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Guapeba

Chrysophyllum imperiale

Nome
Guapeba, Marmeleiro-do-mato, Árvore do imperador, Royal tree
(Austrália)
N. Científico
Chrysophyllum imperiale sinonímia: Martiusella imperialis
(ver descrição da espécie - Flora Neotropica)
Família Sapotaceae
Altura média 12 a 20 metros
Folhas Simples, 50 x 20 cm.
Flores
Pequenas, claras, agarradas nos galhos. Ver fotos no exemplar de
Buenos Aires e de Lisboa.
Fruto
Ovalado, amarelo, macio, 5 x 2 cm, muito saboroso, segundo consta.
Ver fotos no exemplar de Sydney.
Sementes Duras, marrom, achatadas. ver foto no exemplar de Sydney.
Outras
características
Árvore nativa da região do Rio de Janeiro, mais especificamente a
região costeira baixa, que hoje é quase totalmente urbanizada.
Existia em abundancia na época do Brasil colonial, e hoje é
considerada em risco ou mesmo extinta em seu habitat natural.
Árvore de grande porte, madeira muito dura, de grande beleza e frutos
saborosos, era apreciada pelo Imperador D. Pedro I, e igualmente pelo
seu filho, D. Pedro II, que enviou mudas para vários jardins botânicos
do mundo.
Hoje existem alguns exemplares conhecidos, conforme se segue:
- Jardim Botânico de Lisboa – Portugal (ver fotos)
- Parque Farroupilha em Porto Alegre – RS (ver fotos)
- Parque Estadual do Rio Doce, em MG (ver fotos)
- Royal Botanic Gardens of Sydney – Austrália (ver fotos)
- Jardim Botânico de Buenos Aires – Argentina (ver fotos)
- Jardim Botânico de Bruxelas - Belgica (não temos fotos)

São citados também alguns outros exemplares em parques
(informação de Marco Lacerda):
Horto florestal em Cantareira, São Paulo (não comprovado) no parque
do Museu Mariano Procópio,em Juiz de Fora (esta já se comprovou
pista falsa), existiam (ou existem?) exemplares em projetos do Glaziou:
Quinta da Boavista, Passeio Público, Museu Imperial de Petrópolis. A
localidade típica era perto da Fazenda Mandioca, na Serra da Estrela
(hoje conhecida como Serra de Petrópolis).
Recentemente foram descobertos exemplares antigos, originais em
seu habitat natural, no Parque Estadual do Rio Doce, ver link ao lado.
O que parece ter ocorrido é que, após a queda do império, os
republicanos caçaram e dizimaram todas os exemplares existentes em
parques e Jardins botânicos, por vingança política tão típica daqui e
característica tão desprezível desta classe.
Busca pela
preservação da
espécie
Hoje existe um grupo de pessoas em vários paises procurando
conseguir reproduzir a espécie, seja por sementes ou por
estaquia.Trata-se de um trabalho importante, pois possibilitaria a
reintrodução da mesma em seu habitat natural, resgatando assim uma
espécie que faz parte de nossa história.
A existência desta página só foi possível pela generosa colaboração
deste grupo, com informações e fotos.
Pedro Foyos, jornalista e historiador português, ver texto.
Marco Lacerda, Rio de Janeiro, co-autor do livro Frutas Brasileiras e
Exóticas Cultivadas do Instituto Plantarum.
Carlos Velazco, de Niteroi, RJ
Sergio Duarte, de Portugal
Dean Rallison, da Austrália
Tom Ling, da Austrália
Antonio Morschbacker, colecionador de frutas de Porto Alegre.
Agradecemos ainda as pessoas que atenciosamente nos ajudaram na
busca, mesmo em tentativas frustrantes, como
Graça Duarte, do Museu Mariano Procópio
Rodrigo Trassi Polisel, de Juquitiba, SP
Se você, visitante da página, conhece algum outro exemplar, se tem
informações ou fotos desta espécie, todo o grupo agradeceria que
entrasse em contato.
Este contato pode ser pelo meu email eadmelo@uol.com.br
Eugênio

EXEMPLAR DO CHRYSOPHYLLUM IMPERIALE NO JARDIM
BOTANICO DE SYDNEY, AUSTRALIA

Um exemplar bem vistoso, floresce e frutifica, no Royal Botanic
Gardens of Sydney. Veja sementes na ultima foto. O clima é bem
semelhante ao do Brasil.
Veja fotos antigas deste exemplar no site
http://libapp.sl.nsw.gov.au/cgi-bin/spydus/ENQ/PM/FULL1?176994,I
Agradecimentos pelas fotos a Dean Rallison e Tom Ling











CHRYSOPHYLLUM IMPERIALE NO PARQUE ESTADUAL
DO RIO DOCE, MG

Encontrado no Parque Estadual do Rio Doce, Leste de MG, alguns exemplares que estão
sendo estudadas pela IFMG e Bioveritas como Chrysophyllum imperiale, chamadas
localmente de "Marmeleiro do mato". As fotos são do individuo mais acessível, porém
existem outros.
É uma árvore bem velha, aproximadamente 20 m de altura.
As folhas me pareceram bem duras, um pouco diferente das folhas novas de Sydney,
que dão uma impressão de serem mais macias, com coloração tendendo a amarelo e
mesmo rosa. Os recortes na borda, tão característicos, estão presentes e bem claros.
O tronco na base não é liso como das fotos de outros paises, mas a partir do terceiro
galho, bem no alto, ele fica bem parecido, mais liso e com marcas horizontais.
Encontrei junto à árvore restos de uma semente apenas, já deteriorada (última foto),
bastante semelhante às de Sydney. Espero encontrar frutos e sementes, me informaram
ocorrer por volta de Novembro.
Conversando com quem cuidou das mudas existentes no Parque (propriedades do
projeto) a pessoa me informou que as sementes são duras, parecendo com as de caqui
(confere!), foram levemente escarificadas (cortado um pequeno pedaço da casca com
tesoura) e nasceram em bom percentual.
Os frutos seriam amarelos, arredondados, com 4 a 5 sementes cada.

Agradecimentos pela valiosa colaboração de
Roberto Carlos Muniz, da Arpava (Ong da região)
Cabo Dutra da Polícia Florestal












EXEMPLAR DO CHRYSOPHYLLUM IMPERIALE NO JARDIM BOTÂNICO DE
LISBOA, PORTUGAL

Exemplar na Capital de Portugal, um pouco prejudicado pela presença de outras árvores
muito perto, e pelo clima com invernos rigorosos, não foram observados frutos. Entretanto
a ultima foto mostra sua floração.
Agradecimentos a Sergio Duarte pelas fotos.






CHRYSOPHYLLUM IMPERIALE

Imperador, nome de árvore

Texto de Pedro Foyos, jornalista e historiador português.

pfoyos@sapo.pt

O passado está sempre a ser necessário para explicar o presente
e o todo para explicar a parte.

Edward Burnett Tylor (1832-1917)

Começando pelo primeiro dia. Nesse dia fiquei sabendo que uma árvore
brasileira, quase extinta, conhecida há duzentos anos pelo nome de
Guapeba, possuía na atualidade a aristocrática designação científica de
Chrysophyllum imperiale. Parte desse dia o passei na companhia de uma
notável personalidade da Botânica portuguesa que me honra com sua
estima, a diretora do Jardim-Museu Agrícola Tropical (uma instituição um
tanto ignorada mas de que deveriam se orgulhar os lisboetas). Ao entrar
nesse deslumbrante Jardim Tropical, o meu conhecimento se encontrava
limitado a imprecisas referências históricas, a mais interessante das quais
consistia no indício de ter sido esta a “árvore dos imperadores brasileiros,
Pedro I e Pedro II”. Muito me intrigou o fato de, sendo isso verdade, estar
agora a Guapeba na “Red List” das organizações internacionais
superintendentes nas questões preservacionistas, com realce para a
International Union for Conservation of Nature / IUCN que lhe confere um dos
mais elevados graus de perigo de extinção. Tive então acesso a grande
número de publicações científicas que fui destrinçando auxiliado pelas
sábias explicações da diretora anfitriã. Obtive um “retrato de corpo inteiro”
da árvore no volume das Sapotáceas na monumental obra “Flora Neotropica”
e no vetusto Dicionário de Pio Corrêa. Dezenas de livros “especializados”
ignoravam a espécie. Me apercebi que, bibliograficamente, ela se encontrava
também quase extinta. Mas saí do Jardim-Museu com extensas notas
interrogativas que, numa perspetiva historica e jornalistica, me pareceram
promissoras. Trazia comigo, também, a mágoa de ter ficado consciente de
uma injustiça: a mais recente designação científica da “árvore dos
imperadores” esqueceu, lamentavelmente, o nome de Karl von Martius: o
género Martiusella (anterior identidade botânica da Guapeba) havia sido, de
fato, uma homenagem de outros dois grandes botânicos, primeiro Jean Jules
Linden e depois Jean Baptiste Louis Pierre, prestada ao cientista austro-
bávaro. Eles saberiam certamente que esta árvore teve um significado
especial para Martius, porventura mais que suas queridas palmeiras. Não
qualquer espécie: exatamente esta, depois denominada imperialis e
imperiale, numa associação óbvia aos dois imperadores que apoiaram sua
prolífica carreira científica e em particular, em relação ao segundo, a imensa
«Flora Brasiliensis», com vinte mil (!) plantas meticulosamente estudadas e
classificadas. (Em rigor, Pedro I prometeu mais que deu, mas… enfim,
sabemos que ele andava por esses dias absorvido com a independência do
Brasil).
A “árvore dos imperadores” havia também sofrido – estava entendendo
agora – a inconstância dos botânicos. De Theophrasta passara a Martiusella,
depois virara Chrysophyllum (um nome que já escrevi centos de vezes e
sempre o fico mirando na incerteza da grafia correta).

No final de minha visita ao Jardim-Museu Tropical de Lisboa, meu saldo
investigativo era, porém, aliciante: de fato esta bela árvore se atravessara (é
um modo de dizer) no caminho de três homens: dois imperadores brasileiros
e um botânico austro-bávaro.


‘Tá vendo essa beleza de árvores? Pois foi papai quem plantou
elas…

Primeiro “descobri” Martius, só depois tudo o resto. Uma “descoberta”
ocasional, a partir de uma fonte alemã que fazia humor com o estilo
diplomático do botânico em sua correspondência para a compatriota
imperatriz Dona Maria Leolpoldina, mas sendo na realidade o marido, Dom
Pedro I, o destinatário. Procurando não enfadar ambos com as aflitivas e
mais que justificadas carências financeiras, Martius vai temperando sua alma
remordida com a lembrança agradável dos passeios e conversas havidas
anos antes no Real Horto (virará Real Jardim Botânico no ano seguinte,
talvez por influência de Martius). Nesse final de 1817, está o futuro imperador
na companhia dos dois expedicionários da “Missão Austríaca” (Martius e seu
companheiro zoólogo Johann von Spix), também da então noiva de Pedro, a
graciosa arquiduquesa Leopoldina, recém-chegada da Baviera e,
presumivelmente, do marquês de Sabará.

(Abro parêntese para assumir minha inteira responsabilidade na suposição
de que estaria presente nesse convívio o marquês de Sabará. Este nobre
militar, de seu nome João Gomes da Silveira Mendonça, compartilhara a
direção do Real Horto com o italiano Carlos Antonio Napion, mas nesse final
do ano de 1817 já dirigia sozinho o jardim também denominado “de
aclimatação”, nas terras da Lagoa Rodrigo de Freitas. Pergunto, então:
perante um tão ilustre grupo de convidados, como poderia estar ausente o
diretor anfitrião? Atribuo importância ao tema porquanto se conta que o
marquês de Sabará era especialmente zeloso em relação às frágeis árvores
recém-plantadas pelo próprio príncipe Pedro, alegremente ajudado pela
noiva Leopoldina e que na época eram ainda designadas pelo nome tupi de
Guapebas. Estavam elas num espaço próprio cuja identificação “canteiro 10-
A” não se sabe quando foi dada. Eram as árvores prediletas de Dom Pedro,
ignorando-se o motivo do agrado: pelos frutos?, pela beleza da árvore? –
talvez ambas as coisas. Outras plantas ali residentes eram, entre outras, os
abacateiros, moscadeiras, cajazeiras e os sagueiros. Para quem estranhe
que Dom Pedro tenha plantado ali as suas preferidas Guapebas, clarifico que
ao tempo o Horto era uma área particular à qual acessavam unicamente as
figuras proeminentes da corte. Também Dom João plantou ali em 1809 a
famosa Palma-mater que geraria grande descendencia no Brasil. Está
documentado que este príncipe regente era um passeante assíduo, o mesmo
acontecendo mais tarde com o filho e o neto (Pedro I e Pedro II) que
gostavam de merendar na mesa de granito (a “Mesa do Imperador”) quando
visitavam o local. Naturalmente que Pedro I, ainda adolescente, recém-
chegado de Portugal, por ali terá andado e talvez namorado com frequencia.
Encerrando o parêntese, proponho a ideia plausível de o mesmo se ter
passado com o muito jovem Pedro II, ali brincando à vista da mãe
Leopoldina, a qual porventura não deixaria de informar com vaidade e
sotaque franco-alemão: ‘tá vendo essa beleza de árvores?... Lindas mesmo!
Pois foi papai quem plantou elas…).


Angústia de botânico é ter uma só vida e um projeto para mais
nove

O príncipe herdeiro e Martius têm quase a mesma idade. Muito jovens, estão
na casa dos vinte anos nesse primeiro e, quanto parece, único encontro
pessoal, no ano de1817, quando o botânico aporta à «Nova Atlântida».
O tempo passou. O primeiro é agora imperador de um Brasil independente.
Está apaixonado pelo poder que lhe concede a nova situação política. O
segundo, regressado à longínqua pátria europeia, continua apaixonado, sim:
por plantas. Vem acompanhando com avidez e uma morosidade informativa
de meses os acontecimentos que fervilham naquele extraordinário «mundo
da outra metade do mundo», porém recebe as notícias com moderada
surpresa: ao abandonar o Brasil, ao fim de uma odisseia exploratória de três
anos, já estava pairando no ar a mudança.
Não se sabe quantos “rogos” terá o imperador recebido do botânico
(diretamente ou por meio de sua esposa), mas não custa adivinhar que tais
“súplicas” financeiras terão sido frequentes. A “agenda política”, como se
diria agora, impõe prioridades da qual estão excluídos, decididamente,
assuntos menores, como ciência e investigação. O império florístico pode
esperar. Martius espera e desespera. Apesar de tudo, escrevendo aos
amigos distantes, vai confidenciando estar feliz com a notícia da
independência do Brasil (nunca saberá, porque morre pouco antes, que sua
pátria bávara sofrerá um destino diferente, perdendo a independência em
resultado da anexação pela Alemanha). Mas vive angustiado, batendo
freneticamente à porta dos poderosos do mundo inteiro, pedindo ajuda para
algo de insólito: tem à sua frente caixotes e mais caixotes contendo
inumeráveis seres vegetais, oriundos do Brasil, que ninguém ainda estudou,
desenhou, classificou; mais: milhares deles são ignorados pelos próprios
brasileiros. Ele pede ajuda por uma razão bem simples de compreender: um
tão grande projeto extravasa o espaço de uma só vida, a sua. Diz aos
amigos que, sem ajuda, necessitaria de pelo menos dez vidas. Impossível. O
argumento não demoveu nunca quem poderia ter competência em decretar
tais exceções. E, parafraseando Malraux, o tempo, se fosse pessoa de bem,
deveria parar para quem tem em mãos a herança do planeta.
Afortunadamente nascerá em breve um meninozinho que depois de bem
crescidinho usará barba, mais tarde umas grandes barbas, sendo conhecido
em meio mundo por essas barbas e pelo nome de Dom Pedro II. Ele não só
saldará a imensa dívida de seu estouvado papai mas também mecenará o
genial botânico até ao fim da vida deste, em 1868. A “Flora Brasiliensis”, uma
das mais grandiosas obras do gênero alguma vez empreendidas no mundo,
abre enfim velas nas águas volúveis do conhecimento humano e, sob a
égide das generosas barbas, a bom porto chegará para glória da Botânica e
do Brasil.

Eu, republicano de raiz, sempre direi que um imperador destes me faria
reconsiderar meus preconceitos desfavoráveis à monarquia.


Acredite, Dr. Martius, estamos fazendo tudo para salvar o
Imperador

Deixemos a grande História, que, de hábito, está feita e refeita. A pequena
história, ao invés, ainda proporciona grandes descobertas. A carta de Martius
para a compatriota, esmolando em termos elegantíssimos a concretização
dos prometidos apoios financeiros, termina em toada romântica. Martius
alude às saudades do Brasil e refere «as Guapebas junto das quais
conversámos». Logo depois, uma pergunta que parece estranha mas que os
destinatários bem entenderiam o significado: «Será que existem ainda?».
O que eram as Guapebas? Dizem-me que, na atualidade, constitui um
gênero vegetal. Naquela época, porém, eram as árvores semelhantes a
marmeleiros (ou qualquer árvore cujo fruto se parecesse com um marmelo) e
assim designadas pelos índigenas da língua tupi (a expressão «Marmeleiro-
do-mato» citada por Pio Corrêa não estaria ainda vulgarizada).
À data em que escrevo está se investigando qual a identificação atribuída a
esta árvore na “Flora Brasiliensis”. Uma falsa pista levou a supor, há dois
anos, que um desenho de uma folha do género Theophrasta seria da autoria
de Martius e correspondente ao epíteto “imperialis” (primitiva identificação
científica), mas afinal tratava-se de “obra de arte” e não propriamente
botânica, figurando o nome “Martius” a título de homenagem prestada pelo
autor do desenho ao ilustre cientista. Sequentes nomes científicos são, como
mencionei, Martiusella imperialis e agora Chrysophyllum imperiale.
Bem, e por que recearia Martius que as suas Guapebas já não existissem?
Para responder a essa pergunta teremos de fazer uma viagem no tempo, ao
Brasil de 1817 – o ano em que Martius desembarca no Rio e também o ano
da Revolução Pernambucana. Uma viagem ao tempo em que o movimento
independentista começa a ser uma fogueira inapagável. Ao tempo em que o
Governo da metrópole «ordena» a Dom João que incremente o mais
possível a construção naval (madeira aí é coisa que não falta!). Martius
percorre durante meses toda a região do Rio (Santa Tereza, Tijuca, Niterói e
outras) e assiste ao princípio de uma atividade sistemática de abate florestal.
Nos seus escritos é insistente e severamente crítico nessa denúncia. Antes
disso, já os construtores navais haviam concluído que as tais Guapebas
ofereciam madeira de soberba qualidade para os objectivos em vista. Um
botânico sofrerá, mais que ninguém, ao assistir à dizimação de uma floresta.
Terá Martius falado com o príncipe sobre o assunto? A pergunta «Será que
existem ainda?», uma expressão significativamente singela e isolada, deixa
supor que sim. As Guapebas junto às quais conversaram estariam presentes
não só no Horto mas também nas conversas. E que teria respondido o
monarca? Possivelmente o mesmo que declarou um seu ministro, anos
depois: «Um Brasil independente necessita de uma forte marinha de
guerra»... (... e de muitas, muitas Guapebas! – poderemos nós deduzir). Dois
homens, um botânico e um futuro imperador, dilacerados pelas mais
profundas contradições e angústias da condição humana. Afinal, não teriam
ambos razão?
E se Martius aparecesse agora e nos interpelasse: «Será que existem
ainda?». Que responderíamos? Talvez, envergonhadamente: «Sim, Doutor
Martius, ainda existem algumas. Talvez dez. Ou vinte, ou trinta. Acredite que
estamos a tentar salvá-las! Acredite que há por aí um grupo fantástico que
está fazendo tudo para salvar o Imperador! Sim, um grupo fantástico. E
numeroso. Veja só: seus nomes são Eugênio, Marco, Carlos, Antonio,
Mauro, Sérgio, Dean, Tom, Rodrigo… e muitos outros!».



Três imperadores em Lisboa: o exilado, o tumulado, mais um
plantado

Em ano indeterminado que provavelmente se situará entre 1876 e 1878, a
história desta árvore fabulosa se estende a Portugal. Decorre por essa época
o início da criação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa (JBUL), um
projeto vagaroso que demorou uma eternidade a concretizar. Mas aparece
agora um homem intrépido que vai mesmo passar à prática: o conde de
Ficalho. Professor catedrático de Ciências, emérito botânico e escritor
marcante da literatura portuguesa do séc. XIX, é uma figura ainda hoje
admirada no meio científico e literário lusitano. Esse principal impulsionador
do JBUL, nome igualmente prestigioso além fronteiras, começa por contatar
os JB do mundo inteiro, solicitando cooperação no sentido de serem cedidos
espécimes representativos das floras locais. Ora acontece que o conde de
Ficalho e também o seu pai mantêm relações de estreita amizade com Dom
Pedro II, advindo de tal circunstancia a probabilidade de o pedido ser dirigido
ao próprio imperador. Este não hesitará na escolha. Aos seus olhos, é a
Guapeba, a par do Pau-Brasil, a árvore que representa em mais alta
excelência a nação brasileira. A “árvore dos imperadores” é literalmente a
sua árvore, cuja identidade científica nessa data – Theophrasta imperialis –
contém como epíteto específico uma homenagem a ele próprio e ao pai,
Dom Pedro I. Acresce ser a árvore predileta de Karl von Martius, o notável
botânico falecido poucos anos antes e que ele, Pedro II, mecenou durante
décadas. (O gênero Martiusella, homenageando Martius, ocorreria duas
décadas depois). Refletirá Pedro II: em Lisboa, a árvore irá viver na mesma
cidade e não muito longe do local onde está tumulado o pai. O imperador
sabe igualmente que no outrora Real Horto e agora já designado Jardim
Botânico do Rio de Janeiro continuam de ótima saúde as árvores plantadas
pelo pai, quando jovem.

Cabe aqui uma referência ao exemplar existente no JB de Sydney. Em 1868,
ano da morte de Martius, decorrem em todo o mundo homenagens ao
botânico. É admissível que Dom Pedro II tenha procedido da mesma forma,
ou seja, diligenciado o envio de uma destas árvores para aquele JB (e
também para outros, quem saberá?). O que sabemos é que o exemplar de
Sydney é ali chamado “Royal Tree” e foi plantado pelo príncipe Alfred, duque
de Edimburgo, fato que permite intuir uma proveniência real (imperial, no
caso). Tendo este cenário correspondência com a realidade, é extremamente
interessante imaginar que as sementes provenientes do Imperador de
Sydney e cuja germinação no Brasil está a ser tentada por Eugênio Arantes
de Melo (Maio 2007) simbolizariam um comovente reencontro com a pátria,
140 anos depois…

Regressando ao Rio de Janeiro. Escolhida a árvore que viajará para Lisboa
(uma escolha determinada possivelmente por Karl Glasl, então diretor do
JBRJ), ela embarca em data indefinida, contudo podendo se balizar, como
referimos, entre 1876/78. É possível afirmar que o espécime se encontrava
num espaço do JB que teria ou viria a ter a identificação de “canteiro 10-A”.
Menos compreensível é a circunstância de o barco ter feito escala na ilha de
Marajó. Se alguém estiver em condições de formular uma justificação
plausível para essa escala, tal contributo é bem-vindo.
Minha imaginação me leva agora a encenar a plantação da árvore no JB da
Universidade de Lisboa. Estou vendo nesse ato, não um príncipe, mas um
conde… Claro, como poderia o conde de Ficalho não estar presente? Mais:
estará acompanhado do seu muito direto colaborador, Jules Daveau,
jardineiro-chefe. A plantação se processa criteriosamente: a árvore vive a um
passo de um curso de água. Apenas não teve critério a localização,
posteriormente, de um sicômoro, a poucos metros, que está agora tentando
estrangular o nosso Imperador.

Em 17 de novembro de 1889, o exílio. Dom Pedro II é colocado para fora do
Brasil. Chega a Portugal, onde encontra amigos, parentes e muita gente da
vida intelectual e científica. Das 5 500 páginas de seu diário me foi possível
consultar aquelas que se referem a este período doloroso e que para mim
representava o de maior interesse histórico (prazerosamente realço a
simpatia de Fatima Argon, chefe do Arquivo Histórico do Museu Imperial de
Petrópolis e demais pessoal que me tratou excelentemente!). Se verifica
então que, chegado a um sábado, logo na 2ª feira Dom Pedro II vai à
“Politécnica” (designação da Escola Superior contígua ao Museu de História
Natural e ao Jardim Botânico). Que vai lá fazer? No diário menciona ter
ouvido uma lição de física e outra de química, que parece não lhe terem
agradado especialmente. Nessa tarde de 9 de dezembro de 1889, Dom
Pedro II está a poucos passos da árvore-memória de seu pai, aquela que
havia oferecido cerca de quinze anos antes ao Jardim Botânico. Incorro
conscientemente no pecado da especulação dizendo que nesse momento
ele terá ido, em breve e solitário passeio, contemplar a “sua” árvore, a
Guapeba do seu Brasil, «a nação que eu amei e amarei», a «pátria amada»
– como escrevera dias antes durante a viagem para o exílio.
Passam 48 horas, estamos agora na 4ª feira, o imperador se desloca a
Queluz para ver «a câmara (aposentos) onde nasceu e morreu meu pai».
Avançando quatro dias no calendário, é domingo, o imperador faz uma de
suas primeiras visitas particulares: precisamente aos nobres Ficalho, o pai e
o filho (sendo o último o “nosso” já conhecido conde). Dir-se-á que o
imperador, em relação à hipotética “visita” à árvore representativa da
memória de seu pai e do amigo de muitas décadas, Karl von Martius, poderia
ter registrado tal fato em seu diário. Julgo que não. O assunto seria
excessivamente íntimo. Os estudiosos de Dom Pedro II sabem que ele tinha
uma noção muito exata da futura ressonancia pública deste diário feito no
decurso de 51 anos (!), também por esse motivo queimou centenas de
folhas, ressaltando o longo período de 1842 a 1858. Já o mesmo não direi no
que respeita à conversa com o conde de Ficalho, cuja grande paixão cultural
continuava sendo, nessa época, o Jardim Botânico. É pena que o monarca
exilado não tenha dado a conhecer um pouco do que foi essa conversa,
porque o tema do Jardim e da Guapeba não foram decerto omitidos.

Já que falamos deste imenso diário, terá interesse sublinhar o amor que
Pedro II tinha por seu pai. Nas datas de 24 de setembro são frequentes as
notas do gênero: «Faz hoje (tantos) anos que morreu meu Pai». Também
figuram os elogios ao trabalho de Martius, considerando-o «um verdadeiro
monumento científico para o Brasil» (frase registrada em 10 de dezembro de
1862). Tanta admiração pelo botânico está patente no fato de, depois da
morte deste, encontrando-se certa vez na sua antiga pátria bávara
(entretanto anexada pela Alemanha) fazer questão de visitar a viúva. Mais
tarde, em Filadélfia, se declarou feliz pela oportunidade de conhecer o filho
de seu grande amigo.
Por tudo isto, os mestres do Código Internacional de Nomenclatura Botânica
permitirão que renove minha mágoa, porventura partilhada por todos os
botânicos profissionais ou amadores e especialmente os brasileiros: é uma
injustiça que tenha sido banido da Nomenclatura o gênero Martiusella ao
qual pertencia a nobre Guapeba, uma árvore cuja “biografia”, das mais
fascinantes da flora mundial, é indissociável de Martius.


Imperador não é um birosqueiro oferecendo vegetal de tenra idade

Uma narrativa histórica é singularmente desafiante quando o autor se depara
com “elos perdidos”. Acontecerá o mesmo quando um arqueólogo não
consegue coletar a totalidade dos fragmentos e procura sugerir, da forma
que se lhe afigura mais verosímil, o que está em falta. De quanto fica
descrito, tenho de admitir com honestidade que há dois elos inexistentes que
tentei suprir imaginativamente, todavia sem ferir (pelo menos de forma
grosseira) a verosimilhança. Ei-los: 1) a maravilhosa hipótese de ter ocorrido
um “encontro secreto” de Dom Pedro II com a “sua” Guapeba, no Jardim
Botânico da Universidade de Lisboa, na ocasião em que o imperador exilado
esteve pertíssimo dela; 2) a probabilidade de essa árvore, porventura
também a de Sydney, terem saído do grupo das plantadas em 1817 por Dom
Pedro I e oferecidas por Dom Pedro II, entre 1868 (Austrália) e 1876
(Portugal), aos referidos Jardins Botânicos (ou ter ele influído nessas
ofertas).
O primeiro caso se firma numa mera intuição. Quem estude a personalidade
do “Imperador das Barbas” não pode deixar de concluir que era um homem
imensamente sentimental. Que outra coisa poderá se dizer de quem registra
em diário, durante 51 anos, não apenas suas observações e vivências mas
também seus sentimentos? Dom Pedro II passou a vida viajando por dentro
dele próprio, com todas as ciências e artes em cenário de fundo.
O segundo caso apresenta uma vulnerabilidade cronológica. A ser verdade o
descrito, sobretudo no respeitante à plantação das Guapebas pelo príncipe
herdeiro, em 1817, terá de aceitar-se que a árvore (ou árvores) embarcaram
para Lisboa e Sydney com uma idade entre os 50 e os 60 anos. Parece ser
muita idade para uma árvore. Ambas teriam agora 190 anos, uma meia idade
na escala botânica de longevidade atribuída ao gênero.
A observação mais reticenciosa que já me fizeram respeita, porém, à idade
de meio século para uma árvore desenterrada andar viajando pelo oceano.
Então, respondo: Imperador não é um birosqueiro de esquina oferecendo
vegetal de peito, de tenra idade. Árvore oferecida por imperador terá de ser
planta da alta, com experiência de vida, bem enraizada na hierarquia de seu
reino vegetal. Irá pois Dom Pedro II expedir para seu amigo lisboeta, o conde
de Ficalho, talvez também para Charles Moore, o insigne diretor do JB de
Sydney, a Guapeba-imperial da mais altaneira aparência entre quantas
foram por seu pai plantadas no antigo Horto das merendas e dos namoros.
Convencerá meu argumento? Havendo quem discorde, sinto muito, mas eu
passo. A verdade é que não tenho outro.

Concluindo…

Quanto fica aqui narrado não é mais que a nascente de um rio-livro que
começa no Rio de Janeiro e enfrentará muitas cachoeiras até chegar à ilha
de Marajó, onde o botânico Karl von Martius sofre um grave naufrágio do
qual sobrevive muito a custo. Tem uma personagem vegetal (uma certa
árvore bem brasileira...) e outras humanas, entre as quais destaco, além de
Martius, o companheiro zoólogo Spix (cuja aventura no Brasil lhe custaria a
vida, na sequência de doença contraída em águas contaminadas) e um
jovem estudante português, apaixonado por árvores e pelo Brasil, que no
século XXI está tentando reconstituir a história da “árvore imperial”.

Pretendo que este Imperador sem império, se extinguindo e nos incriminando
silenciosamente, como é costume em seu reino, simbolize a tragédia das
florestas perdidas.

Pedro Foyos

(Portugal, em Maio de 2007)


Sobre o autor

Pedro Foyos

Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1945. Perfazendo uma carreira profissional de mais de
quarenta anos como jornalista e diretor de publicações, se dedica também, atualmente, à
literatura de ficção e de divulgação de temas das Ciências da Natureza. De entre os
órgãos de informação onde trabalhou se destacam o diário República (único jornal de
oposição à ditadura de Salazar) e o Diário de Notícias. Neste jornal de referência na
imprensa portuguesa integrou a direção de redação, sendo responsável, nomeadamente,
pela revista dominical e edições especiais. Fundou a revista Nova Imagem, da qual foi
diretor durante seis anos, e mais tarde a coleção Grande Reportagem.
Foi presidente durante uma década da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, tendo
nesse período fundado e dirigido o Anuário Português de Fotografia.
É autor dos livros O Jornal do Dia e A Vida das Imagens. Organizou, a convite da
Imprensa Nacional, uma antologia histórica, em dois volumes, consagrada a grandes
momentos do jornalismo português no século XX. Estreou-se na ficção com O Criador de
Letras (no prelo), um romance inspirado no tema da criação do alfabeto, tendo como
cenário a vida quotidiana no Antigo Próximo Oriente. Tem em preparação, numa fase de
pesquisa, um outro romance no qual uma árvore brasileira quase extinta (Chrysophyllum
imperiale) ocupa um lugar de relevo.
Interessado desde muito novo pelos temas científicos, fundou o Centro de Estudos das
Ciências da Natureza, ao qual continua ligado honorariamente e prestando colaboração
na área da Botânica.
No campo do ensino e formação tem vindo a orientar estágios profissionais de
Tecnologias
de Comunicação na especialidade de Psicologia da Leitura.

pfoyos@sapo.pt


Pedro Foyos é casado com a jornalista e escritora Maria Augusta Silva,
distinguida com o Prémio Internacional de Jornalismo, entregue
pessoalmente pelo Rei de Espanha no ano de 1993.

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