41 3044.

6679
Rua Itupava, 1436
www.estofariabar.com.br
No verso:
• História: “Diarreia e independência”
• Pornô filosófico: “A triste história
de dois seios tristes”
• Eduardo, o acéfalo: “Eduardo,
Mônica e algumas questões...”
• Primeira vez: “As angústias de uma
estreia”
• FEBEAPA: “Stanislaw e o Festival
de Besteira que Assola o País”
Praeputium
6

O Prepúcio 6 - INFORMATIVO ALEATÓRIO
www.oprepucio.com.br
Distribuição gratuita
(pega aí, que é de graça!!)
Curitiba - Agosto/2011 ano I Ed. 06
Tiragem: 25.000 exemplares
Quer escrever? Envie seu texto para:
editor@oprepucio.com.br
ISSN 2237-7174
Non calor, sed umor est qui nobis incommodat.
Amor e vodka

(Não é o calor, é a umidade que incomoda)
(Prepúcio
6
)
Curitiba não tem mar, mas tem bar
Parte meia dúzia- Ao Distinto Cavalheiro
Por Felipe Mongruel
Humilde prepúcio. Foi assim que o vi quando enfrentei a
coluna desta edição. Já de começo pensei: “resta essa gagueira
infantil de quem quer balbuciar o inexprimível”. Definir?
Impossível. Descrever? Hercúleo trabalho. Contornar? Sem
contornos, genuinamente liquido. Local que detém uma
malemolência cultural singular, como a diversidade do seu
público: Estudantes, sambistas, catedráticos, barões,
professores, técnicos de futebol, jornalistas e demais figuras de
completar álbum compõem o grupo de estrelas.
Calcado na esquina mais brilhante de Curitiba, o bar
ostenta traços de aquarela em seu perfil. Caricaturas são
frequentemente vistas e frequentemente feitas, pelos clientes de
lá. Bar fundamentado na arte, em todos seus formatos, a
começar pela gastronomia. Come-se muito bem no Distinto,
como não poderia ser diferente. Claro, coisa de boteco bom.
Bom e sincero. Costelinha, pão com bolinho, carne de onça e o
bom e velho rollmops, que até por vez, ouvi dizerem lá, o
exemplo maior de casamento que deu certo. Bar onde todos os
clientes sentem-se um pouco donos. A certa altura, o balcão é
um mero detalhe, não atrapalha as correntes discussões entre os
que estão pra dentro e os que estão pra fora. Comum acontecer
de os donos estarem do lado de cá do balcão, assuntando com
os demais, e um desavisado qualquer poderia até se atrapalhar
na hora de pedir mais um chopp, se não fosse pela presença
firme do Demirval, garçom astuto, matreiro, fala pouco e serve
muito.
Símbolo máximo de bar com alma, bar com identidade, bar
com história. Se tem uma coisa que eu aprendi com meu sócio é
Economia

Editorial
Entre o Belo e o Útil Por Rodrigo Silvestre
Longo tempo se passou desde a visão da
economia como a ciência da escassez. Se depois vista
como a ciência da abundância, hoje, transita como a
prática da decisão. Certamente, nesse âmbito, sequer é
ciência, pois carece de um objeto “descobrível”. A
decisão em si não está localizada fora dos entes que
decidem e, portanto, dada minha preferência
schopenhaueriana, não há nada a ser percebido no
“mundo exterior”.
Mas que se foda... Alguma coisa precisa ser
feita, e na falta de melhor assunto, surge no
Desenvolvimento Econômico um tema bastante prático.
A melhor definição de desenvolvimento econômico que
conheço até o momento é da Amartya Sen, que a
propõe como a busca das comunidades pela garantia
da oportunidade a todos. Se cada um vai aproveitar as
oportunidades é outra conversa. Não me venha com o
exemplo do mendigo que é pobre porque quer, ou que
no sinal se ganha mais dinheiro que como estagiário.
Não seja besta. O mundo é melhor com dinheiro, mas é
melhor ainda quando todos podem escolher o que fazer
com ele.
Estudar a economia como ciência é, de mais a
mais, enfadonho. Os elegantes modelos matemáticos e
lógicas do mercado financeiro nada mais são que
pequenos pontos coerentes em um imenso mar de
suposições e pressupostos extremamente frágeis.
Agora, estudá-la como prática objetiva para o
desenvolvimento da comunidade, é menos nobre, mas
uma boa forma de ocupar o dias. O álcool certamente é
outra delas, mas ambas não são necessariamente
excludentes.
Onde encontrar o seu Praeputium: A KAXASSA, ARMAZÉM FANTINATO,
ARMAZÉM SANTA'NA, ASSADOS E PERDIDOS, BABA SALIM, BANOFFI, BAR CURYTIBA, BAR DO
DANTE, BAR DO EDMUNDO, BAR DO JANGO, BAR DO LIMÃO, BAR DO TATARA, BAR DOS
PASSARINHOS, BAR OFFICE BAR, BAR VALENTINA, BARBARAN, BAROLHO, BARONEZA, BASSET,
BEC'S, BECK'S, BELLE VILLE, BIBLIOTECA PÚBLICA , BLUE VELVET, BOLA ROLA, BOTEQUIM,
BRASILEIRINHO, CAFÉ BABET, CAFÉ DO TEATRO, CANA BENTA ,CANTINA DO DÉLIO, CAR WASH,
CARIOCA, CASA DI BELLA, CASA VERDE, CHARUTARIA DO BOURBON HOTEL, CLAYMORE,
COLARINHO, COQUERO, DISTINTO, DON MAX, EMPADAS COMBIRITAS, ERA SÓ O QUE FALTAVA,
ESTOFARIA, FIDEL, GIRALDI, JABUTI, JACOBINA, JOÃO CORNETA, JOHN BULL PUB, JPL, KAFFEE
LOUNGE BAR, KAPELLE, LIBERTADORES, LIGEIRINHO, LIVRARIA DO CHAIM, LOJA ANTIGUIDADES,
LUCA CAFÉ, MAFALDA, MANEKO'S, MATHIAS BAR, MEA CULPA, MENINA DOS OLHOS, MENINA ZEN,
MESTRE CERVEJEIRO, MONTESQUIEU, MUKIFO, NATIVIDADE (HABSBURGO), OLD'S, PADARIA QUE
VENDE EINSENBAHN NA FAGUNDES, PARCERIA, PICANHA BRAVA, PIZZA MAIS, QUERMESSE, REI DA
BARBA, REPÚBLICA, RYO GOHA, SANTO MÉ, SHADOW, SIBILA, SOMBRERO, STUART, TARTARUGA,
TERRITÓRIO GOURMET, TORTO, VENDA, ARMAZÉM E BOTECO, VILA DAS ARTES, WONKA, ZAPATTA
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Margit Mueller: 41 9994-8788

O Jornal Prepúcio apoia este movimento:
Os exemplos são sempre boas formas de
argumentos, principalmente porque revelam a
nuance subliminar de quem os propõem. Aqui vão os
meus: Alan Greenspan é certamente um expoente
dos economistas do grupo da “ciência econômica”.
Ele é um dos “gênios” que propôs os complexos
ativos formados a partir dos “subprime”. Sua
genialidade custou, apenas para os Estados Unidos,
algo superior a 1 trilhão de dólares, até agora, e uma
lambança generalizada mundo afora. O outro é o de
Muhammad Yunus, que fundou o Grameen Bank, e
se especializou em dar oportunidade a famílias
pobres de terem pequenos empréstimos. Com essa
experiência, pode-se perceber que famílias pobres
tendem a honrar mais seus compromissos com
empréstimos, particularmente as mães de família.
Com isso, muitos novos negócios surgiram e a
comunidade atendida pelo banco tornou-se melhor.
Qual deles inspira mais você é problema seu.
Não se engane, o primeiro caminho é
extremamente rentável para os poucos que
sobrevivem ao trilhá-lo. Mas os segundo, até que se
prove o contrário, é o mais sustentável. Como
sabiamente apresentado em Blade Runner “The light
that burns twice as bright burns for half as long”¹, ou
seja, podemos torrar todos os nosso recursos de
maneira ensandecida e curtindo a vida adoidado, ou
buscar o equilíbrio entre a “chapação” e trabalho.
Como diria um motel aqui de Curitiba “Você que
sabe”.
¹ A luz que brilha com o dobro da intensidade
perdura pela metade do tempo” – Dita por Dr. Tyrell,
personagem do filme Blade Runner, que inventou os
replicantes, andróides que viviam como se humanos
fossem.

que bar tem que ter essência. Não pode simplesmente colocar
banda de pagode, sertanojo, nem nome indiano e depois vir dizer
que é boteco. Boteco é templo de debates, altar de amores e
confessionário de vaguezas, testemunha da sociedade e da raça
humana.
A primeira vez que fui ao Distinto, sem dúvida foi a mais
marcante, era maio de 2009, dia este que foi escolhido o perfume
“rabo de galo” para benzer a noite. Mal sabia eu a revolução que
aquela noite iria me causar. Desta feita, quem me servia o tão
fabuloso drink era Didi. Dionísio, antigo sócio, sincero amigo e
maravilhosa pessoa. Muito mais que homônimo do Deus grego
que foi criado na coxa de Zeus, Dionísio abrilhantava o recinto
com seu excelente gosto musical e sua doce parcimônia
característica ao falar.
Outra peculiaridade que não pode deixar de ser dita, é o
carnaval do Distinto. Todos os anos, às vésperas do Carnaval, o
Distinto lança seu grito. Centenas de pessoas tomam conta da
esquina e, ao som das mais tradicionais marchinhas, a noite corre
solta, com o sabor inconfundível do mais bem tirado chopp
Brahma da cidade. E engana-se quem pensa que com todo esse
astral o pessoal de lá dá vexame, a vergonha geralmente fica por
conta da polícia que tenta calar a voz do Distinto e, por óbvio, não
consegue.
Despeço-me recordando mais um trecho do poetinha: “resta
essa coragem de comprometer-se sem necessidade” ficando
assim como um sincero depoimento de um jornal despretensioso
que com carinho agradece os responsáveis: Wella, o poeta
sambista e Carlos, o “Hitchcock” que o Rio Grande do Sul nos
presenteou. Em suma, o Ao Distinto Cavalheiro seria o típico bar
que Vinicius de Moraes freqüentaria, se é que ele já não baixou
por lá.

Trecho do livro FEBEAPA 3 (O Festival de Besteira que
Assola o País 3), Rio de Janeiro, 1968
Por Stanislaw Ponte Preta*
A Igreja se pronunciou, através da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil, sobre recentes
publicações pretensamente científicas, "que abordam
problemas relacionados ao sexo com evidente abuso".
O documento não explicou se o abuso era do problema
ou se o abuso era do sexo. Em compensação, nessa
mesma conferência, Dom José Delgado, Arcebispo de
Fortaleza, dava entrevista à Agência Meridional sobre
pílulas anticoncepcionais, uma pílula formidável para
fazer efeito no Festival de Besteira. Como se disse
bobagem sobre o uso ou não da pílula, meus Deus!!!
Dom Delgado, por exemplo, dizia: "A protelação do
casamento é a única conclusão a que chego,
atualmente, para a planificação da família e o controle
da natalidade. E, depois disso, só existe um caminho
seguro: o da continência na vida conjugal". Como veem,
o piedoso sacerdote era um bocado radical e queria
acabar com a alegria do pobre. Ainda mais, falando em
sexo e em continência na vida conjugal, deixou muito
cocoroca achando que, dali por diante, era preciso
bater continência para o sexo também.

*Stanislaw Ponte Preta era um pseudônimo de
Sérgio Marcus Rangel Porto, que, por sua vez, foi cronista,
escritor, compositor e radialista. Foi quem redescobriu e
ajudou um músico chamado Cartola a se tornar conhecido.
Morreu em Setembro de 1968. Em 1969 um semanário
chamado "O Pasquim" começou a ser editado,
homenageando Sérgio Porto, que quando vivo editava um
jornal na mesma linha, chamado "A carapuça".
FEBEAPA
Ao Distinto Cavalheiro
Rua Saldanha Marinho, 894
41 3019-4771
Dia da Independência da Rússia Por Felipe Belão
Doze de junho do ano de 2008 e vou direto ao assunto: é o dia da
independência da Rússia. Para alguns é dia do Beagle também. Para
outros, é o dia da independência de Filipinas. E, para os entusiastas do
serviço do sedex, é o dia do Correio Aéreo Nacional. Datas menores se
comparadas com a libertação da grande pátria e grande estado
progenitor da vodka. É um dia para ser celebrado e lembrado, embora o
fato de comemorar-se que os Russos se livraram do domínio comunista
em 1990 seja um pouco confuso, uma vez que eles que criaram o troço,
ou melhor, adaptaram a ideia do Karlinhos de um jeitão meio-que-meio.
Ainda assim, esses pormenores filosóficos que dizem respeito à
causa e à consequência das coisas não se constituem como elemento
central deste texto. O importante mesmo é a conclusão à qual chegarei
em poucas linhas: se é dia de comemorar a independência da Rússia,
por conseqüência, é o dia da vodka.
Os grandes pesquisadores de internet do mundo nem se
incomodem de me convencer do contrário. É o dia da vodka e pronto! E,
se é dia da vodka, então, não é dia dos namorados.
Não é dia de receber ligações dos amigos mais sacanas que
fazem questão de desdenharem da sua condição. Não é dia de receber
emails dos restaurantes convidando você e sua namorada inexistente
para saborear uma deliciosa pasta com vinho. Não é dia de abrir o jornal
em busca das notícias sérias sobre economia, política e cultura e só
encontrar casos de casais apaixonados.
Hoje não é um dia desses simplesmente porque a Grande Mãe
Rússia está livre: é dia da vodka.
E, como diria um grande amigo, “tudo na vida é melhor com vodka”
e isso inclui datas comemorativas criadas pelos capitalistas selvagens
para lotar os estabelecimentos comerciais como: salões de beleza e de
depilação, restaurantes caros, lojas de shoppings, casas de massagens
e o setor da depressão dos supermercados, popularmente conhecido
como área dos sorvetes e chocolates.
Tudo bem que nosso querido país se livrou do comunismo, mas
não vamos apelar para o consumismo desvairado dessa data de
namorados que impele a todos a gastar dinheiro de algum jeito:
comprando presentes ou adquirindo produtos alimentícios que liberam
endorfina.
Então, em homenagem à Rússia eu convido a todos aqueles que
são adeptos dos 5S apenas no dia 12 de junho – Solteiros, Sacudos,
Solitários, Sociáveis e Socialistas – a se libertarem do consumismo da
data mais depressiva criada pelo homem depois do natal e do próprio
aniversário. Libertem-se como a Grande Pátria fez. Libertem-se e
brindem com vodka.

Eis que prepúcio chega ao meio ano de sua existência
com sua melhor publicação, recorde este que durará até a
sétima edição. Nesta sexta edição, alguns textos mais
enxutos, irreverência, provocação e muita ilustração.
A edição começa com a bela homenagem à
independência russa e o amor desvairado à vodka. A coluna
“Curitiba não tem mar, mas tem bar” tem a satisfação de
receber Ao Distinto Cavalheiro como seu protagonista.
Aí ao lado, um trecho do FEBEAPA de Stanislaw Ponte
Preta satirizando o sexo visto pela igreja. Uma viagem (em
todos os sentidos) sobre desenvolvimento econômico e o
cartum do TR pincelando realidade fecham a capa.
O mais novo criador e parceiro de jornal é o artista
André Dahmer, desenhista de quadrinhos, que deixa o jornal
ainda mais chamativo com seu humor ácido da sociedade.
Ainda no verso, um pouco de história com Margit
Mueller, a estréia de Alcebíades e o texto pornô filosófico do
Azabrock. A construção, ou talvez reconstrução, de Eduardo e
Mônica fecha o jornal.
Embarcando nessa edição, o jornal prepúcio lança ainda
seu novo portal na internet, o www.praeputium.com.br onde
você poderá deixar comentários, baixar edições antigas, ver
colunas exclusivas e até mesmo assistir vídeos de conteúdo
duvidoso.
Na versão impressa, até o momento a marca é de 90
locais de distribuição, entre bares, restaurantes, padarias,
cafés, botecos e inferninhos. A lista atualizada segue ao lado
do título.
De certo que poderíamos estar roubando, matando ou
até mesmo se candidatando a cargos políticos. Porém
preferimos fazer o jornal Prepúcio: Jornalismo despretensioso,
literário e irreverente. Vale tudo por uma boa leitura.
Aliás, boa leitura a todos!

Aguarde. Em breve...


O bar da janela torta!
3029-3544
R. Mateus Leme, 1736,
Centro Cívico
Ele merece tratamento de rei

Para
colorir
Por Tiago
Recchia

















































Eduardo, o acéfalo
Na frente:
• Editorial: “Agora é lei: Não se divirta”
• Amor e vodka: “Coisas para comemorar
no dia 12 de Junho”
• Para colorir: “Mais uma vez, Tiago
Recchia mostrando tudo no Prepúcio”
• Bar da vez: “Ao Distinto Cavalheiro, o
típico bar com alma”
• Economia: “Entre o belo, o útil e as
bizarrices”

Primeira vez

Por José Renato Cella
No caso da música Eduardo e Mônica, do álbum Dois da Legião
Urbana, de 1986, a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como
alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de
uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos.
Analise-se o que diz a letra. Logo na segunda estrofe, o autor
insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente ("Eduardo abriu os
olhos, mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram"), ao
mesmo tempo que tenta dar uma imagem forte e charmosa a Mônica
("enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade, como
eles disseram"). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã, como é
provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica
revelar-se-ia uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes
do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.
Mais à frente, vê-se Russo desenhar injustamente a
personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura ("Festa estranha,
com gente esquisita..."). Bom, "Festa Estranha" significa uma reunião de
porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poder fugir da realidade com
a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. "Gente esquisita" é,
basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a
bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais
horrorosas da Via-Láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em que
Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra
aguentar aquele pesadelo, como se vê a seguir.
Assim tem-se: "- Eu não estou legal. Não aguento mais birita".
Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina
traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo
sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma notória bêbada sem-vergonha
do underground.
Adiante, fica-se conhecendo o momento em que os dois
protagonistas se encontraram ("E a Mônica riu e quis saber um pouco
mais sobre o boyzinho que tentava impressionar"). Por partes: em "E a
Mônica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de
Mônica para com Eduardo. Ela, bêbada inveterada, ri de um bêbado
inexperiente!
Mais adiante é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar.
Onde se lê: "quis saber um pouco mais", leia-se "quis dar para"! É muita
hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Mônica. A verdade
é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho que tentava
impressionar"! É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo
Eduardo como "boyzinho"... Não é verdade. Caso fosse realmente um
playboy, ele não teria ido se encontrar com Mônica de bicicleta, como
consta na quarta estrofe ("Se encontraram então no parque da cidade, a
Mônica de moto e o Eduardo de camelo"). A não ser que o Eduardo fosse
um beduíno e estivesse realmente de camelo, mas ainda nesse caso não
seria um "boyzinho". Se alguém aí age como boy, esta seria Mônica, que
vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido,
aos 16 ("Ela era de Leão e ele tinha dezesseis") todo boyzinho já
costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma
maria-gasolina como Mônica.
E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria
penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de
porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo,
valeu? Na ocasião do seu primeiro encontro, vê-se Mônica impor suas
preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma
humilde proposta do afável Eduardo ("O Eduardo sugeriu uma
lanchonete, mas a Mônica queria ver um filme do Godard"). Atitude esta
nada democrática para quem se julga uma liberal. Na verdade, Mônica é
o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à
Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e
viadinhos vestidos de preto, em geral), que acham que todo filme
americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência
francês, preto e branco, arrastado pra caralho e com muitas cenas de
baitolagem.
Em seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir
suavemente a Mônica ("O Eduardo achou estranho e melhor não
comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo"). Menina? Pudim de
cachaça seria mais adequado. Há pouco se viu Mônica virar um Dreher
na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Note
que Russo informa a idade de Eduardo, mas propositadamente omite a
de Mônica. Além disso, se Mônica pinta o cabelo é porque é uma balzaca
querendo fisgar um garotão viril ou porque é uma baranga escrota
mesmo.
O autor insiste em retratar Mônica como uma gênia sem par.
("Ela fazia Medicina e falava alemão") e Eduardo como um idiota
retardado ("E ele ainda nas aulinhas de inglês"). Note-se a comparação
de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente
de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente
concorrido para medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para
poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda como
são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas" para refletir ideias de atraso
intelectual e coisa sem valor, respectivamente. Coitado do Eduardo, é um
jumento mesmo...
Na sequência, fica-se a par das opções culturais dos dois ("Ela
gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de
Caetano e de Rimbaud").
Tem-se nessa lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.A., muito
usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por
Os criadores:

+ Felipe Mongruel, vulgo Magal, e é o
Chief Executive Officer do jornal Prepúcio.
+ Castor é Marcos Alfred Brehm, e é
Superintendente Sênior do jornal prepúcio.
+ Rodrigo Silvestre, vulgo Corujo, é
Diretor geral de assuntos aleatórios do
jornal Prepúcio
+ Felipe Belão é escritor e dono do blog:
htttp://falamestre.wordpress.com/
+ Margit Mueller fala, lê, escreve e dá aula
de português, alemão e inglês, mas
também arranha espanhol, francês e latim.
+ José Renato Cella é advogado,
professor, filósofo, e vez ou outra toma
uma taça de vinho.
+ Tiago Recchia é cartunista da Gazeta do
Povo e inventor dos “Los três inimigos”.
+ Halland Azabrock, além de tentar
escrever, bebe. Não faz nada. Varia entre
isso.
+ André Dahmer é cartunista, pintor e
ilustrador brasileiro, autor d'Os Malvados
(www.malvados.com.br).

Seios Tristes Por Halland Azabrock
Tirei-lhe a blusa por cima da cabeça e parece que foi
rápido e me saí bem. O que em seguida se mostrou pra mim
foram então um par de seios redondos quase ovais, devido à
gravidade avançada no tempo, um bocado caídos. Eram
também, de certo modo, lamentosos, com seu par de rodelas
de tomate porosas e seus mamilos grandes e empinados
olhando distraidamente, um em cada direção.
É o prazer da dor da verdade, olhos chupados e aguçados
procurando a razão de tudo no âmago da vida, em um
pedaço de carne. Sem achar. Chupei e meti na boca aquelas
rodelas altivas e atrevidas, seus mamilos despertando, quase
chegando ao ponto de soltar uma pequenina língua pra fora,
na sua ânsia de falar.
Chegava a me dar angústia o modo como isso tudo se
operava. O modo como temos de ser felizes e viris, o modo
como temos de procurar e não achar. Segurei em coxas
grandes, roliças e firmes, posto que estavam em meu colo, e
seu rosto estava lá em cima tão longe, impossível desviar o
olhar e percebê-lo, e marcá-lo, em lembrá-lo. Impossível
desviar o olhar daqueles enormes médios seios, em toda sua
raiva a um palmo de meus olhos.
Meti a boca novamente nos malditos seios, pra mim nada
mais importava. Passei minha língua entre os dois, e por
baixo de cada um.
É o suor que brota que ferve e que aquece, é a carne
trêmula e trôpega da aflição, o tremor, as pernas bambas. É
a única verdade da vida, e assim mesmo tão maldosa e ao
mesmo tempo tão ingênua, incompleta. Sinta-se feliz. São
agora aquelas coxas enormes e roliças que se abrem pra ti
mostrando a boca do mundo, mostrando a guerra, a
misericórdia de dias exaustivos e sem sentido, a sua
vingança aparente, seu grito mais alto.
E assim talvez seja o conjunto de todas as coisas. Tu vês,
naqueles cabelos longos e morenos, nos ombros aprumados,
na cintura curvada, algum vislumbre de realidade? E no
cheiro do pescoço e na macieza das carnes quentes
O Brasil convenientemente independente
Por Margit Mueller
O príncipe Dom Pedro estava indo a cavalo por
uma estrada pra lá de ruim do Rio a São Paulo. Ele
estava todo empoeirado e com uma baita diarréia.
Volta e meia e ele tinha que ir pro meio do mato.
Aí chegou um mensageiro a galope trazendo
duas cartas - uma das Cortes de Portugal e outra da
sua esposa. A carta das Cortes dizia que ele
deveria ir a Portugal imediatamente e assumir o
trono do país. A carta da sua esposa dizia que era
melhor que ele fizesse a independência da colônia
e virasse imperador ou rei do Brasil, uma vez que
as Cortes mandavam no pedaço e que o rei era um
mero títere, um bonequinho de enfeite.
Dom Pedro discutiu o assunto com seus
acompanhantes cultos e todos concordaram com a
princesa. Foi a primeira (e talvez única) vez que
Dom Pedro dava bola para o que a sua esposa
dizia.
Junto com seus acompanhantes cultos redigiu,
então, um longo discurso que terminava com a
bombástica cena de ele erguer a espada e dizer:
"Independência ou morte!"
Mandou um mensageiro a São Paulo
orientando-o a reunir todas as famílias importantes
de lá numa determinada praça.
Pouco antes de chegar a São Paulo foi até as
águas então límpidas do rio Tietê e lavou o rosto e
as mãos. Nada de tomar banho, porque os
portugueses de então diziam que "não lhes
agradava banharem-se com freqüência". Os
empregados ajudaram-no a colocar o uniforme
limpinho e escovaram o cavalo.
E pouco depois, em São Paulo, Dom Pedro
(com total emoção e um amor sem igual - já que era
a opção "menos pior") fez o longo discurso.
O povo paulista ficou emocionado, é claro. Mas
o brasileiro, apesar de tomar banho, tem memória
curta. É por isso que achamos que ele disse
somente "Independência ou morte". Já pensou se
ele tivesse dito apenas isso? O povo teria ficado
preocupado e achado que ele era louco.
Histria

Porn! filosfico


A estréia de Alcebíades
Por Castor
Alcebíades estava afoito. Sentia o peso de toneladas
de ansiedade obstruindo a ordem natural de suas sinapses.
Mas agora já não havia como desistir. Já estava tudo
acertado. Em alguns minutos sua bela parceira chegaria ali a
fim de quebrar a aparente serenidade daquele ambiente
escuro, iluminado apenas pelos esparsos feixes de luz que
encontravam as raras frestas da cortina que permanecia
imóvel à sua frente, devidamente fechada, claro, como
convinha a tal ocasião.
O grande momento estava chegando, e a ação estava
prestes a começar. Tentava, sem grandes resultados, acatar
os conselhos do velho tio Durval, muito mais experiente
nestas questões, e que, em conversa no dia anterior, havia
tecido recomendações tanto quanto sucintas: "Procure não
ficar muito nervoso pra não atrapalhar o desempenho, e não
vá esquecer-se de encapar o bicho!"
Alcebíades recebeu uma educação exemplar. Como
seus pais viajavam muito, foi criado praticamente pela avó,
que acumulava os títulos de viúva de coronel do exército e
professora de filosofia aposentada e, sem maiores
pretensões para o futuro, vivia enfurnada em um
apartamento na zona leste de São Paulo.
Além de ter estudado numa das melhores escolas da
cidade, recebia diariamente os ensinamentos da velha anciã,
que fazia questão de repassar todas as lições em casa, e
ainda encontrava tempo para oferecer toda sorte de mimos
ao precioso netinho. O resultado desta aritmética era de se
esperar: ótimas notas e uma vovó cheia de orgulho.
Por admiração àquela distinta senhora ou quiçá por

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Jornalista responsável:
Rodrigo Silvestre (registro 9012/PR)

exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de
Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou a expressão "do Bandeira".
Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento
na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí cortou a
orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-
louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar
"Êta" com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!
Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo
("E o Eduardo gostava de novela") e crianção ("E jogava futebol de
botão com seu avô"). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que
adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar
jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a
empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a
companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o
coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para
passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio,
para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade
pura.
Continuando, tem-se ("Ela falava coisas sobre o Planalto
Central, também magia e meditação"). Falava merda, isso sim! Nesses
assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do
mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer
absurdo que ninguém vai contestar. Por quê? Porque não se pode
provar absolutamente nada ... Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E
quem foi cair nessa conversa mole jogada por Mônica?
Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda se tem
mais um achincalhe ao garoto ("E o Eduardo ainda estava no esquema
"escola - cinema - clube - televisão"). O que o Sr. Russo queria? Que o
esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay -
delegacia"?? E qual é o problema de se ir a escola, caramba?!?
Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura
imposta por Mônica ("Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia,
teatro, artesanato e foram viajar"). Por ordem: 1) Teatro e artesanato
não costumam pagar muito imposto. 2) Teatro e artesanato não são lá
as coisas mais úteis do mundo. 3) Quer saber? Teatro e artesanato é
coisa de viado!!!
Agora surgem os versos mais cretinos de toda a letra ("A
Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o
ar"). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar
nenhum. Veja-se: Mônica trabalha na previsão do tempo? Não. Mônica
é geóloga? Não. Mônica é professora de química? Não. Mônica é
alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira
transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca
não saiba? Novamente, Eduardo é retratado como um debiloide pueril
capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste
grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência ...
Ainda em "Ele aprendeu a beber" não precisa ser muito esperto
pra sacar com quem... é claro, com Mônica, a campeã do alambique!
Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis como o código morse
ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o
rapaz como encher a cara de pinga.
Muito bem, Mônica! Grande contribuição!
Depois, tem-se "deixou o cabelo crescer". Pobre Eduardo.
Àquela altura estava crente de que deixar crescer o cabelo o
diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo
pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Mônica na cabeça do
iludido Eduardo. Sempre à frente em tudo, Mônica se forma quando
Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade ("E ela se
formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular"). Por esse
ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Mônica deverá estar
ganhando o seu prêmio Nobel. Outra prova da parcialidade do autor
está em ("por que o filhinho do Eduardo tá de recuperação"). É
interessante notar que é o filho do Eduardo e não o de Mônica que ficou
de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma
porta.
O que realmente impressiona nessa letra é a presença
constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como
sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e
previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma
cultura alternativa redentora. Nessa visão está incutida a ideia absurda
que o feminino é superior e o masculino, inferior.
Bem típico de algum recalque homossexual do autor, talvez
magoado com a natureza masculina. É sabido que em muitas culturas e
povos existentes o homem costuma oprimir a mulher, porém isso não
significa, em hipótese nenhuma, que elas sejam melhores que os
homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo
feminino fosse o dominador e o masculino, o subjugado, os mesmos
erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra.
Por quê? Ora, porque tanto homens quanto mulheres e
colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que
sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até
quem quer que seja.

internas, é seguindo pra trás e pra frente, então, que vou
achar o caminho? A verdade é que nem isso mesmo importa.
Pois é o zero, e não o todo, que procuramos. Procuramos o
zero de todas as coisas, o fim, o absoluto, toda a vida
resolvida naquela chaga vermelha, mãe de todas as pestes,
só o seu calor e nada mais vindo ao nosso socorro. É o
clímax, a completa certeza de si por instantes. O resto é a
dor do abandono, o alimento que se deteriora, os intervalos.
Os malditos intervalos. É a busca tão vã, é covardia. É risco
iminente de morte.
Viro-a de costas. Aquele rabo todo abrindo-se pra mim, é
um mundo novo, pequeno, só meu. Bato, produzem-se ondas
de carne, abre-se o mar. Sou Moisés. Sou, e somos todos,
chagas vivas na carne da alma, e grãos de areia nas chagas
do mundo. Andando, apenas, indo, e voltando. É tedioso. Me
prendo, colo meu peito nas costas dela, cheiro o cabelo, é
macio, fecho os olhos, vou fundo. São os seios, que agora
estão pendurados feito as tetas de uma vaca, que balançam
ao gosto do ritmo, ora suave e ora frenético. Estão lá tão
sozinhos e esquecidos, são de um papel secundário na
busca da paz de espírito, e assim mesmo te alimentam para
que venças o mundo. São corajosos. Viro-a de novo, seu
rosto não me impressiona, não o percebo exatamente bem, é
o suor, é o calor, são os olhos. Pra quê olhar a quem sabe
que não verás de verdade?
Mas os seios continuam lá, de mamilos eretos, ainda
orgulhosos, sua coloração pendendo bem mais ao bordô do
que ao mel ou marrom. É carne. É tudo o que se pode
esperar. Chupo-os novamente, dessa vez metendo um deles
quase inteiro na boca, prensando-o, chegando até a
garganta. Deve fazê-la sentir dor, mas eu não me importo. É
sede, é fome. É meu pão e água. Ela puxa meu cabelo pra
trás, afastando-me deles. Ela deve agora estar me olhando
com um rosto vazio e inexpressivo. Acabou-se o clima. E eles
ali ainda me olham, tudo de novo, não sou mais o dono
deles, são esquisitos, meio feios, parecem ter a resposta que
você anseia mas, mesmo que pudessem, não lhe dariam.
São as flores de um jardim que não mais existe. São seios
tristes.
pura ironia do acaso, Alcebíades, que teria passado em
qualquer vestibular, foi parar no curso de filosofia. E talvez
por isso mesmo ele tenha lembrado, naquele momento tão
crítico, de algumas palavras de um dos últimos filósofos da
era moderna: "Não resta dúvida de que todo o nosso
conhecimento começa pela experiência."
"Maldito Kant!" repetiu para si mesmo.
O maior temor de Alcebíades residia, sobretudo, na
possibilidade de decepcionar a bela Ana, que se trocava no
banheiro e chegaria ali a qualquer instante. Nosso
protagonista conhecia Ana há pouco tempo, e, talvez como
resultado da timidez que sempre o acompanhou somada a
certa desinibição da moça, o convite para o encontro daquela
noite havia sido feito por esta.
Alcebíades mal pôde acreditar na proposta de Ana. De
início tentou argumentar que deveriam se conhecer melhor,
que um momento destes exigia uma maior preparação, que
ainda era cedo...
Mas os contra argumentos de Ana o desarmavam por
completo: Ela tinha certeza que ele se sairia muito bem, e
que não havia porque postergar este dia. Alcebíades, que já
havia conhecido a habilidade de Ana com as mãos, mesmo
receoso, foi obrigado a aceitar a proposta.
E foi assim que, em meio a um turbilhão de
pensamentos, Alcebíades viu Ana, linda como nunca, chegar
ao seu lado, e, enquanto as cortinas do teatro abriam-se,
sentar-se ao piano e iniciar as primeiras notas do recital que
estavam prestes a apresentar. Ao final do concerto, sob o
som de aplausos calorosos, Alcebíades ainda lembrou-se
das sábias palavras do tio Durval, e, num gesto hábil e
certeiro, encapou seu clarinete.

"oc# vai morrer de al$o %ue voc# $osta Por André Dahmer

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