MEXA-SE

12 BAURU, domingo, 6 de julho de 2014
Não criar raízes
é desafio dos
novos tempos
A grande busca dos dias de hoje se baseia em se mover, saindo da chamada zona de conforto e aceitando as mudanças em todas as áreas da vida
DULCE KERNBEIS

Se você não gosta de
onde está, mova-se”, diz
frase motivadora para
mostrar que as pessoas não
devem ficar paradas e pre-
cisam vencer a famosa pro-
crastinação, a arte de “em-
purrar com a barriga” ou a
inércia, o desejo de ficar pa-
rado. Mover-se parece fácil,
afinal, o ser humano não tem
raízes como as árvores. Mas
será que é isso mesmo? Dar
um tempo, não fazer nada,
também não é bom?
E dá para ficar parado
sem ter a famosa sensação
de culpa? Especialmente no
setor profissional, como es-
perar as coisas acontecerem
se tudo e todos estão corren-
do? Dá para ficar sentado à
beira do caminho enquanto
os carros correm na estrada?
E como vencer o famoso de-
sapego, o aprisionamento a
seres e situações que nos fa-
zem sofrer? Ou nos prendem
em locais que há tempos não
gostaríamos mais de estar?
Esse é um dos maiores
desafios dos dias atuais. Es-
pecialistas no assunto dão
dicas, inclusive, para você se
mexer ou assumir, sem cul-
pa, a inércia.
NECESSIDADE HISTÓRICA
“Quem fica parado é pos-
te!”. “Tem que correr para fi-
car onde está”. “Água parada
cria lodo”. “Acorda, meni-
na!” . Estes são bordões que
todo mundo já ouviu. Nos
dias de hoje, o movimento
é essencial . Tal qual a figura
do pêndulo de Newton (veja
ilustração acima), mesmo
quando estamos parados,
sem nenhum movimento,
algo acontece que nos move.
É inevitável.
Assim como também
não nascemos para fincar
raízes. É histórico. Lá no
começo dos tempos, os po-
vos primitivos iam se mo-
vendo em busca de comida.
Descobriram a agricultura
e fincaram raízes, criaram
comunidades, cidades, refe-
rências.
Mesmo assim, a neces-
sidade de mudar, movi-
mentar-se, escolher novos
caminhos, experimentar
novos rumos e modos de
fazer as coisas é da nature-
za humana.
Só que, em pleno século
21, ficar na zona de conforto
e apego excessivo são males
dos tempos modernos. E
seja na vida profissional ou
na pessoal temos que estar
atentos. Se ganhamos uma
batalha, temos que estar
preparados para a batalha
seguinte, porque a guerra
nunca termina.
ZONA DE CONFORTO
Para fazer uma analogia
fácil: o jogador de futebol
depois de vencer um cam-
peonato vai para o chuvei-
ro, toma uma boa ducha e
saboreia a vitória até cair na
farra. Mas depois da adreli-
na que o deixa agitado para
a partida, precisa da endor-
fina para relaxar e, no dia
seguinte, pensar que, em

Na psicologia, é quase igual. Não se
mexer, não usar um poder, na verdade
pode ser um hábito. O hábito obriga a
pessoa a fincar raiz. Quanto mais arraigado
o hábito, maior a força necessária para
tomar a atitude que vai levar à mudança,
que vai conduzir o indivíduo em frente.
E, muitas vezes, a saída da letargia ocorre
pela dor. Pelo trauma mesmo. É preciso um
evento ruim, algo traumático para que a
pessoa decida. E se a decisão ocorre diante
da morte, de um acidente, de uma briga, de
um rompimento, é possível que isso seja o
mote para que a pessoa decida algo, como
largar o emprego certeiro e sair pelo mundo.
Se isso ocorre é porque no fundo - bem
no fundo - ela já estava há muito tempo
pensando na ideia. Estava sonhando com
isso. Mas vacilava. Essa indecisão é até
normal. E é até normal e compreensível.
Mas e se o trauma não ocorre a pessoa vai
passar a vida toda com medo de fazer algo
diferente? Vai se lamentar o tempo todo?
Não é por aí. É lançar mão da psicologia e
do autoconhecimento.
Vacilo e trauma
[
[
Parado
Em pleno século
21, ficar na zona
de conforto é um
dos males dos
tempos modernos
breve, terá outros torneios.
Assim também é nossa vida.
E, como o jogador de fute-
bol, não podemos nos dar ao
luxo de ficar na famosa zona
de conforto, vivendo de gló-
rias do passado, do que já
foi conquistado. Se não fi-
zer mais gols, se não repetir
a dose, vai ter um grande
problema na carreira, não
é mesmo? Ninguém pode,
nos dias de hoje, ficar nes-
sa zona de conforto, achar
que “chegou lá”. Com isso,
a pessoa corre sério risco de
cair na chamada “acomoda-
ção” e ser passada para trás.
FALTA DE VONTADE
Mas pior do que isso é
quando a pessoa ainda não
alcançou seu objetivo e é in-
vadida por uma falta de von-
tade que faz com que nada
aconteça. Ou, se acontecer,
a pessoa não se movimenta,
e o resultado torna-se quase
uma tragédia. É como a his-
tória de cozinhar a rã. Se jo-
gada em uma panela de água
fervente, pula imediatamente
e cai fora. Já se for colocada
em água morna, quentinha,
ela ficará lá aproveitando o
momento, a tal ponto que
será cozida, sabiam?
Assim é a inércia. Bem
no estilo “quem fica parado
é poste”, ela faz com que o
cozimento em banho-maria
leve a pessoa à ruína, ou faça
com que ela não saia do lu-
gar. Ou só se lamente. Todo
mundo conhece a história de
um indivíduo que tem to-
das as ferramentas para ser
alguém de sucesso. Mas só
que ninguém pode usar as
ferramentas por ele. E ele
fica ali, parado, olhando para
elas e não se move. E ainda
se lamentando por falta de
sorte e que nada acontece.
INÉRCIA E COVARDIA
Para muita gente, inclu-
sive, esse ato se traduz em
covardia. Na visão dos ou-
tros, o ser humano tem um
potencial bom e não usa
essa ferramenta, não raras
vezes é taxado de “covar-
de”, como o cara que se
esconde na hora do gol ou
não se apresenta para bater
o pênalti, não é mesmo?
O que há, na verdade, é
o avanço do medo. Quanto
menos se age, mais se teme a
dar o primeiro passo. Afinal,
na física, todos sabemos que,
para movermos um objeto,
tirar a ferramenta do lugar,
é preciso de uma força igual
ou superior à sua massa.
Ou seja, é preciso que o
indivíduo se mexa e agarre
a ferramenta que é a energia
inerte. Está ali, mortinha,
digamos assim. Ele próprio
é a energia viva que vai usar
a perna e com categoria ba-
ter o gol, ou a inteligência e
fechar um negócio rápido,
ou então a mãe vai ter sensi-
bilidade para sentir a neces-
sidade do filho antes mesmo
que sua febrinha vire uma
febre altíssima e leve a con-
vulsões. Simples assim, não
é? Nem tanto.
A ação da ‘não ação’: quando esperar também faz parte
Para a pedagoga, mestre
de cursos de comunicação,
consultora de I Ching, Cecília
Dalva Silva, ficar parado, ter
um momento de introspec-
ção, é essencial. É a hora da
quietude, “quando eu esco-
lho ficar em silêncio, não me
mexer. E não porque estou
em depressão, mas porque é
o momento de buscar a sere-
nidade para depois agir”. Há
uma ação sim. É o movimen-
to de “não ação”, explica ela,
para exemplificar que há algo
“mesmo quando parece que
nenhum movimento visível
esteja a acontecer”.
ESPERA BÍBLICA
Se por um lado as grandes
conquistas da humanidade
aconteceram graças a movi-
mentações, buscas de novos
locais, mutações internas ou
externas, por outro não se
pode condenar quem espera.
Também há fatos de parada
fundamentais para a huma-
nidade. A própria Bíblia Sa-
grada narra isso. Assim foram
os quarenta anos do povo de
Deus no Deserto do Sinai,
igualmente os anos de tra-
vessia, ou espera da arca de
Noé no dilúvio. As famosas
tréguas em guerras, os acor-
dos de paz entre nações, não
são, no fundo, um tempo de
espera?
Quando se dá um tempo,
pode parecer que é para que
nada aconteça, e, no entan-
to, durante esta pausa, mui-
to pode estar acontecendo.
Como a reunião de condições
favoráveis. O crescimento es-
piritual, por exemplo, exige
um período de espera muito
grande.
QUATRO TIPOS
Do ponto de vista psicoló-
gico, há aqueles que esperam
com desconfiança (em geral
são as pessoas tomadas por
muito medo); há os que espe-
ram duvidando do resultado
(quando há confusão men-
tal); há os que esperam com
otimismo (são os que, no ín-
timo, sabem o que fazer, mas
entendem que não há porque
ter precipitação porque ainda
não chegou a hora). E, no fi-
nal, há um quarto tipo de es-
pera: os que deixam tudo nas
mãos de Deus (esses têm ex-
cessiva confiança, vão no es-
tilo da música, “deixa a vida
me levar” e o resultado costu-
ma ser uma incógnita).
PERSEVERANÇA
“Há momentos na vida de
cada pessoa – e isso ocorre
com frequência – que exigem
paciência, resistência e perse-
verança”, diz Cecília Dalva,
que recorre a um hexagrama
do I Ching, o de número 52,
para invocar a necessidade
de quietude. Para quem não
sabe, o I Ching, um livro de
mais de 6 mil anos da cultura
chinesa, é o mais antigo orá-
culo do mundo. É um estudo
de sabedoria interior, uma
espécie de sistema antropoló-
gico que dá, a quem o lê ou
o prática, um conhecimento
mais completo de si mes-
mo e, a capacidade de sentir
ou adivinhar o que está para
acontecer, a partir de figuras
(chamadas hexagramas) ins-
piradoras do que há de mais
profundo em cada um.
Para quem está em dúvida,
na inércia e sem capacidade,
ou mesmo quando tem capa-
cidade, e não encontra a von-
tade interior para se mexer,
o I Ching é um sistema de
consulta bastante válido que
foi estudado até por grandes
mestres da psicologia como
Carl Jung.
Viver é igual ao
pêndulo de Newton:
mesmo quando
estamos parados,
algo acontece
que nos move... é
inevitável
A consultora Cecília Dalva faz contraponto: espera é importante

Através do I Ching sabe-se que
é correto também, sem punição
alguma, permanecer imóvel, até que a
tranquilidade e a clareza se restabeleçam.
“A quietude significa deter-se. Parar
quando é chegado o momento de parar.
Avançar quando é chegado o momento
de avançar”, explica Cecília Dalva.
E isso, sem nenhum sentimento de
culpa, é importante frisar: “não adianta
ficar se detendo no ‘e se? E se isso?
E se aquilo?’. Você fica feito roda de
caminhão, entalada na lama. Roda, roda,
roda e não sai do lugar”. Ela explica que
é preciso viver apenas o “aqui e agora,
ter quietude e não ficar desesperado com
as turbulências, os desafios do mundo
externo. Com essa parada, a pessoa
consegue a tranquilidade que precisa.
Aquietar-se, serenar o coração, buscar a
serenidade da mente, possibilitam tomar
a melhor decisão depois”.
Sem punição
Divulgação

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