Você está na página 1de 28

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA

“BOLEIROS DA REDENÇA”:

UM ESTUDO ETNOGRÁFICO SOBRE FORMAS DE SOCIABILIDADE ENTRE RAPAZAES QUE JOGAM FUTEBOL, NOS FINAIS DE SEMANA, NA PRAÇA DA REDENÇÃO, PORTO ALEGRE

Pedro Dionizio de Mello

Vitáli Marques Corrêa da Silva

Porto Alegre

2011

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA

“BOLEIROS DA REDENÇA”:

UM ESTUDO ETNOGRÁFICO SOBRE FORMAS DE SOCIABILIDADE ENTRE RAPAZAES QUE JOGAM FUTEBOL, NOS FINAIS DE SEMANA, NA PRAÇA DA REDENÇÃO, PORTO ALEGRE

Pedro Dionizio de Mello

Vitáli Marques Corrêa da Silva

Monografia realizada como resposta à demanda da disciplina “Antropologia:

Fundamentos”, do curso de Ciências Sociais, para o primeiro período letivo.

Orientadores:

Prof. Dra. Cornelia Eckert Anelise dos Santos Guterres Rafael Martins Lopo

Porto Alegre

2011

INTRODUÇÃO

Neste trabalho, são expostos os resultados da pesquisa etnográfica com os rapazes que se reúnem nos fins de semana no Parque da Redenção para jogar futebol. Oriundos de

classes sociais diferentes, eles encontram no esporte mais democrático do país não apenas uma acessível forma de entretenimento, mas também um foco convergente de socialização e integração de suas singularidades. “Se um dos principais objetivos da antropologia é promover um alargamento da razão possibilitado pelo conhecimento de várias concepções de mundo presentes nas

como afirma Vagner Gonçalves da Silva (2000, p.25), encontramos

no método etnográfico um excelente instrumento capaz de nos auxiliar a compreender melhor uma atividade tão presente em nosso cotidiano: o futebol um esporte que perpassa uma mera e trivial jogatina, permeando no âmbito de problemáticas sociais que tanto discutimos diariamente. Os resultados aqui expostos são, portanto, desde as partes técnicas do jogo como suas regras e estilos até suas relações de sociabilidade, como os articuladores práticos e simbólicos do grupo e seus subgrupos, suas visões de mundo, etc. Ressaltamos

culturas diversas *

+”,

que, no que tange aos meios de pesquisa, utilizamos principalmente a observação participante, entendida como o meio mais eficaz de despir os paradigmas nascedouros do senso comum que revestem o futebol.

RESUMO

O presente trabalho acadêmico consiste num estudo etnográfico realizado junto a rapazes que jogam futebol em quadras do Parque da Redenção (ou Parque Farroupilha), da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O grupo pesquisado se reúne nos fins de semana para a prática do esporte e sua faixa etária varia dos 15 aos 24 anos. Formas de sociabilidade, integração e interações foram analisadas nos cinco encontros que empreendemos. A metodologia empregada foi o método etnográfico, procedimento padrão na pesquisa de campo antropológica, somado à observação participante e a entrevistas não-diretivas. Para fins ilustrativos, englobamos, teoricamente, alguns integrantes constitutivos do grupo em subgrupos, usando como critérios a intimidade e o grau de interação entre esses atores sociais. Tentamos, sempre que possível, situá-los em nível mais amplo na sociedade, focando em aspectos como grau de escolaridade, zona de moradia, profissão. O trabalho conta com, além de descrições da imersão em tal universo, com uma análise da questão da rotulação entre os atores sociais em xeque.

Palavras-chave: futebol, praças, parques, sociabilidade, etnografia, violência lingüística.

ESCOLHA E JUSTIFICATIVA DO TEMA

A primeira ideia que nos surgiu foi pesquisar sobre a expressão de masculinidade em

grupos de jovens rapazes de classe média, assim como seus articuladores práticos e simbólicos. Como o tema é bastante recorrente nos nossos próprios cotidianos, julgamos que isso funcionaria como um subsídio na hora de ir a campo. Pretendíamos, um pouco ambiciosamente, analisar o que era a masculinidade para tais grupos, como ela se materializa em costumes, hábitos, vestimentas, ideologias, etc. Nossa primeira saída foi no bairro Petrópolis, dia 30/04. Lá, fomos a duas praças: a Encol e a outra, que se localiza ao lado do clube Grêmio Náutico União. Nesse dia, tivemos muitas dificuldades na hora de interagir com os atores sociais, visto que nossas abordagens pensadas se materializaram basicamente em entrevistas “jornalísticas”. Em suma, sentimos o peso do tema: “Como indagar as pessoas sobre a masculinidade? Como questioná-las a respeito do que significa ser homem na sociedade moderna e quais suas implicações?” Após este dia, concluímos que precisávamos repensar alguns conceitos. Em primeiro lugar, detectamos que já havia em nossas mentes pré-conceitos sobre o universo masculino (como, por exemplo, sair e encontrar homens musculosos, envolvidos em brigas e portando carros possantes com sons ensurdecedores) e que do modo que estávamos levando a pesquisa iríamos apenas encontrar algum meio de confirmá-los, sem relativizarmos e duvidarmos de alguns “chavões” que nos permeavam; em segundo lugar; percebemos que se fazia imprescindível dar mais valor à observação participante, como forma de interagir com os indivíduos de forma mais natural; em terceiro lugar, precisávamos transformar o familiar em exótico.

Decidimos por uma mudança no rumo do trabalho. Embora continuássemos dispostos a trabalhar com público e ambientes masculinos, concluímos que a realização de uma atividade com o grupo pesquisado permitiria uma integração e uma aceitação mais rápidas. Optamos, então, por etnografar formas de sociabilidade em futebol jogado em praças. Em vez de buscarmos comprovação para respostas que já idealizávamos, esperaríamos que as relações entre o grupo e seus valores se desnudassem aos nossos olhos, sem “forçarmos a barra”.

O futebol, sempre presente em nossas vidas, a partir das leituras realizadas para a

disciplina de Antropologia: Fundamentos, incentivou-nos a engendrar uma ruptura

epistemológica e assim entendê-lo melhor, sob uma ótica antropológica.

CAPÍTULO 1: Quem são os boleiros? Entre quinze e vinte jovens. Esse é o número de indivíduos que se reúnem nas tardes de sábado nos “campos” do Parque da Redenção. Desde o início de nossa experiência etnográfica, nos chamou atenção a heterogeneidade do grupo. Ele, como se explica em outras partes deste trabalho, não é religiosamente o mesmo e varia conforme o dia. Todavia, a maior parte de seus integrantes, como praticantes assíduos do futebol, se repete nos fins de semana, o que gera algum conhecimento entre eles. Uma intimidade mais forte acaba ocorrendo entre pessoas que moram perto, tem a mesma visão de mundo e/ou compõe a mesma classe sócio-econômica. Constituem-se, dessa forma, o que denominamos subgrupos. Ao longo de nossos cinco encontros com os rapazes, estivemos diante de estudantes de nível básico, médio e universitário; de trabalhadores e “desocupados”; de pessoas que moram em bairros nobrese de classe média, assim como moradores da periferia; de brancos, pardos e negros; de brasileiros, africanos e asiáticos (não tivemos contatos interpessoais com estes, pois se entretinham com o basquete, não com o futebol). Entretanto, o gosto pelo futebol parece estar incrustado em todos; muitos deles trajam alguma peça do vestuário relacionada a clubes futebolísticos, notadamente Grêmio e Inter, ainda que seja de destaque a presença de itens de times europeus. As conversas muitas vezes giram ao redor de futebol: times, jogos, contratações, jogadas, jogos de futebol para vídeo-game, etc. Mesmo possuindo certo conhecimento esportivo, nos vimos até certo ponto “obrigados” a nos manter mais informados a respeito do mundo futebolístico, a fim de nos familiarizarmos com o grupo pesquisado, cuja faixa-etária predominante é dos 15 aos 24 anos.

1.1. Subgrupo A Quando de nossa primeira saída a campo na Redenção, foram com os membros do subgrupo A com quem trocamos as primeiras palavras ao nos acercarmos do areião. O jogo não havia começado ainda, naquela tarde nublada de maio de 2011. Por ter chovido naquele dia, desconfiávamos de que não haveria gente para jogar futebol. Engano nosso. Naquela quadra, se encontrava uma dezena de rapazes. Os que falaram primeiro conosco recém haviam chegado também e, assim como nós, se desvencilhavam das mochilas; Will, um dos garotos, magro e baixinho, nos recepcionou amigavelmente: “cheguem mais! Ei,

vamo deixar nossas mochilas tudo junto!”. Essa já era uma atitude de identificação entre pesquisadores-pesquisados e ela ocorreu independente de nós nos conhecermos anteriormente. O fato de deixarmos os pertences todos juntos se configurava como uma forma de dificultar possíveis roubos. Estamos tentados a crer que a identificação ocorreu por, assim como Will e seus amigos, sermos membros do mesmo estrato sócio-econômico. Durante o primeiro e o segundo encontros, mantivemos conversas com os integrantes desse subgrupo. Descobrimos o nome dos dois rapazes que andam com Will:

John e Rafael. John é um rapaz de 19 anos e trabalha como carregador de móveis de

mudança. No transcorrer dos jogos, ele se demonstrou muito “chorão”, reclamando excessivamente de sofrer faltas e estar sendo prejudicado por lances polêmicos. Quando errou duas bolas fáceis na frente do gol, atribuiu as falhas às condições desfavoráveis da cancha, com sonoros palavrões (“Filha da puta!”). Analogamente, cobrava dos companheiros de equipe maior dedicação e cuidado para não errarem. Não é difícil de reconhecer em John um papel de liderança no subgrupo e, quiçá, em nível macrocósmico, perante os próprios boleiros da Redença. Suas reivindicações eram, de alguma forma, ouvidas, e não foi presenciada represália a seus “choros”. Nossa experiência prévia em futebol de praça indicava que aquele jogador que se mostra excessivamente descontente sofre alguma sanção por parte do grupo. John, não. Não nos restam muitas dúvidas de que ele conta com prestígio junto à turma. Já Rafael tem 24 anos e, assim como seus dois amigos, mora na Av. Independência, logradouro não muito longe do parque. Costumeiramente fuma um cigarrinho nos intervalos

e,

inclusive, durante as partidas. Ele se demonstrou irônico com os erros e as peripécias que

o

pessoal cometia ao longo da partida, comentando-as e rindo delas conosco, enquanto

estávamos “de próximo”, esperando a partida terminar. Por ser goleiro fixo, Rafael acaba não interagindo muito com o restante da equipe; uma das situações que nos chamou a atenção, em dois momentos, foi a pressão de John junto a ele, subseguida pela aceitação passiva das reclamações pelo primeiro. Isso nos causou estranheza, haja vista que Rafael é

mais velho, e, por isso, críamos que a diferença etária inibisse John. Mas não foi o caso. Quando o subgrupo A perdia as partidas, utilizavam o tempo de espera até o próximo jogo para fumar cannabis sativa. Na ausência de seda, papel que se enrola na erva para a feitura do baseado, Will não hesitou, no primeiro encontro, em nos indagar se tínhamos o que ele precisava. A desinibição com que usam maconha, droga considerada judicialmente

ilegal, e a liberdade do discurso a respeito dela praça são notáveis (fique claro que o fato nos chamou a atenção, mas não significa que tenhamos um julgamento moral negativo em relação a essa prática). Três pessoas diferentes, ao longo da pesquisa, nos perguntaram se não tínhamos baseadopara lhes ceder. Tais pedidos não são raros naquelas quadras; em uma situação, um moço que não estava jogando conosco se aproximou e pediu maconha a um dos rapazes ao nosso lado. Este respondeu negativamente ao requerimento, dizendo que não possuía consigo a droga. Momentos mais tardes, nosso parceiro de futebol começou a enrolar um cigarro de maconha. Esse se revela um forte indício da necessidade de estabelecimento de relações mais íntimas para o compartilhamento da substância. O subgrupo A se mostra ansioso para com as saídas noturnas do fim de semana. Os garotos costumam frequentar casas noturnas do Centro de Porto Alegre chamadas de “inferninhos”. Ao contrário do que o nome possa sugerir, esses estabelecimentos comerciais não são prostíbulos, mas sim boates destinadas a um público mais economicamente carente. Dentro delas, os estilos musicais tocados são o funk e o pagode (mais tarde será falado novamente sobre esses ambientes). O objetivo pelo qual eles vão lá é o seguinte:

“pegar mulher, beber e zoar com os amigos!”. Além das saídas na “night”, Will, Rafael e John costumam ir a estádios de futebol. Ao nos despedirmos deles no segundo dia de nossa pesquisa de campo, Will nos revelou: “bah,

amanhã (domingo) a gente não vem aqui

é nóis. Apareçam aí, gurizada

tratamento amistoso que recebemos, não só desse menino, como de outros, deixando sempre um convite aberto para o comparecimento a um próximo dia de jogo. Podemos atentar para o fato de que eles não se contentam apenas em acompanhar o futebol pela televisão; apreciar in loco o espetáculo futebolístico os atrai demasiadamente.

Vamos no jogo do Grêmio. Mas semana que vem

Falô.” Por esse trecho, podemos perceber o tipo de

1.2. Subgrupo B No terceiro encontro, estranhamos a ausência dos boleiros no areiãona hora tradicional de início do futebol: 16h. No entanto, reconhecemos fisionomias numa quadra mais adiante, de cimento. Logo, percebemos que ocorreu uma migração do areiãopara a outra cancha devido às poças d’água acumuladas nele. Nesse dia, houve presença consistente de rapazes nesse espaço de sociabilidade, atingindo mais ou menos o número de vinte e cinco membros. Devido ao excesso de contingente, deu-se uma cisão no grupo: como

teriam que esperar muito tempo para jogar, dois times “de fora” decidiram “largar” para outra quadra. Nós, entretanto, já que estávamos jogando, permanecemos no primeiro lugar. Entre os jovens que resolveram formar um futebol “alternativo”, estavam Adriano, Lucas e Douglas. Adriano é um interlocutor chave de nossa pesquisa, encontrando-se presente em todas saídas de campo que realizamos na Redenção. Colorado fanático, no nosso primeiro dia, mantinha fé na virada do Internacional sobre o Grêmio, na final do Campeonato Gaúcho de Futebol, e não deixava de trocar “provocações” com gremistas, principalmente, com Henry. “Vocês vão ver, pode apostar, o Inter vai virar amanhã!”, bradava. Henry, de 22 anos, duvidava: “Tá loco, cara! Já era, o Grêmio vai ser campeão”. Na semana seguinte, com a consagração do Internacional sobre o Grêmio, Adriano reivindicou a previsão: “Eu avisei pra vocês! Tão ligados, né? Eu disse que o Inter ia ser campeão!”. No dia do terceiro encontro, como já afirmado, Adriano e seus amigos não jogaram futebol conosco. No entanto, conseguimos ter uma conversação mais íntima com eles, após a prática esportiva. Como de praxe, o futebol, que começa em torno das 15h30’ e 16h, termina apenas ao escurecer, momento em que a visibilidade se torna difícil, mais ou menos às 18h, 18h30’. Sentados num banco, já afastados da quadra, os três recapitulavam jogadas executadas e matavam a sede tomando refrigerante. Como passávamos por ali, vislumbramos uma oportunidade importante para entrevistá-los e tentar capturar melhor suas visões de mundo e crenças. Fomos bem recebidos e prontamente nos ofereceram guaraná, cuja compra foi compartilhada entre os três, ao qual recusamos. Esse momento foi muito precioso para conhecermos mais profundamente e muitas das informações que deles obtivemos foram coletas ali. Os membros do subgrupo B demonstram interesse em seguir carreiras de Ensino Superior, exceto Douglas, 24 anos, que trabalha na empresa Coca-Cola, numa função

administrativa. Adriano nos confidenciou: “quero fazer Ciência da Computação

preparando pra isso”; somado aos estudos regulares de terceiro ano do Ensino Médio numa escola privada, o garoto frequenta um curso pré-vestibular de renome na cidade. E já sabe qual caminho profissional quer seguir: “pretendo fazer Concurso Público.” Douglas, ao seu lado, lhe perguntou: “tá, mas por que Concurso Público?”. Adriano creditou essa vontade à estabilidade que a carreira pública oferece, expressa na frase: “eles não podem te demitir, e tu tem emprego a vida inteira”. Ressaltou ainda os ganhos financeiros que poderia conseguir na profissão.

Tô me

Uma situação que merece destaque foi o aparecimento, no transcorrer da entrevista, de um mendigo que nos pediu dinheiro, o qual lhe negamos. Notadamente, o surgimento do esmoleiro causou um constrangimento no grupo. Douglas, o mais velho, nos comentou,

após o afastamento daquele “impostor”: “Bah, a gente fica com pena

dinheiro, muitas vezes eles usam pra comprar droga e bebida, coisas que fazem mal. Olha, se forem dar dinheiro, vão numa lancheria num bar, comprem um lanche pro cara e dão pra ele. Eu já fiz isso.” O discurso desse ator social, incluído no subgrupo B, evidencia uma oposição ideológica à do subgrupo A no que se refere ao uso de substâncias tóxicas. Explorando o fato dos rapazes que jogam futebol com eles utilizarem maconha, Douglas afirmou: “cara, cada um fica na sua”. O jovem preferiu não aprofundar muito a conversa nessa direção, mudando de assunto. O “ficar na sua” pode ser visualizado nos times: os integrantes do subgrupo A costumam jogar juntos na mesma equipe, assim como os do B o fazem consigo próprios. Todavia, embora não haja uma relação interpessoal mais significativa entre os grupos, eles se chamam pelos nomes e conhecem um pouco de cada um. É de se notar que, embora não haja um compartilhamento de valores quanto à cannabis, ocorre tolerância e aceitação, ao menos para a prática de futebol.

Mas se gente dá

1.3. Subgrupo C No dia 25 de junho, no momento em que esperávamos “de próximo” no futebol (nesta última saída, diferentemente das outras, o jogo ocorria em uma cancha “areião” de futebol sete), surpreendemo-nos quanto a certos sotaques portugueses que vinham detrás da grade na qual estávamos encostados. Havia outros “boleiros” “de fora”, e, assim como nós, esperavam ansiosamente para jogar. Eram, na verdade, rapazes oriundos do continente africano. No início, avistamos apenas cinco; contamos, já no fim do encontro, nove. Estavam juntos entre si, atrás dos jogadores habituais da “Redença”, tentando avisá-los de que gostariam de jogar logo e de que possuíam uma bola de futebol consigo, caso precisassem. Logo que os avistamos, resolvemos iniciar uma aproximação. Todos foram muito simpáticos e calorosos: alguns, além de trocarem o habitual aperto de mão conosco, deram-nos ainda um cordial abraço. Um deles, o qual vestia uma camisa do Flamengo, relatou-nos ser angolano; disse ainda que a maioria dos seus amigos também era da Angola, mas que havia outros que não: dois eram

de Cabo Verde e um último de São Tomé e Príncipe. Combinamos de formar uma equipe com eles no fim, Vitáli acabou não conseguindo espaço no time africano. Conseguimos ter uma boa conversação com Jairo, rapaz angolano que nos confidenciou estar fazendo intercâmbio no Brasil, cursando o oitavo semestre de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS). Completou revelando seu desejo de fazer uma pós-graduação em Ciência Política. Além dele, Carlos e Dedé também eram estudantes de Ciências Sociais e faziam intercâmbio na PUCRS e ainda eram oriundos do mesmo país de Jairo: a Angola. Em seguida, revelamos que estudávamos o mesmo curso que eles o que, na verdade, causou surpresa entre os dois lados: pesquisadores e pesquisados. Enquanto não começava o jogo, tínhamos então um assunto em comum para ser debatido: as Ciências Sociais. Relatamos a Jairo uma descoberta que tivemos em uma aula de Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): a grande maioria dos professores de Sociologia no Ensino Médio não é formada no curso de Ciências Sócias. Jairo afirmou saber bem da situação: “Mas precisamos mudar isso.”, ponderou. Depois contou uma decepção sua aqui no Brasil: “Tentei, há pouco tempo, começar um estágio em uma escola, dando aula de Sociologia; acabei não conseguindo, contudo, por ser estrangeiro, só que isso não impede nada, pois falo português que nem qualquer aluno e diretora.” Depois, fomos ao jogo. O time dos rapazes de Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde levou um gol rapidamente. E outro já na seqüência. Conseguiram impor uma reação já bem no fim do jogo, quando começava a escurecer. Ficamos com a impressão de que eles têm, realmente, muita força física e velocidade (e são tão ou mais “fominhas” que os “boleiros” da “Redença”), mas acabam deixando muito a desejar na parte técnica: “Tem que treinar mais esse chute, hein!”, brincou Adriano após ver uma bola que Jairo chutou tomar um endereço bem longe do gol.

1.4. Os sem-subgrupo Não é incomum no futebol da Redenção o aparecimento de novatos. Ousamos dizer que sempre existe alguém ali que está jogando pela primeira vez. Muitos dos “marinheiros de primeira viagem” são pessoas que não foram ao parque com o intuito de praticar futebol, mas que, ao observar o desfile de jogadas, sentem-se seduzidas a se aproximarem. Por desconhecerem a turma, esses indivíduos acabam por ficar mais à parte de interações;

muitas vezes elas são maiores para a montagem do time de fora. A bem da verdade, não

se faz necessário diálogos além daqueles para se decidir o time. No entanto, os atores sociais iniciantes se mostram interessados em receber informações a respeito do jogo, das regras, o que possibilita um canal de entrada para uma comunicação mais profunda. Murilo, um jovem branco de 21 anos, nunca tinha jogado futebol no “areião”; ele costuma praticar o esporte com amigos, muitas vezes alugando quadras por hora. Ele se encaixa no que chamamos dos sem-subgrupo. Esperando a partida terminar, ele externalizou que tinha encontrado amigos antes, com os quais havia tomado chimarrão. Vestia-se de maneira casual: bermuda, tênis de passeio e camiseta. Demonstrou preocupação quanto à violência, dizendo: “como é o pessoal aqui? Dá pancadaria? É tranquilo?”. Não permaneceu até o final do futebol. Saiu cedo e justificou que precisava fazer um trabalho para a faculdade de Geografia, que cursa na UFRGS. Em contraposição a Murilo, que pertence a uma classe sócio-econômica que lhe fornece oportunidades de estudo em nível superior, Jéferson, outro novato na área, é um menino negro, morador da Lomba do Pinheiro, bairro da periferia. Após trabalhar até as 16h

e nos ver jogando, se interessou pelo jogo. Travamos conversação com ele, quando

estávamos encostados à grade. Ele nos revelou que tem 16 anos e que estuda numa escola

pública, cursando pela segunda vez a oitava série do nível fundamental.

CAPÍTULO 2: A função mediadora do futebol O parque da Redenção é um lugar público, portanto recebe qualquer indivíduo que tenha vontade de permear em suas dependências. Isso se estende, por conseguinte, às canchas de futebol instaladas no parque, estando disponíveis todos os dias, a qualquer horário e para qualquer pessoa que tenha interesse em realizar a prática futebolística. No campinho de areião, ocorre a reunião de rapazes de diferentes bairros, classes sociais, crenças, estruturas físicas e etnias todos os fins de semana, com exceção de quando há o clássico Gre-Nal. Nos cinco encontros com os rapazes, jamais presenciamos a ocorrência de violência física, apenas algumas divergências quanto às regras do jogo (faltas não marcadas, entradas mais ríspidas, saídas laterais duvidosas, tempo de jogo longo demais) as quais rapidamente foram resolvidas. Roberto, morador do Centro de

Porto Alegre, ao ser questionado sobre divergências entre a “gurizada”: “Ah, em qualquer

jogo de futebol acontece! Até nos profissionais

aqui, aí eu largo pra baia.” Diante desse clima de heterogeneidade, atrelado, na maioria das vezes, a um clima pacífico, chamou-nos a atenção o poder de mediação do futebol: dentro de campo, cria-se uma linguagem universal entre os indivíduos e todas as diferenças citadas são reduzidas

em prol do entretenimento, tão fundamental na vida de qualquer ser humano, mas que no futebol só acontece quando está em harmonia com toda a estrutura coletiva. Ronald Helal reforça ainda mais a ideia do futebol como um elo de mediação entre as pessoas: “Cabe aqui a pergunta: que conflito estaria o discurso esportivo, simbolicamente, procurando resolver? De uma forma geral, simplesmente este: as desigualdades e injustiças sociais existentes em nossas sociedades. Se a luta diária se apresenta frequentemente como um ‘jogo de cartas marcadas’, onde alguns têm, desde o nascimento, mais chances e oportunidades que a maioria, a competição esportiva ‘resolve’ essa injustiça e as desigualdades resultantes se apresentando como um jogo democrático e justo, onde se vence por méritos, sob regras claras que conferem a todos as mesmas oportunidades, sem distinção de classe, raça, sexo e religião.” Já Roberto da Matta expõe a capacidade do de futebol transformar as paixões naturais do homem, como o individualismo e competitivismo, em algo natural e até mesmo lucrativo: “Antigamente, os homens perdiam, selavam seu fim ou lavavam a honra num jogo de vida ou morte. Hoje, no final de um jogo vemos os perdedores e ganhadores

”,

concluindo: “Se rolar alguma treta

trocando suas camisas, como a reafirmar a separação entre o jogo (que foi ganho ou perdido) e o jogador obediente às regras, sem o qual não há competição. Como afirmei, o esporte é uma peça básica na internalização de uma mentalidade individualista e competitiva que, no mundo ocidental, passa como uma verdade natural, uma tendência inata ou um elemento impresso no nosso mapa genético. O velho Thomas Hobbes jamais poderia imaginar que a sua abominável "luta de todos contra todos" seria usada como mina de ouro e como um chamariz para fazer com que milhões de pessoas não só concebessem o confronto como parte intrínseca da vida social e da natureza humana, mas com ele se divertissem, situando-o na sua esfera de consumo e lazer.Em outras palavras, o futebol dá a todos um mesmo ponto de partida, sempre democrático, no qual todos são iguais perante às regras do jogo. Mas temos que ponderar também que essa igualdade é assegurada, muitas vezes, até o “apito final”. A prática futebolística, com efeito, não pode ser reduzida a apenas uma jogatina, visto que a perpassa e, frequentemente, vemos na mídia assuntos como homossexualidade, desenvolvimento social, educação, investimentos, segurança pública, etc, todos atrelados ao esporte bretão. Já no futebol jogado no campinho de areião da Redenção, nos intervalos dos jogos principalmente — é comum a “folgação” e outras brincadeiras da “gurizada”, muitas vezes acompanhadas de gírias (como fator de identidade do grupo); portanto, mesmo com um clima pacífico devido à implicação democrática do esporte, nos seus intervalos é necessário também que cada um saiba se impor (participar das brincadeiras de maneira bem humorada, falar alto e também retrucar algumas “folgações”).

CAPÍTULO 3: Estilos e regras do jogo As regras utilizadas nos jogos pelos boleiros são um tanto confusas e desorganizadas, gerando, em não raras vezes, algumas discordâncias entre eles. Já os estilos são marcados fortemente pelo individualismo. Nas canchas menores (há o campinho de areião e outro de cimento), jogam cinco pessoas na linha e mais um goleiro; nas maiores, sete pessoas na linha e mais uma no gol. No entanto, independente da cancha optada pelos rapazes, os jogos são sempre realizados sem a presença de qualquer cronometragem o que vale mesmo são os números de gols feitos: o primeiro time que balançar a rede três vezes ganha o direito de continuar no campo e enfrentar o time “de próximo”. Mas é justamente essa falta de critério quanto ao tempo que incomoda muitos dos rapazes que estão à espera, afinal os três gols muitas vezes acabam demorando em demasia para ocorrer. Vários jogadores tentaram subverter esse (des)critério, porém nada conseguiram, pelo menos até o último dia em que estivemos no parque. Outra ramificação polêmica do regulamentovigente nas quadras da Redenção é quanto ao goleiro. Conseguir um jogador que fique fixo debaixo das traves é o anseio da maioria dos boleiros, pois significa que não haverá revezamento nessa posição. Este questionamento ilustra bem o impasse na hora de escolher um goleiro: “Tá, gurizada, mas quem é que vai pro gol?”. Quando a equipe não tem um “camisa 1”, a solução é o revezamento. Salvo nas vezes em que alguém se habilita a ser o primeiro a pegar no gol, a ordem de revezamento é decidida no “discordar”. O primeiro a sair é o último no gol; e assim, sucessivamente. Para evitar o discordar, aqueles que detêm algum tipo de influência podem exercer pressão para algum membro mais vulnerável ser o goleiro, ou o primeiro goleiro. O indivíduo que sofre a coerção geralmente é menor ou mais tímido, ou por alguma razão demonstra que cederá a pressão, por respeito ou medo da autoridade. Ainda no que tange às regras, a falta de um árbitro traz, em algumas vezes, divergências entre os “boleiros”. Roberto, morador do Centro de Porto Alegre, ao ser questionado sobre divergências entre a “gurizada”: “Ah, em qualquer jogo de futebol

concluindo: “Se rolar alguma treta aqui, aí eu ‘largo

pra baia’.” Em momento algum presenciamos violência física. O que acontece, na verdade, são algumas “chegadas” mais fortes e mesmo assim de maneira bem esporádica. Quando de fato ocorrem, o onerado então para a jogada; pega a bola na mão, franze o

acontece! Até nos profissionais

”,

semblante e pode falta, que sempre é aceita, pois, conquanto às vezes surjam algumas reclamações, há um consenso entre o grupo que resolve o problema: “Pediu, levou.” Já as bolas saídas pelas laterais ou linhas de fundo são mais polêmicas e, portanto, geram bem mais divergências, pois nesses casos não há o consenso “pediu, levou”. Os times que estão na cancha discutem até se chegar num “denominador comum” — geralmente o time “vencedor” das discussões regulamentativas é o que grita mais alto, ou o que expõe os fatos de maneira mais clara. O estilo de jogo, por sua vez, caracteriza-se por um individualismo exacerbado em detrimento do coletivismo. Na primeira chance que os jogadores encontram de chutar a gol por mais mínima que seja , eles acabam chutando, mesmo que visualizem um companheiro em posição privilegiada, pronto para fazer o gol, precisando apenas do passe do colega de time. Detectamos também que as trocas de passes requerem uma relação de reciprocidade: nós, que podemos ser considerados novatos na esfera futebolística das quadras da Redenção, acabamos, portanto, sendo preteridos em muitas delas. Outra marca do estilo de jogo é o improviso: nele, jogam pessoas calçadas com tênis de marcas mundialmente consagradas; alguns, por outro lado, calçam tênis furados; e outros simplesmente jogam descalços. Mas calçado ou não, o importante é poder jogar, mesmo em dias chuvosos. Os jogadores em questão não dão grande valor a uma marcação sistemática, “pegada”, ou até mesmo violenta. O que é valorizado mesmo são as jogadas pensadas rápidas, de improviso. Por exemplo: um “um-dois” bem executado (quando um jogador passa a bola para um companheiro e já sai correndo à frente para recebê-la de volta na sequência), um lançamento de longa distância, um drible num curto espaço físico, etc. Quando se acerta esses tipos de jogadas, os rapazes elogiam e/ou batem palmas; já quando se erra, principalmente quando o time está em desvantagem, reclamam.

CAPÍTULO 4: A linguagem como forma de autoafirmação A língua portuguesa, embora seja igual para todos os grupos sociais, é, paradoxalmente, diferente para todos. Como em qualquer outro grupo, a língua, para os rapazes da Redenção, é um dos princípios de identidade social, um dos pilares de sustentação de suas singularidades. É carregada fortemente de gírias, sendo conduzida sempre por um tom despojado e jocoso. Faz-se válido citar ainda o uso de alcunhas (os famosos apelidos) e palavrões, sendo esses últimos mais enunciados na hora do jogo em si como uma forma de chamar a atenção dos companheiros de time, ou então para reivindicar alguma divergência quanto às regras do jogo. Entretanto, à medida que nossa familiaridade com os rapazes aumentava, foram suas gírias que nos chamaram mais a atenção. Elas são usadas de forma tão frequente que podem deixar confuso aquele que não estiver adaptado com o “vocabulário da rua.” O trecho da música “A Gíria é a Cultura do Povo”, de Bezerra da Silva, ilustra um pouco essa forma de se expressar tão recorrente das camadas populares: “Toda hora tem gíria no asfalto e no morro porque ela é a cultura do povo.” Sábado, dia 31 de maio, deparamo-nos com uma situação embaraçante. Já quase no fim do encontro com os rapazes faltavam poucos minutos para as 18h --, decidimos descansar ao lado do campo enquanto os demais jogavam futebol. Ao nosso lado havia um rapaz. Calçava um par de tênis trocado, visto que o outro pé do calçado que se encaixava encontrava-se rasgado. Resolvemos iniciar uma conversação com ele. Nós o indagamos sobre seu tênis como forma de “quebrar o gelo” inicial. Ele se mostrou bem- humorado e então adentramos em outro tema: as baladas. Confidenciou-nos freqüentar os “inferninhos” do Centro — famoso ponto de casas noturnas voltadas às classes mais populares. Quisemos saber mais detalhadamente: “Tu costuma ir em qual lugar dos

Já chego

num e depois vou passando em todos!” respondeu-me, rindo. Ele ficou curioso e questionou-nos se nós já haviamos ido a tais lugares. “Não, nunca fomos, vamos mais na Cidade Baixa, mas temos um amigo que conhece as coisas por lá.” Quisemos saber sobre

inferninhos? Kasablanca?” “Claro! Kasablanca, Adhegas, Sobradinho, Alcatraz

as mulheres sobre os preços das bebidas e da entrada e os tipos de música. “Bah, negão! É

só chegar nelas

não tem dessa não! Já é ou já era

Têm vários bichinhospor lá! A

entrada é 20 conto, mas tu ganha um balde com cervejas de brinde

fuma unzinho e já chega numas. Em cima toca baile funk e embaixo pagode.” Percebemos que durante todo o desenrolar da conversa esse rapaz não nos levava muito a sério, rindo constantemente em seus próprios relatos. Exclamou para um conhecido seu: “Mas olha só, negão, os caras tão querendo saber dos inferninhos!” Ambos acharam graça do nosso interesse. Logo depois, relatou-nos haver bem por perto dos inferninhos alguns quartéis militares: “Mas eles nem vão lá, né, ta loco! São tudo um bando de viado!” Diante dessa afirmativa, surgiram-nos duas ideias: a primeira seria usar

Aí tu bebe umas,

uma premissa relativizadora, afinal nem todos os militares são homossexuais; a segunda seria fazer essa relativização coloquialmente, com o uso de gírias. “Cara, mas é que nem ”

todos os milico dão ré

vergonha de completá-la. A intenção era usar a expressão “ré no quibe”, como forma proposital de promover uma identificação com o nosso interlocutor por meio de uma gíria que denota o sexo anal. Foi então que ele achou mais graça: “Pô, olha os cara, mano! Como assim dar ré, negão? Não tô entendendo!” Então rebatemos: “Ué! Mas tu não disse

que todos milico que vão no inferninho são gays”? Ele foi enfático: “Tá, mas aí dar ré quer

dizer que é gay? (risos) Tá loco! Não tava ligado nessa daí

dessa, hein, negão?” Interrogar-nos sobre gírias e expressões, para ele, fazia-se necessário, posto que nossa confusão com os “termos da rua” era bizarro e incompreensível para a nossas pessoas. Algo semelhante parece ocorrer em âmbitos escolares e universitários, só que de forma invertida isto é, o preconceito linguístico com aqueles que não dominam a norma culta da língua portuguesa.

Nesse grupo, em algumas situações e com certos rapazes, não possuir o domínio das gírias implica em estar utilizando uma linguagem paralela. Pior do que não conhecê- las, entretanto, é utilizá-las de maneira forçada como o caso acima relatado. Foote-

Whyte é claro quanto a esse problema: “*

conversa trivial deixei escapar uma série de obscenidades e palavrões. A caminhada foi interrompida quando todos pararam para me olhar surpreendidos. Doc meneou a cabeça e comentou: ‘Bill, você não deve falar deste modo, isso não combina com você’.” “Esta lição teve um alcance maior do que o uso de obscenidades e palavrões. Descobri que não esperavam que eu fosse igual a elas; na verdade, sentiam-se atraídas e satisfeitas pelo fato de me acharem diferente, contanto que eu tivesse amizade por elas.”

Tentando penetrar no espírito de uma

Acabamos por deixar a frase incompleta, pois ficamos com

E morder a fronha? Não sabe

+

Assim, o compartilhamento de gírias é usado como forma de definir a imagem social do grupo, que vale como uma forma de criar uma identificação coletiva para cada membro.

4.1 Algumas gírias/expressões e seus respectivos significados Baia: casa; Barca: time, equipe;

respectivos significados Baia: casa; Barca: time, equipe; Beck: cigarro de maconha; Bicho: designação a uma mulher
respectivos significados Baia: casa; Barca: time, equipe; Beck: cigarro de maconha; Bicho: designação a uma mulher

Beck: cigarro de maconha; cigarro de maconha;

Bicho: designação a uma mulher esbelta, com os atributos físicos bem definidos; designação a uma mulher esbelta, com os atributos físicos bem definidos;

Inferninhos: casas noturnas radicadas no Centro de PoA; casas noturnas radicadas no Centro de PoA;

Já é: é isso aí; é isso aí;

Largar/vazar: Ir embora; Ir embora;

Morder a fronha: Expressão usada para citar a relação anal de homem com homem, sendo o termo referente Expressão usada para citar a relação anal de homem com homem, sendo o termo referente aquele do par em situação passiva;

Negão/mano: formas de vocativo equivalentes a “tu”, “você”; formas de vocativo equivalentes a “tu”, “você”;

Que boi!: Que coisa fácil!; Que coisa fácil!;

Sangue bom: parceiro; parceiro;

Seda: papel para enrolar a maconha; papel para enrolar a maconha;

Se pá: de repente; de repente;

Treta: briga física e/ou verbal; briga física e/ou verbal;

CAPÍTULO 5: Apelidos: inclusão ou exclusão? Quando nosso time perdia dentro das regras estabelecidas, éramos obrigados a sair da quadra para o time “de próximo” jogar. Esses momentos de intervalo entre uma partida e outra nos eram valiosíssimos, haja vista que nos permitiam tomar maior contato com os membros da nossa equipe. Além de conversas e entrevistas, aproveitávamos para observar como rapazes que já possuíam algum tipo de vínculo anterior àquele momento se relacionavam. No terceiro encontro com o grupo da Redenção, após termos perdido uma das partidas (vale lembrar que nós dois jogamos no mesmo time quase todas as vezes), presenciamos uma cena que não se configura como rara no espaço de sociabilidade do futebol de praça. Alguns dos boleiros que esperavam para jogar começaram a zombar de um dos rapazes que se encontrava dentro da quadra. Motivo: tal jogador seria parecido com Justin Bieber. Justin Bieber é um cantor pop famoso, de 17 anos, alvo de inúmeras associações de sua pessoa à homossexualidade por parte do grande público masculino

jovem. Tal associação muitas vezes se faz presente devido a seu cabelo liso. Analogamente, na praça, devido à semelhança do ator social em questão com o cantor, fez-se piada

tu faz chapinha!” Durante a partida, Mateus

(o Justin Bieber da praça) continuava a jogar futebol normalmente, ignorando as gozações. Após terem feito a piada do Justin Bieber, alguns indivíduos que se destacavam nas brincadeiras começaram a procurar dentro do próprio grupo identificação entre seus membros de pessoas famosas. Um dos rapazes que se encontravam mais próximos de nós nesse momento foi considerado parecido com o cantor e compositor Belo. O Belo da

Redenção chama-se Mário e trabalha como chapista no próprio Bom Fim, próximo à Redenção. Achamos estranho ele estar de calça jeans na cancha: “Saí do trabalho agorinha, vim correndo pra cá pra ver se consigo jogar pelo menos um pouco.” Poucos segundos depois de seu relato, um dos jogadores em campo atirou-se em direção à linha lateral (engendrando o famoso carrinho), conseguindo evitar com que a bola saísse para a lateral. Seu esforço rendeu elogios e palmas de seus companheiros. Impressionamo-nos também pela garra do rapaz e “Belo” comentou: “O pessoal daqui é fanático, tá louco! Tá vendo

aquele doido de moicano? Ele é meu parceiro

sempre jogava muito, mas agora tá desleixado, pode ver que ele não ganha nenhuma bola.”

Vou te dizer: o guri era tri boleiro, viciado,

referente ao seu cabelo. “Justin, a gente sabe

O “Belo” da Redenção é um cara bastante excêntrico: seu cabelo é do estilo descolorido monocromático, ou, da maneira popular, “loiro de farmácia”, o que remete a ideia de ele gostar de pagode (como o próprio cantor), contudo o rapaz portava um celular que tocava funk quase o tempo todo, com exceção de quando estava jogando. Poucos centímetros do nosso lado, havia o outro time que também esperava a sua vez de adentrar em campo. Ao olharem para o nosso canto, um deles, rindo, chamou a atenção dos parceiros: “O Belo, será que não dá pra sair um show pra gente aqui hoje, hein?” “Belo” não se incomodou nem um pouco, dando risadas junto: “O pessoal é foda mesmo, mas tem que

Eu nem ligo.” Um outro rapaz exclamou: “Daqui a pouco acho que vai

ter o show do Belo junto com o Justin Bieber! Que dupla!” “Belo”, mais uma vez, mostrou não se incomodar com as brincadeiras, relatando para nós: “Vocês tudo aí falam do cara e da música dele, mas vai ver os shows dele: lota de mulher. Então, né, o cara é foda. Esses dias passei por um, lá no Pepsi, e o negócio fervia. Agora vai ver esses shows de rock e metal, quase nem tem mulher.” Como “Belo” e “Justin Bieber” conseguiram ludibriar as gozações, puderam, assim, convergir as atenções dos rapazes a outro jogador: Lucas, mais conhecido como “Cabeça”, que jogava no momento em que se começou a “folgação”. Lucas tem 17 anos e é,

disparadamente, o rapaz mais tímido do grupo, falando apenas o necessário; apresenta, ainda, uma cabeça considerada muito acentuada, o que origina sua alcunha. “Pô, olha o tamanho da cabeça daquele cara! Me diz se não é igualzinho o Jimmy Nêutron!” exclamou um dos rapazes do time de fora, rindo junto com os amigos. Alguns minutos depois, o apogeu da partida: cruzamento pra área e gol de cabeça de “Cabeça”. Todos que estavam na cancha começaram a gritar: “Cabeça, Cabeça, Cabeça!” e os seus companheiros de time, rindo, passavam a mãos e davam cutucadas na cabeça de Lucas. O rapaz ficou sem jeito, olhando todo o tempo para o chão. Novamente, um dos rapazes que estava de fora emendou outra piada a seu respeito: “O cara não tem uma cabeça, tem uma caixa d’água, isso sim!”, envolvendo, logo em seguida, também a irmã de Lucas: “Dizem que ela tem um cabeção igualzinho. Parece que é tri magra, mas com a cabeça gigante, igual o irmão.”, dando início a novas gargalhadas. A essa altura do relato dos acontecimentos, propomos uma discussão: o deboche e as alcunhas trocadas entre os elementos do grupo se constituem como fatores agregadores ou desagregadores internos? Tal indagação nos remete à compreensão funcionalista de

levar na esportiva

Radcliffe-Brown, em sua busca incessante em desvendar a função social das instituições. Podemos, então, perguntar qual seria função da instituição “apelido”. Essa resposta não é simples. No entanto, pode-se perceber que a rotulação funciona como um teste de definição de posições hierárquicas internas. Apelidar alguém pressupõe coragem, que é um valor admirado em tal espaço de sociabilidade. Na ausência de uma resposta da vítima, configura- se uma relação de poder, que se dá a partir do não-replicamento da pessoa em xeque. Quando ocorre isso, o apelidador ganha prestígio junto ao grupo, o qual reage, geralmente, rindo da piada. Temos três respostas às brincadeiras, expressas pelas atitudes de Justin, de Belo e de Cabeça. Enfatizaremos a do primeiro e do terceiro rapazes. Após o término da partida, Justin se aproximou dos rapazes que estavam “mexendo” com ele. Ao invés de retrucar a rotulação, o menino aproveitou o momento em que estava sob os holofotes para proferir:

“Tá bom, eu posso ser o Justin, mas tu, tu é o Belo”, dirigindo-se ao dito-cujo. Pois bem, a partir desse momento, o coletivo parou um pouco de dispensar palavras ofensivas a ele para focar no Belo. Muitas vezes, os rapazes, ainda que não desejem ser rotulados, entendem que a “zoação”, como se referem a tal ato, acontece naturalmente entre o grupo. A atitude de Mateus-Justin mostra que a melhor forma de se lidar com os apelidos não é ficando em silêncio, tampouco agindo agressivamente. O agir agressivo pode realmente implicar no cancelamento do teste de definição hierárquica, mas carrega consigo maior distanciamento do grupo, uma vez que este possivelmente o considerará como “um cara que não sabe brincar”. Mateus soube brincar e, por isso, se livrou temporariamente das brincadeiras. Já o caso de Lucas, o Cabeça, se constitui mais complexo, assim como sua reação. Por responder passivamente ao apelido, Lucas termina por ser colocado mais tempo em foco e permitindo escalada de violência, a qual se estende a membros de sua família. A postura cabisbaixa desse jovem evidencia baixa autoestima, provavelmente reforçada pelos apelidos que lhe são dados. Tivemos oportunidade de conversar com ele, junto a dois de seus amigos mais íntimos. O encontro ocorreu imediatamente após o fim do futebol. Os rapazes se encontravam sentados, bebendo refrigerante. Durante a conversa, descobrimos que Lucas estuda num cursinho pré-vestibular e mora nos arredores do Parque da Redenção. Ele se manteve calado na maior parte do encontro. Ao elogiarmos o gol que ele fez, logo foi menosprezado pelo rapaz que estava sentado ao seu lado: “qualquer um faria aquele gol, meu!”.

É-nos um tanto claro que as brincadeiras, no caso de Lucas, se constituem em agressão verbal, expressando o chamado problema social do bullying. O bullying consiste em perseguição sistemática a uma pessoa, intencionalmente, podendo ser representado por xingamentos, agressão física, destruição de pertences, com o intuito de ofender a vítima. Analisando esse conceito, desconfiamos de que Lucas é vítima de bullying. Portanto, ao nos perguntarmos se os apelidos funcionam como integradores, possibilitando um sentido de pertencimento a um grupo, ou funcionam como desagregadores, percebemos que o problema é mais complexo. Na verdade, as alcunhas se apresentam como definidoras de posições hierárquicas, envolvendo poder e prestígio internos. Elas não precisariam ocorrer, mas, ocorrendo, o grupo as identificam como naturais a ele. Podemos, então, dizer que a forma como se lida com as brincadeiras decidem os rumos de integração ou desintegração. No caso de Mateus, este segue um relacionamento dito normal com os outros; já o de Lucas, claramente acarreta-se numa exclusão perante o grupo.

CAPÍTULO 6: DIÁRIOS DE CAMPO

6.1. Excerto do diário do Pedro

Aqui ninguém é ladrão, não!”

Sábado, dia 18 de junho de 2011. Quarto encontro com os rapazes da Redenção. Dia feio: céu nublado e campo completamente batido (com direito a possas d’água em duas das “pequenas áreas” e em uma das laterais) em virtude da chuva que ocorrera de manhã. Somadas às irregularidades intrínsecas do campo (estilo “areão”, com pequenas pedras espalhadas, acompanhado de uma incomoda árvore na lateral que acaba freando muitas arrancadas dos jogadores), as adversidades, no entanto, são reduzidas a pequenos inconvenientes, facilmente ofuscados pelas grandes emoções que o esporte sempre proporciona. Agora, eu e Vitáli já somos reconhecidos e lembrados por alguns rapazes. Assim que me dirigia em direção ao campo, duas situações me chamaram a atenção: a primeira foi a recepção quando recém estávamos adentrando no campo ao escutar os gritos “Chega aí, já vai começar!” por parte de Marcos — sinal de que nossa presença já está calcada no imaginário coletivo do grupo; a segunda foi presenciar a ação da brigada militar (também logo na chegada), prendendo dois homens poucos metros ao lado do campo em que nós nos dirigíamos nas quatro saídas engajadas à pesquisa etnográfica, ainda não havíamos presenciado na Redenção nenhuma violência física, muito menos duas prisões em seqüência. Antes de a bola rolar, outra situação constrangedora, contudo. Fixei-me a três irmãos que iriam jogar no areão pela primeira vez. Cumprimentei-os cordialmente. Os rapazes se arrumavam para o jogo; era hora de calçar os pés (vale ponderar que os tênis não são imprescindíveis para muitos dos rapazes: alguns jogam com um par trocado; outros jogam com tênis furado; outros, ainda, sequer utilizam um par de tênis), acomodar as mochilas em algum canto, trocar de roupa, etc. Um dos rapazes, que aparentava ser o mais velho dos três, exclamou a mim e a seus irmãos: “Ei, gurizada, gurizada, vamos fazer uma barreira aí!”. Nesse momento, franzi meu semblante e perguntei: “Que barreira?”. O motivo do estranhamento: havia uma viatura da brigada militar poucos metros ao nosso lado e pensei que o rapaz tinha a intenção de se esconder ou então de ocultar algum pertencente seu ilegal. Equivocado julgamento: a barreira solicitada era apenas para ele poder tirar sua calça e poder vestir uma bermuda sem ser percebido pelos demais jogadores e outras pessoas que passavam pelo local. Diante de minha reação, ele retrucou: “Que barreira tu achou que fosse, cara? Aqui ninguém é ladrão, não! Todo mundo é trabalhador!” Pedi desculpas, dando-lhe um tímido tapinha nas costas: “Pô, capaz, cara! Foi mal, tô viajando.” Erro devidamente reconhecido. Desculpas aceitas e abraço cordialmente dado. Bola ao centro!

6.2. Excerto do diário do Vitáli

Esse tempo de espera pode muitas vezes ser entediante para aquele rapaz desejoso de jogar futebol. No entanto, para nós, tal tempo-espaço se mostrou muito valioso para realização de entrevistas abertas e de observações mais apuradas, fora do contexto interno do jogo. Nesse dia, observei que um grupo de cinco rapazes, íntimos entre si, aproveitavam o tempo para zoar e conversar. Ao passarem duas moças, os mais velhos do grupo as “cantaram”. Embora elas a priori demonstrassem desinteresse, pararam a caminhada um pouco mais adiante, e olharam de canto de olho, em busca dos rapazes. Entendendo a mensagem, estes se aproximaram, para tomar água num bebedouro perto de onde elas se localizavam. Após trocar algumas palavras com elas, os rapazes retornaram para a quadra. Elas se dispersaram. Os garotos compartilharam a conversa travada com seus pares, gargalhando. Minha impressão pessoal foi a seguinte: os dois caras foram idiotas, pois elas lhe deram mole e eles foram para cima delas com um discurso arrogante, destratando-as e enaltecendo a si próprios. Se possuíssem um pouco mais de humildade, possivelmente eles concretizariam uma relação “amorosa” efêmera com elas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As relações de sociabilidade entre os “boleiros” da Redenção se configuram de maneira muito rápida e complexa, exigindo de nossa parte sempre ouvidos e olhares muito atentos, pois em um intervalo entre um jogo e outro podem surgir discussões riquíssimas. Desta forma, para entendê-los melhor, tivemos de iniciar o trabalho da alteridade, colocando-nos no lugar de cada ator social que tivemos contato. Considerando que não interagimos com todos os rapazes que passaram pelas canchas nas quais exercitamos o estudo etnográfico, fazer uma consideração generalizada dos rapazes seria pretensioso e irresponsável de nossa parte. Mas podemos analisar os subgrupos a partir de suas totalidades, onde cada unidade faz parte de um todo integrado. A experiência com o grupo pesquisado contribuiu para abertura de reflexões acerca da complexidade das relações sociais no âmbito cotidiano do esporte, muitas vezes consideradas triviais e previsíveis. Analisando os subgrupos descritos, levantamos problemáticas no que se refere à violência no discurso dos grupos que praticam futebol em parques públicos. As agressões em tais espaços de socialização são, pelo senso comum, muitas vezes simplificadas à violência física. Embora não tenhamos presenciado esse tipo de atitudes, isso não reduz as canchas de futebol a um ambiente pacífico. Há relações de poder e hierarquias em jogo dentro desses ambientes. O subgrupo A claramente possui prestígio frente ao grupo geral sem jamais apelar para a violência física, mas mesmo assim é o subgrupo que mais reivindica e fala alto das jogadas erradas. Consome drogas ilícitas no mesmo ambiente de jovens que sequer devem ter chegado perto do tabaco. Mas ele é só um exemplo. No fundo, todos os boleiros possuem vaidades: algumas se manifestam de maneira mais acintosa (caso das alcunhas, que servem elevar o perseguidor na hierarquia geral do grupo, principalmente quando o onerado age de maneira submissa), ou então de maneira mais simbólica (o individualismo no jogo, por exemplo, visto que a busca desenfreada por um gol mesmo que acabe preterindo o companheiro que se encontra em posição favorável faz completo sentido no universo dos rapazes, pois depois aquele que marca pode ostentar toda sua performance para os demais no intervalo dos jogos).

Acreditamos que o futebol, para os “boleiros” da Redenção, funciona metaforicamente como um juiz (já que não há um árbitro de fato que apite o jogo) que regula e ameniza, dentro das quatro linhas, vaidades, hierarquias, individualismo em prol de um entretenimento que é do interesse de todos os subgrupos.

REFERÊNCIAS:

HELAL, Ronaldo. O que é sociologia do esporte. São Paulo: Brasiliense, 1990. (p.71-72) MATTA, Roberto da. A bola corre mais que os homens. São Paulo: Rocco Ltda, 2006. (p.152) RADCLIFFE-BROWN, A. R. “Sobre o conceito de função nas Ciências Sociais” In: Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. Petrópolis, Vozes, 1973. RADCLIFFE-BROWN, A. R. “Sobre o conceito de função nas Ciências Sociais” In: Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. Petrópolis, Vozes, 1973. SILVA, Vagner Gonçalves da. O antropólogo e sua magia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2000. (p.25) STIGGER, Marco Paulo; GONZÁLEZ, Fernando Jaime; SILVEIRA, Raquel da (Org.). O esporte na cidade. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2007.