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FAEL

FACULDADE EDUCACIONAL DA LAPA

CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO EM METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTÓRIA E

GEOGRAFIA

A BÍBLIA E OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO

DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA A BÍBLIA E OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO CURITIBA-PR 2010 MARCO ANTONIO

CURITIBA-PR

2010

MARCO ANTONIO SILVA

MARCO ANTONIO SILVA

A BÍBLIA E OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO

CURITIBA-PR

Prof. Ricardo Orientador

2010

A BÍBLIA E OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO

Por

MARCO ANTONIO SILVA

RESUMO

A partir de 1947, o mundo teve a oportunidade de confirmar, de uma vez por todas, a

veracidade que há nas Escrituras Sagradas. Afinal de contas, foi neste ano que foram descobertos

manuscritos bíblicos antiqüíssimos datados de até quase meio milênio antes da era cristã. Com

isto, deu-se aberto uma série de questionamentos feitos tanto por céticos como por crentes

também. Perguntas tais como: Seriam esses manuscritos, de fato, tão antigos quanto se afirmava?

Quem os teria escrito? Se alguns deles eram, realmente, porções das Escrituras Sagradas (e de

fato o eram) tão antigas como se supunha, que resultados trariam para a interpretação da Bíblia

que temos hoje em mãos? Quantos erros cometidos pelos inúmeros copistas intermediários das

Escrituras viriam à luz, com o surgimento dessas cópias muito mais antigas? E, em conseqüência disto tudo, quanto da teologia encontrada nas atuais cópias da Bíblia Sagrada teria de ser alterado com as correções que se fizessem necessárias? Será que todas nos chegaram tais quais saíram da pena dos autores sagrados? A resposta é bem simples. Mesmo com toda a influencia do tempo, já que é um período de aproximadamente 1500 à 3000 anos desde as primeiras cópias que se tem dos manuscritos até a invenção do prelo (séc. XV), Deus preservou de todo erro os originais sagrados. É verdade que há algumas partes que não estão iguais, e essas são pouquíssimas partes mesmo. Um exemplo claro disto é Apocalipse 22:14. Porém, das quase 20 mil linhas que compõem o Novo Testamento, apenas 40 permanecem dúbias quanto ao seu original. Logo, 99,5% do texto é criticamente confiável, e somente 0,5% deixa uma dúvida no ar. Com isto, em minha opinião, para Deus bastava apenas conservar inalterada a substância do depósito da fé contido nos livros sagrados. “A ordem dos fatores não altera o produto!” Mas mesmo assim, Ele o permanece quase que intacto.

Palavras-chave: Deus, Bíblia, Velho Testamento, Novo Testamento, Bíblia Hebraica, Septuaginta (LXX), Vulgata, massoretas, copistas, essênios e manuscritos.

CAPÍTULO I

8

1.

INTRODUÇÃO

1.1.

Problemática

1.2.

Objetivos

1.2.1.

Objetivo Geral

1.2.2.

Objetivos Específicos

1.3.

Justificativa

1.4.

Metodologia

1.5.

Estrutura do Trabalho

CAPÍTULO II

2.

OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO E A BÍBLIA

2.1.

As Bíblias Modernas

2.2.

O Pentateuco e Jó

2.3.

A Bíblia Hebraica

2.4.

A Septuaginta

2.5.

A Vulgata

2.6.

As Bíblias Hebraicas Modernas

2.7.

As Bíblias de Até 1947

2.8.

Os Essênios

CAPÍTULO III

3.

PODEMOS AINDA CRER NA BÍBLIA?

3.1.

O Achado

3.2.

Quem Guardou os Textos?

3.3.

Especulações e Sensacionalismo

3.4.

Podemos então Confiar na Bíblia?

3.5.

Maximalismo versus minimalismo

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45

3.6.

Os Rumos do Debate Atual

49

CAPÍTULO IV

52

4.

CONCLUSÃO

52

APÊNDICE

 

56

REFERÊNCIAS

 

57

SUMÁRIO

CAPÍTULO I

1.

INTRODUÇÃO

No fim da década de quarenta, o mundo foi abalado pelas manchetes dos jornais com

a notícia de que haviam sido descobertos manuscritos bíblicos antiqüíssimos, provindo, segundo

alguns, de até quase meio milênio antes da era cristã. Houve grande expectativa na época, quando céticos e crentes aguardavam com interesse a tradução daquelas descobertas, fazendo-se freqüentemente inúmeras perguntas sobre

o caso: Seriam esses manuscritos, de fato, tão antigos quanto se afirmava? Quem os teria escrito?

Se alguns deles eram, realmente, porções das Escrituras Sagradas (e de fato o eram) tão antigas como se supunha, que resultados trariam para a interpretação da Bíblia que temos hoje em mãos? Qual dos dois grupos o dos crentes ou o dos descrentes no Livro Sagrado, teria sua fé e argumentação confirmadas? Quantos erros cometidos pelos inúmeros copistas intermediários das Escrituras viriam à luz, com o surgimento dessas cópias muito mais antigas? E, em conseqüência disto tudo, quanto da teologia encontrada nas atuais cópias da Bíblia Sagrada teria de ser alterado com as correções que se fizessem necessárias?

1.1.

PROBLEMÁTICA Na Encíclica Providentissimus, Leão XIII escreveu que “todos os Padres e Doutores tiveram a firmíssima persuasão de que as Escrituras Sagradas, quais saíram das penas dos autores sagrados, são inteiramente isentas de qualquer erro”. Contudo, depois de citarem essas palavras, podemos fazer uma indagação a respeito: Será que todas nos chegaram tais ‘quais saíram da pena dos autores sagrados’?

fazer uma indagação a respeito: Será que todas nos chegaram tais ‘quais saíram da pena dos

1.2.

1.2.1.

OBJETIVOS

Objetivo Geral

No longo período de 1500 - 3000 anos, desde as primeiras cópias até a invenção do prelo (séc. XV), era moralmente impossível que dois exemplares de um mesmo livro, ao menos os mais extensos, fossem exatamente iguais, e Deus, que preservou de todo erro os originais dos livros sagrados, não quis obrigar-Se a milhares de milagres que seriam necessários para que se conservassem intactas as cópias. Com isto nosso objetivo geral é verificar se foi conservado e inalterado a substância do depósito da fé contido nos livros sagrados.

1.2.2.

Objetivos Específicos

Verificar em cada uma das fontes bíblicas (as bíblias modernas, a bíblia hebraica, a septuaginta, a vulgata, as bíblias de até 1947 e os essênios) se há evidências em favor da exatidão das cópias da Bíblia que possuímos. Quem teria guardado os textos? Descobrindo quem o guardou, descobrimos de onde

vieram.

As especulações e o sensacionalismo comprometeram a história do cristianismo? Quais seriam os rumos do debate atual? É interessante, e mesmo fascinante, fazer uma recapitulação da história desses manuscritos, para cuja preservação concorreu tanto o zelo religioso dos essênios, como a corriqueira atividade de simples pastores de cabras.

1.3.

JUSTIFICATIVA A arqueologia é um ramo da ciência que procura recuperar o ambiente histórico e a cultura dos povos antigos, através de escavações e do estudo de documentos por eles deixados. É importante lembrar que este trabalho vai tratar da arqueologia histórica e, especialmente, a “bíblica” – e não aquela chamada por alguns de arqueologia pré-histórica, cuja designação mais apropriada seria paleologia ou paleontologia. Este, portanto, não é um trabalho de paleontologia. O objetivo é mostrar como a arqueologia do Oriente Médio tem contribuído para o estudo da Bíblia Sagrada e a confirmação de muitas histórias nela reunidas. Aliás, Wayne Jackson já havia sistematizado muito bem as cinco principais contribuições da arqueologia em relação à Bíblia nesses mais de dois séculos de sua existência. Ele disse:

“A ciência da arqueologia tem sido uma grande benfeitora para os estudantes da Bíblia. Ela tem: (1) ajudado na identificação dos lugares e no estabelecimento de datas, (2) contribuído para o melhor conhecimento de antigos costumes e obscuros idiomas, (3) trazido luz sobre o significado de numerosas palavras bíblicas, (4) aumentado nosso entendimento sobre certos pontos doutrinários do Novo Testamento, (5) silenciado progressivamente certos críticos que não aceitam a inspiração da Palavra de Deus.1

No decorrer deste trabalho, veremos elementos que ajudam a confirmar a veracidade do texto bíblico profético. É claro que não se pode, através da arqueologia, determinar conceitos doutrinários como a divindade de Cristo ou a futura ressurreição dos mortos. Esses elementos demandam fé. Também não se trata de dizer que a arqueologia “confirma” a Bíblia, no sentido

de ser superior à revelação. Afinal, a maior confirmação deve vir de Deus, que é o verdadeiro autor das Escrituras, e não de qualquer estudo humano. Mas a arqueologia lida com o nosso intelecto nos ajuda a encontrar evidências que atestem aquilo que acreditamos. O raciocínio aqui é muito simples: se a história que a Bíblia apresenta for real, a teologia que está por trás dela também o será! Mais importante, porém, que descobrir a história de Deus é descobrir o “Deus da história” e verificar que Ele é tão real que quase dá para tocá-Lo.

1.4.

METODOLOGIA Através da arqueologia, podemos pesquisar e verificar a semelhança em várias fontes das escrituras, sendo elas: as bíblias modernas, a bíblia hebraica, a septuaginta, a vulgata, as bíblias de até 1947 e um pouco da história dos essênios. Faremos também uma comparação entre a Bíblia e antigos clássicos da humanidade, como por exemplo: “Guerra Gaulesa” de Júlio César, “Tetralogias” de Platão, “Anais e Histórias” de Tácito, “A Ilíada” de Homero, entre outros. Sempre observando a data em que cada obra

literária foi escrita, quantos anos têm a cópia mais antiga que possuímos, qual o intervalo entre

o original e a cópia mais antiga que possuímos e o número de cópias existentes hoje. Concluiremos o trabalho comentando quem guardou os livros/rolos, algumas especulações e sensacionalismos feito deste material arqueológico, maximalismo versus minimalismo e por fim se podemos ainda confiar na Bíblia.

1.5. ESTRUTURA DO TRABALHO No Capítulo 01 encontramos os objetivos, o problema a ser resolvido, a metodologia

usada e a justificativa. No Capítulo 02, encontraremos a fundamentação teórica entre os Manuscritos do Mar

Morto, as Bíblias Modernas, a Bíblia Hebraica, a Septuaginta, a Vulgata, as Bíblias de até 1947 e

a história dos essênios. No Capítulo 03, será realizada a metodologia da pesquisa revelando um quadro comparativo entre a Bíblia e os clássicos mais antigos da humanidade. No Capítulo 04, temos a conclusão onde após exaustiva pesquisa obteremos a relação entre os Manuscritos do Mar Morto e a Bíblia respondendo a questão que nos assola: Podemos confiar na Bíblia?

CAPÍTULO II

2. OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO E A BÍBLIA

Chamamos de Manuscritos do Mar Morto a uma grande quantidade de documentos encontrados em várias cavernas próximas do Mar Morto, na Palestina. Foi provavelmente em 1947 que surgiram os primeiros deles numa caverna do Wadi Qumran, situada nas escarpas ocidentais do norte desse mar. Quatro anos mais tarde, a cerca de dezoito quilômetros mais para o Sul, os beduínos descobriram novos documentos, desta vez no Wadi Murubaát e, em 1952, era no Khirbet Mird, nas ruínas de um mosteiro a cerca de dez kilômetros a sudoeste de Qumran, que se acharam novos fragmentos de rolos. Em algumas outras poucas cavernas da região foram descobertos mais uns tantos manuscritos de menor importância para o assunto em foco, e todo este acervo recebeu o nome genérico de “Manuscritos do Mar Morto”, com designações individuais que os eruditos lhes deram e lhes dão ainda, de acordo com os lugares e a ordem em que sendo ainda encontrados. A quantidade de fragmentos descobertos foi enorme e resultou de um trabalho muito penoso. O arqueólogo teve de demonstrar toda a sua paciência, peneirando toneladas de poeira e cascalho e catando pedacinhos de manuscritos que, por vezes, não eram maiores do que uma unha. Só na caverna nº 4 de Qumran, aquela em que se achou a maior quantidade destes fragmentos, foram encontrados cerca de 35 mil deles! Na Sala dos Rolos do Museu Arqueológico de Jerusalém, peritos da Inglaterra, Estados Unidos, França, Alemanha e Polônia, debruçavam-se sobre várias mesas cheias de vidros retangulares do tamanho da página de um livro, sob os quais se vão classificando pedacinhos de papéis e vão sendo “montadas” as antigas “páginas” de rolos amarelados pelo tempo, mascados por animais e até mesmo danificados pelo próprio homem. Lá se faz, segundo o Dr. Frank M. Cross, o “máximo em jogo de quebra-cabeças” 2 que o homem já teve diante de si. Além de fragmentos, acharam-se também rolos como o de Isaías, que contém todo o livro deste profeta do Velho Testamento e que foi encontrado na Caverna 1 de Qumran; o dos Salmos, quase completo, encontrado na Caverna 11; um de Levítico, em estado precário, também encontrado na Caverna 11; um de Samuel, do qual F. M. Cross reconstituiu cerca de dois terços, com fragmentos encontrados na Caverna 4; um de Samuel, com 47 colunas das 57 que compõem

2 The National Geographic Magazine, dezembro de 1958, pág. 804.

o livro todo; e vários outros menos completos. Juntando todos eles, obteve-se um exemplar quase completo do Velho Testamento, tal como o temos hoje, sendo fácil comparar ambas as cópias com quase um milênio de separação no tempo. Não foram encontrados apenas manuscritos bíblicos. Muitos outros surgiram daquelas cavernas, versando sobre temas tais como um líder, “O Mestre da Justiça” que os sábios buscam saber quem teria sido; um “Sacerdote Ímpio”; o “Manual de Disciplina”, rolo que contém as regras usadas pela comunidade de Qumran; o rolo que E. L. Sukeni chamou de “Guerra dos Filhos da Luz Contra os Filhos das Trevas”; um hinário com cerca de quarenta salmos; cópias de apócrifos como Tobias, Eclesiástico, etc.; de pseudepígrafos como Jubileu e Enoque; o Gênesis Apócrifo que contém a história da criação embelezada com detalhes que lhe foram acrescentados pela imaginação do seu incógnito autor; cartas, inclusive de Bar Cocheba, o líder judeu da revolta que terminou com a segunda destruição de Jerusalém, pelas tropas de Adriano em 135 aD; contratos, dos quais um é de casamento; e não falta, sequer, o toque misterioso e aventureiro de dois rolos de cobre, encontrados na Caverna 3, paciente e penosamente abertos pelo Prof. H. Wryght Baker, da Universidade de Manchester, com uma serra finíssima de fazer cortes em pena de escrever, especialmente adaptada para este fim, e que revelou conter roteiros para tesouros escondidos em aproximadamente sessenta lugares diferentes e que conteriam cerca de 200 toneladas de ouro, prata e incenso! Muitos destes manuscritos já foram traduzidos e publicados, mas grande parte deles se acha sob o crivo e estudo dos eruditos. A tarefa é imensa, e existiu no passado até uma revista especializada nesta pesquisa, a Revue de Qumran, editada em Paris desde 1958. Que nos contam estes documentos? Que nos dizem os eruditos que se dedicam ao seu estudo? De onde vieram estes manuscritos? Quem os escreveu? São eles úteis para nós? Eliminam qualquer das dúvidas até agora existentes? Deixemos por agora, todas estas perguntas em suspenso, porque, para melhor respondê-las, é bom que recapitulemos em primeiro lugar, embora com brevidade, a maneira pela qual chegou até nós a Bíblia que hoje possuímos.

2.1. As Bíblias Modernas As Bíblias que hoje temos em nossas mãos não são todas iguais. Elas diferem entre si quanto aos livros do Velho Testamento que contêm, não havendo qualquer diferença no Novo. O Velho Testamento das chamadas Bíblias Evangélicas contém os 39 livros considerados canônicos, isto é, genuínos, pela religião judaica e pelas Igrejas Evangélicas. As Bíblias chamadas “católicas”, além destes, trazem ainda os livros Apócrifos ou Deuterocanônicos.

Das chamadas Bíblias evangélicas, existem em português várias traduções, sendo que a mais usada é a que foi feita por João Ferreira de Almeida, ministro da Igreja Reformada Holandesa, português, nascido em 1628, em Java, na Indonésia. O Novo Testamento desta tradução saiu do prelo em Amsterdam, na Holanda, em 1681, com o interessante título de “O Nôvo Testamento Isto he o Nôvo Concerto de Nosso Fiel Senhor e Redemptor Iesu Christo traduzido na Língua Portuguesa”. Devido ao falecimento do tradutor, o Velho Testamento foi completado por missionários, colegas seus e publicado em dois volumes no ano de 1753. Apenas em 1819 é que a tradução completa dessa Bíblia foi publicada num só volume. Antes disto, já D. Diniz, Rei de Portugal (1279-1325) traduziu pessoalmente os vinte primeiros capítulos do Gênesis, D. João I (1365-1433) patrocinou a tradução dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos e das Cartas de São Paulo, e, pessoalmente, os Salmos. Finalmente, em 1495, Da. Leonor, rainha de Portugal, mandou imprimir uma tradução da Vida de Cristo que continha o Evangelho Segundo S. Mateus. Alguns anos mais tarde, ela fez publicar também os Atos dos Apóstolos e as Cartas de S. Tiago, S. Pedro, S. João e S. Judas. Nossa língua foi, portanto, uma das primeiras a traduzir para o seu idioma porções das Sagradas Escrituras. As chamadas Bíblias católicas contêm sete livros a mais, os já citados livros apócrifos ou deuterocanônicos, que são os seguintes: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e os dois livros de Macabeus. Além deles, são apócrifos também alguns capítulos a mais que essas Bíblias incluem nos livros de Ester e Daniel. A posição destes livros dentro da Bíblia muda um pouco nas várias traduções. Geralmente, os livros de Tobias e Judite aparecem entre os de Neemias e Ester, os de Sabedoria e Eclesiástico entre Cantares (ou Cântico dos Cânticos) e Isaías, o de Baruque, depois do livro de Lamentações de Jeremias e os dois livros de Macabeus, ora depois de Ester e Judite, ora no fim do Velho Testamento, depois de Malaquias. Algumas traduções trazem também uma Carta de Jeremias como livro separado, mas, geralmente, ela é incluída no livro de Baruque. Como foi que se deu a inclusão destes livros nesta Bíblia é assunto que veremos mais adiante. As chamadas Bíblias católicas são igualmente zelosas nas traduções para o nosso idioma. A mais antiga destas traduções foi feita pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo, cujo Novo Testamento veio à luz em 1781 e o Velho alguns anos depois, em 1790. 3 Durante algum tempo, esta tradução, contendo apenas os 39 livros considerados canônicos pelos evangélicos foi

3 Há uma pequena discordância de datas a este respeito e as que mencionamos servem mais para dar uma idéia aproximada sobre o assunto.

publicada também pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, sucedida em nosso país, anos mais tarde, pela Sociedade Bíblica do Brasil. Os autores destas traduções usaram originais diferentes do Velho Testamento, sendo que João Ferreira de Almeida usou a 2ª edição do Textus Receptus, publicada em 1633 pelos irmãos Elzevir, muito comum e bem recebida na Europa de então. Antônio Pereira de Figueiredo usou a tradução latina conhecida pelo nome de “Vulgata”. Recentemente, os tradutores católicos que se prendiam apenas à Vulgata, começaram a basear-se também nos originais hebraicos, necessidade recomendada por Pio XII. 4 Em meados deste século, realizaram-se esforços muito grandes no sentido de haver uma única tradução oficial da Bíblia tanto para católicos como para evangélicos, a Bíblia Ecumênica, mas eles não se concretizaram porque o problema dos livros apócrifos demonstrou ser um obstáculo instransponível. No Brasil, estes esforços continuaram no que diz respeito ao Novo Testamento, chegando-se a nomear uma comissão de oito membros, doa quais quatro eram ministros evangélicos e quatro, sacerdotes católicos. Poucos dias, porém, depois da primeira reunião, esta comissão suspendeu seus trabalhos por causa do ofício enviado pela representação católica, comunicando que aceitava o texto do Novo Testamento da Tradução João Ferreira de Almeida tal como foi revisto e atualizado pela Sociedade Bíblica do Brasil, fato que esta considerou “sumamente auspicioso”. Além disto, a Sociedade Bíblica do Brasil publica duas edições praticamente iguais de uma tradução parafraseada recente, com o nome de A Bíblia na Linguagem de Hoje, cuja única diferença está na existência do Imprimatur católico. É gratificante ver o número de novas traduções que estão aparecendo nos últimos anos, feitas por ambos estes grupos cristãos, todas elas com o propósito comum de aprimorar a redação da Palavra de Deus em nossa língua. Este esforço deve ser altamente considerado porque demonstra o interesse geral que existe neste aprimoramento. É preciso lembrar que este é realmente um esforço porque, além do penoso trabalho da tradução, existe ainda o da Crítica Textual que compara os manuscritos existentes com os novos que vão sendo descobertos, e é exatamente neste aspecto que o aparecimento dos Manuscritos do Mar Morto está contribuindo com um copioso material muitíssimo útil para o conhecimento da língua em que a Bíblia foi escrita. Todo este esforço vem contribuindo decisivamente para eliminar dúvidas outrora levantadas e para dar respaldo às traduções da Bíblia que tínhamos em mãos até agora.

4 Pio XII, Encíclica Divino Afflante Spiritu, Parte II. § 1, transcrita na Bíblia Sagrada, tradução dos Missionários Capuchinos, Lisboa, 1974.

Deixemos, porém, agora, por um pouco de tempo, este tipo de considerações e passemos a olhar para alguns aspectos das principais fontes de que dispunham os tradutores da Bíblia Sagrada antes dos Manuscritos do Mar Morto, cujo valor neste sentido queremos destacar.

2.2. O Pentateuco e Jó Segundo a tradição judaica, os primeiros livros da Bíblia a serem escritos foram os do Pentateuco e de Jó, cuja autoria é atribuída a Moisés. O Talmude Babilônico afirma que “Moisés escreveu o seu próprio livro e as passagens a respeito de Balaão e Jó”. 5 Os cristãos conservadores aceitam esta tradição. Dentro deste critério, o livro de Jó é o mais antigo da Bíblia e Moisés o escreveu quando pastoreava os rebanhos do seu sogro nas terras de Midiã, após ter fugido do Egito. Os cinco primeiros livros que compõem o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) ele os escreveu posteriormente. Os que não aceitam esta tese, já escreveram muito a respeito, procurando arrazoar com argumentos neste terreno, pois não é este o nosso propósito, podemos dizer que esta argumentação perde muito do seu valor quando lembramos que Moisés poderia muito bem ter usado documentos da época de estilos variados, sem contudo, perder seu próprio estilo de linguagem. Este seria o caso, por exemplo da palavra hebraica Shaddai (Todo-poderoso)

que aparece quarenta e duas vezes nos livros de Moisés (trinta e uma no livro de Jó, seis no Gênesis

e mais três nos de Êxodo e Números), enquanto que em todo o restante do Velho Testamento é

usada apenas oito vezes, das quais duas no livro de Rute que pertence ao mesmo período antigo da história de Israel. 6 Júlio Welhausen (1844-1918), um dos mais preeminentes nomes no terreno do criticismo bíblico do século passado, professor das Universidades de Greifswald, Marburg e Göttingen, nos

seus esforços para negar o fato de Moisés ter sido o autor dos livros que lhe são atribuídos, negou

a própria possibilidade dele, Moisés, os haver escrito. Usou um argumento que, no seu tempo,

parecia ser irrefutável. Dizia que, se tão-somente fosse possível saber que Moisés pudesse ter usado uma escrita que chegasse até nós, seria ridículo não aceitá-lo. Era possível argumentar desta maneira porque, de acordo com o que se conhecia na época, quando as primeiras grandes descobertas arqueológicas estavam começando a empolgar o mundo e quando se dizia que tudo

5 Baba Bathra, cf. citado em The Seventh Day Adventist Bible Commentary (Review and Herald Publishing Association, Washignton DC, 1953), Vol. III, pág. 493.

6 The Seventh Day Adventist Bible Commentary, Vol. I, pág. 320 e Vol. III, pág. 493.

tinha de ser resolvido pela razão, se dava como certo que o alfabeto fora inventado pelos fenícios e que nossa escrita tinha neles sua origem. No tempo do renomado crítico alemão, o mundo estava fascinado com os feitos de Champolion (1790-1832) e de Rawlinson (1810-1895), cujas descobertas permitiram que se lessem hieróglifos e cuneiformes que estavam escritos nos papiros, paredes, tijolinhos, estelas, etc., daqueles povos antigos. Só então é que se soube definitivamente que os sinais gravados em tantos monumentos não eram simplesmente elementos decorativos como criam alguns, mas uma escrita real que desvendava, agora, para o nosso tempo, tudo aquilo que os povos do Nilo e da Mesopotâmia pensavam e faziam. Ora, deveria ter raciocinado Welhausen, se o alfabeto da nossa escrita fora inventado pelos fenícios que viveram em época bem posterior à de Moisés, este, se de fato tivesse escrito seus livros, só o poderia ter feito na língua que aprendera no Egito e que era a única da época na região, o hieróglifo. Neste caso, teria ele continuado a raciocinar, seus escritos só poderiam ter vindo ao nosso conhecimento depois de Champolion fazer suas descobertas. Portanto, não era possível admitir que os livros atribuídos a Moisés pudessem ter sido escritos por ele. A única conclusão possível era, pois, a de que tais livros tivessem sido escritos em épocas bem posteriores às que lhe eram atribuídas e, conseqüentemente, seus autores seriam outros que, na melhor das hipóteses, poderiam ter colecionado lendas, sagas e tradições. Como já dissemos, tudo isto era praticamente impossível de ser refutado na época e o número de críticos e céticos aumentava constantemente. Era a moeda, e este ceticismo dava até status social a quem o defendesse. Acontece, porém, que no princípio do século XX ou, mais precisamente, nos anos de 1904 e 1905, Sir Flinders Petrie, famoso arqueólogo inglês, fazendo escavações na Península do Sinai patrocinadas pela Escola Britânica de Arqueologia, descobriu algumas inscrições desconhecidas e que apresentavam alguma semelhança com os hieróglifos. O caso despertou enorme interesse entre os estudiosos do assunto, especialmente quando viram surgir em outros lugares da Palestina mais vasos e óstracos (cacos de cerâmica com inscrições) com sinais semelhantes. Para encurtar a história, o caso foi elucidado completamente por arqueólogos famosos, inclusive W. F. Albright, e hoje se sabe que os sinais descobertos por Petrie pertencem à escrita proto-sinaítica e esta era alfabética!

Com esta descoberta, a origem do nosso alfabeto se transportou da época dos fenícios para a dos seus antepassados de vários séculos, os cananeus, que viveram no tempo de Moisés a antes dele. Estes cananeus tiveram, segundo tudo quanto sabemos hoje, a feliz idéia d simplificar a escrita egípcia, passando a usar um pequeno número de símbolos, ao invés dos complicados hieróglifos, isto é, passaram a usar sinais que representam sons, em lugar de sinais que representam idéias. Para o assunto que estamos discutindo, esta descoberta é de importância muito grande,

porque estes cananeus, os inventores da escrita alfabética, viveram exatamente na região onde Moisés pastoreou as ovelhas do seu sogro. Convém, portanto, que conheçamos um pouco mais de sua história. As minas de cobre e turquesa da região do Sinai são antiqüíssimas, mas foi a partir da

XII

Dinastia do Egito, durante o século XX aC, que os Faraós começaram a explorar regularmente

as

que ficavam em Serabith-el-Khadem, distante cerca de oitenta quilômetros, a noroeste do

tradicional Monte Sinai onde foram dados os Dez Mandamentos. Foi em Serabith-el-Khadem que

Petrie fez suas descobertas e, em termos de jornada, esta região distava cerca de três dias de viagem do Egito. No século XV AC, muitos semitas trabalhavam para os egípcios nestas minas e,

de acordo com o que os arqueólogos pesquisaram, sua religião era bem semelhante à dos israelitas.

Foi para esta região, a mesma que naqueles tempos antigos era conhecida pelo nome de “terra

de Mídia”, que “Moisés fugiu da presença de Faraó”. (Êx. 2:15) Com estas e outras descobertas, muitos dos argumentos apresentados pela Crítica Histórica para contestar a verdade bíblica perderam sua razão de ser, porque as histórias narradas pela Bíblia passaram a ser perfeitamente compreensíveis à luz dos costumes da época. No caso específico de Moisés, sua boa convivência com seu sogro, o sacerdote Jetro, poderia muito bem

ter sido motivada pelas religiões de ambos que eram muito semelhantes.

Ora, tendo Moisés vivido durante quarenta anos nesta região, é óbvio que entrou em contato com a escrita aparentemente rude daquele povo, e viu nela a escrita do futuro. Passou logo a usá-la por duas razões importantes que teria julgado decisivas: a primeira bem poderia ter sido a impressão grandiosa de usar uma escrita alfabética, composta apenas de vinte e dois sinais e que era, portanto, muitíssimo mais simples do que os complicados e infindáveis sinais

ideográficos que aprendera nas escolas do Egito. A outra poderia ter sido o fato de compreender que estava escrevendo para seu próprio povo, cuja origem semita era a mesma dos habitantes da

terra em que vivia e cuja religião era idêntica a dos israelitas, dela se diferenciando apenas nas deturpações que sofrera por causa da influência pagã reinante naquelas paragens. Moisés compreendeu que os leitores dos seus livros seriam homens e mulheres, moços

e moças do povo que, não sendo versados em hieróglifos, aprenderiam com muito mais facilidade os poucos e simples sinais alfabéticos que representavam sons, do que os inúmeros e complicados hieróglifos que representavam idéias. Em outras palavras, Moisés teve a grande percepção de que estava escrevendo não para o mundo culto do Egito, orgulhoso de sua cultura e da sua escrita complicada, e que odiava a religião semita, mas para o povo, neste caso, o seu próprio povo que, com este sistema, poderia aprender a ler e a escrever muito mais rapidamente e, muito mais rapidamente ainda, por em prática as ordens de Jeová que diziam: “Estas palavras que hoje te

as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas.” (Dt. 6:6,9) Isto seria

completamente impossível de ser feito, caso o povo tivesse de usar os hieróglifos. Com esta decisão, Moisés deu preferência à escrita do futuro! A frase de Welhausen, a de que seria ridículo não aceitar a autoria de Moisés se ele pudesse ter escrito nos seus dias, e que seus discípulos proclamaram com tanta veemência, deveria ser respeitada sem mais contestações agora, depois destas descobertas e, coerentes, deveriam tais críticos reconhecer a autoria mosaica destes livros do Velho Testamento. Grande número de críticos, porém, preferiu continuar com suas negativas, estribando-se em outros argumentos como, por exemplo, o dos erros dos copistas que, na época, ainda eram certos e indiscutíveis. Pouco se preocupando, porém, com o que racionalistas e céticos de séculos vindouros viessem a dizer, Moisés e os demais escritores do Velho Testamento continuaram sua obra de transmitir aos homens a história do povo de Deus e as mensagens de advertência dadas pelo Céu para servirem de aviso a “nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado”. (I Co. 10:11) Foi assim e foi por isto que se escreveu a Bíblia.

ordeno

2.3. A Bíblia Hebraica

Como já vimos, foi com Moisés que começaram a ser escritos os livros sagrados do Velho Testamento, e seus sucessores continuaram a escrevê-los até a restauração do povo judeu, após

a volta do cativeiro babilônico, no tempo de Esdras e Neemias. Homens zelosos, de uma fé pura

em Deus e, evidentemente, “movidos pelo Espírito Santo” (II Pe. 1:21), estiveram sempre atentos às mensagens de Deus e as escreveram e as preservaram cuidadosamente, encerrando-se então, ao que se crê, e sob a orientação destes dois grandes vultos bíblicos, o cânon sagrado do Velho

Testamento. Convém lembrar que a Bíblia Hebraica contém apenas os livros do Velho Testamento, enquanto a cristã contém os de ambos os Testamentos. Josefo (37-95? aD), historiador judeu que nasceu poucos anos após a morte de Jesus, escreveu o seguinte a respeito do que, na época, a nação já tinha como certo sobre o assunto:

Não temos uma multidão inumerável de livros entre nós, discordando um do outro e contradizendo-se mutuamente [como os gregos têm], mas apenas vinte e dois livros que contêm os registros de todos os tempos passados e que cremos serem de origem divina; quanto a eles, cinco pertencem a Moisés e contêm suas leis e as tradições da origem da humanidade, até sua morte. Este intervalo de tempo foi de um pouco menos de três mil anos; mas desde a morte de Moisés até o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os profetas que viveram depois de Moisés escreveram em treze livros o que se passou em seus tempos. Os demais quatro, contêm hinos a Deus e preceitos para a conduta da vida humana. É verdade que nossa história foi escrita desde Artaxerxes, muito particularmente, mas não foi tida como tendo a mesma autoridade que a dos nossos antepassados, porque não houve mais uma exata sucessão de profetas desde aquele tempo; e com quanta firmeza demos nosso crédito a estes livros de nossa própria nação, se evidencia pelo que fazemos; porque durante todo o tempo que já passou ninguém teve a ousadia de acrescentar qualquer coisa a eles, nem de lhes tirar qualquer coisa, ou de fazer qualquer mudança neles; porque se tornou natural a todos os judeus, logo depois do seu nascimento, considerar estes livros como portadores das doutrinas divinas, apegar-se a eles e, se for necessário, estarem prontos a morrer por eles. 7

Estas palavras demonstram que já no tempo de Jesus Cristo os judeus consideravam formado o cânon sagrado do Velho Testamento encerrado por Esdras e Neemias e, daí por diante, ninguém mais ousou alterá-lo. Embora mais recentemente alguns queiram demonstrar que a formação do cânon seja posterior, o que não tem qualquer sombra de dúvida é que ele já estava formado nos tempos de Cristo. O fato de Josefo mencionar apenas vinte e dois livros (cinco, treze e quatro) da Bíblia Hebraica se deve, provavelmente a algum esforço para ajustar o número de livros sagrados ao das letras do alfabeto judaico. Para isto, juntaram o livro de Rute ao de Juízes, e o das Lamentações de Jeremias ao de Jeremias. Os judeus dividem os vinte e quatro livros da sua Bíblia nas seguintes partes: A Lei (Torá), os Profetas (Nebiím), e os Escritos (Ketubim). O Novo Testamento faz referências a esta tríplice divisão, sendo que Jesus (Mt. 5:17), Filipe (Lc. 24:48) e Paulo (Rm. 3:21) falaram da Lei e dos Profetas, e tanto os Evangelhos como os Atos do Apóstolos mencionam constantemente a “Escritura”do Velho Testamento. Na Bíblia Hebraica, os livros se sucedem na seguinte ordem: primeiro, vem a Lei que compreende os cinco livros do Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio), seguem-se os Profetas que constam de oito livros divididos em dois grupos, os Profetas Anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis, estes dois últimos reunidos num só volume, cada), e os Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e o Livros dos Doze), que compreende os Profetas Menores

(desde Ozéias até Malaquias) e, finalmente, os Escritos, a terceira divisão, que compreendem os onze livros seguintes: três poéticos (Salmos, Jó e Provérbios), cinco rolos, ou Megilloth (Rute,

Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester), o livro de Daniel, os dois livros históricos de Esdras

e Neemias (reunidos num só volume) e, finalmente, os dois livros de Crônicas reunidos, também

num só volume. Com estas ponderações, compreendemos facilmente por que os vinte e dois livros de Josefo são os mesmos vinte e quatro da Bíblia Hebraica e os mesmo trinta e nove das Bíblias evangélicas.

A Bíblia Hebraica começa, portanto, com o livro de Gênesis e termina com o de II

Crônicas, fato que explica a frase de Jesus em S. Lucas 11:51, quando o mestre, para condenar todos os crimes cometido diante do altar, começou com o de Abel, relatado no livro de Gênesis (4:8), primeiro livro da Bíblia, e foi até o de Zacarias, relatado em II Crônicas (24:11), que é o último livro da Bíblia. Com isto, inclui todos os mencionados pelas Escrituras Sagradas, desde seu princípio até o fim.

À medida que a Bíblia Hebraica foi sendo traduzida para outros idiomas, a começar pela

Septuaginta , a posição destes livros começou a ser alterada com o propósito de se dar a eles uma

ordem mais cronológica, mais histórica e mais profética, chegando-se, finalmente à ordem que temos em nossas Bíblias atuais. É apenas uma questão de ordem e não de conteúdo. Embora o cânon da Bíblia Hebraica já estivesse fixado desde alguns séculos antes de Cristo, malgrado as afirmações de Josefo, não faltaram os que quisessem alterá-lo, voltando-se especialmente contra os livros de Ester e Cantares. Era fundamental, portanto, que esta querela se resolvesse de vez, porque os líderes judeus se tinham convencido de que nos Livros Sagrados estava a grande força de coesão do seu povo, coesão esta grandemente ameaçada pela Diáspora, ou seja, pela dispersão dos judeus no Império Romano, provocada não só pelas perseguições sofridas, mas também pelo espírito de comércio e de aventura de muitos deles e, convém ressaltar, missionário de outros. Sendo que o próprio Jesus fez referência a este espírito missionário, quando disse: “Percorrereis mares e terras para fazer um prosélito.” (Mt. 23:15).

A situação se agravou tanto após a queda de Jerusalém no ano 70 AD, que o Grande

Sinédrio, cuja sede se transferira para a cidade de Jâmnia (nome grego da antiga Jope; hoje tem

o nome de Ibna, Iebna ou Iibna), resolveu convocar um concílio a fim de resolver de vez o assunto. Não há certeza quanto à data deste concílio, mas ele deve ter ocorrido entre os anos 90 a 118 da

nossa Era, tendo como uma das suas grandes figuras o Rabi Aquiba. Este concílio se decidiu, definitivamente, pela confirmação do antigo cânon. Dali por diante, não houve mais qualquer dúvida a respeito.

O Concílio de Jâmnia não só confirmou os livros do cânon sagrado, mas também

escolheu seus melhores manuscritos, oficializou-se e decretou a destruição de todos os demais, para que houvesse a tão desejada unidade. O concílio foi ainda além: para evitar que os manuscritos escolhidos viessem a ser deteriorados por copistas não zelosos, decidiu também sobre as regras que foram mantidas e aperfeiçoadas por homens extremamente zelosos dos livros sagrados e da tradição hebraica, e que ficaram conhecidos pelo nome de “massoretas”. Confirmando o cânon dos Livros Sagrados, escolhendo os melhores textos de seus manuscritos e fixando normas para copiá-los, o Concílio de Jâmnia preservou a Bíblia hebraica com toda a autoridade religiosa da erudição e do zelo judaicos. Quanto aos cristãos, esta luta interna dentro do judaísmo não deve ter tido muita repercussão, porque, mesmo enquanto se formava o cânon do Novo Testamento, os únicos livros do Velho Testamento cuja leitura era oficialmente permitida nas reuniões públicas eram os vinte

e dois do cânon hebraico segundo Josefo.

2.4. A Septuaginta

Como vimos, o cânon dos Livros Sagrados, Tora, Nebiím e Ketubim, ou seja, “a Lei, os Profetas e os Escritos”, já estava formado muito antes do Senhor Jesus nascer. O Concílio de Jâmnia, que se reuniu posteriormente, apenas o confirmou. Contudo, já existia naqueles tempos uma tradução da Bíblia hebraica para grego e que fora feita a partir do século III aC com o propósito de atender às necessidades dos judeus da Diáspora, isto é, daqueles que residiam no exterior, dos quais muitos já nem mais sabiam falar a língua materna. Esta tradução ficou sendo conhecida pelos nomes de “Versão dos Setenta”, “Septuaginta” ou, abreviadamente, LXX, por causa de uma história ou lenda que a ela se atribui. Quem conta essa história é um certo Aristéias, funcionário da corte de Ptolomeu II, o Filadelfo, rei do Egito, numa carta que escreveu a seu irmão Filócrates, cerca do ano 285-245 aC.

O historiador Josefo conta também a mesma história e ambos dizem mais ou menos o seguinte:

Com o propósito de possuir uma tradução grega da Bíblia hebraica para uso dos judeus

de Alexandria, Aristéias e o bibliotecário real, Demétrio de Falero, valendo-se do gosto que o rei tinha por sua biblioteca e pelas obras mais importantes do mundo, conseguiu convencê-lo não só

a dotar a biblioteca real com este precioso volume, mas também mandar traduzi-lo para o grego. Atendendo ao pedido, o rei escreveu para Eleazar, sumo sacerdote em Jerusalém, pedindo que enviasse a monumental obra juntamente com homens capazes de fazer a tradução. Respondendo, Eleazar escolheu seis sábios de cada tribo, enviando-os ao monarca egípcio juntamente com um

exemplar da Bíblia hebraica. Na Ilha de Faros, estes setenta e dois homens, alojados, segundo

uma variante desta história, em trinta e seis celas separadas, dois em cada cela, e, segundo outra, em setenta e duas celas, um em cada, conseguiram traduzir o Pentateuco, a Lei, em setenta e dois dias. O trabalho teria sido tão perfeito que todas as traduções, fossem as trinta e seis ou as setenta e duas, conferiram umas com as outras palavra por palavra. A magistral obra foi lida, depois, para os judeus de Alexandria, sendo imensamente apreciada. Ptolomeu II, o Filadelfo, ficou tão satisfeito com o trabalho destes piedosos sábios que os cumulou de presentes, enviando- os também em grande número para Eleazar e para os sacrifícios do Templo de Jerusalém. Se em tempos antigos esta história foi tida como verdadeira, hoje ela não é aceita como tal pelos estudiosos do assunto. A carta de Aristéias é tida como apócrifa e até como tendo sido escrita em época bem posterior, com o propósito de despertar o interesse e respeito dos judeus da Diáspora pelo Livro Sagrado da nação e para apologizar a tradução diante dos gentios que a criticavam. Se esta história é tida como lendária, o que se tem por certo é que o Pentateuco foi realmente traduzido nesta época, isto é, por volta da metade do século III aC e, quanto ao restante do Velho Testamento, foi ele sendo traduzido continuadamente, ficando a tradução, completa, pronta em fins do século seguinte e metade do I aC. O nome de Septuaginta ou LXX, porém, ficou,

e esta versão grega passou a circular intensamente entre os judeus da dispersão. Os criadores da lenda atingiram plenamente seus objetivos!

Convém lembrar aqui um fato importante que se deu na época da tradução da Septuaginta, simples em si mesmo, mas que teve conseqüências muito sérias e grandes. Os tradutores da Bíblia hebraica para o grego, nesta época, no desejo evidente de estreitar mais os liames da união entre seus compatriotas dispersos, além dos livros que pertenciam ao cânon sagrado, traduziram também alguns outros que julgaram de valor histórico, úteis, portanto, para

a manutenção do espírito nacional e também para a meditação. Foi desta maneira que surgiram

os livros “apócrifos” da Bíblia que os tradutores da Septuaginta e da Vulgata não tiveram, em absoluto, o desejo de incluir o cânon sagrado. Aliás, o Concílio de Jâmnia deu as melhores provas da firmeza judaica neste sentido, quando considerou este caso um assunto já resolvido. Tal, porém, não aconteceu com os cristãos, muitos dos quais davam a estes livros apócrifos valor igual ao dos canônicos. Quando esta tendência começou a se agravar, o Concílio de Laodicéia que se realizou na segunda metade do século IV aD tomou a decisão de limitar a leitura dos livros do Velho Testamento nas reuniões religiosas aos vinte e dois do cânon hebraico.

Quanto à Igreja Católica, ela resolveu a questão no Concílio de Trento (1545-1563), incorporando definitivamente os apócrifos ao seu cânon bíblico e passou a chamá-los de “deuterocanônicos”, para diferenciá-los dos outros aos quais deu o nome de “protocanônicos”. O nome de apócrifos ela reservou para os que nem católicos e nem evangélicos incluíram no seu cânon bíblico, e que estes chamam de “pseudepígrafos”. Outra alteração que surgiu com a Septuaginta foi a da ordem dos livros da Bíblia que teve o objetivo de agrupá-los cronológica, histórica e profeticamente. Sendo, porém, esta, uma questão apenas de ordem, não atingiu, em absoluto, o conteúdo dos livros. Algumas das razões desta polêmica foram levantadas por causa do que os cristãos pregavam, e uma delas era o uso que estes faziam da LXX para provar que Jesus era o Cristo, o Messias prometido. Tal procedimento exasperava os judeus nacionalistas, em função do grande número de prosélitos que os discípulos do Nazareno conseguiam fazer até no meio deles mesmos, usando os próprios profetas que os judeus usavam para pregar sua fé. Um exemplo disto foi a dúvida que levantaram sobre a tradução de Isaías 7:14, profecia muito usada pelos cristãos. Neste versículo, a LXX traduziu a palavra hebraica almah pela grega partenos que significa virgem. Passados, porém, cerca de dois séculos durante os quais a pureza desta tradução fora até louvada, os judeus tradicionais resolveram dizer que ela estava errada e que a palavra grega correta deveria ser neanis, porque esta dá o sentido da mulher ser apenas jovem e não necessariamente virgem. Sobre esta polêmica, Samuel P. Tregelles, tradutor para o inglês do famoso dicionário hebraico de Gesenius, diz o seguinte:

O propósito do esforço para minar a opinião que atribui o significado de “virgem” a esta palavra, visa claramente provocar uma discrepância entre Isaías 7:14 e Mateus 1:23; nada, porém, do que se afirmou, apresenta fundamento real para qualquer outro significado. As versões antigas que dão um significado diferente, fazem-no

facciosamente, enquanto que a LXX, que não tinha motivos para isto, traduziu-a por “virgem” na própria passagem

que já deveria lhes ter dado alguma dificuldade. [

do que suficiente para resolver o caso entre os cristãos. 8

]

A absoluta autoridade do Novo Testamento é, contudo, mais

2.5. A Vulgata

Embora a língua oficial do Império Romano fosse o latim, era o grego que mais se falava por toda a parte e sua influência foi muito grande na formação do texto sagrado. Os escritores do

Novo Testamento usaram esta língua. Conseqüentemente, a medida que o latim ia sendo cada vez mais usado pelo povo e o grego cada vez mais abandonado, ia surgindo por toda a parte,

8 Samuel Prideaux Tregelles, Gesenius’Hebrew and Chaldee Lexicon, (Wm. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapds, Michigan, 1964), pág. 634.

especialmente no norte da África e na Itália, e cada vez em maior número, traduções de trechos da Bíblia nesta língua, que se baseavam, a maioria das vezes, na Septuaginta. Estas traduções não eram feitas ordenadamente, mas iam surgindo como porções do Velho e do Novo Testamento que ficaram conhecidas pelos nomes de “Africanas” e “Européias”, conforme procedessem da África ou da Europa. Entre estas últimas, eram muito conhecidas as “Itálicas” ou “Ítala”, provindas da Itália. No fim do século IV, graças a estas porções todas, se pode dizer que já havia uma “Bíblia Latina”, chamada de Vetus Latina, ou, em nossa língua, Velha Latina. Não é, pois, de estranhar que uma tradução feita desta maneira estivesse cheia de erros. Santo Agostinho (354-430) relata este fato da seguinte forma:

É possível numerar os que traduziram as Escrituras do Hebraico para o grego, mas não é possível fazer o mesmo com os tradutores latinos, porque, nos primeiros períodos da fé cristã, todos aqueles em cujas mãos chegava um manuscrito grego e supunham ter algum conhecimento de ambas as línguas, aventuravam-se a traduzir. 9

É fácil imaginar o que resultou destas improvisações feitas pelos que se julgavam aptos para a tarefa: tanto as traduções como suas cópias estavam cheias de erros. Jerônimo se queixava disto ao falar da corrupção que havia nestas traduções latinas e dizia que “as formas dos textos eram quase tantas como os códices”. 10 Diante disto, os cristãos mais zelosos da época sentiam a grande necessidade que havia de uma tradução melhor, digna de confiança, que estivesse livre de erros e que estivesse à altura do cristianismo nascente. Foi Sophronius Eusebius Hieronymus (c. 340-420), mais conhecido pelo nome de São Jerônimo, quem contribuiu decisivamente para a solução deste problema. Nasceu em Stridom, atual Stridova, próxima de Aquiléia, em Emona, nos limites da Dalmácia e Panônia de então, e no norte da Iugoslávia atual. De família rica, cedo foi para Roma em busca de educação e lá se batizou no ano de 360, demonstrando grande amor à cultura. Viajou muito, indo primeiramente à Gália, de onde voltou com a disposição de se entregar ao estudo da teologia e à vida ascética. Passou cerca de um ano na Aquiléia, onde conheceu Rufino. Depois, foi para o Oriente, onde praticou o ascetismo que desejava e, mais tarde, estudou hebraico com um rabi converso ao cristianismo. Quando estava em Antioquia, adoeceu gravemente, chegando até ao delírio e foi numa destas crises que lhe pareceu estar diante do Juízo Final, onde lhe perguntaram quem era. “Sou cristão”, respondeu angustiado, e o que ouviu em seguida causou-

9 Citado por Ira Maurice Price, em The Ancestry o four English Bible (Harper & Row, Publishers, New York, 1956), p. 84.

10 “Tot sunt exemplaria paene quot códices”, cf. Kuntz, em Church History (Funk & Wagnalls Company, New York, 1888), Vol. I, p. 208.

lhe uma impressão tão profunda que foi decisiva na sua vida: “Mentes, és um ciceroniano e não um cristão”. Diante disto, resolveu sacrificar o amor que dedicava aos clássicos latinos e dirigiu- se para os desertos da Calcídia, entregando-se à meditação e ao estudo, numa austera vida ascética.

Passando novamente por Antioquia, foi ordenado presbítero sem aceitar lugar determinado de trabalho. Seu grande desejo era conhecer melhor a Bíblia e, com este propósito em vista, dirigiu-se para Constantinopla, onde foi discípulo de Gregório Nazianzeno e onde traduziu para o latim as homílias de Orígenes sobre Jeremias, Ezequiel e Isaías. Sempre que podia, aprimorava seus conhecimentos de latim, grego e hebraico, preparando-se inconscientemente para a maior tarefa que realizaria em sua vida. De regresso, tornou-se secretário do Bispo de Roma (Papa Dâmaso), e passou a gastar suas horas livres fazendo apologia da vida ascética e, principalmente, estudando a Bíblia e corrigindo os manuscritos viciados que existiam em abundância. Enquanto a defesa da vida ascética e os ataques que fazia à vida cristã leviana existente em Roma granjeavam-lhe muita inimizade, especialmente nos meios religiosos, o entusiasmo que tinha pela revisão das traduções defeituosas existentes, despertou a atenção de Dâmaso e este o encarregou de fazer uma revisão completa de toda a Velha Latina para terminar de vez com as dificuldades que haviam. Acontece, porém, que seu protetor morreu em dezembro de 384 e Jerônimo, cada vez mais pressionado pelos inimigos que granjeara, viu-se forçado a abandonar a cidade em meados do ano seguinte, dizendo não ser mais possível viver naquela “Babilônia”, onde “não se tem o direito de ser santo em paz”.

Dirigiu-se para o Oriente e, depois de algumas peregrinações, inclusive pelo Egito, fixou-se em Belém, onde fundou um mosteiro para homens dirigido por ele mesmo até sua morte

e outro para mulheres que ficou sob a direção de Paula, matrona romana viúva do senador Tossózio

e que, juntamente com sua filha Eustóquia, também abandonara Roma pelos mesmos motivos. Tanto Paula como sua filha foram canonizadas pela Igreja. Cansado de fazer tantas revisões nos textos mal traduzidos do grego e impressionado com as dificuldades que enfrentava nas suas polêmicas com os judeus que não mais reconheciam a Septuaginta como tradução correta, Jerônimo, convencido que estava da Veritas Hebraica, resolveu, nesta última parte da sua vida, fazer uma tradução inteiramente nova, baseada diretamente nos originais hebraicos. Procurou aprimorar ainda mais os conhecimentos que tinha

desta língua, mantendo contatos com rabis de Lida e Tiberíades, e atirou-se ao trabalho, durante

o qual não quis seguir a ordem bíblica dos livros. Preferiu começar pelos de Samuel e Reis que lhe

pareciam ser mais fáceis e deles passou para Salmos, Jó, Esdras, Neemias e outros, sempre fora de ordem. Segundo afirmação dele mesmo, em três dias traduziu os três livros de Salomão. Foi cedendo “às instâncias de Cromácio e Heliodoro” que “Jerônimo aceitou traduzir os livros de Tobias e Judite, excluídos do cânon hebraico, tarefa que realizou com maior rapidez e liberdade que as demais”. 11 “Ele não revisou nem traduziu Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Macabeus e Baruque”. 12 “No que se refere ao livro de Baruque, este se acha ausente de todos os manuscritos antigos da Vulgata”. 13 Transcrevemos literalmente estas frases de Gribomont e Price porque exprimem exatamente o zelo que Jerônimo tinha pelo cânon hebraico e o que pensava a

respeito dos livros que dele não faziam parte, dos quais disse claramente: “Seja o que for, estão fora deste [do cânon hebraico] e devem ser postos entre os apócrifos.” 14 Noutro lugar, assim se exprimiu sobre o mesmo assunto: “Ajuntados, na verdade, pela Igreja, não foram recolhidos entre

Servem para edificação do povo, mas não para confirmar a autoridade

de doutrinas.” 15 A tradução de Jerônimo só recebeu o nome de Vulgata na Idade Média. No seu tempo, eram as traduções comuns da Bíblia que tinham este nome e o próprio Jerônimo o usava para designar os textos gregos vulgares das Escrituras em oposição ao erudito de Orígenes. Jerônimo não teve a satisfação de ver sua tradução aceita pela Igreja, sem dúvida por causa da oposição que lhe faziam seus inimigos. De princípio, ela foi muito discutida, mas paulatinamente foi sendo cada vez mais usada, até que, com o correr dos séculos, passou a ser a mais transcrita e conhecida, “a Bíblia de todo o cristianismo ocidental” no dizer de Price. 16 A Vulgata de Jerônimo serviu para Wycliffe traduzir sua Bíblia para o inglês e também os tradutores alemães anteriores a Lutero a usaram como original. Quando chegou a imprensa, na segunda metade do século XV, foi ela o primeiro livro a ser impresso, com noventa e duas edições antes de 1500. Acontece, porém, que os copistas da Vulgata não tiveram o mesmo zelo dos massoretas,

dos quais nos ocuparemos mais adiante, e não foi pequeno o trabalho de revisão a que precisou

as escrituras

11 J. Gribomont, Enciclopedia de la Biblia (Ediciones Garriga, S.A., Barcelona, 1963), Vol. VI, col. 1255.

12 Ira Maurice Price, Obra citada, p. 88.

13 J. Gribomont, Ibdem.

14 “Quidquid extra hos est, inter Apocripha ponendum.” Kuntz, Obra citada, p. 37.

15 “Legit quidem ecclesia, sed inter canônicas scripturas non recipit dogmatum conformandam.” Kuntz, Obra citada, p. 371.

16 Ira Maurice Price, Obra citada, p. 89.

legat ad aedificationem plebis sed non ad auctoritatem

ser submetida. O próprio texto da “Bíblia de Mazarino” (primeira Bíblia a ser impressa a ser impressa por Gutemberg, em Mogúncia, entre os anos de 1452 e 1456) estava cheio de erros. Quando o Concílio de Trento, na sua IV sessão, realizada em 8 de abril de 1546, adotou a Vulgata como texto oficial da Igreja, teve também a preocupação de limpá-la dos erros que se encontravam nos exemplares que tinha em mãos. Diante disto, Roma enviou seus maiores e melhores esforços no sentido de obter um texto satisfatório e o resultado foi a “Edição Sixtina” de 1590, aprovada por Sixto V, e a “Edição Sixto-Clementina” de 1592, aprovada por Clemente III. Relíquias preciosas da Vulgata são os dois volumes que pertencem ao acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Eles foram trazidos de Portugal por D. João VI quando veio para o Brasil em 1808 e são os únicos exemplares completos dentre os trinta ou quarenta que ainda restam de uma edição feita em 1462 pelos sucessores do inventor da imprensa. Um destes volumes, o chamado “Exemplar Coustard”, foi avaliado, em meados de 1940, em três milhões de cruzeiros!

2.6. As Bíblias Hebraicas Modernas

Já vimos como a Bíblia Hebraica fixou seu cânon e como rejeitou definitivamente qualquer tentativa para modificá-lo, fosse para aumentar ou fosse para diminuir o número dos seus livros. Seria oportuno, agora, acompanhar algo de sua história desde a fixação deste cânon, isto é, desde os tempos de Esdras e Neemias. Logo depois dos judeus voltarem do seu cativeiro na Babilônia, surgiram na Palestina os soferim, homens cultos e zelosos que se dedicavam à preservação dos documentos sagrados, colecionando as variantes que encontravam e buscando aprimorar o texto. Quando copiavam os livros sagrados, eram tão exatos que chegavam até a contar o número de letras e palavras de cada livro.

Isto aconteceu não só na Palestina, entre os judeus que regressaram do exílio, mas também na Babilônia, entre os judeus que lá ficaram. Os soferim de lá demonstravam o mesmo cuidado e tinham o mesmo propósito que seus companheiros da Palestina. A maior dificuldade que havia era o problema das vogais, porque estas não são escritas na língua hebraica. A língua é consonantal e deixa as vogais por conta do leitor. Nos primeiros tempos, ou melhor, quando o povo formava um núcleo bastante compacto, não havia, praticamente, problema muito sério na preservação destas vogais, mas, quando os grupos começaram a separar-se após a volta do cativeiro babilônico, a situação passou a se agravar, surgindo a necessidade de se criar um processo que indicasse as vogais corretas de cada palavra,

tarefa tanto mais difícil porque ninguém queria alterar o texto propriamente da escrita. Este assunto era pacífico. A maneira encontrada para fazer esta vocalização sem tocar no texto, foi colocar as vogais em forma de sinais escritos entre as consoantes, por baixo e por cima delas. O problema que havia era mais ou menos semelhante ao que nós teríamos em nossa língua, se escrevêssemos apenas as consoantes. Assim, as palavras “rato”, “rata”, “reto”, “reta”, “rito” e “roto”, seriam todas escritas com apenas suas consoantes “rt”, as palavras “tudo”, “tido”, “todo” e “toda”, apenas com “td”, e assim por diante. Talvez o problema não fosse tão complicado porque a variedade de significados que têm as palavras escritas com as mesmas consoantes e vogais diferentes não seja tão grande como em português. Deste trabalho dos soferim nasceu uma tradição vocálica que passou a ter o nome de massorá e os que a criaram e preservaram, passaram a ser chamados massoretas. Por sua vez, além dos sinais vocálicos, a massorá passou a incluir também indicações relativas a variações de textos, bem como outras informações que permitem um estudo mais completo destes textos, esclarecendo-os o melhor possível. Como conseqüência natural destes dois centros de judaísmo, surgiram duas Escolas de massoretas, a Babilônica e a Palestina, ambas desempenhando papel relevante na tarefa de conservação tanto da língua hebraica como dos textos sagrados. Destas Escolas, a Babilônica desapareceu em meados do século VII, quando os árabes conquistaram os territórios das áreas adjacentes àquela antiga cidade. Enquanto isso, a Palestina começou a perder seu vigor e a ser substituída por outra que surgia na época, a de Tiberíades, cidade também da Palestina, cujos massoretas cada vez mais foram se impondo com seus trabalhos. Seus últimos representantes viveram nos séculos X e XI e pertenciam às famílias Ben Asher e Ben Naftali, sendo que os representantes daquela, a de Ben Asher, diziam que os sinais por eles usados derivavam de revelações diretas de Moisés no Sinai. No mesmo século em que Gutenberg inventou a imprensa e seus sucessores publicavam a Vulgata, os judeus da Europa trataram também de imprimir suas Bíblias e o fizeram especialmente na Itália, em Portugal e na Espanha. Em 1477, apareceu o primeiro livro da Bíblia impresso por eles, o dos Salmos, e em 1488 uma família de impressores que se tornou conhecida pelo nome de Soncino, por causa da cidade onde iniciou seus trabalhos, imprimiu a primeira Bíblia Hebraica completa, não se sabendo que manuscrito usou. Em 1517, Felix Platensis fez o primeiro esforço para escolher um manuscrito erudito e publicou a primeira Bíblia Rabínica, assim chamada por causa dos comentários que possuía. Contudo, a Bíblia Hebraica que se tornou a mais célebre de todas quantas foram impressas nessa época, foi a de Jacó Ben Chayyim, publicada em Veneza

nos anos de 1524 e 1525. Ben Chayyim, buscando obter o melhor texto massoreta possível, conseguiu um que pensava ser o que fora copiado e vocalizado no ano de 895 por Moisés Ben Asher, de Tiberíades, e conhecido pelo nome de Códice de Cairo dos Profetas. Além disto, esta Bíblia de Ben Chayyim possuía também uma massorá abundante. Mercê de tantas qualidades, tornou-se o padrão das Bíblias Hebraicas publicadas posteriormente. O maior editor moderno de Bíblias Hebraicas, Rudolf Kittel, publicou duas edições baseadas no texto de Jacó Ben Chayyim, a última delas em 1929. Neste ano, porém, ao assinar o prefácio de sua terceira edição publicada oito anos depois, Kittel regozijava pelo fato de poder baseá-la num texto que obtivera por empréstimo da Biblioteca Pública de Leningrado, onde estava catalogado com a sigla “B19a”, e que era uma cópia dos claros e corretos livros preparados pelo Mestre Aarão Ben Asher, considerado um erudito da Escola de Tiberíades ainda maior do que seu próprio pai. Esta cópia foi feita por Samuel Ben Jacó, no Cairo, no ano de 1008 ou 1009. Baseada num manuscrito mais recente e possuidora de uma massorá mais erudita, a Bíblia Hebraica de Kittel, a partir desta sua terceira edição, passou a desfrutar de uma fama ímpar entre suas congêneres. O grande sonho de Kittel, porém, o que nem ele e nem seus sucessores puderam realizar até agora, foi o de publicar sua Bíblia Hebraica baseada no próprio original de Aarão Ben Moisés Ben Asher, do qual o texto “Leningrado B19a” era apenas cópia. Aarão transcreveu e vocalizou seu texto para uma comunidade judaica de Jerusalém no ano 930 e de lá os cruzados o levaram para a cidade do Cairo a fim de guardarem-no com segurança. Deste lugar foi levado para Alepo, cidade da Síria, onde foi descoberto na sinagoga dos judeus sefardim e, por isto, passou a ser conhecido pelo nome de “Códice de Alepo”. Os eruditos tudo fizeram para conseguir este códice a fim de estudá-lo, mas os responsáveis pela sinagoga não o permitiam de forma alguma, por julgarem que seu autor, Aarão, fosse o irmão de Moisés da Bíblia. Portanto, não podia ser profanado! Por todas estas razões, este manuscrito era uma relíquia tanto para os membros da sinagoga, por causa da crença que tinham a seu respeito, como para os eruditos que conheciam sua real procedência. Alguém conseguiu fotografar uma página na dele, mas os resultados foram ainda piores porque tal ato concorreu tão somente para aumentar ainda mais a vigilância em torno da preciosidade. Culminando todas estas dificuldades, em 1948 um incêndio destruiu a sinagoga e o manuscrito se perdeu, deixando desapontados tanto os sefardim de Alepo como o mundo erudito em geral. Aconteceu, porém, que onze anos mais tarde, em 1954, quando alguns operários revolviam as pedras do edifício da sinagoga com o propósito de reconstruí-lo, para a alegria de

todos, o precioso texto foi encontrado praticamente intocado. Levaram-no para Israel e este país, até então, pretende fazer dele o novo texto oficial da Bíblia Hebraica.

2.7. As Bíblias até 1947

Após considerar o que os judeus fizeram com sua Bíblia Hebraica depois da descoberta da imprensa, é conveniente completar o quadro atual do Velho Testamento com um apanhado do trabalho que os cristãos fizeram neste sentido e durante o mesmo espaço de tempo. É bem conhecida a forte aversão que a Igreja votava contra os judeus no período medieval e que resultou em tantas perseguições. No entanto, enquanto estes multiplicavam suas edições impressas do Livro Sagrado, ela, a Igreja, nada fazia neste sentido. A publicação da Vulgata foi feita por leigos e, desde então, nada mais se fez neste sentido. Foi visando preencher este vácuo que o Cardeal Ximenes (Francisco Ximenes de Cisneros) tomou a iniciativa de publicar a primeira edição de uma Bíblia Hebraica feita por cristãos. Esta obra surgiu em 1520 e teve o nome de “Bíblia Poliglota Complutense”, porque, além do texto hebraico, continha também o da Vulgata e da Septuaginta, e porque seu trabalho, que exigiu mais de quinze anos de intenso labor, foi feito na Universidade de Alcalá, fundada pelo próprio Cardeal Ximenes nesta cidade, cujo nome, nos tempos romanos, fora Complutum. Esta Bíblia de Ximenes e a de Ben Chayyim serviram, ambas, para a publicação, entre 1661 e 1667, de um importante texto que ficou conhecido pelo nome de “Texto de Amsterdam”, o qual, revisado sucessivamente por Von der Hooght em 1795 e por Letteris em 1852, passou a ser usado pelas Sociedades Bíblicas nas suas publicações. Resumindo, podemos dizer que, até a descoberta dos manuscritos do Mar Morto em 1947, o quadro do Velho Testamento da nossa Bíblia era, em rápidos traços, o seguinte:

Com seu cânon formado nos tempos de Esdras e Neemias, conforme a tradição judaica aceita pelos cristãos conservadores, a Bíblia Hebraica passou a ser copiada a mão pelos soferim e foi traduzida para o grego, com o nome de Septuaginta, nos últimos séculos antes da era cristã. Desta nasceu a Vetus Latina e, com o auxílio direto da Bíblia Hebraica, surgiu a Vulgata. Esta, por sua vez, depois de uma grande polêmica a respeito, incluiu no seu bojo os discutidos Livros Apócrifos e, em 1546, passou a ser o texto oficial das Bíblias católicas. A Igreja deu o nome de Livros Protocanônicos aos que pertenciam ao cânon hebraico e Deuterocanônicos aos apócrifos,

passando a chamar de Pseudepígrafos aos que os evangélicos continuaram a dar o nome de Apócrifos.

Após os soferim, a Bíblia Hebraica foi copiada durante muitos séculos, pelos massoretas e continuou a servir à comunidade judaica. Pelo fato dela ter sido a Bíblia usada por Jesus Cristo e pelos apóstolos, seu cânon foi o preferido pelos reformadores, pelos evangélicos e pelas Sociedades Bíblicas fundadas a partir do século XIX. Outro detalhe que notamos é que o texto da Vulgata de São Jerônimo foi muito sacrificado por copistas descuidosos e, por isto, a Igreja Católica, após adotá-lo oficialmente no Concílio de Trento, empenhou-se vivamente na busca de um texto que estivesse o mais próximo possível do original. Deste esforço resultou a Bíblia Sixto-Clementina, fonte de todas as traduções que temos atualmente da Vulgata. Baseando-se, entre outros fatos, naquilo que ocorreu com a Vulgata, céticos e críticos passaram a duvidar da exatidão do texto da Bíblia Hebraica, também tantas vezes copiado durante tantos séculos e por tanta gente, malgrado seus copistas, os soferim e massoretas, professarem grande zelo e cuidado. Tendo ela servido de base para as traduções mais recentes, estas, por sua vez, também diziam eles, não poderiam ser dignas de mais confiança. Em contrapartida, os que criam na correção do texto sagrado moderno, além da sua fé, mediante a qual criam que a mão poderosa de Deus havia guardado o Livro Sagrado, tinham a seu dispor as traduções da Septuaginta e da Vulgata, feitas poucos séculos antes e poucos depois de Jesus Cristo, e bastava uma comparação entre elas para que se pudesse perceber a grande semelhança dos respectivos textos, sendo que as possíveis diferenças não afetavam qualquer parte doutrinária, ou necessária para a salvação. Feitas respectivamente nos séculos III-II a.C. e IV a.D., estas traduções distanciavam-se entre si em mais de meio milênio, e mais de meio milênio as separava do texto hebraico mais antigo que possuímos até 1947, os que foram copiados e vocalizados por Moisés e Aarão Ben Asher, respectivamente nos anos de 895 e 930. Isto bastava a estes cristãos conservadores e fiéis para que cressem na exatidão da doutrina contida em todas estas traduções que, repetimos, não se contradiziam entre si neste aspecto. As cópias e correções dos textos sagrados haviam sido feitas, sempre, sob o cuidado divino, e este não permitiu que fosse cometido qualquer erro a respeito de doutrina. Não resta a mínima dúvida de que tal atitude era um ato de grande fé! Assim, porém, não pensavam os que, por motivos os mais variados, na queriam crer na Bíblia e nem aceitar seus conceitos morais, espirituais e de salvação. Continuavam eles, céticos e críticos, até uns cinqüenta anos passados, a criticar a exatidão da Bíblia moderna, isto é, sua verdade doutrinária, baseando-se, inclusive, nos erros de copistas descuidados, sem dar atenção,

sequer ao que diziam os estudiosos do assunto, antes os combatendo e até ridicularizando por causa de sua fé.

2.8. Os Essênios

Qualquer estudo sobre os Manuscritos do Mar Morto não ficaria completo sem que se falasse, mesmo que rapidamente, daqueles que nos legaram tão famosos quanto úteis documentos, os essênios. Até 1947, pouco se sabia desta seita de judeus colocada por Josefo entre as três mais importantes da sua nação, imediatamente depois das dos fariseus e saduceus. Segundo este escritor judeu, os essênios “ensinavam a imortalidade da alma, desprezavam as riquezas, eram muito comunicativos, despertavam admiração, e. embora não fossem contra o casamento, evitavam-no por causas das disputas domésticas”, 17 Eram extremamente piedosos, viviam espalhados pelas cidades da Palestina e eram profundamente hospitaleiros. Filo, outro erudito judeu do princípio da era cristã, e Plínio, o Velho (23/24-79 d.C.), a ilustre vítima do Vesúvio quando este destruiu as cidades de Herculano e Pompéia, ambos falaram dos essênios, mas pouca atenção se lhes dava até que a monumental obra destes últimos surgiu das cavernas de Qumran. Perto destas cavernas estava o Khirbet Qumran que já tinha sido explorado por Charles Clermont-Ganneau nos anos de 1873 e 1874, mas ficou no esquecimento porque parecia não ter maior importância. Agora, porém, o interesse foi ao auge e, de 1951 a 1956, estas ruínas foram cuidadosamente exploradas e escavadas por arqueólogos incansáveis como o Padre Rolando de Vaux, da Escola Bíblica Francesa, de Jerusalém. Não há indícios de que o Khirbet Qumran tenha servido de residência para os essênios, mas tudo indica que servia apenas de escritório e de local para seus ritos sagrados. Eles teriam morado ou nas cavernas da região, ou em tendas que foram destruídas pelo tempo. No museu de Jerusalém, além dos vasos de barro que continham os documentos,

podem-se ver também os móveis usados por aquela gente, inclusive a mesa onde escreviam, os bancos nos quais se assentavam e os tinteiros que usavam. Já Clermont-Ganneau descobrira os cemitérios e, até agora, no principal deles, foram encontrados apenas ossos de homens adultos. Nos secundários, que existem por perto, foram achados também ossos de mulheres e crianças. Na parte sudoeste do prédio principal, existe, de um lado a outro, uma rachadura com desnível,

resultado, sem dúvida, de algum terremoto que, tudo indica, teria sido o de que fala Josefo e que ocorreu no ano de 31 a.C. 18 Há várias idéias a respeito da origem dos essênios, fato que vem sendo estudado com muito interesse pelos eruditos, valendo-se dos documentos que deixaram. Uma delas é a de que teriam existido já na Babilônia (que seria a “terra de Damasco” por eles mencionada), tendo um grupo destes essênios regressado para a Palestina após as vitórias dos macabeus, na esperança de encontrarem um lugar na própria terra em que pudessem viver em paz numa atmosfera que fosse simpática a eles com os princípios rígidos que adotavam. Decepcionaram-se, porém, ao ver o ambiente frouxo de helenização que encontraram e com o tratamento algo hostil que experimentaram. Foi daí que resultou seu agrupamento em lugares mais isolados, onde podiam viver a vida que desejavam. Outros grupos de essênios teriam ido para outras partes do mundo. Quanto aos essênios que habitaram Qumran, poderíamos dizer resumidamente que lá permaneceram até o ano 31 a.C., retirando-se, então, provavelmente do terremoto de que fala Josefo. Nos primeiros anos de nossa era, teriam eles regressado para Qumran, deixando o lugar definitivamente em 68 d.C., por ocasião da revolta dos judeus que culminou com a destruição de Jerusalém dois anos depois. Desde então não se tem mais notícia deste grupo religioso e não se sabe se os homens de Qumran foram destruídos pelos romanos ou se fugiram para outras partes da Palestina, espalhando-se por lá e desaparecendo do cenário. Restos dos essênios talvez sejam os caraítas, um grupo medieval de judeus que residia na cidade do Cairo que, como eles, discordavam do cenário rabínico. Na Geniza do Cairo, entre os documentos encontrados, havia um que ficou conhecido pelo nome de “Documento de Damasco” ou “Documento Zadoquita”, do qual se encontrou uma cópia na caverna 6 de Qumran. Este documento fala de um grupo para o qual Deus enviara um “Ensinador de Justiça” e que tomou solene propósito de afastar-se dos maus, guardar meticulosamente o sábado e amar seus irmãos, tudo “de acordo com o que haviam descoberto os membros do ‘Novo Concerto’ na terra de Damasco”. Chamavam-se “Filhos de Zadoque”. 19 Há os que querem identificar este “Ensinador de Justiça” com Jesus Cristo, mas é fácil concluir que isto não é possível por causa das crenças que os essênios alimentavam que eram diferentes das de Jesus. Exemplo, a imortalidade da alma. No que não se põe qualquer dúvida é no fato de que foi na fuga de 68 d.C. que os essênios guardavam seus preciosos documentos nas cavernas de Qumran, na esperança de reavê- los quando pudessem voltar. Tal, porém, nunca aconteceu!

18 Idem, p. 320 e 450 (Antiguidades, XV, V, 2; e Guerras, I, XIX, 3).

19 Jack Finegan, Obra citada, Vol. II, p. 282, 283.

Após a fuga dos essênios, as construções de Qumran foram ocupadas pelos soldados de Tito até o fim da sua campanha e, depois disto, entre 132 e 135 d.C., foram ocupadas novamente por judeus, desta vez os revoltosos liderados por Bar Cocheba. Em 135 d.C., o Imperador Adriano venceu os rebeldes, destruiu novamente a cidade de Jerusalém e estas ruínas foram abandonadas de novo, transformando-se, finalmente, nas que foram exploradas por Clermont-Ganneau e Rolando de Vaux.

CAPÍTULO III

3. PODEMOS AINDA CRER NA BÍBLIA?

Embora a Bíblia seja a legítima Palavra de Deus franqueada a todas as pessoas, existe uma parte de seu estudo que demanda um empenho mais técnico e científico. A história de uma produção literária que reflete uma época e cultura longínquas pode, às vezes, ser misteriosa. Por isso, criou-se a Ciência Bíblica, mais comumente conhecida por Hermenêutica ou, nalguns casos, Exegese. A disciplina é dividida em muitas ciências auxiliares e especialidades que podem beneficiar o leitor comum em seu estudo das Escrituras Sagradas. É claro, no entanto, que em vista dos limites e da precariedade de qualquer ciência humana, essa também não está isenta de possíveis erros. Logo, ela não deve ser um fim em si mesma nem arvorar qualquer superioridade ao próprio texto da Bíblia. E por falar em texto bíblico, destacamos a importância da Crítica Textual uma disciplina que procura restaurar o texto original de um documento antigo que foi alterado no processo de cópia e recópia ao longo da história. Como você sabe, antes da invenção da impressa, os livros eram escritos e reproduzidos à mão e isso ocasionava erros e descontinuidades das cópias em relação ao original. Imagine que um escriba estivesse copiando uma epístola e, num momento de “cochilo”, escrevesse “Bernardo”, enquanto o texto original trazia a palavra “Mercado”. Isso poderia criar um erro sistêmico, pois outro escriba que usasse sua cópia como texto iria reproduzir a falha, passando-a para um documento seguinte e assim por diante. Alguém ainda poderia confundir “Bernardo” – que já era um erro – com “Abelardo” e aí a coisa ficaria mais complicada, teríamos dois enganos em vez de um. Isso, porém, não seria de modo algum um problema caso tivéssemos o autógrafo em mãos, isto é, o texto original que saiu das mãos do autor. Era só compará-lo com as demais cópias e ver qual estaria certa e qual(is) estaria(m) errada(s). Mas é aqui que inicia o problema hermenêutico das Escrituras: não possuímos o autógrafo de nenhum livro da Bíblia; temos apenas cópias mais ou menos exatas. Todos os originais de Paulo, João, Pedro, Lucas e outros se perderam com o tempo. E, para piorar, as cópias preservadas são tardias; datam de pelo menos três ou quatro séculos depois de Cristo, excetuando, é claro, alguns fragmentos mais antigos que contêm apenas uns poucos versículos, como é o caso do Papiro John Rylands, comumente datado em torno do ano 130 d.C.

e que contém no anverso o texto de João 18:31-33 e no verso, João 18:37 e 38. Quem garante, portanto, que os autógrafos não foram drasticamente modificados ao longo do tempo? A indagação torna-se ainda mais séria se lembrarmos que os livros do Antigo Testamento são mais antigos que os do Novo. Logo, o hiato entre eles e a coleção disponível é bem maior. A cópia hebraica de Isaías, por exemplo, produzida por copistas judeus da Idade Média (chamados de massoretas), distava mais de mil anos de seu original. Que houve mudanças durante esse tempo está claro no fato de que praticamente não existem duas cópias exatamente iguais dos manuscritos da Bíblia. Tanto o é que as diferenças já foram catalogadas nas edições críticas e receberam o nome técnico de “variantes textuais”. Um exemplo simples pode ser visto na passagem de Apocalipse 22:14. Alguns textos trazem “bem aventurados os que guardam seus mandamentos”, enquanto outros transcrevem “bem aventurados os que lavam suas vestes”. Grosso modo, é possível dizer que essa variante surgiu, da semelhança entre as palavras “mandamento” (entolas) e “vestes” (stolas), que são muito parecidas em grego, mesmo em sua forma acusativa plural. Aqui fica nítido que houve um descuido do copista, embora seja difícil nesse caso saber com exatidão qual era o texto original. A questão, portanto, é quanto ao grau de modificação sofrida nos textos. Foi ela periférica ou afetou o conteúdo de modo substancial? Estaria a mensagem bíblica prejudicada pelas variantes? Na verdade, são poucos os textos com elevado grau de incerteza, como o caso de Apocalipse 22:14. A grande maioria já foi cientificamente analisada, de modo que a Bíblia é o livro mais bem pesquisado em termos de crítica textual. Ela ganha disparado de todos os outros clássicos antigos da humanidade. Para se ter uma noção do que isso significa, basta dizer que só do Novo Testamento existem mais de 5.300 cópias antigas, fora umas 8.000 da Vulgata Latina e cerca de 9.300 em outras versões primitivas como o copta e o siríaco. Isso contrasta em muito com o segundo livro mais autenticado do mundo, A Ilíada, de Homero, da qual existem apenas 643 cópias manuscritas. Veja no quadro comparativo 20 a seguir um pequeno exemplo da “vantagem” textual do Novo Testamento sobre alguns antigos clássicos da humanidade:

20 Esse quadro comparativo foi adaptado de várias fontes: F. F. Bruce, The New Testament Documents: Are they Reliable? (Dowers Grove: InterVarsity, 1960), p. 16; Norman L. Geisler, “New Testament Manuscripts”, em Baker Encyclopedia of Christian Apologetics, ed. Norman Geisler (Grand Rapids: Baker, 1999), p. 532; Richard M. Fales, “Archaeology and History Attest to the Reliability of the Bible”, em The Evidence Bible, ed. Ray Comfort (Gainesville, FL: Bridge-Logos Publishers, 2001), p. 163; e Paul D. Wegner, The Journey from Texts to Translations: The Origin and Development of the Bible (Grand Rapids:

Baker, 2002), p. 235.

Autor

Quando foi

Cópia mais antiga que possuímos

Intervalo entre o original e a cópia mais antiga que possuímos

Número de

escrito

cópias

Julio César (Guerra Gaulesa)

100-44 a.C.

900

d.C.

1000

anos

10

Tito Lívio (Anais do Povo Romano)

59 a.C.-17

d.C.

300

d.C.

360

anos

20

2

 

496-406

     

Sófocles

a.C.

1000

d.C.

1400

anos

193

 

427-347

     

Platão (Tetralogias)

a.C.

900

d.C.

1200

anos

7

Tácito (Anais e Histórias)

100

d.C.

1100

d.C.

1000

anos

2

 

480-400

     

Heródoto (História)

a.C.

900

d.C.

1300

anos

8

Plínio, o moço (História)

61-113 d.C.

850

d.C.

750

anos

7

Homero (A Ilíada)

900

a.C.

400

d.C.

1300

anos

643

 

383-322

     

Demóstenes

a.C.

1100

d.C.

1400

anos

200

 

384-322

     

Aristóteles

a.C.

1100

d.C.

1400

anos

49

Suetônio (História)

75-160 d.C.

950

d.C.

800

anos

8

Novo Testamento

50-100 d.C.

130

d.C.

menos de 100 anos

mais de 5.300

Como se pode ver, só o Novo Testamento em grego possui quase cinco vezes mais cópias do que a soma de todos esses clássicos. E essa comparação textual não pára por aqui. Bruce Metzger, 21 um dos mais renomados especialistas em Crítica Textual, fez uma acurada comparação entre A Ilíada de Homero, o Mahabarata (livro sagrado dos hindus) e o Novo Testamento. Sua conclusão foi que, das quase 20 mil linhas que compõem o Novo Testamento, apenas 40 permanecem dúbias quanto ao seu original. Logo, 99,5% do texto é criticamente confiável. Da

21 Dessa obra de Tito Lívio, é importante acentuar que apenas 35 dos 142 volumes da obra original sobreviveram até nossos dias. E dos 20 manuscritos apenas um (contendo o fragmento de três parágrafos) pode ser datado do 4º século; os demais são bem mais tardios. Cf. F. F. Bruce, p. 16; Paul D. Wegner, p. 235.

Ilíada, porém, percebeu-se que das suas 15.600 linhas, 764 eram questionadas pelos especialistas, ou 19 vezes mais que o montante bíblico! E, finalmente, do Mahabarata, que é 8 vezes maior que

a Ilíada, teríamos pelo menos 26 mil linhas cuja originalidade também pode ser posta em dúvida

um número bem maior que o percentual bíblico. Cabe ainda observar que nenhuma dessas disputadas passagens do Novo Testamento apresenta perigo à fé cristã. São cerca de 400 palavras dúbias como aquelas que aparecem no texto já mencionado de Ap. 22:14. Note-se também que nenhuma doutrina fundamental do cristianismo se assenta sobre outras passagens cuja leitura é disputada entre os especialistas. A doutrina da Trindade, por exemplo, não se sustenta no texto de 1 João 5:7, cuja autenticidade é seriamente questionada pelos especialistas. Existem outros excelentes argumentos a favor da fidedignidade textual da Bíblia. Mas não os reproduziremos aqui por questão de espaço e por fugir ao objetivo deste trabalho. Não obstante, vejamos uma confirmação a mais, desta vez acerca da integridade textual do Antigo Testamento: trata-se da sensacional descoberta dos Manuscritos do Mar Morto.

3.1. O Achado Até a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, a mais antiga cópia em hebraico que possuíamos do texto completo do Antigo Testamento datava de 1008 d.C. Era o Codex Babylonicus Petropolitanus, que fora produzido 1.400 anos após o Antigo Testamento haver sido completado

um hiato deveras longo para se estabelecer a fidedignidade textual das Escrituras. Havia, é claro,

o Papiro Nash uma porção hebraica de Deuteronômio 6:4 e 5 que fora encontrada em 1902 e datada em torno do 1º século a.C., mas seu conteúdo, como se pode notar, era muito pequeno para grandes conclusões. Assim, com cópias de manuscritos tão tardias em mãos, os especialistas em Teologia Bíblica se viam às voltas com o problema de provar que não houve graves alterações anteriores às cópias que possuíamos. Imagine se algum capítulo houvesse sido deliberadamente acrescentado ou suprimido? Em 1939, Sir Frederic Kenyon, 22 diretor do Museu Britânico, expressou seu pessimismo ao dizer que não acreditava na possibilidade de se encontrar sequer um manuscrito do texto hebraico que fosse anterior ao período da formação do texto massorético (copiado provavelmente

22 Frederic G. Kenyon, Our Bible and Ancient Manuscripts (Nova York: Harper & Brothers, 1941).

entre 500 e 1000 d.C.). 23 A “impossibilidade” tornou-se miraculosamente “possível”, num achado bastante providencial. E Kenyon viveu o suficiente para poder testemunhá-lo. Tudo aconteceu por volta de 1947 quando, segundo uma das muitas versões, um garotinho beduíno chamado Muhammed Ahmed el-Hamed (conhecido “edh-Dhib,” o lobo) saiu à procura de algumas cabras perdidas e se deparou com uma gruta na região de Qumran, próximo ao Mar Morto, no sul da antiga Judéia. Curioso, ele jogou umas pedrinhas dentro da fenda (talvez para verificar se os animais estavam lá dentro) e o que ouviu foi o barulho de jarros se quebrando. Correndo para o acampamento de sua tribo (os ta‘amireh), ele chamou um adulto e o levou até o local do achado, na esperança de que se tratasse de um grande tesouro. Juntos eles escalaram a parede (pois a fenda ficava num escorregadio terreno na ponta do platô) e se surpreenderam ao encontrar dentro da gruta jarros de barro com tampa, o que aumentou a idéia de conterem ouro ou pedras preciosas. Para sua frustração, no entanto, o que encontraram nos potes foram rolos de manuscritos envoltos em tecido. Alguns dizem que eles venderam os vasos (sete ao todo) para um comerciante de Belém, que chegou a enfeitar sua loja com os antigos pergaminhos. Outros afirmam que foi para um sapateiro cristão sírio, que os comprou com o fim de usar o couro no remendo de sapatos. Seja como for, ao que parece, alguns membros do grupo, perceberam que os manuscritos poderiam ser valiosos para colecionadores e investigaram por conta própria outras cavernas em busca de novos pergaminhos. Até que, finalmente, foram presos pelo Departamento de Antiguidades da Jordânia, que proibia escavações clandestinas. O Estado de Israel (reconhecido formalmente apenas em 14 de maio de 1948) só ocuparia a Cisjordânia após a Guerra dos Seis Dias, em 1967; por isso, a região ainda estava sob o domínio da Jordânia. Com as pistas dadas pelos beduínos e a ajuda dos arqueólogos da École Biblique de Jerusalém, da American School of Oriental Research (hoje Albright Institute of Archaeological Research) e do Archaeologycal Museum of Palestine (hoje Rockefeller Museum), 11 grutas foram descobertas, pesquisadas e catalogadas como contendo manuscritos antigos. Entre os rolos havia muitas cópias de textos do Antigo Testamento, datadas de aproximadamente 300 anos antes de

23 Julio Trebolle Barrera, La Biblia Judía y la Biblia Cristiana: Introdución a la Historia de La Biblia (Madri: Editorial Trotta, 1993), p. 318. Há, contudo, autores que colocam a produção do texto massorético apenas a partir de 750. Veja Josef Scharbert, Das Sachbuch zur Bibel (Aschaffenburg: Paul Pattloch Verlag, 1965), p. 160.

Cristo, 24 o que corresponde a cerca de 1000 anos mais antigas que as cópias massoréticas! Só para lembrar: a cópia massorética mais antiga de que dispomos data de 850 d.C. 25 Quando se comparou, por exemplo, a cópia de Isaías encontrada em Qumran com o texto que hoje possuímos, verificou-se que, de fato, Deus protegeu a integridade do texto, pois, se houvesse qualquer mudança mais comprometedora, ela estaria evidente. Afinal, o texto qumrânico foi produzido muito antes de existir o cristianismo. Na verdade encontram-se, nas grutas, cópias de todos os livros do Antigo Testamento, menos Ester, que talvez estivesse num estado fragmentário e acabou se perdendo junto com centenas de outros pergaminhos de todos os tamanhos que foram manipulados indevidamente pelos beduínos ou já estavam deteriorados pela ação do tempo. A gruta 4 revelou-se a mais importante de todas. Embora nenhum manuscrito completo tenha sido encontrado ali, o relatório oficial supõe que, no mínimo, uns 15 mil fragmentos foram lá recolhidos. 26 Era um verdadeiro quebra-cabeças gigante, que correspondia a um total de aproximadamente 584 textos. Desses, 127 são bíblicos e o restante culturais. Todos eles foram muito importantes para o estudo crítico-textual do Antigo Testamento e também para o conhecimento do substrato cultural de muitas idéias do Novo Testamento. Um exemplo é o fragmento de um apocalipse aramaico que traz as expressões “Filho de Deus” e “Filho do Altíssimo” aplicadas ao Messias vindouro:

“[Ele] será determinado Filho de Deus, e lhe chamarão Filho do

Seu reino será um reino

eterno, e todos os seus caminhos em verdade e direito. A Terra [estará] na verdade, e todos construirão a paz.

24 A mais recente datação radiométrica, chamada de espectrometria com acelerador de massas, registrou que alguns manuscritos de Qumran teriam cerca de 200 anos a mais que a data hasmonéia dada pelos paleógrafos (300 a.C. e não 100 a.C.). Veja o relatório em G. Bonani e outros, “Radiocarbon Dating of the Dead Sea Scrolls”, Atiqot 20 (1991), p. 27-32; “Radiocarbon Dating of Fourteen Dead Sea Scrolls”, Radiocarbon 34/3 (1992), p. 843-849.

25 Até a descoberta de manuscritos em Qumran (Mar Morto), os mais antigos e mais importantes manuscritos do Antigo Testamento em hebraico eram os seguintes:

Manuscrito Oriental nº 4.445 do Museu Britânico: trata-se de uma cópia do Pentateuco (Gênesis 39:20 a Deuteronômio 1:33), cujo texto remonta a 850 d.C.

O Códice dos Profetas Anteriores e Posteriores da Sinagoga Caraíta do Cairo. Foi escrito em Tiberíades, em 895 d.C. Os

Profetas Anteriores são: Josué, Juízes, Samuel, Reis. Os Posteriores são: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Os Doze (Profetas Menores).

O Códice Petropolitano, escrito em 916 d.C. (ou 930 d.C.), veio da Criméia. Contém apenas os Profetas Posteriores. Está na biblioteca de Leningrado (Rússia).

O Códice de Alepo, de cerca de 980 d.C., contém todo o texto do Antigo Testamento. Era guardado zelosamente pela sinagoga

sefárdica de Alepo. Foi contrabandeado em anos recentes da Síria para Israel. Será utilizado como base da Nova Bíblia Hebraica, em preparo pela Universidade Hebraica, de Jerusalém.

O Códice de São Petersburg (B19a). Também está na biblioteca de Leningrado. Foi escrito cerca do ano 1000 d.C. Foi

copiado no ano 1008-9 d.C., no Cairo. Esse, por um tempo, foi o mais antigo manuscrito completo do Antigo Testamento com data

conhecida. Ele é a base da moderna Biblia Hebraica Stuttgartensiana.

26 R. de Vaux e J. T. Milik, “Qumrân grotte 4.II: Archéologie; II: Tefilin, Mezuzot et Tergums (4Q128-4”157), em Benoit [ed.], Discoveries in the Judaean Desert (Oxford: Clarendon, 1977).

Cessará a espada na Terra, e todas as cidades lhe renderão homenagem. Ele é um Deus grande entre os deuses [?]. Seu domínio será um domínio eterno.” 27

3.2. Quem Guardou os Textos?

A atitude de esconder objetos sagrados devido a uma ameaça iminente não era estranha nos tempos bíblicos. Em 2 Crônicas 34:14-30 está a descrição do momento em que, em meio à reforma do Templo, Hilquias encontrou os originais de Moisés que sacerdotes piedosos haviam escondido durante o idolátrico reinado de Manassés. A arca dos dez mandamentos, pelo que se sabe, foi escondida um pouco antes do ataque de Nabucodonosor a Jerusalém e ali permanece oculta nalgum lugar ainda não descoberto até os dias de hoje. Os manuscritos do Mar Morto, também podem ter se originado desse procedimento. Pelo menos é o que dizem, com algumas diferenças, autores como Karl Heinrich Rengstorf, 28 da Universidade de Münster, na Alemanha, e Norman Golb, um conceituado professor da Universidade de Chicago. 29 Ambos acreditam que os manuscritos foram trazidos às pressas de Jerusalém (possivelmente da biblioteca do templo), para serem guardados nas grutas como medida de precaução devido ao avanço dos romanos sobre Jerusalém. Outra teoria mais popular sugere que alguns manuscritos foram copiados no local. Pelo menos é o que sugere a localização dos restos de uma comunidade judaica que havia no platô. Eles possuíam ali uma escola, possivelmente sectária, que abrigava quartos, refeitórios, local de culto e até um scriptorium, isto é, um ambiente especial para o trabalho dos copistas. O achado de alguns tinteiros e canetas corrobora essa opinião. Mas quem seriam os habitantes dessa comunidade? Bem, Josefo fala de três segmentos judaicos de sua época: fariseus, saduceus e essênios. 30 O terceiro é descrito como o mais “extraordinariamente interessado em antigos escritos”. 31 Além disso, o historiador Plínio, em sua História Natural, menciona a região do Mar Morto, entre Em Gedi e Massada como o lar dos essênios que moravam no deserto. Ora, os restos d Khirbet Qumran estão perfeitamente enquadrados nessa localização!

27 4Q246 em Florentino García Martínez, Textos de Qumran (Petrópolis: Vozes, 1995), p. 179.

28 Karl-Henrich Rengstorf, Kirbert Qumran und die Bibliothek vom Toten Meer [coleção: Studia Delitzchiana] (Stuttgart:

Kolhammer, 1960).

29 A tese de Norman Golb pode ser encontrada em português sob o título Quem Escreveu os Manuscritos do Mar Morto? (Rio de Janeiro: Imago, 1996).

30 Guerras Judaicas 2. 8. 2.

31 Antiguidades 18. 2.

Ademais, autores como Todd Beall 32 e Magen Broshi 33 fizeram uma detida comparação entre as crenças essênias (recuperadas de antigas descrições como as de Josefo) e os textos de Qumran. Não só a semelhança é surpreendente, como admira-se que não haja ali nada que destoe do pensamento do grupo. O mesmo não pode ser dito nem dos fariseus nem dos saduceus, que possuíam muitas divergências doutrinárias com o conteúdo dos manuscritos encontrados. Contudo, existem objeções também a essa teoria, supondo que a comunidade fosse outro grupo separatista ainda desconhecido, que teria rompido com o sistema do templo e, por isso, criou uma comunidade isolada no deserto. Outra idéia mais recente sugere que Qumran era originalmente uma escola de sacerdotes que se formou em Jerusalém, mas foi obrigada a migrar para o deserto por causa das perseguições de Antíoco Epifânio. Seja qual for a teoria assumida, o fato é que os manuscritos mostraram para o mundo inteiro a integridade textual de mais de 90% da Bíblia Hebraica e isso, por si só, já é o bastante para se comemorar.

3.3. Especulações e Sensacionalismo

Como sempre aconteceu em toda a história da arqueologia bíblica, novamente aqui, os tablóides sensacionalistas não perderam tempo e começaram a divulgar idéias de um complô para impedir que o conteúdo dos manuscritos viesse à tona. Eles conteriam, segundo alguns jornalistas, uma gama de informações que comprometeriam a história do cristianismo.

De fato, houve certa demora na publicação dos textos, que deu combustível para a fogueira das especulações. O problema era que o trabalho de montagem de milhares de fragmentos, às vezes medindo pouco mais de um centímetro, não era tão simples assim. Na mente leiga dos sensacionalistas, os manuscritos teriam sido encontrados como se fossem livros empoeirados numa estante de pouco mais de 50 anos. Bastava lê-los e dizer o seu significado. O meticuloso trabalho das equipes não era nem de longe parecido com isso. Os milhares de fragmentos tinham de ser desdobrados e separados (pois, as vezes, estavam grudados uns aos outros). Então vinha o delicado trabalho de limpeza, que exigia bastante perícia e soluções muitíssimo caras. Então vinha a hora de classificá-los por grupo e começar o lento trabalho de montagem do quebra-cabeça.

32 Todd S. Beall, Josephus’ Description of the Essene Illustrated by the Dead Sea Scrolls, Society for New Testament Studies Monograph, Series 58 (Cambridge: University Press, 1988).

33 Citado por Randall Price, Secrets of the Dead Sea Scrolls (Eugene: Harvest House, 1996), p. 105.

Visto que faltavam muitas partes, algumas vezes era praticamente impossível reconstruir o parágrafo ou até mesmo um texto inteiro, embora o tivessem agrupado pela cor do pergaminho e pelo formato da letra. Toda essa identificação exigiu dinheiro, tempo, paciência e alto grau de habilidade. Por isso houve a demora. Posteriormente, outras razões de ordem técnica e político (devido às guerras do Oriente Médio) resultaram num atraso para as publicações que deveriam vir ao público entre 1960 e 1970. Hoje, porém, passada toda essa efervescência, os manuscritos estão em sua maioria publicados em edições críticas e populares, inclusive em português. 34 Ao contrário da previsão dos minimalistas, nada houve que pudesse enfraquecer, numa vírgula sequer, a mensagem e o entendimento que temos acerca de Jesus Cristo. Pelo contrário, ampliou-se a compreensão do contexto histórico de seu movimento. Os manuscritos do Mar Morto trouxeram à luz uma grande quantidade de dados que detalham de forma inédita o judaísmo praticado no 1º século antes e depois de Cristo. Seja ou não correta sua identificação com os essênios, o fato é que eles apresentam inúmeras informações sobre um grupo específico de judeus que, como os primeiros seguidores de Jesus, também não estavam contentes com muitas coisas que ocorriam na grande cidade de Jerusalém. Tudo isso, é claro, além de apresentar de forma clara a confiabilidade textual das Escrituras Sagradas, a verdadeira e legítima Palavra de Deus.

3.4. Podemos então confiar na Bíblia?

Até meados dos anos 70, havia um razoável consenso entre os especialistas em Oriente Médio de que a Bíblia era uma fonte histórica confiável, especialmente quanto às origens do povo hebreu. Sabia-se que a arqueologia fornecia indiscutíveis confirmações do relato escriturístico e

a oposição de alguns acadêmicos, geralmente sem conhecimento arqueológico, não passava de uma voz isolada. 35 Albright, conhecido como o príncipe dos arqueólogos modernos, escreveu em 1949 que, graças aos achados arqueológicos, “as informações históricas da Bíblia se mostram tão acuradas

34 A primeira e mais importante publicação dos manuscritos da edição completa de todos os manuscritos em microfichas que permitiam ao leitor ver os originais e visualizar os textos foi feita em 1993. Emanuel Tov e Stephen Phann [ed.], The Dead Sea Scrolls on Microfiche: A Comprehensive Facsimile Edition of the Texts from the Judaean Desert, (Leiden: IDC- E. J. Brill, 1993). No Brasil, temos a versão portuguesa de Valmor da Silva, feita a partir da tradução espanhola de Florentino García Martínez, Textos de Qumran (Petrópolis: Vozes, 1995).

35 Thomas Davis, “Faith and Archeology: A Brief History to the Present”, Biblical Archeology Review 19 (1993), p. 54-59.

que superam em muito as idéias de qualquer moderno estudante da crítica, que tem consistentemente tendido a errar para o lado do alto-criticismo”. 36 Mais recentemente, no entanto, esse cenário de otimismo em relação à Bíblia parece ter sido alterado. Basta ver algumas declarações como a do historiador Stephen Strauss, em 1988:

“Os arqueólogos agora, geralmente concordam que suas descobertas têm produzido um novo consenso acerca da formação do antigo Israel, o qual contradiz partes significativas da versão bíblica.” 37

O que teria provocado essa mudança de entendimento em relação às Escrituras? Deveriam os cristãos temer declarações como essa, as quais parecem desautorizar o relato bíblico? Existe mesmo um atual “consenso” arqueológico que desmente a Bíblia? Muitos autores incrédulos insistem em apregoar o fim da era Albright na qual a arqueologia, de fato, confirmava as Escrituras. Mas, se analisarmos os bastidores do debate nas últimas décadas, veremos que as coisas não são bem assim. Apesar da escassez de bibliografia existente em língua portuguesa, podemos citar uma importante obra dos anos 70 que é o livro História de Israel, escrito por John Bright, 38 um conceituado professor do Union Theological Seminary, de Richmond, Virgínia, Estados Unidos. No prefácio da terceira edição em inglês (1981), o autor já lamentava a crescente existência de controvérsias onde antes havia consenso. 39 Seu desabafo referia-se a uma série de questionamentos à arqueologia bíblica que vinham especialmente das escolas alemãs. Era no mínimo irônico que o mesmo país que abrigou Lutero e suas idéias de Sola Scriptura houvesse se tornado o maior produtor de correntes liberais e questionadoras do relato bíblico. Após a morte de John Bright, uma quarta edição foi lançada, acrescida de um apêndice escrito por William Brown, que pretendia apresentar uma atualização da pesquisa da história de Israel. Semelhante ao que já havia sido observado por Bright, esse autor também escreveu:

36 W. F. Albright, The Archaeology of Palestine (Hardmondsworth, Inglaterra: Penguin Books, 1949), p. 229. O alto-criticismo ou alta crítica foi um posicionamento acadêmico contra a veracidade histórica da Bíblia que começou a ser mais seriamente defendido durante os séculos XVIII e IXX. Na última metade do século 19, o crítico da Bíblia Julius Wellhausen popularizou na Alemanha a teoria de que os primeiros seis livros da Bíblia, incluindo Josué, foram escritos no 5º século a.C., isto é, cerca de mil anos depois dos acontecimentos ali descritos. Essa teoria foi apresentada na 11ª edição da Enciclopédia Britânica, publicada em 1911,que explicava: “O Gênesis é uma obra pós-exílica, composta de fonte sacerdotal pós-exílica (P) e de anteriores fontes não-sacerdotais, notadamente diferentes de P em linguagem, estilo e ponto de vista religioso.

37 Stephen Strauss, citado por Jesse Long Jr., “Archaeology in Biblical Studies”, Gospel Advocate 12 (1992), p. 12-14.

38 John Bright, História de Israel (São Paulo: Paulinas, 1978). Esse livro foi traduzido da segunda edição inglesa de 1972 e teve várias reedições no Brasil. A última, feita a partir da 4ª edição original, foi lançada em 2003.

39 John Bright, History of Israel (Filadélfia: Westminster Press, 1981).

“Os trabalhos arqueológicos atuais sobre o chamado período ‘bíblico’ siro-palestinense têm sofrido dramática transformação por se divorciarem genericamente da preocupação de demonstrar a historicidade das tradições bíblicas.” 40 Desde então até hoje, o grupo de questionadores da historicidade bíblica tem aumentado e organizado encontros acadêmicos, sempre voltados para uma proposta “revisionista” que pretende reapresentar os fatos antigos, corrigindo ou desmentindo a narrativa das Escrituras. Nos Estados Unidos existe o Jesus Seminar que se reúne periodicamente para questionar a autenticidade dos evangelhos e, na Europa, há o European Seminar for Historical Methodology, cujo intento é reescrever a história de Israel, descartando a Bíblia como fonte confiável.

3.5. Maximalismo versus minimalismo

Essa controvérsia gerou duas posturas conhecidas no meio acadêmico como maximalista e minimalista. Pela primeira, entenda-se aquela visão tradicional que se sente suficientemente satisfeita com as evidências já desenterradas e não questiona a Bíblia com base apenas no que ainda não foi encontrado. Já a segunda, minimalista, tende a supor que tudo que não é minuciosamente corroborado por evidências contemporâneas aos eventos relatados deve ser corrigido ou abandonado. Noutras palavras, não basta a Bíblia dizer que houve um profeta chamado Isaías. Se não acharmos nada daquela época (fora do texto bíblico) que mencione explicitamente o nome desse personagem, a historicidade do mesmo deve ser automaticamente questionada. É mais coerente supor que se trate de um mito. Imagine agora que esse mesmo raciocínio seja aplicado aos livros de História Geral que possuímos em nossas bibliotecas. É bem provável que 90% do que conhecemos tivesse de ser revisto ou questionado pelos critérios minimalistas. Afinal, ninguém até hoje encontrou um testemunho arqueológico contemporâneo que confirme, por exemplo, a historicidade de Sócrates. Fora os escritos gregos de seus discípulos (Platão, Aristófanes e

Xenofonte), nada há que testemunhe acerca de sua existência e martírio. Seria, portanto, a história desse filósofo um mero mito? Aliás, você sabia que até mesmo as mais conhecidas fontes históricas de Alexandre Magno são baseadas em documentos bastante tardios? Não há registros do 4º século a.C. que confirmem sua presença ou de seu exército na Índia ou sequer, mencionem sua existência e seus feitos. As mais antigas fontes sobre a vida de Alexandre que conhecemos datam de 300 a 800 anos

40 Willian Brow, “Uma Atualização na Pesquisa Histórica de Israel”, em John Bright, História de Israel (São Paulo: Paulus, 2003), p. 553, nota 1.

depois de sua morte. 41 Além disso, muitas delas são reconhecidas mitológicas e não estão preservadas nos manuscritos originais, mas em cópias tardias posteriores ao 2º século d.C. Por que, então, dizer que Alexandre é histórico e Abraão é um mito? Não pensemos, contudo, que esse debate seja algo novo. Basta voltar um pouco na história, após o Iluminismo alemão do século XVIII, e rever as teses da alta crítica levantadas em Tübingen por Ferdinand C. Baur (1792-1860) e em Göttingen por Julius Wellhausen (1844-1918). Influenciados pela filosofia dialética de Hegel, 42 esses autores ensinavam, dentre outras coisas, que Paulo não foi o autor da maioria das epístolas que levam o seu nome, que o evangelho de

João seria um pseudoepígrafo do 2º século d.C., que o Pentateuco não passa de uma compilação tardia de textos feita a partir do 6º século a.C. e, finalmente, que a narrativa dos evangelhos não

é uma fonte histórica confiável acerca de Jesus Cristo. Naquele tempo, a Europa passava por uma tremenda sobrevalorização do racionalismo

a qualquer forma de compreensão sobrenatural da história. Um conceito bem difundido era: Não

existe um controle divino dos acontecimentos, tudo está nas mãos dos homens e o destino do mundo é decidido por governantes comuns. A razão humana tornou-se, então, o padrão definitivo

e a fonte do conhecimento, enquanto a Bíblia, registro infalível da revelação divina na história, passou à alcunha de coleção de mitos, sem nenhum valor histórico. O estranho é que todo esse intelectualismo arrogante dos pensadores europeus não conseguiu livrar seu continente da I e II Guerras Mundiais. O “super-homem” de Nietzsche idealizou um sistema sem Deus onde ele mesmo controlaria seu próprio destino. Porém, como uma criança mimada que foge de casa, bastou a primeira sensação de fome para a humanidade descobrir que não tem autonomia sobre as rédeas da história. Precisamos de Deus e isso é um

fato!

Mas o homem moderno tende a ser obstinado em sua teimosia. Não obstante os fracassos racionalistas visualizados na pós-modernidade (crises ecológicas, esfacelamento familiar, relativização da verdade, etc.), muitos ainda insistem em se comportar como herdeiros

41 As mais antigas fontes históricas que mencionam Alexandre Magno são: Anabasis de Alexandre, escrita por Arriano Xenofonte (c. 90-170 ou 96-160 d.C.), Quintus Curtius (data incerta, mas que os especialistas apontam como não anterior ao 5º século d.C.), Plutarco (c. 46-100 d.C.), Justino (c. do 2º século d.C.) e, finalmente, Deodoro (c. 1º século d.C.).

42 P. C. Hodgson argumenta que Baur havia produzido suas idéias antes de conhecer as obras de Hegel. Porém, Edwin Yamauchi discorda desse pensamento, ao declarar que a filosofia de Hegel já havia sido difundida na Alemanha muito antes de Baur começar a expor sua tese e que a semelhança de pensamento entre ele e o filósofo teria sido mais que uma simples coincidência. Cf. P. C. Hodgson, The Formation of Historical Theology: A Study of F. C. Baur (Nova York: Harper and Row, 1966), e E. Yamauchi, Las Escavaciones y las Escrituras (Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1977), p. 202.

intelectuais do Iluminismo. Lêem a Bíblia com os óculos do ceticismo e ensinam o povo a fazer o mesmo.

Os minimalistas de hoje repetem as mesmas teses do criticismo alemão, esquecendo- se que, já no passado, intelectuais de Tübingen tiveram de rever alguns posicionamentos antibíblicos que acabaram se desmoronando à luz das evidências arqueológicas. Vejamos dois casos ilustrativos. No auge do movimento de “desmitologização” da Bíblia, que pretendia expurgar tudo

o que não era considerado histórico nas páginas do livro sagrado, os críticos ensinavam que a arte

de escrever não se cultivara entre os israelitas senão a partir do 10º século a.C., nos dias de Davi, portanto. Até essa época, a tradição e legislação de Israel foram apenas orais, de modo que Moisés não poderia ter escrito nada do Pentateuco. Mesmo porque a escrita conhecida em seu tempo era hieroglífica e pictográfica; não possuía vocabulário suficiente para um texto tão rico como o Gênesis.

As escavações, no entanto, vieram demonstrar o contrário. Hoje sabemos que a escrita

é muito mais antiga do que se pensava. Ela datava de quase mil anos antes de Moisés. A descoberta

de vastas bibliotecas pré-abraâmicas em Ereque, Lagash, Ur, Kish, Babilônia e outras cidades demonstrou que já pelo terceiro milênio antes de Cristo os sistemas gráficos estavam em uso corrente, produzindo livros, anais e documentos, o que torna perfeitamente possível a autoria mosaica do Pentateuco. Wellhausen e seus discípulos também afirmavam que o Pentateuco, em sua maior parte, era uma compilação de textos tardios posteriores ao 9º século a.C. Essa teoria é comumente chamada pelos teólogos de hipótese documentária. Ela sustenta que algumas passagens como os capítulos iniciais de Números 1:1 a 10:28 (tecnicamente chamadas de documento Sacerdotal [P]) não teriam sido escritas senão após o cativeiro babilônico, que terminou em 539 a.C. 43 Seu autor, portanto, teria sido Esdras e não Moisés. Assim, os críticos entendiam que a Bíblia seria uma

produção literária bem mais recente do que sustentava a posição tradicional. Embora não houvesse uma evidência concreta para embasar esses pronunciamentos, eles se tornaram o elemento central de muitos comentários bíblicos produzidos na Europa e também nos Estados Unidos. Mas, em 1979, o arqueólogo israelense Gabriel Barkay descobriu num

43 Cf. S. R. Driver, An Introduction to the Literature of the Old Testament (Nova York: Meridian Library, 1957), p. 60 e 61. Quanto a data de produção do document Sacerdotal posterior ao cativeiro, veja Antonio Fanuli, “As ‘tradições’ nos livros históricos do AT. Novas Orientações”, em Problemas e Perspectivas das Ciências Bíblicas, Rinaldo Fabris (ed.) (São Paulo:

Loyola, 1993), p. 13; Oswald T. Allis, The Five Books of Moses (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1949), p. 17.

túmulo do vale do Hinom um minúsculo adorno de prata contendo antigas letras hebraicas. Métodos laboratoriais e de paleografia dataram com segurança o artefato em, pelo menos, 650 anos antes de Cristo. Ou seja, bem antes do início do cativeiro. Isso, aparentemente, nada teria de extraordinário, não fosse a decifração das letras hebraicas impressas no objeto que sacudiu as bases do mundo acadêmico. Tratava-se da benção sacerdotal de Números 6:24-26 com o nome sagrado de Deus (Iahweh) perfeitamente escrito em três diferentes linhas. Para muitos críticos, essa porção do Pentateuco era parte do documento Sacerdotal e não poderia ter sido produzida antes do cativeiro babilônico, porque supunham que foi somente a experiência do exílio que propiciou sua composição. Bastou, porém, um pequeno adorno cunhado por um antigo artesão para mostrar que, novamente, os pressupostos minimalistas estavam errados. O amuleto era de uma época em que os descendentes de Davi ainda estavam no poder e, a essa altura (isto é, no período do Primeiro Templo), o texto já era conhecido do povo. A hipótese documentária de Wellhausen, é claro, foi

obrigada a sofrer algumas revisões e hoje é notória a falta de consenso entre os especialistas do método crítico sobre onde começam e terminam as tais fontes documentárias que supostamente estariam relacionadas com a compilação do Pentateuco. Como bem concluiu Edward Mack, ex- professor do Union Theological Seminary, de Richmond, Virgínia: “A variedade de opiniões é tão grande na atualidade, que não se pode mais falar em ‘Crítica’, mas na realidade em ‘Críticas’ do

Velho Testamento

A unidade dos críticos ainda é um sonho”. 44

3.6. Os Rumos do Debate Atual

Achados que põem em cheque os questionadores da Bíblia criam, não poucas vezes, situações de constrangimento para os críticos. Até mesmo autores simpáticos a Wellhausen, como Sayce e Hommel, foram certa vez obrigados a admitir num congresso de arqueologia que, para o embaraço de muitos, a pá dos arqueólogos tem o “mau hábito” de estar sempre do lado da tradição e nunca da crítica. Por incrível que pareça, quando o assunto é a Bíblia Sagrada, a arqueologia não parece descobrir nada que concretamente possa se pôr como uma contradição ao Antigo Testamento; pelo contrário, quanto mais se escava, mais ela o confirma. 45 E isso não pode ser chamado de exercício tendencioso, pois nem todos os arqueólogos da época eram crentes; alguns duvidavam até mesmo da existência de Deus!

44 Citado por William C. Kerr, Alta Crítica: Avanços e Recuos, texto apresentado no I Congresso de Cultura Religiosa, realizado em janeiro de 1940, do qual li uma reprodução xerográfica, p. 174.

45 Ibid., p. 201.

Contudo, exemplos como esses não parecem intimidar acadêmicos atuais como Israel

Finkelstein e Neil A. Silberman, cujo livro foi traduzido para o português com o tendencioso título de E a Bíblia não Tinha Razão. 46 Baseados no argumento do silêncioe na ausência de um quadro mais completo (pois a maioria dos elementos ainda está perdida), eles constroem um cenário extremamente hipotético, que ignora o relato testemunhal das Escrituras e as evidências até agora encontradas. Sua “reconstrução dos fatos” nega até mesmo a historicidade do reino de Israel sob

o comando do rei Davi. Supõem que os israelitas foram apenas um conglomerado tribal cananita

sem nenhuma expressão social e que jamais teriam partido do Egito em direção à terra prometida. Vejamos as conclusões em suas próprias palavras:

“O processo que temos descrito aqui é, de fato, o oposto do que encontramos na Bíblia.

O surgimento do antigo povo de Israel foi o resultado de um colapso da cultura cananita e não o

que a causou. A maior parte dos israelitas não veio de fora de Canaã. Eles emergiram de dentro

desta terra. Não houve nenhum êxodo em massa do Egito, nem uma conquista violenta de Canaã.

A maior parte do povo que formou o antigo Israel eram moradores locais

eram ironia das ironias – originariamente cananeus!” 47 De fato, não possuímos um elemento de evidência para cada frase escrita na Bíblia. Ninguém ainda encontrou uma pedra que se refira ao rei Saul ou um tablete acadiano que cite o profeta Daniel entre os sábios da Babilônia. Também não temos no Egito nenhum papiro que mencione um governador hebreu chamado José. Mas não devemos ser apressados em concluir com isso que a Bíblia seja mitológica ou inexata em sua narrativa. Passaram-se mais de mil anos até que o arqueólogo Franck Goddio pudesse encontrar o palácio de Cleópatra e realmente confirmar que ele existiu. Até então, os historiadores dependiam de relatos antigos cuja precisão também poderia ser questionada. Quantas vezes perdemos coisas em nossa casa e passamos meses sem as encontrar? Até que numa bela manhã, em que geralmente estávamos procurando outra coisa, encontramos o velho objeto que estava perdido. Seria lógico, durante o período do “sumiço”, simplesmente acreditar que tal objeto nunca existiu? É claro que não. Desaparecimento não é sinal óbvio de inexistência! Guerras, sobreposição de camadas, ladrões de túmulos e a própria ação do tempo fizeram com que muito material histórico se perdesse para sempre. Logo, quem teria mais crédito diante de um julgamento forense? O autor do Êxodo, que viveu na época e se declara testemunha

Os israelitas primitivos

46 O título original é The Bible Unearthed: Archaelogy´s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts (Nova York: The Free Press, 2001).

47 Ibid., p. 118.

ocular dos fatos ali mencionados, ou Finkelstein, que tenta reconstruir a história, milênios depois de ela ter ocorrido? Na minha opinião, a narrativa bíblica tem mais elementos a seu favor que a teoria dos minimalistas. Se voltarmos o holofote do ceticismo para essas “reconstruções” hipotéticas que procuram desmentir as Escrituras, faremos com que esses autores experimentem o amargo de suas próprias concepções. Afinal, como alguém pode ser tão detalhista na apresentação de uma história da qual ele não fez parte e ainda se nega a ouvir as testemunhas? Seu depoimento seria, no mínimo, duvidoso. E mais, onde estão os achados que confirmem, por exemplo, que o êxodo nunca ocorreu? Ora se a África produzisse um livro sagrado dizendo que os negros um dia foram escravos na China e que foram eles que construíram a Grande Muralha e essa história fosse uma mentira o que deveríamos esperar? O óbvio: uma versão chinesa contemporânea que desmentisse aquele relato, especialmente se ele terminasse contando a derrota dos guerreiros imperiais de Xian morrendo afogados, enquanto os negros escapavam ilesos sob o comando de um profeta de Deus. Nenhum chinês iria permitir a propagação de um mito africano em que seu povo figurasse como carrasco e perdedor, a menos, é claro, que aquela história fosse verdadeira e não houvesse como esconder os fatos, pois todos os contemporâneos teriam tomado conhecimento dele. Aí sim, o silêncio teria sido a melhor estratégia! Portanto, a falta de documentos egípcios que descrevam o Êxodo ou neguem sua ocorrência está mais a favor do relato bíblico do que da versão minimalista. O Egito, lembremos, continuou como um poderoso império durante o cativeiro babilônico (época em que, segundo esses autores, o relato do Êxodo teria sido forjado). Por que, então, ficariam calados diante da propagação dessa história? Por que não a desmentiram? Jamais os minimalistas conseguiram apresentar um único texto antigo mesmo dentre as bibliotecas inimigas de Israel que desmentisse uma assertiva histórica feita pela Bíblia. Não é por menos que eles mesmos se contradigam tanto em suas opiniões e “reconstruções” da história. Enquanto alguns minimalistas descrevam os israelitas como oriundos das montanhas, outros insistem que tudo começou nos vales de Canaã. Para determinado grupo de autores, as origens de Israel estariam numa rivalidade tribal entre povos cananeus, mas, para outros, tudo se desenvolveu em meio a uma “retirada pacífica” ou um “nomadismo interno”,

completamente desprovidos de conflitos tribais. 48 Como aconteceu à escola de Wellhausen, novamente vemos a idéia de consenso dissolver-se em meio às releituras do minimalismo. Atualmente existem autores que chegam a propor o fim da expressão “arqueologia bíblica”. Eles argumentam que isso poderia ofender o povo árabe que não se sentiria bem em ajudar a confirmar outro livro sagrado que não seja o Alcorão. Pode até ser que por uma questão de prudência evitássemos o uso dessa expressão em zonas de conflito. Contudo, o problema é que os próprios proponentes também desacreditam que se possa encontrar algo que valide o texto bíblico. Ademais, eles sugerem alternativas dúbias ou pouco expressivas como “arqueologia da palestina”, “arqueologia siro-palestina” ou “arqueologia do Oriente”. Esse debate em torno da nomenclatura ideal chegou a ter destaque num artigo d H. Shanks, editor da Biblical Archaeology Review, que, 49 infelizmente, não parece ter posto fim à questão. Por outro lado, porém, independente do nome que se queira dar, ainda persiste o fato de que a arqueologia tem oferecido um tremendo auxílio na confirmação, estudo e compreensão da Bíblia Sagrada. Para evitar maiores fantasias seria importante conhecer como funciona o trabalho arqueológico. Trata-se de uma metodologia séria, complexa e com imensos desafios. Ela não responde a todas as perguntas, mas é uma excelente ferramenta para a fé. Afinal, o que se descobre não são as peças de um relato impessoal, mas os fragmentos da ação de Deus na história humana.

48 Um bom resumo das posturas atuais pode ser encontrado em Airton José da Silva, “A História de Israel na Pesquisa Atual”, em Jacir de Freitas Faria [org.], História de Israel e as Pesquisas Mais Recentes (Petrópolis: Editora Vozes, 2004), p. 43-87.

49 Hershel Shanks, “Should the Term ‘Biblical Archaeology’ Be Abandoned?”, Biblical Archaeology Review 7 (1981), p. 54-57.

4.

CONCLUSÃO

CAPÍTULO IV

Tudo quanto dissemos até agora sobre a Bíblia Hebraica, o Velho Testamento da Bíblia cristã, procuramos resumir no quadro comparativo que leva o nome de Origens das Traduções Modernas da Bíblia. Este quadro tem o propósito de facilitar a compreensão do tema,

esquematizando-o em linhas gerais. Insistimos no fato de que não estamos cuidando de pormenores, mas apenas queremos realçar os grandes passos que já foram dados no penoso trabalho de buscar textos bíblicos sempre cada vez mais próximos dos originais. Este capítulo é, pois, uma explicação deste quadro. Não possuímos os originais dos manuscritos hebraicos antigos, mas apenas cópias deles separadas tanto no tempo como no espaço, foram eles sendo copiados através dos séculos por homens às vezes descuidados, é verdade, mas, felizmente, muitas vezes por pessoas zelosas em sua tarefa piedosa. Segundo a tradição judaica, foi no tempo de Esdras que se completou o cânon sagrado do Livro de Deus, isto é, do conjunto de livros que integram a Bíblia Hebraica e, conseqüentemente, o Velho Testamento das Bíblias evangélicas. Destes antigos manuscritos hebraicos procedem também as cópias dos livros sagrados que foram descobertas em 1947 entre

os Manuscritos do Mar Morto.

Desta Bíblia Hebraica procedeu a tradução grega que ficou conhecida pelo nome de Septuaginta (LXX), e que foi a primeira feita para outra língua. Esta LXX transformou-se na Bíblia por excelência dos judeus da dispersão e no Velho Testamento do cristianismo nascente. Sua

tradução foi feita em Alexandria e tinha o propósito de conservar unidos os judeus distantes da pátria, que não sabiam mais falar a língua materna. Ela se transformou numa obra de suma importância para os estudos das coisas sagradas, tanto de judeus como de cristãos. Por causa de algumas oposições ao cânon de Esdras, especialmente após a queda de Jerusalém em 70 d.C., os judeus que permaneceram na Palestina compreenderam ser preciso eliminar de vez por todas as dúvidas e oposições que existiam a respeito do antigo cânon. O resultado foi a convocação do Concílio de Jâmnia entre os anos 90 a 118 d.C. no qual, após ser discutido e estudado o assunto com todo o zelo judaico, ficou confirmado o cânon dos tempos de

Esdras e se proibiu o acréscimo ou a supressão de qualquer dos seus livros. Mais do que isto, com

o propósito de assegurar uma transmissão correta da Bíblia Hebraica, o mesmo Concílio

estabeleceu regras para a transcrição destes livros sagrados, legando-as aos massoretas tanto da Babilônia como da Palestina. Mais famosa do que estas duas, se tornou a Escola de Tiberíades, cuja vocalização ganhou as simpatias gerais e relegou as duas primeiras ao abandono. Entrementes, o cristianismo já sentia a necessidade de novas traduções da Bíblia, desta vez para o latim, língua que se ia espalhando cada vez mais pelo Império Romano. Para satisfazê- la, apareceu a Vetus Latina e, finalmente, no fim do século IV e princípio do V de nossa era, a monumental tradução feita por São Jerônimo, a Vulgata. Para a execução deste trabalho, Jerônimo baseou-se especialmente na Bíblia Hebraica, mas usou também a LXX e, por causa desta influência grega e a pedido de algumas pessoas amigas, traduziu também livros que não constavam do cânon hebraico, chamando, porém, a atenção para este fato. Foi a Vulgata a Bíblia mais usada durante toda a Idade Média, tendo sido a primeira a ser impressa por Gutenberg. Durante a Contra-Reforma, a Igreja Católica terminou por adotá-la oficialmente como seu texto exclusivo, incluindo os livros apócrifos a dando-lhes o nome de deuterocanônicos. Isto se deu no Concílio de Trento (1545-1563). Devido aos erros praticados por copistas apressados, Roma dedicou-se intensamente à busca dos melhores textos da Vulgata que existiam, aprimorando-os quanto possível, realizando o trabalho admirável das edições Sixtina e Sixto-Clementina que passaram a servir de base para as traduções católicas desde então. Como resultado dos esforços feito pelo Cardeal Ximenes, da Espanha, no ano de 1520 veio à luz a primeira Bíblia Hebraica publicada pelos cristãos, a chamada Bíblia Poliglota Complutense, nome que lhe foi dado porque continha os textos da Bíblia Hebraica, da LXX, da Vulgata latina e da Siríaca, e por ter sido feita em Complutum, antigo nome da cidade Alcalá, onde foi impressa. Seu valor reside, como dissemos, no fato de ter sido a primeira Bíblia cristã a publicar o texto hebraico, reconhecendo, portanto, a importância deste texto para qualquer estudo mais profundo das Sagradas Escrituras. Voltando à Escola de Tiberíades, notamos que dela procederam dois ramos, ambos se destacando pela clareza com que vocalizaram seus textos sagrados: o da família dos Ben Asher e

o da família dos Ben Naftali, sendo que este último foi suplantado pelo primeiro. Os mais lídimos representantes dos Ben Asher foram Moisés e seu filho Aarão, tendo este último produzido em 930

o mais perfeito códice que se conhece, o Códice de Alepo. Felizmente, porém, depois de ser dado

como perdido, foi encontrado e está em Israel que o deseja usar como texto oficial das Bíblias Hebraicas modernas. Não possuímos o Códice de Alepo, os zelosos guardadores da Bíblia usavam o melhor texto até então conhecido e que era o de Moisés Ben Asher, escrito em 895 e conhecido pelo nome

de Códice de Cairo dos Profetas. Jacó Ben Chayyim usou este texto quando publicou a Bíblia Hebraica em 1525 e, depois de passar pelas sucessivas revisões de Amsterdam, Von der Hooght e Letteris, foi o preferido pelas Sociedades Bíblicas que surgiram a partir do século passado. Rudolf Kittel, no princípio do nosso século, dedicou-se à publicação da Bíblia Hebraica e lançou mão do texto de Jacó Ben Chayyim, o melhor que se conhecia. Após a segunda edição desta Bíblia, seus discípulos fizeram uma descoberta sensacional na Biblioteca de Leningrado, a de uma cópia do texto de Aarão Ben Moisés Ben Asher, isto é, de uma cópia do Códice de Alepo, onde tinha a sigla B19a. Kittel exultou quando pôde publicar sua terceira edição baseada nesta cópia. Esta Bíblia, da sua terceira edição em diante, se tornou famosa por conter uma massorá que permite um estudo mais profundo do texto sagrado. Resumindo, podemos dizer que o quadro do Velho Testamento das nossas Bíblias, até a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, era o seguinte: tínhamos cópias da LXX, da Vulgata, dos Códices de Cairo dos Profetas e de Leningrado, este último representado pela Bíblia de Kittel. Todas elas são, respectivamente, dos séculos III-II a.C. e IV-V d.C., e dos anos 895 e 1009 da nossa era.

A longa história de cada uma destas traduções e cópias já permitia dar à Bíblia um valor indiscutível quanto à correção do seu conteúdo porque, embora houvesse variantes, quando estudadas em conjunto, não continham trecho algum que justificasse qualquer dúvida a respeito de assuntos doutrinários ou de teologia necessários para o conhecimento do homem que, como pecador, busca a salvação. Contudo, no seu hábito de sempre criticar o Livro Sagrado e de procurar nele erros a qualquer preço, houve alguns que continuaram a lançar dúvidas quanto ao seu conteúdo, afirmando, inclusive, que não se podia dar à Bíblia o valor que os fiéis conservadores lhe davam porque estaria cheia de erros de copistas, como era o caso da Vulgata, quando foi adotada oficialmente pela Igreja Católica. Quem poderia provar a inexistência deles? Estava, pois, pensavam eles, prejudicada a veracidade do Livro de Deus. Era este o pé em que se encontrava a questão quando, em 1947, vieram à luz os manuscritos do Mar Morto. Podemos bem imaginar a ansiedade com que céticos e crentes passaram a aguardar os resultados dos estudos destes manuscritos mil anos mais antigos do que o mais antigo que tínhamos até então. O resultado foi francamente favorável à Bíblia porque tudo quanto se descobriu veio apenas confirmar plenamente os textos até então conhecidos. Além de colocar em nossas mãos cópias muito mais antigas, que se apresentavam praticamente iguais às mais recentes que possuímos, os Manuscritos do Mar Morto fizeram ainda

uma outra contribuição não menos importante que foi a de fornecer recursos que nos permitem

ter um conhecimento muito mais profundo da língua que se falava nos tempos em que Jesus Cristo

andava aqui na Terra, conhecimentos estes que nos levam a compreender melhor o texto das

Escrituras.

Se considerarmos que tanto estes Manuscritos do Mar Morto como as cópias dos Ben

Asher são, por sua vez, transcrições de textos ainda mais antigos, temos de chegar à conclusão

que o trabalho de todos estes copistas, desde os tempos de Esdras e Neemias até o dos essênios e

massoretas, é simplesmente extraordinário. Em resultado dele, a verdadeira crítica bíblica,

aquela que é feita no sentido de buscar o autêntico, viu chegar às suas mãos um material

valiosíssimo que está contribuindo decisivamente para confirmar ainda mais a fé depositada no

Livro Sagrado pelos que nele confiam. Estas descobertas nos deram ainda maior certeza de que a

mão poderosa de Deus sempre protegeu Seu livro e sempre o protegerá.

Concluindo, no que diz respeito ao Velho Testamento, podemos dizer que as revisões

modernas que estão surgindo tão seguidamente, têm à sua disposição, observando a ordem do

nosso quadro, os seguintes textos mais antigos: a LXX, a Vulgata, os vários textos da Bíblia

Hebraica chegados até nós, a Bíblia Poliglota Complutense e outras semelhantes, os Códices de

Cairo dos Profetas, de Leningrado, de Alepo e outros, e, por fim, os descobertos e extraordinários

Manuscritos do Mar Morto, vindo à luz nos nossos dias, a partir de 1947.

Bem que Cristo disse: “Se eles se calarem, as próprias pedras [os resultados da

arqueologia] clamarão!” Lc. 19:40.

Obras:

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Tot sunt exemplaria paene quot códices”, cf. Kuntz, em Church History (Funk & Wagnalls Company, New York, 1888), Vol. I, p. 208.

“Legit quidem ecclesia, sed inter canônicas scripturas non recipit

legat ad aedificationem plebis

sed non ad auctoritatem dogmatum conformandam.” Kuntz, Obra citada, p. 371.

“Quidquid extra hos est, inter Apocripha ponendum.” Kuntz, Obra citada, p. 37.