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Bravo, minha senhora!

Sérgio de Andrade, Jornalista

Nos maus velhos tempos do


"antigamente", as mulheres
sabiam qual era o seu lugar. Em
casa, naturalmente! Havia uma
figura chamada "chefe de família"
(o homem, claro) e, portanto, elas
não seriam mais do que
"subordinadas". Havia áreas que
em absoluto não lhes competiam,
como a política ou o exercício de
profissões "incompatíveis" com a
condição feminina. Por isso, seria
impensável ver mulheres a
presidir a tribunais, a conduzir
transportes públicos ou a ser
agentes de Polícia. Porque as
mulheres não tinham capacidade
para isso, nem para decidir por si
próprias. Assim, só podiam ir ao
estrangeiro, sozinhas, se
formalmente autorizadas pelos
maridos, e o voto estava limitado a
um pequeno número de
licenciadas, essas já com
capacidade intelectual suficiente
para escolher entre o partido único
e o partido único (os homens não
precisavam de "canudo", pois a
sua capacidade de decisão era
inata, não adquirida na
Universidade).

Mas hoje é o que se vê, com as


mulheres instaladas em tudo o
que é sítio e oficialmente
autorizadas a pensar pela sua
própria cabeça. E foi por causa
disso que aconteceu o escândalo
de que alguns órgãos de
Comunicação Social se
apoderaram gulosamente. É que,
sendo o dr. António Costa um
membro influente do Partido
Socialista e ex-ministro, a sua
esposa é professora - e,
calcule-se!, aderiu à gigantesca
manifestação do dia 8. Convidado
a pronunciar-se sobre semelhante
escândalo, o pobre dr. António
Costa não foi capaz de mais do
que dizer que não comenta a sua
vida privada e muito menos a da
esposa e que já há largo tempo
que os direitos políticos se

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tornaram extensivos às mulheres.

Na realidade, alguém achará que


o dr. António Costa devia impor
em casa o princípio da disciplina
de voto? Dentro do Governo,
quem não pensar como o
primeiro-ministro já sabe onde fica
a porta. Nos órgãos partidários do
PS, quem pisar o risco pode
contar com pelo menos a entrada
no limbo. Mas ainda não
chegámos ao ponto de os partidos
exigirem aos seus dirigentes que
os cônjuges sejam da mesma
militância. Ou, até, que não o
sendo, guardem as suas
discordâncias políticas para o
reino do tálamo. Se a esposa do
dr. António Costa, chegado o
momento da decisão, optou pelos
interesses da sua profissão e não
pelos interesses partidários do
marido, o que é que se pode
dizer? Pela minha parte, digo
bravo, minha senhora!

Sérgio de Andrade escreve no JN,


semanalmente, às terças-feiras.

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