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T E N D Ê N C I A S

A INVIABILIDADE DO DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA
Evaristo Eduardo de Miranda

É
possível conciliar a ilegali- Como fazer caber tal realidade num es- relevo. Não foram consideradas as APPs
dade crescente das ativida- paço legal de apenas 5 a 7% da Amazô- associadas a feições litorâneas, deltas,
des humanas na Amazônia nia? Examinemos as dimensões desse mangues, restingas e dunas, nascentes e
com o desenvolvimento conflito: em sua primeira fase, a pesqui- seu entorno, locais de reprodução da fau-
sustentável? Na Amazônia sa da Embrapa mapeou e quantificou, na, linhas de cumeada e outras categorias
não se desmata por pura num sistema de informações geográfi- previstas nas resoluções do Conselho Na-
maldade, no que pese a crença de alguns. cas, o alcance territorial da legislação am- cional do Meio Ambiente (Conama). Da
As razões são sociais e econômicas. Lá biental com base em dados do Instituto mesma forma, uma infinidade de cursos
existem cerca de 25 milhões de pessoas Brasileiro de Meio Ambiente e dos Re- d’água não cartografáveis na escala 1:1
com direito a trabalhar e viver com dig- cursos Naturais Renováveis (Ibama), da milhão deixou de ser considerada. Por-
nidade. Mesmo sendo uma das regiões Fundação Nacional do Índio (Funai), da tanto, essa primeira fase do trabalho su-
mais pobres do Brasil, a Amazônia tem a Agência Nacional de Águas (ANA), do bestima a extensão total dessas APPs.
economia regional que mais cresce. Em Instituto Brasileiro de Geografia e Esta- A primeira dificuldade para quantificar
três anos, entre 2002 e 2005, seu PIB tística (IBGE) e da legislação ambiental. essas áreas reside na inexistência de um
cresceu 22,4%, enquanto o do Brasil mapeamento homogêneo e exaustivo da
cresceu apenas 10%. O estado em que o ÁREAS PROTEGIDAS A pesquisa conside- rede hidrográfica da Amazônia, em escala
PIB mais aumentou foi Tocantins, se- rou todas as Unidades de Conservação grande. O cálculo da hidrografia utilizou
guido pelo Mato Grosso. (UCs) federais e estaduais criadas até ju- dados da ANA, baseados no IBGE. A se-
Se é verdade que parte das atividades hu- nho de 2008, com base em dados do Iba- gunda e maior dificuldade está no fato
manas na Amazônia declaradamente ma. Não foram incluídas as UCs munici- que as resoluções 302 e 303/2002 do Co-
desrespeita os princípios da sustentabili- pais, as Reservas Particulares de Patrimô- nama estabelecem como área ocupada pe-
dade, também é verdade que uma parte nio Natural (RPPNs), as áreas militares, lo rio não a inundada de forma perma-
crescente da presença e das atividades hu- as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) nente, mas a inundável na cheia máxima,
manas na Amazônia foi e continua sendo estaduais e municipais, ou outros tipos de dado absolutamente indisponível. À área
empurrada para a ilegalidade por uma le- unidades de ocupação restrita. Portanto, inundável deve ser agregada uma faixa
gislação ambiental carente de planeja- o resultado subestima a extensão real das marginal variável de 30 a 500 m. O total
mento transversal. Segundo demonstra áreas protegidas. Quanto às Terras Indíge- de APPs associadas à hidrografia, na pri-
pesquisa realizada por uma equipe da nas (TIs), foram utilizados os dados atua- meira fase da pesquisa, foi estimado em
Embrapa Monitoramento por Satélite lizados da Funai. Assim, quando soma- 1.388 mil km2 ou 33% do bioma Amazô-
(1), a rigor, em termos legais, dos das, as Terras Indígenas e áreas protegidas nia. O desenvolvimento metodológico
4.240.605 km2 do bioma Amazônia, existentes totalizam 1.967.805 km2, ou desse cálculo prossegue. Paradoxalmente,
apenas cerca de 289 mil km2 seriam pas- 46,4% do bioma Amazônia. nessas áreas está localizada a maioria das
síveis de ocupação econômica urbana, cidades, povoados, populações ribeiri-
industrial e agrícola. Talvez menos. Na ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMA- nhas, portos, embarcadouros, agricultu-
realidade, porém, as atividades urbanas, NENTE A pesquisa também conside- ras de várzea, pastagens com búfalos e di-
industriais e agrícolas já ocupam o dobro rou parte das duas principais catego- versas atividades modernas e tradicionais.
ou o triplo dessa área. E nada indica uma rias de Áreas de Preservação Permanente O mapeamento das áreas ocupadas por
reversão nesse processo. (APPs), as associadas à hidrografia e ao APPs associadas ao relevo foi obtido por

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geoprocessamento, a partir de modelos LEGALIDADE E LEGITIMIDADE Des- sentantes municipais e estaduais, é a


matemáticos desenvolvidos pela equi- contadas todas as áreas legalmente grande ausente na formulação das políti-
pe, com base em dados com 90m de re- destinadas à proteção ambiental, o que cas públicas de impacto territorial, fre-
solução espacial da Missão Topográfica restaria como área disponível para ocu- quentemente suscitada por gestores
por Radar Interferométrico (SRTM, na pação seria cerca de 289 mil km2, ou se- oriundos de outras regiões, quando não
sigla em inglês) da Agência Espacial ja, menos de 7% do bioma Amazônia. do exterior. Os resultados da primeira fa-
Americana (Nasa). Diversas feições não Reiterando, dos 4.240.605 km2 do bio- se da pesquisa da Embrapa são inequívo-
foram consideradas – como linhas de ma Amazônia, menos de 289 mil km2 cos: para respeitar a legislação ambiental
cumeada e morros muito isolados – ou estão legalmente disponíveis para uma em vigor, em menos de 7% da área do
não eram identificáveis – como faixas ocupação intensiva, seja agrícola, urba- bioma Amazônia deveriam estar capi-
estreitas de declividades acima de 45° e na ou industrial. tais, cidades e vilarejos, áreas de agricul-
bases de chapadas. Foram mapeadas e Do lado ambiental e indigenista, ainda tura, indústrias, todas as obras de infra-
calculadas as áreas situadas acima de existem propostas de novas UCs e TIs a estrutura, incluindo as do PAC, e boa
1.800 metros de altitude, os topos de serem criadas, sem falar das demandas parte de seus 25 milhões de habitantes.
a morro e as declividades entre 25° e 45°e dos quilombolas. Por outro lado, a ex- Para o ordenamento territorial e desen-
acima de 45°, seguindo a resolução Co- pansão das fronteiras econômicas pros- volvimento sustentável, a impressão é
nama 303/2002. As APPs associadas ao segue e será ampliada por demandas de que a Amazônia acabou. O país cor-
relevo resultaram em cerca de 104.500 crescentes das cidades, pela expansão da tará pela metade a economia e a popula-
km2 ou 2,5 % do bioma Amazônia. agricultura (agroenergia e alimentos), ção da Amazônia e bloqueará seu cresci-
pela integração rodoviária e energética mento para atender à legislação? Ou
SUPERPOSIÇÕES ESPACIAIS Existe su- com países vizinhos e pela implementa- adequará a legislação ambiental às reali-
perposição de limites entre UCs e TIs e ção das obras do Programa de Acelera- dades históricas e territoriais diferencia-
a entre elas e APPs. O sistema de informa- ção do Crescimento (PAC). O impasse das da Amazônia? Ou a região convive-
a ções geográficas calculou essas sobrepo- entre legalidade e legitimidade no uso e rá com um quadro que a cada dia afasta
sições, caso a caso. Trata-se de um cálcu- ocupação das terras deve agravar-se, di- a legitimidade da legalidade? Ou, ainda,
lo pesado e longo a ser realizado. O total ficultando a governança territorial. em uma negociação supra-setorial, com
de superposições foi de 687 mil km2 Em resumo, embora várias leis e iniciati- a voz ativa dos brasileiros da Amazônia,
(16%). Descontado esse valor, restou co- vas visassem a proteção ambiental da o Brasil repactuará o ordenamento ter-
mo área disponível para ocupação legal Amazônia, elas não contemplaram as ritorial, as formas e processos de desen-
cerca de 1.468 mil km2 ou seja 35% do realidades socioeconômicas existentes, volvimento e o futuro da região? A pros-
bioma. Os outros 65% estão legalmente nem a história da ocupação humana da seguir o atual quadro de ilegalidade e
a destinados às UCs, TIs e APPs. região e produzem um efeito contrário confronto entre demandas sociais e as
a ao meio ambiente. Na ausência do zo- exigências ambientais, hoje e no futuro,
RESERVA LEGAL A Medida Provisória neamento ecológico-econômico, a so- todos perdem. Perde-se também, sobre-
2166-67, de 24 de agosto de 2001, deu matória de UCs e TIs, das exigências le- tudo, a perspectiva de qualquer tipo de
nova redação à Lei 4.771 de 15 de setem- gais de reserva legal e de manutenção dos desenvolvimento sustentável.
bro de 1965 (Código Florestal) e prevê, diversos tipos de APPs, evidenciam a fal-
no mínimo, 80% da área florestal da ta de planejamento transversal ou mes- Evaristo Eduardo de Miranda é doutor em
ecologia e chefe geral da Embrapa Monitora-
propriedade rural mantida intocada a tí- mo de comunicação entre os diversos mento por Satélite (www.cnpm.embrapa.br)
tulo de reserva legal no bioma Amazô- ministérios. O conjunto das áreas prote-
nia. Respeitadas as exceções, já calcula- gidas levou a uma restrição legal de uso
NOTA BIBLIOGRÁFICA
das, a área total a ser destinada à reserva das terras sobre mais de 93% da região,
1. Além do autor, participam dessa pesquisa
legal foi calculada. Ela é da ordem de colocando na ilegalidade grande parte Daniel de Castro Victória, Fábio Henrique
1.179 mil km2 suplementares dedicados das atividades econômicas regionais, Torresan e Osvaldo Tadatomo Oshiro, da
à manutenção da cobertura florestal ou sem possibilidade de adequação. Embrapa Monitoramento por Satélite, e
cerca de 28% da região. A sociedade local, através de seus repre- Marcos Hott, da Embrapa Gado de Leite.