras. Ocultava também, de certa ma- neira, um forte senso de solidarismo (“a classe trabalhadora”) e de “compa-

Trabalho e regresso 91

nheirismo” (“a peãozada”), reconhecendo aí um certo grau de igualdade, de mínimo denominador comum entre o povo “trabalhador”, que quer ser ci- dadão, votar e lutar por melhores salários, o que afeta a todos.

É exatamente esse sentido que, não tendo chegado a madurar a ponto

de se tornar uma força social balizadora (uma “hegemonia”), vai sendo ho- je, pouco a pouco, erodido.

As novas formas de organização da produção e do trabalho são uma in-

dicação desse processo de erosão, a ponta de um iceberg. O sistema de tra-

balho em células, por exemplo, além de desgastante e estressante (por que a produção “tem de sair, de uma maneira ou de outra”), impele a que a per- formance de cada trabalhador (a quantidade de peças que compõe a quota individual), dependa da produção do colega da célula. Isso torna um de- pendente do outro. A confecção de um produto inteiro passa pelas diversas operações de uma célula, e se determinadas partes estiverem em atraso, isso “breca” a operação seguinte. Dessa forma, a célula como um todo deixa de atingir o nível de produtividade necessário para a obtenção do prêmio ou bônus. Todos saem perdendo. Em poucas palavras, os conflitos presentes nas células giram basicamente em torno desta questão: da produtividade e do tipo de relação salarial que está associada a ela.

O que já não é tão óbvio é o sentido da individualização que tal sistema

de trabalho acaba acarretando na percepção dos próprios trabalhadores. A célula estimula a cobrança recíproca de resultados (que para a empresa são as “metas”), já que uma operação passa a ser “cliente” ou “fornecedora” da próxima, dentro da própria célula. No caso, se tem de haver um ajuste entre os tempos de entrega e de recebimento das peças, esse ajuste deve ser feito

pelos próprios operadores. Uma sociologia da classe trabalhadora recente no Brasil deveria partir exatamente desse ponto.

POLÍTICA E ARTE NA VERDADE E NA FICÇÃO DO TRABALHO: ELEMENTOS PARA UMA COMPARAÇÃO HISTÓRICA ENTRE O ORIENTE SOCIALISTA E O OCIDENTE CAPITALISTA *

Yves Cohen

Esta é uma contribuição inteiramente histórica. Busca corresponder à abertura intelectual mostrada por esta obra, em que se cruzam economia, política e cultura, em sociologia ou história. Trata-se de um estudo compa- rado das performances industriais do Oriente socialista e do Ocidente ca- pitalista em meados do século XX. Sempre em perspectiva comparativa, destacarei dois pontos: de um lado, a incapacidade do sistema soviético de instaurar a organização do trabalho taylorista nas empresas e as consequên- cias econômicas dessa incapacidade; de outro, a maneira de pensar a eficácia real dos desempenhos industriais no caso dos países socialistas e no sistema soviético 1 . Veremos os efeitos do governo da economia pela política e tam- bém a que ponto as imagens fixas ou animadas (fotografia, cartaz, cinema etc.) tiveram um papel extremamente importante na própria eficácia da eco- nomia. Será, portanto, uma maneira de reivindicar um entrelaçamento vo- luntário da história econômica e do trabalho, da história política e da história cultural. Mas não por mero gosto de interdisciplinaridade. A compreensão do que se passou no século XX depende certamente desse tipo de abordagem.

O taylorismo à soviética

Os arquivos soviéticos se abriram progressivamente a partir do fim dos anos 1980. Sabíamos muito pouco até então sobre a realidade do trabalho desde a Revolução de Outubro de 1917. Em compensação, éramos fascina- dos pela fascinação dos bolcheviques, e em especial de Lenin, pelo tayloris-

* Tradução de Carolina Pulici. (N. E.)

1 Não se leva em consideração aqui a história chinesa.

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mo. Durante muito tempo, um livro dominou as representações, ao menos na França e em alguns outros países em que era conhecido: o de Robert Li- nhart, Lénine, les paysans, Taylor, traduzido em 1983 no Rio de Janeiro sob o título de Lenin, os camponeses, Taylor (Marco Zero) 2 . O livro se baseava em textos de Lenin que evocavam Taylor e o bom uso que o socialismo po- deria fazer dessa técnica nascida sob o capitalismo. Segundo Lenin, ela ti- nha a vantagem de ter características científicas e, portanto, de ser indife- rente ao tipo de sociedade em que era aplicada. E, de fato, nos anos 1920 a União Soviética tornou-se certamente o país no mundo em que mais se tentou pôr em ação uma organização taylorista do trabalho. Era uma questão de Estado. Além do mais, a economia havia sido nacionalizada. Um ministério quase inteiro estava destinado à raciona- lização do Estado, mas um Estado que abrangia a administração e ao mes- mo tempo a indústria, e ao qual é preciso acrescentar o próprio partido co- munista, que era um imenso aparelho burocrático que não parava de crescer 3 . Muitas revistas se consagraram a esse esforço, assim como “institu- tos do trabalho” em várias cidades da URSS 4 . Desde então, a representação dominante da União Soviética, e depois dos países socialistas, asseverava que havia verdadeiramente introduzido o taylorismo no país. Mas a história real das experiências industriais era mui- to mal conhecida. Quando historiadores e sociólogos puderam pesquisar por arquivos ou trabalho de campo, o que os chocou foi justamente a au- sência de taylorismo, o desrespeito sistemático dos tempos estabelecidos e, por fim, a impossibilidade de fixar normas eficazes de trabalho 5 . Aliás, os so-

2 Robert Linhart, Lénine, les paysans, Taylor (Paris, Seuil, 1976).

3 A “Rabkrin” ou Inspeção operária e camponesa. Ver E. A. Rees, State control in So- viet Russia: the rise and fall of the workers’ and peasants’ inspectorate, 1920-1934 (Lon- dres, Macmillan, 1987).

4 Mark R. Beissinger, Scientific management, socialist discipline and Soviet power (Cam- bridge, Harvard University Press, 1988). Livro baseado sobretudo em fontes im- pressas, e não em arquivos industriais ou administrativos originais.

5 Entre os historiadores, por exemplo, Lewis H. Siegelbaum, “Soviet norm determi- nation in theory and practice, 1917-1941”, Soviet Studies, v. 36, n. 1, 1984, p. 45-68; David R. Shearer, “The language and politics of socialist rationalization: producti- vity, industrial relations and the social origins of stalinism at the end of NEP”, Cahiers du Monde Russe et Soviétique, v. 32, n. 4, out.-dez. 1991, p. 581-608; Ste- phen Kotkin, Magnetic mountain: stalinism as a civilization (Berkeley, University of California Press, 1995).

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 95

viéticos e os outros comunistas no poder procuraram incessantemente, através de reformas sempre relançadas, aumentar a produtividade do tra- balho, mas sempre em vão (por exemplo, a reforma de Liberman na URSS dos anos 1960). Não que os operários não trabalhassem muito 6 . Meu argumento é que não se chegou a fazer o que se conseguia fazer no Ocidente capitalista, isto é, esquadrinhar o menor gesto de trabalho. Com efeito, a introdução do taylorismo numa empresa pela implantação de um setor de planejamento para preparar o trabalho de cada um significava uma ofensiva contra a au- tonomia dos operários e dos empregados em seus postos de trabalho. Cada movimento, cada deslocamento devia ser útil e eficaz, todos os que fossem inúteis eram suprimidos e cada operário e empregado devia seguir ao pé da letra uma “ficha de instrução” estabelecida pelo setor de planejamento. Hoje sabemos, graças aos estudos dos sociólogos do trabalho e também dos ergonomistas, que o trabalho prescrito, mesmo na fábrica mais estrita- mente taylorizada, não corresponde nunca ao trabalho real. Para realizar a norma do trabalho é sempre preciso sair dela, encontrar artimanhas que o setor de planejamento não havia previsto. Além do mais, a execução dos tra- balhos é uma atividade de longa duração, em que cada um procura ganhar tempo, portanto acelerar em relação à norma prevista. Mas essa aceleração deve permanecer oculta aos olhos dos preparadores taylorianos do trabalho. Disso decorre um jogo permanente entre, de um lado, operários e emprega- dos e, de outro, agentes do setor de planejamento. Mensurava-se nesse jogo a relação de forças entre a mão de obra e os organizadores do trabalho 7 . Malgrado essa distância entre norma e realidade, no conjunto, no Oeste capitalista, a disciplina dos gestos pelos tempos calculados pelos setores de planejamento avançou muito. Essa disciplina era pensada concomitante- mente com os dispositivos técnicos. A busca era comum e coordenada pelas técnicas materiais (máquinas, oficinas, fábricas etc.) e pelas técnicas humanas de trabalho (disciplina, comando, controle dos gestos). Essa coordenação foi uma das forças principais da técnica de produção nos países capitalistas

6 Como mostra a experiência notável do sociólogo húngaro Miklós Haraszti, Salaire aux pièces: ouvrier dans un pays de l’Est (Paris, Seuil, 1975).

7 Pierre Rolle, “Norme et chronométrage dans le salaire au rendement”, Cahiers d’Études de l’Automation et des Sociétés Industrielles, n. 4, 1962, p. 9-38.

96 Hegemonia às avessas

e produziu efeitos muito importantes. Facilitou muito a mecanização, a au-

tomatização, a robotização e, portanto, a integração do trabalho físico com uma parte do trabalho mental em máquinas cada vez mais automáticas. A integração da gestão pela informática acelerou ainda mais o processo. Mas por que não foi possível fazer no Oriente socialista o que se fez no Ocidente capitalista? Para compreender isso, não podemos ficar apenas no nível do posto de trabalho ou da fábrica. É preciso considerar as coi- sas de forma mais ampla. Não podemos, do mesmo modo, permanecer nas questões técnicas da indústria. É preciso acrescentar a razão política à aná- lise dos fenômenos econômicos e fazer uma espécie de economia geral das práticas que compare e avalie a liberdade real em diversas esferas da ativi- dade humana. É importante identificar uma conjunção de acontecimentos na expe- riência dos países soviéticos. A partir de 1929 e do lançamento do primeiro plano quinquenal na URSS e, em seguida, nos países socialistas europeus, buscou-se desenvolver a indústria no mesmo momento em que as liberda- des (liberdade de expressão, liberdade sindical etc.) eram completamente destruídas. Ocorre que a lógica do taylorismo, exposta pelo próprio Taylor, exige que o empregador tenha liberdade para demitir os operários e empre- gados que não conseguem cumprir a norma, mas, ao mesmo tempo, que esses últimos tenham a liberdade de deixar a empresa se não quiserem tra- balhar sob o regime tayloriano 8 . Ora, se a liberdade de movimento da mão de obra não chega a ser suprimida sob o socialismo, ela é, contudo, muito limitada. E, sobretudo, a liberdade de deixar o país é completamente elimi- nada e permanece inteiramente sob controle político do governo. Desapa-

rece, portanto, a primeira das liberdades, isto é, a de partir, de deixar o lugar da opressão e da exploração. Além do regime das liberdades, existe um se- gundo aspecto fundamental da diferença entre os países de regime soviético

e os países capitalistas: os primeiros concebem sua economia contra o con-

sumo das pessoas. A lógica de conjunto do desenvolvimento e as necessida- des do Estado são sempre privilegiadas. A economia não é governada pelo desenvolvimento de um mercado de bens de consumo. E isso tem efeitos muito diretos sobre a população que trabalha, uma vez que seu consumo não faz parte dos motores da economia.

8 Frederick W. Taylor, The principles of scientific management (Nova York, Harper & Brothers, 1911).

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 97

Se o que se busca é estabelecer uma economia geral das práticas, pode- mos então estudar conjuntamente os regimes de liberdade, de consumo e de trabalho. Aliás, poderíamos acrescentar outros domínios de atividade, como a proteção social, a educação etc., mas os limites desta contribuição não o permitem. Um estudo dessa monta supõe considerar e comparar to- das as escalas, do micro (a disciplina do gesto e até mesmo do olhar) ao ma- cro. Na história soviética a partir dos anos 1930, observamos: de um lado, ausência de liberdades políticas e culturais, falta de liberdade de deixar o país e consumo refreado; de outro, repetidos esforços para taylorizar, en- quadrar, esquadrinhar o trabalho até o nível dos gestos e dos movimentos elementares. Ora, este último aspecto do controle dos gestos nunca obteve sucesso 9 . Houve numerosos conflitos nas fábricas nos quais os racionaliza- dores enfrentaram uma frente de operários de braços dados com a hierar- quia da produção! Com efeito, o problema dos primeiros é o rendimento de cada pessoa no trabalho, mas contramestres e chefes de oficina têm outro problema: é muito difícil manter uma mão de obra mal paga e sempre pres- tes a partir. Eles não querem impor normas ainda mais estritas. A partir daí temos, de um lado, uma prática discursiva que consiste em dizer: nós organizamos, nós somos organizados como os norte-americanos, como nas fábricas da Ford, e, de outro, há as práticas efetivas de trabalho, em que estamos muito longe da Ford e a autonomia do gesto de trabalho é preservada justamente porque toda palavra livre é proibida e a incitação ao consumo é muito limitada. A economia geral das práticas estabelece que, numa certa duração, nem todas as atividades podem ser completamente controladas e disciplinadas. No final das contas, uma espécie de compro- misso social implícito em larga escala instala-se numa certa estabilidade. O freio das liberdades e do consumo individual correspondia aos traços essen- ciais de um socialismo que buscava estabelecer-se no longo prazo. Esses en- traves fizeram com que se mantivesse uma autonomia no nível do posto de trabalho, malgrado os discursos oficiais sobre o sucesso da organização do trabalho. Esse equilíbrio teve efeitos muito prejudiciais sobre o desenvolvi- mento econômico.

9 Yves Cohen, “The Soviet Fordson between the politics of Stalin and the philosophy of Ford, 1924-1932”, em Hubert Bonin, Yannick Lung e Steven Tolliday (orgs.), Ford, 1903-2003: the European history (Paris, Plage, 2003, v. 2). Baseado nos arqui- vos da fábrica Putilov, de Leningrado, Arquivos do Estado de São Petersburgo, fun- do 1788.

98 Hegemonia às avessas

No Ocidente capitalista, em contrapartida, quando as empresas com-

portam um setor de planejamento, elas conseguem, pouco a pouco, ter realmente certo controle sobre os gestos do trabalho. Além do mais, tudo

o que constitui o trabalho em si e seu ambiente é apreendido numa lógica

integrada de otimização (máquinas, espaços das oficinas e das fábricas, mo-

dos de circulação dos objetos e das pessoas, fluidez organizada etc.) estrei- tamente ligada à disciplina dos gestos humanos. Isso é válido tanto para o trabalho do operário como para o dos funcionários de escritório 10 . Mas isso

se

situa em uma atmosfera política inteiramente diferente. Não que o protes-

to

operário tenha tido toda liberdade para se exprimir. Mas, pouco a pouco,

desde o fim do século XIX, os movimentos sociais obtiveram benefícios im- portantes. Na França, uma lei sobre as convenções coletivas foi votada

em 1919, assim como sobre as formas de representação operária; depois, em 1936, a possibilidade de se organizar em sindicados dentro das empresas.

O direito de greve era protegido, assim como o de deixar as empresas.

Além do mais, uma das técnicas utilizadas pelos capitalistas para conser- var a mão de obra de melhor qualidade é conceder aumentos de salário. Encontramos nos escritos dos organizadores reflexões sobre o fato de que

aumentos salariais limitados e comedidos permitem obter ganhos de pro- dutividade muito maiores. Os pensadores da organização dizem também que se uma greve estoura para reivindicar aumento de salários, os empre- gadores devem rapidamente entrar em negociação e fazer concessões, pois toda greve desse tipo termina por um compromisso. Em contrapartida, no caso de uma greve por causa da organização do trabalho, nenhuma conces- são é admissível, porque o patrão deve conservar controle total sobre ela: é preciso aceitar, aqui, o risco de greve 11 . Ainda que o aumento do consumo seja limitado e as liberdades sejam reduzidas, ambos não são insignificantes

e permitem aos especialistas em métodos de trabalho penetrar na lógica dos

gestos do trabalho e reorganizá-los, instaurar uma disciplina dos movimen-

tos que segue as instruções dadas pelos setores de planejamento (onde im-

10 Ver, para a França, Aimée Moutet, Les logiques de l’entreprise: la rationalisation dans l’industrie française de l’entre-deux-guerres (Paris, Éditions de l’EHESS, 1997); Del- phine Gardey, La dactylographe et l’expéditionnaire: histoire des employés de bureau, 1890-1930 (Paris, Belin, 2001).

11 Ernest Mattern, Création, organisation et direction des usines (Paris, Dunod, 1925), p. 287-8.

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 99

pera uma ciência do trabalho) e é continuamente controlada pelos agentes nas próprias oficinas. Temos aí verdadeiramente o “regime despótico da produção” de que fala o sociólogo norte-americano Michael Burawoy, e que se forma no interior das empresas e no nível dos postos de trabalho. Mas sua lógica deve ser apreendida num quadro mais amplo para permitir a comparação com o socialismo soviético tal como ele se desenvolveu e mor- reu no decorrer do século XX 12 . Os organizadores soviéticos não alcançaram essa disciplina do gesto por razões claramente políticas. A história econômica do século XX só po- de ser política, portanto. E não podemos dizer, como Lewis Siegelbaum, que “o processo de trabalho tal como emergiu ao longo da industrializa- ção soviética era essencialmente idêntico ao que se desenvolveu no mundo capitalista” 13 . O sistema de trabalho soviético é, do princípio ao fim, gover- nado pela política, e não pela valorização dos produtos no mercado, o que tem consequências no processo de trabalho. Isso não significa que este seja melhor ou pior em si, mas sim que seu estudo deve recorrer a outras dimen- sões da vida social e política. Essa dificuldade intransponível encontrada pelo socialismo à soviética é reforçada pelos efeitos perversos e, no entanto, constantes da planificação econômica. Ao invés de organizar a economia, o plano quinquenal (ou se- tenial) torna-a muito caótica. Com efeito, ele não consegue prever todas as manifestações e todas as trocas. Os agentes econômicos devem adaptar-se incessantemente para conseguir realizar o plano. Mas, adaptando-se, eles saem obrigatoriamente das previsões do plano para compensar suas faltas e, por exemplo, obter tal ou tal material ou produto intermediário. Assim, es- sa impossibilidade de planejar todos os atos econômicos provoca numerosas rupturas dos fluxos de abastecimento. Tal ambiente de desordem, encon- trado em todas as economias socialistas, é um fator suplementar que torna impossível a organização do trabalho segundo normas fiáveis e estáveis 14 .

12 Michael Burawoy, Manufacturing consent: changes in the labor process under monopoly capitalism (Chicago, Chicago University Press, 1979); “L’odyssée d’un ethnographe marxiste, 1975-1995”, em Anne-Marie Arborio et al. (orgs.), Observer le travail:

histoire, ethnographie, approches combinées (Paris, La Découverte, 2008).

13 Lewis H. Siegelbaum, “Soviet norm determination”, cit., p. 63.

14 Coletivo Urgense, “Un taylorisme arythmique dans les économies planifiées du cen- tre”, Critiques de l’économie politique, n. 19, mar.-jun. 1982, p. 99-146.

100 Hegemonia às avessas

O próprio stakhanovismo, que aparece em 1935, lança-se contra todo o

conjunto das normas estabelecidas anteriormente (que já tinha tão pouco efeito) e o faz explodir 15 . Como se vê, a lógica da economia e do trabalho, até suas mais ínfimas manifestações, não é apreensível senão por uma abordagem que seja tam- bém política, pois tem relação estreita com o regime de liberdades, assim como com a política do consumo. Mas a história das economias à soviética que marcaram tão fortemente o século XX deve recorrer ainda a outra di- mensão que não é familiar aos historiadores do trabalho, da economia e da política: a dimensão cultural. Com efeito, a utilização de imagens em larga escala (fotografias, cartazes, pinturas, filmes, tipografia e todas as outras for- mas gráficas) cumpriu um papel imenso e subestimado no modo de exis- tência das economias socialistas.

A eficácia econômica por meio da imagem

As práticas de imagem, no espaço contínuo de prescrição e ação em que

se transforma progressivamente a U.R.S.S à medida que se afirma o poder

stalinista, entrelaçam-se com outras práticas de governo e, em particular, com aquelas relativas à economia que já havíamos evocado. Ora, levar em consideração as imagens e seu papel permite certamente responder a uma questão dolorosa tanto para as populações submetidas ao socialismo quanto para os pesquisadores que estudam essas economias. De fato, todos se per- guntam, ainda nos dias atuais, qual era a eficácia “real” da economia à sovié- tica. A controvérsia incide sobre aquilo que é possível avaliar a posteriori. Como já se sabia há muito tempo, todos os dados são sistematicamente fal- sificados em todos os níveis do funcionamento econômico. Trata-se de uma necessidade que encontram os atores para se ajustar aos planos imperativos 16 .

15 Francesco Benvenuti, Fuoco sui sabotatori! Stachanovismo e organizzazione industria- le in URSS: 1934-1938 (Roma, Valerio Levi, 1988); Lewis H. Siegelbaum, Stakha- novism and the politics of productivity in the USSR: 1935-1941 (Cambridge, Cam- bridge University Press, 1988).

16 Moshe Lewin, “The disappearance of planning in the plan”, Slavic Review, v. 32, jun. 1973, p. 271-87. Ver o debate entre os historiadores Steven Rosefielde, “Sta- linism in post-communist perspective: new evidence on killings, forced labor and economic growth in the 1930s”, Europe-Asia Studies, v. 48, n. 6, set. 1996, p. 959-87; Mark Harrison, “Comment: Stalinism in post-communist perspective”, Europe-Asia Studies, v. 49, n. 3, maio 1997, p. 499-502.

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 101

Algumas questões reaparecem constantemente: houve de fato cresci- mento industrial e, se sim, houve crescimento econômico de conjunto nos anos 1930? E se houve crescimento industrial, qual é o valor do que foi efe- tivamente produzido? Qual é a qualidade real dos produtos? As questões permanecem abertas, mesmo no que diz respeito à indústria militar 17 . Mark Harrison, um dos participantes desses debates e grande conhecedor da in- dústria militar reconhece, a propósito do enorme esforço de mobilização industrial na segunda metade dos anos 1930, que “o fato de saber se ela realmente teve sucesso ou se simplesmente criou a aparência de tê-lo tido não foi ainda suficientemente transformado em objeto de pesquisa” 18 . Ora, a aparência não poderia ser um componente ativo da eficácia e do sucesso nas condições particulares do stalinismo? No fim da Guerra Fria, viu-se que os soviéticos conseguiram enganar o mundo ocidental sobre a potência real de seu armamento, graças a um trabalho de aparências muito sofisticado em todos os planos, desde a propaganda oficial até a desinformação criada pelos serviços secretos 19 . A aparência não é, então, a maneira com que se apresenta e se valida uma economia que se desenvolve num mercado prote- gido e isolado e no qual a lógica é antes de tudo política? Sendo assim, a questão clássica sobre a eficácia “real” seria vã, a menos que esta fosse buscada na ordem política. Além do mais, os historiadores não têm nada que lhes permita “atravessar”, no contrapé, o imenso maciço de falsificações e imagens para chegar a uma hipotética representação “ver- dadeira”, autêntica, da eficácia econômica. E os testes de realidade foram feitos: vitória, é claro, na guerra “quente” (a guerra de 1941 a 1945), mas ao longo da qual a indústria funcionou segundo critérios inéditos, liberada das normas burocráticas do tempo de paz e com o apoio direto e maciço da in- dústria americana, e incontestável fracasso na Guerra Fria e em todas as ou- tras guerras quentes, como a do Afeganistão.

17 Agradeço a Andrea Graziosi por ter partilhado comigo suas indagações sobre o as- sunto. Ver Andrea Graziosi, Storia dell’Unione Soviética: L’URSS de Lenin e Stalin (1914-1945); L’URSS dal trionfo al degrado (1945-1991) (Bolonha, Il Mulino, 2007 e 2008, v. 1 e 2).

18 Mark Harrison, “Soviet industry and the red army under Stalin: a military indus- trial complex?”, Cahiers du Monde Russe, v. 44, n. 2-3, 2003, p. 331.

19 Paul N. Edwards, The closed world: computers and the politics of discourse in cold war America (Cambridge, MIT Press, 1998).

102 Hegemonia às avessas

A economia soviética e, mais amplamente, socialista, tal como foi cons-

truída pelo stalinismo, coloca aí um grande problema. Afinal, ela não é uma economia de aparências? A avaliação da eficácia falsificada conscientemente lhe é consubstancial. Não quero dizer com isso que a trucagem reinava ape- nas no ambiente do comunismo no poder, mas, nesse espaço, nenhum mer- cado nem nenhuma guerra concorrencial impõem seu ponto de vista atra-

vés de suas próprias instituições nem limitam a proliferação burocrática e a amplitude das dissimulações. Menos ainda que, em toda parte, a forma ma- terial da “aparência” não está nos produtos nem em suas qualidades valida- das pela troca: está nas imagens que delas são dadas, imagens de todo tipo que são facilmente transportadas para longe. Ora, a época entre as duas guerras mundiais é marcada por uma relação muito estreita entre as artes em geral e a técnica. Importa, aos artistas da imagem, que o objeto técnico se torne o objeto privilegiado da arte. Os so- viéticos estão entre os principais atores desse movimento. A fotografia, o cinema, o grafismo, mas também a pintura e até a arquitetura são os pri- meiros lugares em que as artes se confrontam explicitamente com as técni- cas do mundo industrial. O embaraço da escolha está nas formulações: as- sim, Alexandre Rodtchenko, o mais inventivo dos artistas construtivistas, escreve em 1921 que “todas as novas abordagens artísticas provêm da tec- nologia e da engenharia”. Ainda em 1931, outro construtivista, o arquiteto Iakov Tchernikhov, escreve: “Antigamente, a máquina era considerada pro- fundamente estranha à arte e as formas mecânicas eram excluídas do domí-

Pela primeira vez na história da humanida-

de, somos capazes de unir os princípios da produção mecânica e os estímulos

nio da beleza enquanto tal [

].

da criação artística” 20 . A partir desses princípios, ele criou uma verdadeira disciplina gráfica.

A circulação e as trocas com os países ocidentais da Europa e os Estados

Unidos não deixam de ter seu papel nessa apoteose artística do objeto técni-

co. Em 1920, Lev Kulechov, cineasta e teórico do cinema, pensa o america- nismo nos mesmos termos que numerosos artistas ocidentais: o americanis- mo na arte significa uma simplificação que deve se basear na representação de processos mecânicos e não da natureza. A natureza é muito complexa: é mais fácil mostrar uma ponte que uma paisagem de outono com uma caba-

20 Ambos citados por Alan M Ball, Imagining America: influence and images in twentie- th-century Russia (Lanham, Rowman & Littlefield, 2003), p. 35.

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 103

na em ruínas, algumas nuvens e um lago nos arredores. O material que seria próprio do cinema como arte, segundo Kulechov, é a técnica. O modelo desse material artístico seria um processo industrial que, além do mais, fos- se filmado com operários autênticos e não com atores. Durante os anos

1920, no cinema soviético, as locomotivas, os tratores, as fábricas, as barra- gens, os aviões, o concreto, o telégrafo e, sobretudo, o telefone tornam-se verdadeiras estrelas, estrelas materiais. Esses “objetos-atores” constituem um tema da teorização cinematográfica que muito se beneficiou da circula- ção internacional dos filmes. Foi pensando nos objetos nos filmes de Cha- plin e, ainda, numa cena de Intolerância* (em que um cigarro ocupa toda a tela) que Kulechov escreveu, em 1920, em La bannière du cinématographe

exatamente como

um comediante”: “Graças a uma hábil montagem, um comediante ou um objeto podem ter um valor equivalente” 21 . A montagem é a principal técni- ca utilizada para dar toda sua força estética aos objetos técnicos, mas não menos importante é o grande plano que permite saturar a imagem. Se tivéssemos de pensar nos termos da “reprodutibilidade técnica” de Walter Benjamin, obteríamos uma acumulação de técnicas 22 . Existem obras reproduzidas, mas, nesse espaço estético, as obras em questão não são qua- dros renascentistas, barrocos ou impressionistas, são objetos técnicos. Além disso, pode-se dizer que a própria reprodutibilidade técnica realiza-se atra- vés de duas práticas técnicas: as imagens são apreendidas por um aparelho mecânico (máquina fotográfica ou câmera de cinema) e depois multiplicadas mecanicamente por procedimentos industriais, seja para fazer cópias de fil- mes, seja para imprimir fotografias ou cartazes em dezenas de milhares de

[A bandeira do cinematógrafo], que os objetos “atuam

* D. W. Griffith, 1919, 178 min.

21 Lev Kulechov, Sobranie sočinenij v treh tomah. 1. Teoria, kritika, pedagogika (Mos- cou, Iskusstvo, 1987), p. 80. A tradução é de Valérie Pozner, a quem agradeço por ter me introduzido nessa literatura. Em L’art du cinéma et autres écrits (Lausanne, L’Âge d’homme, 1994), p. 53 e notas, o texto utiliza o termo “modelo” em vez de “comediante”; preferi utilizar diretamente o último termo. Ver também, sobre esse tema preciso, a muito estimulante comunicação inédita de François Albera, L’Ob-jeu (Udine, International Film Studies Conference, 2001).

22 Walter Benjamin, “L’oeuvre d’art à l’époque de sa reproduction mécanisée”, em Écrits français (Paris, Gallimard, 2003). [Ed. bras.: “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica – primeira versão”, em Magia e técnica, arte e política: en- saios sobre a cultura, São Paulo, Brasiliense, 1987.]

104 Hegemonia às avessas

exemplares. Temos assim três técnicas, o objeto, sua apreensão e sua multi- plicação, às quais podemos acrescentar uma quarta: a técnica política. Essas imagens são, portanto, quadruplamente técnicas. Dito de outra forma, elas não se limitam a uma manifestação artística, a uma intensificação dos efei- tos da arte pela técnica, posto que a utilização artística das imagens dos ob- jetos técnicos se torna uma arma política. Walter Benjamin havia observado esse fenômeno em seu ensaio. De um lado, ele nota que “pouco a pouco, a necessidade de tomar posse imediata do objeto na imagem – e, mais ainda, em sua reprodução – afirma-se mais irresistível” 23 . A tese do autor é que a reprodução mecanizada enfraquece a original e abala sua autoridade. É a época em que a imagem mecânica testemunha a realidade. A autoridade se transfere para a imagem fotográfica reproduzida em grandes tiragens (“po- litécnica”, como ele diz) e deixa o original. Para a indústria soviética, isso significa que é inútil ir até lá para ver com os próprios olhos, porque a foto- grafia mostra, à distância, o sucesso industrial (e a felicidade operária). Por outro lado, tendo como consequência, segundo Benjamin, que

a partir do instante em que o critério de autenticidade deixa de ser aplicável à produção artística, o conjunto da função social da arte se encontra invertido. Seu fundo ritual deve ser substituído por um fundo constituído por outra prá- tica: a política. 24

E justamente 1930, que é o início da economia planificada, vê o surgi- mento de uma revista verdadeiramente emblemática que se chama U.R.S.S. em construção 25 , criada por ninguém menos que Máximo Gorki. Destinada a mostrar os progressos do socialismo, a revista nasce do desejo perfeita- mente explícito de tornar mais “visível” o que é “bom”. E, para isso, faz-se uso de fotografias. U.R.S.S. em construção é inteiramente composta de foto- grafias. Seus únicos textos são o editorial e as legendas. Os construtivistas investem na revista. El Lissitzki e Rodtchenko estão entre seus mais célebres editores, ocupando-se inteiramente de numerosos exemplares. A revista tem edições em russo e em línguas estrangeiras (inglês, francês, alemão e

23 Ibidem, p. 183.

24 Ibidem, p. 186.

25 O essencial das informações desse parágrafo vem do artigo de Erika Wolf, “When photographs speak, to whom do they talk? The origins and audience of ‘SSSR na stroike’ (USSR in construction)”, Left History, v. 6, n. 2, 2000, p. 53-82.

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 105

espanhol). Só a edição russa atinge, no fim dos anos 1930, tiragens superio- res a 70 mil exemplares. O público visado é o soviético (na verdade, cada vez mais, as elites soviéticas, às quais é destinada uma edição de luxo, a par- tir de 1934) e o público estrangeiro favorável à experiência soviética ou composto de parceiros de sua construção econômica e industrial. A imagem tem fins inteiramente políticos. Trata-se de utilizar a objeti- vidade da fotografia para contradizer as “mentiras” dos inimigos da União Soviética sobre o sucesso de sua construção. Gorki escreve:

A fotografia e o cinema são plenamente capazes de apresentar graficamente e de forma concisa a enorme extensão do trabalho de construção realizado pelo pro-

A fotografia deve também se dedicar ao ser-

viço de construção não aleatoriamente, sem organização, mas, sistemática e

constantemente. 26

letariado no país dos sovietes [

].

Ora, a fotografia é a pintura feita pelo sol (svetopis’), acrescenta Gorki, e “não se acusa o sol de distorções, o sol ilumina o que existe tal como existe” 27 . Estamos, aqui, inteiramente numa cultura da objetividade fotográfica. Essa cultura é universalmente partilhada nessa época. A política pela imagem se funda nesses valores comuns da época moderna. Tanto quanto o próprio original, senão até mais, a fotografia diz a verdade, não engana. Os editores da revista enviam números gratuitamente a um grande número de interlocutores da União Soviética nas relações internacionais. Pedem expressamente respostas e os destinatários as enviam. Eis apenas um de seus ecos, o de um deputado britânico, conselheiro do governo so- viético, que escreve: “Eu vos felicito pelo primeiro número da U.R.S.S. em construção. Um de seus méritos é seu caráter absolutamente objetivo. Desnecessário dizer que farei tudo para que seja vista pelo maior número de pessoas” 28 . Essa política da imagem não deve ser compreendida apenas como boa propaganda. Há algo mais profundo: trata-se de governo. É ao mesmo tem- po, e plenamente, um modo de gestão da esfera pública, numa concepção bem mais vasta que a propaganda e – eis o ponto em que quero tocar – sim-

26 Ibidem, p. 61.

27 Idem.

28 Ibidem, p. 66.

106 Hegemonia às avessas

plesmente um modo de gestão da própria economia 29 . Em primeiro lugar, estamos tratando do governo pela esfera pública, em escala mundial e de maneira direta: é justamente porque a revista não passa pelos partidos co- munistas nem pela Internacional, mas por órgãos governamentais, que há gestão da esfera pública. O mesmo material é destinado a todos. Além do mais, a circularidade é organizada: a força da imagem reproduzida dos ob- jetos técnicos, cujo princípio é tomado do Ocidente capitalista, reaparece neste em eco para provar a força de seu amigo-inimigo comunista; em se- guida, o eco reaparece por sua vez na União Soviética para provar a todos e

aos próprios dirigentes a força da construção industrial, graças às atestações recolhidas de longe. A imagem dá sua contribuição à eficácia da indústria,

e trata-se exatamente de sua eficácia real: o líder soviético conta com a ima- gem para causar um efeito sobre o Ocidente, efeito que é usado no interior do país para formar a opinião dos soviéticos sobre o que eles próprios fazem

e constroem! O todo fornece à elite soviética dos anos 1930 “uma imagem

da sociedade soviética e da industrialização que sustenta seu sentimento de domínio e dominação [leadership]” 30 , como aponta com propriedade Erika Wolf. Para voltar a nossa proposição sobre os desempenhos econômicos, pode-

mos dizer que não há outro regime de eficácia, outra prova dela que não se- jam essas representações em larga escala (pela fotografia em U.R.S.S. em construção, mas também pelo cinema em numerosos filmes dos anos 1930) 31

– ao menos enquanto a guerra não estiver lá para impor a competição em um outro campo que não o da política: o campo de batalha.

29 Gabor T. Rittersporn, Malte Rolf e Jan C. Behrends (orgs.), Sphären von Öffentli- chkeit in Gesellschaften sowjetischen Typs: Zwischen partei-staatlicher Selbstinszenie- rung und Gegenwelten (Berna, Peter Lang, 2003).

30 Erika Wolf, “When photographs speak, to whom do they talk?, cit., p. 61.

31 Assim, em 1940, em A via luminosa – filme de Grigori Aleksandrov, discípulo de Eisenstein que foi enviado a Hollywood no fim dos anos 1920 para aprender a arte do filme de massa e em particular do musical –, a vedete Liubov’ Orlova, grande es- trela dos tempos stalinianos, é mostrada em imagens-choque como uma stakhano- vista que opera sozinha 8 teares, depois 16 e por fim 32: todos os procedimentos da imagem fordiana das máquinas alinhadas e repetidas são aí mobilizados. Ver Bernard Eisenschitz (org.), Gels et dégels: une autre histoire du cinéma soviétique, 1926-1968 (Paris/ Milão, Centre Georges Pompidou/ Mazzotta, 2002), p. 37 e 122; Annabel- le Creissel e Kristian Feigelson, “Ford, fordisme et stalinisme (1935)”, Théorème, n. 8, 2005, p. 73-82.

Política e arte na verdade e na ficção do trabalho 107

Nós não estamos na idade da técnica, mas da quádrupla técnica, da po- litécnica. O tipógrafo construtivista de uma revista impressa em dezenas de milhares de exemplares utiliza as fotografias construtivistas das fábricas de arquitetura construtivista. Ou, ainda, a técnica política se fortalece atra- vés da reprodução mecanizada das imagens fotográficas dos objetos técnicos e da produção. O quarto nível, aquele da técnica política, é especificamente soviético: é o que a União Soviética acrescenta no processo de circulação transnacional da estética do objeto técnico. A autoridade dos efeitos calculados das imagens fixas ou animadas foi extremamente durável em seu tempo, se é que não se prolonga até mesmo na Rússia putiniana. Esse efeito e essa autoridade foram não apenas durá- veis como amplamente difundidos no mundo em que talvez não tenham ainda deixado de agir. Contribuíram fortemente para construir a ficção dis- cursiva e estética por trás da qual se desenvolvia a realidade dos países socia- listas. Essa ficção eficaz (que é de ordem ao mesmo tempo cultural, econô- mica e política) é talvez um dos fenômenos mais importantes do século XX.

Considerações finais

Vimos que toda a economia dos países de sistema soviético se valida an- tes e prioritariamente na política. Em consequência, as imagens e as artes de forma mais geral têm um papel político direto, aquele de assegurar a vitória da política, inclusive sobre a economia. Se o estudo da economia é político, também é cultural e, reciprocamente, o estudo da cultura é político e tam- bém, é claro, econômico. As artes se ligaram aqui à economia e à política de forma indissolúvel. No século XX existiram no mundo zonas preservadas e separadas do mercado internacional cuja economia deveria emitir uma mensagem políti- ca. Mas essa mensagem estava de antemão enfraquecida, pois a incapaci- dade de dominar o trabalho humano, assim como outros fenômenos liga- dos aos regimes das técnicas, afetava cada vez mais a saúde da economia. O governo político da economia – acompanhado de uma fortíssima restrição das liberdades públicas e da dominação absoluta das necessidades do Estado sobre as dos indivíduos – impediu a instalação de uma economia viável no longo prazo. Hoje, todos os mercados estão interconectados. As zonas isoladas do mercado geral se tornaram muito limitadas. O trabalho é distribuído em

108 Hegemonia às avessas

escala mundial. As velhas metrópoles industriais afastam delas e relegam para o outro lado do mundo as formas de trabalho mais duras. Entre elas, o taylorismo é cada vez mais incorporado às máquinas e o trabalho se assen- ta bem menos no puro esforço físico. A forma dos vínculos entre economia, trabalho, política e cultura certa- mente mudaram, mas com certeza é trabalho dos sociólogos, mais que dos historiadores, compreender tais mudanças.

CAPITALISMO FINANCEIRO, ESTADO DE EMERGÊNCIA ECONÔMICO E HEGEMONIA ÀS AVESSAS NO BRASIL

Leda Maria Paulani

Abraçando a interpretação segundo a qual o capitalismo de hoje é presidi- do pela lógica e pelos imperativos da valorização financeira 1 , procura-se no presente artigo mostrar: 1) a decretação no Brasil, desde o início dos anos 1990, de uma espécie de “estado de emergência econômico”, o qual tem pos- sibilitado a adoção de todas as medidas prescritas pelo receituário ortodoxo; 2) a decretação definitiva desse estado de emergência pela ascensão de Lula ao poder em 2003, bem como sua combinação com aquilo que Oliveira 2 deno- minou “hegemonia às avessas”; e 3) a relação entre essa combinação peculiar e a forma de operação do capitalismo financeirizado na periferia do sistema. Parte-se da ideia de que o capitalismo financeiro que hoje predomina em escala mundial é o avesso do mercado, da concorrência, do risco capita- lista e da ausência do Estado. Sendo assim, a reprodução em escala am- pliada do capital passa hoje, tal como nos momentos iniciais do capitalismo, por um estreitamento das relações entre poder e dinheiro, uma vez que o sis- tema é marcado pela discricionariedade, pelo compadrio e pelo privilégio 3 . Mas ao contrário dessa época em que predominava o discurso mercantilis- ta, a doutrina hoje prevalecente é a neoliberal 4 e são difundidas as virtudes

1 François Chesnais, A mundialização financeira (São Paulo, Xamã, 1998); idem A finança mundializada (São Paulo, Boitempo, 2005).

2 Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”, neste livro.

3 David Harvey, O novo imperialismo (São Paulo, Loyola, 2004). Paulo E. Arantes, “Um retorno à acumulação primitiva: a viagem redonda do capitalismo de acesso”, Reportagem, jul. 2005.

4 Leda M. Paulani e Christy G. Pato, “Investimentos e servidão financeira: o Brasil do último quarto de século”, em João Antonio de Paula (org.), Adeus ao desenvolvimen- to (Belo Horizonte, Autêntica, 2005).

110 Hegemonia às avessas

da concorrência, da competitividade e da eficiência. Não é fácil compatibi- lizar, de um lado, o capitalismo rentista com seu conjunto de práticas discri- minatórias e seu permanente e concreto açambarcamento da riqueza social por uma aristocracia capitalista privilegiada e bem postada no Estado e jun- to a ele e, de outro, esse discurso globalizante, que faz do mercado o demiur- go. Essa dificuldade é particularmente maior na periferia do sistema, em especial no caso do Brasil, despertado para o sonho do desenvolvimento nos anos 1950 e 1960. A decretação do estado de emergência 5 no plano econô- mico e, principalmente, sua combinação com o processo de hegemonia às avessas que experimentamos desde 2003 parecem estar sendo aí a única for- ma de promover essa conciliação e de, num ambiente de estabilidade políti- ca formal, trocar a perspectiva do desenvolvimento soberano pelo papel su- balterno de plataforma internacional de valorização financeira 6 .

Estado de sítio, estado de exceção permanente e estado de emergência econômico

No dicionário organizado por Norberto Bobbio, consta o seguinte, no verbete estado de sítio, assinado por Carlo Baldi:

Com a expressão “estado de sítio” se quer geralmente indicar um regime jurídi- co excepcional a que uma comunidade territorial é temporariamente sujeita, em razão de uma situação de perigo para a ordem pública, criado por determi- nação da autoridade estatal ao atribuir poderes extraordinários às autoridades públicas e ao estabelecer as adequadas restrições às liberdades dos cidadãos. 7

O termo pertence, portanto, à esfera da política e tem a ver com a relação entre os cidadãos e seus direitos civis e o controle disso pela auto- ridade pública, ou seja, pelo Estado. Nessa forma simplória escolhida pelo autor do verbete para dar conta do termo, “estado de sítio” designa uma si- tuação em que os direitos “normais” (aqueles do “estado de direito”) não podem ser garantidos aos cidadãos, porque a comunidade, ou seja, a socie- dade, encontra-se sob a ameaça de algum risco iminente (invasão, guerra ou endemia). Nessa perspectiva, poder-se-ia construir uma taxonomia que

5 Giorgio Agamben, Estado de exceção (São Paulo, Boitempo, 2004).

6 Leda M. Paulani e Christy G. Pato, “Investimentos e servidão financeira: o Brasil do último quarto de século”, cit.

7 N. Bobbio, N. Matteucci e G. Pasquino, Dicionário de política (5. ed., Brasília/ São Paulo, UnB/ Imprensa Oficial de São Paulo, 2000).

Capitalismo financeiro, estado de emergência econômico e hegemonia às avessas

111

conteria duas modalidades de “tempo político”: “tempo de normalidade”, em que todos os direitos constitucionais estão garantidos, e “tempo de ex- ceção”, em que essa garantia não existe, total ou parcialmente. Assim colo- cada a questão, parece uma conclusão óbvia que “tempo de exceção” é mes- mo o que o nome diz, uma “exceção”, ou seja, uma situação “temporária”, um período breve, que deve terminar tão logo tenha se afastado sua “neces- sidade”, ou seja, a iminência do risco “social” que supostamente o produziu. Mas a coisa é mais complicada do que parece. Segundo Agamben 8 , a origem do instituto do “estado de sítio” encontra-se no decreto de 8 de ju- lho de 1791 da Assembleia Constituinte Francesa, que distinguia entre état de paix, em que a autoridade militar e a autoridade civil agem cada uma em sua própria esfera, état de guerre, em que a autoridade civil tem de agir em consonância com a autoridade militar, e état de siège, em que a autori- dade militar assume o comando de todas as funções de que a autoridade

civil é investida para a manutenção da ordem e da polícia internas. O “esta- do de sítio” nasce, portanto, vinculado à questão da existência da guerra

e das consequências dessa situação para a organização social. Não por acaso,

esse decreto inicial referia-se somente às praças-fortes e aos portos militares. Ainda segundo Agamben, a partir daí o “estado de sítio” vai progressiva- mente se emancipando de sua relação com a situação de guerra para assumir

a feição de medidas extraordinárias, passíveis de adoção pelas autoridades em

casos de desordens e sedições internas 9 . É cerca de sessenta anos depois, no

mesmo palco francês da história, que essa feição se consagra, ao mesmo tem- po que se torna explícita a contradição que constitui o termo. Como lembra Arantes 10 , Marx retratou muito bem em O 18 de brumá- rio* as condições sob as quais foram promulgadas as leis francesas de 1849 sobre o “estado de sítio”. As jornadas de fevereiro de 1848 e a república so- cial que elas engendraram, sob o patrocínio do proletariado francês, depois da queda de Luís Felipe, produziram um reagrupamento das velhas forças da sociedade que culminaram naquilo que Marx chama de “período da Cons- tituição da República” ou da “Assembleia Nacional Constituinte”. Come-

8 Giorgio Agamben, Estado de exceção, cit., p. 16.

9 Idem.

10 Paulo E. Arantes, “Estado de sítio”, em Isabel Loureiro et al. (orgs.), O espírito de Porto Alegre (São Paulo, Paz e Terra, 2002).

* São Paulo, Boitempo, no prelo. (N. E.)

112 Hegemonia às avessas

çando em 4 de maio de 1848 e terminando em 29 de maio de 1849, é esse

o período de constituição e de fundação da república burguesa e é aí que

não só se consolida a ideia de um “estado de sítio político” (por contraposi- ção ao “estado de sítio militar” anterior), como se explicita seu caráter pa- radoxal. Na exposição de motivos da lei de 1849 que o institui, lê-se que as medidas excepcionais devem ser sempre determinadas por lei, “prestan- do-lhe assim homenagem no momento mesmo de suspendê-la” 11 . Ora, se a suspensão da lei é vista como uma homenagem a ela e, portan- to, também como lei, embaralha-se logo de partida a cândida distinção entre tempo de normalidade e tempo de exceção. É inescapável, por isso, a cons- tatação da natureza dialética do “estado de sítio” e do “tempo de exceção”, que ele inevitavelmente produz: trata-se de legalizar a suspensão da legali- dade, tornar um direito a suspensão dos direitos, tornar regra a exceção 12 . Esse caráter não é estranho ao fato de o “estado de sítio” ter nascido nas condições históricas em que nasceu, muito ao contrário. Acompanhemos, mais uma vez, Arantes:

A estreia burlesca do poder político burguês puro deu-se, portanto, à sombra desse prodigioso achado institucional, graças ao qual se codifica a exceção à norma legal. Reconstituindo a repetição farsesca do 18 Brumário original, Marx fez assim a crônica desse nascimento conjunto da exceção e da regra, dando a entender, à vista do roteiro que culmina num golpe providencial destinado a livrar de uma vez por todas a sociedade burguesa da preocupação de gover- nar-se a si mesma, que o Estado de Direito dos sonhos de seus demiurgos esta- ria condenado a viver sob um regime de exceção permanente. Isto é, normal. 13

Essa conclusão (a de uma exceção que adquire caráter permanente) é

semelhante à de Agamben, que, trabalhando em chave distinta, alerta para

a constituição, ao longo do século XX, do fenômeno paradoxal da “guerra

civil legal”, do qual o Estado nazista foi exemplo paradigmático. Logo que tomou o poder, em 1933, Hitler promulgou, no dia 28 de fevereiro, o De- creto para a proteção do povo e do Estado, que suspendia os artigos da Cons-

11

12

13

A informação está em Paulo E. Arantes, “Estado de sítio”, cit., p. 52.

Em linha com essa interpretação, Bercovici, estudando Carl Schmitt e lembrando

Agamben, afirma que o estado de exceção é uma “força de lei sem lei” e que, sob ele,

o Estado “suspende o direito em virtude de um direito de autoconservação” (Gilber-

to Bercovici, Constituição e estado de exceção permanente, Rio de Janeiro, Azougue, 2004, p. 67).

Paulo E. Arantes, “Estado de sítio”, cit., p. 52.

Capitalismo financeiro, estado de emergência econômico e hegemonia às avessas

113

tituição de Weimar relativos às liberdades individuais. Como o decreto nunca foi revogado, o Terceiro Reich pode ser considerado, do ponto de vista jurídico, um estado de exceção que durou doze anos. Para Agamben, o totalitarismo moderno pode então ser definido como a instauração, por meio do estado de exceção, “de uma guerra civil legal que permite a elimi- nação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias in- teiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sis- tema político” 14 . Sua conclusão é que, “desde então, a criação voluntária de um estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não de- clarado no sentido técnico) tornou-se uma das práticas essenciais dos Esta- dos contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos” 15 . A indistinção entre norma e exceção, que faz parte, como vimos, da his- tória desse “achado institucional prodigioso”, é um traço que se repete nos outros termos que conformam sua constituição. O que vimos até aqui já é suficiente para mostrar, por exemplo, que assim como podemos falar de uma “exceção normal”, também podemos falar de um “caráter temporário per- manente” ou, de forma ainda mais contraditória, de um “período de tempo permanente”. Mas é a forma de considerar a “necessidade”, implícita na ideia de que o “estado de exceção” é um recurso de última instância ao qual se re- corre em caso de precisão extrema (porque afinal a “sociedade” corre risco), que possibilita vislumbrar a dimensão da contradição que temos pela fren- te, e é também a reflexão em torno dela que nos mostra de que forma um expediente que nasce na esfera da política e sob o signo da guerra vai parar na esfera stricto sensu econômica e tem vigência em tempos de “paz”. Agamben, que mais uma vez acompanhamos, lembra que o conhecido princípio segundo o qual “a necessidade não tem lei” (necessitas legem non habet), mais do que fazer da necessidade algo que torna lícito o ilícito, faz com que ela atue como justificativa para a transgressão. Assim, uma “teoria da exceção” passa inexoravelmente por uma “teoria da necessidade”. Mas enquanto nos antigos pensadores – Graciano, são Tomás de Aquino – a ne- cessidade é algo que possibilita a tomada de decisão para além do determi-

14 Giorgio Agamben, Estado de exceção, cit., p. 12.

15 Idem. Veremos mais adiante que, particularmente no caso do estado de emergência econômico, sua declaração “técnica”, ou seja, seu enquadramento como um estado em que está presente formalmente a abolição provisória da distinção entre os pode- res, é de fato o que menos importa.

114 Hegemonia às avessas

nado pelas leis, nos modernos o estado de necessidade tende a ser incluí- do na ordem jurídica e a apresentar-se como o verdadeiro “estado” da lei.

O

princípio de que a necessidade define uma situação particular em que a

lei

perde sua vis obligandi transforma-se naquele em que a necessidade cons-

titui, por assim dizer, o fundamento último e a própria fonte da lei 16 . Nessa linha, Agamben cita, por exemplo, o jurista Santi Romano, que,

segundo ele, exerceu grande influência sobre o pensamento jurídico euro-

peu no entre guerras. Para Romano, “se não há lei, a necessidade faz a lei

o que significa que ela mesma constitui uma verdadeira fonte de direi-

to. Pode-se dizer que a necessidade é a fonte primária e originária do di-

17 . Assim, a necessidade, percebida em princípio como um locus sem

reito

lei, já que aí as regras não valem e a lei perde sua obrigatoriedade, transita

para seu contrário, um locus que constitui a própria fonte da lei.

É a ideia de que a necessidade faz a lei ou, de modo ainda mais radical,

de que ela “é a fonte primária e originária do direito”, que está por trás do

deslocamento do estado de exceção de uma medida provisória e excepcional para uma técnica de governo. Seu laboratório, segundo Agamben, foi a Pri- meira Guerra Mundial, ocasião em que, em vários Estados europeus, foram sistematicamente ampliados os poderes governamentais e foram promul- gadas leis de plenos poderes. De fato, lembra ele, “a progressiva erosão dos poderes legislativos do Parlamento que hoje se limita, com frequência, a ra- tificar disposições promulgadas pelo Executivo sob a forma de decretos com força de lei, tornou-se desde então uma prática comum” 18 . Mas se em seu nascedouro a transformação do estado de exceção em pa-

radigma de governo ainda está sob a égide da guerra e vinculada, portanto,

] [

16 Ibidem, p. 43.

17 Santi Romano, citado por Giorgio Agamben, idem, p. 44. O pensamento conserva- dor de Carl Schmitt chega, não por acaso, a conclusões análogas às de Romano no que tange à relação entre exceção e ordem jurídica. Segundo Bercovici, para Schmitt, a exceção não pode se manifestar no limite do direito (Constituição e estado de exce- ção permanente, cit., p. 66). Ao contrário, é só ela, a exceção, que permite que se chegue à essência do direito, já que é ela que revela o fundamento da ordem jurídica, portanto, da normatividade. Isso se relaciona a sua concepção de que o Estado pres- supõe o político e à indistinção que ele vê entre direito e política. Daí sua afirmação de que o político não se manifesta visivelmente em situações de normalidade, mas apenas nos momentos de exceção (ibidem, p. 71) e daí também sua célebre frase, segundo a qual “soberano é quem decide sobre o Estado de exceção”.

18 Giorgio Agamben, Estado de exceção, cit., p. 19.

Capitalismo financeiro, estado de emergência econômico e hegemonia às avessas

115

de alguma forma, a uma situação específica, a crise dos anos 1930 vai ter- minar o serviço.

Assumo sem hesitar o comando do grande exército de nosso povo para conduzir,