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COURTOIS, Stéphane. O livro negro do comunismo: crimes, terror e repressão.

Rio
de Janeiro: Bertrand, 1999. Primeira parte: Um estado contra o povo. Violência, repressão e
terror na União Soviética por Nicolas Werth.

Stéphane Courtois (organizador da obra) nasceu em 25 de novembro de 1947. É


diretor de pesquisa do CNRS (Universidade de Paris), professor no Instituto Católico de
Estudos Superiores (CIEM), La Roche-sur-Yon. É especialista em história do comunismo.
Formado em direito e em história, se tornou conhecido em 1980 com a publicação de
sua tese “O PCF na guerra” conduzida sob a direção de Annie Kriegel. Fundou em 1982, a
revista “O Comunismo”, que reúne especialistas do comunismo francês.
Foi nomeado diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa
Científica), onde foi responsável pelo laboratório e observatório do Grupo para o Estudo da
Democracia (GEODE). Neste período da revista, o comunismo é assunto de análises
extremamente ricas, sob vários aspectos, herança de seu importante trabalho publicado em
1980.
Após o colapso dos regimes comunistas da Europa Oriental, os arquivos do Komintern
são imediatamente interpretados por Stéphane Courtois sob uma nova visão, anunciando o
nascimento de uma nova e mais realista história do comunismo. Sua postura de sempre extrair
dos arquivos informações dramáticas, fez com que outros autores vissem uma ruptura na
complementaridade da pesquisa científica.

Nicolas Werth, nascido em 1950, é um historiador francês especializado em história da


União Soviética. Ele é pesquisador do Instituto de História contemporânea e membro do
CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Científica).
Após entrar no CNRS em 1989, Nicolas Werth se dedica a seu primeiro livro: “Ser um
comunista na URSS sob Stalin”. Esta é sua visão da história social dos anos 1920 a1930,
incluindo a relação entre poder e sociedade na URSS: violência estatal e resistência da
sociedade.
Influenciam seu pensamento e sua obra, não apenas as descobertas da sovietologia
ocidental, mas também de colegas de trabalho russo. Ele coloca a sua investigação na
perspectiva de ultrapassar o fosso entre “a escola do totalitarismo” e a “escola revisionista”,
considerando-a obsoleta após o colapso da URSS e de uma abertura parcial dos arquivos. No
entanto, pelo seu compromisso com a história social, por muito tempo foi considerado apenas
próximo da sovietologia centrada exclusivamente na política, que se encontra no contexto do
trabalho dos historiadores revisionistas. Ele também explica, em contraste com alguns
sovietologistas, que pensava que o controle da sociedade totalitária soviética tinha sido eficaz.
Como os relatórios da polícia política muitas vezes revelam, havia grande diferença entre a
realidade e os fatos.
Autor do primeiro capítulo do Livro Negro do Comunismo dedicado a Rússia
soviética, declarou publicamente que não comunga da idéia contida no prefácio de Stéphane
Courtois, de que o comunismo é intrinsecamente criminoso. Ele também denunciou que os
números não são confiáveis, e que o livro “deriva de uma história exclusivamente policial”.

Na introdução do livro O livro negro do comunismo, Courtois comenta sobre a


violência extrema do século XX, embora reconheça que nos séculos anteriores a violência
também estivesse presente, e em países ditos “civilizados”. Ele cita como exemplo os Estados
Unidos da América e o extermínio das populações indígenas e a escravidão do negro, a
França e a violência com que combatia os colonos revoltosos, assim como outras potências
colonizadoras.
Porém, o autor destaca que o século XX ultrapassou em mortes todos os séculos
anteriores. Foi o século do nazismo, do fascismo, das duas grandes guerras mundiais, de
massacres étnicos e políticos. Nesse meio, ele acrescenta o comunismo, e sua longa trajetória
de violência e perseguições.
Mas afinal, o que é o comunismo? Como surgiu? Para o autor, a idéia de comunismo
começa com Platão e sua República de iguais. Depois com Thomas Moore e sua Utopia. O
autor concorda que as utopias são importantes críticas sociais e políticas, o problema é quando
se tenta colocá-las em prática.
Nesse livro, porém, os autores tratam de um comunismo real, em uma determinada
época e determinados países, com líderes que se tornaram célebres em sua época. Citando
Ignácio Silone, “as revoluções são como as árvores, elas são reconhecidas através de seus
frutos”, o autor responsabiliza os filósofos utópicos como “patronos’ dos comunistas que
chegaram ao poder no século XX, onde o crime e o terror de massa eram o sistema de
governo.
O autor enfatiza que os crimes do comunismo não foram submetidos a uma
investigação não politizada, tanto do ponto de vista histórico como moral, como o foi o
nazismo. O que podemos notar em todos os governos comunistas, era que o terror fazia parte
do sistema de governo, e não meros “acidentes” individuais ou erros desse ou daquele
dirigente.
Stéphane Courtois deixa claro que os crimes que serão analisados no livro, não são
relativos a uma cultura de um país, e sim contra pessoas: homens, mulheres e crianças. Com
que meios? Fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento, asfixia por gás,
envenenamento, fome provocada ou não socorrida, mortes durante as deportações em vagões
para transporte de gado, em temperaturas de até 50 graus negativos e sem aquecimento,
longas caminhadas forçadas, esgotamento devido a trabalho escravo, fome, frio, etc.
Para o autor, os números, embora imprecisos, falam por si:
• União Soviética: 20 milhões de mortos
• China: 65 milhões
• Vietnã: 1 milhão
• Coréia do Norte: 2 milhões
• Camboja: 2 milhões
• Leste Europeu: 1 milhão
• América Latina: 150.000 mortos
• África: 1,7 milhões de mortos
• Afeganistão: 1,5 milhões de mortos
• Movimentos comunistas internacionais fora do poder: 10 milhões de mortos
Os destaques em toda essa fúria genocida: Lênin e Stalin, pelo pioneirismo e pela
frieza calculada na forma como criaram a máquina do terror de estado; Mao, na China, pela
crueldade; Pol Pot, no Camboja, pela quantidade de vítimas em relação ao total da população
(32%).
O autor cita o acordo entre Hitler e Stalin de não agressão e repartição da Polônia,
liberando o primeiro a iniciar a guerra, como primeira amostra internacional do caráter
inescrupuloso de Stalin.
Na mesma linha de pensamento, o autor afirma: se os crimes dos estados comunistas
fossem julgados no tribunal de Nuremberg, teriam sido condenados pelos mesmos crimes do
nazismo. Que diferença teria a morte de uma criança judia num campo de concentração na
Polônia, da morte de uma criança ucraniana em um Gulag na Sibéria?
De acordo com as leis internacionais, foram cometidos crimes contra a paz, crimes de
guerra e crimes contra a humanidade. Pelo código penal francês, trata-se de genocídio: a
política estatal soviética de destruição de um grupo social, a chamada burguesia, ou além:
todo e qualquer adversário político do regime; a nobreza, a igreja, a intelligentsia (elite
intelectual do país), e até categorias profissionais: oficiais do antigo regime, funcionários
públicos, etc.
A descossaquização corresponde exatamente à definição de genocídio: os homens
foram fuzilados sem julgamento, mulheres estupradas em massa e deportadas junto com
crianças e idosos. Também seria enquadrada como genocídio a fome ucraniana de 1932 a
1933, relacionada à resistência das populações rurais à coletivização forçada das suas terras, o
que provocou a morte de seis milhões de pessoas. Nesse caso, o genocídio de raça se mistura
ao genocídio de classe social: o crime de fome como sistema de governo. O que é pior: todo o
sistema de execuções a adversários, deportações e fome provocada se repetiu em seguida na
China, Coréia do Norte, Camboja, etc.
Stéphane Courtois questiona: o historiador está apto a tratar os crimes do comunismo
como crimes contra a humanidade, sendo esses de domínio jurídico? E a questão dos
admiradores de Lênin e Stalin no mundo inteiro? Não seriam eles seus cúmplices, por serem
formadores de opinião? Ou poderiam alegar que não sabiam de seus crimes e ficar tudo por
isso mesmo? Para o autor, ao defenderem o sistema, acabam por legitimá-lo, liberando o
terror.
Os defensores do sistema afirmam que a tradição de violência russa era anterior ao
comunismo. O que é verdade, porém se levantarmos as prisões, desterros e execuções no
sistema czarista de combate aos opositores, iremos notar que foram pequenas, em comparação
ao comunismo. Até se comparados com o nazismo, os números são desproporcionais: 25
milhões de mortes provocadas pelo nazismo, contra 100 milhões pelo comunismo.
O que poucas pessoas sabem é que muitas práticas eram comuns a ambos os regimes,
sendo que a eficiência na eliminação dos inimigos do comunismo serviu de modelo para os
nazistas. Outro paralelo entre os dois sistemas é a purificação da população. Enquanto Hitler
pregava os benefícios da purificação racial, Lênin e Stalin buscavam a purificação ideológica,
expurgando todo e qualquer tipo de oposição. Buscavam um proletariado puro, livre de toda a
escória burguesa.
Os crimes nazistas foram para o cinema, e para as livrarias, para que nunca sejam
esquecidos, por que os crimes do comunismo não mereceram a mesma atenção? Por que o
silêncio dos políticos? Por que o silêncio dos acadêmicos? Por que a incapacidade de analisar
os crimes comunistas, o crime de massa sistemático contra a humanidade? Seria tão difícil
assim, ou falta vontade, ou até coragem de compreendê-lo? Por que o mundo se calou?
Cegueira, cinismo?
Nem mesmo os Estados Unidos escapam dessa realidade incômoda, ao entregarem o
Leste Europeu a Stálin nos acordos do pós Guerra. A imagem gerada pela utopia cegava a
realidade dos porões ou era o desejo de cada país de cuidar das suas próprias feridas?
Stéphane Courtois cita três razões para a ocultação dos crimes comunistas:
1. O apelo emocional da idéia de revolução e o apelo aventureiro dos revolucionários,
sobretudo nos jovens;
2. O grande sacrifício russo durante a Segunda Grande Guerra, criando inúmeros
mártires, e a marca do comunismo como inimigo do fascismo / nazismo;
3. Ao terem ajudado a derrubar os nazistas também genocidas de judeus, ciganos etc., os
tornava imediatamente imunes dessas mesmas acusações.
Consciente do atraso histórico em retratar a verdade por trás da propaganda comunista,
o autor afirma que o Livro Negro do Comunismo possui três deveres: estimular o debate
desse assunto, pois para ele, nenhum assunto é tabu para o historiador; o dever para com a
memória dos milhões de mortos; o dever moral de condenar o comunismo pelo que ele
cometeu de erros.
Alguns autores do Livro Negro do Comunismo estiveram ligados a essa ideologia
durante muito tempo, outros ainda o são. Mas por que então resolveram denunciar o
comunismo? Segundo Stéphane Courtois, para evitar que a extrema direita, cada vez mais
atuante o faça, e tenham o mérito de revelar a verdade.
Apesar de nem todas as fontes desse livro serem oficiais, há arquivos da Tcheca, da
KGB, e outros dados levantados das melhores informações disponíveis e por testemunhas que
viveram o período.
Os vencedores puderam fotografar à vontade os campos de concentração nazistas, a
situação dos poucos sobreviventes e distribuir as imagens. No comunismo, porém, o terror era
planejado e efetuado no mais absoluto sigilo, e sobraram poucas imagens.
Finalizando sua introdução, Stéphane Courtois pergunta: por que Lênin, Stálin, e todos
seus seguidores julgaram necessário exterminar tantas pessoas, e desrespeitar o mandamento
mais sagrado: NÃO MATARÁS.
Nicolas Werth inicia a primeira parte com a pergunta: teria sido o golpe de 17 de
outubro um acidente? Teria sido mesmo executado por um punhado de intelectuais espertos e
oportunistas?
O autor explica que para entender a Revolução de 1917 é necessário entender dois
aspectos:
1. A revolução política do partido Bolchevique foi muito bem planejada, sendo um
partido único em todos os sentidos;
2. A ebulição social, marcada pelo anseio camponês pela posse da terra, pelo fim da
guerra e por sua desconfiança por tudo o que provinha da cidade.
Para engrossar o caldo dos revoltosos, somem-se 10 milhões de soldados-camponeses
insatisfeitos e cansados de mais de três anos de guerra, mais três milhões de operários,
politicamente organizados. O partido bolchevique se aproveita do vazio institucional e
congrega todos os descontentes, embora que no poder, tenha traído a todos.
A Primeira Guerra Mundial, diferente do que imaginava o Czar Nicolau II, não foi
unificadora do povo e do Império Russo, foi justamente o contrário, ajudou a fraturá-lo. A
Rússia czarista não resistiu aos cercos militares e econômicos. Todos os setores da sociedade
estavam em situação desesperadora, principalmente os camponeses e os soldados.
Por fim, Nicolau II mostrou ser um imperador fraco que, desde 1915, não governava o
país de fato.
Aproveitando a situação de extrema vulnerabilidade, os bolcheviques atacam e
destituem o governo, em Fevereiro de 1917. Segue-se um governo provisório, formado de
forças de centro-esquerda, que buscava, apesar de golpista, agir com certa legalidade. Porém,
os principais problemas que causaram a queda do antigo regime não foram solucionados: a
guerra, que se prolongava sem solução, com milhares de desertores a cada dia, e a questão da
crise no campo. Depauperados e passando inúmeras necessidades, os camponeses
reivindicavam a imediata “partilha negra”, uma reforma agrária baseada na quantidade de
membros de cada família.
Devido à incompetência do governo provisório de solucionar essas questões, ocorre
novo golpe em outubro. Lênin, retornando do exílio, coordena as ações dos bolcheviques, que
por sua vez, seduzem a grande massa de camponeses e militares desertores insatisfeitos que
voltavam para casa, com a promessa de “paz e terra”, sem oficiais-carrascos, a viver uma vida
de semi-anarquia.
Assim que assumem o controle, os bolcheviques cumprem sua principal promessa: a
partilha negra. Antes de oficializada, soldados e camponeses já haviam partido para o assalto
das grandes propriedades, queimando tudo e massacrando os antigos proprietários.
Era a vez dos bolcheviques. A princípio, apenas um partido de intelectuais de
ideologia radical, oriundos da elite do país, com uma liderança que aliava força e inteligência,
disciplina e eficácia, e com uma clara visão estratégica do momento histórico em que viviam.
Seu líder, Lênin, soube aguardar o momento certo para desferir o golpe certeiro e assumir a
liderança do país.
Externamente, a Rússia abandona a guerra, liberta os países que anteriormente faziam
parte do império: Ucrânia, Geórgia, Polônia e países bálticos. Pouco tempo depois reanexa a
Ucrânia, por depender de seu trigo, do petróleo e do minério do Cáucaso.
Internamente, o partido bolchevique age com violência contra seus opositores para
compensar o fato de não serem maioria nos congressos dos sovietes. Para tanto, cria seu braço
armado: o CMRP. Liderado por Trotski, silenciam as rádios, os jornais, o telégrafo e todas as
vozes que lhe fazia alguma oposição, rotulando-os de burgueses e inimigos do povo, como
assim faria sempre que precisava atacar seus inimigos.
Seu próximo passo foi criar uma polícia política de repressão, capaz de enfrentar
antigos aliados, como os Social Revolucionários, que agora lhe fazia oposição. Cria os
Tribunais Revolucionários, cuja missão era acabar com os opositores, os inimigos do povo.
Lênin, estudioso e admirador da Revolução Francesa, insuflava o ódio popular contra
a antiga elite. Começava o primeiro Grande Terror, a guerra civil contra os inimigos do
bolchevismo, que durou mais de dois anos.
Preocupado com as inúmeras greves nas cidades e com a revolta no campo, Lênin cria
o “exército de abastecimento”. Gente disposta a todo tipo de violência, iam a todas as vilas e
depósitos rurais dos produtores de grãos e os confiscava sem pagamento, apenas através de
um recibo.
Depauperados depois de anos de guerra, os camponeses se revoltaram. A velha
desconfiança do homem do campo em relação ao citadino, agora com motivos reais, se
justificava.
Lênin, porém, não podia arriscar. Em plena guerra civil, para se manter no poder,
precisava garantir o abastecimento das cidades e do exército através do sacrifício dos
camponeses.
A única ameaça séria ao poder bolchevique eram os Brancos, formados por ex-oficiais
do regime deposto, liderados por dois generais czaristas Alexeiev e Kurnilov, por
“voluntários”, e pelos cossacos da região do Don e do Kuban. Esses militares-camponeses
eram bem diferentes dos restantes na Rússia. Responsáveis por proteger os limites do império,
eram obrigados a servir como milícia montada até completarem 36 anos. Completada essa
idade, recebiam trinta hectares de terra pelo serviço prestado ao czar. Portanto os cossacos
embora não quisessem receber mais terras, não queriam perder as que já tinham.
A guerra civil entre brancos e vermelhos foi palco de episódios de extrema violência,
de ambas as partes. Mas os exércitos vermelhos auxiliados pelos comandos especiais da
Tcheca, a polícia política foram insuperáveis, tanto contra militares, como contra civis nas
regiões tomadas dos brancos.
O marco mais importante do recrudescimento da ditadura bolchevique foi a dissolução
da Assembléia Constituinte após apenas um dia de funcionamento, simplesmente por terem
sido superados pela maioria de socialistas-revolucionários, o que demonstrava a
impopularidade dos bolcheviques frente aos outros revolucionários.
Os operários das fábricas agora estavam contra os bolcheviques e sua truculência, bem
como os camponeses enganados com a falsa reforma-agrária. Era o desemprego e a fome que
os revoltava.
Perante a insatisfação crescente nas cidades diante da falta de comida, o governo se
volta mais uma vez para o campo. Ali os camponeses não queriam ingerência sobre a sua
suada produção. Até porque, não poderiam ficar sem provisões para o inverno que chegava.
Lênin propôs o confisco dos grãos, e em caso de resistência o camponês, agora chamado de
“bandido” seria imediatamente executado.
Para tomar os grãos à força, um exército de desempregados foi recrutado. Diante da
reação camponesa, a Tcheca reagiu com sua habitual brutalidade.
Se por um lado, havia a repressão da polícia política contra o povo, por outro, a
intenção dos bolcheviques estava clara: ditadura total. Não respeitavam mais nenhuma
eleição, nenhuma assembléia. O poder era o partido bolchevique e a lei era a Tcheca, posta
em prática à partir de seus “tribunais revolucionários”.
Em agosto de 1918 os bolcheviques estavam acuados em Moscou, cercados em três
frentes: os brancos que ganhavam terreno, os camponeses rebelados e os cossacos.
Em resposta, Lênin ordena que pelo menos 100 “kulaks”, nome dado aos pequenos
proprietários rebelados, deveriam ser enforcados em cada vila para servir de exemplo aos
demais.
Para Nicolas Werth, o genocídio de classe era o sistema de governo bolchevique. A
ideologia de Lênin e Dzerjinsk era o simples extermínio dos oponentes do regime, sem
hesitação ou sentimentalismo. Uma limpeza social sem dar satisfação a ninguém.
Uma contabilidade macabra nos é apresentada por esse livro: o jornal da Tcheca
relatava orgulhosamente seus sucessos: 10.000 a 15.000 executados somente no outono de
1918. Comparando com o “sanguinário” regime czarista, que entre 1825 até 1917 executou
um total de 1.910 dissidentes, esse último parece ter sido brincadeira.
Assustados com a voracidade assassina da Tcheca, até mesmo membros proeminentes
do partido bolchevique, pressionavam pelo fim da polícia secreta.
Não havia opção na Rússia nesse período. De um lado os Brancos, tentando
reimplantar a tirania monárquica, e do outro lado, a tirania bolchevique...
Nicolas Werth nos mostra como o sistema de cartões de racionamento foi utilizada
como ferramenta de extermínio. Eram 33 categorias, sendo os do topo funcionários tidos
como estratégicos para o regime; intelectuais e aristocratas no final, com uma cota de
alimentos bem abaixo do mínimo necessário para a sobrevivência. Era a fome utilizada como
arma de repressão, inclusive no campo.
A Ucrânia tornou-se o alvo dos bolcheviques devido ao seu grande potencial agrícola.
Os ucranianos por sua vez, viam os moscovitas como estrangeiros em sua pátria e criaram
verdadeiros exércitos de resistência camponesa.
Em 1920, com a vitória final dos bolcheviques, Félix Dzerjinsk é encarregado de
“pacificar” o campo e retomar a descossaquização, que na verdade pretendia a eliminação dos
cossacos em particular, uma etnia com forte identificação com o poder anterior. Os tribunais
especiais, os chamados “troikis” tinham como missão condenar todos os cossacos ao
extermínio e ao desterro como traidores, em campos de trabalhos forçados espalhados pela
Rússia.
Ao final de 1920, os bolcheviques pareciam vitoriosos. Os Brancos e os cossacos
foram derrotados. Mas diante de milhares de deserções no exército vermelho, da revolta dos
marinheiros do Kronstadt, nas greves contínuas nas fábricas e da resistência camponesa às
requisições, o governo bolchevique teve que ceder, sob o risco de perder o controle do país,
que se tornava ingovernável. O foco de mudança foi o campo. O governo prometeu acabar
com as requisições, substituindo-as pelo imposto em espécie. Essa medida seria o embrião da
Nova Política Econômica, a NEP, que seria adotada em 1921.
Porém, as medidas adotadas não colocaram um fim imediato às rebeliões no campo e
nem às greves nas fábricas.
Após dois anos de requisições e com o plantio comprometido, os camponeses sabiam
que preencher as cotas do governo significaria morrer de fome no inverno que se aproximava.
Aos poucos a revolta se espalhou por toda a província. Liderados por Alexandre S. Antonov
opunham forte resistência aos destacamentos da Tcheca. Demoraria pelo menos um ano até
que a grande fome de 1921-1922 colocasse fim às revoltas no campo, privados de seus
estoques de alimento. O governo bolchevique atacou até mesmo a igreja e uma parte da
“intelligentsia” que havia se mobilizado para combater esse flagelo.
Para Nicolas Werth, outra prioridade de Lênin era a normalização da produção das
fábricas. A solução encontrada foi a total militarização. Na mineração do carvão, por
exemplo, conseguiram quintuplicar a produção, mas com o sacrifício de milhares de
operários, que trabalhavam agora aos domingos e com a já conhecida chantagem do cartão de
racionamento: a produtividade de cada mineiro dizia quanto de alimento receberia. Faltas
eram punidas com pena de morte, independente do motivo alegado. Bem diferente do
discurso utilizado pelos bolcheviques para seduzi-los em 1917.
Apesar de oficialmente encerradas, as requisições de alimentos por cotas continuavam
sendo o grande motivo de revolta entre os camponeses. A situação em Kiev, na Ucrânia,
retrata bem o clima de terror em que os camponeses viviam: os camponeses se suicidavam em
massa por saberem que não atingiriam suas cotas, e por não possuírem armas para se
defenderem.
Para os burocratas do regime, a culpa pela fome era dos próprios camponeses, e do
atraso na agricultura russa. O principal responsável por essa calamidade que ceifou milhões
de vidas principalmente na Ucrânia eles não ousavam dizer: o próprio governo bolchevique e
sua política de requisições. Era a arma da fome voltada contra os “kulaks”, pequenos
proprietários considerados inimigos do regime, e que precisavam ser exterminados.
Para os que conheciam Lênin ainda como jovem advogado, não era novidade sua
passividade com relação ao flagelo da fome:
“Jovem advogado, Vladimir Ulianov Lênin residia, no início dos anos 1890, em
Samara, capital de uma das províncias mais atingidas pela fome em 1891. Ele foi o único
membro da intelligentsia local que não somente não participou da ajuda social aos famintos,
como se pronunciou categoricamente contra tal ajuda” (p.140).
O próximo passo de Lênin foi partir para a perseguição à Igreja, aproveitando o
pretexto dessa instituição ter se unido a organizações estrangeiras para combater a fome.
Seguiram-se prisões de sacerdotes, confisco de objetos de valor, e até mesmo assassinatos a
fiéis desarmados que protestavam contra os confiscos. Lênin via na fome, com seu habitual
senso de oportunidade, a chance de se apoderar dos bens da Igreja, sob o pretexto de ajuda aos
famintos. Não só o confisco de bens, mas também a prisão e execução de membros do clero
para servir de exemplo e eliminar a Igreja Ortodoxa Russa.
Em 1922, Lênin estabelece o Novo Código Penal, que oficializa juridicamente a pena
de morte como meio legal de combater os contra-revolucionários. Outra mudança: a
“extinção” da Tcheca, chamada agora de GPU: Direção Política de Estado, apenas uma
mudança de etiqueta, como afirma Nicolas Werth.
Próximo alvo do terror lenilista: os intelectuais. Em outubro 1922, 200 intelectuais
foram expulsos do país acusados de fazerem oposição ao regime, entre eles, os que haviam
participado do comitê de ajuda contra a fome. Filósofos, escritores, historiadores e
professores universitários, detidos em 16 e 17 de agosto foram todos expulsos. Paralelamente,
os intelectuais de segunda grandeza estavam sendo catalogados e se considerados suspeitos
seriam enviados para os “gulags”.
De 1923 a 1927 houve uma pequena pausa do terror de estado aos seus cidadãos. Essa
trégua foi, em parte, devido aos problemas de saúde de Lênin, e às atenções dos líderes
bolcheviques voltadas a sua sucessão.
Durante esse período, como afirma Nicolas Werth, a nação tratou de suas feridas. Os
camponeses puderam se recuperar e pensaram poder atingir um pouco das suas velhas
reivindicações, ainda que considerados cidadãos de segunda classe, oprimidos pelas
lideranças bolcheviques formadas nos tempos de guerra civil.
Por seu lado, a GPU os monitorava de perto, através de agentes infiltrados,
considerando-os perigosos e susceptíveis a se voltarem contra o sistema.
Além das suas atribuições de repressão internas, a GPU se voltava também para
operações de grande porte no exterior. Nas pequenas repúblicas, que ainda resistiam ao
controle soviético na Ásia Central, líderes religiosos ou tribais opunham forte resistência ao
controle russo.
A GPU estava agora a serviço de Stálin, novo líder, contra seus adversários políticos,
principalmente Trotski. Milhares foram catalogados, perseguidos e exilados.
Garantido no poder e sem adversários, Stálin se volta mais uma vez contra sua
população, e mais uma vez o alvo eram os camponeses, tidos ainda com desconfiança e de
serem rebeldes ao estado. Sua atitude de semi-independência irritava Moscou.
Stálin viu na queda da safra de 1927 um pretexto ideal. Sem querer analisar toda a
conjuntura de custos e baixos preços pagos, Stálin repetiu as mesmas táticas desastrosas de
1918-1921: as requisições, acusando os “kulaks” de bandidos e inimigos do povo. Para o
ditador era o momento de acabar de vez com os “kulaks” enquanto classe, estatizando a
produção agrícola, e criando os kolkoses, centros administrativos das fazendas estatais.
Devido a uma crise econômica cada vez mais acentuada e com um aumento crescente
na delinqüência, o número de prisões e deportações só crescia. Surge então uma solução de
grande importância nos anos que se seguiram: a utilização da mão-de-obra ociosa e abundante
nos “gulags” para explorar economicamente os recursos naturais das regiões mais inóspitas do
país. Era um bom pretexto para acirrar a campanha contra os “kulaks”, prendendo-os e
enviando-os em massa como trabalhadores escravos para as novas regiões, enquanto o campo
era totalmente reestruturado e coletivizado. Stálin inicia seu “grande salto” através dos planos
qüinqüenais.
Nicolas Werth afirma que com os dados dos arquivos, hoje acessíveis, a coletivização
forçada do campo foi uma verdadeira guerra declarada pelo Estado soviético contra toda uma
nação de pequenos produtores. Mais de dois milhões de camponeses deportados, dos quais
1.800.000 apenas em 1930-1931, seis milhões mortos de fome, centenas de milhares mortos
durante a deportação: esses números dão a medida da tragédia humana que foi o "grande
assalto" contra os camponeses.
Nicolas Werth classifica como “deportação de abandono” o descaso com que essas
pessoas foram tratadas pelo estado stalinista. Um exemplo: dos 6.100 deportados que partiram
da cidade de Tomsk (aos quais se devem somar 500-700 pessoas enviadas à região, vindas de
outros lugares), apenas cerca de 2.200 pessoas permaneceram vivas.
As perdas de vidas eram estimadas pelo próprio governo em 30%. Quando já
instalados, essa mão-de-obra se tornava praticamente escrava. Tidos como párias, os
deportados, muitas vezes, não recebiam salário, devido aos descontos com os custos dos
alojamentos, das cotas dos sindicatos, etc. Esse pequeno trecho do autor ilustra uma parte dos
abusos sofridos: “Entre os abusos mais escandalosos destacados nos relatórios da
administração: instauração de normas irrealizáveis, salários não pagos, deportados espancados
ou trancados em pleno inverno em cárceres improvisados sem a mínima calefação, deportadas
"trocadas pelos comandantes da GPU contra mercadorias" ou enviadas gratuitamente como
empregadas "para todo serviço" às casas dos pequenos chefes locais” (p. 180).
A Grande fome de 1932-1933 não foi como as que de tempos em tempos assolavam o
império czarista. Para Nicolas Werth essa última foi conseqüência direta do novo sistema de
exploração militar do campesinato deportado, onde mais de seis milhões de pessoas
pereceram. O regime stalinista escondeu o quanto pode esse flagelo, ajudado por testemunhos
“arranjados” pela GPU, que davam conta da fartura dos kolkhozes.
Esse novo sistema criado para substituir os “bandidos kulaks” sofria dos mesmos
problemas, a mesma queda de braço entre produtores e estado. Diante de cotas cada vez
maiores, os kolkhozianos tentavam garantir para si uma parte suficiente para a sobrevivência,
o que acarretava o não atendimento das cotas estipuladas pelo governo, resultando em
operações de requisição, execuções por roubo de trigo ou deportações.
Apesar de todas as medidas repressivas, o trigo não “aparecia”. Como sempre, a culpa
era dos camponeses, dessa vez kolkhozianos. Apenas no mês de novembro de 1932, 5.000
comunistas rurais, administradores dos kolkhozes foram considerados culpados, e pelo menos
15.000 kolkhozianos presos. Mas seria essa a solução para esse velho problema no campo?
Claro que não. Impossível vencer um inimigo disperso em um imenso território. A solução?
Eliminá-los pela fome.
Mesmo com os pedidos desesperados de burocratas bolcheviques fiéis ao partido para
que o chefe da polícia política, Molotov, afrouxasse as requisições, devido à ameaça real de
fome em pleno inverno na Ucrânia, e da conseqüente falta de gente para plantar a próxima
safra, a resposta foi negativa. O resultado é história. Totalizando cerca de quatro milhões de
mortos, designado de "Holodomor” ou "Holocausto Ucraniano". Essa tragédia foi causada por
uma ação deliberada de extermínio desencadeada pelo regime soviético, visando
especificamente o povo ucraniano, para facilitar uma posterior sovietização do país.
A mesma tática se repetiu em outras repúblicas. Calcula-se que 1,3 a 1,5 milhões
tenham morrido no Cazaquistão (exterminando 33% a 38% dos Cazaques), além de centenas
de milhares no Cáucaso do Norte e nas regiões dos rios Don e Volga, onde a área mais
duramente atingida correspondia ao território da República Socialista Soviética Autônoma
Alemã do Volga, totalizando aproximadamente cinco a seis milhões de vítimas, entre os anos
de 1931 e 1933.
Se os camponeses foram o alvo inicial de Stalin em sua “Grande Virada”, outra
categoria de cidadãos, predominantemente urbanos chamados por Stalin de "classe estranha à
sociedade": "especialistas burgueses", aristocratas, membros do clero, profissionais liberais,
pequenos empresários privados, comerciantes e artesãos foram as principais vítimas da
"revolução anticapitalista", lançada no início dos anos 30. Eleitos como o bode expiatório da
vez, acusados dos fracassos econômicos e de serem agentes do capitalismo. Despedidos,
privados de cartões de racionamento, de acesso aos serviços médicos, às vezes expulsos de
sua moradia
Baseada em processos montados e de “confissões” suspeitas, os expurgos dos
especialistas inauguravam uma nova estratégia: mito da sabotagem que, junto com o do
complô, iria estar no centro da montagem ideológica stalinista.
Em um período de três anos, de 1928 a 1931, 138.000 funcionários foram excluídos da
função pública, dos quais 23.000, classificados como "inimigos do povo soviético".
Todas essas prisões e expurgos acabaram por desestruturar a indústria soviética e
piorar ainda mais a situação do país, realidade essa que obrigou o partido a flexibilizar e a
limitar as prisões, que até então era feita de forma totalmente arbitrária.
Outra categoria visada por Stalin em seus expurgos purificadores da ditadura do
proletariado foi a dos religiosos. Milhares dentre eles foram presos e deportados como
colonos especiais ou enviados aos campos de concentração e trabalho forçado.
Como reação natural a repressão e a deskulakização do campo, muitos camponeses
preferiram se auto-deskulakizar e emigraram em direção as grandes cidades em busca de
trabalho. Seu número cresceu e começaram a ser vistos como um problema pelo governo,
acostumado a tudo planejar e a tudo prever, colocou neles a culpa pelo aumento da
criminalidade, das bebedeiras, e claro, do aumento dos gastos com alimentação.
Para combater o êxodo rural em direção às cidades, que eram a vitrine dos sucessos do
regime, o governo decide “passaportizar’ a população. Dividiu as cidades em duas categorias:
abertas e fechadas a “estrangeiros”. Aqueles que não possuíam o passaporte que atestava sua
origem natural naquela cidade eram expulsos, sem direito a emigrar para outra cidade, mesmo
aberta. Os que não conseguiram fugir foram presos pela GPU e deportados para os campos de
trabalho forçado, os “gulags”.
A primavera de 1933 marcou o auge do grande expurgo da era Stalin, o que levava a
alguns membros do partido a se preocupar: “Se nós não levamos em consideração as
necessidades mínimas dos kolkhozianos, não haverá mais ninguém para semear e assegurar a
produção” (p. 204).
Esses questionamentos apontavam para duas correntes distintas no partido, antes do
início do Grande Terror stalinista. Porém, Stalin antes, precisava de um pretexto para calar os
críticos, e ele foi conseguido.
Sergei Kirov era chefe do Partido Comunista em Leningrado. Reputado pelo carisma e
pela competência administrativa, foi encontrado morto misteriosamente, a 1 de dezembro de
1934. Ninguém tinha dúvidas de que Stalin tinha informações da NKVD e fora conivente com
o crime, se é que não o ordenou pessoalmente. De qualquer maneira, ele usou a morte de
Kirov como pretexto para iniciar uma perseguição implacável a seus oponentes políticos, que
perduraria por cinco anos.
A partir desse caso, Stalin utilizava a qualquer momento, sempre que a situação
parecia insuportável, a figura do complô, que permitia alimentar um clima de crise e de
tensão, e da existência de uma ampla conspiração que ameaçava o país, seus dirigentes e o
socialismo.
Horas após o assassinato de Kirov, Stalin redige um decreto, que simplificava o
processo contra acusados de terrorismo, permitindo que os culpados fossem executados
imediatamente. Essa nova lei seria fundamental para a aplicação do Grande Terror.
Nas semanas que se seguiram, um grande número de opositores de Stalin no partido
foram acusados de fazerem parte de um complô, julgados a portas fechadas e rapidamente
executados.
Essa foi a pior repressão jamais vista antes em um país em tempos de paz, o Grande
Expurgo, também conhecido como o Grande Terror, entre 1936 e 1939, resultou na execução
de 680.000 pessoas e na deportação de centenas de milhares. Em agosto de 1937, Stalin
pessoalmente autorizou o uso da tortura nas prisões e só proibiu novamente no final de 1938.
O país, então, passou por um intenso período de terror, traição e desconfiança geral,
que colocou a todos em um estado de tensão e delações generalizadas. Após o primeiro
processo em Moscou, em agosto de 1936, o ano de 1937 marca o lançamento real do Grande
Terror.
Para iniciar e desenvolver este terror em massa, Stalin utilizou o indispensável apoio
de seus seguidores, mas também o zelo inegável de muitos funcionários locais, policiais e
burocratas entusiastas ou simplesmente cidadãos comuns interessados em delatar seus
vizinhos. Os Três Processos de Moscou, entre 1936 e 1938 permitiram remover cinqüenta
antigos camaradas de Lênin. Foi a fase mais dramática da liquidação da velha-guarda
bolchevique. Stalin finalmente consegue se livrar dos rivais por algum tempo. Também
elimina a metade do Politburo, dizimando os delegados do XVII Congresso e excluindo três
quartos dos membros do partido que ingressaram entre 1920 e 1935. No entanto, os expurgos
do Partido constituem apenas uma parte da repressão. Como afirma Nicolas Werth, chegou a
94% dos não-comunistas.
O terror não se restringiu aos líderes políticos, mas a toda a sociedade. Em 2 de julho
de 1937, são definidas as quotas de suspeitos que deveriam ser fuziladas (categoria 1) ou
deportadas (categoria 2). As autoridades locais, temerosas de serem denunciadas, excediam
seu zelo em superar os números do Kremlin e pediam “autorização" para prender e executar
ainda mais pessoas, o que produziu uma escalada sangrenta e rápida de condenações. Assim,
dos 260.000 inicialmente previstos, passaram-se mais de 400.000 detenções. Stalin
pessoalmente assinou 383 listas dos que seriam executados, o que significou 44.000
execuções.
Em 1939, pondo fim ao Grande Expurgo, Stalin aboliu as últimas áreas de autonomia
dentro do partido e da sociedade e impôs definitivamente o culto a sua pessoa e a seu poder
absoluto.
Tudo isso foi feito, apesar do risco de abalar gravemente o exército e o país, no
momento em que a II Grande Guerra se aproximava: 13 dos 15 Generais de cinco estrelas
foram substituídos, o que fragilizou enormemente o exército vermelho nos primeiros anos de
guerra. Ao fim do grande expurgo, o alto comando do Exército Vermelho estava dilacerado,
carente de oficiais competentes para comandar a defesa da URSS contra a Wehrmacht de
Adolf Hitler.
Nos anos 30, houve um crescimento assustador do número de campos de concentração
de prisioneiros. Alimentados pelas perseguições implacáveis de Stalin, os gulags se
espalhavam por todo o território soviético.
Os campos desempenhavam papel crucial na economia soviética. Produziam um terço
do ouro do país, boa parte do carvão e madeira e muito de quase tudo o mais. Em Kolyma,
por exemplo, de 1932 a 1939, a produção do ouro extraído pelos 138.000 presos passou de
276 quilos para 48 toneladas, ou seja, 35% da produção soviética desse último ano.
Após o infame Pacto de Não Agressão assinado entre a Alemanha de Hitler e a Rússia
de Stalin, a Polônia foi invadida pela Alemanha, e logo em seguida pelos soviéticos. Começa
imediatamente a sovietização dos novos territórios.
A contabilidade oficial dos gulags relata o ingresso de 381.000 prisioneiros poloneses,
enquanto que historiadores poloneses afirmam que esse número chegou a um milhão.
O Comissário do Povo Para o Interior, Lavrenti Beria propõe em uma carta a Stalin, o
fuzilamento imediato de todos os oficiais presos, “inimigos encarniçados” do povo soviético.
Uma parte dos ossuários contendo os corpos dos supliciados foi descoberta, em abril de 1943,
pelos alemães, na floresta de Katyn. Várias valas comuns continham os restos de 4.000
oficiais poloneses. Os soviéticos tentaram atribuir aos alemães o massacre. Somente em 1992,
Boris Yeltsin reconheceu a responsabilidade de Stalin pelo massacre, que é lembrado hoje
como o “Massacre de Katyn”.
Em seguida, foi a vez da ocupação de Estônia, Lituânia e Letônia. E mais uma vez o
padrão se repete.
Internamente, o ano de 1940 mostra um recrudescimento das relações com o mundo
operário, através do decreto de 26 de junho e nas relações sociais. A nova lei instituía a
adoção da jornada de oito horas, da semana de sete dias e da proibição ao operário de deixar a
empresa por sua própria iniciativa. A partir de então, toda ausência injustificada, começando
por um atraso superior a 20 minutos, seria sancionada penalmente. O contraventor era
passível de "trabalhos corretivos" com privação da liberdade e de retenção de 25% de seu
salário, pena que poderia ser agravada com um aprisionamento de dois a quatro anos. Tais
punições foram usadas por Hitler, quando invadiu a União Soviética, para insuflar os
operários contra o regime.
Em 28 de agosto de 1941 o Soviet Supremo emite decreto ordenando que toda a
população de etnia alemã do território soviético fosse deportada para os campos de
prisioneiros do Cazaquistão e da Sibéria. Quantos cidadãos soviéticos de origem alemã
chegaram vivos ao seu destino? Pergunta Nicolas Werth. Impossível contabilizar devido a
situação apocalíptica que vivia o país em plena guerra. Alguns relatos de sobreviventes desse
período nos dão uma idéia de como eram tratados esses infelizes: “Nos vagões
hermeticamente fechados, as pessoas morriam como moscas, por causa da fome e da falta de
ar: não nos davam nem de comer nem de beber” (p. 252).
Após essa primeira leva de deportados alemães, uma segunda onda chegava de outras
regiões: chechenos, inguches, tártaros da Criméia, karachais, balkars e kalmuks foram
deportados para a Sibéria, o Cazaquistão, o Uzbequistão e o Quirguistão, sob pretexto de
"colaboração em peso com o ocupante nazista".
Se a situação dos prisioneiros deportados era de extrema miséria, alta taxa de
mortalidade por desnutrição e doenças, a mão-de-obra detida garantiu cerca de um quarto da
produção em setores-chave das indústrias de armamento, metalúrgica e de extração mineral.
Ao final da guerra, o país triunfante pela vitória, não conheceria alívio na dureza do
sistema. As repúblicas bálticas e a Ucrânia estavam sofrendo uma segunda sovietização, tão
dura quanto a primeira, com a caça aos colaboradores do inimigo nazista, “bandidos”
nacionalistas e desertores.
Porém, a realidade da repressão soviética aos seus próprios cidadãos era escondida dos
olhos do ocidente. A heróica resistência e bravura do povo russo, que com certeza pagou o
maior preço pela vitória contra os nazistas e a confirmação do sucesso do bolchevismo que
angariava admiradores aos milhões pelo mundo mascaravam, segundo palavras de Nicolas
Werth, a verdadeira face do regime. Poucos anos haviam se passado desde o Grande Terror, e
menos tempo ainda do Pacto de Não Agressão nazi-soviético, mas para os ofuscados pelo
brilho da vitória soviética, esse fato parecia algo muito distante.
No campo a situação também não mudara. Os kolkhozes não conseguiam remunerar
os trabalhadores suficientemente, e a colheita do outono de 1946, prejudicada também pela
seca, foi catastrófica. O governo reagia sempre da mesma forma: culpando sempre os próprios
produtores de sabotagem e de roubo.
Stalin, cada vez mais paranóico, continuava a perseguir toda suspeita de oposição. Em
13 de janeiro de 1953 foi descoberto um complô de médicos, quase todos judeus, acusados de
estarem se aproveitando do seu trânsito livre e acesso irrestrito, para abreviarem a vida de
grandes chefes militares soviéticos, a mando do serviço de inteligência britânico e de uma
organização judaica americana.
Como no primeiro Grande Expurgo, houve forte campanha na imprensa pedindo
punição severa aos terroristas e de mais uma faxina no partido.
Para entender os motivos dessa nova onda de terror, é imprescindível entender a
realidade dos judeus na Rússia e seu papel no stalinismo.
Para pressionar os Estados Unidos a entrarem no conflito abrindo uma segunda frente
na guerra, o governo stalinista busca aproximar os judeus soviéticos, culturalmente bastante
presentes na Rússia, com os judeus americanos, igualmente influentes naquele país,
principalmente no setor financeiro e midiático. A idéia era utilizar as perseguições nazistas
contra os judeus para influenciar a opinião pública e torná-la favorável à entrada dos Estados
unidos no conflito.
Internamente, a população em geral era pouco sensível aos problemas dos judeus.
Stalin, porém, com seu conhecido pragmatismo, seguia com sua política de apoio à criação do
Estado de Israel, e não se incomodava com as denúncias que começavam a pipocar nos
bastidores: sabotagem, traição, colaborar com o inimigo, espionagem, etc.
Assim que o Estado de Israel foi criado, Stalin muda sua postura. Autoriza o desmonte
do comitê judeu que ele próprio havia estimulado a formar, devido a acusações de ser um
“centro de propaganda anti-soviética”.
Uma onda de acusações e de prisões tem início. Os judeus foram sistematicamente
afastados de seus trabalhos, especialmente nos meios ligados à cultura, à informação, à
imprensa, à edição, e à medicina, ou seja, nas profissões em que eles ocupavam cargos de
responsabilidade. Acusações de sabotagem levavam invariavelmente a execuções. Até mesmo
a esposa judia de Molotov foi acusada e presa.
Começa então um verdadeiro novo expurgo, agora contra os judeus, nas entranhas do
partido. Como em 1937, Stalin se utilizou de um episódio, o caso dos médicos terroristas (ou
o cria), para conquistar a opinião pública e partir para o ataque. Para Nicolas Werth, a
verdadeira intenção paranóica de Stalin era se aproveitar do “caso dos jalecos brancos” para
reestruturar o esquema de segurança do estado, chefiado por Beria, e promover, segundo
alguns pesquisadores, uma grande onda de deportações em massa de judeus. A morte de
Stalin veio para interromper o crescimento de sua longa lista de assassinatos.
Em todos os sentidos, a morte de Stalin marca o fim de um longo período de
repressão, perseguições e mortes na Rússia e nas republicas satélites. Marca também o fim do
governo de um homem só.
O desafio para os líderes que sobraram de todos os expurgos era manter o regime em
pé e ao mesmo tempo eleger um substituto que não fosse um novo Stálin. Estava claro para
toda a oligarquia política, que os aparelhos repressivos não poderiam mais escapar do controle
do partido, para que não se voltassem contra eles próprios novamente.
Outras reformas importantes e que não podiam mais esperar: econômica e social.
A economia estava totalmente em frangalhos, pois estava baseada em grande parte no Gulag.
Era um modelo econômico posto em prática nos anos 30, contra a vontade da imensa maioria
da sociedade e que desembocara em ciclos repressivos de alto custo social e econômico para
todo o país.
Apenas duas semanas após a morte do grande irmão, uma surpreendente decisão
demonstra a amplitude do que estava por vir: o desmanche quase que completo do Gulag e
uma ampla anistia aos presos. Segundo Beria, outrora grande utilizador do sistema de campos
de concentração e exploração de trabalho semi-escravo, o número de presos que realmente
representam alguma periculosidade não ultrapassa 10% do total!
Em seguida, o Pravda anunciava o que muitos já sabiam: o julgamento dos acusados
dos “crimes do jaleco branco” foi baseado em tortura... Estava aberto o precedente para outros
“julgamentos” serem questionados.
Nos gulags, as revoltas explodiam. Os presos políticos, excluídos da anistia faziam
greves, badernas e reivindicavam melhorias nas condições de trabalho, até que conseguiram
sua anistia e reabilitação, após o XX Congresso do partido.
Após a condenação de Beria, em 1954, acusado de também ser “agente inglês”,
começa a reforma no sistema de Segurança do Estado.
A desestalinização, Conduzida por Nikita Kruschev, um stalinista que havia
participado diretamente da repressão, como todos os dirigentes de sua geração -
deskulakização, expurgos, deportações, execuções - revelaria, no XX Congresso do Partido,
os grandes crimes de Stalin, sem questionar o papel do partido desde 1917, em todos os erros
e tragédias que permitiu.
Foi uma época de grande confusão e tensão social, pois duas rússias se encaravam: a
que prendeu e ocupou, e a que foi presa e deportada.
Em 1960 o Novo Código Penal entrava em vigor. Era claramente uma mudança
visando o relaxamento. A exceção era com relação a crimes políticos. A KGB se preocupava
principalmente com as minorias religiosas: católicos, batistas, pentecostais e adventistas,
suspeitos de receberem ajuda do exterior e de prestarem serviços de espionagem.
Os opositores do regime também mudaram de tática. Ao invés do enfrentamento,
exigiam o cumprimento das novas leis russas, e procuravam a ajuda da imprensa internacional
para que não caíssem do anonimato e não “desaparecessem” como ocorria num passado difícil
de esquecer. Alexandre Solzhenitsyn, famoso dissidente, lança o livro “O Arquipélago
Gulag”, onde relata toda sua trajetória em campos de concentração. Alexandre foi apenas
expulso da União Soviética.
A questão dos direitos do homem na Rússia foi reforçada depois da Conferência sobre
a Segurança e a Cooperação na Europa, iniciada em 1973, em Helsinque. Toda a violação dos
direitos do homem era relatada na imprensa internacional, o que ajudou a refrear o estado
policial.
Analisando o período, tendo por base estudos de outros historiadores, Nicolas Werth
destaca as várias formas de violência do estado soviético: violência política contra os
adversários do lenilismo; a violência dos destacamentos de requisição e a violência nos
campos de concentração. Enfim, das várias formas do terror de massa, que ele divide em três
ciclos:
• O primeiro compreende o período da tomada do poder pelo bolchevismo, e se encerra
com a fome de 1922. Como principais características do período, o autor coloca: o
incentivo da revolta popular contra os inimigos do bolchevismo, o uso de violência
contra os camponeses e contra os operários e a recusa em negociar.
• O segundo, de 1923 a 1927, com uma breve pausa entre dois períodos de pressão e
violência.
• O terceiro ciclo é caracterizado pela retomada da repressão de forma sistemática ao
campo, por Stálin. Essa forma de repressão se torna o modelo de terror de massa
praticado pelo estado. O ponto culminante dessa luta desigual entre o estado
militarizado e o campo-feudo-do-estado é a grande fome de 1933.
A última fase do stalinismo pode ser resumido como o início de um novo grande
terror, desta vez contra setores da polícia política e contra o povo judeu, vítimas do anti-
semitismo latente na União Soviética, agora eram também alvo de Stalin, se este não tivesse
morrido antes de por seus plano em prática.
O autor questiona: não seria a violência extrema com a própria população uma
característica comum nos períodos de Lênin e de Stálin?
Porém, para ele é importante identificar as diferenças conjunturais entre os dois
períodos. Se para Lênin a violência extrema contra os “inimigos do povo” já era prevista antes
mesmo da tomada do poder, mas como medida transitória, com Stalin a violência, fazia parte
do governo.
O pleno controle da contabilidade das perseguições e seus ciclos sugerem inclusive,
ações planejadas e programadas. Ao mesmo tempo em que os desastres logísticos das
deportações, a ineficiência do sistema Gulag, e os efeitos em cadeia do terror, que gerava
ainda mais violência, põem em dúvida o domínio total do governo no planejamento do terror.
Nicolas Werth finaliza, apontando a própria sociedade soviética como co-responsável
pelo terror.

Apreciação pessoal do resenhista

O Livro Negro do Comunismo é um livro ainda incompleto. A discussão da obra se


completará quando tivermos acesso aos relatórios de outros regimes ditos comunistas que
ainda estão em vigor, como o chinês, que até hoje utiliza de mão-de-obra semi-escrava dos
prisioneiros para vender seus produtos baratos mundo afora.
O regime de Kim Jong-il também engrossaria a contabilidade de Stéphane Courtois,
tanto antes, quanto depois da Guerra da Coréia. O mesmo poderíamos falar dos regimes
socialistas do Camboja, Vietnã ou Cuba.
Muitos críticos do Livro Negro argumentam que não se poderiam enquadrar todos os
sistemas de governo descritos no livro como sendo comunista de fato. Hora, mais importante
do que os debates teóricos sobre a autenticidade desse ou daquele sistema de governo ser
classificado como comunista, seria perceber que eles próprios se declaram comunistas. Em
todos eles há uma base teórica e filosófica marxista-leninista. Seria suficiente para podermos
classificá-los, o fato de partilharem o mesmo autoritarismo, a mesma perseguição feroz à
classe média e alta, ditos “burgueses”, e a mesma dificuldade em lidar com críticas, sejam
internas ou externas.
Sobre o argumento de Stéphane Courtois, bastante criticado, sobre a validade de se
comparar o comunismo com o nazismo, eu considero pertinente. Os Nazistas utilizaram
maciçamente relatórios e informações provenientes da Rússia sobre o sistema soviético de
eliminação de dissidentes e de populações inteiras. Inclusive sobre a construção de campos de
concentração para utilizar prisioneiros em regime de escravidão.
Courtois defende que os genocídios soviéticos dos povos que viviam na região do
Cáucaso e o extermínio de grandes grupos sociais na Rússia não eram muito diferentes das
políticas utilizadas pelos nazistas. Ambos os sistemas, comunista e nazista, consideravam seus
adversários uma parte da humanidade indigna de existência. A diferença é que o modelo
comunista baseava-se no extermínio de determinada classe, o modelo nazista no de raça.
A pergunta incômoda é a seguinte: por que o holocausto nazista foi conhecido e
condenado em todo o mundo, enquanto o Holodomor ucraniano demorou tanto tempo para ser
reconhecido (quase cinqüenta anos depois)?
Outra grande questão provocativa levantada por Courtois: os historiadores têm falhado
em seu dever moral, ao não destacar os crimes do comunismo. Não posso deixar de concordar
com o autor. É fato a propaganda comunista em nossas escolas, faculdades e universidades.
Ou melhor, a doutrinação. No meu ponto-de-vista, o historiador tem o dever ético de ensinar
aos seus alunos todos os aspectos ideológicos de determinado evento. Mostrar além das belas
utopias. Principalmente se os frutos dessas utopias for o autoritarismo, o extermínio de classe,
a tirania.
Nenhum sistema de governo pode ser defendido, por mais benefícios que possa ter
trazido a sua população, como educação e saúde de qualidade para todos, se por outro lado, os
porões estão cheios de ossadas, e a população não tem o direito de decidir se quer continuar
ou não com esse regime, sendo obrigadas a viver sob um regime de opressão e medo, em que
a única saída é a fuga, mesmo que para isso tenha que enfrentar o mar infestado de tubarões
em balsas improvisadas. E onde seus reizinhos-ditadores, como o caricato Kim, da Coréia do
Norte brinca de governar um país enquanto seu povo passa fome.
No capítulo de Nicolas Werth há muitos fatos descritos, o que dificulta uma análise
mais subjetiva. Mas há uma constante em sua narrativa sobre o período: a política de Estado
baseada no terror e na perseguição aos opositores, com o único objetivo: a perpetuação no
poder, sem opositores.
Courtois lamenta a falta de imagens no livro. Porém todos nós podemos imaginar com
horror, as situações descritas pelo autor. Somente aqueles que sofreram as torturas, as longas
viagens em trens de transporte de gado sob frio extremo, fome, sede e doenças, poderiam nos
relatar melhor, como fez o ex-prisioneiro do gulag, Alexandre Solzhenitsyn em Arquipélago
Gulag. Infelizmente são poucos os que sobreviveram para nos relatar o que sofreram.
Que os milhões de vidas que pereceram sob Lênin, Stalin e outros monstros não sejam
esquecidos. Esse humilde trabalho é minha contribuição nesse sentido. E que nossas crianças
tenham o direito de saber o outro lado da história. Não só o lado do vencedor, como o do
perdedor, seja de que regime for, para serem realmente capazes de encontrar a verdade.