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O Projecto de decreto-lei do Regime Jurídico de Autonomia, Administração e Gestão

dos Estabelecimentos Públicos da Educação Pré-Escolar e dos Ensinos Básico e


Secundário – tal como o governo o apresentou em Dezembro de 2007 – desrespeita a
dignidade profissional dos professores, ignora o seu papel pedagógico específico e, de
facto, despreza a autonomia das Escolas que paradoxalmente diz defender.

Das várias alterações propostas, algumas há tão graves – quer em si mesmas


consideradas, pelo que revelam de falta de respeito e reconhecimento pelos professores
e pelas suas funções docentes e pedagógicas, quer pelas consequências que
inevitavelmente vão trazer à vida escolar do nosso país (tão vulnerável, tão fragilizada
já por políticas educativas contraditórias, apressadas e insensatas) – que importa recusar
com veemência e firmeza, de todos os modos possíveis.

Parecem-nos especialmente graves os pontos seguintes:

1. Conselho Geral:
Neste “órgão de direcção estratégica responsável pela definição das linhas
orientadoras da actividade da escola”, a participação dos professores fica reduzida a
um máximo de 40%. Este órgão assegura “a participação e representação da
comunidade educativa” e longe de nós menosprezar essa participação. Muito pelo
contrário, esperamos que ela se torne mais sentida e mais activa. Nessa comunidade
educativa têm especial relevo, por motivos óbvios, os Pais e Encarregados de
Educação, cujos educandos são a razão de ser da própria Escola – sendo a
colaboração dos Pais e Encarregados de Educação uma tradição nossa, foi com
muito gosto que a vimos expressa e consagrada na lei (Dec.-Lei nº115-A/98).
Importa, no entanto, distinguir o papel que cabe a cada um dos corpos representados
no Conselho Geral, e estamos seguramente perante uma errada concepção de escola
quando, num órgão que tem as competências a este atribuídas, se determina que a
participação dos Professores não ultrapasse os 40%.
Esta minoria para que são remetidos não corresponde ao papel que desempenham na
escola – sem paralelo com qualquer outro – e reforça a sistemática desautorização e
desrespeito pelo papel específico que lhes cabe, seja ele de natureza pedagógica ou
científica, ou de ambas, como costuma ser. Do mesmo passo ignora-se a dignidade
do estatuto do professor e subalterniza-se a sua função a interesses múltiplos
verosimilmente presentes neste órgão todo-poderoso. Simbolicamente, a
representação atribuída aos professores é eloquente quanto ao papel que, na Escola,
a tutela lhes reserva.
Tão grave, ou mais grave ainda, o Presidente deste Conselho não pode ser um
professor. Quanto a nós, deveria sê-lo, obrigatoriamente. Mas a tutela entendeu por
bem vedar aos professores o acesso a este cargo. Não imaginamos que,
expressamente, alguma vez de um documento legal constasse maior
desconsideração pelos docentes. Esta desconfiança quanto aos professores – que
perpassa por todo o documento – atinge aqui proporções inaceitáveis, e indicia a
criação de uma escola à qual não gostaríamos de pertencer.

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Escola Secundária Rainha Dona Amélia
Reunião conjunta de Conselho Pedagógico e Assembleia de Escola
16 de Janeiro de 2008
2. O Director, os Órgãos de Gestão Intermédia, o Conselho Pedagógico

O projecto de decreto-lei “pretende” reforçar a autoridade do Director – entidade que,


espantosamente, não foi escolhida por uma maioria de professores! – mas fá-lo de
forma verdadeiramente aberrante, asfixiando os outros órgãos de gestão. Nesta linha,
cabe ao Director a designação dos responsáveis pelos cargos de gestão intermédia:
coordenadores de departamento, coordenadores de grupo, coordenadores dos ensinos
básico e secundário, etc. Assim, todos os professores que têm assento no Conselho
Pedagógico são nomeados pelo Director. Que independência pode ter aquele órgão?
Que sentido tem um Conselho Pedagógico que mais não é do que a extensão da
autoridade do Director?

3. O Conselho Geral Transitório

Na composição deste órgão culmina a falta de respeito pelos professores e o


desconhecimento – ou a ignorância – do que é a Escola e o seu funcionamento.
A este conselho cabem funções tão importantes como, por exemplo, a elaboração do
Regulamento Interno que estabelece a composição dos vários órgãos da escola – aqueles
que existem por força de lei e aqueles que são criados no âmbito da “autonomia”
concedida aos estabelecimentos de ensino. Por outras palavras, a este órgão cabe redigir
o documento “fundador da escola”, a partir do qual tudo o mais se organiza. Ora,
justamente, dos vinte membros, apenas sete são professores. Representantes da
autarquia são três (lembramos que com dificuldade a autarquia tem assegurado a
participação esporádica de um elemento). Representantes da comunidade local são três.
Que comunidade local é essa? Que interesses representa? Que vontade, que capacidade
tem de participar neste conselho que vai “ criar” a escola onde, diariamente, professores
e alunos desenvolvem o processo de ensino - aprendizagem? Os representantes dos pais
são cinco, e apesar do respeito que nos merecem, parece-nos desproporcionado este
número quando o comparamos com a representação dos docentes.
A composição deste conselho é uma afronta aos professores e o reconhecimento
expresso de que, na escola, a sua voz é de importância relativa, a sua formação inútil, o
seu papel secundário.

Rejeitando toda e qualquer acusação de corporativismo, afirmamos que os professores


são profissionais que na escola têm o papel específico para o qual estão, ou devem estar,
preparados: a eles cabe o desempenho das funções pedagógicas que lhes estão
atribuídas, a leccionação das matérias curricularmente estabelecidas. Com os alunos,
eles são o núcleo essencial da escola – sem eles, não há escola.
A comunidade educativa deve mobilizar-se para que os professores tenham condições
para exercer as suas funções: tem direito a obter as informações que solicitar, pode pedir
avaliações, deve exigir resultados, mas não pode assumir, em tempo algum, o papel
exclusivo que cabe aos professores, como não o fará relativamente ao papel dos
médicos, dos juízes, dos engenheiros…
O que o legislador pretende da escola não se depreende da leitura dos vários diplomas
legais recentemente promulgados. Mas a verdade é que, sistematicamente, têm
contribuído para a desmotivação, para o desânimo dos professores, sobretudo daqueles
que mais respeitam a sua profissão.
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Escola Secundária Rainha Dona Amélia
Reunião conjunta de Conselho Pedagógico e Assembleia de Escola
16 de Janeiro de 2008
Texto aprovado com 32 votos e uma abstenção.
Presenças de acordo com convocatória em anexo.
Aprovou-se igualmente que fosse enviado às seguintes personalidades / entidades:

• Presidente da República
• Primeiro-Ministro
• Ministra da Educação
• Presidente da Assembleia da República
• Comissão de Educação da Assembleia da República
• Conselho Nacional de Educação
• Conselho de Escolas
• Estabelecimentos de ensino público
• Confap
• Câmara Municipal de Lisboa
• Meios de Comunicação Social
• Fórum para a Liberdade de Educação

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Escola Secundária Rainha Dona Amélia
Reunião conjunta de Conselho Pedagógico e Assembleia de Escola
16 de Janeiro de 2008