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Design e Comunidades: reflexões sobre uma

aproximação mediada pelo trabalho artesanal.

Design and Communities: reflections on an approach mediated for


the artisan work.

Mendes, Mariuze Dunajski; Mestra; Universidade Tecnológica Federal do


Paraná. mariuze@cefetpr.br
Medeiros, Jusméri; Especialista; Universidade Tecnológica Federal do
Paraná. jusmeri2002@yahoo.com.br

Resumo

O presente artigo visa refletir sobre as possibilidades de aproximação entre


o design e artesanato a partir da interação com uma comunidade de artesãos
do litoral do Paraná. A metodologia de trabalho foi definida respeitando os
múltiplos olhares e vozes dos membros da comunidade, considerando-os atores
e autores do processo, que foi pensado e construído em conjunto, buscando
resgatar e valorizar as identidades e os conhecimentos tecnológicos locais. O
planejamento dos produtos visou primeiramente garantir aos artesãos o domínio
das três esferas do processo: da produção; circulação e consumo dos artefatos; e,
pela aproximação dos aspectos simbólicos e econômicos. Inserindo os artesãos
de forma responsável e participativa no mundo do trabalho, almejamos garantir
a sustentabilidade social, cultural e ambiental da região.

Palavras Chave: metodologia projetual; sustentabilidade; trabalho.

Abstract

The present article aims at to reflect on the possibilities of approach between


design and crafts from the interaction with a community of craftsmen.
The work methodology was defined respecting the multiple looks and
voices of the members of the community, considering them actors and
authors of the process that was thought and constructed about set, thinking
about the local identities and technological knowledge. The planning of
the products first aimed at to guarantee to the craftsmen the domain of
the three spheres: of the production; circulation and consumption of the
devices; e, for the approach of the symbolic and economic. Inserting the
craftsmen of responsible and participativa form in the world of the work,
we long for to guarantee the social, cultural and ambiental sustentability
of the region.

Keywords: projectual methodology; sustentability; work.

7° Congresso de Pesquisa & Desenvolvimento em Design


Introdução

Trabalhar com comunidades significa pensar na cultura, história,


tecnologias e identidades que compõem o cenário local que é muitas vezes
encarado de forma única, mas, no entanto, se caracteriza pela diversidade
de manifestações coletivas, de vontades individuais e de hibridações com
outras culturas distantes.
O processo social, os laços da família e comunidade, a identidade
simbólica e as tradições ancestrais devem ser as fontes para resgatar,
valorizar, mas acima de tudo reconhecer na própria comunidade os
símbolos de identidade que propiciam a sua coesão (CANCLINI, 1983).
A cultura não é uma realidade posta, mas está sempre em construção,
dependendo de muitas escolhas individuais nas percepções das sociedades,
como aponta GEERTZ, a cultura é uma grande “teia de significados”,
tecida pelos próprios homens. Os símbolos significantes surgem nas
relações dos indivíduos, sendo “construídos historicamente, mantidos
socialmente e aplicados individualmente” (1989, p. 151).
Nas aproximações com as comunidades, o designer deve estar atento
para estas “marcas”, os símbolos construídos e aplicados pela sociedade,
sendo pelas memórias que podemos interpretá-los à luz do presente.

Toda a arqueologia de materiais é uma arqueologia humana. O


que este barro esconde e mostra é o trânsito do ser no tempo e a
sua passagem pelos espaços, os sinais dos dedos, as raspaduras
das unhas, as cinzas e os tições das fogueiras apagadas, os ossos
próprios e alheios, os caminhos que eternamente se bifurcam e se
vão distanciando e perdendo uns dos outros. Este grão que aflora à
superfície é uma memória, esta depressão a marca que ficou de um
corpo deitado. O cérebro perguntou e pediu, a mão respondeu e fez.
(SARAMAGO, 2000, p. 84).

Os designers, ao interagir com as comunidades, devem estar


conscientes que só com o estabelecimento de um diálogo, respeitando
os “sinais do tempo”, a diversidade e atentando para as necessidades
coletivas, mas também individuais dos envolvidos é que poderá ser
definido o caminho a seguir, ou traçar projetos futuros.

Contextualização

A idéia de uma Oficina de Design para a cooperativa de


Guaraqueçaba partiu do PROVOPAR1 e teve como objetivo despertar nas
pessoas o olhar para si e para sua região, para símbolos e significados da
própria comunidade e de fazer uma oficina de criatividade para estimular
a participação de todos no processo de criação de produtos, que sempre
deve ser coletivo.
Trabalhar com a aproximação do design e artesanato com

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comunidades significa pensar na cultura, na história, nas relações sociais,
no meio ambiente sustentável, nas possibilidades de trabalho e inserção
econômica das pessoas envolvidas, de uma forma sustentável de fato,
considerando todos estes fatores em conjunto.
Segundo CAPRA, o que é sustentado numa comunidade sustentável
não é o crescimento econômico nem o desenvolvimento, mas toda a teia
da vida da qual depende, em longo prazo, a nossa própria sobrevivência.
No domínio humano, a sustentabilidade é perfeitamente compatível com
o respeito à integridade cultural, à diversidade cultural e ao direito básico
das comunidades à autodeterminação e à auto-organização(2002). Os
designers são co-participantes desta aproximação da comunidade com
seus próprios símbolos e valores culturais.
As cooperativas populares de artesãos que vêm sendo formadas têm
o papel de gerar trabalho, congregando todas as pessoas, desde as que
detêm um conhecimento e tecnologias mais tradicionais, de raízes remotas,
como a indígena (que deve ser preservada e valorizada sem interferências
inconseqüentes), até as que não têm a tradição artesanal mas buscam no
setor uma nova possibilidade de trabalho e renda.
Na comunidade com a qual trabalhamos, localizada em Guaraqueçaba
no litoral do Paraná, pudemos perceber que esta diversidade existe e que
precisa ser respeitada, criando espaço para cada um dos segmentos ali
representados. O perfil dos cooperados vai desde jovens de 14 anos até
adultos de 68 anos, que visam trabalhar com as fibras naturais - nas técnicas
de cestaria, trançado e tear, ou com a cerâmica – artística, de objetos
utilitários ou decorativos. Alguns têm domínio de técnicas herdadas de
seus ancestrais (a geração mais antiga – das pessoas com mais de 60 anos),
como no caso da cerâmica e cestaria, fruto de uma tradição da região,
entretanto a maioria perdeu o contato com estas práticas, uma vez que a
geração intermediária (composta pelas pessoas de aproximadamente 20 a
50 anos), abandonou o artesanato e a pesca, bases da cultura local.

Abordagem metodológica.
Sentir e agir em conjunto.

Em todas as atividades, especialmente no caso do Design, “há a


necessidade de organizar o trabalho para se chegar à materialização
das idéias e à produção dos artefatos, sendo a metodologia a base deste
planejamento” (MENDES, 2005, p.70). Além de pensar na metodologia
de trabalho com os cooperados durante as oficinas, enfatizamos para os
envolvidos a importância do planejamento de todo processo de produção
dos artefatos que iriam iniciar.
No primeiro contato percebemos uma certa resistência dos
cooperados quanto ao termo Design e acreditamos que o mesmo foi
erroneamente citado, pois está muito distante da realidade da comunidade.
Assim, um primeiro passo foi tentar explicar qual a função de um
designer e qual nosso objetivo na cooperativa, pois acreditamos que “não
é suficiente projetar considerando apenas os valores estético-formais,
funcionais e de serventia de um produto. É também necessário, projetar a

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das relações entre as diversas pessoas e, entre estas pessoas e os produtos”
(MANZINI,1995).
O objetivo principal da oficina de criatividade foi trabalhar com a
observação, o sentir e a experimentação do grupo. Com isto, poderíamos
conhecer, reconhecer e sermos reconhecidos. A duração desta oficina foi
de 5 dias, sendo definidas algumas etapas de trabalho, negociadas com o
grupo, que apresentamos abaixo e detalharemos na seqüência.

Etapas:
- Apresentação individual dos cooperados;
- Aplicação de técnicas de observação, análise e reprodução de imagens
da região, para fazer um trabalho utilizando técnicas de composição;
- Levantamento de elementos significativos da identidade da região.
- Definição de segmentos e objetos viáveis para a produção: casa, infantil
e moda;
- Divisão do grupo em equipes para analisar os segmentos e os objetos
listados em cada um destes, definindo um para ser trabalhado;
- Apresentação de transparências e fotos de objetos retratados em revistas
de moda e decoração;
- Definição de um objeto do segmento escolhido para cada grupo criar e
produzir;
- Geração de alternativas do objeto;
- Confecção de um modelo;
- Planejamento quanto aos aspectos formais, técnicos, dimensionais,
cores, adequação do uso do material e qualidade do produto.
- Produção do artefato;
- Apresentação ao grupo para análise;
- Definição de uma linha de produtos.

Após a explanação das intenções e contato inicial para formar


vínculos, iniciamos a primeira atividade, aonde cada aluno desenvolveu
um crachá com os materiais disponíveis: EVA, fibra de bananeira,
cola, canetas, tesoura. Esta atividade, além de facilitar a identificação
individual dos participantes, transformou-se em um exercício no qual foi
possível observar a criatividade, agilidade, espontaneidade, compreensão
e entendimento do que estava sendo proposto em cada uma das pessoas
do grupo.
Como segunda atividade, o grupo foi dividido em três equipes que
definiram direções diferentes para uma visitação turística pela cidade de
Guaraqueçaba a fim de registrar as imagens representativas da identidade
regional. O registro destas imagens foi através do desenho, da descrição
verbal, da coleta de elementos da natureza e de fotografias, de acordo
com a habilidade de cada pessoa. Cada equipe foi acompanhada por uma
das professoras e por uma monitora.
Este exercício de observação teve como objetivo avaliar o olhar
do grupo aos elementos que possuem significado para os mesmos e nos

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possibilitou gratas surpresas em relação às descobertas feitas na exploração
de elementos arquitetônicos, embarcações, flores, plantas, aves, animais,
sementes, formas, cores e aspectos históricos da região. Ao retornarmos
os elementos encontrados e desenhados foram fixados nas paredes a fim
de que cada equipe pudesse observar o que foi registrado pelas demais.

Figura 1: Algumas imagens que foram apresentadas e discutidas


pelo grupo.
Fonte: Foto das autoras

No segundo dia, a partir do trabalho do dia anterior, retomamos a


análise dos elementos encontrados e definimos com os alunos uma lista
destes, dividida em três categorias: tradição, cor e forma.

tradição - fandango (dança em roda, tamanco, viola,


saias, lenço, grupo e música).
- folia de Reis, pesca, barco, banana, palmito,
barro, aves, bambu, caxeta e taboa.
cor - verde, azul, amarelo, lilás, vermelho,
laranja e branco.
forma - montanhas, mar, cachoeira, nuvens, árvores,
Guará, boto, pedras, conchas e embarcações.

Tabela 1: categorias definidas e avaliadas pelos alunos.


Fonte: Autoras.

Em seguida os alunos trabalharam com alguns conceitos de


composição como: linha, superfície, texturas, formas, cores, repetição,
rotação, espelhamento, entre outros, para transformar algumas imagens
escolhidas em grafismos ou símbolos para serem reproduzidos, conforme
figuras 2 e 3.

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Figura 2: trabalho de composição, feito através da folha da
bananeira.
Fonte: Foto das autoras

Figura 3: trabalho de composição feito através de


plantas, recolhidas pelos alunos.
Fonte: Foto das autoras

A fase seguinte constituiu na escolha de três segmentos de mercado:


casa, infantil e moda, delimitando dentro destes objetos a serem trabalhados
coletivamente.

- móveis, tapetes, pratos, luminárias, quadro, cachepô,


▪ casa manta, almofada,
flores, caixas, saboneteira, lixeira, panelas, travessa, jogo
americano,
fruteira, escultura, rede, azulejo e arandela.
- peteca, ioiô, instrumentos musicais, móbile, dominó,
▪ infantil bonecos e
fantoches.
- bijuterias, chinelo, cinto, bolsa, chapéu, anel, pulseiras
▪ moda e tiara.

Tabela 2: Segmentos de mercado definidos pelos alunos.


Fonte: Autoras

Após o grupo definir os objetos que compunham cada segmentos,


as professoras exibiram uma série de transparências com ilustração de

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objetos que foram retirados de revistas de moda e decoração, para que todos
pudessem ver o que vem sendo comercializado - uma vez que poucos têm
acesso a revistas ou lojas, já que a cidade é bastante isolada dos grandes
centros urbanos - e refletir sobre a possibilidade de gerar novos produtos
a partir dos seus conhecimentos de materiais e técnicas.
No dia seguinte, ao fazerem a divisão em equipes, já foi acordado
qual objeto iriam desenvolver. Sendo assim, começamos as atividades
neste dia conversando com as equipes sobre a proposta de trabalho e como
eles fariam o planejamento para o desenvolvimento de cada produto,
conforme exemplo abaixo (Fig. 4).

Figura 4: planejamento para execução do objeto.


Fonte: Autoras.

A proposta foi de que cada membro da equipe desenvolvesse várias


alternativas do produto escolhido, sendo que todos trabalhariam com o
mesmo objeto, variando as técnicas, formas, cores etc., considerando um
plano elaborado em conjunto, e as habilidades individuais e coletivas.
Neste momento ocorreram muitas trocas de informação entre os membros
das equipes, o que enriqueceu muito o resultado final.

Figura 5: produtos desenvolvidos em fibra de bananeira e


seguindo a metodologia descrita acima.
Fonte: Foto das autoras

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O objetivo desta proposta foi mostrar a necessidade de se definir uma linha
de produtos a serem comercializados, explorando as técnicas e os processos
já conhecidos e os aprimorando, desenvolver a criatividade, explorar a
utilização de materiais encontrados na região, integrar os membros da
comunidade, fazer uma análise e auto-análise das dificuldades (pessoais e
técnicas), trabalhar a questão do olhar, da qualidade e identidade do grupo
através dos artefatos gerados pelos mesmos.
Iniciamos a explicação de como se caracteriza um planejamento
da produção, para que de forma simples, pudessem compreender a
importância de planejar e estabelecer passos e critérios para pensar em
um novo artefato, conforme figura 6.

Figura 6: fases para o desenvolvimento de um artefato


Fonte: desenvolvida pelas autoras

Acreditamos que definir uma linha de produtos é importante para


os artesãos porque:
- aprimora o conhecimento das técnicas;
- controla a qualidade em todas as etapas do processo;

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- proporciona coerência formal com a cultura local;
- auxilia no planejamento da produção dos artefatos;
- a relação da produção x comercialização torna-se mais clara;
- facilita na formatação dos custos;
- atende o desejo do consumidor;
- mantém uma padronização na relação dimensional x função;
- define segmentos que possuem maior demanda;
- mantém os pontos de venda abastecidos;
- desenvolve o espírito de equipe (o criador não é o único a produzir o
artefato);
- define um mostruário de artefatos que podem gerar novos pedidos;
- desenvolve método e planejamento no desenvolvimento de novo
produtos;
- estabelece um posicionamento crítico dos cooperados em relação ao
desenvolvimento de novos produtos.

Tentamos demonstrar que a criação de uma linha de produtos


busca atender aos aspectos conceituais, funcionais, produtivos e estéticos,
visando a comercialização para um usuário que deve ser considerado no
processo, pois os artefatos são determinados ou sustentam uma dinâmica
social e cultural, ou podem reelaborá-las.
Este trabalho comunitário envolveu várias áreas, a fim de
conscientizar a comunidade das etapas de gestão, extração de matéria
prima, criação, desenvolvimento, fabricação, logística e comercialização
de uma linha de produtos. É fundamental que um produto seja planejado
desde sua concepção até o seu descarte, sendo o designer peça fundamental
em todas as fases deste ciclo, contribuindo para que o produto não interfira
negativamente sobre o meio ambiente, seja socialmente justo sem destruir
a cultura local.

Considerações

É importante ressaltar que cada comunidade possui seus próprios


anseios e valores, sendo papel do designer respeitar estas características,
buscando equilibrá-las com as necessidades do mercado para que os
produtos obtenham demanda e conseqüentemente gerem trabalho e renda
beneficiando a vida comunitária.
Para o designer, a chave é compreender e compartilhar o processo,
o que envolve um sentir em conjunto com os outros os significados
das ações. O universo do discurso sobre as técnicas de produção e
comercialização é ampliado quando há uma comunicação interativa entre
o designer e a comunidade, sempre considerando que influenciamos,
podemos transformar e sermos transformados nesta relação.

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Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M. M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins


Fontes, 2003.
CANCLINI, Néstor Garcia. As culturas populares no capitalismo. São
Paulo: Brasiliense, 1983.
________. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da
modernidade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997.
CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas. São Paulo: Editora Cultrix, 2002.
GEERTZ, Cliford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar
Editoras, 1989.
MANZINI, Ezio / VEZZOLI, Carlo. O desenvolvimento de Produtos
Sustentáveis. Os Requisitos Ambientais dos Produtos Industriais. São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
MENDES, M. e QUELUZ, G. Design e Artesanato: reflexões sobre
uma abordagem não reificadora nas pesquisas e interações com as
comunidades. In: QUELUZ, M.L.P. (org.). Design & Cultura. Curitiba:
Editora Sol, 2005. p.57 a 92.
SARAMAGO, José. A Caverna. São Paulo: Companhia das Letras,
2000.

(Footnotes)
1 PROVOPAR é uma organização não governamental, cujo objetivo é melhorar as condições de
vida da população mais vulnerável, incentivando a participação da comunidade no desenvolvimento
local, através de projetos que favoreçam a auto-sustentabilidade, promovendo a integração com
programas de políticas públicas sociais do Estado do Paraná.

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