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Edição 11 - 11/2009

A construção que faz a DIFERENÇA


Mais do que uma simples obrigação burocrática, o Projeto Político-Pedagógico é o
documento que pode estabelecer e traçar os grandes objetivos de um colégio
Filipe Jahn
Isabelle Barreto

Segundo o artigo 12 da Lei de Diretrizes e


Bases da Educação Nacional (LDB), cabe a
cada estabelecimento de ensino elaborar e
executar o seu Projeto Político-Pedagógico
(PPP). Porém, ainda que todas as escolas
tenham a obrigação de entregar anualmente às
secretarias de Educação um documento oficial
descrevendo o projeto, muitas vezes o discurso
teórico não condiz com a prática. Alguns são
elaborados apenas para responder à necessidade burocrática e legal, deixando de
incorporar práticas e possibilidades de atuação da escola na formação do estudante.

Isso acontece por razões diversas, como a falta de experiência dos professores no
assunto e a ausência de objetivos coletivos entre todos os envolvidos no processo. A
incapacidade dos gestores de diagnosticar os principais problemas de suas escolas
também dificulta a execução de um PPP eficiente. Ocimar Munhoz Alavarse, professor
da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), comenta que há casos
em que os funcionários de uma escola têm condições de reunir fontes de informação e
indicadores suficientes para formular um bom projeto, mas que esbarram na falta de
interesse ou na incompreensão. "Os números não falam, nós que os interpretamos.
Quando a escola não os entende, ou não procura entendê-los, a saída mais fácil é apenas
formalizar o compromisso com o Estado", diz.

O gestor de uma instituição que pretende colocar em prática um Projeto Político-


Pedagógico de qualidade deve, em primeiro lugar, constituir uma equipe articuladora
que entenda a importância da empreitada da qual irá participar. Essa equipe terá a
função de planejar as formas de participação e sensibilizar os demais envolvidos
durante o processo, como pais de alunos, professores e outros funcionários da
unidade.

No entanto, como aponta Ana Elizabeth Maia, professora do Instituto de Educação


Superior de Brasília (Iesb), não basta fazer o convite, é preciso garantir tempo e espaço
para que a participação de todos ocorra. "A equipe precisa planejar quando, onde as
reuniões irão acontecer, e sua duração. Deve sempre haver uma pauta definida,
anunciada e negociada de início", afirma. Outras estratégias além das reuniões, como
festas e gincanas, também podem funcionar, pois promovem interação entre as famílias
de alunos e os funcionários, abrindo espaço para uma participação no ambiente escolar.

A partir daí, a equipe precisa examinar a realidade do contexto em que a escola está
inserida. Quais são as atividades existentes na área próxima, como o tempo e o espaço
são aproveitados fora da instituição. Nesse sentido, a equipe articuladora deve entender
a escola como um espaço comunitário e buscar compreender quais as expectativas da
comunidade sobre ela. Os próprios alunos podem auxiliar, caso o levantamento se torne
muito difícil, por meio de entrevistas com suas famílias, pedindo documentos como
registros, carteiras de vacinação ou fotografias. Ouvir a opinião de teóricos que
escrevem a respeito do tema, ou de pessoas de outras escolas que tenham experiências
positivas, também promove uma troca de informações importante para a elaboração do
projeto pedagógico.

Com essa fundamentação em mãos, a política educacional deve ser articulada com
objetivos relevantes para diferentes prazos e espaços, conforme as necessidades
diagnosticadas. Para não haver questionamentos sobre a credibilidade do que está sendo
construído, é importante que as atividades e tarefas planejadas sejam desenvolvidas em
função não apenas das prioridades mas também das condições concretas da escola e
conforme os recursos disponíveis.
Não existe um momento ideal para começar a elaboração, mas a execução de um PPP
frequentemente acontece com o início do ano letivo. E mesmo quando ele já estiver
sendo realizado, a equipe deve sempre manter-se aberta a novas ideias para o projeto.
Isso impede que tanto ações dos professores quanto da escola sejam limitadas.

Gustavo Morita

Formas de avaliação
Um dos pontos mais importantes de um PPP é
a avaliação contínua do próprio projeto. O
documento deve ser consultado, especialmente
nas reuniões pedagógicas da escola, e
anotações feitas para medir o seu bom
desenvolvimento. Assim, indicadores de
desempenho podem ser observados pela equipe
e desvios indesejáveis no foco dos objetivos
Programas de rádio produzidos pelos ser evitados. Segundo Nilbo Ribeiro Nogueira,
alunos são transmitidos nos intervalos professor da Faculdade de Administração e
das aulas. Projetos incentivam estudo e Informática de Minas Gerais (FAI-MG),
frequência adaptações no projeto também podem ser feitas
durante o ano letivo, se uma avaliação
apontar a necessidade. "Um PPP nunca está realmente concluído. As mudanças dão
espaço para correções de rotas que ajustam o processo", explica.

Ana Elizabeth, do Iesb, lembra de um caso em que o projeto do qual participou teve de
ser alterado em decorrência de uma dificuldade observada durante uma avaliação do
processo. Sua equipe de gestão do Centro de Ensino Fundamental 17 de Taguatinga,
Distrito Federal, queria colocar em prática a gestão democrática da escola. Ao examinar
a condução do projeto, percebeu-se que professores e funcionários tinham visões
diferentes sobre o que seria esse tipo de prática. "No início, algumas pessoas
acreditavam que estavam envolvidas. Mas notamos que, para elas, participar era apenas
estar presente nas reuniões", comenta.

O projeto foi alterado, para que houvesse um novo trabalho que alinhasse os conceitos
de acordo com as intenções da equipe. Em poucos meses, houve mudanças
significativas, com a participação passando a ser pensada em termos de tomada de
decisões coletivas. No final da gestão, a meta estabelecida foi atingida.
Mesmo com esse acompanhamento formativo, há também outros tipos de avaliação que
ajudam a observar o andamento de um PPP, como a frequencia de alunos e professores,
a evazão escolar e a média de notas. Algumas vezes esses indicadores são preteridos por
pedagogos, por considerarem que eles relatam mais sob o ponto de vista matemático do
que humano. Contudo, se esses números certamente não traduzem a realidade de uma
escola, ainda assim contribuem para constatar a eficiência de um projeto.

Mesmo que cada Projeto Político-Pedagógico não tenha um prazo específico para
terminar, o consenso entre os especialistas é de que ele seja reformulado a cada três ou
quatro anos, já que os contextos social, político e econômico são considerados na sua
elaboração e transformações importantes podem acontecer durante esse período.

O papel do Estado
Uma das questões mais polêmicas em torno dos PPP é qual deve ser a função do Estado
no processo. Apesar de a escola ter autonomia na elaboração e implantação de seu
projeto, as políticas públicas de educação, como o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), o Plano Nacional de Educação (PNE), e os Parâmetros Curriculares Nacionais,
são marcos regulatórios sobre as ações de uma escola.

Uma das vantagens da liberdade das escolas é a substituição dos grandes projetos
anônimos, distantes do cotidiano de cada unidade e elaborados burocraticamente. Ana
Elizabeth diz que o acompanhamento e a avaliação do projeto devem ser feitos por
quem faz parte da escola e o elaborou. "O controle burocrático é incompatível com o
controle popular e exclui qualquer participação 'de baixo para cima', pois não leva em
consideração as particularidades concretas de sua aplicação", opina. Para ela, cabe ao
poder público oferecer e garantir as condições para que os projetos das escolas possam
ser realizados com qualidade.

Ocimar Munhoz concorda que cada unidade pode elaborar melhor seu projeto, mas
acredita que o Estado deveria acompanhar mais de perto o que for desenvolvido e
avaliar, por meio de um plano previamente estabelecido. Com isso, os problemas como
a falta de interesse ou a ausência de um diagnóstico eficiente poderiam ser remediados.
Entretanto, chama a atenção para um exagero da formalidade: "Se esse
acompanhamento for apenas mais uma lei a ser cumprida, voltamos à estaca zero. O
projeto continua sendo apenas um documento".

Um bom exemplo
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Guilherme de Almeida, em São Paulo, a
equipe que elabora o Projeto Político-Pedagógico está reunida há 12 anos. A cada
quatro anos o projeto passa por uma reformulação, mas no início de cada período letivo
ele é revisto com base nas avaliações feitas no ano anterior. Além da análise formativa,
a cada seis meses há uma prova interna com assuntos unificados, que também auxilia no
retorno sobre o desempenho. De acordo com o assistente de diretor Eduardo
Villalpando, o projeto da unidade utiliza como base as diretrizes da Secretaria
Municipal de Educação de São Paulo (Smesp), e as reuniões pedagógicas vão
modelando-o conforme as necessidades e realidade da escola.

Entre as mudanças realizadas pela equipe nesses últimos anos estão a criação de uma
sala com professores que fazem recuperação contínua para alunos com dificuldades e o
Educom, trabalho em que há a realização de programas de rádio envolvendo os alunos,
que fazem reportagens relativas aos eventos da escola. Os programas são transmitidos
nos intervalos pelo sistema interno de comunicação da unidade.

Deise Soares, coordenadora pedagógica, está na Emef há 15 anos. Para ela, o PPP está
sempre em pauta nas reuniões e é levado a sério por todos. Aqueles que não entram em
sintonia com o modo de trabalhar da escola acabam pedindo transferência. "No ano
passado, um professor comentou que gostava do ambiente, mas era exigente demais.
Mas aqui é assim mesmo. Deixamos claro desde o início que só o horário curricular não
é suficiente", diz.

Com tanto trabalho, a Emef Guilherme de Almeida hoje tem uma das maiores
demandas entre as escolas municipais e foi uma das primeiras colocadas no Índice de
Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp). Um dos maiores
desafios atuais da unidade é estimular o retorno da comunidade ao ambiente escolar.
Houve um distanciamento no último ano em parte porque alguns dos projetos, como as
oficinas de dança, judô e capoeira, foram canceladas pela prefeitura. Agora são
realizados no Centro Educacional Unificado (CEU) localizado na região, mas, segundo
a coordenadora, a frequência dos alunos é menor do que quando ocorriam na escola.

Passos para fazer um bom PPP

- Equipe: Formar um time responsável pela sua elaboração e participação dos outros
envolvidos.
- Diagnóstico: Entender a realidade da comunidade do entorno da escola e procurar
conhecer suas expectativas.
- Metas: Criar objetivos consistentes, com prazos diferentes, que estão de acordo com os
recursos da escola.
- Avaliação: Estar sempre examinando o trabalho em processo permite mudanças
necessárias e impede a perda de objetividade.

Comentários
6/11/2009 - 23h34
Marcia Fatima de Souza - professora - ensino médio
Com certeza é preciso que se faça algo urgente pela educação do Brasil e o ensino
médio atual não contempla as necessidades de formação do jovem. Entretanto tenho
receio que esta forma inicial de implantação em apenas cem escolas venha a criar uma
elite dentro da rede prejudicando as demais unidades escolares que continuaram com
seu curriculo defasado, convivendo com alunos sem interesse e perspectiva já que o
ensino médio atual não lhes traz nenhuma esperança, principalmente o ministrado nas
escolas públicas.