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A aula de hoje é dedicada à análise do artigo 31º LEO, relativo à

problemática dos cavaleiros de lei reforçada, ou seja, matérias não


especificamente orçamentais.
Cabe então perguntar o que podemos considerar como matéria
especificamente orçamental. Se se considerar que a provisão de
receitas/despesas públicas deveria integrar o Orçamento de Estado
(adiante OE), no limite, com uma leitura tão ampla qualquer
matéria poderia fazer parte do OE. Todavia, a Doutrina não
interpreta assim tão amplamente - diz tratar-se de uma questão
intuitiva (recurso à intuição),logo:
 Matérias ligadas à prática orçamental (à execução orçamental-
matérias propriamente orçamentais).
Quanto às matérias ligadas à política económica e financeira do
Estado (campo movediço – cairíamos na tal leitura ampla).

Nas alíneas a) a p) do art. 31º somos confrontados com um


elenco de matérias.
Um parêntesis: a alínea p) tem carácter residual
(“indispensáveis”).

O que deve fazer parte do articulado? Os números 1 e 2 do art.


31º.
Tudo o que estiver de fora deve ser considerado cavaleiro de lei
reforçada.

E nas matérias elencadas não podemos ter cavaleiros? Do elenco


devem fazer parte cavaleiros tornados obrigatórios por força do
nº1 do 31º. Desta feita, é preciso reflectir sobre o carácter
especificamente orçamental (alínea a alínea).

Dentro dos cavaleiros, que tipos de cavaleiros de lei reforçada


podemos ter? (têm que ter natureza muito especial)
• Primeiro, têm que ser cavaleiros obrigatórios :

- Os montantes máximos do endividamento e do recurso ao


crédito (alíneas e) a i) do 31º )

Matérias que têm que ver com a fixação de limites à receita


creditícia/despesa com a com a concessão de crédito: para a
Prof.ª Nazaré Cabral NÃO são especificamente orçamentais.

O que diz o art. 161º h) CRP?


 É a AR que deve:
• autorizar o Governo a contrair/conceder empréstimos
quando têm origem fundada.
• Fixar as condições gerais dos empréstimos
• Fixar limites máximos dos avales prestados pelo
Governo (isto é, garantias pessoais do Estado)
Na CRP não se exige que isto conste obrigatoriamente do OE,
mas, tornou-se costume ao longo dos anos que essas
autorizações constassem da LEO (podiam constar apenas de lei
ordinária). A partir de 2001, a LEO assumiu este costume dando-
lhe dignidade legal, porém, não tinha que estar na LEO porque
não é matéria especificamente orçamental (a fonte criadora da
receita/despesa não tinha que constar da LEO). É discutível:
serão verdadeiras normas orçamentais? ou cavaleiros de lei
reforçada?

 Cavaleiros permanentes (isto é, todos os anos


têm que se repetir):

- As transferências para os subsectores (Regiões Autónomas e


Autarquias Locais)

Actualmente, os critérios de determinação de transferências


constam das próprias leis de financiamento destes
subsectores e não na LEO). Contudo, podem voltar a ser
obrigatórios.

-Alínea n) (cavaleiros tornados obrigatórios)


Tribunal de Contas – visto
Há um artigo que prevê quais os valores mínimos acima dos
quais há fiscalização prévia (visto) do T.Contas.

Os cavaleiros de lei reforçada aproveitam uma lei (LEO) que é


aprovada em altura certa e determinada (entrando em vigor a 1
de Janeiro do ano X), sob processo expedito e onde é possível
camuflar algumas matérias que poderiam causar «burburinho
político», querendo com isto dizer-se que se aproveita a LEO
para enxertar matérias, visto haver certeza quanto ao processo,
entrada em vigor, período de vigência (anual),…

Cavaleiros eventuais : (ex: alínea p) do 31º/1)


Regras sobre alienação e gestão do património do Estado e
medidas indispensáveis à boa gestão financeira

- Cavaleiros permanentes que se sedimentam pela prática


costumeira: alterações à legislação fiscal (Código do IRS, IRC,
IVA, Imposto Automóvel,…)- nelas se incluindo as alterações de
legislação fiscal.

- Cavaleiros permitidos eventuais (tolerados pelo ordenamento


jurídico, ou seja, estão fora do âmbito do 31º e, ainda assim,
são permitidos): regras em matéria de funcionalismo público
(actualização de vencimentos,…) e em matéria de organização
dos serviços (fusão, reestruturação, mobilidade).

- Cavaleiros que têm que ver com política orçamental/financeira


– indesejáveis
(havendo quem os considere proibidos –o nº2 do 31º vai nesse
sentido)
Uma lei que contenha esses cavaleiros é ilegal (por violar o nº
2)? Mas, sendo uma lei posterior, podemos considerar que
revoga a anterior?
Na apreciação, devemos ter em conta que os cavaleiros de lei
reforçada se aproveitam de uma lei-veículo, que deve ter um
conteúdo ou uma substância que a valoriza.

Há duas teses dominantes:


-tese da inconstitucionalidade/ilegalidade (Prof. Jorge Miranda)
Esta concepção preconiza a proibição da utilização de
cavaleiros de lei reforçada, pois poderia inquinar a própria
LOE).
-tese da irrelevância do cavaleiro (Prof. Blanco Morais)
Advoga-se que o estatuto do cavaleiro é ordinário e este deve
manter-se, apesar de se aproveitar de uma lei com valor
reforçado (usar uma lei reforçada para beneficiar do seu
regime, não faz com que essas leis passem a ser leis
reforçadas)
Esta é a visão dominante nos últimos anos.

Conclusão:
-Matérias propriamente orçamentais: alíneas a) a d) do nº1 do
art. 31º, dado terem que ver com a prática de execução do OE.
-Cavaleiros obrigatórios: alíneas e) a i)
-Cavaleiros permanentes: alínea n)
-Cavaleiros eventuais: alínea p)

3/12/2008