INTRODUÇÃO

Nosso objeto de pesquisa é a revista “O Tico-Tico” que foi lançada em 11 de
outubro de 1905 pela Sociedade Anônima “O Malho”, que foi responsável pelas primeiras
publicações humorísticas e ilustradas no início do século XX e também uma das maiores
empresas jornalísticas do país naquele período.
Em 30 de setembro de 1905, a revista “O Malho” anunciava o nascimento de uma
grande novidade na imprensa carioca: a primeira revista ilustrada voltada ao público
infantil.

O Malho, 30 de setembro de 1905. Edição 159, p. 48
A revista “O Tico-Tico” foi apresentada aos leitores como o preenchimento de uma
grande lacuna no meio jornalístico. Até então, não havia nenhuma revista destinada às
crianças com as características de O Tico-Tico – colorida, ilustrada e lúdica.
Conforme Rosa (1991, p. 91) “com poucas opções de leitura, limitadas a traduções
e adaptações de livros editados na Europa, que conservavam expressões e palavras pouco
familiares às crianças, o ato de ler para elas não tinha o mesmo caráter lúdico que
encontravam nas brincadeiras”.
Mas com o lançamento de “O Tico-Tico”, seus criadores procuraram demonstrar
que era possível alterar os hábitos infantis propiciando às crianças uma leitura sadia, com
teor interativo e lúdico, sobretudo a partir das páginas que traziam os concursos e as
histórias em quadrinhos e as páginas de armar.
No expediente do primeiro número da revista, afirma-se que “O Tico-Tico” seria
uma grande revolução no mercado de produtos para crianças, que até aquele momento
viviam o mundo dos adultos.
A revista “O Tico-Tico” foi criada por Luiz Bartolomeu de Souza e Silva,
proprietário de “O Malho”, mas personalidades como o historiador e professor Manoel
Bonfim, o jornalista e caricaturista Renato de Castro e o poeta Cardoso Júnior auxiliaram
na criação da revista que se tornou uma referência na imprensa brasileira no início do
século XX e cujo objetivo era “ensinar divertindo” a partir de uma diversidade de imagens
coloridos, contos instrutivos e histórias engraçadas para meninos e meninas. Ao mesmo
tempo em que apresentavam uma revista atraente às crianças, sensível aos gostos e
interesses infantis, O Tico-Tico realizava também um propósito pedagógico.
. O primeiro número foi lançado em outubro de 1905, uma quarta-feira, na cidade do
Rio de Janeiro. Conforme o editorial de lançamento da revista O Tico-Tico (1905, n. 1) os
editores fizeram questão de esclarecer que pouco se fazia pelo prazer das crianças:
Todos amam as crianças; não há poeta que não celebre a sua inocência e a sua
beleza... Entretanto, caso singular! Nada se faz em favor delas, para diverti-las,
para distrair e encantar a sua existência. Não lhes damos uma literatura especial,
simples, ingênua, ao alcance de sua inteligência. Ao contrário disso, as festas em
que as crianças figuram, são destinadas a divertir... Os marmanjos; [...].
Este jornalzinho [...] vem preencher essa lacuna. É um jornal que se destina
exclusivamente ao uso, à leitura, ao prazer, à distração das crianças. Não
queremos a atenção nem o aplauso da gente grande: os pequeninos, os inocentes,
os simples formarão o nosso público. [...] Contos, poesias, problemas, concursos,
contribuirão, nas páginas do Tico-Tico, para, ao mesmo tempo, instruir e deliciar
as crianças; e, de hoje em diante, elas poderão dizer, com orgulho: „Os
marmanjos têm os seus jornais? Pois nós também temos o nosso jornal, que é
feito para nós, „exclusivamente para nós!‟

Assim a revista começou sua trajetória obedecendo a uma periodicidade semanal,
sendo publicada todas as quartas-feiras, ao preço de 200 réis, quantia essa que foi mantida
até 1920, e contava com uma tiragem inicial de 25.000 exemplares. Podia ser comprada
por meio de assinatura semestral, anual ou até mesmo adquirida, por encomenda nas
livrarias e estabelecimentos credenciados à sociedade “O Malho”.
Mais precisamente um ano após seu lançamento “O Tico-Tico” já alcançava “a
expressiva tiragem de cem mil exemplares por semana e em suas páginas coloridas
começaram a surgir as primeiras histórias em quadrinhos com temas genuinamente
nacionais” (SILVA apud SANTOS e VERGUEIRO, 2005, p.37)”.
O semanário foi inspirado nos mesmos moldes da revista ilustrada francesa “La
Semaine de Suzette”, entretanto seus temas e personagens estavam mais ligados à
afirmação de elementos da identidade nacional, sendo assim mais próximos da realidade de
seus leitores, mesmo porque com exceção das histórias do Ratinho Curioso (Mickey
Mouse) e As proezas do Gato Felix, todas as historias em quadrinhos de “O Tico-Tico”
eram produzidas por artistas brasileiros. Dessa forma o semanário buscou valorizar figuras
com características nacionais e humildes e até mesmo as formas diversas de folclore
regional e popular.
Quanto ao titulo da revista “Carmen de Sousa e Silva Westerland, filha de Luis
Bartolomeu, manifestou, por ocasião do cinquentenário de “O Tico-tico” que “seu pai se
inspirara na figura de um passarinho que vivia na rua Paissandu”. Entretanto existe a
versão de que:
“o idealizador do nome teria sido Manuel Bonfim referindo-se a forma como
eram chamadas as escolas primárias da época, posteriormente chamados de
jardim de infância. E, finalmente, a do nome de Becassine, personagem principal
dos quadrinhos da revista ilustrada francesa “La Semaine de Suzette” que
também era o nome de um passarinho na França. Daí “O Tico-Tico” (ROSA,
1991, p. 36).

Quanto ao público leitor do semanário, é notório que “O Tico-Tico” não era lido
somente pelo público infanto-juvenil, mas também por seus familiares, amigos, entre
outros, o que contribuiu para difundir a ideia de que a revista que tinha como objetivo atuar
como uma ferramenta de educação não-formal para as crianças cumpriu seu papel
pedagógico com êxito até meados dos anos de 1960, quando desapareceu por completo,
mas não sem antes ter sido utilizada até mesmo pelos professores na apresentação dos
conteúdos escolares.
O conteúdo da revista era dividido em seções semanais. Comportava um editorial, a
Lição do vovô, A Gaiola do Tico-Tico, Gavetinha do Saber, partituras, notícias,
entrevistas, anúncios publicitários, A “Correspondência do Dr. Sabetudo”, O Tico-Tico
mundano, seções de correspondências (textos e fotos enviados pelos leitores), Os
Concursos d‟ O Tico-Tico, passatempos, poesia e contos, romances em folhetins como “As
viagens de Gulliver” de Jonathan Swift e “As aventuras de Robinson Crusoé” de Daniel
Defoe. Além disso, faziam muito sucesso as divertidas histórias em quadrinhos de cunho
moralizador sobre o garoto Chiquinho, principal personagem da revistinha.
No início de sua história o semanário não contava com personagens fixas na revista.
Entretanto na medida em que despertavam o interesse, a simpatia e a manifestação dos
leitores os personagens iam ficando mais tempo nas páginas de “O Tico-Tico”. Esse foi o
caso do menino “Chiquinho” e seu cachorro “Jagunço” e a partir de “abril de 1931, os
amigos Reco-Reco, Bolão e Azeitona” (LUCHETTI, 2005).
Durante mais de 50 anos a revista ofereceu entretenimento a seus leitores, mas sem
nunca se descuidar de seu papel educativo: na seção de correspondências, os leitores
enviavam suas cartas, trocavam experiências, fotografias, curiosidades e desenhos; na
seção dos passatempos, podiam resolver os enigmas, adivinhações e participavam de
concursos; na seção de contos, havia lindas histórias de povos antigos, contos da
Carochinha, narrativas sobre a história do Brasil, romances de aventuras com ilustrações.
O Tico-Tico deixou de circular no ano de 1962, depois de 56 anos de publicação,
semanal até 1940, e mensal até seu completo desaparecimento em meados da década de
1960. Conforme Merlo (2003) a revista O Tico-Tico, em sua grande existência acumulou o
número de 2097 edições publicadas até fevereiro do ano de 1962:
nº 1 ao 1852 de 11 de outubro de 1905 a 26 de março de 1940, em
publicações semanais; nº 1853 ao 2077, de abril de 1940 a dezembro de
1958 em publicações mensais; e do nº 2078 ao 2097 em janeiro de 1959 a
fevereiro de 1962 em publicações bimestrais (MERLO, 2003).

Muitos são os motivos do declínio e consequente extinção da revista, além da
concorrência, Vergueiro aponta outros fatores como “mudança dos gostos do público, mais
adepto às aventuras das HQs, o surgimento da televisão e dos desenhos animados e,
finalmente, um novo mercado consumidor: os adolescentes” (VERGUEIRO, 2006, p. 13)
Apesar de hoje a revista encontrar-se em esquecimento deve-se salientar que
durante metade do século XX ela modelou os comportamentos de muitas das crianças
brasileiras, assim como foi responsável também por divulgar os valores ideológicos do
período histórico em que se manteve em circulação.
Sobretudo nos anos 30, período escolhido para a análise do periódico pode-se
perceber nitidamente o propósito de influenciar o desenvolvimento intelectual das crianças
brasileiras, a partir de concepções positivistas.
De acordo com Vergueiro (2006, p. 9)
“os responsáveis pela publicação defendiam um tipo de revista que
pudesse colaborar para a produção de adultos pró-ativos, que
acreditariam na força do trabalho e participariam do capitalismo em
ascensão e acrescenta que o público era formado por crianças da classe
média, tementes a Deus e respeitadoras dos valores pátrios.

Foi com este objetivo de colaborar para a propagação da educação no Brasil é que a
revista o Tico-Tico esteve em consonância com os interesses dos intelectuais da época na
busca pela propagação da educação escolarizada que aparece como um instrumento de
reafirmação do projeto nacional.
Apesar dos propósitos lúdicos, mas também comerciais, a revista O Tico-Tico
apresentou-se como um apoio à educação das crianças, complementando um trabalho
realizado na família e na escola. Sendo assim a revista O Tico-Tico figurava, portanto,
como um caminho possível para realização dos propósitos idealizados pela Editora O
Malho que mantinha o objetivo de “não se descuidar do lado útil e moral, procurando no
meio das suas histórias de fadas e desenhos travessos, fortalecer e orientar o espírito desses
que serão amanhã nossos grandes homens”
1
.
Segundo Vergueiro e Santos (2005), “a revista O Tico-Tico foi um marco na
indústria editorial brasileira, e uma das mais importantes publicações periódicas dirigidas à
infância no país, durante mais de cinqüenta anos” e manteve-se durante todo este tempo
co-responsável por auxiliar, com uma postura firme, na disseminação dos objetivos
educacionais vigentes no país, mantendo-se em consonância com a sua missão original de
entreter, informar e formar de maneira sadia a criança brasileira.


1.1. OS PERSONAGENS DE “O TI CO-TICO”

No Brasil a revista “O Tico-Tico” foi responsável pela publicação das primeiras
histórias em quadrinhos cujos personagens como Chiquinho, Zé Macaco e Faustina, Reco-
Reco, Bolão e Azeitona, além de Kaximbown, Pipoca e muitos outros tornaram-se
referências no imaginário infantil na medida em que se revezavam para fazer a alegria da
criançada na primeira metade do século XX.
Os quadrinhos e as histórias infantis da revistinha em sua grande maioria possuíam
enredos agradáveis para as crianças, ou seja, travessuras infantis, histórias de animais, fatos
engraçados do cotidiano, entre outras situações divertidas. Entretanto mesmo nas histórias
de tom jocoso os editores não se descuidavam dos objetivos iniciais da revista, isto é, o de
“entreter e educar” os pequenos leitores. Por esse motivo muitas das histórias teriam além
de enredos divertidos o toque de aconselhamento que era constante nas páginas da revista.

1
O Malho. Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1905. Nº 158. Ano IV.
Nessas histórias muitas personagens, fixas ou temporárias, com apelidos e nomes
engraçados, puderam ser identificadas durante mais de meio século de publicação de “O
Tico-Tico” no Brasil.
Além disso a historiadora Zita de Paula Rosa (1991) afirma que:
Personagens como Chiquinho, Benjamin, Jagunço, Zé Macaco, Faustina,
Chocolate, Baratinha, Serrote, Barão do Rapapé, Kaximbown, Pipoca,
Pandareco, Pára-choque, Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Lamparina,
Jujuba, Carrapicho, Zé Matuto, João Garnizé, Canudo, Jatobá, Tinoco,
Pinga-fogo, Pechincha, Zé Calango, Chuvisco e muitos outros
constituíram-se em canais de crítica e de sátira do cotidiano da sociedade
brasileira, bem como da idealização das expectativas dos adultos em
relação aos comportamentos das crianças (ROSA, 1991, p. 243).

Mas nem sempre teria sido assim, pois em seus primeiros números de publicação
havia em “O Tico-Tico” o predomínio de decalques e adaptações de histórias em
quadrinhos estrangeiras, sobretudo das histórias francesas, postas em circulação por meio
de revistas como “La Semaine de Suzette”, “Le Petit Journal Illustré de la Jeunesse” e “Le
Jeudi de la Jeunesse”.
Todavia com o sucesso dessas histórias infantis entre as crianças, essa prática que
foi muito comum nos primeiros números de publicação da revista foi gradativamente
substituída pela criação de personagens e situações que versavam sobre os acontecimentos
do cotidiano brasileiro.
Conforme Rosa (1991) logo nos primeiros números de publicação, “uma
personagem começou a chamar atenção dos leitores, não só pela regularidade com que
aparecia nas páginas da revista, mas pelo seu comportamento irreverente e traquinas”.
Assim era o menino Chiquinho, o primeiro personagem fixo a surgir na revista em “O
Tico-Tico” já em seu primeiro número de 11 de outubro de 1905.
Inicialmente suas histórias eram decalcadas do jornal americano New York Herald
pelo cartunista brasileiro Luis Gomes Loureiro. Chiquinho era originalmente um menino
chamado Buster Brown, personagem criado por Richard Felton Outcault que sempre
aparecia nas histórias com seu inseparável cão Tige, que aqui ficou conhecido como
Jagunço.
As histórias de Chiquinho, o menino louro, tão diferente da grande maioria das
crianças brasileiras fez tanto sucesso no Brasil com suas trapalhadas, punidas ao final com
uma bela surra, que com o passar do tempo, Loureiro criou então um outro personagem
bem brasileiro, o menino Benjamin, que passou a acompanhar Chiquinho em todas as suas
aventuras. “As Desventuras de Chiquinho” eram geralmente publicadas em cores nas
últimas páginas da revista.
Somente em 1906 um novo personagem fixo é criado: seu nome é Juquinha.
Desenhado por J. Carlos, em sua primeira aparição, é Chiquinho quem apresenta o novo
personagem como se fosse seu primo: “Aos meus bons amiguinhos d`O Tico-Tico
apresento o meu primo Juquinha, cuja vida é também cheia de aventuras, dignas de
consideração”
2
. “Juquinha era como Chiquinho, um menino traquinas que aprontava várias
confusões. Só que era genuinamente nacional e tinha a seu favor o traço brilhante de J.
Carlos” (GONÇALVES, 2011, p. 115).
Além de Juquinha, J. Carlos criou também personagens como “Carrapicho, Jujuba,
Lamparina, Borboleta, Cartola e Goiabada, todos personagens característicos de um
repertório iconográfico bem brasileiro” (INSTITUTO ANTARES, 2006).
Novos personagens foram introduzidos em “O Tico-Tico” por volta de 1908, por
Alfredo Storni. O caricaturista criou “Zé Macaco”, sua esposa “Faustina” e o filho do casal
“Baratinha”. Esses personagens formavam uma família que, de forma caricata,
representavam os comportamentos típicos da classe média carioca, ou seja, conforme
atesta Rosa (1991) “revelavam a alienação burguesa, os encantos pelos modismos europeus
e ao mesmo tempo o desajustamento em relação as tentativas de ascensão social das
personagens”.
Além da família de Zé Macaco Alfredo Storni criou também personagens de menor
ascensão como Chocolate, o amigo de Baratinha e o cão “Serrote”.
Em 1931 surgiram a s primeiras aventuras de “Reco-Reco, Bolão e Azeitona”,
ilustrados por Luiz Sá, os três meninos passaram a disputar a preferência dos leitores de O
Tico-Tico com Chiquinho.
Com apelidos engraçados e características físicas bem definidas, por traços
predominantemente curvos e arredondados, Reco-Reco, Bolão e Azeitona permaneceram
regularmente na revista até seu desaparecimento em 1958.
Privilegiando o relacionamento entre os três garotos comuns que viviam
no mundo urbano, Luís Sá criou situações onde Reco-Reco, Bolão e
Azeitona se revezavam como autores, vitimas de brincadeiras, sustos e
engodos. Zoológico, circo, estabelecimentos comerciais, quintais,
dependências internas de casas, campos de futebol, ruas tranqüilas,
avenidas movimentadas, lagos e bosques serviram de cenário para as
aventuras do trio (ROSA, 1991, p 284).


2
“O Talento de Juquinha”. O Tico-Tico. Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1906. Nº 19. Ano II.
Os três meninos criados pelo cartunista Luis Sá apresentavam características físicas
bem distintas. Enquanto Reco-Reco, o garoto mais ajuizado, representava a imagem do
menino branco, de cabelos arrepiados e inteligente, fazia o papel de porta-voz dos
aconselhamentos e recomendações dos adultos, Bolão e Azeitona apresentavam
características físicas e intelectuais bastante estereotipadas. Bolão tinha sua aparência
física associada à gula, por isso seu personagem era exageradamente volumoso. Além
disso, era sempre alvo de brincadeiras de mau-gosto por parte dos colegas, sendo sempre
punido pela sua ingenuidade e distração.
Já o menino Azeitona tinha características um tanto quanto exóticas, era pretinho,
de olhos bem arregalados, lábios excessivamente grossos, fita vermelha com laço no alto
da cabeça e com pés descalços.
O aparecimento desses três personagens foi tão apreciado pelos leitores da revista,
que mesmo com o “fim da publicação do semanário os meninos ainda continuaram a
ilustrar anúncios e livros que surgiram após o termino da publicação de O Tico-Tico”
(INSTITUTO ANTARES, 2006).
Já Kaxinbown e Pipoca foram criados pelo cartunista Max Yantok. Estes foram os
personagens mais regulares nas páginas de “O Tico-Tico”. Surgiram na edição 304 da
revista, que foi lançada no dia 2 de Agosto de 1911.
Eram homens adultos nos quais Yantok fixou a representação do relacionamento
entre o patrão avarento e o empregado ignorante e distraído. Os dois viviam muitas
aventuras fazendo viagens inspiradas nas histórias de Julio Verne. As historias dos dois
personagens não apresentavam nenhum cunho didático, ou moralista, ou seja, eram apenas
cômicas, com o objetivo de divertir tanto crianças como adultos.
Kaximbown foi certamente um personagens mais notórios da revista. Era um
senhor calvo, de meia-idade, grã-fino, metido a intelectual que sempre aparecia com
seu cachimbo, acompanhado de seu criado, o atrapalhado Pipoca, que tinha esse nome em
razão de uma verruga localizada em sue nariz. Os dois viviam uma série de peripécias em
lugares míticos como a Pandegolândia.
A partir dos anos de 1930, Max Yantok criou também os amigos Pandareco e
Parachoque e o cão da dupla chamado Viralata. Conforme Rosa (1991)
“enquanto o animal mostrava-se atento às reflexões e às ideias dos dois
amigos, acompanhando-os em suas aventuras, Pandareco e Parachoque
viviam às voltas com problemas de moradia, com o não-pagamento do
aluguel, as pressões do senhorio, as ordens de despejo, o desemprego, e a
falta de dinheiro, aspirando sempre, mas sem grandes perspectivas, a uma
mudança de vida (ROSA, 1991, p, 296).
Dentre seus personagens temos também o “Barão do Rapapé” que surge na
publicação a partir de 1935 e tinha eventuais aparições em “O Tico-Tico”. Era uma
representação caricata do nobre falido que aguardava o recebimento de heranças de
parentes e a nomeação a altos cargos públicos. No entanto suas aspirações eram geralmente
postas a perder pela intervenção desastrada da empregada negra “Genoveva”.
De acordo com Vergueiro e Santos (2005) a obra de Max Yantok para o Tico- Tico
compunha-se de “diversos tipos pitorescos, vagabundos, andarilhos, sem família, sem lar,
desprovidos de bens materiais e muitas vezes famintos”. Por meio destes e outros
personagens vemos a critica a sociedade, onde alguns possuem tudo e outros não têm o
mínimo para a sobrevivência.
Foram inúmeros, os personagens lançados nas histórias publicadas em O Tico-Tico,
com o objetivo de assegurar o objetivo recreativo da revista

















I CAPÍTULO
1. A CORRESPONDÊNCIA DO DOUTOR SABE TUDO
A Correspondência do Doutor Sabe tudo surgiu na revista por volta de 1910 e foi
publicada até meados de 1948. A seção, que foi dirigida por dois editores: José Lopes dos
Reis até 1930 e Eustórgio Wanderley até sua extinção no fim dos anos 40, dispunha-se a
abordar vários assuntos e a responder às dúvidas enviadas pelos leitores.
Entretanto com o fim da seção “A Gaiola d‟ O Tico-Tico” que até os anos de 1920
era responsável por avaliar as contribuições espontaneamente enviadas à publicação por
parte do público, a “Correspondência do Doutor Sabe tudo” assumiu essa função que
duraria até o fim de sua publicação na revista.
A “Correspondência do Doutor Sabe tudo” foi juntamente com as seções “Nossos
Concursos” e as “Lições do Vovô” uma das seções mais duradouras e importantes de O
Tico Tico. Tanto que já em 1910 a Correspondência era responsável por “notas breves
sobre questões de Língua Portuguesa, curiosidades e informações sobre conteúdos dos
programas escolares” (ROSA, 1991).
Mas a partir de 1914, o volume de correspondência havia aumentado tão
significativamente que para mantê-la em dia, eram utilizadas cerca de duas páginas da
revista para sanar os questionamentos dos leitores.
Conforme Zita de Paula Rosa (1991):
Os assuntos abordados foram os mais variados. Além de informações
sobre conhecimentos gerais, surgiram respostas a consultas sobre moda,
beleza, esportes, tratamento de doenças, exercícios físicos, etiqueta,
orientação de leituras, culinária, uso de preparados caseiros e de
indicação de cursos e de escolas. Do tratamento de calos à ortografia de
palavras, das recomendações sobre banho de mar a questões da I Guerra
Mundial, dos cuidados com animais à regência verbal. Enfim, tudo coube
nas interrogações e consultas dos leitores da revista (ROSA, 1991, p.
107).
Entre 1920 e meados dos anos trinta, na “Correspondência do Doutor Sabe tudo”
predominaram as consultas sobre grafologia (estudo da letra) e horóscopo, sendo que
grande parte dos leitores que enviavam suas dúvidas ao “Doutor” usavam pseudônimos e
não especificavam detalhes como idade e lugar de origem.
Mais precisamente a partir de 1935 até seu desaparecimento em 1948 a seção ficou
responsável por centralizar as respostas às cartas enviadas para a revista, esclarecendo
dúvidas e dando notícia sobre as colaborações recebidas e as possibilidades de sua
publicação, sobretudo no encarte “Meu Jornal”.
Por esse motivo julga-se que além da seção ter sido um importante elo de ligação
entre as editores da revista e os leitores de “O Tico Tico”, também é provável que esta
tenha sido uma maneira bastante perspicaz de preencher as páginas do periódico já que sua
publicação semanal exigia um grande volume de histórias em quadrinhos, contos,
ilustrações, páginas de armar, entre outras publicações. Nesse caso o envio de histórias e
desenhos realizados pelas crianças foi uma engenhosa saída encontrada pelos editores para
a constante escassez de material.
Em vista dessa necessidade percebe-se em toda a revista a partir dos anos de 1920
um grande volume de publicações das histórias, poemas, anedotas e desenhos realizados
pelas crianças. Todavia em razão do grande número de trabalhos enviados, nota-se que a
partir de 1935 essas histórias teriam sido compiladas e publicadas em um encarte especial,
intitulado “Meu jornal” que passaria a circular nas páginas de “O Tico-Tico” de março de
1935 até meados dos anos de 1940.
Contudo mesmo anteriormente ao surgimento do encarte, a revista já estabelecia
uma série de critérios para a publicação das historietas infantis que poderiam ser
publicadas no periódico. Esses critérios eram sugeridos às crianças por meio da
“Correspondência do Doutor Sabe tudo” e iam desde erros gramaticais ao conteúdo
propriamente dito das histórias, poemas e anedotas.
Para melhor compreender os critérios de seleção das colaborações dos leitores
de O Tico Tico optamos por analisar a seção “Correspondência do Doutor Sabe tudo” entre
os anos de 1930 e 1940 tendo em vista que durante esse período de publicação as correções
estabelecidas pela seção foram mais freqüentes.



1.1. OS CRITÉRIOS PARA ESCOLHA DOS TEXTOS INFANTIS SEGUNDO O
“DOUTOR SABE TUDO”
Desde meados da década de 1920 as crianças leitoras ou não de “O Tico-Tico”
entre nove e doze anos de idade, de todo o Brasil eram estimuladas pela própria revista a
enviarem desenhos, histórias, contos e passatempos, na expectativa de verem publicados os
seus trabalhos.
É interessante notar que não havia necessidade de ser assinante de “O Tico-Tico”
para enviar colaborações à revista, fato este que podemos verificar na resposta à carta da
leitora Nezi de Almeida Campos da cidade de Jau, publicado pela “Correspondência” em
julho de 1931: “Para colaborar no Tico-Tico não é preciso ser assinante. Qualquer leitor ou
leitora poderá mandar seus trabalhos que serão publicados se estiverem de acordo com
nosso programa” (O TICO- TICO, julho de 1931).
Entretanto para que a publicação das mesmas ocorresse, era preciso que os
materiais enviados passassem pelas mãos do editor responsável pela seção “A
Correspondência do Doutor Sabe Tudo”, que as lia e consequentemente apresentava
algumas considerações acerca dos textos infantis que seriam ou não aceitos para a
publicação nas páginas de “O Tico-Tico”.
Portanto a aceitação dos trabalhos enviados pelas crianças estava sujeita à adoção
de uma série de critérios estabelecidos pela própria revista. Entre esses critérios a principal
recomendação era de que os textos enviados obedecessem a um programa de conteúdos
instrutivos e moralizantes, previamente instituídos pelo periódico.








Figura 1: O Tico-Tico. Rio de Janeiro, 27 de abril de 1932. Nº 1386.
De acordo com a “Correspondência do Doutor Sabe tudo” publicada em 13 de
março de 1935 em resposta dada a menina de pseudônimo Lua Cheia da cidade de Belo
Horizonte: "É do programa de O Tico-Tico dar às crianças motivos de instrução e boa
educação” (O TICO-TICO, 1935, p. 02).
Em razão desta e de outras recomendações acerca do teor das histórias que
poderiam ou não ser publicadas no semanário, todos os trabalhos que apresentavam outro
direcionamento que não o educativo, raramente eram publicadas pela revista, sobretudo no
encarte “Meu Jornal”.
Uma outra recomendação da revista seria quanto a idade dos pequenos escritores. É
o que podemos perceber na edição 1756 em resposta dada a leitora Lucila Monteiro de
Barros: “Peço que faça constar a sua idade exata nas colaborações que mandar. É condição
para serem publicadas. Mesmo porque, Meu Jornal tem um limite de idade para seus
colaboradores (O TICO-TICO, maio de 1939, p. 22).
Geralmente esse limite de idade variava entre 9 e 12 anos. Provavelmente o
estabelecimento desse limite era necessário porque a revista era cuidadosa em publicar
somente trabalhos enviados por crianças. Assim sempre que havia dúvida sobre a idade do
colaborador, a “Correspondência do Doutor Sabe Tudo” questionava sobre a veracidade
das informações prestadas e optava pela não publicação do trabalho.
É o que vemos na edição de número 1770 em resposta dada a leitora Maria
Nazareth Santos na qual o “Doutor” apresenta o seguinte questionamento: “Ou você não
tem 10 anos ou não foi você quem me escreveu... Por causa dessa dúvida, vou arquivar o
trabalho mandado” (O TICO-TICO, setembro de 1939, p. 14).
Outra dificuldade relatada não só na “Correspondência do Doutor Sabe Tudo” mas
também no próprio encarte “Meu jornal” seria o tamanho das composições, o que era um
problema em virtude da quantidade de trabalhos a serem publicados.
Para resolver a questão relatada, vê-se que além das considerações apresentadas
pelo “Doutor” em sua correspondência, a partir de 1939 o encarte “Meu Jornal” também
passou a publicar um lembrete no centro da página para esclarecer possíveis duvidas
quanto ao tamanho das composições a serem enviadas pelos seus colaboradores:








Figura 2: O Tico-Tico, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 1939, nº 1737, p. 18.
Outro fato que deve ser explicitado é que muitas vezes os trabalhos enviados
tinham de ser corrigidos pelos próprios editores antes de serem publicados. Esse é o caso
do texto “As duas Rosas” do menino de pseudônimo Alcyon, publicado no exemplar 1282
em 30 de abril de 1930 na Correspondência do Doutor Sabe Tudo. Conforme o Doutor
alguns trabalhos eram bons, mas precisavam de alguns “consertos” para posterior
publicação.
Além disso, tanto para esse colaborador, quanto para muitos outros o “Doutor Sabe
Tudo” também esclarecia que para serem publicadas as histórias, estas deveriam ser
escritas em apenas um lado do papel, pois o envio de colaborações com o texto escrito em
ambos os lados inviabilizava a publicação das mesmas devido à alguns critérios de
impressão dos textos nas páginas da revista.
Outro empecilho responsável por barrar a publicação das contribuições das crianças
no semanário infantil eram as questões da Língua Portuguesa relatadas inúmeras vezes
pelo “Doutor” em suas recomendações dirigidas aos pequenos escritores.
Assim sendo os leitores que tinham seus trabalhos recusados, além de observações
acerca da má qualidade da escrita, dos problemas de concordância, acentuação, caligrafia
ruim, erros gramaticais e da falta de interesse em publicá-los, recebiam também
recomendações para estudarem e lerem muito, “principalmente bom autores”.
Essa recomendação é perceptível na resposta dada ao colaborador Hardi da cidade
do Rio de Janeiro no exemplar de número 1392 publicado em 8 de junho de 1932: “ Sua
composição sobre o oceano nada tinha de novidade e sim alguns erros. Para saná-los
procure ler os bons autores e se aperfeiçoe no cultivo do nosso idioma afim de que possa
depois escrever com acerto”.
É interessante notar também que a correspondência não exibia o menor interesse na
publicação de determinados tipos de textos como os acrósticos, por serem considerados
pelo “Doutor” como demasiadamente “antiquados e fora de moda”, e as histórias em
quadrinhos que segundo o Sabe Tudo “[...] para serem publicadas, só sendo muito boas,
bem desenhadas e bem escritas, sem erros de português, sem crimes e sem heróis copiados
dos jornais americanos [...] Sendo logo franco de uma vez: não há interesse” (O Tico-Tico,
setembro de 1939, p. 14).
Por meio dessa recomendação do “Doutor Sabe Tudo” percebe-se a preocupação
com os conteúdos moralizantes que justifica a não aceitação de histórias sobre crimes e
más ações, a não que essas viessem acompanhadas de lições de moral, e ao mesmo tempo a
predileção pelos temas e heróis brasileiros. Fato que podemos perceber por meio da
recomendação dada ao leitor Helio de Campos:
Seria aconselhável que escolhesse um enredo mais nosso, menos
americano. Precisamos de narradores que apresentem idéias próprias,
originais, e no seu trabalho há muitas influências vindas de fora. Vi que
gosta do Inglês, mas procure estudar mais a nossa língua vernácula, para
escrever melhor e com mais acerto (O TICO-TICO, 1939, p. 28).
No que tange as questões sobre a tipologia textual das colaborações enviadas pelas
crianças, percebe-se que havia a preferência da seção pelos textos em prosa e, se bem
escritos, os poemas também poderiam ser analisados e escolhidos a partir de alguns
critérios como assunto, versificação e métrica.
Com base nos critérios de versificação dos poemas, temos na edição de número
1296 de O Tico-Tico uma explicação do Doutor Sabe Tudo dada à leitora de pseudônimo
Airam Uemor estabelecendo que a mesma deveria “deixar a idéia de fazer sonetos que só
serviriam se muito bem feitos”. Além disso nessa mesma publicação da correspondência, o
“Doutor” recomenda a leitora que escreva quadrinhas de sete silabas, ou seja, um tipo de
versificação caracterizado como redondilha maior.
Ainda sobre as colaborações de gênero poético o “Doutor” costumava questionar os
leitores acerca da realização de versos mal metrificados e do pouco estudo e
aperfeiçoamento acerca do nosso idioma como mais um dos motivos entre tantos outros
que poderiam levar a inviabilização da publicação das colaborações infantis no encarte.
Outro critério também presente era a preocupação com a originalidade das histórias
enviadas pelas crianças. Assim somente podiam ser publicadas as histórias se fossem
originalmente escritas pelos próprios colaboradores ou ainda se estivessem citadas as
fontes nas quais o pequeno escritor teria se baseado para escrever a adaptação, releitura ou
paródia de uma história qualquer já conhecida.
Com esse propósito a “Correspondência do Doutor Sabe Tudo” advertia que “os
contos e poemas traduzidos para serem publicados deveriam ter uma autorização prévia do
autor, pela nova lei de direitos autorais” (O TICO-TICO, 1930 p. 25). Por esse motivo,
muitas vezes as colaborações que eram meras traduções de outros autores também não
podiam ser publicadas.
Um último critério salientado pelos editores da “Correspondência” dizia respeito à
utilidade das histórias escritas pelas crianças que deveriam estar em consonância com os
objetivos instrutivos e moralizantes de O Tico-Tico.
Sendo assim as historias ingênuas que continham exemplos morais, que
apresentavam personagens heróicas e que apelavam para a dualidade entre o bem e o mal,
em geral eram certamente publicadas no encarte Meu Jornal. É o que podemos perceber na
resposta dada ao leitor Arsênio Correia Fernandes da cidade de Rio Tinto na Paraíba:
“Desde que a colaboração enviada esteja de acordo com os moldes de nossa revista e bem
escrita em prosa ou em verso será publicada. Quer experimentar? Mande alguma coisa
sua”.
A partir destes critérios é possível perceber que apesar da revista incentivar a
participação dos leitores, muitos dos trabalhos enviados eram considerados fracos, sem
originalidade, com sérios problemas em relação ao conhecimento da Língua Portuguesa ou
até mesmo inadequados aos programas de O Tico-Tico fazendo com que com o passar dos
anos as crianças tivessem que se adaptar aos padrões de conteúdo do periódico se
quisessem ver seus trabalhos publicados no encarte Meu Jornal.
Portanto apesar de o Tico-Tico dar espaço para os textos escritos pelos leitores, por
outro lado não havia nenhuma tolerância às colaborações nas quais as crianças exibiam por
vezes algum descontentamento ou se opusessem aos critérios estabelecidos pela
Correspondência.
Sendo assim a criteriosa aceitação dos textos infantis pela revista teria sido um dos
meios dentre os quais O Tico-Tico se utilizou para fazer com que seus leitores não só
seguissem seus princípios educativos e morais, como escrevessem sobre eles, o que revela
que os direcionamentos defendidos pela revista foram amplamente incorporados pelas
crianças e, por conseguinte, determinaram o modo de ser infantil que permaneceu quase
que inalterado durante os mais de 50 anos de existência do periódico no Brasil.

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