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CapÌtulo 1 N˙meros complexos

Neste capÌtulo deÖnimos o conjunto dos n˙meros complexos (denotado por C ) usando o plano xy (denotado por R 2 ) para os representar os n˙meros complexos, ideia original de J. R. Argand. Depois de introduzirmos a soma e multiplicaÁ„o de n˙meros complexos, vamos provar que o conjunto dos n˙meros complexos forma um corpo 1 . TambÈm vamos explorar outras pro- priedades dos n˙meros complexos usando o plano xy tais como, represen- taÁ„o em coordenadas polares, interpretaÁ„o geomÈtrica da multiplicaÁ„o de n˙meros complexos, resoluÁ„o de equaÁıes envolvendo n˙meros complexos.

1.1 O corpo dos n˙meros complexos

Os chamados n˙meros complexos, surgiram pela primeira vez esboÁa- dos formalmente na ì£lgebraîde Bombeli em 1572. A sua criaÁ„o resultou da necessidade de tornar v·lida a famosa formula de Cardano destinada ‡ resoluÁ„o algÈbrica de equaÁıes de terceiro grau em que poderia haver neces- sidade de efectuar c·lculos com raÌzes quadradas de n˙meros negativos. A construÁ„o do conjunto dos n˙meros complexos, revelou-se de grande utilidade noutras ·reas da ciÍncia. As transformadas de Laplace, as sÈries de Fourier e as transformadas de Fourier constituem alguns exemplos de ferra- mentas indispens·veis da fÌsica e engenharia que nunca se teriam desenvolvido sem o aparecimento deste ramo da matem·tica. Tal como o conjunto dos n˙meros inteiros Z pode ser considerado uma extens„o do conjunto dos n˙meros naturais N , o conjunto dos n˙meros com- plexos C pode ser considerado igualmente uma extens„o do conjunto dos n˙meros reais R , extens„o esta que possui as seguintes propriedades adicionais:

1 Corpo È um anel comutativo com identidade no qual todo elemento n„o nulo possui um inverso multiplicativo.

1

2

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

A equaÁ„o x 2 + 1 = 0, admite pelo menos uma soluÁ„o em C ;

Todo o elemento de C pode ser representado da forma a + bi em que

a; b 2 R e i = p 1.

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó

DeÖniÁ„o 1.1 (N˙mero complexo) Um n˙mero complexo z pode ser

deÖnido como

n˙meros reais x e y s„o, respectivamente, a parte real e imagin·ria de

z = ( x; y ), sendo indicados por

um par ordenado (x; y ), onde x; y 2 R isto È, z = ( x; y ) : Os

< (z ) = x e Im (z ) = y

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó

Portanto, no sistema de coordenadas cartesiana cada n˙mero complexo pode ser representado por um ponto, cujas coordenadas s„o x e y: Por ex- emplo,

z 1 = (0; 1) ; z 2 = ; 1 e z 3 = p 3;

2

5

s„o exemplos de n˙meros complexos. Quando < (z ) = 0; dizemos que z È imagin·rio puro. Dois n˙meros complexos z = ( a; b) e w = ( c; d) s„o iguais se, e somente se, as suas partes reais e imagin·rias tambÈm forem iguais isto È,

(a; b ) = (c; d) , a = c e b = d

Em paticular,

(x; y ) = (0; 0) , x = 0 e y = 0

Sejam z = ( a; b) e w = ( c; d) n˙meros complexos. As operaÁıes de adiÁ„o e multiplicaÁ„o, deÖnem-se da seguinte forma:

z + w = ( a + c; b + d) (adiÁ„o)

1.1.

O CORPO DOS N⁄MEROS COMPLEXOS

3

e

z w = ( ac bd; bc + ad) (multiplicaÁ„o) (1: 1)

A operaÁ„o divis„o È a inversa da multiplicaÁ„o, isto È,

ou seja,

z

w = u , z = w u (w 6= (0; 0)) ; onde u = ( e; f )

(a; b) = (ce df; cf + de)

segue-se que

e portanto,

e = ac + bd e f = bc ad

c 2 + d 2

c 2 + d 2

z = u = ac + bd ; bc ad

w

c 2 + d 2 c 2 + d 2

Nota: Seja uma extens„o de R tal que

C = f(x; y ) : x 2 R e y = 0g

Consideremos uma funÁ„o f : R ! dada por f (x ) = (x; 0) : Para todo (x; 0) 2 ; existe x 2 R tal que

f (x ) = (x; 0)

isto È, f È uma funÁ„o sobrejetora. Dados a; b 2 R com a 6= b; temos que

f (a) = f (b ) , (a; 0) = (b; 0) , a = b

e

portanto, f È uma funÁ„o injetora. Temos que

f (a + b ) = (a + b; 0) = ( a; 0) + ( b; 0) = f (a ) + f (b )

e

f (ab ) = (ab; 0) = ( a; 0) (b; 0) = f (a ) f (b )

Como existe uma funÁ„o bijetora f : R ! que preserva as operaÁıes adiÁ„o e multiplicaÁ„o, dizemos que R e s„o isomorfos e indicamos por

R

Devido ao isomorÖsmo que existe entre R e podemos indicar o par ordenado (x; 0) como um n˙mero real isto È,

x (x; 0) ; 8x 2 R

4

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

Dessa forma, passamos a ver R como um subconjunto de C , ou seja, todo n˙mero real È considerado um n˙mero complexo. A princÌpio, a inclus„o R C pode gerar uma certa ambiguidade: dado x 2 R e a 2 R , o que

entendemos por x + a e xa ? A soma e o produto dos n˙meros reais x e a ou

a soma e o produto dos n˙meros complexos x e a ? A resposta È que tanto faz, uma vez que os valores s„o os mesmos. De fato,

(x; 0) + ( a; 0) = (x + a; 0)

= x + a

e

(x; 0) (a; 0) = (xa 0 0; x 0 + 0 a ) =

xa

Para cada z = ( x; y ) 2 C , temos que

z = ( x; y ) e z 1 =

x

y

y 2 se z 6= (0; 0)

x 2 + y 2 ; x 2 +

O n˙mero z 1 tambÈm È denotado por z : AlÈm disso, a potenciaÁ„o tambÈm

È deÖnida da maneira usual:

1

z 0 = 1; z n = z | {z z } e

n

vezes

z n = z | 1 z 1 se

{z }

n

vezes

z 6= (0; 0) (n > 1)

Teorema 1.1 O conjunto C = f (x; y ) : x; y 2 R g com as operaÁıes adiÁ„o e multiplicaÁ„o È um corpo.

DemonstraÁ„o. De fato, temos que

1. (z 1 + z 2 ) + z 3 = z 1 + (z 2 + z 2 ) ; para todo

z 1 ; z 2 ; z 3 2 C :

2. z 1 + z 2 = z 2 + z 1 ; para todo z 1 ; z 2 2 C :

3. Existe um elemento 0 = (0; 0) 2 C , e chamado elemento neutro tal que

z + 0 = z; para todo z 2 C

4. Para todo z 2 R ; existe um elemento z 2 C e chamado o simÈtrico de z tal que

z + ( z ) = 0

5. (z 1 z 2 ) z 3 = z 1 (z 2 z 2 ) ; para todo z 1 ; z 2 ; z 3 2 C :

6. z 1 z 2 = z 2 z 1 ; para todo z 1 ; z 2 2 C :

1.1.

O CORPO DOS N⁄MEROS COMPLEXOS

5

7. Existe um elemento denotado por 1 = (1; 0) 2 C , tal que

z 1 = z; para todo z 2 C

8. Para todo z = (x; y ) 2 C ; existe um elemento z 1 2 C e chamado o inverso de z tal que

Note que z 1 =

z z 1 = 1

x 2 + y 2 ; x 2 + y 2 :

x

y

9. z 1 (z 2 + z 3 ) = z 1 z 2 + z 1 z 3 ; para todo

z 1 ; z 2 ; z 3 2 C :

Como C È um espaÁo vetorial sobre R com respeito ‡ adiÁ„o e a multi- plicaÁ„o por escalares reais. AlÈm do mais, por seus elementos serem pares ordenados, C È um espaÁo vetorial bidimensional sobre R . Desta forma, como (1; 0) e (0; 1) formam uma base, todo par z = ( x; y ) 2 C se escreve de maneira ˙nica como

z = x (1; 0) + y (0; 1)

Vejamos o comportamento de (0; 1). Temos

(0; 1) (0; 1) = (0 1; 0 0) = ( 1; 0) = (1; 0)

ou seja,

(0; 1) 2 = (1; 0)

Assim, o n˙mero complexo (0; 1) possui quadrado recÌproco aditivo do ele- mento neutro da adiÁ„o. Usaremos a notaÁ„o i = (0; 1), obtendo

i 2 = 1

Com isto, todo elemento z = (x; y ) 2 C pode ser escrito de modo ˙nico como

z = x + yi

( )

Logo, o par (x; y ) e a express„o x + iy representam o mesmo n˙mero complexo. A express„o ( ) È chamada a forma algÈbrica de z ; essa È a forma na qual os n˙meros complexos s„o usualmente denotados. Sempre que tomarmos um n˙mero complexo na forma z = x + yi as- sumiremos implicitamente que x e y s„o n˙meros reais. Observamos que com a forma algÈbrica n„o precisamos nos preocupar em memorizar as deÖniÁıes de z + w e z w dadas em (1:1). De fato, basta

6

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

usarmos algumas das propriedades da adiÁ„o e da multiplicaÁ„o em C j· apresentadas: se z = a + ib e w = c + id s„o n˙meros complexos, ent„o

z + w = ( a + ib ) + (c + id) = (a + c ) + i (b + d)

e

 

z w = ( a + ib ) ( c + id) = ac + iad + ibc + i 2 bd

= ( ac bd ) + i (bc + ad)

E

escrevemos o conjunto dos n˙meros complexos na forma:

C = f x + iy : i 2 = 1g

Nota: O corpo dos n˙meros complexos C n„o È ordenado. De fato, em C n„o se pode estabelecer uma relaÁ„o de ordem, pois se assim fosse, para uma certa ordem ì 6 îterÌamos

i 6 0 ou i > 0

Se i > 0, ent„o

i 2 > 0 ) 1 > 0

o que È uma contradiÁ„o. Se i 6 0, ent„o

i > 0 ) ( i ) 2 > 0 ) 1 > 0

o que È uma contradiÁ„o. Assim n„o podemos ter uma ordem em C , isto È,

C n„o È ordenado. Sabemos que i 0 = 1; i 2 = 1; i 3 = i e i 4 = 1; uma pergunta natural quem È i n ; onde n 2 Z? Pelo AlgorÌtmo da divis„o, existem q; r 2 Z tais que

n = 4q + r onde 0 6 r < 4

Ent„o

i n = i 4 q + r = i 4 q i r = i r

Exemplo 1.1 Determine i 57 e i 123 :

SoluÁ„o. Como 57 = 14 4 + 1; temos que

i 57 = i 1 = i

Como os dois ˙ltimos algarismos do expoente È 23, temos 2

i 123 = i 23 = i 3 = i

2 O reso da divis„o de um inteiro (n > 100) por 4 pode ser obtido dividindo por 4 apenas o n˙mero formado pelos dois ˙ltimos algarismos de n:

1.1.

O CORPO DOS N⁄MEROS COMPLEXOS

7

Exemplo

1.2 Calcule n = 1 + i + i 2 + + i n para n > 1 e determine a

soma

48 = 1 + i + i 2 + + i 48

SoluÁ„o. Usando a fÛrmula da soma de uma sÈrie geomÈtrica Önita, temos que

n = i n+1 1 i 1

Se n = 4k; ent„o

Se

n = 4k + 1; ent„o

4 k +1 =

4 k =

i 4 k +1 1

i 1

= 1

i 4 k +2 1

i 1

=

2

i 1 = i + 1

Se n = 4k + 2; ent„o

4 k +2 =

i 4 k +3 1

i 1

= i 1

i 1 = i

Se

n = 4k + 3; ent„o

4 k +3 =

i 4 k +4 1

i 1

= 0

Como 49 = 4 12; temos que

48 = 1

8

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

1.1.1 Problemas resolvidos

Problema 1.1 Sejam z e w dois n˙meros complexos. Mostre que se zw = 0; ent„o z = 0 ou w = 0 ou ainda, z = w = 0:

SoluÁ„o. Suponhamos que z 6=

z 6= 0; temos que a 6= 0 ou b 6= 0: Por hipÛtese,

0: Sejam z = a + bi e w = c + di: Como

(a + bi ) ( c + di) = 0 ) (a bi ) [( a + bi ) ( c + di)] = 0

e

portanto,

 

a 2 + b 2 c + a 2 + b 2 di

= 0

e

necessariamente,

a 2 + b 2 c = 0 e a 2 + b 2 d = 0

Como a 2 + b 2 6= 0; pois z 6= 0; temos que c = 0 e d = 0: Logo, w = 0:

Problema 1.2 Prove que se z; w 2 C , ent„o < (z + w ) = < (z ) + < (w ) e Im (z + w ) = Im (z ) + Im (w ) :

SoluÁ„o. Sejam z

Logo,

= a + bi e w = c + di: Ent„o z + w = (a + c ) + (b + d) i:

< (z + w ) = a + c = < (z ) + < (w )

e

Im (z + w ) = b + d = Im ( z ) + Im (w )

Problema 1.3 Calcule: Im (1 + 2i + 3i 2 + 4i 3 + + 2009i 2008 ) :

SoluÁ„o. Seja z = 1 + 2i + 3i 2 + 4i 3 + + 2009i 2008 : Ent„o

z iz = 1 + i + i 2 + i 3 + + i 2008 2009i 2009

Mas, 1+ i + i 2 + i 3 + + i 2008

e portanto,

z iz = 1 2009i 2009

Assim,

= 2008 , onde 2008 = 4 505: Logo, 2008 = 1

) z = 1 1 2009i i ) z = 1005 1004i

Im 1 + 2i + 3i 2 + 4i 3 + + 2008i 2009 = 1004

1.1.

O CORPO DOS N⁄MEROS COMPLEXOS

9

Problema 1.4 Prove que as soluÁıes da equaÁ„o quadr·tica

az 2 + bz + c = 0

onde a; b; c 2 C e a 6= 0; s„o dadas pela fÛrmula quadr·tica usual, isto È, por

z = b p b 2 4ac

2a

Use a fÛrmula para encontrar as soluÁıes da equaÁ„o z 2 + 4z + 5 = 0:

SoluÁ„o. ComeÁamos multiplicando ambos os membros da igualdade por

4a;

az 2 + bz + c

=

0 ,

 

,

,

,

,

,

4a 2 z 2 + 4abz + 4ac = 0

4a 2 z 2 + 4abz = 4ac

4a 2 z 2 + 4abz + b 2 = b 2 4ac

(2az + b ) 2 = b 2 4ac

2az + b = p b 2 4ac

z

= b p b 2 4 ac

2

a

Com a = 1; b = 4 e c = 5; obtemos:

z = 4 p 16 20 = 4 p 4

= 2 i

2 2

Logo, as soluÁıes da equaÁ„o z 2 + 4z + 5 = 0 s„o os numeros 2 i e 2 + i:

Problema 1.5 Calcule

X = 1 + 1 + i

2

" 1 + 1 + i 2 #" 1 + 1 + i

2

2

SoluÁ„o. Fazendo z = 1+ i ; obtemos:

2

2 2 # " 1 + 1 + i

2

2 n #

X = (1 + z ) 1 + z 2 1 + z 4 1 + z 8 1 + z 2 n

o que implica

(1 z ) X = (1 z ) (1 + z ) 1 + z 2 1 + z 4 1 + z 8 1 + z 2 n

= 1 z 2 1 + z 2 1 + z 4 1 + z 8 1 + z 2 n

= 1 z 4 1 + z 4 1 + z 8 1 + z 2 n

.

.

.

= 1 z 2 n+1

10

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

e portanto,

Como z = 1+ i ; temos que

2

X = 1 z 2 n+1 1 z

z 2 = 2 ) z 2 n+1 =

i

i

2 2 n

Logo,

X = 1

i

2 2 n

1 1+ i

2

= 1

i

2 2 n

1 i

2

1.1.

O CORPO DOS N⁄MEROS COMPLEXOS

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1.1.2 Problemas propostos

1. Mostre que

a ) z z = 1

2. VeriÖque que

b ) 1 = z

1

z

a ) (2; 3) ( 2; 1) = ( 1; 8)

3. Mostre que

b ) (3; 1) (3; 1) 5 ; 10 = (2; 1)

1

1

a ) < (iz ) = Im (z )

b ) Im (iz ) = < (z )

4. Dado z = x + iy , onde x; y 2 R , determine a parte real e a parte imagin·ria de

a ) z =

1 z ;

b ) z = z a

z + a ; onde a 2 R ;

c ) z = i n ; onde n 2 Z.

5. Para z = 1 + i; determine w tal que a parte real dos seguintes n˙meros s„o iguais a zero

a ) z + w

b ) z w

c ) w

z

d) w

z

6. Mostre que ( 1) z = z para todo z 2 C .

7. Prove que, se z 1 z 2 z 3 = 0; pelo menos um dos trÍs fatores È zero.

8. Sejam z = a + ib; w = c + id; w 6= 0. Mostre se,

9. Calcule

a ) (1 + 2i ) 3 :

a

c

b

d

= 0

z

que w 2 R se, e somente

12

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

b

)

5

2 3 i :

c )

2+ i 3 2 i 2 :

d) (1 i ) n + (1 + i ) n ; onde

n 2 N .

10. Resolva a equaÁ„o z 2 + z + 1 = 0, escrevendo z = (x; y ) ; (1; 0) = 1 e (0; 0) = 0 ou seja,

(x; y ) ( x; y ) + (x; y ) + (1; 0) = (0; 0)

11. A relaÁ„o R no conjunto dos n˙meros complexos È deÖnida por

zRw () z z + w w 2 R

Mostre que R È uma relaÁ„o de equivalÍncia.

12. Mostre que, se a equaÁ„o z 2 + az + b = 0 tem um par de raÌzes complexas conjugadas, ent„o a; b 2 R e a 2 < 4b:

1.2.

CONJUGADO E VALOR ABSOLUTO

13

1.2 Conjugado e valor absoluto

J· vimos que um n˙mero complexo z = x + iy; x; y 2 R È uma represen- taÁ„o de um par ordenado (x; y ). Logo, podemos represent·-lo num plano cartesiano xOy , identiÖcando o eixo x com os n˙meros reais (os m˙ltiplos de

1 = (1; 0)). O eixo y representa os m˙ltiplos de i = (0; 1) e ser· denominado de eixo imagin·rio.

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó

DeÖniÁ„o 1.2 (Conjugado de z ) Dado o n˙mero complexo z = x + iy; podemos associar um ˙nico n˙mero complexo

z = x iy

O n˙mero complexo z È chamado de conjugado de z:

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó

Geometricamente, z È a reáex„o do vetor que representa z com relaÁ„o ao eixo real.

do vetor que representa z com relaÁ„o ao eixo real. O teorema a seguir estabelece as

O teorema a seguir estabelece as propriedades b·sicas do conjugado.

Teorema 1.2 Se z e w s„o n˙meros complexos, ent„o:

1: z = 0 se, e

somente se, z = 0:

2: z = z

se, e somente se, z 2 R :

3: z = z

para todo z 2 C :

4: z + w = z + w:

5: z w = z w:

14

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

6: se

z w 6= 0; ent„o w = w z :
z
w 6= 0; ent„o
w = w z :

7: se

8: 2< (z ) = z + z

z 6= 0, ent„o (z ) n = (z n ); para todo n 2 Z:

e

2i Im (z ) = z z:

DemonstraÁ„o. 1: Seja z = x + iy 2 C tal que z = 0. Ent„o

x iy =

0 + i 0 ) x = 0 e y = 0

e

portanto, z = 0:

Reciprocamente, se z = 0; ent„o x = 0 e y = 0: Logo, z = 0:

2: Seja z = x + iy; x; y 2 R tal que z = z: Ent„o

x iy = x + iy ) 2yi = 0 ) y = 0

e

portanto, z = x 2 R :

Reciprocamente, se z 2 R ; ent„o y = 0: Logo, z = x; onde x 2 R e

portanto, z = z:

3: Se z = x + iy 2 C ; ent„o

e

z = x iy

daÌ, z = x + iy = z para todo z 2 C :

4: Sejam z = a + ib e w = c + id: Ent„o

z + w = ( a + c ) + i (b + d) )

z + w = ( a + c ) i (b + d)

Por outro lado, z = a ib

e w = c id e portanto,

z + w = a ib + c id = ( a + c ) i (b + d) = z + w

5: Sejam z = a + ib e w = c + id: Ent„o

z w = ( ac bd ) + i (bc + ad) )

z w = ( ac bd ) i (bc + ad)

Por outro lado, z = a ib e w = c id

e portanto,

z

w = ( a ib ) ( c id) = (ac bd ) i (bc + ad) = z w

6: Se w 6= 0; ent„o pelo item anterior,

z

z

w w = w

w = z

1.2.

CONJUGADO E VALOR ABSOLUTO

15

z Logo, w = w z : 7: 8: Se z = x + iy
z
Logo,
w
= w z :
7:
8: Se z
= x + iy 2 C ; ent„o
z + z = x + iy + x iy
2
2

= x = < (z ) ) 2< (z ) = z + z

e

z z = x + iy x + iy

2i

2i

= y = Im ( z ) ) 2i Im (z ) = z z

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó

DeÖniÁ„o 1.3 (MÛdulo) O valor absoluto (ou mÛdulo) de um n˙mero complexo z = a + bi È deÖnido por:

r = jz j = k z k = p a 2 + b 2

ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó ó Gr·Öcamente, o n˙mero real jz j nos d· o comprimento do vetor corre- spondente a z no plano complevo.

do vetor corre- spondente a z no plano complevo. A partir daÌ, deÖnimos a dist‚ncia entre

A partir daÌ, deÖnimos a dist‚ncia entre dois n˙meros complexos z 1 = a + bi e z 2 = c + di como

jz 1 z 2 j = ja c + (b d) i j = q (a c ) 2 + (b d) 2

Teorema 1.3 As seguinte propriedades s„o satisfeitas:

1: jz j > 0 para todo z 2 C : Mas ainda,

jz j = 0 , z = 0

2: < (z ) 6 j< (z )j 6 jz j e Im (z ) 6 jIm (z )j 6 jz j :

16

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

3: jz j = j z j = jz j :

4: z z = jz j 2 :

5: jz w j = jz j jw j :

6: se w 6= 0; ent„o =

z

w

j

z j

j w j :

7: jz + w j 6 jz j + jw j (desigualdade triangular). Sob que condiÁ„o ocorre a igualdade?

8: Sejam z 1 ; z 2 ; : : : ; z n ; w 1 ; w 2 : : : ; w n n˙meros complexos. Mostre a de- sigualdade de Cauchy-Schwartz

jz 1 w 1 + + z n w n j 6 q jz 1 j 2 + + jz n j 2 q jw 1 j 2 + + jw n j 2

DemonstraÁ„o. 1: Seja z = x + iy 2 C ; x; y 2 R . Ent„o

x 2 > 0 e y 2 > 0 ) x 2 + y 2 > 0

Logo, jz j > 0 para todo z 2 C . Temos que

jz j = 0 , x 2 + y 2 = 0 , x 2 = y 2 = 0 , z = 0

2: Se z = x + iy 2

C , ent„o

se x > 0; se x < 0;

ent„o

ent„o

x = jx j x < jx

j

) x 6 jx j

Por outro lado,

x 2 6 x 2 + y 2 ) p x 2 6 p x 2 + y 2 ) jx j 6 jz j

Comparando ( ) e ( ) obtemos:

< (z ) 6 j< (z )j 6 jz j

Analogamente, obtemos

Im (z ) 6 jIm (z )j 6 jz j

( )

(**)

1.2.

CONJUGADO E VALOR ABSOLUTO

17

3: Se z = x + iy 2 C , ent„o

j

z j = q ( x ) 2 + ( y ) 2 = p x 2 + y 2 = jz j

e

jz j = q x 2 + ( y ) 2 = p x 2 + y 2 = jz j

Logo, jz j = j z j = jz j :

4: Se z

= x + iy 2 C , ent„o

z z = ( x + iy ) ( x iy ) = x 2 + y 2 = jz j 2

5: Seja z; w 2 C , pelo item anterior,

jz w j 2 = ( z w ) ( z w ) = (z w ) ( z w ) = jz j 2 jw j 2 = ( jz j jw j) 2

Como mÛdulos s„o positivos ou nulos, podemos extrair a raiz quadrada de ambos os membros da express„o acima e obtemos

jz w j = jz j jw j

6: Se w 6= 0; ent„o pelo item anterior,

Logo, =

z

w

j z j j w j :

jw j

z

w

= w

w = jz j

z

7: Note inicialmente, que se z; w 2 C , ent„o

jz + w j 2 = ( z + w ) ( z + w ) = (z + w ) ( z + w ) = jz j 2 + (z w + z w ) + jw j 2

Agora,

z w = z w = z w e, pelo Teorema 1.2,

( )

z w + z w = 2< (z w )

Assim, da express„o ( ) temos

jz + w j 2 = jz j 2 + jw j 2 + 2< (z w )

Aplicando a parte 2: deste Teorema, temos

jz + w j 2 = jz j 2 + jw j 2 + 2< (z w ) 6 jz j 2 + jw j 2 + 2 jz w j

18

CAPÕTULO 1. N⁄MEROS COMPLEXOS

Mas, jz w j = jz w j = jz j jw j e portanto,

jz + w j 2 6 jz j 2 + jw j 2 + 2 jz j jw j ) j z + w j 2 6 (jz j + jw j) 2

Logo, jz + w j 6 jz j + jw j :

8: Se w i = 0 para i = 1; 2; : : : ; n; ent„o a desigualdade

È verdadeira.

Sejam

a = z 1 w 1 + + z n w 2 ; b = jw 1 j 2 + + jw n j

n

X

k

=1

jz k j 2 ; c =

n

X

k

=1

jw k j 2

e

d =

n

X

k =1

z k w k

e

portanto, a = d : Como

c

0 6 jz k aw k j 2 = (z k

a w k ) ( z k a w k )

=

jz k j 2 (z k a w k + z k a w k ) + ja j 2 jw k j 2

para k = 1; 2; : : : ; n; ent„o

n

X

jz k j 2 (z k a w k + z k a w k ) + jaj 2 jw k j 2 > 0

k =1

ou seja,

n

X

k

=1

jz k j 2 a

n

X

k

=1

(z k w k ) a

n

X

k

=1

Assim, podemos escrever

(z k w k ) + ja j 2

n

X

k

=1

jw k j 2 > 0

b + ja j 2 c a

n

X

k

=1

(z k w k ) a

n

X

k

=1

(z k w k ) > 0

Agora,

a

a

n

X

k