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By Maruka, Lili & Rai

10 a Edição — do 103° ao 122° milheiros


Dezembro—2002
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não possui remuneração.
Capa: Celso Zonatto
Composição: Alpha Design (Tel: 5585-9709)

LAKE — Livraria Allan Kardec Editora


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São Paulo—BRASIL
ISBN: 85-7360-024-1

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CPI)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Kardec, Allan; 1804 — 1869


O Céu e o Inferno, ou, A Justiça Divina Segundo o Espiritismo —
Allan Kardec; edição inteiramente revista segundo o original francês
— por João Teixeira de Paula e J. Herculano Pires, introdução de J.
Herculano Pires — 10a edição — São Paulo, LAKE — 2002,

1. Espiritismo 2. Espiritismo — Filosofia; l. Paula, João Teixeira de


Pires e II. J. Herculano, 1914 — 1979 III. A Justiça Divina Segundo o
Espiritismo
98-5704 CDD-133.9013
Índice para catálogo sistemático:
1. Espiritismo 133.9
Allan Kardec

O Céu
e o
Inferno
Índice

ÍNDICE ................................................................................................ 4
Notícia Sobre o Livro.......................................................................... 9

PRIMEIRA PARTE ............................................................................. 15


CAPÍTULO I ..................................................................................... 16
O FUTURO E O NADA ............................................................... 16
CAPÍTULO II ................................................................................... 33
A PREOCUPAÇÃO COM A MORTE....................................... 33
Causas da preocupação com a morte — ................................. 33
Porque os espíritas não se preocupam com a morte.............. 33
Causas da preocupação com a morte ...................................... 33
CAPÍTULO III.................................................................................. 47
O CÉU ............................................................................................ 47
CAPÍTULO IV .................................................................................. 70
O INFERNO .................................................................................. 70
Intuição das penas futuras ....................................................... 70
O Inferno cristão imita o pagão ............................................... 72
Os Limbos .................................................................................. 76
Quadro do inferno pagão ......................................................... 78
Quadro do inferno cristão ........................................................ 91
Evangelistas. .............................................................................. 93
CAPITULO V.................................................................................. 107
O PURGATÓRIO ....................................................................... 107
CAPÍTULO VI ................................................................................ 117
DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS...................................... 117
Origem da Doutrina das Penas Eternas................................ 117
Argumentos a favor das penas eternas ................................. 126
Refutação ................................................................................. 132
Refutação ................................................................................. 133
Impossibilidade material das penas eternas ......................... 135
A doutrina das penas eternas passou do tempo ................... 139
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original142
CAPÍTULO VIl ............................................................................... 146
AS PENAS FUTURAS SEGUNDO O ESPIRITISMO ........... 146
A carne é fraca......................................................................... 146
Fontes da Doutrina Espírita sobre as penas futuras............ 152
Código penal da vida futura................................................... 153
CAPÍTULO VIII ............................................................................. 173
OS ANJOS ................................................................................... 173
Os Anjos segundo o Espiritismo ............................................ 190
CAPITULO IX ................................................................................ 194
OS DEMÔNIOS .......................................................................... 194
Origem da crença nos Demônios ........................................... 194
Os demônios segundo o Espiritismo ...................................... 220
CAPÍTULO X.................................................................................. 225
INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS NAS MANIFESTAÇÕES
MODERNAS ............................................................................... 225
CAPÍTULO XI ................................................................................ 258
DA PROIBIÇÃO DE EVOCAR OS MORTOS....................... 258

SEGUNDA PARTE ............................................................................ 279


EXEMPLOS ................................................................................ 279
CAPÍTULO I ................................................................................... 280
A TRANSIÇÃO........................................................................... 280
CAPÍTULO II ................................................................................. 294
ESPÍRITOS FELIZES ............................................................... 294
Sr. Sanson ................................................................................ 294
A Morte do Justo..................................................................... 311
Samuel Philippe....................................................................... 323
Van Durst................................................................................. 332
Sixdeniers................................................................................. 335
O Doutor Demeure.................................................................. 341
A Viúva Foulon ....................................................................... 351
Um Médico Russo.................................................................... 365
Bernardin................................................................................. 371
A Condessa Paula.................................................................... 374
Jean Reynaud .......................................................................... 381
Em Bordeaux ........................................................................... 384
ESPÍRITOS FELIZES ............................................................... 389
António Costeou ...................................................................... 389
A Srta. Ema ............................................................................. 394
O Doutor Vignal ...................................................................... 397
Victor Leblufe.......................................................................... 402
A Senhora Anais Gourdon ..................................................... 405
Maurício Gontran ................................................................... 408
CAPITULO ..................................................................................... 414
ESPÍRITOS EM CONDIÇÕES MEDIANAS.......................... 414
Joseph Bré................................................................................ 414
Hélèn Michel............................................................................ 417
O Marquês de Saint Paul ....................................................... 420
Cardon, médico ....................................................................... 423
Eric Stanísias ........................................................................... 431
Senhora Atina Belleville ......................................................... 434
CAPÍTULO IV ................................................................................ 444
ESPÍRITOS SOFREDORES ..................................................... 444
O Castigo.................................................................................. 444
Augusto Michel........................................................................ 449
Exprobrações de um Boémio ................................................. 453
Lisbeth...................................................................................... 455
Príncipe Ouran........................................................................ 461
Pascal Lavic ............................................................................. 466
Francisco Riquier.................................................................... 472
Clara......................................................................................... 474
CAPITULO V.................................................................................. 491
SUICIDAS ................................................................................... 491
O Suicida da Samaritana........................................................ 491
O Pai e o Conscrito.................................................................. 496
François Simon-Louvet .......................................................... 501
Mãe e Filho .............................................................................. 504
Duplo Suicídio por Amor e por Dever .................................. 509
Luís e a Prespontadeira de Botinas ....................................... 515
(Sociedade Espírita de Paris, agosto de 1858) ...................... 517
Um Ateu ................................................................................... 521
Felíciano ................................................................................... 532
António Bell ............................................................................. 539
CAPITULO VI ................................................................................ 546
CRIMINOSOS ARREPENDIDOS .......................................... 546
Veger ........................................................................................ 546
Leamíre .................................................................................... 553
Benoist ...................................................................................... 558
O Espírito de Casteinaudary.................................................. 564
Jaques Latour.......................................................................... 576
Capitulo VIl ..................................................................................... 600
ESPÍRITOS ENDURECIDOS................................................... 600
Lapommeray............................................................................ 600
Angela (nulidade na Terra).................................................... 609
Um Espírito Aborrecido ......................................................... 615
A Rainha de Ude ..................................................................... 620
Xumene .................................................................................... 625
CAPÍTULO VIII ............................................................................. 630
EXPIAÇÕES TERRESTRES.................................................... 630
Marcelo — o menino do n0 4 .................................................. 630
Szymel Slizgol .......................................................................... 635
Max, o mendigo ....................................................................... 653
História de um criado ............................................................. 658
António B... .............................................................................. 662
Letil........................................................................................... 668
Um Sábio Ambicioso............................................................... 673
Carlos de Saint-G... (idiota) ................................................... 677
Instrução de um Espírito acerca de idiotas e loucos, dada na
Sociedade de Paris................................................................... 680
Adelaide Margarida Gosse..................................................... 685
Clara Rivier ............................................................................. 689
Francisco Vernhes................................................................... 694
Ana Bitter................................................................................. 698
Joseph Maitre — O cego ........................................................ 703
Notícia Sobre o Livro

Lendo-se este livro com atenção vê-se que a sua estrutura


corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na
primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a
apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos,
com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na
segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas
caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante
dos confrontos necessários o juiz pronuncia a sua sentença
definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia.
Estamos ante um tribunal divino. Os homens e suas instituições
são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e
atenuantes são levados em consideração à luz de um critério
superior.
A 30 de setembro de 1863, como se pode ver em Obras
Póstumas, Kardec recebeu dos Espíritos Superiores este aviso:
"Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi
confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo,
do uso que fez de sua autoridade, enfim do estado de
incredulidade a que conduziu os espíritos." Esse julgamento
começava com a preliminar constituída pelo O Evangelho
Segundo o Espiritismo e devia continuar com O Céu e o
Inferno. Dentro de dois anos, em seu número de setembro de
1865, a Revista Espírita publicaria em sua secção bibliográfica a
notícia do lançamento do quarto livro de Codificação Espírita: O
Céu e o Inferno. Faltava apenas A Génese para completar a
obra da Codificação da III Revelação.
Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram publicados
antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado Da Apreensão
da Morte, vigorosa peça de acusação, no número de janeiro de
1865, e o capítulo Onde é o Céu, no número de março do mesmo
ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a
Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que
ambos pertenciam a uma "nova obra que o Sr. Allan Kardec
publicará proximamente".
Em setembro a obra já aparece anunciada como à venda. Kardec
declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se
limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu
conteúdo.
Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro
com o mesmo título com que saíra e o segundo com o título
reduzido para O Céu.
Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas fundamentais
da teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo
religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não
formal, conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-
la à custa de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter
científico do Espiritismo. Como ciência de observação a nova
doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à
luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações
do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs,
revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e
psicológicas dessas idealizações e denunciando os absurdos a
que chegara a imaginação teológica na formulação dos dogmas
cristãos.
O capítulo primeiro de O Céu e o Inferno intitula-se O Futuro e o
Nada. Esse título coloca o leitor em face das duas alternativas
fundamentais do espírito. Kardec se revela ao mesmo tempo
cartesiano e shakespeariano. É cartesiano quando propõe esta
premissa lógica, de agudo realismo: Vivemos, pensamos, agimos;
isto é positivo; não é menos certo que morremos. É
shakespeariano quando evoca o dilema: Ser ou não ser, els a
alternativa. Mas ao mesmo tempo se opõe, com a antecedência
de mais de um século, à tese do nada que surgirá ali mesmo, na
França, com a filosofia existencial de Jean-Paul Sartre, o teórico
da frustração e da nadificaçâo do homem.
O que mais impressiona neste processo jurídico é a objetividade
da acusação. Não estamos diante de um tribunal romano, onde
as normas do Direito se subordinam às exigências imediatistas do
Império, mas perante um tribunal grego do mundo socrático, onde
o juiz implacável pergunta a todo instante: o que é isso? e exige
definição precisa segundo as leis da maiêutica. Estas
comparações não são retóricas, são simplesmente históricas. O
processo lógico de Kardec segue as linhas dialéticas da busca
socrática da verdade, segundo a exposição platónica. O juiz que
pontifica neste tribunal não enverga a toga impura de Anito, mas
a túnica de Platão.
A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos
mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece.
A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã.
Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da
humanidade no sorvedouro medieval levou a natureza humana a
um retrocesso histórico só comparável ao do naziascismo em
nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram-se com o
retrocesso do homem nos anos 40 do nosso século e puseram
em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido este livro de
Kardec saberiam que a evolução não se processa em linha reta,
mas em ascensão espiralada. Os teólogos medievais esta vam
racional e moralmente atrasados em relação aos teólogos gregos
porque representavam uma vasta camada de população ainda
não atingida pelas luzes da cultura helénica. A evolução do
homem na Terra está sujeita às vicissitudes da superposição
periódica de camadas populacionais inferiores que precisam
aflorar na superfície cultural para se beneficiarem. A queda do
Império Romano foi um momento de superposição dos bárbaros,
que precisavam abeberar-se na cultura clássica. No episódio
aparentemente inexplicável do nazi-fascismo tivemos um novo
afloramento dos instintos bestiais do homem. Esses instintos
ainda estão presentes em nosso undo de após nazismo, mas vão
sendo caldeados na ebulição cultural dos nossos dias. Nenhuma
imagem explicaria melhor essa situação que a do caldeirão
medieval, formulada por Wilhelm Dilthey.
Vemos assim que este livro de Kardec tem muito para ensinar,
não só aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência
neo-pagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo,
como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo.
O processo espírita se desenvolve na linha de sequência do
processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou.
Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como
desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em
nosso tempo. A leitura e o estudo sistemático deste livro se
impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente
desejam compreender o sentido davida humana na Terra.
Mesmo entre os espíritas este livro é quase desconhecido. A
maioria dos que o conhecem nunca se inteirou do seu verdadeiro
significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da
evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos
dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da
evolução futura. As penas e recompensas de após morte saem
do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático
para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É
evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das
ciências de mensuração, pois o seu objeto não é material, mas
segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno
e contemporâneo. O grave problema da continuidade da vida
após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se
com a nudez da verdade à luz da razãoesclarecida.
Como ciência de observação o Espiritismo nos oferece a análise
de Kardec na primeira parte do volume. Como ciência de
pesquisa nos oferece a segunda parte, em que vemos Kardec
investigar objetivamenfe a situação dos espíritos após a morte.
Como ele acentua incessantemente, as penas e recompensas,
que são as consequências naturais do comportamento humano
na Terra, não aparecem aqui como alegorias ou suposições
elaboradas pela mente, mas como o resultado da pesquisa
mediúnica, da investigação direta da situação dos espíritos
através de suas próprias revelações. E essas revelações não são
gratuitas nem colhidas ao acaso, mas provocadas pelo
experimentador através de anos de trabalho árduo e paciente.
Mais de um século depois de realizado, esse trabalho é hoje
sancionado pelas investigações recentes, não só no meio espírita
mas também no campo das investigações parapsíquicas.
A imparcialidade de Kardec e o seu amor pela pesquisa, a sua
confiança na eficiência da investigação científica transparecem a
cada instante. Charles Richet teve razão ao reconhecer a
vocação científica do Codificador do Espiritismo. Dando ao
inferno e ao céu os seus contornos reais, com base nos
resultados de sua investigação, Kardec não repudia o dogma do
purgatório, o mais suspeito da estrutura teológica arbitrária
porque introduzido tardiamente no sistema dogmático católico,
mas aceita-o e justifica-o. O purgatório é a Terra, o lugar
determinado e circunscrito em que purgamos as nossas
imperfeições, encarnados ou desencarnados.
A doutrina teológica dos anjos e demônios é submetida também à
prova dupla da análise racional e da pesquisa científica. A
conclusão é límpida e certa: somos demônios quando estamos
saindo da animalidade para a espiritualização e somos anjos
quando estamos saindo da humanidade para a angelitude. Mas
isso não é uma ideia, uma hipótese, o produto de uma
elocubraçáo mental ou de uma interpretação arbitraria de textos
sagrados. É o resultado da observação e da pesquisa. Milhares
de criaturas espirituais observadas, interrogadas, submetidas à
experiência mediúnica forneceram os tipos psicológicos e morais
da escala espírita, numa verdadeira classificação psíquica
aplicável não só aos espíritos, mas também à tipologia humana.
A importância deste livro é maior do que realmente se pensa. No
tocante à Teologia, como procuramos demonstrar em várias
notas ao texto, O Céu e o Inferno antecipou de mais de um
século as transformações que ora se operam no seio das várias
igrejas. Se os teólogos, que pretendem ser homens mais do que
homens, como Descartes os classificou, pudessem ter a
humildade suficiente para consultá-lo, encontrariam nestas
páginas a solução dos seus mais angustiantes problemas.
(São Paulo, 30 de julho de 1973)
J. Herculano Pires
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I

O FUTURO E O NADA

1 — Nós vivemos, nós pensamos, nós agimos — eis o que é


positivo. E nós morremos — o que não é menos certo. Mas ao
deixar a Terra para onde vamos? No que nos transformamos?
Estaremos melhor ou pior? Seremos ainda nós mesmos ou não
mais o seremos? Ser ou não ser— essa é a alternativa. Ser para
todo o sempre ou nunca mais ser. Tudo ou nada. Viveremos
eternamente ou tudo estará acabado para sempre. Vale a pena
pensarmos em tudo isso?

Toda criatura humana sente a necessidade de viver, de gozar, de


amar, de ser feliz. Diga-se àquele que sabe que vai morrer que
ele ainda viverá ou que a sua hora foi adiada. Diga-se sobretudo
que ele será mais feliz do que já foi — e o seu coração palpitará
de alegria. Mas de que serviriam essas aspirações de felicidade,
se basta um sopro para dissipá-las?

Haverá alguma coisa mais desesperadora do que essa ideia de


destruição absoluta? 1 Sagradas afeiçoes, inteligência, progresso,
saber laboriosamente adquirido, tudo seria destruído, tudo estaria
perdido! Que necessidade feriamos de esforçar-nos para ser
melhores, de nos constrangermos na repressão das paixões, de
nos fatigarmos no aprimoramento do espírito, se de tudo isso não
iremos colher nenhum fruto? E, sobretudo, diante da ideia de que
amanhã, talvez, tudo isso não nos sirva para nada? Mas, se
assim fosse, a sorte do homem seria cem vezes pior que a do
bruto. Porque este vive inteiramente no presente, na plena
satisfação de seus apetites materiais, nada aspirando para o
futuro. Uma secreta intuição nos diz que isso é absurdo.

1
Cem anos depois de Kardec a Filosofia em França quase se desfez
nos sofismas do nada, com Jean Paul Sartre e sua escola. Mas Simone
de Beauvoir, companheira e discípula de Sartre, confirma e ilustra as
considerações de Kardec ao escrever"... detesto pensar no meu
aniquilamento. Penso com melancolia nos livros lidos, nos lugares
visitados, no saber acumulado e que não mais existirá. Toda a música,
toda a pintura, tantos lugares percorridos — e de repente mais nada!"
— La Force dês Choses, final do último capítulo. — A aproximação da
morte, sob a idéia do nada, acarreta às criaturas mais cultas essa
desesperança amarga. (N. do T.)
2 — Acreditando que o fim de tudo é o nada, o homem concentra
forçosamente todo o seu pensamento na vida presente. Com
efeito, não seria lógico preocupar-se com um futuro que não se
espera. Essa preocupação exclusiva com o presente o leva
naturalmente a pensar em si antes de tudo. É portanto, o mais
poderoso estimulante do egoísmo, e a incredulidade é
consequente consigo mesma quando chega a esta conclusão:
gozemos enquanto vivemos, gozemos o mais possível, desde
que após a morte tudo está acabado, gozemos logo, pois não
sabemos quanto tempo isso vai durar. E também quando chega a
esta outra conclusão, bastante grave para a sociedade: gozemos
de qualquer maneira, cada qual por si, que a felicidade neste
mundo cabe sempre ao mais esperto.

Se o respeito humano consegue deter alguns, que freio poderia


segurar aqueles que nada tem? Eles dizem que a lei humana só
protege os mal intencionados, e por isso aplicam todo o seu
talento aos meios de fraudá-la. Se existe uma doutrina malsã e
anti-social é seguramente essa do nada, pois que rompe os
verdadeiros laços da sociedade e da fraternidade, fundamentos
das relações sociais.

3 — Suponhamos que, em alguma circunstância, todo um povo


se convença de que dentro de oito dias, um mês ou um ano ele
será aniquilado, ue nenhum indivíduo sobreviverá, que não
restará mais nenhum traço de nada um após a morte. O que faria
esse povo durante este tempo? Trabalharia para se melhorar,
para se instruir, se esforçaria para viver? Respeitaria os direitos,
os bens, a vida de seus semelhantes? Se submeteria às leis, a
alguma autoridade, qualquer que seja, mesmo a mais legítima: a
autoridade paterna? Haveria para ele qualquer espécie de dever?
Seguramente não.

Pois bem: isso que não acontece para um povo que a doutrina do
nada realiza isoladamente a cada dia. Se as consequências não
são tão desastrosas como poderiam ser, é primeiro porque na
maior parte dos incrédulos há mais fanfarrice do que verdadeira
incredulidade, mais dúvida do que convicção, e porque eles são
mais temerosos do nada do que podem parecer. O epíteto de
espírito forte alenta-lhes o amor próprio. Em segundo lugar, os
verdadeiros incrédulos constituem uma ínfima minoria, que
sofrem a contra-gosto a pressão da opinião contrária e são
contidos pelas forças sociais. Mas que a verdadeira incredulidade
se torne um dia a opinião da maioria e a sociedade estará em
dissolução. É ao que leva a propagação da doutrina do niilismo. 2

2
Um jovem de dezoito anos sofria de uma doença cardíaca que foi
declarada incurável. O veredicto da ciência havia sido: Pode morrer
dentro de oito dias ou de dois anos, mas não passará disso. O jovem
ficou sabendo e logo abandonou todo o estudo e se entregou aos
excessos de toda a espécie. Quando lhe mostravam quanto essa vida
era perniciosa para a sua situação, ele respondia: "Que me importa,
desde que só tenho dois anos de vida? De que me valeria cansar a
mente? Gozo o tempo que me resta e quero me divertir até o fim." Eis a
conseqüência lógica no niilismo. Mas se esse jovem fosse espírita
poderia responder: "A morte só destruirá o meu corpo que abandonarei
como uma roupa usada, mas meu espírito continuará a viver. Eu serei,
numa vida futura, o que fizer de mim mesmo nesta vida. Nada do que
tenha adquirido em qualidades morais e intelectuais se perderá, porque
isso representa uma conquista para o meu adiantamento. Toda a
imperfeição de que me houver livrado será um passo no caminho da
felicidade, minha ventura ou minha desgraça futura dependem da
utilização de minha existência presente. É pois de meu interesse
aproveitar o pouco tempo que me resta, evitando tudo o que pudesse
diminuir as minhas forças." Qual dessas duas doutrinas será preferível?
(Nota de Kardec).
Seja quais forem as consequências, se o niilismo fosse uma
doutrina verdadeira teríamos de aceitá-la, e não seriam os
sistemas contrários, nem a ideia do mal que ela pudesse produzir,
que poderiam eliminá-la. Ora, não se pode negar que o ceticismo,
a dúvida, a indiferença ganham terreno cada dia, apesar dos
esforços da religião em contrário. Isso, é positivo. Se a religião é
impotente contra a incredulidade é que lhe falta alguma coisa
para combatê-la, de tal maneira que, se ela se imobilizasse, em
pouco tempo estaria inevitavelmente superada. O que lhe falta
neste século de positivismo, onde se quer comprender para crer,
é a sanção das suas doutrinas pelos fatos positivos. E é também
a concordância de algumas doutrinas com os dados positivos da
ciência. Se ela diz branco e os fatos dizem negro, temos
forçosamente de optar entre a evidência e a fé cega 3 .

3
Muitos esforços se fazem ainda hoje, particularmente no campo da
Cibernética e do Estruturalismo, para demonstrar que o homem não tem
liberdade. O Espiritismo é, por excelência, a doutrina da liberdade e da
responsabilidade individuais. Mas o conceito de liberdade, no
Espiritismo, não é absoluto. A liberdade humana é condicionada pelas
condições corporais (hereditariedade, constituição etc.) pelo meio físico,
4 — Em face desta situação o Espiritismo vem opor um dique à
invenção da incredulidade, servindo-se não somente da razão e
da perspectiva dos perigos a que ela arrasta, mas também dos
fatos materiais, ao permitir que se toque com o dedo e se veja
com o olho a alma e a vida futura.

Cada qual é livre sem dúvida no tocante à crença, podendo crer

pelas características raciais, pela cultura e pelas normas sociais e


morais, bem como pela constituição psíquica de cada indivíduo e pelo
determinismo do seu passado espiritual, do seu karma. Dentro de todas
essas limitações, entretanto, subsiste a capacidade de optar, de
escolher e de agir segundo a vontade. Essa capacidade permite mesmo
à criatura abrandar ou romper algumas das limitações que lhe são
impostas, até mesmo no plano kármico, onde a lei do amor lhe serve de
instrumento para remover ou atenuar conseqüências nefastas. Assim, o
determinismo está na facticidade (no conjunto de condições com que o
homem apareceu feito no mundo) e a liberdade ou livre-arbítrio está na
ipseidade (na individualização ou na essência do ser condicionado pela
forma). É bom lembrar que não estamos no absoluto, mas no relativo, e
que neste não existe liberdade onde não houver condições para que ela
se exerça. Para melhor compreensão deste problema ler O Ser e a
Serenidade, de J. H. Pires, edição "Nosso Lar". (N. do T.)
em alguma coisa ou não crer em nada. Mas os que procuram
fazer prevalecer no espírito das massas, e sobretudo da
juventude, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade, seu
saber e na ascendência da sua posição, semeiam na sociedade
os germes da perturbação e da dissolução, incorrendo numa
grande responsabilidade.

5 — Há uma outra doutrina que se defende da acusação de


materialista porque admite a existência de um princípio inteligente
além da matéria. É a doutrina da absorção no todo universal.
Segundo esta doutrina cada indivíduo absorve ao nascer uma
parcela do princípio que lhe dá a vida, constituindo a sua alma, a
sua inteligência e os seus sentimentos. Com a morte, essa alma
retorna ao elemento comum e se perde no infinito como uma gota
d'água no oceano.

Essa doutrina é sem dúvida um passo adiante em relação ao puro


materialismo, pois admite alguma coisa, enquanto o outro não
admite nada. Mas as consequências de ambas são exatamente
as mesmas. Que o homem seja mergulhado no nada ou num
reservatório comum, é a mesma coisa. Se no primeiro caso ele é
transformado em nada, no segundo perde a sua individualidade, o
que equivale a perder a sua existência. As relações sociais são
igualmente rompidas. O essencial para o homem é a conservação
do seu eu. Sem isso, que lhe importa ser ou não ser? O futuro
para ele não existe, num e noutro caso, e a vida presente é a
única coisa que lhe interessa e o preocupa. Do ponto de vista das
consequências morais essas duas doutrinas são perniciosas,
igualmente desesperadoras, esta última, excitando o egoísmo da
mesma maneira que o materialismo.

6 — Além disso, pode-se fazer a essa doutrina a seguinte


objeção: todas as gotas d'água de um oceano se assemelham e
têm as mesmas propriedades, como partes que são de um
mesmo todo. Porque as almas, se foram tiradas de um grande
oceano de inteligência universal se assemelham tão pouco entre
si? Como explicar a presença do génio ao lado do idiota? As mais
sublimes virtudes junto aos vícios mais ignóbeis? A bondade, a
doçura, a mansidão ao lado da maldade, da crueldade e da
barbárie? Como as partes de um todo homogéneo podem ser
diferentes umas das outras? Poderão dizer que é a educação que
as modifica? Mas então de onde procedem as qualidades inatas,
as inteligências precoces, os bons e os maus instintos que
independem de qualquer educação e frequentemente não estão
em harmonia com o meio em que as criaturas se desenvolvem?
A educação, não há dúvida, modifica as qualidades intelectuais e
morais da alma, mas neste ponto outra dificuldade se apresenta.
Quem deu à alma a educação que a fez progredir? Outras almas
que por sua origem comum não devem ser mais adiantadas? Por
outro lado, a alma, voltando ao todo universal de que sairá, após
haver progredido durante a vida, leva a ele um elemento de
perfeição, de onde se segue que esse todo deve ser
profundamente modificado e melhorado com o tempo. Como se
explica que dele saiam incessantemente almas ignorantes e
perversas?

7 — Nessa doutrina a fonte universal da inteligência que produz


as almas humanas é independente da Divindade. Não se trata,
pois, do panteísmo. A doutrina panteista propriamente dita difere
dela ao considerar o princípio universal da vida e da inteligência
como integrando a Divindade. Assim, Deus é ao mesmo tempo
espírito e matéria. Todos os seres, todos os corpos da natureza
constituem a Divindade, da qual representam as moléculas e
demais elementos componentes. Deus é o conjunto de todas as
inteligências reunidas. Cada indivíduo, sendo uma parte do todo é
em si mesmo Deus. Nenhum ser superior e independente
comanda o conjunto, O universo é uma imensa república sem
presidente, onde todos ou cada um é o seu próprio chefe com
poder absoluto.

8 — Podemos opor numerosas objeções a esses sistemas. As


principais são as seguintes:

Não se podendo conceber a Divindade sem perfeições infinitas,


pergunta-se como um todo perfeito pode ser formado de parcelas
tão imperfeitas que necessitam de progredir? Cada parcela
estando submetida à lei do progresso, disso resulta que o próprio
Deus deve progredir, e se ele progride sem cessar, deve ter sido
muito imperfeito na origem dos tempos. Como um ser imperfeito,
formado de vontades e ideias tão divergentes, pode conceber as
leis harmoniosas, tão admiráveis, de unidade, de sabedoria e de
previdência que regem o universo? Se todas as almas são
parcelas da divindade, todas concorreram para a criação das leis
da natureza, como se explica que elas mesmas protestem
continuamente contra essas leis, que são a sua própria obra?
Uma teoria só pode ser aceita como verdadeira sob a condição
de satisfazer à razão e explicar todos os fenômenos que abrange.
Se um só fato puder desmenti-la é que ela não possui a verdade
absoluta.

9 — Do ponto de vista moral as consequências são também


inteiramente ilógicas. A princípio, temos para as almas, como no
sistema precedente, a absorção num todo e a perda da
individualidade. Se admitirmos, segundo a opinião de alguns
panteistas. que elas conservem a sua individualidade, Deus não
terá mais uma vontade única, pois será um composto de miríades
de vontades divergentes. Depois, sendo cada alma parte
integrante da divindade, nenhuma será dominada por um poder
superior. Em consequência, não haverá nenhuma
responsabilidade individual pelos atos bons ou maus, como
nenhum interesse em fazer o bem, podendo fazer impunemente o
mal, desde que ela é o soberano senhor de si mesma.

10 — Além desses sistemas não satisfazerem à razão nem às


aspirações do homem, apresentam-se, como se vê, cheios de
dificuldades insuperáveis, de maneira que são incapazes de
resolver todas as questões de fato que levantamos. O homem
tem, portanto, três alternativas: o nada, a absorção ou a
individualidade da alma antes e após a morte. É a esta última
crença que a lógica nos leva invencivelmente. É ela também que
constitui o fundo de todas as religiões desde que o mundo existe.

Se a lógica nos leva à individualidade da alma, nos leva também


a outra consequência, a de que a sorte de cada alma deve
depender de suas qualidades pessoais, pois seria irracional
admitir que a alma atrasada do selvagem e a do homem perverso
estivessem no mesmo nível que o do homem de bem e do sábio.
Segundo a justiça, as almas devem ter a responsabilidade dos
seus atos, mas para que sejam responsáveis é necessário que
sejam livres para escolher entre o bem e o mal. Sem o livre-
arbítrio haverá fatalidade e com esta a alma não poderia ter
responsabilidade.

11 — Todas as religiões admitiram igualmente o princípio do


destino feliz ou infeliz das almas após a morte, ou seja, das penas
e dos gozos futuros que se resumem na doutrina do céu e do
inferno, que encontramos por toda a parte. Mas no que elas
diferem essencialmente é quanto à natureza das penas e dos
gozos e sobretudo quanto às condições que podem levar as
almas a merecerem umas e outros. Daí resultam os pontos de fé
contraditórios que deram origem aos diferentes cultos e os
deveres particulares impostos por todos eles para reverenciar a
Deus, por meio dos quais se pode ganhar o céu e escapar ao
inferno.

12 —Todas as religiões deviam estar, em sua origem, em relação


com o grau de adiantamento moral e intelectual dos homens.
Estes, ainda muito materiais para compreender o valor das coisas
puramente espirituais, fizeram consistir a maioria dos deveres
religiosos na prática de fórmulas exteriores. Durante algum tempo
essas fórmulas satisfizeram à sua razão. Mais tarde,
esclarecendo-se os seus espíritos, sentiram o vazio dessas
fórmulas, e como a religião não mais os satisfazem eles a
abandonam e se tornam filósofos.

13 — Se a religião, a princípio apropriada aos conhecimentos


limitados dos homens, tivesse sempre seguido o desenvolvimento
progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos porque a
necessidade de crer está na própria natureza do homem e ele
sempre crerá desde que lhe dêem o alimento espiritual em
harmonia com as suas exigências intelectuais. Ele quer saber de
onde vem e para onde vai. Se lhe mostrarem um alvo que não
corresponde às suas aspirações nem à ideia que ele faz de Deus,
nem aos dados positivos que a ciência lhe fornece, se além disso
lhe impõem, para atingira Deus, condições que a sua razão
considera inúteis, ele repele a tudo. Então o materialismo e o
panteísmo lhe parecem mais racionais, porque neles se discute e
raciocina, e embora o raciocínio seja falso, ele prefere raciocinar
falso a ser impedido de fazê- lo 4 .

Mas se lhe apresentarem um futuro em condições lógicas, digno


em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus,
ele abandonará o materialismo e o panteísmo, dos quais sente o

4
O materialismo e a descrença são flores de estufa, criações artificiais
das fases de desenvolvimento cultural. Nessas fases, o desequilíbrio
entre as estruturas religiosas, que vêm do passado, e as exigências
novas da evolução cultural provoca a defecção religiosa. Por isso os
ateus e materialistas constituem sempre minorias. Essas minorias
correspondem ao número de pessoas que puderam acompanhar a
evolução cultural.-A massa da população permanece apegada às
fórmulas religiosas tradicionais, mas, na proporção em que a cultura se
divulga, a descrença e o materialismo florescem. Kardec colocou o
problema numa síntese admirável, como se vê na parte grifada do
período acima. (N. do T.)
vazio em seu próprio íntimo e que só havia aceitado na falta de
coisa melhor. O Espiritismo lhe oferece o melhor e é por isso que
se vê acolhido ansiosamente por todos os que se atormentam
com a incerteza pungente da dúvida, não encontrando nas
crenças e nas filosofias vulgares aquilo que procuram. Ele tem a
seu favor a lógica do raciocínio e a prova dos fatos. É por isso
que inutilmente tem sido combatido.

14 — O homem tem a convicção instintiva do futuro, mas não


tendo até então nenhuma base certa para a sua definição, criou
pela imaginação os sistemas que o levaram à diversidade das
crenças. A doutrina espírita sobre o futuro, não sendo obra de
imaginação concebida de maneira engenhosa, mas sim o
resultado da observação dos fatos materiais que hoje ocorrem
aos nossos olhos, ligará, como já está fazendo atualmente, as
opiniões divergentes ou incertas, e conduzirá pouco a pouco, pela
própria força das circunstâncias, a crença a uma unidade
baseada na certeza e não mais na hipótese. Realizada a
unificação no tocante ao destino das almas, será este o primeiro
ponto de aproximação dos diferentes cultos, um passo
considerável para a tolerância religiosa, a princípio, e mais tarde
para a fusão 5 .

5
Foi necessário mais de um século para que esta previsão de Kardec,
não profética mas formulada em termos da moderna Futurologia,
começasse a realizar-se. O atual Ecumenismo, que significativamente
deixa de lado o Espiritismo, é um passo, apesar das dificuldades que o
entravam, para a futura fusão do pensamento religioso na Terra. Nos
mundos superiores, segundo informam os Espíritos mais elevados, os
cultos religiosos se fundem numa forma única, simplificada e racional.
As tentativas de criação de teorias ecléticas e de construção de templos
comuns para diversas religiões, em nosso tempo, são outros sinais da
evolução religiosa do planeta. Em nosso pais chegou-se a propor, no
Congresso Nacional, a transformação da Catedral de Brasília num
templo destinado a todas as religiões. A proposta foi apresentada pelo
deputado Campos Vergai, de São Paulo (espírita) mas não teve o
devido Andamento. (N. do T.)
CAPÍTULO II

A PREOCUPAÇÃO COM A MORTE

Causas da preocupação com a morte —

Porque os espíritas não se preocupam com a morte

Causas da preocupação com a morte

1 — O homem, em qualquer situação social, desde o estado de


selvageria, tem o pressentimento inato do futuro. Sua intuição lhe
diz que a morte não é a última fase da existência e que aqueles
que choramos não estão perdidos para sempre. A crença no
futuro é intuitiva e infinitamente mais generalizada que a ideia do
nada. Como se explica, entretanto, que entre os que acreditam na
imortalidade da alma ainda se encontre tamanho apego às coisas
terrenas e tão grande preocupação com a morte? 6

6
A intuição inata da vida futura é um dos fatores básicos da origem das
religiões. (N. do T.)
2 — A preocupação com a morte é determinada pela sabedoria
da Providência e uma consequência do instinto de conservação
comum a todos os seres vivos. É necessária, enquanto o homem
não estiver esclarecido a respeito da vida futura, como um
contrapeso ao arrastamento que, sem esse freio o levaria a deixar
prematuramente a vida terrena e a negligenciar o seu trabalho
neste mundo, que deve servir para o seu próprio adiantamento.

É por isso que, entre os povos primitivos, o futuro aparece apenas


como vaga intuição, tornando-se mais tarde uma simples
esperança, e finalmente se transformando em certeza, mas ainda
assim contrabalançada por um secreto apego à vida corporal.

3 — À medida em que o homem compreende melhor a vida futura


a preocupação com a morte diminui. Mas, ao mesmo tempo,
compreendendo melhor a sua missão na Terra ele espera o seu
fim com mais calma, resignação e sem medo. A certeza da vida
futura dá novo curso às suas ideias e outra finalidade aos seus
trabalhos. Antes de ter essa certeza ele só trabalha com vistas à
vida presente. Com essa certeza ele trabalha com vistas ao futuro
sem negligenciar o presente, porque sabe que seu futuro
depende da orientação mais ou menos boa que der ao presente.
A certeza de reencontrar seus amigos após a morte, de continuar
as relações que tinha na Terra, de não perder o fruto de nenhum
de seus trabalhos, de crescer sem cessar em inteligência e
perfeição, lhe dá a paciência de esperar e a coragem de suportar
as fadigas passageiras da vida terrena. A solidariedade que ele
descobre entre os vivos e os mortos lhe faz compreender a que
deve existir entre os vivos e desde então a fraternidade revela a
sua razão de ser e a caridade o seu objetivo no presente e no
futuro.

4 — Para escapar às preocupações com a morte ele precisava


encarar a esta no seu verdadeiro sentido, quer dizer, penetrar
pelo pensamento no mundo espiritual e fazer sobre ele uma ideia
tão exata quanto possível, o que denota no espírito encarnado um
certo desenvolvimento e uma certa aptidão para se libertar da
matéria. Para os que não estão suficientemente adiantados a vida
material ainda se sobrepõe à vida espiritual.

Apegando-se ao exterior, o homem só vê a vida do corpo, quando


a vida real é a da alma. O corpo estando privado de vida, tudo lhe
parece perdido e ele se desespera. Se, em lugar de concentrar o
seu pensamento nas vestes exteriores, ele o dirigisse para a
verdadeira fonte da vida, para a alma, ser real que sobrevive a
tudo, lamentaria menos o corpo, fonte de tantas misérias e dores.
Mas para isso necessita de uma força que o Espírito só adquire
amadurecendo.

A preocupação com a morte está ligada à insuficiência de noções


sobre a vida futura. Por isso, quanto mais ela se liga à
necessidade de viver, mais aumenta o temor da destruição do
corpo como o fim de tudo. Ela é assim provocada pelo secreto
desejo de sobrevivência da alma, ainda velada pela incerteza.

A preocupação se enfraquece à medida que se desenvolve a


certeza e desaparece por completo quando esta se firma.

Eis o lado providencial da questão. Seria prudente não perturbar


o homem cuja razão ainda não esteja suficientemente forte para
suportar a perspectiva demasiado positiva e sedutora de um
futuro que poderia levá-lo a negligenciar o presente, necessário
ao seu progresso material e intelectual 7 .

7
A advertência de Kardec, neste pequeno trecho, exige a maior
atenção do leitor. Muitas pessoas têm o anseio, justo mas imprudente,
de converter todo mundo às suas crenças. O Espiritismo não tem
necessidade de proselitismo. Kardec sempre acentuou que ele não veio
para os que estão satisfeitos em sua crença ou descrença, mas para os
que não o estão e procuram algo mais. Há pessoas que não se acham
em condições de compreender os princípios espíritas.
5 — Esta situação é mantida e prolongada por causas puramente
humanas que desaparecerão com o progresso. A primeira é o
aspecto sobre o qual se apresenta a vida futura, aspecto que
poderia bastar para as inteligências pouco avançadas, mas não
poderia satisfazer às exigências racionais de homens de reflexão.
Desde que nos apresentam, dizem estes, como verdades
absolutas, princípios contraditados pela lógica e pelos dados
positivos da Ciência, é que não são verdadeiras. Daí resulta a
incredulidade de alguns e para grande número a crença duvidosa.
A vida futura é para eles uma vaga ideia, antes uma probabilidade
do que uma certeza. Eles desejariam crer, quereriam que fosse
verdade e malgrado isso dizem a si mesmos: "Mas se não for
assim? O presente é positivo. Ocupemo-nos primeiro dele, o
futuro virá por acréscimo."

"E depois, dizem ainda, o que é na verdade a alma? Um ponto,


um átomo, uma centelha, uma flama? Como ela ouve, como vê,
como percebe?" A alma não é para eles uma realidade positiva. É
uma abstração. Os seus seres queridos, reduzidos à condição de
átomos no seu pensamento, estão por assim dizer perdidos para
eles, não tendo mais aos seus olhos as qualidades que os faziam
amados. Não podem compreender o amor de uma centelha, nem
o que se pudesse ter por ela, e eles mesmos não se sentem
satisfeitos de ser transformados em mônadas. Daí o seu retorno
ao positivismo da vida terrena, que lhes oferece alguma coisa
mais substancial. É considerável o número dos que são
dominados por esses pensamentos.

6 — Outra razão que amarra às coisas terrenas até mesmo as


pessoas que acreditam firmemente na vida futura, liga-se à
impressão que conservam de ensinamentos recebidos na
infância 8 .

O quadro apresentado pela Religião, a esse respeito, temos de


convir que não é muito sedutor nem consolador. De um lado
vemos as contorções dos danados que expiam nas torturas e nas
chamas sem fim os seus erros passageiros. Para eles os séculos

8
Fazê-las aceitar esses princípios pode ser prejudicial. Ao se
convencerem, por exemplo, de que a vida espiritual é superior à
material, elas poderão desprezar esta última e negligenciar as
oportunidades que a atual encarnação lhes oferece para o progresso e
a reparação do passado. E isto não se refere apenas às pessoas
incultas ou de inteligência reduzida. Também pessoas inteligentes e
cultas podem não estar em condições de compreender o problema, em
virtude de longos estágios do passado em que insistiram no
materialismo e na descrença. (N. do T.)
sucedem aos séculos sem esperança de abrandamento nem de
piedade. E o que é ainda mais impiedoso, para eles o
arrependimento é ineficaz. De outro lado, as almas sofredoras e
exaustas do purgatório esperando a sua libertação da boa
vontade dos vivos que devem orar ou mandar orar por elas, e não
dos seus próprios esforços para progredir. Essas duas categorias
constituem a imensa maioria da população do outro mundo.

Acima dela paira a restrita classe dos eleitos, gozando pela


eternidadede uma beatitude contemplativa. Essa inutilidade
eterna, sem dúvida preferível ao nada, nem por isso é menos
fastidiosa. É por isso que vemos nas pinturas que retratam os
bem-aventurados, as figuras angélicas que respiram mais o tédio
do que a verdadeira felicidade.

Essa situação não satisfaz às aspirações nem à ideia instintiva de


progresso que é a única compatível com a felicidade absoluta. É
difícil conceber que o selvagem e o ignorante de senso obtuso,
somente por haverem recebido o batismo, sejam colocados no
mesmo nível daquele que chegou ao mais elevado grau da
sabedoria e da moral, após longos anos de trabalho. É ainda
menos concebível que a criança morta em tenra idade, antes de
ter consciência de si mesma e de seus atos, goze dos mesmos
privilégios, somente por efeito de uma cerimónia a que foi
submetida sem nenhuma participação da sua vontade. Esses
pensamentos não deixariam de perturbar os mais fervorosos, por
pouco que refletissem à respeito.

7 — O trabalho que os faz progredir na Terra não tendo nenhuma


influência sobre a felicidade futura, a facilidade com que pensam
conquistar essa felicidade por meio de algumas práticas
exteriores, a possibilidade mesmo de comprá-la com dinheiro,
sem uma reforma séria do caráter e dos costumes, fazem que os
gozos do mundo conservem todo o seu valor. Muitos crentes
dizem para si mesmos que, se o seu futuro está assegurado pelo
cumprimento de certas obrigações formais ou pelas graças que
os esperam após a morte, seria tolice fazerem sacrifícios ou
sofrerem qualquer coisa em benefício dos outros, uma vez que se
pede atingir a salvação trabalhando cada um para si mesmo.

Certamente nem todos pensam dessa maneira, pois há grandes e


belas exceções. Mas não se pode negar que não seja esta a
atitude da maioria, sobretudo das massas pouco esclarecidas, e
que a ideia que comumente se faz das condições para a
felicidade no outro mundo não entretém o apego aos bens
terrenos e por conseguinte o egoísmo.
8 — Acrescentemos que tudo, nos nossos costumes, concorre
para fazer que lamentemos a perda da vida terrena e temamos a
passagem da Terra para o Céu. A morte é cercada de cerimónias
lúgubres que servem mais para aterrorizar do que para despertar
a esperança. Sempre se representa a morte sob um aspecto
repulsivo e jamais como um sono de transição. Todos os seus
símbolos lembram a destruição do corpo, mostrando-o hediondo
e descarnado. Nenhum nos apresenta a alma se desprendendo
radiosa dos laços terrenos 9 .

9
Essa impressão negativa da morte foi intencional. O objetivo era
atemorizar as criaturas a fim de se portarem bem na vida. Há uma
relação evidente entre essa ameaça da morte e as ameaças de
castigos nas escolas, para garantir o bom comportamento dos alunos.
Mas esse recurso, que produziu resultados entre homens ignorantes e
brutais, perderia o seu efeito na proporção em que a Civilização se
desenvolvesse. Aconteceu com ele o que ensina uma lei da Dialética: o
que hoje serve ao progresso, amanhã se torna obstáculo e deve ser
removido. Mas, por outro lado, essas cerimônias lúgubres e toda essa
ameaça passou para o plano dos costumes, criou raízes populares e se
tornou ainda uma das fontes de renda para as organizações
eclesiásticas. Tudo isso impediu, até mais da metade do século XIX,
que as religiões organizadas, chamadas positivas, fizessem alguma
A partida para esse mundo mais feliz é acompanhada das
lamentações dos que ficam, como se houvesse acontecido a
maior desgraça para aquelês que partiram. Dizem-lhe adeus
eterno como se jamais eles pudessem ser vistos de novo.
Lamenta-se que tenham perdido os prazeres deste mundo, como
se não tivessem de encontrar prazeres maiores no outro. Que
infelicidade, dizem, morrer quando ainda se é jovem, rico, feliz e
tendo pela frente, um futuro brilhante.

A ideia de uma situação mais feliz apenas passa pela mente, pois
não tem raízes suficientes. Tudo concorre, pois, para inspirar o
pavor da morte em lugar de despertar a esperança. O homem
levará ainda longo tempo, sem dúvida, a se livrar desses
prejuízos, mas o conseguirá na medida em que a sua fé se
consolide, em que fizer uma ideia mais pura da vida espiritual.

9 — A crença vulgar, por outro lado, coloca as almas em regiões


que são acessíveis apenas ao pensamento, onde elas se tornam
de qualquer maneira estranhas aos que continuam vivos na
Terra. A própria igreja coloca entre elas e estes últimos uma

coisa para acompanhar o progresso cultural. Ainda hoje, apesar das


reformas em curso, o problema da morte continua na mesma situação
analisada por Kardec. (N. do T.)
barreira intransponível: declara que toda relação está rompida e
que toda comunicação é impossível 10 .

Se as almas se encontram no inferno, toda esperança de revê-las


está perdida para sempre, a menos que a gente também vá para
lá. Se elas se encontram entre os eleitos, estão inteiramente
absorvidas pela beatitude contemplativa. Tudo isso coloca entre
os mortos e os vivos uma distância imensa que nos faz
considerar a separação como eterna.

Eis porque preferimos ter junto a nós, sofrendo na Terra, os seres

10
"Na crença vulgar", diz Kardec, porque a Teologia católica já no seu
tempo colocava o problema em termos de estado de consciência. Não
obstante, os clérigos continuavam a pregar dos púlpitos em termos de
crença vulgar. A comparação que Kardec faz, mais adiante, entre o
Inferno pagão e o Inferno cristão, esclarecerá bem este assunto.
Quanto ao rompimento absoluto de relações entre vivos e mortos,
devemos acentuar que havia e ainda subsiste uma atitude contraditória:
a relação pode ser permitida por Deus, em casos excepcionais, mas
somente no seio da Igreja. Assim, as comunicações espíritas são
condenadas como demoníacas, mas as comunicações católicas, sejam
de santos e anjos ou mesmo de almas sofredoras, são consideradas
legítimas e até mesmo divulgadas em livros. (N. Do T.)
que amamos, a vê-los partir mesmo que seja para o céu. Além
disso, a alma que se encontra no céu será realmente feliz ao ver,
por exemplo seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos
queimando eternamente?

Porque os espíritas não se preocupam com a morte?

10 — A doutrina espírita muda completamente a maneira de ver-


se o futuro. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma
realidade. A situação das almas após a morte não se explica por
meio de um sistema, mas com o resultado da observação. O véu
é levantado. O mundo espiritual nos aparece em toda a sua
realidade viva. Não foram os homens que o descobriram através
de uma concepção engenhosa, mas os próprios habitantes desse
mundo que nos vieram descrever a sua situação.

Vemo-los ali em todos os graus da escala espiritual, em todas as


fases da ventura e da desgraça, assistimos a todas as peripécias
da vida de além-túmulo. Está nisso a causa da seriedade com
que os espíritas encaram a morte, da calma dos seus derradeiros
instantes na Terra. O que os sustenta não é somente a
esperança, mas a certeza. Sabem que a vida futura não é mais
do que a continuação da vida presente em melhores condições, e
esperam com a mesma confiança com que aguardam o
nascimento do sol depois de uma noite tempestuosa. Os motivos
desta confiança estão nos fatos que testemunharam e na
concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e a
bondade de Deus e com as aspirações mais profundas do
homem.

Para os espíritas a alma não é mais uma abstração. Ela possui


um corpo etéreo que a torna um ser definido, que podemos
conceber pelo pensamento. Isso é o suficiente para nos
esclarecer quanto à sua individualidade, suas aptidões e suas
percepções. A lembrança daqueles que nos são caros repousa,
assim, sobre algo real. Não os representamos mais como chamas
fugitivas que nada dizem ao nosso pensamento, mas como
formas concretas que no-los apresentam melhor como seres
vivos.

Além disso, em lugar de estarem perdidos nas profundezas do


espaço, estão ao nosso redor: o mundo corpóreo e o mundo
espiritual estão em constantes relações e mutuamente se
assistem. A dúvida sobre o futuro já não tendo mais lugar, a
preocupação com a morte deixa de ter razão. Esperamo-la
tranquilamente, como uma libertação, como a porta da vida e não
como a do nada 11 .

11
A ideia de que as almas dos mortos se tornam chamas fugitivas
penetrou fundamente na consciência coletiva dos povos. Vemos a sua
sobrevivência até mesmo em pessoas esclarecidas que se tornam
espíritas. Nas atas das sessões que realizava, por ele mesmo redigidas,
o escritor Monteiro Lobato refere-se constantemente aos espíritos como
gases, chamas flutuantes, etc., o que levava alguns dos comunicantes a
endossarem a concepção. Um deles lhe respondeu:
Sou agora uma chamazinha errante. Referindo-se à sua própria morte,
Lobato escreveu que iria passar do estado sólido ao gasoso. O
Espiritismo nos mostra que a situação do homem após a morte é muito
diferente disso. Conservando o corpo espiritual (de que tão
precisamente trata o apóstolo Paulo em l Corintios) o espírito
desencarnado conserva até mesmo a forma corporal, as características
físicas que o distinguem na vida terrena, e pode assim identificar-se em
suas manifestações pela vidência, pelos fenômenos de aparição e pelos
de materialização. Isso permite, ainda — o que estranha às pessoas
que desconhecem o problema — que o espírito se identifique pela sua
própria voz nos fenômenos de audição mediúnica ou de comunicação
por voz direta. Para melhor compreensão deste problema leia-se o livro
de H. Dennis Bradiey: Rumo às Estrelas, tradução de Monteiro Lobato,
reeditado pela LAKE. As teorias de Johannes são puramente pessoais e
não têm valor doutrinário. O que importa nesse livro é a descrição das
sessões de voz direta e a prova da sobrevivência espiritual. (N. do T.)
CAPÍTULO III

O CÉU

1 — A palavra céu se aplica geralmente ao espaço infinito que


envolve a Terra, e mais particularmente à parte que se eleva
sobre o horizonte. Ela vem do latim coe/um, formada do grego
coitos: côncavo, porque o céu apresenta o aspecto de uma
imensa concavidade. Os antigos acreditavam na existência de
muitos céus superpostos, constituídos de matéria sólida e
transparente, formando as esferas concêntricas que tinham a
Terra por centro. Essas esferas, girando ao redor da Terra,
arrastavam com elas os astros encontrados nos seus circuitos.

Essa ideia, decorrente da insuficiência dos conhecimentos


astronómicos, foi a de todas as teogonias que fizeram dos céus,
assim escalonados, os diferentes degraus da escala da beatitude.
O último era a morada da suprema felicidade. Segundo a opinião
mais comum, havia sete céus. Dai a expressão: Estar no sétimo
céu para exprimir uma felicidade perfeita. Os muçulmanos
admitiam a existência de nove céus, em cada um dos quais a
felicidade dos crentes era maior. O astrónomo Ptolomeu contava
onze, sendo o último chamado Empírio em virtude da grande
luminosidade que o caracterizava.

Esse é ainda hoje o nome poético dado à região da glória eterna.


A teologia cristã reconhece a existência de três céus: O primeiro é
a região do ar e das nuvens, o segundo é o espaço em que se
movem os astros, o terceiro está além da região dos astros e é a
morada do Supremo Ser e dos eleitos que o contemplam face a
face. É de acordo com esta crença que se diz que São Paulo foi
elevado ao terceiro céu.

2 — As diferentes doutrinas referentes à morada dos bem-


aventurados repousam todas no duplo erro de que a Terra é o
centro do Universo e de que a região dos astros é limitada. É
além deste limite imaginário que todas elas colocam a região
afortunada e a morada do Todo Poderoso. Estranha anomalia
que coloca o autor de todas as coisas, Aquele que a todas
governa, nos confins da criação ao invés do centro de onde a
irradiação do seu pensamento poderia estender-se ao todo.

3 — A Ciência, com a inexorável lógica dos fatos e da


observação, iluminou com a sua luz as profundezas do espaço e
mostrou a nulidade de todas essas teorias. A Terra não é mais o
centro do Universo, mas um dos seus menores astros girando na
imensidade. O próprio sol é apenas o centro de um turbilhão
planetário. As estrelas são inumeráveis sóis em torno dos quais
giram inumeráveis mundos, separados por distâncias que são
apenas acessíveis ao nosso pensamento, embora eles nos dêem
a impressão de se tocarem.

Nesse conjunto, regido por leis eternas que revelam a sabedoria


e a onipotência do Criador, a Terra aparece como um ponto
imperceptível e um dos menos favoráveis à habitabilidade. Dessa
maneira pergunta-se porque Deus a teria feito a única sede da
vida e relegado a ela as criaturas de sua predileção. Muito ao
contrário, tudo nos diz que a vida se encontra por toda parte e
que a Humanidade é infinita como o próprio Universo. A Ciência
tendo nos revelado a existência de mundos semelhantes à Terra,
é evidente que Deus não os podia ter criado sem finalidade: ele
os deve ter povoado de seres capazes de os governar 12 .

4 — As ideias do homem estão sempre na razão dos seus


conhecimentos. Como todas as descobertas importantes, a da
constituição dos mundos teve que influir nessas ideias mudando-
lhes o curso. Sob a influência dos novos conhecimentos as
crenças tiveram de modificar-se. O céu foi deslocado, a região
das estrelas, sendo sem limites, não lhe deixa mais espaço. Para
onde foi ele? Diante dessa pergunta todas as religiões
permanecem mudas.

O Espiritismo vem resolvê-la ao demonstrar o verdadeiro destino


do homem. A natureza deste último e os atributos de Deus sendo
tomados como ponto de partida, chega-se à conclusão. Quer

12
A Terra é um dos mundos menos favoráveis à habitabilidade. Esta
afirmação de Kardec é de grande importância, pois antecipa
conhecimentos que só agora vão se firmando no mundo científico. A
vida humana é breve e difícil, lutando o espírito e o corpo com
hostilidades de toda espécie no solo planetário. Apesar disso, ainda há
quem sustente a ideia de que somente a Terra deve ser habitada. Isso
porque o homem se desenvolve aos poucos, penosamente, através dos
milénios. Acostumado a encarar as coisas do ponto de vista humano,
apega-se hoje ao homocentrismo, como antigamente se apegava ao
geocentrismo. O Espiritismo antecipou a Era Cósmica, revelando a
pluralidade dos mundos habitados. Consulte-se O Livro dos Espíritos a
esse respeito e veja-se na coleção da Revista Espírita a maneira por
que os Espíritos trataram desse problema com Kardec. (N. do T.)
dizer que, partindo do conhecido chega-se ao desconhecido por
uma dedução lógica, sem falar das observações diretas que
permitem ao Espiritismo chegar a esse ponto.

5 — O homem se constitui de corpo e espírito. O Espírito é o ser


principal, o ser racional, o ser inteligente. O corpo é o envoltório
material que reveste temporariamente o Espírito para o
cumprimento da sua missão na Terra, permitindo-lhe executar os
trabalhos necessários ao seu adiantamento. O corpo se destrói
depois de usado e o Espírito sobrevive a esta destruição. Sem o
Espírito o corpo é apenas matéria inerte, como um instrumento
privado do braço que o movimenta. Sem o corpo, o Espírito
continua integral: É vida e inteligência. Deixando o corpo ele volta
ao mundo espiritual de que saíra para se encarnar.

Há portanto o mundo corpóreo, constituído pelos Espíritos


encarnados, e o mundo espiritual, constituído dos Espíritos
desencarnados. Os seres do mundo corpóreo, em razão do seu
envoltório material, estão ligados à Terra ou a qualquer outro
globo. O mundo espiritual estende-se por toda parte, ao redor de
nós e através do espaço. Nenhum limite podemos assinalar para
ele. Em razão da natureza fluidica do seu envoltório, os seres que
o constituem não se arrastam penosamente sobre o solo, mas
atravessam as distâncias com a rapidez do pensamento. A morte
do corpo é a ruptura dos laços que os retinham cativos.

6 — Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dispondo


de aptidão para todas as aquisições e para progredir, em virtude
do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos
conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e por
conseguinte novas possibilidades de prazer, desconhecidas dos
Espíritos inferiores. Eles vêem, ouvem, sentem e compreendem
aquilo que os Espíritos atrasados não podem ver, nem ouvir, nem
sentir e nem compreender.

A felicidade está na razão do progresso realizado. Dessa


maneira, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz como o
outro unicamente porque não é tão avançado intelectual e
moralmente como ele, sem haver necessidade de cada um se
encontrar numa região diferente.

Embora estando lado a lado, um pode se encontrar nas trevas


enquanto para o outro tudo é resplandescente ao seu redor, da
mesma maneira como um cego e um vidente podem se dar as
mãos. Um percebe a luz que entretanto não impressiona o outro.
A felicidade dos Espíritos, sendo inerente às suas próprias
qualidades, eles a gozam por toda parte, onde quer que se
encontrem, na face da Terra, entre os encarnados ou no espaço.

Uma comparação vulgar nos permitirá compreender ainda melhor


esta situação. Se, num concerto se encontram dois homens: um
bom músico de ouvidos exercitados, o outro sem conhecimentos
musicais e de sentido auditivo pouco delicado, o primeiro
experimenta uma sensação de felicidade enquanto o segundo
permanece insensível. Isso porque um percebe e compreende o
que não produz nenhuma impressão sobre o outro. Assim
acontece com todas as alegrias dos Espíritos que estão na razão
direta das suas aptidões para senti-las. O mundo espiritual está
repleto de esplendores, harmonias e sensações que os Espíritos
inferiores, ainda sujeitos às influências da matéria, não podem
sequer entrever, pois são acessíveis apenas aos Espíritos
depurados 13 .

13
Assim, o Espiritismo confirma o adágio: A felicidade está dentro de
nós, mas ao mesmo tempo desmente a suposição (da elite e não do
povo) de que os ignorantes são mais felizes que os instruídos. Como
pode uma criatura gnorante e grosseira sentir a verdadeira felicidade?
Sujeita aos instintos animalescos, presa de interesses mesquinhos,
apegada a prazeres passageiros a felicidade dessas criaturas é ilusória
e está arriscada a decepções contínuas. Na proporção em que a
criatura se eleva os seus sentidos se refinam, os seus prazeres passam
do plano das sensações materiais para o das sensações íntimas,
espirituais, a sua felicidade se amplia em perspectivas jamais
suspeitadas. Ela atinge, então, aquele estágio da evolução em que a
felicidade se torna permanente e invariável, não perturbada por nenhum
7 — O progresso dos Espíritos é o resultado do seu próprio
trabalho. Mas como eles são livres e trabalham para o seu
adiantamento com maior ou menor atividade ou negligência,
segundo à sua vontade, eles apressam assim ou retardam o seu
próprio progresso, o que vale dizer a sua felicidade. Enquanto uns
avançam rapidamente, outros se arrastam por longos séculos nos
lugares inferiores. Eles são, portanto, os próprios artífices da sua
situação feliz ou desgraçada, segundo estas palavras do Cristo: A
cada um segundo as suas obras. Cada Espírito que fica atrasado
só pode lamentar-se de si mesmo, como aquele que avança tem
todo o mérito do seu progresso:

A felicidade que conquistou tem assim mais valor aos seus


próprios olhos 14 .

fato exterior, pois para esses fatos ela possui ambém uma visão e uma
compreensão que nos escapa, e recursos que não possuímos para
prestar ajuda e socorro eficientes. Não devemos, porém, confundir
criaturas ignorantes e grosseiras com criaturas pobres, nascidas em
meio social obscuro, desprovidas da cultura do mundo mas providas da
cultura e do refinamento da alma. As condições sociais da Terra não
correspondem às condições evolutivas do espírito. (N. do T.)
14
O mérito do progresso implica também o desenvolvimento da
esponsabilidade. O Espírito que fracassa numa encarnação não
retrocede no plano evolutivo, mas sente enfraquecer-se moralmente.
Isso aumenta a sua necessidade de esforço próprio para recuperação
do tempo perdido. O Espírito vitorioso dá o que podemos chamar um
sã/to no tempo, o que aumenta a sua fé em Deus e a sua confiança em
A felicidade suprema é prémio exclusivo dos Espíritos perfeitos,
o que vale dizer dos Espíritos puros. Eles a atingem só depois de
haver progredido em inteligência e moralidade. O progresso
intelectual e o progresso moral raramente andam juntos, mas o
que o Espírito não consegue num determinado tempo, o
consegue em outro, de maneira que essas duas formas de
progresso acabam por atingir o mesmo nível. Essa a razão pela
qual frequentemente se vêem homens inteligentes e instruídos
que são muito pouco avançados no terreno moral, e vice-versa.

8 — A encarnação é necessária ao Espírito para conseguir esse


duplo progresso, intelectual e moral. O progresso intelectual é
realizado pela atividade que é obrigado a desenvolver nos seus
trabalhos. O progresso moral, pela necessidade das relações
mútuas entre os homens. A vida social é a pedra de toque das
boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a mansidão,
a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o
orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a

si mesmo. Ele se fortalece moralmente e eleva o seu senso de


responsabilidade. Dali por diante as vitórias morais lhe serão mais
fáceis. O progresso espiritual se verifica través dos sã/tos qualitativos
de que trata Kierkegaard em seu ensaio sobre O Conceito de Angústia.
Ao saltar no tempo o Espírito realiza também o salto interior da sua
transformação moral. (N. do T.)
má fé, a hipocrisia, em uma palavra tudo o que constitui o homem
de bem ou o homem perverso tem por motivo, por alvo e por
estimulante as relações do homem com seus semelhantes. Para
o homem que vive só não há vícios nem virtudes; se, pelo
isolamento, ele se preserva do mal, também anula as
possibilidades do bem 15 .

9 — Uma só existência corpórea é evidentemente insuficiente


para o Espírito adquirir tudo o que lhe falta no campo do bem e se
desfazer de tudo o que possui de mal. O selvagem, por exemplo,
jamais poderia atingir numa só encarnação o nível moral e
intelectual de um europeu dos mais avançados. Isso seria
materialmente impossível. Deveria ele então permanecer
eternamente na ignorância e na barbárie, privado dos gozos que
só o desenvolvimento das suas faculdades lhe pode

15
Eis a razão por que o Espiritismo é inteiramente contrário ao
misoneismo, ao isolamento da criatura, mesmo a pretexto de consagrar-
se a Deus. A dinâmica do desenvolvimento moral está sujeita à
dinâmica do processo social. É na vida social que nos desenvolvemos
moralmente. Se trabalhando a Natureza e as coisas, trabalhamos a
nós mesmos, despertando nossa inteligência, por outro lado é no meio
social que conseguimos o desenvolvimento moral, despertando a nossa
atetividade. Fugir da vida social é portanto fugir de nós mesmos, fugir
da própria finalidade da nossa encarnação. As igrejas começam agora a
compreender isso, tomando as primeiras providências para acabar com
os processos retrógrados de isolamento religioso a pretexto de viver
para Deus. Só vivemos para Deus servindo ao próximo.(N. do T.)
proporcionar? O simples bom senso repele essa suposição, que
seria ao mesmo tempo a negação da justiça e da bondade de
Deus, bem como da lei de progresso que rege a Natureza. Eis
porque Deus, soberanamente justo e bom, concede ao Espírito
tantas existências quantas forem necessárias para atingir o seu
objetivo, que é a perfeição.

Em cada nova existência o Espírito se apresenta com o que


adquiriu nas precedentes em aptidões, em conhecimentos
intuitivos, em inteligência e em moralidade. Cada existência é
assim um passo dado no caminho do progresso 16 .

16
Temos aqui um princípio bem conhecido de Pedagogia. A Educação
não tem por finalidade transmitir conhecimentos, mas preparar o
educando para a aquisição de conhecimentos. O que se passa na
reencarnação é precisamente isso. Podemos aprender muito numa
existência, mas não são os conhecimentos formais que interessam ao
Espírito, e sim o seu treinamento no aprendizado que desperta as suas
faculdades cognitivas, a sua capacidade de aprender. Cada encarnação
predispõe o Espirito a assimilar conhecimentos mais avançados na
seguinte. Por isso é que não nascemos com a cabeça cheia de dados e
informações, mas aparelhada com as intuições que nos determinam a
vocação e a habilidade para diversos setores de atividades. A vida
social é necessária porque só ela possui os estimulantes capazes de
despertar no cérebro novo que vamos possuir as suas faculdades
latentes. Isso explica o motivo por que as crianças abandonadas na
selva ou isoladas do meio social não revelam desenvolvimento mental.
Lembremos a maiéuticaúe Sócrates, ou seja, o processo por ele usado
para arrancar o conhecimento de dentro dos seus próprios discípulos,
ao invés de aplicar-lhes o ensino didático. (N. do T.)
A encarnação é inerente à condição de inferioridade dos
Espíritos. Ela se torna desnecessária para aqueles que romperam
esses limites e progrediram espiritualmente ou nas existências
corporais dos mundos superiores, onde nada mais existe da
materialidade terrena. Para esses a encarnação évoluntária, com
o fim de exercer sobre os encarnados uma ação mais direta no
cumprimento das missões de que estiverem encarregados. Eles
aceitam as suas vicissitudes e os seus sofrimentos por
abnegação.

10 — No intervalo das existências corpóreas o Espírito volta por


tempo mais ou menos longo ao mundo espiritual, onde é feliz ou
infeliz, segundo o bem ou o mal que tenha praticado. O estado
espiritual é a situação normal do Espírito, pois esse deve ser o
seu estado definitivo, e porque o corpo espiritual nunca morre. O
estado corpóreo é apenas transitório, passageiro. É sobretudo no
estado espiritual que ele recolhe os frutos do progresso realizado
durante a encarnação. É então que ele também se prepara para
novas lutas e toma resoluções que se esforçará para pôr em
prática no seu retorno ao seio da humanidade.

O Espírito progride igualmente na erraticidade. Nela adquire


conhecimentos especiais que não poderia adquirir na Terra. Suas
ideias então semodificam. O estado corpóreo e o estado espiritual
são para ele as fontes de duas formas de progresso que se
desenvolvem solidárias. É por isso que ele passa
alternativamente por esses dois modos de existência 17 .

11 —A reencarnação pode se dar na Terra ou em outros mundos.


Entre os mundos há os mais avançados, onde a existência
decorre em condições menos penosas do que na Terra, física e
moralmente. Mas nesses mundos só são admitidos os Espíritos
que chegaram ao grau de perfeição a eles correspondentes.

A vida nos mundos superiores já é em si mesma uma


recompensa, porque ali estaremos livres dos males e das
vicissitudes que enfrentamos neste mundo. Os corpos menos
materiais, quase fluídicos, não estão sujeitos às doenças, às
dificuldades e nem mesmo às necessidades dos nossos. Os
17
Vê-se claramente, neste trecho, como a cultura terrena é ainda
apenas uma meia-cultura. Função do Espiritismo é completar essa
cultura, dando-lhe as dimensões da realidade espiritual. A alternância
de vidas, na Terra e no Espaço, faz do homem, não o existente das
Filosofias existenciais, mas um interexistente. Mesmo na encarnação
essa condição interexistencial se revela de maneira inegável. Os
homens vivem no estado de vigília, no estado de hipnose, ou de sono.
Além disso, possuem a mediunidade que a Parapsicologia denomina de
funções psi, e através dessas funções ele se coloca num intermúndio,
vivendo ao mesmo tempo em dois planos diferentes, mas conjugados.
Veja-se este problema em O Ser e a Serenidade, edição "Nosso Lar".
(N. do T.)
maus espíritos estando excluídos deles, os homens vivem em
paz, cuidando apenas do seu progresso pelo trabalho da
inteligência.

Nesses mundos, reinando a verdadeira fraternidade, não existe o


egoísmo. A igualdade é legítima, porque não existe o orgulho. A
liberdade é verdadeira porque não existem desordens que exijam
repressão, nem ambições tentando oprimir os fracos.

Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos e


representam as diversas etapas da rota do progresso que conduz
o Espírito ao seu estado definitivo. A Terra, sendo um mundo
inferior destinado à depuração dos Espíritos imperfeitos, é essa a
razão por que o mal nela domina até que praza a Deus
transformá-la em morada de Espíritos adiantados.

É assim que o Espírito, progredindo gradualmente, à medida que


se desenvolve vai chegando ao apogeu da felicidade. Mas antes
de atingir o ponto culminante da perfeição ele já goza de uma
felicidade relativa ao seu progresso. É como a criança que gosta
dos brinquedos nos seus primeiros anos, mais tarde prefere os
prazeres da juventude e finalmente aqueles mais verdadeiros da
idade madura.

12 — A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não está na


ociosidade contemplativa, que seria, como frequentemente se diz,
uma eterna e fastidiosa inutilidade. A vida espiritual, em todos os
seus graus, é pelo contrário uma atividade constante, mas livre de
fadiga. A suprema felicidade consiste em desfrutar todos os
esplendores da criação, que nenhuma linguagem humana poderia
exprimir, que a mais fecunda imaginação não poderia conceber.
Consiste ainda no conhecimento e na compreensão de todas as
coisas, na ausência de qualquer sofrimento físico e moral, na
satisfação íntima, na serenidade do espírito que nada altera, no
amor que une a todos os seres e portanto na ausência de todo o
aborrecimento proveniente da relação com os maus, e acima de
tudo na visão de Deus e na compreensão de seus mistérios
revelados aos mais dignos.

Mas ela está também no exercício das funções que felicitam o


Espírito encarnado. Os Espíritos puros são os Messias ou
mensageiros de Deus para transmissão e a execução de seus
desígnios. Eles cumprem as grandês missões, presidem à
formação dos mundos e à harmonia geral do Universo,
incumbência gloriosa a que só chegam pela perfeição. Os de
ordem mais elevada são os únicos que estão no segredo de Deus
e se inspiram no seu pensamento, do qual são os representantes
diretos.
13 — As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu
progresso, ao seu esclarecimento, às suas capacidades, à sua
experiência e ao grau de confiança que merecem do Soberano
Senhor. Não existem privilégios nem favores que não decorram
do próprio mérito. Tudo é medido pela mais estrita justiça. As
missões mais importantes só são confiadas aos que Deus sabe
que estão em condições de cumpri-las e são incapazes de falir ou
de comprometê-las na sua realização.

Enquanto sob o próprio olhar de Deus os mais dignos constituem


o conselho supremo, aos principais Espíritos é entregue a direção
dos turbilhões planetários e aos outros a dos mundos especiais.
Vêm em seguida, na ordem do adiantamento e da disposição
hierárquica, as atribuições mais restritas dos que são incumbidos
da orientação dos povos, da proteção às famílias e aos
indivíduos, de impulsionar cada ramo do progresso, das diversas
operações da Natureza, até aos mais íntimos detalhes da criação.
Nesse vasto e harmonioso conjunto há ocupações para todas as
boas disposições. São ocupações aceitas com alegria e
solicitadas com ardor porque representam um meio de
adiantamento para os Espíritos que desejam elevar-se.

14 — Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos


superiores, há também as de todos os graus de importância
entregues aos Espíritos de todas as ordens, o que nos permite
dizer que cada encarnado tem a sua, ou seja: deveres a cumprir
para o bem de seus semelhantes, desde o pai de família a quem
incumbe o cuidado de fazer progredir os filhos, até o homem de
génio que lança na sociedade novos elementos de progresso. É
nessas missões secundárias que frequentemente se verificam as
falências, as prevaricações, as omissões, que entretanto só
prejudicam ao próprio indivíduo e não ao conjunto.

15 — Todas as inteligências concorrem para a obra geral,


qualquer que seja o seu grau de desenvolvimento, cada uma na
medida das suas possibilidades. Umas como encarnadas, outras
como Espíritos. Por toda parte deparamos com a atividade, desde
o mais baixo ao mais alto da escala, todos se instruindo, se
ajudando mutuamente, se apoiando e se dando as mãos para
atingirem o alvo.

Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o


mundo corpóreo, ou seja entre os Espíritos e os homens, entre os
Espíritos livres e os Espíritos cativos. Assim se perpetuam e se
consolidam, pela depuração e pela continuidade das relações, as
verdadeiras simpatias e as mais sagradas afeições.
Por toda parte, pois, há vida e movimento. Não há um recanto do
infinito que não esteja povoado, nenhuma região que não seja
incessantemente percorrida por inumeráveis legiões de seres
radiosos, invisíveis para os sentidos grosseiros dos encarnados,
mas cuja visão enche de admiração e de alegria as almas libertas
da matéria. Por toda parte enfim, a felicidade relativa a todos os
graus de progresso, por todos os deveres cumpridos.

Cada um carrega consigo os elementos de sua própria felicidade,


na razão da categoria em que o coloca o seu grau de
adiantamento.

A felicidade decorre das próprias qualidades dos indivíduos e não


da condição material do meio em que se encontram. Ela está,
portanto, em toda parte onde existam Espíritos capazes de ser
felizes. Nenhum lugar determinado existe para ela no Universo.
Em qualquer lugar que se encontre, os Espíritos puros podem
contemplar a grandeza divina porque Deus está em tudo.

16 — Entretanto, a felicidade não é pessoal. Se somente a


possuirmos em nós mesmos, se não pudermos partilhá-la com os
outros, ela será egoísta e triste. Ela está também na comunhão
de pensamentos que une os seres simpáticos. Os Espíritos
felizes, atraídos uns aos outros pela semelhança de ideias e
gostos, de sentimentos, formam vastos grupos ou famílias
homogéneas, no seio das quais cada individualidade irradia suas
próprias qualidades e se beneficia dos eflúvios serenos e
benfazejos que emanam do conjunto. Os membros destes, ora se
afastam para cumprir sua missão, ora se reúnem em algum lugar
do espaço para se comunicarem os resultados dos seus
trabalhos, ora se reúnem em redor de um Espírito de ordem
superior para receber os seus conselhos e as suas instruções.

17 — Embora os Espíritos estejam por toda parte, os mundos


constituem os lares em que eles de preferência se reúnem, em
razão da sintonia existente entre eles e os que os habitam. Ao
redor dos mundos adiantados a maioria dos Espíritos são
superiores, ao redor dos mundos atrasados pululam os Espíritos
inferiores. A Terra é ainda um destes últimos. Cada globo tem,
portanto, de qualquer maneira, sua população própria de Espíritos
encarnados e desencarnados, que se sustenta na maior parte
pela encarnação e a desencarnação sucessivas. Essa população
é mais estável nos mundos inferiores, onde os Espíritos são mais
apegados à matéria, e é mais flutuante nos mundos superiores.
Mas dos mundos que são focos de luz e de felicidade partem
Espíritos que se dirigem aos mundos inferiores para neles semear
os germes do progresso, para levar-lhes a consolação e a
esperança, reerguendo os ânimos abatidos pelas provas da vida
e às vezes neles se encarnando para cumprir com mais eficácia a
sua missão.

18 — Nessa imensidade sem limites, onde está o céu? Está por


toda parte, nada o cerca nem lhe serve de limites. Os mundos
felizes são as últimas estações do caminho que a ele conduz, as
virtudes favorecem a caminhada e os vícios impedem o seu
acesso. Ao lado desse quadro grandioso que povoa todos os
recantos do universo, que dá uma finalidade e uma razão de ser a
todas as coisas da criação, como é pequena e mesquinha a
doutrina que circunscreve a humanidade num imperceptível ponto
do espaço, que no-la mostra começando num determinado
instante para igualmente acabar um dia com o mundo que a
carrega, tudo isso apenas num minuto dentro da eternidade!

Como é triste, fria e glacial essa doutrina quando nos apresenta


todo o resto do universo, antes, durante e após a existência da
humanidade terrena, sem vida, sem movimento, como um imenso
deserto mergulhado no silêncio! Como é desesperadora ao
figurar-nos um pequeno número de eleitos entregues à
contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas é
condenada aos sofrimentos sem fim! Como é pungente para os
corações amorosos a barreira que ela coloca entre os mortos e os
vivos! As almas felizes, dizem, só pensam na sua felicidade e
aquelas que são infelizes somente nas suas penas. É de admirar-
se que o egoísmo reine sobre a Terra, quando no-lo mostram no
próprio céu? Como, pois é estreita a ideia que ela nos oferece da
grandeza, do poder e da bondade de Deus!

Mas como é sublime, ao contrário, a que o Espiritismo nos


proporciona!
Como a sua doutrina engrandece os conceitos, alarga o
pensamento! Quem nos diz porém que ela é verdadeira.
Primeiramente, a razão, em seguida, a revelação; depois, sua
concordância com o desenvolvimento da ciência. Entre duas
doutrinas, em que uma diminui e a outra amplia os atributos de
Deus; uma está em desacordo e a outra em harmonia com o
progresso; uma permanece no passado e a outra marcha para o
futuro, o bom senso nos diz de que lado está a verdade. Que
diante das duas cada um, no seu foro íntimo consulte as suas
aspirações e uma voz interior lhe responderá. As aspirações são
a própria voz de Deus que não pode enganar os homens. 18

19 — Mas então porque Deus não revelou desde o princípio toda


a verdade. Pela mesma razão que não se ensina às crianças o
que se deve ensinar na idade madura. A revelação restrita era
suficiente durante um certo período do desenvolvimento da
humanidade. Deus a proporciona na medida da força dos
espíritos. Estes recebem hoje uma revelação mais completa dada
pelos mesmos Espíritos que já lhe deram uma revelação parcial
em outro tempo, porque desde então desenvolveram-se em
inteligência.

Antes que a ciência tivesse revelado aos homens as forças


vivas da natureza, a constituição dos astros, a verdadeira posição
e o processo de formação da Terra, poderiam eles compreender
a imensidade do espaço e a multiplicidade dos mundos? Antes
que a geologia tivesse provado como a Terra se formou, teriam
eles podido desalojar o inferno do seu interior e compreender o
sentido alegórico dos seis dias da criação? Antes que a

18
As aspirações humanas provêm dos desígnios de Deus referentes ao
destino da humanidade. Todas as criaturas trazem no seu íntimo a
intuição do sentido e da finalidade da sua existência. Foi isso que
Descartes descobriu no famoso episódio do cogito, constatando que a
ideia de Deus é inata no homem. Essa a razão de Kardec afirmar que
as aspirações são a voz de Deus. (N. do T.)
astronomia tivesse descoberto as leis que regem o universo,
teriam podido compreender que no espaço não existe alto nem
baixo, que o céu não está acima das nuvens nem limitado pelas
estrelas? Antes do desenvolvimento das ciências psicológicas
poderiam identificar-se com a sua natureza espiritual, poderiam
conceber, após a morte uma vida feliz ou infeliz que não
estivesse circunscrita a determinado lugar e sob uma forma
material?

Não. Compreendendo mais pelos sentidos do que pelo


pensamento, o universo era demasiado vasto para essa
compreensão, sendo necessário reduzi-lo a proporções menores
para que pudesse caber na sua perspectiva mental, reservando-
se para mais tarde a sua verdadeira compreensão. Uma
revelação parcial tinha portanto a sua utilidade. Era prudente
então, mas hoje é insuficiente. O erro está em se querer, não
levando em conta o progresso da cultura, governar os homens
amadurecidos com os preceitos que se aplicavam à infância. (Ver
O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. III.)
CAPÍTULO IV

O INFERNO

Intuição das Penas futuras — O Inferno cristão


copiado do Inferno pagão — Os limbos —
Quadro do Inferno cristão

Intuição das penas futuras

1 — Em todos os tempos o homem acreditou, por intuição, que a


vida futura devia ser feliz ou infeliz segundo o bem ou o mal que
se tivesse feito neste mundo. Mas a ideia que ele fez a respeito
estava em relação com o desenvolvimento do seu senso moral e
com as noções mais ou menos justas que possuia do bem e do
mal. As penas e as recompensas são reflexos dos instintos que
nele predominavam.

Foi assim que os povos guerreiros colocaram as suas supremas


felicidades nas honrarias tributadas à bravura; os povos
caçadores na abundância da caça; os povos sensuais nos
prazeres da voluptuosidade. Enquanto dominado pela matéria o
homem só pode comprender imperfeitamente a espiritualidade.
Foi por isso que ele fez das penas e dos gozos futuros um quadro
mais material do que espiritual. Imaginou que se deve beber e
comer no outro mundo, mas de maneira melhor do que na Terra e
servindo-se de coisas melhores.

Mais tarde vamos encontrar nas crenças sobre o futuro uma


mistura de espiritualidade e materialidade. É assim que ao lado
da bem-aventurança contemplativa ele coloca um inferno de
torturas físicas.

2 — Não podendo conceber se não o que via, o homem primitivo


decalcou naturalmente o seu futuro da vida presente. Para
compreender coisas diferentes das que tinha sob os olhos faltava-
lhe o desenvolvimento intelectual que só devia realizar-se com o
tempo. Da mesma maneira, o quadro que compôs dos castigos
da vida futura é o reflexo das maldades humanas, mas em maior
proporção. Reuniu todas as torturas, todos os suplícios, todas as
aflições que encontrou na Terra. É assim que nas regiões de
clima quente imaginou um inferno de fogo e nas regiões boreais
um inferno de gelo. Não estando ainda desenvolvido o sentido
que mais tarde lhe ermitiria compreender o mundo espiritual, ele
só podia conceber penalidades materiais. Eis porque, com
algumas pequenas diferenças formais, o inferno é semelhante em
todas as religiões.

O Inferno cristão imita o pagão

3 — O inferno dos pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, é


o modelo mais grandioso do género e se perpetuou, projetando-
se como o dos cristãos, que teve também os seus poetas.
Comparando-os podemos encontrar, salvo os nomes e algumas
variações de detalhes, numerosas analogias entre eles. Num e
noutro o fogo material é o elemento básico das torturas porque
simboliza os mais cruéis sofrimentos. Mas, coisa estranha! os
cristãos conseguiram, em diversos sentidos, exagerar o inferno
dos pagãos. Se estes últimos tinham no seu o tonel das
Donaides, a roda de íxion, o rochedo de Sísifo, esses eram
suplícios individuais. O inferno cristão tem por toda parte
caldeiras ferventes, cujas tampas os anjos erguem para verem as
contorções dos condenados. Deus ouve sem piedade os gemidos
desses últimos pela eternidade. Jamais os pagãos figuraram os
habitantes dos Campos Elísios inspecionando os suplícios do
Tártaro.
4 — À semelhança dos pagãos, os cristãos têm o seu rei dos
infernos que é Satanás, com a diferença de que Plutão se limitava
a governar o império sombrio que havia recebido, mas sem
praticar maldades. Ele retinha nesse império os que haviam
praticado o mal, porque essa era a sua missão, mas não
procurava induzir os homens ao mal pelo prazer de os submeter
ao sofrimento. Satanás entretanto recruta as suas vítimas por
toda parte e se alegra de fazê-las atormentar por legiões de
demônios armados de tridentes para revolvê-los nas chamas.
Tem-se mesmo discutido seriamente sobre a natureza desse fogo
que queima sem cessar os condenados, sem jamais os consumir,
chegando-se a perguntar se seria um fogo de betume. O inferno
cristão não permite, pois, que o inferno pagão o exceda em nada.

5 — As mesmas razões que fizeram os antigos localizar a morada


da felicidade, determinaram também que se localizasse a dos
suplícios. Tendo localizado a primeira nas regiões superiores, era
natural que colocassem a segunda nos inferiores, no centro da
Terra, para o qual, segundo se acredita, certas cavernas
sombrias e de aspecto assustador serviam de entrada.

Foi assim também que os cristãos, durante longo tempo


localizaram o lugar dos condenados. Notemos ainda a esse
respeito, outra analogia.

O inferno dos pagãos tinha de um lado os Campos Elisios e de


outro o Tártaro. O Olimpo, morada dos deuses, dos homens
divinizados, ficava nas regiões superiores. Segundo a letra do
Evangelho, Jesus desceu aos infernos, ou seja, nos lugares
baixos para tirar dali as almas dos justos que esperavam a sua
vinda. Os infernos não eram, portanto, apenas um lugar de
suplicio. À semelhança do que acontecia entre os pagãos eles
estavam também nas regiões inferiores. Assim como o Olimpo, a
morada dos anjos e dos santos estava nas regiões elevadas,
colocada para lá do céu das estrelas, que se considerava
limitado.

6 — Essa mistura das ideias pagãs com as cristãs nada tem que
nos deva surpreender. Jesus não podia destruir de repente as
crenças enraizadas. Os homens não dispunham dos
conhecimentos necessários para conceber o espaço como infinito
e povoado de mundos em número infinito. A Terra era para eles o
centro do universo. Não conheciam a sua forma nem a sua
estrutura interior. Tudo lhes parecia limitado segundo a sua
compreensão: as noções referentes ao futuro não poderiam
exceder os limites dos seus conhecimentos.
Jesus se encontrava, pois, na impossibilidade de iniciá-los no
verdadeiro conhecimento da realidade. Mas, de outro lado, não
querendo sancionar com a sua autoridade os prejuízos
dominantes, preferiu abster-se, deixando ao tempo o trabalho de
retificar as ideias erróneas. Limitou-se a falar vagamente da vida
de bem- venturança e dos castigos que esperavam os culpados.
Mas em parte alguma, nos seus ensinos, encontra-se o quadro
dos suplícios corporais que os cristãos transformaram em artigo
de fé.

Eis como a ideia do inferno pagão perpetuou-se até os nossos


dias. Era necessária a difusão dos conhecimentos nos tempos
modernos e o desenvolvimento geral da inteligência humana para
lhe dar a justa medida. Mas como nada de positivo pode ser
colocado em lugar dessas velhas concepções, ao longo período
dominado por uma crença cega sucedeu, como fase de transição,
o período da incredulidade ao qual a nova revelação vem pôr um
fim. Era necessário demolir para depois reconstruir, porque é
mais fácil fazer aceitar as ideias justas pelos que em nada
acreditam, em virtude de sentirem que apesar disso alguma coisa
lhes falta, do que aos que já possuem uma fé robusta, embora
absurda.
7 — Pela localização do céu e do inferno as seitas cristãs foram
levadas a admitir que só existiam para as almas duas situações
extremas: a perfeita felicidade e o sofrimento absoluto. O
purgatório é apenas uma posição intermediária e passageira, da
qual elas passam sem transição para a região dos bem-
aventurados. Nem poderia ser de outra maneira, dada a crença
no destino definitivo da alma após a morte. Havendo apenas duas
regiões, a dos eleitos e a dos condenados, não se pode admitir
variedade de graus em cada uma delas sem aceitar a
possibilidade de as franquear, o que levaria como consequência
ao progresso. Ora, se houvesse progresso não haveria sorte
definitiva. Havendo sorte definitiva não há progresso. Jesus
resolveu a questão quando disse: "Há muitas moradas na casa de
meu Pai".

Os Limbos

8 — É verdade que a Igreja admite para certos casos particulares


uma situação especial. As crianças mortas em tenra idade, não
tendo praticado o mal, não podem ser condenadas ao fogo
eterno. De outro lado, não tendo praticado o bem, não possuem
nenhum direito à felicidade suprema. São então, diz ela, enviadas
aos limbos, situação mista e jamais definida, na qual, embora não
sofrendo não gozam também da felicidade perfeita. Mas desde
que a sua sorte já está irrevogavelmente fixada, elas estão
privadas da felicidade por toda a eternidade.

Essa privação, desde que não dependeu delas, equivale a um


suplício eterno imerecido. Acontece o mesmo com o selvagem,
que não tendo recebido a graça do batismo e as luzes da religião,
pecam por ignorância, abandonando-se aos instintos naturais e
não podem ter culpa nem mérito como os que agem em
conhecimento de causa.

A simples lógica repele semelhante doutrina em nome da justiça


de Deus. Porque esta justiça encontra-se toda nestas palavras do
Cristo: "A cada qual segundo suas obras". Mas é necessário
entender por isso as boas ou más obras que se praticam
livremente, voluntariamente, pois são as únicas que acarretam
responsabilidade. Não é esse o caso da criança, nem do
selvagem ou qualquer outro cujo esclarecimento não tenha
dependido da sua própria vontade.
Quadro do inferno pagão

9 — Só conhecemos o inferno pagão através das composições


dos poetas. Homero e Virgílio nos deram a definição mais
completa, mas devemos considerar as exigências formais da
poesia nessas descrições. A de Fenelon no Telêmaco, embora
originaria da mesma fonte quanto às crenças fundamentais, tem a
simplicidade mais precisa da prosa. Descreve o aspecto lúgubre
dos vários lugares e procura ressaltar sobretudo o género dos
sofrimentos a que são submetidos os culpados, estendendo-se
bastante sobre o destino dos maus reis, isso em virtude da
instrução que dava ao seu aluno real.

Por mais popular que seja a sua obra, muitas pessoas não terão
de memória essa descrição ou não puderam refletir bastante
sobre ela para fazer uma comparação. Eis porque julgamos útil
reproduzir os trechos que apresentam relação mais direta com o
nosso assunto, ou seja, aqueles que se referem especialmente às
penas individuais.

10 — Entrando, Telêmaco ouve outros gemidos de uma sombra


que não encontrava consolação. — Qual é, diz ele, — a vossa
desgraça? O que fostes na terra? — Eu era, — respondeu-lhe a
sombra, — Nabofarzan, rei da soberba Babilónia, e todos os
povos do Oriente tremiam ao simples som do meu nome. Fiz-me
adorar pelos babilónios no templo de mármore onde estava
representado por uma estátua de ouro, diante da qual eram
queimados dia e noite os mais preciosos perfumes da Etiópia.
Ninguém jamais ousou me contradizer sem ter sido mediatamente
punido. Eu inventava cada dia novos prazeres para tornar minha
vida mais deliciosa. Era então jovem e robusto. Mas, oh!
desgraça! embora muito ainda me restasse para gozar sobre o
trono, uma mulher que amei e que não me amava me fez logo
sentir que eu não era um deus: envenenou-me e hoje nada mais
sou. Puseram pomposamente as minhas cinzas numa urna de
ouro. Choraram, arrancando os cabelos ao redor. Ela ameaçou
atirar-se nas chamas em que me incineravam, para morrer
comigo e ainda hoje vai chorar aos pés do soberbo túmulo a que
lançaram as minhas cinzas. Mas ninguém me lamenta e minha
memória causa horror mesmo na minha família, enquanto sofro
aqui em baixo horríveis tratamentos.

Telêmaco, emocionado com o drama, lhe diz: foste


verdadeiramente feliz durante o vosso reinado, sentíeis essa doce
paz sem a qual o coração permanece sempre opresso e abatido
em meio das delícias? — Não, respondeu o babilónio, nem
mesmo compreendo o que quereis dizer. Os sábios louvam essa
paz como o único bem, mas de minha parte jamais a senti. Meu
coração estava incessantemente agitado por novos desejos, por
temores e esperanças. Eu procurava esquecer-me de mim na
confusão das minhas paixões. Cuidava de entreter essa
embriaguez para que não cessasse, pois o menor intervalo de
raciocínio normal me teria sido demasiado amargo. Eis a paz que
desfrutei. Qualquer outra me parece uma fábula ou um sonho. Eis
os bens que lamento.

Assim falando, o babilónio chorava como um homem pusilânime


que se deixou debilitar pelas comodidades, não se tendo jamais
acostumado a suportar a desgraça. Tinha ao seu lado alguns
escravos que fizeram morrer nas honras dos seus funerais.
Mercúrio os havia entregue a Carente com o seu rei, dando-lhes
um poder absoluto sobre esse rei que haviam servido na Terra.

Essas sombras de escravos não temiam mais a sombra de


Nabofarzan, mas a mantinham acorrentada e a submetiam as
mais cruéis humilhações. Uma lhe dizia: Nós também não éramos
homens, tanto como tu?

Como pudeste ser tão insensato para te considerar como um


deus, não te lembrando que pertencias à mesma raça dos
homens? — Uma outra o insultava dizendo: — Tinhas razão de
não querer que te considerassem como um homem, porque eras
um monstro sem humanidade. — Outra lhe falava assim: Muito
bem! Onde estão agora os teus aduladores? Não tens mais nada
a dar, infeliz! E não podes mais fazer nenhum mal; eis que te
tornaste escravo dos teus próprios escravos; os deuses demoram
a fazer justiça, mas por fim a fazem.

A essas duras palavras Nabofarzan se atirava com o rosto na


terra, arrancando os cabelos numa explosão de raiva e
desespero. Mas Carente dizia aos escravos: — Puxai-o pela
corrente, erguei-o mesmo que ele não queira, pois ele não terá
nem mesmo a consolação de ocultar a própria vergonha. É
necessário que todas as sombras do Esfinge o testemunhem para
justificar os deuses, que tão longamente suportaram o reinado
desse ímpio na Terra.

Logo ele percebeu, bem próximo dele, oTártaro negro. Subia


deste uma fumaça escura e espessa, cujo odor empestado
causaria a morte se ela se expandisse pela região dos vivos.
Essa fumaça cobria um rio de fogo com turbilhões de chamas, e o
seu ruído, semelhante ao das mais impetuosas correntes, quando
se lançam dos mais altos rochedos ao fundo dos abismos, fazia
que não se pudesse ouvir com clareza nesses tristes lugares.
Telêmaco, secretamente influenciado por Minerva, entrou sem
temor nesse báratro. Percebeu de início um grande número de
homens que haviam vivido nas mais baixas condições e que eram
punidos por haverem buscado as riquezas por meio de fraudes,
de traições e de crueldades. Notou ali muitos ímpios e hipócritas
que fingindo amar a religião, dela se haviam servido como um
bom pretexto para satisfazer as suas ambições, aproveitando-se
da credulidade alheia. Esses homens que haviam abusado da
própria virtude, embora sendo ela o mais valioso dom dos
deuses, eram punidos como os piores entre os celerados.

Os filhos que haviam matado pais e mães, as esposas que


haviam manchado suas mãos no sangue dos próprios maridos,
os traidores que haviam entregue a pátria violando todos os
juramentos sofriam penas menos cruéis do que esses hipócritas.
Os três juizes dos infernos assim determinaram, e eis as suas
razões: esses hipócritas, não se contentando de ser maus como
os demais ímpios, querem ainda passar por bons e fazem por sua
falsa virtude que os homens não mais queiram acreditar na
virtude verdadeira. Os deuses, dos quais eles se serviram,
tornando-os desprezíveis para os homens, sentem prazer ao
empregar todo o seu poder para vingar-se dos seus insultos.
Ao lado desses estavam outros homens que o vulgo não
considera culpados, mas que a vingança divina persegue
impiedosamente. São os ingratos, os mentirosos, os vaidosos que
se louvaram no vício, os críticos maliciosos que não temeram
manchar a mais pura virtude. Por fim, os que julgaram
temerariamente sem conhecer as coisas a fundo, com isso
prejudicando a reputação dos inocentes.

Vendo os três juizes que estavam sentados e condenavam um


homem, Telèmaco ousou perguntar-lhes quais eram os crimes do
mesmo. No mesmo instante o condenado, tomando a palavra,
exclamou: — Nunca fiz nenhum mal, sempre tive o maior prazer
em fazer o bem, fui magnânimo, liberal, justo e compassivo. Do
que me podem acusar? — Então Minos lhe disse: Não se te
reprova nada em relação aos homens, mas não devias menos
aos homens do que aos deuses? Qual, é, pois, essa justiça de
que te vanglorias? Não faltaste com nenhum dever no tocante
aos homens, que nada são. Foste virtuoso, mas referiste toda a
tua virtude a ti mesmo e não aos deuses, que a concederam a ti,
por que querias gozar os frutos da tua própria virtude,
vangloriando-te em ti mesmo: foste a tua própria divindade. Mas
os deuses, que tudo fizeram unicamente por si mesmos não
podem renunciar aos seus direitos. Tu os esquecestes, eles te
esqueceram. Eles te entregaram a ti mesmo, desde que preferiste
ser de ti mesmo e não deles. Procura, pois, agora, se puderes, o
teu consolo em teu próprio coração. Estás agora, para sempre,
separado dos homens aos quais querias agradar. Estás sós
diante de ti, que eras o teu ídolo. Compreende que não existe
verdadeira virtude sem o respeito e o amor aos deuses, aos quais
tudo deves. Tua falsa virtude, que por muito tempo ofuscou os
homens fáceis de enganar, vai ser confundida. Os homens,
considerando os vícios e as virtudes somente pelo que os toca ou
os agrada, são cegos para o verdadeiro bem e o verdadeiro mal.
Mas aqui uma luz divina inverte todos os julgamentos superficiais.
Frequentemente é condenado aquilo que eles admiram e
justificavam o que eles condenam.

A essas palavras, o filósofo, como ferido por um raio não podia


conter-se. A satisfação que havia tido outrora ao apreciar a sua
própria moderação, a sua coragem e as suas tendências
generosas transformou-se em desespero. A visão do seu próprio
coração, inimigo dos deuses, tornou-se um suplício. Ele se via a
si mesmo e não podia deixar de fazê-lo. Via a vaidade das
apreciações dos homens, aos quais ele quis sempre agradar em
todas as suas ações. Havia uma revolução geral em tudo o que
se encontrava no seu íntimo, como se alguém revirasse todas as
suas entranhas. Ele não era mais o mesmo. Seu coração negava-
lhe todo o apoio. Sua consciência, cujo julgamento lhe havia sido
tão favorável, voltou-se contra ele reprovando amargamente o
desvirtuamento e o engano de todas as suas virtudes, que não
tiveram o culto da divindade por princípio e por fim. Estava
perturbado, consternado, cheio de vergonha, de remorsos e de
desespero. As fúrias não o atormentavam porque era bastante
entregá-lo a si mesmo, pois o seu próprio coração vingava
suficientemente os deuses desprezados. Procurou os lugares
mais sombrios para se ocultar dos outros mortos, já que não
podia ocultar-se a si mesmo. Procurou as trevas e não pode
encontrá-las, pois uma luz importuna o seguia por toda parte, os
raios penetrantes da verdade vingam sem cessar a verdade que
ele negligenciou ao invés de seguir.

Tudo o que ele amava se tornava odioso, como sendo a própria


fonte de seus males, que não mais poderiam acabar. Disse a si
mesmo: Oh insensato! então não conheci os deuses, nem os
homens e nem a mim mesmo! Não, nada conheci, desde que
nunca amei a única verdade e o verdadeiro bem. Todos os meus
passos foram extraviados. Minha sabedoria não era mais que
loucura. Minha virtude, um orgulho ímpio e cego. Fui o meu
próprio ídolo.
Por fim Telêmaco viu os reis condenados por terem abusado do
poder. De um lado uma Fúria vingadora lhes mostrava um
espelho em que viam a monstruosidade dos seus próprios vícios.
Viam e não podiam deixar de ver sua grosseira vaidade e sua
avidez dos mais ridículos louvores; sua dureza para com os
homens, que tinham o dever de fazer felizes; sua insensibilidade
para a virtude; seu temor de ouvir a verdade; sua inclinação para
as criaturas pusilânimes e bajuladoras; sua irresponsabilidade;
sua indolência; sua desconfiança excessiva; seu fausto e
demasiada magnificência baseadas nas ruínas dos povos; sua
ambição que os levava a conquistar o mínimo de vanglória com o
sangue dos cidadãos; enfim, sua crueldade de procurar cada dia
novas emoções por entre as lágrimas e o desespero de tantos
infelizes. Eles se viam nesse espelho permanentemente. Viam-se
mais horríveis e mais monstruosos do que a Quimera vencida por
Belerofonte ou a Hidra de Lema abatida por Hércules, ou mesmo
Cérbero vomitando por suas três güelas escancaradas um
sangue negro e venenoso capaz de empestar toda a raça dos
mortais que vivem na Terra.

De outro lado e ao mesmo tempo outra Fúria lhes repetia de


maneira insultuosa todos os louvores que os aduladores lhes
fizeram em vida e mostravam-lhes outro espelho, no qual eles se
viam tais como os aduladores os haviam pintado. A contradição
desses dois quadros tão opostos constituía um suplício para a
sua vaidade. Notava-se que os piores entre esses reis eram os
que haviam recebido as homenagens mais magnificentes durante
a vida, porque os maus são mais temidos que os bons e exigem
sem pudor as mentirosas reverências dos poetas e dos oradores
do seu tempo.

Ouviam-se os seus gemidos na profundeza das trevas, onde eles


não podiam perceber outra coisa além dos insultos e das ironias
que deviam sofrer. Nada tinham ao seu redor que não os
repelisse e contradissesse confundindo-os, enquanto na terra se
aproveitavam da vida dos homens, supondo que todos existiam
somente para os servir. No Tártaro eles são entregues aos
caprichos de alguns escravos que os submetem por sua vez a
uma servidão cruel. Têm de servir sofrendo e não lhes resta
nenhuma esperança de poder abrandar jamais o seu cativeiro.
Ficam sujeitos aos golpes desses escravos, transformados em
seus tiranos impiedosos, como uma forja sobre os golpes dos
marte-los dos Ciclopes, quando Vulcano os apresa no trabalho
dentro das ardentes fornalhas do monte Etna.

Telêmaco viu então semblantes, pálidos, consternados e


hediondos. É que uma tristeza negra corrói esses criminosos.
Eles têm horror de si mesmos e não podem livrar-se desse horror
como se ele pertencesse à sua própria natureza. Não necessitam
assim, de outro castigo para as suas faltas do que as suas
próprias faltas que vêem sem cessar em toda a sua enormidade,
apresentando-se a eles como horríveis espectros que os
perseguem. Para se livrarem disso buscam uma outra morte mais
poderosa que aquela que os separou dos seus corpos.

No desespero em que se encontram, esses reis clamam pelo


socorro de uma morte que pudesse extinguir neles todo o
sentimento e toda a consciência. Pedem aos abismos que os
traguem para escaparem aos raios vingadores da verdade que os
perseguem, mas estão condenados à vingança que se destila
sobre eles gota a gota e que jamais cessará. A verdade que e/es
temiam ver é agora o seu suplício. Eles a vêem e só têm olhos
para vê-la erguendo-se contra eles. Essa visão os trespassa, os
destrói, os arranca de si mesmos. É como um raio que sem nada
destruir ao redor penetra até o mais fundo das suas entranhas.

Entre essas coisas que lhe faziam eriçar os cabelos, Telêmaco


viu muitos antigos reis da Lídia que eram punidos por terem
preferido os deleites de uma vida folgazã ao trabalho para
melhoria dos povos, que deve ser inseparável da realeza.

Os reis reprovavam uns aos outros a sua própria cegueira. Um


dizia a outro que tinha sido seu filho: — Não te recomendei
frequentemente, durante a minha velhice e antes de morrer, que
reparasses os males que pratiquei na minha negligência? — Ah,
infeliz pai! — Dizia o filho, — foste tu que me perdeste. Foi o
vosso exemplo que me sugeriu o fausto, o orgulho, a
voluptuosidade e a dureza de coração para com os homens!
Vendo-te reinar com tanta displicência e cercado de covardes
aduladores, habituei-me ao gosto da lisonja e dos prazeres.
Acreditei que o resto dos homens eram para os reis o que são os
cavalos e outros animais de carga para a humanidade em geral,
ou seja, esses animais aos quais não se dá importância,
querendo apenas que prestem serviços e proporcionem
comodidades. Acreditei nisso, e foste tu que me fizeste acreditar.
Hoje estou sofrendo todos estes males por te haver imitado. A
essas recriminações juntavam as mais horríveis maldições e
pareciam prestes a se entredevorarem de raiva.

Ao redor dos reis volteavam ainda, como morcegos noturnos, as


mais cruéis suspeitas, os falsos receios, as desconfianças que
são as vinganças dos povos contra a maldade de seus reis, sua
insaciável fome de riquezas, a falsidade de sua glória sempre
baseada na tirania e a covarde displicência que aumenta os
males do povo sem lhes proporcionar jamais a compensação das
necessidades satisfeitas.

Viam-se muitos desses reis severamente punidos, não pelos


males que haviam praticado, mas por terem negligenciado o bem
que deviam fazer. Todos os crimes dos povos, que decorrem da
negligência na observação das leis, eram imputados aos reis que
deviam ter como seu ministério fazer que as leis reinassem.
Todas as desordens provenientes dos excessos de fausto, do
luxo e de todos os demais abusos que lançam os homens na
violência e na tentação de desprezar as leis para se
enriquecerem, eram também imputadas aos reis. Eram tratados
sobretudo com rigor os que em lugar de serem bons e vigilantes
pastores dos povos só haviam pensado em devorar o rebanho
como lobos insaciáveis.

Mas o que mais consternava Telêmaco era ver, nesse abismo de


trevas e maldades, grande número de reis que haviam passado
pela terra como soberanos muito bons e estavam condenados às
penas do Tártaro por se terem deixado governar por homens
maus e hipócritas. Esses eram punidos pelos males que haviam
permitido que fossem feitos sob a sua autoridade. De resto, a
maioria desses reis não haviam sido bons nem maus, tamanha
era a sua fraqueza. Jamais haviam receado conhecer a verdade,
pois não possuíam o gosto da virtude e nunca sentiram o prazer
de praticar o bem.

Quadro do inferno cristão

11 — Resumimos nas citações seguintes a opinião dos teólogos


sobre o Inferno. Essa descrição, tendo sido tirada dos próprios
autores sacros e da vida dos santos, pode ser considerada, tanto
melhor, como a expressão da fé ortodoxa nesse assunto, quanto
é a todo instante reproduzido, com algumas pequenas variantes,
nos sermões e nas instruções pastorais.

12 — Os demônios são espíritos puros, pois os condenados


presentemente no inferno podem também ser considerados como
espíritos puros, desde que somente a sua alma desceu até lá e
os seus restos mortais, devolvidos à Terra, se transformam
incessantemente em relva, plantas, frutos, minerais ou líquidos,
passando inconscientemente pelas metamorfoses da matéria.
Mas os condenados, como os santos, devem ressuscitar no
último dia e retomar, para não mais os perder, corpos carnais, os
mesmos corpos com que foram conhecidos quando vivos. O que
distinguirá uns dos outros é que os eleitos ressuscitarão em
corpos purificados e radiosos, enquanto os condenados em
corpos imundos e deformados pelo pecado.

Assim, não haverá mais no inferno somente Espíritos puros, mas


homens semelhantes a nós. O inferno é, portanto, uma região
física, geográfica, material, desde que será povoado por criaturas
terrenas com pés, mãos, boca, língua, dentes, orelhas, olhos
semelhantes aos nossos, com sangue nas veias e nervos
sensíveis à dor.

Onde está situado o inferno? Alguns doutores o colocaram nas


próprias entranhas da Terra. Outros, em não sabemos que
planeta. A questão não foi resolvida por nenhum concílio.
Ficamos, nesse caso, reduzido às conjecturas. A única coisa que
se afirma é que o inferno, onde quer que esteja situado, é um
mundo constituído de elementos materiais, mas um mundo sem
sol, sem lua, sem estrelas, mais triste, mais inóspito, mais
desprovido de todo princípio e toda aparência de bem, como não
acontece mesmo nas regiões mais inabitáveis deste mundo em
que pecamos.

Os teólogos mais sérios não se atrevem a figurar, como faziam os


Egípcios, os Indianos e os Gregos, todos os horrores desta
região. Limitam-se a nos indicar, como uma amostra, o pouco que
as Escrituras revelam: O lago de fogo e enxofre do Apocalipse e
os vermes de Isaías, esses vermes que devoram eternamente os
cadáveres doTofel e os demônios atormentando os homens que
conseguiram levar à perdição, e os homens chorando e rangendo
os dentes, segundo a expressão dos

Evangelistas.

Santo Agostinho não concorda que essas penas físicas sejam


simples imagens das penas morais. Ele vê num lago realmente
de enxofre, vermes e serpentes verdadeiros apegando-se a todas
as partes dos corpos dos condenados e juntando as suas
mordidas às queimaduras do fogo. Ele pretende segundo um
versículo de São Marcos que esse fogo estranho, embora
material como o nosso, agindo sobre corpos materiais os
conservará como o sal conserva a carne de animais sacrificados.
Mas os condenados sentirão esse fogo que queima sem destruir
e que penetrará sob a sua pele. Eles ficarão encharcados e
saturados em todos os seus membros, na medula dos ossos e na
pupila dos olhos, bem como nas fibras mais ocultas e mais
sensíveis do ser. A cratera de um vulcão, se nela pudessem
atirar-se, seria para eles um lugar de refrigério e descanso.

Assim falam, com toda segurança, os teólogos mais tímidos, mais


discretos e reservados. Não negam, aliás, a existência no inferno
de outros suplícios corporais. Dizem apenas que não possuem
conhecimentos suficientes para deles falar de maneira positiva,
pelo menos como podem fazer sobre o horrível suplício do fogo e
dos vermes. Mas há teólogos mais espertos ou mais esclarecidos
que descrevem o inferno com mais detalhes, mais variados e
mais precisos. Embora não saibam em que lugar do espaço está
situado o inferno, há santos que o viram. Não foram até lá com a
lira nas mãos como Orfeu, ou de espada em punho como Ulisses,
mas transportados em espírito. Santa Teresa pertence a esse
número.

Tem-se a impressão, pelo relato da santa, que há cidades no


inferno. Ela viu ali, pelo menos, uma espécie de rua comprida e
estreita, como tantas que existem nas velhas cidades. Entrou na
rua, andando com horror sobre um terreno pantanoso e fétido,
cheio de répteis monstruosos, mas teve a sua marcha sustada
por um muro que fechava a saída. Nesse muro havia um nicho ao
qual Teresa se recolheu, sem saber como isso aconteceu. Era,
diz ela o lugar que lhe estava destinado se abusasse, durante a
vida, das graças que Deus lhe concedia em sua cela de Ávila.
Logo que foi introduzida, com espantosa facilidade, nesse nicho
de pedra, viu que não podia sentar-se nem deitar-se, e nem
mesmo se manter de pé. Menos ainda poderia sair dali. Esse
horrível mundo começou a fechar-se sobre ela, envolvendo-a,
prendendo-a como se as faces do nicho fossem animadas.
Parecia-lhe que a asfixiavam, estrangulavam e ao mesmo tempo
que a esfolavam viva e e a retalhavam em fatias. Sentia-se
queimar e experimentava simultaneamente todas as formas de
angústia. Nenhuma esperança de socorro. Tudo ao seu redor era
trevas, mas através dessas trevas ela ainda percebia, com
assombro, a horrorosa rua em que estava alojada, com toda a
sua imundície, o que também lhe era intolerável como o aperto da
sua prisão.

Esse, não há dúvida apenas um cantinho do inferno. Outros


viajores espirituais foram mais favorecidos. Viram no inferno
grandes cidades inteiramente incendiadas: Babilónia e Nínive a
própria Roma com seus palácios e seus templos abrasados e
todos os habitantes acorrentados. Os traficantes presos aos seus
balcões, os padres reunidos com as cortesãs nos salões de
festas, urrando nas suas cadeiras das quais não podiam levantar-
se e levando aos lábios para matar a sede, taças de que saíam
chamas. Criados de joelhos em cloacas ferventes, de braços
estendidos ante príncipes de cujas mãos escorria sobre eles, em
forma de lavas devoradoras, ouro derretido. Outros viram no
inferno planícies ilimitadas, onde camponeses famintos, nada
colhendo das suas estéreis plantações nessas planícies regadas
pelos seus suores fumegantes, e como nada podiam encontrar,
se entredevoravam. Depois, tão numerosos como antes, magros
e famintos da mesma maneira, eles se dispersavam em bandos
no horizonte procurando inutilmente um lugar de terras mais
felizes, e sendo imediatamente substituídos, nos campos que
abandonavam, por outras colónias errantes de condenados. Há
os que viram no inferno montanhas cercadas de precipícios, e
florestas soluçantes, de poços sem água, de fontes de lágrimas,
de rios de sangue, de turbilhões de neve em desertos de gelo, de
barcos cheios de desesperados vagando sobre mares sem
praias. Viram-se, enfim, todas as coisas que os pagãos haviam
visto: um reflexo tenebroso da terra, uma projeção
desmesuradamente aumentada das suas misérias, dos seus
sofrimentos naturais eternizados, e até calabouços, forcas e
outros instrumentos de tortura criados por nós mesmos.

Existem lá, com efeito, demônios que para atormentarem os


homens nos seus corpos, também se revestem de corpos. Esses
corpos têm asas de morcegos, chifres, pele coberta de escamas,
patas com garras e dentes aguçados. São mostrados armados de
espadas, de tenazes, de pinças, de serras em fogo, de grelhas,
de garfos, de foles, de martelos ardentes e trabalhando pela
eternidade na carne dos condenados como açougueiros e
cozinheiros. Às vezes, transformados em leões ou em enormes
serpentes, arrastam suas vítimas para cavernas solitárias. Alguns
se transformam em corvos para arrancar os olhos a certos
culpados, e outros em dragões voadores para os carregar no seu
dorso, aterrorizados e sangrentos, através de tenebrosos espaços
e os lançar num lago de enxofre. Ali, há nuvens de gafanhotos, de
escorpiões gigantescos cuja vista produz calafrios e cujo odor
provoca náuseas, que o simples tocar com os dedos produz
convulsões. Lá, monstros de muitas cabeças abrem para todos os
lados güelas vorazes, sacudindo as disformes cabeças de crinas
de serpentes, esmagam os condenados em suas mandíbulas
sangrentas e os vomitam mastigados, mas vivos porque eles são
imortais.

Esses demônios em forma humana, que lembram tão claramente


os deuses do Amenti e do Tártaro, os ídolos adorados pelos
Fenícios e pelos Moabitas e outros novos pagãos ao redor da
Judéia, esses demônios não agem ao acaso: todos têm a sua
função e o seu objetivo. O mal que fazem no inferno está em
relação com o mal que inspiraram e levaram aos homens a
praticar na Terra.

Os condenados são punidos em todos os seus sentidos e em


todos os seus órgãos, porque ofenderam a Deus através desses
sentidos e desses órgãos. São punidos da seguinte maneira: os
gulosos pelos demônios da gulodice, os preguiçosos pelos
demônios da preguiça, os sensuais pelos demônios da
sensualidade e assim por diante, segundo a variedade dos
pecados. Sentirão frio ao se queimarem e calor ao se
enregelarem.

Desejarão ao mesmo tempo o repouso e o movimento. E sempre


famintos, sempre sedentos, mais fatigados que os escravos no
fim da jornada, mais doentes do que agonizantes, mais
maltratados e cobertos de chagas do que os mártires. E tudo isso
sem que nunca se acabe.

Nenhum demônio se recusa nem se recusará jamais a executar a


sua espantosa tarefa. São todos, nesse sentido, bem
disciplinados e fiéis no cumprimento das ordens de vingança que
recebem. Sem isso, no que se tornaria o inferno? Os pacientes
ficariam em descanso se os carrascos andassem a discutir ou a
se enfadarem. Mas nada de repouso para os primeiros, nem de
discussões para os segundos. Por piores que sejam e por maior
que seja o seu número, os demônios se estendem de um extremo
ao outro do abismo e jamais se viu sobre a Terra uma
organização de súditos mais dóceis aos seus príncipes, de
exércitos mais obedientes aos seus comandantes, de ordens
monásticas mais humildemente submissa aos seus superiores 19 .

Quase nada se conhece dos demônios que formam a população


do inferno, esses espíritos vis que constituem as legiões de
vampiros e sapos, de escorpiões, de corvos, de hidras, de
salamandras e outros animais sem nomes da fauna das regiões
infernais. Mas se conhecem e sabem-se de muitos dos príncipes
que comandam essas regiões, entre outros Belfegor, o demônio
dos desejos impuros ou o senhor das moscas que produzem a

19
Esses mesmos demônios, rebeldes a Deus no tocante ao bem, são
de exemplar docilidade para a prática do mal. Nenhum deles se recusa
ou se mostra de má vontade através de toda a eternidade. Que
estranha metamorfose operou-se neles, que haviam sido criados puros
e perfeitos como os anjos! É realmente estranho vê-los dar exemplos de
perfeito entendimento, de plena harmonia, de inalterável concórdia,
quando os homens não sabem viver em paz e se estraçalham na Terra.
Vendo o requinte dos castigos reservados aos condenados e
comparando a sua situação com a dos demônios, pergunta-se quais
são os mais dignos de lástima: Os algozes ou as vítimas?(N. de Kardec)
corrupção; Mamum, o demônio da avareza; Moleque, Belial,
Balgad e Astarote e muitos outros. E acima deles o seu chefe
universal, o sombrio arcanjo que tinha no céu o nome de Lúcifer e
que tem no inferno o nome de Satanás.

Eis em resumo a ideia que nos dão do inferno considerado em


sua natureza física e quanto às penas físicas que nele existem.
Consultai os Pais da Igreja e os antigos Doutores. Interrogai as
legendas piedosas. Olhai as esculturas e as pinturas das nossas
igrejas. Ouvi com atenção o que dizem nos nossos púlpitos e
aprendereis ainda mais.

13 — O autor acrescenta a essas descrições as reflexões


seguintes, cujo alcance todos compreenderão:

A ressurreição dos corpos é um milagre, mas Deus faz ainda


outro milagre ao dar a esses corpos mortais, já usados nas
passageiras provas da vida e já uma vez aniquilados, a virtude de
subsistir, sem se dissolverem, numa fornalha em que até os
metais se evaporariam. Que se diga que a alma é o seu próprio
carrasco, que Deus não a castiga, mas apenas a abandona no
estado de infelicidade que ela mesma escolheu, isso a rigor se
pode compreender, embora o eterno abandono de um ser
extraviado e sofredor pareça pouco de acordo com a bondade do
Criador. Mas o que se diz da alma e das penas espirituais, não se
pode dizer; de maneira alguma dos corpos e das penas corporais.
Para perpetuar essas penas corporais não é suficiente que Deus
afaste a sua mão, mas é necessário, pelo contrário, que ele a
mostre, que intervenha, que haja, sem o que os corpos
sucumbiriam.

Os teólogos supõem então que Deus opera, com efeito, após a


ressurreição, esse segundo milagre de que falamos. Primeiro, ele
retira do sepulcro, que os havia devorado, os nossos corpos de
argila é os retira tal como foram enterrados, com suas antigas
enfermidades e as deformações produzidas pela idade, pela
doença e pelos vícios. Ele nos devolve a esse estado: decrépitos,
gulosos, gotosos, cheios de necessidades, sensíveis a uma
picada de insetos, cobertos pelas feridas que a vida e a morte nos
impuseram, e é esse o primeiro milagre. Depois, nesses corpos
miseráveis, prestes a voltarem à poeira de que saíram, ele insufla
uma propriedade que eles nunca possuíram, dando-lhes a
imortalidade, esse mesmo dom que na sua cólera, ou antes na
sua misericórdia, ele havia retirado à Adão ao expulsá-lo do
Éden, e eis o segundo milagre. Quando Adão era imortal, e
portanto invulnerável, deixou de o ser, tornando-se mortal: a
morte seguiu-se imediatamente à dor.
A ressurreição não nos devolve, pois, nem às condições físicas
do homem inocente nem às condições físicas do homem culpado.
É uma ressurreição apenas das nossas misérias, mas com a
sobrecarga de novas misérias, infinitamente mais horríveis. É em
parte, uma verdadeira criação e a mais maliciosa que a
imaginação já se atreveu a conceber. Deus reconsidera, e para
acrescentar aos tormentos espirituais dos pecadores os
tormentos carnais que devem durar para sempre, muda
imediatamente, por um efeito do seu poder, as leis e as
propriedades por ele mesmo estabelecidas, desde o começo,
para os organismos materiais. Ressuscita as carnes doentes e
corrompidas, e reunindo por um nó indestrutível esses elementos
que tendem por si mesmos a separar-se, os mantém e perpetua
contra a ordem natural, nessa podridão viva, e a lança no fogo,
não para a purificar, mas para a conservar tal qual é, sensível,
sofredora, sempre queimando, horrível, exatamente como quer
que ela se mantenha imortal.

Por esse milagre se transforma Deus num dos carrascos do


inferno, pois se os condenados só podem atribuir a si mesmos os
seus males espirituais, não podem fazer o mesmo com os outros,
só atribuíveis a Deus. Era aparentemente muito pouco abandoná-
los depois da morte à tristeza, ao arrependimento e a todas as
angústias de uma alma que sente haver perdido o bem supremo.
Deus, segundo os teólogos, irá buscá-las nessa noite no fundo
desse abismo, trazendo-as por um momento à luz, não para as
consolar, mas para as revestir de um corpo horrendo, queimante,
imperecível, mais empestado que a túnica de Janira, e só então
as abandona para sempre.

Mas a verdade é que não as abandonará, pois que o inferno


subsiste, como a terra e o céu, por um ato permanente da sua
vontade sempre ativa e tudo se desvaneceria se ele cessasse de
os sustentar. Ele manterá, portanto, sem cessar, a sua mão sobre
os condenados para impedir que o fogo se extinga e seus corpos
se dissolvam, querendo que esses infelizes imortais contribuam
com o seu perene suplício para a edificação dos eleitos.

14 — Dissemos com razão que o inferno dos cristãos havia


superado o dos pagãos. No Tártaro, com efeito, viam-se os
culpados serem torturados pelos remorsos, sempre em face dos
seus crimes e das suas vítimas, acabrunhados por aqueles
mesmos que eles haviam prejudicado em vida. Viam-se os
culpados fugindo à luz e procurando em vão escapar aos olhos
que os perseguiam. O orgulho era ali abatido e humilhado. Todos
carregavam os estigmas do seu passado, todos eram punidos
pelas suas próprias faltas, a tal ponto que, para alguns, era
bastante entregá-los a si mesmos, sendo inútil acrescentar-lhes
outros castigos. Além disso eles eram sombras, quer dizer: almas
com seus corpos fluídicos, imagens da sua existência terrena.
Não se viam os homens retomarem seus corpos carnais para
sofrerem materialmente, nem o fogo penetrar-lhes sob a pele e os
saturar até a medula dos ossos, nem o requinte e o refinamento
dos suplícios que constituem a base do inferno cristão. Havia
juizes inflexíveis, mas justos, que proporcionavam a pena na
medida da falta, enquanto no império de Satanás todos se
confundem nas mesmas torturas e tudo se funda na
materialidade, de maneira que a própria equidade não existe.

Há hoje, sem dúvida, na própria Igreja, muitos homens de bom


senso que não mais admitem essas coisas ao pé da letra e as
consideram como simples alegorias das quais é necessário
apreender o sentido. Mas essa opinião é apenas individual e não
constituo lei. A crença no inferno material, com todas as suas
consequências, ainda permanece como artigo de fé.

15 — Pergunta-se como os homens puderam ver essas coisas


em estado de êxtase, se elas não existem. Não é este o lugar de
explicar a fonte dessas imagens fantásticas, que as vezes se
produzem com a aparência de realidade. Diremos somente que
devemos ver nisso uma prova do princípio de que o êxtase é a
menos segura de todas as formas de revelação, porque esse
estado de superexcitação nem sempre resulta de um
desprendimento completo da alma, como se poderia crer, e nele
encontramos muito frequentemente o reflexo das preocupações
do estado de vigília. As ideias de que a mente se nutre e que o
cérebro, ou melhor o invólucro perispiritual correspondente ao
cérebro, conserva, se reproduzem e amplificam como numa
miragem, sob as formas vaporosas que se desenvolvem e se
misturam, compondo esse conjuntos estranhos.

Os extáticos de todos os cultos sempre viram as coisas em


relação com a fé a que se apegam. Não é pois de surpreender
que os que, como Santa Teresa se acham fortemente
convencidos das ideias do inferno, segundo as apresentam as
descrições verbais ou escritas e as pinturas, tenham visões que
nada mais são, propriamente falando, do que a reprodução
dessas ideias, produzindo o efeito de um pesadelo. Um pagão
cheio de fé teria visto o Tártaro e as Fúrias, como teria visto no
Olimpo o próprio Júpiter tendo um raio na mão 20 .

20
Kardec antecipa, nesta maravilhosa explicação, a teoria do
condicionalismo à crença que Charles Richet formularia mais tarde na
Metapsíquica e hoje revivida na Parapsicologia. Como se vê, as
chamadas novidades parapsicológicas nada mais fazem do que
confirmar teses espíritas de há mais de um século, e às vezes de
maneira incoerente, contrastando com a explicação espírita, que é
sempre clara e precisa. Veja-se este assunto no livro En tos limites de
Ia Psicologia, do prof. Ricardo Musso, Buenos Aires, 1960, no Tratado
de Metapsíquica, de Richet, e em Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J.
Herculano Pires. (N. do T.)
CAPITULO V

O PURGATÓRIO

1 — O Evangelho não faz nenhuma menção do purgatório, que


só foi admitido pela Igreja no ano de 563. Trata-se
inevitavelmente de um dogma mais racional e mais conforme à
justiça de Deus que o inferno, pois estabelece penas menos
rigorosas e mais aceitáveis para as faltas de mediana gravidade.

A ideia do purgatório funda-se, portanto, no princípio da equidade,


pois comparado com a justiça humana equivale à detenção
temporária em relação com a pena de condenação. O que se
pensaria de um país que só tivesse a pena de morte para todos
os crimes, até os mais simples delitos? Sem o purgatório só há
para as almas as duas alternativas extremas: a felicidade
absoluta ou o suplício eterno. Nesse caso, o que seria das almas
culpadas somente de faltas leves? Ou elas partilhariam a
felicidade dos eleitos sem serem perfeitas, ou sofreriam o castigo
dos maiores criminosos sem os terem igualado no mal, o que não
seria justo nem racional.
2 — Mas a noção do purgatório teria de ser necessariamente
incompleta, pois só conhecendo o suplício do fogo procuraram
diminui-lo numa ideia atenuada do inferno. As almas ainda se
queimam, mas de maneira menos intensa. Não conciliável o
progresso com o dogma das penas eternas, as almas não podem
sair do purgatório através do seu próprio adiantamento, mas sim
pela virtude das preces que se fazem ou se mandam fazer em
sua intenção.

Se a ideia inicial foi boa, não se deu o mesmo com as suas


consequências, em razão dos abusos de que ela se tornou fonte.
Em virtude das preces pagas o purgatório se transformou numa
mina mais produtiva que o inferno 21 .

3 — O lugar do purgatório nunca foi determinado, nem


claramente definida a natureza das penas que nele são impostas.
Estava reservado à Nova Revelação preencher esta lacuna ao
nos explicar as causas das misérias da vida terrena, que somente

21
O purgatório deu origem ao escandaloso comércio das indulgências,
com as quais se vendia a entrada no céu. Esse abuso foi a causa
primeira da Reforma e foi por causa dele que Lutero rejeitou o
purgatório. (N. de Kardec). — Este caso nos mostra o processo da
evolução: o erro da concepção do inferno gerou a idéia do Purgatório, e
esta determinou, por sua vez, a reformulação da Teologia cristã e a
tentativa de volta ao Cristianismo primitivo, que preparou, com a
Reforma protestante, o caminho ao Espiritismo. (N. do T.)
o princípio da pluralidade das existências poderia justificar.

Essas misérias são necessariamente resultantes das


imperfeições da alma, pois se a alma fosse perfeita não cometeria
faltas e não teria de sofrer as suas consequências. O homem
que fosse sóbrio e moderado em tudo, por exemplo, não se
tornaria presa das doenças provocadas pelos excessos. Na
maioria das vezes ele se torna infeliz neste mundo por sua
própria culpa. Mas ele é imperfeito, já o devia ser antes de vir
para a Terra. Aqui ele expia não somente as faltas atuais, mas
também as anteriores que não pode antes reparar. Sofre nesta
vida as provas que fez os outros sofrerem numa outra existência.
As vicissitudes por que passa são ao mesmo tempo um castigo
temporário e uma advertência quanto às imperfeições de que se
deve livrar para evitar desgraças futuras e progredir na direção do
bem.

Elas são para as almas lições da experiência, às vezes rudes,


mas tanto mais aproveitáveis quanto mais profunda a impressão
que possam deixar. Essas vicissitudes proporcionam a
oportunidade de lutas incessantes que desenvolvem as suas
forças e as suas faculdades morais e intelectuais, fortificando a
alma na prática do bem. Saindo sempre vitoriosa, ela se beneficia
se tiver a coragem de enfrentar a prova até o fim. O prémio da
vitória ela a receberá na vida espiritual, onde entrará radiosa e
triunfante como o soldado que sai da refrega e vai receber o seu
galardão.

4 — Cada existência representa para a alma a oportunidade de


um adiantamento. Depende da sua vontade que esse
adiantamento seja o maior possível, permitindo-lhe subir
numerosos degraus ou permanecer n o mesmo ponto. Neste
último caso ela terá perdido a oportunidade, e como é sempre
necessário que cedo ou tarde pague a sua dívida, terá de
recomeçar numa nova existência as mesmas lutas em condições
mais penosas, porque a uma nódoa que não apagou ela
acrescentou outra.

É pois nas encarnações sucessivas que a alma se liberta pouco a


pouco das suas imperfeições, que ela se purga, numa palavra,
até que se torne bastante pura para merecer libertar-se dos
mundos de expiação e ir para os mundos mais felizes, deixando
esses mais tarde para gozar da felicidade suprema.

O Purgatório não é, portanto, uma ideia vaga e incerta: é uma


realidade material que vemos, tocamos e sofremos. Ele se
encontra nos mundos de expiação e a Terra é um deles. Os
homens expiam nela o seu passado e o seu presente em
benefício do seu futuro. Mas contrariamente à ideia que se faz a
respeito, depende de cada um abreviar ou prolongar a sua
permanência neste mundo, segundo o grau de diantamento e
depuração a que possa chegar pelo próprio trabalho. Dela
saimos. não por haver completado um certo tempo ou pelos
méritos de outros, mas pelo nosso próprio mérito, segundo estas
palavras de Cristo: a cada um segundo suas obras.palavras que
resumem toda a justiça de Deus.

5 — Aquele que sofre nesta vida pode dizer, portanto, que é por
não estar suficientemente depurado e que, se não o fez na
existência anterior terá ainda que sofrer na seguinte. Isto é ao
mesmo tempo equitativo e lógico. Sendo o sofrimento inerente à
imperfeição, sofre-se por tanto tempo quanto, se for imperfeito,
como se sofre de uma doença por tanto tempo quanto não se
consegue extinguir as suas causas. É assim que um homem
orgulhoso sofrerá as consequências do orgulho, da mesma
maneira que um egoísta as do egoísmo.

6 — O Espírito culpado sofre primeiramente na vida espiritual em


razão dos graus da sua imperfeição; sofre depois na vida corporal
que lhe é dada como meio de reparação. É por isso que ele se
reencontra com as pessoas que tenha ofendido, seja em
situações semelhantes àquelas em que praticou o mal, seja em
situações que representam o seu reverso, como neste exemplo:
estar na miséria se foi um mau rico ou numa condição humilhante
se foi um orgulhoso.

O fato de haver expiação no mundo espiritual e na Terra não


representa um duplo castigo para o Espírito. É o mesmo castigo
que se prolonga na vida terrena, com o fim de facilitar o seu
adiantamento através de um trabalho efetivo. Dele depende tirar o
proveito. Não é melhor para ele voltar à Terra com a possibilidade
de ganhar o Céu, do que ser condenado sem remissão ao deixá-
la?

Esta liberdade que lhe é concedida é uma prova da sabedoria, da


bondade e da justiça de Deus, que quer que o homem deva tudo
aos seus esforços e seja o artífice do seu futuro. Se ele for infeliz
por maior ou menor tempo, não poderá queixar-se senão de si
mesmo, pois o caminho do progresso está sempre aberto para
ele.

7 — Se considerarmos como é grande o sofrimento de certos


Espíritos culpados no mundo invisível, como é terrível a situação
de alguns, de que angústias se tornaram presas, quanto essa
situação se faz mais penosa pela impossibilidade de lhe verem o
fim, poderíamos dizer que isso é para eles o inferno, se essa
palavra não implicasse a ideia de um castigo eterno e material.
Graças à revelação dos Espíritos e aos exemplos que eles nos
ofereceram, sabemos que a duração da expiação está
subordinada ao melhoramento do culpado.

8 — O Espiritismo não vem, pois, negar a existência das penas


futuras, mas pelo contrário constatá-las. O que ele destrói é a
ideia do inferno localizado, com suas fornalhas e suas penas
irremissíveis. Não nega o purgatório, desde que prova que
estamos nele. Define e precisa o purgatório ao explicar a causa
das misérias terrenas, e com isso reconduz à crença aqueles que
o negavam.

O Espiritismo condena as preces pelos mortos? Bem ao contrário,


pois os espíritos sofredores as solicitam. Faz delas um dever de
caridade e demonstra a sua eficácia para os conduzirão bem,
abreviando dessa maneira os seus tormentos 22 .

Falando à inteligência, o Espiritismo reconduz os incrédulos à fé,


induzindo à prece os que dela se afastavam. Mas ensina que a
eficácia das preces depende do pensamento e não das palavras,

22
Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 27, Ação da Prece.
que as melhores preces são as que partem do coração e não
apenas dos lábios, aquelas que são ditas por nós mesmos e não
as que mandamos dizer por dinheiro. Quem ousaria reprová-lo
por isso?

9 — Quer o castigo se verifique na vida espiritual ou na Terra, e


qualquer que seja a sua duração, há sempre um termo para ele,
mais ou menos longo ou curto. Não há, na verdade, para o
Espírito mais do que estas alternativas: punição temporária e
graduada segundo a culpabilidade, ou recompensa graduada
segundo o mérito. O Espiritismo não aceita a terceira, ou seja a
da condenação eterna. O inferno permanece apenas como figura
simbólica dos grandes sofrimentos que parecem não ter fim. O
Purgatório é a realidade em que nos encontramos.

A palavra Purgatório exprime a ideia de um lugar circunscrito. Eis


porque se aplica mais naturalmente à Terra, considerada como
lugar de expiação, do que ao do espaço infinito em que erram os
Espíritos sofredores, e também porque a natureza da expiação
terrestre é uma verdadeira purgação.

Quando os homens forem melhores só passarão ao mundo


invisível como Espíritos bons, e estes, ao se reencarnarem trarão
para a humanidade corpórea somente criaturas aperfeiçoadas.
Então a Terra, deixando de ser um mundo de expiação, os
homens não mais sofrerão nela as misérias que são hoje as
consequências de suas imperfeições. É essa a transformação
que está em marcha neste momento e que elevará a Terra na
hierarquia dos mundos. (Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo,
Cap. 3.) 23

10 — Mas porque o Cristo não falou do Purgatório? É que, não


existindo a ideia, não havia palavra especial para representá-la.
Ele se serviu da palavra inferno, que estava em uso, como um
termo genérico para designar todas as modalidades das penas
futuras. Se ao lado da palavra inferno tivesse criado um termo
equivalente a Purgatório, não teria podido precisar-lhe o sentido
sem tocar numa questão reservada ao futuro. Por outro lado, isso
seria consagrar a existência de dois lugares especiais de castigo.
O inferno na sua acepção geral, revelando a ideia de punição,
implicava também a de Purgatório, que apresenta apenas uma
das formas de penalidade. O futuro, devendo esclarecer os

23
O grifo é nosso e sua finalidade é chamar a atenção do leitor para o
fato de que as grandes transformações atuais que abalam o nosso
mundo já estavam previstas nas obras da codificação espírita. A Terra
está sofrendo uma crise de crescimento para se tornar um mundo
maduro e portanto melhor. As desordens atuais, que tanto nos
assustam, são os prenúncios de uma nova ordem que fará a Terra
elevar-se na escala dos mundos. (N. do T.)
homens sobre a natureza das penas, teria, por isso mesmo, de
reduzir o inferno ao seu justo valor.

Desde que a Igreja achou de seu dever, após seis séculos, suprir
o silêncio de Jesus a esse respeito, decretando a existência do
purgatório, foi por haver julgado que ele não havia dito tudo.
Porque não será assim para outros pontos, como para esse? 24

24
Kardec propõe a questão relativa ao esclarecimento que o Espírito da
Verdade devia trazer para os homens, segundo a promessa evangélica
de Jesus, na hora histórica em que estivessem maduros para recebê-lo.
As igrejas cristãs condena ram, como herética a afirmação de Kardec
de que o espiritismo vinha completar o ensino do Cristo. Kardec
lembra, no trecho acima, um dos pontos em que a Igreja o antecipou de
vários séculos, fazendo ela mesma um acréscimo no ensino de Jesus.
Mas não repele esse acréscimo, pois reconhece que ele está de acordo
com as exigências lógicas da explicação das penas futuras e com a
realidade demonstrada pelas comunicações espíritas. Localizando o
Purgatório na Terra, em virtude da natureza expiatória do planeta,
Kardec ao mesmo tempo extingue a fonte de rendas das indulgências
que provocou a rebelião da Reforma e justifica o protesto de Lutero. (N.
do T.)
CAPÍTULO VI

DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS

Origem da Doutrina das Penas Eternas

1 — A crença na eternidade das penas perde terreno cada dia, de


tal maneira que, mesmo não sendo profeta, podemos prever o
seu fim próximo. Ela tem sido combatida por argumentos tão
poderosos e decisivos, que parece quase supérfluo ocuparmo-
nos dela hoje, bastando que a deixássemos extinguir-se por si
mesma. Não se pode, entretanto, esquecer que, por mais caduca
que ela pareça, ainda permanece como o centro de resistência
dos adversários das ideias novas, o ponto que eles defendem
com mais ardor porque é um dos seus flancos mais vulneráveis, e
porque prevêem as consequências da sua queda.

Nesse sentido, a questão merece um exame sério.


2 — A doutrina das penas eternas, como a do inferno material,
teve a sua razão de ser quando podia servir de freio para os
homens intelectual e moralmente pouco desenvolvidos. Da
mesma maneira que eles não podiam impressionar-se muito com
a ideia de penas espirituais, também não se impressionariam com
penalidades temporais. Não compreenderiam mesmo a justiça
das penas graduais e proporcionais, porque não estavam aptos a
apreender as nuanças quase sempre sutis entre o bem e o mal,
nem o valor relativo das circunstâncias atenuantes ou agravantes.

3 — Quanto mais próximos do estado primitivo, mais


materializados são os homens. O senso moral é o que se
desenvolve mais tardiamente. Por isso mesmo só podem fazer
uma ideia muito imperfeita de Deus e de seus atributos, e uma
ideia igualmente vaga da vida futura. Assemelham Deus à sua
própria natureza, figurando-o como um soberano absoluto, tanto
mais temível quanto é invisível, como um déspota que, oculto no
seu palácio, jamais se mostra ao povo.

Deus só é então poderoso pela força material, porque eles não


compreendem o poder espiritual. Só o concebem armado com o
raio, em meio aos clarões da tempestade, semeando à sua
passagem a ruina e a desolação à maneira dos conquistadores
invencíveis. Um Deus de mansuetude e de misericórdia não seria
Deus, mas um ser débil que não poderia fazer-se obedecer. A
vingança implacável, os castigos terríveis, eternos, nada tinham
de contrário à ideia que faziam de Deus, nada que lhes
repugnasse a razão. Implacáveis eles mesmos nas suas lutas,
cruéis para os inimigos, piedosos para com os vencidos, Deus,
que lhes era superior devia ser ainda mais terrível do que eles.

Para esses homens eram necessárias crenças religiosas


adequadas à sua natureza ainda rude. Uma religião inteiramente
espiritual, feita de amor e caridade, não poderia harmonizar-se
com a brutalidade dos seus costumes e das suas paixões. Não
acusemos pois Moisés por sua legislação draconiana, que era
apenas suficiente para conter um povo indócil, nem de haver feito
de Deus um ser vingativo. Era o necessário para a época. A
suave doutrina de Jesus não poderia encontrar eco e se mostraria
impotente.

4 — À medida que o Espírito se desenvolveu, o véu material foi-


se dissipando aos poucos e os homens se tornaram mais aptos a
compreender as questões espirituais. Mas tudo isso teve de se
fazer gradualmente. Quando Jesus veio já pode anunciar um
Deus clemente, falar do seu reino que não era deste mundo e
dizer aos homens: amai-vos uns aos outros, fazei o bem aos que
vos odeiam, enquanto os antigos diziam: olho por olho e dente
por dente.

Mas quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus?


Seriam almas novas, criadas para ali se encarnarem? Se assim
fosse, Deus teria criado no tempo de Jesus almas mais
adiantadas que as do tempo de Moisés e nesse caso, em que se
tornariam estas últimas? Teriam elas adormecido no
embrutecimento pela eternidade? O simples bom senso repele
esta suposição. Não. Eram as mesmas almas que após terem
vivido sob o domínio da lei Mosaica, haviam adquirido através de
muitas existências o desenvolvimento suficiente para
compreenderem uma doutrina mais elevada, e que atualmente
mostram-se ainda mais adiantadas, podendo receber um ensino
mais completo.

5 — Apesar disso, o Cristo não pode revelar aos seus


contemporâneos todos os mistérios do futuro. Ele mesmo disse:
tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podereis
compreender, é por isso que vos falo em parábolas. Quanto aos
problemas morais, aos deveres das relações humanas, Ele foi
bastante preciso, porque, tocando a corda sensível dos interesses
materiais podia fazer-se compreender. Quanto aos outros pontos
Ele se limitou a semear, sob forma alegórica, os germes que
deveriam desenvolver-se mais tarde.

A doutrina das penas e das recompensas futuras estava neste


caso. Particularmente no tocante às penas Ele não podia romper
abrutamente as concepções tradicionais. Vinha revelar aos
homens novos deveres: a caridade e o amor do próximo
substituindo o ódio e a vingança; a abnegação em lugar do
egoísmo. Isto já era muito. Ele não podia conscientemente
atenuar o medo aos castigos reservados aos prevaricadores sem
enfraquecer, ao mesmo tempo, o princípio do dever.

Jesus prometia o reino dos céus aos bons. Esse reino estava
portanto interditado aos maus. Para onde iriam estes? Era
necessária uma contraparte capaz de impressionar as
inteligências demasiado materiais para compreenderem a vida
espiritual. Não se deve esquecer que Jesus se dirigia ao povo, à
parte menos esclarecida da população, para a qual tinha de usar
imagens de certa maneira palpáveis e não ideias abstraias. Eis
porque não podia entrar em detalhes supérfluos nesse terreno:
bastava-lhe opor uma punição à recompensa sendo isto o
suficiente naquela época.
6 — Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também
os ameaçou de serem lançados na Geena. Mas o que era a
Geena? Um lugar nas cercanias de Jerusalém, o depósito de lixo
da cidade. Seria possível tomar-se isso ao pé da letra? Era
apenas uma dessas imagens fortes de que se servia para
impressionar as massas. Acontecia o mesmo com o fogo eterno.
Se não fosse esse o seu pensamento, Ele estaria em contradição
consigo mesmo ao exaltar a clemência e a misericórdia de Deus,
porque a clemência e a inexorabilidade se negam
reciprocamente. Seria pois nos enganarmos estranhamente sobre
o sentido das palavras de Jesus, vermos nela a sanção do dogma
das penas eternas, quando todo o seu ensino proclama a
bondade do criador.

Na oração dominical nos ensinou a dizer: Senhor, perdoai as


nossas ofensas como perdoamos os nossos ofensores. Se o
culpado não pudesse esperar nenhum perdão, seria inútil pedi-lo.
Mas há condições para esse perdão? É ele uma graça, uma
anulação pura e simples da pena em que se incorreu? Não. A
medida desse perdão está subordinada à maneira porque
perdoamos, ou seja, se não perdoamos não seremos perdoados.
Fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta,
Deus não podia exigir que o homem frágil fizesse o que Ele, todo-
poderoso, não faria. A oração dominical é uma negação da
vingança eterna de Deus.

7 — Para os homens que só tinham uma noção confusa da


espiritualidade da alma a ideia do fogo material não era chocante,
tanto mais que ela se encontra na crença popular proveniente do
inferno pagão e quase universalmente difundida. A eternidade
das penas nada tinha de repugnante para criaturas submetidas
desde séculos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de
Jesus o fogo eterno só podia ser uma figura. Pouco lhe importava
que essa figura fosse tomada ao pé da letra, desde que devia
servir de freio. Ele sabia muito bem que o tempo e o progresso se
encarregariam de esclarecer o sentido alegórico, sobretudo
quando, segundo a sua predição, o Espírito da Verdade viesse
esclarecer todas as coisas aos homens.

A consequência essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia


do arrependimento. Mas Jesus nunca disse que o arrependimento
fosse inútil perante Deus. Em todas as ocasiões, pelo contrário,
apresentou um Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o
filho pródigo de volta para o lar paterno. Só o mostrou inflexível
para o pecador endurecido. Mas assim mesmo, se tinha o castigo
numa das mãos, tinha sempre o perdão na outra, pronto a
dispensá-lo ao culpado, desde que esse voltasse sinceramente a
Ele. Não é verdadeira, pois, a imagem de um Deus impiedoso.
Devemos observar também que Jesus não pronunciou contra
ninguém, mesmo contra os maiores culpados, a condenação
irremissível.

8 — Todas as religiões primitivas, de acordo com a natureza dos


povos tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos
exércitos. O Jeová dos Hebreus lhes proporcionava todos os
meios necessários para que exterminassem os seus inimigos, e
os recompensava pela vitória ou os punia pela derrota. Segundo
a ideia que faziam de Deus, acreditavam honrá-lo ou apaziguá-lo
com o sangue dos animais ou dos homens. Vêm daí os sacrifícios
sangrentos que tiveram papel tão considerável em todas as
religiões antigas.

Os Judeus haviam abolido os sacrifícios humanos. Os cristãos,


apesar dos ensinos do Cristo, acreditavam por muito tempo
honrar ao criador entregando ao fogo e às torturas milhares
daqueles que chamavam de hereges. Eram, sob outra forma,
verdadeiros sacrifícios humanos, desde que o faziam para a
maior glória de Deus e com a realização de cerimónias religiosas.
Ainda hoje continuam invocando o Deus dos Exércitos antes dos
combates e o glorificam após a vitória, e isso frequentemente
pelas causas mais injustas e mais anticristãs.

9 — Como o homem custa a se livrar de seus prejuízos, dos seus


hábitos, das suas ideias primitivas!

Quarenta séculos nos separam de Moisés e nossa geração cristã


ainda conserva os traços de antigas usanças bárbaras
consagradas ou pelo menos aprovadas pela religião atual! Foi
necessária a pressão da opinião dos não-ortodoxos, dos que são
olhados como heréticos, para se pôr fim às fogueiras e fazer
compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, na falta das
fogueiras as perseguições materiais e morais continuaram em
vigor, de tal maneira a ideia de um Deus cruel está enraizada no
homem. Alimentado pelos sentimentos que lhes são inculcados
na infância, poderia o homem estranhar que um Deus que lhe
apresentaram honrado por atos bárbaros condene à torturas
eternas, vendo sem piedade o sofrimento dos condenados?
Foram os filósofos, os ímpios, segundo alguns, que se
escandalizaram de ver o nome de Deus profanado por atos
indignos dele. Foram estes que o mostraram aos homens em
toda a sua grandeza, despojando-o das paixões e da mesquinhez
humana que lhe havia atribuído uma crença cega. A religião
ganhou com isso em dignidade aquilo que havia perdido em
prestígio exterior, porque se há menos homens apegados a ela
pela forma, é maior o número dos que são mais sinceramente
religiosos, pelo coração e pelos sentimentos.

Mas ao lado desses, quantos foram levados, por ficarem apenas


nas aparências, à negação da Providência! Por não haverem feito
que as crenças religiosas acompanhassem o progresso da razão
humana, os responsáveis por isso levaram uns ao deísmo, outros
à incredulidade absoluta, outros ao panteísmo, o que vale dizer
que o homem se fez Deus a si mesmo na falta de outro mais
perfeito.

Argumentos a favor das penas eternas

10 — Voltemos ao dogma da eternidade das penas. O principal


argumento que se invoca em seu favor é o seguinte.

Admite-se entre os homens que a gravidade da ofensa está na


razão da qualidade do ofendido. Aquela que se comete contra um
soberano é considerada mais grave do que a cometida contra um
simples cidadão e punida com maior severidade. Ora, Deus é
mais que um soberano, pois é infinito e por isso mesmo a ofensa
a ele também se torna infinita, merecendo um castigo da mesma
natureza, ou seja: eterno.

Refutação —Toda a refutação é um raciocínio que deve ter o seu


ponto de partida, uma base em que se apoiar, premissas, numa
palavra. Encontramos essas premissas nos próprios atributos de
Deus.

Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,


soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.

Não se pode conceber Deus sem o infinito das suas perfeições,


pois sem isso ele não seria Deus, desde que poderíamos
conceber um ser que possuísse o que lhe falta. Para que ele seja
o único acima de todas os seres é necessário que nenhum o
possa superar ou igualar seja no que for. Portanto, é necessário
que ele seja infinito em todos os sentidos. Os atributos de Deus,
sendo infinitos, não podem aumentar nem diminuir. Sem isso,
eles não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se tirássemos
a Deus a mínima parcela de um só de seus atributos, não mais
teríamos Deus, pois seria possível a existência de um ser mais
perfeito.

O infinito de uma qualidade exclue a possibilidade de existir uma


qualidade contrária que a anulasse ou diminuísse. Um ser
infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, e
um ser infinitamente mau não pode ter a menor parcela de
bondade. Isso da mesma maneira que um objeto não poderia ser
absolutamente negro com a mais leve nuança de branco, nem
absolutamente branco com a mínima mancha negra. Colocado
esse ponto, podemos opor ao argumento acima o seguinte
raciocínio:

11 — Somente um ser infinito pode criar o infinito. O homem,


limitado em suas virtudes, nos seus conhecimentos, nos seus
poderes, nas suas aptidões, na sua própria existência terrena, só
pode produzir coisas limitadas. Se o homem pudesse ser infinito
no mal que pratica, também o poderia ser no bem que faz, e ele
seria igual a Deus. Mas, se o homem fosse infinito no tocante ao
bem, não faria nenhum mal, porque o bem absoluto é a exclusão
de todo o mal.

Admitindo-se que uma ofensa temporária praticada contra a


divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-a por um castigo
infinito seria infinitamente vingativo. E se ele o for, não pode ser
infinitamente bom e misericordioso, pois um dos seus atributos é
a limitação do outro. Se ele não for infinitamente bom não é
perfeito, e se não for perfeito não é Deus.
Se Deus for inexorável para o culpado arrependido, não é
misericordioso, e se não é misericordioso, não é infinitamente
bom.

Porque daria Deus ao homem a lei do perdão, se ele mesmo não


devesse perdoar? Disso resultaria que o homem que perdoa os
seus inimigos, retribuindo-lhes o mal com o bem, seria melhor
que Deus que permanece surdo ao arrependimento do seu
ofensor e lhe recusa, pela eternidade, a mais leve atenuação da
pena.

Deus, que está em toda a parte e tudo vê, tem de ver as torturas
dos condenados. Se ele for insensível aos seus clamores pela
eternidade, será eternamente impiedoso, e se for impiedoso não
é infinitamente bom.

12 — A isto, respondem que o pecador que se arrepende antes


de morrer obtém a misericórdia de Deus e que o maior culpado
pode se beneficiar com a sua graça.

Não pode haver dúvida quanto a isto. Concebe-se que Deus


somente perdoe aos arrependidos e seja inflexível para os
espíritos endurecidos. Mas se ele se mostra cheio de misericórdia
para a alma que se arrepende antes de deixar o corpo, porque
não faria o mesmo para aquela que se arrepende depois da
morte? Qual a razão do arrependimento só ser eficaz durante a
vida, representa apenas um instante e não o ser durante a
eternidade? Se a bondade e a misericórdia de Deus ficam
circunscritas a um determinado tempo, não são infinitas e Deus
não é infinitamente bom.

13 — Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é a


mais inexorável nem a que deixa impunes todas as faltas, mas a
que considera da maneira mais rigorosa o bem e o mal,
recompensando um e punindo o outro com perfeita equidade,
sem jamais se enganar.

Se por uma falta passageira que resulta quase sempre da


natureza imperfeita do homem, e muitas vezes decorre do meio
em que ele se encontra, a alma pode ser punida eternamente,
sem esperanças de abrandamento e nem de perdão, não existe
nenhuma proporção entre a falta e a punição. Portanto, não há
justiça.

Se o culpado se volta para Deus, arrependendo-se e pedindo


para reparar o mal cometido, isso equivale a um retorno ao bem,
aos bons sentimentos. Se o castigo for irrevogável, esse retorno
ao bem não produz efeito, desde que Deus não leva em conta o
bem e não pratica a justiça. Entre os homens, o condenado que
se emenda vê a sua pena comutada e às vezes perdoada.
Haveria, pois, na justiça humana mais equidade que na justiça
Divina!

Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil. Nada


podendo esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no
mal, de maneira que Deus não somente o condena a sofrer
eternamente mas também a permanecer no mal por toda a
eternidade. Não há nisso nem justiça, nem bondade.

14 — Sendo infinito em todas as coisas, Deus deve conhecer


tudo no passado e no futuro. Deve saber, no momento da criação
de uma alma, se ela vai falir de maneira grave para ser
condenada eternamente. Se não o sabe, seu saber não é infinito
e nesse caso Ele não é Deus. Se o sabe, cria voluntariamente um
ser condenado, desde à sua formação, às torturas sem fim, e
nesse caso não é bom.

Se Deus, tocado pelo arrependimento de um condenado, pode


estender a ele a sua misericórdia e o retirar do inferno, não existe
penas eternas e o julgamento feito pelos homens está revogado.

15 — A doutrina das penas eternas, aceita de maneira absoluta,


levanos forçosamente à negação ou a diminuição, de alguns
atributos de Deus. Ela é, por conseguinte, inconciliável com a
perfeição infinita, pelo que chegamos à esta conclusão:

Se Deus é perfeito, a condenação eterna não existe; se ela


existe, Deus não é perfeito.

16 — Invoca-se ainda em favor do dogma da eternidade das


penas o seguinte argumento:

A recompensa concedida aos bons sendo eterna, deve ter como


contraparte uma punição eterna. É justo proporcionar a punição à
recompensa.

Refutação — Deus teria criado a alma com o fim de fazê-la feliz


ou infeliz. É evidente que a felicidade das criaturas deve ser o
objetivo de sua criação, pois de outra maneira Deus não seria
bom. Ela atinge a felicidade pelo próprio mérito. Conquistado o
mérito, ela não pode perder o seu fruto, porque então
degeneraria. A eternidade da felicidade é pois uma consequência
da sua natureza imortal.

Mas antes de chegar à perfeição, ela terá lutas a sustentar,


combates a travar com as más paixões. Não a tendo criado
perfeita, mas capaz de se aperfeiçoar, a fim de que tenha o
mérito de suas obras, ela pode falir. Suas quedas decorrem de
sua fraqueza natural. Se ela tivesse de ser condenada
eternamente por uma queda, poderíamos perguntar porque Deus
não a criou mais forte.

A punição sofrida pela alma é uma advertência de que ela fez o


mal. Deve ter como resultado reconduzi-la ao bom caminho. Mas
se a pena fosse irremissível, seu desejo de se corrigir seria inútil.
Assim, o fim providencial da criação não poderia ser atingido,
porque haveria seres predestinados à felicidade e outros à
desgraça. Se uma alma culpada se arrepende, pode tornar-se
boa; podendo tornar-se boa, pode aspirar à felicidade. Deus seria
justo se lhe recusasse esses meios?

Sendo o bem o objetivo final da criação, a felicidade, que é o seu


prémio, deve ser eterna. Ao mesmo tempo, o castigo que é um
meio de levar ao bem deve ser temporário. A mais vulgar noção
de justiça, mesmo entre os homens, diz que não se pode castigar
perpetuamente aquele que tem o desejo do bem e se dispõe a
praticá-lo.

17 — Um último argumento em favor da eternidade das penas é o


seguinte:

O temor de um castigo eterno é o freio. Se o eliminarmos, nada


mais tendo a temer, o homem se entregará a todos os
desregramentos.

Refutação — Esse raciocínio seria justo se ao eliminarmos a


eternidade das penas suprimíssemos toda e qualquer sanção
penal. A situação feliz ou infeliz na vida futura decorre de uma
rigorosa consequência da justiça de Deus, enquanto uma
identidade de situação entre o homem bom e o perverso seria a
negação dessa justiça. Pelo fato de não ser eterno, o castigo não
tem de ser menos penoso. Ele se torna tanto mais temível,
quanto mais se pode aceitá-lo, e tanto mais aceitável, quanto
mais racional. Uma penalidade em que não se pode crer não é
um freio, e a eternidade das penas está nesse caso.

A crença nas penas eternas, como já dissemos, teve a sua


utilidade e a sua razão de ser em certa época. Hoje, não somente
ela deixou de assustar, como acabou por semear a incredulidade.
Antes de colocá-la como uma necessidade, seria necessário
demonstrar a sua realidade. Conviria, sobretudo que se pudesse
ver a sua eficácia no exemplo daqueles que a preconizam e se
esforçam para a demonstrar. Infelizmente, entre eles, são bem
poucos os que provam pelos seus atos que realmente estão
atemorizados. Se essa crença é impotente para reprimir o mal
entre aqueles que dizem acreditar nela, que domínio poderia ter
sobre os que não acreditam?
Impossibilidade material das penas eternas

18 — Até aqui, o dogma das penas eternas só foi contraditado


pelo aciocínio. Vamos agora demonstrar que ele está em
contradição com os fatos positivos que temos diante dos olhos e
que provam a sua impossibilidade.

De acordo com esse dogma, o destino da alma após a morte é


fixado de maneira irrevogável. Fica assim definitivamente barrado
o seu progresso. Ora, a alma progride ou não? Eis toda a
questão. Se ela progride a eternidade das penas é inadmissível.

Podemos duvidar desse progresso, quando vemos a imensa


variedade de aptidões morais e intelectuais existentes na Terra,
desde o selvageaté o homem civilizado? Quando se vêem as
diferenças que um mesmopovo apresenta de um século para
outro? Se admitirmos que não são mais as mesmas almas,
teremos de aceitar que Deus cria as almas em todos os graus de
desenvolvimento, de acordo com os tempos e os lugares,
favorecendo umas, enquanto relega outras à uma inferioridade
perpétua. Isso é incompatível com a justiça, que deve será
mesma para todas as criaturas.

19 — É incontestável que a alma, intelectual e moralmente não


desenvolvida, como a dos povos bárbaros, não pode dispor das
mesmas condições de felicidade, das mesmas aptidões para
gozar dos esplendores do infinito, que tem aquela cujas
faculdades já se encontram amplamente desenvolvidas. Se essas
almas, portanto, não progredirem, não podem, mesmo nas
condições mais favoráveis, gozar pela eternidade senão de uma
felicidade muito reduzida. Chega-se assim forçosamente, de
acordo com uma rigorosa justiça, à conclusão de que as almas
mais adiantadas são as mesmas que antes se apresentavam
como atrasadas e depois progrediram. Aqui tocamos na grave
questão da pluralidade das existências, como único meio racional
de se resolver a dificuldade. Não obstante, a deixaremos de lado
para só considerar a alma numa única existência.

20—Consideremos, como tantos que existem, um jovem de vinte


anos, ignorante, entregue aos instintos inferiores negando Deus e
sua alma,desordeiro, cometendo toda espécie de maldades.
Colocado, entretanto, num meio favorável, trabalha e se instruo,
corrige-se pouco a pouco e por fim se transforma numa criatura
piedosa. Não é esse um exemplo palpável do progresso da alma
durante a vida, e todos os dias não vemos casos semelhantes?

Esse homem morre em santidade numa idade avançada e


certamente a sua salvação está assegurada. Mas o que teria sido
dele, se um acidente o tivesse levado à morte quarenta ou
cinquenta anos antes? Estaria dentro de todas as condições para
ser um condenado, e uma vez condenado, estaria impedido de
realizar qualquer progresso.

Eis o caso de um homem que se salvou por ter vivido bastante e


que, segundo a doutrina das penas eternas, jamais se teria
salvado se tivesse vivido menos, o que poderia acontecer por um
acidente qualquer. Mas desde que a sua alma pode progredir
num determinado tempo, porque não progrediria nesse mesmo
tempo após a morte, se uma causa independente da sua vontade
a tivesse impedido de fazê-lo em vida? Porque Deus haveria
então de recusar-lhe os meios? O arrependimento, embora tardio,
não é menos efetivo do que se viesse em tempo. Mas se desde o
instante da morte uma condenação irremissível o atingiu, seu
arrependimento não tem mais valor para a eternidade e sua
capacidade de progredir ficou para sempre anulada.

21 — O dogma da eternidade das penas é pois inconciliável com


o progresso da alma, pois lhe opõe um obstáculo insuperável.
Esses dois princípios se anulam forçosamente um pelo outro. Se
um existe, o outro não pode existir. Qual dos dois realmente
existe? A lei do progresso é evidente, não é uma teoria, mas um
fato constatado pelas experiências. É uma lei natural, lei divina,
imprescritível. Assim, desde que ela existe e não pode se
conciliar com a outra, é que a outra não existe. Se o dogma da
eternidade das penas fosse erdadeiro, Santo Agostinho, São
Paulo e muitos outros jamais teriam visto o céu se ouvessem
morrido antes do progresso que os levou à conversão.

A esta afirmação respondem que a conversão desses santos não


resultou de nenhum progresso da alma, mas da graça que lhes foi
concedida e pela qual se sentiram tocados.

Mas isto é jogar com palavras. Se eles praticaram o mal e mais


tarde se voltaram para o bem é que se tornaram melhores.
Conseqüentemente: progrediram. Deus lhes teria concedido
então, por um favor especial, a graça de se corrigirem? Porque a
eles e não a outros? É sempre a doutrina dos privilégios,
incompatível com a justiça de Deus e seu amor sem distinção
para com todas as criaturas.

Segundo a doutrina espírita, segundo as próprias palavras do


Evangelho, dentro da lógica e da mais rigorosa justiça, o homem
é o que as suas próprias obras o fazem, durante esta vida e após
a morte. Nada ele deve a qualquer favoritismo, pois Deus o
recompensa de acordo com os seus esforços e o pune pela sua
negligência, por tanto tempo quanto durar a negligência.

A doutrina das penas eternas passou do tempo

22 — A crença na eternidade das penas materiais permaneceu


como um temor necessário até que os homens pudessem
compreender o poder da moral. Aconteceu como com as crianças
que podem ser contidas durante algum tempo pela ameaça de
certos seres fantásticos que lhes causam pavor, mas chega o
momento em que a razão da criança recusa por si mesma essas
estórias, e então seria absurdo pretender governá-las pelos
mesmos meios. Se continuarem a dizer que essas fábulas são
verdadeiras e devem ser tomadas ao pé da letra, elas perderão a
confiança nas pessoas. É o que acontece atualmente com a
humanidade. Ela saiu da infância e se libertou dessas rédeas
artificiais. O homem não é mais esse instrumento passivo que se
curva à força material, nem a criatura crédula que tudo aceitava
de olhos fechados.

23 — A crença é um ato de entendimento e por isso não pode ser


imposta. Se, durante um certo período da evolução da
humanidade, o dogma da eternidade das penas foi inofensivo,
salutar mesmo, chegou agora o momento em que ele se torna
perigoso. Com efeito, desde o momento que lhe imponham esse
dogma como verdade absoluta, quando a razão o repele,
necessariamente acontecerá uma destas coisas: ou o homem
que deseja crer procura uma crença mais racional e se afasta da
que lhe querem impor, ou deixa inteiramente de crer. É evidente,
para quem quer estudar friamente a questão, que nos nossos
dias a eternidade das penas produziu maior número de
materialistas e ateus do que todos os filósofos.

As ideias seguem um curso necessariamente progressivo e não


se pode governar os homens senão seguindo esse curso. Querer
detê-los ou fazê-los retroceder, ou simplesmente parar onde se
encontram, quando ele está avançando, seria perdê-los. Seguir
ou não seguir esse movimento é uma questão de vida ou de
morte, tanto para as religiões como para os governos. É isso um
bem? Ou é um mal? Certamente é um mal aos olhos dos que,
vivendo no passado, percebem que esse passado lhes escapa.
Para os que vêm o futuro, é o cumprimento da lei do progresso
que é uma lei de Deus. E contra as leis de Deus é inútil qualquer
resistência: lutar contra a sua vontade é querer despedaçar-se.

Porque, pois, querer a toda força sustentar uma crença que cai
em decrepitude e que na verdade produz mais mal do que bem à
própria religião? Infelizmente, é triste dizer, uma questão material
domina neste ponto o problema religioso. Essa crença tem sido
largamente explorada, graças à ideia de que as portas do céu
podem ser abertas com dinheiro, livrando-nos do inferno. As
somas que ela tem produzido e que ainda produz são
incalculáveis: é o imposto cobrado sobre o medo da eternidade.
Sendo facultativo, o produto desse imposto é proporcional ao
domínio da crença . Se esta não mais existir, a arrecadação
desaparece. A criança dá o seu doce de boa vontade a quem lhe
promete que vai espantar o lobisomem, mas quando a criança
não acredita mais no lobisomem, prefere comer o doce.

24 — A nova revelação, fornecendo ideias mais aceitáveis sobre


a vida futura e demonstrando que a salvação pode ser alcançada
através das próprias obras, deve enfrentar uma oposição tanto
mais forte, quanto ela vem estancar a mais importante fonte de
arrecadação. É o que sempre acontece quando uma descoberta
ou uma invenção vem modificar as situações. Os que vivem dos
antigos costumes sempre os defendem, procurando desacreditar
as novidades, por mais vantajosas que sejam.

Acreditais, por exemplo, que a arte de imprimir, não obstante os


benefícios que devia trazer à humanidade, pudesse ser aclamada
pela numerosa classe dos copistas? Não, certamente. Eles
deviam maldizê-la. Assim também aconteceu com as máquinas,
com as estradas de ferro e centenas de outras coisas.

Aos olhos dos incrédulos, o dogma da eternidade das penas é


uma simples futilidade que lhes provoca o riso. Aos olhos do
filósofo, a questão se torna grave no seu aspecto social pelos
abusos a que tem servido, de motivo. O homem verdadeiramente
religioso considera que a dignidade da religião depende da
destruição desses abusos e conseqüentemente das suas causas.

Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original

25 — Aos que pretendem encontrar na Bíblia a justificação da


eternidade das penas podemos opor os textos contrários, que não
permitem nenhuma dúvida a respeito. As seguintes palavras de
Ezequiel são a mais decisiva negação, não somente das penas
irremissíveis, mas também da possibilidade de recair sobre toda a
sua descendência a falta cometida pelo pai do género humano:

1) Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 2) Que tendes vós,


vós que acerca da terra de Israel proferiste este provérbio,
dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é
que se embotaram? 3) Tão certo como eu vivo, diz o Senhor
Deus, jamais direis este provérbio em Israel. 4) Eis que todas as
almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é
minha; a alma que pecar, essa morrerá. 5) Sendo, pois, o homem
justo e fazendo juízo e justiça; 7) não oprimindo a ninguém,
tornando ao devedor a coisa penhorada, não roubando, dando o
seu pão ao faminto e cobrindo ao nu com vestes; 8) não dando
seu dinheiro à usura, não recebendo juros, desviando a sua mão
da injustiça e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; 9)
andando nos meus estatutos, guardando os meus juízos e
procedendo retamente o tal justo certamente viverá, diz o Senhor
Deus.

10) Se ele gerar um filho ladrão, derramador de sabgue, que fizer


a seu irmão qualquer destas coisas. 13) esse filho morrerá, por
todas estas abominações que ele fez e o seu sangue será sobre
ele.

14) Eis que, se ele gerar um filho que veja todos os pecados que
seu pai fez e, vendo-os, não cometer coisas semelhantes, 17)
não morrerá pela iniquidade de seu pai, mas certamente viverá.
18) Quanto a seu pai, porque praticou extorsão, roubou os bens
do próximo e fez o que não era bom no meio do seu povo, eis que
morrerá por causa de sua iniquidade.

19) Mas direis: Por que não leva o filho a iniquidade do pai?
Porque o filho fez o que era reto e justo e guardou todos os meus
estatutos e os praticou, por isso certamente viverá.

20) A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a


iniquidade do pai, nem o pai a iniquidade do filho; a justiça do
justo ficará sobre ele e a perversidade do perverso cairá sobre
este.

21) Mas se o perverso se converter de todos os pecados que


cometeu e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é reto e
justo, certamente viverá, não será morto. 22) De todas as
transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele;
pela justiça que praticou, viverá.

23) Acaso tenho eu prazer na morte do perverso? diz o Senhor


Deus. Não, desejo eu antes que ele se converta do seu caminho
e viva. (Ezequiel, cap, XVIII, vs. 1 a 23.)
11) Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer
na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu
caminho e viva. (Ezequiel, cap. XXXIII, v. 11) 25

25
Nota-se a falta do versículo 6 do cap. XVIII de Ezequiel. A omissão foi
proposital. Kardec deixou de lado esse versículo porque ele se refere a
ordenações judaicas da lei de pureza (superadas pelo Evangelho) como
se pode ver conferindo-se o texto com a Bíblia. Como se pode alegar
que a omissão oculta segunda intenção o que se já tem feito, damos
aqui esse versículo: "Não comendo carne sacrificada nos altos, nem
levantando os olhos para os ídolos da casa de Israel, nem
contaminando a mulher do seu próximo, nem se chegando à mulher na
sua menstruação." Como se vê, esse versículo quebra a harmonia do
texto em sua aplicação atual. Os vs. 12, 15 e 16 Scram também
suprimidos porque repetem aquelas ordenações. Tanto no original
francês come ft'n todas as traduções correntes entre nós ocorreu
também um erro de citação que sorigimos aqui O versículo 23 do cap.
XVIII foi mencionado como pertencente ao cap, XXVIII. Um pequeno
engano, certamente gráfico, ainda hoje mantido nas próprias edições
francesas e belgas. (N. do T)
CAPÍTULO VIl

AS PENAS FUTURAS SEGUNDO O ESPIRITISMO

A carne é fraca

Há tendências viciosas que são evidentemente inerentes ao


Espírito, pois que se ligam mais ao moral do que ao físico. Outras
parecem antes resultar do organismo e por isso acredita-se que
acarretam menos rsponsabilidade: tais são as predisposições à
cólera, à preguiça, à sensualidade etc.

Hoje está perfeitamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas


que os órgãos cerebrais correspondentes às diversas aptidões
devem o seu desenvolvimento à atividade do Espírito. Esse
desenvolvimento é, assim, um efeito e não uma causa. Um
homem não é músico porque tenha a bossa da música, mas ele
tem essa bossa porque o seu espírito é músico.

Se a ação do Espírito influi no cérebro, deve igualmente influir


sobre outras partes do organismo. O Espírito é assim o artífice do
seu próprio corpo que ele modela, por assim dizer, apropriando-o
às suas necessidades e à manifestação das suas tendências.
Assim sendo, a perfeição corporal das raças adiantadas não seria
consequência de criações distintas, mas o resultado do trabalho
do espírito que aperfeiçoa o seu instrumento na medida em que
as suas faculdades se desenvolvem.

Por uma consequência natural desse princípio, as disposições


morais do Espírito devem modificar as funções sanguíneas,
dando-lhes maior ou menor atividade, bem como provocar
secreções mais ou menos abundantes da bilis ou de outros
fluidos. É assim, por exemplo, que o glutão sente a boca encher-
se de água ao ver comidas apetitosas. Não é a comida em si que
pode excitar os órgãos do gosto, desde que não há nenhum
contato.
É pois o Espírito, cuja sensualidade foi despertada, que age pelo
pensamento sobre esses órgãos, enquanto para outra pessoa a
visão dessa comida não produz nenhum efeito 26 .

É ainda por essa mesma razão que uma pessoa sensível verte
lágrimas com facilidade. Não é a existência de lágrimas em
abundância que dá sensibilidade ao Espírito, mas é a
sensibilidade do Espírito que provoca a secreção abundante de
lágrimas. Sob a influência da sensibilidade espiritual o organismo
apropriou-se a essa disposição natural do Espirito, como o do
glutão se apropriou à disposição do seu Espírito.

Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um espírito


irascível deve impulsionar um temperamento bilioso, de maneira
que um homem não é colérico por ser bilioso, mas é bilioso
porque o seu Espírito é colérico. Acontece o mesmo com todas as
demais disposições instintivas. Um Espírito fraco e indolente dará
ao seu organismo uma condição de atonia em relação ao seu

26
As famosas experiências de Paviov com a salivação dos cães
demonstraram, no campo da psicologia fisiológica, materialista, a
verdade desta firmação de Kardec. Os reflexos condicionados não
devem o seu condicionamento à ação dos alimentos sobre os órgãos
gustativos, mas ao conhecimento entalúo animal aos sinais da
campainha que anunciam o alimento. No homem, esse processo é mais
refinado. (N. de T.)
caráter, enquanto um espírito ativo e enérgico transmitirá ao seu
sangue e aos seus nervos disposições bastante diferentes. A
ação do Espírito sobre o físico é de tal maneira evidente, que
vemos frequentemente graves desordens orgânicas se
produzirem por efeito de violentas comoções morais. A expressão
comum: a emoção pôs-lhe o sangue a ferver não é tão
desprovida de senso como se poderia pensar. Ora, o que poderia
agitar o sangue se não o Espírito por suas disposições morais? 27

Pode-se admitir que o temperamento é, pelo menos em parte,


determinado pela natureza do Espírito, que é causa e não efeito.
Dizemos em parte porque há casos em que o físico influi
evidentemente sobre o moral. É quando um estado mórbido ou
anormal é determinado por uma causa externa, acidental,
independente do Espírito, como a temperatura, o clima, os vícios
hereditários que influem na constituição, um mal-estar passageiro
etc. O moral do Espírito pode então ser afetado nas suas
manifestações pelo estado patológico, sem que a sua natureza
própria seja por isso modificada.

27
A Medicina Psicossomática, a Psicoterapêutica em geral, e
atualmente a Parapsicologia vieram confirmar cientificamente, em
nossos dias, através de pesquisas e experiências, a verdade desse
princípio. (N. do T.)
Desculpar-se dos seus defeitos com a fraqueza da carne é, pois,
lançar mão de um sofisma para escapar à responsabilidade. A
carne só é fraca quando o Espírito é fraco, o que inverte a
questão e deixa ao Espírito a responsabilidade de todos os seus
atos. A carne, que não tem pensamento nem vontade, jamais
prevalece sobre o Espírito, que é o ser pensante e dotado de
vontade. É o Espirito que dá à carne as qualidades
correspondentes aos seus instintos, como um artista imprime na
sua obra material o selo do seu génio. O Espírito liberto dos
instintos da animalidade modela um corpo que não é mais um
tirano das suas aspirações de espiritualização. É então que o
homem come para viver, porque viver é uma necessidade, mas
não vive para comer.

A responsabilidade moral dos nossos atos na vida permanece,


portanto, inteiramente nossa. Mas a razão nos diz que as
consequências dessa responsabilidade devem estar em relação
com o desenvolvimento intelectual do Espírito. Quanto mais ele
for esclarecido, menos desculpável será, porque com a
inteligência e o senso moral nascem as noções do bem e do mal,
do justo e do injusto 28 .

Esta lei explica os insucessos da Medicina em certos casos.


Desde que o temperamento é um efeito e não causa, os esforços
feitos para modificá-lo são necessariamente embaraçados pelas
disposições morais do Espírito, que opõe uma resistência
inconsciente e neutraliza a ação terapêutica. É pois sobre a causa
primeira que se deve agir. Dai, se possível, coragem ao poltrão e
vereis cessarem os efeitos fisiológicos do medo 29 .

28
Kardec deixa de lado, nesse texto, o problema das influenciações
espíritas na conduta humana, para acentuar a responsabilidade
individual e intransferível de cada um na prática dos seus atos. Mesmo
porque as influências espíritas dependem das condições morais do
homem. Assim como não podemos atribuir à carne as nossas
imperfeições, também não podemos atribuí-las aos nossos inimigos ou
perseguidores invisíveis. Pois eles só conseguem agir sobre nós na
medida em que correspondemos aos seus estímulos. Sem a nossa
aceitação, as suas sugestões e até mesmo os seus impulsos não
produzem efeito. (N. do T.)
29
Esta posição espírita coincide hoje plenamente com a posição das
Ciências no campo da Medicina. Bastaria o desenvolvimento da
Medicina Psicossomática para demonstrá-lo. Mas o avanço da
Parapsicologia vai mais longe, abrindo caminho para a compreensão do
problema da influenciação espiritual e das consequências da
reencarnação na vida presente. Leia-se a respeito o livro La Guerison
parIa pensée, de RobertTocquet, Paris, 1970, e o livro 20 Casos
Sugestivos de Reencarnação, de lan Stevenson, tradução da Editora
Edicel, Brasília (DF), 1970. (N. do T.)
Isto prova mais uma vez a necessidade, para a arte de curar, de
levar em conta a ação do elemento espiritual sobre o organismo.
(Ver Revista Espírita de Março de 1869).

Fontes da Doutrina Espírita sobre as penas futuras

A Doutrina Espírita, no tocante às penas futuras não se funda,


como nos outros pontos, sobre uma teoria preconcebida. Não
apresenta um sistema para substituir outro sistema. Em todos os
seus aspectos ela se apoia nas observações, e é isso o que faz a
sua autoridade.

Ninguém imaginou que as almas, após a morte, devessem estar


nesta ou naquela situação. Foram os próprios seres que já
deixaram a Terra que vieram nos iniciar nos mistérios da vida
futura, descrever a sua situação feliz ou infeliz, as impressões
que sofreram e a transformação por que passaram com a morte
do corpo. Numa palavra: vieram completar nesse ponto o ensino
do Cristo.

Não se trata, porém, do relato de um único Espírito, que poderia


ver as coisas apenas à sua maneira, sob um único aspecto, ou
ser ainda dominado pelos prejuízos da sua vida terrena. Nem se
trata de uma revelação particular, feita a um único indivíduo, que
poderia se deixar enganar pelas aparências. Nem de uma visão
extática que se prestasse às ilusões, não sendo frequentemente
mais do que um reflexo da imaginação exaltada.

Trata-se, pelo contrário, de inumeráveis exemplos fornecidos por


Espíritos de todas as categorias, desde a mais elevada até a mais
baixa da escala, com a ajuda de numerosos intermediários
espalhados por todos os pontos da Terra, de tal maneira que a
revelação não é privilégio de ninguém, que cada um pode por si
mesmo ver e observar e ninguém é obrigado a crer sobre a fé dos
outros.

Código penal da vida futura

O Espiritismo não se apoia, pois, numa autoridade de natureza


particular para formular um código fantasioso. Suas leis, no que
toca ao futuro da alma são deduzidas de observações positivas
sobre os fatos e podem ser resumidas da maneira seguinte:

1°) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências


de todas as imperfeições de que não se libertou durante a vida
corpórea. Seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua
depuração ou das suas imperfeições.

2°) A felicidade perfeita é inerente à perfeição, quer dizer a


purificação
completa do Espírito. Toda imperfeição é ao mesmo tempo uma
causa de sofrimento e de privação de ventura, da mesma maneira
que toda qualidade adquirida é uma causa de ventura e de
atenuação dos sofrimentos.

3°) Não há uma só imperfeição da alma que não acarrete


consequências desagradáveis, inevitáveis, e não há uma só
qualidade boa que não seja fonte de ventura. A soma das penas
é assim proporcional à soma das imperfeições, como a dos gozos
é proporcionada à soma das boas qualidades.

A alma que tiver, por exemplo, dez imperfeições, sofrerá mais do


que aquela que tiver apenas três ou quatro. Quando dessas dez
imperfeições só lhe restarem um quarto ou a metade, ela sofrerá
menos, e quando nada mais restar, ela nada sofrerá, sendo
perfeitamente feliz. É como acontece na Terra: aquele que sofre
de muitas doenças padece mais do que o que sofre apenas de
uma ou não tem nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui
dez qualidades boas goza de mais felicidade que a outra que
possui menos.

4°) Em virtude da lei do progresso, tendo cada alma a


possibilidade de conquistar o bem que lhe falta e libertar-se do
que possui de mal, segundo os seus esforços e a sua vontade,
resulta que o futuro está aberto para qualquer criatura. Deus não
repudia nenhum de seus filhos. Ele os recebe em seu seio à
medida que eles atingem a perfeição, ficando assim a cada um o
mérito das suas obras.

5°) O sofrimento sendo inerente à imperfeição, como a felicidade


é inerente à perfeição, a alma leva em si mesma o seu próprio
castigo onde quer que se encontre. Não há pois necessidade de
um lugar circunscrito para ela. O inferno está assim por toda a
parte, onde quer que existam almas sofredoras, como o céu está
por toda a parte, onde quer que as almas sejam felizes.

6°) O bem e o mal que praticamos são resultados das boas e das
más qualidades que possuímos. Não fazer o bem que se pode
fazer é uma prova de imperfeição. Se toda a imperfeição é fonte
de sofrimento, o Espírito deve sofrer não só por todo o mal que
tenha feito, mas também por todo o bem que podia fazer e que
não fez durante a sua vida terrena.
7°) O Espírito sofre segundo o que fez sofrer, de maneira que sua
atenção estando incessantemente voltada para as consequências
desse mal, ele compreende melhor os inconvenientes do seu
procedimento e é levado a se corrigir.

8°) A justiça de Deus sendo infinita, todo o mal e todo o bem são
rigorosamente levados em conta. Se não há uma única ação má,
um só mau pensamento que não tenha consequências fatais,
também não há uma única ação boa, um só bom movimento da
alma, numa palavra, o mais ligeiro mérito que fique perdido. E
isso, mesmo entre os mais perversos, porque representam um
começo de progresso.

9°) Toda falta que se comete, todo mal praticado é uma dívida
contraída e que tem que ser paga. Se não for nesta existência,
será na próxima ou nas seguintes, porque todas as existências
são solidárias entre si. Aquilo que se paga na existência presente
não será cobrado na seguinte.

10°) O Espírito sofre de acordo com as suas imperfeições, seja no


mundo espiritual, seja no corporal.Todas as misérias, todas as
dificuldades que ele enfrenta na vida corpórea são as
consequências de suas próprias imperfeições, as expiações de
faltas cometidas nesta mesma existência ou nas existências
anteriores.

Pela natureza dos sofrimentos e das dificuldades que ele enfrenta


na vida corpórea, podemos julgar a natureza das faltas cometidas
numa existência anterior e quais as imperfeições que as
causaram.

11°) A expiação varia segundo a natureza e a gravidade da falta.


A mesma falta pode assim provocar expiações diferentes,
segundo as circunstâncias atenuantes ou agravantes nas quais
ela foi cometida.

12°) Não há, no tocante à natureza e a duração do castigo,


nenhuma regra absoluta e uniforme. A única lei geral é a de que
toda falta recebe uma punição e toda boa ação tem a sua
recompensa segundo o seu valor.

13°) A duração do castigo está subordinada ao melhoramento do


Espírito culpado. Nenhuma condenação é pronunciada contra ele
por tempo determinado. O que Deus exige para termo dos
sofrimentos é uma melhora verdadeira, efetiva, com um retorno
sincero ao bem.

O Espírito é assim e sempre o árbitro do seu próprio destino.


Pode prolongar os seus sofrimentos pelo seu endurecimento no
mal e abrandá-los e até mesmo abreviá-los pelos seus esforços
em praticar o bem.

Uma condenação por tempo determinado, qualquer que fosse


esse tempo, teria o duplo inconveniente de fazer o Espírito sofrer
inutilmente depois de melhorado, ou de cessar antes que ele se
libertasse do mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto ele
existe, e deixa de punir quando o mal deixou de existir. Ou, se
quisermos, sendo o mal moral a própria causa do sofrimento, este
dura somente enquanto aquele subsiste e a sua intensidade
diminui à medida que o mal vai desaparecendo.

14°) A duração do castigo estando subordinada ao melhoramento


do Espírito, disso resulta que o culpado que não se melhorasse
continuaria sofrendo sempre, e que para ele a pena seria eterna.
15°) Uma condição que é inerente à inferioridade dos Espíritos é
a de não ver o termo de sua situação e acreditar que sofrem para
sempre. Isso faz que para eles o castigo pareça eterno 30 .

16°) O arrependimento é o primeiro passo para o melhoramento.


Mas ele apenas não basta, sendo necessárias ainda a expiação e
a reparação. Arrependimento, expiação e reparação são as três
condições necessáriaspara apagar os traços de uma falta e as
suas consequências.

O arrependimento suavisa as dores da expiação, porque desperta


esperança e prepara a reabilitação, mas somente a reparação
pode anular o efeito ao destruir a causa. O perdão seria uma
graça e não uma anulação da falia.

17°) O arrependimento pode ocorrer em qualquer lugar e tempo.


Se ele for tardio, o culpado sofre por mais tempo. A expiação
consiste nos sofrimentos físicos e morais que são a consequência
da falta cometida, seja desde a vida presente ou seja após a

30
Perpétuo é sinônimo de eterno. Dizemos: as neves perpétuas, os
gelos eternos dos pólos, e também se diz: o secretário perpétuo da
Academia, o que não quer dizer que se trate de eternidade, mas
somente de um tempo indeterminado. Eterno e perpétuo se empregam,
pois, também no sentido de indeterminação. Nessa acepção se pode
dizer que as penas são eternas quando entendemos que não têm
duração limitada: são eternas para o Espírito, que não vê o seu fim. (N.
de Kardec)
morte, na vida espiritual, ou ainda numa nova existência
corpórea, até que os traços da falta tenham desaparecido.

A reparação consiste em praticar o bem para aquele mesmo, a


quem se fez o mal. Aquele que não repara os seus erros nesta
vida, por fraqueza ou má vontade, tornará a encontrar-se, numa
outra existência, com as mesmas pessoas que ofendeu, e em
condições escolhidas por ele mesmo para poder provar-lhes o
seu devotamento, fazendo-lhes tanto bem quanto o mal que havia
feito.

Nem todas as faltas acarretam um prejuízo direto e efetivo.


Nesses casos, a reparação se realiza fazendo-se o que se deixou
de fazer, cumprindo-se os deveres que foram negligenciados ou
desprezados, as missões em que se tenha falido, praticando-se o
bem reparador do mal que se fez. Isso quer dizer, sendo humilde
quando se foi orgulhoso, bondoso quando se foi duro, caridoso
quando se foi egoísta, benevolente quando se foi maldoso,
trabalhador quando se foi preguiçoso, útil quando se foi inútil,
temperante quando se foi dissoluto, bom exemplo quando se foi
mau e assim por diante. É dessa maneira que o Espírito progride,
tornando proveitoso o seu passado 31 .

18°) Os Espíritos imperfeitos são afastados dos mundos felizes


porque perturbariam a sua harmonia. Permanecem nos mundos
inferiores onde expiam as suas faltas pelas tribulações da vida e
se libertam das suas imperfeições, até merecerem encarnar-se
em mundos moral e fisicamente mais adiantados.

Se podemos conceber um lugar de castigo determinado é


precisamente nos mundos de expiação, pois é ao redor desses
mundos que pululam os Espíritos imperfeitos desencarnados,

31
A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça que se
pode considerar como a verdadeira lei de reabilitação moral dos
Espíritos. É esta uma doutrina que nenhuma religião proclamou ainda.
Entretanto algumas pessoas a repelem, por acharem que seria mais
cómodo poder apagar as suas faltas simplesmente pelo
arrependimento, que só depende de algumas palavras, com a ajuda de
certas fórmulas. Convictas de que assim estarão livres, verão mais
tarde que isso não foi suficiente. Poderíamos perguntar-lhes se esse
princípio não está consagrado na lei humana e se a justiça de Deus
pode ser inferior à dos homens. Se elas ficariam satisfeitas quando um
indivíduo que as tivesse arruinado por abuso de confiança, se limitasse
a dizer-lhes que se lamentariam disso infinitamente. Por que, pois,
querem elas recuar ante uma obrigação que toda criatura honesta
deveria cumprir na medida de suas forças? Quando essa perspectiva da
reparação for introduzida na crença popular se transformará num freio
bem mais poderoso que o do inferno e das penas eternas pois ela se
refere à vida atual e faz compreender a razão das penas por que o
homem está passando. (N. de Kardec)
esperando uma nova existência que, permitindo-lhes a reparação
do mal que fizeram, os ajudará a progredir.

19°) Como o Espírito conserva sempre o seu livre-arbítrio,


melhora às vezes de maneira lenta e sua obstinação no mal é
bastante tenaz. Pode persistir nessa situação durante anos e
séculos, mas chega sempre o momento em que a sua teimosia
em desafiar a justiça de Deus se abate diante do sofrimento, e
então, malgrado a sua fanfarronice, ele reconhece o poder
superior que o domina. Desde o momento em que manifesta as
primeiras luzes do arrependimento, Deus o faz entrever a
esperança.

Nenhum Espirito está na condição de nunca se melhorar. Se


assim fosse ele estaria fatalmente destinado a uma eterna
situação de inferioridade e escaparia à lei da evolução que rege
providencialmente todas as criaturas.

20°) Sejam quais forem a inferioridade e a perversidade dos


Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm o seu anjo da
guarda que vela por eles, vigia as expansões da sua alma e se
esforça para despertar-lhes bons pensamentos, desejos de
progredir e de reparar numa nova existência o mal que tenham
feito. Não obstante, o guia ou protetor age na maioria das vezes
de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressão. O Espírito
deve melhorar-se pela força de sua própria vontade e não por
força de qualquer constrangimento. Deve agir bem ou mal em
virtude de seu livre-arbítrio, sem ser fatalmente empurrado num
sentido ou noutro. Se fizer o mal, sofrerá as suas consequências
enquanto permanecer no mau caminho. Desde que dê um passo
em direção ao bem sentirá imediatamente os seus resultados.

Observação: Seria erróneo acreditar que, em virtude da lei do


progresso, a certeza de chegar cedo ou tarde à perfeição e à
felicidade pode ser um encorajamento a permanecer no mal,
esperando arrepender-se mais tarde. Primeiro, o Espírito inferior
não vê a possibilidade de um fim para a sua situação; segundo,
sendo ele o artífice da sua própria desgraça, acaba por
compreender que dele depende fazê-la cessar e que quanto mais
persistir no mal mais longa será a sua infelicidade, pois o seu
sofrimento durará sempre se ele próprio não lhe puser um termo.
Esse seria, de sua parte, um cálculo errado, com o qual se
enganaria a si mesmo. Se, pelo contrário, segundo o dogma das
penas irremissíveis, toda esperança lhe fosse negada, ele não
teria nenhum interesse em retornar ao bem, pois isso não lhe
daria nenhum proveito.
Perante esta lei cai igualmente a objeção referente à presciência.
Deus, ao criar uma alma sabe realmente se em virtude do seu
livre-arbítrio ela tomará o bom ou o mau caminho; sabe que ela
será punida se praticar o mal; mas sabe também que esse
castigo temporário é um meio de a levar a compreender o seu
erro e de a fazer entrar no bom caminho, ao qual cedo ou tarde
chegará. Segundo a doutrina das penas eternas, Deus sabe que
a alma falirá, e assim ela já está previamente condenada às
torturas sem fim.

21°) Cada um só é responsável pelas suas próprias faltas.


Ninguém sofre penalidades pelas faltas alheias, a menos que
para isso tenha dado algum motivo, seja provocando-as pelo seu
exemplo, seja deixando de impedi-las quando podia fazê-lo.

É assim, por exemplo, que o suicida é sempre punido, mas


aquele que, por sua dureza de coração, leva um indivíduo ao
desespero e daí ao suicídio, sofre uma pena ainda maior.

22°) Embora a diversidade de punições seja infinita, existem as


que são inerentes à inferioridade dos Espíritos e cujas
consequências, salvo algumas nuanças, são mais ou menos
idênticas.
A punição mais comum, entre os que são sobretudo apegados à
vida material e negligenciam o progresso espiritual, consiste na
lentidão com que se processa a separação da alma e do corpo, e
portanto nas angústias que acompanham a morte e o despertar
na outra vida, na duração das perturbações que podem então
durar desde meses até anos. Entre os que, pelo contrário, tendo
uma consciência pura, identificam-se durante a vida corpórea
com a vida espiritual e libertam-se das coisas materiais, a
separação é rápida, sem dificuldades, e o despertar aprazível,
sendo a perturbação quase inexistente.

23°) Um fenômeno muito frequente entre os Espíritos de um certo


grau de inferioridade moral consiste em se acreditarem ainda
vivos após a morte, e essa ilusão pode se prolongar durante
anos, através dos quais eles experimentam todas as
necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da
vida 32 .

32
As necessidades, os tormentos e as perplexidades da vida
expeerimentados nas condições de uma existência fictícia, em que o
perispírito falsamente representa o corpo material, constituem uma
situação bastante dolorosa para o Espirito. Foi dela que certamente se
originou o dogma do Inferno material, com o corpo material mas
invulnerável, a sofrer sem se destruir. (N. do T.)
24°) Para o criminoso, a visão incessante de suas vítimas e das
circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25°) Alguns Espíritos são mergulhados em trevas espessas.


Outros são postos num isolamento absoluto, no espaço,
atormentados pelo fato de não saberem qual a sua condição e o
seu destino. Os maiores culpados sofrem torturas que são tanto
mais pungentes quanto ignoram o seu fim. Muitos ficam privados
de verem os seus seres queridos. Todos, em geral, passam por
sofrimentos cuja intensidade é relativa aos males que praticaram,
às dores e necessidades que fizeram os outros sofrer, até que o
arrependimento e o desejo de reparação, venham trazer-lhes um
abrandamento ao fazê-los entrever a possibilidade de dar, pors/
mesmos, um fim a essa situação.

26°) É um suplício para o orgulhoso ver acima dele, gloriosos e


radiantes de alegria, os que ele havia desprezado na Terra, ao
mesmo tempo que ele é relegado aos últimos lugares. Para o
hipócrita, ver-se trespassado pela luz que revela os seus mais
secretos pensamentos, que todos podem ler, não havendo para
ele nenhum meio de se esconder ou se disfarçar. Para o sensual
é um suplício passar por todas as tentações, todos os desejos,
sem poder satisfazê-los. Para o avarento, ver o seu ouro
desperdiçado e não poder retê-lo. Para o egoísta, ser
abandonado por todos e sofrer tudo aquilo que os outros sofreram
dele: terá sede e ninguém lhe dará de beber; terá fome e ninguém
lhe dará de comer; nem uma só mão amiga virá apertar a sua,
nenhuma voz compassiva virá consolá-lo, pois ele só pensou em
si durante a vida e ninguém agora pensa nele nem o lamenta
após a sua morte.

27°) O meio de evitar ou atenuar as consequências de suas faltas


na vida futura é desfazer-se o mais possível dos seus defeitos na
vida presente, reparar aqui mesmo o mal para não ter de repará-
lo mais tarde e de maneira mais terrível. Quanto mais
demorarmos a deixar os nossos defeitos, mais as suas
consequências se tornarão penosas e mais rigorosas será a
reparação que tivermos de fazer.

28°) A situação do Espírito, desde a sua entrada na vida


espiritual, é aquela que ele mesmo se preparou durante a sua
vida corporal. Mais tarde, outra encarnação lhe é concedida para
expiar e reparar a anterior, passando por novas provas. Mas ele a
aproveitará em maior ou menor grau, segundo o seu livre-arbítrio.
Se não a aproveitar, terá um trabalho a recomeçar, e cada vez
em condições mais penosas. Dessa maneira, aquele que muito
sofre na Terra pode dizer que tem muito a expiar. Os que gozam
de uma felicidade aparente, malgrado os seus vícios e sua
inutilidade, pagarão caro numa existência posterior. Foi nesse
sentido que Jesus disse:

Bem aventurados os aflitos porque serão consolados. (O


Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. V.)

29°) A misericórdia de Deus é sem dúvida infinita, mas não é


cega. O culpado que ela perdoou não está dispensado de
satisfazer a justiça, passando pelas consequências de suas
faltas. Por misericórdia infinita é necessário entender que Deus
não é inexorável, deixando sempre aberta ao culpado a porta de
retorno ao bem.

30°) As penas sendo temporárias e subordinadas ao


arrependimento e à reparação, que dependem da livre vontade do
homem, acontece o mesmo com os castigos e os remédios que
devem ajudar a curar as feridas do mal. Os Espíritos em punição
não se encontram na situação dos antigos condenados às
galeras, mas como os doentes no hospital. Sofrem a doença que
frequentemente decorre de suas próprias faltas e passam por
meios dolorosos de cura de que necessitam, mas têm a
esperança de ser curados e se curam tanto mais rapidamente,
quanto observarem com exatidão as prescrições do médico que
solicitamente vela por eles. Se eles prolongam os sofrimentos por
sua própria culpa, o médico nada tem com isso.

31°) As penas que o Espírito sofre na vida espiritual juntam-se às


da vida corporal, que são a consequência das imperfeições do
homem, de suas paixões, do mau emprego de suas faculdades, e
a expiação de suas faltas presentes e passadas. É na vida
corporal que o Espírito repara o mal de suas existências
anteriores, que põe em prática as resoluções tomadas na vida
espiritual. É assim que se explicam as misérias e as dificuldades
que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser, mas na
verdade são justas desde que foram determinadas no passado e
servem para o nosso adiantamento 33 .

32°) Deus, pergunta-se, não demonstraria maior amor por suas


criaturas se as criasse infalíveis e portanto isentas das
vicissitudes decorrentes da imperfeição? Seria necessário, para
isso, que ele criasse seres perfeitos, nada tendo a conquistar,

33
Ver o capítulo VI, Purgatório, números 3 e seguintes. Ver também o
capítulo XX, Exemplos de expiações terrenas. — No O Evangelho
Segundo o Espiritismo, capítulo V, Bem-aventurados os aflitos. (N. de
Kardec).
nem em conhecimentos e nem em moralidade. Não há dúvida
que o podia fazer, mas se não o fez é porque, na sua sabedoria
quiz que o progresso fosse uma lei geral. Os homens são
imperfeitos e, como tal, sujeitos às vicissitudes mais ou menos
penosas. Esse é um fato que temos de aceitar, desde que existe.
Mas inferir disso que Deus não é bom nem justo seria uma
rebeldia.

Haveria injustiça se ele tivesse criado seres privilegiados, mais


favorecidos que os outros, gozando sem esforço da felicidade que
os outros só atingem penosamente ou jamais poderiam atingir. A
justiça de Deus brilha precisamente na igualdade absoluta que
rege a criação de todos os Espíritos. Todos têm o mesmo ponto
de partida; não há nenhum que seja, na sua formação, mais bem
dotado que os outros; nenhum cuja marcha ascensional seja
facilitada por exceção; os que chegam ao alvo passaram, como
os outros, pela fieira das provas e da inferioridade.

Admitindo-se isso, o que haveria de mais justo do que essa


liberdade de ação dada a cada um? A via da felicidade está
aberta a todos, o objetivo de todos é o mesmo, as condições para
atingi-lo são as mesmas para todos e a lei gravada em todas as
consciências foi ensinada à todos. Deus fez da felicidade o
prémio do trabalho e não do favoritismo para que cada um tenha
o seu mérito. Todos são livres de trabalhar ou de nada fazer para
o seu adiantamento. Aquele que trabalha bastante e com rapidez
é recompensado mais cedo, mas aquele que se desvia do
caminho ou perde o seu tempo, retarda a sua chegada e só pode
lamentar de si mesmo. O bem e o mal são facultativos e
dependem da vontade de cada um. O homem, por ser livre, não é
fatalmente levado, nem para um, nem para o outro.

33°) Apesar da diversidade de géneros e graus de sofrimento dos


Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode se
resumir nestes três princípios:

1°) O sofrimento é inerente à imperfeição.

2°) Toda imperfeição, e toda a falta que dela decorre, trazem o


seu próprio castigo nas suas consequências naturais e
inevitáveis, como a doença decorre dos excessos, o tédio da
ociosidade, sem que haja necessidade de uma condenação
especial para cada falta e cada indivíduo.

3°) Todo homem podendo corrigir as suas imperfeições pela sua


própria vontade, pode poupar-se os males que delas decorrem e
assegurar a sua felicidade futura.
Essa é a lei da justiça divina: a cada um segundo as suas obras,
tanto no céu como na Terra 34 .

34
Algumas pessoas argumentam que as imperfeições vêm de Deus,
que nos criou imperfeitos. O principio da evolução nos mostra que há
vários graus de perfeição. Deus nos criou em potência, como sementes
que têm em si mesmas todas as potencialidades futuras. Assim, criou-
nos perfeitos. Cabe-nos, porém, atualizar, ou seja, desenvolver as
nossas potencialidades a fim de atingirmos a perfeição em ato, como
seres espirituais. Esse desenvolvimento depende de nós, do nosso
livre-arbítrio, sem o qual não teríamos responsabilidade. E sem
responsabilidade não seriamos perfeitos como seres espirituais. Veja-se
o símbolo bíblico: Adão e Eva eram perfeitos na sua ingenuidade, mas
ao desenvolver a razão passaram a agir por si mesmos e erraram. Os
erros, porém, serão corrigidos na busca da perfeição. (N. do T.)
CAPÍTULO VIII

OS ANJOS

Os anjos segundo a Igreja


1 — Todas as religiões têm os seus anjos, com diferentes nomes,
ou seja, seres superiores à Humanidade, intermediários entre
Deus e os homens. O materialismo, negando qualquer existência
espiritual além da vida orgânica, naturalmente colocou os anjos
entre as ficções e as alegorias. A crença nos anjos faz parte
essencial dos dogmas da Igreja. Eis como ela os define 35 :

2 — Cremos firmemente, proclamou um concílio geral e


ecuménico 36 , que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o
qual, no começo dos tempos tirou juntamente do nada as duas
criaturas: a espiritual e a corporal, a angélica e a mundana, e em

35
Tiramos este resumo da pastoral de Monsenhor Goussett, cardeal-
arcebispo de Reims, para a quaresma de 1864. Pode-se pois considerá-
la, como aquela referente aos demônios, proveniente da mesma fonte
citada no capítulo seguinte, como a última expressão do dogma da
Igreja sobre esse assunto. (N. de Kardec.)

36
Concílio de Latrão.
seguida formou, como intermediária dessas duas, a natureza
humana composta de corpo e Espírito.

É esse, segundo a fé, o plano divino na obra da criação. Plano


majestoso e completo, como convém à sabedoria eterna. Assim
concebido, ele nos apresenta ao pensamento o ser em todos os
graus e em todas as condições. Na esfera mais elevada
aparecem a existência e a vida puramente espirituais. No último
plano, a existência e a vida puramente materiais. E no meio que
separa a ambos, uma maravilhosa união das duas substâncias,
uma vida comum ao mesmo tempo ao espírito inteligente e ao
corpo organizado.

Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível, mas é


limitada nas suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos
faz compreender que podem existir outros seres simples como
ela e superiores pelas suas qualidades e os seus privilégios. Ela é
grande e nobre, mas está ligada à matéria, servida de órgãos
frágeis, limitada na sua atividade e na sua potência. Porque não
haveria outras naturezas ainda mais nobres, distanciadas dessa
escravidão e desses entraves, dotadas de uma força maior e de
uma atividade incomparável?

Antes que Deus tivesse posto o homem na Terra para o


conhecer, amar e servir, já não devia ter chamado outras
criaturas para comporem a sua corte celeste e adorá-lo no
esplendor da sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do
homem os tributos de honra e a homenagem deste universo.
Seria de estranhar que recebesse das mãos do anjo o incenso e
a prece do homem? Se, pois, os anjos não existissem, a
grandiosa obra do criador não teria o seu coroamento na
perfeição de que era susceptível. Esse mundo que atesta a sua
onipotência não seria mais a obra prima da sua sabedoria. Nossa
razão, por mais impotente que seja, poderia facilmente concebê-
lo mais completo e melhor acabado.

Em cada página dos livros sagrados do Antigo e Novo


Testamento são mencionadas essas inteligências sublimes, nas
invocações piedosas ou nos relatos históricos. Sua intervenção
aparece manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas.
Deus se serve do seu ministério, ora para impor os seus
desígnios, ora para anunciar acontecimentos futuros. Ele os faz
quase sempre instrumentos da sua justiça ou da sua misericórdia.
Sua presença é constante nas diversas circunstâncias do
nascimento, da vida e da paixão do Salvador. Sua lembrança é
inseparável da lembrança dos grandes homens e dos mais
importantes acontecimentos da antiguidade religiosa. Podemos
mesmo encontrálos no meio do politeísmo e entre as fábulas da
mitologia, porque a crença a seu respeito é tão antiga e tão
universal como o próprio mundo. O culto que os pagãos rendiam
aos bons e aos maus génios era apenas uma falsa aplicação da
verdade, um resíduo deteriorado do dogma primitivo.

As palavras do santo Concílio de Latrão contém uma distinção


fundamental entre os homens e os anjos; elas nos ensinam que
os anjos são Espíritos puros, enquanto os homens se constituem
de alma e corpo, o que quer dizer que a natureza angélica
subsiste por si mesma, não somente sem mistura, mas ainda sem
nenhuma associação real possível com a matéria, por ligeira e
sutil que se pudesse supô-la. Enquanto isso a nossa alma,
igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira a
formarem ambos uma única e mesma pessoa e essa é
essencialmente a sua destinação.

Enquanto dura essa união tão íntima de alma e corpo, essas duas
substâncias têm uma vida comum e exercem, uma sobre a outra,
influência recíproca. A alma não pode se afastar inteiramente da
condição imperfeita que resulta para ela dessa situação: suas
ideias lhe chegam através dos sentidos, por comparação dos
objetos exteriores e sempre sob imagens mais ou menos
aparentes. Disso resulta que ela não pode se contemplar a si
mesma e não pode fazer a si mesma a representação de Deus e
dos anjos sem os considerar de qualquer maneira em forma
visível e palpável. Eis porque os anjos, para se fazerem visíveis
aos santos e aos profetas, tiveram de recorrer a figuras
corpóreas. Mas essas figuras eram apenas os corpos aéreos que
eles movimentavam sem se identificarem com eles, ou os
atributos simbólicos relacionados com a missão de que estavam
encarregados.

O ser e os movimentos dos anjos não estão localizados e


circunscritos num ponto fixo e limitado do espaço. Não estando
ligados a nenhum corpo, eles não podem estar parados nem ser
limitados, como acontece conosco, por outros corpos. Eles não
ocupam nenhum lugar e não preenchem nenhum vazio. Mas, da
mesma maneira em que a nossa alma está inteira no nosso corpo
e em cada uma de suas partes, eles se encontram inteiros e
quase simultaneamente em todos os pontos e em todas as partes
do mundo. Mais rápidos do que o pensamento, podem estar por
toda a parte no mesmo instante e agir diretamente, sem nenhum
obstáculo aos seus desígnios, a não ser a vontade de Deus e a
resistência da liberdade humana.
Enquanto estamos reduzidos a ver aos poucos, de maneira
limitada, as coisas que estão fora de nós, e que as verdades da
ordem sobrenatural nos aparecem de maneira enigmática, como
num espelho, segundo a expressão do apóstolo São Paulo, eles
vêem sem esforço o que desejam saber e estão em relação direta
com o objeto de seu pensamento. Seus conhecimentos não
resultam da indução e do raciocínio, mas dessa intuição clara e
profunda que abrange os princípios e as consequências que
destes decorrem.

A diversidade dos tempos, a diferença dos lugares, a


multiplicidade dos objetos não podem produzir nenhuma confusão
no seu Espírito.

A essência divina, sendo infinita, é para nós incompreensível.


Possui mistérios e profundezas que não podem ser penetradas.
Os desígnios mais íntimos da Providência ficam ocultos, mas ela
lhes desvenda o seu segredo quando os encarrega, em
determinadas circunstâncias, e de os anunciar aos homens.

As comunicações de Deus aos anjos e dos anjos entre si não se


fazem, como entre nós, por meio de sons articulados e de outros
signos sensíveis. As inteligências puras não precisam de olhos
para ver nem de ouvidos para ouvir. Elas não possuem também
os órgãos vocais para manifestar os seus pensamentos, pois
esses intermediários habituais de que nos servimos são para eles
inúteis. Comunicam, porém, os seus sentimentos de maneira que
lhes é própria e inteiramente espiritual. Para se fazerem
compreender, basta-lhes a vontade.

Somente Deus conhece o número dos anjos. Esse número, sem


dúvida, não poderia ser infinito e não o é, mas segundo os
autores sagrados e os santos doutores, é muito considerável e
verdadeiramente prodigioso. Se é natural que considere-os na
devida proporção o número de habitantes de uma cidade em
relação à sua grandeza, e a Terra sendo apenas um átomo em
comparação com o firmamento e as imensas regiões do espaço,
temos de concluir que o número dos habitantes do céu e do ar é
muito maior que o dos homens.

Desde que a majestade dos reis se reflete no número de seus


súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que haveria de
mais apropriado para darmos uma ideia da majestade do Rei dos
Reis que essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu e
a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que permanecem
incessantemente prosternados ou em pé diante do seu trono?

Os Pais da Igreja e os teólogos geralmente ensinam que os anjos


se distribuem em três grandes hierarquias ou principados, e cada
hierarquia em três companhias ou coros.

Os da primeira e mais elevada hierarquia são designados por


nomes que decorrem das funções de desempenho no céu. Uns
são chamados Serafins porque são como que chamejantes
perante Deus pelos ardores da caridade; outros se chamam
Querubins porque são um reflexo luminoso da divina sabedoria; e
outros ainda se chamam Tronos porque proclamam a grandeza
de Deus e a fazem resplandecer.

Os da segunda hierarquia recebem os seus nomes em virtude


das operações que lhes são confiadas no governo geral do
Universo. São as Dominações que determinam aos anjos das
ordens inferiores as suas missões e os seus encargos; as
Virtudes que atendem aos prodígios exigidos pelos grandes
interesses da Igreja e do género humano; as Potências que
protegem pelo seu poder e a sua vigilância as leis que regem o
mundo físico e moral.

Os da terceira hierarquia exercem em partilha a direção das


sociedades e das pessoas. São os Principados, propostos dos
reinos, das províncias e das dioceses; os Arcanjos, que
transmitem as mensagens de elevada importância, os Anjos
Guardiães que acompanham a cada um de nós velando pela
nossa segurança e pela nossa santificação.

REFUTAÇÃO
3 — O princípio geral que ressalta dessa doutrina é o de que os
anjos são seres puramente espirituais, anteriores e superiores à
humanidade, criaturas privilegiadas, votadas à felicidade suprema
e perpétua desde a sua formação, dotadas, por sua própria
natureza, de todas as virtudes e de todo o saber, sem nada ter
feito para os adquirir. Estão no primeiro plano da obra da criação.
No último plano, a vida puramente material, e entre os dois a
humanidade formada de almas, seres espirituais inferiores aos
anjos e unidos a corpos materiais.

Muitas dificuldades insolúveis resultam desse sistema. Qual é,


para começar, essa vida puramente material? Trata-se da matéria
bruta? Mas a matéria bruta é inanimada, não tendo vida por si
mesma. Trata-se das plantas e dos animais? Essa seria então
uma quarta ordem da criação, pois não se pode negar a
superioridade do animal que é inteligente em relação à planta, e
desta em relação à pedra. Quanto à alma humana, que
representa a transição, está diretamente unida a um corpo
formado de matéria bruta, porque sem alma esse corpo não teria
vida e seria como um punhado de terra.

Essa divisão peca evidentemente por falta de clareza e não está


de acordo com a observação. Assemelha-se à teoria dos quatro
elementos que caiu ante o progresso da ciência. Admitamos,
portanto, esses três termos: a criatura espiritual, a criatura
humana e a criatura corpórea. Esse é, dizem, o plano divino,
plano majestoso e perfeito como convém à eterna sabedoria.
Observemos primeiro que entre esses três termos não há
nenhuma ligação necessária. São três criações distintas,
formadas sucessivamente. De uma para outra existe solução de
continuidade, enquanto na Natureza tudo se encadeia, tudo nos
mostra uma admirável lei de unidade em que todos os elementos,
nada mais do que transformações uns dos outros, estão ligados
entre si. Essa teoria é verdadeira no tocante à existência evidente
desses três termos, mas é incompleta: faltam nela os pontos de
contacto, como é fácil de se demonstrar.

4 — Esses três pontos culminantes da criação, segundo a Igreja,


são necessários à harmonia do conjunto, e se houvesse a falta de
um só a obra estaria incompleta, não correspondendo à eterna
sabedoria. Entretanto, um dos dogmas fundamentais da religião
diz que a Terra, os animais, as plantas, o sol, as estrelas, a
própria luz foram criadas e portanto tiradas do nada há seis mil
anos. Antes dessa época não havia, pois, nem criatura humana,
nem qualquer criatura corpórea. Durante toda a eternidade
anterior, a obra divina permanecia então imperfeita. A criação do
Universo remontando há seis mil anos constitui um artigo de fé de
tal maneira fundamental, que há poucos anos ainda a ciência foi
anatematizada porque vinha destruir a cronologia bíblica,
provando por suas investigações a elevada antiguidade da Terra
e dos seus habitantes.

Não obstante o Concílio de Latrão, o Concílio Ecuménico, que


dita a lei em matéria de doutrina, afirma: "Cremos firmemente que
só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo
dos tempos tirou conjunta mente do nada as duas criaturas, a
espiritual e a corporal."

O começo dos tempos só pode ser a eternidade anterior, porque


o tempo é infinito como o espaço, não tem começo nem fim. Essa
expressão: o começo dos tempos é uma figura que implica a ideia
de uma anterioridade ilimitada. O Concílio de Latrão crê, pois,
firmemente que as criaturas espirituais e as criaturas corporais
foram formadas ao mesmo tempo e tiradas juntamente do nada
numa época indeterminada do passado. O que resta, pois, do
texto bíblico que fixou essa criação em seis mil anos dos nossos
dias? Admitindo-se que o começo do Universo visível pudesse
estar nessa época, não se trataria seguramente do começo dos
tempos. Em qual devemos crer, no Concílio ou na Bíblia?

5 — O mesmo Concílio formula ainda uma estranha proposição:


"Nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de
maneira a formarem ambos uma só e mesma pessoa, e essa é
essencialmente a sua destinação." Se a finalidade essencial da
alma é estar ligada ao corpo, essa constitui o seu estado normal,
é o seu objetivo, o seu fim, desde que é essa a sua destinação.
Entretanto, a alma é imortal, sua união com o corpo só se realiza
uma vez, segundo a Igreja, e mesmo que fosse por um século o
que seria isso ante a eternidade? Para um grande número de
criaturas essa união é apenas de algumas horas. Que utilidade
teria para a alma essa união efémera? Quando, em relação à
eternidade, a sua maior duração não seria mais do que um
minuto imperceptível, seria exato dizer que a sua destinação é
essencialmente estar ligada ao corpo? Essa união, na verdade,
não é mais do que um incidente, um ponto na vida da alma e não
o seu estado essencial.

Se a destinação essencial da alma é estar unida a um corpo


material; se por sua natureza e segundo o fim providencial da sua
criação essa união é necessária às manifestações de suas
faculdades, temos de concluir que sem o corpo a alma humana é
um ser incompleto. Sendo assim para permanecer o que ela é
pela sua destinação após haver deixado um corpo, é necessário
que tome outro, o que nos leva forçosamente à pluralidade das
existências, ou seja: à reencarnação eternizada. É
verdadeiramente estranho que um Concílio considerado como
uma das luminárias da Igreja tenha identificado nesse ponto o ser
espiritual com o ser material, de maneira a não poderem existir
um sem o outro, desde que a condição essencial de sua criação é
o de permanecerem unidos.

6 — O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que muitas


ordens têm, nas suas atribuições, o governo do mundo físico e da
humanidade, sendo que foram criados para esse fim. Mas,
segundo a Génese, o mundo físico e a humanidade só existem há
seis mil anos. O que faziam esses anjos antes desta criação,
durante a eternidade, se os objetos das suas ocupações não
existiam? Os anjos foram criados desde toda a eternidade? Assim
deve ser, pois se destinam à glorificação do Altíssimo. Se Deus
os criou em alguma época determinada, então ele esteve até
essa época, quer dizer, durante uma eternidade, sem adoradores.
7 — Logo mais, está escrito: "Enquanto durar essa união tão
íntima da alma com o corpo." Haverá então um momento em que
essa união, não existirá mais? Essa proposição contradiz aquela
que faz da união a destinação essencial da alma.

Está escrito ainda: "As ideias lhe chegam pelos sentidos, por uma
comparação dos objetos exteriores." Essa é uma doutrina
filosófica em parte verdadeira, mas não em sentido absoluto.
Segundo o eminente teólogo, é condição inerente à natureza da
alma só receber ideias por meio dos sentidos. Ele se esquece das
ideias inatas, das faculdades às vezes bastante transcendentes,
da intuição das coisas que a criança traz ao nascer e que não
deve a nenhuma forma de instrução. Por meio de quais sentidos
esses jovens pastores, calculadores naturais que espantaram os
sábios, adquiriram as ideias necessárias à solução quase
instantânea dos mais complicados problemas? O mesmo
podemos dizer de certos músicos, pintores e linguistas precoces.

"Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do


raciocínio." Eles sabem, porque são anjos sem terem
necessidade de aprender. Deus os criou assim. A alma, pelo
contrário, deve aprender. Se a alma só recebe as ideias através
dos órgãos corporais (que ideias pode ter a alma de uma criança
que morreu poucos dias depois de nascer, admitindo-se com a
Igreja que ela não renasce mais?)

8 — Aqui se apresenta uma questão vital. A alma adquire


conhecimentos e ideias após a morte do corpo? Se uma vez
desligada do corpo ela nada mais pode adquirir, a alma da
criança, do selvagem, do cretino, do idiota, do ignorante
permanecerão para sempre o que eram por ocasião da morte, e
assim estarão votadas a uma eterna inutilidade.

Se a alma adquire novos conhecimentos após avidaatual, é


porque ela pode progredir. Sem o progresso posterior da alma
chegamos a consequências absurdas. Com o progresso
chegamos à negação de todos os dogmas fundados na sua
natureza estacionária: o destino irrevogável, as penas eternas e
assim por diante. Se ela progride, qual o limite desse progresso?
Não há nenhuma razão para que ela não atinja o grau dos anjos
ou dos Espíritos puros.

Se a alma pode chegar a esse plano, não havia nenhuma


necessidade de criação de seres especiais e privilegiados,
isentos de qualquer trabalho, gozando da felicidade eterna sem
nada haver feito para conquistá-la, enquanto outros seres
desfavorecidos só conseguiriam a suprema felicidade ao preço de
longos e cruéis sofrimentos e das mais rudes provas. Deus pode
fazê-lo, sem dúvida, mas se admitimos a infinitude de suas
perfeições, sem a qual não haveria Deus, é forçoso admitir
também que ele nada faz de inútil, nada que possa desmentir a
sua soberana justiça e a sua soberana bondade.

9 — "Desde que a majestade dos reis se reflete no número de


seus súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que há de
mais próprio para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos
Reis do que essa multidão inumerável dos anjos que povoam o
céu e a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que
permanecem incessantemente prosternados ou em pé diante do
seu trono?"

Não seria rebaixar a Divindade, assimilá-la na sua glória ao fausto


dos soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no Espírito das
massas ignorantes transformou-se numa falsa opinião da sua
verdadeira grandeza. É sempre Deus reduzido às mesquinhas
proporções da humanidade. Supô-lo sempre necessitado de ter
milhões de adoradores incessantemente prosternados ou em pé
diante d'Ele é emprestar-lhe as fraquezas dos monarcas
despóticos e orgulhosos do Oriente.

O que torna os soberanos verdadeiramente grandes? É o número


e o brilho dos seus cortezãos? Não. É a sua bondade e a sua
justiça, é o título merecido de pais dos súditos. Pergunta-se se há
alguma coisa mais apropriada a nos dar uma ideia da majestade
de Deus que a multidão dos anjos que compõem a sua corte?
Sim, certamente há alguma coisa melhor do que isso: é
representá-lo soberanamente bom, justo e misericordioso para
todas as suas criaturas, e não como um Deus colérico, ciumento,
vingativo, inexorável, exterminador, parcial e criando para a sua
própria glória esses seres privilegiados, favorecidos com todos os
dons, nascidos para a eterna felicidade, enquanto aos outros
condena a conquistar penosamente a felicidade e os pune, por
um momento de erro, com uma eternidade de suplícios.

10 — O Espiritismo professa, a respeito da união da alma e do


corpo, uma doutrina infinitamente mais espiritualista, para não
dizer menos materialista, e que além disso está de acordo com a
observação e com o destino da alma. Segundo ele nos ensina, a
alma é independente do corpo, que constitui apenas um
envoltório temporário; sua essência é a espiritualidade; sua vida
normal é a vida espiritual. O corpo é somente um instrumento
para o exercício de suas faculdades, nas suas relações com o
mundo material. Mas, separada do corpo, ela goza de suas
faculdades com maior liberdade e em maior amplitude.
11 — Sua união com o corpo, necessária aos seus primeiros
desenvolvimentos, realiza-se no período que se pode chamar de
infância e adolescência. Quando ela atinge um certo grau de
perfeição e desmaterialização, essa união não é mais necessária
e a alma continua a progredir na vida espiritual. Por mais
numerosas que sejam, de resto, as existências corpóreas, elas
são necessariamente limitadas pela própria vida dos corpos e a
sua soma total não compreende, em todos os casos, mais do que
uma parcela imperceptível da vida espiritual que é infinita.

Os Anjos segundo o Espiritismo

12 — Não há dúvida de que existem seres dotados de todas as


qualidades atribuídas aos anjos. A revelação espírita confirma,
nesse ponto, a crença de todos os povos. Mas ao mesmo tempo
nos dá a conhecer a natureza e a origem desses seres.

As Almas ou Espíritos são criados simples, ou ignorantes, quer


dizer: sem conhecimentos e sem a consciência do bem e do mal,
mas aptos a adquirir tudo isso que lhes falta. Eles o adquirem
pelo trabalho. O alvo, que é a perfeição, é o mesmo para todos e
eles o atingem com maior ou menor rapidez, de acordo com o uso
que fizerem do seu livre-arbítrio e na razão dos seus esforços.
Todos têm que percorrer os mesmos graus, com o mesmo
trabalho a cumprir.

Deus não dá uma obrigação mais pesada nem mais leve a uns do
que a outros, porque todos são seus filhos e sendo Ele justo não
tem preferência por nenhum. Deus lhes diz: "Eis a Lei que deve
guiar a vossa conduta. Só ela vos pode conduzir ao alvo. Tudo o
que estiver de acordo com essa Lei pertence ao bem, tudo o que
a contrariar pertence ao mal. Sois livres de a observar ou de a
infringir, de maneira que sereis os árbitros da vossa própria
sorte."

Deus, portanto, não criou o mal. Todas as suas Leis conduzem ao


bem. Foi o próprio homem quem criou o mal infringindo as Leis de
Deus. Se ele as observasse escrupulosamente jamais se
afastaria do bom caminho.

13 — Mas a alma, nas primeiras fases da sua existência, da


mesma maneira que a criança, não tem experiência e por isso é
falível. Deus não lhe dá a experiência, mas lhe concede os meios
de adquiri-la. Cada passo falso no caminho do mal representa um
atraso para a alma. Ela sofre as consequências de erro e aprende
à própria custa o que deve evitar. É assim que pouco a pouco ela
se desenvolve, se aperfeiçoa e avança na hierarquia espiritual até
chegar ao estado de Espírito puro ou anjo.

Os anjos são, pois, as almas dos homens que atingiram o grau de


perfeição acessível à criatura e gozam da felicidade prometida.
Antes de haver atingido o grau supremo, gozam de uma
felicidade relativa ao seu adiantamento, mas essa felicidade não
é a do prazer ocioso. É, pelo contrário, a das funções que Deus
lhes confia, a seu pedido, sentindo-se felizes de desempenhá-las,
porque estas ocupações são para elas um meio de progredir. (Ver
Cap. Ill, O Céu.)

14 — A Humanidade não está limitada à Terra. Ocupa


inumeráveis mundos que circulam no espaço. Ocupou os mundos
que já desapareceram e ocupará os que ainda se formarão. Deus
criou desde toda a eternidade e cria sem cessar. Muito tempo
antes que a Terra existisse, por maior ancianidade que lhe
atribuamos, já havia em outros mundos Espíritos encarnados que
percorreram as mesmas etapas que nós, Espíritos de formação
mais recente, que estamos percorrendo agora o mesmo caminho
que eles percorreram, chegando ao seu destino antes mesmo
que nós houvéssemos saído das mãos do Criador. Por toda a
eternidade sempre houve anjos ou Espíritos puros, mas como a
sua existência humana se perde no infinito do passado, temos a
impressão, de que eles sempre foram anjos.

15 — É assim que se nos revela a grande Lei de unidade da


Criação. Deus nunca esteve inativo e sempre teve Espíritos
puros, experientes e esclarecidos para transmitirem as suas
ordens e para dirigirem todo o mecanismo do Universo, desde o
governo dos mundos até os mais ínfimos pormenores. Não houve
pois necessidade da criação de seres privilegiados, isentos de
encargos. Todos, antigos ou novos, conquistaram a sua elevação
através da luta e pelos próprios méritos. Todos, enfim, são filhos
de suas próprias obras. Assim se cumpre igualmente a soberana
justiça de Deus.
CAPITULO IX

OS DEMÔNIOS

Origem da crença nos Demônios

1 — Os demônios desempenharam em todas as épocas um papel


nas diversas teogonias. Embora consideravelmente decaídos na
opinião geral, a importância que ainda lhes atribuem em nossos
dias dá a esta questão uma certa gravidade, porque ela se refere
ao próprio fundamento das crenças religiosas. É portanto
conveniente que a examinemos em todos os seus aspectos.

A crença na existência de um poder superior é instintiva e


podemos encontrá-la entre os homens sob as mais diferentes
formas, em todas as épocas. Mas se, no grau de adiantamento
intelectual em que hoje se encontram, ainda discutem a natureza
e os atributos dessa potência, quanto mais imperfeitas deviam ser
suas noções a respeito nas fases iniciais da humanidade!

2 — A representação que hoje fazemos dos povos primitivos


deslumbrados com as belezas da Natureza, nas quais admiram a
bondade do Criador, é sem dúvida muito poética, mas desprovida
de realidade.

Quanto mais próximo se encontra o homem do estado natural,


mais é dominado pelo instinto, como ainda podemos ver entre os
povos selvagens e bárbaros dos nossos dias. O que mais o
preocupa, ou melhor, o que exclusivamente o preocupa é a
satisfação das suas necessidades vitais, pois na verdade não
possui outras. O senso moral, que lhe torna possível gozar os
prazeres dessa ordem, só se desenvolve aos poucos e
demoradamente. A alma tem a sua infância, sua adolescência e
sua virilidade, como acontece na vida corpórea. Mas, para atingir
a virilidade, que a torna capaz de compreender as coisas
abstraias, quanto deve ainda percorrer no caminho da evolução
humana! Quantas existências terá ainda de cumprir!

Sem remdwarmos aos tempos primitivos, vejamos ao nosso redor


as populações camponesas e perguntemos que sentimentos de
admiração despertam nelas o nascer do sol com seu esplendor, o
céu estrelado, o gorjeio dos pássaros, o marulhar das ondas, os
prados verdejantes e floridos. Para elas, o sol se levanta porque
isso é habitual e é necessário que dê o calor para amadurecer as
colheitas sem as queimar. É tudo quanto lhes interessa. Se olham
o céu é para saber se fará bom ou mau tempo no dia seguinte.
Que os pássaros cantem ou não, isso pouco lhes interessa,
desde que não vão comer os grãos das semeaduras. Às melodias
do rouxinol preferem o cacarejar das galinhas e os grunhidos dos
porcos. O que interessa nas ondas claras ou borbulhantes dos
riachos, é que não sequem e não produzam inundações. Quanto
aos prados, que lhes dêem boa pastagem, com ou sem flores. É
tudo quanto desejam, diremos mais, tudo o que compreendem da
Natureza, e no entanto estão já bem distantes dos homens
primitivos!

3 — Se nos reportamos aos primitivos, vemo-los ainda mais


inteiramente preocupados com a satisfação de seus interesses
materiais. Tudo o que serve para os ajudar e tudo o que possa
prejudicá-los resumem para eles o bem e o mal neste mundo.
Crêem num poder extra-humano, mas como o que acarreta
prejuízo material é o que mais lhes toca, atribuem esses prejuízos
ao poder de que fazem, aliás, uma ideia muito vaga. Nada
podendo ainda conceber fora do mundo visível e tangível,
imaginam que esse poder se constitui dos seres e das coisas que
lhes são prejudiciais.
Os animais daninhos são, assim, para eles, os agentes naturais e
diretos desse poder. Pela mesma razão, imaginam a
personificação do bem nas coisas úteis. Vem daí o culto de certos
animais, de certas plantas e mesmo de objetos inanimados. Mas
o homem é geralmente mais sensível ao mal do que ao bem, de
maneira que o bem lhe parece natural enquanto o mal lhe parece
extraordinário. É por isso que, em todos os cultos primitivos, as
cerimónias em honra ao poder malfazejo são as mais numerosas:
o medo é mais dominante que a gratidão.

Por muito tempo o homem só compreende o bem e o mal do


ponto de vista físico. O sentimento do bem moral e do mal moral
assinala um progresso da alma humana. Somente então o
homem entrevê a espiritualidade e compreende que o poder
sobre-humano está fora do mundo visível e não nas coisas
materiais. Essa conquista pertence a algumas inteligências
privilegiadas, mas que assim mesmo não conseguem ir além de
certos limites.

4 — Vendo-se uma luta incessante entre o bem e o mal, este


requentemente vencendo aquele, e não se podendo
racionalmente admitir que o mal seja um poder benfazejo,
conclui-se pela existência de dois poderes rivais que governam o
mundo. Foi assim que nasceu a doutrina dos dois princípios: o do
bem e o do mal, doutrina lógica na ocasião, porque o homem era
ainda incapaz de conceber outra e de compreender a natureza do
Ser supremo. Como poderia compreender que o mal é uma
ocorrência passageira da qual pode sair o bem e que os males
que o afligiam deviam levá-lo à felicidade, ajudando o seu
adiantamento?

Os limites do seu horizonte moral nada lhe permitiam ver além da


vida presente, nem quanto ao futuro, nem quanto ao passado. Ele
não podia compreender que havia progredido, nem que teria
ainda de progredir individualmente, e menos ainda que as
vicissitudes da vida resultam da imperfeição do seu próprio ser
espiritual, que preexiste e sobrevive ao corpo, depurando-se
numa série de existências até chegar à perfeição. Para
compreender que o bem pode sair do mal não lhe bastava ver
apenas uma existência, era necessário abranger o conjunto, pois
só então se tornam claras as verdadeiras causas e os seus
efeitos.

5 — O duplo princípio do bem e do mal foi, durante longos


séculos, sob diferentes nomes, a base de todas as crenças
religiosas. Foi personificado com os nomes de Ormuz e Arimã
entre os persas e de Jeová e Satã entre os hebreus. Mas, como
todo soberano deve ter os seus ministros, todas as religiões
admitiram a existência de poderes secundários que são os génios
bons ou maus. Os pagãos personificaram esses poderes numa
multidão de individualidades, tendo cada uma atribuições
especiais no tocante ao bem e ao mal, as virtudes e aos vícios,
dando-lhes a denominação geral de deuses. Os Cristãos e os
Muçulmanos herdaram dos Hebreus os anjos e os demônios.

6 — A doutrina dos demônios tem portanto a sua origem na


antiga crença no princípio do bem e do mal. Vamos examiná-la
aqui somente do ponto de vista cristão, procurando ver se ela
está em relação com o conhecimento mais exato que hoje
possuímos dos atributos da Divindade.

Esses atributos são o ponto de partida, a base de todas as


doutrinas religiosas. Os dogmas, o culto, as cerimónias, as
práticas, a moral, tudo nelas se relaciona com a ideia mais ou
menos justa, mais ou menos elevada que fazem de Deus, desde
o fetichismo até o Cristianismo. Se a natureza de Deus é ainda
um mistério para a nossa inteligência, entretanto já aí
compreendemos melhor do que nunca, graças aos ensinamentos
do Cristo. O Cristianismo, concordando nisso com os princípios
racionais, nos ensina que: Deus é único, eterno, imutável,
imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, e todas as
suas perfeiçòes são infinitas.

Como dissemos atrás (Cap. VI. Penas Eternas): "Se tirarmos a


enorme parcela de um só dos atributos de Deus, não teremos
mais Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito." Esses
atributos, compreendidos na sua mais absoluta plenitude,
constituem o critérium de todas as religiões, a medida de verdade
de cada um dos princípios que elas ensinam. Para que um
desses princípios seja verdadeiro é preciso que não atente contra
nenhuma das perfeiçòes de Deus. Vejamos se isso acontece no
tocante à doutrina vulgar dos demônios.

Da encarnação e de seus méritos. Porque não há nenhuma


proporção entre as obras dos Espíritos mais eminentes e essa
recompensa que é o próprio Deus em si mesmo. Nenhuma
criatura teria podido chegar até esse ponto sem essa intervenção
maravilhosa e sublime de caridade. Ora, para cobrir a distância
infinita que separa a essência divina das obras de suas próprias
mãos, era necessário que ele reunisse na sua pessoa os dois
extremos e associasse a sua divindade à natureza do anjo ou à
do homem: ele preferiu a natureza humana.
Esse plano, concebido desde toda a eternidade, foi revelado aos
anjos muito tempo antes da sua realização. O Homem-Deus lhes
foi mostrado no futuro como Aquele que devia confirmá-los na
graça e introduzi-los na glória, com a condição de que o
adorassem na Terra durante a sua missão, e no Céu pelos
séculos dos séculos. Revelação inesperada, visão arrebatadora
para os corações generosos e reconhecidos, mas mistério
profundo e humilhante para os Espíritos soberbos!

Este destino sobrenatural, o peso imenso dessa glória que lhes


era proposta não seria unicamente a recompensa de seus méritos
pessoais! Jamais se poderiam atribuir, por si mesmos, os títulos
da sua posse! Um mediador entre eles e Deus, que ofensa feita à
sua dignidade! A preferência gratuita pela natureza humana, que
injustiça! Que atentado aos seus direitos! Essa humanidade que
lhes era tão inferior, teriam de vê-la um dia endeusada pela sua
união com o Verbo e assentada à direita de Deus, sobre um trono
resplandecente? Concordarão eles a prestar-lhe eternamente as
suas homenagens e a sua adoração?

Lúcifer e a terceira parte dos anjos sucumbiram a esses


pensamentos de inveja e de orgulho. São Miguel, e com ele a
maioria, exclamaram: quem é semelhante a Deus? Ele é o senhor
de seus dons e o soberano Senhor de todas as coisas. Glória a
Deus e ao Cordeiro que será imolado para a salvação do mundo!
Mas o chefe dos rebeldes, esquecendo que devia ao seu criador
a sua própria nobreza e as suas prerrogativas, preferiu escutar a
sua própria temeridade e respondeu: eu mesmo subirei ao céu,
estabelecerei a minha morada acima dos astros, me assentarei
sobre a montanha da Aliança, nos flancos do Arquilão, dominarei
as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo. — Os
que partilhavam os seus sentimentos acolheram essas palavras
com um murmurar de aprovação, e eles estavam em todas as
ordens da hierarquia, mas a sua multidão não os livrou do
castigo.

9 — Essa doutrina provoca numerosas objeções:

1a) Se Satã e os demônios eram anjos, é que eram perfeitos;


como, sendo perfeitos, puderam falir, desconhecendo dessa
maneira a autoridade de Deus em cuja presença se
encontravam? Poder-se-ia ainda conceber que, se tivessem
chegado à esta eminência de maneira gradual, após haver
passado pelos planos da imperfeição, pudessem ter sofrido uma
queda dolorosa. Mas o que torna o problema mais
incompreensível é que são apresentados como tendo sido criados
perfeitos 37 .

A consequência dessa teoria é a seguinte: Deus quiz fazê-los


seres perfeitos, desde que os cumulou de todos os dons, mas se
38 (37)
enganou. Assim, segundo a Igreja, Deus não é infalível .

37
Essa doutrina monstruosa foi dada por Moisés quando disse
(Génese, Cap, VI, v. 6,7): "Ele se arrependeu de haver criado o
homem na Terra. E, tocado de dor até o mais fundo do
coração, disse: exterminarei da Terra o homem que criei,
exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde os
que rastejam no solo até os pássaros do céu, porque eu me
arrependo de os haver feito." Um Deus que se arrepende
daquilo que fez não é perfeito nem infalível: portanto, não é
Deus. Essas são, não obstante, as palavras que a Igreja
proclama como verdades sagradas. Por outro lado, não se
percebe, de maneira alguma, o que havia de comum entre os
animais e a perversidade dos homens, para merecerem aqueles
a sua exterminação. (N. de Kardec).
38
A revolução teológica atualmente em curso dá pouca
importância ao problema dos anjos, preocupada quase
exclusivamente com o homem. No Catecismo Holandês, que
apresenta a fé para adultos, a distinção entre os anjos e os
homens permanece a mesma do tempo de Kardec. Definindo-
os, diz o Catecismo: "São mensageiros ou virtudes que provêm
2a) Desde que nem a Igreja nem os anais da História Sagrada
explicam a causa da revolta dos anjos contra Deus, que somente
parece certo que foi a recusa de reconhecer a missão futura do
Cristo, que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado da
cena que então se passou? Em que fonte encontrou ela as
expressões tão precisas que reproduziu, como tendo sido
pronunciadas na ocasião e até mesmo os simples murmúrios? De
duas, uma: ou a cena é verdadeira ou não é. Se é verdadeira,
não há qualquer incerteza. Então, porque a Igreja não decidiu a
questão? Se a Igreja e a História se calam, a causa apenas
parece certa, tudo não passa de suposição e a descrição da cena
é simples obra de imaginação 39 / 40 .

de Deus, espíritos servidores (Hebreus 1,14) frequentemente


apresentados na Bíblia em forma humana. Dão forma à
bondade de Deus e constituem as grandes virtudes boas que
colaboram conosco nesta criação. Seria a existência deles
hipótese pertencente à concepção do mundo que reina na
Sagrada Escritura? Ou faz esta existência parte integrante da
revelação de Deus?" — Como se vê, os anjos são um mistério.
(N. do T.)
39
Encontra-se em Isaias, cap. XVI, v. 11 e seguintes: "Teu orgulho foi
precipitado nos infernos, teu corpo morto tombou na Terra, tua cama
será a podridão e tua vestimenta será de vermes. Como tombaste do
céu, Lúcifer, tu que parecias tão brilhante como o sol ao meio-dia?
Como foste lançado sobre a Terra, tu que golpeavas e ferias as nações,
que dizias no teu coração: eu subirei ao céu e estabelecerei meu trono
sobre os astros de Deus, e me assentarei sobre a montanha da Aliança,
nos flancos do Aquilão, me colocarei sobre as nuvens mais elevadas e
serei semelhante ao Altíssimo? — E no entanto foste precipitado desta
glória para o inferno, até os mais fundos dos abismos. — Os que
puderem ver-te, aproximando-se de ti, depois de te encararem, dirão: é
este o homem que atemorizou a Terra, que encheu de terror os reinos e
transformou o mundo num deserto, destruiu as cidades e prendeu em
cadeias os que fez prisioneiros?" Essas palavras do profeta não se
referem à revolta dos anjos, mas aludiam ao orgulho e à queda do rei
de Babilônia que mantinha os judeus no cativeiro, como o provam os
últimos versículos. O Rei de Babilônia é designado, por alegoria, sob o
nome de Lúcifer, mas não se faz nenhuma referência à cena acima
descrita. Essas palavras são do Rei, que as dizia no seu coração e se
colocava, pelo seu orgulho, acima de Deus, cujo povo retinha cativo. A
predição da libertação dos judeus, da ruína de Babilônia e da derrota
dos assírios é, aliás, o objeto exclusivo desse capítulo. (N. de Kardec).

40
Tratando de Satanás, diz o Catecismo Holandês simplesmente que
ele pode ser considerado da mesma maneira que os anjos" ...mas em
direção oposta: ele é a força reacionária. Não em pé de igualdade, não
tão original nem tão poderoso quanto Deus, como bem nos revela
expressamente a Escritura. É ele a malícia tremenda que vemos agir
eficazmente na Humanidade. Ultrapassa de tão longe a malícia
individual que nos perguntamos: qual é a força que está agindo aqui?
Uma força meramente humana?" — Como se vê, a posição teológica
dos nossos dias continua ambígua em referência ao problema dos anjos
e demônios. A Igreja ainda não conseguiu escapar da dualidade
mazdeista, considerando Deus como sendo ao mesmo tempo o Poder
Supremo e a sua própria oposição. A crítica de Kardec, portanto,
continua válida. — (O Novo Catecismo, Editora Herder, São Paulo,
1969, com parecer para o Nihil Obstai e Imprimatur, do Cardeal
Arcebispo, por Mons. Dr. Roberto Mascarenhas Roxo. O parecer lembra
3a) As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância que
nos assustamos de ver num arcanjo que por sua própria natureza
e pelo grau que havia alcançado, não devia participar, no tocante
à organização do Universo, dos erros e dos preconceitos que os
homens professaram até o momento em que a Ciência veio
esclarecê-los. Como poderia ele dizer:

"Estabelecerei a minha morada acima dos astros, dominarei as


nuvens mais elevadas"? É sempre a antiga crença que tem a
Terra como centro do Universo, o céu de nuvens que se estende
até as estrelas, a região limita da das estrelas formando a cúpula
que a Astronomia nos mostra aberta ao espaço infinito, onde as
estrelas se espalham.

Como sabemos hoje as nuvens não se encontram além de duas


léguas acima da Terra, para dizer que dominaria as nuvens mais
elevadas, referindo-se às montanhas, era necessário que as
cenas se passassem na face da Terra e que nesta, portanto,
estivesse a morada dos anjos. Se essa morada estiver nas
regiões superiores, estaria claro que devia situar-se muito além

que o Concilio Vaticano reafirmou a tese do IV Concílio de Latrão e


esclarece: "A fé não define a natureza "filosófica" desses seres. Afirma-
os "espíritos", i. e., de natureza diversa, do homem enquanto
simultaneamente espiritual e material"), (N. do T.)
das nuvens. Atribuir aos anjos uma linguagem tomada de
empréstimo à ignorância dos homens seria declarar que estes,
hoje, sabem mais do que os anjos. A Igreja sempre cometeu o
erro de não levar em consideração os progressos da ciência.

10 — A resposta à primeira objeção se encontra na passagem


seguinte:

A Escritura e a Tradição designam o Céu como o lugar em que os


anjos foram colocados no momento da sua criação. Mas esse não
é o céu dos céus, o céu da visão beatífica, onde Deus se mostra
aos seus eleitos face a face e onde esses eleitos o contemplam
sem dificuldades e sem esforços, porque lá não existem mais
perigos nem possibilidades de pecar; a tentação e a fraqueza são
ali desconhecidas; a justiça, a alegria e a paz reinam com
segurança absoluta; a santidade e a glória são imperecíveis. Era
portanto outra região celeste, uma esfera luminosa e afortunada
em que essas nobres criaturas, largamente favorecidas pelas
comunicações divinas, deviam recebê-las e aceitá-las pela
humildade da fé, antes de serem admitidas à condição de verem
claramente a realidade na própria essência de Deus.

Disto resulta que os anjos falidos pertencem a uma categoria


menos elevada, menos perfeita, de maneira que ainda não
haviam atingido a região suprema em que a falta é impossível.
Seja, mas então há uma contradição manifesta porque está dito
no texto que: "Deus os havia criado em tudo semelhantes aos
Espíritos sublimes; que, distribuídos em todas as ordens e
misturados a todos os graus, eles tinham o mesmo objetivo e a
mesma destinação; que o seu chefe era o mais belo dos
arcanjos". Se eles foram feitos em tudo semelhantes aos outros,
não podiam ter uma natureza inferior, e se estavam misturados a
todos os graus, não podiam estar num lugar especial. A objeção,
portanto, subsiste em toda a sua inteireza.

11 — Há ainda outra que é, inegavelmente, a mais grave e a mais


séria.
Está escrito: "Esse plano (a mediação de Cristo) concebido desde
toda a eternidade, foi revelado aos anjos muito tempo antes da
sua realização." Deus sabia, portanto, desde toda a eternidade,
que os anjos, tanto quanto os homens, tinham necessidade dessa
mediação. Sabia, ou não sabia que certos anjos falhariam, que a
sua queda acarretaria para eles a condenação eterna e sem
esperança de retorno; que eles seriam destinados a tentar os
homens e que estes, os que se deixassem seduzir, teriam a
mesma sorte.
Se Deus sabia tudo isso, então criou os anjos, em conhecimento
de causa, para a perda irrevogável e para por a perder a maior
parte do género humano. Por mais que se faça, é impossível
conciliar a sua criação, em face de semelhante previsão, com a
sua soberana bondade. Se, por outro lado, ele nada sabia, não
era onisciente nem todo-poderoso. Num e noutro caso, temos a
negação de atributos sem a plenitude dos quais Deus não seria
Deus.

12 — Se admitirmos a falibilidade dos anjos, semelhante à dos


homens, a punição é uma consequência natural e justa da falta
cometida, desde que se admita ao mesmo tempo a possibilidade
do resgate para o retorno ao bem, à reintegração na graça após o
arrependimento e a expiação. Não haveria nada que então
desmentisse a bondade de Deus. Deus sabia que eles faliriam e
seriam punidos, mas sabia também que o castigo temporário
seria um meio de fazê-los compreender a própria falta e portanto
reverteria em seu benefício.

Assim se cumpririam estas palavras do profeta Ezequiel: "Deus


não quer a morte do pecador, mas a sua salvação." (Ver cap. Vil,
n° 20). O que seria a negação da bondade de Deus é a inutilidade
do arrependimento e a impossibilidade do retorno ao bem. Nessa
hipótese é rigorosamente exato dizer-se que: "Esses anjos, desde
a sua criação, pois que Deus não o podia ignorar, foram
destinados ao mal pela eternidade e predestinados a se
transformarem em demônios para arrastar os homens ao mal".

13 — Vejamos agora qual é a sorte destes anjos e o que eles


fazem:

Mal eclodira a revolta na linguagem dos Espíritos, quer dizer, nos


impulsos dos seus pensamentos, foram eles banidos
irrevogavelmente da cidade celeste e precipitados no abismo.

Por essas palavras entendemos que eles foram relegados a um


lugar de suplícios onde tivessem de sofrer a penalidade do fogo,
conforme o que diz o texto do Evangelho, que procede das
próprias palavras do Salvador: "Ide, malditos, ao fogo eterno que
foi preparado para o demônio e seus anjos." São Pedro diz
expressamente: "Que Deus os enviou às cadeias e às torturas do
inferno; mas nem todos ficam ali perpetuamente; somente no fim
do mundo é que serão encerrados para sempre com os
condenados. Atualmente Deus ainda permite que eles ocupem
um lugar na criação a que pertencem, ordem das coisas à qual se
liga a sua existência, nas relações enfim que eles devem ter com
os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa.
Enquanto uns permanecem na sua morada tenebrosa, servindo
de instrumento à justiça divina, contra as almas infortunadas que
seduziram, numerosos outros, formando legiões infinitas e
invisíveis, sob a conduta de seus chefes, moram nas camadas
inferiores da nossa atmosfera e percorrem todas as partes do
globo. Estão infiltrados em tudo que se passa neste mundo e na
maioria das vezes desempenham o papel mais ativo."

No que concerne às palavras do Cristo sobre o suplício do fogo


eterno, ver o capítulo IV, intitulado O Inferno.

14 — Segundo esta doutrina, uma parte dos demônios fica


somente no inferno enquanto a outra erra em liberdade,
intrometendo-se em tudo que se passa neste mundo, divertindo-
se em praticar o mal, e isso até o fim do mundo, cuja data
indeterminada não chegará provavelmente tão cedo. Mas porque
essa diversidade? São estes menos culpados? Seguramente não.
A menos que se revezem nos seus papéis, o que parece resultar
desta passagem: "Enquanto uns permanecem na sua morada
tenebrosa e servem de instrumento à justiça divina contra as
almas infortunadas que seduziram".

Suas funções consistem, pois, em atormentar as almas que


seduziram. Assim, não estão encarregados de punir as que são
culpadas de faltas livre e involuntariamente cometidas, mas
aquelas que cairam pelas suas próprias provocações. São, ao
mesmo tempo, a causa da falta, e o instrumento do castigo. E,
coisa que a justiça humana por mais imperfeita não admitiria, a
vítima que sucumbe por fraqueza, na ocasião preparada para
isso, é punida tão severamente como o agente provocador que
empregoucontra ela a artimanha e a astúcia. A punição é até
mais severa, porque ela vai ao inferno ao deixar a Terra, para dali
nunca mais sair, sofrendo sem trégua nem perdão pela
eternidade, enquanto aquele que foi a causa da sua queda goza
de uma dilação de prazo, em liberdade até o fim do mundo! A
justiça de Deus não seria então mais perfeita que a dos homens?

15 — Isso não é tudo. "Deus permite que eles ocupem ainda um


lugar na criação, nas relações que devem ter com os homens e
das quais abusam da maneira mais perniciosa." Deus poderia
ignorar que eles iam abusar da liberdade que lhes concedia?
Então porque a concedeu? Foi pois em conhecimento de causa
que deixou as suas criaturas à mercê dos demônios, sabendo,
em virtude da sua infinita presciência, que elas sucumbiriam e
teriam a mesma sorte dos tentadores. Não tinham elas a sua
própria fraqueza, sem a necessidade de que fossem excitadas ao
mal por um inimigo tanto mais perigoso, quanto invisível? Ainda
se o castigo fosse apenas temporário e o culpado pudesse salvar-
se pela reparação! Mas não: ele é condenado pela eternidade.
Seu arrependimento, seu retorno ao bem, suas lamentações, tudo
é sem valor.

Os demônios são assim agentes provocadores predestinados a


recrutar almas para o inferno, e isso com a permissão de Deus,
que sabia, ao criar essas almas, a sorte que lhes estava
reservada. Que se diria, aqui na Terra, de um juiz que usasse
semelhantes meios para encher as prisões? Estranha ideia que
nos dão da Divindade de um Deus cujos atributos essenciais são
a soberana justiça e a soberana bondade!

E é em nome de Jesus Cristo, daquele que só pregou o amor, a


caridade e o perdão, que se ensinam semelhantes doutrinas!
Houve um tempo em que esses absurdos passavam
despercebidos. Não podiam ser compreendidos, não chocavam
os sentimentos. O homem, arcado ao jugo do despotismo,
submetia a sua razão de maneira cega, ou melhor, abdicava da
razão. Mas hoje a hora da emancipação já soou. Ele compreende
a justiça e deseja tê-la durante a sua vida e após a sua morte. Eis
porque ele clama: isso não é assim, não pode ser assim ou Deus
não é Deus!
16 — O castigo segue por toda a parte esses seres decaídos e
malvistos, que levam sempre consigo o seu próprio inferno: eles
não têm paz nem repouso; as próprias doçuras da esperança
foram transformadas para eles em amarguras. A esperança lhes
é odiosa. A mão de Deus os feriu no ato mesmo do pecado e a
sua vontade se obstinou no mal. Tornados perversos, não
querem mais deixar de sê-lo e o são para sempre.

Após o pecado eles são o que o homem é depois da morte. A


reabilitação dos que caíram é pois impossível. Sua perda é sem
reparação e eles perseveram no seu orgulho face a face com
Deus, no seu ódio contra Cristo, na sua inveja da humanidade.

Não tendo podido conquistar a glória do céu, pelo excesso de


suas ambições, procuram estabelecer o seu império na Terra e
dela afastar o reino de Deus. O Verbo feito carne cumpriu, apesar
deles, os seus desígnios para a salvação e a glória da
humanidade. Empregam, pois, todos os seus meios para levar à
perdição às almas resgatadas. A astúcia e a importunação, a
mentira e a sedução são utilizadas para as conduzir ao mal e à
ruína completa.

Com tais inimigos, a vida do homem, desde o berço até o túmulo,


não pode ser, desgraçadamente, senão uma luta perpétua,
porque eles são poderosos e infatigáveis.

Esses inimigos, com efeito, são os mesmos que, depois de


introduzirem o mal no mundo, cobriram a Terra com as trevas
espessas do erro e do vício. São os que, durante muitos séculos,
fizeram adorar-se como deuses reinando como senhores sobre
os povos da Antiguidade. São, enfim os que ainda exercem o seu
império tirânico sobre as regiões idólatras, fomentando a
desordem e o escândalo até mesmo no seio das sociedades
cristãs.

Para se compreender todos os recursos de que e/es dispõem


para o serviço da sua maldade, basta notar que eles nada
perderam das prodigiosas faculdades, que são o apanágio da
natureza angélica. Sem dúvida, o futuro e sobretudo a ordem
sobrenatural tem mistérios que Deus se reserva e que eles não
podem descobrir. Mas a sua inteligência é muito superior à nossa,
porque eles percebem num simples olhar os efeitos ainda nas
suas causas, e as causas nos seus efeitos. Essa penetração lhes
permite anunciar com antecedência acontecimentos que escapam
às nossas conjeturas. A diversidade e a distância dos lugares
desaparecem diante da sua agilidade. Mais rápidos que o raio,
mais instantâneos que os pensamentos, eles se encontram quase
ao mesmo tempo sobre diversos pontos do globo e podem
descrever de longe os acontecimentos que testemunham na
mesma hora em que eles se verificam.

As leis gerais pelas quais Deus rege e governa o universo não


estão ao seu sabor: eles não podem interrogá-las, nem portanto
predizer ou operar verdadeiros milagres, mas possuem a arte de
imitar e falsificar as obras divinas dentro de certos limites. Sabem
quais os fenômenos que resultam da combinação dos elementos
e predizem com segurança os resultados de combinações
naturais como os das combinações que podem fazer por si
mesmos. Daí esses oráculos numerosos, os vaticínios
extraordinários de que os livros sagrados e profanos nos
guardaram a lembrança e que serviram de base e de alimento
para todas as superstições.

A sua substância simples e imaterial escapa aos nossos olhos.


Eles estão ao nosso lado sem que os percebamos; tocam a
nossa alma sem tocar os nossos ouvidos; cremos obedecer ao
nosso próprio pensamento, quando estamos sofrendo as suas
tentações e a sua funesta influência. Ao contrário disso, as
nossas disposições são conhecidas por eles, através das
impressões que nos fazem sentir, o que lhes permite nos
atacarem, em geral pelo nosso lado mais fraco. Para nos
seduzirem com mais segurança costumam apresentar-nos ideias
e sugestões de acordo com as nossas tendências. Modificam a
sua atitude segundo as circunstâncias e de acordo com os traços
característicos de cada temperamento. Mas as suas armas
favoritas são a mentira e a hipocrisia.

17 — O castigo, dizem, os segue por toda parte. Não têm mais


nem paz nem repouso. Isso não destrói a observação referente
ao descanso dos que não estão no inferno, descanso tanto
menos justificado, quanto, estando de fora praticam ainda muito
maior mal. Sem dúvida, eles não são felizes como os anjos bons,
mas seria contada a liberdade de que gozam? Se eles não têm a
felicidade moral que a virtude proporciona, são entretanto menos
infelizes que os seus cúmplices que se acham nas chamas. Além
disso o malvado sempre desfruta uma espécie de prazer ao
praticar o mal com toda a liberdade. Pergunte-se a um criminoso
se para ele tanto faz estar na prisão ou percorrer os campos
cometendo os seus crimes à vontade. A situação é exatamente a
mesma?

O remorso, dizem, o persegue sem tréguas nem piedade. Mas se


esquecem de que o remorso é precursor imediato do
arrependimento, quando já não é o próprio arrependimento.
Dizem: "Tornando-se perversos, eles não querem mais deixar
esse caminho e o seguem para sempre." Mas então, se eles não
querem deixar de ser perversos, é que não sofrem remorsos. Se
tivessem o menor pesar, cessariam de praticar o mal e clamariam
pelo perdão. Assim, o remorso não é um castigo para eles.

18 — "Eles estão após o pecado como o homem após a morte. A


reabilitação. dos que cairam é pois impossível." De onde vem
essa impossibilidade? Não se compreende que decorra da
semelhança de situação com a do homem após a morte,
proposição que, aliás, não é bastante clara. Essa impossibilidade
virá da sua própria vontade ou da vontade de Deus? Se for da
sua vontade, denota extrema perversidade, um endurecimento
absoluto no mal. Nesse caso, não se compreende que seres tão
essencialmente maus tenham jamais podido estar entre os
anyoswruososeque, durante o tempo infinito que passaram entre
eles, não tenham deixado perceber nenhum sinal de sua maldade
natural. Se for da vontade de Deus, ainda menos se compreende
que lhes possa ser dado, como castigo, a impossibilidade de
voltar ao bem, após a prática da primeira falta. O Evangelho não
ensina nada semelhante.
19 —"Sua perda, acrescenta, é desde então irremediável e eles
perseveram no seu orgulho face a face com Deus." De que lhes
serviria não perseverar desde que todo o arrependimento é inútil
? Se tivessem a esperança de uma reabilitação, a qualquer preço
que fosse, o bem poderia ser alguma coisa para eles, enquanto
dessa maneira não é nada. Se perseveram no mal é porque a
porta da esperança foi fechada para eles. E porque Deus a
fechou? Para se vingar da ofensa que lhe fizeram ao faltarem
com a submissão. Assim, para vingar o seu ressentimento contra
alguns culpados, Deus prefere vê-los, não somente sofrer, mas
continuarem a praticar o mal em lugar do bem, induzindo ao mal e
lançando à perdição eterna todas as criaturas do género humano,
quando bastaria um simples ato de clemência para evitar
tamanho desastre, um desastre já predeterminado desde toda a
eternidade?

Seria, por acaso, esse ato de clemência uma graça pura e


simples, que pudesse reverter em encorajamento ao mal? Não,
mas um perdão condicional, subordinado a um futuro e sincero
retorno ao bem. Em lugar de uma palavra de esperança e
misericórdia, fizeram Deus dizer: pereça toda a raça humana,
ante a minha vingança! E admiram-se que com uma tal doutrina
haja incrédulos e ateus! Foi assim que Jesus nos apresentou o
seu Pai? Ele que nos fez do esquecimento e do perdão das
ofensas uma lei expressa, que nos ensinou a pagar o mal com o
bem, que colocou o amor pelos inimigos no primeiro lugar entre
as virtudes que devem nos conduzir ao céu, quereria então que
os homens fossem mais justos, melhores, mais compassivos que
o próprio Deus?

Os demônios segundo o Espiritismo

20 — Segundo o Espiritismo, nem os anjos nem os demônios são


seres à parte: a criação dos seres inteligentes é una. Ligados a
corpos materiais, esses seres constituem a humanidade que
povoa a Terra e os outros planetas habitados; sem esses corpos,
constitui o mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os
espaços. Deus os criou perfectíveis, dando-lhes por objetivo a
perfeição com uma consequente felicidade, mas não lhes deu a
perfeição. Deus quiz que eles devessem a perfeição ao seu
esforço pessoal, a fim de que tivessem o seu próprio mérito.
Desde o instante da sua formação eles começam a progredir,
seja através da encarnação, seja no estado espiritual. Chegados
ao apogeu, tornam-se Espíritos puros ou anjos, segundo a
denominação vulgar. Dessa maneira, desde o embrião do ser
inteligente até o anjo, há uma cadeia contínua em que cada elo
representa um grau de progresso.

Disso resulta que existem espíritos em todos os graus de


adiantamento moral e intelectual, segundo os quais eles se
encontram no alto, em baixo ou no meio da escala. Há espíritos,
portanto, em todos os graus de saber e de ignorância, de
bondade e de maldade. Nas camadas inferiores há os que são
ainda profundamente inclinados ao mal e nele se comprazem.
Podem chamá-los demônios, se o quizerem porque são capazes
de todas as maldades atribuídas a estes. Se o Espiritismo não
lhes dá esse nome é para não ligá-los à ideia de seres distintos
da humanidade, de uma natureza essencialmente perversa,
destinada eternamente ao mal e incapazes de progredir para o
bem.

21 — Segundo a doutrina da Igreja, os demônios foram criados


bons e se tornaram maus por sua desobediência: são os anjos
decaídos, que tentaram colocar-se em lugar de Deus no alto da
escala e dela caíram. Segundo o Espiritismo, são espíritos
imperfeitos mas que terão de melhorar-se; encontram-se ainda
embaixo da escala, mas subirão.

Os que, por sua apatia, sua negligência, sua obstinação e má


vontade permanecem por mais tempo nos planos inferiores,
sofrem as consequências dessa situação e o hábito do mal lhes
torna mais difícil sairem dali. Mas chega o tempo em que se
cansam dessa existência penosa e dos sofrimentos que nela
enfrentam. É então que, comparando sua situação à dos bons
Espíritos, compreendem que o seu interesse está na prática do
bem e procuram melhorar-se. Mas o fazem de sua própria
vontade, sem serem constrangidos a isso.

Eles estão submetidos à lei do progresso em virtude da sua


própria aptidão para progredir, mas não podem progredir contra a
sua própria vontade. Deus lhes concede incessantemente os
meios de progredir, mas eles são livres de os aproveitar ou não.
Se o progresso fosse obrigatório, eles não teriam mérito algum, e
Deus quer que eles tenham o mérito de seus esforços. Ele não
eleva ninguém por meio de privilégio, mas o primeiro lugar está
sempre aberto a todos e ninguém chega a ele sem os próprios
esforços. Os anjos mais elevados conquistaram o seu grau como
os outros, passando pela rota comum.

22 — Chegados a um certo grau de evolução, os Espíritos


recebem missões que estão em relação com seu adiantamento.
Cumprem todas aquelas que são atribuídas aos anjos das
diversas ordens. Como Deus tem sempre criado, desde toda a
eternidade, também de toda a eternidade se encontram espíritos
em condições de satisfazer a todas as necessidades do governo
universal. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei
do progresso, é pois suficiente. Essa unidade da criação, tendo
todos o mesmo ponto de partida, o mesmo caminho a seguir e
elevandose pelo seu mérito, corresponde bem melhor à justiça de
Deus que a criação de espécies diferentes, mais ou enos
favorecidas de dons naturais que representariam outros tantos
privilégios.

23 — A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios


e das almas, não admitindo a lei do progresso e considerando os
seres, não obstante, em diversos graus, nos leva à conclusão de
que eles são o produto de diversas criações especiais. Ela faz
assim, de Deus, um Pai parcial, concedendo tudo a alguns de
seus filhos, enquanto impõe a outros o mais rude trabalho.Não é
de se admirar que durante muito tempo os homens nada tenham
visto de chocante nessas preferências, pois que eles também
procediam assim com seus próprios filhos através do direito da
primogenitura e dos privilégios de nascença.

Poderiam eles pensar que erravam mais do que Deus? Mas hoje
as ideias se ampliaram e eles vêem as coisas com mais clareza,
têm noções mais precisas de justiça e as desejam para si
mesmos. Se não encontram sempre essa justiça na Terra,
esperam pelo menos encontrá-la no céu. Eis porque toda doutrina
cuja justiça divina nãolhes seja apresentada na sua maior pureza
repugna-lhes a razão 41 .

41 Não houve modificações fundamentais na Teologia Católica no tocante a


essas questões. Se Teilhar de Chardin admite, na sua revolução teológica, que
a alma condenada fica em tempo de espera, não é expulsa do "pleroma", o
mesmo não acontece na doutrina oficial. O Catecismo Holandês avançou um
pouco, mas o parecer da Comissão Cardinalícia, assinado por Monsenhor
Mascarenhas Roxo, é taxativo a respeito: "Em resumo as almas que não
necessitam de purificação entram na posse imediata da vida eterna, como
presença "face a face" com a trindade (a visão beatífica). Aquelas que
necessitam de purificação devem cumpri-la no purgatório. As que são afetadas
por pecado grave ou mortal sofrem imediatamente a condenação eterna do
inferno." — O relator acentua que o Catecismo não nega nem põe em dúvida
"nada disso", mas adverte que "a ressurreição final será no fim da História", o
que vale dizer, no fim do mundo, quando se dará a "parusia ou segunda vinda
do Senhor". Porque isso o Catecismo pôs em dúvida. A crítica de Kardec,
portanto, permanece válida. (N. Do T.)
CAPÍTULO X

INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS NAS MANIFESTAÇÕES


MODERNAS

1 — Os fenômenos Espíritas modernos chamaram a atenção


sobre fatos semelhantes que se deram em todas as épocas, e
nunca a História foi mais consultada a esse respeito do que nos
últimos tempos. Das semelhanças dos

efeitos conclui-se pela identidade da causa. Como para todos os


fatos extraordinários cuja razão era desconhecida, a ignorância
viu sempre uma causa sobrenatural e a superstição os ampliou,
acrescentando-lhes crendices absurdas; disso resultou uma
infinidade de lendas que, na sua maioria, representam uma
mistura de um pouco de verdade com muita falsidade.

2 — As doutrinas sobre os demônios, que prevaleceram por muito


tempo, haviam de tal maneira exagerado o poder desses seres,
que eles, por assim dizer, haviam posto Deus no esquecimento.
Foi por isso que lhes atribuíram tudo que parecia sobrepassar o
poder humano. Por toda parte aparecia a mão de Satã. As
melhores coisas, as mais úteis descobertas, sobretudo as que
pudessem arrancar o homem da ignorância e ampliar as suas
ideias, foram muitas vezes consideradas como diabólicas. Os
fenômenos espíritas, multiplicando-se nos nossos dias, e
sobretudo melhor observados com a ajuda das luzes da razão e
dos dados da Ciência confirmaram, é verdade, a intervenção de
inteligências ocultas, mas agindo sempre nos limites das leis
naturais e revelando, na sua ação, uma nova força e leis até
então desconhecidas. A questão se reduz, pois, a saber de que
ordem são essas inteligências.

Enquanto só havia sobre o mundo espiritual noções imprecisas


ou sistemáticas, era possível o engano. Mas hoje que as
observações rigorosas e os estudos experimentais lançaram luz
sobre a natureza dos Espíritos, sua origem e seu destino, seu
papel no Universo e seu modo de ação, a questão foi resolvida
pelos fatos. Sabe-se hoje que são as almas dos que viveram na
Terra. Sabe-se também que as diversas categorias de Espíritos
bons e maus não representam seres de diferentes espécies,
assinalando apenas os seus diversos graus de evolução.
Segundo o lugar que ocupam, na razão do seu desenvolvimento
intelectual e moral, os que se manifestam o fazem sob os
aspectos mais contraditórios, o que não os impede de
pertencerem à grande família humana, tanto como o selvagem, o
bárbaro e o homem civilizado.

3 — Sobre esse ponto, como sobre muitos outros, a Igreja


mantém suas velhas crenças no tocante aos demônios. Diz ela:
"Possuímos princípios que não se modificaram há dezoito séculos
e são imutáveis." Seu erro está precisamente em não levar em
conta o desenvolvimento das ideias, considerando Deus tão
pouco sábio para não proporcionar a revelação aos homens de
acordo com o desenvolvimento da sua inteligência, usando para
os homens primitivos a mesma linguagem que usa com os
homens civilizados. Se, enquanto a Humanidade avança, a
religião se entrincheira nos seus velhos erros, tanto no tocante às
coisas espirituais quanto às científicas, chega o momento em que
ela é ultrapassada pela incredulidade.

4 — Eis como a Igreja explica a intervenção exclusiva dos


demônios nas manifestações modernas 42 .

Intervindo nas coisas exteriores, os demônios não descuidam em


disfarçar a sua presença, para afastar suspeitas. Sempre astutos
e pérfidos, atraem os homens para as suas ciladasantes de lhes
42
As citações acima foram extraídas da mesma pastoral citada no
capítulo precedente, sendo a sua sequência e pertencendo à mesma
autoridade (N. de Kardec.)
impor as cadeias da opressão e da escravidão. Aqui, despertam a
curiosidade por meio de fenômenos e brincadeiras pueris; ali,
produzem coisas espantosas e subjugam pela atração do
maravilhoso. Se o sobrenatural aparece, se o seu poder os
desmascara, eles se acalmam e fastam as apreensões, pedem
confiança e provocam a familiaridade. Ora se fazem passar por
divindades e bons génios, ora tomam os nomes e mesmo os
traços dos mortos que deixaram sua lembrança entre os vivos.
Graças a essas fraudes dignas da antiga serpente, falam e são
escutados, dogmatizam e são creditados, misturam algumas
verdades às suas mentiras e fazem que o erro seja aceito sob
todas as formas. É então que se completam as pretensas
revelações do além-túmulo. É para chegar a esse resultado que a
madeira, a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos,
os pés das mesas e as mãos das crianças se tornam oráculos. É
para isso que a pitonisa profetiza no seu delírio e que o ignorante,
num sono misterioso torna-se de repente um doutor da ciência.
Enganar e perverter, tal é por toda parte e em todos os tempos o
objetivo final dessas estranhas manifestações.

Os resultados surpreendentes dessas práticas ou desses atos, na


maioria bizarros e ridículos, não podendo proceder de sua própria
virtude, nem da ordem estabelecida por Deus, só se pode esperar
que venham do concurso de poderes ocultos. Tais são,
notadamente, os fenômenos extraordinários obtidos em nossos
dias pelos processos aparentemente inofensivos do magnetismo
e pelo órgão inteligente das mesas falantes.

Através das práticas da magia moderna vemos hoje


reproduzirem-se entre nós as evocações e os oráculos, as
consultas, as curas e os sortilégios que celebrizaram os templos
idólatras e as grutas das sibilas. Como outrora, dão-se ordens à
madeira e a madeira obedece, fazem-lhe perguntas e ela
responde em todas as línguas e sobre todos os assuntos.
Estamos em presença de seres invisíveis que usurpam os nomes
dos mortos, com o que as pretensas revelações são marcadas
com o cunho da contradição e da mentira. Formas leves e sem
consistência aparecem rapidamente e se evolam dotadas de uma
força sobre-humana.

Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os


verdadeiros atores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não
aceitariam o desempenho desses papéis indignos e nem se
prestariam a todos os caprichos de uma curiosidade vã. As almas
dos mortos, que Deus nos proíbe de consultar, permanecem na
morada que a sua justiça lhes assinalou e não podem, sem a sua
permissão, pôr-se às ordens dos vivos. Os seres misteriosos que
atendem assim ao primeiro chamado do herege e do ímpio, bem
como do fiel, ou seja, tanto do crime como da inocência, não são
os enviados de Deus, nem os apóstolos da verdade e da
salvação, mas os agentes do erro e do inferno.

Malgrado o cuidado que tomam de se esconderem sob os nomes


mais venerados, eles se traem pelo vazio das suas doutrinas, e
não menos pela baixeza de seus atos e a incoerência das suas
palavras. Esforçam-se para fazer desaparecerem os símbolos
religiosos, os dogmas do pecado original, da ressurreição dos
corpos, da eternidade das penas e toda a revelação divina, a fim
de tirarem às leis a sua verdadeira sanção e romper todas as
barreiras aos vícios. Se as suas sugestões pudessem prevalecer,
eles formariam uma religião cómoda para o uso do socialismo e
de todos aqueles para quem a noção do dever e da consciência é
importuna. A incredulidade do nosso século lhes preparou o
caminho. Possam as sociedades Cristãs, por um retorno sincero
à fé Católica, escapar ao perigo dessa nova e temível invasão!

5 — Toda essa teoria repousa no princípio de que os anjos e os


demônios são seres diferentes das almas humanas e que estas
constituem uma criação especial, inferior mesmo aos demônios
em inteligência, em conhecimentos e em todas as espécies de
faculdades. Ela conclui pela intervenção exclusiva dos anjos
maus nas manifestações antigas e modernas, atribuídas aos
Espíritos dos mortos.

A possibilidade das almas se comunicarem com os vivos é uma


questão de fato, que resulta da experiência e da observação e
não a discutiremos aqui. Mas admitamos, por hipótese, a doutrina
acima e vejamos se ela não se destrói a si mesma por seus
próprios argumentos.

6 — Das três categorias de anjos, segundo a Igreja, uma se


ocupa exclusivamente do Céu; outra, do governo do Universo; e a
terceira é encarregada da Terra, encontrando-se nela os anjos
guardiães incumbidos da proteção de cada indivíduo. Somente
uma parte dos anjos dessa categoria envolveu-se na revolta,
sendo eles transformados em demônios. Se Deus permitiu a
estes últimos levarem os homens à perdição pelas sugestões de
toda espécie e pelas manifestações ostensivas, porque, se Ele é
soberanamente justo e bom, lhes teria dado o imenso poder de
que desfrutam, uma liberdade de que fazem uso tão pernicioso,
sem permitir aos anjos bons contrabalançarem isso com
manifestações semelhantes mas orientadas para o bem?
Admitamos que Deus tenha dado igual poder aos bons e aos
maus, o que já seria um favor exorbitante para estes últimos. O
homem, pelo menos, devia ser livre para escolher. Mas dar-lhes o
monopólio da tentação, com a faculdade de simular o bem para
enganar, para seduzir com mais segurança, isto seria uma
verdadeira armadilha colocada ante a fraqueza humana, a
inexperiência e a boa fé. Dizemos mais: isso seria abusar da
confiança do homem em Deus. A razão se recusa a admitir
semelhante parcialidade em proveito do mal.

Vejamos os fatos.

7 — Concedem-se aos demônios as faculdades transcendentes,


eles nada perderam de sua natureza angélica. Possuem o saber,
a perspicácia, a providência, a clarividência dos anjos, e além
disso a astúcia, a sagacidade e manha no mais alto grau. Seu
objetivo é desviar os homens do bem e sobretudo afastá-los de
Deus para levá-los ao inferno, do qual são os provedores e os
recrutadores.

Compreende-se que eles se dirijam aos que estão no bom


caminho e que se deixam perder por eles diante da sua
insistência. Compreende-se a sedução através da simulação do
bem para os atrair às suas fileiras. Mas o incompreensível é que
eles se dirijam aos que já lhes pertence de corpo e de alma para
os encaminhar a Deus e ao bem. Ora, quem poderia estar mais
nas suas garras do que aquele que renega a Deus e blasfema
contra ele, mergulhando-se no vício e nas paixões
desordenadas? Esse não está já no caminho do inferno?

Pode-se compreender que, estando seguro de sua presa, o


demônio a leva a adorar a Deus, a convida a submeter-se à sua
divina vontade e a renunciar ao mal? Que exalte aos seus olhos a
ventura da vida dos Espíritos bons, pintando com horror a posição
dos maus? Já se viu um comerciante elogiar para os seus
clientes as mercadorias do seu vizinho, em prejuízo das suas,
mandando-os comprar do outro? Viu-se um recrutador depreciar
a vida militar e louvar o descanso da vida doméstica? Dizer aos
conscritos que eles terão vida de fadigas e de privações, que eles
têm dez possibilidades contra uma de serem mortos ou pelo
menos de terem os braços e as pernas arrancados?

Não obstante, é esse o papel estúpido que atribuem ao demônio,


pois é fato notório que em consequência das instruções
provenientes do mundo invisível, diariamente se vêem os
incrédulos e os ateus retornando a Deus e orando com fervor, o
que há muito não faziam, ao mesmo tempo que pessoas viciosas
lutam com ardor para se melhorarem. Pretender que seja essa
uma obra das artimanhas do demônio, seria transformá-lo num
verdadeiro pobre diabo. Como isso não é uma suposição, mas
um resultado da experiência, e como contra fatos não há
rgumentos, temos de concluir que o demônio é um desastrado de
primeira, não sendo tão esperto nem tão mau como se pretende,
e portanto que não é justo temê-lo, desde que ele trabalha contra
os seus próprios interesses, ou então que nem todas as
manifestações são produzidas por ele.

8 — "Eles propagam o erro de todas as formas, e é para obter


esse resultado que a madeira, a pedra, as florestas, as pontes, o
santuário dos ídolos, os pés das mesas, as mãos das crianças se
tornam oráculos."

Qual é então, diante disso, o valor destas palavras do Evangelho:


"Eu derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos
e filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vossos velhos
terão sonhos. Nesse dia eu derramarei do meu Espírito sobre os
meus servos e servas, e eles profetizarão." (Atos dos Apóstolos,
cap. II, v. 17, 18.). Não é essa a predição da mediunidade
concedida a todos, mesmo às crianças, e que se cumpre nos
nossos dias?
Os apóstolos lançaram o anátema sobre esta faculdade? Não.
Eles a anunciaram como uma graça de Deus e não como obra do
demônio. Os teólogos de hoje saberiam mais sobre essa questão
que os apóstolos? Não deveriam ver o dedo de Deus no
cumprimento dessas palavras?

9) "Através dessas práticas da magia moderna vemos se


reproduzirem entre nós as evocações e os oráculos, as consultas,
as curas e os sortilégios que elebrizaram os templos idólatras e
as grutas das sibilas."

Quem viu práticas de magia nas evocações espíritas? Houve um


tempo em que se podia crer na sua eficácia, mas hoje elas se
tornaram ridículas. Ninguém mais crê nessas coisas e o
Espiritismo as condena. Na época em que a magia florescia tinha-
se apenas uma ideia muito imperfeita sobre a natureza dos
Espíritos, que se consideravam como seres dotados de poder
sobre-humano. Eram evocados para obter-se, mesmo que ao
preço da própria alma, os favores da sorte e da fortuna, a
descoberta de tesouros, a revelação do futuro ou os filtros. A
magia, com a ajuda de seus símbolos, fórmulas e práticas
cabalísticas, era considerada capaz de revelar pretensos
segredos para realizar prodígios, constranger os Espíritos a se
submeterem às ordens dos homens e satisfazerem os seus
desejos.

Eis o que diz o Espiritismo a esse respeito:

10 —Não há nenhum meio de se constranger um Espírito a nos


atender contra a sua vontade. Se ele vos iguala ou vos é superior
em moralidade, não tendes nenhuma autoridade sobre ele. Se
vos é inferior só podeis agir sobre ele se for para o seu bem,
porque nesse caso outros Espíritos vos ajudam. (O Livro dos
Médiuns, cap. XXV.)

— A principal disposição para as evocações é o recolhimento,


quando se pretende estabelecer relações com os Espíritos sérios.
Tendo-se fé e o desejo de fazer o bem, obtém-se mais força para
evocar os Espíritos superiores. Elevando-se a alma, em alguns
instantes de recolhimento no momento da evocação, consegue-
se identificar com os Espíritos bons e dispô-los a se
manifestarem. (O Livro dos Médiuns, cap. XXV.)

— Nenhum objeto, medalha ou talismã tem a propriedade de


atrair ou de repelir os Espíritos. As coisas materiais não tem
nenhum poder sobre eles. Jamais um Espírito aconselha essas
práticas absurdas. A virtude dos talismãs nunca existiu, a não ser
na imaginação das pessoas crédulas. (O Livro dos Médiuns, cap.
XXV.) — Não há nenhuma fórmula sacramental para a evocação
dos Espíritos. Quem pretendesse oferecer uma poderia ser
justamente chamado de charlatão, porque para os Espíritos a
forma nada é. Entretanto, a evocação deve ser feita sempre em
nome de Deus. (O Livro dos Médiuns, cap. XVII.)

— Os Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres e a


altas horas querem divertir-se à custa dos que lhes dão ouvido. É
sempre inútil e frequentemente perigoso atender a essas
sugestões. Inútil porque nada se ganha em ser mistificado, e
perigoso, não pelo mal que os Espíritos possam fazer, mas pela
influência que isso pode ter sobre as pessoas de cérebro fraco (O
Livro dos Médiuns, cap. XXV.) — Não há dias nem horas que
sejam mais propícios às evocações. Isso é completamente
indiferente para os Espíritos, como tudo o que é material, e crer
nessa influência seria simples surperstição. Os momentos mais
avoráveis são aqueles em que o evocador pode estar menos
preocupado com as suas ocupações habituais, ou em que o seu
corpo e o seu Espírito se acham mais tranquilos. (O Livro dos
Médiuns, cap. XXV.)

— A crítica malévola representa as comunicações espíritas


cercadas de práticas ridículas e supersticiosas da magia e a
necromancia. Se os que falam do Espiritismo sem o conhecer se
dessem ao trabalho de o estudar, poupariam muito gasto de
imaginação e evitariam alegações que só servem para
demonstrar a sua ignorância ou a sua má fé. Para esclarecimento
das pessoas estranhas a esta ciência diremos que, para se
comunicar com os Espíritos, não há dias nem horas, nem lugares
mais propícios do que outros, para evocá-los não há necessidade
de fórmulas nem de palavras sacramentais ou cabalísticas.
Nenhuma preparação e nenhuma iniciação também são
necessárias. O emprego de qualquer símbolo ou objeto material,
seja para os atrair, seja para os repelir, não tem nenhum efeito,
bastando para isto o pensamento. Enfim, os médiuns recebem as
suas comunicações sem sairem do estado normal, tão simples e
naturalmente como se elas fossem ditadas por uma pessoa viva.
Só o charlatanismo poderia afetar maneiras excêntricas e
acrescentar acessórios ridículos a esses momentos. (O que é o
Espiritismo, cap. II, n" 49).

— Em princípio, o futuro deve estar oculto ao homem. Somente


em casos raros e excepcionais Deus permite a sua revelação. Se
o homem conhecesse o futuro descuidaria do presente e não teria
a mesma liberdade de ação, pois seria dominado pelo
pensamento de que se uma coisa deve acontecer não adianta
preocupar-se com ela, ou procuraria alguma maneira de impedi-
la. Deus não quiz que assim fosse, para que cada um concorra na
realização dos seus desígnios, mesmo dos que se pretendesse
afastar. Deus permite a revelação do futuro quando esse
conhecimento antecipado pode facilitar a ocorrência, ao invés de
a impedir, levando o homem a agir de maneira favorável e não
contrária. (O Livro dos Espíritos, livro II, cap. X, n"' 868 a 871.)

—Os Espíritos não podem orientar pesquisas científicas nem


fazer descobertas. A ciência é trabalho do homem e só pode ser
adquirida atravésdo trabalho, pois somente por este o homem
consegue progredir. Que mérito lhe caberia se lhe bastasse
interrogar os Espíritos para tudo saber? Qualquer imbecil poderia
tornar-se sábio dessa maneira. O mesmo acontece no tocante às
invenções e às descobertas no campo da técnica.

Quando chega o tempo de uma descoberta, os Espíritos


encarregados de produzirem o seu aparecimento procuram o
homem capaz de a realizar, inspirando-lhe as ideias necessárias,
mas deixando-lhe todo o mérito da sua efetivação. Essas ideias,
ele as têm de elaborar para pô-las em prática. Assim acontece
com todas as grandes realizações da inteligência humana.
Os Espíritos respeitam a situação natural de cada homem.
Daquele que cuida de lavrar a terra eles não farão depositário dos
segredos de Deus, mas saberão tirar da obscuridade o homem
capaz de auxiliá-los na consecução dos seus desígnios. Não vos
deixeis pois levar, pela curiosidade ou pela ambição, por um
caminho que não corresponde ao objetivo do Espiritismo. Isso vos
sujeitaria às mais ridículas mistificações. (O Livro dos Médiuns,
cap. XXVI.)

— Os Espíritos não podem levar ninguém à descoberta de


tesouros. Os Espíritos superiores não se preocupam com essas
coisas, mas os Espíritos brincalhões frequentemente indicam
tesouros inexistentes ou podem mostrá-los numa direção, quando
se encontram na direção oposta. Isso, por sinal, tem a sua
utilidade para mostrar que a verdadeira fortuna está no trabalho.
Se a providência destina riquezas ocultas a alguém, este a
encontrará naturalmente e não por meio dos Espíritos. (O Livro
dos Médiuns, cap. XXVI.)

— Esclarecendo-nos a respeito das propriedades dos fluidos, que


são os agentes e os meios de ação do mundo invisível,
constituindo uma das forças da Natureza, o Espiritismo nos dá a
chave de uma infinidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis
por qualquer outro meio, e que passaram nos tempos antigos por
milagres ou prodígios. À maneira do magnetismo, ele nos revela
uma lei desconhecida ou pelo menos mal compreendida, ou
melhor, da qual conhecíamos os efeitos porque foram produzidos
em todos os tempos, mas não conhecíamos a lei que os produz.
A ignorância dessa lei deu origem às superstições. Conhecida
essa lei o maravilhoso desaparece e os fenômenos entram na
ordem das coisas naturais.

Eis porque os Espíritos não realizam nenhum milagre ao


movimentarem uma mesa ou nos transmitirem a escrita dos
mortos, da mesma maneira que o médico ao devolver um
agonizante à vida ou um físico ao provocar um raio. Aquele que
pretendesse, com a ajuda da Ciência Espírita, produzir milagres
seria um ignorante desta Ciência ou um charlatão interessado em
enganar os outros. (O Livro dos Médiuns, cap. II.)

Algumas pessoas fazem ideia muito falsa das evocações. Há as


que pensam que elas consistem em fazer os mortos voltarem do
túmulo com suas vestes fúnebres. Somente nos romances, nos
contos fantásticos de fantasmas e no teatro é que se vêem os
mortos saírem descarnados da sepultura, envoltos em seus
lençóis e chocalhando os ossos. O Espiritismo, que jamais
produziu milagres, não produz essas fantasias nem outras.
Jamais ele fez reviver um morto no seu corpo. Quando o corpo foi
enterredo ali fica em definitivo, mas o ser espiritual, fluídico e
inteligente, não permanece enterrado com o seu envoltório
grosseiro. Separa-se dele no momento da morte e desde a
separação nada mais há de comum entre eles. (O que é o
Espiritismo, cap. II, n0 48.)

11 — Estendemo-nos nestas citações para mostrar que os


princípios do Espiritismo não têm nenhuma relação com a magia.
Assim, nada de Espíritos às ordens dos homens, nada de meios
para constrangê-los, nada de signos ou fórmulas cabalísticas,
nada de descobertas de tesouros ou de processos para
nriquecimento, nada de milagres ou prodígios, de adivinhações
ou de aparições fantásticas. Enfim, nada do que constitui o fim e
os elementos essenciais da magia. O Espiritismo não somente
desaprova todas essas coisas, como demonstra o absurdo da sua
prática e a sua ineficácia. Não há, pois, nenhuma analogia entre o
fim e os meios da magia e os do Espiritismo. Querer assimilá-los
só pode ser obra de ignorância ou de má-fé. E como os princípios
do Espiritismo nada têm de secreto, estando formulados em
termos claros e sem possibilidades de equívocos, nenhum
engano a respeito poderia prevalecer.
Quanto aos casos de curas, reconhecidos como reais pela
pastoral que citamos, o exemplo foi mal escolhido para afastar as
pessoas das relações com os Espíritos. Constituem esses casos
um dos benefícios que tocam de perto às pessoas e que todas
podem apreciar. Serão poucas as que se disporão a renunciar a
essas possibilidades, sobretudo depois de haverem recorrido à
todos os outros meios, simplesmente pelo temor de serem
curadas pelo diabo. Pelo contrário, existem mesmo as que dirão
que se o diabo as curar praticará uma boa ação 43 .

12 — "Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os


verdadeiros ateres dessa cenas inexplicáveis? Os anjos não
aceitariam desempenhar esses papéis indignos e não se
prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade."

O autor se refere às manifestações físicas dos Espíritos. Entre


elas há videntemente as que não seriam dignas de Espíritos
superiores. Se, pela palavra anjos, entendermos Espíritos puros
ou Espíritos superiores teremos exatamente o que diz o
Espiritismo. Mas não se poderia considerar no mesmo plano as

43
Ao quererem persuadir as pessoas curadas pelos Espíritos de que o
foram pelo diabo os que isso tentaram só conseguiram afastar
radicalmente da Igreja grande número de criaturas que jamais haviam
sequer pensado em deixá-la. (N. de Kardec).
comunicações inteligentes dadas pela escrita, pela palavra, pela
audição ou por qualquer outro meio, que não são menos dignas
dos Espíritos bons do que dos homens mais eminentes da Terra,
nem as aparições, as curas e uma infinidade de outras que os
livros sagrados citam em profusão como sendo produzidas pelos
anjos ou pelos santos. Se, pois, os anjos e os santos puderam
produzir no passado semelhantes fenômenos, porque não os
produziriam hoje? Por que os mesmos seriam hoje produzidos
pelo demônio, através das mãos de certas pessoas, enquanto
são considerados milagres sagrados através de outras pessoas?
Sustentar semelhante tese é abdicar inteiramente da lógica.

O autor da pastoral errou ao dizer que esses fenômenos são


inexplicáveis. Hoje eles são, pelo contrário, perfeitamente
explicáveis e é por isso que não mais são encarados como
maravilhosos ou sobrenaturais. E mesmo que ainda
permanecessem inexplicados, não seria mais lógico atribuí-los ao
diabo, do que não foi, no passado, atribuir ao diabo todos os
fenômenos naturais que não se podiam compreender. Pela
expressão papéis indignos devemos entender os papéis ridículos
e os atos malignos. Mas não se podem qualificar assim os atos
dos Espíritos que praticam o bem e conduzem os homens a Deus
e às virtudes. Ora, o Espiritismo diz expressamente que os papéis
indignos não figuram nas atribuições dos Espíritos superiores,
como o provam os preceitos seguintes:

13 — Reconhece-se a categoria dos Espíritos pela sua


linguagem. A dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é
sempre digna, nobre, lógica, livre de contradições. É uma
linguagem que revela sabedoria, benevolência, modéstia e a mais
pura moral, sendo concisa e sem palavrórios inúteis. Quanto aos
Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos, a falta de ideias é
quase sempre suprida pela abundância de palavras. Todo
pensamento evidentemente falso, toda máxima contrária à
verdadeira moral, todo conselho ridículo, toda expressão
grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, todo o sinal de
malevolência, de presunção ou de arrogância são provas
incontestáveis da inferioridade do Espírito.

— Os Espíritos superiores só se ocupam das comunicações


inteligentes destinadas à nossa instrução. As manifestações
físicas ou puramente materiais pertencem mais especialmente às
atribuições dos Espíritos inferiores, vulgarmente designados por
Espíritos batedores. Como entre nós, os trabalhos pesados
cabem aos carregadores e não aos sábios. Seria absurdo que os
Espíritos, mesmos os que ainda são pouco elevados, gostassem
de fazer demonstrações. (O que é o Espiritismo, cap. II n01- 37 a
40 e 60.—ver também: O Livro dos Espíritos, livro II, cap. l,
Diferentes Ordens de Espíritos, Escala Espírita; O Livro dos
Médiuns, parte II, cap. XXIV, Identidade dos Espíritos, Distinção
dos bons e dos maus Espíritos.)

Qual o homem de boa fé que poderia ver nesses preceitos algum


papel indigno atribuído aos Espíritos elevados? O Espiritismo não
somente não confunde os Espíritos, como também, ao contrário
dos que atribuem aos demônios uma inteligência semelhante à
dos anjos, constata, pela observação dos fatos, que os Espíritos
inferiores são tanto mais ignorantes quanto mais limitado é o seu
horizonte moral e menor a sua perspicácia. Frequentemente eles
fazem das coisas uma ideia falsa e incompleta, sendo incapazes
de resolver certas questões, o que os coloca na impossibilidade
de fazerem tudo o que se atribui aos demônios.

14 — "As almas dos mortos, que Deus proibe de serem


consultadas, permanecem no lugar que a sua justiça lhes
determinou e não podem, sem a sua permissão, pôr-se às ordens
dos vivos."

O Espiritismo diz também que elas não podem manifestar-se sem


a permissão de Deus. Mas ele é bem mais rigoroso, porque diz
que nenhum espírito bom ou mau pode comunicar-se sem essa
permissão, enquanto a Igreja atribui aos demônios o poder de
dispensá-la. Vai ainda mais longe o Espiritismo, pois afirma
mesmo que apesar desta permissão quando eles atendem ao
chamado dos vivos não é para se colocarem às suas ordens.

O Espírito evocado atende espontaneamente ou é constrangido a


fazê-lo? — Ele obedece à vontade de Deus, quer dizer à lei geral
que rege o Universo. Julga se é útil atender, e nisso está também
o seu livre-arbítrio. O Espírito superior sempre atende quando é
chamado por um motivo útil, e só se recusa a responder quando
interpelado por pessoas pouco sérias que levam a reunião em
brincadeira. (O Livro dos Médiuns, cap. XXV.)

— O Espírito evocado pode se recusar a atender? —


Perfeitamente. Sem isso, onde estaria o seu livre-arbítrio?
Pensais que todos os seres do Universo estão às vossas ordens?
E vós mesmos vos julgais obrigados a responder a todos os que
vos chamam pelo nome? Quando digo que ele pode se recusar,
entendo sob a ordem do evocador, porque um Espírito inferior
pode ser obrigado a manifestar-se por um Espírito superior. (O
Livro dos Médiuns, cap. XXV.)
Os espíritas estão de tal maneira convencidos de não terem
nenhum poder direto sobre os Espíritos, e de nada poderem obter
sem a permissão de Deus, que, quando chamam algum Espírito,
dizem: "Peço a Deus todo-poderoso permitir a um bom Espírito
que se comunique comigo; peço também a meu anjo da guarda
que me assista e afaste de mim os maus Espíritos." E quando se
trata de chamar um Espírito determinado, dizem: "Peço a Deus
todo-poderoso permitir ao Espírito de fulano que se comunique
comigo." (O Livro dos Médiuns, cap. XVII, n° 203)

15 — As acusações da Igreja contra a prática das evocações não


se aplicam ao Espiritismo, pois se referem principalmente às
práticas da magia com as quais o Espiritismo nada tem de
comum. O Espiritismo condena essas práticas da mesma forma
que a Igreja, não atribui nenhum papel indigno aos Espíritos bons
e declara, por fim, nada pedir nem obter sem a permissão de
Deus.

Pode haver sem dúvida pessoas que abusam das evocações,


que brincam com elas, que as desviam do seu fim providencial
para as submeter aos seus interesses pessoais, que, por
ignorância, leviandade, orgulho ou cupidez se afastam dos
verdadeiros princípios da doutrina. Mas o Espiritismo as
desaprova, como a verdadeira religião desaprova os falsos
devotos e os excessos do fanatismo. Não é, pois, nem lógico nem
justo imputar ao Espiritismo os abusos que ele condena ou as
faltas daqueles que não o compreendem. Antes de formular uma
acusação é necessário verificar se ela é justa.

Diremos, pois: a censura da Igreja cai sobre os charlatães, os


exploradores, as práticas da magia e da feitiçaria. Nesse sentido,
ela tem razão.

Quando a crítica religiosa castiga os abusos e estigmatiza o


charlatanismo, na verdade faz melhor ressaltar a pureza da
verdadeira doutrina que, assim ajuda a se desembaraçar das
escórias prejudiciais. Com isso, ela facilita a nossa tarefa. Seu
erro está em confundir o bem e o mal, na maioria das vezes por
ignorância, e em algumas por má fé. Mas a distinção que nesses
casos ela deixa de fazer, outros a fazem. De qualquer maneira,
essa censura, à qual todo espírita sincero se associa, desde que
aplicada ao mal, não pode atingir a doutrina.

16 —"Os seres misteriosos que atendem assim ao primeiro apelo


do herético e do ímpio como do fiel, do crime como da inocência,
não são os enviados de Deus nem os apóstolos da verdade, mas
os agentes do erro e do inferno."
Assim, ao herético, ao ímpio, ao criminoso Deus não permite que
os Espíritos bons venham desviar do erro para salvá-los da
perdição eterna! Envia-lhes apenas os agentes do inferno para
mais os afundar na lama! Ao mesmo tempo, só envia à inocência
seres perversos para a perverter! Não se encontra então entre os
anjos, essas criaturas privilegiadas de Deus, nenhum ser
bastante compassivo para vir em socorro das almas perdidas? A
que título lhes foram dadas as brilhantes qualidades que
possuem, se elas servem apenas para o seu gozo pessoal? São
realmente bons esses anjos que, mergulhados nas delícias da
contemplação, vendo essas almas no caminho do inferno, não
querem deixar a sua situação para ir socorrê-las? Não é essa a
imagem do rico egoísta que tudo possuindo deixa sem piedade
que o pobre morra de fome à sua porta? Não é isso o egoísmo
erigido em virtude e colocado aos próprios pés do Eterno?

Admirai-vos de que os Espíritos bons socorram o herético e o


ímpio.

Esquecei-vos então destas palavras do Cristo: "Não é o que está


cheio de saúde que necessita de médico!" Não tendes então uma
visão mais elevada que a dos fariseus do tempo de Jesus? E vós
mesmos, se fosseis chamados por um descrente, recusaríeis
socorrê-lo e colocá-lo no bom caminho? Os Espíritos bons fazem,
pois, o que faríeis também. Procuram o ímpio levando-lhe
palavras amigas. Ao invés de anatematizar as comunicações de
além-túmulo, bendizei os desígnios do Senhor, admirando a sua
onipotência e a sua infinita bondade.

17 — Dirão que há anjos guardiães. Mas quando esses anjos


guardiães não podem se fazer ouvir através da voz misteriosa da
consciência ou por meio da inspiração, porque não empregariam
outros meios mais diretos e materiais, capazes de ferir os
sentidos, se esses meios existem? Deus põe esses meios, que
pertencem a sua própria obra, desde que tudo provém dele e
nada acontece sem a sua permissão, à disposição exclusiva dos
Espíritos maus, recusando aos bons o direito de usá-los?
Teríamos então de concluir que Deus concede aos demônios
mais recursos para perderes homens, do que os dá aos anjos
guardiães para os salvar.

Pois bem, o que os anjos guardiães não podem fazer, segundo a


Igreja, os demônios fazem por eles. Por meio dessas mesmas
comunicações consideradas infernais, eles conduzem a Deus os
que o haviam renegado, e ao bem os que estavam mergulhados
no mal; dão-nos o estranho espetáculo de milhões de homens
que crêem em Deus pelo poder do diabo, em virtude de ter a
Igreja se mostrado impotente para os converter.

Quantos homens que jamais oraram e que hoje oram com fervor
graças às instruções desses mesmos demônios! Quantos não
vemos que de orgulhosos, egoístas e devassos se tornaram
humildes, caridosos e comedidos! E dizem que isso é obra dos
demônios! Se assim é, temos de convir que o demônio lhes
prestou um grande serviço e que os assistiu melhor do que os
anjos. É necessário considerar bem desprovidos de juízo os
homens deste século para acreditar que possam aceitar
cegamente essas idéias.

Uma religião que faz de semelhante doutrina a sua pedra angular,


que se declara abalada em sua base se lhe tirarmos os
demônios, o inferno, as penas eternas e o seu Deus impiedoso, é
uma religião que se suicida.

18 — Dizem que Deus enviou o Cristo para salvar os homens,


provando assim o seu amor pelas suas criaturas. Como, então, as
teria deixado sem proteção? Não há dúvida que o Cristo é o
divino Messias, enviado para ensinar aos homens a verdade e
lhes mostrar o bom caminho. Mas contai, somente depois da sua
vinda, quantos homens não puderam ouvir a sua palavra, quantos
morreram e quantos morrem ainda hoje sem a conhecer, e entre
mesmo os que a conhecem, quantos são os que a põem em
prática! Por que Deus, na sua solicitude pela salvação dos filhos,
não lhes enviaria outros mensageiros, abrangendo toda a terra,
penetrando nos mais humildes lugares, entre grandes e
pequenos, entre sábios e ignorantes, entre incrédulos e crentes
para ensinar a verdade aos que não a conhecem, para torná-la
compreensível aos que não a podem compreender, suprindo pelo
seu ensino direto e múltiplo a insuficiência da propagação do
Evangelho, abreviando assim o advento do Reino de Deus?

E quando esses mensageiros chegam em falanges inumeráveis,


abrindo os olhos aos cegos, convertendo os ímpios, curando os
doentes, consolando os aflitos como fazia Jesus, vós os repelis,
repudiais o bem que eles fazem chamando-os de demônios! Essa
era também a linguagem dos fariseus a respeito de Jesus, porque
eles também diziam que Jesus fazia o bem pelo poder do diabo.
E o que lhes respondeu Jesus? — Reconhecei a árvore pelos
frutos; uma árvore má não pode dar bons frutos.
Para eles, os frutos produzidos por Jesus eram maus porque
vinham destruir os seus abusos e proclamar a liberdade que
devia arruinar a sua autoridade. Se ele tivesse vindo para
lisongear o seu orgulho, aprovar as suas prevaricações e
sustentar o seu poder, então sim, seria aos seus olhos o Messias
tão esperado pelos Judeus. Ele estava só, era pobre e fraco, e
eles o fizeram perecer acreditando que matavam também as suas
palavras. Mas as suas palavras eram divinas e sobreviveram a
ele. Não obstante propagou-se de maneira lenta e após dezoito
séculos é conhecida apenas por uma décima parte do género
humano. Numerosos cismas eclodiram entre os seus próprios
discípulos. Foi então que Deus, na sua misericórdia, enviou os
Espíritos para confirmarem, completarem e colocarem ao alcance
de todos as suas palavras, expandindo-as por sobre toda a Terra.

Mas os Espíritos não se encarnaram num único homem, cuja voz


seria de alcance limitado. Eles são inumeráveis, vão por toda
parte e ninguém os pode deter. Eis porque o seu ensino se
expande com a rapidez do raio. Eles falam ao coração e à razão
e por isso são compreendidos pelos mais humildes.
19 —"Não é indigno de mensageiro celeste, dizei, transmitir as
suas instruções por um meio tão vulgar como os das mesas
falantes? Não é um ultraje supor que eles se divirtam com
trivialidades, deixando a sua morada de luz para se porem à
disposição do primeiro interessado?"

Jesus não deixou a morada do Pai para nascer num estábulo?


Mas onde ouvistes que o Espiritismo atribua práticas triviais a
espíritos superiores? Pelo contrário, ele ensina que as práticas
vulgares são produzidas por espíritos vulgares. Mas, pela sua
própria vulgaridade, elas excitam as imaginações, servem para
provar a existência do mundo espiritual e mostrar que esse
mundo é muito diferente da pintura que dele haviam feito. Era
apenas o princípio, e esse princípio era tão simples como todos
os demais Mas a árvore que surge de uma pequena semente
estende mais tarde os seus ramos a grande distância. Quem
poderia crer que da miserável manjedoura de Belém sairia um dia
a palavra que devia transformar o mundo''

Sim, o Cristo é o Messias divino e a sua palavra é a da verdade.


Sim, a religião fundada sobre a sua palavra será inabalável, mas
com a condição de se seguir e praticar os seus sublimes
ensinamentos e de não fazer de Deus justo e bom que ele nos
deu a conhecer um Deus parcial, vingativo e impiedoso 44 .

44
As sérias conquistas da Metapsíquica, as investigações dos cientistas
ingleses e alemães, ultimamente o desenvolvimento da Parapsicologia,
forçaram a Igreja, nos meados do século, a mudar sua posição no
tocante aos fenômenos espíritas. A intervenção dos demônios nas
manifestações espíritas, por outro lado, perdeu prestigio perante o povo,
diante da realidade inegável dos benefícios da prática espirita. Ao
mesmo tempo a figura de Satanás esfumou-se na mente popular, diante
da expansão da cultura científica e filosófica. A Igreja apelou então para
a explicação científica dos fenômenos negando-lhes a condição de
manifestação espiritual.
O Catecismo Holandês toca no problema de maneira evasiva,
enumerando alguns fenômenos e acentuando: "Tal enumeração é só
pequena seleçáo de inúmeros fenômenos existentes, extremamente
divergentes, que ainda não puderam ser suficientemente analisados e
reconhecidos pela Ciência atual. Ai está diante de nós, vasto campo de
experiência pré-cientifica, a evocar, no homem, a ideia de que a
Criação, bem como a observação da mesma, é muito mais rica do que
podemos controlar. Podem, entrementes, essas coisas dar a impressão
de realidades particularmente misteriosas, como se o véu que cobre o
mistério da vida fosse afastado por momentos."
Várias sociedades parapsicológicas foram criadas por católicos e
protestantes em todo o mundo, com a finalidade de investigar os
fenômenos parapsicológicos, e vários sacerdotes saíram a campo para
ensinar ao povo que esses fenômenos, que são naturais e não
sobrenaturais, constituem precisamente o campo enganoso das
chamadas manifestações espíritas. A Imago Mundi, por exemplo,
instituição católica internacional, tem promovido pesquisas e
congressos na Europa e sua posição é contrária à explicação espírita.
Todos esses fenômenos, segundo elas devem ser explicados como
provenientes de causas materiais. É exatamente a posição assumida
pelos parapsicólogos materialistas e pela escola soviética.
Na França destaca-se o trabalho de Robert Amadeu, que em seu livro
Os Grandes Médiuns procura reduzir a fenomenologia espirita a uma
questão de fraudes e escamoteações, enquanto no livro Parapsicologia
nega qualquer relação dos fenômenos parapsicológicos com o espírito
humano, afirmando que eles decorrem apenas do psiquismo inferior e
animal do homem. Certos sacerdotes chegam a substituir a intervenção
dos demônios pela manifestação do inconsciente, ao qual atribuem toda
a esperteza, inteligência e malícia atribuída até agora àquelas entidades
maléficas. Acusam o Espiritismo de desconhecer os problemas do
inconsciente, como se a questão do animismo e das anifestações
anímicas já não figurasse no O Livro dos Espíritos desde 1857, quando
Sigmund Freud contava apenas um ano de existência.
Apesar disso, a maioria do clero continua a considerar as manifestações
espiritas como demoníacas. Dessa maneira, a crítica de Kardec no
capitulo acima continua válida em dois sentidos: 1°) correspondendo a
uma realidade religiosa que ainda se sustenta em grandes áreas do
Catolicismo, do Protestantismo e de numerosas seitas evangélicas mais
recentes; 2°) correspondendo às evidentes manobras pseudo-cientificas
que hoje se realizam para negar a verdadeira natureza das
manifestações.
Convém assinalar que as pesquisas parapsicológicas atuais não são,
de maneira alguma, um simples campo de experiência pré-cientifica e já
demonstraram, de maneira positiva, a realidade dos fenômenos
espíritas numa vasta escala, que vai desde a telepatia e da clarividência
até à comunicação de espíritos (fenômenos teta) e por fim à própria
reencarnação (memória extra-cerebral). Nenhuma das comprovações
científicas da Parapsicologia negou até agora um só dos princípios
espíritas. Pelo contrário, essa Ciência referendou até o momento todas
as provas da sobrevivência dadas pelo Espiritismo, desde os trabalhos
de Kardec no século passado. (N. do T.)
CAPÍTULO XI

DA PROIBIÇÃO DE EVOCAR OS MORTOS

1 —A Igreja não nega de maneira alguma a existência das


manifestações. Pelo contrário, ela as admite todas, como vimos
nas citações precedentes, mas atribuindo-as à intervenção
exclusiva dos demônios. É por engano que alguns invocam o
Evangelho para as proibir, porque o Evangelho não diz uma só
palavra nesse sentido. O supremo argumento que se apresenta é
a proibição de Moisés.

Eis em que termos se refere ao assunto a pastoral mencionada


nos capítulos precedentes:

Não é permitido entrar em relação com eles (os Espíritos) seja


imediatamente, seja por intermédio dos que os invocam e os
interrogam. A lei mosaica punia com a morte essas práticas
detestáveis, em uso entre os gentios. — Não procureis os
mágicos, diz o livro do Levítico, e não façais aos adivinhos
nenhuma pergunta, para não incorrerdes na contaminação de vos
dirigirdes a eles. (Cap. XIX, v. 31.) — Se um homem ou uma
mulher tem um Espírito de Píton ou de adivinhação, que sejam
punidos com a morte; serão lapidados e o seu sangue cairá sobre
as suas cabeças. (Cap. XX, v. 27.) E no livro do Deuteronômio:
Que não haja entre vós pessoas que consultem os adivinhos, ou
que observem os sonhos e os augúrios, ou que usem de
malefícios, de sortilégios ou de encantamentos, ou quem
consultem o Espírito de Píton e quem pratique a adivinhação ou
interrogue os mortos para saber a verdade; porque o Senhor
considera em abominação todas essas coisas e destruirá com a
vossa chegada as nações que cometem esses crimes. (Cap.
XVIII, v. 10, 11, 12.)

2 — É conveniente, para compreensão do verdadeiro sentido das


palavras de Moisés, lembrar o texto completo, que foi um tanto
abreviado nessas citações:

Não vos desvieis do vosso Deus para procurar os mágicos e não


consulteis os adivinhos para não vos contaminardes ao vos dirigir
a eles. Eu sou o Senhor vosso Deus. (Levítico, cap. XIX, v. 31.)

Se um homem ou uma mulher tem o Espírito de Píton ou um


Espírito de adivinhação, que sejam punidos com a morte: eles
serão lapidados e o seu sangue cairá sobre as suas cabeças.
(Levítico, cap. XX, v. 27.)

Quando tiverdes entrado no país que o Senhor vosso Deus vos


dará, guardai-vos de imitar as abominações daqueles povos: — E
que não se encontre entre vós quem pretenda purificar seu filho
ou sua filha fazendo-os passar pelo fogo ou quem consulte os
adivinhos ou observe os sonhos e os augúrios, ou pratique
malefícios, sortilégios e encantamentos, ou quem consulte os que
têm o Espírito de Píton, e quem se ponha a adivinhar ou a
interrogar os mortos para saber a verdade. — Porque o Senhor
considera em abominação todas essas coisas e exterminará
todos esses povos na vossa chegada, por causa dessas espécies
de crimes que eles têm cometido. (Deuteronômio, cap. XVIII. v.
9.10, 11 e 12.)

3 — Se a lei de Moisés deve ser rigorosamente observada nesse


ponto, deve sê-lo igualmente sobre todos os outros, pois como
seria ela boa no concernente às evocações e má no tocante a
outros assuntos? É necessário ser consequente: se
reconhecermos que essa lei não está mais de acordo com o
nosso costume e a nossa época por alguns motivos, não haverá
razão para que o mesmo não aconteça no tocante à proibição de
que tratamos.

É necessário que nos reportemos aos motivos determinantes


dessa proibição, motivos que tinham na ocasião a sua razão de
ser, mas que hoje seguramente não existem mais. O legislador
hebreu desejava que seu povo rompesse com todos os costumes
trazidos do Egito, onde as evocações eram usadas de maneira
abusiva como o provam estas palavras de Isaías: "O Espírito do
Egito se aniquilará por si mesmo e eu precipitarei o seu conselho;
eles consultaram os seus ídolos, os seus adivinhos, as suas
pitonisas e os seus mágicos." (Cap. XIX, v. 3.)

Além disso, os Israelitas não deviam contrair nenhuma aliança


com as nações estrangeiras. Eles iriam encontrar as mesmas
práticas entre esses povos a que se dirigiam e que deviam
combater. Moisés devia, assim, por motivos políticos, inspirar ao
povo hebreu a aversão por todos os seus costumes que tivessem
pontos de contato com os assimilados no Egito. Para motivar
essa aversão devia apresentar esses costumes como reprovados
pelo próprio Deus. Eis porque ele disse: "O Senhor considera em
abominação todas essas coisas e destruirá, na i/ossa chegada,
as nações que cometem esses crimes."
4 — A defesa de Moisés era tanto mais justificada quanto os
mortos não eram evocados em virtude do respeito e da afeição
por eles, nem por um sentimento de piedade, mas para fins de
adivinhação, da mesma maneira que se consultavam os augúrios
e os presságios, explorados pelo charlatanismo e a superstição.
Por mais que fizesse, entretanto, não conseguiu arrancar do povo
esses costumes que se haviam transformado em objeto de
comércio, como o atestam as seguintes passagens do mesmo
profeta: E quando eles vos disserem: Consultai os mágicos e os
adivinhos que murmuram nos seus encantamentos; respondei-
lhes: cada povo não consulta o seu Deus? E deve-se falar aos
mortos do que respeita aos vivos? (Isalas, cap.VII, v. 19.)

Sou eu que faço ver a falsidade dos prodígios da magia, que


tornam insensatos os que se atrevem a adivinhar, que transtorna
o Espírito dos sábios e converte em loucura a sua ciência vã.
(Cap. XLIV, v. 25.)

Que esses adivinhos que estudam o céu, que contemplam os


astros e contam os meses para fazer predições, que desejam
revelar-vos o futuro, venham agora e vos salvem.— Eles se
transformaram como em palha e o fogo os devorou; não puderam
livrar suas almas das chamas ardentes; não restará do fogo em
que se abrasarão nem mesmo os carvões com os quais alguém
se possa esquentar, nem fogo ante o qual alguém se possa
sentar. — Eis no que se transformarão todas essas coisas, às
quais vos entregastes com tanto trabalho; esses comerciantes
que negociaram convosco desde a vossa juventude se foram
todos, um de um lado, outro de outro lado, sem que se encontre
um só que vos livre dos vossos males. (Cap. XLVII, v. 13, 14, 15.)

Nesse capítulo Isaías se dirige aos babilónios, usando a figura


alegórica da Virgem filha da Babilónia, filha dos Caldeus. (Vers. l.)
Diz que os encantamentos não impedirão a ruína da sua
monarquia. No capítulo seguinte ele se dirige diretamente aos
Israelitas:

Vinde aqui, vós outros, filhos de uma feiticeira, raça de um


homem adúltero e de uma mulher prostituída. — Com quem
divertistes? Contra quem abristes a boca e lançastes as vossas
línguas perfurantes. Não sois os filhos pérfidos e os bastardos
rejeitados, vós que procurais vossa consolação nos vossos
deuses sob todas as árvores frondosas em que sacrificais os
vossos filhos pequenos, nas torrentes, ante a rochas elevadas?
— Pusestes a vossa confiança nas pedras da torrente;
derramastes licores em sua honra; oferecestes sacrifícios a ela.
Depois disso a minha indignação não devia explodir? (Cap. LVII,
3, 4, 5, 6.)

Estas palavras são inequívocas. Elas provam claramente que


naquele tempo as evocações tinham por fim a adivinhação,
fazendo-se delas um comércio. Estavam associadas às práticas
mágicas e supersticiosas sendo até mesmo acompanhadas de
sacrifícios humanos.

Moisés, portanto, tinha razão de proibir estas práticas, dizendo


que Deus as considerava abomináveis. Aliás, essas práticas
supersticiosas sobreviveram até a Idade Média, mas hoje a razão
as afugentou e o Espiritismo veio demonstrar que as relações
com o além-túmulo têm um sentido exclusivamente moral,
consolador e portanto religioso. Desde que os espíritas não fazem
sacrifícios de crianças e não derramam licores em homenagem
aos deuses, desde que não interrogam os astros, nem os mortos,
nem os adivinhos para conhecer o futuro que Deus
prudentemente ocultou aos homens, e desde que eles repudiam
toda a forma de comércio da faculdade que alguns possuem, de
comunicar-se com os Espíritos, não sendo movidos por
curiosidade nem por cupidez, mas por um sentimento de piedade
e pelo desejo único de se instruírem e se melhorarem e de
aliviarem as almas sofredoras, — a proibição de Moisés não se
refere a eles de maneira alguma. Para isso é que deviam atentar
os que invocam essa proibicão contra os espíritas. Se eles
aprofundassem melhor o sentido dessas palavras bíblicas, teriam
reconhecido que não existe nenhuma analogia entre o que se
passava com os hebreus e os princípios atuais do Espiritismo,
tanto mais que o Espiritismo condena precisamente tudo o que
dera motivo à proibição de Moisés. Mas, cegos pelo desejo de
encontrar argumentos contra as ideias novas, não chegam a
perceber que essas acusações soam de maneira completamente
falsa.

A lei civil dos nossos dias pune os abusos que Moisés queria
reprimir.
Quando Moisés estabeleceu a pena de morte contra os
delinquentes, era porque necessitava de meios rigorosos para
governar um povo indisciplinado. Aliás, essa pena figurava
constantemente na sua legislação, porque não havia muito que
escolher no tocante aos meios de repressão. Não existiam
prisões nem casas de correção no deserto e seu povo não era de
natureza a se atemorizar somente com as penas disciplinares.
Ele não podia estabelecer as graduações penais, como fazemos
em nossos dias.
É erróneo querer-se apoiar na severidade daquele castigo para
provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos.
Deveríamos, simplesmente por respeito à lei de Moisés, manter a
pena capital para todos os casos em que ela a aplicava? Nesse
caso, porque reviver com tanta insistência apenas esse artigo,
passando em silêncio o começo do capítulo que proíbe: aos
padres possuir bens terrenos e participar de qualquer
herança,porque o Senhor é em si mesmo a sua herança? (Ver.
Deuteronômio, cap. XXVIII, v. 1 e 2.)

5 — Há duas partes distintas na lei de Moisés: a iei de Deus


propriamente dita, promulgada no Monte Sinai, e a lei civil ou
disciplinar apropriada aos costumes e ao caráter do povo. Uma é
invariável, a outra se modifica segundo os tempos e não pode
passar pelo pensamento de ninguém que tenhamos de ser
governados hoje da mesma maneira que os hebreus em sua
caminhada através do deserto. Assim também os capitulares de
Carlos Magno não poderiam aplicar-se à França do nosso século.
Quem pensaria, por exemplo, em reviver hoje este artigo da lei
Mosaica: Se um boi chifrar um homem e uma mulher, que
venham a morrer disso, o boi será lapidado e ninguém comerá da
sua carne, mas o dono do boi será julgado inocente. (Êxodo, cap.
XXI, v. 28 e seguintes.)
Este artigo que nos parece tão absurdo não tinha por objetivo
punir o boi e inocentar o seu dono, pois equivalia praticamente à
confiscação do animal causador do acidente para obrigar o
proprietário a ter maior cuidado. A perda do boi representava a
punição do dono, que devia ser bastante grave num povo de
pastores, impedindo os descuidados de caírem em outra falta.
Mas como ela não devia aproveitar a ninguém, era proibido comer
a carne. Outros artigos estipulam penalidades para os donos
responsáveis.

Tudo tinha a sua razão de ser na legislação de Moisés, porque


tudo nela estava previsto, até os menores detalhes. Mas a forma
e o fundo estavam de acordo com as circunstâncias em que os
hebreus se encontravam. Claro que se Moisés voltasse hoje e
tivesse de dar um novo código a uma nação civilizada da Europa,
não recorreria mais àquele dos hebreus.

6 — Objeta-se a isso que todas as leis de Moisés foram ditadas


em nome de Deus, como as recebidas no Sinai. Mas se
considerarmos todas de origem divina, porque os mandamentos
de Deus formam apenas o decálogo? É que se faz a distinção. Se
todas emanassem de Deus, todas seriam igualmente obrigatórias.
Porque, pois, não observar a todas? Porque, por exemplo, não foi
observada a circunscrição que o próprio Jesus sofreu e não
aboliu? Esquecem-se de que todos os legisladores antigos, para
darem maior autoridade às suas leis, diziam tê-las recebido de
uma divindade. Moisés, mais do que qualquer outro, necessitava
desse apoio em virtude do caráter do seu povo. Se apesar disso
lhe foi tão difícil fazer-se obedecer, quanto pior não seria se
tivesse promulgado essas leis em seu próprio nome.

Jesus não veio modificar a lei mosaica, mas a sua lei não é hoje o
código dos cristãos? Não disse ele: "Sabeis que foi dito aos
antigos tal e tal coisa, mas eu vos digo esta outra coisa? Mas,
assim dizendo, tocou ele na lei do Sinai? De maneira alguma,
pois a sancionou e toda a sua doutrina moral não é mais do que o
desenvolvimento daquela. Ora, em nenhum momento ele se
refere à proibição de evocar os mortos, entretanto era essa uma
questão bastante grave para que ele a tivesse omitido nas suas
instruções, quando tratou de outros assuntos de natureza
secundária.

7 — Em resumo: trata-se de saber se a Igreja coloca a lei


mosaica acima da lei evangélica, ou melhor dito, se ela é mais
Judia do que Cristã. É mesmo de se notar que de todas as
religiões a que menos se opôs ao Espiritismo foi a Judia, que não
invocou contra as relações com os mortos a lei de Moisés, sobre
a qual entretanto se apoiam as seitas Cristãs 45

8 — Há outra contradição. Se Moisés proibiu a evocação dos


Espíritos dos mortos, é que esses Espíritos podem manifestar-se,
pois de outra maneira a sua proibição seria inútil. Se eles podiam
manifestar-se no seu tempo, é claro que o podem ainda hoje. Se
se trata dos Espíritos dos mortos, não são exclusivamente os
demônios que se manifestam. De resto, Moisés não faz nenhuma
referência a esses últimos.

É pois evidente que não se poderia apoiar logicamente na lei de


Moisés nesta circunstância, pelo duplo motivo de que ela não
rege o Cristianismo e não é apropriada aos costumes da nossa

45
Esta observação de Kardec é das mais significativas e tem a sua
explicação na própria História da religião judaica, toda ela, como se vê
na Bíblia, na Kabala, no Taimud e na Literatura do povo hebreu, antiga
e moderna, — fundada nas manifestações espirituais. O teatro e a
ficção modernas de Israel, como a antiga literatura hebraica e a
moderna literatura ídiche não escapam à tradição das visões, das
aparições e até mesmo das materializações, que marcam toda a cultura
judaica. No próprio texto bíblico encontramos passagens em que
Moisés, como no caso típico de Eldad e Medad (Números, cap.13 v 24
a 29) se declara francamente favorável à mediunidade. Além disso,
sabe-se que a tenda de Moisés era uma câmara mediúnica em que o
Espírito de Jeová chegava a materializar-se. (N. do T.)
época. Mas, mesmo supondo-se que tenha toda a autoridade que
alguns lhe dão, ela não pode, como acabamos de ver, aplicar-se
ao Espiritismo 46 .

Moisés, é verdade, abrange na sua proibição a interrogação dos


mortos. Mas isso apenas de maneira secundária, como um
acessório das práticas de feitiçaria. A palavra interrogar, colocada
ao lado das palavras adivinhos e augures, prova que entre os
hebreus as evocações constituiam um meio de adivinhação. Ora,
os espíritas não evocam os mortos para obter revelações ilícitas,
mas para receberem os seus conselhos e procurar o alívio dos
que sofrem. É claro que se os hebreus não se tivessem servido
das comunicações de além-túmulo com esse fim, longe de as
proibir, Moisés as encorajaria, porque elas teriam tornado melhor
o seu povo.

9 — Se alguns críticos irónicos ou mal intencionados têm


apresentado as reuniões espíritas como assembleias de

46
As leis civis de Moisés pertencem a uma época bem definida da
História, que é a das civilizações agrárias. O próprio decálogo traz as
marcas dessa fase histórica e em nossos dias é divulgado com a
supressão dos pormenores que o tornariam ridículo aos nossos olhos.
Trata-se, pois, de legislação anacrónica. (N. do T.)
feiticeiros e necromantes, e os médiuns como ledores da sorte;
se, por outro lado, alguns charlatães misturam o nome do
Espiritismo a práticas ridículas que ele desaprova, entretanto
muita gente sabe como considerar o caráter essencialmente
moral e sério das reuniões espíritas. Aliás, a doutrina escrita e
divulgada por todo o mundo protesta suficientemente contra os
abusos de toda espécie para que a calúnia possa recair sobre
quem realmente a merece.

10 — Dizem que a evocação é uma falta de respeito para com os


mortos, cujas cinzas não devemos perturbar. Quem diz isso? Os
adversários dos dois campos opostos, que nesse momento se
dão as mãos: os incrédulos que não crêem nas almas e os que,
embora crendo, pretendem que elas não podem manifestar-se e
que o demônio é quem se manifesta.

Quando a evocação é feita religiosamente, com o devido


recolhimento; quando os Espíritos são chamados com afeto e
simpatia, pelo desejo sincero de instrução e de aperfeiçoamento
moral, e não por curiosidade, não se percebe o que haveria de
falta de respeito, e isso tanto ao chamar as pessoas depois de
mortas como durante a vida.
Mas há uma outra resposta decisiva a essa objeção. É que os
Espíritos se manifestam livremente e não de maneira forçada.
Eles costumam vir espontaneamente até nós, sem serem
chamados, e revelam a satisfação de poderem comunicar-se com
os homens, lamentando frequentemente o esquecimento em que
às vezes os deixam. Se eles fossem perturbados na sua paz ou
não gostassem de ser chamados, declarariam isso ou não nos
atenderiam. Desde que são livres, quando nos atendem é porque
isso lhes convém.

11 — Alega-se ainda: "As almas moram no lugar que a justiça de


Deus lhes determinou, seja no Inferno ou no Paraíso." Assim, as
que estão no Inferno não podem sair, embora toda liberdade seja
dada aos demônios nesse sentido. As que estão no Paraíso
acham-se inteiramente entregues à beatitude e estão muito acima
dos mortais para se preocuparem conosco, sendo muito felizes
para voltar a esta Terra de misérias, interessando-se pelos
parentes e amigos que aqui deixaram. Essas almas seriam como
os ricos que desviam a vista dos pobres, com receio de que eles
lhes perturbem a digestão? Se assim fosse, elas seriam bem
pouco dignas da felicidade suprema, que seria, por sua vez, o
prémio do egoísmo.
Restam aquelas que estão no Purgatório. Mas essas são almas
sofredoras e têm de pensar antes de tudo na própria salvação.
Dessa maneira, nenhuma delas podendo nos atender, é somente
o diabo que se apresenta. Mas se elas não podem vir, não há
nenhum motivo para temermos perturbar o seu repouso.

12 — Aqui se apresenta outra dificuldade. Se as almas que estão


na beatitude não podem abandonar a sua morada feliz para
socorrer os mortais, porque a Igreja invoca a assistência dos
santos, que devem gozar da maior soma possível de beatitude?
Por que aconselha ela aos fiéis que os invoquem nas doenças,
aflições e para se preservarem dos flagelos? Por que, segundo
ela, os santos, a própria Virgem mostram-se aos homens através
de visões e fazem milagres? Eles deixam, então, o céu para vir à
Terra. Se esses Espíritos que se encontram no mais alto dos
céus podem deixá-lo, por que motivo os que estão mais em baixo
não o poderiam?

13 —Que os incrédulos neguem a manifestação das almas,


isso se concebe em razão da sua própria descrença. Mas o que
estranha é ver aqueles cuja crença repousa precisamente na
existência da alma e no seu futuro, se encarniçarem contra os
meios de se provar que ela existe, esforçando-se por demonstrar
que isso é impossível. Pareceria natural, ao contrário, que os que
têm maior interesse na sua existência aceitassem com alegria e
como uma graça da Providência o aparecimento dos meios de
confundir os negadores por provas irrecusáveis, desde que são
eles os negadores da própria religião.

Deploram essas pessoas, incessantemente, a propagação da


incredulidade que aniquila o rebanho de fiéis, mas quando se
lhes apresenta o mais poderoso meio de combatê-la, repelem-no
com mais obstinação do que os próprios incrédulos. Depois,
quando as provas se multiplicam a ponto de não deixarem
nenhuma dúvida, recorrem como argumento supremo à proibição
de tratar do assunto, e procuram para justificá-la um artigo da lei
de Moisés de que ninguém se lembrava e ao qual pretendem dar,
de qualquer maneira, uma aplicação que não pode ter. E ficam
muito felizes com essa descoberta, sem perceberem que esse
mesmo artigo constitui uma justificação da Doutrina Espírita.

14 —Todos os motivos alegados contra as relações com os


Espíritos não podem suportar um exame sério. Do próprio
empenho com que se entregam a essa luta pode-se deduzir que
a questão envolve grandes interesses, pois do contrário não
haveria tamanha insistência. Ao ver esta cruzada de todos os
cultos contra as manifestações, poderíamos dizer que eles estão
atemorizados. O verdadeiro motivo poderia ser o temor de que os
Espíritos, demasiado clarividentes, viessem esclarecer os
homens sobre os pontos que eles tentam manter na obscuridade,
fazendo os homens conhecerem de maneira precisa o que se
refere ao outro mundo e ás verdadeiras condições para nele
serem felizes ou infelizes.

É por isso que, da mesma maneira que se diz a uma criança:


não vá lá porque existe um lobisomem, dizem aos homens: não
evoqueis os Espíritos, pois quem atende é o Diabo. Mas não
haverá dificuldade: se proibirem aos homens de evocar os
Espíritos, não poderão impedir os Espíritos de virem até os
homens para tirara lâmpada debaixo do alqueire.

O culto religioso que estiver de posse da verdade absoluta


nada terá a temer da luz, porque a luz fará ressaltar a verdade e o
demônio não poderia prevalecer contra a verdade.

15 — Repelir as comunicações de além-túmulo seria rejeitar o


poderoso meio de instrução que resulta da iniciação no
conhecimento da vida futura e dos exemplos que elas nos
fornecem. A experiência nos ensina, além disso, como podemos
fazer o bem desviando do mal os Espíritos imperfeitos, ajudando
os sofredores a se libertarem da matéria e a se melhorarem, e
proibir isso seria privar as almas infelizes da assistência que lhes
podemos dar. A seguinte comunicação de um Espírito resume
admiravelmente os efeitos da evocação, quando praticada com
uma finalidade caridosa:

Cada Espírito sofredor e desesperado vos contará a causa de


sua queda, os arrastamentos a que não resistiu, e vos dirá das
suas esperanças, das suas lutas, dos seus terrores. Ele vos dirá
também dos seus remorsos, das suas dores, dos seus
desesperos, e vos mostrará Deus, justamente irritado, punindo o
culpado com toda a severidade da sua justiça.

Ao escutá-lo, sereis movidos de compaixão por ele e de temor


por vós mesmos. Ao seguir os seus lamentos, vereis Deus não o
perdendo de vista, esperando o pecador arrependido, abrindo os
braços tão logo ele comece a avançar em sua direção. Vereis os
progressos do culpado, para os quais tereis a felicidade e a glória
de haver contribuído. Acompanhareis com solicitude a sua
reforma; como o cirurgião acompanha a cicatrização da ferida de
que cuida diariamente. (Bordéus, 1861) 47 .

47
Proibir as relações do homem com o mundo invisível é um contra-
senso e revela ignorância da natureza humana e da própria História
Universal. Em todos os tempos, desde os primitivos, como o atestam de
maneira inegável as pesquisas paleontológicas, arqueológicas,
antropológicas, etnológicas e históricas, os homens mantiveram
relações com entidades espirituais, sempre considerando-as humanas,
diabólicas e divinas. O que são as religiões senão as formas
institucionalizadas dessas relações? O que é a Bíblia, no seu conjunto e
em cada um dos seus livros, senão um testemunho maciço e imponente
dessa realidade inegável? E poderemos acaso negar que os próprios
Evangelhos testemunham esse fato e nos instruem a respeito da
maneira por que devemos proceder nessas relações? (Veja-se l
Coríntios, cap. 12 e l João 4:1-6).
O Prof. Ernesto Bozzano, apoiado especialmente em pesquisas
etnológicas de Adrew Lang e Max Freedon Long. em seu livro Popoli
primitivi e manifestazione supernormale, formulou a tese da origem
mediúnica das religiões. Os fundamentos dessa tese são científicos e
filosóficos. As pesquisas metapsíquicas e arapsicológicas vêm
confirmando a sua validade ao provarem que as funções psi (ou
mediúnicas) são uma faculdade humana natural. Os avanços da Ciência
em nosso tempo, e particularmente os da Física — revelação da
estrutura atómica da matéria, descoberta da antimatéria e aceitação
teórica da existência do antiuniverso — ampliam no plano físico as
consequências das investigações psicofisiológicas, É hoje inegável que
vivemos num Universo fechado pelas limitações de nossas percepções
sensoriais. mas que se abre ante as possibilidades da percepção extra-
sensorial e dos novos recursos da Ciência para penetrar nos arcanos da
Natureza.
Quando Pasteur descobriu o mundo invisível dos micróbios teve de lutar
contra a ignorância dos doutos e sábios do tempo. Kardec é o Pasteur
do Espírito — descobriu o mundo invisível dos espíritos e demonstrou
que estes, à maneira das bactérias, dividem-se em benéficos e
maléficos, podendo produzir infestações (que são infecções espirituais)
ocasionando doenças mentais e orgânicas. Contra ele se levantaram da
mesma maneira os doutos e os sábios do tempo, mas ainda mais
fortemente apoiados pelos clérigos e teólogos das religiões dominantes
do que no caso de Pasteur. A luta era mais difícil, porque contra Kardec
se conjugavam preconceitos, superstições e interesses materiais muito
maiores e mais arraigados. Mas mesmo assim a verdade não pode ser
obscurecida.
Mas deixando de lado a questão cientifica — e também a questão
filosófica, a que nem nos referimos aqui — para tratar da questão
religiosa, que é o assunto deste livro, podemos assegurar que a
condenação de Moisés, erroneamente aplicada ao Espiritismo,
redundaria na eliminação pura e simples de todas as religiões. Porque
todas elas desde as primitivas até as mais culturalmente refinadas,
apoiam-se na relação do ho mem com o mundo invisível e dela se
alimentam. Os fatos espíritas estão na raiz e na seiva da Religião, que
tem sua origem na Revelação e se desenvolve graças à seiva
mediúnica da permanente comunicação dos homens com os espíritos,
A evocação — contra a qual se levantam os maiores protestos — é
também uma constante na história, na teoria e na prática das religiões.
Como Kardec explica, basta pensarmos num espírito para o evocarmos.
Mas isso não o obriga a atender-nos. Os espíritos são mais livres do
que nós, os encarnados, e a evocação é um simples apelo nunca uma
tentativa mágica de sujeitar o espírito ao homem. Ao contrário disso, há
práticas religiosas em nosso tempo que pretendem sujeitar o próprio
Deus às exigências formalistas e convencionais de um sacerdote.
Proibir essas práticas seria mais fácil, porque são criações humanas e
dependem apenas dos homens, mas proibiras evocações espíritas e as
manifestações espontâneas que se dão por toda parte através da
mediunidade é impossível, porque estas dependem dos espíritos, que
não estão ao alcance das determinações humanas.
Além disso é preciso considerar o problema da evolução espiritual do
homem, que cada dia mais o aproxima dos espíritos, abrindo-lhe as
possibilidades da percepção extra-sensorial. Rompendo a clausura dos
sentidos, a rede do sensório orgânico, o homem de hoje aumenta cada
vez mais, e com evidente aceleração evolutiva, as suas possibilidades
de comunicação com o mundo invisível. Os dois planos da vida humana
— o visível e o invisível — tornam-se mais próximos e se familiarizam
na proporção em que a alma (espírito encarnado) aguça as suas
faculdades para uma percepção mais dinâmica e real do mundo em que
vive. — (N. do T.)
SEGUNDA PARTE

EXEMPLOS
CAPÍTULO I

A TRANSIÇÃO

1 — A confiança na existência da vida futura não exclui as


apreensões pela transição desta vida para a outra. Muitas
pessoas não temem propriamente a morte, o que temem é o
momento da transição. Sofremos ou não ao fazer essa
passagem? É isso o que as inquieta e com tanto mais razão
quanto ninguém pode escapar a esse momento. Podemos deixar
de fazer qualquer outra viagem, mas quanto a esta, tanto os ricos
como os pobres terão de fazê-la e se ela for dolorosa, nem a
posição e nem a fortuna poderiam suavizar a sua amargura.

2 — Ao ver a tranquilidade de algumas mortes e as terríveis


convulsões da agonia em outras, já podemos perceber que as
sensações não são sempre as mesmas, mas quem pode nos
esclarecer a respeito? Quem nos descreverá o fenômeno
fisiológico da separação da alma e do corpo? Quem nos relatará
as sensações desse instante supremo? Sobre isso, a Ciência e a
Religião se calam.
Mas por que se calam? Porque falta a uma e a outra o
conhecimento das leis que regem as relações do Espírito com a
matéria. Uma pára no limiar da vida espiritual, a outra no da vida
material. O Espiritismo é o traço de união entre as duas. Somente
ele pode revelar como se opera a transição, seja em virtude das
noções positivas que oferece sobre a natureza da alma, seja com
as informações dadas pelos que deixaram a vida. O
conhecimento do elemento fluídico que une a alma ao corpo é a
chave desse fenômeno, como de muitos outros.

3 — A matéria inerte é insensível: este é um fato positivo. Só a


alma expe rimenta as sensações de prazer e dor. Durante a vida
qualquer desagregação da matéria repercute na alma através de
uma impressão mais ou menos dolorosa. É a alma que sofre e
não o corpo, pois este é apenas o instrumento da dor e a alma é
o paciente. Após a morte, estando o corpo separado da alma,
pode ser livremente mutilado que nada sente. A alma, estando
isolada do corpo, não é atingida por nenhum efeito da destruição
deste. Ela tem as suas próprias sensações, cuja fonte não está
na matéria tangível.
O perispírito é o envoltório físico da alma, da qual não se
separa nem antes nem depois da morte, e com a qual se pode
dizer que forma um todo.

Porque não se pode conceber um sem a outra. Durante a vida


o fluido perispiritual impregna todo o corpo, servindo de veículo
das sensações físicas para a alma. É também por esse
intermediário que a alma age so bre o corpo e dirige os seus
movimentos 48

48
Somente agora, mais de um século após a explicação cientifica do
Espiritismo a esse respeito, as Ciências materiais conseguiram
confirmá-la através de suas pesquisas. Apesar das provas obtidas,
entretanto, a cegueira materialista levantou celeumas a propósito e os
religiosos anti-espíritas, por mero sectarismo, fazer coro com os
negativistas. A escola parapsicológica liderada pelo prof. Joseph Banks
Rhine, da Duke University, Estados Unidos, sustenta a existência no
homem de um elemento extra-físico e defende a tese de que: a mente,
que não é física, age sobre a matéria por vias não físicas. Esta é uma
das asserções mais graves de Rhine e que maiores controvérsias
provocou no meio científico de todo o mundo. Whately Carington, na
Universidade de Cambridge, Inglaterra, formulou uma teoria da
sobrevivência da mente após a morte e da sua possibilidade de agir
sobre a matéria produzindo os fenômenos físicos para-normais. O prof.
S. G. Soai, da Universidade de Londres, formulou também uma
hipótese da sobrevivência da alma. Em pesquisas realizadas a partir de
1965 os físicos e biólogos soviéticos conseguiram obter provas
concretas (fotografias e visão através de aparelhos éticos especiais) da
existência do perispírito, a que deram o nome de corpo bioplástico. (N.
do T.)
4 — A extinção da vida orgânica produz a separação da alma e
do corpo pelo rompimento da ligação fluídica, mas essa
separação nunca se verifica de maneira brusca. O fluido
perispiritual se desprende pouco a pouco de todos os órgãos, de
maneira que a separação só se completa quando não resta mais
um único átomo, do perispírito unido a uma molécula do corpo. A
sensação dolorosa que a alma experimenta nesse momento está
na razão da quantidade de pontos de contato existentes entre o
corpo e o perispírito, determinando a maior ou menor dificuldade
ou lentidão da separação. Não se deve pois querer dissimular
que, segundo as circunstâncias, a morte pode ser mais ou menos
penosa. São essas diversas circunstâncias que vamos examinar.

5 — Coloquemos primeiramente, em princípio, os quatro casos


seguintes, que podemos encarar como as situações extremas
entre as quais existe uma infinidade de variações:

1°) Se no momento de extinção da vida orgânica o


desprendimento do perispírito já se tiver completado, a alma
não sentirá absolutamente nada;

2°) Se nesse momento a união dos dois elementos ainda


estiver em toda a sua força, se verificará uma espécie de
ruptura;
3°) Se a união já estiver enfraquecida, a separação será fácil
e se dará sem choque;

4°) Se, após a completa extinção da vida orgânica ainda


existirem numerosos pontos de contato entre o corpo e o
perispírito, a alma poderá sentir os efeitos da decomposição do
corpo até que as ligações sejam completamente rompidas.

Disso resulta que o sofrimento que acompanha a morte decorre


do estado de aderência do perispirito ao corpo, e que tudo o que
possa facilitar a diminuição desse estado e acelerar a separação
torna a passagem menos penosa. Enfim, que se o
desprendimento se verificar sem nenhuma dificuldade, a alma
não experimenta nenhuma sensação desagradável.

6 — Na passagem da vida corpórea para a vida espiritual


ocorre ainda outro fenômeno de capital importância: o da
perturbação. Nesse momento a alma experimenta um
entorpecimento que paralisa momentaneamente as suas
faculdades e neutraliza, pelo menos em parte, as suas
sensações. Ela fica, por assim dizer, em estado cataléptico, de
maneira que quase nunca tem consciência do seu derradeiro
suspiro. Dizemos quase nunca porque há um caso em que ela
pode ter consciência desse último instante, como logo veremos.
A perturbação pode, pois, ser considerada como um fato
normal no momento da morte. Sua duração é indeterminada, pois
ela varia de algumas horas para alguns anos. A medida que ela
se dissipa a alma se sente na situação de um homem que acorda
de um sono profundo. Suas ideias são confusas, vagas e
incertas, a sua visão é como se ela estivesse num nevoeiro;
pouco a pouco a visão vai-se esclarecendo, a memória se
reaviva, mas isso de acordo com as situações individuais. Para
uns, esse despertar é calmo e proporciona uma sensação
deliciosa, mas para outros é bem diferente, cheio de terror e
angústia, semelhante a horrível pesadelo. 7 — O momento do
derradeiro suspiro não é, pois, o mais penoso, porque em geral a
alma não chega a percebê-lo. Mas antes ela sofre os efeitos da
desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e
depois as angústias da perturbação. Apressemo-nos a esclarecer
que essa situação não é generalizada. A intensidade e a duração
de sofrimento, como dissemos, estão na razão da afinidade
existente entre o corpo e o perispírito. Quanto maior for essa
afinidade, mais demorados e penosos serão os esforços do
Espírito para se libertar. Mas há casos em que a união é tão fraca
que a libertação se realiza naturalmente, sem dificuldades. O
Espírito se separa do corpo como um fruto maduro que cai do
ramo. É o caso das mortes tranquilas que levam a um despertar
pacífico.

8 — O estado moral da alma é a causa principal que determina


a maior ou menor facilidade de desprendimento. A afinidade entre
o corpo e o perispírito decorre do apego do Espírito à matéria.
Chega ao máximo no homem que concentra todas as suas
preocupações na vida e nos prazeres materiais que ela oferece. É
quase nula naquele cuja alma purificada se identifica por
antecipação com a vida espiritual. Como a lentidão e a dificuldade
da separação resultam do grau de depuração e desmaterialização
da alma, depende de cada um tornar mais fácil ou mais penoso,
agradável ou doloroso o momento de sua passagem.

Assim posta a questão, ao mesmo tempo no plano teórico e


como resultado da observação, resta-nos examinar a influência
do género de morte sobre as sensações da alma no derradeiro
momento.

9 — Na morte natural, a que resulta da extinção das forças


vitais pela idade ou pela doença, o desprendimento se opera
gradualmente. No homem cuja alma se desmaterializou e cujos
pensamentos se desprenderam da atração das coisas terrenas, o
desprendimento quase que se completa antes da morte real. O
corpo vive ainda a vida orgânica, mas a alma já penetrou na vida
espiritual e somente a ligam ao corpo liames tão frágeis que se
rompem sem dificuldade com a última pancada do coração.
Nessa situação o Espírito já pode haver recobrado a lucidez e
testemunhar conscientemente a extinção da vida no seu próprio
corpo, do qual se sente feliz por se livrar. Para ele quase não
existe perturbação. Este não é mais do que um momento de sono
tranquilo do qual ele acorda com uma indizível sensação de
felicidade e de esperança.

No homem material e sensual, que viveu mais para o corpo do


que para as coisas espirituais, para quem a vida espiritual nada
era, que nem mesmo a admitia em pensamento, tudo contribui
para estreitar os laços que ligam a alma à matéria, pois nada
contribuiu para os relaxar durante a vida. À aproximação da
morte, o desprendimento se opera também de maneira gradual,
mas através de contínuos esforços. As convulsões da agonia
revelam a luta que o Espírito sustenta, tentando às vezes romper
os laços que o seguram e de outras vezes apegando-se ao corpo
do qual uma força irresistível o vai arrancando com violência, mas
parte a parte.
10 — O Espírito se apega tanto mais à vida material quando
nada vê além dela. Sente que ela lhe escapa e quer retê-la. Ao
invés de se entregar às forças que o arrastam, resiste com todas
as suas energias. Essa luta pode se prolongar por dias, semanas
e meses. Não há dúvida, nesse momento o Espírito não goza de
toda a sua lucidez. A perturbação já terá começado bem antes da
morte, mas nem por isso é menor o seu sofrimento, e o estado de
vacuidade mental em que se encontra, a incerteza quanto ao que
lhe acontecerá depois aumentam as suas angústias. A morte
chega e nada se acabou, pois a perturbação continua. Ele sente
que está vivo, mas não sabe se essa vida é a material ou a
espiritual. Luta ainda até que as últimas ligações do perispírito
com o corpo sejam rompidas. A morte pôs termo à moléstia que
ele sofria, mas não sustou as suas consequências, de maneira
que enquanto existirem pontos de contato entre o corpo e o
perispfrito, o Espírito é atingido por essas consequências e sofre
com elas.

Bem diferente a situação do Espírito que já se desmaterializou,


mesmo no caso das doenças mais cruéis. As ligações fluídicas
com o corpo tendo se enfraquecido, rompem-se sem nenhuma
dificuldade, e além disso a sua confiança no futuro, que ele já
entrevê mentalmente e às vezes mesmo de maneira real, o leva a
encarar a morte como uma libertação e os seus males como uma
prova. Daí a tranquilidade moral e a resignação que suavizam os
seus sofrimentos. Após a morte, tendo as ligações sido rompidas
de maneira instantânea, ele não sente nenhuma reação dolorosa.
Pelo contrário, ao despertar sente-se livre, disposto, aliviado de
um grande peso e muito feliz por não estar mais sofrendo.

12 — Na morte violenta as condições não são sempre as


mesmas. Nenhuma desagregação parcial tendo podido levar a
uma separação antecipada entre o corpo e o perispírito, a vida
orgânica é subitamente sustada, ainda na plenitude da sua força.
O desprendimento do perispírito só começa depois da morte.
Nesse caso como nos outros não pode realizar-se
instantaneamente. O Espírito, colhido de surpresa, sente-se como
aturdido, mas ao perceber que pensa ainda, acredita-se vivo.
Essa ilusão dura até que ele possa tomar conhecimento de sua
nova situação.

Esse estado intermediário entre a vida corpórea e a vida


espiritual é um dos mais interessantes como objeto de estudo,
pois apresenta a singular situação de um Espírito que toma o seu
corpo fluídico pelo seu corpo material, experimentando todas as
sensações da vida orgânica. Apresenta-se uma variedade de
nuanças que dependem do caráter, dos conhecimentos e do grau
do desenvolvimento moral do Espírito. É de curta duração para
aqueles de alma mais pura, porque nestes sempre há um
desprendimento antecipado que a morte, mesmo a mais
inesperada, vem apenas completar. Para outros pode prolongar-
se durante anos. Esse estado é também muito frequente nos
casos de morte ordinária, mas para alguns nada tem de penoso,
dependendo das qualidades do Espírito, enquanto para outros
representa uma situação terrível.

É sobretudo nos casos de suicídios que essa situação se faz


penosa. O corpo continuando ligado ao perispírito por todas as
suas fibras, faz que repercutam na alma todas as suas
convulsões, produzindo-lhes sofrimentos atrozes.

13—A situação do Espírito no momento da morte pode se


resumir assim:

O Espírito sofre tanto mais, quanto mais lento for o


desprendimento do perispírito. A presteza do desprendimento
depende do grau de desenvolvimento moral do Espírito. Para o
Espírito desmaterializado, cuja consciência é pura, a morte é
apenas um sono passageiro, sem nenhum sofrimento, e o seu
despertar é cheio de suavidade.
14 — Para que a gente se esforce pela própria purificação,
reprimindo as más tendências e vencendo as paixões, é
necessário conheceras vantagens do futuro. Para se identificar
com a vida futura, desejando-a e preferindo-a à vida terrena, não
basta acreditar que ela existe, mas é preciso compreendê-la. E
para tudo isso é necessário apresentá-la sob um aspecto
satisfatório para a razão, de pleno acordo com a lógica, o bom
senso e a ideia que se faz da grandeza, da bondade e da justiça
de Deus. De todas as doutrinas filosóficas, o Espiritismo é a que
exerce, a respeito, a mais poderosa influência, graças à fé
inabalável que proporciona.

O espírita sério não se contenta em crer: e/e crê porque


compreende, e só pode compreender recorrendo ao raciocínio. A
vida futura é então uma realidade que se desenrola
incessantemente aos seus olhos. Ele a vê e a toca, por assim
dizer, a todos os instantes. A dúvida não pode penetrar na sua
mente. A vida corpórea, demasiado limitada, se apaga para ele
ante a vida espiritual que se apresenta como a verdadeira vida.
Essa a razão da pouca importância que dá aos incidentes do
caminho, e de enfrentar com resignação todas as vicissitudes,
compreendendo as suas causas e a sua utilidade. As relações
diretas que mantém com o mundo invisível elevam-lhe a alma. As
ligações fluídicas que o ligam à matéria se enfraquecem. E é
assim que vai se operando o desligamento parcial que facilita a
sua passagem desta vida para a outra. A perturbação que é
inseparável da transição torna-se de curta duração porque, tão
pronto atravessou a fronteira logo se reconhece: nada lhe é
estranho e ele compreende a sua nova situação.

15 — O Espiritismo não é certamente indispensável para se


chegar a esse resultado. Nem tem a pretensão de ser o único a
assegurar a salvação da alma. Mas a facilita, pelos
conhecimentos que proporciona, pelos sentimentos que inspira e
pelas disposições que dá ao espírito, fazendo-o compreender a
necessidade de melhorar-se. Além disso, dá a cada um os meios
de facilitar o desprendimento alheio na hora da partida e os meios
de abreviar o tempo de perturbação através da prece e da
evocação.

Por meio da prece sincera, que é uma forma de magnetização


espiritual, provoca-se uma desagregação, mais rápida do fluido
perispiritual. Por uma evocação dirigida com conhecimento e
prudência, através de palavras de benevolência e encorajamento,
tira-se o Espírito do entorpecimento em que se encontra e
consegue-se ajudá-lo a compreender mais rapidamente o que se
passa. Se for um Espírito sofredor, provoca-se o arrependimento
que é o único meio de abreviar os seus sofrimentos 49 .

49
Os exemplos que vamos citar apresentam os Espíritos nas diferentes
fases de felicidade e de infelicidade da vida espiritual. Não os
procuramos entre os personagens mais ou menos ilustres da
Antiguidade, cuja situação se poderia considerar modificada após a
existência em que foram conhecidos, não oferecendo, por isso mesmo,
provas suficientes de autenticidade. Tomamo-los das ircunstâncias mais
comuns da vida contemporânea, por serem aquelas em que podemos
encontrar maiores possibilidades de comparações e das quais se
podem tirar as mais aproveitáveis instruções.
Quanto mais a existência terrena dos Espíritos se aproxima da nossa,
seja pela posição social ou pelas relações ou laços de parentescos,
mais nos interessam e mais fácil se torna controlar a identidade dos
comunicantes. As situações vulgares são naturalmente em maior
número e é por isso que delas todos podem tirar mais facilmente as
aplicações necessárias. As situações excepcionais nos tocam menos,
por escaparem à esfera dos nossos hábitos. Não são essas, portanto,
as ilustrações que procuramos. Se nesses exemplos se encontram
algumas individualidades conhecidas, a maioria é de criaturas
inteiramente obscuras. Os nomes retumbantes nada acrescentariam no
tocante à instrução e poderiam ferir suscetibilidades. Não nos dirigimos
aos curiosos nem aos amantes de escândalos, mas aos que desejam
seriamente instruir-se.
Esses exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito, mas, forçados a
limitar o seu número, escolhemos os que pudessem lançar mais luz
sobre o estado do mundo espiritual, seja em virtude da situação do
Espírito, seja pelas explicações que ele estava em condições de dar. Na
maioria essas comunicações são inéditas. Apenas algumas foram
publicadas na Revista Espírita. Dessas, suprimimos os detalhes
supérfluos, conservando apenas os pontos essenciais ao objetivo que
nos propusemos aqui.
Acrescentamos a elas as instruções complementares que
provocaram posteriormente. (N. de Kardec)
CAPÍTULO II

ESPÍRITOS FELIZES

Sr. Sanson

O Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris,


morreu a 21 de abril de 1862, após um ano de cruéis
padecimentos. Prevendo o seu fim ele havia dirigido ao
presidente da sociedade uma carta contendo a seguinte
passagem:

No caso de uma súbita separação de minha alma e meu corpo,


venho lembrar-vos uma solicitação que já vos fiz há cerca de um
ano. É a de evocar o meu Espírito o mais rapidamente possível e
sempre que julgardes conveniente, a fim de que, membro
bastante inútil da nossa sociedade durante a minha permanência
na Terra, eu possa servir para alguma coisa além do túmulo,
proporcionando-vos os meios de estudar fase por fase, através
das evocações, as diversas circunstâncias decorrentes do que o
vulgo chama de morte, mas que para nós, espíritas, é apenas
uma transformação, segundo os desígnios impenetráveis de
Deus, mas sempre útil ao fim que ele se propôs.

Além desta autorização e pedido para me dardes a honra


dessa espécie de autópsia espiritual, que o meu tão reduzido
adiantamento espiritual tornará talvez estéril, caso em que a
vossa prudência vos levará naturalmente a não ir muito além de
um certo número de experiências, ouso vos pedir pessoalmente,
bem como a todos os meus colegas, suplicarem ao Todo-
Poderoso permitir aos bons Espíritos que me assistam com os
seus conselhos benevolentes. Em particular a São Luís, nosso
presidente espiritual, no sentido de me guiar na escolha e na
época de uma reencarnação. Porque desde o presente isso me
preocupa muito. Temo enganar-me quanto às minhas forças
espirituais, pedindo a Deus demasiado cedo e presunçosamente
uma vida corporal na qual não pudesse justificar a bondade
divina, ou que, em lugar de servir ao meu adiantamento
prolongasse a minha permanência na Terra ou algures, caso eu
viesse a fracassar.
Para atender ao seu desejo de ser evocado o mais cedo
possível, após o seu passamento dirigimo-nos à câmara
mortuária com alguns membros da sociedade e, na presença do
corpo, deu-se a comunicação seguinte, uma hora antes do
enterro.

Tínhamos com isso um duplo objetivo: o de cumprir a sua


última vontade e o de observar mais uma vez a situação da alma
num instante assim tão próximo da morte. E isso com um homem
eminentemente inteligente, esclarecido e profundamente convicto
dos princípios espíritas. Interessava-nos verificar a influência
dessas convicções sobre a situação do Espírito, colhendo para
isso as suas primeiras impressões.

Nossa expectativa não foi frustrada. O Sr. Sanson relatou com


perfeita lucidez o instante da transição. Ele havia assistido à sua
própria morte, vendo-se também renascer, circunstância pouco
comum e que se deve à elevação do seu Espírito.

(Câmara mortuária, 23 de Abril de 1862.)

1. Evocação

— Atendo ao vosso chamado para cumprir a minha promessa.


2. Meu caro Sr. Sanson, cumprimos um dever e sentimos um
prazer ao vos evocar o mais cedo possível após a vossa morte,
como era do vosso desejo.

— É uma graça especial de Deus que permite ao meu Espírito


poder comunicar-se. Agradeço a vossa boa vontade, mas estou
fraco e tremo.

3. Sofrestes tanto que podemos, segundo penso, perguntar


como estais agora. Sentis ainda as vossas dores? O que sentis
ao comparar a vossa situação presente com a de há dois dias?

— Minha situação é bem feliz, pois nada sinto de minhas


antigas dores. Estou recuperado e renovado, como costumais
dizer. A transição da vida terrena para a vida espiritual devia me
tornar tudo incompreensível, de início, pois às vezes
permanecemos muitos dias sem recobrar a lucidez. Mas, antes
de morrer fiz uma prece a Deus pedindo-lhe que me
permitissefalar aos que quero bem. E Deus me ouviu.

4 . Quanto tempo levastes para recobrar a lucidez mental?

— Oito horas. Deus, repito, me havia dado uma prova da sua


bondade. Julgou-me bastante digno e jamais poderei agradecer-
lhe como devo.
5. Estais bem certo de nào pertencer mais ao nosso mundo?
Como o constatastes?

— Oh! claro que não sou mais do vosso mundo. Mas estarei
sempre perto de vós para vos proteger e vos sustentar na
pregação da caridade e da abnegação que orientaram a minha
vida. Além disso ensinarei a verdadeira fé, a fé espírita que deve
elevar a crença do justo e do bom. Sinto-me forte, bastante forte.
Numa palavra, estou transformado. Não reconhecereis mais o
velho inseguro que devia afastar-se de tudo, abandonando
qualquer prazer e alegria. Sou Espirito. Minha pátria e o espaço e
o meu futuro é Deus que irradia pela imensidade. Queria muito
falar aos meus filhos para lhes ensinar o que eles sempre
mostraram má vontade de acreditar.

6. Que efeito vos produz a visão do vosso corpo aqui ao lado?

— Meu corpo, pobre e mísero despojo, tens de voltar à poeira,


mas guardo comigo a boa lembrança de todos os que me
estimaram quando encarnado. Olho esta pobre carne deformada
que foi habitação do meu Espírito e a prova de tantos anos
Obrigado, meu pobre corpo! Purificaste o meu Espírito. O
sofrimento dez vezes santo proporcionou-me boa recompensa,
pois encontro tão depressa a possibilidade de falar-vos.
7. Conservastes as vossas ideias até o ultimo instante?

— Sim. meu Espírito conservou as suas faculdades. Perdi a


visão, mas pressentia. Toda a minha vida se desenrolou na minha
memória e a minha ultima lembrança, meu derradeiro pedido foi o
de poder falar convosco, como o faço. Depois pedi a Deus para
vos proteger, a fim de que o sonho da minha vida se realizasse.

8. Tivestes consciência do momento em que o vosso corpo


dava o último suspiro? O que se passou convosco nesse
momento? Que sensações experimentastes?

— A vida se extingue e a vista, ou antes a vista do Espírito se


apaga. Encontra-se o vácuo, o desconhecido, e levado por não
sei que sortilégio a gente se encontra num mundo onde tudo é
alegria e grandeza. Eu não sentia mais, não dava mais conta de
mim mesmo, e não obstante uma inefável felicidade me envolvia,
não sentia mais o aguilhão da dor.

9. Tendes ciência... (do que me propus a ler no vosso túmulo?)

Pronunciadas apenas as primeiras palavras, o Espirito res


pondeu. antes que eu acabasse a leitura. Respondeu também,
sem que nada lhe perguntassem, ao que discutiam os assistentes
sobre a conveniência de se ler a sua comunicação no cemitério,
em virtude da presença de pessoas que poderiam ou não
participar das suas opiniões.

— Oh, meu amigo, eu o sei, pois já estive ontem convosco,


como já estive hoje. Minha satisfação é muito grande! Obrigado,
obrigado! Falai, para que possam me compreender e vos
apreciar. Nada temais, pois todos respeitam a morte. Falai, pois,
para que os incrédulos adquiram a fé. Adeus. Falai, coragem,
confiança, que possam os meus filhos converter-se a uma crença
tão honrosa! J. Sanson

Durante a cerimónia do cemitério ele ditou as seguintes palavras:

Que a morte não mais vos atemorize, meus amigos. Ela é para
vós apenas uma etapa, se tiverdes sabido viver bem. É uma
felicidade, se a tiverdes merecido dignamente, cumprindo bem as
vossas provas. Repito-vos: Coragem e boa vontade! Não deis
mais do que um medíocre valor aos bens terrenos e sereis
recompensados. Não se pode gozar muito, sem roubar o bem
estar dos outros, praticando moralmente um imenso mal. Que a
terra me seja leve!

//

(Sociedade Espírita de Paris, 25 de Abril de 1862.)


1. Evocação. —Meus amigos, estou perto de vós.

2. Ficamos felizes com a conversa que mantivemos convosco


no dia do vosso enterro. E desde de que o aceiteis, seremos
felizes de completar o assunto para nossa instrução.

— Estou ao vosso dispor, contente porque pensais em mim.

3. Tudo o que nos puder esclarecer sobre as condições do


mundo invisível, fazendo-nos compreendê-lo, representa elevado
ensinamento, pois é a falsa ideia que se tem a seu respeito que
leva frequentemente à incredulidade. Não vos admireis, pois,
com as perguntas que vos fizermos.

— Não me admirarei e espero as vossas perguntas.

4. Descrevestes com bastante clareza a passagem da vida para a


morte. Dissestes que no momento em que o corpo exala o último
suspiro a vida se extingue e a vista do Espírito se apaga. Esse
momento é seguido deuma sensação penosa e dolorosa? 50

50
"A vista do espírito se apaga". Este dado é importante porque se
relaciona com o problema da percepção espiritual. O Espírito não
percebe por órgãos especiais, mas por todo o seu corpo. A
transferência da visão, de um campo específico para o geral, requer
algum tempo de adaptação. Veja-se, no O Livro dos Espíritos, o capítulo
Ensaio teórico sobre as sensações nos espíritos. (N. do T.)
— Sem dúvida, porque a vida é uma sequência incessante de
dores e a morte é o complemento de todas essas dores. É por
isso que se verifica uma ruptura violenta como se o Espírito
tivesse de fazer um esforço sobrehumano para escapar do seu
envoltório. É esse esforço que absorve todo o nosso ser, não lhe
permitindo compreender a transformação porque passa.

Essa não é a regra geral. A experiência mostra que muitos


Espíritos perdem a consciência antes de expirar, mas que entre
os que chegaram a um certo grau de espiritualização a separação
se realiza sem esforços.

5. Sabeis se há Espíritos que sofrem mais nesse momento? Ele


é mais penoso, por exemplo, para o materialista, para aquele que
crê que tudo então se acaba para ele?

— Isso é certo, porque o Espírito preparado já superou os


sofrimentos anteriores, ou melhor, habituou-se a sofrer e a
serenidade com que aguarda a morte o livra de sofrer
duplamente, mesmo porque ele sabe o que o aguarda. O
sofrimento moral é o mais doloroso e a sua ausência no instante
da morte representa grande alívio. Aquele que não crê se parece
ao condenado à pena capital, que no seu pensamento vê a
lâmina e ao mesmo tempo o desconhecido. Há uma semelhança
entre essa morte e a do ateu.

6. Há materialistas bastante endurecidos para acreditarem


seriamente, nesse momento supremo, que vão ser reduzidos a
nada?

— Sem dúvida, há os que crêem nisso até a última hora. Mas


no momento da separação o Espírito sofre um retorno às
profundezas de si mesmo, a dúvida então o envolve e o tortura,
levando-o a se perguntar no que irá se transformar. Ele quer
compreender alguma coisa e não consegue. A separação nunca
se faz sem essa impressão.

Um Espírito nos deu, em outra ocasião, o quadro seguinte do


fim do incrédulo:

O incrédulo endurecido experimenta nos seus últimos


momentos as angústias desses terríveis pesadelos em que nos
vemos à beira de um precipício, prestes a cair no abismo,
fazendo inúteis esforços para escapar, sem conseguir recuar.
Nesses momentos queremos agarrar a alguma coisa, encontrar
um ponto de apoio, mas nos sentimos deslizar. Queremos gritar e
não podemos articular palavras. É assim que vemos o moribundo
se contorcer, crispar as mãos e emitir sons angustiados, sinais
certos do pesadelo em que se encontra. No pesadelo comum o
despertar nos livra do desespero e ficamos felizes ao constatar
que tudo foi apenas um sonho. Mas o pesadelo da morte se
prolonga, às vezes por longo tempo, até mesmo por anos, e o
que torna a sensação ainda mais penosa para o Espírito são as
trevas em que ele às vezes se vê mergulhado.

7. Dissestes que no momento de morrer perdestes a vista, mas


que podíeis pressentir. Compreende-se que não tínheis a visão
corporal, mas antes que essa visão se apagasse já entrevíeis a
claridade do mundo espiritual?

— Foi o que eu disse anteriormente: o instante da morte torna o


Espírito clarividente. Os olhos deixam de ver, mas o Espirito, que
possui visão mais profunda, descobre instantaneamente um
mundo desconhecido, e a verdade que assim lhe aparece
subitamente lhe confere, embora por momentos, uma grande
alegria ou uma tristeza inexplicável segundo o estado da sua
consciência e a lembrança da sua vida passada.

Trata-se do instante anterior àquele em que o Espírito perde a


consciência. Isso explica o emprego da expressão por momentos,
pois as mesmas impressões agradáveis ou penosas prosseguem
após o despertar.
8. Quereis dizer o que, no momento em que os vossos olhos se
reabriram para a luz, vos emocionou entre tudo o que vistes?
Quereis descrever-nos, se possível, o aspecto das coisas que
então se apresentaram a vós?

— Quando pude voltar a mim e ver o que havia diante dos


meus olhos, estava como ofuscado e não percebi bem as coisas
porque a lucidez não se restabelece instantaneamente. Mas
Deus, que me deu uma profunda prova da sua bondade, permitiu
que eu logo recobrasse as minhas faculdades. Vi-me cercado de
numerosos e fiéis amigos. Todos os Espíritos protetores que nos
assistem me cercaram sorridentes. Uma felicidade sem par os
animava e eu mesmo, forte e bem disposto, senti que podia
transportar-me sem dificuldades através do espaço. O que então
vi, não há palavras para que eu possa explicá-las nas línguas
humanas.

Voltarei para vos falar mais amplamente de todas as minhas


venturas, sem entretanto ultrapassar o limite estabelecido por
Deus. Sabei que a felicidade, como a entendeis, é apenas uma
ficção. Vivei prudentemente, santamente, no espírito de caridade
e amor e estareis preparados para as sensações que os vossos
maiores poetas não poderiam cantar.
Os contos de fadas estão sem dúvida cheios de coisas
absurdas. Mas não seriam eles, em alguns pontos, a pintura do
que se passa no mundo dos Espíritos? O relato do Sr. Sanson
não se assemelha a de um homem que, tendo dormido numa
cabana pobre e obscura, de repente acordasse num esplêndido
palácio, em meio de uma corte brilhante?

///

9. Sob que aspecto os Espíritos se vos apresentaram? Sob o


da forma humana?

— Sim, meu caro amigo, os Espíritos nos haviam ensinado, aí


na Terra, que eles conservam no outro mundo a forma transitória
que tinham nesse.

E essa é a verdade. Mas que diferença entre a máquina


informe que se arrasta penosamente ao peso das provas e a
fluidez maravilhosa dos corpos dos Espíritos! A fealdade não
existe mais, porque os traços perderam a dureza de expressão
que caracteriza a raça humana. Deus abençoou todos esses
corpos graciosos que se movem com todos os encantos da
forma. A linguagem tem entonações intraduzíveis para vós e o
olhar possui o mistério das estrelas. Procurai ver, pelo
pensamento, o que Deus poderia fazer em sua onipotência, como
o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito uma frágil ideia da forma
dos Espíritos.

10. Como vedes a vós mesmo? Reconhecei-vos dotado de


uma forma limitada, circunscrita, embora fluídica? Possuis uma
cabeça, um tronco, braços e pernas?

— O Espírito, tendo conservado a forma humana, mas


divinizada, idealizada, tem sem dúvida todos os membros de que
falais. Sinto perfeitamente as pernas e os dedos, pois podemos,
por nossa vontade, aparecer-vos e apertar-vos as mãos. Estou
próximo a vós todos e apertei as vossas mãos amigas, sem que o
percebêsseis. Nossa fluidez nos permite estar em qualquer lugar
sem ocupar espaço e sem provocar nenhuma sensação nas
pessoas, se for esse o nosso desejo. Neste momento tendes as
mãos cruzadas e tenho as minhas nas vossas. Digo-vos: eu vos
amo, mas o meu corpo não toma espaço, a luz o atravessa sem
torná-lo visível. E o que chamaríeis um milagre, se ele fosse
visível, é para os Espíritos a continuidade de um fato comum de
todos os instantes.

A visão dos Espíritos não pode ser comparada com a visão


humana, da mesma maneira que os seus corpos não têm
semelhança real, pois tudo se modifica no conjunto e na
essência. O Espírito, repito, tem uma perspicácia divina que a
tudo atinge, podendo mesmo adivinhar o vosso pensamento. Por
outro lado, pode tomar a forma que melhor lhe convenha para
despertar as vossas lembranças. Mas, neste ponto, o Espírito
superior que terminou as suas provas prefere a forma da
existência que pode fazê-lo aproximar-se de Deus.

11. Os Espíritos não têm sexo. Entretanto, como ainda há


poucos dias éreis um homem, tendes neste novo estado uma
natureza mais masculina do que feminina? Acontece o mesmo
com um Espírito que tivesse deixado o seu corpo há muito
tempo?

— Não temos de possuir natureza masculina ou feminina: os


Espíritos não se reproduzem. Deus os criou pela sua vontade, e
se, nos seus maravilhosos desígnios quis que os Espíritos se
reencarnem na Terra, teve de acrescentar para isso a reprodução
das espécies por meio das condições próprias do macho e da
fêmea. Mas vós o sentis, sem necessidade de nenhuma
explicação — os Espíritos não podem ter sexo.

Sempre tem sido afirmado que os Espíritos não têm sexo, pois
este só é necessário para a reprodução dos corpos. Como os
Espíritos não se reproduzem, o sexo para eles seria inútil. Nossa
pergunta não tinha por fim obter a confirmação desse fato. Mas,
em virtude da morte recente do Sr. Sanson, quisemos saber se
ele ainda conservava, nesse sentido, uma impressão da sua
condição terrena. Os Espíritos purificados compreendem
perfeitamente a sua nova natureza, mas entre os Espíritos
inferiores, não espiritualizados, há muitos que ainda se acreditam
na mesma condição terrena, conservando as suas antigas
paixões e os seus desejos. Alguns ainda consideram como
homens ou mulheres e é por isso que dizem que os Espíritos têm
sexo. É assim que certas contradições decorrem do estado mais
ou menos adiantado dos Espíritos que se comunicam. O erro não
provém dos Espíritos, mas daqueles que os interrogam sem se
darem ao trabalho de aprofundar as questões.

12. Que aspecto vos apresenta a nossa sessão? Para a vossa


nova visão tem o mesmo aspecto do tempo em que estáveis
entre nós? As pessoas mostram-se com a mesma aparência?
Tudo é claro e nítido como antes?

— Bem mais claro, pois eu posso ler no pensamento de vós


todos e sou muito feliz, graças, com a boa sensação que me
causa a boa vontade de todos os Espíritos aqui reunidos. Desejo
que essa mesma harmonia possa existir não apenas em Paris, na
reunião de todos os grupos, mas em toda a França, onde os
grupos são desunidos e se invejam, instigados por Espíritos
perturbadores que se divertem com a desordem, quando o
Espiritismo deve ser o esquecimento completo e absoluto do eu.

13. Dissestes que podeis ler no nosso pensamento. Podereis


nos explicar como se opera essa transmissão de pensamento?

— Isso não é fácil. Para vos explicar esse estranho prodígio da


visão dos Espíritos seria necessário lançar mão de todo um
arsenal de elementos novos, para o que terieis de conhecer tudo
o que conhecemos, o que não é possível, pois as vossas
faculdades estão limitadas pela matéria.

Paciência! Tornai-vos bons e conseguireis isso. Tendes


atualmente apenas o que Deus vos concedeu, mas com a
possibilidade de progresso contínuo. Mais tarde sereis como nós.
Tratai de morrer bem para saberdes muito.

A curiosidade que estimula a atividade pensante do homem vos


acompanha certamente até a morte, reservando-vos para então a
satisfação de todas as vossas curiosidades passadas, presentes
e futuras.

Nessa expectativa eu vos direi, para responder mal ou bem a


vossa pergunta: o ar que vos envolve, impalpável como nós, os
Espíritos, está marcado pelos vossos pensamentos; o vosso
próprio hausto é, por assim dizer, a página escrita dos vossos
pensamentos. Essas páginas são lidas e comentadas por
Espíritos que constantemente se acercam de vós. São eles os
mensageiros de uma telegrafia divina a que nada escapa 51 .

A Morte do Justo

Após a primeira comunicação do Sr. Sanson, dada na


Sociedade de Paris, um Espírito transmitiu, sob o título acima, a
comunicação seguinte:

51
Todo este item 13 é uma verdadeira aula sobre telepatia, que os atuais
parapsicólogos deviam ler. Toda a dificuldade encontrada pela Parapsicologia,
na tentativa de controlar o processo telepático de maneira a poder utilizá-lo na
vida prática, se resume nisso que o Sr. Sanson revelou, ou seja: a telepatia
depende da capacidade de libertação do espírito, da maior ou menor facilidade
com que ele se desprende do corpo. A frase: Tratai de morrer bem para
saberdes muito encerra uma filosofia de vida e uma explicação científica da
chamada visão paranormal. A faculdade da visão é do espírito o não do corpo.
Uma vida espiritualizada liberta o espírito das limitações da matéria e
conseqüentemente amplia a visão espiritual do homem, que cientificamente se
conhece hoje como visão mental. Quando a morte chega, o espírito, já semi-
liberto em vida, não encontra dificuldade no uso natural de suas faculdades
normais. Por outro lado, os pensamentos são formas energéticas, segundo a
própria Parapsicologia hoje admite, explicando-se portanto que se apresentem
"escritos" ou "impressos" no elemento fluídico ou mais sutil da atmosfera e
conseqüentemente do próprio hausto humano, que fisicamente serve para a
articulação das palavras, traduzindo e transmitindo pensamentos no plano
material. (N. do T.)
A morte do homem de que vos ocupais neste momento foi a do
justo, quer dizer, uma morte calma e cheia de esperança. Como o
dia sucede naturalmente à aurora, a vida Espírita sucedeu para
ele à vida terrena, sem abalo, sem ruptura, e o seu último suspiro
foi exalado num verdadeiro hino de reconhecimento e de amor.
Como são poucos os que fazem assim essa difícil passagem!
Como são poucos os que após as ilusões e os desesperos da
vida percebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o
homem saudável, quando mutilado, sofre ainda a sensação dos
membros perdidos, a alma do homem que morre sem fé e sem
esperança se sente dilacerada e aflita ao escapar do corpo,
lançando-se no espaço inconsciente de si mesma.

Orai por essas almas perturbadas, orai por todos os que


sofrem. A caridade não se restringe à humanidade visível: socorre
e consola também os seres que povoam o espaço. Tivestes a
prova disso pela súbita conversão do Espírito tocado pelas preces
espíritas que fizestes no túmulo desse homem de bem que deveis
interrogar, pois deseja vos fazer progredir no caminho reto.

O amor não tem limites. Expande-se no espaço dando e


recebendo ao mesmo tempo as suas divinas consolações. O mar
se estende numa perspectiva infinita. Seu limite no horizonte
parece confundir-se com o céu e o Espírito se deslumbra com o
magnífico espetáculo dessas duas imensidades. Assim o amor,
mais profundo do que o mar e infinito como o espaço, deve ligar-
vos a todos, homens e Espíritos, na mesma comunhão da
caridade, realizando a admirável fusão do efémero com o eterno.

Georges.

Sr. Jobard

(Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas, nascido em


Baissey, Alto Mame, e falecido em Bruxelas de um ataque
de apoplexia fulminante a 27 de Outubro de 1861, com a
idade de 69 anos.)

O Sr. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de


Paris. Pensávamos em evocá-lo na sessão de 8 de novembro,
quando ele nos antecipou dando espontaneamente a seguinte
comunicação:

Eis-me aqui, eu que queríeis evocar e que desejei manifestar-


me antes por este médium, ao qual inutilmente solicitei esse favor
até agora. Desejo contar-vos primeiramente as minhas
impressões do momento da libertação de minha alma. Senti uma
comoção inexprimível. Revi subitamente o meu nascimento, a
minha juventude, o meu envelhecimento: toda a minha vida se
apresentou nitidamente na minha memória. Eu sentia, entretanto,
o desejo de me encontrar nas regiões reveladas pela nossa
querida doutrina. Depois, toda essa agitação se apaziguou.
Sentia-me livre enquanto o meu corpo permanecia inerte.

Ah! Meus caros amigos, que alegria livrar-se do peso do corpo!


Que embriaguez na amplidão do espaço. Mas não acrediteis que
eu me tornasse de súbito um eleito do Senhor. Não, estou entre
os Espíritos que, tendo assimilado pouco, têm ainda muito que
aprender. Não me demorei a lembrar-me de vós, meus irmãos no
exílio, e vos asseguro toda a minha simpatia, vos envolvo nos
meus melhores votos.

Quereis saber quais os Espíritos que me receberam? Quais


foram as minhas impressões? Meus amigos eram todos aqueles
que nós evocamos, todos os irmãos que participaram dos nossos
trabalhos. Vi o esplendor mas não o posso descrever. Dediquei-
me ao trabalho de discernir o que havia de verdadeiro nas
comunicações, pronto a rejeitar todas as asserções erróneas,
pronto a ser no outro mundo o mesmo cavaleiro da verdade que
havia sido no vosso.
Jobard.

1. Quando vivo, nos recomendastes para vos evocar quando


houvésseis deixado a Terra. Fazemo-lo, não só para atender ao
vosso desejo, mas sobretudo para vos renovar o testemunho de
nossa viva e sincera simpatia e também interessados na nossa
instrução, porque vós, melhor do que ninguém, estais em
condições de nos dar informações precisas sobre o mundo em
que agora vos encontrais. Seríamos felizes se quisésseis
responder às nossas perguntas.

— Neste momento o que mais importa é a vossa instrução.


Quanto à vossa simpatia, eu a vejo e já não a percebo somente
pela impressão dos ouvidos, o que representa para mim um
grande progresso.

2. Para firmar os nossos propósitos e não falar vagamente,


perguntaremos primeiro em que lugar estais aqui e como vos
veríamos caso o pudéssemos fazer.

— Estou perto do médium. Vós me veríeis com a aparência do


Jobard que sentava à vossa mesa, po/s os i/ossos olhos mortais,
ainda vendados, só podem ver os Espíritos sob a aparência
mortal 52 .

3. Teríeis a possibilidade de vos fazer visível para nós, e se não


a tendes, o que é que se opõe a isso?

— A condição que vos é própria. Um médium vidente me veria,


os outros não.

4. Esse lugar era o mesmo que ocupáveis quando vivo,


assistindo as nossas sessões, e que nós sempre reservávamos.
Assim, os que então vos viam devem imaginar-vos e ver-vos da
mesma maneira. Se não tendes agora o corpo material, tendes o
corpo fluídico que possui a mesma forma daquele. Se não vos
vemos com os olhos do corpo, vemos com os olhos do
pensamento. Se não podeis falar-nos de viva voz, podeis fazê-lo
pela escrita com a ajuda do médium. Nossas relações não estão,
portanto, absolutamente interrompidas por causa da morte, e

52
O grifo é nosso. — Essa explicação de Jobard, tão simples, é de grande importância,
implicando problemas relacionados com o nosso condicionamento aos sentidos
orgânicos e às aparências do mundo físico, bem como referentes às questões de
"padronização de memória", hoje pesquisados pela Parapsicologia. Também o problema
de "condicionamento à crença", levantado por Richet e atualmente em foco no meio
parapsicológico, relaciona-se com essa referência de Jobard. A questão de natureza do
Espírito e da sua constituição energética é levantada por Jobard de maneira clara. O
perispírito é semelhante ao corpo físico, mas não é idêntico a ele em tudo. A forma
mortal é uma e a imortal é outra. (N. Do T.)
podemos conversar convosco tão fácil e perfeitamente como
outrora. É realmente assim que se passam as coisas?

— Sim, e o sabeis desde muito tempo. Ocuparei este lugar


frequentemente e mesmo que não o percebais, porque o meu
Espírito habitará entre vós.

Chamamos a atenção para esta última frase: Meu Espirito


habitará entre vós. Na circunstância em causa ela não constitui
uma figura, mas corresponde à realidade. Pelo conhecimento que
o Espiritismo nos dá sobre a natureza dos Espíritos, sabemos que
um Espírito pode estar entre nós, não só pelo pensamento, mas
em pessoa, graças ao seu corpo etéreo que lhe dá a necessária
distinção individual. Um Espírito pode pois habitar entre nós
depois da morte, como quando estava na vida corpórea, e ainda
com mais facilidade, desde que pode fazê-lo quando quiser.
Temos assim uma multidão de companheiros invisíveis, uns
indiferentes e outros ligados a nós pela afeição. É sobretudo a
estes últimos que se aplicam as palavras: e/es habitam entre nós,
que podemos traduzir assim: e/es nos assistem, nos inspiram e
nos protegem.

5. Não faz muito tempo que vinheis sentar nesse mesmo lugar
com o vosso corpo. As condições atuais em que fazeis o mesmo
não vos parecem estranhas? Que efeitos essa modificação
produziu em vós?

— Essas condições atuais não me parecem estranhas, porque,


desencarnado, o meu Espírito goza de uma lucidez que lhe
permite compreender todas as questões referentes ao assunto.

6. Lembrai-vos de haver estado nessas mesmas condições


antes da vossa última existência e percebeis agora qualquer
modificação?

— Lembro-me das existências anteriores e vejo que melhorei.


Agora eu vejo e compreendo em toda a extensão o que estou
vendo. Quando de minhas encarnações anteriores, Espírito
perturbado, eu só me apercebia de cada existência terrena que
havia deixado 53 .

53
A evolução do Espírito aumenta a sua capacidade de ver no passado,
sem que isso o prejudique diante dos erros cometidos. É o que o Sr.
Jobard explica nesta passagem, ao escrever: Lors de mês precedentes
incarnations, Esprit troublé, je ne m'apercevais dês lacunes terrestres.
Alguns tradutores não perceberam bem o sentido desta frase e
conseqüentemente de todo o texto do n° 7. As lacunas terrestres são as
existências materiais na vida passada do Espírito. O Espírito inferior só
vê as suas lacunas, ou seja, depois de cada encarnação só se
apercebe do que nela foi, não tendo conhecimento do seu passado
espiritual. (N. do T.)
7. Lembrai-vos da vossa penúltima existência, a que precedeu
a do Sr. Jobard?

— Na minha penúltima existência eu era um mecânico


atormentado pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar o meu
ofício. Como Jobard realizei os sonhos desse pobre operário.
Agora louvo a Deus cuja infinita bondade fez germinar a
pequenina semente que havia depositado em meu cérebro.

8. Já vos comunicastes em outro lugar?

— Até agora pouco me comuniquei. Em muitos lugares um


Espírito tem se servido de meu nome. Algumas vezes eu estava
perto dele sem poder comunicar-me diretamente. Minha morte é
tão recente que ainda sofro algumas influências terrenas. É
necessário haver uma perfeita simpatia para que eu possa
exprimir o meu pensamento. Dentro em breve poderei agir
indistintamente no tocante aos médiuns. Por enquanto, ainda não
o posso. Quando um homem um tanto conhecido morre, é
sempre chamado de todos os lados. Então, muitos Espíritos se
apressam a imitar a sua individualidade. Foi o que aconteceu
comigo em muitas circunstâncias. Asseguro-vos que assim tão
próximo da libertação poucos Espíritos podem comunicar-se,
mesmo através de um médium de sua preferência.
9. Vedes os Espíritos que aqui se encontram conosco?

—Vejo sobretudo Lázaro e Erasto. Depois, mais distanciados, o


Espírito de Verdade que paira no espaço. Depois, ainda, uma
multidão de Espíritos amigos que vos cercam, prestimosos e
benevolentes. Sois felizes, amigos, porque boas influências vos
livram das calamidades do erro.

10. Em vida participáveis da opinião que nos foi transmitida de


que a Terra se formou pela incrustação de quatro planetas que
teriam sido solda dos num só. Sois ainda da mesma opinião?

— Isso é errado. As novas descobertas geológicas revelam os


períodos de convulsão da Terra e a sua formação progressiva. A
Terra, como os outros planetas, teve o seu próprio
desenvolvimento. Deus não precisou lançar mão desse recurso
violento, dessa grande desordem que seria a agregação de
planetas. A água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da
Terra.

11. Acreditáveis também que os homens podiam cair em


catalepsia durante um tempo ilimitado e que a espécie humana foi
trazida dessa maneira para a Terra.
— Ilusão da minha imaginação, que ultrapassava sempre o
objetivo. A catalepsia pode ser longa, mas não indeterminada.
Tradições, lendas exageradas pela imaginação oriental! Meus
amigos, já sofri bastante ao lembrar as ilusões que o meu Espírito
alimentou: não vos enganeis. Eu havia estudado muito e posso
vos dizer que a minha inteligência, apta a observar tão vastos e
diversos estudos, havia trazido, entretanto, da minha última
encarnação o amor pelo maravilhoso e pelo imaginoso, que
hauriu no contato com a imaginação popular.

Estou agora pouco ocupado com as questões puramente


intelectuais, no sentido em que as considerais. Como o poderia
fazer, ofuscado, arrebatado como me encontro pelo maravilhoso
espetáculo que me envolve? Somente a atração do Espiritismo,
mais poderosa do que vós, homens, podeis conceber, pode fazer
o meu Espírito voltar para esta Terra que deixei, não com alegria,
pois isso seria uma impiedade, mas com a profunda gratidão da
libertação.

Quando da abertura da subscrição, pela Sociedade, em favor


dos operários de Lyon, em Fevereiro de 1862, um associado
assinou 50 francos, sendo 25 em seu nome e 25 em nome do Sr.
Jobard.
A respeito disso, este último deu a seguinte comunicação:

Estou orgulhoso e reconhecido por não ter sido olvidado entre


os meus irmãos Espíritas. Agradeço ao coração generoso que fez
a oferenda que eu teria feito se ainda estivesse no vosso mundo.
Naquele em que agora me encontro, não temos necessidade de
dinheiro. Eu teria, pois, de recorrer à bolsa da amizade para
demonstrar materialmente que havia sido tocado pelo infortúnio
dos meus irmãos de Lyon. Bravos trabalhadores, que
ardentemente cultivais a vinha do Senhor, como deveis estar
certos de que a caridade não é uma palavra vã, pois todos,
pequenos e grandes vos demonstram simpatia e amor fraterno.
Estais na ampla via humanitária do progresso. Que Deus possa
vos conservar nela, e que possais ser mais felizes. Os Espíritos
amigos vos sustentaram e triunfareis.

Começo agora a viver espiritualmente, mais tranquilo e menos


perturbado pelas evocações que de todos os lados choviam sobre
mim. A moda impera até mesmo entre os Espíritos. Quando a
moda Jobard for substituída por outra e eu tiver caído no
esquecimento humano, pedirei então aos meus verdadeiros
amigos, pelos quais entendo os que não se esquecem da nossa
convivência, eu lhes pedirei que me evoquem. Apuraremos então
os problemas tratados muito superficialmente, e o vosso Jobard,
completamente transfigurado, poderá vos ser útil, o que ele
deseja de todo o coração. Jobard.

Após os primeiros tempos, consagrados a tranquilizar os


seus amigos, o Sr. Jobard tomou lugar entre os Espíritos que
trabalham ativamente pela renovação social, enquanto
espera o seu próximo retorno entre os vivos para mais
diretamente agir nesse sentido. Desde então, tem dado
frequentemente à Sociedade de Paris, da qual continua a ser
membro, comunicações de superioridade incontestável, sem
se afastar da originalidade e do bom humor espiritual que
constituíam o fundo do seu caráter e nos permitem
reconhecê-lo antes mesmo da sua assinatura.

Samuel Philippe

Samuel Philippe era um homem de bem em toda a acepção do


termo. Ninguém se lembraria de tê-lo visto cometer uma ação má
nem de ter feito voluntariamente qualquer coisa errada. De um
devotamento sem limites para com os seus amigos, todos
estavam sempre certos de o encontrarás ordens quando dele
precisassem, mesmo em prejuízo dos seus interesses
particulares. Trabalhos, fadigas, sacrifícios, nada lhe custavam
para ser útil e ele os fazia naturalmente, sem ostentação,
admirando-se de lhe atribuírem algum mérito por isso.

Jamais quis mal aos que o tivessem prejudicado e procurava


obsequiá-los com tanto préstimo como se lhe tivessem feito o
bem.

Quando sofria com os ingratos costumava dizer: "Não é a mim


que se deve lamentar, mas a eles." Embora muito inteligente e
naturalmente dotado de muito espírito, sua vida, muito laboriosa,
foi obscura e cheia de rudes provas.

Era uma dessas naturezas de elite que florescem na sombra, que


o mundo não conhece e cuja luz não se expande sobre a Terra.
Havia adquirido, pelo conhecimento do Espiritismo, uma ardente
fé na vida futura e uma grande resignação perante os males da
vida terrena. Morreu em Dezembro de 1862, com a idade de 50
anos, após uma dolorosa moléstia, sendo sinceramente chorado
pela família e pelos amigos. Foi evocado muitos meses após a
morte.

P. Lembrai-vos com clareza de vossos últimos instantes na


Terra?
— Perfeitamente. Essa lembrança me veio pouco a pouco,
porque no momento as minhas ideias ainda estavam confusas.

P. Quereis descrever-nos, para nossa instrução e pelo


interesse que nos desperta a vossa vida exemplar, como se
verificou a vossa passagem da vida corpórea para a vida
espiritual, bem como a situação em que vos encontrais no mundo
dos Espíritos?

— De boa vontade. Este relato não será útil somente para vós,
mas também para mim. Voltando os meus pensamentos para a
Terra, a comparação me permitirá apreciar ainda mais a bondade
do Criador.

Sabeis de quantas tribulações foi cheia a minha vida. Mas


jamais me faltou a coragem na adversidade, graças a Deus, e
hoje me felicito por isso.

Quanto eu teria perdido se houvesse fraquejado! Só ao pensar


nisso sentime desfalecer, vendo que meus sofrimentos teriam
ficado sem proveito e deveria recomeçar. Oh! Meus amigos,
pudésseis compenetrar-vos bem desta verdade: ela interessa à
vossa felicidade futura. Não, certamente não é pagar muito caro
por essa felicidade com alguns anos de sofrimento. Se
soubésseis como são poucos alguns anos em face do infinito! Se
minha última existência teve qualquer mérito aos vossos olhos,
na verdade não poderíeis dizer o mesmo daquelas que a
precederam. Somente por grande esforço sobre mim mesmo
consegui tornar-me no que sou agora. Para fazer desaparecerem
os últimos traços de minhas faltas anteriores, era-me ainda
necessário sofrer essas derradeiras provas que voluntariamente
aceitei. Tirei da própria firmeza das minhas decisões a força para
suportá-las sem lamentar. Hoje as bendigo, a todas essas
provas. Graças a elas rompi minhas ligações com o passado que
se tornou para mim apenas uma lembrança. Posso agora
contemplar com legítima satisfação o caminho percorrido.

Oh, vós que me fizestes sofrer na Terra, que fostes duros e


maldosos para comigo, que me humilhastes e me cobristes de
amargura, cuja má-fé frequentemente me levou às mais ásperas
privações, eu não só vos perdoo, mas vos agradeço! Querendo
fazer-me o mal, não suspeitáveis que na verdade me fazíeis o
bem. Dessa maneira, é a vós que devo em grande parte a
felicidade que hoje desfruto, porque me proporcionastes a
ocasião de perdoar, retribuindo o mal com o bem. Deus vos pôs
no meu caminho para provar a minha paciência e me exercitar na
prática da caridade mais difícil: a de amar aos nossos inimigos.
Não nos impacienteis com essa digressão. Chegarei ao que me
pedistes.

Embora tivesse sofrido cruelmente com a minha doença final,


não passei pela agonia. A morte foi para mim como um sono,
como um sono tranquilo. Não tendo preocupações com o futuro,
não me apeguei à vida. Não tive, por conseguinte, de me debater
nos últimos instantes. A separação se operou sem esforços, sem
dor e sem que eu houvesse sequer me apercebido.

Não sei quanto durou este último sono, mas foi breve. O
despertar foi tão calmo que contrastava com a minha situação
anterior. Eu não sentia mais dores e me regozijava com isso.
Desejava levantar-me, andar, mas uma espécie de suave
entorpecimento, que nada tinha de desagradável, que tinha
mesmo um certo encanto, me retinha e eu me entregava a um
certo deleite sem ter consciência da minha situação e sem
duvidar que já havia deixado a Terra.

Tudo o que me cercava me aparecia como num sonho. Vi


minha mulher e alguns amigos ajoelhados e chorando no meu
quarto e disse para mim mesmo que sem dúvida me
consideravam morto. Quis desenganá-los, mas não consegui
articular nenhuma palavra, donde concluí que devia estar
sonhando. O que me confirmou nessa ideia foi ver-me cercado de
muitas criaturas amadas que haviam morrido há muito tempo e de
outras que eu não reconhecia imediatamente, mas que pareciam
velar por mim, esperando o meu despertar.

Esse estado era entretecido de instantes de lucidez e de


sonolência, durante os quais eu recobrava e perdia
alternadamente a consciência do meu eu. Pouco a pouco minhas
ideias foram adquirindo mais clareza. A luz que eu só entrevia
através de um nevoeiro se fez mais brilhante. Então, comecei a
reconhecer o meu estado e compreendi que já não pertencia mais
ao mundo terreno. Se eu não tivesse conhecido o Espiritismo, a
ilusão se teria sem dúvida prolongado, por muito tempo.

Meus despojos mortais não haviam sido ainda enterrados, mas


eu os considerava com piedade e me sentia feliz de haver me
desembaraçado deles. Era muito feliz de estar livre! Eu respirava
com a facilidade de quem sai de uma atmosfera asfixiante. Uma
invisível sensação de felicidade impregnava todo o meu ser. A
presença das criaturas que eu amava me enchia de alegria e eu
não estava surpreso de vê-las. Isso me parecia muito natural,
mas eu tinha a impressão de as rever após uma longa viagem.
Uma coisa me surpreendeu a princípio, o fato de nos
compreendermos sem dizer palavra. Nossos pensamentos se
transmitiam pelo simples olhar e como por uma espécie de
penetração fluídica.

Entretanto, eu ainda não estava completamente desligado das


ideias terrenas. A lembrança do que eu havia sofrido me voltava
de quando em quando à memória, como para me fazer melhor
apreciar a nova situação. Eu havia sofrido fisicamente, mas
sobretudo moralmente. Havia sido alvo da malevolência,
suportando essas mil perplexidades talvez mais penosas do que
as desgraças positivas, porque nos mantêm numa constante
ansiedade. Essa sensação não se havia apagado inteiramente e
às vezes eu me perguntava se já estava realmente
desembaraçado. Parecia-me ouvir ainda algumas vozes
desagradáveis. Preocupava-me com as dificuldades que elas me
haviam produzido tantas vezes e tremia sem querer. Eu me
(ateava, por assim dizer, para me assegurar de que não era o
joguete de um sonho. E quando a certeza de que tudo isso havia
acabado, me pareceu que me haviam aliviado de um peso
enorme.

É bem verdade, dizia-me, que estou enfim liberto de todas


essas preocupações que fazem o tormento da vida, e rendo
graças a Deus por esse fato. Era como um pobre que houvesse
recebido de repente uma grande fortuna e que durante algum
tempo duvida da realidade, sentindo ainda preocupações pelas
suas necessidades. Oh! Se os homens compreendessem a vida
futura, quanta força, quanta coragem essa compreensão lhes
daria nas adversidades! O que não fariam, durante sua existência
na Terra, para se garantirem a felicidade que Deus reserva aos
filhos que são dóceis às suas leis! Veriam então como são
insignificantes os prazeres que invejam nessa vida, em face
daqueles que desprezam!

P. Esse mundo, tão novo para vós e perante o qual o nosso


nada vale. e os numerosos amigos que reencontrastes vos
fizeram esquecer a família e os amigos que deixastes na Terra?

— Se os houvesse esquecido eu seria indigno da felicidade


que desfruto. Deus não recompensa o egoísmo. Ele o pune. O
mundo em que me encontro pode me levar a desdenhar a Terra,
mas não os Espíritos que nela vivem encarnados. Somente entre
os homens é que vemos a prosperidade levar ao esquecimento
dos companheiros de infortúnio. Quero sempre rever os meus,
sinto-me feliz com a saudade que eles sentem de mim, seu
pensamento me atrai para eles. Assisto às suas conversas, gozo
com as suas alegrias, suas preocupações me entristecem, mas
não se trata dessa tristeza cheia de ansiedade que sofremos na
vida humana, porque compreendo que as suas dificuldades são
passageiras e têm por fim levá-los ao bem.

Sinto-me feliz de pensar que um dia eles também virão para


este plano feliz em que a dor é desconhecida. Empenho-me em
ajudá-los a se tomarem dignos disso. Esforço-me para lhes
sugerir bons pensamentos e sobretudo a resignação que eu
mesmo tive perante a vontade de Deus. Minha maior tristeza é
vê-los retardar esse momento por sua falta de coragem, por suas
lamentações, sua dúvida sobre o futuro, ou por qualquer ação
repreensível.

Trato então de os afastar do mau caminho. Se o conseguir,


isso é para mim uma grande felicidade e todos nós aqui nos
regozijamos. Se eu fracasso, digo a mim mesmo com tristeza:
ainda uma vez retardaram o seu momento feliz. Mas me consolo
pensando que nem tudo está perdido de maneira irremediável.
Van Durst

Pouco tempo após a sua morte um médium perguntou ao seu


guia Espiritual se poderia evocá-lo e lhe foi respondido:

— Esse Espírito sai lentamente da sua perturbação. Ele


poderia atender desde já, mas a sua comunicação lhe custaria
muito. Peco-vos esperar ainda quatro dias e ele vos responderá.
Daqui até lá ele ficará sabendo das vossas boas intenções a seu
respeito e vos atenderá reconhecido e como bom amigo.

Quatro dias mais tarde o Espírito ditou o seguinte:

Meu amigo, minha vida pesou muito pouco na balança da


eternidade. Apesar disso, estou bem longe de ser infeliz. Estou
na condição humilde, mas relativamente feliz daquele que
praticou poucos males, sem, entretanto, visar à perfeição. Se há
criaturas felizes numa região inferior, pois bem:

eu sou uma delas. Lamento apenas uma coisa, que é não ter
conhecido o que hoje sabeis, porque minha perturbação teria sido
mais rápida e menos penosa.

Com efeito, ela foi grande. Viver e não viver, ver o corpo e
sentir-se fortemente ligado a ele, sem poder utilizá-lo. Ver aqueles
que amamos e sentir apagar-se o pensamento que nos ligava.
Isso é terrível! Oh, que momento cruel! Que momento é esse,
quando o aturdimento vos toma em suas garras e vos estrangula!
E logo a seguir, as trevas. Sentir, e um momento depois estar
aniquilado.

Quer-se ter a consciência de si mesmo, e não se consegue


recobrá-la. Não se é mais, e entretanto se sente que é. Estamos
numa perturbação profunda. E depois, transcorrido um tempo
inavaliável, tempo de angústias sufocadas, porque não temos a
possibilidade de as compreender, após esse tempo que parece
interminável, renascer lentamente para a nova existência, acordar
num mundo novo!

Nada de corpo material, nada de vida terrena: a vida imortal!


Nada de homens carnais, mas formas leves de Espíritos que
deslizam de todos os lados, circulando ao vosso redor sem que
os possais ver a todos, porque é no infinito que eles flutuam! Ter
o espaço diante de nós e poder percorrê-lo à vontade.
Comunicarmos pelo pensamento com tudo o que nos cerca.
Amigo, que vida inteiramente nova! Que vida brilhante! Que vida
de venturas! Salve, oh! salve eternidade que me acolheste em teu
seio! Adeus, oh! Terra que me retinhas por tanto tempo afastado
da minha verdadeira natureza espiritual! Não, eu nada mais
quereria de ti, porque és a terra do exílio e a maior das tuas
felicidades nada é mais para mim!

Mas se eu soubesse o que sabeis, quanto mais fácil me seria


esta iniciação na outra vida, e quanto mais agradável! Eu já
saberia antes de morrer o que tive de aprender mais tarde, no
momento da separação, e minha alma então se libertaria mais
facilmente. Estais no caminho, mas jamais, por mais que
puderdes fazer, jamais tereis feito muito! Dizei isso ao meu filho,
mas dizei-o tantas vezes que ele creia e se esclareça, porque
então ao chegar aqui não ficaremos separados.

Adeus a todos vós, meus amigos, adeus. Eu vos espero e


durante o tempo em que permanecerdes na Terra virei sempre
me instruir junto a vós, porque ainda não sei tanto como sabeis.
Mas aprenderei logo, pois aqui não tenho mais as dificuldades
que aí me embaraçavam e a velhice que me diminuía as forças.
Aqui se vive amplamente e se avança porque os horizontes se
alargam tão belos aos nossos olhos que nos sentimos ansiosos
de franqueá-los. Adeus, eu vos deixo, adeus. Vun Ourst.
Sixdeniers

(Homem de bem, morto por acidente econhecido


do médium quando vivo.) —(Bordeaux, 11 de
fevereiro de 1861.)

P. Poderias dar-me alguns detalhes da tua morte?

— Depois do afogamento, sim.

P. Porque depois?

— Porque já os conheces. (O médium realmente conhecia os


detalhes do afogamento.)

P. Queres então descrever as vossas sensações após a morte?


— Permaneci muito tempo sem dar conta de mim mesmo, mas
com a graça de Deus e a ajuda dos que me cercavam, quando a
luz se fez fiquei deslumbrado. Podes esperar: encontrarás
sempre mais do que pensavas. Nada de material. Tudo toca os
sentidos ocultos. Trata-se do que não podemos tocar nem com os
olhos nem com as mãos. Compreendes-me? É uma surpresa
espiritual que ultrapassa o teu entendimento, pois não há
palavras para explicá-la. Só podemos senti-la através da alma.

Meu acordar foi bastante feliz. A vida é um desses sonhos que,


malgrado a ideia grotesca ligada a essa palavra, só posso
qualificar como pesadelo horrível. Imagina que foste encerrado
numa prisão infecta, que teu corpo está sendo devorado pelos
vermes que penetram até a medula dos ossos e que te
suspenderam sobre uma fornalha em chamas. Imagina ainda que
a tua boca ressecada não tem sequer para refrescá-la a pureza
do ar, que teu Espírito horrorizado só vê ao seu redor monstros
que ameaçam devorar-te. Imagina, por fim, tudo quanto um sonho
assim fantástico pode produzir de mais hediondo, de mais
horrível, e transporta-te subitamente a um éden delicioso. Acorda,
então, cercado por todos os seres queridos que choravas. Vê ao
teu redor os rostos adorados que te sorriem felizes. Respira os
mais suaves perfumes, refresca tua ressecada garganta na fonte
da água pura. Sente o teu corpo elevado no espaço infinito que o
acolhe e embala como faz a brisa com uma pétala arrancada da
árvore. Sente-te envolvido pelo amor de Deus como a criança que
ao nascer é envolvida pelo amor da mãe, — e não terás mais do
que uma ideia imperfeita da transição da morte.

Quis explicar-te a felicidade da vida que espera o homem após


a morte do corpo, mas não consegui fazê-lo. Podes explicar o
infinito a quem tem os olhos fechados para a luz e jamais pode
sair do círculo estreito em que vive fechado? Para explicar-te a
felicidade eterna direi apenas: ama! Porque só o amor nos pode
fazer pressenti-la. E quem diz amor, diz ausência do egoísmo.

P. A tua situação foi feliz desde o princípio no mundo dos


Espíritos?

— Não. Eu tinha de pagar a dívida do homem. Meu coração


não me havia feito pressentir o futuro do Espírito, e além disso eu
não possuía a fé. Tive de expiar a minha indiferença para com o
Criador, mas a sua misericórdia levou em conta o pouco de bem
que eu havia podido fazer, das dores que eu havia suportado com
resignação apesar do meu sofrimento. E a sua justiça, que é
pesada numa balança que os homens jamais compreenderão,
pesou o bem para mim com tanta bondade e amor que o mal
prontamente desapareceu.

P. Podes me dar notícias da tua filha? (Morta quatro ou cinco


anos antes do pai.)

— Está em missão na Terra.

P. Ela se sente feliz como encarnada? Posso fazer-te uma


pergunta indiscreta?

— Já o sei. Não vês o teu pensamento colocado diante dos


meus olhos como num quadro? Não, como encarnada ela não é
feliz. Pelo contrário, todas as misérias da vida terrena devem
esperá-la. Mas ela deverá pregar pelo exemplo essas grandes
virtudes que se traduzem entre vós por grandes palavras. Eu a
ajudarei, porque devo velar por ela. Mas ela não terá grande
dificuldade para vencer os obstáculos. Não está em expiação,
mas em missão. Tranquiliza-te, pois, quanto a ela. E obrigado
pela tua lembrança.

Nesse momento, o médium sentiu dificuldade para escrever e


disse:

P. Se é um Espírito sofredor que me embaraça, eu lhe peço


que assine o seu nome.

— Uma infeliz.

P. Não queres dizer o teu nome?

— Valéria.

P. Queres dizer o que provocou o teu castigo?

— Não.

P. Não te arrependes das tuas faltas?

— Estás vendo.

P. Quem te trouxe aqui?


— Sixdeniers.

P. Com que fim?

— Para que me ajudes.

P. Foste tu que me impediste de escrever há pouco?

— Ele me pôs em seu lugar.

P. Que relação há entre vós?

— Ele me conduz.

P. Pergunte a ele se quer acompanhar-nos na prece?

— (Após a prece, Sixdeniers volta a escrever.) Agradeço por


ela. Compreendeste. Não te esquecerei. Pense nela.

P. (À Sixdeniers.) Como Espírito, tens muitos Espíritos


sofredores para guiar?

— Não. Mas tão logo conseguimos reconduzir um deles ao


bem, nos incumbimos de outro, sem entretanto abandonar os
primeiros.

P. Como podes atender a uma vigilância que deve se


multiplicar pelo infinito através dos séculos?

— Compreende que os que reconduzimos ao bem se purificam


e progridem. Assim, não nos dão mais trabalho. Ao mesmo tempo
nós também nos elevamos, e ao fazê-lo as nossas faculdades se
desenvolvem e o nosso poder se amplia na proporção da nossa
pureza.

Observação: Os Espíritos inferiores são portanto assistidos por


Espíritos bons, incumbidos da missão de orientá-los. Essa tarefa
não pertence exclusivamente aos encarnados, mas estes devem
contribuir para a sua execução, porque isso os ajuda a progredir.
Quando um Espírito inferior interfere numa boa comunicação,
como no caso presente, não o faz certamente, sempre, de boa
intenção. Mas os Espíritos bons o permitem, seja para
experimentar os encarnados, seja para que estes o ajudem a se
melhorar.

É verdade que a sua persistência pode degenerar em obsessão,


mas quanto mais tenaz ela for, maior é a prova da sua grande
necessidade de assistência. É um erro repelir o Espírito. É
necessário encará-lo como um pobre que vem nos pedir esmola e
considerar que é um Espírito infeliz mandado pelos Espíritos
bons, que o enviam para o esclarecermos. Se o conseguirmos,
teremos a alegria de haver encaminhado uma alma ao bem,
abreviando os seus sofrimentos.
Essa tarefa é frequentemente penosa. Seria, sem dúvida, mais
agradável receber sempre boas comunicações e conversar
apenas com os Espíritos de nossa preferência. Mas não é
buscando somente a nossa satisfação e rejeitando as ocasiões
que nos oferecem de praticar o bem que merecemos a proteção
dos Espíritos bons.

O Doutor Demeure

Demeure era um médico homeopata muito considerado em


Albi. O seu caráter e o seu saber lhe haviam conquistado a
estima e a veneração dos seus concidadãos. Sua bondade e sua
caridade eram inesgotáveis. Malgrado sua avançada idade, não
sentia fadiga quando se tratava de dispensar os seus cuidados a
pobres doentes.

O pagamento de suas visitas era o que menos lhe importava.


Ele se considerava menos incomodado pelos infelizes do que
pelos clientes que sabia poderem pagá-lo. E isso porque, dizia
ele, estes últimos podiam sempre, na falta dele, procurar outro
médico.
Aos infelizes ele não somente dava receitas e remédios sem
cobrar, mas frequentemente acrescentava o necessário para
suprir às suas necessidades materiais, o que às vezes é o mais
eficaz dos medicamentos. Podemos dizer que era o Cura D'Ars
da Medicina 54 .

Demeure havia abraçado com ardor a doutrina espírita, na qual


encontrara a chave dos mais graves problemas que havia
inutilmente procurado na ciência e na filosofia. Seu Espírito
profundo e investigador compreendeu imediatamente todo o
alcance da doutrina de que se tornou um dos mais zelosos
propagadores. Relações da mais viva e mútua simpatia
estabeleceram-se entre nós por meio da correspondência.

Soubemos da sua morte a 30 de janeiro. Nosso primeiro


pensamento foi o de obtermos uma conversação com ele. Eis a
comunicação que nos deu no mesmo dia:

Eis-me aqui. Prometi a mim mesmo, quando vivo, que ao


morrer viria, se me fosse possível, apertar a mão do meu querido
mestre e amigo, o Sr. Allan Kardec.

54
Jean Baptiste Marie Vianney (1786-1859) foi cura em Ars durante 41
anos, tornando-se famoso pelas suas curas mediúnicas e seu cuidado
com os pobres, Canonizado pela Igreja em 1931. Ver sua comunicação
no cap. VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo. (N. do T.)
A morte deixou a minha alma nesse pesado sono que
chamamos letargia, mas o meu pensamento velava. Sacudi esse
torpor funesto que prolonga a perturbação de após morte e me
despertei, fazendo de um salto a travessia.

Como sou feliz! Não estou mais enfermo nem velho. Meu corpo
era apenas uma vestimenta necessária. Sou jovem e belo, dessa
eterna beleza juvenil dos Espíritos, em que as rugas jamais
assinalam o rosto e os cabelos não embranquecem com o passar
do tempo. Estou leve como o pássaro que atravessa em rápido
voo o horizonte de vosso céu nebuloso. E admiro, contemplo,
bendigo e me inclino, átomo que sou, ante a grandeza, a
sabedoria e a ciência de nosso Criador, ante as maravilhas que
me cercam.

Estou feliz, estou na glória! Oh! Quem poderá jamais traduzir as


esplêndidas belezas da terra dos eleitos! Os céus, os mundos, os
sóis e seu papel no grande concurso da harmonia universal? Pois
bem, eu tentarei, oh! Meu mestre; vou fazer o estudo e virei
depositar aos vossos pés a homenagem dos meus trabalhos de
Espírito, que desde já vos dedico. Até breve.

Demeure.
As duas comunicações seguintes, dadas a 1 e 2 de fevereiro,
são relativas a doenças que nos haviam então acometido.
Embora sejam pessoais, reproduzimo-las porque elas provam
que o Sr. Demeure continua tão bom como Espírito quanto o era
como homem.

Meu bom amigo, tenha confiança em nós e bastante coragem.


Essa crise, embora fatigante e dolorosa, não será longa. Com os
tratamentos prescritos poderás logo, segundo desejas, completar
a obra que é o principal objetivo da tua existência. Sou eu quem
estou sempre aqui, ao teu lado, com o Espírito da Verdade, que
me permite falar em seu nome, como o último dos teus amigos
que chegou ao mundo dos Espíritos. Eles me fazem as honras da
recepção.

Caro mestre, como sou feliz de haver morrido a tempo de estar


com eles neste momento! Se eu tivesse morrido mais cedo, talvez
tivesse podido evitar essa crise que não previa. Era tão recente a
minha desencarnação que não pude ocupar-me de outras coisas
além do problema espiritual. Mas agora velarei por ti, caro mestre.
Sou o teu irmão e amigo que se sente feliz de ser Espírito para
estar ao teu lado cuidando da tua doença. Conheces o provérbio:
ajuda-te e o céu te ajudará. Ajuda, pois, os bons Espíritos nos
seus cuidados contigo, seguindo rigorosamente as suas
prescrições.

Está muito quente aqui. Esse carvão é fatigante. Enquanto


estás doente, não acendas mais o carvão. Ele aumenta a tua
opressão. Os gazes que desprende são deletérios. Teu amigo,

Demeure.

Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho dizer-lhe que


estava junto dele quando lhe sobreveio o acidente que poderia ter
sido funesto sem a intervenção eficaz para a qual tive a felicidade
de contribuir. Segundo as minhas observações e as informações
colhidas em boa fonte, parece-me que, quanto mais cedo se der a
sua resencarnação, mais cedo poderá se dar também a
reencarnação que lhe permitirá acabar a sua obra.

Entretanto, é necessário que ele dê, antes de partir, a


derradeira mão nas obras que devem completar a teoria
doutrinária de que foi iniciador. E será culpável de suicídio se
contribuir, por excesso de trabalho, para o aniquilamento do seu
organismo que o ameaça de uma partida súbita para o nosso
mundo. Não se deve temer dizer-lhe toda a verdade, para que
tome as suas providências e siga à risca as nossas prescrições,
..................................Demeure.
A seguinte comunicação foi obtida em Montalban, a 26 de
janeiro, no dia seguinte ao da sua morte, no círculo dos amigos
Espíritas que ele possuía nessa cidade:

"António Demeure. Eu não estou morto para vós, meus bons


amigos, mas somente para aqueles que não conhecem, como
vós, esta santa doutrina que reúne os que se amaram na Terra,
tendo os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos de
amor e caridade.

Estou feliz, mais feliz do que podeis supor, porque gozo de uma
lucidez rara entre os Espíritos tão recentemente libertos da
matéria. Tende coragem meus bons amigos. Estarei sempre junto
a vós e não deixarei de vos instruir sobre tantas coisas que
ignoramos quando estamos ligados à nossa pobre matéria, que
nos oculta tantas magnificências e impede tantas alegrias. Pedi
pelos que estão privados dessa felicidade, pois não sabem o mal
que fazem a si mesmos.

Não me demorarei hoje por mais tempo, mas quero dizer-vos


que não me sinto inteiramente estranho a este mundo dos
invisíveis, pois me parece que sempre o habitei. Sou feliz, porque
vejo daqui os meus amigos e posso comunicar-me com eles
sempre que o desejar.
Não choreis, meus amigos. Isso me faria lamentar de vos haver
conhecido. Deixai passar o tempo e Deus vos trará a este plano
onde todos nos devemos reunir. Boa noite. Que Deus vos
console. Eu estou convosco." Demeure.

Outra carta de Montalban contém o relato seguinte:

Havíamos ocultado à senhora G., médium vidente e sonâmbula


muito lúcida, a morte do senhor Demeure, para poupar a sua
extrema sensibilidade. O bom doutor, compreendendo sem
dúvida as nossas intenções, evitara de se manifestar a ela.

A 10 de fevereiro último estávamos reunidos a convite dos


nossos guias que diziam querer aliviar a senhora G. de uma
luxação que a fazia sofrer cruelmente desde a véspera. Nada
havíamos percebido e estávamos longe de pensar na surpresa
que eles nos reservavam. Logo que essa senhora entrou em
sonambulismo, começou a soltar gritos lancinantes, mostrando o
próprio pé.

Eis o que se passava:

A senhora G. via um Espírito curvado para a sua perna, e cujo


rosto permanecia oculto, fazendo fricções e massagens, e de vez
em quando produzindo uma tração longitudinal, absolutamente
como o faria qualquer médico. Essa operação era tão dolorosa
que a paciente vociferava e gesticulava desordenadamente. Mas
isso passou logo. Dentro de dez minutos toda a luxação havia
desaparecido, como a sua inflamação e o pé haviam voltado à
aparência normal. A senhora G. estava curada.

Entretanto o Espírito continuava desconhecido da médium e


insistia em não lhe mostrar o rosto. Tinha mesmo o ar de querer
fugir, quando a nossa doente, que alguns minutos antes não
podia dar um passo, se lançou de um salto no meio do quarto
para apertar a mão do seu médico espiritual. Ainda dessa vez o
Espírito desviava o rosto deixando apenas a sua mão nas mãos
da médium. Nesse momento a senhora G. deu um grito e caiu
desfalecida no soalho. Acabara de reconhecer o doutor Demeure
no Espírito curador.

Durante a síncope ela recebia os cuidados atenciosos de


muitos Espíritos simpáticos. Voltando, por fim, à lucidez
sonambúlica conversou com os Espíritos, trocando com eles
calorosos apertos de mão, notadamente com o Espírito do
médico, que respondia às suas provas de afeição envolvendo-a
em fluidos reparadores.

Esta cena não é surpreendente e dramática, dando-nos a


impressão de ver todos os personagens desempenhando o seu
papel na própria vida humana? Não constitui mais uma prova,
entre tantas, de que os Espíritos são seres bastante reais,
dotados de corpos e agindo como se estivessem na Terra?
Ficamos felizes de reencontrar o nosso amigo espiritualizado,
com seu excelente coração e sua mesma delicada solicitude. Ele
havia sido, durante a vida, o médico da médium. Conhecia sua
extrema sensibilidade e a havia tratado como sua própria filha.
Essa prova de identidade concedida aos que o Espírito amava
não é surpreendente e ao mesmo tempo suficiente para nos fazer
encarar a vida futura sob o seu aspecto mais consolador?

Observação: A situação do doutor Demeure, como Espírito, é


exatamente a que podíamos prever pela sua vida tão digna e
utilmente empregada. Mas outro fato, não menos instrutivo,
ressalta dessas comunicações. É a atividade que ele desenvolve
quase imediatamente após a sua morte, para ser útil. Por sua
elevada inteligência e suas qualidades morais ele pertence à
ordem dos Espíritos mais adiantados. Ele é feliz, mas a sua
felicidade não se faz de inação.

Alguns dias antes ele cuidava dos doentes como médico.


Apenas libertado, apressa-se em cuidar deles como Espírito. Que
adianta, então, ir para o outro mundo, dirão algumas pessoas, se
ali não se pode repousar? A isso também lhes perguntaremos,
primeiro, se o fato de não termos mais preocupações, nem
necessidades, nem estarmos sujeitos às enfermidades da vida
humana, de nos tornarmos livres e podermos, sem cansaço,
percorrer o espaço com a rapidez do pensamento, indo ver os
nossos amigos a qualquer momento e a qualquer distância em
que eles se encontrem, se tudo isso nada representa? Depois
acrescentaremos: quando estiverdes no outro mundo nada vos
forçará a fazer o que quer que seja; sereis perfeitamente livres de
permanecer numa ociosidade beatífica quanto quiserdes; mas
logo vos cansareis desse repouso egoísta e sereis os primeiros a
pedir alguma ocupação. Então vos será respondido: se vos
enjoais de nada fazer, procurai por vós mesmos fazer alguma
coisa. As ocasiões de ser útil não faltam no mundo dos Espíritos,
como não faltam entre os homens. É assim que a atividade
espiritual não representa um constrangimento, mas uma
necessidade, uma satisfação para os Espíritos que procuram as
ocupações segundo os seus gostos e as suas aptidões,
preferindo aquelas que podem ajudá-los mais no seu
desenvolvimento.
A Viúva Foulon

A senhora Foulon, morta em Antibes a 3 de fevereiro de 1865,


morou durante muito tempo no Havre, onde conquistou reputação
como miniaturista habilidosa. Seu talento notável serviu-lhe de
início, apenas como uma distração de amador. Mais tarde, porém,
quando chegaram os maus dias, ela soube aproveitá-lo como
precioso recurso. O que a tornava sobretudo amada e estimada,
o que torna a sua memória bastante cara a todos que a
conheceram, é a amenidade do caráter, são as suas qualidades
pessoais, que só os que a conheciam na intimidade puderam
apreciar em toda a amplitude. Porque, como todos os que
possuem o sentimento inato do bem, ela não alardeava as suas
qualidades e talvez nem mesmo as percebesse.

Se houve alguém que não se deixou dominar pelo egoísmo, foi


sem dúvida ela. Jamais, talvez, o sentimento da abnegação
pessoal foi levado tão longe. Estava sempre pronta a sacrificar o
seu repouso, a sua saúde, os seus interesses por aqueles a
quem podia servir. Sua vida foi uma longa sequência de atos de
abnegação, assim como, desde a juventude foi marcada por
provas rudes e cruéis, diante das quais a sua coragem, a sua
resignação e a sua perseverança jamais fraquejavam. Mas, por
desgraça a sua vista, cansada por um trabalho minucioso,
extinguia-se de dia para dia. Dentro de pouco tempo a cegueira,
já bastante avançada, completou-se.

Quando a senhora Foulon tomou conhecimento da doutrina


espírita, esta lhe pareceu como um raio de luz. Pareceu-lhe que
um véu se levantava deixando-lhe ver alguma coisa que não lhe
era estranha, mas da qual tinha apenas uma vaga intuição.
Estudou-a com ardor, mas ao mesmo tempo com essa lucidez de
espírito e essa justeza de apreciação que eram próprias da sua
elevada inteligência. Seria preciso conhecer todas as
perplexidades da sua vida, perplexidades que nunca se referiam
a ela mesma, mas aos seres que amava, para se compreender
quanto de consolações encontrou nessa revelação sublime que
lhe dava uma fé inabalável no futuro e lhe demonstrava o vazio
das coisas terrenas.

Sua morte foi digna da sua vida. Ela sentiu a sua aproximação
sem nenhuma apreensão penosa. Para ela, era a libertação dos
liames terrenos que devia abrir-lhe a via espiritual e bem-
aventurada com a qual se havia identificado pelo estudo do
Espiritismo. Morreu em paz, porque tinha a consciência de haver
cumprido a missão que aceitara ao vir para a Terra, de haver
escrupulosamente cumprido os seus deveres de esposa e mãe
de família. E também porque ela havia, durante a sua vida,
afastado todo ressentimento contra os que a ofenderam, os que
lhe haviam pago com a ingratidão. Pagou sempre o mal com o
bem e deixou a vida perdoando a todos para se entregar, ela
mesma, à bondade e à justiça de Deus.

Morreu, enfim, com a serenidade de uma consciência pura e a


certeza de que estaria menos separada dos seus filhos do que
durante a vida corpórea, desde que poderia dali por diante estar
com eles em Espírito, onde quer que se encontrassem, para os
ajudar com os seus conselhos e os cobrir com a sua proteção.

Desde que tivemos conhecimento da morte da Senhora


Foulon, nosso primeiro desejo foi o de conversar com ela. As
relações de amizade e de simpatia que a doutrina espírita fizera
nascer entre nós explicam algumas de suas expressões e a
familiaridade de sua linguagem.

(Paris, 6 de fevereiro de 1865, três dias após a sua morte)

Eu estava segura de que ias me evocar logo após a minha


libertação e estava pronta a atender, porque não passei pela
perturbação. Somente os que se atemorizam e são envolvidos
pelas espessas trevas do medo é que se perturbam.

Pois bem, meu amigo, agora estou feliz. Estes pobres olhos
que se haviam enfraquecido e só guardavam a lembrança das
visões que haviam colorido a minha juventude com suas
luminosidades, reabriram-se aqui e reencontraram os esplêndidos
horizontes que alguns dos vossos grandes artistas idealizam em
suas vagas reproduções, mas cuja realidade majestosa, severa e
não obstante cheia de encantos, constitui a mais positiva
realidade.

Há apenas três dias que morri e sinto que sou um artista.


Minhas aspirações no tocante ao ideal da beleza na arte eram
intuições de faculdades adquiridas e exercidas em outras
existências, tendo-se desenvolvido na última.

Mas o que devo fazer para reproduzir numa obra-prima, digna


da grandeza que me toca o espírito, o cenário que encontramos
na região da luz? Pincéis, pincéis, e eu provarei ao mundo que a
arte espírita é o coroamento da arte pagã, da arte cristã que
agora está em perigo, e que só ao Espiritismo está reservada a
glória de fazê-la reviver em todo o seu esplendor sobre o vosso
mundo em crise.

Basta para o artista. Chegou a vez da amiga:

Por que, boa amiga (senhora Allan Kardec) incomodar-se


assim com a minha morte? Sobretudo conhecendo como
conheces as decepções e as amarguras da minha vida, devias ao
contrário alegrar-te de ver que agora já não tenho mais de beber
na taça amarga das dores terrestres, que esvaziei até o fim.
Podes crer que os mortos são mais felizes que os vivos e chorá-
los seria duvidar da verdade do Espiritismo. Terás de me rever,
podes estar segura. Parti primeiro porque a minha tarefa nesse
mundo já estava terminada. Cada um tem a sua e deve realizá-la
na Terra. Quando acabares a tua, virás descansar um pouco
junto a mim para depois recomeçar, se necessário, considerando-
se que não é natural permanecer sem fazer nada.

Cada qual tem as suas tendências e as segue. Essa é uma lei


suprema, que prova o poder do livre-arbítrio. Mas também, minha
boa amiga, todos temos necessidade de indulgência e caridade
recíprocas, seja no mundo visível ou no mundo invisível. Com
essa divisa, tudo irá bem.
Não irás me dizer que chega. Sabes que é a primeira vez que
converso tão longamente? Assim vou deixar-te. Chegou a vez do
meu excelente amigo senhor Kardec.

Quero agradecer-lhe as afetuosas palavras que dirigiu à amiga


que o antecipou na tumba, pois devíamos partir juntos para o
mundo onde agora me encontro, meu bom amigo! (Alusão a
doença de Kardec de que falou o doutor Demeure.) Que diria
então a companheira querida dos vossos dias, se os bons
Espíritos não o tivessem socorrido em tempo? Então, sim, ela
teria chorado e clamado, o que se compreende. Mas agora é
preciso que ela vele por ti, evitando que te exponhas de novo ao
perigo antes de haver terminado o trabalho de iniciação espírita.
Sem isso corres o perigo de chegar muito cedo entre nós e assim
não ver, como Moisés, a Terra Prometida senão à distância. Põe-
te, pois, em guarda; é uma amiga que te previne.

Agora me vou. Volto para junto de meus queridos filhos. Depois


irei ver, para lá dos mares, se a minha ovelha viajora chegou
enfim ao porto ou está a mercê da tempestade. (Uma de suas
filhas morava na América.) Que os bons Espíritos a protejam. Vou
reunir-me a eles para isso. Voltarei a conversar convosco, porque
sou uma infatigável conversadora, como certamente vos lembrais.
Até a vista, meus bons e caros amigos. Até logo.

Viúva Foulon.

II

(8 de fevereiro de 1865.)

P. Cara senhora Foulon, fiquei muito contente com a


comunicação que me deste outro dia e com a promessa de
continuar a conversar conosco.

Eu te reconheci perfeitamente na comunicação. Falaste de


coisas que o médium não sabia e só podiam vir de ti mesma.
Além disso, a tua linguagem afetuosa para conosco era bem
aquela da tua alma amorosa. Mas havia nas tuas palavras uma
segurança, um equilíbrio, uma firmeza que eu não percebera
durante tua vida. Sabes que me permiti, a esse respeito, advertir-
te em algumas ocasiões.

— É verdade. Mas desde que me vi gravemente enferma


recuperei o equilíbrio espiritual que havia perdido com os
desgostos e as vicissitudes que às vezes me tornavam insegura
na vida. Eu me disse a mim mesma:
Tu és Espírito; esquece a Terra; prepara-te para a transformação
do teu ser; vê, pelo pensamento, a senda luminosa que tua alma
deve seguir ao deixar o corpo e que a conduzirá, liberta e feliz, às
esferas celestes onde deves viver de agora em diante.

Dirás que fui um tanto presunçosa, contando com a felicidade


perfeita ao deixar a Terra, mas tanto eu havia sofrido que já devia
ter expiado as minhas faltas dessa existência e das anteriores.
Essa intuição não me enganara. Foi ela que me deu a coragem, a
calma e a firmeza dos últimos instantes. Essa firmeza aumentou
naturalmente quando, após a minha libertação, vi que as minhas
esperanças estavam realizadas.

P. Queres agora nos descrever a vossa passagem, o vosso


despertar e as vossas primeiras impressões?

— Eu sofri, mas o meu Espírito foi mais forte que o sofrimento


material do despreendimento. Após o último suspiro, passei por
uma espécie de síncope perdendo a consciência, nada
percebendo, numa vaga sonolência que não era o o sono do
corpo nem o despertar da alma.

Durante longo tempo permaneci assim. Depois, como se saísse


de um longo desfalecimento, fui me despertando pouco a pouco
em meio de irmãos que não conhecia. Eles me prodigalizavam os
seus cuidados e as atenções. Mostraram-me um ponto no espaço
que se assemelhava a uma estrela brilhante e disseram: "É para
lá que vais conosco, pois não pertences mais à Terra." Então eu
me lembrei. Amparada por eles, como um grupo gracioso que se
lança em direção às esferas desconhecidas, mas com a certeza
de lá encontrar a felicidade, subimos, subimos enquanto a estrela
crescia à nossa frente.

Era um mundo feliz, um mundo superior em que a vossa boa


amiga vai por fim encontrar o repouso. Quero dizer o repouso em
relação às fadigas corporais que sofri e às vicissitudes da vida
terrena, mas não à indolência do Espírito, porque a atividade
espiritual é o fluir de uma aventura.

P. Então deixaste definitivamente a Terra?

— Deixo aí muitos seres queridos para poder abandoná-la em


definitivo. Voltarei a ela em Espírito, pois tenho uma missão a
cumprir junto de meus filhos. Sabes muito bem que nenhum
obstáculo se opõe à visita dos Espíritos dos mundos superiores à
Terra.

P. A tua posição atual não parece enfraquecer as tuas relações


com os que deixastes neste mundo?
— Não, meu amigo, o amor aproxima as almas. Creia-me,
pode-se estar, na Terra, mais próximo dos que atingiram a
perfeição do que daqueles que a inferioridade e egoísmo fazem
turbilhonar em torno da esfera terrestre. A caridade e o amor são
dois motivos de poderosa atração. Formam o liame que mantém
a união das almas, fazendo-a continuar independentemente das
distâncias e dos lugares. Só há distância para os corpos
materiais, pois ela não existe para os Espíritos.

P. Que ideia fazes agora dos meus trabalhos referentes ao


Espiritismo?

—Vejo que estás encarregado do problema das almas e que o


fardo é difícil de carregar, mas vejo o alvo e sei que o atingirás.
Eu te ajudarei no que puder com os meus conselhos espirituais
para que possas vencer todas as dificuldades sugerindo-vos
certas medidas apropriadas a ativar, durante a tua vida, o
movimento renovador do Espiritismo. Teu amigo Demeure, unido
ao Espírito da Verdade, te prestará maior concurso ainda. Ele é
mais sábio e mais prudente do que eu. Mas como sei que a
assistência dos bons Espíritos te fortalece e sustenta na luta,
podes crer que o meu concurso não te faltará por toda a parte e
sempre.
P. De algumas das tuas palavras pode-se deduzir que não
darás uma colaboração pessoal bastante ativa à obra do
Espiritismo.

— Estás enganado. É que vejo tantos outros Espíritos mais


capazes do que eu de tratar desta importante questão, que um
sentimento de invencível timidez me impede no momento de
responder-te como desejas. Mas isso talvez aconteça. Terei mais
coragem e audácia, quando melhor conhecer esses Espíritos. Há
apenas quatro dias que morri. Estou ainda sob o fascínio e o
deslumbramento de tudo o que me cerca. Meu amigo, não
compreendes? Não sou capaz de exprimir as sensações novas
que experimento. Tenho de esforçar-me para vencer a fascinação
que exercem sobre mim as maravilhas que admiro. Só posso bem
dizer e adorar a Deus nas suas obras. Mas isso passará. Os
Espíritos me asseguram que logo estarei acostumada a todas
essas magnificências e então poderei, com minha lucidez
espiritual, tratar de todas as questões relativas à renovação
terrestre. Depois, além de tudo isso, lembra-te de que tenho,
sobretudo, neste momento, uma família a consolar.
Adeus e até logo. A boa amiga que te ama e te amará sempre,
meu mestre, pois te deve a única consolação durável e
verdadeira que experimentou na Terra. Viúva Foulon.

(Esta comunicação foi dada aos seus filhos, a 9 de fevereiro.)

Meus filhos, meus queridos. Deus me tirou de junto de vós,


mas a recompensa que me concedeu é muito grande em
comparação com o pouco que fiz na Terra. Tende resignação,
meus bons filhos, ante os desígnios do Altíssimo. Tirai de tudo
quanto ele vos permitiu receberdes a força de suportar as provas
da vida. Mantende sempre firme no vosso coração essa crença
que tanto me facilitou a passagem da vida terrena para a vida que
nos espera ao sair desse mundo inferior.

Deus me amparou, após a morte, em sua inesgotável bondade,


como havia feito quando me encontrava na Terra. Agradecei-lhe
todos os benefícios que vos tem concedido. Bendizei-o, meus
filhos, bendizei-o sempre, a todos os instantes. Nunca percais de
vista o vosso alvo, nem a rota que deveis seguir. Pensai no
emprego que tendes dado ao tempo que Deus vos concede na
Terra. Sereis felizes, meus queridos, felicitando-vos uns aos
outros, se permanecerdes unidos. Sereis felizes com os vossos
filhos, se os educardes no bom caminho, naquele que Deus
permitiu vos fosse revelado.

Oh! Se não podeis me ver, sabei entretanto que o laço que nos
ligava nesse mundo não se rompeu com a morte do corpo,
porque não era o invólucro que nos ligava, mas o Espírito. É por
isso, meus queridos, que eu poderei, graças à bondade doTodo-
Poderoso. guiar-vos ainda e encorajar-vos na vossa marcha, para
nos juntarmos mais tarde.

Avante, meus filhos, cultivai com o mesmo amor essa crença


sublime.
Bons dias vos estão reservados, a vós que credes. Já vos
disseram isso, mas eu não devia ver esses dias na Terra. É de
mais alto que apreciarei esses tempos felizes prometidos pelo
Deus bom, justo e misericordioso.

Não chorai, meus filhos. Que estas comunicações fortaleçam a


vossa fé, o vosso amor a Deus, que tantos dons vos concedeu,
que tantas vezes enviou o socorro da fé à vossa mãe. Orai
sempre: a prece fortalece. Segui as instruções que tão
ardentemente eu segui na vida que Deus nos concedeu.

Voltarei até vós, meus filhos, mas agora preciso amparar a


minha pobre filha, que tanto ainda necessita de mim. Adeus, até
breve. Crede na bondade do Todo-Poderoso. Eu peço por vós.
Até a vista. Viúva Foulon.

Observação: Qualquer pessoa séria e esclarecida facilmente


verá os ensinos que ressaltam dessas comunicações, mas não
obstante chamaremos a atenção sobre dois pontos. O primeiro, é
o fato do que este exemplo nos mostra a possibilidade de não
voltarmos a encarnação terrena, passando deste mundo para
outro superior, sem por isso ficarmos separados das criaturas
queridas que aqui deixamos. Os que, pois, temem a
reencarnação por causa das dificuldades da vida, podem afastar
esse temor empenhando-se em trabalhar para se melhorarem. É
como aquele que não quer vegetar nas posições inferiores,
devendo instruir-se e trabalhar para alcançar situações melhores.

O segundo ponto é a confirmação do princípio de que após a


morte estamos menos separados dos entes queridos, do que
durante a vida. A senhora Foulon, retida pela idade e a
enfermidade numa cidadezinha do sul, só tinha ao seu lado uma
parte da sua família. A maioria de seus filhos e de seus amigos
estavam longe. dispersos, de maneira que os obstáculos
materiais se opunham a que ela pudesse vê-los com a frequência
que desejasse. As grandes distâncias tornavam rara e difícil a
própria correspondência com alguns deles.

Mal se desembaraçou do seu corpo e eis que, ligeira, corre


para junto de cada um, vencendo as distâncias sem fadiga, com a
rapidez do relâmpago. Pode então vê-los, assiste às suas
reuniões íntimas, envolve-os na sua proteção, e pode, através da
mediunidade, conversar com eles a todo instante como se
estivesse viva. E dizer que a esta consoladora ideia, há gente que
prefere a de uma separação indefinida!

Um Médico Russo

O senhor P. era um médico de Moscou, tão distinto pelas suas


eminentes qualidades morais quanto pelo saber. A pessoa que o
evocou só o conhecia pela reputação, não tendo tido relações
diretas com ele. A comunicação original foi dada na língua russa.

P. (Após a evocação.) Estás aqui?

— Sim. No dia da minha morte insisti em apresentar-me mas


resisti a todas as minhas tentativas de fazer-te escrever. Ouvi as
palavras que dizias a meu respeito. Isso me fez conhecer-te e tive
então o desejo de conversar contigo e poder servir-te.
P. Porque, tendo sido tão bom, sofreste tanto?

— Isso foi uma graça do Senhor que desejava me fazer sentir


dessa maneira, o valor da minha libertação e fazer-me avançar o
mais possível neste mundo.

P. A ideia de morrer te aterrorizou?

— Não, eu tinha muita fé em Deus para isso.

P. A separação foi dolorosa?

— Não. O que chamam de último momento não é


nada. Senti apenas um estremecimento muito rápido e logo após
já me encontrava muito feliz de haver me desembaraçado da
minha miserável carcaça.

P. O que aconteceu então?

— Tive a ventura de ver que numerosos amigos


vinham ao meu encontro desejando-me as boas vindas,
principalmente aqueles que eu tivera a satisfação de ajudar.

P. Em que região estás? Em algum planeta?

— Ao redor dos planetas há o que chamas espaço.


É aí que me encontro. Mas quantas graduações existem nesta
imensidade, das quais o homem não pode fazer ideia! Quantos
degraus existem nesta escada de Jacó que vai da terra ao céu,
ou seja, do aviltamento da encarnação num mundo inferior como
o vosso até a depuração completa da alma! Aqui, onde me
encontro, não se chega senão depois de muitas provas, o que
vale dizer de muitas encarnações.

P. Então, deves ter tido muitas existências?

— Como poderia ser de outra maneira? Não há


exceções na ordem imutável estabelecida por Deus. A
recompensa só pode ser dada após a vitória na luta. E quando a
recompensa é grande, necessariamente a luta também o foi. Mas
a vida humana é tão curta que a luta só se realiza de fato através
de intervalos, e esses intervalos são as diferentes existências
sucessivas. Ora, desde que estou num degrau elevado é certo
que atingi essa felicidade por uma sucessão de combates, nos
quais Deus me permitiu a vitória algumas vezes.

P. Em que consiste a tua felicidade?

— Isso é mais difícil de te dar a compreender. A


felicidade que sinto é um contentamento extremo de mim mesmo.
Não pelos meus méritos, o que seria orgulho, e o orgulho é a
marca dos Espíritos réprobos, mas um contentamento, por assim
dizer, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua infinita
bondade. É a alegria profunda de ver o bom e o bem, de poder
dizer: talvez eu tenha contribuído para o melhoramento de
algumas criaturas que se elevaram ao Senhor. A gente se sente
como que identificada com a felicidade. É uma espécie de fusão
do Espirito com a bondade Divina. Tem-se o dom de ver os
Espíritos mais puros, de compreendê-los em suas missões,
sabendo que também se chegará lá.

Pode-se entrever, no infinito incomensurável, as regiões


resplandescentes do fogo divino, chegando-se mesmo a ofuscar-
se ao contemplá-las através do véu que ainda as envolve.

Mas, que digo? Compreendes as minhas palavras? Esse fogo


de que falo, pensas que seja, por exemplo, semelhante ao sol?
Não. não. É alguma coisa indizível para o homem, pois as
palavras só exprimem os objetos, as coisas físicas ou metafísicas
de que se tem conhecimento peia memória ou pela intuição da
alma, enquanto não podendo ter nenhuma memória do
desconhecido absoluto, não se dispõe de termos que possam dar
essa compreensão. Mas fica sabendo que é já uma felicidade
imensa pensar que se pode subir infinitamente.

P. Tiveste a bondade de dizer que me queres ser útil. Em que,


pergunto?
— Posso ajudar-te nos momentos de desânimo, amparar-te
nas fraquezas, consolar-te nas angústias. Se a tua fé for abalada
por alguma perturbação e te sentires vacilante, chama-me,
chama-me. Deus me dará as palavras necessárias para lembrá-
lo a ti e reconduzir-te a ele. Se te sentires prestes a sucumbir sob
o peso das tendências de que tu mesmo te reconheces culpado,
chama-me. Eu te ajudarei a carregar a tua cruz, como Jesus foi
ajudado a carregar a dele, aquela em que devia tão altamente
nos proclamar a verdade, a caridade. Se fracassares ao peso das
amarguras, se o desespero te dominar, chama-me. Eu virei tirar-
te desse abismo falando-te de Espírito a Espírito, lembrando-te o
cumprimento dos deveres que te competem, não em virtude de
considerações sociais e materiais, mas pelo amor que sentirás
em mim, amor que Deus dispensou ao meu ser para que o
transmita aos que ele pode salvar. Tens, sem dúvida, amigos na
Terra. Eles partilham talvez das tuas dores e talvez já te
socorreram. Nas aflições vais procurá-los, levar-lhes os teus
lamentos e as tuas lágrimas, e eles te dão em troca essa prova
de afeição que são os seus conselhos, o seu apoio, as suas
atenções. Pois bem. não pensas que um amigo daqui seja
também um bom achado? Não é consolador poder dizer: quando
eu morrer, os meus amigos da Terra estarão à minha cabeceira
orando por mim e chorando sobre mim, mas os meus amigos do
espaço estarão no limiar da nova vida e virão sorridentes ao meu
encontro para me conduzirem ao lugar que eu tiver merecido
pelas minhas virtudes?

P. Porque mereci a proteção que me queres dar?

— Eis porque me liguei a ti desde o dia da minha morte. Eu te vi


como espírita, bom médium e adepto sincero. Entre os que deixei
nesse mundo não vi ninguém em melhores condições. Então
resolvi contribuir para o teu progresso, sem dúvida no teu
interesse, mas ainda mais no interesse de todos os que chamaste
para os encaminhar à verdade. Vês que Deus te ama bastante
para fazer-te missionário. Todos, ao teu redor, pouco a pouco vão
partilhando das tuas crenças. Os mais rebeldes não deixam de te
ouvir e um dia verás que te aceitam. Não os abandones. Prossiga
sempre, malgrado as pedras do caminho. Toma-me como bordão
na tua fraqueza.

P. Não me considero digno de tão grande favor.

— Não há dúvida que estás longe da perfeição. Mas o teu ardor


na difusão das boas doutrinas, no alento à fé dos que te ouvem,
na pregação da caridade, da bondade, da benevolência, mesmo
quando procedem mal contigo, tua resistência aos impulsos da
cólera que facilmente podias satisfazer, contra os que te
aborrecem ou menosprezam as tuas intenções, tudo isso
felizmente serve de contrapeso ao que ainda possuis de mau, é
um poderoso contrapeso, como o perdão.

Deus te cobre com as suas graças através da faculdade que te


deu e que cabe a ti desenvolver pelos teus esforços a fim de
trabalhar eficazmente para a salvação do próximo. Deixo-te, mas
conta comigo. Trata de moderar os teus caprichos terrenos e de
viver mais frequentemente com os teus amigos deste lado.

P.

Bernardin

(Bordeaux, abril de 1862.)

Sou um Espírito esquecido há muitos séculos. Vivi na Terra em


miséria e opróbrio. Trabalhei sem descanso para dar cada dia à
minha família um pedaço de pão insuficiente. Mas eu amava o
verdadeiro Mestre, e quando aquele que me sobrecarregava na
Terra fazia aumentar o meu fardo de dores, eu dizia: meu Deus,
dai-me a força para suportar esse peso sem me lamentar.
Eu estava em expiação, meus amigos, mas ao sair dessa rude
prova o Senhor me recebeu na sua paz e o meu desejo mais caro
é o de reunir todos vós ao redor de mim, meus filhos, meus
irmãos, e dizer-vos: qualquer que seja o preço pago na Terra, a
felicidade que vos espera está muito acima dele.

Nunca tive posição. Filho de numerosa família, servi aos que


podiam me ajudar a suportar a vida. Nascido numa época em que
a servidão era cruel, suportei todas as injustiças, todas as cargas
e todos os excessos que os auxiliares do patrão quiseram impor-
me.

Vi minha mulher ultrajada, minhas filhas raptadas e depois


rejeitadas, sem que pudesse queixar-me. Vi meus filhos
envolvidos em roubos e outros crimes, sem o quererem, e depois
enforcados por crimes que não cometeram.

Se soubésseis, pobres amigos, o que sofri numa tão longa


existência!
Mas eu esperava, eu esperava a felicidade que não é da Terra e
que o Senhor por fim me concedeu. A todos vós, portanto, meus
irmãos, desejo coragem, paciência e resignação.
Meu filho, podes guardar o que te dei: é um ensinamento
prático. Aquele que prega é melhor ouvido quando pode dizer: eu
suportei mais do que vós, e suportei sem me queixar.

P. Em que época viveste?

—De 1400a 1460.

P. Tiveste nova existência depois?

— Sim, vivi ainda como missionário entre vós. Sim, um


missionário da fé, mas da verdadeira, da pura, daquela que nos
vem da mão de Deus e não daquela que os homens fizeram.

P. Agora, como Espírito, ainda tens ocupações?

— Poderias pensar que os Espíritos ficam inativos? A


inatividade, a inutilidade seria para eles um suplício. Minha
missão é a de guiar centros de trabalhadores no Espiritismo.
Inspiro-lhes bons pensamentos e me esforço para neutralizar
aqueles que os maus Espíritos tentam sugerir.

Bernardin.
A Condessa Paula

Era uma jovem mulher, bela, rica, nascida em família ilustre, e


além disso um modelo completo de todas as virtudes de coração
e espírito. Morreu aos 36 anos, em 1851. Era uma dessas
criaturas cuja morte põe em todas as bocas as seguintes
palavras: "Por que Deus retira tão cedo pessoas como essa da
Terra?"

Felizes os que fazem assim abençoada a própria memória! Ela


era boa, doce, indulgente para com todos. Sempre pronta a
desculpar ou atenuar o mal, em vez de aumentá-lo. Jamais a
maledicência lhe manchou os lábios. Sem arrogância nem
estupidez, tratava os seus inferiores com uma benevolência que
não descia a excessos de familiaridade, sem distanciá-los com
ares de superioridade ou de uma proteção humilhante.

Compreendendo que as pessoas que vivem do seu trabalho


não possuem outros rendimentos e precisam do dinheiro que
ganham, seja por sua posição, seja para viverem, jamais retardou
o pagamento de um salário. O simples pensamento de que
alguém pudesse passar necessidade pela falta de pagamento lhe
produziria um peso na consciência. Não era dessas pessoas que
sempre dispõem de dinheiro para satisfazer as suas fantasias,
mas não para pagarem aos que devem. Não compreendia que
pudesse ser de bom gosto para o rico fazer dívidas, e se sentiria
humilhada se alguém pudesse dizer que os seus fornecedores
eram obrigados a contemporizar os pagamentos. Assim, a sua
morte provocou muitas lamentações, mas nenhuma reclamação.
Sua caridade era inesgotável, mas não dessa caridade
convencional que se ostenta em pleno dia. Era a caridade do
coração e não a da ostentação. Só Deus sabe as lágrimas que
ela enxugou e os desesperos que acalmou, pois as suas boas
ações só eram testemunhadas por ela e pelos infelizes a que
assistia. Sabia sobretudo descobrir os infortúnios ocultos, que são
os mais pungentes, socorrendo-os com a delicadeza que reergue
moralmente e ajudando em vez de rebaixá-lo.

Sua posição e as elevadas funções do marido a obrigavam a


uma despesa caseira a que não podia furtar-se. Mas,
satisfazendo inteiramente as exigências da sua posição, sem
mesquinhez, ela o fazia com método, conseguindo evitar
desperdícios ruinosos e despesas supérfluas, o que lhe permitia
reduzir pela metade o que outros teriam gasto sem fazerem
melhor.
Podia assim reservar da sua fortuna uma parte maior para os
necessitados. Havia destinado uma parte importante de seus
recursos exclusivamente para este fim, e essa destinação era
sagrada para ela, considerando-a como redução a fazer nas
despesas caseiras. Encontrou assim o meio de conciliar os seus
deveres sociais com os seus deveres na assistência aos
infelizes 55 .

Evocada doze anos após a morte por um parente iniciado no


Espiritismo, deu a seguinte comunicação, respondendo a diversas
perguntas que lhe foram feitas. Foram tiradas desta comunicação,
dada em língua alemã, os tópicos que interessam ao nosso
assunto, deixando-se de lado os de interesse da família.

"Tens razão, meu amigo, de pensar que sou feliz. Eu o sou,


com efeito, além de tudo o que se pudesse conceber, e não
obstante estou ainda longe do plano superior. Eu pertencia aos
felizes da Terra, pois não me lembro de ter experimentado

55
Pode-se dizer que era um vivo retraio da mulher caridosa
apresentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII. (N, de
Kardec). — Fazer dividas e ser displicente no pagamento era uma
forma de mostrar superioridade usada pelos ricos e os nobres. Por isso
é que Kardec se refere ao assunto ao tratar da Condessa Paula. Ainda
hoje algumas pessoas de posse acham elegante tratar com displicência
os seus credores pobres, tripudiando sobre as necessidades do
próximo. (N do T.)
nenhum sofrimento real. Juventude, saúde, fortuna, homenagens,
eu tinha tudo o que constitui a felicidade entre vós. Mas o que é
essa felicidade ao lado da que se encontra aqui? Que são as
vossas festas mais esplêndidas, em que se exibem as mais ricas
jóias, comparadas as assembleias dos Espíritos que
resplandecem de uma luz que os vossos olhos não poderiam
suportar e que é o apanágio da sua pureza?

O que são os vossos palácios e os vossos salões dourados


ante as moradas aéreas, o vasto campo do espaço matizado de
cores que fariam empalidecer o arco-íris? Que são os vossos
passeios passo a passo nos parques, ante a viagens através da
imensidão, mais rápidas do que o relâmpago? O que são os
vossos horizontes limitados e carregados de nuvens, ante o
grandioso espetáculo dos mundos a se moverem no universo
sem limites, sob a poderosa mão do Altíssimo?

Como os vossos concertos mais melodiosos são tristes e


ruidosos, ante esta harmonia que faz vibrar os fluidos do éter e
todas as fibras da alma? Como as vossas grandes alegrias são
tristes e insípidas ante a inefável sensação de felicidade que
incessantemente satura o nosso ser à maneira de um eflúvio
benfazejo, sem nenhuma mescla de inquietação, nenhuma
preocupação, nenhum sofrimento! Aqui tudo respira amor e
confiança e sinceridade. Por toda parte corações amantes, por
toda parte vemos amigos, nada de invejosos e ciumentos. Esse é
o mundo em que me encontro, meu amigo, e todos vós o
atingireis infalivelmente seguindo o caminho certo.

Entretanto uma felicidade uniforme logo aborreceria. Não


penses que a nossa felicidade esteja livre de vicissitudes. Não se
trata de um concerto perpétuo, nem de uma festa sem fim, nem
de beatífica contemplação através da eternidade. Não. É o
movimento, a vida, a atividade. As ocupações, embora isentas de
fadigas, apresentam incessante variedade de aspectos e de
emoções, pelos mil incidentes que as continham. Cada qual tem
a sua missão a cumprir, seus protegidos a assistir, amigos da
Terra a visitar, processos da Natureza a dirigir, almas sofredoras
a consolar. Há um vaivém, não de uma rua para outra, mas de
um mundo para outro. As criaturas se reúnem, se separam para
novamente se juntarem; encontram-se aqui e ali, conversam
sobre o que fazem, felicitam-se pelos sucessos obtidos;
entendem-se, assistem-se mutuamente nos casos difíceis. Enfim,
asseguro-te que ninguém dispõe de um segundo de tempo para
se enfadar.
Neste momento a Terra é a nossa grande preocupação. Que
movimento entre os Espíritos! Que numerosas falanges afluem a
ela a fim de concorrerem para a sua transformação! Dir-se-ia uma
multidão de trabalhadores ocupados em destrinçar uma floresta
sob o comando de chefes experimentados. Uns abatem as velhas
árvores a golpes violentos, arrancamlhes as profundas raízes;
outros desbastam o terreno; estes preparam a terra que semeiam
e aqueles edificam a nova cidade sobre as ruínas palpitantes do
mundo destruído. Durante esse tempo, os chefes se reúnem,
discutem e enviam mensageiros com suas ordens a todas as
direções. A Terra deve ser regenerada dentro de um tempo
determinado. É necessário que se cumpram os desígnios da
Providência. Eis porque todos se esforçam. Não penses que eu
seja apenas espectador desse grande trabalho. Eu me
envergonharia de permanecer inativa quando todos estão
ocupados. Importante missão me foi confiada e me esforço para
cumpri-la da melhor maneira possível.

Não foi sem lutas que cheguei à posição que ocupo na vida
espiritual. Sabes que a minha última existência, por mais meritória
que te pareça, não seria suficiente para isso. Durante muitas
existências passei pelas provas do trabalho e da miséria, que
voluntariamente escolhera para fortificar e depurar a minha alma.
Tive a felicidade de sair vitoriosa dessas provas, mas restava
ainda uma a enfrentar, a mais perigosa de todas: a da fortuna e
do bem-estar material, de um bem-estar sem mistura de
amarguras. Nela estava o perigo. Antes de tentá-la, desejei sentir-
me suficientemente forte para não sucumbir. Deus levou em
conta a minha boa intenção e me concedeu a graça de me
amparar. Muitos Espíritos, seduzidos pelas aparências, se
precipitam na escolha e, que desgraça. Demasiado fracos para
enfrentar o perigo, as seduções triunfam sobre a sua
inexperiência 56 .

Trabalhadores, estou nas vossas fileiras! Eu, a dama nobre,


ganhei, como vós, o meu pão com o suor da minha fronte. Sofri
nas privações, passei pelos maus tempos e foi isso que
desenvolveu as forças viris de minha alma. Sem isso eu teria
provavelmente fracassado na minha última prova, o que me
afastaria bem longe da atual situação. Como eu, tereis também a

56
Essa passagem explica bem claramente o motivo da falência de
Espíritos incumbidos de grandes missões. Veja-se em Obras Póstumas
que o próprio Kardec foi sempre advertido quanto ao perigo de falir. Em
A Caminho da Luz, obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier,
Emmanuel refere vários exemplos de grandes missionários falidos em
sua passagem pela Terra. No campo da mediunidade esses fracassos
são mesmo comuns e os exemplos enxameiam ao nosso redor. (N. do
T.)
vez de passar pela prova da fortuna, mas não vos precipiteis
pedindo-a muito cedo. E vós, os que sois ricos, tende sempre em
mente que a verdadeira fortuna, a fortuna imperecível não está na
Terra, e compreendei porque preço podereis merecer as graças
do Todo-Poderoso. Paula, na Terra Condessa de...

Jean Reynaud

Meus amigos, como esta vida nova é magnífica! Semelhante a


uma torrente luminosa, ela arrasta no seu curso imenso as almas
inebriadas de infinito. Após o rompimento dos liames carnais,
meus olhos abarcaram os novos horizontes que me cercam e
gozei das esplêndidas maravilhas do Infinito. Passei das sombras
da matéria à alvorada cintilante que anuncia o Todo-Poderoso.
Estou salvo, não pelo mérito das minhas obras, mas pelo
conhecimento do princípio eterno que me fez evitar as manchas
lançadas pela ignorância na pobre Humanidade.

Bendita foi a minha morte. Meus biógrafos a julgaram prematura,


os cegos! Lamentaram-na por alguns escritos nascidos da poeira
e não compreenderão quanto o silêncio em torno da minha tumba
recém-fechada será útil para a santa causa do Espiritismo. Minha
obra estava realizada. Os meus sucessores avançavam na rota.
Eu já havia atingido esse ponto culminante em que o homem deu
o que tinha de melhor e nada mais faz do que repetir. Minha
morte faz voltar-se a atenção dos letrados para a minha obra
capital, referente à questão espírita que eles fingem desconhecer
e que em breve os envolverá. Glória a Deus! Ajudado pelos
Espíritos superiores que protegem a vossa doutrina, vou ser um
dos pioneiros que balizam a vossa rota. Jean Reynaud

(Paris, reunião familiar: outra comunicação espontânea)

O Espírito responde a um pensamento formulado sobre a sua


morte inesperada, em idade pouco avançada, e que surpreendera
muita gente: Quem te disse que a minha morte não foi um
benefício para o Espiritismo, para o seu futuro, para o seu
desenvolvimento? Notaste, meu amigo, a linha seguida pelo seu
progresso, o rumo que toma a fé espírita? Deus concedeu
primeiro as provas materiais: a dança das mesas, as pancadas e
toda a espécie de fenômenos. Isso para chamar a atenção, uma
introdução divertida. Os homens necessitam de provas palpáveis
para crer. Agora é bem diferente! Após as provas materiais, Deus
fala à inteligência, ao bom senso, à razão fria. E não mais através
de fatos estranhos, mas de coisas racionais que devem
convencer e atrair até mesmo os incrédulos, os mais
sistemáticos. E isso ainda é apenas o começo.

Prestai bem atenção no que vos digo: toda uma série de fatos
inteligentes e irrefutáveis vão se dar, e o número dos adeptos da
fé espírita, já grande, vai ainda aumentar. Deus vai se impor às
inteligências de elite, às sumidades do pensamento, do talento e
do saber. Será essa uma irraacão luminosa que se expandirá por
toda a Terra como um fluido irresistível e arrastará os mais
recalcitrantres à busca do infinito, ao estudo dessa admirável
ciência que nos ensina máximas tão sublimes.

Todos se agruparão ao vosso redor e, fazendo abstração do


título de génio que lhes tenham dado, tornar-se-ão humildes e
pequenos para aprender e para se convencerem. Depois, mais
tarde, quando estiverem bem instruídos e bem convencidos,
empregarão a sua autoridade e a notoriedade dos seus nomes
para avançar mais e atingir os últimos limites do alvo que vos foi
proposto: a regeneração da espécie humana pelo conhecimento
racional e aprofundado das existências passadas e futuras. Eis a
minha sincera opinião sobre o estado atual do Espiritismo 57 .

Em Bordeaux

Evocação—Atendo com prazer ao vosso apelo, senhora. Sim,


tendes razão, a perturbação espírita não poderia, por assim dizer,
existir para mim (isto respondia ao pensamento do médium):
exilado voluntário na vossa Terra, eu deveria lançar a primeira
semente séria das verdades que envolvem o mundo neste
momento, e guardava sempre comigo a consciência da pátria 58 ,
de maneira que logo me reconheci no meio de meus irmãos.

57
Conferindo esta mensagem com as traduções correntes em nossa
língua, o leitor encontrará diversas diferenças de texto, mas cotejando-a
com o original francês verá que fizemos o possível para ser bem fiéis à
letra e ao espírito. As traduções literais nem sempre são fiéis, pois
esquecem a diversidade de sentido das palavras e das expressões de
uma língua para outra. (N. do T.)
58
A consciência da pátria, no caso, não se refere à França, mas à pátria
espiritual, como se depreende facilmente do texto, onde o espírito
afirma a sua condição de exilado voluntário na vossa Terra. A palavra
nossa, nesse caso, tem grande importância por acentuar a diferença
entre o mundo espiritual e o dos encarnados. (N. do T.)
P. — Eu vos agradeço por ter querido vir, mas não acreditaria
que o meu desejo de conversar convosco tivesse exercido
influência nisso. Deve, necessariamente, haver uma distância tão
grande entre nós que só penso nisso com respeito.

R. — Agradeço esse bom pensamento, meu filho, mas deveis


saber também que, seja qual for a distância que a conclusão mais
ou menos pronta e mais ou menos feliz das provas possa
estabelecer entre nós, há sempre um laço poderoso que nos une:
a simpatia. E esse liame haveis estreitado pela constância do
vosso pensamento.

P. — Embora muitos Espíritos tenham explicado as suas


primeiras sensações ao acordar, seria muito bom me dizerdes o
que experimentastes ao tomar consciência da situação e como a
separação de vosso Espírito e do vosso corpo se processou 59

R. — Como para todos. Senti aproximar-se o momento da


libertação, mas fui mais feliz que muitos, porque isso não me
causou angústias, pois eu já conhecia as suas consequências,
embora elas fossem ainda maiores do que eu pensava. O corpo
entrava as faculdades espirituais, e sejam quais forem as luzes
59
A frase ao tomar consciência da situação corresponde no texto
francês a esta: en vous reconnaissant, que traduzida literalmente em
português não daria o mesmo sentido. (N. do T.)
que o espírito tenha conservado, elas são sempre mais ou menos
abafadas pelo contato da matéria 60 .

Eu adormeci esperando um despertar feliz, e o sono foi curto,


mas o espanto foi imenso. Os esplendores celestes se
desenrolaram aos meus olhos, brilhando em todo o seu fulgor.
Minha vista mergulhava espantada nas imensidades desses
mundos cuja existência e habitabilidade eu havia afirmado. Era
uma miragem que me revelava e confirmava a veracidade dos
meus sentimentos. Por mais que se creia seguro, o homem
quando fala tem no fundo do seu coração, quase sempre,
momentos de dúvida e de incerteza. Desconfia, senão da
verdade que proclama, pelo menos, com frequência, dos meios
imperfeitos que emprega para demonstrá-la. Convencido da

60
Esta explicação corresponde ao ensino dado pelos Espíritos não
só no Espiritismo mas também nas diversas religiões e ordens
espiritualistas que trataram do problema. Por mais evoluído que seja, o
espírito encarnado está sempre sujeito a essa asfixia dos seus dons,
produzida pelo contato da matéria. Por isso mesmo o Espiritismo define
a matéria como o liame que prende o espírito. Ver O Livro dos Espíritos,
perguntas 22 e 22a. (N. do T.)
verdade que desejava fazer admitida, tive muitas vezes de lutar
comigo mesmo contra a falta de coragem para ver, para tocar,
por assim dizer, a verdade, e para torná-la palpável aos que
tinham tanta necessidade de nela crer, para seguirem com
61
segurança o caminho que lhes convinha .

P. — Na vida professastes o Espiritismo?

R. — Entre professar e praticar há grande diferença. Muita


gente professa doutrina que não pratica. Eu praticava e não
professava. Da mesma maneira que todo homem que segue a lei
do Cristo é cristão, mesmo que o faça sem conhecimento, pode
ser espírita todo aquele que crê na alma imortal, nas suas
existências, na sua marcha progressiva incessante, nas
provações terrenas — abluções necessárias para se purificar. Eu

61
Essa dificuldade de exprimir a verdade entrevista é conhecida de
todos os que conseguem elevar-se acima do nível comum. Jean
Reynaud conseguiu, nesse trecho, precisar os diversos aspectos dessa
luta íntima pela comunicação, de que já falavam os gregos. Platão, no
final da sua existência, declarou que não podia traduzir em palavras, as
mais belas percepções de sua alma no mundo das idéias.Todos os
estudiosos que são interpelados sobre questões espíritas ou discorrem
sobre elas conhecem essas dificuldades. (N. do T.)
acreditava e portanto era espírita. Compreendi a erraticidade,
essa fase de ligação entre as encarnações, esse purgatório em
que o Espírito culpado se despoja de suas vestes sujas para
envergar uma nova roupa, onde o Espírito em evolução tece com
cuidado a roupa nova que vai usar e deseja conservar limpa.
Compreendi, já vos disse, e embora sem professar, continuei a
praticar.

Observação: Essas três comunicações foram obtidas por três


médiuns diferentes, completamente estranhos uns aos outros. A
semelhança dos pensamentos e a forma da linguagem permitem
admitir-se pelo menos a presunção da identidade. A expressão:
tece com cuidado a roupa nova que vai usar, é encantadora figura
que exprime a solicitude com que o Espírito em progresso
prepara a nova existência em que deve continuar progredindo. Os
Espíritos atrasados são menos precavidos e fazem às vezes
escolhas infelizes que os forçam a recomeçar.
ESPÍRITOS FELIZES

António Costeou

Membro da Sociedade Espírita de Paris, sepultado em 12 de


setembro de 1863 no cemitério de Montmartre, em vala comum.

Era um homem de coração que o Espiritismo reconduziu a


Deus; completa, sincera e profunda era a sua fé em Deus.
Simples calceteiro, praticava a caridade por pensamentos,
palavras e obras consoante os fracos recursos de que dispunha e
encontrando meios, ainda assim, de socorrer os que possuíam
menos do que ele. Se a Sociedade não lhe adquiriu uma
sepultura particular, foi porque lhe pareceu dever antes empregar
mais utilmente o dinheiro em benefício dos vivos, do que em vãs
satisfações de amor-próprio, além de que nós, os espíritas,
sabemos melhor que ninguém que a vala comum é, tanto quanto
os mais suntuosos mausoléus, uma porta aberta para o céu.

O Sr. Canu, secretário da Sociedade e profundo materialista de


outros tempos, pronunciou sobre a campa a seguinte alocução:
"Caro irmão Costeau: faz alguns anos, muitos dentre nós, e eu
em primeiro lugar, confesso-o, não viríamos a este túmulo aberto,
que representaria apenas o fim das misérias humanas, e depois o
nada, o pavoroso nada, isto é, onde não existia nem alma para
merecer ou expiar e, conseqüentemente, nem Deus para
recompensar, castigar ou perdoar. Hoje, gracãs à nossa santa
Doutrina, divisamos aqui o termo das provações, e para você,
querido irmão, cujos despojos baixam à terra, o triunfo dos
labores e o início das recompensas a que fizeram jus a sua
coragem, resignação, caridade, as vossas virtudes e, acima de
tudo isso, a glorificação de um Deus sábio, onipotente, justo e
bom.

Seja, pois, caro irmão, o portador das graças que rendemos ao


Eterno por ter permitido que se dissipassem as trevas do erro e
da incredulidade que nos assoberbavam. Não há muito tempo, e
nestas mesmas circunstâncias, com a fronte abatida e o coração
lacerado, em desânimo, nós lhe teríamos dito: amigo, adeus para
sempre. Mas hoje lhe dizemos, de fronte erguida, radiante de
esperanças, e com o coração cheio de amor e de coragem: caro
irmão, até breve, ore por nós."

Um dos médiuns da Sociedade obteve ali mesmo na sepultura,


ainda meio aberta, a seguinte comunicação, ouvida por todos os
presentes, coveiros inclusive, de cabeças descobertas com
profunda emoção. Era, de fato, um espetáculo novo e
surpreendente esse de ouvir palavras de um morto, recolhidas do
seio do próprio túmulo: "Obrigado, amigos, obrigado. O meu
túmulo ainda nem mesmo de todo é fechado, mas, passando um
segundo, a terra cobrirá os meus despojos.
Vós sabeis no entanto, que minha alma não será sepultada nesse
pó, antes pairará no Espaço a fim de subir até Deus!

E como consola poder a gente dizer a respeito da dissolução dos


invólucros: oh! eu não morri, vivo a verdadeira vida, a vida eterna!
O enterro do pobre não tem grandes cortejos, nem orgulhosas
manifestações se lhe abeiram da campa...

Em compensação, acreditai-me, imensa multidão aqui não


falta, e bons Espíritos acompanharam convosco, e com estas
mulheres piedosas, o corpo que aí jaz estendido.

AO menos todos vós tendes fé e amais o bom Deus! Oh!


certamente não morremos só porque o nosso corpo se reduz a
nada, esposa amada! Demais, eu estarei sempre ao teu lado para
te consolar, para te ajudar a suportar as provações. Rude ser-te-á
a vida, mas cheio o coração com as ideias da eternidade e do
amor de Deus. Como serão efémeros os teus sofrimentos!
Parentes que rodeiam a minha amantíssima companheira, amem-
na, respeitem-na, sejam para ela como irmãos. Não se esqueçam
nunca da assistência que mutuamente vocês devem uns aos
outros na Terra, se é que pretendem penetrar a morada do
Senhor.

Quanto a vocês, espíritas, irmãos, amigos, obrigado por terem


vindo a esta morada de pó e lama, a dizer-me deus. Mas sabem e
sabem muito bem, vocês, que minha alma imortal vive, e que
algumas vezes, lhes irá pedir preces que jamais lhe hão de
recusar para auxiliá-la na vida magnífica que lhe descortinaram
na vida terrena.

A vocês todos que aqui estão, adeus. Nós nos podemos rever
noutro lugar, além deste túmulo. As almas me chamam a
conferenciar. Adeus, orem pelos que sofrem e até outra vista.
Costeou."

Três dias depois, evocado num grupo particular, o Espírito de


Costeau assim se exprimiu por intermédio de outro médium: "A
morte é a vida. Não faço mais que repetir o que já disseram, mas
para vocês não há outra expressão senão esta, a despeito do que
afirmam os materialistas, aqueles que preferem ficar cegos. Oh!
meus amigos, que belo espetáculo na Terra o de ver tremular os
estandartes do Espiritismo! Ciência profunda, imensa, da qual
apenas vocês soletram as primeiras palavras. E que de luzes leva
aos homens de boa vontade, aos que. libertando-se das terríveis
cadeias do orgulho, altamente proclamam a sua crença em Deus!
Homens, orai, rendei graças por tantos benefícios. Pobre
Humanidade! Ah! se vos fora dado compreender!... Mas não, que
o tempo não é chegado ainda, no qual a misericórdia do Senhor
deve estender-se por todos os homens, a fim de que lhe
reconheçam as vontades e a elas se submetam. Pelos seus raios
luminosos, ciência bendita, é que eles já chegarão e
compreenderão.

Ao seus raios vivificantes, o mestre e o operário virão a


confundir-se e identificar-se, compenetrados dessa caridade
fraterna preconizada pelo divino Messias.

Oh! meus irmãos, pensem na felicidade imensa que possuem


como primeiros iniciados na obra de regeneração.

Honra lhes seja feita. Prossigam e um dia, como eu, vendo a


pátria dos Espíritos, exclamarão: a morte é a vida, ou antes um
sonho, espécie de pesadelo que dura o espaço de um minuto e
do qual despertamos para nos vermos rodeados de amigos que
nos felicitam, ditosos por nos abraçarem. Tão grande foi a minha
ventura, que eu não podia compreender que Deus me destinasse
tantas graças relativamente ao pouco que fiz. Parecia-me sonhar
e como outrora me acontecia sonhar que estava morto, fui por
instantes obrigado ao temor de voltar ao desgraçado corpo. Muito
não tardou, porém, que me desse contas da realidade e rendesse
graças a Deus. Eu bendizia o mestre que tão bem soube incutir-
me os deveres de homem que crê na vida futura. Sim, eu o
bendizia, agradecialhe, porquanto O Livro dos Espíritos
despertara-me n'alma os elos de amor ao meu Criador.

Obrigado, bons amigos que me atraíram para junto de vocês.


Comuniquem aos nossos irmãos que estou muitas vezes com o
nosso amigo Sanson. Até outra vista e coragem, porque o triunfo
os espera. Felizes daqueles que houverem tomado parte no
combate!"

Daí por diante o Sr. Costeau manifestou-se constantemente, na


Sociedade e em outras reuniões, dando sempre provas dessa
elevação de pensamentos que caracteriza os Espíritos
adiantados."

A Srta. Ema

Em consequência de acidentes causados por fogo, faleceu a


Srta. Ema após cruéis sofrimentos. Alguém se propusera solicitar
a sua evocação na Sociedade Espírita de Paris, quando ela se
apresentou espontaneamente a 31 de julho de 1863, pouco
tempo depois da morte.

"Eis-me aqui ainda no cenário do mundo, eu que me julgava


sepultada para sempre no meu véu de inocência e juventude.
Salvar-me-ia o fogo da Terra, do fogo do inferno — assim
pensava eu na minha fé católica e, se não ousava entrever os
esplendores do paraíso, minha alma tímida se apagava à
expiação do purgatório, enquanto pedia, sofria e chorava. Mas
quem dava ao ânimo abatido a força de suportar as angústias?
Quem, nas longas noites de insónia e febre dolorosa se inclinava
no leito de martírios? Quem me refrescava os lábios sedentos,
escaldantes? Éreis vós, meu Guia, cuja auréola branca me
cercava; e éreis vós outros, Espíritos caros e amigos, que vínheis
murmurar-me ao ouvido palavras de esperança e de amor.

A chama que me consumia o corpo débil também me despojou


das suas cadeias e, assim, morri vivendo já a verdadeira vida.
Não experimentei a perturbação; entrei serena e recolhida no dia
radiante que envolve aquelês que, depois de muito terem sofrido,
souberam esperar um pouco.
Minha mãe, minha querida mãe foi a última vibração terrestre
que me repercutiu na alma. Como eu desejo que ela se torne
espírita! Desprendime da Terra como fruto maduro que se
desprendesse da árvore antes do tempo. Eu não tinha sido
tocada pelo demônio do orgulho que estimula as almas
desditosas, arrastadas pelos êxitos embriagadores e brilhantes da
juventude.

Bendigo, pois, o fogo, o sofrimento, a prova, que não passavam


de expiação. Semelhante a esses brancos e leves fios do Outono,
flutuo na torrente luminosa e não são mais as estrelas de
diamante que me rebrilham na fronte, mas as áureas estrelas do
bom Deus." Ema.

Em 30 de julho de 1863, espontaneamente o mesmo Espírito


concedeu em outro centro em Havre a seguinte comunicação:
"Os que sofrem na Terra, são recompensados na outra vida.

Deus é repleto de Justiça e Misericórdia para com os que aqui


sofrem.

Concede a felicidade pura e perfeita, que não se deveria temer


os sofrimentos e tampouco a morte, se fosse possível aos pobres
seres humanos saber os misteriosos desígnios de Nosso Criador.

Mas a Terra é um local de muitas provações e frequentemente


semeados de dores bem pungentes.

Seja resignado se for ferido e diante de Deus que é o Criador


Absoluto, inclinai-vos pela Sua bondade quando Ele vos der um
fardo pesado para suportar.

Se Ele vos chamar depois de grandes sofrimentos, se nenhum


lamento ou murmúrio entrar em vosso coração, vereis como
foram poucas essas dores e as penas da Terra, quando
percebereis a recompensa que Deus vos reserva.

Bem cedo deixei a Terra e Deus quis me perdoar e dar-me a


vida daqueles que respeitam Sua vontade.

Adorai e Amai de todo coração para sempre a Deus.

Acima de tudo orai firmemente.

É nisto que consiste o vosso sustentáculo aqui na Terra.

A vossa esperança, a vossa salvação." Ema.

O Doutor Vignal

Antigo membro da Sociedade de Paris, falecido a 27 de março


de 1865. Na véspera do enterro, um sonâmbulo lúcido e bom
vidente, instado a transportar-se para junto dele e narrar o que
visse, falou: "Vejo um cadáver em que se opera um trabalho
extraordinário; dir-se-ia uma quantidade de massa que se agita e
alguma coisa que parece fazer esforços para se lhe desprender,
encontrando, contudo, dificuldade em vencer a resistência. Não
distingo forma de Espírito bem caracterizada." Fez-se a evocação
na Sociedade de Paris, a 31 de março.

P. — Caro Sr. Vignal, todos os seus velhos colegas da


Sociedade de Paris guardam do Sr. as mais vivas saudades, e
eu, particularmente, das boas relações, aliás nunca
interrompidas. Evocando-o, tivemos por fim primeiramente
testemunhar-lhe a nossa simpatia, considerando-nos felizes se
puder e quiser palestrar conosco.

R. — Prezado amigo e digno mestre: tão bondosa lembrança e


testemunhos de simpatia me são muito lisonjeiros. Graças à sua
evocação, levadas pelas preces, pude vir hoje assistir
desimpedido a esta reunião de bons amigos e irmãos espíritas.
Como justamente disse o jovem secretário, eu estava impaciente
por me comunicar; desde o anoitecer de hoje, empreguei todas as
forças espirituais para dominar esse desejo; como os graves
assuntos, tratados na sua conversação, me interessassem
vivamente, tornaram a minha expectativa menos penosa. Perdoe-
me, meu caro amigo, mas a minha gratidão exigia a minha
manifestação.

P. — Diga-nos primeiramente como se encontra no mundo


espiritual, descrevendo o trabalho da separação, as sensações
daquele momento, bem como o tempo necessário ao
reconhecimento do seu estado.

R. — Sou tão feliz quanto possível, vendo plenamente


confirmados os secretos pensamentos concebíveis, em relação a
uma doutrina confortante e consoladora.

Sou feliz, e tanto mais por ver agora, sem obstáculo algum,
desenvolver-se diante de mim o futuro da ciência e da filosofia
espíritas.

Mas deixemos por hoje estas digressões importunas; de novo


voltarei a conversar com vocês acerca deste assunto, máxime
sabendo que a minha presença lhes dará tanto prazer quanto o
que experimento em visitá-los.

A separação foi rápida; mais do que podia esperar pelo meu


apoucado merecimento. Fui eficazmente auxiliado pelo seu
concurso e o sonâmbulo lhes deu uma ideia bastante clara do
fenômeno da separação, para que eu nele insista. Era uma
espécie de oscilação intermitente, um como arrastamento em
sentidos opostos. Triunfou o Espírito aqui presente. Só deixei
completamente o corpo quando ele baixou à terra; e aqui vim ter
com vocês.

P. — Que diz dos seus funerais? Julguei-me no dever de a eles


comparecer. Nesse momento o Sr. era muito livre para apreciá-
los; e as preces por mim feitas a seu favor (discretamente, já se
vê) tinham chegado até o Sr.?

R. — Sim; já lhe disse; a sua assistência auxiliou-me


grandemente e voltei para o seu lado, abandonando
completamente a velha carcaça. Demais, o Sr. sabe, pouco me
importa as coisas materiais. Só pensava na alma e em Deus.

P. — Recorda-se de que a seu pedido, há 5 anos, em fevereiro


de 1860 e quando ainda estava entre nós, fizemos um estudo
acerca da sua personalidade 62 . Naquela ocasião o seu Espírito
desprendeu-se para vir falar conosco. Poderá descrever-nos da
melhor forma a diferença entre o seu atual desprendimento e
aquele de então?

R. — Sim, lembro-me. Que grande diferença entre um e outro!


Naquele estado, a matéria me oprimia ainda na sua trama

62
Ver a Revista Espírita de março de 1860.
inflexível, isto é, queria mas não podia desembaraçar-me
totalmente.

Hoje sou livre; um vasto campo desconhecido se me depara e


eu espero com o seu auxílio e o dos bons Espíritos, aos quais me
recomendo, progredir e compenetrar-me o mais rapidamente
possível dos sentimentos que é mister possuir e dos atos que me
cumpre empreender para suportar as provações e merecer a
recompensa.

Que majestade! Que grandeza! É quase um sentimento de


temor que predomina, quando, fracos quais somos, queremos
fixar as paragens luminosas.

P. — Sempre que o Sr. quiser, continuaremos a conversar


acerca do assunto.

R. — Respondi sucinta e desordenadamente a diversas


perguntas. Não exija mais agora do seu fiel discípulo, porquanto
não estou ainda inteiramente livre. Continuar a conversar seria o
meu prazer, mas o meu Guia modera-me o entusiasmo e aliás já
pude apreciar-lhe bastante a bondade e a justiça, motivo por que
me submeto inteiramente à decisão dele, por maior que seja o
meu pesar por ser interrompido. Consolo-me, pensando que
poderei vir assistir algumas vezes, incógnito, às suas reuniões.
Falar-lhe-ei sempre que possa, pois o estimo e desejo provar-
lhe. Outros Espíritos, porém, mais adiantados, reclamam
prioridade, devendo eu curvar-me àqueles que me permitiram dar
livre curso à torrente das ideias acumuladas.

Deixo-os, meus amigos, e devo agradecer duplamente não só


vocês espíritas que me evocaram como também a este Espírito
que houve por bem ceder-me o seu lugar, Espírito que na Terra
tinha o ilustre nome de Pascal.

Daquele que foi e será sempre o mais devotado dos seus


adeptos. Dr. Vignai

Victor Leblufe

Moço, prático do porto do Havre, falecido aos 20 anos de idade.


Morava com a mãe, mercadora, a quem prodigalizava os mais
ternos e afetuosos cuidados, sustentando-a com o produto do seu
rude trabalho. Nunca o viram frequentar tabernas nem entregar-
se aos tão frequentes excessos da profissão, por não querer
desviar a menor partícula de salário do fim piedoso que lhe
destinava.

Todo o seu lazer consagrava-o à genitora para poupá-la de


fadigas. Atingido havia muito por enfermidade, da qual, sabia,
havia de morrer, ocuItava-lhe os sofrimentos para não a inquietar
e para que ela não quisesse privá-lo do serviço. Na idade das
paixões, eram precisos a esse moço um grande cabedal de
qualidades morais e poderosa força de vontade para resistir às
perniciosas tentações do meio em que vivia. Possuído de sincera
piedade, a sua morte foi edificante.

Na véspera da morte, exigiu da mãe que fosse repousar,


dizendo-lhe ter, também, ele, necessidade de dormir.

Ela teve naquele ínterim uma visão; achava-se, disse, em


grande escuridão, quando viu um ponto luminoso que crescia
pouco a pouco, até que o quarto ficou iluminado por brilhante
claridade, da qual se destacava radiante a figura do filho,
elevando-se ao Espaço infinito. Compreendeu que o seu fim
estava próximo, e, com efeito, no dia seguinte, aquela alma bem
formada havia deixado a Terra, murmurando uma prece.

Uma família espírita, conhecedora da conduta correia dele,


interessandose pela mãe que ficara sozinha, teve a ideia de o
evocar pouco tempo após a morte; mas ele se manifestou
espontaneamente e deu a seguinte comunicação:

"Desejais saber como estou agora; feliz, felicíssimo! Devem ser


levados em conta os sofrimentos e angústias, que são a origem
das bênçãos e da felicidade de além-túmulo. A felicidade! Ah! não
compreendeis o que significa essa palavra. As venturas terrenas
das que experimentamos ao regressar para Jesus, com a
consciência pura, com a confiança do servo cumpridor do seu
dever, que espera cheio de alegria a aprovação d'Aquele que é
tudo.

Ah! meus amigos, a vida é penosa e difícil, quando se não tem


em vista a finalidade dela; mas eu vos digo, em verdade, que
quando vierdes para junto de nós, se seguirdes a lei de Deus,
sereis recompensados além mas muito além dos sofrimentos e
dos méritos que porventura julgardes ter adquirido para a outra
vida. Sede bons e caritativos, dessa caridade tão desconhecida
entre os homens, e que se chama benevolência. Socorrei os
vossos semelhantes, fazendo por outrem mais que por vós
mesmos, uma vez que ignorais a miséria alheia e conheceis a
vossa.

Socorrei minha mãe, pobre mãe, único pesar que me vem da


Terra. Ela deve passar por outras provas e preciso é que chegue
ao céu. Adeus, vou vê-la." Victor.

O Guia do médium — Nem sempre os sofrimentos amargados


na Terra constituem uma expiação. Os Espíritos que, cumprindo a
vontade do Senhor, baixam à Terra, como este, são felizes em
provar males que para outros eriam uma expiação. O sono os
revigora perante o Todo-Poderoso, dando-lhes a força de tudo
suportarem para sua maior glória. A missão deste Espírito, em
sua última existência, não era de aparato, mas por mais obscura
que fosse nem por isso tinha menos mérito, visto como não podia
ser estimulado pelo orgulho. Ele tinha, antes de tudo, um dever
de gratidão a cumprir para com aquela que lhe foi a genitora;
depois, deveria demonstrar que nos piores ambientes podem
encontrar-se almas puras, de nobres e elevados sentimentos,
capazes de resistir às tentações. Isso é uma prova de que as
qualidades morais tem causas anteriores e um exemplo assim
não terá sido estéril.

A Senhora Anais Gourdon

Era muito jovem e notável pela doçura de caráter e de


eminentes qualidades morais que a distinguiam, tendo falecido
em novembro de 1860. Pertencia a uma família de mineiros dos
arredores de Saint-Etienne, circunstância que torna interessante
sua posição espiritual.
Evocação

— R. Presente.

P. O seu pai e o seu marido pediram-me para evocá-la e felizes


se julgariam se obtivessem uma comunicação. R. Eu também sou
feliz em dá-la.

P. Por que tão cedo se furtou aos carinhos da família?

R. Porque terminei as provações terrenas.

P. Pode algumas vezes ver os seus parentes?

R. Oh! estou sempre ao lado deles.

P. É feliz como Espírito?

R. Sou feliz. Amo e espero. Os céus não me infundem temor e


cheia de confiança aguardo que asas brancas me alcem até eles.

P. Que entende por asas brancas?

R. Tornar-me Espírito puro, resplandecer como os mensageiros


celestes que me ofuscam.

As asas dos anjos, arcanjos, serafins, que não passam de


Espíritos puros, são evidentemente apenas um atributo pelos
homens imaginado para dar ideia da rapidez com que se
transportam, uma vez que a sua natureza etérea os dispensa de
qualquer amparo para fender os espaços.

Contudo, eles podem aparecer aos homens com esse acessório


para lhes corresponderem ao pensamento, assim como os
Espíritos se revestem da aparência terrestre a fim de se tornarem
reconhecíveis.

P. Podem seus parentes fazer algo a seu favor?

R. Podem, caros irmãos, não me entristecer com as suas


lamentações, pois sabem que não estou perdida de todo para
eles. Desejo que a recordação de meu ser lhes seja suave e
doce. Passei como uma flor pela Terra e nada de pesaroso deve
subsistir dessa passagem.

P. Como pode ser tão poética a sua linguagem e tão pouco em


harmonia com a posição que teve na Terra?

R. É que a minha alma é quem fala. Sim, eu tinha


conhecimentos adquiridos e Deus permite muitas vezes que
Espíritos delicados encarnem entre os homens mais rústicos,
para fazer-lhes pressentir as delicadezas ao alcance deles,
delicadezas essas que compreenderão mais tarde.

Sem esta explicação tão lógica, consentânea com a solicitude


de Deus para com as criaturas, dificilmente se compreenderia o
que à primeira vista pareceria anomalia. Realmente, que pode
haver de mais belo, poético e gracioso que a linguagem dessa
jovem educada entre rudes operários? Dá-se o contrário muitas
vezes: Espíritos inferiores encarnam entre os mais adiantados
homens, porém, com objetivo oposto. É visando o seu próprio
adiantamento que Deus os põe em contato com um meio
esclarecido e, às vezes, também como instrumento de provação
desse mundo. Que outra filosofia pode resolver esses problemas?

Maurício Gontran

Era filho único e faleceu, aos dezoito anos, de uma congestão


pulmonar. Inteligência rara, precoce, grande amor ao estudo,
caráter doce, terno e simpático, possuía todas as qualidades que
fazem prever brilhante futuro. Com grande êxito terminara muito
criança os primeiros estudos e se matriculara em seguida na
Escola Politécnica. A sua morte acarretou aos parentes uma
dessas dores que deixam traços profundos e tanto mais
dolorosos, pois que, tendo sido sempre de natureza delicada, lhe
atribuíam o fim prematuro ao trabalho de estudos a que o
levaram.

Exprobando-se então, diziam: "De que lhe serve agora tudo o


que aprendeu? Melhor fora ficasse ignorante, pois a ciência não
lhe era necessária para viver, e assim estaria, sem dúvida, entre
nós; seria o consolo da nossa velhice". Se conhecessem o
Espiritismo, raciocinariam de forma diferente. Nele encontraram,
contudo, a verdadeira consolação. O ditado seguinte foi dado
pelo rapaz a um dos seus amigos, meses após o decesso.

P. Meu caro Maurício, a terna afeição que votava a seus pais


me dá a convicção de que deseja reconfortar-lhes o ânimo, se
estiver ao seu alcance fazê-lo. O pesar, direi mesmo desespero,
que o seu passamento lhes trouxe visivelmente à saúde e os leva
a se desgostarem da vida. Algumas palavras de consolo poderão
certamente fazer renascer-lhes a esperança...

R. Meu amigo, esperava com impaciência esta ocasião que ora


me faculta, de comunicar-me. A dor de meus pais aflige-me,
porém, ela se acalmará quando tiverem a certeza de que não
estou perdido para eles; aproxime-se deles a fim de os convencer
desta verdade, o que certamente você conseguirá. Era preciso
este acontecimento para insinuar-lhes uma crença que lhes trará
a felicidade, e os impedirá de murmurar contra os decretos da
Providência.

Vocês sabem que o meu pai era muito célico a respeito da vida
futura. Deus concedeu-lhe este desgosto para arrancá-lo do erro.
Aqui nos reencontraremos, neste mundo, onde não se conhecem
desgostos da vida e onde os precedi; afirme-lhes
categoricamente que a ventura de tornarem a ver-me lhes será
recusada como castigo por falta de confiança na bondade de
Deus. Interdita me seria mesmo a comunicação com eles, durante
o tempo da sua permanência na Terra. O desespero é uma
rebeldia à vontade do Onipotente, sempre punido com o
prolongamente da causa que o produziu, até que haja completa
submissão.

O desespero é verdadeiro suicídio, porque mina as forças


corpóreas e aquele que abrevia os seus dias, no intuito de
escapar mais cedo aos travos da dor, faz jus às mais cruéis
decepções; deve-se, ao contrário, avigorar o corpo a fim de
suportar mais facilmente o peso das provações.

Meus queridos e bondosos pais, é a vós que neste momento


me dirijo. Desde que deixei os despojos mortais nunca deixei de
estar ao vosso lado. Aí estou muito mais vezes mesmo do que
quando na Terra. Consolai-vos, pois porque eu não estou morto,
ou antes, estou mais vivo que vós. Apenas o corpo morreu, mas o
Espírito, esse vive sempre. Ele é ao demais livre, feliz, isento de
moléstias, de enfermidades e de dores.

Em vez de vos afligirdes, regozijai-vos por saber que estou ao


abrigo de cuidados e apreensões, em lugar onde o coração se
satura de alegria puríssima, sem a sombra de um desgosto.

Meus bons amigos, não deploreis aqueles que morrem


precocemente, porque isso é uma graça que Deus lhes concede,
poupando-os às tributações da vida terrena. A minha existência aí
não devia prolongar-se por muito tempo desta vez, pois adquirira
o necessário para me preparar no Espaço, para uma missão mais
elevada. Se tivesse mais tempo, não imaginas a que perigos e
seduções iria expor-me.

Podereis acaso julgar da minha fortaleza para não sucumbir


nessa luta que importaria atraso de alguns séculos? Por que pois
lastimar o que me é vantajoso?

Neste caso, uma dor inconsolável acusaria descrença só


legítima pela ideia do nada. Aqueles que assim descrêem, esses
é que são dignos de lástima, pois para eles não pode haver
consolação possível; os entes caros se lhes apresentam como
irremediavelmente perdidos, porque a tumba lhes leva a última
esperança!

P. A sua morte foi dolorosa?


R. Não, meu amigo, apenas sofri, antes da morte, os efeitos da
moléstia, porém esse sofrimento diminuía à proporção que o
último instante se aproximava: depois, um dia, adormeci sem
pensar na morte. Tive então um sonho delicioso! Sonhei que
estava curado, que não mais sofria, e respirava a longos haustos,
prazerosamente, um ar embalsamado e puro: transportava-me
através do Espaço uma força desconhecida. Brilhante luz
resplandecia em torno, mas sem cansar-me a vista! Vi meu avô
não mais esquálido, alquebrado, porém com aspecto juvenil e
loução.

Estendia-me os braços e me estreitava efusivamente ao


coração.

Multidão de outras pessoas, de risonhos semblantes, o


acompanhavam e me acolhiam todos com benevolência e
doçura; parecia-me reconhecê-los e, venturoso por tornar a vê-
los; trocávamos felicitações e testemunhos de amizade. Pois
bem! O que eu supunha ser um sonho era a realidade, porque
desse sonho não devia despertar na Terra: é que acordara no
mundo espiritual.

P. A sua moléstia não se originou da grande assiduidade no


estudo?
R. Oh! Não, desenganai-vos. Contado estava o tempo que eu
deveria passar na Terra e coisa alguma poderia ai reter-me.
Sabia-o meu Espírito nos momentos de desprendimento e
considerava-me feliz com a ideia da próxima libertação.

Contudo não deixou de aproveitar-me a mim o tempo em que


aí estive e hoje me felicito por o não haver perdido.

Os estudos sérios que realizei me fortificaram a alma e lhe


aumentaram os conhecimentos e se, em virtude da minha curta
existência não pude dar-lhes aplicação, nem por isso deixarei de
o fazer mais tarde e com maior utilidade.

Adeus, meu caro amigo; parto para junto de meus pais, a fim
de predispolos a receber esta comunicação.

Maurício.
CAPITULO

ESPÍRITOS EM CONDIÇÕES MEDIANAS

Joseph Bré

(Falecido em 1840 e evocado em Bordéus, por sua neta em 1862)

O Homem Honesto Segundo Deus ou Segundo os Homens

1. Caro avô, o Sr. pode dizer-me como vos encontrais no


mundo dos Espíritos e dar-me quaisquer pormenores úteis ao
nosso progresso?

R.Tudo o que quiser, querida filha. Eu expio a minha


descrença, porém grande é a bondade de Deus, que atende às
circunstâncias. Sofro, mas não como V. poderia imaginar; é o
desgosto de não ter melhor aproveitado o tempo aí na Terra.

2. Como o não empregou? Pois o Sr. não viveu sempre


honestamente?

R. Sim, no juízo dos homens; mas há um abismo entre a


honestidade perante os homens e a honestidade perante
Deus. E uma vez que deseja instruir-se procurarei demonstrar-lhe
a diferença.

Aí entre vós, é reputado honesto aquele que respeita as leis do


seu país, respeito arbitrário para muitos. Honesto é aquele que
não prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque
muitas vezes a felicidade e a honra, visto o código penal e a
opinião pública não atingirem o culpado hipócrita. Em podendo
fazer gravar na pedra do túmulo um epitáfio de virtude, julgam
muitos terem pago sua dívida à Humanidade! Erro! Não basta,
para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos
homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as leis
divinas.

Honesto aos olhos de Deus será aquele que, possuído de


abnegação e amor, consagre a existência ao bem, ao progresso
dos semelhantes; aquele que, animado de um zelo sem limites,
for ativo no cumprimento dos deveres materiais, ensinando e
exemplificando aos outros o amor ao trabalho; ativo nas boas
ações sem esquecer a condição do servo ao qual o Senhor pedirá
contas um dia do emprego do seu tempo; ativo finalmente na
prática do amor de Deus e do próximo.

Assim, o homem honesto, perante Deus, deve evitar


cuidadosamente as palavras mordazes, veneno escondido nas
flores, que destrói reputações e acabrunha o homem, muitas
vezes cobrindo-o de ridículo. O homem honesto, segundo Deus,
deve ter sempre cerrado o coração a quaisquer germes de
orgulho, de inveja, de ambição; deve ser paciente e benévolo
para com aqueles que o agredirem; deve perdoar do fundo
d'alma, sem esforços e sobretudo sem ostentação, a quem quer
que o ofenda; deve, enfim, praticar o preceito conciso e grandioso
que se resume "no amor de Deus sobre todas as coisas e ao
próximo como a si mesmo".

Eis aí mais ou menos, querida filha, o que deve ser o homem


honesto perante Deus. Pois bem: tê-lo-ia eu sido? Não. Confesso
sem corar que faltei a muitos desses deveres; que não tive a
atividade necessária; que o esquecimento de Deus me impeliu a
outras faltas, as quais, por não serem passíveis às leis humanas,
nem por isso deixam de ser atentatórias à lei de Deus.
Compreendo-o, muito sofri e assim é que hoje espero mais
consolado a misericórdia desse Deus de bondade, que perscruta
o meu arrependimento.

Transmite, minha cara filha, repita tudo o que aí fica a quantos


tiverem a consciência onerada, para que reparem suas faltas à
força de boas obras, a fim de que a misericórdia de Deus se
estenda por sobre eles. Seus olhos paternais lhes calcularão as
provações e a Sua mão potente lhes apagará as faltas.

Hélèn Michel

Moça de 25 anos, falecida subitamente no lar, sem sofrimentos,


sem causa previamente conhecida. Rica e um tanto frívola, a
leviandade de caráter a predispunha mais para as futilidades da
vida do que para as coisas sérias. Não obstante, possuía um
coração bondoso e era dócil, afetuosa e caritativa.

Evocada por pessoas conhecidas, três dias após o falecimento,


assim se exprimia:

"Não sei onde estou... que turbação me cerca! Chamou-me e


eu vim. Não compreendo porque não estou em minha casa;
choram a minha ausência quando presente estou, sem poder
fazer-me contudo reconhecida. Meu corpo não mais me pertence
e no entanto eu lhe sinto a frigidez...

Quero deixá-lo e mais a ele me atenho sempre... Sou como que


duas personalidades... Oh! quando chegarei a compreender o
que comigo se passa? É necessário que vá lá ainda... meu outro
"eu", que lhe sucederá na minha ausência? Adeus."

É evidente aqui que o sentimento de dualidade não está


destruído por completa separação. Caráter volúvel,
permitindo-lhe a posição e a fortuna a satisfação de todos os
caprichos, deveria igualmente favorecer as tendências de
leviandade. Não admira pois tenha sido lento o seu
desprendimento, a ponto de, três dias após a morte, sentir-se
ainda ligada ao invólucro corporal. Mas como não possuísse
vícios sérios e fosse de boa índole, essa situação nada tinha
de penosa e não deveria prolongar-se por muito tempo.
Evocada novamente depois de alguns dias, as suas ideias
estavam já muito modificadas. Eis o que disse:

"Obrigada por haverdes orado por mim. Reconheço a bondade


de Deus, que me subtraiu aos sofrimentos e apreensões
consequentes ao desligamento do meu Espírito. A minha pobre
mãe será dificílimo resignar-se; entretanto será confortada e o
que a seus olhos constitui sensível desgraça, era fatal e
indispensável para que as coisas do Céu se lhe tornassem no
que devem ser: tudo. Estarei ao seu lado até o fim da sua
provação terrestre, e a ajudarei a suportá-la."
"Não sou infeliz, porém muito tenho ainda que fazer para
aproximar-me da situação dos bem-aventurados. Pedirei a Deus
me conceda voltar a essa Terra para reparação do tempo que aí
perdi nesta última existência."

"A fé vos ampare, meus amigos; confiai na eficácia da prece,


mormente quando partida do coração. Deus é bom."

P. Levou muito tempo reconhecer-se?

R. Compreendi a morte no mesmo dia que por mim orastes.

P. Era doloroso o estado de perturbação?

R. Não, eu não sofria, acreditava sonhar e aguardava o


despertar. Minha vida não foi isenta de dores, porque todo ser
encarnado nesse mundo deve sofrer. Resignando-se à vontade
de Deus, a minha resignação foi por Ele levada em conta. Grata
vos sou pelas preces que me auxiliaram no reconhecimento de
mim mesma. Obrigada; voltarei sempre com prazer. Adeus.
Helena.
O Marquês de Saint Paul

(Falecido em 1860 e evocado, a pedido de sua irmã, confreira da


Sociedade de Paris, em 16 de maio de 1861)
1.Evocação:

— R. Eis-me aqui.

2. A sua irmã pediu-nos para evocá-lo, pois que, apesar de ser


médium, não está ainda bastante desenvolvida.

R. Responder-lhe-ei da melhor forma possível.

3. Em primeiro lugar ela deseja saber se o Sr. é feliz.

R. Estou na erraticidade, estado transitório que não proporciona


nem felicidade, nem castigo absolutos.

4. Permaneceu por muito tempo inconsciente do seu estado?


R. Estive muito tempo perturbado e só voltei a mim para bendizer
a piedade daqueles que, lembrando-se de mim, por mim oraram.

5. E pode precisar o tempo dessa perturbação?

R.Não.

6. Quais os parentes que reconheceu primeiro?

R. Minha mãe e meu pai, os quais me receberam ao despertar,


iniciando-me à nova vida.
7. A que atribuir o fato de parecer que nos últimos extremos da
moléstia confabulam com as pessoas caras da Terra?

R. Ao conhecimento antecipado pela revelação do mundo que


viria habitar. Vidente antes da morte, meus olhos só se turvaram
no momento da separação do corpo, porque os laços carnais
eram ainda muito vigorosos.

8. Como explicar as recordações da infância que de


preferência lhe ocorriam?

R. Ao fato de o princípio se identificar mais com o fim, que com


o meio da vida.

P. Como explicar isso?

R. Importa dizer que os moribundos lembram e vêem como


miragem consoladora, a pureza infantil dos primeiros anos.

É provavelmente por motivo providencial semelhante que os


velhos, à proporção que se aproximam do termo da vida, têm, por
vezes, insignificantes episódios da infância.

9. Por que, referindo-se ao corpo, falava o Sr. sempre na


terceira pessoa?

R. Porque era evidente como lhe disse, e sentia claramente as


diferenças entre o físico, e o moral; essas diferenças, muito
religadas entre si pelo fluido vital, tornam-se distintíssimas aos
olhos dos moribundos clarividentes.

Eis aí uma particularidade singular da morte desse senhor.


Nos seus últimos momentos dizia sempre: ele tem sede, é
preciso dar-lhe de beber; tem frio, é preciso aquecê-lo; sofre
nessa ou naquela região etc. Quando lhe diziam: Mas é o Sr.
que tem sede? — respondia: "Não, é ele". Aqui ressaltam
perfeitamente as duas existências;

o eu Pensante estava no Espírito, não no corpo; o Espírito,


em parte desprendido, considerava o corpo outra
individualidade, que a bem dizer não lhe pertencia; era
portanto ao seu corpo que se fazia mister dessedentar, e não
a ele, Espírito. O fenômeno nota-se também em alguns
sonâmbulos.

10. O que o Sr. disse da erraticidade do seu espírito e sua


respectiva perturbação levar-nos-ia a duvidar da sua felicidade,
ao contrário do que se poderia inferir das suas qualidades.
Demais, há Espíritos errantes felizes e infelizes.

R. Estou num estado transitório; aqui as virtudes humanas


passam a ter o seu justo valor. Certamente este estado é mil
vezes preferível ao da minha encarnação terrestre; mas porque
alimentei sempre aspirações ao verdadeiramente bom e belo,
minha alma não ficará satisfeita senão quando e colocar aos pés
do Criador.

Cardon, médico

Passara uma parte da sua vida na marinha mercante, como


médico de navio baleeiro, adquirindo naquele ambiente ideias um
tanto materialistas; recolhido à cidade de J..., exerceu aí a
modesta profissão de médico de roça. Havia algum tempo,
adquirira a certeza de estar tomado de uma hipertrofia do
coração; sabendo que a moléstia era incurável, deixava abater-se
pela perspectiva da morte, num estado de melancolia
inconsolável. Predisse o dia certo do falecimento, com
antecipação de cerca de dois meses, e, chegando o momento,
reuniu a família para dizer-lhe o último adeus.

Estando abeirados do seu leito a esposa, a mãe, os três filhos


e outros parentes, quando a primeira tentava erguê-lo, tornou-se
de um roxo lívido, fechando os olhos pelo que foi julgado morto. A
esposa colocou-se então de permeio, para ocultar aos filhos o
espetáculo.
Minutos depois, o doente reabriu os olhos; sua fisionomia, por
assim dizer iluminada, tomou radiante expressão de beatitude, e
ele exclamou:

"Oh! meus filhos, belo e sublime! Oh! A morte, que benefício,


que coisa suave! Morto, senti minha alma elevar-se bem alta,
porém Deus me permitiu voltasse para poder dizer-lhes: não
lamentem a minha morte, que é a libertação. Ah! que eu não
posso descrever-lhes a magnificência de tudo quanto vi, as
impressões que experimentei! Mas vocês não poderiam
compreendê-las... Oh! meus filhos, comportem-se sempre de
modo a merecer esta inefável felicidade reservada aos homens
de bem; vivam, de conformidade com os preceitos da caridade;
daquilo que tiverem, dêem sempre uma parte aos necessitados.

Minha querida mulher, deixo-a numa posição pouco lisonjeira;


temos dívidas a receber, mas eu a conjuro a não atormentar os
nossos devedores; se estiverem em apuros, espera que possam
pagar; e aos que não o puderam fazer, perdoe-lhes, Deus a
recompensará. Você, meu filho, trabalhe para manter a mãe; seja
honesto sempre e evite fazer alguma coisa que possa manchar a
nossa família. Tome esta cruz, herança de minha mãe; não a
deixe nunca e oxalá lhe lembre ela sempre os meus derradeiros
conselhos. Meus filhos, ajudem-se, os meus apoiem-se
reciprocamente para que a boa harmonia reine entre vocês, não
sejam vaidosos nem orgulhosos; perdoem os seus inimigos se
quiserem que Deus lhes perdoe..."

Depois fazendo-os chegar a si, tornou-lhe as mãos,


acrescentando:

"Meus filhos, eu os abençoo". E seus olhos cerraram-se, desta


vez para sempre; seu rosto, porém, conservou uma expressão
tão imponente que, até o momento de ser amortalhado, numerosa
mole humana veio contemplá-lo, tomada de admiração.

Tendo-nos um amigo da família fornecido estes pormenores


assaz interessantes, lembramo-nos que a evocação podia tornar-
se instrutiva a todos nós e útil ao próprio Espírito.

1.Evocação:

— R. Estou perto de vós.

2. Relataram-nos as circunstâncias em que se deu a vossa


passagem e ficamos cheios de admiração. Quereis ter a bondade
de nos descrever ainda mais minuciosamente o que vistes no
intervalo do que poderíamos denominar as vossas duas mortes?

R. O que vi... E podereis compreendê-lo? Não sei, visto como


não encontraria expressões apropriadas à compreensão do que
pude ver durante os instantes em que me foi possível deixar o
envoltório mortal.

3. E sabeis em que lugar estivestes? Seria longe da Terra, em


outro planeta, ou no Espaço?

R. O Espírito não mede distâncias, nem lhes conhece o valor


como a vós acontece. Arrebatado por não sei que agente
maravilhoso, eu vi os esplendores de um céu, desses que só em
sonho podemos imaginar. Esse percurso, através do infinito,
fazia-se com celeridade tamanha que eu não pude precisar os
instantes nele empregados pelo meu Espírito.

4. E fruís atualmente a felicidade que entrevistes?

R. Não; bem desejaria poder frui-la, mas Deus não deveria


recompensar-me assim. Revoltei-me muitas vezes contra os
pensamentos abençoados que o coração me ditava e a morte
parecia-me uma injustiça.

Médico incrédulo, eu havia assimilado na arte de curar uma


aversão profunda à segunda natureza, que é o nosso impulso
inteligente, divino; para mim a imortalidade da alma não passava
de ficção própria para seduzir as naturezas pouco instruídas,
embora o nada me espantasse, maldizendo o misterioso agente
que atua perenemente. A Filosofia desviara-me, sem que eu
desse por isto, da compreensão da grandeza do Eterno, que sabe
distribuir a dor e a alegria para ensino da Humanidade.

5. Logo após o definitivo desprendimento reconheceste o vosso


estado?

R. Não; eu só me reconheci durante a transição que o meu


Espírito experimentou para percorrer a etérea região. Isto, porém,
não ocorreu imediatamente, sendo-me necessários alguns dias
para o meu despertar.

Deus concedera-me uma graça, em razão do que vou explicar-


vos: a minha primitiva descrença não mais existia; tornara-me
crente antes da morte, depois de haver cientificamente sondado
com gravidade a matéria que me atormentava, de não haver
encontrado ao fim das razões terrestres senão a razão divina, que
me inspirou e consolou, dando-me coragem mais forte que a dor.
Assim bendizia aquilo que amaldiçoara, encarava a morte como
uma libertação. A ideia de Deus é grande como o mundo! Oh!
Que supremo consolo na prece, que nos enternece e comove: ela
é o elemento mais positivo da nossa natureza imaterial; foi por ela
que compreendi, que cri firme, soberanamente, e porisso, Deus,
levando em conta os meus atos, houve por bem recompensar-me
antes do termo da minha encarnação.

6. Poder-se-ia dizer que estivesses morto nessa primeira crise?

R. Sim e não: tendo o Espírito abandonado o corpo,


naturalmente a carne extinguia-se; entretanto retomando posse
da morada terrena, a vida voltou ao corpo, que passou por uma
transição, por um sono.

7. E sentíeis então os laços que vos prendiam ao


corpo?

R. Sem dúvida; o Espírito tem um grilhão fortíssimo que


o prende e não entra na vida natural antes que dê o último
estremecimento da carne.

8. Como pois, na vossa morte aparente e durante alguns


minutos, pode o vosso Espírito desprender-se súbita e
imperturbavelmente, ao passo que o desprendimento efetivo se
fez acompanhar da perturbação por alguns dias? Parece-nos que
no primeiro caso, os laços entre corpo e Espírito subsistindo mais
que no segundo, o esprendimento deveria ser mais lento, ao
contrário justamente do que se deu.

R. Tendes muitas vezes evocado um Espírito encarnado,


recebendo respostas exalas; eu estava nas condições desses
Espíritos, porque Deus me chamava e os seus servidores me
diziam: —"Vem..." Obedeci, agradecendo-lhe o favor especial que
houve por bem conceder-me para que pudesse entrever,
compreendendo-a, a Sua infinita grandeza. Obrigado a vós, que
antes da morte real me permitistes doutrinar os meus, para que
façam boas e justas encarnações.

9. Donde provinham as belas palavras que após o despertar


dirigistes à vossa família?

R. Eram o reflexo do que tinha visto e ouvido; os bons Espíritos


inspiravam-me a linguagem e davam fulgor à minha fisionomia.

10. Que impressão julgais ter a vossa revelação produzido nos


assistentes, notadamente nos vossos filhos?

R. Surpreendente, profunda; uma morte não é mentirosa; os


filhos, por mais ingratos que possam ser, se curvam sempre à
encarnação que termina. Se pudéssemos penetrar o coração dos
filhos, junto de um túmulo entreaberto, ve-lo-íamos apenas
palpitar de sentimentos verdadeiros, sinceros, tocados pela mão
secreta dos Espíritos, que dizem em todos os pensamentos:
tremei se duvidais; a morte é a reparação, a justiça de Deus, e eu
vos asseguro, em que pese aos incrédulos, que a minha família e
os amigos creram nas palavras por mim pronunciadas antes da
morte. Eu era, ao demais, intérprete de um outro mundo.

11. Dizendo não gozardes da felicidade entrevista, podemos daí


concluir que sejais infeliz?

R. Não, uma vez que me tornei crente antes da morte, e isto de


coração e consciência. A dor acabrunha nesse mundo, mas
fortalece sob o ponto de vista do futuro espiritual. Notai que Deus
teve em conta as minhas preces e a crença n'Ele depositada em
absoluto; estou firme no caminho da perfeição e chegarei ao fim
que me foi permitido lobrigar. Orai, meus amigos, por este mundo
invisível que preside aos vossos destinos; esta permuta fraternal
é, de caridade; é a alavanca que põe em comunhão os Espíritos
de todos os mundos.

12. Acaso quereríeis dirigir algumas palavras à vossa mulher e


filhos?

R. Peço a todos os meus que acreditem no Deus poderoso,


justo, imutável; na prece que consola e alivia; na caridade que é a
mais pura prática da encarnação humana; peco-lhes que se
lembrem que do pouco também se pode dar, pois o óbolo do
pobre é o mais meritório aos olhos de Deus, desse Deus que
sabe que muito dá um pobre, mesmo que dê pouco.

O rico precisa dar muito, e repetidamente, para merecer outro


tanto. O futuro é a caridade, a benevolência em todos os atos; é
considerar que todos os Espíritos são irmãos, nunca preocupar-
se com as mil pueris vaidades da Terra.

Tereis rudes provações, querida, amada família; aceitai-as,


porém, corajosamente, lembrando-vos de que Deus as vê. Repeti
amiúde esta prece: — "Deus de amor e bondade, que tudo e
sempre faculta, dá-nos força superior a todas as vicissitudes,
torna-nos bons, humildes e caridosos, pequenos pela fortuna e
grandes de coração. Permite seja espírita o nosso Espírito na
Terra, a fim de melhor Te compreendermos e Te amarmos.

Seja Teu Nome emblema da Liberdade, oh! meu Deus! —


OConsolador de todos os oprimidos, de todos os que necessitam
amar, perdoar e crer. Cardon.

Eric Stanísias

(Comunicação espontânea: Sociedade de Paris: agosto de 1863)

"Que ventura nos proporcionam as emoções vivamente


sentidas por valorosos corações! Oh! Suaves pensamentos que
vindes abrir o caminho da salvação a tudo que vive, que respira
material e espiritualmente. Não deixe nunca o bálsamo
consolador de derramar-se profusamente sobre vós e sobre nós!
De que expressões nos servimos, que traduzam a felicidade dos
irmãos, desencarnados, ao perscrutarem o amor que une a
todos?

Ah! irmãos, quanto bem por toda parte, quantos elementos


suaves, elevados e simples como vós, como a vossa Doutrina,
sois chamados a implantar ao longo da estrada a percorrer; mas,
também, quanto vos será outorgado antes mesmo de terdes
adquirido direitos!

Assisti a tudo quanto se passou esta noite; ouvi, compreendi e


vou procurar por minha vez cumprir o meu dever e instruir a
classe dos Espíritos imperfeitos. Ouvi, eu estava longe de ser
feliz; abismado na imensidade, no infinito, os meus padecimentos
eram tanto mais intensos, quanto difícil me era os compreendê-
los.

Bendito seja Deus, que me permitiu vir a um santuário, que não


pode ser franqueado impunemente pelos maus.

Amigos, quanto vos agradeço, quanto de forças entre vós


recobrei!

Oh! Homens de bem, reuni-vos constantemente; estudai, uma


vez que não podeis duvidar dos frutos das reuniões sérias; os
Espíritos que têm muito ainda a aprender, os que ficam
voluntariamente inativos, preguiçosos e esquecidos dos seus
deveres, podem encontrar-se, em virtude de circunstâncias
fortuitas ou não, aí entre vós; e então, fortemente tocados,
quantas vezes lhes é dado, reconhecendo-se, entreverem o fim, o
objetivo cobiçado, ao mesmo tempo que procurarem, fortes pelo
exemplo que lhes dais, os meios de fugir ao penoso estado que
os avassala.

Com grande satisfação me constituo intérprete das almas


sofredoras, porquanto é ao homem de coração que me dirijo, na
certeza de não ser repelido.

Ainda uma vez aceitai, pois, homens generosos, a expressão


do meu reconhecimento em particular, e em geral de todos a
quem tanto bem tendes feito, talvez sem o saberdes." Eric
Stanislas.

O guia do médium: — Meus filhos, este é um Espírito que


sofreu muito tempo, tresmalhado do bom caminho. Agora
compreendeu os seus erros, arrependeu-se e voltou os olhos
para o Deus que negara. A sua posição não é a de um feliz,
porém ele aspira à felicidade e não mais sofre. Deus permitiu-lhe
esta audição para que desça depois a uma esfera inferior, a fim
de instruir e estimular o progresso de Espíritos que, como ele,
transgrediram a lei. É a reparação que lhe compete. Afinal, ele
conquistará a felicidade, porque tem força de vontade.

Senhora Atina Belleville

Mulher falecida ainda moça aos trinta e cinco anos de idade,


após cruel enfermidade. Vivaz, espiritual, dotada de inteligência
rara, de meticuloso critério e eminentes qualidades morais;
esposa e mãe de família devotada, ela possuía, ao demais, uma
integridade de caráter pouco comum e uma fecundidade de
recursos que a trazia sempre a coberto das mais críticas
eventualidades da existência.

Sem guardar ressentimentos das pessoas de quem poderia


queixar-se, estava sempre pronta a prestar-lhes oportuno serviço.
Intimamente ligados à sua pessoa desde longos anos, pudemos
acompanhar-lhe todas as fases da existência, bem como todas as
peripécias do seu fim. Proveio de um acidente a moléstia que
havia de levá-la, depois de a reter três anos na cama, presa dos
mais cruéis sofrimentos, aliás suportados até o fim com uma
coragem heróica e a despeito dos quais a graça natural do seu
Espírito jamais a abandonou. Ela acreditava firmemente na
existência da alma e na vida futura, mas pouco se preocupava
com isso; todos os seus pensamentos se relacionavam com o
presente, que muito lhe importava, posto não tivesse medo da
morte e fosse indiferente aos gozos materiais. A sua vida era
simples e sem sacrifício; abria mão do que não podia obter; mas
possuía inato o sentimento do bem e do belo, que apreciava até
nas coisas mínimas.

Queria viver menos para si que para os filhos, avaliando a falta


que lhes faria, e era isso que a prendia à vida. Conhecia o
Espiritismo sem o ter estudado a fundo; interessava-se por ele,
mas nunca pode fixar as ideias sobre o futuro; este era para ela
uma realidade, mas não lhe deixava no Espírito uma impressão
profunda.

O que praticava de bom era o resultado de um impulso natural,


espontâneo, sem ideia de recompensas ou de penas futuras.

Havia muito era desesperador o seu estado e iminente o


desenlace, circunstância que ela própria ignorava. Um dia,
achando-se ausente o marido, sentiu-se desfalecer e
compreendeu que a hora era chegada; embaciando-se-lhe a
vista, a perturbação a invadia, sentindo todas as angústias da
separação.
Custava-lhe, contudo, a morte antes da volta do esposo.
Fazendo supremo esforço sobre si mesma, murmurou: "Não, não
quero morrer!"

Então sentiu renascer-lhe a vida e recobrou o uso pleno das


faculdades. Quando o marido chegou, disse-lhe: "Eu ia morrer,
mas quis aguardar a sua vinda, pois tinha algumas
recomendações a fazer-lhe." Assim se prolongou a luta entre a
vida e a morte por três meses ainda, tempo que mais não foi que
dolorosa agonia.

Evocação no dia seguinte ao da morte:

Meus bons amigos, obrigada pelo interesse que vos mereço;


demais, fostes para mim como bons parentes. Pois bem,
regozijai-vos porque sou feliz. Confortai meu pobre marido e velai
por meus filhos. Eu segui logo para junto deles, depois que
desencarnei.

P. Podemos supor que a vossa perturbação não foi longa, uma


vez que nos respondes com lucidez.

R. Ah! meus amigos, eu sofri tanto... e vós bem sabeis que


sofria com resignação. Pois bem, a minha provação está
concluída. Não direi que esteja completamente libertada, não;
mas o certo é que não sofro mais e isso para mim é um grande
alívio! Desta feita estou radicalmente curada, porém, preciso
ainda do auxílio das vossas preces para vir mais tarde colaborar
convosco.

P. Qual poderia ser a causa dos vossos longos sofrimentos?

R. Um passado horrível, meu amigo.

P. Podeis revelar-nos esse passado?

R. Oh! deixai que o esqueça um pouco... paguei-o tão caro...

Um mês depois da morte:

— P. Agora que deveis estar completamente desprendida e


que melhor nos reconheceis, muito estimaríamos ter convosco
uma palestra mais concludente. Poderia, por exemplo, dizer-nos
qual a causa da vossa prolongada agonia? Estivestes durante
três meses entre a vida e a morte...

R. Obrigada, meus amigos, pela vossa lembrança como pelas


vossas preces! Quão salutares me foram estas e como
concorreram para a minha libertação! Tenho ainda necessidade
de ser confortada; continuai a orar por mim. Vós compreendeis o
valor da prece. Aquelas que dizeis não são de modo algum
fórmulas triviais, como as murmuradas por tantos outros que lhes
não medem o alcance, o fruto de uma boa prece.
Sofri muito, porém os meus sofrimentos foram largamente
compensados, sendo-me permitido estar muitas vezes perto dos
queridos filhos, que deixei com tanto pesar!

Prolonguei por mim mesma esses sofrimentos; o desejo


ardente de viver, por amor dos filhos, fazia com que me
agarrasse de alguma sorte à matéria, e, ao contrário dos outros,
eu não queria abandonar o desgraçado corpo com o qual era
forçoso romper, se bem que ele fosse para mim o instrumento de
tantas torturas.

Eis aí a razão da minha longa agonia. Quanto à moléstia e aos


padecimentos decorrentes, eram expiação do passado — uma
dívida a mais, que paguei. Ah! meus bons amigos, se vos tivesse
ouvido, quanta mudança na minha vida atual!

Que alívio experimentaria nos últimos momentos e como teria


sido fácil a separação, se em vez de a contrariar eu me tivesse
abandonado confiadamente à vontade de Deus, à corrente que
me arrastava! Mas em lugar de volver os olhos ao futuro que me
aguardava, eu apenas via o presente que ia deixar!

Quando houver de voltar à Terra serei espírita, vo-lo afirmo.


Que ciência sublime! Assisto constantemente às vossas reuniões
e aos conselhos que vos são transmitidos. Se eu, quando na
Terra, pudesse compreendê-los, os meus sofrimentos teriam sido
atenuados. A ocasião não tinha chegado.

Hoje compreendo a bondade e a justiça de Deus, conquanto


me não encontre suficientemente adiantada para despreocupar-
me das coisas da vida; meus filhos principalmente me atraem,
não mais para mimá-los, porém para velar por eles e inculcar
neles o caminho que o Espírito traça ao presente na Terra. Sim
meus bons amigos, eu tenho ainda graves preocupações, entre
as quais avulta aquela da qual depende o futuro dos meus filhos.

P. Podeis ministrar-nos quaisquer informações sobre o passado


que deplorais?

R. Ah! meus bons amigos, estou pronta a confessar-me. Eu


tinha desprezado o sofrimento alheio, vendo indiferente os
sofrimentos da minha mãe, a quem chamava doente imaginária.
Por não vê-la de cama, supunha que não sofresse e zombava
dos seus queixumes. Eis como Deus castiga.

Seis meses depois da morte:

P. Agora que um tempo mais longo se passou desde que


deixaste o invólucro material, tende a bondade de descrever-nos
a vossa posição no mundo espiritual.
R. Na vida terrestre, eu era o que vulgarmente se chama uma
boa pessoa; antes de tudo, porém, prezava o meu bem-estar:
compassiva por índole, talvez não fosse capaz de penoso
sacrifício para minorar um infortúnio. Hoje, tudo mudou, e posto
seja sempre a mesma, o eu de outrora modificou-se.

Ganhei com a modificação e vejo que não há nem categorias


nem condições além do mérito pessoal, no mundo dos invisíveis,
onde um pobre caridoso e bom se sobreleva ao rico que o
humilhava com a sua esmola. Velo especialmente pelos que se
afligem com tormentos familiares, com a perda de parentes ou de
fortuna. A minha missão é reanimá-los e consolálos e com isso
me sinto feliz. Ama.

Importante questão decorre dos fatos supra mencionados. Ei-


la:

Poderá uma pessoa, por esforço da própria vontade, retardar o


momento de separação da alma do corpo?

Resposta do Espírito de S. Luís: Resolvida afirmativamente,


sem restrições, esta questão poderia dar lugar a consequências
falsas.

Certamente, em dadas condições, pode um Espírito encarnado


prolongar a existência corporal a fim de terminar instruções
indispensáveis, ou, ao menos, por ele assim julgadas — é uma
concessão que se lhe pode fazer, como no caso vertente, além
de muitos outros exemplos. Esta dilação de vida não pode,
porém, deixar de ser breve, visto como é defeso ao homem
inverter a ordem das leis naturais, bem como retornar por vontade
própria à vida, desde que ela tenha atingido o seu fim.

É uma situação momentânea apenas. Preciso é no entanto que


da possibilidade do fato não se conclua a sua generalidade, nem
tampouco que dependa de cada qual prolongar por este modo a
existência. Como provação para o Espírito ou no interesse de
missão a concluir, os órgãos depauperados podem receber um
suplemento de fluido vital que lhes permita prolongar por
instantes a manifestação material do pensamento. Tais casos são
excepcionais e não fazem regra. Tampouco se deve ver nesse
fato uma derrogação de Deus à imutabilidade das suas leis, mas
apenas uma consequência do livre-arbítrio da alma que, no
momento extremo, tem consciência de sua missão e quer, a
despeito da morte, concluir o que não pode até então. Às vezes
pode ser também uma espécie de castigo infligido ao Espírito
duvidoso do futuro esse prolongamento de vitalidade com o qual
tem necessariamente de sofrer. 5. Luís.
Poderíamos ainda admirar a rapidez relativa com que se
desprendeu este Espírito, dado o seu apego à vida corporal;
cumpre, porém, considerar que esse apego nada tinha de
material nem sensual, antes possuindo mesmo a sua face moral,
motivada como era pelas necessidades dos filhos ainda tenros.
Enfim, era um Espírito adiantado em inteligência, um dos
Espíritos dos mais felizes.

Não havia, portanto, nos laços perispiríticos a tenacidade


resultante da identificação material; pode dizer-se que a vida,
debilitada por longa enfermidade, apenas se prendia por ténues
fios, que ele desejava impedir se rompessem. Contudo, a sua
resistência foi punida com a dilação dos sofrimentos
concernentes à própria moléstia e não com a dificuldade do
desprendimento. Assim, realizado este, eis porque a perturbação
foi breve. Um outro fato igualmente importante decorre desta
como da maior parte das evocações feitas em épocas gradativas
ao tempo cujo progresso se traduz, não por melhores
sentimentos, mas por uma apreciação mais justa das coisas. O
progresso da alma na vida espiritual é, portanto, um fato
demonstrado pela experiência. A vida corporal é a prática desse
progresso, a demonstração das suas resoluções, o cadinho em
que ele se depura.
Desde que a alma progride depois da morte, a sua sorte não
pode ser irrevogavelmente fixada, porquanto a fixação definitiva
da sorte é, como já o dissemos, a negação do progresso.

Não podendo coexistir simultaneamente as duas coisas, resta


aquela que tem por si a sanção dos fatos e da razão.
CAPÍTULO IV

ESPÍRITOS SOFREDORES

O Castigo

Exposição geral do estado dos culpados por ocasião da entrada


no mundo dos Espíritos, ditada à Sociedade Espírita de Paris, em
outubro de 1860.

"Depois da morte, os Espíritos endurecidos, egoístas e maus


são logo tomados de uma dúvida cruel a respeito do seu destino,
no presente e no futuro. Olham em torno de si e nada vêem que
possa aproveitar ao exercício da sua maldade — o que os
desespera, visto como o insulamento e a inércia são intoleráveis
aos maus Espíritos.

Não levantam o olhar às moradas dos Espíritos elevados,


consideram aquilo que os cerca e, então, compreendendo o
abatimento dos Espíritos fracos e punidos, se agarrarão a eles
como a uma presa, utilizando-se da lembrança de suas faltas
passadas, que eles põem continuamente em ação pelos seus
gestos ridículos.

Não lhes bastando esse motejo, atiram-se para a Terra como


abutres famintos, procurando entre os homens uma alma que
lhes dê fácil acesso às tentações. Encontrando-a, dela se
apoderam exaltando-lhes a cobiça e procurando extinguir-lhe a fé
em Deus, até que por fim, senhores de uma consciência e vendo
segura a presa, estendem a tudo quanto se lhe aproxime a
fatalidade do seu contágio.

O mau Espírito, no exercício da sua cólera, é quase feliz,


sofrendo apenas nos momentos em que deixa de atuar, ou nos
casos em que o bem triunfa do mal. Passam no entanto os
séculos e, de repente, o mau Espírito pressente que as trevas
acabarão por envolvê-lo; o círculo de ação se lhe restringe e a
consciência, muda até então, faz-lhe sentir os acerados espinhos
do remorso.

Inerte, arrastado no turbilhão, ele vagueia, como dizem as


Escrituras, sentindo a pele arrepiar-se-lhe de terror. Não tarda,
então, que um grande vácuo se faça nele e em torno dele: chega
o momento em que deve expiar; a reencarnação aí está
ameaçadora... e ele vê como num espelho as provações terríveis
que o aguardam; quereria recuar, mas avança e, precipitado no
abismo da vida, rola em sobressalto, até que o véu da ignorância
lhe recaia nos olhos.

Vive, age, é ainda culpado, sentindo em si não sei que


lembrança inquietadora, pressentimentos que o fazem tremer,
sem recuar, porém, da senda do mal. Por fim extenuado de forças
e de crimes, vai morrer. Estendido numa enxerga (ou num leito,
que importa?!), o homem culpado sente, sob aparente
imobilidade, resolver-se e viver dentro de si mesmo um mundo de
esquecidas sensações. Fechadas as pupilas, ele vê um clarão
que desponta, ouve estranhos sons; a alma, prestes a deixar o
corpo, agita-se impaciente, enquanto as mãos crispadas tentam
agarrar as cobertas... Quereria falar, gritar àqueles que o cercam:
— Retenham-me! eu vejo o castigo! — Impossível! a morte sela-
lhe os lábios esmaecidos, enquanto os assistentes dizem:
Descansa em paz!

E contudo ele ouve, flutuando em torno do corpo que não deseja


abandonar. Uma força misteriosa o atrai; vê e reconhece
finalmente o que já vira. Espavorido, ei-lo que se lança no Espaço
onde desejaria ocultar-se, e nada de abrigo, nada de repouso.

Retribuem-lhe outros Espíritos o mal que fez; castigado, confuso


e escarnecido, por sua vez vagueia e vagueiará até que a divina
luz o penetre e esclareça, mostrando-lhe o Deus vingador, o Deus
triunfante de todo o mal, e ao qual não poderá apaziguar senão à
força de expiação e gemidos. Jorge."

Nunca se traçou quadro mais horrível e verdadeiro à sorte do


mau: será ainda necessária a fantasmagoria das chamas e das
torturas físicas?

O Espírito dirige-se ao médium, que em vida o conhecera.

"Vou contar-lhe o meu sofrimento quando morri. Meu Espírito,


preso ao corpo por elos materiais, teve grande dificuldade em
desembaraçar-se — o que já foi, por si, uma rude angústia.

A vida que deixava aos 21 anos era ainda tão vigorosa que eu
não podia crer na sua perda. Por isso procurava o corpo, estava
admirado, apavorado por me ver perdido num turbilhão de
sombras. Por fim, a consciência do meu estado e a revelação das
faltas cometidas, em todas as minhas encarnações, feriram-me
subitamente, enquanto uma luz implacável me iluminava os mais
secretos recônditos da alma, que se sentia desnudada e logo
possuída de vergonha acabrunhante.

`Procurava fugir a essa influência interessando-me pelos


objetos que me cercavam, novos, mas que, no entanto, já
conhecia; os Espíritos luminosos, flutuando no éter, davam-me a
ideia de uma ventura a que eu não podia aspirar; formas
sombrias e desoladas, mergulhadas umas em tedioso desespero;
furiosas ou irónicas outras, deslizavam em torno de mim ou por
sobre a terra a que me chumbava.

Eu via agitarem-se os humanos cuja ignorância invejava; toda


uma ordem de sensações desconhecidas, ou antes
reencontradas, invadiram-me simultaneamente. Como que
arrastado por força irresistível, procurando fugir à dor
encarniçada, franqueava as distâncias, os elementos, os
obstáculos materiais, sem que as belezas naturais nem os
esplendores celestes pudessem acalmar um instante a dor
acerba da consciência, nem o pavor causado pela revelação da
eternidade. Pode um mortal prejulgar as torturas materiais pelos
arrepios da carne; mas as vossas frágeis dores, amenizadas pela
esperança, atenuadas por distrações ou mortas pelo
esquecimento, não vos darão nunca a ideia das angústias de uma
alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem
arrependimento.

Decorrido um tempo cuja duração não posso precisar,


invejando os eleitos cujos esplendores entrevia, detestando os
maus Espíritos que me perseguiam com remoques, desprezando
os humanos cujas torpezas eu via, passei de profundo abatimento
a uma revolta insensata.

Chamaste-me finalmente, e pela primeira vez um sentimento


suave e terno me acalmou; escutei os ensinos que te dão os teus
Guias, a verdade me foi imposta, orei; Deus ouviu-me, revelou-
se-me por Sua clemência, como já se me havia revelado por Sua
Justiça. /Voue/.

Augusto Michel

(Havre, março de 1863)


Era um moço rico, boémio, gozando larga e exclusivamente a
vida material. Conquanto inteligente, o indiferentismo pelas
coisas sérias era-lhe o traço característico.

Sem maldade, antes bom que mau, fazia-se estimar por seus
companheiros de pândegas, sendo apontado na sociedade por
suas qualidades de homem mundano. Não fez o bem, mas
também não fez o mal. Faleceu em consequência de uma queda
da carruagem em que passeava. Evocado alguns dias depois da
morte por um médium que indiretamente o conhecia, deu
sucessivamente as seguintes comunicações:
8 de março de 1860 — "Por enquanto apenas consegui
desprenderme e dificilmente vos posso falar. A queda que me
ocasionou a morte do corpo perturbou profundamente o meu
Espírito.

Inquieta-me esta incerteza cruel do meu futuro. O doloroso


sofrimento corporal experimentado nada é comparativamente a
esta perturbação. Orai para que Deus me perdoe.

Oh! Que dor! Oh! Graças, meu Deus! Que dor! Adeus."

18 de março — "Já vim a vós, mas apenas pude falar


dificilmente. Presentemente, ainda mal me posso comunicar
convosco. Sois o único médium, ao qual posso pedir preces para
que a bondade de Deus me subtraia a esta perturbação. Por que
sofrer ainda, quando o corpo não mais sofre? Por que existir,
sempre esta dor horrenda, esta angústia terrível? Orai, oh! orai
para que Deus me conceda repouso... oh! que cruel incerteza!
Ainda estou ligado ao corpo. Apenas com dificuldade posso ver
onde devo encontrar-me; meu corpo lá está, e porque também lá
permaneço sempre? Vinde orar sobre ele para que eu me
desvencilhe dessa prisão cruel...Deus me perdoará, espero. Vejo
os Espíritos que estão junto de vós e por eles posso falar-vos.
Orai por mim."
6 de abril — "Sou eu quem vem pedir que oreis por mim. Será
preciso irdes ao lugar em que jaz meu corpo, a fim de implorar do
Onipotente que me acalme os sofrimentos?

Sofro! Oh! Se sofro! Ide a esse lugar — assim é preciso e dirigi


ao Senhor uma prece para que me perdoe. Vejo que poderei ficar
mais tranquilo, mas volto incessantemente ao lugar em que
depositaram o que me pertencia".

O médium, não dando importância ao pedido que lhe faziam de


orar sobre o túmulo, deixara de atender. Todavia, indo aí, mais
tarde, lá mesmo recebeu uma comunicação.

11 de maio — "Aqui vos esperava. Aguardava que viésseis ao


lugar em que meu Espírito parece preso ao seu invólucro, a fim
de implorarão Deus de misericórdia e bondade acalmar os meus
sofrimentos. Podeis beneficiar-me com as vossas preces, não o
esqueçais, eu vo-lo suplico. Vejo quanto a minha vida foi contrária
ao que deveria ser; vejo as faltas cometidas.

Fui no mundo um ser inútil; não fiz uso proveitoso das minhas
faculdades; a fortuna serviu apenas à satisfação das minhas
paixões, aos meus caprichos de luxo e à minha vaidade; não
pensei senão nos gozos do corpo, desprezando os da alma e a
própria alma. Descerá a misericórdia de Deus até mim, pobre
Espírito que sofre as consequências das suas faltas terrenas?
Orai para que Ele me perdoe, libertando-me das dores que ainda
me pungem. Agradeço-vos o terdes vindo aqui orar por mim."

8 de junho — "Posso falar e agradeço a Deus que faculta a


oportunidade. Compreendi as minhas faltas e espero que Deus
me perdoe. Trilhai sempre na vida de conformidade com a crença
que vos alenta, porque ela vos reserva de futuro um repouso que
eu ainda não tenho. Obrigado pelas vossas preces. Até outra
vista."

A insistência do Espírito, para que se orasse sobre o seu


túmulo é uma particularidade notável, mas que tinha a sua razão
de ser se levarmos em conta a tenacidade dos laços que ao
corpo o prendiam, à dificuldade do desprendimento, em
consequência da materialidade da sua existência. Compreende-
se que, mais próxima, a prece pudesse exercer uma espécie de
ação magnética mais poderosa no sentido de auxiliar o
desprendimento. O costume quase geral de orar junto aos
cadáveres não provirá da intuição inconsciente de efeito, assim?
Nesse caso, a eficácia da prece alcançaria um resultado
simultaneamente moral e material.
Exprobrações de um Boémio

(Bordéus, 19 de abril de 1862)


30 de julho — "Presentemente sou menos infeliz, visto não
mais sentir a pesada cadeia que me jungia ao corpo. Estou livre,
enfim, mas ainda não expiei e preciso é que repare o tempo
perdido se eu não quiser prolongar os sofrimentos. Espero que
Deus, tendo em conta a sinceridade do arrependimento, me
conceda a graça do perdão. Pedi ainda por mim, eu vo-lo suplico.
Homens, meus irmãos, eu vivi só para mim e agora expio e sofro!

Conceda-vos Deus a graça de evitardes os espinhos que ora


me laceram. Prossegui na senda larga do Senhor e orai por mim,
pois abusei dos favores que Deus faculta às criaturas!

Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons


sentimentos que Deus lhe dá, assemelha-se ao animal que
muitas vezes se maltrata. O homem deve utilizar-se sobriamente
dos bens de que é depositário, habituando-se a visar a
eternidade que o espera, abrindo mão por consequência, dos
gozos materiais. A sua alimentação deve ter por exclusivo fim a
vitalidade; o luxo deve apenas restringir-se às necessidades da
sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os mais naturais,
devem obedecer ao são raciocínio, sem o que ele se materializa
em vez de se purificar.

As paixões humanas são estreitos grilhões que se enroscam na


carne; assim sendo, não lhes deis abrigo. Vós não sabeis o preço
quando regressamós à pátria! As paixões humanas vos despem
antes mesmo de vos deixarem, de modo que chegareis nus,
completamente nus, ante o Senhor. Ah! cobri-vos de boas obras
que vos ajudem a franquear o Espaço entre vós e a eternidade.
Manto brilhante, elas escondem as vossas torpezas humanas.
Envolvei-vos na caridade e no amor, vestes divinas que duram
eternamente."

Instruções do Guia do médium — Este Espírito está num


bom caminho, porquanto, além do arrependimento, deduz
conselhos tendentes a evitar os perigos da senda por ele trilhada.

Reconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o


bem; também por isso, a sua situação, sem ser venturosa, deixa
de ser a de um Espírito infeliz.

Arrependendo-se, resta-lhe a reparação de uma outra


existência Mas antes de lá chegar, sabeis qual a existência
desses homens de vida sensual que não deram ao Espírito outra
atividade além da invenção de novos prazeres?

A influência da matéria segue-os além-túmulo, sem que a morte


lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como
quando na Terra, procura em vão os meios de os saciar. Por não
terem nunca procurado alimento espiritual, a alma erra no vácuo,
sem norte, sem esperança, presa dessa ansiedade de quem não
tem diante de si mais que um deserto sem limites, A inexistência
das lucubrações espirituais acarreta naturalmente a nulidade do
trabalho espiritual depois da morte; e porque não lhe restem
meios de saciar o corpo, nada restará para satisfazer o Espírito.

Daí, um tédio mortal cujo fim não prevêem e ao qual prefeririam


o nada. Mas o nada não existe... Puderam matar o corpo, mas
não podem aniquilar o Espírito. Importa pois que vivam nessas
torturas morais até que, vencidos pelo cansaço, se decidam a
volver os olhos para Deus.

Lisbeth

(Bordéus, 13 de fevereiro de 1862)


Um Espírito sofredor inscreve-se com o nome de Lisbeth.

1. Quereis dar-nos algumas informações a respeito da vossa


posição, assim como da causa dos vossos sofrimentos?
R. Sede humilde de coração, submisso a vontade de Deus,
paciente na provação, caridoso para com o pobre, consolador do
fraco, sensível a todos os sofrimentos e não sofrereis as torturas
porque passo.

2. Pareceis sentir as faltas decorrentes de contrário


procedimento... O arrependimento deverá dar-vos alívio?

R. Não. — O arrependimento é inútil quando apenas produzido


pelo sofrimento. O arrependimento profícuo tem por base a
mágoa de haver ofendido a Deus e importa no desejo ardente de
uma reparação. Ainda não posso tanto, infelizmente.
Recomendai-me às preces de quantos se interessam pelos
sofrimentos alheios, porque delas tenho necessidade.

Este ensinamento é uma grande verdade; às vezes o


sofrimento provoca um brado de arrependimento menos sincero,
que não é a expressão de pesar pela prática do mal, visto como,
se o Espírito deixasse de sofrer, não duvidaria reencetá-la. Eis
porque o arrependimento nem sempre acarreta a imediata
libertação de Espírito. Pré-dispõe-no, porém, para ela — eis tudo.
É-lhe preciso, além disso provar a sinceridade e firmeza da
resolução, por meio de novas provações reparadoras do mal
praticado.
Meditando cuidadosamente sobre todos os exemplos citados,
encontraremos nas palavras dos Espíritos — mesmo dos mais
inferiores — profundos ensinamentos, pondo-nos a par dos mais
íntimos pormenores da vida espiritual. O homem superficial pode
não ver nesses exemplos mais que pitorescas narrativas; mas o
homem sério e refletido encontrará neles abundante manancial de
estudos.

3. Farei o que desejais. Podereis dar-me alguns pormenores da


vossa última existência corporal? Daí talvez nos advenha
ensinamento útil e assim tornareis proveitoso o arrependimento.

(O Espírito vacila na resposta, não só desta pergunta, como de


algumas das que se seguem.)

R. Tive um nascimento de elevada condição. Possuía tudo o


que os homens julgam a fonte da felicidade. Rica, tornei-me
egoísta; bela, fui vaidosa, insensível, hipócrita; nobre, era
ambiciosa. Calquei ao meu poderio aqueles que não se me
arrojavam aos pés e oprimia ainda mais os que sob eles se
colocavam, esquecida de que também a cólera do Senhor
esmaga, cedo ou tarde, as mais altivas frontes.

4. Em que época vivestes?

R. Há cento e cinquenta anos, na Prússia.


5. Desde então não fizeste progresso algum como Espírito?

R. Não; a matéria revoltava-se sempre e tu não podes avaliar a


influência que ela ainda exerce sobre mim, a despeito da
separação do corpo. O orgulho agrilhoa-nos a brônzeas cadeias,
cujos anéis mais e mais comprimem o mísero que lhe hipoteca o
coração. O orgulho, hidra de cem cabeças que se renovam
incessantemente, modulando silvos empeçonhados que chegam
a parecer celeste harmonia! O orgulho — esse demônio
multiforme que se amolda a todas as aberrações do Espírito que
se oculta em todos os refolhos do coração; que penetra as veias;
que absorve e arrasta às trevas da eterna geena!... Oh! sim...
eterna!

Provavelmente, o Espírito diz não ter feito progresso algum, por


ser a sua situação sempre penosa; a maneira pela qual descreve
o orgulho e lhe deplora as consequências é, incontestavelmente,
um progresso. Decerto que, quando encarnado e mesmo logo
após a morte, ele não poderia raciocinar assim. Compreende o
mal, o que já é alguma coisa, e a coragem e o propósito de o
evitar lhe advirão mais tarde.

6. Deus é muito bom para não condenar seus filhos a penas


eternas. Confiais na Sua misericórdia.
R. Dizem que isto pode ter um termo, mas onde e quando? Há
muito que o procuro e só vejo sofrimento, sempre, sempre,
sempre!

7. Como viestes hoje aqui?

R. Conduzida por um Espírito que me acompanha muitas vezes.

P. Desde quando o vedes, a esse Espírito?

R. Não há muito tempo.

P. É desde quando tendes consciência das faltas que


cometestes?

R. (Depois de longa reflexão) Sim, tendes razão; foi daí para cá


que principiei a vê-lo.

8. Compreendeis agora a relação existente entre o


arrependimento e o auxílio prestado por vosso protetor? Tomai
por origem desse apoio o amor de Deus, cujo fim será o seu
perdão e misericórdia infinitos.

R. Oh! como desejaria que assim fosse. Creio poder prometer no


nome, aliás sacratíssimo, d'Aquele que jamais foi surdo à voz dos
filhos aflitos.

9. Pedi de coração e sereis ouvida.


R. Não posso; tenho medo.

P. Oremos juntos, Ele nos atenderá. (Depois da prece). Ainda


estais aí?

R. Sim, Obrigada! Não me esqueçais.

10. Vinde inscrever-vos aqui todos os dias?


R. Sim, sim, virei sempre.

O Guia do médium — Nunca vos esqueçais dos ensinos que


bebeis nos sofrimentos dos vossos protegidos e notadamente nas
suas causas, visto serem lição que a todos aproveita no sentido
de se preservarem dos mesmos perigos e de idênticos castigos.

Purificai os corações, sede humildes, amai-vos e ajudai-vos sem


esquecerdes jamais a fonte de todas as graças, fonte inesgotável
na qual podem todos saciar-se à vontade, fonte de água viva que
desaltera e alimenta igualmente, fonte de vida e ventura eterna.
Ide a ela, meus amigos, e bebei com fé. Mergulhai nela as vossas
vasilhas, que sairão de suas ondas, pejadas de bênçãos.

Adverti vossos irmãos dos perigos em que podem incorrer.


Difundi as bênçãos do Senhor, que se reproduzem
incessantemente:
e quanto mais as propagardes, tanto mais se multiplicarão. Está
em vossas mãos a tarefa, porquanto, dizendo aos vossos irmãos
— aí estão os perigos, lá os escolhidos; vinde conosco a fim de
os evitar:

imitai-nos a nós que damos o exemplo — assim difundireis as


bênçãos do Senhor sobre aqueles que vos ouvirem.

Abençoados sejam os vossos esforços. O Senhor ama os


corações puros: fazei por merecer-lhe amor.

S. Pauiino.

Príncipe Ouran

(Bordéus,1862)
Um Espírito sofredor apresentou-se dando o nome de Ouran,
príncipe russo de outros tempos.

P. Quereis dar-nos alguns pormenores sobre a vossa situação?

R. Oh! Felizes os humildes de coração, porque deles é o reino


do céu! Orai por mim. Felizes os humildes de coração que
escolhem uma posição modesta a fim de cumprirem a provação.
Vós todos, a quem devora a inveja, não sabeis o estado a que
ficou reduzido um desses que na Terra são considerados felizes;
não avaliais o fogo que o abrasa nem os sacrifícios impostos pela
riqueza quando por ela se quer obter a salvação!

Permita-me o Senhor a mim, déspota orgulhoso, expiar os


crimes derivados do meu orgulho entre aqueles mesmos a quem
oprimi com a tirania!

Orgulho! Repita-se constantemente a palavra para que se não


esqueça nunca que ele é a fonte de todos os sofrimentos que nos
acabrunham. Sim, eu abusei do poderio e favores de que
dispunha; fui duro e cruel para com os inferiores, os quais tiveram
de curvar-se a todos os meus caprichos, satisfazer a todas as
minhas depravações. Quis a nobreza, a fortuna, as honras e
sucumbi ao encargo superior às próprias forças.

Os Espíritos que sucumbem são geralmente levados a alegar


um compromisso superior às próprias forças — o que é ainda um
resto de orgulho e um meio de se desculparem para consigo
próprios, não se conformando com a própria fraqueza. Deus não
dá a ninguém mais do que possa suportar, não exige da árvore
nascente os frutos dados pelo tronco desenvolvido. Demais, os
Espíritos têm liberdade; o que lhes falta é a vontade, e esta
depende deles exclusivamente. Com força de vontade não há
tendências viciosas insuperáveis; mas, quando um vício nos
apraz, é natural que não façamos esforços por domá-lo. Assim,
somente a nós devemos atribuirás respectivas consequências.

P. Tendes consciência das vossas faltas e isto é já um passo


para a regeneração.

R. Esta consciência é ainda um sofrimento. Para muitos


Espíritos o sofrimento é um efeito quase material, visto como,
atendo-se à humanidade de sua última encarnação, não
experimentam nem apreendem as sensações morais. Liberto da
matéria, o sentimento moral aumentou-se, para mim, de tudo
quanto as cruéis sensações físicas tinham de horrível.

P. Lobrigais um termo aos vossos padecimentos?

R. Sei que não serão eternos, mas não lhes entrevejo o fim,
sendo-me antes preciso recomeçar a provação.

P. E esperais fazê-lo em breve?

R. Não sei nada.

P. Lembrai-vos dos vossos antecedentes? Faço-vos este pedido


no intuito de me instruir.

R. Vossos Guias aí estão e sabem do que precisais. Vivi no


tempo de Marco Aurélio. Poderoso então, sucumbi ao orgulho,
causa de todas as quedas. Depois de uma erraticidade de
séculos, quis experimentar uma existência obscura.

"Pobre estudante, mendiguei o pão, mas o orgulho possuía-me


sempre: o Espírito ganhara em ciência, mas não em virtude.
Sábio ambicioso, vendi a consciência a quem mais dava, servindo
a todas as vinganças, a todos os ódios. Sentia-me culpado, mas a
sede de glórias e riquezas estrangulava a voz da consciência.

A expiação ainda foi longa e cruel. Eu quis enfim, na minha


última encarnação, reencetar uma vida de luxo e poderio, no
intuito de dominar os tropeços, sem atender a conselhos. Era
ainda o orgulho levando-me a confiar mais em mim mesmo do
que no conselho dos protetores amigos que sempre velam por
nós.

Sabeis o resultado desta última tentativa. Hoje, enfim,


compreendo e aguardo a misericórdia do Senhor. Deponho a
seus pés, o meu arrasado orgulho e peco-Lhe que me
sobrecarregue com o mais pesado tributo de humildade, pois com
o auxílio da Sua graça o peso me parecerá leve.

Orai comigo e por mim: orai também para que esse fogo
diabólico não devore os instintos que vos encaminham para
Deus. Irmãos de sofrimentos, o orgulho é o inimigo da felicidade.
É dele que promanam todos os males que acometem a
Humanidade e a perseguem até nas regiões celestes."

O Guia do médium — Concebestes dúvidas sobre a identidade


deste Espírito, por vos parecer a sua linguagem em desacordo
com o estado de sofrimento acusando inferioridade.

Desvanecei essas dúvidas, porque recebestes uma


comunicação séria. Por mais sofredor, este Espírito tem assaz
culta inteligência para exprimir-se de tal maneira. O que lhe
faltava era apenas a humildade, sem a qual nenhum Espírito
pode chegar a Deus. Essa humildade conquistou-a agora, e nós
esperamos que, com perseverança, ele sairá triunfante de uma
nova provação.

Nosso Pai celestial é justíssimo na sua Sabedoria e leva em


conta os esforços da criatura para dominar os maus instintos.
Cada vitória sobre vós mesmos é um degrau franqueado nessa
escada que tem uma extremidade na Terra e outra aos pés do
Juiz supremo.

Alçai-vos por esses degraus resolutamente, porque a subida é


tanto mais suave quanto firme a vontade. Olhai sempre para cima
a fim de vos encorajardes, porque ai daquele que pára e se volta.
Depressa o atinge a vertigem, espanta-se do vácuo que o cerca,
desanima e diz: para que mais caminhar, se tão pouco o tenho
feito e tanto me falta? Não, meus amigos, não vos volteis.

O orgulho está incorporado no homem; pois bem, aproveitai-o


na força e na coragem de terminar a vossa ascensão. Empregai-o
ainda em dominar as fraquezas e galgai o cume da montanha
eterna.

Pascal Lavic

(Havre, 9 de agosto de 1863)


Este Espírito, sem que o médium o conhecesse em vida, mesmo
de nome, comunicou-se espontaneamente.

Desconhecido inteiramente esse nome, não sugeria sequer à


memória do médium uma vaga lembrança, pelo que supôs fosse
de algum desgraçado náufrago que se lhe viesse manifestar
espontaneamente, como sucedia várias vezes. Mais tarde soube
ser, efetivamente, o nome de uma das vítimas da grande
catástrofe marítima ocorrida nessas paragens a 2 de dezembro
de 1863. A continuação foi dada a 8 do mesmo mês, 6 dias,
portanto, depois do sinistro.
O indivíduo perecera fazendo tentativas inauditas para salvar a
equipagem e no momento em que se julgava ao abrigo da morte.
Não tendo qualquer parentesco com o médium, nem mesmo
conhecimento, por que se teria manifestado a este em vez de o
fazer a qualquer membro da família? É que os Espíritos não
encontram em todas as pessoas condições fluídicas
imprescindíveis à manifestação. Este, na perturbação em que
estava, nem mesmo tinha a liberdade da escolha, sendo
conduzido instintiva e atrativamente para o médium, dotado, ao
que parece, de aptidão essencial para as comunicações deste
género. Também é de supor que pressentisse uma simpatia
particular, como outros a encontraram em idênticas
circunstâncias. A família, estranha ao Espiritismo, talvez infensa
mesmo a esta crença, não teria acolhido a manifestação como
esse médium.

Posto que a morte remontasse a alguns dias, o Espírito lhe


experimentava ainda todas as angústias. Evidente, portanto, que
não tinha consciência da situação; acreditava que estava vivo,
lutando com as ondas, mas ao mesmo tempo se referindo ao
corpo como se dele estivesse separado; grita por socorro, diz que
não quer morrer e fala logo após da causa da sua morte,
reconhecendo nela um castigo.
Toda essa incoerência denota a confusão das ideias, fato
comum em quase todas as mortes violentas.

Dois meses mais tarde, a 2 de fevereiro de 1864, o Espírito de


novo se comunicou espontaneamente pelo mesmo médium,
dizendo-lhe o seguinte:

"A piedade que tivestes dos meus tão horríveis sofrimentos


aliviou-me.
Compreendo a esperança, entrevejo o perdão, mas depois do
castigo da falta cometida. Sofro continuamente, e, se por
momentos permite Deus que eu entreveja o fim da minha
desventura, devo-o às preces de caridosas almas apiedadas da
minha situação. Oh! Esperança, raio celeste, quão bendita és
quando te sinto despontar-me na alma!...Mas, oh! O abismo
escancarase, o terror e o sofrimento absorvem o pensamento de
misericórdia...

A noite, sempre a noite!... a água, o bramir das ondas que me


tragaram, são apenas pálida imagem do horror, em que se
envolve o meu Espírito... Fico mais calmo quando posso
permanecer junto de vós, pois assim como a confidência de um
segredo ao peito amigo nos alivia, assim a vossa piedade,
motivada pela confidência da minha penúria, acalma o sofrimento
e dá repouso ao meu Espírito...

Fazem-me bem as vossas preces, não mais recuseis. Não quero


reapossar-me desse horroroso sonho que se transforma em
realidade quando o vejo... Tomai o lápis mais vezes. Muito me
aliviará o comunicar convosco."

Dias depois, numa reunião espírita em Paris, dirigiram-se a este


Espírito as seguintes perguntas, por ele englobadas numa única
comunicação e mediante outro médium, na forma abaixo. Eis as
perguntas:

Quem vos levou a comunicar espontaneamente pelo outro


médium? De que tempo datava a vossa morte quando vos
manifestasses?

Quando o fizestes parecíeis duvidar ainda do vosso estado, ao


mesmo tempo que externáveis angústias de uma morte horrível;
tendes agora melhor compreensão dessa situação?

Dissestes positivamente que a vossa morte era uma expiação:


podereis dizer-nos o motivo dessa afirmativa?
Isso constituirá ensinamento para nós e ser-vos-á um alívio. Por
uma confissão sincera fareis jus à misericórdia de Deus, a qual
solicitaremos em nossas preces.

Resposta. "Em primeiro lugar parece impossível que uma


criatura humana possa sofrer tão cruelmente. Deus! Como é
penoso ver-se a gente constantemente envolta nas vagas da
fúria, provando incessantemente este suplício, este frio glacial
que sobe ao estômago e o constringe!

Mas de que serve entreter-vos com tais cenas? Não devo eu


começar por obedecer às leis da gratidão, agradecendo-vos a vós
todos que vos interessastes pelos meus tormentos? Perguntastes
se me manifestei muito tempo depois da morte?

Não posso responder facilmente. Refletindo, avaliareis em que


situação horrível estou ainda. Penso que para junto do médium fui
trazido por força estranha à minha vontade e coisa inexplicável —
servia-me do seu braço com a mesma facilidade com que sirvo
neste momento do vosso, persuadido de que ele me pertencesse.
Agora experimento mesmo um grande prazer, como que um alívio
particular, que... mas ah! Ei-lo que vai cessar.

Mas, meu Deus! Terei forças para fazer a confissão que me


cumpre?"
Depois de ser muito animado, o Espírito ajuntou: "Eu era muito
culpado e o que mais me tortura é ser tido por mártir, quando em
verdade não o fui... Na precedente existência eu mandara
ensacar várias vítimas e atirá-las ao mar... Orai por mim!..."

Comentário de S. Luís

Esta confissão trará grande alívio ao Espírito, que efetivamente


foi bem culpado! Honrosa, porém, foi a existência que vem de
deixar: era mui estimado dos chefes. Essa circunstância era o
fruto do arrependimento e das boas resoluções que tomou antes
de voltar à Terra, onde, tanto quanto fora cruel, desejara ser
humano. O devotamento que demonstrou era uma reparação,
sendo-lhe porém preciso resgatar as passadas faltas por uma
expiação final — a da morte que teve. Ele mesmo quis purificar-
se pelo sofrimento das torturas que a outros infligira e reparai que
uma ideia o persegue; o pesar de ser tido como mártir. Será
tomada em consideração essa humildade. Enfim, ele deixou o
caminho da expiação para entrar no da reabilitação, no qual por
vossas preces podereis sustentá-lo, fazendo que o trilhe a passo
mais firme e resoluto.
Francisco Riquier

Era um velho celibatário, avarento e muito popular, falecido em


C... em 1857, legando aos parentes colaterais considerável
fortuna. Em tempo fora locador de uma inquilina, que mais tarde o
esquecera completamente, ignorando até se ainda, ou não, vivia.
Em 1862, seguidas de espontâneo sono magnético e também
boa médium escrevente, viu, num desses sonos, o Sr. Riquier, o
qual, assegurava, pretendia dirigir-se à mãe dela.

Passados alguns dias, uma vez que se manifestara


espontaneamente confirmando aquele intuito, entretiveram com
ele a seguinte conversação:

P . Que pretendeis de nós?

R. O dinheiro do qual se apossaram, os miseráveis, a fim de o


repartirem! Venderam fazendas, casas, tudo para se
locupletarem! Desbarataram meus bens como se não mais me
pertencessem. Fazei com que haja justiça, já que a mim não me
ouvem, e não quero presenciar essas infâmias. Dizem que eu era
usurário, e guardaram-me o dinheiro. Por que não me querem
restituir? Acharão que foi mal ganho?
P. Mas vós estais morto, meu caro senhor, e não tendes mais
necessidade alguma de dinheiro. Implorai a Deus para vos
conceder uma nova existência de pobreza a fim de expiardes a
usura desta última.

R. Não, eu não poderei viver na pobreza. Preciso do meu


dinheiro, sem o qual não posso viver. Demais, não preciso de
outra existência, porque vivo estou atualmente.

P. (Foi-lhe feita a seguinte pergunta no intuito de chamá-lo à


realidade) Sofreis?

R. Oh! sim. Sofro piores torturas que as da mais cruel


enfermidade, pois é minha alma quem as padece. Tendo sempre
em mente a iniquidade de uma vida que foi para muitos motivo de
escândalos, tenho a consciência de ser um miserável indigno de
piedade, mas'o meu sofrimento é tão grande que mister se faz
que me auxiliem a sair desta situação deplorável.

P. Oraremos por vós.

R. Obrigado! Orai para que eu esqueça os meus bens terrenos,


sem o que não poderei arrepender-me. Adeus e obrigado.

Francisco Riquier, Rue de Ia Charité n° 14.


É curioso ver-se este Espírito indicar a moradia como se
estivesse vivo.

A senhora deu-se pressa em verificá-la e ficou muito


surpreendida por ver que era justamente a última casa que
Riquier habitara. Eis, como, após cinco anos, ainda ele não se
considerava morto, antes experimentava a ansiedade, bem cruel
para um usurário, de ver os bens partilhados pelos herdeiros. A
evocação, provocada indubitavelmente por qualquer Espírito bom,
teve por fim fazer-lhe compreender o seu estado e predispo-lo ao
arrependimento.

Clara

(Sociedade de Paris, 1861)


O Espírito que forneceu as comunicações seguintes pertenceu a
uma senhora que o médium conhecera quando na Terra.

A sua conduta, como o seu caráter, justificam plenamente os


tormentos que lhe sobrevieram. Além do mais, ela era dominada
por um sentimento exagerado de orgulho e egoísmo pessoais,
sentimento que se patenteia na terceira das mensagens, quando
pretende que o médium apenas se ocupe com ela. As
comunicações foram obtidas em diferentes épocas, sendo que as
três últimas já denotam sensível progresso nas disposições do
Espírito, graças ao cuidado do médium, que lhe empreendera a
educação moral.

1. Eis-me aqui, eu, a desgraçada Clara. Que queres tu que te


diga? A resignação e a esperança não passam de palavras, para
os que sabem que, inumeráveis como as pedras da saraivada, os
sofrimentos lhe perdurarão na sucessão interminável dos séculos.
Posso suavizá-los, dizes tu... Que vagas palavras! Onde
encontrar coragem e esperança para tanto? Procura, pois,
inteligência obtusa, compreender o que seja um dia eterno. Um
dia, um ano, um século... que sei eu? Se as horas o não dividem,
as estações variam; eterno e lento como a água que o rochedo
roreja, esse dia execrando, maldito, pesa sobre mim, apenas
sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro!

Contudo, sei que acima desta miséria reina o Deus Pai, para o
qual tudo se encaminha. Quero pensar n'Ele, quero implorar-Lhe
misericórdia.
Debato-me e vivo de rojo como o estropiado que rasteja ao longo
do caminho. Não sei que poder me atrai para ti; talvez sejas a
salvação. Quando te deixo é mais calma e reanimada, como
anciã enregelada que se aquecesse a um raio de sol. Gélida,
minha alma se reanima à tua aproximação.

2. A minha desgraça aumenta dia-a-dia, proporcionalmente ao


conhecimento da eternidade. Oh! Miséria! Malditas sejam as
horas de egoísmo e inércia, nas quais, esquecida de toda a
caridade, de todo o afeto, eu só pensava no meu bem-estar!
Malditos interesses humanos, preocupações materiais que me
cegaram e perderam! Agora o remorso do tempo perdido. Que te
direi a ti, que me ouves? Olha, vela constantemente, ama os
outros mais que a ti mesmo, não retardes a marcha nem
engordes o corpo em detrimento da alma. Vela, conforme
pregava o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeças estes
conselhos, porque se o meu Espírito os concebe, o coração
nunca os ouviu. Como o cão escorraçado rastejando de medo,
assim me humilho sem conhecer ainda o voluntário amor. Muito
tarda a sua divina aurora a despontar! Ora por minha alma
dessecada e tão miserável!

3. Porque me esqueces, até aqui venho procurar-te. Acreditas


que preces isoladas e a simples pronúncia do meu nome
bastarão ao apaziguamento das minhas penas? Não, cem vezes
não. Eu urro de dor, errante, sem repouso, sem asilo, que se me
enterra na alma revoltada. Quando ouço os vossos lamentos, rio-
me, assim como quando vos vejo abatido. As vossas efémeras
misérias, as lágrimas, tormentos que o sono susta, que são?
Durmo eu aqui? Quero, (ouviste?) quero que, deixando as tuas
lucubrações filosóficas, te ocupes de mim, além de fazeres com
que outros mais também se ocupem. Não tenho expressões para
definir esse tempo que se escoa, sem que as horas lhe assinalem
períodos. Vejo apenas um ténue raio de esperança, foste tu que
me deste: não me abandones pois.

4. O Espírito de S. Luís — Este quadro é de todo verdadeiro e


em nada exagerado. Perguntar-se-á talvez o que fez essa mulher
para ser assim tão miserável? Cometeu ela algum crime horrível?
Roubou? Assassinou? Não; ela nada fez que afrontasse a justiça
dos homens. Ao contrário, divertia-se com o que chamais
felicidade terrena; beleza, gozos, adulações, tudo lhe sorria, nada
lhe faltava, a ponto de dizerem aqueles que a viam: — Que
mulher feliz! E invejavam-lhe a sorte. Mas quereis saber?

Foi egoísta; possuía tudo, exceto um bom coração. Não violou a


lei dos homens, mas a de Deus, visto como esqueceu a primeira
das virtudes — a caridade. Não tendo amado senão a si mesma,
agora não encontra ninguém que a ame e vê-la insulada,
abandonada, ao desamparo no Espaço, onde ninguém pensa
nela nem dela se ocupa.

Eis o que constitui o seu tormento. Tendo apenas procurado os


gozos mundanos que hoje não mais existem, o vácuo se lhe fez
em volta e como vê apenas o nada, este lhe parece eterno. Ela
não sofre torturas físicas; não vêm atormentá-la os demônios, o
que é aliás desnecessário, uma vez que se atormenta a si
mesma, e isso lhe é mais doloroso, porquanto, se tal
acontecesse, os demônios seriam seres que se ocupariam dela.
O egoísmo foi a sua alegria na Terra; pois bem, é ainda ele que a
persegue — verme a corroer-lhe o coração, seu verdadeiro
demônio.

S. Luís.

5. Falar-vos-ei da importante diferença existente entre a moral


divina e a moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera no
seu abandono e diz aos pecadores: arrependei-vos e franqueado
será o reino dos céus.

Finalmente, a moral divina aceita todo arrependimento, todas as


faltas confessadas, ao passo que a moral humana rejeita aquele
e sorri aos pecados ocultos que, diz, são em parte perdoados.
Cabe a uma a graça do perdão, e a outra a hipocrisia. Escolhei,
espíritos ávidos da verdade! Escolhei entre os céus abertos ao
arrependimento e a tolerância que admite o mal, repelindo os
soluços do arrependimento francamente patenteado, só para não
ferir o seu egoísmo e preconceitos. Arrependei-vos todos vós que
pecais; renunciem ao mal e principalmente à hipocrisia — véu
que é de torpezas, máscara risonha de recíprocas conveniências.

6. Estou mais calma e resignada à expiação das minhas faltas.


O mal não está fora de mim, reside em mim, devendo ser eu que
me transforme e não as coisas exteriores.

Em nós e conosco trazemos o céu e o inferno; as nossas faltas,


gravadas na consciência, são lidas correntemente no dia da
ressurreição. E uma vez que o estado da alma nos abate ou
eleva, somos nós os juizes de nós mesmos.

Explico-me; um Espírito impuro e sobrecarregado de culpas não


pode conceber nem anular uma elevação que lhe seria
insuportável. Assim como as diferentes espécies de seres vivem,
cada um, na esfera que lhes é própria, assim os Espíritos,
segundo o grau de adiantamento, movem-se no meio adequado
às suas faculdades e não concebem outro senão quando o
progresso (instrumento da lenta transformação das almas) lhes
subtrai as baixas tendências, despojando-os da crisálida do
pecado, a fim de que possam adejar antes de se lançarem,
rápidos como flechas, para o fim único e almejado — Deus! Ah!
rastejo ainda, mas não odeio mais e concebo a indizível felicidade
do amor divino. Orai, pois, sempre por mim, que espero e
aguardo."

Na comunicação a seguir, Clara fala do marido, que muito a


martirizara, e da posição em que ela se encontra no mundo
espiritual.

Esse quadro, que ela por si não pode completar, foi concluído
pelo Guia espiritual do médium.

7. Venho procurar-te, a ti, que por tanto tempo me deixas no


esquecimento. Tenho, porém, adquirido paciência e não mais me
desespero. Queres saber qual a situação do pobre Féiix? Erra
nas trevas entregue à profunda nudez de sua alma. Superficial e
leviano, aviltado pelo sensualismo, nunca soube o que eram o
amor e a amizade. Nem mesmo a paixão esclareceu suas
sombrias luzes. Seu estado presente é comparável ao da criança
inapta para as funções da vida e privada de todo o amparo. Féiix
vaga aterrorizado nesse mundo estranho onde tudo fulgura ao
brilho desse Deus por ele negado.

8. O Guia do médium — Vou falar por Clara, uma vez que ela
não pode continuar a análise dos sofrimentos do marido, sem
compartilhá-los:

"Féiix — superficial nas ideias como nos sentimentos; violento


por fraqueza; devasso por frivolidade — entrou no mundo
espiritual tão nu relativamente à moral como quanto ao físico. Em
reencarnar nada adquiriu e, conseqüentemente, tem de
recomeçar toda a obra.

Qual homem ao despertar de prolongado sonho, reconhecendo


a profunda agitação dos seus nervos, esse pobre ser, saindo da
perturbação, reconhecerá que viveu de quimeras, que lhe
desvirtuaram a existência. Então, maldirá do materialismo que lhe
dera o vácuo pela realidade; apostrofará o positivismo que lhe
fizera ter por desvarios as ideias sobre a vida futura, como por
loucura a sua aspiração, como por fraqueza a crença em Deus. O
desgraçado, ao despertar, verá que esses nomes por ele
escarnecidos são a fórmula da verdade, e que, ao contrário da
fábula, a caça da presa foi menos proveitosa que a da sombra.
Georges.

Estudo Sobre as comunicações de Clara

Estas comunicações são instrutivas por nos mostrarem


principalmente uma das feições mais comuns da vida — a do
egoísmo. Delas não resultam esses grandes crimes que
atordoam mesmo os mais perversos, mas a condição de uma
turba enorme que vive neste mundo, honrada e venerada,
somente por ter um certo verniz e isentar-se do opróbrio da
repressão das leis sociais.

Essa gente não vai encontrar castigos excepcionais no mundo


espiritual, mas uma situação simples, natural e consentânea com
o estado de sua alma e maneira de viver. O insulamento, o
abandono, o desamparo, eis a punição daquele que só viveu para
si. Clara era, como vimos, um Espírito assaz inteligente, mas de
árido coração. A posição social, a fortuna, os dotes físicos que na
Terra possuía, lhe atraíram homenagens gratas à sua vaidade, o
que lhe bastava; hoje onde se encontra, só vê indiferença e
vacuidade em torno de si.

Essa punição é não somente mais mortificante do que a dor que


inspira piedade e compaixão: mas é também um meio de obrigá-
la a despertar o interesse de outrem a seu respeito, pela sua
morte.

A sexta mensagem encerra uma ideia perfeitamente verdadeira


relativa à obstinação de certos Espíritos na prática do mal.

Admiramo-nos de ver como alguns deles são insensíveis à ideia


e mesmo ao espetáculo da felicidade dos bons Espíritos. É
exatamente a situação dos homens degradados que se deleitam
na depravação como nas práticas grosseiramente sensuais.
Esses homens estão, por assim dizer, no seu elemento; não
concebem os prazeres delicados, preferindo farrapos andrajosos
a vestes limpas e brilhantes, por se acharem naqueles mais à
vontade. Daí a preterição de boas companhias por orgias
báquicas e depravações. E de tal modo esses Espíritos se
identificam com esse modo de vida, que ela chega a constituir-
lhes uma segunda natureza, acreditando-se incapazes mesmo de
se elevarem acima da sua esfera. E assim se conservam até que
radical transformação do ser lhes reavive a inteligência, lhes
devolva o senso moral e os torne acessíveis às mais sutis
sensações.

Esses espíritos, quando desencarnados, não podem


prontamente adquirir a delicadeza dos sentimentos, e, durante um
tempo mais ou menos longo, ocuparão as camadas inferiores do
mundo espiritual, tal como acontece na terra; assim
permanecerão enquanto rebeldes ao progresso, mas, com o
tempo, a experiência, as tribulações e misérias das sucessivas
ncarnações, chegará o momento de conceberem algo de melhor
do que até então possuíam. Elevam-se-lhes por fim as
aspirações, começam a compreender o que lhes falta e
principiam os esforços da regeneração.

Uma vez nesse caminho, a marcha é rápida, visto como


compreenderam um bem superior, comparado ao qual os outros,
que não passam de grosseiras sensações, acabam por inspirar-
lhes repugnância.

P. (a S. Luís) Que devemos entender por trevas em que se


acham mergulhadas certas almas sofredoras? Serão as referidas
tantas vezes na Escritura?

R. Sim, efetivamente, as designadas por Jesus e pelos profetas


em referência ao castigo dos maus.

Mas isso não passava de alegoria destinada a ferir os sentidos


materializados dos seus contemporâneos, os quais jamais
poderiam compreender a punição de maneira espiritual.
Determinados Espíritos estão imersos em trevas, mas deve-se
depreender daí uma verdadeira noite da alma comparável à
obscuridade intelectual do idiota. Não é uma loucura da alma,
porém uma inconsciência daquele e do que o rodeia, a qual se
produz quer na presença, quer na ausência da luz material.

É principalmente, a punição dos que duvidaram do seu destino.


Pois que acreditaram em o nada, as aparências desse nada os
supliciam, até que a alma, caindo em si, quebra as malhas de
enervamento que a prestava e envolvia, tal qual o homem
oprimido por penoso sonhar luta em dado momento, com todo o
vigor das suas faculdades, contra os terrores que do começo o
dominaram. Esta momentânea redução da alma a um nada
fictício e consciente de sua existência é sentimento mais cruel do
que se pode imaginar, em razão da aparência de repouso que a
acomete: é esse repouso forçado, essa nulidade de ser, essa
incerteza que lhe fazem o suplício. O aborrecimento que a invade
é o mais terrível dos castigos, uma vez que coisa alguma percebe
em torno — nem coisas, nem seres. Isso tudo é para ela
verdadeira treva. & Luís.

(Clara)— Eis-me aqui. Também eu posso responder à pergunta


relativa às trevas, pois vaguei e sofri, por muito tempo nesses
limbos onde tudo é soluço e misérias.
Sim, existem as trevas visíveis de que fala a Escritura, e os
desgraçados que deixam a vida, ignorantes ou culpados, depois
das provações terrenas são impelidos a fria região, inconscientes
de si mesmos e do seu destino. Acreditando na perenidade dessa
situação, a sua linguagem é ainda a da vida que os seduziu, e
admiram-se e espantam-se da profunda solidão, trevas são pois,
esses lugares povoados e ao mesmo tempo desertos, espaços
em que erram obscuros Espíritos lastimosos, sem consolo, sem
afeições, sem socorro de espécie alguma.

A quem se dirigirem... se sentem a eternidade, esmagadora,


sobre eles?... Tremem e lamentam os interesses mesquinhos que
lhes mediam as horas; deploram a ausência das noites que,
muitas vezes, lhe traziam, num onho feliz, o esquecimento dos
pesares. As trevas para o Espírito são: a ignorância, o vácuo, o
horror ao desconhecido... Não posso continuar... Clara.

Ainda sobre este ponto obtivemos a seguinte explicação: "Por


sua natureza, possui o perispírito uma propriedade luminosa que
se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da
alma. oder-se-ia dizer que essas qualidades estão para o fluido
perispiritual como o friccionamento para o fósforo. A intensidade
da luz está na razão da pureza do Espírito: as menores
imperfeições morais atenuam-se e enfraquecem-na. A luz
irradiada por um Espírito será tanto mais viva, quanto maior o seu
adiantamento. Assim sendo o Espírito, de alguma sorte, o seu
próprio farol, verá proporcionalmente a luz que produz, do que
resulta que os Espíritos que não a produzem se acham na
obscuridade.

Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação de fluidos


luminosos pelos Espíritos superiores e é confirmada pela
observação, conquanto se não possa inferir seja aquela a
verdadeira causa, ou pelo menos, a única causa do fenômeno;
primeiro, porque nem todos os Espíritos inferiores estão em
trevas; segundo, porque um mesmo Espírito pode achar-se
alternadamente na luz e na obscuridade; e terceiro, finalmente,
porque a luz também é castigo para os Espíritos muito
imperfeitos. Se a obscuridade em que jazem certos Espíritos
fosse inerente à sua personalidade, essa obscuridade seria
permanente e geral para todos os maus Espíritos, o que aliás não
acontece. As vezes os perversos mais requintados vêem
perfeitamente, ao passo que outros, que assim não podem ser
qualificados, jazem, temporariamente, em trevas profundas.
Assim, tudo indica que, independente da luz que lhes é própria,
os Espíritos recebem uma luz exterior que lhes falta segundo as
circunstâncias, donde forçoso é concluir que a obscuridade
depende de uma causa ou de uma vontade estranha, constituindo
punição especial da soberana justiça, para casos determinados.

P. (A S. Luís). — Qual a causa da maior facilidade da educação


moral dos desencarnados, do que dos encarnados? As relações
pelo Espiritismo estabelecidos entre homens e Espíritos, dão
caso a que estes últimos se corrijam mais rapidamente sob a
influência dos conselhos salutares, mais do que acontece em
relação aos encarnados, como se vê na cura das obsessões?

R. (Sociedade de Paris). — O encarnado, em virtude da própria


natureza, está numa luta incessante devido aos elementos
contrários de que se compõe e os quais devem conduzi-lo ao seu
fim providencial, reagindo reciprocamente.

A matéria facilmente sofre o predomínio de um fluido exterior; se


a alma, com todo o poder moral de que é capaz, não reagir,
deixar-se-á dominar pelo intermediário do seu corpo, seguindo o
impulso das influências perversas que o rodeiam, e isso com
facilidade tanto maior quanto os invisíveis, que a subjugavam,
atacam de preferência os pontos mais vulneráveis, as tendências
para a paixão dominante.

Outro tanto se não dá com o desencarnado, que, posto sob a


influência, semi-material, não se compara por seu estado ao
encarnado. O respeito humano, tão preponderante no homem,
não existe para aquele, e só este pensamento é bastante para
compeli-lo a não resistir longamente às razões que o próprio
interesse lhe aponta como boas.

Ele pode lutar, e o faz mesmo geralmente com mais violência do


que o encarnado, visto ser mais livre. Nenhuma cogitação de
interesse material, de posição social se lhe antepõe ao raciocínio.
Luta por amor do mal, porém cedo adquire a convicção da sua
impotência, em face da superioridade moral que o domina; a
perspectiva de melhor futuro lhe é mais acessível por se
reconhecer na mesma vida em que se deve completar esse
futuro; e essa visão não se turva no turbilhão dos prazeres
humanos. Em uma palavra, a independência da carne é que
facilita a conversão, principalmente quando se tem adquirido um
tal ou qual desenvolvimento pelas provações cumpridas.

Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível ao


raciocínio, o que aliás não se dá com o que já tem experiência da
vida. Demais, no encarnado como no desencarnado, é sobre a
alma, é sobre o sentimento que se faz necessário atuar.

Toda ação material pode sustar momentaneamente os


sofrimentos do homem vicioso, mas o que ela não pode é destruir
o princípio mórbido residente na alma.

Todo e qualquer ato, que não visa aperfeiçoar a alma, não


poderá desviá-la do mal.

S. Luís
CAPITULO V

SUICIDAS

O Suicida da Samaritana

A 7 de abril de 1858, pelas 7 horas da noite, um homem de


cerca de 50 anos e decentemente trajado apresentou-se no
estabelecimento da Samaritana, de Paris, e mandou que lhe
preparassem um banho. Decorridas perto de 2 horas, o criado de
serviço, admirado pelo silêncio do freguês, resolveu entrar no seu
cómodo, a fim de verificar o que ocorria.

Deparou então com um quadro horroroso: o infeliz degolara-se


com uma navalha e todo o seu sangue misturava-se à água da
banheira. E como a identidade do suicida não pôde ser
averiguada, foi o cadáver removido para o necrotério.

• Esperai, ele aí está.

1.Evocação

(Resposta do Guia do médium)


2. Onde vos achais hoje?

R. Não sei... dizei-me.

3. Estais numa reunião de pessoas que estudam o Espiritismo e


que são benévolas para convosco.

R. Dizei-me se vivo, pois este ambiente me sufoca.

Sua alma, posto que separada do corpo, está ainda


completamente imersa no que poderia chamar-se o turbilhão da
matéria corporal; vivazes lhe são as ideias terrenas, a ponto de se
acreditar encarnado.

4. Quem vos impeliu a vir aqui?

R. Sinto-me aliviado.

5. Qual motivo que vos arrastou ao suicídio?

R. Morto? Eu? Não... que habito o meu corpo... Não sabeis


como sofro!... Sufoco-me... Oxalá que mão compassiva me
aniquilasse de vez!

6. Por que não deixaste indícios que pudessem tornar-vos


reconhecível?

R. Estou abandonado; fugi ao sofrimento para entregar-me à


tortura.
7. Tendes ainda os mesmos motivos para ficar incógnito?

R. Sim; não revolvais com ferro candente a ferida que sangra.

8. Podereis dar-nos o vosso nome, idade, profissão e domicílio?

R. Não, de forma alguma.

9. Tínheis família, mulher, filhos?

R. Era um desprezado, ninguém me amava.

10. Que fizestes para ser assim repudiado?

R. Quantos o são como eu!... Um homem quando ninguém o


preza, pode viver abandonado no seio da família.

11. No momento de vos suicidardes não experimentastes


qualquer hesitação?

R. Ansiava pela morte... Esperava repousar.

12. Como é que a ideia do futuro não vos fez renunciar a um


projeto?

R. Não acreditava nele, em absoluto. Era um desiludido. O


futuro é a esperança.

13. Que reflexões vos ocorreram ao sentirdes a extinção da


vida?
R. Não refleti, senti... Mas a vida não se extinguiu... minha alma
está ligada ao corpo... Sinto os vermes a corroer-me.

14. Que sensação experimentastes no momento decisivo da


morte?

R. Pois ela se completou?

15. Foi doloroso o momento em que a vida se vos apagou?

R. Menos doloroso que depois, só o corpo sofreu.

16. (Ao Espírito de S. Luís) — Que quer dizer o Espírito


afirmando que o momento da morte foi menos doloroso que
depois?

R. O Espírito descarregou o fardo que o oprimia, ressentia-se da


voluptuosidade da dor.

17. Esse estado sobrevêm sempre ao suicídio?

R. Sim. O Espírito do suicida fica ligado ao corpo até o termo da


vida. A morte natural é o livramento da vida; o suicida a intercepta
completamente.

18. Dar-se-á o mesmo nas mortes acidentais, embora


involuntárias, mas que abreviam a existência?
R. Não. Que entendeis por suicídio? O Espírito só responde
pelos seus atos.

Esta dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente


desencarnadas e sobretudo naquelas que, durante a vida, não
elevam a alma acima da matéria. É um fenômeno que parece
singular à primeira vista, mas que se explica naturalmente.

Se a um indivíduo, pela primeira vez posto em estado


sonambúlico, perguntarmos se dorme, ele responderá quase
sempre que não e essa resposta é lógica: o interlocutor parece
que faz mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. Na
linguagem comum, a ideia do sono prendeu-se à suspensão de
todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que
vê e sente, que tem consciência da sua liberdade, não se crê
adormecido e de fato não dorme, na acepção vulgar do vocábulo.
Eis a razão porque responde não, até que se familiariza com essa
maneira de apreender o fato.

O mesmo acontece com o homem que acaba de desencarnar;


para ele a morte era o aniquilamento do ser e, tal como o
sonâmbulo, ele vê, sente e fala, e assim não se considera morto e
isto afirma até que adquira a intuição de seu novo estado. Essa
ilusão é sempre mais ou menos dolorosa, uma vez que nunca é
completa e dá ao Espírito uma tal ou qual ansiedade. No exemplo
em apreço ela constitui verdadeiro suplício pela sensação dos
vermes que corroem o corpo, sem falarmos da sua duração, que
deverá equivaler ao tempo de vida abreviada. Esse estado é
comum nos suicidas, ainda que nem sempre se apresente em
idênticas condições, variando de duração e intensidade, conforme
as circunstâncias atenuantes ou agravantes da falta.

A sensação dos vermes e da decomposição do corpo não é


tampouco privativa dos suicidas: sobrevêm igualmente aos que
viveram mais da matéria que do espírito. Em tese, não há falta
isenta de penalidade, mas também não há regra absoluta e
uniforme nos meios de punição.

O Pai e o Conscrito

No começo da guerra da Itália, em 1859, um negociante de


Paris, pai de família, gozando de estima geral por parte dos seus
vizinhos, tinha um filho que fora sorteado para o serviço militar.
Impossibilitado de o eximir desse serviço, ocorreu-lhe a ideia de
suicidar-se a fim de o isentar dele, como filho único de mulher
viúva. Um ano mais tarde foi evocado na Sociedade de Paris a
pedido de pessoa que o conhecera, desejosa de certificar-se do
seu destino no mundo espiritual.

(A S. Luís). — Podereis dizer-nos se é possível evocar o Espírito


a que vimos de nos referir?

R. Sim, e ele ganhará com isso, porque ficará mais aliviado.

1.Evocação.

— R. Oh! obrigado! Sofro muito, mas... é justo. Contudo, ele me


perdoará.

O Espírito escreve com grande dificuldade; os caracteres são


irregulares e mal formados; depois da palavra mas, ele pára, e,
procurando em vão escrever, apenas consegue fazer alguns
traços indecifráveis e pontos. É evidente que foi a palavra Deus
que ele não conseguiu escrever.

2. Tende a bondade de preencher a lacuna com a palavra que


deixastes de escrever.

R. Sou indigno de escrevê-la.

3. Dissestes que sofreis; compreendeis que fizestes muito mal


em vos suicidar; mas o motivo que vos acarretou esse ato não
provocou qualquer indulgência?
R. A punição será menos longa, mas nem por isso a ação deixa
de ser má.

4. Podereis descrever-nos essa punição?

R. Sofro duplamente, na alma e no corpo; e sofro neste último,


conquanto o não possua, como sofre o operado de um membro
amputado.

5. A realização do vosso suicídio teve por causa unicamente a


isenção do vosso filho ou concorreram para ele outras razões?

R. Fui completamente inspirado pelo amor paterno, porém, mal


inspirado. Em atenção a isso, a minha pena será abreviada.

6. Podeis precisar a duração dos vossos padecimentos?

R. Não lhes entrevejo o fim, mas tenho certeza de que ele


existe, o que é um alívio para mim.

7. Há pouco não vos foi possível escrever a palavra Deus, e no


entanto temos visto Espíritos, muito sofredores fazê-lo; será isso
uma consequência da vossa punição?

R. Poderei fazê-lo com grandes esforços de arrependimento.

8. Pois então fazei esses esforços para escrevê-lo, porque


estamos certos de que sereis aliviado. (O Espírito acabou por
traçar esta frase com caracteres grossos, irregulares e trémulos:
— Deus é muito bom).

9. Estamos satisfeitos pela boa vontade com que


correspondentes à nossa evocação e vamos exorar a Deus para
que estenda sobre vós a sua misericórdia.

R. Sim, obrigado.

10. (A. S. Luís). Podereis ministrar-nos a vossa apreciação


sobre esse suicídio?

R. Este Espírito sofre justamente, pois lhe faltou a confiança em


Deus, falta que é sempre punível. A punição seria maior e mais
duradoura, se não houvera como atenuante o motivo louvável de
evitar que o filho se expusesse à morte na guerra. Deus, que é
justo e vê o fundo dos corações, não o pune senão de acordo
com suas obras.

Observações: À primeira vista, como ato de abnegação, este


suicídio poder-se-ia considerar desculpável. Efetivamente assim
é, mas não de modo absoluto. A esse homem faltou a confiança
em Deus, como disse o Espírito de S. Luís. A sua ação talvez
impediu a realização dos destinos do filho; ao demais, ele não
tinha a certeza de que aquele sucumbiria na guerra e a carreira
militar talvez lhe fornecesse ocasião de adiantar-se. A intenção
era boa, e isso lhe atenua o mal provocado e merece indulgência;
mas o mal é sempre mal e se o não fora, poder-se-ia, escudado
no raciocínio, desculpar-se todos os crimes e até matar a pretexto
de prestar serviços.

A mãe que mata o filho, certa de o enviar ao céu, seria menos


culpada por tê-lo feito com boa intenção? Aí está um sistema que
chegaria a justificar todos os crimes cometidos pelo cego
fanatismo das guerras religiosas. Esta lhe foi dada visando
deveres a cumprir na Terra, razão bastante para que não a
abrevie voluntariamente, sob pretexto algum. Mas ao homem —
uma vez que tem o seu livre-arbítrio — ninguém impede a
infração dessa lei. Sujeita-se porém às suas consequências.

O suicídio mais severamente punido é o resultado do desespero,


que visa a redenção das misérias terrenas, misérias que são ao
mesmo tempo expiações e provações. Furtar-se a elas é recuar
ante a tarefa aceita e, às vezes, ante a missão que se deveria
cumprir.

O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a


morte instantânea, mas em tudo quanto se faça conscientemente
para apressar a extinção das forças vitais. Não se pode chamar
de suicida aquele que dedicadamente se expõe à morte para
salvar o seu semelhante, primeiro, porque, no caso, não há
intenção de se privar da vida e, segundo, porque não há perigo
do qual a Providência nos não possa subtrair, quando a hora não
seja chegada. A morte nessas circunstâncias é sacrifício
meritório, como ato de abnega-ção em proveito de outrem. (O
Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.V, n°55,65, 66 e 67.)

François Simon-Louvet

(Do Havre)
A seguinte comunicação foi dada espontaneamente, em uma
reunião espírita no Havre, a 12 de fevereiro de 1863.

"Tereis piedade de um pobre miserável que passa há muito por


cruéis torturas?! Oh! o vácuo... o Espaço... despenho-me... caio...
morro...Acudime! Deus, eu tive uma existência tão miserável...
Pobre diabo, sofri fome muitas vezes na velhice e foi por isso que
me habituei a beber, a ter vergonha e desgosto de tudo.

Quis morrer, e atirei-me... Oh! meu Deus! Que momento! E para


que esse desejo, quando o termo estava tão próximo? Orai para
que eu não veja incessantemente este vácuo debaixo de mim...
Vou despedaçar-me de encontro a essas pedras! Eu vo-lo
suplico, a vós que conheceis as misérias daqueles que não mais
pertencem a esse mundo.

Não me conheceis, mas eu sofro tanto... Para que mais provas?


Sofro! Não, será isso o bastante? Se eu tiver fome em vez deste
sofrimento mais terrível e aliás imperceptível para vós, não
vacilaríeis em aliviar-me com uma migalha de pão. Pois eu vos
peço que oreis por mim... Não posso permanecer por mais tempo
neste estado... Perguntai a qualquer desses felizes que aqui
estão e sabereis quem fui. Orai por mim."

François Simon-Louuet.

O Guia do médium. — "Esse que acaba de se dirigir a vós foi


um pobre infeliz que teve na Terra a prova da miséria; vencido
pelo desgosto, faltou-lhe a coragem e, em vez de olhar para o céu
como devia, entregou-se à embriaguez; desceu aos extremos
últimos do desespero, pondo termo à sua triste provação
atirando-se da Torre Francisco l, no dia 22 de julho de 1857.
Tende piedade de sua pobre alma, que não é adiantada, mas que
lobriga da vida futura o suficiente para sofrer e desejar uma
reparação. Rogai a Deus lhe conceda essa graça e com isso
tereis feito obra meritória."
Buscando-se informes a propósito do assunto, encontrou-se no
Journal du Havre, de 23 de julho de 1857, a seguinte notícia, que
resumimos.

"Ontem, às 4 horas da tarde, os transeuntes dos cais foram


dolorosamente impressionados por um horrível acidente: um
homem atirou-se da torre, vindo despedaçar-se nas pedras. Era
um velho puxador de cordas, cujo pendor à embriaguez o
arrastara ao suicídio. Chamava-se François-Vietor-Simon Louvet.
O corpo foi transportado para a casa de uma das filhas, na Rua
Corderie. Tinha 67 anos de idade."

Seis anos fazia que esse homem morrera e ele se via ainda cair
da torre, despedaçando-se nas pedras... Aterra-o o vácuo
horrorizado e a perspectiva da queda... e isso há 6 anos! Quanto
tempo durará esse estado? Ele não o sabe e essa incerteza lhe
aumenta as angústias. Isso não equivale ao inferno com suas
chamas?

Quem revelou e inventou esses castigos? Pois são os próprios


padecentes que os vem descrever, como outros o fazem das
suas alegrias. E fazem-no muita vez, espontaneamente, sem que
neles se pense — o que exclui toda hipótese de sermos nós o
joguete da própria imaginação.
Mãe e Filho

Em março de 1865 o Sr. C., negociante em pequena cidade


perto de Paris, tinha em sua casa, gravemente enfermo, o mais
velho dos filhos, que contava 21 anos de idade. Este moço,
prevendo o desenlace, chamou a mãe e teve forças ainda para
abraçá-la. Esta, vertendo copiosas lágrimas, disse-lhe: "Vai, meu
filho, precede-me, que não tardarei a seguir-te". Dito isto, retirou-
se, escondendo o rosto entre as mãos.

As pessoas presentes a essa cena contristadora, consideravam


simples explosão de dor as palavras da Sra. C., dor que o tempo
acalmaria. Morto o doente, procuraram-na por toda a casa e
foram encontrá-la enforcada num celeiro. O enterro da suicida foi
juntamente feito com o do filho.

Evocação deste, muitos dias depois do fato.

— P. Sabeis do suicídio de vossa mãe, em consequência do


desespero que lhe causou a vossa perda?

R. Sim, e, sem o pesar causado por essa fatal resolução da


parte dela, julgar-me-ia completamente feliz. Pobre, excelente
mãe! Não pode suportar a prova dessa separação momentânea e
tomou, para se unir ao filho, o caminho que dele mais deveria
afastá-la. E por quanto tempo! Assim, retardou indefinidamente
uma reunião que tão pronta teria sido se sua alma se
conformasse submissa às vontades do Senhor; se fosse
resignada, humilde, arrependida ante a provação que se lhe
impunha, da expiação que deveria purificá-la! Orai, oh! orai por
ela!... e sobretudo não a imiteis, vós outras, mães que vos
comoveis com a narrativa da sua morte. Não acrediteis que ela
amasse mais que as outras mães a esse filho que era o seu
orgulho, não; é que lhe faltaram a coragem e a resignação.

Mães, que me ouvis, quando a agonia empanar o olhar dos


vossos filhos, lembrai-vos de que, como o Cristo, eles sobem ao
cimo do Calvário, de onde deverão elevar-se à glória eterna.
Benjamin C...

Evocação da mãe.
— R. Quero ver meu filho. Tendes o poder de dar-me?
Cruéis!...Tomaram-me para levá-lo à luz e a mim me deixaram em
trevas. Quero-o, quero-o porque me pertence!... Nada vale então
o amor materno? Pois quê! Tê-lo carregado no ventre por nove
meses, tê-lo amamentado, nutrido a carne da sua carne, sangue
do seu sangue, guiado os seus primeiros passos; ensinado a
balbuciar o sagrado nome de Deus e o doce nome de mãe; ter
feito dele um homem cheio de atividade, de inteligência, de
probidade, de amor filial, para perdê-lo quando realizava as
esperanças concebidas a seu respeito, quando brilhante futuro se
lhe antolhava!

Não, Deus não é justo; não é Deus das mães, não lhes
compreende as dores e desesperos... E quando me dava à morte
para me não separar de meu filho, eis que novamente me
roubam!... Meu filho! meu filho, onde estás?

Evocador. — Pobre mãe, compartilhamos da vossa dor.


Buscastes, no entanto, um triste recurso para vos reunirdes ao
vosso filho: o suicídio é um crime aos olhos de Deus e deveis
saber que Deus pune toda infração das suas leis. A ausência do
vosso filho é a vossa punição.

Ela. — Não; eu julgava Deus melhor que os homens; não


acreditava no seu inferno, porém cria na reunião das almas que
se amaram como nós nos amávamos... Enganei-me... Deus não é
justo nem bom, por isso que não compreende a grandeza da
minha dor como do meu amor!... Oh! quem me dará meu filho!
Tê-lo-ei perdido para sempre? Piedade! Piedade, meu Deus!

Evocador. —Vamos, acalmai o vosso desespero; considerai


que se há um meio de ver vosso filho, não é blasfemando contra
Deus, como ora o fazeis. Com isso, em vez de atrairdes a sua
misericórdia, fazei jus a maior severidade.

Ela. — Disseram-me que não mais o tornaria a ver e


compreendi que o haviam levado ao Paraíso. E eu estarei, acaso,
no inferno? No inferno das mães? Ele existe, demais o vejo...

Evocador. — Vamos, acalmai o vosso desespero; considerai


naturalmente que o tornareis a ver, mas é preciso merecê-lo pela
submissão à vontade de Deus, ao passo que a revolta poderá
retardar indefinidamente esse momento.

Ouvi-me: Deus é infinitamente bom, mas é também infinitamente


justo.
Assim ninguém é punido sem causa sobre a Terra. Se ele vos
infligiu grandes dores, é porque as merecestes. A morte de vosso
filho era uma prova à vossa resignação; infelizmente a ela
sucumbistes quando em vida e eis que após a morte de novo
sucumbis; como pretendes que Deus recompense os filhos
rebeldes?

A sentença não é porém inexorável e o arrependimento do


culpado é sempre acolhido. Se tivésseis aceito a provação com
humildade; se houvésseis esperado com paciência o momento da
vossa desencarnação, ao entrardes no mundo espiritual, em que
vos achais, teríeis imediatamente avistado vosso filho, o qual vos
receberia de braços abertos. Depois da ausência, ve-lo-ia
radiante. Mas o que fizestes e ainda agora fazeis, coloca entre
vós e ele uma barreira. Não o julgueis perdido nas profundezas
do Espaço, antes mais perto do que supondes — é que véu
impenetrável o subtrai à vossa vista.

Ele vos vê e ama sempre, deplorando a triste condição em que


caístes pela falta de confiança em Deus e aguardando ansioso o
momento feliz de se vos apresentar. De vós, somente, depende
abreviar ou retardar esse momento. Orai a Deus e dizei comigo:
"Meu Deus, perdoai-me o ter duvidado da vossa justiça e
bondade; se me punistes, reconheço merecida a punição. Dignai-
vos aceitar meu arrependimento e submissão à vossa santa
vontade".

Ela. — Que luz de esperança acabais de fazer despontar em


minha alma! É como relâmpago em a noite que me cerca.
Obrigada, vou orar... Adeus.

A morte, mesmo pelo suicídio, não produziu nesses Espíritos a


ilusão de se julgar ainda vivo. Ele apresenta-se consciente do seu
estado — é que para outros o castigo consiste naquela ilusão,
pelos laços que os prendem ao corpo. Essa mulher quis deixar a
Terra para seguir o filho na outra vida, era pois necessário que
soubesse aí estar realmente, na certeza da desencarnação, no
conhecimento exato da sua situação. Assim é que cada falta é
punida de acordo com as circunstâncias que a determinam e que
não há punição uniforme para as faltas do mesmo género.

Duplo Suicídio por Amor e por Dever

É de um jornal de 13 de junho de 1862 a seguinte narrativa:

"A jovem Palmira, modista que residia com seus pais, era
dotada de aparência encantadora e de caráter afável. Por isso
também muito requestada a sua mão. Entre todos os
pretendentes ela escolheu o Sr. B., que lhe retribuía essa
preferência com a mais viva das paixões. Não obstante essa
afeição, por deferência aos pais, Palmira consentiu em desposar
o Sr. D., cuja posição social se afigurava mais vantajosa do que a
do seu rival.

Os Srs. B. e D. eram amigos íntimos e posto não houvesse entre


eles quaisquer relações de interesse, jamais deixaram de se
avistar. O amor recíproco de B. e Palmira, que passou a ser a
Sra. D., de modo algum se atenuara e como se esforçassem
ambos por contê-lo, aumentava-se ele de intensidade na razão
direta daquele esforço.

Visando extingui-lo, B. tomou o partido de se casar, e desposou,


de fato, uma jovem possuidora de eminentes predicados, fazendo
o possível por amá-la.

Cedo, contudo, percebeu a impossibilidade do expediente.


Decorreram quatro anos sem que B. ou a Sra. D. faltassem aos
seus deveres.

O que padeceram, só eles o sabem, pois D., que estimava


deveras o seu amigo, atraía-o sempre ao seu lar, insistindo para
que nele ficasse quando tentava retirar-se.

Aproximados um dia por circunstâncias fortuitas e


independentes da própria vontade os dois amantes deram-se
ciência do mal que os torturava e acharam que a morte era, no
caso, o único remédio que se lhes antolhava. Assentaram que se
suicidariam juntamente, no dia seguinte, em que o Sr. D., estaria
ausente de casa mais prolongadamente.

Feitos os últimos preparativos, escreveram longa e tocante


missiva, explicando a causa da sua resolução, para não
prevaricarem. Essa carta terminava pedindo que lhes
perdoassem e, mais, que os enterrassem na mesma sepultura.
De regresso à casa, o Sr. D. encontrou-os asfixiados. Respeitou-
lhes os últimos desejos, e, assim, não consentiu fossem os
corpos separados no ; cemitério."

Sendo esta ocorrência submetida à Sociedade de Paris, como


assunto de estudo, um Espírito respondeu:

"Os dois amantes suicidas não vos podem responder ainda.


Vejo-os imersos na perturbação e aterrorizados pela perspectiva
da eternidade. As consequências morais da falta cometida lhes
pesarão por migrações sucessivas, durante as quais suas almas
separadas se buscarão incessantemente, sujeitas ao duplo
suicídio de se pressentirem e desejarem em vão.

Completada a expiação, ficarão reunidos, no seio do amor


eterno. Dentro de oito dias, na próxima sessão, podereis evocá-
los. Eles aqui virão sem contudo se avistarem, porque profundas
trevas os separarão por muito tempo."

1. Evocação da suicida. — Vedes o vosso amado, com o qual


vos suicidastes?

R. Nada vejo, nem mesmo os Espíritos que comigo erram neste


mundo.
Que noite! Que noite! E que véu espesso me circunda a fronte!
2. Que sensação experimentastes ao despertar no outro
mundo?

R. Singular! Tinha frio e escaldava. Tinha gelo nas veias e fogo


na fronte! Coisa estranha, conjunto inaudito! Fogo e gelo
pareciam consumir-me!

E eu julgava que ia sucumbir uma segunda vez!...

3. Experimentais qualquer dor física?

R. Todo o meu sofrimento reside aqui, aqui...

— Que quereis dizer por aqui, aqui?

R. Aqui no meu cérebro, aqui no coração...

É provável que, visível, o Espírito levasse a mão à cabeça e ao


coração.

4. Acreditais na perenidade dessa situação?

R. Oh! sempre! Sempre! Ouço às vezes risos infernais, vozes


horríficas que bradam sempre assim!

5. Pois bem, podemos com segurança dizer-vos que nem


sempre assim será. Pelo arrependimento obtereis o perdão.
R. Que dizeis? Não ouço.
6. Repetimos que os vossos sofrimentos terão um termo, que os
podereis abreviar pelo arrependimento, sendo-nos possível
auxiliar-vos com a prece.

R. Não ouvi, além de sons confusos, mais que uma palavra.


Essa palavra é — graça! Seria efetivamente graça o que
pronunciastes? Falastes em graça, mas sem dúvida o fizestes à
alma que por aqui passou junto de mim, pobre criança que chora
e espera.

Uma senhora, presente à reunião, declarou que fizera fervorosa


prece pela infeliz, o que sem dúvida a comoveu, e que de fato,
mentalmente, havia implorado em seu favor a graça de Deus.

7. Dissestes estar em trevas e nada ouvir?

R. É me permitido ouvir algumas das vossas palavras, mas o


que vejo é apenas um crepe negro, no qual de quando em
quando se desenha um semblante que chora.

8. Mas uma vez que ele aqui está sem o avistardes, nem sequer
vos apercebeis da presença do vosso amado?

R. Ah! não me faleis dele. Devo esquecê-lo presentemente para


que do crepe se extinga a imagem retratada.

9. Que imagem é essa?


R. A de um homem que sofre e cuja existência moral na Terra
aniquilei por muito tempo.

Da leitura dessa narrativa logo se depreende haver neste


suicídio circunstâncias atenuantes, encarando-o como ato heróico
provocado pelo cumprimento do dever. Mas reconhecesse,
também, que, contrariamente ao julgado, longa e terrível deve ser
a pena dos culpados por se terem voluntariamente refugiado na
morte para evitar a luta. A intenção de não faltar aos deveres era,
efetivamente, honrosa, e lhes será levada em conta mais tarde,
mas o verdadeiro mérito consistiria na resistência, tendo eles
procedido como o desertor que se esquiva no momento do
perigo.

A pena consistirá, como se vê, em se procurarem debalde e por


muito tempo, quer no mundo espiritual, quer noutras encarnações
terrestres; pena que ora é agravada pela perspectiva da sua
eterna duração. Essa perspectiva, aliada ao castigo, faz que lhes
seja defeso ouvirem palavras de esperança que porventura lhes
dirijam. Aos que acharem esta pena longa e terrível, tanto mais
quanto não deverá cessar senão depois de várias encarnações,
diremos que essa duração não é absoluta, mas depende da
maneira porque suportarem as futuras provações, além do que
podem eles ser auxiliados pela prece.

E serão assim, como todos, os árbitros do seu destino. Não será


isso, ainda assim, preferível à eterna condenação, sem
esperança, a que ficam irrevogavelmente submetidos segundo a
doutrina da Igreja, que os considera votados ao inferno e para
sempre, a ponto de lhes recusar, com certeza por inúteis, as
últimas preces?

Luís e a Prespontadeira de Botinas

Havia sete para oito meses que Luís G., oficial-sapateiro,


namorava uma jovem, Vitorina R., com a qual em breve deveria
casar-se, já tendo mesmo corrido os proclamas do casamento.

Estando neste pé as coisas, consideravam-se quase


definitivamente ligados e, como medida económica, diariamente
vinha o sapateiro almoçar e jantar em casa da noiva.

Um dia, ao jantar, sobreveio uma controvérsia a propósito de


qualquer futilidade e, obstinando-se os dois nas opiniões, foram
as coisas ao ponto de Luís abandonar a mesa, protestando não
mais voltar.
Apesar disso, no dia seguinte veio pedir perdão. A noite é boa
conselheira, como se sabe, mas a moça, prejulgando talvez pela
cena da véspera o que poderia acontecer quando não há mais
tempo de remediar o mal, recusou-se à reconciliação. Nem
protestos, nem lágrimas, nem desesperos puderam demovê-la.
Muitos dias ainda se passaram, esperando Luís que a sua amada
fosse mais razoável, até que resolveu fazer uma última tentativa.

Chegando à casa da moça, bateu de modo que fosse


reconhecido, mas a porta permaneceu fechada, recusaram abrir-
lhe.

Novas súplicas do repelido, novos protestos não ecoaram no


coração da sua pretendida. "Adeus, pois, cruel! — exclamou o
pobre moço — adeus para sempre. Trata de procurar um marido
que te estime tanto como eu". Ao mesmo tempo a moça ouvia um
gemido abafado e logo após o baque como que de um corpo
escorregando pela porta. Pelo silêncio que se seguiu, a moça
julgou que Luís se assentara à soleira da porta e protestou a si
mesma não sair enquanto ele ali se conservasse.

Decorrido um quarto de hora é que um locatário, passando pela


calçada e levando luz, soltou um grito de espanto e pediu socorro.
Depressa acorre a vizinhança, e Vitorina, abrindo então a porta,
deu um grito de horror, reconhecendo estendido sobre o lajedo,
pálido, inanimado, o seu noivo. Cada qual se apressou em
socorrê-lo, mas para logo se percebeu que tudo seria inútil, visto
como ele deixara de existir. O desgraçado moço enterrara uma
faca na região do coração e o ferro ficara-lhe cravado na ferida.

(Sociedade Espírita de Paris, agosto de 1858)

1. Ao Espírito de S. Luís — A moça, causadora involuntária do


suicídio, tem responsabilidade?

R. Sim, porque o não amava.

2. Então para prevenir a desgraça deveria desposá-lo a despeito


da repugnância que lhe causava?

R. Ela procurava uma ocasião de descartar-se e assim fez em


começo da ligação o que viria a fazer mais tarde.

3. Neste caso, a sua responsabilidade decorre de haver


alimentado sentimentos dos quais não participava e que deram
em resultado o suicídio do moço?

R. Sim, exatamente.
4. Mas então essa responsabilidade deve ser proporcional à
falta e não tão grande como se consciente e voluntariamente
houvesse provocado o suicídio.

R. É evidente.

5. E o suicídio de Luís tem desculpa pelo desvario que lhe


acarretou a obstinação de Vitorina?

R. Sim, pois o suicídio oriundo do amor é menos criminoso aos


olhos de Deus, de que o suicídio de quem procura libertar-se da
vida por motivos de covardia.

(Ao Espírito de Luís G., evocado mais tarde, foram feitas as


seguintes perguntas):

1. Que julgais da ação que praticastes?

R. Vitorina era uma ingrata e eu fiz mal em suicidar-me por sua


causa, pois ela não o merecia.

2. Então não vos amara?

R. Não. A princípio iludia-se, mas a desavença que tivemos


abriu-lhe os olhos e ela até se deu por feliz achando um pretexto
para se livrar de mim.

3. E o vosso amor por ela era sincero?


R. Paixão somente, creia; pois se o amor fosse puro eu me teria
poupado de lhe causar um desgosto.

4. E se acaso ela adivinhasse a vossa intenção, persistiria na


sua recusa?

R. Não sei, penso mesmo que não, porque ela não é má. Mas,
ainda

assim, não seria feliz, e melhor foi para ela que as coisas se
passassem dessa forma.

5. Batendo-lhe à porta, tínheis já a ideia de vos matar, caso se


desse a recusa?

R. Não pensava naquilo ainda, porque também não contava com


a sua obstinação. Foi somente à vista desta que perdi a razão.

6. Parece que não lamentais o suicídio senão pelo fato de


Vitorina o não merecer... É realmente o vosso único pesar?

R. Neste momento, sim; estou ainda perturbado, afigura-se-me


estar ainda à porta, conquanto também experimente outra
sensação que não posso definir.

7. Chegareis a compreendê-la mais tarde.

R. Sim, quando estiver livre desta perturbação. Fiz mal, deveria


resignar-me... Fui fraco e sofro as consequências da minha
fraqueza. A paixão cega o homem a ponto de obrigá-lo a praticar
loucuras e infelizmente ele só o compreende muito tarde.

8. Dizeis que tendes um desgosto... qual é?

R. Fiz mal em abreviar a vida. Não deveria fazê-lo. Era preferível


tudo suportar a morrer antes do tempo. Sou portanto infeliz; sofro
e é sempre ela que me faz sofrer, a ingrata. Parece-me estar
sempre à sua porta, mas... não falemos nem pensemos mais
nisso, que me incomoda muito. Adeus.

Por isto se vê ainda uma nova confirmação da justiça que


preside à distribuição das penas, conforme o grau de
responsabilidade dos culpados. Neste caso, é à moça que cabe a
maior responsabilidade, por haver entretido em Luís um amor que
não sentia, por brincadeira. Quanto ao moço, este já é de sobejo,
punido pelo sofrimento porque passa, mas a sua pena é leve,
porquanto apenas cedeu a um movimento irrefletido, em
momento de exaltação e não à fria premeditação dos suicidas
que ousam subtrair-se às provações da vida.
Um Ateu

O Sr. M. J. B. D., era um homem instruído, porém em extremo


saturado de ideias materialistas, não acreditando em Deus nem
na existência da alma. A pedido de um parente, foi evocado na
Sociedade Espírita de Paris, dois anos depois de desencarnado.

1.Evocação

— R. Sofro. Sou um réprobo.

2. Fomos levados a evocar-vos em nome de parentes que, como


parentes, desejam saber da vossa sorte. Podereis dizer-nos se
esta nossa evocação vos é penosa ou agradável?

R.Penosa.

3. A vossa morte foi voluntária?

R. Sim.

4. Tende calma, que nós todos pediremos a Deus por vós.

R. Sou forçado a crer nesse Deus.

5. Que motivo poderia ter-vos levado ao suicídio?

R. O tédio de uma vida sem esperança.

Concebe-se o suicídio quando a vida é sem esperança;


procurase fugir então dela a qualquer preço. Com o Espiritismo,
ao contrário, a esperança fortalece-se porque o futuro se nos
desdobra. O suicídio deixa de ser objetivo, uma vez reconhecido
que apenas se isenta a gente do mal para arrostar com um mal
cem vezes pior. Eis porque o Espiritismo tem sequestrado muita
gente a uma morte voluntária. Grandemente culpados são
aqueles que se esforçam por acreditar, com sofismas científicos e
a pretexto de uma falsa razão, nessa ideia desesperadora, fonte
de tantos crimes e males, de que tudo acaba com a vida. Esses
serão responsáveis não só pelos próprios erros, como igualmente
por todos os males a que os mesmos deram causa.

6. Quisestes escapar às vicissitudes da vida... Ganhastes


alguma coisa? Sois agora mais feliz?

R. Por que não existe o nada?

7. Tende a bondade de nos descrever do melhor modo possível


a vossa atual situação.

R. Sofro pelo constrangimento em que estou de crer em tudo


quanto negava. Meu Espírito está como um braseiro,
horrivelmente atormentado.

8. De onde provinham as vossas ideias materialistas de outrora?


R. Em anterior encarnação eu fora mau e por isso condenei-me
na seguinte aos tormentos da incerteza e assim foi que me
suicidei.

Aqui há todo um corolário de ideias. Muitas vezes nos


perguntamos como pode haver materialistas quando, tendo eles
passado pelo mundo espiritual deveriam ter dele a intuição; ora, é
precisamente essa intuição que é recusada a alguns Espíritos
que, conservando o orgulho, não se arrependeram das próprias
faltas. Para esses, a prova consiste na aquisição, durante a vida
corporal e à custa do próprio raciocínio, da prova da existência de
Deus e da vida futura que tem, por assim dizer, incessantemente
debaixo dos olhos. Muitas vezes, porém, a presunção de nada
admitir, acima de si, os empolga e absorve. Assim sofrem eles a
pena até que, domado o orgulho, se rendem à evidência.

9. Quando vos afogastes, que ideia tínheis das consequências?


Que reflexões fizestes nesse momento?

R. Nenhuma, pois tudo era o nada para mim. Depois de que vi


que, tendo cumprido toda a sentença, teria de sofrer mais ainda.

10. Estais bem convencido agora da existência de Deus, da


alma, da vida futura?

R. Ah! Tudo isso muito me atormenta!


11. Tornastes a ver vosso irmão?

R. Oh!não.

12. E porque não?

R. Para que confundir os nossos desesperos? Exila-se a gente


na desgraça e na ventura se reúne, eis o que é.

13. Incomodar-vos-ia a presença de vosso irmão, que


poderíamos atrair aí para junto de vós?

R. Não o façais, que não o mereço.

14.Por que vos opondes?

R. Porque ele também não é feliz.

15. Receiais a sua presença e no entanto ela só poderia ser


benéfica para vós.

R. Não; mais tarde...

16. Tendes algum recado para os vossos parentes?

R. Que orem por mim.

17. Parece que na roda das vossas relações há quem partilhe


das vossas opiniões. Quereis que lhes digamos alguma coisa do
assunto?
R. Oh! Os desgraçados! Assim possam eles crer em outra
existência, eis quanto lhes posso desejar. Se eles pudessem
avaliar a minha triste posição, muito refletiriam.

(Evocação de um irmão do precedente, que professava as


mesmas teorias, mas que não se suicidou. Posto que também
infeliz, este se apresenta mais calmo; a sua escrita é clara e
legível.)

18.Evocação

— R. Possa o quadro dos nossos sofrimentos ser útil lição,


persuadindo-vos da realidade de outra existência, na qual se
expiam as faltas oriundas da incredulidade.

19. Vós, e vosso irmão que acabamos de evocar, vos vedes


reciprocamente?

R. Não; ele me foge.

Poder-se-ia perguntar como é que os Espíritos se podem evitar


no mundo espiritual, uma vez que aí não existem obstáculos
materiais nem refúgios impenetráveis à vista. Tudo é, porém,
relativo nesse mundo e conforme a natureza fluídica dos seres
que o habitam. Só os Espíritos superiores têm percepções
indefinidas, que nos inferiores são limitadas. Para estes, os
obstáculos fluídícos equivalem a obstáculos materiais.

Os Espíritos furtam-se às vistas dos semelhantes por efeito


volitivo, que atua sobre o envoltório perispiritual e fluidos
ambientes. A Providência, porém, como mãe, por todos os seus
filhos vela e individualmente lhes concede ou nega essa
faculdade, conforme as suas disposições morais, o que constitui,
conforme as circunstâncias, um castigo ou uma recompensa.

20. Estais mais calmo do que vosso irmão. Podereis dar uma
descrição mais precisa dos vossos sofrimentos?

R. Não sofreis aí na Terra no vosso orgulho, no vosso amor


próprio, quando obrigados a reconhecer os vossos erros?

O vosso Espírito não se revolta com a ideia de vos humilhardes


a quem vos demonstre o vosso erro? Pois bem! Julgai quanto
deve sofrer o Espírito que por toda a sua vida se persuadiu de
que nada existia além dele e que sobre todos prevalecia sempre
a sua razão.

Encontrando-se de súbito em face da verdade imponente, esse


Espírito sente-se aniquilado, humilhado. A isso vem ainda juntar-
se o remorso de haver por tanto tempo esquecido a existência de
um Deus tão bom, tão indulgente.
A situação é insuportável; não há calma nem repouso; não se
encontra um pouco de tranquilidade senão no momento em que a
graça divina, isto é, o amor de Deus, nos toca, pois o orgulho de
tal modo se apodera de nós,

que de todo nos embota, a ponto de ser preciso ainda muito


tempo para que nos despojemos completamente dessa roupagem
fatal. Só a prece dos nossos irmãos pode ajudar-nos nesses
transes.

21. Quereis falar dos irmãos encarnados, ou dos Espíritos?

R. De uns e outros.

22. Enquanto nos entrelinhamos com o vosso irmão, uma das


pessoas aqui presentes orou por ele: essa prece lhe foi
proveitosa?

R. Ela não se perderá. Se ele agora recusa a graça, outro tanto


não fará quando estiver em condições de recorrer a essa divina
panaceia.

Aqui lobrigamos outro género de castigo, mas que não é o


mesmo em todos os célicos. Para este Espírito é independente do
sofrimento a necessidade de apregoar verdades, que repudiara
quando encarnado.
As suas ideias atuais revelam certo grau de adiantamento,
comparado ao de outros Espíritos persistentes na negação de
Deus. Confessar o próprio erro é já alguma coisa, porque é
premissa de humildade.

Na subsequente encarnação é mais que provável que a


incredulidade ceda lugar ao sentimento inato da fé.

Transmitindo à pessoa que no-la havia solicitado o resultado das


duas evocações, tivemos dela a seguinte resposta:

"Não podeis imaginar, meu caro senhor, o grande benefício


advindo da evocação de meu sogro e de meu tio. Reconhecemo-
los perfeitamente. A letra do primeiro, sobretudo, é uma analogia
notável com a que ele tinha em vida, tanto mais quanto, durante
os últimos meses que conosco passou, essa letra era sofreada e
indecifrável. Aí se verificam a mesma forma de pernas, do etc. e
de certas letras. Quanto ao vocabulário e ao estilo, a semelhança
é ainda mais frisante; para nós, a analogia é completa, apenas
com maior conhecimento de Deus, da alma e da eternidade que
ele tão formalmente negava outrora. Não nos restam dúvidas,
portanto, acerca da sua identidade.

Deus será glorificado pela maior firmeza das nossas crenças no


Espiritismo e os nossos irmãos encarnados e desencarnados se
tornarão melhores. A identidade de seu irmão também não é
menos evidente, na mudança de ateu em crente, reconhecemos-
lhe o caráter, o estilo, o contorno da frase. Uma palavra, sobre
todas, nos despertou atenção — panaceia — predileta dele, que a
todo o instante a repetia.

Mostrei essas duas comunicações a várias pessoas, que não


menos se admiraram da sua veracidade, mas os incrédulos, com
as mesmas opiniões dos meus parentes, esses desejariam
respostas ainda mais categóricas.

Queriam, por exemplo, que M. D. se referisse ao lugar em que


foi enterrado, onde se afogou, como foi encontrado etc. A fim de
os convencer, não vos seria possível fazer nova evocação
perguntando onde e como se suicidou, quanto tempo esteve
submergido, em que lugar acharam o cadáver, onde foi inumado,
de que modo, se civil ou religiosamente, foi sepultado?

Dignai-vos, caro senhor, insistir pela resposta categórica a essas


perguntas, pois são essenciais para aqueles que ainda duvidam.
Estou convencido de que darão, nesse caso, imensos resultados.

Dou-me pressa a fim de esta vos ser entregue na sexta-feira de


manhã, de modo que se possa fazer a evocação na sessão da
Sociedade desse mesmo dia... etc."
Reproduzimos esta carta pelo fato da confirmação da identidade
e aqui lhe anexamos a nossa resposta para ensino das pessoas
não familiarizadas com as comunicações.

"As perguntas que nos pediram para novamente endereçar ao


Espírito de vosso sogro são inconstestavelmente, ditadas por
intenção louvável, como a de convencer incrédulos, visto como
em vós não mais existe qualquer sentimento de dúvida ou
curiosidade. Contudo, um conhecimento mais aprofundado da
ciência espírita, vos faria julgar supérfluas essas perguntas. Em
primeiro lugar, solicitando-me conseguir resposta categórica,
mostrais ignorar a circunstância de não podermos governar os
Espíritos, a nosso bel-prazer. Ficai sabendo que eles nos
respondem quando e como querem e também como podem. A
liberdade da sua ação é maior ainda do que quando encarnados,
possuindo meios mais eficazes de se furtarem ao
constrangimento moral que por acaso sobre eles queiramos
exercer.

As melhores provas de identidade são as que fornecem


espontaneamente, por si mesmos, ou então as oriundas das
próprias circunstâncias. Estas, é quase sempre inútil provocá-las.
Segundo afirmais, o vosso parente provou a sua identidade de
modo inconcusso; por conseguinte, é mais que provável a sua
recusa em responder a perguntas que podem por ele ser com
razão consideradas supérfluas, visando satisfazer à curiosidade
de pessoas que lhe são indiferentes. A resposta bem poderia ser
a que outros têm dado em casos semelhantes, isto é; — "para
que perguntar coisas que já sabeis"?

A isto acrescentarei que a perturbação e os sofrimentos de que


está tomado devem agravar-se com as investigações desse
género, que correspondem exatamente ao fato de se querer
constranger um doente, que mal pode pensar e falar, a historiar
as minúcias da sua vida, faltando-se assim às considerações
inspiradas pelo seu próprio estado.

Quanto ao objetivo por vós alegado, ficai certo de que tudo seria
negativo. As provas de identidade fornecida são bem mais
valiosas, por isso que foram espontâneas, e não de antemão
premeditadas. Ora, se estas não puderam contentar os
incrédulos, muito menos o fariam interrogativas já
preestabelecidas, de cuja conivência, poderiam suspeitar.

Há pessoas a quem coisa alguma pode convencer. Essas


poderiam ver o vosso parente, com os próprios olhos, e
continuariam a supor-se vítimas de uma alucinação.
Duas palavras ainda, quanto ao pedido que me fizestes no
sentido de promover essa evocação no mesmo dia do
recebimento de vossa carta. As evocações não se fazem assim
de momento; os Espíritos nem sempre correspondem ao nosso
apelo; é preciso que queiram, e não só isso, mas que também
possam fazê-lo. É preciso, ainda, que encontrem um médium que
lhes convenha, com as aptidões especiais necessárias e que
esse médium esteja disponível em dado momento. É preciso,
enfim, que o meio lhes seja simpático, etc. Pela concorrência
dessas circunstâncias nem sempre se pode responder e importa
muito conhecê-las quando se quer cuidar dessas coisas com
seriedade e segurança."

Felíciano

Era um homem rico, instruído, poeta espirituoso, possuidor de


caráter são, obsequioso e ameno, de perfeita honradez.

Falsas especulações comprometeram-lhe a fortuna e, não lhe


sendo possível repará-la em razão da idade avançada, cedeu ao
desânimo, enforcando-se em dezembro de 1864, no seu quarto
de dormir.
Não era materialista nem ateu, mas um homem de génio um
tanto superficial, ligando pouca importância ao problema da vida
de além-túmulo. Conhecendo-o intimamente, evocamo-lo, quatro
meses após o suicídio, inspirados pela simpatia que lhe
dedicávamos.

Evocação.

— Choro a Terra na qual tive decepções, porém menores do


que as experimentadas aqui. Eu, que sonhava maravilhas, estou
abaixo da realidade do meu ideal. O mundo dos Espíritos é
bastante promíscuo e para torná-lo suportável fora mister uma
boa escolha. Não torno a ele. Que esboço de costumes espíritas
se poderia fazer aqui! O próprio Balzac, estando no seu elemento,
não faria esse esboço senão de modo rústico. Não o lobriguei,
porém. Onde estarão esses grandes Espíritos que tão
energicamente profiigaram os vícios da Humanidade! Deviam
eles, como eu, habitar por aqui antes de se lançarem a regiões
mais elevadas. Apraz-me observar este curioso pandemônio e
assim fico por aqui.

Apesar de o Espírito nos declarar que se acha numa sociedade


assaz promíscua e, por conseguinte, de Espíritos inferiores,
surpreendeu-nos a sua linguagem, dado o género de morte, ao
qual, aliás, não faz qualquer referência. A não ser isso, tudo mais
refletiu seu caráter.

Essa circunstância deixava-nos em dúvida acerca da identidade.

P. Tende a bondade de nos dizer como morrestes?

R. Como morri? Pela morte por mim escolhida, a que mais me


agradou, sendo para notar que meditei muito tempo nessa
escolha com o intuito de me livrar da vida. Apesar disso, confesso
que não ganhei grande coisa: libertei-me dos cuidados materiais,
porém, para encontrá-los mais graves e penosos na condição de
Espírito, da qual nem sequer prevejo o fim.

P. (ao Guia do médium) O Espírito em comunicação será


efetivamente o de Feliciano? Esta linguagem, quase
despreocupada, torna-se suspeita em se tratando de um suicida...

R. Sim. Entretanto, por um sentimento justificável na sua


posição, ele não queria revelar ao médium o seu género de
morte. Foi por isso que dissimulou a frase, acabando no entanto
por confessá-lo diante da pergunta direta que lhe fizestes e não
sem angústias. O suicídio fá-lo sofrer muito e por isso desvia, o
mais possível, tudo o que lhe recorde o seu fim funesto.
P. (ao Espírito). A vossa desencarnação tanto mais nos
comoveu, quanto lhe prevíamos as tristes consequências, além
da estima e intimidade das nossas relações. Particularmente não
me esqueci do quanto éreis obsequioso e bom para comigo. Seria
feliz se pudesse testemunhar-vos a minha gratidão, fazendo
alguma coisa por vós.

R. Entretanto, eu não podia furtar-me de outra maneira aos


empecilhos da minha posição material. Agora, só tenho
necessidade de preces, orai, principalmente, para que me veja
livre desses hórridos companheiros que aqui estão junto de mim,
obsidiando-me com gritos, sorrisos e infernais motejos. Eles
chamam-me covarde, e com razão, porque é covardia renunciar à
vida. É a quarta vez que sucumbo a essa provação, não obstante
a formal promessa de não falir... Fatalidade!... Ah! Orai...

Que suplício o meu! Quanto sou desgraçado! Orando, fazeis por


mim mais que por vós pude fazer quando na Terra; mas a prova,
ante a qual fracassei tantas vezes, aí está retraçada, indelével,
diante de mim! É preciso tentá-la novamente em tempo
oportuno...Terei forças? Ah! recomeçar a vida tantas vezes; lutar
por tanto tempo para sucumbir aos acontecimentos, é
desesperador, mesmo aqui! Eis porque tenho necessidade de
força. Dizem que podemos obtê-la pela prece... Orai por mim, que
eu quero orar também.

Este caso particular de suicídio se bem que realizado em


circunstâncias vulgares, apresenta uma característica especial.
Ele mostra-nos um Espírito que se renovará até que ele tenha
forças para resistir.

Assim se confirma o fato de não haver proveito no sofrimento,


sempre que deixamos de atingir o fim da encarnação, sendo
preciso recomeçá-lo até que saiamos vitoriosos da refrega.

Ao Espírito do Sr. Feliciano — Ouvi, eu vo-lo peço, ouvi e


meditai nas minhas palavras. O que denominais fatalidade é
apenas a vossa fraqueza, pois se a fatalidade existisse o homem
deixaria de ser responsável pelos seus atos. O homem é sempre
livre e na liberdade está o seu maior e mais belo privilégio. Deus
não quis fazer dele um autómato obediente e cego e, se essa
liberdade o torna falível, também o torna perfectível, com o que
somente pela perfeição poderá atingir a suprema felicidade.

O orgulho somente pode levar o homem a atribuir ao destino as


suas infelicidades terrenas, quando a verdade é que essas
infelicidades promanam da sua própria incúria. Tendes disso um
exemplo bem patente na vossa última encarnação, pois tínheis
tudo que se fazia necessário à felicidade humana na Terra:
espírito, talento, fortuna, merecida consideração; nada de vícios
ruinosos, mas, ao contrário, apreciáveis qualidades... Como pois
ficou tão comprometida a vossa posição? Unicamente pela vossa
imprevidência.

Haveis de convir que, agindo com mais prudência, contentando-


vos com o muito que já vos coubera, antes que procurando
aumentá-lo sem necessidade, a ruína não sobreviria. Não havia
nisso nenhuma fatalidade, uma vez que podíeis ter evitado o
acontecido. A vossa provação consistia num encadeamento de
circunstâncias que vos deveriam dar não à necessidade mas à
tentação do suicídio; desgraçadamente, apesar do vosso talento
e instrução, não soubestes dominar essas circunstâncias e sofreis
agora as consequências da vossa fraqueza.

Essa prova, como o pressentis com razão, deve renovar-se


ainda; na vossa próxima encarnação tereis de enfrentar
acontecimentos que vos sugerirão as ideias de suicídio e sempre
assim acontecerá até que de todo tenhais triunfado.

Longe de acusar o destino que é a vossa própria obra, admirai a


bonda de de Deus que, em vez de condenar irremissivelmente
pela primeira falta, oferece sempre os meios de repará-la.
Assim sofrereis não eternamente, mas por tanto tempo quanto
reincidirdes no erro. Depende de vós, no estado espiritual, tomar
a resolução bastante enérgica de manifestar a Deus um sincero
arrependimento, solicitando instantemente o apoio dos bons
Espíritos. Voltareis então à Terra, escudado na resistência a
todas as tentações.

Uma vez alcançada essa vitória que sob outros aspectos o


vosso progresso é já considerável. Como vedes, há ainda um
passo a vencer, para o qual vos auxiliaremos com as nossas
preces. Estas só serão improfícuas se nos não ajudardes com os
vossos esforços.

R. Oh! Obrigado! Oh! Obrigado por tão boas exortações. Delas


tenho tanto maior precisão quanto sou mais desgraçado do que
aparentava. Vou aproveitá-las, garanto, no preparo da próxima
encarnação, durante a qual farei todo o possível por não
sucumbir. Já me custa suportar o meio ignóbil do meu exílio.

Feliciano.
António Bell

Era o caixa de uma casa bancária do Canadá e suicidou-se a 28


de fevereiro de 1865. Um dos nossos correspondentes, médico e
farmacêutico residente na mesma cidade, deu-nos dele as
informações que se seguem:

"Conheci-o, havia perto de 20 anos, como homem pacato e


chefe de numerosa família. De certo tempo para cá imaginou ter
comprado um tóxico na minha farmácia, do qual se serviu para
envenenar alguém. Muitas vezes vinha suplicar-me para lhe dizer
a época daquela compra, tomado então de alucinações terríveis.

Perdia o sono, lamentava-se, batia no peito. A família vivia em


constante ansiedade das 4 da tarde às 9 da manhã, hora esta em
que se dirigia para a casa bancária, onde aliás, procedia com
muita regularidade, aos seus serviços de escriturações, sem que
jamais tivesse cometido um só erro. Habitualmente dizia sentir
dentro de si um ente que o fazia desempenhar com acerto e
ordem a sua contabilidade. Quando se dava por convencido da
extravagância das suas ideias, exclamava: "Não, não; quereis
iludir-me... lembro-me... é verdade."

A pedido desse amigo, foi ele evocado em Paris, a 17 de abril de


1865.
1.Evocação.

R. Que pretendeis de mim? Sujeitar-me a um interrogatório? É


inútil, tudo confessarei.

2. Bem longe de nós o pensamento de vos afligir com perguntas


indiscretas; desejamos saber apenas qual a vossa posição nesse
mundo, bem como se vos poderemos ser úteis...

R. Ah! Se for possível, ser-vos-ei extremamente grato. Tenho


horror ao meu crime e sou muito infeliz!

3. Temos a esperança de que as nossas preces atenuarão as


vossas penas. Parece-nos que vos achais em boas condições,
visto como o arrependimento já vos assedia o coração, o que
constitui um começo de reabilitação. Deus, infinitamente
misericordioso, sempre tem piedade do pecador arrependido.
Orai conosco. (Faz-se a prece pelos suicidas, a qual se encontra
n'0 Evangelho Segundo o Espiritismo).

Agora, tende a bondade de nos dizer de quais crimes vos


reconheceis culpado. Essa confissão, humildemente feita, servos-
á favorável.

R. Deixai primeiro que vos agradeça por esta esperança que


fizestes raiar no meu coração. Oh! Há já bastante tempo que vivia
numa cidade banhada pelo Mediterrâneo. Amava, então, uma
bela moça que me correspondia; mas, pelo fato de ser pobre, fui
repelido pela família. A minha eleita participou-me que desposaria
o filho de um negociante cujas transações se estendiam para
além de dois mares e assim fui eu preterido. Louco de dor, resolvi
acabar com a vida, não sem deixar de assassinar o detestado
rival, saciando o meu desejo de vingança. Repugnando-me os
meios violentos, horrorizava-me a perpetração do crime, porém, o
meu ciúme a levou de vencida. Na véspera do casamento, morria
o meu rival envenenado, pelo meio que me pareceu mais fácil.
Eis como se explicam as reminiscências do passado... Sim, eu já
reencarnei, e preciso é que reencarne ainda... Oh! Meu Deus,
tende piedade das minhas lágrimas e da minha fraqueza!

4. Deploramos essa infelicidade que retardou vosso progresso e


sinceramente vos lamentamos; dado, porém, que vos
arrependais, Deus se há de compadecer de vós. Dizei-nos se
chegastes a executar o vosso projeto de suicídio...

R. Não e confesso, para vergonha minha, que a esperança se


me despontou novamente no coração, com o desejo de me
aproveitar do crime já cometido. Traíam-me, porém, os remorsos
e acabei por expiar, no último suplício, aquele meu desvario:
enforquei-me.

5. Na vossa última encarnação tínheis a consciência do mal


praticado na penúltima?

R. Nos últimos anos somente, e eis como se dava o fato: eu era


bom por natureza, e, depois de submetido, como todos os
homicidas, ao tormento da visão perseverante da vítima, que me
perseguia qual vivo remorso, dela me desvencilhei depois de
muitos anos, pelo meu arrependimento e pelas minhas preces.
Recomecei outra existência, a última que atravessei calmo e
tímido. Tinha em mim como que vaga intuição da minha inata
fraqueza, bem como da culpa anterior, cuja lembrança em estado
latente conservara.

Mas um Espírito obsessor e vingativo, que não era outro senão


o pai da minha vítima, facilmente se apoderou de mim e fez
reviver no meu coração, como em mágico espelho, as
lembranças do passado. Simultaneamente influenciado por ele e
pelo meu Guia, que me protegia, eu era o envenenador e ao
mesmo tempo o pai de família angariando pelo trabalho o
sustento dos filhos. Fascinado por esse demônio obsessor,
deixei-me arrastar para o suicídio. Sou muito culpado realmente,
porém menos do que se deliberasse por mim mesmo. Os suicidas
da minha categoria, incapazes por sua fraqueza de resistir aos
obsessores, são menos culpados e menos punidos do que
aqueles que abandonam a vida por efeito exclusivo da própria
vontade.

Orai comigo para que o Espírito que tão fatalmente me obsidiou


renuncie à sua vingança e orai por mim para que adquira a
energia, a força necessária para não ceder à prova do suicídio
voluntário, prova a que serei submetido, dizem-me na próxima
encarnação.

Ao Guia do médium — Um Espírito obsessor pode, realmente,


levar o obsidiado ao suicídio?

R. Certamente, pois a obsessão que, por si mesma, já é um


género de provação, pode revestir todas as formas. Mas isso não
quer dizer isenção de culpa. O homem dispõe sempre do livre-
arbítrio e conseqüentemente está em si o ceder ou resistir às
sugestões a que o submetem.

Assim é que, sucumbindo, o faz sempre com assentimento da


própria vontade. Relativamente ao mais, o Espírito tem razão
dizendo que a ação incitada por outrem é menos culposa e
repreensível do que quando voluntariamente cometida. Contudo,
nem por isso se inocenta de culpa, visto como, afastando-se do
caminho reto, mostra que o bem ainda não estava vinculado no
seu coração.

6. Como não obstante a prece e o arrependimento terem


libertado esse Espírito da visão tormentosa da sua vítima, pode
ele ser atingido pela vingança de um obsessor na última
encarnação?

R. O arrependimento, bem o sabeis, é apenas a preliminar


indispensável à reabilitação, mas não é o suficiente para libertar o
culpado de todas as penas. Deus não se contenta com
promessas, sendo preciso a prova por atos, do retorno ao bom
caminho. Eis porque o Espírito é submetido a novas provações
que o fortalecem, acrescendo-lhe um merecimento ainda maior
quando delas sai triunfante.

O Espírito só arrosta com a perseguição dos maus, dos


obsessores, enquanto estes o não encontram bastante forte para
resistir-lhes. Encontrando resistência, eles o abandonam
convictos da inutilidade dos seus esforços.

Estes dois últimos exemplos mostram-nos a renovação da


mesma prova em sucessivas encarnações e por tanto tempo
quanto o da sua ineficácia. António Bell mostra-nos enfim o fato
muito instrutivo do homem perseguido pela lembrança de um
crime cometido em anterior existência, como um remorso e um
aviso.

Vemos ainda por aí que todas as existências são solidárias entre


si; que a justiça e bondade divinas se ostentam na faculdade ao
homem conferida de progredir gradualmente, sem nunca privá-lo
do resgate das faltas; que o culpado é punido pela própria falta,
sendo esta punição, em vez de uma vingança de Deus, o meio
empregado para fazê-lo progredir.
CAPITULO VI

CRIMINOSOS ARREPENDIDOS

Veger

Assassino do arcebispo de Paris


No dia 3 de janeiro de 1857, monsenhor Sibour, arcebispo de
Paris, ao sair da Igreja de Saint-Etiene du Mont, foi mortalmente
ferido por um jovem padre chamado Verger. O criminoso foi
condenado à morte e executado a 30 de janeiro. Até o último
momento não manifestou qualquer sentimento de pesar, de
arrependimento, ou de sensibilidade.

Evocado no mesmo dia da execução, deu as seguintes


respostas:

1 Evocação.

— R. Ainda estou preso ao corpo.

2. Então a vossa alma não esta inteiramente libertada?


R. Não... tenho medo .. não sei... Esperarei que volte a mim.
Não estou morto, não é assim?

3 Arrependei-vos do que fizeste?

R. Fiz mal em matar, mas a isso fui levado pelo meu caráter. que
não podia tolerar humilhações... Evocar-me-eis em outra
oportunidade.

4 Por que vos retirais?

R. Se o visse, muito me atemorizaria pelo receio de que ele me


fizesse outro tanto.

5. Mas nada tendes a temer, uma vez que a vossa alma esta
separada do corpo. Renunciai a qualquer inquietação: não é
razoável.
R. Que quereis?

Acaso sois sempre senhor das vossas impressões? Quanto a


mim, não sei onde estou... estou doido.

6. Esforçai-vos por ser calmo.

R. Não posso, porque estou louco... Esperai, que vou apelar


para minha lucidez.

7. Se orásseis, talvez pudésseis concentrar os vossos


pensamentos...
R. Intimido-me... náo me atrevo a orar.

8. Orai, que grande é a misericórdia de Deus! Oraremos


convosco.

R. Sim: eu sempre acreditei na infinita misericórdia de Deus.

9 . Compreendeis melhor agora a vossa situação?

R. Ela é tão extraordinária que ainda não posso apreendê-la.

10. Vedes a vossa vítima?

P. Parece-me ouvir uma voz semelhante à sua que me diz: "Não


mais te quero..." Será talvez, um efeito da imaginação!... Estou
doido, eu vo-lo asseguro, pois que vejo meu corpo de um lado e a
cabeça de outro... afigurando-se-me, porém, que vivo no Espaço,
entre a Terra e o que denominas céu... Sinto como o frio de uma
faca prestes a decepar-me o pescoço, mas isso será talvez o
terror da morte... Também me parece ver uma multidão de
Espíritos a rodear-me, a olhar-me compadecidos... falam-me, mas
não os compreendo.

11. Entretanto, entre esses Espíritos há talvez um cuja presença


vos humilha por causa do vosso crime.

R. Dir-vos-ei que há apenas um que me apavora: o daquele a


quem matei.
12. Lembrai-vos das anteriores existências?

R. Não: estou indeciso, acreditando sonhar.. Ainda uma vez.


preciso tornara mim.

13. (Três dias depois) Estais melhor agora?

R. Já sei que não mais pertenço a esse mundo e não o deploro.


Pesa me o que fiz. porém meu Espírito está mais livre. Sei
ademais que há uma série de encarnações que nos dão
conhecimentos úteis, a fim de nos tornarmos perfeitos tanto
quanto é possível à criatura humana.

14. Sois punido pelo crime que cometestes?

R. Sim: lamento o que fiz e isso me faz sofrer.

15. Qual a vossa punição?

R. Sou punido porque tenho consciência da minha falta e para


ela peço perdão a Deus; sou punido porque reconheço a minha
descrença nesse Deus, sabendo agora que não devemos
abreviar os dias de vida de nossos irmãos; sou punido pelo
remorso de haver protelado o meu progresso, enveredando por
caminho errado, sem ouvir o grito da própria consciência que me
dizia não ser pelo assassínio que alcançaria o meu desiderato.
Deixei-me dominar pela inveja e pelo orgulho; enganei-me e
arrependi-me. pois o homem deve esforçar-se sempre por
dominar as más paixões — o que aliás não fiz.

16. Qual a vossa sensação quando vos evocamos?


R. De prazer e de temor, uma vez que não sou mau.

17. Em que consiste esse prazer e esse temor?

R. No prazer de conversar com os homens e poderem parte


repararas minhas faltas, confessando-as: e no temor, que não
posso definir, um quê de vergonha por ter sido um assassino.

18. Desejais reencarnar na Terra?

R. Até o peço e desejo achar-me constantemente exposto ao


assassínio e sentir o medo disso.

Monsenhor Sibour. evocado, disse que perdoava o assassino e


orava para que ele se arrependesse. Disse mais que, se bem
estivesse presente à evocação, não se lhe tinha mostrado para
lhe não aumentares sofrimentos. porquanto o receio de o ver já
era um sintoma de remorso, já era um castigo.

P. O homem que mata sabe que. ao escolher nova existência,


nela se tornará assassino?
R. Não: ele sabe que, escolhendo uma vida de luta, tem
probabilidades de matar um semelhante, ignorando porém se o
fará, uma vez que tem de lutar consigo.

A situação de Verger. ao morrer, é a de quase todos aqueles


que sucumbem violentamente. Não se verificando abruptamente
a separação, eles ficam como aturdidos, sem saber se estão
mortos ou vivos, A visão do arcebispo foi-lhe poupada por
desnecessária ao seu remorso; mas outros Espíritos, em
circunstâncias idênticas, são constantemente acossados pelo
olhar das suas vítimas.

À enormidade do delito. Verger acrescentara a agravante de se


não ter arrependido ainda em vida, estando, pois. nas condições
requeridas para a eterna condenação. Mas, logo que deixou a
Terra, o arrependimento lhe invadiu a alma e, repudiando o
passado, deseja sinceramente repará-lo. A isso não o impele a
demasia do sofrimento, visto como nem mesmo teve tempo para
sofrer, mas é o alarme dessa consciência, desprezada durante a
vida, e que ora se lhe faz ouvir.

Por que não considerar valioso esse arrependimento? Por que


admiti-lo dias antes como capaz de salvar-se do inferno e depois
não? E por que, finalmente, o Deus misericordioso para o
penitente, em vida, deixaria de o ser. por questão de horas, mais
tarde? Fora para causar admiração a rápida mudança algumas
vezes operada nas ideias de um criminoso endurecido e
impenitente até a morte, se o trespasse lhe não fosse também
bastante, às vezes, para reconhecer toda a iniquidade da sua
conduta. Contudo, esse resultado está longe de ser geral o que
daria em consequência o não haver Espíritos maus. O
arrependimento é muitas vezes tardio e daí a protelação do
castigo.

A obstinação no mal, em vida, provém às vezes do orgulho de


quem recusa submeter-se e confessar os próprios erros, visto
estar o homem sujeito à influência da matéria a qual, lançando-
lhe um véu nas percepções espirituais, o fascina e desvaria. Roto
esse véu, súbita luz o aclara e ele se encontra senhor da sua
razão. A manifestação imediata de melhores sentimentos é
sempre indício de um progresso moral realizado, que apenas
aguarda uma circunstância favorável para se revelar, ao passo
que a persistência mais ou menos longa no mal, depois da morte,
é incontestavelmente a prova de atraso do Espírito, no qual os
instintos materiais atrofiam o germe do bem, de modo que lhe são
necessárias novas provações para se corrigir.
Leamíre

Condenado à pena última pelo júri de Aisne e executado a 31 de


dezembro de 1857. Evocado em 29 de janeiro de 1858.

1 .Evocação

— R. Aqui estou.

2. Vendo-nos, que sensação experimentais?

R. A sensação da vergonha.

3. Conservastes a vossa consciência até o uitimo momento?

R. Sim

4. Apôs a execução tivestes imediata noção dessa nova


existirei?

R. Eu estava imerso em g'ande perturbação, da qual aliás, ainda


não me libertei. Senti uma dor imensa e me parecia ser o coração
que a sofria. Vi rolar não sei o que aos pés do cadafalso, vi o
sangue que escorria e mais pungente se tornou a minha dor.

P. Era uma dor puramente física, análoga àquela que proviria de


um grande ferimento, peia amputação de um membro, poi
exemplo?

R. Não: figurai-vos antes um remorso uma grande dor moral.


5 Mas a dor física do suplício, quem a experimentava, o corpo
ou o Espirito?

R. A dor moral eslava em meu Espirito, sentindo o corpo a dor


física; mas o Espirito desligado também dela se ressentia.

6. Vistes o corpo mutilado?

R. Vi qualquer coisa informe, a qual me parecia integrado;


entretanto, reconhecia-me intacio, isto e, que eu era eu mesmo...

P. Que impressões vos advieram desse fato?

R. Eu sentia muito a minha dor, estava completamente ligado


a ela.

7. Será verdade que o corpo vive ameia alguns instantes depois


da decapitação. tendo o supliciado a consciência das suas
ideias?

R. O Espírito retira-se pouco a pouco: quanto mais o retêm os


laços materiais, menos pronta é a separação.

8. Dizem que se tem notado a expressão da cólera e


movimentos na fisionomia de alguns supliciados como se estes
quisessem falar; será isso efeito de contrações nervosas ou um
ato da vontade?

R. Da vontade, uma vez que o Espírito não está desligado.


9. Qual o primeiro sentimento que experimentastes ao entrar na
vossa nova existência?

R. Um sofrimento intolerável, uma espécie de remorso pungente


cuja causa ignorava.

10. Acaso vos achastes reunido aos vossos cúmplices


supliciados ao mesmo tempo?

R. Infelizmente, sim, por desgraça nossa, pois essa visão


recíproca é um suplício contínuo, exprobrando-se uns aos outros
os seus crimes.

11. Tendes encontrado as vossas vítimas?

R. Vejo-as... são felizes; seus olhares perseguem-me... sinto que


me varam o ser e embalde tento fugir-lhes.

P. Que impressão vos causam esses olhares7

R. Vergonha e remorso. Ocasionei-os voluntariamente e ainda


os abomino.

R. Qual a impressão que lhes causais vós?

R. Piedade, é sentimento que lhes percebo a meu respeito.

12 Terão por sua vez o ódio e o desejo desejo de vingança?


R. Não; os olhares que me lançam me lembram a minha
expiação. Vós náo podeis avaliar o suplício horrível de tudo
devermos àqueles a quem odiamos.

13. Lamentais a perda da vida corporal?

R. Apenas lamento os meus crimes. Se o fato ainda dependesse


de mim, não mais sucumboria.

14. O pendor para o mal estava na vossa natureza, ou fostes


ainda influenciado pelo meio em que vivestes?

R. Sendo eu um Espirito Infenorior a tendência para o mal


estava na minha própria natureza. Quis elevar-me rapidamente,
mas pedi mais do que comportavam as minhas forças Supondo-
me forte, acabei por ceder às tentações do mal.

15. Se tivésseis recebido sãos princípios de educação. ter-vos-


íeis desviado da senda criminosa?

R. Sim, mas eu havia escolhido a condição do nascimento.

P. Acaso não vos poderíeis ter tornado homem de bem?

R. Um homem fraco é incapaz tanto para a prática do bem como


para o do mal. Poderia, talvez, corrigir na vida o mal inerente à
minha natureza, mas nunca me elevar à prática do bem.

16. Quando encarnado acreditáveis em Deus?


R.Não.

P. Mas falam que à última hora vos arrependestes...

R. Porque acreditei num Deus vingativo, era natural que o


temesse..

17. Parece-vos justo o castigo que vos aplicaram na Terra?


R. Sim.

18. Esperais obter o perdão dos vossos crimes?

R. Não sei.

P. Como pretendeis repará-los?

R. Por novas provações, conquanto me pareça que uma


eternidade existe entre mim e elas.

19. Onde vos achais agora?

R. Estou no meu sofrimento.

P. Perguntamos qual o lugar em que vos encontreis....

R. Perto do médium.

20. Uma vez que assim é, sobre que forma vos veríamos, se
isso nos fosse possível?

R. Ver-me-íeis sob a minha forma corpórea: a cabeça separada


do tronco.P. Podereis aparecer-nos?
R. Não; deixai-me.

21. Podereis dizer-nos como vos evadistes da prisão de


Montiidier?

R. Nada mais sei... é tão grande o meu sofrimento, que apenas


guardo a lembrança do crime... Deixai-me.

22. Poderíamos concorrer para vos aliviar desse sofrimento?


R. Fazei votos para que sobrevenha a expiação.

Benoist

(Bordéus, março de 1862)


Um Espirito apresenta-se espontaneamente ao médium sobre o
nome de Benoist, dizendo ter morrido em 1704 e padecer
horríveis sofrimentos.

1 . Que fostes na Terra?

R. Frade sem fé.

2. Foi a descrença a vossa única falta?

R. Só ela é bastante para acarretar outras.

3. Podereis dar-nos alguns pormenores acerca da vossa vida?


Servos-á levada em boa conta a sinceridade da confissão.
R. Pobre e indolente, ordenei-me para ter uma posição, sem
pendor aliás para encargo dessa natureza. Inteligente, consegui
essa posição; influente, abusei do meu poderio; vicioso, corrompi
aqueles que tinha por missão salvar; cruel, persegui aqueles que
me pareciam querer verberar os meus excessos; os pacíficos
foram por mim inquietados.

As torturas da fome de muitas vítimas eram extintas amiúde pela


violência. Agora sofro todas as torturas do inferno e as vítimas me
ateiam fogo que me devora. A luxúria e a fome insaciáveis
perseguem-me: abrasa-me a sede os lábios escaldantes sem que
uma gota caia neles como refrigério. Orai pelo meu Espírito.

4. As preces feitas pelos finados deverão ser atribuídas a vós


como aos outros?

R. Acreditais que sejam edificantes e no entanto elas têm para


mim o valor daquelas que eu simulava fazer. Não executei o meu
trabalho e, assim, recebo o salário.

5. Nunca vos arrependestes?

R. Há muito tempo; mas ele só veio pelo sofrimento. E como fui


surdo ao clamor de vítimas inocentes, o Senhor também é surdo
aos meus clamores. Justiça!
6. Reconheceis a Justiça do Senhor: pois bem, confiai na sua
bondade e socorrei-vos do auxílio dele.

R. Os demônios berram mais do que eu; seus gritos sufocam-


me; enchem-me a boca de betume fervente!... Eu o fiz, grande...
(O Espírito não pode escrever a palavra Deus).

7. Não estais suficientemente liberto das ideias terrenas de


modo que essas torturas são todas morais?

R. Sofro-as... sinto-as... vejo os meus carrascos, que tem todos


uma cara conhecida, um nome que repercute em meu cérebro.

8. Mas que poderia impelir-vos ao cometimento de tantas


infâmias?

R. Os vícios de que me achava saturado, a brutalidade das


paixões.

9. Nunca implorastes a assistência dos bons Espíritos para vos


ajudarem a sair dessa contingência?

R. Apenas vejo os demônios do inferno.

10. Quando estáveis na Terra temíeis esses demônios?

R. Não, absolutamente, visto que só cria em o nada. Os


prazeres a todo transe constituíam o meu culto. E, já que lhes
consagrei a vida, as divindades do inferno não mais me
abandonaram, nem abandonarão!

11. Então não lobrigais um termo para esses sofrimentos?

R. O infinito não tem termo.

12. Mas Deus é infinito na sua misericórdia e tudo pode ter um


fim quando lhe aprouver.

R. Se Ele o quisesse!

13. Por que vos viestes inscrever aqui?

R. Não sei mesmo como, mas eu queria falar e gritar para que
me aliviassem.

14. E esses demônios não vos impedem de escrever?

R. Não, mas conservam-se à minha frente, e esperam-me...


Também por isso eu desejaria não terminar.

15. É a primeira vez que deste modo escreveis?

R. Sim,

P. E sabíeis que os Espíritos podiam assim aproximar-se dos


homens?

R. Não.

P. Como pois o percebestes?


R. Não sei.

16. Que sensações experimentastes ao acercar-vos de mim?

R. Um como entorpecimento dos meus terrores.

17. Como vos apercebestes da vossa presença aqui?

R. Como quando se desperta de um sono.

18. Como procedestes para comunicar comigo?

R. Não posso compreender, mas tu também não sentiste?

19. Não se trata de mim. porém de vós... Procurai assegurar-vos


do que fazeis enquanto eu escrevo.

R. És o meu pensamento em tudo, eis tudo.

20. Não tivestes pois o desejo de me fazer escrever?


R. Não, sou eu quem escreve e tu pensas por mim.

21. Procurai assegurar-vos do vosso estado, porque os bons


Espíritos que vos cercam vos ajudarão.

R. Não, que os anjos não vêm ao inferno Tu não estás só?


P. Vedes em torno.

R. Sinto que me auxiliam a atuarsobretL.atua mão obedece-


me... não te toco, aliás, e seguro-te... Como? Não sei...
22. Implorai a assistência dos vossos protetores. Vamos pedir a
ambos.

R. Queres deixar-me? Fica comigo, porque vão reapossar-se de


mim. Eu te peço... Fica! Fica!...

23. Não posso demorar-me por mais tempo. Voltai diariamente


para orarmos juntos e os bons Espíritos vos auxiliarão.

R. Sim, desejo o perdão. Orai por mim, que não posso fazé-lo.

(O Guia do médium) — Coragem, meu filho, porque lhe será


concedido o que pedes, se bem que longe esteja ainda o fim da
expiação. As atrocidades por ele cometidas não têm número nem
conta e maior é a sua culpa porque possuía inteligência, instrução
e luzes para guiar-se. Tendo falido com conhecimento de causa,
mais terríveis lhe são os sofrimentos, os quais, não obstante, se
suavizarão com o auxílio e o exemplo da prece, de modo que lhes
possa ver o fim, confortado pela esperança. Deus o vê no
caminho do arrependimento e já lhe concedeu a graça de poder
comunicar-se a fim de ser encorajado e confortado.

Pensa nele muitas vezes, pois nós te o entregamos para


fortalecer-se nas boas resoluções que lhe poderão advir dos teus
conselhos. Ao seu arrependimento sucederá o desejo da
reparação, e edirá então uma nova existência para praticar o bem
como compensação do mal praticado. Quando Deus estiver
satisfeito a respeito dele e o vir resoluto e firme, far-lhe-á entrever
as divinas luzes que o hão de conduzir à salvação, recebendo-o
no Seu seio como pai ao filho pródigo. Tem fé e nós te
ajudaremos a completar o teu trabalho. Paulino.

Colocamos este Espírito entre os criminosos, posto que não


atingido pela justiça humana, porque o crime se contém nos atos
e não no castigo infligido pelos homens. O mesmo se dá com o
que se segue.

O Espírito de Casteinaudary

Rumores e outras estranhas e várias manifestações ocorridas


numa casinha perto de Casteinaudary, faziam-na crer habitada
por fantasmas, mal-assombrada, etc. Assim foi dita casa
exorcizada em 1848, aliás sem resultado. O proprietário Sr. D.,
pretendendo habitá-la, faleceu repentinamente alguns anos
depois; e seu filho, animado do mesmo desejo, ao penetrar-lhe
um dos compartimentos, recebeu de mão desconhecida vigorosa
bofetada e, como estivesse só, não teve a menor dúvida de uma
origem oculta, razão esta que o levou a abandonar a casa
definitivamente. No lugar corria uma versão segundo a qual um
grande crime fora cometido ali.

O Espirito que dera a bofetada foi evocado na Sociedade de


Paris, em 1859, e manifestou-se por sinais de tamanha violência,
que foram improfícuos todos os esforços para acalmá-lo.
Interrogado S. Luís a respeito do assunto, respondeu: "É um
Espirito da pior espécie, verdadeiro monstro; fizemo-lo
comparecer, mas não obstante tudo quanto lhe dissemos não foi
possível obrigá-lo a escrever. Ele possui o seu livre-arbitrio, do
qual o infeliz tem feito triste uso".

P. Este Espírito é passível de melhora?

R. Por que não? Pois não o são todos, este como os outros?

É possível entretanto que haja nisso dificuldades, porém a


permuta do bem pelo mal acabará por sensibilizá-lo. Orai em
primeiro lugar e, se o evocardes daqui a um mês, vereis a
transformação operada.

Novamente evocado mais tarde, o Espírito mostrou-se mais


brando e, pouco a pouco, submisso e arrependido. Explicações
posteriores, ministradas não só por ele como por outros Espíritos,
deram em resultado ficarmos sabendo que, em 1608, habitando
aquela casa, assassinara um irmão por motivos de terrível ciúme,
degolando-o durante o sono. Alguns anos decorridos, também
assassinara a esposa.

O seu falecimento ocorreu em 1659, na idade de 80 anos, sem


que houvesse respondido por estes crimes, que pouca atenção
despertaram naquela época de balbúrdias. Depois da morte,
jamais cessara de praticar o mal, provocando vários acidentes,
ocorridos naquela casa.

Um médium vidente que assistiu à primeira evocação o viu no


momento em que pretendiam forçá-lo a escrever, quando sacudiu
violentamente o braço do médium. De medonha catadura, trajava
uma camisa ensanguentada, tendo na mão um punhal.

1. P. (A S. Luís) — Tende a bondade de nos descrever o género


de suplício deste Espírito.

R. É atroz, porque está condenado a habitar a casa em que


cometeu o crime, sem poder fixar o pensamento noutra coisa a
não ser no crime, tendo-o sempre ante os olhos e acreditando na
eternidade dessa tortura. Está como no momento do próprio
crime, porque qualquer outra recordacão lhe foi retirada e interdita
toda comunicação com qualquer outro Espírito. Sobre a Terra, só
pode permanecer naquela casa, e no Espaço só lhe restam
solidão e trevas.

2. Haveria um meio de o desalojar dessa casa? Qual seria esse


meio?

R. Quando alguém quer ficar livre de obsessões de semelhantes


Espíritos, o meio é fácil — orar por eles. Contudo é precisamente
isso que se deixa de fazer muitas vezes: prefere-se intimidá-los
com exorcismos que, aliás, muito os divertem.

3. Insinuando às pessoas interessadas essa ideia de orar por


ele, fazendo-o também nós, conseguiríamos desalojá-lo?

R. Sim, mas reparai que eu disse para orar e não para mandar
orar.

4. Estando em tal situação há dois séculos, apreciará ele todo


esse tempo como se fora encarnado, isto é, o tempo parecer-lhe-
á tanto ou menos longo do que quando na Terra?

R. Mais longo; o sono não existe para ele.

5. Disseram-nos que o tempo não existe para os Espíritos e que


um século, para eles, não passa de um instante na eternidade.
Dar-se-á efetivamente esse fato para com todos os Espíritos?
R. Não, por certo, porquanto isso só se dá com os Espíritos que
têm atingido elevadíssimo grau de adiantamento; para os
inferiores, porém, o tempo é frequentemente moroso, sobretudo
quando sofrem.

6. Donde vinha esse Espírito antes da sua encarnação?

R. Tivera uma existência entre tribos das mais ferozes e


selvagens e, precedentemente, em planeta inferior à Terra.

7. Severamente punido agora por esse crime, se-lo-ia


igualmente pelos que porventura tivesse cometido, como é de
supor, quando vivendo entre selvagens?

R. Sim, porém não tanto, uma vez que, por ser mais ignorante,
menos alcançava a extensão do delito.

8. O estado em que se vê esse Espírito é o dos seres


vulgarmente designados por danados?

R. Não, em absoluto, pois há condições ainda mais horrorosas.


Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos,
variando conforme seja o culpado mais ou menos acessível ao
arrependimento. Para este, aquela casa é o seu inferno, outros
trazem esse inferno em si mesmos, pelas paixões que os
atormentam sem que possam saciá-las.
9. Não obstante a sua inferioridade, este Espírito é sensível aos
efeitos da prece, o que também temos verificado com Espíritos da
mesma forma perversos e da mais ínfima natureza; entretanto,
Espíritos há que, esclarecidos. de inteligência mais desenvolvida,
demonstram completa ausência de bons sentimentos e zombam
de tudo o que há de mais sagrado: a nada se comovendo e até
não dando tréguas ao seu cinismo...

R, A prece só aproveita ao Espirito que se arrepende; para


aqueles que. cheios de orgulho, se revoltam contra Deus e que
persistem no erro, exagerando-o mesmo, tal como procedem os
infelizes: para eles a prece nada adianta nem adiantará senão
quando ténue vislumbre de arrependimento começar a germinar-
lhes na consciência. A ineficácia da prece também é para eles um
castigo. Enfim, ela só alivia os não totalmente endurecidos.

10. Vendo-se um Espirito insensível à ação da prece, será


motivo para que se deixe de orar por ele?

R. Não, porquanto, cedo ou tarde, a prece poderá triunfar do seu


endurecimento e sugerir-lhe benéficos pensamentos. O mesmo
acontece com determinados doentes nos quais a ação
medicamentosa só se torna sensível depois de muito tempo, e
vice-versa. Compenetrando-nos bem de que iodos os Espíritos
são capazes de progresso, e que nenhum é fatal e eternamente
condenado, fácil nos será compreendei a eficácia da prece em
quaisquer circunstâncias. Por mais ineficaz que ela possa
parecer-nos à primeira vista, a verdade é que contém germes em
si mesma, bastante benéficos, para bem predisporem o Espírito,
quando o não afetem imediatamente. Erro seria, pois,
desanimarmos por não colher dela imediato resultado.

11. Quando esse Espírito for reencarnar. qual será a sua


categoria?

R. Depende dele e do arrependimento que então tiver. Muitos


colóquios com esse Espírito deram em resultado notável
transformação do seu moral.

Eis aqui algumas das respostas dele.

12. (Ao Espírito). Por que não pudestes escrever da primeira vez
que vos evocamos?

R. Porque não queria.

P. Mas por que?

R. Ignorância e embrutecimento.

13. Agora podeis deixar, quando vos apraz, a casa de


Casteinaudary?
R. Permitem-me isso, porque aproveito os vossos conselhos.

P. Sentis algum alívio?

R. Começo a ter esperança.

14. Se nos fosse possível ver-vos, qual a vossa aparência?

R. Ver-me-íeis com a camisa, mas sem o punhal.

P. Por que não mais com o punhal? Que sumiço lhe destes?

R. Amaldiçoando-o. Deus arrebatou-me das vistas.

15. Se o filho do Sr D. (o da bofetada) tornasse àquela casa, que


lhe faríeis?

R. Nada, porque estou arrependido.

P. E se ele pretendesse ainda desafiar-vos?

R. Não me façais essa pergunta! Eu não me dominaria, isso está


acima das minhas forças, pois sou um miserável.

16. Vislumbrais um termo aos vossos padecimentos?

R. Oh! Ainda não. É já muito o saber, graças a vossa


intercessão, que esses padecimentos não serão eternos.

17. Tende a bondade de nos descrever a vossa situação antes


de vos havermos evocado pela primeira vez. Não é preciso
acrescentarmos que este pedido tem por fim sabermos como ser-
vos úteis e não a simples e fútil curiosidade.

R. Disse-vos já que nada mais compreendia além do meu crime


e que não podia abandonar a casa em que o cometi, a não ser
para vagar no Espaço, solitário e desconhecido; disso não
poderia eu dar-vos uma ideia, porque nunca pude compreender o
que se passava. Desde que me alçava ao Espaço, era tudo
negrume e vácuo ou, antes, não sei mesmo o que era...

Hoje o meu remorso é muito maior e no entanto não sou


constrangido a permanecer naquela casa fatal, sendo-me
permitido vagar na Terra e orientar-me pela observação de
quanto aí vejo; compreendo melhor, assim, a enormidade dos
meus crimes e, se menos sofro por um lado, por outro aumentam
as torturas do remorso... Mas... ainda bem que tenho esperança.

18. Se tivésseis de reencarnar, que existência preferiríeis?

R. Não tenho meditado suficientemente acerca disso.

19. Durante o vosso longo insulamento—quase podemos dizer


cativeiro — experimentastes algum remorso?

R. Nenhum e por isso sofri tão longamente. Somente quando o


senti, foi que ele provocou, sem que disso me apercebesse, as
circunstâncias determinantes da vossa evocação ao meu Espírito,
para início da libertação. Obrigado, pois, a vós que de mim vos
apiedastes e me esclarecestes.

Realmente temos visto avaros sofrerem à vista do ouro, que


para eles não passava de verdadeira quimera; orgulhosos,
atormentados pelo ciúme das honrarias prestadas a outros e não
a eles; homens que dominavam na Terra, humilhados pela
potência invisível, constrangidos à obediência, em presença de
subordinados, que não mais lhes faziam curvaturas; ateus
atónitos pela dúvida em face da imensidade, no mais absoluto
insulamento, sem um ser que os esclarecesse.

No mundo dos Espíritos há recompensas para todas as virtudes,


mas há também penalidades para todas as faltas; destas, aquelas
que escaparam às leis dos homens são infalivelmente alcançadas
pelas leis de Deus. Devemos ainda notar que as mesmas faltas,
conquanto cometidas em circunstâncias idênticas, são
diversamente punidas, conforme o grau de adiantamento do
Espírito delinquente.

Aos Espíritos mais atrasados, de natureza mais grosseira, como


aquele de que acabamos de nos ocupar, são infligidos castigos
de algum modo mais materiais que morais, ao passo que o
contrário se dá para com aqueles cuja inteligência e sensibilidade
estejam mais desenvolvidas. Aos primeiros impõe-se o castigo
adequado à rudeza do seu discernimento, para compreenderem o
erro e dele se libertarem. Assim é que a vergonha, por exemplo,
causando pouca ou nenhuma impressão para estes, torna-se
para aqueles intolerável.

No divino código penal, a sabedoria, a bondade, a providência


de Deus para com as suas criaturas revelam-se até nas mínimas
particularidades, sendo tudo proporcionado e disposto com
admirável solicitude para facilitar ao culpado os meios de
reabilitação. As minimas aspirações são consideradas e
recolhidas.

Pelos dogmas das penas eternas, ao contrário, são no inferno


confundidos os grandes e pequenos criminosos, os culpados de
momento e os reincidentes contumazes, os endurecidos e os
arrependidos. Além disso, nenhuma tábua de salvação lhes é
oferecida; a falta momentânea pode acarretar uma condenação
eterna e, o que mais é, qualquer benefício que porventura hajam
feito de nada lhes valerá. De que lado, pois, estará a verdadeira
justiça, a verdadeira bondade?
Esta evocação nada tem de fortuita e como deveria aproveitara
esse infeliz, visto que ele já começava a compreender a
enormidade do seu crime, os Espíritos guias julgaram oportuno
esse socorro eficaz e facilitaram-lhe as circunstâncias propícias.
É este um fato que temos visto reproduzir-se frequentemente.
Perguntar-se-á o que seria desse Espírito se não fosse evocado,
o que será de todos os sofredores que o não podem ser, bem
como daqueles em quem ninguém pensa... Poderíamos redarguir
que os meios de que Deus dispõe para salvar as criaturas são
inumeráveis, sendo a evocação um dentre esses meios, porém,
não único certamente. Deus não deixa ninguém esquecido, além
de que nos Espíritos suscetíveis de arrependimento, as preces
coletivas devem exercer alguma influência.

O destino dos Espíritos sofredores não poderia ser por Deus


subordinado à boa vontade e aos conhecimentos humanos.

Desde que os homens puderam estabelecer relações regulares


com o mundo invisível, uma das primeiras consequências do
Espiritismo foi o ensino dos serviços que por meio dessas
relações podem prestar aos seus irmãos desencarnados.

Deus patenteia por esse modo a solidariedade existente entre


todos os seres do Universo, ao mesmo tempo que dá a lei da
natureza por base ao princípio da fraternidade. Deus demonstra-
nos a feição verdadeira, útil e séria das evocações, até então
desviadas da sua finalidade providencial pela ignorância e pela
superstição.

Nunca faltaram socorros aos sofredores em qualquer época e,


se evocações lhes proporcionam uma nova via de salvação,
aproveitam ainda mais, talvez, aos encarnados, por lhes
proporcionar novos meios de fazer o benefício e instruir-se ao
mesmo tempo acerca das condições da vida futura.

Jaques Latour

(Assassino condenado pelo júri de Foix e executado em


setembro de 1864)

Em reunião íntima de sete a oito pessoas, realizada em Bruxelas


a 13 de setembro de 1864 e à qual assistíamos, foi pedido a um
médium que tomasse do lápis, sem que aliás houvéssemos feito
qualquer evocação especial.

Possuído de extraordinária agitação, ei-lo a traçar caracteres


muito grossos, e depois, rasgando o papel, exclama:

"Arrependo-me! Arrependo-me! Latour!"


Surpreendidos com a inesperada comunicação, de modo algum
provocada, uma vez que ninguém pensara nesse infeliz, cuja
morte até então era ignorada por uma parte dos assistentes,
dirigimos ao Espírito palavras de conforto e comiseração e lhe
fizemos em seguida esta pergunta:

Que motivo vos levou a manifestar-vos aqui, de preferência a


outro lugar quando não vos evocamos?

Responde o médium de viva voz:

"Vi que, almas compassivas, teríeis piedade de mim, ao passo


que outros ou me evocavam mais por curiosidade, ou de mim se
afastavam horrorizados". Depois começou uma cena indescritível
que não durou mais de meia-hora.

O médium, juntando os gestos e a expressão da fisionomia à


palavra, deixava claro a identificação do Espírito com a sua
pessoa; às vezes, esses gestos de cruel desespero desenhavam
vivamente o sofrimento; o tom da voz era tão compungido, as
súplicas tão veementes, que ficávamos profundamente
comovidos.

Alguns estavam mesmo aterrorizados com a superexcitação do


médium, mas nós sabíamos que a manifestação de um ente
arrependido, que implora piedade, nenhum perigo poderia
oferecer. Se ele buscou os órgãos do médium, é porque melhor
desejava patentear a sua situação, a fim de que mais nos
interessássemos pela sua morte, e não como os Espíritos
obsessores e possessores, que visam apoderar-se dos médiuns
para os dominarem. Essa manifestação lhe fora talvez permitida
não só em benefício próprio, mas também para edificação dos
circunstantes.

Ei-lo a exclamar:

"Oh! sim, piedade... muito necessito dela... Não sabeis o que


sofro... Não o sabeis e não podereis compreendê-lo. É horrível! A
guilhotina!... Que vale a guilhotina comparada a este sofrimento
de agora? Nada! É um instante. Este fogo que me devora sim, é
pior, porque é uma morte contínua, sem tréguas nem repouso...
sem fim!... E as minhas vítimas ali estão ao redor, a mostrar-me
os ferimentos, a perseguir-me com seus olhares...

Aí estão e vejo-as todas...todas...sem poder fugir a elas! E este


mar de sangue?! E este ouro manchado de sangue?! Tudo aí
está...tudo... e sempre ante meus olhos! E o cheiro de sangue...
Não o sentis? Oh! Sangue e sempre sangue! Ei-las que imploram,
as pobres vítimas, e eu a feri-las sempre... sempre...
impiedosamente!... O sangue inebria-me... Acreditava que depois
da morte tudo estaria terminado e assim foi que afrontei o suplício
e afrontei o próprio Deus, renegando-O!... Entretanto, quando me
julgava aniquilado para sempre, que terrível despertar... oh! sim,
terrível, cercado de cadáveres, de espectros ameaçadores, os
pés atolados em sangue!...

Acreditava-me morto, e estou vivo! Horrendo! Horrendo! Mais


horrendo que todos os suplícios da Terra! Ah! Se todos os
homens pudessem saber o que há para além da vida, saberiam
também quanto custam as conseqüências do mal! Certamente
não haveriam mais assassínios, nem criminosos, nem
malfeitores! Eu só quisera que todos os assassinos pudessem ver
o que eu vejo e sofro...

Oh! Então não mais o seriam, porque é horrível este sofrimento!


Bem sei que o mereci, oh! meu Deus, porque também eu não tive
compaixão das minhas vítimas; repelia as mãos súplices quando
imploravam que as poupasse... Sim, fui cruel, decerto, matando-
as covardemente para roubá-las! E fui ímpio, e fui blasfemo
também, renegando o vosso sacratíssimo nome... Quis enganar-
me, porque eu queria persuadir-me de que Vós não existíeis...
Meu Deus, eu sou grande criminoso! Agora o compreendo.
Mas...não tereis piedade de mim?... Vós sois Deus, isto é, a
bondade, a misericórdia! Sois onipotente! Piedade, Senhor!
Piedade! Eu vo-lo peço, não sejais inexorável; libertai-me destes
olhares odiosos, destes espectros horríveis... deste sangue... das
minhas vítimas... olhares que, quais punhaladas, me atravessam
o coração.

Vós outros que aqui estais, que me ouvis, sede bondosos, almas
caritativas. Sim, eu o vejo, sei que tendes piedade de mim, não é
verdade? Haveis de orar por mim...

Oh! Eu vo-lo suplico, não me abandoneis como fiz outrora aos


outros. Pedireis a Deus que me tire este horrível espetáculo de
ante os olhos, e Ele vos ouvirá porque sois bons... Imploro, orai
por mim."

Os assistentes, sensibilizados, dirigiram-lhe palavras de conforto


e consolação. Deus, disseram-lhe, não é inflexível; apenas exige
do culpado um arrependimento sincero, aliado à vontade de
reparar o mal praticado. Uma vez que o vosso coração não está
petrificado e que lhe pedis o perdão dos vossos crimes, a Sua
misericórdia baixará sobre vós. Preciso é, pois, que persevereis
na boa resolução de reparar o mal que fizestes. Certamente não
podeis restituir às vítimas as vidas que lhes arrancastes, mas, se
o pedirdes com fervor, Deus permitirá que as encontreis em uma
nova encarnação, na qual lhes podereis patentear tanto
devotamento quanto o mal que lhe causastes. E quando a
reparação Lhe parecer suficiente, para logo entrareis na Sua
santa graça. Assim, a duração do vosso castigo está nas vossas
mãos, dependendo de vós o abreviá-lo.

Comprometemo-nos a auxiliar-vos com as nossas preces e


invocar para vós a assistência dos bons Espíritos. Vamos
pronunciar em vossa intenção a prece que se contém n'0
Evangelho Segundo o Espiritismo, referente aos Espíritos
sofredores e arrependidos. Não pronunciaremos a que se refere
aos maus Espíritos, porque desde que vos arrependeis, que
implorais, que renunciais ao mal, não passais para nós de um
Espírito infeliz, e não mau.

Feita essa prece, o Espírito continua, depois de breves instantes


de calma:

"Obrigado, meu Deus!... Oh! Obrigado! Tivestes piedade de


mim... Eis que se afastam os espectros... Não me abandoneis,
enviai-me os vossos bons Espíritos para me ampararem...
Obrigado..."

Depois desta cena o médium fica alquebrado, abatido, os


membros lassos por algum tempo. A princípio apenas, tem vaga
ideia do que se passou, mas pouco a pouco vai-se lembrando de
algumas das palavras que pronunciou sem querer, reconhecendo
que não era ele quem falara.

No dia seguinte, em nova reunião, o Espírito tornou a


manifestar-se, reencetando a cena da véspera, porém por
minutos apenas, e isso com a mesma gesticulação expressiva,
posto que menos violenta. Depois, tomado de agitação febril,
escreveu:

"Agradecido pelas vossas preces. Experimento já uma sensível


melhora. Foi tamanho o fervor com que orei, que Deus me
concedeu um momentâneo alívio; não obstante, terei de ver ainda
as minhas vítimas... Ei-las! Ei-las! Vedes este sangue?...
(Repetiu-se a prece da véspera. O Espírito continuou dirigindo-se
ao médium).

Perdoai-me o ter-me apossado de vós. Obrigado pelo alívio que


proporcionais aos meus sofrimentos. Perdoai o mal que vos
causei, mas eu tenho necessidade de me comunicar, e só vós o
podeis...

Obrigado! Obrigado! Que já sinto algum alívio, se bem não tenha


atingido o fim das provações. As minhas vítimas voltarão dentro
em breve. Eis a punição a que fiz jus, mas, Deus, sede
indulgente. Orai todos vós por mim, tende piedade." Latour.

Um membro da Sociedade Espírita de Paris que tinha orado por


aquele infeliz, evocando-o, obteve intervaladamente as seguintes
comunicações.

Fui evocado quase imediatamente depois da minha morte,


porém não pude manifestar-me logo, de maneira que muitos
Espíritos levianos me tomaram o nome e a vez. Aproveitei a
estadia em Bruxelas do Presidente da Sociedade de Paris e
comuniquei-me, com a aquiescência de Espíritos superiores.

Voltarei a manifestar-me na Sociedade, a fim de fazer


revelações que serão um começo de reparação às minhas faltas,
podendo também servir de ensinamento a todos os criminosos
que me lerem e meditarem na exposição dos meus sofrimentos.

É somente no espírito dos homens fracos ou das crianças que a


narrativa de penas infernais pode produzir efeitos terroristas. Ora,
um grande malfeitor não é um Espírito pusilânime e o temor de
um polícia é para ele mais real que a descrição dos tormentos do
inferno. Eis porque todos os que me lerem ficarão comovidos com
minhas palavras e com os meus padecimentos, que não são
ficções. Não há um só padre que possa dizer que viu o que tenho
visto, porque tenho assistido às torturas dos danados. Mas
quando eu vier dizer: eis o que se passou após a minha morte, a
morte do corpo, qual não foi a minha decepção ao reconhecer-me
vivo, ao contrário do que supunha e tinha tomado pelo termo dos
suplícios, quando era o começo de outras torturas, aliás
indescritíveis, então, mais de um ser estará à borda do precipício
em que ia despenhar-me e cada um dos desgraçados, desviados
por mim da senda criminosa, concorrerá para o resgate das
minhas faltas.

Foi-me permitido que me libertasse do olhar das minhas vítimas


transformadas em carrascos, a fim de poder comunicar-me
convosco; ao deixar-vos, entretanto, tornarei a vê-las e só esta
ideia me causa tal sofrimento que não poderia descrevê-lo. Sou
feliz quando me evocam, porque assim deixo o meu inferno por
alguns instantes.

Orai sempre ao Senhor por mim, pedi-Lhe que me liberte do


olhar das minhas vítimas.

Sim; oremos juntos. A prece faz tanto bem... Estou mais aliviado;
não sinto tão pesado o fardo que me acabrunha. Vejo um
resquício de esperança luzindo-me aos olhos e, contrito, exclamo:
bendita a mão do Senhor e que seja feita a sua vontade!
//

O médium — Em vez de pedir a Deus para vos furtar ao olhar


das vossas vítimas, eu vos convido a pedir comigo que vos dê a
força necessária a fim de suportardes essa tortura expiatória.

Latour— Eu preferia livrar-me desses olhares. Se soubésseis o


quanto sofro... O homem mais insensível comoverse-ia vendo
impressos na minha fisionomia, como que a fogo, os sofrimentos
de minha alma. Farei, entretanto, o que me aconselhais, pois
compreendo ser esse um meio de expiar um pouco mais
rapidamente as minhas faltas. É como uma dolorosa operação,
que viesse curar um corpo gravemente adoentado.

Ah! Pudessem ver-me os culpados da Terra e ficariam


apavorados das consequências de seus crimes, desses crimes
que, ignorados dos homens, sés pobres da sociedade! Acreditam
que com polícia e soldados se previnem crimes... Que grande
erro!

///

Terríveis são os meus sofrimentos; porém depois que por mim


orastes, me sinto confortado por bons Espíritos, os quais me
dizem que tenha esperança. Avalio a eficácia do remédio heróico
que me aconselhastes e peço a Deus me dê forças para suportar
esta dura expiação, aliás igual, posso afirmá-lo, ao mal que fiz.
Não quero escusar-me das minhas atrocidades; mas o certo é
que, para cada uma das minhas vítimas, salvo a precedência de
alguns instantes, na morte, a dor não existia, e as que tinham
terminado a provação terrena foram receber a recompensa que
as aguardava. Para mim, entretanto, ao voltar ao mundo dos
Espíritos, só houve padecimento de dores infernais, salvantes os
curtos instantes em que me manifestava.

Em que pesem às suas imagens de terror, os padres só têm


uma fraca noção dos verdadeiros sofrimentos que a justiça divina
reserva aos infratores da lei do amor e da caridade.

Como insinuar a pessoas sensatas que uma alma, isto é, uma


coisa imaterial, possa sofrer ao contato do fogo material? É
absurdo e por isso tantos e tantos criminosos se riem desses
painéis fantásticos do inferno. O mesmo porém não se dá quanto
à dor moral do condenado, após a morte física. Orai para que o
desespero não se aposse de mim.

IV

Muito grato vos sou pela perspectiva que me trouxeste e a cujo


fim glorioso sei que devo chegar quando estiver purificado.
Sofro muito, mas parece-me que os sofrimentos diminuem. Não
posso acreditar que, no mundo dos Espíritos, a dor diminua
pouco a pouco à força de hábito. Não. O que eu depreendo é que
as vossas preces salutares me aumentaram as forças, de modo
que, pelas mesmas dores, com mais resignação, eu menos sofro.

O pensamento volve então para a minha última existência e vejo


as faltas que teria evitado se soubesse orar. Hoje compreendo a
eficácia da prece; compreendo o valor dessas mulheres honestas
e piedosas, fracas pela carne, porém fortes pela fé; compreendo,
enfim, esse mistério ignorado pelos supostos sábios da Terra.

Preces! Palavra que por si só provoca o riso dos espíritos fortes.


Aqui os espero no mundo espiritual e, quando a venda que a
verdade encobre se romper para eles, então por sua vez se
prosternarão aos pés do Eterno a quem desprezaram e serão
felizes em se humilhar para que seus pecados e crimes sejam
relevados! Hão de compreender então a eficácia da prece.

Orar é amar e amar é orar! E eles amarão o Senhor, lhe dirigirão


preces de reconhecimento e de amor regenerados pelo
sofrimento. E, pois que devem sofrer, pedirão como eu peço a
força necessária ao sofrimento e à expiação. Deixando de sofrer,
hão de orar ainda para agradecer o perdão obtido, por sua
humildade e resignação. Oremos, irmão, para que mais me
fortaleça... Oh! Obrigado pela tua caridade, meu irmão, pois que
estou perdoado. Deus me liberta do olhar das minhas vítimas. Oh!
Meu Deus! Bendito sejais Vós, por toda a eternidade, pela graça
que me concedeis! Oh! Meu Deus! Sinto a enormidade dos meus
crimes e curvo-me ante a vossa onipotência.

Senhor! Eu Vos amo de todo o meu coração e Vos suplico a


graça de me permitirdes, como o julgardes melhor, sofrer novas
provações na Terra; voltar a ela como missionário da paz e da
caridade, ensinando as crianças a pronunciar com respeito o
Vosso nome. Peco-vos que me seja possível ensinar que Vos
amem, a Vós, Pai que sois de todas as criaturas. Obrigado, meu
Deus! Sou um Espírito arrependido, e sincero é o meu
arrependimento.

Tanto quanto meu impuro coração pode comportá-lo, eu Vos


amo com esse sentimento que é pura emanação da vossa
divindade. Irmão, oremos, pois meu coração transborda de
reconhecimento. Estou livre, quebrei os grilhões, não sou mais
um réprobo.
Sou um Espírito sofredor, mas arrependido, a desejar que o meu
exemplo pudesse conter nos umbrais do crime todas as mãos
criminosas que vejo prestes a se levantarem.

Oh! Para trás, recuai, irmãos, pois as torturas que preparais


serão atrozes! Não acrediteis que o Senhor se deixará tão
prontamente submeter à prece dos seus filhos. São séculos de
torturas que vos esperam.

O Guia do médium — Dizem que não compreendes as palavras


do Espírito. Procura ter uma ideia da sua comoção e do seu
reconhecimento para com o Senhor, coisas que ele acredita não
poder testemunhar melhor do que tentando demover todos esses
criminosos por ele vistos, mas que tu não podes ver. Aos ouvidos
desses uns, quereria ele que chegassem as suas palavras; mas o
que não te disse ele, porque o ignora ainda, é que lhe será
permitido o início de missões reparadoras. Irá para junto daqueles
que foram cúmplices inspirando-lhes arrependimento,
implantando em seus corações o germe do remorso.

Frequentemente se vêem na Terra pessoas, consideradas como


honestas, que se lançam aos pés de um acerdote para se
acusarem de um crime. É o remorso que lhes dita a confissão da
culpa. Se o véu que te encobre o mundo invisível se desfizesse,
verias muitas vezes o Espírito cúmplice ou instigador de um
crime, tal como o fará Jaques Latour, inspirando o remorso ao
Espírito encarnado, no afã de reparar a própria falta. Teu guia
protetor.

Mais tarde, o médium de Bruxelas, o mesmo que recebera o


primeiro ditado, obteve mais este.

Nada mais receeis de mim, que estou tranquilo, em que pese ao


sofrimento porque estou passando. Vendo o meu
arrependimento, Deus teve compaixão de mim. Agora sofro por
causa desse arrependimento, que me demonstra a enormidade
dos meus crimes. Bem aconselhado na vida, eu não teria nunca
praticado todo esse mal, mas, sem repressão, obedeci
cegamente aos meus instintos. Se todos os homens pensassem
mais em Deus, ou, antes, se nele acreditassem, essas faltas não
seriam cometidas.

Falha é, porém, a justiça dos homens; uma falta muita vez


passageira leva o homem ao cárcere, que não deixa de ser um
foco de perversão. Daí sai ele completamente corrompido pelos
maus exemplos e conselhos. Dado porém que a sua índole seja
boa e forte para se não corromper, ainda assim, de lá saído, ele
vai encontrar fechadas todas as portas, retraídas todas as mãos,
indiferentes todos os corações!

Que lhe resta pois? O desprezo, a miséria, o abandono e o


desespero, se é que o assistem boas resoluções de se corrigir.
Então a miséria o leva aos extremos e é então tomado de
desprezo pelo semelhante, vem a odiar e perde a noção do bem
e do mal, porque, não obstante as suas boas intenções, se
encontra repelido. Para angariar o necessário, rouba, mata às
vezes, e depois... depois o executam! Meu Deus, ao ser presa
novamente das minhas alucinações, sinto que a vossa mão se
estende por sobre mim; sinto que a vossa bondade me envolve e
protege.

Obrigado, meu Deus! Na próxima existência empregarei toda a


minha inteligência no socorro aos desgraçados que sucumbiram,
a fim de lhes evitar a queda. Obrigado a vós que não desdenhais
de comunicar comigo; nada receeis, pois bem o vedes, eu não
sou mau. Quando pensardes em mim, não vos figureis o meu
retraio pelo que de mim vistes, mas o de uma alma angustiada
que agradece a vossa indulgência.

Adeus, evocai-me ainda e orai a Deus por mim. Latour.


(Estudo sobre o Espírito de Jaques Latour)

Não se pode desconhecer a profundeza e a alta significação de


algumas das frases encerradas nessa comunicação. Além disso,
ela oferece um dos aspectos do mundo dos Espíritos em castigo,
pairando ainda assim sobre ele a misericórdia divina. A alegoria
mitológica das Eumênides não é tão ridícula como parece, e os
demônios, carrascos oficiais do mundo invisível, que as
substituem perante as modernas crenças, são menos racionais
com seus cornos e forcados, do que essas vítimas que servem
elas próprias ao castigo do culpado.

Admitindo-se a identidade desse Espírito, talvez se estranhe tão


pronta mudança do seu moral. É o caso da ponderação já feita de
que pode um Espírito brutalmente mau ter em si melhores
predicados do que o dominado pelo orgulho ou pela hipocrisia.
Esta mudança para sentimentos mais benéficos indica uma
natureza mais selvagem que perversa, à qual apenas faltava boa
direção. Comparando esta linguagem com a de outro Espírito,
adiante mencionada sob a epígrafe: castigo pela luz, é fácil
concluir qual dos dois seja mais adiantado moralmente, apesar da
disparidade de instrução e hierarquia social, obedecendo um ao
natural instinto de ferocidade, a uma espécie de superexcitação,
ao passo que o outro empresta à perpetração dos seus crimes a
calma e sangue-frio inerentes às lentas e obstinadas
combinações, afrontando ainda depois de morto o castigo, por
orgulho. Este sofre e não o confessa, ao passo que aquele
prontamente se submete. Também por aí podemos prever qual
deles sofrerá por mais ou por menos tempo.

Diz o Espírito de Latour: "Eu sofro por causa desse


arrependimento, que me demonstra a extensão dos meus
crimes".

Aí está um pensamento profundo. O Espírito só compreende a


gravidade dos seus malefícios depois que se arrepende.

O arrependimento acarreta o pesar, o remorso, o sentimento


doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral
para a saúde moral. É para se furtarem a isso que os Espíritos
perversos se revoltam contra a voz da consciência, como doentes
que repelem o remédio que os há de curar. E assim procuram
iludir-se, aturdir-se e persistir no mal.

Latour chegou a esse período em que se extingue o


endurecimento, acabando por ceder, entra-lhe o remorso pelo
coração, o arrependimento o assedia e, compreendendo o mal
que fez, vê a sua degradação e sofre por ela. Eis porque ele diz:
"Sofro por causa desse arrependimento". Na precedente
encarnação, ele devia ter sido pior que na última, visto que, se se
tivesse arrependido como agora, melhor lhe teria sido a vida
subsequente.

As resoluções, por ele ora tomadas, influirão sobre sua vida


terrestre no futuro; e a encarnação que teve nem por ser
criminosa deixou de assinalar-lhe um estádio de progresso. E é
muito provável que antes de a iniciar ele fosse na erraticidade um
desses muitos Espíritos rebeldes, obstinados no mal.

A muitas pessoas ocorre perguntar qual seja o proveito dessa


anterioridade de existência, uma vez que dela nos não
lembramos e nem temos ideia daquilo que fomos nem daquilo
que fizemos.

Esta questão está sumariamente liquidada pela razão de que a


lembrança seria inútil, visto como de todo apagado o mal
cometido, sem que dele nos reste um traço no coração, também
com ele não nos devemos preocupar.

Quanto aos vícios de que porventura não estejamos


inteiramente despojados, nós o conhecemos pelas nossas
tendências atuais e para elas devemos voltar todas as atenções.
Basta saber o que somos, sem que seja necessário saber o que
fomos.

Se considerarmos as dificuldades que há na existência para a


reabilitação do Espírito, por maior que seja o seu arrependimento,
as reprovações de que se torna objeto, devemos louvar a Deus
por ter cerrado esse véu sobre o passado. Condenado a tempo
ou absolvido que fosse, os antecedentes de Latour o tornariam
um enjeitado da sociedade.

Apesar do seu arrependimento, quem o acolheria com


intimidade? Entretanto, as intenções que ora patenteia como
Espírito, nos dão a esperança de que venha a ser na próxima
encarnação um homem honesto e estimado. Suponhamos que
soubessem que esse homem honesto fora Latour e a reprovação
continuaria a persegui-lo. Esse véu sobre o passado é que lhe
franqueia a porta da reabilitação, porque pode sem receio e sem
pejo ombrear-se com os mais honestos. Quantos há que
desejariam poder apagar da memória de outrem certas fases da
própria vida?

Qual a doutrina que melhor se concilia com a bondade e justiça


de Deus? Por outro lado esta doutrina não é uma teoria, porém o
resultado de observações. Por certo não foram os Espíritos que a
imaginaram, porém eles viram e observaram as situações
diferentes que muitos Espíritos apresentam e daí o procurarem
explicá-las, originando-se então a doutrina.

Aceitaram-na, pois, como resultante dos fatos, e ainda por lhes


parecer mais raciona] que todas as emitidas até hoje
relativamente ao futuro da alma.

Não se pode negar a estas comunicações um grande fundo


moral. O Espírito poderia ter sido auxiliado nesses raciocínios e,
sobretudo, na escolha das suas expressões, por outros mais
adiantados; mas a verdade é que estes apenas influem na forma
e não na essência e nunca fazem com que o Espírito inferior
esteja em contradição consigo mesmo. Assim é que em Latour
poderiam ter feito poesia com a forma do arrependimento, mas
não lhe insinuaram contra sua vontade, porque o Espírito tem o
seu livre-arbítrio.

Em Latour lobrigaram o germe dos bons sentimentos e por isso


o auxiliaram na expressão contribuindo assim para desenvolvê-lo,
ao mesmo tempo que em seu favor imploravam comiseração.

Que há de mais digno, mais moralizador, capaz de impressionar


mais vivamente do que o espetáculo deste grande criminoso que
se exproba a si mesmo o desespero e os remorsos? Desse
criminoso que, perseguido pelo incessante olhar das vítimas e
torturado, eleva a Deus o pensamento implorando misericórdia?
Não será isso um exemplo salutar para os culpados? Se bem que
simples e desprovidos de fantasmagóricas encenações,
compreende-se a natureza dessa angústia, porque elas, apesar
de terríveis, são racionais.

Poder-se-ia talvez estranhar tão grande transformação num


homem como Latour... Mas por que havia de ser inacessível ao
arrependimento?
Por que não possuir também ele a sua corda sensível? O pecador
seria, pois, votado ao mal eternamente? Não lhe chegaria, por
fim, um momento em que a luz se lhe fizesse n'alma?

Era justamente essa hora que chegara para Latour; e ali está
precisamente o lado moral dos seus ditados; é a compreensão
que ele tem do seu estado, são os seus pesares, os seus planos
de reparação, que tornam essas mensagens eminentemente
instrutivas. Que haveria de extraordinário se Latour confessasse
um arrependimento sincero antes da morte, se dissesse antes da
morte o que veio dizer depois? Não há, quanto a isso, numerosos
exemplos? Uma regeneração antes da morte passaria, aos olhos
da maioria dos seus iguais, por fraqueza; mas essa voz de além-
túmulo é seguramente a revelação daquilo mesmo que os
aguarda.

Ele está em absoluto com a verdade, quando afirma ser o seu


exemplo mais eficaz que a perspectiva das chamas do inferno, e
até do cadafalso.

Por que não lhes ministrar esses sentimentos no cárcere? Eles


nos levariam a reflexões, do que aliás já temos alguns exemplos.
Mas como crer nas palavras de um morto, quando ninguém
acredita que para além da morte não esteja tudo acabado?
Entretanto dia virá em que esta verdade há de ser reconhecida:
os mortos podem vir instruir os vivos.

Outras muitas instruções importantes podem ser tiradas dessas


comunicações; assim a confirmação deste princípio de eterna
justiça, pelo qual ao culpado não basta o arrependimento apenas,
sendo este o primeiro passo para a reabilitação que atrai a divina
misericórdia. O arrependimento é o prelúdio do perdão, o alívio
dos sofrimentos, mas porque Deus não absolve
incondicionalmente, se torna mister a expiação e principalmente a
reparação. Assim o entende Latour e para tanto se predispõe. Se
compararmos este criminoso àquele de Casteinaudary, veremos
ainda uma diferença nos castigos. Naquele o arrependimento foi
tardio e, consequentemente, mais longa a pena. Além disso, essa
pena era quase material, enquanto para Latour o era antes moral,
porque, como acima dissemos, havia grande diferença intelectual
entre eles.

Ao outro impunha-se coisa com que os sentidos obliterados


pudessem ser feridos; mas é preciso notar que as penas morais
não serão menos pungentes para todo aquele que esteja em
condições de compreendê-las. Podemos inferir a assertiva dos
clamores do próprio Latour, os quais não são de cólera, porém
antes a expressão dos remorsos, de perto seguidos de
arrependimento e desejo de reparação, visando o progresso.
Capitulo VIl

ESPÍRITOS ENDURECIDOS

Lapommeray

(Castigo pela luz)


Em uma das sessões da Sociedade de Paris, durante a qual se
discutira a perturbação que geralmente acompanha a morte, um
Espírito, a quem ninguém fizera alusão e muito menos se
pretendera evocar, se manifestou espontaneamente pela seguinte
comunicação que, conquanto não assinada, se reconheceu como
sendo de um grande criminoso recentemente atingido pela justiça
humana.

"Que dizeis da perturbação? Para que essas palavras ocas?


Sois sonhadores e utopistas. Ignorais redondamente o assunto de
que vos ocupais. Não, senhores, a perturbação não existe, a não
ser nos vossos cérebros. Estou bem morto, tão morto quanto
possível e vejo claro em mim, ao derredor de mim, por toda
parte!... A vida é uma comédia lúgubre! Insensatos aqueles que
se retiram da cena antes que o pano caia. A morte é terror,
aspiração ou castigo, conforme a fraqueza ou a força daqueles
que a temem, afrontam ou imploram. Mas é também para todos
amarga irrisão.

A luz ofusca-me e penetra, qual flecha aguda, a sutileza do meu


ser.
Castigaram-me com as trevas do cárcere e acreditavam castigar-
me ainda com as trevas do túmulo, senão com as sonhadas pelas
superstições católicas.

Pois bem, sois vós que padeceis da obscuridade, enquanto eu,


degredado social, me coloco em plano superior. Eu quero ser o
que sou!... Forte pelo pensamento, desdenhando os conselhos
que zumbem aos meus ouvidos... Vejo claro... Um crime! É uma
palavra! O crime existe em toda parte. Quando executado pelas
massas, glorificam-no e, individualizado, consideram-no infâmia.
Absurdo!

Não quero que me deplorem... nada peço... lutarei por mim


mesmo, só, contra esta luz odiosa."

Aquele que ontem era um homem.

Analisada a comunicação na assembleia posterior, reconheceu-


se no próprio cinismo da sua linguagem um profundo
ensinamento, mostrando na situação desse infeliz uma nova fase
do castigo que espera o culpado. Efetivamente enquanto alguns
são imersos em trevas ou num absoluto insulamento, outros
sofrem por longos anos as angústias da extrema hora, ou se
crêem ainda encarnados.

Para estes, a luz brilha, gozando o Espírito, e plenamente, das


suas faculdades, sabendo-se morto e não se lastimando, antes
repelindo qualquer assistência e afrontando ainda as leis divinas
e humanas. Quererá isto dizer que escapassem à punição? De
maneira nenhuma, é porque a justiça de Deus se faz sob todas as
formas, e o que a uns causam alegria é para outros um tormento.
A luz provoca o suplício desse Espírito e é ele próprio que o
confessa, em que pese ao seu orgulho, quando diz que lutará por
si mesmo, só, contra essa luz odiosa. E ainda nesta frase "a luz
ofusca-me e penetra, qual flecha aguda, a sutileza do meu ser".

Estas palavras: "sutileza de meu ser" são características e dão a


entender que conhece a fluidez do seu corpo penetrável à luz
sem que lhe possa escapar, e luz que o penetra como aguda
flecha. Esse Espírito aqui está colocado entre os endurecidos, em
razão do muito tempo que levou, antes que manifestasse
arrependimento — o que é também um exemplo a mais para
provar que o progresso moral nem sempre acompanha o
progresso intelectual. Entretanto, a pouco e pouco se foi
corrigindo, e deu mais tarde ditados instrutivos e sensatos. Hoje
ele poderá ser colocado entre os Espíritos arrependidos.

Convidados a fazer a sua apreciação a propósito do assunto os


nossos guias espirituais ditaram as três seguintes comunicações,
aliás dignas da mais séria atenção.

No ponto de vista das existências, os Espíritos na erraticidade


podem considerar-se inativos e na expectativa; mas, ainda assim,
podem expiar, uma vez que o orgulho e a tenacidade formidável
dos seus erros não os tolhem no momento da progressiva
ascensão. Tivestes disso um exemplo terrível, na comunicação
desse criminoso mpenitente, que se debate com a justiça divina
depois de tê-lo feito com a dos homens.

Neste caso a expiação ou, antes, o sofrimento fatal que os


oprime, em vez de lhes ser útil, inculcando-lhes a profunda
significação de suas penas, os exacerba na rebeldia, e dá azo às
murmurações que a Escritura em sua poética eloquência,
denomina ranger de dentes.

Esta frase, simbólica por excelência, é o sinal do sofredor


abatido, porém insubmisso, insulado na própria dor, mas bastante
forte ainda para recusar a verdade do castigo e da recompensa!
Os grandes erros perduram no mundo espiritual quase sempre,
assim como as consciências grandemente criminosas. Lutar,
apesar de tudo, e desafiar o infinito, pode comparar-se à cegueira
do homem que, contemplando as estrelas, as tivesse por
arabescos de um teto, tal como acreditavam os gauleses do
tempo de Alexandre.

O infinito moral existe! Miserável e mesquinho é quem, a


pretexto de continuar as lutas e imposturas abjetas da Terra, não
vê mais longe no outro mundo do que neste.

Para esse a cegueira, o desprezo alheio, o egoístico sentimento


da personalidade, são empecilhos ao seu progresso. Homem! É
bem verdade que existe um acordo secreto entre a imortalidade
de um nome puro, legado à Terra, e a imortalidade realmente
conservada pelos Espíritos nas suas sucessivas provações.
Lamennais.

II

Precipitar um homem nas trevas ou em ondas de luz não dará o


mesmo resultado? Num como noutro caso, esse homem nada vê
daquilo que o cerca e se habituará mesmo mais facilmente à
sombra do que à monótona claridade elétrica, na qual pode estar
submerso. O Espírito manifestado na última sessão exprime bem
a verdade quando diz: "Oh! Eu saberei libertar- me dessa odiosa
luz". Realmente essa luz é tanto mais terrível, horrorosa, quanto
ela o penetra completamente e lhe devassa os pensamentos mais
recônditos.

Aí está uma das circunstâncias mais rudes desse castigo


espiritual. O Espírito encontra-se, por assim dizer, na casa de
vidro pedida por Sócrates. Disso decorre ainda um ensinamento,
uma vez que séria alegria e consolo para o sábio se transforma
em punição infamante e contínua para o perverso, para o
criminoso, para o parricida, sobressaltado na própria
personalidade.

Meus filhos, calculai o sofrimento, o terror dos hipócritas que se


compraziam em toda uma existência sinistra a planejar, a
combinar os mais hediondos crimes no seu foro íntimo, quais
feras refugiadas no seu antro, e que hoje, expulsas desse covil
íntimo, não se podem furtar à investigação dos seus pares...

Arrancada que lhe seja a máscara da impassibilidade, todos os


pensamentos se lhe estampam na fronte! Sim e além de tudo
nenhum repouso, nada de asilo para esse grande criminoso.
Todo pensamento mau — e Deus sabe se a sua alma o exprime
— se lhe trai por fora e por dentro, como impelido por choque
elétrico irresistível. Procura esquivar-se à multidão e a luz odiosa
o devassa continuamente; quer fugir e desanda numa carreira
desenfreada, desesperada, através dos espaços
incomensuráveis, e por toda a parte há luz, olhares que o
observam. Corre, voa novamente em busca da sombra, em busca
da noite; sombra e noite não mais existem para ele! Chama pela
morte... Mas a morte não é mais que palavra sem sentido. E o
infeliz a fugir sempre, a caminho da loucura espiritual. Castigo
tremendo, dor horrível, a debater-se consigo para se desvencilhar
de si mesmo, porque essa é a lei suprema para além da Terra,
isto é: o culpado busca por si mesmo o seu mais inexorável
castigo.

Quando tempo durará esse estado? Até o momento em que a


vontade, por fim vencida, se curve constrangida pelo remorso,
humilhada a fronte altiva ante os Espíritos de justiça e ante as
suas vítimas apaziguadas.

Observai a lógica profunda das leis imutáveis; com isso o


Espírito realizará o que escrevia naquela importante comunicação
tão clara, tão lúcida, tão desconsoladoramente egoística,
comunicação que vos deu na sexta-feira passada por um ato da
própria vontade. Erasto.

A justiça humana, quando castiga, não faz distinção de


individualidades; medindo o crime pelo próprio crime, fere
indistintamente os infratores e a mesma pena atinge o paciente
sem distinção de sexo, qualquer que seja a sua educação. De
maneira diversa procede a justiça divina, cujas punições
correspondem ao progresso dos seres aos quais elas são
infligidas. Igualdade de crimes não quer dizer, de fato, igualdade
individual, uma vez que dois homens culpados, sob o mesmo
ponto de vista, podem separar-se pela dessemelhança de
provações, imergindo um deles na opacidade intelectiva dos
primeiros círculos iniciadores, enquanto o outro dispõe, por haver
ultrapassado esses círculos, da lucidez que isenta o Espírito da
perturbação. Nesse caso não são mais as trevas a puni-lo, mas a
agudeza da luz espiritual que penetra a inteligência terrena e lhe
faz sentir as dores de uma chaga viva.

Os seres desencarnados que presenciam a representação


material dos seus crimes, sofrem o choque da eletricidade física e
padecem pelos sentidos. Aqueles que pelo espírito estejam
desmaterializados sofrem uma dor muito superior que lhes
aniquila, por assim dizer, nas suas agruras a lembrança dos fatos,
deixando subsistir a noção das suas respectivas causas.

Assim pode o homem possuir um progresso interior a despeito


da sua criminalidade e elevar-se acima da espessa atmosfera das
camadas inferiores, isto através das faculdades intelectuais
despertadas, embora tivesse, sob o jugo das paixões, procedido
como um bruto. A ausência de ponderação, o desequilíbrio entre
o progresso moral e o intelectual, produzem essas tão frequente
anomalias nas épocas de materialismo e transição.

A luz que tortura o Espírito é, portanto e precisamente, o raio


espiritual que inunda de claridade os secretos recessos do seu
orgulho e lhe descobre a inanidade do seu fragmentário ser. Aí
estão os primeiros sintomas, as primeiras angústias da agonia
espiritual, os quais, prenunciando a separação ou a dissolução
dos elementos intelectuais e materiais da primitiva dualidade
humana, devem desaparecer na grandiosa unidade do ser
realizado.

João Reynaud.

Além de se completarem mutuamente, estas três comunicações,


obtidas a um só tempo, apresentam o castigo debaixo de um
novo prisma, aliás eminentemente filosófico e racional. É provável
que os Espíritos, querendo tratar do assunto de acordo com um
rito, querendo tratar do assunto de acordo com um exemplo,
tivessem provocado a manifestação do culpado.

Além desse quadro, baseado no fato, convém reproduzir, para


um paralelo, este outro apresentado por um empregador de
Montreuil sur-Mer, em 1864, por ocasião da quaresma:

"O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da


Terra, e se acaso um dos corpos que lá se queimam, sem se
consumirem, fosse lançado ao planeta, o empestá-lo-ia de um a
outro extremo! O inferno é vasta e sombria caverna, eriçada de
agudas pontas de lâminas de espadas aceradas, de lâminas de
navalhas afiadíssimas, nas quais são precipitadas as almas dos
condenados."

Angela (nulidade na Terra)

(Bordéus,1862)
Com o nome de Angela, um Espírito se apresentou
espontaneamente ao médium.

1. Arrependei-vos das vossas faltas?

R.Não.
P. Então por que me procurais?

R. Para experimentar.

P. Acaso não sois feliz?

R.Não.

P. Sofreis?

R.Não.

P. Que vos falta então?

R. A paz.

Alguns Espíritos só consideram sofrimento aquilo que lhes


lembram as suas dores físicas, convindo, não obstante, ser
intolerável o seu estado moral.

2. Como pode faltar-vos a paz na vida espiritual?

R. Uma mágoa do passado.

P. A mágoa do passado é remorso; estareis pois arrependida?

R. Não; temor do futuro é o que experimento.

P. Que temeis?

R. O desconhecido.
3. Estais disposta a dizer-me o que fizestes na última
encarnação? Isso talvez me possa ajudar a orientar-vos.

R.Nada.

4. Qual a vossa posição social?

R. Mediana.

P. Fostes casada?

R. Sim; esposa e mãe.

P. E cumpristes zelosa os deveres decorrentes desse duplo


encargo?

R. Não; meu marido entediava-me, bem como meus filhos.

5. Como então preenchestes a existência?

R. Divertindo-me em solteira e enfadando-me como mulher.

P. Quais eram as vossas ocupações?

R.Nenhuma.

P. Quem cuidava da vossa casa?

R. A criada.

6. Não será cabível atribuir a essa inércia a causa dos vossos


pesares temores?
R. Talvez tenhais razão. Mas não basta concordar.

P. Quereis reparar a inutilidade dessa existência e auxiliar os


Espíritos sofredores que nos cercam?

R. Como?

P. Ajudando-os a aperfeiçoarem-se pelos vossos conselhos e


pelas vossas preces.

R. Eu não sei orar.

P. Fá-lo-emos juntos e aprendereis. Sim?

R.Não.

P. Mas por que?

R.Cansa.

Instruções do Guia do Médium

Damos-te instrução, facultando-te o conhecimento prático dos


diversos estados de sofrimento, bem como da situação dos
Espíritos condenados à expiação das próprias falhas.

Angela era uma dessas criaturas sem iniciativa, e cuja existência


é tão inútil a si como ao próximo. Amando apenas o prazer,
incapaz de procurar no estudo, no cumprimento dos deveres
domésticos e sociais as únicas satisfações do coração, que
fazem o encanto da vida, porque são de todas as épocas, ela não
pode empregar a juventude senão em distrações frívolas; e
quando deveres mais sérios se lhe impuseram, já o mundo se
lhe havia feito um vácuo, porque vazio também estava o seu
coração. Sem faltas graves, mas também sem méritos, ela fez a
infelicidade do marido, comprometendo pela sua incúria e
desleixo o futuro dos próprios filhos.

Deturpou-lhes o coração e sentimentos, já por seu exemplo, já


pelo abandono em que os deixou, entregues a fâmulos, que ela
nem sequer se dava ao trabalho de escolher. A sua existência foi
improfícua e, por isso mesmo, culposa, visto que o mal é oriundo
da negligência do bem. Ficai bem certos de que não basta
abster-vos de faltas: é preciso praticar as virtudes que lhes são
opostas.

Estudai os ensinamentos do Senhor: meditai sobre eles e


compenetrai-vos de que eles se vos fazem estacar na senda do
mal, também vos impõe voltar atrás a fim de retomar novo
caminho, que vos conduza ao bem. O mal é a antítese do bem;
logo, quem quiser evitar o primeiro deve seguir o segundo, sem o
qual a vida se torna nula, mortas as suas obras, além de que o
Deus nosso pai, não é o Deus das nulidades, dos mortos, mas
dos trabalhadores diligentes, dos vivos.

P. Ser-me-á permitido saber qual teria sido a penúltima


existência de Angela? A última deveria ter sido consequência
dela, isto é, da penúltima?

R. Ela viveu na indolência beatífica, na inutilidade da vida


monástica.
Preguiçosa, mas o seu Espírito pouco progrediu.

Sempre repeliu a voz íntima que lhe apontava o perigo, e como


a propensão era suave, preferiu abandonar-se-lhe, a fazer um
esforço para sustá-la em começo. Hoje ainda compreende o
perigo dessa neutralidade, mas não se sente com forças para
tentar o mínimo esforço. Orai por ela, procurai despertá-la e fazer
que seus olhos se abram à luz. É um dever, e dever algum se
despreza.

O homem foi criado para a atividade; a atividade do Espírito é da


sua própria essência; e a do corpo uma necessidade.

Cumpri, portanto, as prescrições da existência, como Espírito


votado à paz eterna. A serviço do Espírito, o corpo mais não é
que máquina submetida à inteligência: trabalhai, cultivai, portanto,
a inteligência, para que dê salutar impulso ao instrumento que
deve auxiliá-la no cumprimento de sua missão. Não lhe concedais
tréguas nem repouso, tendo em mente que essa paz a que
aspirais não vos será concedida senão pelo trabalho. Assim,
quanto mais protelardes este, tanto mais durará para vós a
ansiedade espectante.

Trabalhai, trabalhai incessantemente; cumpri todos os deveres


sem exceção, isto com zelo, com coragem, com perseverança.

A fé vos alentará. Todo aquele que desempenha


conscientemente o papel mais ingrato e vil da vossa sociedade, é
cem vezes mais elevado aos olhos do Onipotente do que aquele
que, impondo esse papel aos outros, despreza o seu.

Tudo é degrau que dá acesso ao céu; não quebreis a lápide


debaixo dos pés e contai com o concurso de amigos que vos
estendem a mão, sustentáculos que são daqueles que vão haurir
suas forças na crença do Senhor. Manoel.

Um Espírito Aborrecido

(Bordéus,1862)
Este Espírito apresenta-se espontaneamente ao médium,
reclamando preces.
1 . Que vos leva a pedir preces?

R. Estou farto de vagar sem fim.

P. Estais há muito nessa situação?

R. Faz cento e oitenta anos mais ou menos.

P. Que fizestes na Terra?

R. Nada de bom.

2. Qual a vossa posição entre os Espíritos?

R. Estou entre os entediados.

P. Mas isso não forma categoria...

R. Entre nós, tudo forma categoria.

Cada sensação encontra suas semelhantes, ou suas simpatias


que se reúnem.

3. Por que permanecestes tanto tempo estacionário, sem que


fosseis condenado a sofrer?

R. É que eu estava votado ao tédio, que entre nós é um


sofrimento.

Tudo o que não é alegria, é dor.

P. Fostes pois forçado à erraticidade contra a vontade?


R. São coisas sutilíssimas para vossa inteligência material.

P. Procurando explicar-me essas coisas, talvez comeceis a


beneficiar-vos a vós mesmos...

R. Faltando-me termos de comparação, não poderei fazê-lo.


Uma vida sem proveito, extinguindo-se, lega ao Espírito, que a
encarnou,o mesmo que ao papel pode legar o fogo quando o
consome — fagulhas, que lembram às cinzas ainda compactas a
sua proveniência, a causa do seu nascimento, ou, se o quiseres,
da destruição do papel. Essas fagulhas são a lembrança dos
laços terrestres que vinculam o Espírito, até que este disperse as
cinzas do seu corpo. Então, e só então, tem ele, essência etérea,
o conhecimento de si próprio e deseja o progresso.

4. Qual poderia ter sido a causa desse aborrecimento de que


vos acusais?

R. Consequências da existência. O tédio é filho da inação; por


não ter eu sabido utilizar o longo tempo de encarnação, as
consequências vieram refletir-se neste mundo.

5. Os Espíritos que, como vós, foram tomados de tédio, não


podem libertar-se dessa contingência desde que o desejam?
R. Não, nem sempre, porque o tédio lhes paralisa a vontade.
Sofrem as consequências da vida que levaram e, como foram
inúteis, desprovidos de iniciativa, assim também não encontram
entre si concurso algum. Entregues a si mesmos nesse estado
permanecem, até que o cansaço, decorrente de tal neutralidade,
os agite em sentido contrário, momento no qual a sua menor
vontade vai encontrar apoio e bons conselhos e secundar-lhes o
esforço e a perseverança.

6. Podeis dizer-me algo da vossa existência terrena?

R. Oh! Deveis compreender que pouco me é dado dizer, visto


como o tédio, a nulidade e a inação provêm da preguiça que há,
por sua vez, é mãe da ignorância.

7. Não vos aproveitaram as existências anteriores?

R. Sim, todas, porém, parcamente, uma vez que eram reflexos


umas das outras. O progresso existe sempre, porém tão
insensível que nos foge à apreciação.

8. Enquanto esperais uma nova encarnação, apraz-vos repetir


as vossas comunicações?

R. Evocai-me para me obrigardes a vir, pois com isso me


prestareis um benefício.
9. Podeis dizer-nos por que tão frequentemente varia a vossa
caligrafia?

R. Porque interrogais muito, o que aliás me cansa, quando tenho


necessidade de auxílio.

O Guia do médium — O trabalho intelectual é que cansa e nos


obriga a prestar-lhe o nosso concurso para que possa dar
resposta às tuas perguntas. Ele é um ocioso no mundo espiritual,
assim como o foi no planeta. Trouxemo-lo até ti para que
tentasses arrancá-lo dessa apatia, desse tédio que constitui
verdadeiro sofrimento, às vezes mais doloroso que os sofrimentos
agudos, por se poder prolongar indefinidamente.

Imagina a perspectiva de um tédio interminável. A maior parte


das vezes são os Espíritos dessa categoria que buscam as
vidas terrestres apenas como passatempo e para interromper
a monotonia da vida espiritual. Assim acontece aí chegarem
frequentemente sem resoluções definidas para o bem, obrigados
a recomeçarem sucessivamente, até atingirem a compreensão do
verdadeiro progresso.
63
A Rainha de Ude

(Falecida em França, em 1858)


1. Quais as vossas sensações ao deixardes o mundo terrestre?

R. Ainda perturbada, torna-se-me impossível explicá-las.

P. Sois feliz?

R. Tenho saudades da vida... não sei... experimento acerba dor


da qual a vida me libertaria... quisera que o corpo se levantasse
do túmulo...

2. Lamentais o ter sido sepultada entre cristãos e não no vosso


país?

R. Sim, a terra indiana me pesaria menos no corpo.

P. Que pensais das honras fúnebres prestadas aos vossos


despojos?

R. Não foram grande coisa, pois eu era rainha e nem todos se


curvaram ante mim... Deixai-me...forçam-me a falar, quando não
quero que saibais o que ora sou... Asseguro-vos, eu era rainha...

63
Ude foi um reino na índia, situado entre o rio Ganges e o Himalaia,
(N. da E.)
3. Respeitamos a vossa hierarquia e só insistimos para que nos
respondais no propósito de nos instruirmos. Acreditais que vosso
filho recupere de futuro os Estados do seu genitor?

R. Meu sangue reinará, por certo, visto como é digno disso.

P. Ligais a essa reintegração de vosso filho a mesma


importância que lhe dáveis quando encarnada?

R. Meu sangue não pode misturar-se com o do povo.

4. Não se pode fazer constar na respectiva certidão de óbito o


lugar do vosso nascimento; podereis dizê-lo agora a nós?

R. Sou oriunda do mais nobre dos sangues da índia. Penso que


nasci em Delhi.

5. Vós, que vivestes nos esplendores do luxo, cercada de


honras, que pensais hoje de tudo isso?

R. Que tenho direito.

P. A vossa hierarquia terrestre concorreu para que tivésseis


outra mais elevada nesse mundo em que ora estais?

R. Continuo a ser rainha... que se enviem escravas para me


servirem!...
Mas... não sei... parece-me que pouco se preocupam com a
minha pessoa aqui... e contudo eu... sou sempre a mesma...

6. Professáveis a religião muçulmana ou a hindu?

R. Muçulmana; eu, porém, era bastante poderosa para que me


ocupasse de Deus.

P. No ponto de vista da felicidade humana, quais as diferenças


que assinalais entre a vossa religião e o Cristianismo?

R. A religião cristã é absurda; diz que todos são irmãos.

P. Qual a vossa opinião a respeito de Maomé?

R. Não era filho de rei.

P. Acreditais que ele houvesse tido uma missão divina?

R. Isso que me importa?

P. Qual a vossa opinião quanto a Cristo?

R. O filho do carpinteiro não é digno de preocupar meus


pensamentos.

7. Que pensais desse uso pelo qual as mulheres muçulmanas


se furtam aos olhos masculinos?

R. Penso que as mulheres nasceram para dominar: eu era


mulher.
P. Tendes inveja da liberdade de que gozam as europeias?

R. Que poderia importar-me essa liberdade? Servem-nas acaso,


ajoelhados?

8. Tendes reminiscências de encarnações anteriores a esta que


vindes de deixar?

R. Deveria ter sido sempre rainha.

9. Por que acudistes tão prontamente ao nosso apelo?

R. Não queria fazê-lo, mas forçaram-me. Acaso julgarás que eu


me dignaria responder-te? Que és tu a meu lado?

P. E quem vos forçou a vir?

R. Eu mesma não sei... posto que não deva existir ninguém mais
poderoso do que eu.

10. Sob que forma vos apresentais aqui?

R. Sempre rainha... e pensais que eu tenha deixado de o ser?


És pouco respeitoso... fica sabendo que não é desse modo que
se fala a rainhas.

11. Se nos fosse dado enxergar-vos, ver-vos-íamos com os


vossos ornatos e pedrarias?

R. Certamente...
P. E como se explica o fato de, despojado de tudo isso,
conservar o vosso Espírito tais aparatos, sobretudo os
ornamentos?

R. É que eles me não deixaram. Sou tão bela quanto era e não
compreendo o juízo que de mim fazeis! É verdade que nunca me
vistes.

12. Qual a impressão que vos causa em vos achardes entre


nós?

R. Se eu pudesse evitá-lo... Tratam-me com tão pouca


cortesia...

S.Luís — Deixai-a, a pobre perturbada. Tende compaixão da


sua cegueira e oxalá vos sirva ela de exemplo. Não sabeis quanto
padece o seu orgulho.

Evocando esta grandeza decaída ao túmulo, não esperávamos


respostas de grande alcance; dado o género da educação
feminina no seu país, julgávamos, porém, encontrar nesse
Espírito, não diremos filosofia, mas pelo menos uma noção mais
aproximada da realidade e ideias mais sensatas relativas a
vaidades e grandezas terráqueas. Longe disso, vimos que o
Espírito conservava, todos os preconceitos terrestres na plenitude
da sua força; que o orgulho nada perdeu das suas ilusões; que
lutava contra a própria fraqueza e, finalmente, que muito devia
sofrer pela sua impotência.

Xumene

(Bordéus,1862)
Com esse nome apresenta-se um Espírito ao médium,
habituado a este género de manifestações, parecendo que a sua
missão se constitui em assistir os Espíritos atrasados conduzidos
por seu Guia espiritual com o uplo objetivo de adiantar a um e
instruir a outro.

P. Quem sois? Este nome é de homem ou de mulher?

R. De homem e tão infeliz quanto possível. Sofro todos os


tormentos do nferno.

P. Mas se o inferno não existe, como podeis sofrer-lhe as


torturas?

R. Pergunta inútil.

P. Compreendo, mas outros precisam de explicações...

R. Isso pouco me incomoda.


P. O egoísmo não será uma das causas do vosso sofrimento?

R. Pode ser.

P. Se quiserdes ser aliviado, começai repudiando as más


tendências...

R. Não te incomodes com o que não é da tua conta; principia


orando por mim, como o fazes com os outros, e depois veremos.

P. A não me auxiliardes com o vosso arrependimento, a prece


pouco valor poderá ter.

R. Mas falando, em vez de orares, menos ainda me adiantarás.

P. Então desejais adiantar-vos?

R. Talvez... não sei. Vejamos o essencial, isto é, se a prece


alivia os ofrimentos.

P. Unamos então os nossos pensamentos com a firme vontade


de obter o vosso alívio.

R. Vá lá.

P. (Depois da prece). Estais satisfeito?

R. Não como fora para desejar.

P. Mas o remédio, aplicado pela primeira vez, não pode curar


imediatamente um mal antigo...
R. É possível...

P. Quereis voltar?

R. Se me chamares...

O Guia do médium. — Filha, terás muito trabalho com este


Espírito endurecido, mas o maior mérito não advém de salvar os
não perdidos. Coragem, perseverança, e triunfarás afinal. Não há
culpados que se não possam regenerar por meio da persuasão e
do exemplo, visto como os Espíritos, por mais perversos, acabam
por corrigir-se com o tempo. O fato de muitas vezes ser
impossível regenerá-los prontamente, não importa a inutilidade
desses esforços. Mesmo a contragosto, as ideias sugeridas a
esses Espíritos fazem-nos refletir. São como sementes que, cedo
ou tarde, tivessem de frutificar. Não se arrebenta a pedra com a
primeira marretada.

Isto que te digo pode aplicar-se também aos encarnados e tu


deves compreender a razão porque o Espiritismo não torna
imediatamente perfeitos nem mesmo os mais crentes adeptos.
A crença é o primeiro passo; vem em seguida a fé e a
transformação por sua vez, mas além disso, força é que muitos
venham revigorar-se no mundo espiritual.

Entre os Espíritos endurecidos, não há perversos e maus.


Grande é o número daqueles que, sem fazer o mal, estacionam
por orgulho, indiferença ou apatia. Estes, nem por isso, são
menos infelizes, pois tanto mais os aflige a inércia quanto mais se
vêem privados das mundanas compensações.

Intolerável, certamente, se lhes torna a perspectiva do infinito,


porém eles não têm a força nem a vontade para romper com essa
situação. Queremos referir-nos a esses indivíduos que levam uma
existência ociosa, inútil a si como ao próximo, acabando muita
vez no suicídio, sem motivos sérios, por enfado da vida.

Em regra, esses Espíritos são menos passíveis de imediata


regeneração do que aqueles que são positivamente maus, visto
como estes ao menos dispõe de energia e, uma vez doutrinados,
votam-se ao bem com o mesmo ardor com que se votavam ao
mal.

Aos outros, muitas encarnações se fazem necessárias para que


progridam, e isto pouco a pouco, domados pelo tédio, procurando
para se distraírem qualquer ocupação que mais tarde venha a
transformar-se em necessidade.
CAPÍTULO VIII

EXPIAÇÕES TERRESTRES

Marcelo — o menino do n0 4

Num hospital de província havia um menino de 8 a 10 anos, cujo


estado era difícil precisar. Designavam-no pelo n° 4. Inteiramente
contorcido, já pela sua deformidade inata, já pela doença, as
pernas se lhe torciam roçando pelo pescoço num estado de tal
magreza, que eram pele e ossos. O corpo, uma chaga; os
sofrimentos, atrozes. Era oriundo de uma família israelita.

A moléstia dominava aquele organismo, já de oito longos anos,


e no entanto demonstrava o enfermo uma inteligência notável,
além de candura, paciência e resignação edificantes. O médico
que o assistia, cheio de compaixão pelo pobre um tanto
abandonado, visto que seus parentes pouco o visitavam, tomou
por ele certo interesse. Achava-lhe um quê de atraente na
precocidade intelectual. Assim não só o tratava com bondade,
como fazia leituras quando as ocupações lhe permitia e se
admirava do seu critério na apreciação de coisas a seu ver
superiores à compreensão da sua idade.

Um dia disse-lhe o menino: "Doutor, tenha a bondade de me dar


ainda uma vez aquelas pílulas ultimamente receitadas". Para
que? replicou-lhe o médico, se já lhe ministrei o suficiente e maior
quantidade pode fazer-lhe mal...

"É que eu sofro tanto, que dificilmente posso orar a Deus para
que me dê forças, pois não quero incomodar os outros enfermos
que aí estão. Essas pílulas fazem-me dormir e, ao menos quando
durmo, a ninguém incomodo."

Aqui está quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma


encerrada num corpo informe. Onde teria ido essa criança haurir
esses sentimentos? Certamente não foi no meio em que se
educou, além de que na idade em que principiou a sofrer não
possuía sequer o raciocínio. Tais sentimentos eram-lhe inatos;
mas então porque se via condenado ao sofrimento, admitindo-se
que Deus houvesse concomitantemente criado uma alma assim
tão nobre e aquele mísero corpo — instrumento dos suplícios?
É preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a anterioridade
de causa; isto é, a preexistência da alma e a pluralidade das
existências.

Os últimos pensamentos daquela criança, ao desencarnar,


foram para Deus e para o caridoso médico que dela se condoeu.
Decorrido algum tempo foi o seu Espírito evocado na Sociedade
de Paris, e deu a seguinte comunicação:

"A vosso chamado, vim fazer com que a minha voz se estenda
para além deste círculo, tocando todos os corações. Oxalá seu
eco se faça ouvir na solidão, e lhes lembre que as agonias da
Terra tem por premissas as alegrias do céu; que o martírio não é
mais do que a casca de um fruto deleitável, dando coragem e
resignação.

Essa voz lhes dirá que, sobre o catre da miséria, estão os


enviados do Senhor, cuja missão consiste na exemplificação de
que não há dor insuperável, desde que tenhamos o auxílio do
Onipotente e dos seus bons Espíritos. Essa voz lhes fará ouvir
lamentações de mistura com preces, para que lhes compreendam
a harmonia piedosa, bem diferentes da de outros coros de
blasfémias.
Um dos vossos bons Espíritos, grande apóstolo do Espiritismo,
cedeu-me o seu lugar por esta noite 64 .Por minha vez, também me
compete dizer alguma coisa acerca do progresso da vossa
Doutrina, que deve auxiliar aqueles que entre vós encarnam, para
ensinar a sofrer. O Espiritismo será a pedra de toque; os
padecentes terão o exemplo e a palavra e então as imprecações
se transformarão em gritos de alegria e lágrimas de
contentamento".

P. Pelo que afirmais, parece que os vossos sofrimentos não


eram expiação de faltas anteriores...

R. Não seria uma expiação direta, mas asseguro-vos que todo


sofrimento tem uma causa justa. Aquele a quem conhecestes tão
mísero foi belo, grande, rico e adulado. Eu tivera aduladores e
cortesãos, fora fútil e orgulhoso. Anteriormente fui bem culpado;
reneguei a Deus, prejudiquei meu semelhante, mas expiei
cruelmente, primeiro no mundo espiritual e depois na Terra.

Os meus sofrimentos de alguns anos apenas, nesta última


encarnação, suportei-os eu anteriormente por toda uma
existência que andou pela extrema velhice. Por meu

64
Santo Agostinho, pelo médium com o qual habitualmente se comunica
na Sociedade.
arrependimento reconquistei a graça do Senhor, o qual me
confiou muitas missões, inclusive a última, que bem conheceis. E
fui eu quem as solicitou, para terminar a minha depuração.

Adeus, amigos; tornarei algumas vezes. A minha missão é


consolar e não instruir. Há porém aqui muitas pessoas cujas
feridas jazem ocultas e essas terão prazer com a minha
presença. Marcelo.

Instruções do Guia do Médium

Pobrezinho sofredor, definhado, ulceroso e disforme! Nesse


asilo de misérias e lágrimas, quantos gemidos dados! E como era
resignado... e como a sua alma lobrigava já então o termo dos
sofrimentos, apesar da tenra idade! No além-túmulo pressentia a
recompensa de tantos gemidos abafados, e esperava! E como
orava também por aqueles que não tinham resignação no
sofrimento, pelos que trocavam preces por blasfémias!

Foi-lhe lenta a agonia, mas terrível não lhe foi a hora do


trespasse; certamente os membros convulsos contorciam-se,
oferecendo aos assistentes o espetáculo de um corpo disforme a
revoltar-se contra o destino, nessa lei da carne que a todo o custo
quer viver; mas, anjo bom lhe pairava por sobre o leito mortuário
e lhe cicatrizava o coração. Depois esse anjo arrebatou nas asas
brancas essa alma tão bela a escapar-se de tão horripilante
corpo, e foram estas as palavras pronunciadas: "Glória a Vós,
Senhor, meu Deus!" E a alma subiu ao Todo-Poderoso, feliz e
exclamou: Eis-me aqui, Senhor; deste-me por missão exemplificar
o sofrimento... terei suportado dignamente a provação?

Hoje, o Espírito da pobre criança sobressai, paira no Espaço, vai


do fraco ao humilde, e a todos diz: — Esperança e coragem. Livre
de todas as impurezas da matéria, ele aí está junto de vós a falar-
vos, a dizer-vos não mais com essa voz fraca e lastimosa, porém
agora firme: "Todos que me observaram, viram que a criança não
murmurava; hauriram naquele exemplo a calma para os seus
males e seus corações se tonificaram na suave confiança em
Deus, que outro não era o fim da minha curta passagem pela
Terra". Santo Agostinho.

Szymel Slizgol

Este não passou de um pobre israelita de Vilna, falecido em


Maio de 1865. Durante 30 anos mendigou com uma salva nas
mãos. Por toda a cidade era bem conhecida aquela voz que dizia:
"Lembrai-vos dos pobres, das viúvas e dos órfãos!" Por essa
longa peregrinação Slizgol juntara 90.000 rublos porém não
guardava para si um só copeque. Aliviava e curava os enfermos;
pagava o ensino de crianças pobres; distribuía aos necessitados
a comida que lhe davam.

À noite, destinava-a ele ao preparo do rapé, que vendia a fim de


prover às suas necessidades, e o que lhe sobrava era dos
pobres. Foi sozinho no mundo e no entanto o seu enterro teve o
acompanhamento de grande parte da população de Vilna, cujos
armazéns cerraram as portas.

Sociedade de Paris, 15 de Junho de 1865

Evocação.

Excessivamente feliz, chegado, enfim, à plenitude do que mais


ambicionava e bem caro paguei, aqui estou, entre vós, desde o
cair da noite. Agradecido pelo interesse que vos desperta o
Espírito do pobre mendigo, que, com satisfação, vai procurar
responder às vossas perguntas.

P. Uma carta de Vilna nos deu conhecimento das


particularidades mais notáveis da vossa existência e da simpatia
que essas particularidades nos inspiram nasceu o desejo de nos
comunicar convosco. Agradecemos a vossa presença e, uma vez
que quereis responder-nos, principiaremos por vos assegurar que
mui felizes seremos se, para nossa orientação, pudermos
conhecer a vossa posição espiritual, bem como as causas que
determinaram o género de vida que tivestes na última
encarnação.

R. Em primeiro lugar concedei ao meu Espírito, cônscio da sua


verdadeira posição, o favor de vos transmitir a sua opinião, com
respeito a um pensamento que vos ocorreu quanto à minha
personalidade. E reclamo previamente os vossos conselhos, para
o caso de ser falsa essa minha opinião.

Parece-vos singular que as manifestações públicas tomassem


tanto vulto, para homenagear a memória do homem insignificante
que soube por seu Espírito caridoso atrair essa simpatia. Não me
refiro a vós, caro mestre, nem a ti, prezado médium, nem a vós
outros verdadeiros e sinceros espíritas; falo, sim, para as pessoas
indiferentes à crença, pois, nisso, nada houve de extraordinário. A
pressão moral exercida pela prática de bem, sobre a
Humanidade, é tamanha que, por mais materializada que esta
seja, se inclina sempre, venera o bem, a despeito da sua
tendência para o mal.

Agora, as perguntas que, da vossa parte, não são ditadas pela


curiosidade, mas simplesmente formuladas no intuito de ampliar o
ensino. Uma vez que disponho de liberdade, vou, portanto, dizer-
vos, o mais sucintamente possível, quais as causas
determinadoras da minha última existência.

Faz muitos séculos vivia eu com o título de rei, ou, pelo menos
de príncipe soberano. Dentro da esfera do meu poder
relativamente limitado, em confronto com os atuais Estados, era
eu, no entanto, absoluto senhor dos meus vassalos, como dos
seus destinos, e governava-os tiranicamente, ou antes —
digamos o próprio termo — como algoz.

Dotado de caráter impetuoso, violento, além de avaro e sensual,


podeis avaliar qual deveria ter sido o destino dos pobres seres
sujeitos ao meu domínio. Além de abusar do poder para oprimir o
fraco, eu subordinava empregos, trabalhos e dores ao serviço das
próprias paixões. Assim é que impunha uma dízima ao produto da
mendicidade, e ninguém poderia acumular sem que eu
antecipadamente lhe não tomasse uma cota avultada, dessas
sobras que a piedade humana deixava resvalar para as sacolas
da miséria. E mais ainda: a fim de que não decrescesse o número
de mendigos entre os meus vassalos, proibia aos infelizes darem
aos amigos, parentes e fâmulos necessitados a parte
insignificante do que ainda lhes restava.
Em uma palavra, fui tudo quanto se pode imaginar de mais
cruel, em relação ao sofrimento e à miséria alheia. No meio de
sofrimentos horrorosos, acabei por perder isso a que chamais —
vida, tanto que minha morte era apontada como exemplo
aterrador a quantos como eu, posto que em menor escala, tinham
o mesmo modo de pensar.

Como Espírito, permaneci na erraticidade durante três séculos e


meio, e, quando ao fim desse tempo compreendi que a razão de
ser da reencarnação era inteiramente outra que não a seguida
por meus grosseiros sentidos, obtive à força de preces, de
resignação e de pesares a permissão de suportar materialmente
os mesmos sofrimentos que infligira, e mais profundamente
sensíveis que aqueles por mim ocasionados.

Obtida a permissão, Deus concedeu que por meu livre-arbítrio


aumentassem os sofrimentos físicos e morais. Graças à
assistência dos bons Espíritos, persisti na prática do bem, e sou-
lhes agradecido por me terem impedido de sucumbir sob o fardo
que tomara aos ombros. Finalmente preenchi uma existência de
abnegação e caridade, que por si resgatou as faltas de outra,
cruel e injusta. Nascido de pais pobres e cedo orfanado, aprendi a
ganhar o pão numa idade em que muitos consideram incapaz o
raciocínio.

Vivi sozinho, sem amor, sem afeições, e desde o princípio


suportei as brutalidades que para com outros havia exercido.

Dizem que as quantias por mim esmoladas foram todas


destinadas ao alívio dos meus semelhantes: é um fato
inconcusso, ao qual, sem orgulho nem ênfase, devo acrescentar
que muitíssimas vezes, com sacrifício de privações relativamente
imperiosas, aumentava o benefício que me permitiam fazer a
caridade pública. Desencarnei calmamente, confiando no valor da
minha reparação, e sou premiado muito mais do que poderiam ter
cogitado as minhas secretas aspirações. Hoje sou feliz,
felicíssimo, podendo afirmar-vos que todos quantos se elevam
serão humilhados, como elevados serão todos quantos se
humilharem.

P. Tende a bondade de dizer-nos em que consistiu a vossa


expiação no mundo espiritual e quanto tempo durou, a contar da
vossa morte até o momento da atenuação por efeito do
arrependimento e das boas resoluções. Dizei-nos também o que
foi que provocou a mudança das vossas ideias no estado
espiritual.
R. Essa pergunta desperta-me muitas recordações dolorosas!
Quanto sofri eu... Mas não, que não me lamento: apenas
recordo!... Quereis saber a natureza da minha expiação? Pois ei-
la na sua terrível hediondez.

Algoz que fui de todos os bons sentimentos, fiquei por muito, por
longo tempo preso pelo perispírito ao corpo em decomposição.
Até que esta se realizasse, vi-me corroído pelos vermes, o que
muito me torturava! Quando me vi liberto das peias que me
prendiam ao instrumento do suplício, mais cruel suplício me
esperava!... Depois do sofrimento físico, o sofrimento moral muito
mais longo. Fui colocado em presença de todas as minhas
vítimas. Periodicamente, constrangido por uma força superior, era
levado a rever o quadro vivo dos meus crimes. E via física e
moralmente todas as dores que a outrem fizera sofrer!

Ah! Meus amigos, que terrível é a visão constante daqueles a


quem fizemos mal! Entre vós, tendes apenas um fraco exemplo
no confronto do acusado com a sua vítima. Aí tendes, em
resumo, o que sofri durante três séculos e meio, até que Deus,
compadecido da minha dor e tocado pelo meu arrependimento,
solicitado pelos que me assistiam, permitisse ávida de expiação
que conheceis.
P. Algum motivo particular vos induziu a escolher a última
existência, subordinada à religião israelita?

R. Não escolhi por mim, mas ouvi o conselho dos meus Guias. A
religião de Israel era uma pequena humilhação a mais na minha
prova, uma vez que como em certos países a maioria dos
encarnados menosprezam os judeus e sobretudo os judeus
mendicantes.

P. Na Terra, com que idade começastes a vossa obra de


expiação? Como vos ocorreu o pensamento de vos desobrigar
das resoluções previamente tomadas?

Ao exercerdes tão abnegadamente a caridade, teríeis a intuição


das causas que a isso vos predispunham?

R. Meus pais eram pobres, porém inteligentes e avaros. Moço


ainda fui privado da afeição e carinho de minha genitora. A perda
desta me causou tanto maior e fundo pesar, quanto meu genitor
dominado pela avidez de lucros, me abandonava completamente.
Quanto aos meus irmãos, todos mais velhos do que eu, não
pareciam aperceber-se das minhas mágoas.

Foi um outro judeu quem, movido por sentimento mais egoístico


do que caritativo, me recolheu em sua casa e me ensinou a
trabalhar. O que isso lhe custara era largamente compensado
pelo meu trabalho, que aliás excedia muitas vezes às minhas
forças. Mais tarde, liberto desse jugo, trabalhei por conta própria;
mas em toda parte, no trabalho como no repouso, perseguia-me a
saudade de minha mãe e, à medida que avançava em anos a
lembrança desse ser mais fundamente se me gravara na
memória, lamentando em demasia a perda do seu amor e do seu
zelo.

Não tardou fosse eu o único dos meus, pois a morte em breve,


dentro de meses, ceifou-me toda a família. Então, principiou a
manifestar-se-me o modo pelo qual havia de passar o resto da
vida. Dois dos meus irmãos deixaram órfãos, e eu, comovido
pela recordação do que como órfão sofrera, quis preservar os
pobrezinhos de uma juventude semelhante à minha.

Não produzindo o meu trabalho o suficiente para sustentá-los a


todos, comecei a pedir esmolas, não para mim, mas para outros.
A Deus não aprazia visse eu o resultado da minha esmolaria, a
consolação dos meus esforços, e assim foi que também os
pobrezinhos me deixaram para sempre.

Eu bem sabia o que lhes faltava — era a mãe. Resolvi, pois,


pedir para as viúvas infelizes que, sem poderem trabalhar para si
e os filhinhos, se impunham privações fatais, que acabavam por
matá-las, legando ao mundo pobres órfãos abandonados e
votados aos tormentos que eu mesmo suportara.

A esse tempo contava 30 anos e naquela idade, saudável e


vigoroso, viram-me pedir para a viúva e para o órfão. Penosos me
foram os primeiros passos, a suportar mais de um epíteto
deprimente; quando, porém, se certificaram de que eu realmente
distribuía pelos pobres o que recebia; quando souberam que a
essa distribuição ainda ajuntava as sobras do meu trabalho;
então, adquiri certo conceito que não deixava de me ser grato.

Durante os 60 e alguns anos dessa peregrinação terrena, nunca


deixei de atender à tarefa que me impusera. Também jamais a
consciência me fez sentir que causas anteriores à existência
fossem o móbil do meu proceder. Um dia somente, e antes de
começar a pedir, ouvi estas palavras:

"Não façais a outrem o que não quiserdes que vos façam."

Surpreendido pelos princípios gerais de moralidade contida


nessas poucas palavras, muitas vezes parecia-me ouvi-las
acrescidas destas outras:

"Mas fazei, ao contrário, o que quiserdes que vos façam": Tendo


por auxiliares a lembrança de minha mãe e dos meus próprios
sofrimentos, continuei a trilhar uma senda que a minha
consciência dizia boa. Vou terminar esta longa comunicação,
dizendo: Obrigado! Imperfeito ainda, sei contudo que o mal só
acarreta o mal, e de novo, como já o fiz, me dedicarei ao bem
para alcançar a felicidade. Szymel Slizgol

Juliana Maria, a mendiga

Na comuna de Vilate, perto, de Nozai (Liger Inferior), havia uma


pobre mulher de nome Juliana Maria, velha, enferma, vivendo da
caridade pública. Um dia caiu num poço, do qual foi tirada por um
conterrâneo, A..., que habitualmente a socorria. Transportada
para casa, aí desencarnou pouco tempo depois, vítima do
acidente.

Era voz geral que Juliana tentara suicidar-se. Logo no dia do seu
enterro, a pessoa que lhe acudira, e que era espírita e médium,
sentiu como que um leve contato de pessoa que estivesse
próxima, sem que procurasse explicar-se a causa do fenômeno.
Ao ter conhecimento do trespasse de Juliana Maria, veio-lhe ao
pensamento a visita possível do seu Espírito. A conselho de um
seu amigo da Sociedade de Paris, a quem tinha informado da
ocorrência, fez a evocação com o intuito de ser útil ao Espírito,
não sem que pedisse previamente o conselho dos seus
protetores, que lhe deram a seguinte comunicação:
"Poderás fazê-lo e com isso lhe darás prazer, conquanto se
torne, desnecessário o benefício que tens em mente prestar-lhe.

Ela é feliz e inteiramente devotada aos que se lhe mostraram


compassivos. Tu és um dos seus bons amigos; ela quase que te
não deixa e contigo se comunica muitas vezes sem que o saibas.
Cedo ou tarde os serviços são recompensados e, quando o não
sejam pelo próprio beneficiado, o serão pelos que por ele se
interessam, antes e depois da morte. Se acaso o Espírito do
beneficiado não tiver ainda reconhecido a sua nova situação,
outros Espíritos, a ele simpáticos, vêm dar o testemunho de sua
gratidão.

Eis aí o que te pode explicar a sensação que tiveste no mesmo


dia da passagem de Juliana Maria.

Agora, será ela a auxiliar-te na prática do bem. Lembra-te do


que disse Jesus: aquele que se humilhar será exaltado. Tu verás
o serviço que esse Espírito poderá prestar-te, desde que lhe
peças assistência com o fito de ser útil ao próximo."

Evocação — Boa Juliana, sei que sois feliz e é tudo quanto


desejava saber; isso não impede, porém, que de vós me lembre
muitas vezes, bem como de não vos esquecer nas minhas
preces.
R. Tem confiança em Deus, procura inspirar aos teus doentes
uma fé sincera, porque assim alcançarás sempre o que
desejares. Não te preocupes nunca com a recompensa, porque
ela será sempre superior ao que podes esperar. Deus sabe
recompensar justiceiramente a quem se dedique ao alívio dos
seus irmãos, inspirado por absoluto desinteresse. A não ser
assim, tudo é ilusão, é quimera.

É preciso ter fé antes de tudo, pois de outro modo nada se


conseguirá. Lembra-te deste conselho e ficarás admirado dos
seus resultados. Os dois doentes que curastes são a prova do
que te afirmo, pois, no estado em que estavam, só com remédios
nada terias conseguido. Quando implorares permissão a Deus
para que os bons Espíritos te transmitam fluidos benéficos, se
não sentires um estremecimento involuntário, é que a tua prece
não foi bastante fervorosa para ser ouvida.

É só nestas condições que a prece pode tornar-se valiosa.

Nem outra coisa resulta de dizer: "Deus Todo-Poderoso, Pai de


bondade e misericórdia infinita, permiti que os bons Espíritos me
assistam na cura de...Tende piedade dele, Senhor; restitui-lhe a
saúde, porque, sem Vós, eu nada posso fazer. Seja feita a vossa
vontade".
Tens feito bem em não desdenhar os humildes; a voz daquele
que sofreu resignadamente as misérias desse mundo é sempre
ouvida e nenhum serviço deixa jamais de ser recompensado.
Agora, uma palavra a meu respeito, confirmativa do que te disse
supracitadamente. O Espiritismo te explica a minha linguagem de
Espírito, sem que aliás me seja preciso entrar em minúcias a este
respeito. Outrossim, julgo inútil falar-te da minha existência
anterior. A situação em que me conheceste na Terra te fará
compreender e julgar as precedentes encarnações, nem sempre
isentas de máculas. Condenada a uma existência miserável,
enferma, inválida, mendiguei em toda a minha vida. Não acumulei
dinheiro, e na velhice as parcas economias não passavam de
uma centena de francos, reservados para a hipótese de ficar
amarrada no leito entrevada.

Deus, julgando suficiente a expiação e a prova, deu-lhes um


termo, libertou-me da vida terrestre sem sofrimentos, porquanto
não me suicidei, como a princípio julgaram.

Desencarnei subitamente à borda do poço, quando a Deus


enviara da Terra a minha última prece. Depois, pela declividade
do terreno, meu corpo resvalou naturalmente.
Não sofri ao dar-se o meu trespasse, e sou feliz por ter cumprido
a minha missão sem vacilações, resignadamente. Tornei-me útil
na medida das minhas forças, evitando sempre prejudicar os
meus semelhantes. Hoje recebo o prémio e dou graças a Deus,
ao nosso Divino Mestre, que mitiga o travo das provações,
fazendo-nos esquecer, quando encarnados, as faltas do passado,
ao mesmo tempo que nos põe no caminho almas caridosas,
outros tantos auxiliares que atenuem o peso, o fardo das nossas
culpas anteriores. Persevera tu também que, como eu, serás
recompensado.

Agradeço-te as boas preces e o serviço que me prestaste.


Jamais o esquecerei. Um dia nos havemos de tornar a ver e
muitas coisas te serão explicadas, coisas essas cuja explicação
hoje seria extemporânea. Fica certo somente da minha
dedicação, de que estarei ao teu lado sempre que de mim
precisares para aliviar aqueles que sofrem.

A mendiga velhinha, Juliana Maria.

Evocado a 10 de junho de 1864, na Sociedade de Paris, o Espírito


de Juliana ditou a mensagem seguinte:
"Caro presidente: obrigada por quererdes admitir-me ao vosso
centro.
Previstes, sob o ponto de vista social, a superioridade das minhas
antecedentes encarnações, pois, se voltei à Terra com a prova de
pobreza, foi para punir-me do vão orgulho com que repelia os
pobres, os miseráveis. Assim, passei pela pena de talião fazendo-
me a mais horrenda mendiga deste país: mas, ainda assim, como
que para certificar-me da bondade de Deus. nem por todos fui
repelida: e esse era todo o meu temor.

Também foi sem queixumes que suportei a provação,


pressentindo uma vida melhor, da qual não tornaria ao mundo do
exílio e da calamidade. Que ventura a desse dia em que a nossa
alma rejuvenescida pode franquear a vida espiritual para aí rever
os seres amados! Sim, porque também amei e considero-me feliz
pelo encontro daqueles que me precederam.

Obrigada a A... esse bom amigo que me facultou a expressão do


reconhecimento. Sem a sua mediunidade eu não lhe poderia
provar, agradecida, que minha alma não se esquece das
benéficas influências de um coração bondoso como o seu,
recomendando-lhe que procure progredir em sua divina crença.
Já que ele tem por missão regenerar as almas transviadas, que
fique bem certo do meu auxilio. E eu posso retribuir-lhe pelo
cêntuplo o que por mim fez, instruindo-o na senda que percorreis.
Agradecei ao Senhor o permitir que os bons Espíritos vos
orientem, a fim de animardes o pobre nas suas mágoas e
deterdes o rico no seu orgulho. Capacitai-vos de quanto é
vergonhosa a repulsa para com os infelizes, servindo-vos o meu
exemplo, a fim de evitardes o retorno à Terra na expiação de
faltas que vos coloquem tão baixo a ponto de serdes socialmente
considerado escória da sociedade." Juliana Mana.

Transmitida a A. esta comunicação, ele por sua vez obteve a


que se segue e o que é aliás uma confirmação.

P. Boa Juliana, uma vez que é vosso desejo auxiliar-me com os


vossos conselhos, a fim de que me adiante em nossa santa
Doutrina, vinde comunicar-vos comigo, certa de que me
esforçarei por aproveitar-vos os ensinamentos.

R. Lembra-te da recomendação que vou fazer e não te afastes


dela nunca. Procura sempre ser caridoso na medida de tuas
forças; compreendes a caridade tal como deve ser praticada em
todos os atos da vida. Não tenho necessidade, por conseguinte,
de aconselhar-te uma coisa da qual podes tu mesmo ser o juiz;
todavia, dir-te-ei que sigas a voz da consciência, a qual jamais te
enganará, desde que a consultes sinceramente. Não te iludas
com as missões a cumprir; pequenos e grandes, cada qual tem a
sua missão.

Penosa foi a minha, porém eu fazia jus a tal punição em


consequência das precedentes existências, como confessei ao
bom presidente da Sociedade matriz de Paris, que um dia vos há
de congregar a todos. Esse dia vem menos longe do que supões,
pois o Espiritismo caminha a passos largos, apesar de todos os
óbices que se lhe antepõe. Segui, pois, sem temores, fervorosos
adeptos; segui, que os vossos esforços serão coroados por
outros tantos êxitos. Que vos importa o que de vós possam dizer?

Colocai-vos, acima da crítica irrisória, a qual recairá sobre os


próprios adversários do Espiritismo.

Ah! Os orgulhosos! Julgam-se fortes pensando poder aniquilar-


vos, mas... bons amigos, tranquilizai-vos e não receeis enfrentá-
los, porque são menos invencíveis do que porventura possais
supor. Dentre eles, há muitos receosos de que a verdade lhes
venha deslumbrar os olhos. Esperai, que acabarão por vir auxiliar
a coroação da obra. Juliana Maria.

Aqui está um fato repleto de ensinamentos. Quem se dignar


meditar sobre estas três comunicações, nelas encontrará
condensados todos os grandes princípios do Espiritismo.
Logo na primeira comunicação, o Espírito manifesta a sua
superioridade pela linguagem; como génio benfazejo e como que
metamorfoseada, esta mulher radiante vem proteger aqueles
mesmos que a desprezaram sob os andrajos da miséria.

É a aplicação destas máximas evangélicas: "Os grandes serão


rebaixados e os pequenos serão exaltados; felizes os humildes,
felizes os aflitos, porque serão consolados; não desprezeis os
pequenos, porque aquele que vos parece pequeno neste mundo,
pode ser bem maior do que julgais".

Max, o mendigo

Em 1850, numa vila da Baviera, morreu um velho quase


centenário, conhecido por pai Max. Por não possuir família,
ninguém lhe determinava a origem. Havia cerca de meio século
que se invalidara para ganhar a vida, sem outro recurso além da
mendicidade, que ele dissimulara, procurando vender pelas
herdades e castelos, almanaques e outras miudezas. Deram-lhe
a alcunha de conde Max e as crianças o chamavam somente pelo
título, circunstância esta que o fazia rir sem agastamento. Por que
esse título? Ninguém saberia dizê-lo. O hábito o sancionara.
Talvez tivesse provindo da sua fisionomia, das suas maneiras,
cuja distinção fazia contraste com a miserabilidade dos andrajos.

Muitos anos depois da morte, Max apareceu em sonho à filha do


proprietário de um castelo em cuja estrebaria era outrora
hospedado, porque não possuía domicílio próprio. Nessa
aparição, disse ele: "Agradeço o terdes vos lembrado do pobre
Max nas vossas preces, porque o Senhor as ouviu. Alma
caritativa, que vos interessastes pela pobre mendigo, já que
quereis saber quem sou, vou satisfazer-vos, ministrando, ao
mesmo tempo e a todos, um grande ensinamento.

Há cerca de século e meio era eu um dos ricos e poderosos


senhores desta região, porém orgulhoso da minha nobreza. A
fortuna imensa, além de só me servir aos prazeres, mal chegava
para o jogo, para a libertinagem, para as orgias, que eram a
minha única preocupação na vida.

Quanto aos vassalos, porque os julgasse animais de trabalho


destinados a servir-me, eram espezinhados e oprimidos a fim de
que provessem às minhas dissipações. Surdo aos queixumes
deles, como em regra também o era com todos os infelizes,
julgava eu que eles ainda se deveriam ter por honrados, em
satisfazer-me aos caprichos. Morri cedo, exausto pelos excessos,
mas sem ter, realmente, experimentado qualquer desgraça real.
Ao contrário, tudo parecia sorrir-me, a ponto de passar por um
dos seres mais ditosos do mundo.

Tive funerais suntuosos e os boémios lamentavam a perda do


ricaço, mas a verdade é que sobre o meu túmulo nenhuma
lágrima se derramou, nenhuma prece por mim se fez a Deus, de
coração, enquanto minha memória era amaldiçoada por todos
aqueles para cuja miséria contribuíra.

Ah! Como é terrível a maldição daqueles que prejudicamos! Pois


essa maldição não deixou de ressoar-me aos ouvidos durante
longos anos que me pareceram uma eternidade. Depois por
morte de cada uma das vítimas, era um novo espectro
ameaçador ou sarcástico erguido diante de mim, a perseguir-me
sem tréguas, sem que eu pudesse encontrar um vão lugar onde
me furtasse às suas vistas! Nem um olhar amigo!

Os antigos companheiros de devassidão, infelizes como eu,


fugiam, parecendo dizer-me desdenhosos: "Tu não podes mais
custear os nossos prazeres". Oh! Então, quanto daria eu por um
instante de repouso, por um copo d'água para saciar a sede
ardente que me devorava! Entretanto eu nada mais possuía, e
todo o ouro a jorros derramado sobre a Terra não produzia uma
só bênção, uma só que fosse... ouviste, minha filha?!

Cansado por fim, oprimido, como viajor que não lobriga o termo
da jornada, exclamei; "Meu Deus, tende compaixão de mim!
Quando terminará esta situação horrível?!" Então uma voz —
primeira que ouvi depois de haver deixado a Terra disse: "Quando
quiseres". Que será preciso fazer, grande Deus? — repliquei.
Dizei-o, que a tudo me sujeitarei. — "É preciso o arrependimento,
é preciso te humilhares perante os mesmos a quem humilhaste;
pedir-lhes que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que
perdoa é sempre agradável ao Senhor".

Humilhei-me, pedi aos meus vassalos e servidores que ali


estavam diante de mim, e cujos semblantes, pouco a pouco mais
benévolos, acabaram por desaparecer. Isso foi para mim como
que uma nova vida; o desespero deu lugar à esperança,
enquanto eu agradecia a Deus com todas as forças de minha
alma.

A voz acrescentou: "Príncipe..." ao que respondi: "Não há aqui


outro príncipe senão Deus, o Deus Onipotente que humilha os
soberbos. Perdoai-me Senhor, porque pequei; e se tal for da
vossa vontade, fazei-me servo dos meus servos".
Alguns anos depois reencarnei numa família de burgueses
pobres. Ainda criança perdi meus pais e fiquei só, no mundo,
desamparado. Ganhei a vida como pude, ora como operário, ora
como trabalhador de campo, mas sempre honestamente, porque
já cria em Deus.

Aos quarenta anos fiquei inteiramente paralítico, sendo-me


preciso daí por diante mendigar por mais de cinquenta anos, por
essas mesmas terras de que fora o absoluto senhor. Nas
herdades que me haviam pertencido, recebia uma migalha de
pão, feliz quando por abrigo me davam a coberta de uma
estrebaria. Ainda por uma acerba ironia do destino, apelidaram-
me Sr. Conde...

Durante o sono, aprazia-me percorrer esse mesmo castelo onde


reinei despoticamente, revendo-me no fausto da minha antiga
fortuna! Ao despertar, sentia das visões uma impressão de
amargura e tristeza, mas nunca uma só queixa se me escapou
dos lábios; e quando a Deus aprouve chamar-me, exaltei a sua
glória por me haver sustentado com firmeza e resignação numa
prova tão penosa, da qual hoje recebo a recompensa. Quanto a
vós, minha filha, eu vos bendigo por terdes orado por mim."
Para este fato pedimos a atenção de todos quantos pretendem
que, sem a perspectiva das penas eternas, os homens deixariam
de ter um freio às suas paixões. Um castigo como este do pai
Max será porventura menos profícuo do que essas penas sem
fim, nas quais hoje ninguém acredita?

História de um criado

Servindo a uma família de alta posição, era um moço cujos


traços fisionómicos, cujo ar inteligente, surpreendiam por sua
distinção.

Em suas maneiras nada havia de rústico ou plebeu e, ao mesmo


tempo que diligenciava bem servir aos patrões, estava longe de
ostentar quaisquer servilismos, aliás muito próprios das pessoas
que conhecêramos, e porque não o víssemos, perguntamos se o
haviam despedido. Disseram-nos que tinha ido passar alguns
dias na sua terra natal, e que lá falecera.

Disseram-nos mais, que muito lamentavam a perda de tão


excelente moço, possuidor de sentimentos assaz elevados para a
sua posição. Acrescentaram que ele lhes era muito dedicado,
dando provas de grande afeição.
Mais tarde, veio-nos a ideia de evocar esse rapaz, e eis o que
nos disse ele:

"Na penúltima encarnação, havia eu nascido de muito boa


família, como se diz na Terra, mas cujos bens estavam
arruinados pelas prodigalidades de meu pai. Órfão muito criança,
um amigo deste recolheu-me e mandou educar-me
excelentemente como um filho, educação essa que me suscitou
uma leve vaidade. Meu protetor, de então, é hoje o Sr. G., ao
serviço do qual me conhecestes.

É que eu quis expiar o orgulho, na última existência, sob a


condição de criado, provando ao mesmo tempo a dedicação
devida ao meu benfeitor. Cheguei mesmo a salvar-lhe a vida sem
que ele o soubesse. Isso constituiu também uma provação da
qual saí vitorioso e bastante confortado para não me deixar
corromper num meio vicioso. Conservando-me impoluto, a
despeito dos maus exemplos, agradeço a Deus a recompensa, na
felicidade que hoje gozo."

P. Em que circunstâncias salvastes a vida do Sr. G...?

R. Evitando que fosse esmagado por uma grande árvore


enquanto passeava a cavalo. Eu que o seguia só, percebi a
iminência do perigo, e com um grito lancinante fi-lo voltar rápido,
enquanto o tronco se abatia. O Sr. G... a quem referimos o fato,
dele se lembrou perfeitamente.

P. Por que desencarnastes tão jovem?

R. Porque Deus julgou suficiente a prova.

P. Como pudestes aproveitar essa provação quando não tínheis


noção da sua causa anterior?

R. Na humildade da minha condição ainda me restava um


instinto daquele orgulho; fui feliz por tê-la conseguido domar,
tornando proveitosa a provação que, a não ser assim, eu teria de
começar. Nos seus momentos de liberdade o meu Espírito se
lembrava do que fora e ao despertar lhe invadia um desejo
intuitivo de resistir às más tendências. Tive mais mérito lutando
assim do que se tivesse a lembrança do passado. Com essa
lembrança o orgulho de outros tempos se teria exaltado,
perturbando-me, ao passo que deste modo apenas tive que
combater as influências nocivas da minha nova condição.

P. De que serviu terdes recebido uma brilhante educação, uma


vez que na última encarnação não vos era possível lembrar os
conhecimentos adquiridos?
R. Tais conhecimentos, dada a minha ulterior condição, seriam
supérfluos; por isso ficaram num estado latente para que hoje eu
os reencontrasse. Mas aqueles conhecimentos não me foram de
todo inúteis, uma vez que desenvolvendo-me a inteligência, me
incutiram predileção instintiva pelas coisas elevadas e
repugnância pelos baixos e ignóbeis exemplos que tinha à vista.
Sem aquela educação, eu não passaria de um criado.

P. A abnegação dos criados para com os patrões terá por


ascendente o fato de relações anteriores?

R. Sem dúvida, e ao menos é esse o caso comum. Às vezes


esses criados são membros da mesma família, ou, como no meu
caso, escravos da gratidão e que procuram saldar uma dívida, ao
mesmo tempo concorrendo para que progridam por sua
dedicação. Vós não compreendeis todos os efeitos da simpatia
que a anterioridade de relações produz aí no mundo. A morte em
absoluto não interrompe essas relações, que podem perpetuar-se
por séculos e séculos.

P. Por que são hoje tão raros esses exemplos de dedicação?

R. Acusai a feição egoística e orgulhosa do vosso século,


agravada ainda pela incredulidade das ideias materialistas. À
verdadeira fé antepõe-se presentemente a cobiça, a avidez do
ganho, em detrimento da abnegação. Induzindo os homens à
verdade, o Espiritismo fará reviver igualmente as virtudes
esquecidas.

Nada melhor do que este exemplo para evidenciar o benefício


do esquecimento em relação às existências anteriores.

Se G. tivesse ciência do que havia dito o seu criado, ficaria para


com ele numa posição embaraçosa, nem o conservaria como
criado, obstando, por conseguinte a uma provação proveitosa
para ambos.

António B...

(Enterrado vivo — Pena de talião)


António B..., escritor de estimadíssimo merecimento, que
exercera com distinção e integridade muitos cargos públicos na
Lombardia, pelo ano de 1850 caiu aparentemente morto, de um
ataque apoplético.

Como algumas vezes sucede em casos dessa natureza, a sua


morte foi considerada real, concorrendo ainda mais para o
engano os vestígios da decomposição assinalados no corpo.
Quinze dias depois do enterro, uma circunstância fortuita
determinou a exumação, a pedido da família. Tratava-se de um
medalhão por acaso esquecido no caixão. Qual não foi, porém, o
espanto dos assistentes quando, ao abrir este, notaram que o
corpo havia mudado de posição, voltando-se de bruços e — coisa
horrível — que uma das mãos havia sido comida em parte pelo
defunto.

Ficou então patente que o infeliz António B...fora enterrado vivo


e deveria ter sucumbido de desespero e por fome.

Evocado na Sociedade de Paris, em agosto de 1861, a pedido


de parentes, deu as seguintes explicações:

1.Evocação.

Que quereis?

2. A pedido de um vosso parente, nós vos evocamos com prazer


e seremos felizes se quiserdes responder-nos.

R. Sim, desejo fazê-lo.

3. Lembrai-vos dos incidentes da vossa morte?


R. Ah! Certamente que me lembro; mas por que avivar essa
lembrança do castigo?

4. Efetivamente fostes enterrado por descuido?


R. Assim deveria ser, visto revestir-se a morte aparente de todos
os característicos da morte real; eu estava quase exangue 65 .

Não se deve, porém, imputar a ninguém um acontecimento que


me estava reservado desde que nasci.

5. Incomodam-vos essas perguntas? Será mister lhe darmos


fim?
R. Não. Podeis continuar.

6. Porque deixastes a reputação de um homem de bem,


esperamos que fosseis feliz.

R. Eu vos agradeço, pois sei que haveis de interceder por mim.


Vou
fazer o possível para vos responder e, se não o puder fazer, o
fará um dos vossos Guias por mim.

7. Podeis descrever-nos as vossas sensações daquele


momento?

R. Que dolorosa provação sentir-me encerrado entre quatro


tábuas, tolhido, absolutamente tolhido! Gritar! Impossível!

65
Privado de circulação do sangue. Descoloração da pele: privação do
sangue.
A voz, por falta de ar, não tinha eco! Ah! Que tortura a do infeliz
que em vão se esforça para respirar num ambiente limitado! Eu
era como um condenado à boca de um forno, abstração feita do
calor. A ninguém desejo um fim rematado por semelhantes
torturas. Não, não desejo a ninguém um fim assim! Oh! Cruel
punição de cruel e feroz existência! Não saberia dizer no que
então pensava; apenas revendo o passado, vagamente entrevia o
futuro.

8. Dissestes — cruel punição de feroz existência... Como se


pode conciliar esta afirmativa com a vossa reputação ilibada?

R. Que vale uma existência diante da eternidade?

Certamente procurei ser honesto e bom na minha última


encarnação, mas eu aceitara um tal epílogo previamente, isto é,
antes de encarnar. Ah! Por que interrogar-me sobre esse passado
doloroso que só eu e os bons Espíritos enviados do Senhor
conhecíamos? Mas, visto que assim é preciso, dir-vos-ei que
numa existência anterior eu enterrara viva uma mulher— a minha
mulher, e por sinal que num fosso! A pena de talião devia ser-me
aplicada. Olho por olho, dente por dente.

9. Agradecemos essas respostas e pedimos a Deus vos perdoe


o passado, em atenção ao mérito da vossa última encarnação.
R. Voltarei mais tarde, mas, não obstante, o Espírito de Erasto
completará esta minha comunicação.

Instruções do Guia do Médium

Por essa comunicação podeis inferir a correlatividade e


dependência imediata das vossas existências entre si; as
tribulações, as vicissitudes, as dificuldades e dores humanas são
sempre as consequências de uma vida anterior, culposa ou mal
aproveitada. Devo todavia dizer-vos que desfechos como este de
António B... são raros, visto como se assim terminou uma
existência correia, foi por tê-lo solicitado ele próprio, com o
objetivo de abreviar a sua erraticidade e atingir mais rápido as
esferas superiores. Efetivamente, depois de um período de
perturbação e sofrimento moral, inerente à expiação do hediondo
crime, ser-lhe-á perdoado este, e ele se alçará a um mundo
melhor, onde o espera a vítima que há muito lhe perdoou.
Aproveitai este exemplo cruel, queridos espíritos, a fim de
suportardes, com paciência, os sofrimentos morais e físicos,
todas as pequenas misérias da Terra.

P. Que proveito pode a Humanidade auferir de semelhantes


punições?
R. As penas não existem para desenvolver a Humanidade,
porém para punição daqueles que erram. De fato, a Humanidade
não pode ter interesse algum no sofrimento de um dos seus
membros. Neste caso, a punição foi apropriada à falta. Por que
há loucos, idiotas, paralíticos?

Por que morrem estes queimados, enquanto aqueles padecem


as torturas de longa agonia entre a vida e a morte?

Ah! Crede-me; respeitai a soberana vontade e não procureis


sondar a razão dos decretos da Providência! Deus é justo e só
faz o bem. Erasto.

Esse fato não encerra ensinamento terrível? A justiça de Deus


às vezes tardia, nem por isso deixa de atingir o culpado,
prosseguindo em seu aviso. É altamente moralizador o saber-se
que, se grandes culpados acabam pacificamente na abundância
de bens terrenos, nem por isso deixará de soar cedo ou tarde,
para eles, a hora da expiação. Penas tais são compreensíveis,
não só por estarem mais ou menos ao alcance das nossas vistas,
mas também por serem lógicas. Cremos, porque a razão admite.
Uma existência honrosa não exclui, portanto, as provações da
vida, que são escolhidas e aceitas como complemento de
expiação —o restante do pagamento de uma dívida saldada
antes de receber o preço do progresso realizado.

Considerando quanto nos séculos passados eram frequentes,


mesmo nas classes mais elevadas e esclarecidas, os atos de
barbárie que hoje repugnam; quantos assassínios cometidos
naqueles tempos de menosprezo pela vida de outrem, esmagado
o fraco pelos poderosos sem escrúpulos; então
compreenderemos que muitos dos nossos contemporâneos têm
de expungir máculas passadas, e tampouco nos admiraremos do
número considerável de pessoas que sucumbem vitimadas por
acidentes isolados ou por catástrofes coletivas.

O despotismo, o fanatismo, a ignorância e os preconceitos na


Idade Média e dos séculos que se seguiram, legaram às
gerações futuras uma dívida enorme, que ainda não está saldada.

Muitas desgraças nos parecem imerecidas, somente porque


apenas vemos o presente.

Letil

Esse industrial, que residiu nos arredores de Paris, morreu em


abril de 1864, de modo horroroso. Incendiando-se uma caldeira
de verniz fervente, foi num abrir e fechar de olhos que o seu
corpo se cobriu de matéria candente, pelo que logo compreendeu
ele que estava perdido. Achando-se na oficina apenas com um
rapaz aprendiz, ainda teve ânimo de dirigir-se ao seu domicílio, à
distância de mais de 300 metros.

Quando lhe puderam prestar os primeiros socorros, já as carnes


dilaceradas caíam aos pedaços, desnudos os ossos de uma parte
do corpo e da face. Ainda assim, sobreviveu doze horas a
cruciantes sofrimentos, mas conservando toda a presença de
espírito até o último momento, predispondo os seus negócios com
perfeita lucidez. Em toda a cruel agonia não lhe ouviram um só
gemido, um só queixume, e morreu orando a Deus. Era um
homem honradíssimo, de caráter meigo e afetuoso, amado,
prezado de todos os que o conheciam. Também acatara com
entusiasmo, porém pouco refletidamente, as ideias espiritas, e
assim foi que, médium, não lhe faltaram inúmeras mistificações,
as quais, seja dito, em nada lhe abalaram a crença.

Em certos casos, a confiança no que os Espíritos lhe diziam, ia


até à ingenuidade.
Evocado na Sociedade de Paris, a 29 de abril de 1864, poucos
dias após a morte e ainda sob a impressão da cena terrível que o
vitimou, deu a seguinte comunicação:

"Profunda tristeza me acabrunha! Aterrado ainda pela minha


trágica morte, julgo-me sob os ferros de um algoz.

Quanto sofri! ... Oh! Quanto sofri! Estou trémulo, como que
sentindo o cheiro nauseante de carnes queimadas. Agonia de 12
horas, essa que padeceste, oh! Espírito culpado! Mas ele a sofreu
sem murmurações e por isso vai receber de Deus o seu perdão.
Esposa minha muito amada, não chore, que em breve estas
dores se acalmarão. Eu não mais sofro na realidade. Auxilia-me
muito a noção do Espiritismo e agora vejo que, sem essa
consoladora crença, teria permanecido no delírio da morte
horrível que padeci.

Há, porém, um Espirito consolador que não me deixa, desde que


exalei o último suspiro. Eu ainda falava, e já o tinha a meu lado...
Parecia-me ser um reflexo das minhas dores a produzir em mim
vertigens, que me fizessem ver fantasmas... Mas não; era o meu
anjo de guarda que, silencioso e mudamente, me consolava pelo
coração. Logo que me despedi da Terra, disse-me ele; "Vem,
meu filho, torna a ver o dia". Então respirei mais livremente,
julgando-me livre de medonho pesadelo; perguntei pela esposa e
ele me disse; "Estão todos na Terra, e tu, filho, estás entre nós".

Eu procurava o lar, onde, sempre em companhia do anjo, vi


todos banhados de pranto. A tristeza e o luto haviam invadido
aquela habitação outrora pacífica. Não pude