A Copa do Mundo é nossa?

Vai ter Copa e será no Brasil anunciavam na TV com grande alegria, em 2009, o
Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo da FIFA (da FIFA, para que ninguém
se esqueça). Já naquela época, houveram olhares reticentes, alguns não criam na
capacidade do país de organizar esse evento agora, outros discordavam da necessidade
desse evento em um país com tantas necessidades, mas a maioria de nós estava feliz,
feliz porque esse é o “país do futebol” e a Copa seria aqui, poderíamos então ver os
jogos de perto, e também era sinal que o país estava crescendo, se desenvolvendo,
finalmente deixando de ser o “país do futuro” para ser desenvolvido hoje, somos
naturalmente otimistas.
Só que as coisas não aconteceram como se esperava, nem como o governo
esperava, nem como a FIFA esperava e muito menos como os brasileiros esperavam.
Primeiro, para Copa acontecer era preciso saber onde, o Brasil é um país imenso, então
as grandes cidades começaram a lutar pelo posto de “cidade-sede”, algumas escolhas
eram óbvias, como o Rio de Janeiro (todo mundo já sabia que o Maracanã seria palco da
final ... faz 64 anos que o brasileiro sonha com a revanche da Copa de 50), pois bem,
outras escolhas não eram assim tão simples, cidades importantes mas, que não tem
tradição no futebol foram escolhidas (Brasília, maior exemplo disso) e, para agradar a
todos, as sedes foram espalhadas por todo o país, isso é bom porque dá a chance de
brasileiros de todas as partes do país assistirem a Copa de perto, mas “E depois da
Copa?”, começaram a se perguntar alguns, “O que se fará desses estádios?”. São os
chamados “elefantes brancos”, grandes, caros e sem utilidade. A Copa começava a dor
de cabeça.
Mas, não era só ela que inquietava os brasileiros. Um país em desenvolvimento
naturalmente tem áreas que precisam se desenvolver e a população naturalmente cobra
isso do governo e essas reivindicações explodiram na metade de 2013, a princípio
manifestantes contrários ao aumento da passagem de ônibus em São Paulo saíram as
ruas, bloquearam o tráfego, houve confronto com a polícia, mas em vez de ser
reprimido o movimento se fortaleceu e se espalhou. Cada vez mais gente se juntou nas
manifestações e outros temas foram levantados como saúde, educação e segurança, o
povo desconte foi às ruas em todo país. O governo respondeu de maneira estabanada,
parecia não entender o que estava acontecendo, e boa parte dos manifestantes também
parecia não saber o que fazer, havia um clamor por mudanças imediatas, mas que
mudanças? Mudanças em tudo. As pessoas começaram a se questionar porque milhões
eram gastos em estádios e a saúde pública continuava caótica (e o Ronaldo ter dito que a
Copa não se faz com hospitais só colocou mais lenha na fogueira).
A ideia inicial do governo era construir muito mais que estádios era ao mesmo
tempo oportuno e necessário desenvolver a infra-estrutura do país, aeroportos, portos,
estradas, as chamadas obras de mobilidade urbana, foram alardeadas como maior legado
da Copa. Jesus falou em uma de suas parábolas: “Pois qual de vós, querendo edificar
uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que
a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a
podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele,
Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar.” – Lucas 14.28-30. Jesus
falou sobre um homem que começou a construir uma torre, mas não fez as contas para
saber se tinha como terminá-la, resultado: não terminou a obra e todos zombaram dele.
Parece que essa é uma lição que ainda precisamos aprender. Dos 12 bilhões prometidos
para obras de mobilidade urbana em 2012, apenas 8 estão previstos no orçamento atual
e 18 ações foram retiradas da Matriz de Responsabilidades (10 só em Porto Alegre.
Manaus nem receberá obras de mobilidade).
Com o atraso nas obras a poderosa FIFA começou a repensar a escolha do Brasil
como sede e fez críticas ao país, aliás, Jérôme Valcke, secretário-geral da organização,
virou praticamente uma persona non grata para todo o país, pelas duras e constantes
críticas que fez ao andamento da preparação para a Copa. A FIFA fez também muita
pressão para a aprovação do que ficou conhecido como “Lei Geral da Copa”, que em
linhas gerais concede os pedidos abusivos da FIFA, tais como liberação do comércio de
bebidas alcoólicas nos estádios e arredores durante a Copa (isso é proibido no Brasil,
por razões óbvias, mas como a FIFA é patrocinada por uma marca de cerveja...),
restringiu as gratuidades e meia-entrada nos estádios, delimitou áreas de restrição
comercial (onde só quem é autorizado pela FIFA pode vender, assim, o Mac Donald’s
pode ficar tranqüilo que seus lucros não serão reduzidos pelos “temíveis” vendedores
ambulantes, pessoas simples que tinham a esperança de ganhar um pouco a mais com a
Copa), concessão de vistos de entrada para qualquer um que tenha comprado um
ingresso para a Copa (será que se eu comprar um ingresso para a final do Super Bowl eu
ganho um visto para os Estados Unidos?), feriados na Copa e férias escolares que
seguem o calendário da FIFA (sim, a FIFA conseguiu fazer o governo parar as aulas na
rede pública e privada durante a Copa. Como resultado os alunos de escolas públicas
que já sofrem com as muitas deficiências do sistema educacional brasileiro tem o
conteúdo, atrasado em virtude das greves, despejado sobre eles, tudo para que as aulas
acabem antes de 12 de junho). E a lista prossegue, é preciso ler para crer.
E por quê a FIFA está assim tão interessada na aprovação dessas leis e no término
das obras? As leis dão autonomia à entidade sobre o evento e as obras garantem que
haja uma evento. Mas a Copa tem toda essa “atenção” da FIFA porque a maior parte da
sua bilionária receita vem do mundial. Nem sempre foi assim, em 1930, ano do primeiro
mundial, 85% da receita da FIFA vinha de seus associados (hoje esse percentual é de
menos de 1%). Na Itália, em 1990, a FIFA arrecadou 57 milhões de dólares com a Copa
do mundo, com a Copa da África do Sul a FIFA teria lucrado quase 600 milhões de
dólares e no Brasil o ganho deve ser ainda maior.
Mas, não é só a FIFA que está lucrando muito com o futebol, além das empresas
que investem no esporte, me chama muito a atenção de quanto os jogadores estão
ganhando hoje em dia. Eles ganham 20 vezes mais do quê nos anos 1980 e são vendidos
por centenas de milhões de dólares quando mudam de clube (sempre achei estranho isso
de “vender jogador”, para mim soa como se a lealdade de alguém estivesse à venda, e
pudesse ser comprada por algo tão sem valor como dinheiro.). Com a
“profissionalização”, o futebol virou um grande e lucrativo negócio. A FIFA apenas é a
dona do show, e nas modernas definições da administração, uma organização existe
para dar lucro aos seus acionistas, se o futebol é apenas um espetáculo, então como
podemos acusar a FIFA de lucrar o máximo possível com o futebol, não importa os
custos? Se concordarmos que o esporte se trata apenas de uma competição egoísta, onde
vencer é o que importa, e o lucro é a base de sustentação, então seríamos obrigados a
concordar com essas práticas da FIFA. Mas, o esporte é mais que um negócio, o futebol
é mais que isso.
Se vai ter Copa? Claro que vai. Aos trancos e barrancos os estádios foram
construídos, algumas obras de mobilidade terminadas (e se elas são o legado para a
população depois da Copa, é mais importante que elas terminem, do que ficarem
prontas para Copa), estrutura montada, seleções desembarcando, o palco está armado e
o show vai começar. E vai acontecer apesar das justas manifestações contrárias a falta
de critério de investimento do governo, apesar da greve no metrô em São Paulo (aliás há
uma medida provisória que proíbe greves no período de três meses antes da Copa até o
fim do evento.) e, apesar dos muitos descontes.
E no fim das contas, qual vai ser o legado da Copa? Ficarão as obras de
mobilidade, sim, afinal de contas, foram investidos bilhões de reais nesse setor, mesmo
que não fique pronto a tempo, elas devem sair do papel, é importante mencionar a forte
campanha e as ações tomadas contra a prostituição infantil e contra o racismo, ficam os
estádios, o dinheiro arrecadado com o turismo e com os turistas, fica a emoção de ver a
Copa de perto. Mas, ficam também os transtornos causados pelas obras incompletas, os
“elefantes brancos”, e a sensação de que muita coisa precisa mudar em nós, como
pessoas, e ao nosso redor para que o Brasil se desenvolva. Fica também o aprendizado,
precisamos aprender com a Copa, crescer com os nossos erros, aprimorar os acertos,
dentro de dois anos receberemos as olimpíadas e depois disso espero que reflitamos
muito mais antes de querer sediar um grande evento.
É curioso esse momento em que “torcer pelo Brasil” e “torcer pela seleção
brasileira” não significam a mesma coisa. “Torcer pelo Brasil” significa torcer para que
o Brasil cresça não só economicamente, mas socialmente, investindo em pessoas não
em monumentos, o principal patrimônio do Brasil são os brasileiros, precisamos cuidar
mais de nossa população, agir com responsabilidade (financeira, social, ecológica ... ) só
assim nos desenvolveremos enquanto nação. “Torcer pela seleção” significaria torcer
para o time brasileiro ganhar (gosto bastante da seleção, apesar dos jogos fracos que
vem fazendo), mas receio que se o Brasil ganhar tudo vire festa, e os custos e lições da
Copa sejam esquecidos em meio a folia e à ressaca do dia seguinte ... se assim for o que
nos restará além da réplica de uma taça? (Sim, a réplica, a original é da FIFA). No fim,
a Copa do mundo é aqui, mas nem ganhando ela é nossa.
Sabe qual o encanto do Futebol? E que é só a bola rolar para os sorrisos se
abrirem. No futebol você não precisa ser alto (nada contra o Basquete, gosto muito
também), não precisa ser baixo, não precisa ser bonito, não precisa ter um físico muito
desenvolvido, não precisa nem mesmo ser bom de bola (soa diferente, mas a verdade é
que existem posições em que você pode jogar bem sem precisar ser um Pelé). Claro, o
futebol pode não ter a elegância do Tênis, mas um time de futebol deve ser tão elegante
como um corpo em movimento, onde cada jogador é uma parte desse corpo, com
funções diferentes, mas todos importantes, o futebol é fundamentalmente coletivo. E
para o futebol acontecer não precisa ter grandes estádios, gramado artificial, vestiários
de luxo e centenas de câmeras e holofotes. Basta um campo de terra batida, uma bola de
meia, e duas chinelas gastas, para servirem de gol e, é claro, amigos de verdade.
Podemos pensar sobre o quanto é gasto e quanto se lucra com a Copa do Mundo, mas se
olharmos da maneira certa, perceberemos que a pelada no fim de semana vale mais que
a final da Copa do Mundo, porque é melhor jogar com os amigos, que assistir estranhos
jogarem. É incrível assistir grandes jogos, mas a graça do futebol está na simplicidade.
Referências
Todas as páginas foram acessadas dia 10/06/2014:
http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-deve-arrecadar-r-10-bilhoes-com-a-
copa-do-mundo-de-2014,1012697
http://www.brasilpost.com.br/2014/03/21/fifa-recorde-faturamento_n_5008292.html
http://achadoseconomicos.blogosfera.uol.com.br/2013/07/22/futebol-craques-de-hoje-
ganham-ate-20-vezes-mais-que-idolos-de-1980-compare/
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/06/130626_copa_gastos_ru.shtml
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_269590.shtml
http://www.contasabertas.org/WebSite/Midias/DetalheMidias.aspx?Id=2627&AspxAut
oDetectCookieSupport=1
http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/7899
http://www.portalpopulardacopa.org.br/index.php?option=com_k2&view=item&id=230
:lei-geral-da-copa-um-%E2%80%9Cchute-no-traseiro%E2%80%9D
http://www.copa2014.gov.br/pt-br/noticia/lei-geral-da-copa-e-aprovada-e-segue-para-
sancao-presidencial
http://www.copa2014.gov.br/sites/default/files/publicas/lei-geral-redacao-final.pdf
http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2012/02/09/senadores-querem-criar-
barreiras-para-greves-durante-a-copa-do-mundo-de-2014.htm

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