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códex

mikhæ por
Sérgio Roberto Rodrigues de Oliveira

1
o olho atrás da porta.................................................................................................................4
o velho e grande olmo de Trafalgar .....................................................................................12
despertando demônios............................................................................................................20
interlúdio ..................................................................................................................................30
fantasma não, mãe... índios. ..................................................................................................42
tem gente na asa do avião. .....................................................................................................55
acredita em fantasmas?..........................................................................................................68
a premonição. ..........................................................................................................................84
os paramédicos ........................................................................................................................92
conversando sozinho.............................................................................................................108
o mensageiro de jeanne. .......................................................................................................120
o campo de guerra. ...............................................................................................................133
quem são vocês? ....................................................................................................................140
o conclave ...............................................................................................................................152
o primo embate......................................................................................................................165
travesseiros.............................................................................................................................175
convento dos cordeliers.........................................................................................................179
conexão dos mortos...............................................................................................................198
princeps militae coelestis.......................................................................................................213
o retrato de chaves ................................................................................................................222
a dissensão ..............................................................................................................................236
francesco bernardone ...........................................................................................................238
portas abertas para...............................................................................................................243
contratempo ...........................................................................................................................253
não há nada que... .................................................................................................................264
...se possa fazer? ....................................................................................................................274
por trás dos olhos fechados..................................................................................................283
sete de dezembros. ................................................................................................................292
escalem o monte nitaha. .......................................................................................................314
bandeiras fincadas. ...............................................................................................................333
a repercussão. ........................................................................................................................344
sorrisos falhos. .......................................................................................................................349
somos todos culpados. ..........................................................................................................363
compromisso. .........................................................................................................................378
o menor e o maior. ................................................................................................................384
renascendo das cinzas...........................................................................................................393
o olho atrás.............................................................................................................................404

2
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"Houve então uma


batalha no céu: Miguel e
seus Anjos guerrearam
contra o Dragão. O Dragão
batalhou, juntamente com
seus Anjos, mas foi
derrotado, e não se
encontrou mais um lugar
para eles no céu”. Ap. 12:7

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PREÂMBULO

o olho atrás da porta

A mesma noite tenebrosa dos últimos dias recomeçava.


O mesmo tempo frio e úmido parecia dar o tom do que estava
prestes para acontecer. Não que as coisas ruins acontecessem
nestes dias, mesmo porque quando as bruxas estão soltas existe
sempre o lado bom –– pelo menos um.
A chuva que não atingia senão um chuvisco nebuloso dava às
casas próximas um ar de calmaria exacerbada. O ar não se mexia,
o odor acre da fuligem não se dissipava e nem as luzes dos postes
brilhavam em meio ao denso nevoeiro. Carros não se moviam,
pessoas não apareceriam, nem um som era ouvido e as luzes
continuavam como um leve embaçado nas janelas que ousavam se
mostrar vivas.
A cinquenta e nove minutos do centro, Amersham era uma
dessas comunidades pacatas preenchidas de sutilezas que nem
seus moradores poderiam desconfiar, se bem que imaginavam
quais. As casas quase georgianas, construídas lado a lado,
igualmente imponentes e minúsculas, se preparavam para uma
longa noite de tempestade. As chaminés que emergiam aqui e ali
deixavam escapar colunas de fumaça que indicavam que estas
casas ainda estavam acordadas.
E é em uma destas casas escondidas entre arvoredos do
subúrbio londrino, com seus jardins bem cuidados, onde as coisas
estão suspensas, aguardando o momento que ‘eles‘ esperavam.

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Dentro, ambientes adormecidos, pois já passa da meia-noite, e
uma pequena luz se acende. Primeiro no quarto, depois num outro
cômodo. Como quem acorda de um sono profundo, a casa geme
ao inesperado som do vento que se arremessa entre os vãos das
portas e janelas, rangendo a madeira do telhado. Aos poucos, o
barulho aumenta, um passo rápido, pequenas vozes e, enfim, da
penumbra de uma porta semiaberta, um olho somente, que estava
esperando a sua hora de piscar. Que despertara involuntariamente
de um pesadelo e ainda transpirava imaginando ter sido atacado
por lanças e espadas entre gritos e a agitação de imagens
perturbadoras.
Da fresta, embora atordoado e confuso, ele podia ver duas
pessoas que conhecia muito bem –– os seus pais.

Podiam dizer que compunham uma família bem comum, sem


mais para contar a respeito –– e era o que importava aos outros.
No entanto, como em qualquer família trivial, eles tinham seus
segredos. Destes segredos que todos teimam em esconder e
mesmo assim, à boca pequena, todos sabem. E as coisas estavam
realmente tensas, absorvidas por posturas fingidas que ditavam o
que se podia fazer ou não.
O silêncio estava simplesmente aguardando que uma explosão
de sons irrompesse em combate. Havia um motivo para eles
estarem nervosos e desassossegados. Como sempre, um pequeno
ele achava –– prestando atenção ao que aconteceria a seguir, de
sua fresta oportuna –– que seus pais tinham razão; e pensando
bem, as coisas estranhas que lhe aconteciam deviam ser realmente
intoleráveis.
Teimavam em espremê-lo a cada instante, interrogando de
onde vinham as tais esquisitices ou se ele estava apenas sendo
mais um rebelde, provocando-os por algum pretexto
desconhecido. Nada de mais, porém o senhor Patrick Fox
considerava tudo uma grave infração dos costumes e da rotina
vitoriana inglesa, mesmo sendo ele um irlandês nato. Apesar das
atitudes do pai, era a mãe, Sarah, que sempre conseguia mudar
qualquer opinião exagerada sobre o assunto, tanto dos outros
quanto o de seu pai. Sabia persuadir como ninguém; tinha na
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manga não só uma boa carta, mas uma quadra de ás que não
deixava dúvidas, nem para o mais cabeça-dura que topasse em
seu caminho.
Alerta, cheia de vida e perspicaz, era prática e nunca desistia
de fazer com que os outros pensassem melhor sobre tal coisa ––
desde que fosse a verdade, mesmo que a sua verdade. Talvez por
isto tenha se casado com alguém que lhe era o adverso –– o
aventureiro, apaixonado, corajoso, turrão e que dizia o que lhe
vinha à cabeça, quase sempre passando da conta.
Podiam dizer que ele era tenso demais, esquentado e que
falava mais do que devia. E era a mais absoluta verdade. Nisso
acabava magoando quem não precisava e quem não queria –– e
nem sempre consertava o erro. Ambos eram sensatos à sua
maneira. Um por falar sem pensar para depois arcar com o
remorso e, o outro pensando duas vezes antes de abrir a boca. E é
aí que entra o olho que está atrás da porta, observando a
discussão, vítima deste exagero.

Patrick passava os dedos por entre os fios de cabelo


pressionando-os esporadicamente contra a testa franzida enquanto
notava a papelada espalhada sobre a mesa. Calara-se atordoado. E
o dedo desfilava abrindo caminho entre os documentos,
destacando valores de contas, prestações em atrasos, mensalidades
e dívidas que lhe fugiam a uma solução imediata. A mais pura
verdade era que estavam desempregados.
Ergueu uma perna passando os braços como uma criança
apavorada e se não tivesse com o rosto escondido poderíamos vê-
lo transfigurado pela ansiedade. Sarah sentara-se, despertando-o
da distração. Ele não estava preocupado com as contas que se
amontoavam, mas sim com o que acontecera há alguns dias. E
este não envolvia valores, mas atitudes. Atitudes estranhas do seu
próprio filho.
–– Problemas com dinheiro, Patrick?
Ele resmungou um talvez nada convincente.
–– Sei, ainda está pensando no Sean, não está? Heim? ––
enfática o bastante para que estivesse mais do que certa. Bastou
ele levantar os olhos e ela confirmou suas desconfianças.
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Da cozinha, sentados à mesa, passariam a discutir novamente
sobre o filho mais velho que acabava de aprontar mais uma das
suas. E esfregando desorganizadamente seus cabelos amarelados,
o senhor Fox, mantinha a testa comprimida de cansaço enquanto
desabafava. Magro, porém atlético, vivia ocultando-se em suas
camisetas largas e surradas do seu time de futebol favorito. E
como era o avesso da senhora Fox também era atrapalhado e meio
aéreo, estava provavelmente preocupado com a morte da bezerra.
–– Estou cansado destas esquisitices –– socando a mesa com
insistência instintiva ––, talvez fosse melhor que ele..., ou talvez o
garoto... essa foi a gota d’água! Quantas vezes eu vou ter que
dizer para ele não fazer isso, até parece criança! –– Sarah
rapidamente tapou-lhe a boca e sussurrando ao ouvido disse: –– É
claro que é uma criança. Não está vendo que estamos em casa e
que alguém po-de nos ouvir? O que pensa que está fazendo. ––
desta vez aumentando alguns tons –– Não lhe dou o direito de
falar assim, não se lembra da última vez que falou pelos
cotovelos?!
Assim mesmo estava bastante calma e continuava tentando
prender seus longos cabelos escuros com um palito de madeira
que tirara da gaveta dos talheres. E como era o contrário do
Patrick vestia-se até bem demais para quem ia dormir. O senhor
Fox resmungou –– Mas não se lembra das outras vezes?! Agora
ele saltou de cabeça no rio porque pensou ter ouvido alguém gritar
socorro? Acorda Sarah! E quando a mesa de jantar disparou
contra a janela só porque ele quis! Então me diga que não é ele?!
Levantou-se tão veloz que a cadeira voou contra a parede logo
atrás. Largava as mãos sobre a mesa, encurvado diante dos olhos
de Sarah, mas antes que pudesse desabafar o resto.
–– Cale a boca! Quem você pensa que é para dizer isto ou
aquilo! Sempre com medo do que os outros dirão? –– e finalizou
sarcástica –– Então vá morar com eles.
Ela era assim, não deixava a conversa virar um diálogo muito
extenso. Bastava abrir a boca que ela tomava as rédeas. Ele
suspirou, ergueu os olhos chorosos da mesa da copa em direção à
porta do quarto dos filhos. –– Acho que não escutaram –– frisou
enquanto o relógio insistia num tique-taque frenético. No mesmo
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instante sorriu envergonhado, chacoalhando a cabeça –– dura ––
desdenhando de si mesmo, esperando a razão acordar. Ria
baixinho como um idiota que era.
–– E isso é desculpa?! –– e em seguida ela estalou um bofetão
bobo no seu rosto, principalmente por causa de como agira, e sem
dar tempo a qualquer reação, falou:
–– Nem ouse me censurar, você sabe que eu estou certa e este
tapa foi merecido, ou não foi!
O pranto amargo corria sua face, com algum arrependimento
evidenciado. Procurava descontar em qualquer um qualquer
interferência em sua vida. Como um cãozinho assustado
concordou e levantando a mão para pedir uma trégua, repetiu: ––
Um tapa merecido, sim. Me perdoa?! Sei que não devo
descarregar nele... Eu o amo. Mas ele precisa falar dessas coisas?
Você sabe como as pessoas são preconceituosas e já estão nos
segregando... estamos ficando sós. O que os outros vão dizer...
–– O que lhes ocupam a cabeça oca, nada de muito
importante. Basta. –– e o vento tremeu as vidraças como se
fossem ordenadas pelo basta.
–– Mas... –– já propenso em aceitar o fato.
––... o resto que fique por conta de quem não tem nada para
fazer. E chega de inventar desculpas. Ele é nosso filho. E temos
contas a pagar... É essa a imagem que você quer deixar pro seu
filho? Quando ele precisar de sua ajuda vai se lembrar de alguém
que seria melhor evitar. Não importa o que acontece, mas sim o
que podemos oferecer. Como somos seus pais, devemos fazer de
tudo para que possa sempre confiar em nós. Não estou dizendo
que devemos ser anjos da perfeição, contudo temos nossas
obrigações. Como seria se um dia ele quisesse nos contar algo
extraordinário e, em sua cabeça, fossemos aqueles a quem é
melhor se evitar e diz não para tudo?!
–– Tá certa, mas é que eu não sei lidar com tudo que está
acontecendo. Prefiro ignorá-lo. –– antes que ela respondesse ––
Esse é o meu jeito, porém vou tentar algo novo. De qualquer
forma precisamos descobrir do que se trata, não concorda?
Balançou a cabeça levemente antes de completar –– Acho,
pelo menos vamos tentar. Depois veremos.

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Agora a chuva começava a cair fragilmente, o suficiente para
prejudicar quem quisesse ouvir a conversa ao longe. Sarah apoiou
suas mãos sobre as dele e deu um puxão vigoroso, derrubando
Patrick sobre a mesa. Ela se aconchegou com o queixo sobre os
braços cruzados, estavam cara a cara. E os lábios mexeram, não
para dizer sim, mas para um beijo de conciliação. Em pouco
tempo estariam dançando desajeitadamente enquanto Patrick
cantarolava Sinatra aos ouvidos solidários. –– Meu querido diabo!
–– Sarah se aconchegava aos braços protetores. O que ela devia
ter perdoado estava acima do que a conversa revelava. Não eram
somente as coisas estranhas que vinham acontecendo com o filho
ou as dificuldades em conseguir trabalho ou se o gato já foi ao
veterinário naquela semana ou não. A verdade ia além do que o
garoto ouviu escondido.

Infelizmente o olho atrás da porta não havia visto e escutado


tudo, fugiu assim que percebeu os olhos que o perscrutavam
alcançar os seus.
Refugiou-se na cama, num choro de raiva contida que
desaparecia ao tamborilar da garoa na calha. O quarto parecia-lhe
intenso, a cada relâmpago as pequenas estrelas fosforescentes
faiscavam esverdeadas no teto enquanto as sombras se mexiam
trêmulas. Os fantasmas se moviam a cada relâmpago.
Ele era um covarde, nem sabia porque respondera ao socorro.
Estúpido, pensava de si. Além da angústia também tremia de
medo, havia muita fúria em si, de suas esquisitices –– como dizia
papai –– mas o amava bastante, não era culpa dele se...
Nem haviam começado tais pensamentos e um vulto se
aproximou da sua cama. Assustou-se quase que imediatamente e
um arrepio de surpresa modificou-lhe, por um tempo, a sua atitude
melancólica. Procurou disfarçar. Fingiu estar dormindo, não
queria falar com ninguém e nem que o vissem deste jeito. Agora
esse alguém puxava suas cobertas.
Continuou o teatro.
Mas parecia que não queria arredar o pé dali, continuava à
espreita. Virou-se contrafeito, e de pé ao seu lado, entre um brilho
e outro, pode ver alguém... nanico. De pijama de algodão branco e
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amarrotado, com as mais estranhas figurinhas –– de bolas a luas
de queijo –– concluiu que essa pessoinha só podia ser seu irmão
mais novo.
No tempo em que ele esfregava a mão fechada sobre os olhos,
iniciava-se outra chacoalhada nas cobertas. Desta vez percebera,
ao puxar os lençóis, que ele ainda usava a pena presa à orelha.
Que desde o princípio da semana adotara. Vinha se comportando
diferente, e repetia que só queria deixar ‘ele’ mais à vontade ––
mas ele quem? –– perguntavam.
–– O meu amigo índio que mora aqui conosco! –– Explodiu
de repente, explicando sem que o ouvissem. Devia ser mais um
amigo imaginário. Bom para ele que o pai não implicasse.
Ainda cutucando-o, quase dormindo, murmurou:
–– Posso dormir com você, tô com medo dos trovões.
Mesmo magoado e querendo ficar só, gostava o suficiente de
seu irmãozinho, talvez fosse o único que não precisasse saber
destas esquisitices –– pelo menos por enquanto. O engraçado é
que ele nunca antes tivera medo de chuva, raios e trovões! Abriu
as cobertas, esperando que ele se deitasse logo, e nem percebeu o
ligeiro sorriso curioso que esboçou no canto de seus lábios.
Gesticulou alguma coisa para as sombras do quarto, que ele não
entendeu o que era, e virou-se para cair no sono. As sombras
ainda dançavam por aquelas bandas.
–– Boa noite, Sean! Durma com os anjinhos. Amanhã vai ser
um dia bem legal.
Aos poucos foi se desligando do que ouviu atrás da porta, o
sono é sempre bom conselheiro e o travesseiro o melhor amigo.
Agora as sombras pareciam se acalmar. Os bichos-papões e
os monstros iam se retirando. Lembrava vagamente dos afazeres
para o dia seguinte: a escola e intermináveis aulas, os amigos, a
louça lavada, o aspirador passado, as plantas regadas e a mesa
posta no fim do dia. Hábito. Que na manhã seguinte veria seu pai
pulando com a gravata, atrasado para um trabalho inconstante,
enquanto tentaria ligar o automóvel implicante. Do outro lado da
casa, a mãe que tentaria vestir uma criança desajeitada e inquieta,
ao mesmo tempo em que aprontaria as pastas com currículos e
materiais que deveriam ser entregues por toda a cidade de
Londres. Provavelmente a chuva continuaria, talvez o frio
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aumentasse. E ele, na cozinha, preparando algum café da manhã
industrializado que conteria de cereal a ovos mexidos.
Mas isso seria só amanhã.
Quase naquele momento mágico, em que se passa de
acordado para dormindo, pôde ouvir –– ou pelo menos jurava ter
ouvido –– seu irmão sussurrar algo.
–– Não é bom escutar atrás da porta, não é?
E alguém mais retrucar, com um sotaque rouco: –– Não
mesmo, mas precisava. Hum!
Cansado demais para se importar com o que diziam à sua
volta, desistiu.
E apagou.
Aos poucos uma fantasia difusa se aperfeiçoou em seus
sonhos mais sólidos, onde alguém, delineado por uma luz fraca,
deitado, distendia de uma das mãos um papel velho e machucado.
Alguma coisa parecia se destacar entre as letras incompreensíveis
daquele pergaminho... e o sonho continuou reino adentro. Entre
vozes estranhas e pessoas sussurrantes que assopravam palavras
que pouco ficariam impregnadas em sua mente.
Difusas, como as imagens que como fumaça se apagavam.
Os trovões magistrais soavam suas orquestras durante a
madrugada, dissipando-se, assim que as crianças adormeceram.
Os pingos se espaçavam.

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1

o velho e grande olmo


de Trafalgar

A tarde do dia seguinte estava bastante chuvosa, destas


que ninguém podia se esquecer. Apesar de tanta água, poucos se
importavam com a monotonia do clima, aliás, algo muito
londrino... principalmente com as suas acinzentadas e compactas
nuvens que fechavam o dia àqueles que –– poucos –– gostariam
de olhar para o céu.
Algumas perguntas são sempre redundantes, mas quando não
se vê o sol por alguns dias, ouve-se todos os tipos de comentários.
–– Mamãe? Cadê o sol?!
–– Por aí filho, rápido! –– cuspiu ligeiras estas palavras,
contornando a multidão, puxando um filho extasiado que
permanecia boquiaberto olhando para o firmamento.
Os londrinos num balé de guarda-chuvas escuros, nas suas
cores –– se podiam ser chamada de cores –– beges, pretos e
cinzas, marcavam o ritmo do trabalho. O trânsito era o único que
não obedecia esta bagunça organizada. Este andava, outra hora
parava, numa velocidade branda que intimidava os outros, isto é,
não-londrinos. Os outros diriam que pés molhados, capa
encharcada e nariz constipado são incômodos a serem evitados,
mas os londrinos não são um povo realmente preocupado com
trivialidades –– ou será que é somente por que chove sempre?! Os
edifícios serviam mais para amedrontar do que para acolher um
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molhado a mais; apinhados de molhados a se secarem,
improvisando algumas compras. Disfarçando olhares enviesados
uns nos outros. De qualquer modo havia, lá fora, sim, guarda-
chuvas vermelhos, um ônibus mais rápido –– desgovernado, creio
–– e ainda quem olhasse para o céu.

Lá.
Perto da loja mais a oeste do rio Tâmisa, abaixo do semáforo
categoricamente verde, escoltado por aquele homem de casaco
xadrez –– não-londrino, com certeza ––, na esquina desta mesma
avenida, olhando para o céu estava alguém a quem se notar. De
cabelos negros e compridos, a pele morena e em uma de suas
mãos uma pequena algibeira. E ninguém parecia notá-lo.
Seria possível que fosse tão raro que preferissem fingir que
não o viam? Não que fosse tão diferente. Apesar de não estar
usando um guarda-chuva, também não estava usando roupas. E
fique bem entendido que não estava sem o casaco, ou o terno ou
qualquer proteção ao frio e à chuva que continuava lá. Ele estava
realmente nu. Bem, quase.
Além dos pés descalços, da tanga de couro e da lança –– a
pintura, os adornos e outros itens de série ––, era extraordinário
como não estava resfriado. E isso tudo sem que alguém reparasse
na cena. Quem diria! Um jovem índio na Trafalgar Square e,
ninguém parecia aflito. Até mesmo um londrino –– povo
igualmente enxerido como nós –– já teria reunido algumas
centenas de espantados transeuntes, parando o balé, trancando o
trânsito e chamando a atenção daquele que estivesse
aleatoriamente olhando para cima.
Acabava de chegar em Londres. Vindo de lá, onde poucos
sabem como chegar. Se alguém o perguntasse diria apontando
para algo como para cima e um pouco à esquerda daquela estrela
gordinha. Continuava inerte, olhando para o alto. Correndo o
olhar num círculo lento, procurando algo. Às vezes deixava
escapar um rápido suspiro de seu nariz –– desdenhando da chuva,
ou porque não despertara a devida atenção.
O ritmo do aguaceiro parecia hipnotizar. Naquele momento os
londrinos pareciam esquecer as suas preocupações –– isso quando
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não perdiam um táxi –– e a chuva começava a diminuir
acalmando os ânimos mais instáveis. Demonstrando estar confuso
deixou-se guiar pela multidão que saia de uma admirável e
iluminada fenda do chão. Naquele instante foi espremido diante
de vitrines, e as mais estranhas coisas começaram a desfilar ante
seus olhos. Lugares que eram verdadeiras zonas livres estampadas
por adesivos contra alimentos transgênicos ou a favor de peles
sintéticas que imitavam alguns animais –– existentes ou não.
–– E por que raios tantos estavam vestidos?
Era quase impossível identificar alguém dentro desta
balbúrdia. Estancou firme, contra os desejos da massa andante ––
pensante nem um pouco –– e enfiou uma das mãos na sua sacola.
Remexeu bastante até que precisou apoiar a lança entre as pernas
para liberar a outra mão. Encostou-se na vidraça de uma
gigantesca loja de departamentos para escapulir da agitação.
Agora as duas mãos fuçavam.
Apesar de pequena, a sacola devia ter muita tralha. E eis que
encontrou o que procurava. O majestoso Guia de Ruas de
Londres, edição atualizada e colorida, de umas trezentas e tantas
páginas, com capa dura e tudo.
Contudo parecia não conhecer muito bem o livro –– digo
livro, o objeto mesmo, sendo que talvez nunca tivesse visto um ––
pois o segurava aberto, apertando as páginas que se enrolavam
sobre mão direita, pendendo a papelada toda para esquerda, de
lado, caído. O divertido era vê-lo envergado, de cabeça virada
procurando uma rua que nem sabia onde ficava. Para isso
remexeu na bolsa sacando novo exemplar. Desta vez era o bom e
velho Dicionário Tupinambá-Inglês-Tupinambá, de folhas
amareladas e repleto de orelhas e indiscreto odor bolorento.
Seus olhos brilharam diante de importante informação: –– Isto
é uma rua! Bom.
Em sua cabeça se perguntava porque então, não usavam –– os
londrinos –– um sistema mais simples, como na floresta. Podiam
localizar uma aldeia com razoável desenvoltura, bastando para
isso que usassem como ponto de referência, aquela árvore, esta
pedra ou até mesmo o barulho da onça bebendo água.
Mas estava ali por outro motivo, fora solicitado ou destacado
por uma pessoa incógnita e nem imaginava aonde iria encontrá-la.
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No entanto acataria as ordens como se fossem do próprio chefe. O
tal telegrama, ou algo do tipo, dizia simplesmente:

Senhor Guarini.
Guardiões do Bosque da Colônia.
Encontre-me em Londres. Serviço urgente... Venha hoje antes
das 17:00 horas médias. Impreterivelmente.
Atmatattva.

Intrigado pela ausência de detalhes acerca do serviço


destacado –– que não era do feitio –– voltou-se ao objetivo
principal: Onde podia estar esse cara!
“Mas Londres não era nenhum vilarejo com uma pracinha no
largo da igreja. Por onde começar?!” –– gemeu temeroso.
Os ruídos, os ônibus vermelhos e altos que cruzavam em
todas as direções, os transeuntes que dirigiam imprecações de
alívio diário e aqueles que lhes respondiam com o balançar do
guarda-chuva furioso, eram as distrações que mais o incomodava.
Além –– é claro –– da persistente mania de seguir uns aos outros
por caminhos que acabava contornando para um lado, depois para
o outro, andava mais um pouco e outra guinada e então estava no
mesmo lugar de antes. –– Isto é quarteirão! Bom também.
O que lhe restava então era dirigir uma boa prece de auxílio
aos céus e esperar que nenhum outro guia ou dicionário
despencasse do mesmo lugar, sobre si. Por isso tinha sempre um
olho aberto quando fazia suas orações e pensava muito bem no
que ia pedir.

Já fazia algum razoável tempo que estava neste serviço e


sabia que para um bom guardião bastava saber para quem eram
suas obrigações e fazê-las observando certos protocolos, mas
eram primordiais: a boa e escassa aplicada razão e muita
competência moral. Gostava mesmo era de agir e o tal blá-blá-blá
mais parecia perda de tempo. Por isso aceitou feliz quando fora
convocado a fazer parte do grupo de socorro e vigilância daquele
mesmo bosque mencionado no tal telegrama. Contudo, as
qualidades que se apreciam nestes grupos são a sabedoria e a
paciência, o que não era completamente verdade. Ele é sim um
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pouco birrento e até impaciente. E com aquela cara fechada e
séria, assustava qualquer criança. Se ele gostava de crianças ou
não, era outra história. E já que estava tão longe de casa parecia
mais mal humorado e impaciente do que nunca.
A chuva ainda seguia o seu curso, batia no piso duro e era
sorvida por pequenos buracos nas ruas. As pouquíssimas árvores
pareciam brotar deste piso compacto como se estivessem em
exposição. Só faltava a placa indicando: floras carbonicas,
exemplar em extinção de vegetação urbana.
Percebeu que, descendo por entre a chuva mais forte, surgia
uma borboleta branca que flutuava indiferente às gordas gotas de
água que caiam sem trégua. Pairou alguns instantes sobre uma
enorme placa luminosa, vermelha e azul, na boca do buraco de
gente –– um tal de underground –– e pôs-se a descer no meio da
multidão. Ela havia sumido. Correu até onde estava e nada de
encontrá-la.
Depois de algum tempo olhou para baixo, em desânimo, e
percebeu acanhada flor que nascera no piso áspero. Com a mão à
testa, apertando os olhos, virou-se de um lado a outro procurando
algo. Abriu um sorriso disfarçado no canto da boca. Subiu nas
pontas dos pés descalços, cerrou novamente os olhos, o máximo
que podia para aguçar a visão, e percebeu outras gramíneas
floridas. Nesta direção a vegetação parecia estender-se, primeiro
eram pequenos chumaços de grama, depois alguns amontoados
destes.
Seguia por entre a turba, desviando cuidadosamente para não
perder o próximo montículo. Ajoelhava-se para se assegurar de
que estavam ali mesmo. Seu peito arfava de tanto correr e parar.
Continuou andando.
Próximo a Trafalgar Square, estes amontoados pareciam
pequenos oásis no concreto. Já no meio da avenida, sob o xadrez
amarelado das faixas de trânsito, estes aglomerados se fechavam
inteiramente. E qual não foi a sua surpresa quando, dali para
frente, se descortinou verdadeiro campo verde e florido que
engolia toda a praça; as heras abafando tranquilamente parte da
coluna de Nelson e dos chafarizes que estavam ainda repletos de
peixes e folhagens aquáticas. Aproximando-se do centro, as flores
iam alcançando belezas descomunais e o brilho tênue parecia

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congelar o ambiente. Isolando o barulho, o movimento e,
principalmente, afastando algo de ruim.
Porém, nada se comparava ao antiguíssimo e imenso olmo
que balançava suavemente seus galhos no meio da cidade. De tão
grande impedia que a chuva caísse, emprestando à cena a magia
de um devaneio. As nuvens abriam pequenas rajadas de luzes que
dissipavam a escuridão presente. Os pingos finos, assim como as
poças, refulgiam o sol com uma leve coloração dourada.
Mas a pessoas não percebiam a beleza da transformação.
Respondiam a todo este esplendor com desdém de quem não
tinham olhos para ver. Como todos haviam fugido da tempestade,
o farfalhar das folhas podia ser ouvido a dezenas de pés de
distância.
Caminhou, o índio, deste modo, só. Sentindo a mudança de
ares. Afinal estava na pracinha daquela cidade. Ali estaria quem
procurava. Andava bastante cauteloso.
Sentado à base da árvore, de pernas cruzadas, uma pessoa
bem despreocupada do que acontecia no mundo pareceu ver nosso
amigo de poucos trajes e lhe acenou pedindo que viesse para
perto. Vestido de túnica alaranjada, transpassada por grande lenço
azul trabalhado com arabescos bordados, aquele senhor de sorriso
meigo deixou transparecer o amor que se irradiava em torno de si.
Esfregava as bochechas como se houvesse acabado de acordar.
Bocejando tão forte que seus olhos começaram a lacrimejar.
Aparentemente ele lembrava bastante um monge tibetano, ––
descalço e careca e etc. –– mas ele gostava de ser chamado de
Atmatattva.
–– Enfim nos encontramos, meu filho. Aguardava-o para os
preparativos que se aproximam. Estamos quase na hora. Vamos
até lá. –– Erguendo sua mão para que o índio o auxiliasse a se
levantar. De pé bateu as mãos ajeitando seus indumentos e
contrariando a tradicional reverência, abraçou-o.
–– Mais novo do que pensei que fosse. Bem, Guarini, já te
contaram tudo? Caso não tenham te informado siga-me depressa.
–– Levemente chocado diante da presteza do lama, não conseguiu
captar suas intenções dinâmicas. Já devia estar em Londres por
tempo demais. Guarini e Atmatattva –– pois estes eram seus
nomes –– seguiram para perto de um dos chafarizes para sentar-
se. O monge esfregava um dos pés adormecidos.
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–– Ainda acho que Nelson, aquela raposa velha –– apontando
para o obelisco ––, iria preferir aconchegar-se à árvore a ficar de
pé lá em cima... Nem dá para vê-lo direito, coisas de gente.
Depois me parece daqueles que não descem do pedestal, nem para
cumprimentar, oras.
O monge já estava evidentemente tempo demais na cidade
grande. Desde que assumira a tarefa de guia à quase seis anos,
ninguém jamais soube do que se tratava e quem estava por trás
daquele silêncio incomum. Por vezes surgiam boatos que diziam
que eram ordens superiores e por isso não existia uma informação
certa sobre o assunto. Só que era protegido, quando necessário,
por alguns guardiões destacados, como o próprio Guarini.
Entrementes, as ordens vinham e jamais deviam ser contestadas; e
como ele sabia? Bem, bastava ver de quem eram. E desconfiando
destes boatos, o índio previa que mais uma vez seriam
empregados seus préstimos particulares. Ele já estava impaciente.
A luz do sol voltava a brilhar estranhamente por entre as
nuvens. E o diálogo iniciou-se depois que o monge recolheu um
monte de panos que insistia em cair de suas quase roupas.
–– Eu preferia contar a história, tintim por tintim –– puxando
um pedaço que ficara preso em seus pés ––, mas o bom senso me
impede de adiantar os acontecimentos que amanhã serão bem,
digamos, explanados. Basta que cumpra o que lhe peço. Preciso
me afastar imediatamente por outro... motivo, nada a ver com os
garotos. –– respondeu o monge ao olhar de dúvida do rapaz.
–– Aliás, fazia um bom tempo que não aparecia um rosto
novo por estas bandas, não é que os caras de Hampton Court
sejam desagradáveis, mas depois de quinhentos anos tudo cansa.
–– Rindo-se dos bons tempos passados, divagava. –– Eles são
bons em pregar peças, apesar disso, ninguém mais se assusta.
–– Sei. –– falou Guarini, com seu jeito contido.
Abriu a boca disposto a inquirir algo quando o senhor-monge
puxou-o, deixando cair algumas das tralhas de sua algibeira.
Tropeçando e escorregando até parar do outro lado da praça.
Seguiu algumas faixas, ziguezagueando-as, em meio ao trânsito,
até vislumbrar um apanhado de pessoas paradas, de pé, juntos,
esperando algo. Já o esbaforido tibetano –– indiano, frisou ele a
este pensamento fortuito, agora puxando os panos de sob os pés
do índio –– não conseguindo sentar-se sobre a cabine telefônica,
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ajeitou-se sobre um grotesco cilindro azulado dos correios,
esperando.
–– Está enxergando bem o relógio? –– acenou Guarini em
resposta. O mecanismo de grandes ponteiros parecia o Big Ben.
Procurou seguir-lhe o raciocínio, no entanto o monge mais
parecia um guarda de trânsito autodidata. Tentou se acalmar,
sendo obrigado a sentar-se ao meio-fio e aguardar o desenlace.
–– Dezesseis horas e trinta e oito minutos. Dezesseis e
quarenta e um. Dezesseis e quarenta e nove. –– como ele não
respondia a qualquer interrupção, a ansiedade aumentava. O índio
já estava levando as unhas para roer de tão aborrecido que estava.
Não parou um minuto de imaginar o que poderia acontecer às
dezessete horas. O rosto sério se transfigurou em agonia, fazendo-
o parecer tão jovem quanto era, se é que isso é possível. Nunca
mais iria aceitar convites sem esclarecimentos prévios, mesmo
vindo de velhinhos simpáticos como aquele.
–– Dez... nove... oito... sete... seis... veja, estão vindo deste
lado. –– gritava, alterado, o velho, balançando pernas e braços
com se estivesse distinguindo o próprio Khrisna –– Bastante
pontuais... três... dois... pronto. Previsíveis demais. –– Fixou dedo
e olhar em uma criança que passava batendo os pés com força,
imitando a guarda britânica, encolhendo os cotovelos e mantendo
cabeça erguida. Não parecia ter mais do que cinco-quase-seis anos
e, nem que fosse um pop star que merecesse os cuidados daquele
monge meio amalucado –– porém sábio ––, diria que era o motivo
de seu encontro. Pouco atrás, porém, o seu irmão lhe seguia
constrangido pelas estripulias daquela criança peralta. Mantinha
os fones do MP4 ligados no último volume, evitando qualquer
indisposição desnecessária e, às vezes, cutucava-o pedindo
compostura.
–– Quieto Jox, se manca!
–– Tá bom, Sean. –– contrapôs meloso, e até parece que ele o
obedeceu.

19
2

despertando demônios

Tudo o que Sean buscava naquele momento era se


esquecer dos acontecimentos da noite passada. Tinha seguido a
burocracia prevista, com exceção do pai que nem se levantara
para trabalhar. Estranhou, mas nem quis pensar no porquê.
Era pouco menos de dezessete horas. E nesta quinta-feira, de
maneira especial, os alunos do colégio saíram mais tarde,
atarefados com os preparativos de um evento próximo. Os garotos
atacavam as ruas com rapidez, balançando suas mochilas, seus
casacos e gravatas enquanto corriam em várias direções para
alcançar o carro do pai, os ônibus 4 Waterloo, 29 Trafalgar, 259
King’s Cross, 19 Piccadilly Circus, etc. –– e algumas outras
linhas que nem quero cogitar ––, o metrô e eventualmente
algumas lojas que vendessem badulaques e doces para certas
crianças com algum dinheiro sobrando no bolso. Nem havia
passado dez minutos completos e os arredores da escola pareciam
desertos –– a garoa ajudou, é bem verdade ––, ninguém queria
ficar lá além do necessário, porém havia um colegial que preferia
ficar para trás.
E se Sean estava preocupado com o que os seus pais
pensavam das suas esquisitices, por outro lado ficava ansioso de

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ter que enfrentar os olhares cômicos e as gargalhadas cochichadas
dos colegas.
–– Olhem o esquisito, dizem que ele ouve coisas! ––
sussurrou o grupinho, fazendo cara de medo, de modo que fosse
ouvido pela vítima da vez. Às vezes partiam para cima,
aporrinhando ou meramente empurrando ou batendo.

Esperando a chuva forte minguar, apertou bem fundo os seus


fones, não deixando espaço para escutar mais alguma idiotice, e
levou o fio até o aparelho.
PLAC.
Um som alto e estridente rompeu em seus ouvidos.
Selecionava os MP3s à procura de algo barulhento, mas
desistiu, sintonizando uma estação de rádio. Onde quer que ele
ajustasse o aparelho de rádio, a mesma música continuava “... the
saints are coming...“, quase desferindo golpe mortal ao aparelho.
Ajeitou a surrada mochila enxugando os cabelos empapados com
a mão que ficara livre. –– Jox, fica ligado. Pegue a sua mochila e
vamos. Todos já se foram...
–– E eu não sei? –– Sean nem precisava terminar a frase para
que Joshua entendesse que ele queria ficar sossegado, longe das
risadas.

E também não era o que poderíamos considerar de garoto


prodígio, que todos os pais sonham desde o primeiro dia, ainda no
colo; não mesmo. Estava mais para um garoto-problema com a
ressalva de que não era ele quem procurava os problemas, mas os
tais problemas que surgiam do nada. E se alguém escutasse um
pedido de socorro vindo do rio, não pularia em resgate?! Pois
bem, Sean o fez.
Com o inconveniente de que ele foi a única pessoa que
escutou os tais gritos. E o problema não é só esse, junte a tudo isto
um pouco de polícia, um bocado de bombeiros e centenas de
grupos de resgate reunindo-se espalhafatosamente no centro de
Londres e teremos ideia do que as esquisitices provocam. Para
completar, a televisão não deixou de reprisar o episódio, em
horário nobre –– e injusto –– durante os últimos dias. Não dava
para acreditar na sorte do garoto, pois tudo de estranho que não
21
acontecia com ele, ou ocorria perto ou as pessoas acabavam
achando que era com ele. Realmente parecia persegui-lo.
Pobre coitado.
No começo passava noites e noites matutando em como evitá-
los e com o tempo só esperava fingir que não era com ele. O que
não mudava muito. Por isso talvez fosse o tal garoto-problema.
Por conseguinte assumira o papel com perfeição, na aparência
pelo menos. Vivia recluso, isolado de possíveis amizades,
escutando música durante quase todo o dia e se vestia com certo
desleixo... bem normal para quem tem 13 anos, acho. Não atendia
aos apelos da mãe –– do tipo faça isso e não faça aquilo –– e nem
se lembraria de fazer os deveres mais corriqueiros se não fosse
pela mesmice de não fazer nada. A princípio uma doença que tem
designação: adolescência.

Os chuviscos já não atrapalhavam mais, então eles


diminuíram o passo. Despreocupado, Sean seguia por instinto o
caminho confuso que Joshua insistia em fazer marchando,
batendo os pés firmes e gesticulando ombros, cotovelos e cabeça.
A rua clareava sob as luzes que eram acesas precipitadamente.
Os movimentos dos automóveis lustrosos aumentavam a
vivacidade refletida pelas superfícies molhadas. Muito do que
deveria estar acontecendo um pouco antes, estava a ponto de
recomeçar, pois os que adiaram seus compromissos por causa do
aguaceiro voltavam abruptamente a invadir ruas e calçadas.
Buzinas, gritos roucos e escorregões e muitos guarda-chuvas se
entrechocavam de alto a baixo.
A mão de Sean vinha batendo contra paredes e grades,
tamborilando os dedos enquanto ouvia o mesmo som estridente.
Escondido sob o casaco escuro e pela face inexpressiva, tentava
passar incólume pela algazarra. Não gostava de ficar molhado e se
fosse o cabelo ajeitadinho, negro, com a franja espetada que
demorava horas montando, aí sim evitava água. Apesar de usar as
mesmas roupas amarrotadas todos os dias, seja o uniforme do
colégio, ou as roupas do dia a dia, tinha uma certa personalidade...
sombria.
E as expressões de seu rosto ficavam entre mal humorado e
aborrecido; vez ou outra era pego puxando os lábios para a
esquerda como se querendo sorrir. Por incrível que pareça,
22
quando se esquecia de fingir ou encenar o papel de coitadinho
perverso, era espantosamente carismático. Ninguém conseguia
deixar de perceber que os olhos verdes e profundos sempre diziam
a verdade: que ele é alguém a quem se deve confiar. Parece que
sempre ouvia, dentro de sua cabeça, sua mãe berrando: Sean M.
Fox, obedeça! No entanto, o que mais desejava era se esquecer da
conversa ouvida através da fresta da porta do quarto, que a dor de
cabeça passasse e que ninguém olhasse torto para ele. Não
suportava ser chamado de esquisito ou estranho –– é a mãe! Na
melhor das hipóteses. –– E tudo começou há tão pouco tempo.
Vez ou outra um comerciário saia aos berros, afastando-o ––
principalmente sobre as mãos sujas nas vitrines ––, mas a música
alta impedia-o de atendê-los. Joshua agora pulava sobre algumas
poças d’água, molhando as barras do uniforme que deveriam
servir até o fim daquela semana. Mas nada parava aquele
moleque. Os seus cachos arruivados já estavam mais do que
molhados e colados à cabeça, esse não se importava com o visual.
Durante seus pulos, corria e ziguezagueava perfeitamente por
entre a multidão. Já Sean tinha dificuldades até para andar,
esbarrava, tropeçava e escutava as mais variadas recriminações. E
assim sempre procurava apertar o passo para alcançar seu
irmãozinho que devia estar a algumas milhas adiante. O que ele
não viu foi que Joshua parara.
Quando Joshua chegou perto da Tottenham Court agachou-se.
Manteve o olhar firme no que parecia uma assombrosa caixa
azulada de ferro. Levantou-se e esticou o pescoço nas pontas dos
pés. Seguiu o olhar até um beco escuro, com a ponta da língua
sobressaindo da boca. Sean olhou para o relógio, eram dezesseis
horas e cinquenta minutos. De repente esbarrava, tropeçava e caia
sobre Joshua. Seu irmão chamava-se Joshua, que por uma falha de
pronúncia quando fazia três anos passou a ter como apelido oficial
–– Jox. Nem se importava. Quando Joshua aprontava das suas era
Sean quem –– precipitadamente –– vinha lhe defender. Por isso
Joshua nem se importava, gostava demais daquele irmão-
guardião sem asas.
–– O que tá fazendo, Jox? São quase dezessete horas. –– mais
assustado do que bravo com Joshua.
Sean tirou, então, os fones dos ouvidos para perguntar o que
havia acontecido e, nem bem haviam saltados das orelhas, ele
23
sumira. Procurou em todas as direções. Atrás do poste. Além
desta esquina. No meio da multidão. Pulando para ver dentro do
ônibus parado. Bem longe na cabine telefônica. Não, nada dele.
Joshua era a verdadeira razão de nunca estar inteiramente
preocupado consigo, ou se perdia, ou perdia os outros de vista. Os
Fox jamais tiveram razões para se perturbarem com os sumiços
dele, Sean vivia reparando o enigma. E mesmo com aquela
carinha redonda, cheia de sorrisos, com os cabelos levemente
encaracolados e claros como os de um querubim, ainda assim era
um capetinha. Às vezes Sean pensava que ele fazia de propósito,
como se soubesse que tais sustos não passavam de distrações e
assim não pensava muito nos seus próprios problemas. Quando
percebia já estava longe, desligado de tudo. Procurou mais uma
vez nas lojas e na saída do metrô na Goodge Street. Assim que
percebeu que ele havia realmente desaparecido abriu os olhos em
expressão de surpresa, fechou levemente um, indicando leve
dúvida, que terminou se tornando uma face emburrada com a boca
em bico e ombros caídos. –– No way?! –– De repente alguém lhe
cutucava às suas costas.
–– Sean, me empresta alguns pennies? –– pulou assustado
com a cutucada da mão congelada sob a jaqueta.
–– Onde você est...! –– parou conformado com os sumiços
instantâneos do irmão para completar –– Para que dinheiro? Já
não tem algum no bolso?
–– Tenho. Mas preciso de mais –– falou limpando o nariz na
manga sempre suja. Os olhinhos pareciam molhados de contente
pela espera de algum presente.
–– Só tenho duas libras e cinco pence e um tíquete extra. ––
Mostrando-os por entre os dedos. Instantaneamente agarrou-se à
quantia e saiu correndo para a loja enquanto berrava algumas
palavras explicando. Não pôde ouvir direito e nem correr atrás,
pois estava recolhendo o tíquete e os pennies desconsiderados.
Aconteceu tudo tão depressa que dois gigantes apressados
esbarraram em seus ombros, lançando-o, em cheio, sobre uma
poça encardida. Agora os cabelos e as roupas estavam
encharcados. Em vez de esfriar a cabeça, a água fez o efeito
contrário. Podia-se até imaginar o vapor subindo colado ao corpo
enquanto a cara ficava pesadamente vermelha.

24
–– Mas que m....! –– bufou zangado. Inesperadamente uma
mão surgiu ante seu rosto sujo. Um homem de casaco camurça
marrom estava parado e sorria balançando a mão estendida como
se pedisse para pegá-la.
–– Desculpe aí! Estava distraído procurando o Museu
Britânico. –– falando com forte sotaque. Sean reparou que ele só
podia ser francês por causa da similaridade com o modo de falar
de sua mãe e também porque havia uma pequena bandeira tricolor
colada à sua pasta, o que não deixava dúvidas.
–– Não tem problema –– mentiu, apontando a esmo ––, siga
até a Avenida Belford. –– Não prestou muita atenção no homem,
pois estava tentando se ajeitar, esticando a roupa ensopada. Mas
algo lhe intrigava no estranho, devia ser impressão exagerada de
quem estava irritado com tudo e todos. Quando já podia caminhar
para seguir Joshua, deparou-se com o mesmo deixando uma
confeitaria com os braços carregados de pacotes e até de uma
coisa fumegante que deixava escapar uma fumacinha perfumada.

Do outro lado da rua, Guarini fixava os olhos, ora no monge


sorridente, ora no alvoroço que acontecia, esperando –– com
reservas –– as explicações. O velho pôs-se a andar até a guia da
calçada. Puxou para si o índio perplexo e, com o dedo, que fizesse
silêncio.
–– Veja só o que acontece. Olha, não é maravilhoso? –– E só
disse isso. Desta vez, sério. Depois de tanto trabalho. Perseguindo
as informações mutiladas do velhaco, lá estava ele, Guarini,
olhando duas crianças brigando por dinheiro. Uma problemática,
a outra no mesmo caminho. E, aliás, no meio da chuva.
–– Cale-se, você raciocina demais. –– chiou o monge com as
mãos fechadas como um cone. –– Veja bem o que acontece para
eu te dizer o que te acontecerá em seguida. Quem poderia
imaginar, só me faltava essa, pajear um homenzarrão deste
tamanho. Pfu. –– e Guarini só pode resmungar.

Joshua encontrou o beco que procurava. Seguiu um bom


pedaço antes de parar. Neste instante Sean havia parado
observando, pronto para chamá-lo, quando do meio de caixas de
25
papelão surgiu, embrulhado e em trapos sujos e molhados, uma
figura acavalada. Talvez mais assustado do que a criança, ele
arregalou os olhos escondidos no meio de tanta barba e cabelo,
tentando descobrir o que estava acontecendo. Antes mesmo que
Sean pudesse articular algo para afugentá-lo, Joshua abriu a boca
jovial.
–– Oi moço, trouxe este leite quente e os doces para você! ––
entregando todo o pacote de supetão. Mais apavorado do que
antes, o mendigo olhava de um lado para o outro. Esfregava a
barba emaranhada tentando entender. Quem sabe o menino estava
passando um trote, ou a polícia estava escondida, esperando o
momento de prendê-lo por sequestro. Mas não conseguia pensar
em nada de bom. Tantos lhe afugentavam. Passara fome. Perdera
a dignidade e a saúde. Tudo. Mas aquele menino...
–– É seu. Alguém me pediu para entregá-lo. E se o senhor não
quiser eu posso levar para quem queira. –– agora o pobre senhor
se acalmou. Quase chorou. E agradeceu veemente, abaixando a
cabeça várias vezes.
Na boca do beco, Sean ficou parado, não podia se mexer, ele
sentia uma dor de cabeça que o incomodava desde cedo e que
aumentava. Mas não sabia se era medo ou outra coisa. As pernas
simplesmente não obedeciam. Assim, apreensivo não escutou toda
a conversa. E nem percebeu Guarini e o Monge passarem por ele
à boca do beco. Ao passarem pelo garoto, Guarini viu o porquê de
tanta consideração daquele monge pelos meninos.
Joshua esticara o braço esquerdo apertando a manga contra a
testa do mendigo carinhosamente, tentando limpar um pouco a
área. Entre as tosses e os espasmos que o tal senhor provocava
com as crises de uma doença aguda, Joshua mantinha os olhos
fixos nos dele. Aos poucos os olhos do barbudo foram se
enchendo de lágrimas, tornando-os vivos e intensos. Sentia o
amor que tinha se esquecido, o amor de seus filhos, de sua esposa,
daqueles que o cercaram durante sua vida. Achava que nunca
mais sentiria isso. E aquele menino que saiu do nada, com as
mãos repletas de comida, trazia também amor. Desta vez não
segurou e chorou e num gesto curioso perguntou:
–– Que anjo é este que vem na minha hora de partida! O que
você deseja? –– E aproximando-se do rosto do mendigo

26
cochichou algumas palavras no qual respondeu com um balançar
afirmativo de cabeça. E abraçaram-se.
Ao todo não demorou mais do que alguns minutos, mas foi o
suficiente para alegrá-lo. Sean só pode ficar olhando, pasmo.
Sabia que o irmãozinho estava mais certo do que muita gente que
se esconde na caridade de dar para não doar. Olham indiferentes
para o sofrimento pensando que é o Governo quem deve agir,
senão por que pagar impostos para não ter que ver estas coisas?
Sentia-se pequeno por não fazer o mesmo, mas concordava com
Joshua e assim admitia que um dia não precisaria das loucuras
dele para justificar o que tinha que ser feito de correto –– acho
que deu para entender, não é?
Certo ou errado, ele fez mais do que isso.
Talvez Guarini entendesse melhor o olhar admirado do velho,
havia percebido a gravidade da ocasião, sobretudo nas palavras
ditas ao ouvido do sem-teto. Agora ele tinha um segredo para
guardar.
Tudo voltou ao normal. O estranho momento marcava o seu
término às dezesseis horas e cinquenta minutos. Tempo mais que
suficiente para tomar o ônibus rubro e estrepitoso das 16h50 que
marcava na legenda luminosa que estampava, na dianteira, o seu
rumo passando por North Finchley com o número 134 em
destaque. Desconcertados pelo que escutaram, só tomaram
conhecimento dos adeuses que o mendigo gesticulava, aos berros.
Entre os movimentos do entra-e-sai dos ônibus e lojas, perderam
algo.
–– Por que você fez isso? –– perguntou surpreso Sean.
–– Porque ele tava com fome, oras. –– Não estava
convencido. Quem seria aquele garotinho, pensava Sean. Estava
sempre o surpreendendo. Por isso gostava dele. Mais uma vez
escapulia de seus braços e corria no sentido contrário. Abrindo o
casaco e tirando uma carta amarrotada, foi chegando mais perto
da caixa de correio azulada. Forçou os pés o máximo que pôde e
enfiou um envelope pardo na boca metálica. Do que se tratava,
nem Sean fez questão de perguntar. Trocou o paletó do colégio
pela jaqueta guardada na mochila. Penteou o que sobrara do
cabelo e desta vez fizeram o certo: entraram no ônibus.
A dor lancinante parecia ter aumentado mais. Agarrou Joshua
e subiu apressado. O trajeto era bastante curto, uns três ou cinco
27
minutos até a estação de metrô na Warren Street, mas o trânsito
parou por causa do congestionamento monstruoso. O ruído dos
motores e os faróis piscando junto com cada buzinada não
serviam de atenuantes. Agora nem a música de uma estação de
rádio qualquer serviria. Correram ao andar superior, junto das
janelas centrais. Seguidos pelos espectadores do beco; o índio e o
monge juntos na sexta fila fofocavam. O brilho da luz branca que
refletia por todo lado emprestava um ar de artificialidade ao
ambiente do ônibus. Sentados, havia, além destes, uma senhora na
frente, quieta, tricotando algo para os netos neste inverno; e mais
atrás, nos fundos, onde uma lâmpada defeituosa estava piscando,
um homem com uma capa vermelha que cruzava o peito,
encobrindo os braços e o resto do corpo. De olhar firme e rosto
obscurecido pela falta de expressão estava lá por causa de alguém
que acabava de subir.
Guarini percebeu e, falando ao velho, inquiriu-o sobre quem
era o carrancudo do derradeiro banco.
–– Aquele só diz respeito ao grandão. –– referindo-se a Sean.
–– Por enquanto nada temos a tratar com ele. –– fechando a cara
em repulsa ao olhar no rosto do forasteiro enquanto despachava
alguns papéis para cima de Guarini. Sean, por sua vez, pressentia
que algo, em breve, iria acontecer ali. A dor apertava mais e mais.
Sentia vontade de fugir dali, quando ao longe, ritmados, um tropel
fraco de passos abalizados apareceu marchando em sua direção e
ampliando o desconforto. A cada batida –– que aumentava
rapidamente –– a cabeça lhe doía desmensuradamente. O barulho
metálico era como um milhão de latas batendo umas contra as
outras e estavam se aproximando.
Trac. Truc. Trac. Truc.
Assim que os passos chegaram na avenida onde estavam
trancados, mesmo muito distante, o som retumbante da primeira
badalada do Big Ben ecoou.
E a cada badalada Sean gemia e se contorcia mais.
O ambiente frio de luzes claras dançava diante das visões de
Sean, entorpecido pela dor. Então, em desespero, agarrou-se aos
tubos de segurança que formavam o balaústre, caminhando
cambaleante até a escada curva. Sentia vontade de vomitar.
O barulho combinado da multidão, dos passos e do relógio
fazia sua cabeça e estômago girarem. Desceu alguns degraus
28
ficando preso pela jaqueta num dos ganchos de fixação do
corrimão. Com dificuldade para se soltar puxou-o com força,
arrancando o casaco e perdendo o equilíbrio. Joshua observava
através do espelho convexo sem saber o que fazer. O que
aconteceu em seguida ele pouco se lembraria nos próximos dias,
porém a queda foi tão forte que só conseguiu parar na rua. Caído
de borco sobre a rua encharcada. Paulatinamente os curiosos se
acercavam de Sean. A chuva voltava com insistência.
A massa que se aproximava oculta pelos respingos começava
a se delinear. Sob o som da última pancada do relógio, um
exército marchava. Atravessando por entre os carros, caminhões e
ônibus. Empunhavam lanças e estandartes de guerra.
Do alto, milhares de soldados romanos se dirigiam para o sul,
iguais em seus uniformes e em suas feições frias, apoiando a mão
livre sobre os gládios presos à cintura de suas armaduras luzidias.
Alguns usavam elmos, outros capas que indicavam suas posições.
Mas que estariam fazendo atravessando Londres?
O que quer que fosse que o monge havia preparado, estava
terminando e, as explicações pelo qual o inquieto índio esperava,
estavam para ser reveladas.
–– Espero que você cuide bem do meu garoto. –– disse o
Velho displicentemente. E o segredo veio à mente de Guarini.
Não aguardava tão simples conclusões e decidiu perguntar do que
se tratava esse cuidar. Nem perdeu tempo.
–– Ele é seu. Deixo o cargo para assumir outros encargos
inadiáveis. O que precisar saber dele, saberá ao seu tempo. Mas
cuide bem do garoto. Como o mais novo guia, de que eu tenha
conhecimento, lembre-se muito bem do que aconteceu no beco. E
tem mais, o Sean também é de suma importância, fique por perto.
–– e sem mais soltou um –– tá ligado?!
Outra oportunidade de fazer perguntas, perdidas. Em
instantes, carros de resgate chegavam, refletindo suas luzes azuis
e vermelhas.
O monge frisou –– Este aí, ––, apontando para Sean –– está
apenas despertando os seus demônios.

29

interlúdio

O garoto apoquentado pelo menos havia ensinado o


caminho correto ao museu. O homem ainda pisava apressado
fugindo de uma nova tempestade que se aglutinava no apropriado
momento em que o distante Big Ben avisava inabalavelmente ser
dezessete horas. O céu voltava a escurecer trovejando ao som de
sirenes distantes.
Estava começando a pensar que chegaria atrasado ao
encontro, mas não conseguia se concentrar no compromisso. O
garoto, de alguma forma, havia provocado uma onda de ansiedade
sem motivo aparente. Como se o coração fosse sair pela boca.
Antes de avançar sobre os degraus parou bem debaixo dos
banners que informavam as exposições mais recentes quando, de
repente, se inflaram com o forte vento, retesando os cabos de
fixação ao som de panos tremulando. As velas estavam içadas.
Sentia como se estivesse manobrando um clíper nos mares
bravios do Cabo Horn. A mente trabalhando a mil. O homem de
casaco marrom não resistiu, girou nos calcanhares e de braço
estendido gritou: –– Sr. Smith ouço um tique-taque! ––
assuntando um grupo de estudantes que definitivamente não
pertenciam à Terra do Nunca.
Algumas garotas soltavam risinhos histéricos. Mas a revoada
inesperada dos pássaros causou maior estrago na multidão do que
o susto de verem um capitão eufórico em terra firme.
Acabrunhado e rindo subiu, ligeiro, a escadaria, chegando ao
saguão magnífico diante de um balcão de informações
30
desamparado. Ajeitou-se, correndo a mão sobre o casaco e
retirando um pouco da água da chuva acumulada no material
impermeável. De porte atlético e jovem acercou-se do balcão
sacando algum panfleto de localização quando um segurança se
aproximou abalizando a antena de seu comunicador e pedindo que
se afastasse –– ou ele morderia mesmo.
–– Estou à procura Professor Hodgson-Crookes. –– disse
erguendo as mãos mostrando que não havia mexido em nada, um
ato de rendição.
–– Estou certo que sim. –– retrucou o guarda sem a focinheira
–– ele te aguarda na grande galeria da biblioteca. –– apontando a
antena para dentro do edifício solicitando que ele entrasse e
seguisse sempre em frente.
Bernis já se acostumara a ser tratado como estudante, senão
um arruaceiro universitário padrão como agora; formado e
professor privilegiado de uma das maiores universidades da
Europa, ele não perdia tempo explicando, simplesmente fazia o
que pediam e adorava ver quando descobriam quem ele era.
Desculpas e salamaleques viam logo em seguida. Apertou o passo
enquanto secava seus cabelos castanhos claros com a lapela de seu
casaco de camurça. Os passos ecoavam monstruosos na grande
biblioteca do museu que era circundado de galerias suspensas e
em seu vão livre, janelas de uma grandiosa cúpula neoclássica
iluminavam parcialmente as mesas de leitura. O ambiente estava
superlotado de livros, periódicos, revistas e outras edições que
abrangiam milênios de história escrita, desde os cuneiformes de
Ur até os mais recentes arquivos digitais do parlamento inglês
reunidos na véspera. A luminosidade feérica criava a atmosfera de
que este espaço só a Deus pertencia, talvez alguns anjos até
pudessem consultar os arquivos.
Não costumava atravessar o Canal da Mancha –– ou Canal
Inglês dependendo de com quem falasse, sem afetar os brios ––
para tratar de assuntos tão vagos, mas o professor William
Hodgson-Crookes fora enfático quanto à discrição, destacando
pausadamente pelo telefone que deveriam se encontrar
pessoalmente, pois precisava lhe entregar algo.
Se a curiosidade não foi o principal pretexto, a chance de que
ele pudesse discutir velhos projetos com o emérito professor seria
satisfatório. Havia, então, reunidos alguns documentos
31
considerados sigilosos –– que ninguém daria falta, já que Bernis
era o diretor –– e embarcou no mesmo dia, cedo, rumo a Londres
no primeiro TGV que partisse cedo da Gare du Nord.
No fim da galeria D, Bernis deparou-se com uma mesa
desocupada e, aturdido virou-se duas vezes antes de perceber que
a mesa não estava realmente vazia. Atrás de um amontoado de
livros e papéis percebeu que um ruído baixo e algumas sombras
que se movimentavam no piso, projetadas pela fonte de luz
localizada sobre a mesa, só podiam indicar uma coisa.
–– Meu caro senhor Marcus Bernis. Sente-se! –– frisou a
pilha, ou da boca que estava escondida. Antes mesmo de sentar-
se, a voz enfiou uma das mãos entre a papelada e arremessou-a
para o chão criando um estrépito seco que continuou em ecos
sucessivos até sumir. O velho professor Hodgson-Crookes há
tempos se esquecera dos protocolos sociais e só se importava com
suas teorias e pesquisas que jamais reclamavam de sua conduta.
–– Quanto tempo, Marcus! –– reiniciou a conversa o velhote.
Por trás de seu compacto bigode de morsa pôde divisar um esboço
de sorriso quando apertaram as mãos. O homem devia ter uns
setenta anos, mas só de informação acumulada devia beirar uns
dois mil, e bem que o rosto transparecia os séculos. Marc
lembrou-se que os alunos costumavam chamá-lo de César pela
semelhança com os altivos bustos de mármore e pelo fato de ser
um expert em latim e história romana. Se bem que pincelava
alguma coisa dos povos nórdicos pelo tempo que passou na
Noruega em companhia do avô de Bernis. Isto tudo logo após os
embates em Mikkeli, onde se conheceram nos anos 40.
–– O que o senhor precisa de mim, professor? Vim assim que
recebi a sua mensagem. –– durante a limpeza de seus obscuros
óculos que não se atrevia a usar em público, com medo de
acharem que não dava conta do serviço, digamos, dos olhares
femininos. Mantinha um sorriso de reconhecimento.
–– Bem, só para me dizer o que acha disto! –– e esticou uma
garrafa metálica bastante enferrujada que continha um manuscrito
encanecido, enquanto bebericava um pouco do chá aguado que lhe
oferecera antes.
Marc tomou o papel e com o tal óculos aproximou-se.

32
Intrigou-se que o pergaminho tivesse chamado a atenção do
professor, entretanto continuou a análise. E levantou discreto
olhar sobre as lentes.
–– Iluminura italiana do século treze feita por um tal de
Bernardo discorrendo sobre uma batalha travada durante as
cruzadas –– resumiu. Não era a área de estudo do professor
William. Ainda mantinha o ar de quem não entendia a finalidade
do suspense. O professor Hodgson-Crookes desenhou o dedo
sobre o papel apontando uma mancha, quase um esboço.
–– Você se recorda das escavações na Escola de Medicina de
Paris? Acho que foi no final do século dezenove... –– sussurrou o
professor que teve um aceno afirmativo como resposta. –– Acho
que acabaram mudando o traçado da rua... –– divagando em voz
baixa. –– Bem. Desconfio que estes eventos tenham relação com
este documento que, infelizmente, é só um componente de um
pequeno livro perdido, Marc. Desta vez Marc ergueu a
sobrancelha, ouvindo cauteloso o que o professor teria a
complementar.
Para Marc, suas reações não passavam de um suave arquejar
de sobrancelhas. Pouquíssimas vezes ele desmanchava sua
impassibilidade e quando o fazia se destacava magistralmente sem
que houvesse um pingo de dúvida. O professor estava testando-o,
sabia exatamente o que ele estava tramando. Coisas de velho, o
que recordava, em muito, o seu avô.
O senhor William havia sonhado com os eventos descritos no
pergaminho pouco antes de receber o material e, desde então uma
série de coincidências o punha de cara com o assunto.
–– E é só? –– falou disfarçando sua apreensão durante o
exame de umas marcas datilografadas à margem do papel que
estava protegido por uma película plástica. Algo atiçou seus
instintos. Era como um déjà vu vago, quase um sonho nebuloso.
Uma recordação de sentimentos que o alertou quanto à
importância do que segurava em suas mãos. Uma impressão que,
ainda assim, deixava-o ansioso.

Ao lado deles alguém continuava ouvindo seus pensamentos e


sorria maliciosamente. Arrumou-se no canto da saleta provocando
um som metálico indistinguível. Ninguém percebeu o movimento

33
e nem os sapatos prateados que surgiam à meia-luz. Riu-se
novamente.

O professor reparou que Bernis seguia olhando a margem e


continuou. –– Esta marca está no papel mesmo, meu rapaz. Não
consegui determinar uma tradução para o criptograma. E sabe
onde foi encontrado este pergaminho? –– antevendo a negativa,
não perdeu tempo e respondeu por si mesmo, nervoso como se
pressentisse algo. –– Estava fechado dentro desta garrafa térmica.
–– Rindo-se, enquanto recordava o que lhe aconteceu nos últimos
meses.
Marc continuou sem entender, porém a curiosidade despertara
em ondas crescentes de suor. Observou mais uma vez as marcas
sem correr os olhos na mancha, forçando sua memória para
traduzir o que estava escrito, era bom em sânscrito, mas alemão
não era o seu forte. Em parte pôde identificar números que talvez
fossem de controle e uma palavra: Livreiro, Paris. Deveriam
existir milhares de livreiros. Todo o resto era anotações referentes
ao documento e que exigiria maior tempo de estudo. Por hábito,
Bernis apertava o indicador e o polegar entre os olhos, como se
seus olhos estivessem embaçados.
–– Você soube da expedição que partiu para a Noruega no
mês passado? Aquela que estava recolhendo amostras de gelo
para análise do clima do planeta? Bem, eles acharam mais do que
gelo...
Bernis tirou os olhos do papel e encarou o velho professor
esperando que ele concluísse. Decerto não gostaria do que ouviria,
mas desconfiava que o seu segredo tinha ficado escondido por
muito tempo. Aliás, estava encafifado como ninguém havia
percebido antes.
–– Um antigo aeroplano nazista que seguia para Arkhangelsk.
–– acenava discreto Marc para um William remoído. –– Sinto
muito não ter ficado mais tempo por lá.
E passou-lhe um fragmento de jornal.

“... descobrindo uma barreira a sessenta metros de


profundidade que se confirmou, através de sofisticados
equipamentos de sondagem, como sendo um avião. Parte da
expedição foi deslocada para outros setores aguardando a chegada
34
de uma equipe britânica para a remoção do objeto. Eles utilizaram
um Super Gopher, compressor de jatos de água quente para abrir
um canal nas profundezas da geleira dura como granito. A
aeronave foi pacientemente descongelada, desmontada e levada,
peça por peça, para a superfície. Mesmo depois de 50 anos, o
messerschmitt Bf 109E alemão ainda apresentava as insígnias
visíveis e o bico amarelo característico com suas três pás da hélice
fixas ao motor V12 invertido que envolveu a maior operação de
resgate da expedição. Os arqueólogos não descobriram vestígios
do piloto e todo material foi enviado para Londres, junto com a
carta de voo com o trajeto entre Arras, na França ocupada, e a
cidade russa de Arkhangelsk, no Mar Branco...”.

–– Mas ele não podia estar indo para a Rússia. A guerra! ––


sugeriu Marc num repente quase surpreso.
–– Por isso ele atravessou o Mar do Norte costeando a
Noruega até desaparecer perto de Sogndal. Numa geleira a
nordeste de Bergen, Jostedalsbreen. Com certeza o rapaz estava
se evadindo dos radares. Depois, o que ele faria para alcançar o
Golfo de Dvina, só tenho especulações...
Mas Marc não deixou de se assustar diante do acaso, tentando
fingir desinteresse contido diante da revelação. O professor
Hodgson-Crookes re-entregou o manuscrito piscando um dos
olhos. Foi neste instante que Marc percebeu declaradamente que
ele sabia de algo mais e já dava mostras de delinear um
argumento, uma meia-verdade, quando, de boca semiaberta para
contar seu indigesto segredo, fora interrompido.
–– Não foi difícil topar com as marcas, apesar de não entendê-
las, ainda. –– insinuando que Marc concluísse balançando suas
mãos como quem tivesse pressa, prosseguisse.
–– Até onde consegui ir, estas manchas parecem ser folhas
ovadas, lobadas e tomentosas; –– reproduzindo o dicionário ––
existe uma para cada documento e são iguais no formato. No
entanto foram executadas de distintas formas, técnicas, materiais e
épocas. –– Hodgson franziu os olhos esperando que lhe brotasse a
solução, Vinis vinifera, indiferente à sugestiva entonação dada à
última palavra.

35
–– De uma videira! E... –– atropelando o raciocínio esquivo
de Bernis. Com toda a sua afobação viu se vestindo os óculos de
Marc.
–– E então, com exceção deste pergaminho –– erguendo o
papel amarelado que lhe fora confiado ––, de todos os
documentos, este é o único que é compreensível, se bem que não
faz nenhum sentido para mim.
Depois de uma breve pausa para alinhar suas ideias abriu sua
pasta espalhando algumas fotos translúcidas que o professor
William tomou contra a luz do pequeno abajur de leitura. Sua
expressão denotava certa ignorância impronunciável. –– Estas
línguas não fazem parte do meu vocabulário...
–– Do seu e de ninguém.
As fotografias reproduziam manuscritos e plaquetas de argila
e estelas de pedra negra e pergaminhos em rolo e pequenos diários
de couro e tapeçarias, que Marc ponderava como um bizarro
códice. Se não fossem as folhas de videira, jamais descobriria uma
correlação entre os tais registros tão estranhos entre si. E sabe-se
lá, Deus, quantos ainda estão ocultados em seus sepulcros.
–– Além do óbvio, não decifrei nenhum.
–– Como assim? Estou vendo que estão escritas em alfabetos
reconhecíveis. A não ser que...
–– Estejam criptografadas. –– para Marc representava outra
derrota.
As luzes deram rápidas variações, ampliando as sombras das
estantes, alguém derrubara um livro. Podia-se ouvi-lo em escusas
sonoras e inconvenientes a certa distância. As sombras ganharam
momentânea vida.
Continuou. –– Tentei de tudo. Aprendi até novas línguas, a
maioria mortas. Só então experimentei programas de decriptação
e nada. Mas quando juntei alguns deles, procurando similaridades
de escrita e som, é que surgiu uma coincidência.
–– Um nome? –– apressou-se Hodgson-Crookes.
–– Exato. Se os textos se referiam a algo em comum, haveria
uma correspondência. Mas com isso surgiu outro inconveniente,
não poderiam ser um criptograma. –– fez se silêncio, interrompido
pela dúvida de Bernis. Ele estava de olhar fixo na marca...
–– Voltando atrás. O que o senhor queria dizer com marcas, já
que só possui este pergaminho?
36
O professor abriu um sorriso de quem apreciava um bom
observador. Por pouco pensou que ele não havia percebido.
Largou a chávena sonoramente acima de alguns papéis
manchados por círculos similares ao que acabava de produzir.
Levantou-se pegando os fotogramas para reagrupá-los num monte
que ofereceu de volta para Marc. Ele estava perdido com o ato.
–– Agora. Siga-me.
Marc socou a papelada na mochila sem ver a operação
enquanto os três saltavam para dentro de um corredor operacional
do prédio. O professor cambaleava, movimentando seu peso entre
cada passo lerdo, não era um caminhar mórbido, mas gracioso
como o de um pinguim. Desceram vários lances de escada, a
despeito de possuir um elevador para esta ação, despontando num
gigantesco depósito subterrâneo guarnecido de colunas e de
estantes de vidro com gavetas finas o suficiente para guardar
placas. Não havia ninguém.
William consultava uma folha avulsa que implicava num
movimento de vai-e-vem entre o papel e as gavetas numeradas.
Quando estava certo abriu a portinhola envidraçada, agachou-
se e delineou as gavetas com as pontas do dedo até parar no
código desejado. A gaveta aberta servia como mesa para uma
placa de granito alaranjado com relevos em árabe cúfico. E olhou
esperando a reação.
–– Ah! Estou vendo a gravura. –– correndo a mão sobre a
imagem em baixo relevo. –– Este também é legível, Marcus.
Códigos de alfândega e taxas diversas. Se não me engano foi
encontrado na Espanha.
–– Sei. Na época eu estava no sítio arqueológico de Uxama.
Haviam descoberto as fundações do antigo monastério visigótico
de San Miguel. –– e Marc olhou diretamente para o bordo,
empregando seus óculos pela segunda vez naquele dia. Deu um
chega-pra-lá no catedrático se esforçando para erguer a grossa
prancha sem cerimônias. –– Este também não é legível. ––
apoiando parte da placa fora do encaixe. –– Passe sua mão pelas
quinas. Suas bordas estão falando conosco.
O professor William teve a impressão de sentir ranhuras,
marcações paralelas de cima a baixo, que poderiam ser
confundidas com deteriorações e lacerações comuns ao tempo ou

37
transporte descuidado. Não parecia em nada com uma catacumba
recentemente descoberta, contudo a exultação era idêntica.
–– Ogham, professor?
–– Occam, como a navalha?!
–– Língua, não princípio lógico. –– corrigiu Marc. –– Se bem
me lembro, possui um abecedário que é representado por estas
linhas cortando um eixo. É de origem irlandês-gaélica e muitos
acreditam que era uma escrita críptica do alfabeto de dedos dos
druidas. Ou mais ou menos isso. Posso? –– mostrando sua
máquina fotográfica digital. Will lhe devolveu um balançar curto
e rápido em afirmação. Foram vários flashes antes de se dar por
satisfeito.

Estavam completamente desligados da realidade. Retornavam


à biblioteca em silêncio oportuno. Ascendendo pela mesma
escadaria. Marc revia as imagens capturadas ressaltando quais
letras delatariam o autor. Estava tenso e demonstrava seu estado
rangendo imperceptivelmente os dentes, ombros duros e pescoço
dolorido. E mesmo nessa circunstância desconfortante continuava
pensando no garoto caído.
O saguão estava superlotado, preenchido de um zum-zum-zum
intermitente de divagações variadas. Marc jogou sua mochila nos
ombros aguardando que o professor Hodgson-Crookes selasse o
acesso pelo qual escaparam. O piso havia sido limpo e se ouviam
o ranger e guinchos dos pés emborrachados, ás vezes um som
metálico parecia imitá-los.
–– Quais são as suas teorias, Marcus?
Seu olhar denotava esperteza –– Suponho que se resumam a
duas hipóteses. O símbolo pode ser de uma confraria, seita ou
ordem religiosa ou não. Ou os documentos falam da mesma coisa,
ou seriam complementares, certo?
–– E a outra suposição? –– sabendo que Marc não teria só
duas alternativas.
–– Estou trabalhando nisto, meu velho.
Sentavam-se à escrivaninha da grande galeria aprimorando a
teoria de uma ordem oculta. –– Ainda não me contou qual era o
nome que se repete nestes... –– calou-se quando Marc puxou
violentamente um livro de capa avermelhada e gasta de sobre o

38
tampo de carvalho mastigado. Quase derrubara a xícara de chá
que havia sido recolocada por cima do livro.
–– Isto não estava aqui antes! –– girando o livro para que o
professor lesse o frontispício. Estas coincidências estavam cada
vez mais frequentes.
–– Ogham. –– Havia uma marcação de página feita por um
pedaço de papel rasgado. Uma cruz alterada, delineada pela
inclinação do eixo vertical encabeçava a folha referente à grafia
muin.
–– A letra m é uma constante, é a primeira letra do nome do
escritor. –– selecionava-a entre as ranhuras.
O professor corria os olhos sobre a página buscando mais
informações quando percebeu outra coincidência. –– Todas as
letras possuem um significado pictográfico. Esta muin, ou m, pode
simplesmente ser a palavra videira... –– entreolharam-se.
–– Você ainda não me disse quem o escreveu!
–– Existem várias grafias, mas eu escolhi a que eu encontrei
primeiro. Mikhae. Todas fazem parte do códex mikhae.
O intrigado senhor William remexia o manuscrito com certa
morosidade, porém desistiu de argumentar enfiando o papel nas
mãos de Marc.
–– Marcus. Descubra do quê se trata, pois estava muito bem
lacrado, dentro de uma correspondência secreta e endereçada para
cá. –– esperou –– Não aceito um não –– lembrando de um sonho
onde alguém pedia insistente que encontrasse Bernis e entregasse
o papel antes que a doença piorasse ocultando a descoberta para
sempre. Se era sugestão de um artigo que lera no mesmo dia,
jamais saberia, no entanto pressentia que algo em breve
aconteceria.
–– Aqui, para Londres?! –– puxou rápido o envelope
amarelado, datilografado em vermelho, para junto de si. Os
carimbos não deixavam dúvidas quanto à importância da missiva.
O professor especificou –– Para o Museu Britânico, e só demorou
uns sessenta anos. E se você soubesse como realmente foi
encontrado... Eu não posso contar mais nada, estou me arriscando
entregando um papel que ninguém deveria saber de sua existência.
–– E por que você acredita que este pergaminho do século 13
seja assim tão importante? Não vi nada de excepcional.

39
–– Não é manuscrito. Junto havia um bilhete que eu destruí ––
piscou em cumplicidade ––, seu avô me entenderia.
–– Decerto. Nunca concordávamos em nada. Insistia em
certas ideias que jamais compreendi, hoje eu sei que ele estava
certo. –– o seu avô, Jacques, destes que acham que existem mais
coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.
–– Marcus. Sei da sua recente viagem para a Antiochia ad
Orotem... sei de Lucano...
Marc segurou o susto, desconfiando porque os melhores
tinham que ser loucos ou excêntricos, mas gostou do olhar sincero
do seu antigo professor. Desta vez tentou beber o chá.
–– Não preciso dizer nada, basta você reunir os manuscritos
perdidos, a este aqui. Não se assuste se acontecer fatos estranhos.
Você acredita em Deus, Marcus?
Não sabia o que responder –– Acho que sim. –– O chá desceu
quadrado, engoliu em seco. O professor Hodgson-Crookes
recusava qualquer participação na investigação. Sabia que as
ameaças retornariam para aquele que buscasse por mikhae.
–– Desde quando o senhor sabe de Lucano?
–– Pouco tempo. Mas sei de tudo. E pode ficar tranquilo, não
contei a ninguém. Como sei que manteve a mesma discrição,
posso dizer que somente nós dois sabemos a verdade.
–– E o que pensa... –– interrompido pelo professor.
–– Nada. Que você encontre mikhae. –– falando como se o
documento fosse alguém vivo. –– Caso surja alguém de sua
confiança, conte tudo. Seja quem for. Como era mesmo, hum,
talvez Princeps militiae coelestis... –– e mantinha o indicador
esquerdo levantado para cima. Uma imagem inesquecível e
estranha de quem dava, a todos, nomes latinos.
Tão logo Bernis chegasse em Paris precisaria de um co-
participante, talvez já tivessem respondido ao seu edital. Depois
do silêncio em que Bernis se entregara, se dispuseram a falar de
outras coisas, banalidades sobre o mundo acadêmico. Recordando
do tempo em que o avô de Bernis e o professor William corriam o
mundo atrás de obscuridades históricas. Marc passou muito tempo
com eles, conhecendo a Escandinávia e suas lendas. E
continuaram discorrendo sobre o passado, as aulas e as
controvérsias que jamais seriam aceitas por um ou pelo outro. E

40
não havia reunião em que não recordassem da primeira expedição,
e brindavam, com chá, São Jorge.
–– Ponto de vista, meu rapaz! Ponto de vista.
–– Se é o que me diz... velho amigo rabugento.
–– Brindemos –– com chá fraco –– aos inimigos que...
–– Tendo pés não nos alcancem,
–– Tendo mãos não nos peguem!

41
3

fantasma não, mãe... índios.

Depois da confusão dos últimos dias era o primeiro


momento de calmaria, apropriada para que se conhecessem
melhor. O que Guarini tinha em mente era justamente como se
apresentaria... Não havia entendido muito bem se era um guia ou
se ainda era um tipo de guardião de armas a partir do encontro
em Trafalgar. É bem verdade que não fora oferecido nenhum
documento ou instrução para Guarini que pudessem revelar as
funções do trabalho, ou deveria considerar as palavras de um
velho monge –– caduco?! –– como a única certeza? Se pudesse
escolher regressaria ao antigo bosque, se preparando para mais
uma nova incursão. Tarde demais... refletiu um pouco
constrangido. Porém teria –– talvez –– a oportunidade de saber
bem do que se tratava por alguém que entenderia o que estava
acontecendo ali.
Ao pórtico da residência dos Fox, barrado por dois guardiões
familiares, que se pareciam muito com guerreiros vikings
famintos por alguma ação, Guarini esperava a licença do Guia da
Casa para poder acompanhar Joshua que acabava de entrar. Um
deles se chamava Asgard e o outro Hyeron. Um era forte e o outro
magro. Um rechonchudo e o outro ossudo. Um era bigodudo e o
outro barbudo. Mas ambos usavam longas tranças louras em cada
lado da cabeça, sob um elmo encardido e pesado. O conjunto da
obra impressionava, sobretudo quando acompanhado por
grunhidos e olhares.

42
–– Seja bem-vindo, meu bom colega de poucas roupas. ––
Aproximou-se frenético o Guia da Casa, quase tropeçando, como
se o pudesse. –– Desculpe a demora, estava inspecionando os
relatórios dos outros... Você é mais novo do que costumo ver por
aí. Quer dizer que o Velho te pôs no jogo? Outro? Muito estranho,
mas não é raro.
Os brutamontes repentinamente mudaram de cara, até parecia
que o verão chegara e os passarinhos cantavam, porque era
cômico como pareciam duas criançolas abestalhadas. Apertando o
novo amigo por entre seus braços grandes, deixou escapar um
longo piscar de olhos de consentimento. Nem bem tinha se
apresentado e já estava dentro do casebre mais cheio de
Amersham. Pessoas das mais diferentes... hum, podemos dizer,
espécies... transitavam por todos os ambientes.
–– Estamos correndo contra o tempo –– aconchegando-se no
chão, perto da mesa de jantar. ––, eu me chamo Naxamuñaca, mas
todos me chamam de tio Xaxá. Sou o Guia da Casa e o
responsável pela organização das tarefas coletivas dos demais
guias que agora inclui você, indiozinho. –– Guarini examinou-o
de cima a baixo, determinando que ele era um pouco mais gordo
do que havia pensado dos guias caseiros. No entanto era muito
mais parecido com ele, com certeza era um indígena ou o foi um
dia, mas de outras bandas. Quanto ao título, este devia se encaixar
muito bem como velho índio gordo –– digo forte ––, com aquela
cara de chefe Touro-Sentado não seria ele o primeiro a
desobedecê-lo, imaginava se não seria canibal também. Quando o
indiozinho –– expressão do tio Xaxá –– conseguiu abrir a boca
para dizer algo, desatou a perguntar tudo que estava engasgado
desde a quinta-feira.
–– Quer dizer que eu sou um guia sem estar devidamente
preparado, nem fiz os exames preparatórios! Será que não foi
engano? Ninguém sabe o que eu tenho com esse curumim, aí? ––
apontando para o pequeno Joshua que voava nos braços do pai
como um avião.
–– Afinal... –– descansando para recuperar o fôlego ––,
alguém pode me dar um copo d’água?
–– Ah, sim. Sei.... bem... não sei. Hummm! –– disse
Naxamuñaca, pausadamente, tentando encontrar as palavras
certas. –– Digo, alguma coisa eu sei... Oh, sei mesmo. Mas assim
43
como você, eu não sei nada do menino... parece-me que o monge
gostava de agir sozinho, se você me entende, hum –– assinalando
para cima e frisando com bastante ênfase. –– Lá de cima, bem lá
de cima. Depois ele não é o primeiro, parece que todos os guias
desta casa têm ares esnobes, nem relatórios apresentam no prazo,
se bem que não reclamo. Serviço de menos.
Agora destrambelhou de vez. Por um tempo os dois se
olharam, Guarini estava estupefato, mesmo que fosse um certo
teatro. Não prestava atenção aos gritos de gol do Patrick ou no
cheiro insuportável dos waffles que a senhora Fox insistia em
assar. –– O senhor quer me dizer que... –– tentando não gaguejar,
praticando seu talento e buscando algo mais.
–– Sim. Talvez você tenha conserto. –– deu por terminado o
relatório o índio gordo, que o alfinetava sondando-o. Descobriu
que não ia saber nada perguntando aos outros, mas pelo menos
soube que tudo era importante demais para dizer não. Refletindo
sobre o que ouviu decidiu duas coisas: se ele estava ali era porque
precisariam dele e se fora escolhido para pajear Joshua era porque
deviam se conhecer de alguma outra paragem. Coisas
complicadas demais para se explicar em poucas palavras. Teria
que fuçar mais a fundo. Por hora aquietou-se, escutando o que
inventariam a seguir, mas mantinha em mente que ele sabia de
algo a mais. Um segredo. Então seria um olho no peixe, outro no
gato.
Naxamuñaca agarrou-se ao braço do índio e de novo derrubou
meia tralha enquanto o puxava porta afora. –– Vamos até o
correio do Centro, temos um serviço extra hoje. Temos que
procurar algumas cartas. –– Não entendendo nada, Guarini fez um
trejeito de quem concordava e retiraram-se atarefados. Por um
gosto todo particular por veículos coletivos –– cheios ––, tio Xaxá
obrigou Guarini a se conformar com uma excursão de mais de
uma hora até o centro de Londres.
Manhã clara e ensolarada para encaminhar correspondências.
–– De quem é a carta? –– replicou, logo após, Naxamuñaca –– É
de um tal de doutor Marc B alguma coisa, hum. Conhece? Gente
boa! Meio confuso, mas tem meio mundo ao seu lado! –– virando
os olhos, clamando forças para suportar o congestionamento e a
conversa fiada dos passageiros que ele não queria ouvir.

44
–– Você acha que ele realmente nos viu? Nós dois, lá? ––
lembrando de algo que aconteceu antes de saírem da casa.
–– Hum –– usando sempre a mesma resposta curta.

Um pouco antes de tudo isso ele acabava de acordar.


Sean sentia-se ainda meio zonzo e desorientado. Por sorte a
cabeça não doía mais. Sem pressa, abrindo os olhos, percebeu que
se encontrava em sua cama; já devia ser de manhã, pois uma fina
luz entrava pela fresta da cortina diretamente sobre seus olhos.
Rangeu, resmungou, mas se levantou.
Os seus olhos ainda não conseguiam ficar abertos, e deste
modo tateou em busca de suas roupas. Apalpou sobre a cama e
nada. Mergulhou as mãos sob a cama e nada. Desistiu. Ergueu-se
num salto só e cambaleante foi até a porta do quarto que se
encontrava descerrada. A claridade do dia fez seus olhos arderem
mais e ele, inexplicavelmente, não tropeçou no degrau do
corredor. Ora com um olho aberto ora passando as mãos pelas
paredes, conseguiu chegar à cozinha. Podia sentir o aroma do café
da manhã com suas torradas amanteigadas e sucos diversos.
O zunzum daquela manhã não parecia o costumeiro ruído de
dia de aula e tampouco havia alguém em casa quando o sol já
mostrava a sua cara. A não ser que fosse o fim do dia... não, não
era tarde, já que os waffles queimados somente eram servidos nas
primeiras horas do dia. Nunca de tarde e jamais à noite. Não por
costume, mas por causa do cheiro, que convinha para acordar os
mais obstinados.
Antes de virar e enfiar a cabeça dentro da cozinha esperou um
pouco para tentar focar os olhos embaçados. Enquanto coçava as
nádegas declarava em bom som. –– Bom Dia! Mãe.
Não respondeu.
Agora já podia ver melhor a cozinha que nunca ficava pronta,
meio pintada de amarelo, com alguns azulejos soltos, os móveis
novos estavam empacotados e encostados ao lado dos velhos. A
luminária quando queria funcionar ficava mais piscando do que
acesa. A única coisa certa e definitiva era uma cortina de pano que
parecia tapar o que não queriam expor. A sua mãe insistia em
fazer os tais waffles flamejantes que só podiam ser preparados na

45
torradeira modificada que seu pai consertou. Por isso era fácil
acordar.
De novo disse: –– ‘Dia, mãe.
Nada. Devia estar realmente irritada.
Foi se aproximando da mesa para pegar algumas torradas e
enquanto declinava sobre o tampo, com os pés levantados, para
alcançar o outro lado, percebeu algo estranho. De soslaio, viu que
havia alguém na sala, que lhe acorreu serem seu pai e Joshua se
preparando para sair. Mas quando foi confirmar a impressão
assustou-se. Seu pai estava lá, usando a camiseta do time e
balançando Joshua de um lado para o outro. Gritava bem alto ––
Vamos, Arsenal. Vamos Red Devils. –– O jogo transcorria
empolgante e sem dúvida não era sexta-feira.
Contudo se Sean chegou, mesmo que breve, a se preocupar
com o que havia acontecido com os dias da semana, fora por
poucos instantes. No outro recinto, a sala de jantar que ficava
contígua à cozinha e à sala de onde assistiam ao jogo, havia mais
alguém. Esticou a cabeça mais um pouco para poder ver melhor.
O susto fora justificado. Duas figuras das mais insólitas, que ele
jamais vira, estavam ali, sentadas no piso. Não sei se perceberam,
mas Sean ficou imóvel, amedrontado. Ali, um índio pelado ––
quase, usava uma tanga –– palestrava com outro, que pelo menos
usava uma calça. Um era magro, tão jovem quanto ele e se
assemelhava muito com esses índios sul-americanos que deviam
comer gente e depois palitava os dentes sossegados. O outro
gordo, velho e com cabelos compridos e prateados que saiam em
volta de sua careca brilhosa, era de outra espécie. Talvez inca ou
asteca ou sei lá o quê. Usava muitas pulseiras e tranqueiras além
do cabelo amarrado em uma trança. De cara se via que era o mais
sábio, mas sentado na sala estavam mais para ladrões ou coisa que
espantasse garotinhos da cidade.
Se não fosse o pavor, a cena toda não passaria de muito
engraçada. Dois índios díspares, acocorados serenamente em casa
de desconhecidos, assistindo às preliminares do campeonato
inglês. Só faltavam o bule e as xícaras de chá acompanhando.
Sean assobiava chamando a mãe e depois fazendo psiu para
os dois que pulavam desvairados na sala por causa do gol de
desempate. E nada.
Resolveu gritar: MÃEEEEEEEEEEEE!!!!!
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Surtiu efeito imediato, só que quem se virou para olhar foram
os índios que conversavam animadamente, se é que monólogo era
conversa. Assustou-se novamente quando o mais velho respondeu
sorrindo: –– Filho... você está nos vendo, hum? –– apontando o
dedo indicador para si. Sean levantou a barra da camisa e apertou-
a contra os olhos. Durante o tempo em que estava se recuperando
para abrir os olhos escorregou um pouco mais para frente. Abriu-
os e eles haviam sumido. –– Ufa! Que susto.
Dormira demais.
Agora só restava comer a torrada.
Viu-se numa situação mais incomum, já não estava longe da
torrada e nem apoiado por cima da mesa... estava literalmente no
meio da mesa. Podia ver seu corpo da cintura para cima como se
houvessem lhe servido num grande prato de jantar, destes que
levam uma maçã à boca. Os olhos aumentaram de tamanho saindo
das órbitas. Para quem conseguisse vê-lo naquele momento,
podiam enxergar as pernas atravessarem o tampo
consideravelmente sólido daquela mesa antiga. Recuou uns passos
e reviu as pernas. Estava mais assustado do que antes.
Desta vez escorregou e caiu traspassando a mesa.
Já estava bastante irrequieto.

Mexia-se balançando os braços e as pernas num frenesi


imenso para se libertar do pano que lhe cobria todo. Num
sobressalto lançou-o ao chão. Estava sentado na cama,
desarrumada. A respiração rápida e a testa suada denotavam que
ele teve um pesadelo daqueles. Agarrou-se para não cair. Quando
pôde, beliscou-se bem forte, e mais de uma vez. Pelo menos não
estava morto. Desta vez viu as roupas postas ao pé do leito e se
vestiu apressado. Reparou que seus cabelos estavam amassados
no reflexo do espelho que ficava no outro lado do quarto e que
sempre o assombrava. Mas antes nem havia percebido o espelho.
Estava bastante desorientado, tonto seria pouco. Ainda sentia
o cheiro dos waffles quentes e os gritos de seu pai, extremamente
eufórico com mais um gol do Arsenal. Era domingo, não sexta-
feira como imaginava. Apalpou o criado-mudo à procura de um
par de óculos que não usava jamais, e que naquela ocasião

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precisava para confirmar onde realmente estava. Aproveitou para
se beliscar mais uma vez. Está bom, estava desperto.
Enquanto enfiava os óculos, uma leve ondulação na imagem
fê-lo apertar os olhos na esperança de se adaptar ao mundo. Uma
parte da haste dos óculos, rachada bem recentemente, puxou
alguns fios de cabelo por cima da orelha obrigando Sean a fazer
uma careta de dor. Acordou mais ainda. Não perdeu muito tempo
se vestindo, tomou a calça jeans larga, enfiou-se numa camiseta
laranja, prendeu uma camisa flanelada à cintura e, tão logo calçou
o tênis saiu em disparada para a cozinha; não sem antes tropeçar
no degrau do corredor... não escapava uma.
Com a mão espalmada apertou bem firme o tampo da mesa
onde antes esteve em dois. Firme como uma rocha. Esticou-se
sorrateiramente para poder ver se os índios estavam lá.
Nada. Não havia passado de um pesadelo.

–– Você acha que ele nos viu? Ou ouviu algo do que


conversávamos? –– perguntou Guarini ao novo amigo durante as
investidas de Sean pela sala de jantar.
–– Se viu ou não viu, agora é tarde, hum. Amanhã estaremos
nos preparando para sair de Londres. É, tenho certeza disso. ––
suspirou prevendo a canseira que uma mudança poderia causar. O
jovem índio nem bem chegara e já estava sendo enxotado. –– Para
onde? Quando? –– vendo toda aquela gente se posicionando,
carregando caixotes, levando alguns documentos e aguardando a
ordem de saída. Como revide obteve uma bem conhecida: –– Só
Deus sabe.
Tio Xaxá agarrou o índio e o carregou até a cozinha onde ele
empilhou alguns livros que seriam transportados. Mirou uma
encadernação muito corroída e pronunciou indistintamente
alguma coisa parecida com ‘acho que é muito velho, ele não deve
saber ler latim’. Selecionou um belo livro prateado que não
parecia ter sido escrito, ainda, e comemorou quando sacou, em
meio ao monte, um livro repolhudo de páginas dobradas. Folheou-
o impassível às insinuações de Guarini, retirando, ao mesmo
tempo, os exemplares que estavam na algibeira do indiozinho.
Jogou-os de lado evitando olhar a expressão de assombro de
Guarini e socou o livro desfolhado dentro.
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–– Este será seu novo livro de cabeceira, nada destes folhetins
da realeza inglesa, apenas franceses. Toma este Julio Verne ––
excepcional ––, muito bom para treinar. Mas não se esqueça de
solicitar um novo dicionário... de bolso desta vez, hum...

Sean ainda estava intrigado.


Caminhou até a sala, atento a qualquer coisa que pudesse ser
estranha. Sarah viu que ele estava diferente. Acercou-se e
baixinho sussurrou: –– Bom Dia! O que está preocupando o meu
mocinho? –– argh! Não gostava de ser tratado como bebê. –– Até
parece que viu fantasma!
–– Fantasma não, mãe... índios. –– e aquietou-se. Sarah não
sabia o que dizer e foi até o escritório organizar alguns papéis,
espiando vez ou outra a cara do filho quando não estava brigando
com o fax. Era para estar preocupadíssima, desde quinta-feira
corria para descobrir o que estava por trás do desmaio. Até mesmo
Patrick ficou temeroso assim que percebeu que o filho estava
adoentado, caído na avenida, sob uma chuva insensível. O que
Sarah considerava bom tratando-se das rixas entre os dois. Enfim,
só não poderia comemorar o episódio por causa dos exames que
confirmavam um discreto tumor na epífise, pequeno, entretanto no
meio da cabeça. E se a cirurgia fosse calamitosa... nem queria
pensar. A sorte estava na coincidência de que Sarah possuía uma
amiga de colégio que é neurocirurgiã das boas, mas estava
operando em Paris nos últimos anos.
Aqueles dois dias foram, ao mesmo tempo, intensos e
esparsos para Guarini. Desde o incidente com Sean ele
experimentava novas obrigações, empurradas pelo velho monge.
Nunca escutou, durante todo o tempo em que esteve a serviço
deles, um caso de câmbio de guias tão absurdo como aquele. Tudo
bem, Joshua acabava de fazer seis anos completos, mas largá-lo
aos cuidados de um novato!
Ainda na quinta-feira, depois de escoltar Joshua ao hospital
em Charing Cross, regressou com os quatro a Amersham. Sentado
inerte sobre a capota do automóvel do senhor Fox, –– enquanto
desfilavam por dezenas de ruas e avenidas –– o índio aborrecido
procurava organizar seus pensamentos e a papelada alusiva ao
curumim. Não adentrou por causa dos guardas truculentos, mas
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deixou claro que não o tentaria até domingo quando deveria se
apresentar ao Guia da Casa.
Lá dentro o jogo já terminara a favor do Arsenal.
Joshua procurou através do canto dos olhos para ver se Sean
estava bem. Pulou do colo do pai, ainda ofegante, para saltar sobre
as pernas de Sean. –– O que aconteceu, mano?
–– Nada de mais, só dormi mal –– e acordei duas vezes,
pensou com seus botões. –– e...
–– Não se lembra de nada?! –– Como Joshua poderia saber?
Mas nem ele sabia que não se lembrava do que aconteceu até
então. Antes mesmo de indagar como, Joshua completou. ––
Deixa para lá. Você só precisa se lembrar de uma coisa. ––
olhando bem nos olhos de Sean. –– Presta bastante atenção nas
mãos.
–– Que mãos? –– falou parecendo meio perdido com tudo que
aconteceu. Abaixou o olhar para as suas mãos, virou-as
examinando cada poro, mas tirando certas unhas imundas,
estavam normais. Não percebeu que durante o exame das mãos os
sons do jogo iam se apagando, já não sentia o odor queimado.
Balançou a cabeça com se estivesse com os ouvidos entupidos.
Olhou para as mãos novamente.
Nesta primorosa ocasião as cartas eram arremessadas porta
adentro; Joshua correu para junto da papelada, separando um
grande envelope pardo e amassado do miolo.
Lá fora os guardas brutamontes faziam cara feia ao carteiro
que parece ter sentido, pois um calafrio percorreu seu corpo, da
ponta do dedo do pé até o mais alto fio de cabelo. O comentário
dos dois estava relacionado à falta de educação dessa gente que
entra sem pedir. –– Tá bom, ele não nos viu. Mas garanto que na
próxima vez ele vai exigir que outro venha entregar as cartas. ––
rindo-se com sotaque gutural e forte quando viram o homem
tropeçar na portinhola e cair, deixando as cartas escorregarem pela
rua. Não foi por maldade, mas era um jeito de dizer para o
mensageiro que da próxima vez que ele fuçasse correspondência
alheia ele teria uma reação à altura. O homem resmungava muito.
–– Não foi coisa nossa. –– falava um dos guardiões com seu
machado enferrujado a tiracolo como querendo se safar. ––
Pergunta pra esse teu Anjo da Guarda aí! Com anjos assim quem
precisa de demônios. Hã?! –– e o outro apontando a clava na
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direção de um rapazote de cabelos cacheados que aplicara a
sentença.
Dentro, Joshua acabava de entregar o envelope para Sarah que
não sabia onde enfiar a cara. –– Abre, abre. –– pulava o pequeno
Joshua. De um lado era possível ver o seu sobrenome, bem claro,
não havia dúvidas. Do outro –– suspirou para não desmaiar ––,
Museu do Louvre, Paris. Departamento de Pesquisa e
Documentação. Monsieur Marc Bernis.
Sua mão tremia durante o exame da sobrecarta, girava de um
lado para o outro, certificando-se que ela se chamava mesmo
Sarah Fox, pesquisadora e historiadora –– mais uma combinação
de paleontóloga com gênio da computação e boas doses de
psicóloga –– formada pela Universidade de Manchester. Era
importante saber quem era porque ali estava algo difícil de se
acreditar. Olhou bem para os três –– que de ombros pareciam não
entender –– indagando o que seria isto.
–– Pois então abra logo! –– apontando para a carta. Rasgou-a
mais cautelosa do que queria e com a ponta dos dedos levantou
um papel. Não, dois. Um era comum. Já o outro se parecia com
um contrato.
–– Contrato de quê? Para assinar alguma enciclopédia? ––
tagarelava angustiado Patrick que suava frio de apreensão diante
de novas contas. O sorriso crescia na boca de Sarah a cada linha
lida; às vezes relia para ver se havia entendido bem. A cada
parágrafo os lábios aumentavam alguns milímetros. Por fim, tinha
acabado. Suspirou de alívio e jogou a missiva para Patrick. ––
Aqui está a resposta aos nossos problemas, acho que vamos para
Paris. –– A carta se referia a um convite de emprego solicitado
por ela dias atrás. Era só elogios. E que precisava de alguém com
aquelas especificações e experiências de campo. Aceitava a
proposta para arranjar uma acomodação temporária e escola para
os filhos. Aguardava-a o mais rápido possível.
Mas havia algo estranho em tudo isso, ela não havia enviado
nenhuma carta. Não tinha pedido casa e colégio e nem sabia ter
realizado metade das coisas que estavam em seu currículo. Só
tinha certeza de uma coisa, quem redigiu seu currículo escrevia
muito mal, porque o próprio senhor Bernis respondera corrigindo
alguns termos e insistindo que com a devida prática poderia

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aperfeiçoar seu francês –– bem, mas ela era francesa desde que
nasceu!
–– Isso está me cheirando a brincadeira de criança. Jox? Por
que você fez isso, e como? –– interpelou-o automaticamente como
se fosse qualquer coisa dessas que todo mundo faz. –– Tinha um
anúncio na revista do colégio, eu pedi para Sean se podíamos
levar para você, mãe. Ele não deixou.
Patrick zombava da circunstância, “bem a calhar esta carta”.
Se Joshua entendia o que queria dizer não deixar, acertadamente
incluía, pois faça você mesmo que é isso que queremos. Não
tinham outra alternativa, se mudariam depressa e Sarah teria que
aprender algumas das velhas experiências de seu currículo.
Na antecâmara, todos aguardavam pela réplica. O tio Xaxá
estava contente pelo procedimento ter dado tão certo e agradecia a
cooperação de guias, protetores e guardiões. A mudança começou
instantaneamente. Guarini ainda estava maravilhado com a
eficácia da trama toda e permanecia com uma dúvida –– entre
tantas que havia desistido de descobrir –– como conseguiram
botar na cabeça do curumim que ele deveria mandar a carta.
Escutando seus pensamentos Naxamuñaca respondeu enquanto
coçava as orelhas. –– O monge pediu e ele fez, oras. Que forma
mais eficiente do que pedir com jeitinho, heim? –– rezingando da
pouca noção que o indiozinho tinha sobre os guias. Pensou em
providenciar, o quanto antes, um guia sobre Guias.
Sarah apertou-se a Sean, mais propriamente ao pescoço, e
girava de exultação. Não havia percebido que a causa da
mudança, a cabeça, estava sendo espremida, chacoalhada e
balançada inescrupulosamente pelas mãos de sua protetora, uma
mãe competente, porém meio destrambelhada naquela
circunstância. –– Ah! Desculpe, Sean. –– Apalpando
delicadamente a cabeça como se fosse consertar quaisquer danos
com simples beijinhos e carinhos. As mães conseguiam ser
estranhas quando queriam, muito estranhas. Agora estava a par de
que possuía um tumor, contudo não parecia aflito.
Quando pararam de girar, ainda meio tonto sentiu uma ligeira
dor de cabeça. Firmou o olhar para um ponto qualquer e esperou o
mundo parar de rodar. Desta vez viu mais do que o recinto onde
estava, os móveis e seus pais. Manchas acinzentadas pareciam se
mover de um lugar para o outro; não eram fáceis de se ver, mas
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elas estavam circulando pela casa toda. Lembrou-se do tumor e
evitou pensar nas esquisitices. –– São por causa do tumor, é, só
pode. Estas manchas não são inteligentes, está tudo na minha
cabeça.
Joshua se acercou do irmão esperando que ele dissesse
alguma coisa sobre a carta e reparou que Sean só fazia olhar para
o nada, forçando a vista e se movendo cautelosamente.
–– Que foi? –– indagou Joshua. Ao que Sean devolveu, sem
perceber que estavam todos lá, respondendo alto e
despreocupadamente. –– Por que estas manchas não param de se
mexer para ver se consigo descobrir o que são? ––
instantaneamente elas pararam. Para a sua surpresa e aflição elas
obedeceram. Ninguém entendeu quando Sean se virou e declarou
em bom e alto som que iria se deitar enquanto se lembrava onde
era o seu quarto. E com sorte só acordar no dia seguinte.
Os demais, as tais manchas transportadoras, que estavam
somente carregando coisas de uma ponta a outra, continuavam
extáticos. Não sabiam se andavam ou ficavam congelados. A
ordem veio de Naxamuñaca, o tio Xaxá, solicitando maior
presteza, pois que o transporte estava marcado para daqui a dois
dias, nas primeiras horas do alvorecer e que se não estivessem lá
de nada teria adiantado conseguir as reservas de última hora para
os três e, que o turrento do senhor Fox ficasse de molho em
Londres. Gritava batendo as mãos como quem quer agilidade.
–– Acho que está na hora, mais um pouco e, hum... ele
enlouquece de vez. Preparem-se para irmos a Paris ajeitarmos
todos os pormenores, hum. –– determinou Naxamuñaca entre uma
reunião e outra. Guarini sentou-se numa atitude confortável vis-à-
vis com Joshua e tentava falar-lhe daquele jeito meio telepático de
se comunicar. Apertava os olhos esperando alguma reação e nada.
Falava devagar e audível –– quase urrando –– na esperança de que
pelo menos ele se movesse do sofá. Nada. Ia providenciar o tal
guia tão logo as coisas se acalmassem. E esse negócio de mudar
para outro lugar exigiria um novo dicionário –– tupinambá-
francês ––, um novo mapa de ruas e contato com pessoal local,
que seria de muita valia para um índio pouco citadino.
Nesta derradeira assembleia pôde ver os guias de cada um,
reunidos para discutir o futuro. Exclusivamente, o guia de Sean
trabalhava só, e quase nunca, jamais, era visto na residência. Os
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outros se compunham do próprio Guarini, que não sabia bem
como se apresentar e duas senhoras. A bisavó de Patrick, senhora
Shelley Fox, era a única que suportava os seus estados de ânimo e;
uma senhora negra de olhar meigo e paciente, daquelas senhoras
enclausuradas para fazer os netos felizes, tricotando algo. Esta era
a guia da Sarah e um pouco distante do prosaico. Guarini tinha
certeza de tê-la visto em algum lugar ultimamente, mas por onde?
Entretanto as mulheres são todas tão parecidas, que detalhes como
roupas, cabelos ou apetrechos são estas pequenas coisas que as
diferenciam, pelo menos matutava Guarini.
Existiam mais alguns, rondando a casa, no entanto não
entravam por causa da guarda de proteção que se posicionava nos
quatros cantos, evitando uma presumível invasão de curiosos.
Asgard e Hyeron davam cobertura e evitavam que invadissem o
lar. Além do mais, proteção por um merecimento que todos
deveriam conquistar.
Figuras estranhíssimas, não pareciam contentes e as caras, em
meio ao turbilhão que circulava, não eram nem um pouco
amistosas. Também pudera, desde o aniversário do pequeno
Joshua, no mês passado, a casa vinha emanando um brilho que
fazia a noite parecer dia.
Mas só eles viam.

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4

tem gente na asa do avião.

O dia parecia realmente bom.


Mesmo que as nuvens insistissem em se reunir outra vez, o
vento procurava afastá-las. Os raios de sol que buscavam, em seus
movimentos aleatórios, atingir a cidade, ofuscavam as pessoas que
saiam para o trabalho logo cedo. A cidade acordava com aquele
estranho clima que surge logo após uma boa estação de
tempestades ocasionais onde o ar fica mais limpo, o céu mais
azul, os gramados muito mais verdes e tudo parece resplandecer
ao brilho da água acumulada que corre aos bueiros.
O acanhado, e vermelho, Ford Fiesta dos Fox já circulava,
corcoveando e balançando pelas estreitas vias que os levariam de
casa ao aeroporto. Um pouco antes, a correria dos primeiros
instantes do dia ia tomando de assalto a rotina dos Fox. Patrick
insistia em ficar –– verdadeiramente contrafeito, devido aos
compromissos já agendados –– até arrumarem a papelada da
venda da casa, dos carros e outras coisas legais. Contudo Patrick
não é destes homens comuns que ajeitam gravatas todos os dias
para irem aos seus escritórios enfadonhos, ele vestia a gravata
para arranjar patrocinadores e manter, segundo suas aparições
contratuais, os velhos. O seu escritório ficava dentro de um
acavalado caminhão que já tinha dado o seu melhor em corridas e
provas de longa distância por todo o globo, era o navegador que
sonhava em ser piloto. Mas era muito mais difícil se livrar dos
contratos do que de velhos hábitos. Por isso o truculento

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caminhão de apoio era forrado de insígnias das quais, uma
centena, jamais sequer ouvira falar. A viagem era a oportunidade
de mudar isto. Também sabia que podia demorar demais, meses,
mas Joshua era o privilegiado que não se importava. Ele ia viajar.
Sarah ficara no encargo de providenciar as passagens, reunir
os passaportes, fazer as malas e qualquer outra coisa que não fosse
tão legal assim. Portanto a Sean e Joshua bastava juntar algumas
tralhas, tomar um bom banho e dizer adeus à Inglaterra.
Já Sean procurava não esbarrar nas roupas arremessadas, do
armário, por Joshua durante o qual tentava calçar as meias que
conseguiu encontrar, um velho par sem elástico que gostava de
usar, mas vivia sendo comida pelo sapato. Apertou o que restava
dentro da mochila desbotada, um livro fino, satisfatório para ser
lido em uma hora, e papel e caneta para brincar de rabiscar algo
durante o voo. Se tivesse tempo se lembraria do que deveria dizer
à médica, as vozes, as sombras, os índios... Bem, talvez não
contasse este último.
–– Calma, crianças. Ainda vamos voltar aqui. –– tentava
enganar, Sarah, com um sorrisinho sonso. A casa estava como
sempre, nada foi empacotado ou removido, com exceção dos
armários que nunca foram desempacotados nos últimos três anos.
Entretanto parecia vazia. As sombras não estavam mais lá, Sean
se assegurou olhando até dentro do vaso sanitário. Porque se
fossem fadas ou duendes queria ter certeza de que existiam.

A viagem até o extremo sudoeste londrino fora como uma


despedida que aos poucos era dissimulada com alguns ensaios de
francês que a senhora Fox tentava aplicar constantemente desde a
sua decisão. Não estavam nem um pouco afim. Para aqueles que
estavam despreocupadamente assentados no carro, os movimentos
bruscos de nada interferiam no nervosismo do embarque. Tudo
aconteceu tão rápido que Sean nem percebeu que estava pronto
para passar por uma elaborada operação cirúrgica. Não estava
pensando no assunto a um bom tempo, mesmo porque a sua
curiosidade estava direcionada às estranhas sombras que
passeavam por todos os lugares que ele olhasse.
Quando se aproximavam da estação de Waterloo, um gato ––
preto, feio de olhos amarelados, parecia até um pouco
chamuscado de fogo –– atravessou correndo à frente do
56
automóvel. A brecada fora tão intensa que parte das malas
subiram e foram cair sobre a motorista. O gato continuava lá,
apesar de estar com os pelos mais arrepiados e os olhos muito
mais esbugalhados do que costumava ficar. Sarah ainda viu o
bichano petrificado por entre os cabelos desarrumados antes que
ele disparasse noutra direção.
Enquanto se recuperavam do susto e dos gritos dos outros
motoristas. –– Lugar de mulher é na cozinha! Vê se não passa
batom enquanto dirige, dona! –– O que considerou uma ofensa ––
Vocês não viram que tinha um gato na rua?! ––, e parece mesmo
que não viram.
Era a oportunidade perfeita de apreciar o que estava
acontecendo no carro. Três distintas personagens pegavam uma
carona com a família Fox e dialogavam, intrigadas com o
incidente, aguardando a partida. Sarah voltou ao banco, se
espremendo entre a bagagem arremessada; suspirou confiante e
saiu como se não houvesse ocorrido nada. O suor que fluía aos
borbotões dizia o contrário. O solavanco foi tão brusco que os
seus passageiros, não-convidados, se atracaram ao teto do
automóvel.
Continuou corcoveando e sacolejando enquanto os três
caroneiros buscavam se firmar sentados sobre a capota. Atrás,
presa ao para-choque traseiro, seguia uma pilha de malas e malões
de pouco menos de vinte e oito pés de altura, que não parecia tão
bem fixada como deveria. A cada curva mais acentuada as malas
guinavam e arqueavam na direção oposta. Quando brecava
inadvertidamente, a pilha batia na cabeça de Guarini que, a essa
altura, preferiria ter ido por meios próprios e mais eficientes.
–– Preciso conversar com Aquele Um sobre o seu gato ficar
bisbilhotando... da próxima vez ele perde o privilégio de ter estes
animaizinhos. –– Tio Xaxá ainda resmungava sobre o imprevisto
e o fato de não gostar muito de gatos ficara definido. Guarini não
gostou do que ouviu, será que eles gostariam de seu bichinho?
Durante a pequena viagem até o aeroporto, Naxamuñaca, Guarini
e a senhora Marie –– a venerável e pacata velhota que era a guia
de Sarah –– discutiam as ações para os eventos que estavam
preparando há alguns dias. A conversa fluía acompanhada por um
saboroso chá de ervas com leite e, nas curvas mais fechadas era
preciso segurar o bule com certa insistência, assim como a pilha
57
de malas que se estendia encurvando-se para os lados sem que
ameaçassem cair sobre os pedestres.
–– Acho que estou pronta para que o senhor Bernis –– quase
que cantando o nome –– chegue até a nossa querida Sarah, mas
você está certo de que Sean não pode vê-lo, ainda? –– Marie
procurava ter certeza, mais uma vez examinando sob os óculos, de
um olhar meigo e decidido, qualquer oscilação dos amigos.
–– Marie! De nada adiantaria se o apresentássemos antes dos
acontecimentos previstos para daqui... –– consultou uma
agendinha embolada –– vejamos, hum... uns sessenta e tantos
dias, hum. –– frisou Naxamuñaca, fungando o nariz –– A graça
está na surpresa, e vai ser das boas, hum. Querida, você não
costuma ser desmancha-prazeres.
Marie se pôs contrafeita diante da insinuação jocosa. Sempre
determinava suas atitudes conforme a necessidade, nunca pelo
improviso. Não querer que as coisas andassem meio na tentativa
desesperada, não a impedia de agir. Se ela não fosse boa, não teria
se deixado convencer. Depois ela gostava de bagunça... pois são
os quietinhos os mais endiabrados, com o perdão da palavra.
Guarini não compreendia o diálogo e cada tentame de se
intrometer era calado veemente por um biscoitinho enfiado goela
abaixo pela senhora Marie, que de burra não tinha nada, nem cara.
Desprendeu-se inteiramente da conversa observando os estranhos
transeuntes que continuavam tão atarefados como se fugissem de
algo. A certo momento, distante a tudo, Guarini se surpreendeu
sendo afrontado pelos dois como se estivessem esperando alguma
resposta. –– E então, vai nos ajudar? –– se lhe fosse possível se
esconder, o teria feito, mas teve que perguntar acanhado: ––
Como? O quê?
–– Ora, criança. Vai nos ajudar a manter Sean longe do senhor
Bernis? –– Nem conhecia o tal Bernis, e por que os guias dos
envolvidos não tomavam as providências? Será que não poderia
sequer saber o porquê? Os dois, desconfiando das intenções do
indiozinho resolveram contar, mas só uma parte deste segredo que
não era o mesmo. –– Tá bom. Você merece saber. O monge me
paga, se paga. –– pigarreou profundamente Naxamuñaca, batendo
a mão contra a perna –– Nós estamos adiantando os nossos planos
e para isso precisamos que Sean realize a cirurgia antes de
conhecer algumas... –– aguardando que Guarini compreendesse.
58
–– Pessoas? –– completou o indiozinho.
–– Também, e alguns como nós! –– apontava o dedo
atrapalhado de um lado para o outro, fingindo nada sério enquanto
ajeitava a sua trança. Guarini não parecia pego de surpresa, tanto
que fez uma cara como se dissesse “e daí”. Marie percebeu os
olhares vagos e abriu a boca para explicar melhor. –– É que não
fazia parte dos nossos planos que Sean, que ele precisasse nos ver
tão cedo. –– esperando que o carro parasse de balançar para servir
mais chá –– Por isso não podemos meramente agir do lado de cá.
O tumor deveria conter as visões até que ele tivesse uns dezenove
anos, acho. É, isso mesmo. –– puxando pela memória.
–– E tivemos que acelerar o processo todo, inclusive capacitar
os médicos para que... hum... soubessem como operá-lo; se fosse
no ano passado estaríamos, desculpem, ferrados. Sabe, esse
negócio de células-tronco, clonagem e tudo mais são um efeito
colateral das nossas interferências sobre eles. –– revelou tio Xaxá
examinando cada expressão de Guarini, que naquele instante
estava ficando intrigado, deixando parte do chá cair sobre suas
pernas. –– E eles ainda acham que são coincidências, e todo
trabalho que tivemos? Depois tem o tumor, que tivemos que
inchar um pouquinho. Não creio que tenha comprometido o
garoto, mas na dúvida...
Desta vez o silêncio caiu como uma pedra, assim como aquela
que pesava dentro do estômago, que mortos não deveriam ter, mas
tinham. Ninguém tinha a pretensão de falar algo mais quando
Guarini indagou-os sobre o motivo de darem tanta importância
para um garoto tão problemático, tão comum. Mas ele sabia que
não era bem assim.
–– Bem, você deve saber, vem de uma casa de guardiões, não
é mesmo? Como andam as falanges das Cidades Baixas? ––
Guarini engasgou ante a revelação, por que não havia percebido
antes? No entanto jamais pensou em fazer parte de um esquema
tão amplo. Mesmo antes de responder à pergunta de Marie,
sussurrou: –– Então estamos todos envolvidos? –– a resposta veio
com um aceno afirmativo e sincronizado de ambos.
–– Já era habitual que tais grupos atacassem alguns postos
avançados sem conseguir nada de valor. Estão cada vez mais
impacientes e seus agrupamentos mais organizados. A corrente
das fraternidades, os sábios, acha que eles não estão só atacando,
59
mas evitando que os guardiões... –– recuperando-se, Guarini,
depois de mais uma lambada na cabeça ––... penetrem em seus
territórios para vigiá-los. É como se eles estivessem se
defendendo. Como vocês sabem, não interferimos, mas dá o que
pensar. Mesmo assim, o que o garoto tem a ver com essa
mobilização toda? –– Ele nem parecia índio, talvez uma gravata
lhe caísse muito bem.
–– Acabamos de ser requeridos, de modo bastante gentil, para
fazer parte da segurança de Marc Bernis... –– o indiozinho
nervoso sorveu o último gole frio que havia em sua chávena –– e
consequentemente dos manuscritos que ele batizou de códex
mikhae.
Reparou ligeiro, engasgando com uma folha de limão. –– Não
abertamente, pois estamos lidando com um evento comum entre
Bernis e Sean, muito corriqueiro. Assim que possível eu conto o
que pretendemos, conquanto que tenha bastante e inexaurível
paciência.
Um clique em sua cabeça parece ter sido acionado, Guarini
começava a ver o que estava acontecendo mais rápido do que um
mais um é dois. Naxamuñaca e Marie sorriram em cumplicidade.
Guarini começava a compreender o segredo. Todos estavam
vendo o problema de ângulos diferentes, e cada um com o seu
segredo particular que não revelariam enquanto pudessem. Nem
sempre era desejável que ficassem a par de todos os detalhes.
Conheciam um ditado que dizia que quanto menos soubessem,
melhor o acaso trabalharia a favor. Estavam confiando nesta
máxima, porém se entreolharam com certeza de estavam
escondendo vários segredos.
Por um momento continuaram assistindo o vai-e-vem dos
carros no cenário londrino. O burburinho das máquinas não estava
mais tão distante quanto antes. Tio Xaxá re-encetou: –– Desde
agora nos fechamos ao falatório, bico calado. Dizem que os
rastreadores estão cada vez mais presentes. Aliás, alguns já
viram, ou melhor, ouviram, os dragões andando por aí. ––
assinalando para baixo, no interior do automóvel. –– Pelo menos
tivemos a chance de improvisar um novo plano, mas tudo depende
desta intervenção cirúrgica. E, sobretudo das escolhas que o
menino possa fazer, de suas próprias escolhas. Mas a minha

60
curiosidade é quanto às de Marc Bernis, gostaria de saber como
ele está. Hum!
Guarini compreendia. Marie declarou-se radiante ante a
perspectiva de ganhar a batalha, de um jeito só dela, arrumando o
coque e alisando a roupa. Uma batalha muito desigual, não havia
bons e maus, mas sim, intenções contraditórias. Apesar dos
dragões estarem em oposição aos desígnios do amor, eram seres
dignos de perdão. Afinal não somos todos imperfeitos?
–– Não nos precipitemos porque a...
––... porque a ordem sempre vem lá de cima! –– disse o
indiozinho indicando com o dedo o céu acima deles. Talvez um
pouco mais para a direita, pensou. E olharam, soltando um
muxoxo de ansiedade. O tráfego da M25 continuava bastante
congestionado, além das buzinas que não paravam de soar. Tanto
esforço por um só garoto? Só se Marc era a causa.
–– É, por enquanto serve, não é Marie? –– olhando em
socorro para a recatada senhora que guardava seu bule e xícaras
numa bolsinha a tiracolo. Mais uma parada seguida de solavancos
e chegavam ao portão de embarque do Terminal Três do aeroporto
de Heathrow. Esvaziaram o pequeno Ford em questão de
segundos, ajeitando a bagagem como podiam sobre dois
carrinhos.
–– Vou estacionar o carro e volto em seguida, vão até o
saguão da companhia aérea e me esperem. E nada de sumirem,
pois estamos em cima da hora. –– gritou Sarah, bufando durante
uma complicada tarefa de procurar as chaves entre os bancos.
Sean se agarrara ao carrinho mais pesado e firmou bem os pés
antes de conseguir algum resultado. Joshua o seguia com um
carrinho que tinha somente algumas sacolas quando se
deslumbrou com as portas automáticas que se abriram sozinhas.
Seguidos bem de perto pelos acompanhantes, eles foram se
postar contíguo à grande área de embarque que dava diretamente
para a pista de decolagem que estariam usando em poucos
minutos. O aeroporto era magnífico, sua estrutura se alongava em
centenas de pés parecendo uma enorme caixa de vidro e ferro. Os
passageiros que se moviam pelo espaço, circulando entre lojas,
balcões e telefones públicos acabavam de embarcar ou
desembarcar. O barulho não era muito alto, podiam escutar vários
rangidos, de tênis e sapatos sobre o soalho elástico que tentavam
61
se sobrepor ao som das esteiras e dos aviões que se aproximavam
das hastes de atracação.
Sean aproximou-se da vidraça encarando a circulação de
homens e carros que chegavam e saiam dos aviões estacionados.
Lembravam formigas. Joshua não perdeu tempo e se ajeitou por
entre as pernas do irmão enfiando o nariz batatudo contra o vidro
impecavelmente limpo. De vez em quando ele fitava o saguão à
caça de sua mãe e o nariz raspava pela janela com um barulhento
fluip.
–– Você está preocupado com a cirurgia? –– soltou Joshua
entre as divagações de Sean.
–– Estou, mas parece que eu não deveria. –– algo dentro dele
dizia que era só uma desculpa para outra coisa. –– Quando penso
naquelas esquisitices que vinham acontecendo, eu fico mais
curioso para saber se era, realmente, só a minha imaginação ou se
existiam... –– calou-se quando percebeu que estava gastando sua
conversa com um pirralho de seis anos. Joshua nem se importou,
havia preferido olhar um gigantesco avião prateado decolando.
Sua cabeça continuava doendo e nestes momentos esforçava-se
para se concentrar em algo que não fossem as sombras, que
ficavam cada vez mais nítidas. Até viu três destes vultos
enfumaçados acompanhando-o pelo aeroporto. Ficou inquieto,
mas fingia que não era com ele. Logo depois as sombras mudaram
de rumo e se afastaram silenciosas.

Naxamuñaca ia ciceroneando a modesta comitiva, apontando


o balcão de atendimento onde seriam recepcionados.
Atravessaram o terminal todo antes de saírem por um campo
indicando: acesso ao Terminal Seis. Assim que entraram, viram
que o Terminal fervilhava de pessoas que buscavam informações
ou simplesmente embarcavam ou desembarcavam de suas
aeronaves. No Terminal número Três havia uma grande
quantidade de gente circulando, mas no Seis extrapolava qualquer
previsão. As vozes da multidão abafavam os sinais que advertiam
a partida ou a chegada, determinando que os três fossem sem
demora a uma ampla sala transparente, de controle e
monitoramento, onde deveriam se apresentar.

62
Talvez Sarah não compartilhasse da mesma opinião de
Guarini, pois raramente vira um terminal tão vazio e calmo. A
todo o momento as plaquetas mudavam, lembrando os voos
daquele dia e daqueles que foram cancelados devido às ameaças
terroristas corriqueiras. Exatamente por essa razão o aeroporto se
encontrava deserto, quase. Ao longe, aguardando o aviso de
embarque durante a vistoria de bagagens e passaportes, Sarah,
Sean e Joshua fitavam as obras de construção do Terminal Cinco.
Alguns pilares colocados, muitos andaimes e barro espalhado. Um
informativo dava detalhes de mais dois terminais ainda a serem
construídos, futuramente.
Guarini olhava obstupefato para o edifício, espantosas vigas
metálicas encurvadas formavam a sua suave cobertura. Gente de
todas as nacionalidades andavam preguiçosamente conversando,
apreensivas e temerosas sobre a viagem que estariam fazendo.
Pôde ouvir alguns grupos que embarcariam para algumas Cidades
Altas próximas. Mas a maioria seria redirecionada para os outros
terminais, com escala em Cidades Médias com as quais estão
mais acostumadas.
Perto do controle, a senhora Marie se adiantou entregando
alguns papéis que descobriria mais tarde serem licenças
exclusivas de embarque. Naxamuñaca se apressou em cortejar
dois senhores que vieram em sua direção bastante tensos, num
frenesi diferente do que estavam acostumados.
Um se apresentou como Diretor do Terminal, Sr. Wright,
adotando um impecável terno cinza que não combinava com a
mixórdia. O senhor Wright recebeu um envelope das mãos do
segundo homem, este parecia ser um secretário, pois parecia
alarmado e muito mais cansado que o próprio diretor, como
alguém que trabalha muito mais do que o patrão. Seu nome era
Ken Webster. A expressão dos dois homens denotava que, aos
olhos de Guarini, tinham extremo respeito pelo tio Xaxá. O
secretário chegava a gaguejar de agonia, mas até podia ser gago
de verdade.
–– Caro Senhor Naxamuñaca. Vejo que ainda usa estes
antigos salvo-condutos. –– abrindo um sorriso escorregadio. ––
As autorizações já foram entregues antecipadamente, alguém
muito respeitável zela por vocês. –– Tio Xaxá confirmou
balançando a cabeça e insinuando que prosseguissem. O velho
63
senhor Wright retornou à sala de operações de onde centenas de
funcionários laboravam entregues aos seus computadores. O
fulgor e a higiene do ambiente dava ao lugar a impressão de que
estavam antevendo o amanhã. Luzes que piscavam, corroborando
os voos, flutuavam pelo saguão como se não tivessem qualquer
sustentação aparente. No balcão de informações, os terminais
individuais indicavam, através de complexos hologramas, o rumo
a tomar. Se não sabiam como circular, uma flecha surgia
igualmente flutuando desde o terminal até o ponto final. Para
Naxamuñaca estas tecnologias eram necessárias, mas se pudesse
evitá-las, o faria. Definitivamente não precisava delas, mas teria
que usá-las um pouquinho nesta manhã.
Quando o senhor Wright voltou, trazia consigo novos
documentos que se assemelhavam a computadores de bolso da
dimensão de um cartão e, um manual do tamanho de uma bíblia
de mesa. Tio Xaxá examinou-os –– Sr. Wright confirmou que teve
que substituir os arcaicos condutos de papel –– e lançou-os para
que Guarini os pusesse no embornal que subitamente cheirava a
queimado e chiou com o peso. A vantagem era que os tais cartões
ocupavam bem menos espaço e o voo seria a ocasião ideal para
aprender como.
–– Senhores –– declarou Wright ––, sigam o senhor Webster
que ele os levará ao setor de embarque do Terminal Três. Estamos
operando em estado de extrema urgência como podem ver. E este
terminal deve ser desativado ainda hoje, portanto sejam rápidos.
Não é sempre que montamos rotas de deslocamento desta
magnitude e aparelhamento, verdadeiras rotas de fuga em massa.
A coordenadoria de serviços gerais montou um posto inigualável
e contamos com o suporte da coordenadoria de proteção por causa
dos tumultos. Então, boa sorte. –– tranquilamente o senhor
Webster assinalou o caminho passando por um holograma que
contava os pormenores das Cidades Altas situadas na Grã-
Bretanha a uma velha senhora vitoriana perdida, que insistia em
saber onde ficavam os bondes que iam para Avery Park.
Viraram-se e saíram pelo portão, retornando ao Terminal Três
pelo exterior. A senhora Marie correu, com dignidade que
aparentava, para se juntar a eles. Ofereceu um cartão para
Naxamuñaca e outro para Guarini assoprando instruções: –– Não
diga nada, estamos disfarçados para não chamar a atenção,
64
simplesmente embarque e relaxe. –– Como se precisasse mentir,
não sabia nada mesmo. Aliás, o que ela queria dizer com
disfarçado, sendo que dois índios em meio a centenas de alegorias
jamais seriam notados. Uma multidão de gente estranha; até
mesmo uns elementais que brigavam por uma sala very important
person.
–– Sorria. Se quiser ir ao banheiro, a hora é esta. –– piscou a
graciosa Marie, imitando uma mãe zelosa. A brincadeira ajudou a
descontrair. Guarini aproveitou a chance para perguntar ao jovem
Webster a causa de tanta desordem na Inglaterra.
–– Evidentemente ouviram falar dos ataques constantes em
Londres! Não?! Parece que um exército por fim conseguiu
assustar essa gente... Junte a isso os esforços de guardiões, não tão
discretos quanto costumavam ser –– enquanto retirava alguns
cartões do bolso com as imagens divulgadas ––, e uma
significante movimentação bem concentrada na França. E aí
temos todo esse caos. –– Mantinha o olhar sério ante as
fotografias que figuravam extensas legiões marchando
atropeladamente sobre Londres, como ele mesmo vira há dias,
junto ao monge, de dentro do ônibus vermelho.
Em instantes estavam emparelhados ao extraordinário Boing
747 da Air France com destino a Paris. Pelo finger de acesso ao
avião, que saia do Terminal número Três, os passageiros se
acomodavam aos assentos numerados assim que a comissária de
bordo insinuava os lugares certos com mãos galantes e sorrisos
mil. Fora, duas pranchas que levitavam, posicionadas em cada
asa, davam ingresso a certas pessoas que não constavam na lista
normal de passageiros. Indistintamente eram, também, guiadas
por prestimosas comissárias que asseguravam as acomodações
indispensáveis a cada um deles. Enquanto os passageiros
cadastrados pela companhia aérea descansavam entre as variadas
classes de conforto, os passageiros especiais eram acomodados
em belíssimas poltronas dispostas por todo o alcance da asa.
Alguns assentos compunham-se de íntimos ambientes como uma
saleta de reuniões bem equipada. E em uma dessas baias estava se
espreguiçando Naxamuñaca e seus dois companheiros de viagem.
–– Sei que não precisaríamos usar estes transportes, mas é
muito mais emocionante, chegam até a ser elegantes. E assim, no
meio de toda essa gente ‘pesada’ ficaremos incólumes. ––
65
bocejando mais uma vez. –– Sempre gostei de voar, mas desse
jeito é mais divertido, pode dizer que sou antiquado.
–– Por que não nos sentamos lá dentro?
–– Não gostaria que alguém sentasse em mim, não é?
O compartimento da asa de um superjumbo é, conforme o seu
projeto, grande demais, mas não daria para arranjar tanta gente
sem que tivessem que fazer um certo contorcionismo entre cabos,
fios, canos, placas, tanques, máquinas e mostradores. Decerto eles
estavam lá, como se toda essa tralha tivesse sido afastada,
ganhando um espaço que não condizia com o exterior. Einstein
enlouqueceria de prazer.

O piloto começou a taxiar pela pista.


O dia começou a clarear mais, se tornando mais quente. Os
passageiros já bebiam alguns drinques conjeturando sobre a
decolagem; no entanto, os outros passageiros vislumbravam um
dirigível que alçava voo, levando seus ocupantes para uma outra
paragem não tão fácil de atingir. Acima dos compartimentos de
passageiros do aeróstato lia-se um fulgurante: Hindenburg.
–– Tem gente que só confia naquilo que conhece... –– sibilou
tio Xaxá abaixando o assento para repousar, admirando o céu
através das gigantescas aberturas na asa. Um operador gesticulava
sobre a asa, rodando seu indicador para que o fluxo de anjos a
frente fosse interrompido durante o voo. O avião acabava de
decolar com o estampido das rodas saindo do solo. E Guarini
aproveitava para decifrar o manual, lançando-o sobre a mesinha
que se quebrou com o peso.
Sean se encostara ao irmão para ver a decolagem pela
diminuta abertura. O céu estava límpido, mas algumas nuvens
apareciam como flocos translúcidos que cobriam por algum tempo
o avião. Assim que uma brecha apareceu por entre as poucas
nuvens distinguiu, em uma clareira próxima do aeroporto, uma
movimentação insólita. Como não estavam longe suficientes do
chão, deu para Sean ver nitidamente uma grande aglomeração
como se fosse um exército e seus regimentos. Não era tão grande
assim. Mas o que despertou o seu interesse foram os uniformes
vermelhos com capas e metais presos. Pensou ver lanças e
cavalos. Mais nada depois. Após cutucar Joshua e tornar para a

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janelinha, já haviam sumido. Uma sensação de dejà vu
permanecera por mais tempo.
–– Juro que tinha algo, bem lá naquele buraco –– dizendo
para si ––, devo estar enlouquecendo. –– devia ser a pressão do ar
misturado com um pouco de sono, pensou.
No fundo da aeronave, uma garotinha berrava com os pais ––
Olha! Tem gente na asa do avião, tem até... –– segurando um
pouco –– um gato. Impacientes, colocaram-na nos assentos do
corredor ameaçando umas boas palmadas se voltasse a mentir.
–– E o gato?! –– menina insistente.

67
5

acredita em fantasmas?

Pousar os pés em Paris fora bem mais complexo do que


esperavam, sem transporte ou outra alternativa antepensada;
aguardavam que alguém fosse buscá-los, mas Sarah recordou que
não havia feito nenhum contato prévio. Apenas achava que seria
simples.
E foi.
Resolveu não se entregar ao desespero –– ou melhor, à burrice
–– e vasculhou por alguma cabine telefônica. Assim que puxou o
gancho percebeu que não havia cambiado nenhum euros antes de
partir de Londres. Agrupou os filhos e pediu tranquilidade ––
agora eles estavam sinceramente assustados –– enquanto iria
buscar ajuda que lhe valesse. Sean e Joshua não paravam de olhar
em todas as direções; admirados por estarem em outro país.
Aguardavam ansiosos para poder fugir do aeroporto e apreciar a
cidade. Sean cultivava a mesma índole de quem não estava nem aí
com o que estava acontecendo, parecia um chato de fato. Estava
até um pouco mais alegre, mas nada que pudesse ser apreciado.
Uma vibrante carta geográfica da cidade de Paris dava-lhe a
aparência de um grande limão que não estava nada risonho. Com
um sorriso caído que se chamava rio Sena. Seus lábios eram
rematados por bochechas bem verdes, o bois de Vincennes e bois
de Boulogne. Onde os lábios se abriam em um suspiro singelo de
quem estava pouco se importando com o mundo, ficava a ilha da
Cité e sua congênere de Saint-Louis. Talvez por estas observações

68
New York fosse uma big apple, se bem que nem se parecia com
uma.
O turbilhão dentro do saguão era muito parecido com o do
aeroporto de Londres, com exceção do número reduzido de
guarda-chuvas e do sotaque melodioso que os franceses possuíam.
Era incrível a sensação. Joshua estava sempre pasmado, fazendo
com que seu irmão ficasse apertando com certa repetição sua
mandíbula. –– Pare de babar, tá chamando atenção. Quer que te
chamem de... –– experimentou em francês, não muito feliz com a
experiência.
Embora Sarah não soubesse por onde começar, nem precisou
deslocar alguns metros e esbarrou com a solução. O rapaz, bem
mais jovem do que ela, sorriu pedindo escusas –– como se fosse
ele o desligado.
–– Você está precisando de algo, senhora?
–– Sim, preciso, sim... Sim. Estou desesperada e não conheço
ninguém nessa cidade. –– tremia enquanto recuperava o fôlego.
–– Pois não está mais. Se me seguir, agora, posso levá-la até o
seu avião, qual é o número do portão de embarque? –– desconfiou
ele que, não vendo nenhuma mala, elas já tivessem sido levadas.
–– Não, eu acabei de chegar, estou com os meus filhos. ––
verificando que o sorriso do rosto do rapaz havia desaparecido.
De cabelos curtos e claros, vestindo-se relaxadamente de modo a
aparentar menos de dezoito anos, com calças que parecem um
armário de tantos bolsos largos que tinham, esticou sua mão para
se apresentar. –– Prazer. Bem-vinda a Paris, sou Marc.
Sarah percebeu a gafe e se apresentou. –– Me chamo Sarah,
Sarah Fox.
–– De Londres?
–– Sim?! –– virando a cabeça perplexa.
–– Procurando emprego? Ou pelo menos se apresentando para
um? –– rindo da coincidência. Podia jurar que uma voz na sua
cabeça insistia em dizer: coincidência não existe. Com os olhos
apertados esperava que ela completasse.
–– S-sim?! –– mais admirada, decerto um bom vidente.
Bernis simplesmente ergueu os braços e sinalizando para si
concluiu: –– Então eu devo ser o seu chefe! –– Aquele rapaz
desconcertou o mundo de Sarah. Imaginava-o um velhote
arquejante que não conseguia levantar sequer sua papelada
69
embolorada de escritório ou que apenas precisasse de alguém que
fizesse uma faxina, e só. Mas, diante de Bernis, só conseguiu
grunhir ou balbuciar algo parecido com: –– Sr. Marc Bernis?
–– Mais ou menos isso –– percebendo que a pronúncia não
era exatamente essa ––, mas me chame de Marc.
O resto foi muito mais simples, ele apertou alguns dígitos
solicitando para que o motorista que o havia levado ao aeroporto
voltasse. Escreveu um endereço em uma mensagem garranchosa
pedindo para confiar as chaves do seu apartamento e, finalmente,
alguns euros antecipados a contragosto de Sarah. Estava salva.
Mas ainda teria que ver bem quem é esse Marc, realmente muito
estranho o rapaz. Nem se lembrou de interrogar o que faria no
museu, mas imaginou que coisa séria não podia ser –– bem, ele
não devia ser experiente, não devia ter nem vinte anos!

Guarini cumprira a promessa e afastou Sean de Bernis


instigando um gorducho a fazer suas perguntas, não no balcão de
informações do aeroporto CDG2, mas para quem estava mais
perto, que nesse caso era Sean. O gordão, do tipo germânico bufão
e falante, ficou contando sua viagem e o que aconteceu quando o
seu avião despencou alguns metros durante uma turbulência
horrorosa. Balançava de um lado para o outro impedindo que os
meninos procurassem a mãe. O garoto tentava empurrar os
cabelos rebeldes para achar a mãe antes que o alemão começasse
a narrar estórias mais extensas e entediantes, quase pensou em
puxar o rádio do bolso e virar as costas. Mas foi o tempo exato
para Sarah voltar e contar as novidades sem que ele pudesse se
deparar com Marc. Alguma coisa despertara a antiga dor de
cabeça.
A senhora Marie rumaria para o apartamento com os três
enquanto os dois índios, num desvairo absurdo, iriam direto para a
nova casa dos Fox, que nem os Fox sabiam. Apesar disso, Guarini
retrucou por achar mais importante cumprir suas obrigações de
guia e acompanhar Joshua. Ao que tio Xaxá discordou energético.
–– Não tem nada que você possa fazer pelo menino que já não
estejam fazendo... hum... Precisamos de você, rapaz, para outro
servicinho. Prometo que conto tudo. –– não muito preocupado

70
com o que Guarini fosse pensar de sua desorganização, não se
comprometia com tabelas, mas com tanta atividade na área, hã?
–– Espero que sim, senão me demito. –– e ambos riram.

Sarah teria outras preocupações.


Alguns dias depois Sean já se preparava para a imprevista
cirurgia. Conhecera um pouco da doutora Mel Göettees e pelo
menos essa não era tão gosmenta e pomposa como os médicos de
Londres. Estava calmo, e bota calmo nisso. A exposição dos
procedimentos e a confiança que a doutora Mel passava era tão
positiva que se ele morresse não precisaria incriminá-la diante de
Deus. No entanto tinha uma pontinha de inquietação que preferia
esconder para si. Não disse nada sobre as sombras que lhe
escoltava. Quando acabassem as esquisitices, ele contaria à
médica o que acontecia, e se não parassem? Não, não pensaria
nisto até depois da operação.
A doutora Mel era o tipo de pessoa que não se poderia definir
em duas ou três palavras somente, tinha um modo de agir que não
batia com seu modo de se apresentar. Se por um lado era bastante
profissional e até falava difícil como os médicos –– e a letra,
igualzinha, padronizada em garranchos indecifráveis ––, pelo
outro era uma verdadeira desleixada. Por baixo do jaleco branco,
que era a única peça coerente, exibia uma coleção de cores
abusivas que assustariam um pavão. O cabelo era um mundo à
parte, cada pedaço das curtas mechas que tinha, estava arrumado
para que nenhuma das madeixas estivessem na mesma direção.
Portanto, por trás das três camadas de tons dos cabelos claros,
organizados desorganizadamente, sorria despreocupada alguém
muito especial que só aguardava os pais de Sean se despedirem.
Sean despediu-se da mãe, do pai e do irmãozinho durante o
período em que o remédio fazia efeito lentamente. Percebeu que
era deslocado pelo corredor a cada vez que enxergava as luzes se
movendo. As vozes foram se apagando. Queria gritar, desistir de
tudo, voltar. De fato sentia meio abobalhado sob o efeito das
drogas e nem teria se surpreendido se o cortassem em dois com
uma faca cega de manteiga.
Um pouco antes de fechar os olhos ouviu alguém lhe dizer
com muita convicção: –– ‘Alguém vai lhe fazer algumas
71
perguntas assim que tudo terminar, não se assuste, estaremos
ajudando os médicos’. Não deu maior importância, a vista estava
turva e a mente adormecida.
A equipe já estava posicionada na sala cirúrgica, arrumando
máscaras, luvas e instrumentos para a operação. A tensão contava
seus minutos. Alguns assistentes contavam piadas para descontrair
o ambiente. Além da engraçada sensação de aperto, havia uma
alegria quase eufórica como se eles fossem invencíveis e, a
intervenção um passeio no parque.
Para os familiares o relógio era preciso até demais. Se a
operação fosse acabar às vinte e trinta, lá estavam Sarah e Patrick
de rostos colados à porta que dava acesso ao corredor de
transferência ao centro de cuidados intensivos do Hospital Val-de-
Grâce. Bem, era verdade que ainda eram dezenove horas, mas
quem não ficaria com os nervos em frangalhos tendo um filho em
complicada cirurgia cerebral? E tudo consistia em abrir uma
minúscula fenda pelo nariz alcançando a região afetada, fazer um
pequeno diagnóstico, encaminhar parte do tumor para uma biópsia
a jato e voilà.
Para parecer mais simples, impossível. Posto que a doutora
Mel ficou entusiasmada demais com todo o processo. Para ela, e
sua equipe de seis auxiliares, era sempre uma chance de aprimorar
as técnicas, tirar a teias, mas desta vez foi diferente. Sentiam uma
confiança como nunca antes. A mão estava mais firme do que se
recordava e a cabeça raciocinava mais rápida do que conseguia
pensar.
Um pouco antes de a cirurgia terminar, depois de horas de
trabalho, a médica ordenou que Sean fosse despertado pela
supressão dos medicamentos como que para testar as áreas
afetadas com a ajuda de um aparelho de ressonância magnética e
algumas perguntas bem simples. Perguntas que serviriam de
avaliação –– Qual o seu nome? –– se respondesse melão,
saberiam que algo estava errado. Sean, aos poucos foi
despertando, não sentia dor. Algumas lâmpadas foram enfiadas
em seus olhos que responderam instantaneamente lacrimejando.
–– Ele acordou, doutora. A resposta das pupilas parece
normal. –– disse alguém com máscara verde que transpirava
muito. Não teve tempo de avaliar o que acontecia quando outro

72
médico verde de rosto coberto se aproximou com alguns trecos na
mão.
–– Sean, você se lembra onde está? –– olhando fixamente
para um monitor barulhento.
–– Hos... pi... tal?! –– falando pelo canto da boca num
sussurro inaudível por entre os tubos de respiração. E o rosto
branco ganhou um leve rubor quando a médica deu um salto de
alegria batendo a testa no equipamento em volta. Seriam três
pontos, ali mesmo, na sala cirúrgica.
–– Acho que ele disse hospital. –– A doutora Mel encostou ao
lado de Sean, podia vislumbrar o sorriso atrás do pano que lhe
cobria o rosto. Pôs as mãos sobre a testa confirmando: –– Sim,
parece que está tudo certo, meu filho. Calma aí. Estamos
terminando. –– e fez um OK esplêndido, seguido de alguns
aplausos da equipe. Sempre com a mão à testa.
O que Sean viu a seguir talvez fosse a sua imaginação ou
algum efeito dos medicamentos, pois atrás de cada médico e
enfermeiro esverdeado havia mais duas ou três pessoas vestindo
uniformes estranhos que pareciam fulgurar na penumbra, aliás,
eles pareciam brilhar também. O que estava adjacente à médica
erguia os braços sobre seus ombros enquanto outros analisavam
aparelhagem indefinida. Monitores translúcidos flutuavam diante
deles diagnosticando gráficos e órgãos que se agitavam em tempo
real. Mas o tempo estava acabando, administraram novamente os
anestésicos.
Pôde ouvir desencontrados pareceres.
–– Mais fluido... Verifiquem se ocorreu o desligamento com
os cirurgiões... Desmobilizem a equipe de emergência. Contate o
Dr. Basha no Núcleo de Desenvolvimento de Medicina e lhe
informe que terminou conforme esperado. Ainda estamos
enfrentando problemas com um pequeno grupo invasor, portanto
nos envie proteção imediata. –– Só teve tempo de virar um pouco
a cabeça e ver-se a si mesmo, de pé, como uma imagem refletida,
não se importando tanto e, em seguida, um cilindro ofuscante,
antes de dormir pela segunda vez.

Entre um momento e outro se passaria muitas horas, porém o


organismo não pressentiria este lapso de tempo. Assim como
dormiu, acordou sem maiores recordações dolorosas. Muito
73
silêncio e escuridão rodeavam Sean quando despertou no aposento
de terapia intensiva. Estava só, ou pelo menos pensava que estava.
Assim que os seus olhos se acostumaram com o breu, percebeu
alguns aparelhos bipando e luzindo espalhados ao seu redor. O
nariz doía horrores e os braços pareciam presos por fios e agulhas.
Suportou tudo com calma, aguardando que alguma enfermeira de
passagem pudesse vê-lo desperto e chamasse seus pais. Não
queria ficar só. Será que as visões se acabaram, terminaram para
sempre? Teria que esperar para descobrir –– mas não muito.
Estava tudo parado e quanto mais se concentrava em
despertar, mais se sentia aprisionado. Ainda atônito ergueu os
olhos para o corredor escurecido, sentindo o ar gelar. O coração
batia ritmado ao barulho de uma respiração pesada que pensara
ouvir. Já estava ficando nervoso.
Estava tudo calmo demais. De súbito, com um estrondo, as
portas se abriram, deixando a névoa penetrar. Sean tentava
alcançar algo para se proteger, mas os fios e os tubos o impediam
de se mexer, mesmo assim esfregou os olhos avermelhados,
absortos. Aguardava, sempre aguardando que fosse nada, só mais
um sonho. Aguçou os ouvidos achando ouvir passos, passos não,
um trotar como de um cavalo grande e pesado que relinchava
longe como em uma respiração ofegante. Tremia sem poder gritar.
A bruma alcançara a porta de seu quarto. Não enxergava
direito, sua vista estava embaçada pelos remédios. Desistiu de
esperar, arrancou os fios e se esgueirou para evadir-se dali,
quando, subitamente, a fumaça se dispersou num sopro
prolongado dando lugar, no fim deste corredor, ao que cogitava
ser um cavalo montado por um cavaleiro em armadura metalina.
Do elmo podia ante-sentir um olhar tenebroso que, mesmo
encoberto pela cerração que vazava das frestas do visor, fitava-o.
A respiração era igualmente compassada. Ele não teve tempo de
reagir, desmaiou por insuficiência do tratamento interrompido
com a remoção do soro.
Enfermeiros abordaram-no a tempo e o recolocaram na cama
imediatamente, eles não viram o cavalariano desaparecer. Uma
parada respiratória se seguiu, reunindo mais gente do que caberia
naquele espaço. Máquinas e luvas eram atraídas para o olho do
furacão.
Parte da roupa era rasgada auxiliando nos procedimentos.
74
Choques.
–– Afastem. Agora!
Bip.
Bip. Bip.
–– Voltou.
O resto da madrugada transcorreu usual, os exames de
emergência nada constavam e o garoto repousava tranquilo.
Assim a doutora Mel puxou um leito vazio e dormitou um pouco.
Roncava sem medo, exausta.
Nos dias posteriores ao pesadelo, de corpo e alma, Sean se
recuperou, passando a ficar em ala menos restrita e na companhia
de seus pais. Naquele dia, depois de uma semana, quando já
começava a esfriar, a doutora Mel comunicou que os exames
especificavam uma rápida recuperação e que em breve
regressaria para casa. Sarah não se segurou de contentamento e
saiu correndo, com Joshua nos braços, para buscar um bolo em
comemoração, com muitos doces e determinações médicas de
como deveriam ser as tais guloseimas de um convalescente.
Joshua balançava os pés em protesto ao sequestro, muito
indignado com a atitude desvairada da mãe que nem percebeu que
as calças do garoto haviam caído.
Porém Sean demonstrava certa indisposição imatura, de cara
oclusa, braços cruzados e boca retorcida em desagrado peculiar de
seu personagem. Tinha a mania de soprar o exagero de cabelo
caído sobre os olhos com um dos cantos da boca, apesar de ser
mais um reflexo de repulsa pré-adolescente. Do quarto, que
possuía uma das paredes em translúcido vidro que permitia
observar toda a ala e o corredor principal, seguiu-os se afastarem,
trôpegos. Entretanto a doutora Mel não pôde escapulir tão
depressa de seus afazeres. A sua cara se fechou num piscar de
olhos quando três garotos atravessaram a porta dupla do setor.
Curioso, Sean emprestou todos os seus ouvidos ao diálogo que se
iniciava no meio daquela seção hospitalar.
–– Mãe? Será... Nós viemos falar com a senhora por que...
sabe...? É que... lembra do que dissemos ontem? –– O lamurio
nunca se completava, esperando que as palavras certas pudessem
ser ditas com muito cuidado. Sean começava a rir baixinho. Sabia
perfeitamente que eles estavam preparando o bote sobre a mãe e
no momento ideal aos seus objetivos fariam sua súplica. Um
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pedido que não podia ter como réplica um não. Estavam jogando
bem. Mas a doutora Mel, antevendo o resultado, virou o jogo.
–– Que bom que vieram, fazia séculos que eu esperava
alguém para me ajudar! –– e foi empurrando-os para tarefas que
poderiam ser consideradas como uma troca justa para um sim.
Talvez.
A intragável enfermeira-chefe encarregada do setor também
percebeu que algo ia acontecer, pois que se levantou
cuidadosamente de sua cadeira, pegou a blusa de lã e vestiu-a,
sem cerimônia, para que no momento exato em que se mexia para
o lado, chegassem próximo. O mais velho, de cabelo curto e claro,
–– como o dos três, aliás, variando somente no comprimento ––
parecia ter de uns dezessete a dezenove anos e, emburrado foi
arremessado à cadeira defronte ao computador, onde a pouco, a
samaritana carrancuda saíra. Este devia entender dessas coisas. A
moça que o acompanhava afastou-se rindo.
–– Mateus, querido. Você poderia arrumar aquele arquivo que
já havia lhe pedido? Aquele com o cadastro dos pacientes desde
mil novecentos e oitenta? Heim, amor? –– de olhar meigo e
levemente amedrontador.
–– Mas, mãe, agora?! Não poderia ser noutro... –– cortou-o
virando-se para o segundo, o do meio. Furiosa era pouco para
descrevê-la. Contudo Mateus tinha também seus motivos, só
estava ali por causa dos irmãos; graciosos pirralhos
manipuladores. Enfim, que ele se conformasse, tinha sido muito
estúpido achando que não sobraria nada para ele.
O outro tinha os cabelos compridos e um jeito de não me
toque. Acertadamente era skatista. Não existiam roupas mais
exclusivas do que estas. Iguais em qualquer parte do mundo, com
variações que poderiam se aplicar aos patins, à bike e esportes
radicais análogos. Mas ele tinha cara de skatista mesmo. Pudera,
com o skate sob o braço. Este foi até um armário de onde sua mãe
lhe socou um esfregão e um balde, deixando cair o capacete
dentro do balde sujo. –– Lucas, mãos à obra! Nenê da mamãe. ––
apertando suas bochechas de uns quinze anos.
–– Mas, mãe, agora?! Não poderia ser noutro... –– e
novamente a pergunta e as ações se repetiram. Desta vez olhou
para o terceiro e o mais miúdo e voltou-se para os lados
procurando algo para ele fazer. Quando os seus olhos se
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encontraram com os de Sean uma expressão de júbilo percorreu
seu rosto. Sean percebeu que ia sobrar para ele. O garoto não teve
tempo de se firmar quando a doutora Mel agarrou-o pelo cotovelo
e largou-o na cadeira ao lado de Sean, que girou umas duas vezes
antes de parar de costas para o garoto. Sem se virar ele ainda
assoprava de canto alguns fios de cabelo que caíram sobre a testa,
bufando uma careta de desdém.
–– Sean, querido. –– no mesmo tom indisfarçável, mostrando
as intenções malvadas –– Este é o meu filho Tiago. Tem a sua
idade. Espero que ele fique aqui até sua mãe voltar. Aproveitem
para conversar, pois é provável que venham a estudar no mesmo
colégio.
–– Sim, Dra. Göettees. –– se agilizou Sean na resposta.
–– Doutora Mel, tá bem? –– olhou carinhosa para o menino e
suavemente virou-se para Tiago. Durante este breve movimentar
de cabeça a expressão da doutora Mel tornou-se de meiga para
rígida. Saiam setas dos olhos, e o sorriso, não era um sorriso, mas
fazia força para ser.
–– E você, Tiago! De olho no Sean. Se eu souber que você
saiu daí antes –– passando o dedo firme e cirúrgico na jugular ––,
nos veremos em casa. Amor de mãe tem limite, boneco!
Antes mesmo de retirar-se girou os calcanhares e brava
dirigiu-se a Sean num brado retumbante: –– E você, vê se não
conta bobagens para o meu filho, nada de pornografias e piadas...
Não suporto gente de boca suja. –– Sorriu e se despediu largando
os quatro em suas atividades ordenadas sob certa pressão.
Agarrou-se à namorada do filho que continuava rindo
disfarçadamente.
Por fim fora brutalmente interrompida pela segunda vez. Um
moço esbaforido perguntava à doutora sobre alguma coisa que
deveria ser entregue em uma universidade para uma tal palestra.
Ela assinou certos documentos e gritou para o enfermeiro que se
afastava disperso em seus pensamentos. –– Leve você mesmo o
kit e informe o doutor Pipier que ele assume o setor no dia, certo?
–– O rapaz confirmou e saiu na direção errada. A doutora e a
moça igualmente.
–– Mães, será que todas são assim?
–– Acho que são, a minha faz a mesma coisa. –– respondeu
Sean. Agora estavam a sós e podiam rir. Mateus e Lucas
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voltaram-se para o quarto por causa das altas e descontroladas
gargalhadas.
–– Afinal o que era que vocês queriam? –– lembrou-se Sean,
se esquecendo de manter sua estampa de malvado.
–– Ah! Deu para perceber? É, vejo que sim. –– desalentado
com a falta de tato –– Nós só queríamos ir a um concerto de rock
neste fim de semana. –– apontando para os irmãos –– Aqueles são
Matt e Luc. E antes que você pergunte, sim, nós somos adotados.
Ele nem tinha percebido alguma diferença, mas talvez fosse o
temperamento. E Tiago complementou, confirmando as suas
suspeitas: –– É que às vezes as pessoas perguntam brincando com
o fato de sermos tão diferentes da mamãe que acabam se
assustando quando dissemos que sim. Você nunca nos verá
usando aquela camisa listrada com todas as cores do arcoíris, te
garanto!
Assim Tiago contou como foram parar ali, explicando que os
três eram de fato irmãos, isso era evidente. Há uns dez anos, a
doutora Mel fora comunicada de uma criança com um desvio
comportamental ocasionado por um traumatismo craniano;
sensibilizada voou até o Brasil e a trouxe para uma cirurgia
experimental, muito parecida com aquela realizada em Sean. Para
conseguir a transferência adotou a criança e seus irmãos. A
criança a ser operada era o Mateus. O que ela não previra era o
que viria depois; teria que arcar com os cuidados dos três. Com o
bônus extra de não ter que trocar fraldas, ficar noites sem dormir
ou levando-os ao pediatra. Mas teria que ensinar uma nova língua,
sofrer com as peraltices da idade e tentar lidar com adolescentes
em ponto de bala.
Bom, mãe é mãe.
Contudo Sean não pôde deixar de sentir certa simpatia com a
história deles. Pelo curto diálogo entravado, ambos demonstravam
receios ao que os outros pensavam. Entretanto Tiago não parecia
ter medo de enfrentá-los. Ele não tinha esquisitices para
aporrinhá-lo.
Eles tiraram aquela tarde para se conhecerem e descobriram
que tinham muitas coisas em comum, botaram o assunto escola
em dia, fazendo-o imaginar o colégio, os futuros companheiros e,
se tudo fosse tão maravilhoso como parecia, nem precisaria se
preocupar com aqueles grupinhos que gostavam de pegar no pé de
78
quem é sumariamente diferente. Pronto, acabou se lembrando das
sombras.

A festança foi espetacular e até o seu pai compareceu,


disfarçando seu remorso. Se Sean tivesse visto qualquer pista de
que seu pai queria se aproximar, teria aceitado de pronto e
perdoado. Mas Joshua matava as oportunidades pulando sobre o
pai, agarrando a mãe e, às vezes, puxando o cabelo de Lucas ou
pisando nos pés do Mateus. Gente divertida, estes Göettees. Era o
cômodo mais movimentado da casa de saúde, e muitas
enfermeiras, e enfermeiros também, compareceram à surdina. No
fundo, aproveitaram a reunião para fofocarem sobre os pesadelos
e as crises que haviam acontecido com Sean após a operação.
Muitos desconfiavam que a cirurgia não havia resolvido muito,
mas pelo menos o tumor não existia mais.
Mal sabiam eles que a finalidade real de tudo era
precisamente que as crises de Sean piorassem; na verdade, as
sombras pensavam que era exatamente o oposto, as tais crises
eram a melhora.

Todos os dias, logo após o dia da festa, Tiago, estranhamente


interessado no novo amigo, comparecia assiduamente ao leito de
Sean. Ficavam conversando sobre tudo que podiam e enquanto
podiam. Sean parecia outra pessoa, mais extrovertida e feliz.
Procurava não lembrar dos acontecimentos, mas estava
preocupado quando iriam se repetir. E em uma tarde dessas, a
doutora Mel chegou, sisuda, e nem viu que Tiago estava presente.
–– Que história é esta de que você ouvia e via coisas? Parece
que ninguém mais confia nos médicos. Bem que podia me contar,
não é? –– nisso Tiago mirou Sean perplexo, porém tentou
disfarçar, mas não o conseguiu a tempo. Com um baque, o
coração de Sean acelerou e seu estômago parecia uma máquina
batedora de concreto. Ficou tão nervoso que gotas de suor
brotaram em sua testa e a cara ficou mais branca que a própria
parede do quarto.
A doutora Mel logo consertou o erro. –– Calma, menino. Não
disse que era sério ou preocupante ou qualquer outra coisa. O
importante é que agora não vê e não ouve mais as tais ilusões,
certo? –– Desta vez Sean fez de tudo para ficar mais calmo, mas a
79
essa nova suposição não pode deixar de sentir o sangue subir à
cabeça, achou que ia desmaiar.
Guarini estava de prontidão, aborrecido com a tarefa de
pajem, aguardando, do lado de fora, o momento em que teria que
agir. E seria agora.
Foi à sala contígua e fez com que o paciente, que dormia, se
assustasse e desligasse alguns fios de monitoramento. Deu certo.
Por pouco Sean não contou a verdade; se não fosse a correria e os
gritos de urgência para um paciente que necessitava de socorros
imediatos, a doutora Mel teria percebido que ele escondia algo
muito mais intricado do que acontecera, muito antes de chegar à
Paris. Mas Tiago percebeu.
As vozes em sua cabeça murmuravam incansáveis para que
ele fugisse, tinha sido pego em seu maior receio. –– Você é
estranho, fuja. Eles não te entendem, fuja. Corra! –– e os
murmúrios circulavam em torno de si como se dezenas de pessoas
o acuassem e instigassem. Apertou as orelhas e fechou, bem forte,
os olhos. Neste instante, um garoto magricela de olhos
esbugalhados passava pelo dormitório e se esgueirou, como uma
lagartixa, para ver o que acontecia. Tiago tentava pensar numa
solução e já se erguia para chamar a enfermeira quando viu o
garoto intrometido diante da porta escancarada.
–– Sai daí, não é da sua conta, Sapão. –– porque este era o seu
apelido de escola. –– Não tem o que fazer?
Charles Pipier, também filho de um médico do hospital,
ríspido e displicente como a doutora Mel costumava resumir, deu
um bom exemplo de seu caráter ao filho, que fazia por merecer
como integrante de um grupo de alunos baderneiros do colégio.
Era isto que Tiago tentava evitar, que mais alguém fosse
importunado pelos imbecis. –– Acredito que, pelo menos, você vai
respeitar o fato de que ele acabou de sair de uma cirurgia... Estou
lhe avisando para não sair caro, Sapão.
Ele era do tipo medroso e não contestou, estando sem os
companheiros de arruaça, depois seu pai era extremamente
vigoroso quando se tratava de castigos. Tiago replicou mais uma
vez: –– Quer que eu conte ao seu pai? Já sabe, se alguma coisa
acontecer... –– O garoto, com um sorriso mal-intencionado,
completou a frase.

80
–– Vamos dar algumas semanas, depois ele é nosso. –– E saiu
disparado pelo corredor, esbarrando no nada e dando com a cara
no piso de vinil. Tiago não teve tempo de rir, pois Sean voltava a
falar gemendo, assustado com algo. Mas Guarini riu sim. E uma
pequenina chama que esgueirava recuou até o embornal.
–– Alguém me tire daqui! –– sussurrou cansado. Tentava
imaginar porque aquilo o incomodava e não encontrou resposta.
Então por que continuava a se sentir mal? Em instantes as vozes
desistiam e Sean viu Tiago, entorpecido à porta, saindo em busca
de auxílio. –– Espera Tiago, já estou melhor. Foi uma dor de
cabeça. Se pelo menos pudesse sair um pouco... –– Tiago retornou
e acenou.
–– Sei de um modo, mas é arriscado... Precisaríamos passar
pela gárgula. –– se referindo à enfermeira carrancuda e brava
sentada ao computador e que nunca descumpria ordens.
Sacou uma caneta do bolso e sorrateiro pegou a prancheta à
base da cama. –– Hum, vejamos... solicitação para saída das... ––
consultou o relógio com a língua escapando pelo canto –– das
quinze horas às quinze e trinta, está bom? Não é bom dar tempo
demais, ela vai desconfiar.
Aconchegou a prancheta médica sobre a cama e fez, com
cuidado redobrado, uma assinatura que de relance ele desconfiava
que era a da mãe. Fez umas voltinhas, pontinhos e estava pronto.
–– Você falsificou uma solicitação? É a assinatura da sua
mãe, não é?
–– Eu não chamaria de uma falsificação. Se eu fosse
realmente fazê-lo seria “o documento”. –– frisou como se
pudesse. –– Já que sei mesmo e não vai fazer mal algum... Vamos
lá.
–– Mas como? Você não está querendo me enrascar, está?
–– Confie em mim. É algo nato, parece que sempre fiz isso,
sei lá. –– Seguiram, de cadeira de rodas, muito naturalmente
quando a gárgula estancou os olhos pequeninos e frios nos dois.
Por cima de seus óculos angulosos, na ponta do nariz, os olhos
brilhavam de contentamento... Iria pegar mais uns safadinhos
fujões.
–– Esperem aí... Aonde as crianças pensam que vão? ––
jorrou a enfermeira sob seu penteado irreprochável. Tiago
respondeu meio perdido, fingindo. –– Vamos ao pátio interno...
81
tomar sol?! –– com esse tom de dúvida, estragou tudo –– Temos
até autorização. –– Rapidamente a senhora de branco lançou o
olhar sobre o documento estendido. Quando ia começar a pegar o
telefone, Tiago que já pressentia a enrascada em que se metera,
algo aconteceu. Ela pegou a caneta borrada e assinalou um visto e
fez mais, sorriu simpática para ambos.
–– Nunca tinha visto aquela bruxa velha sorrir... Acho que
você prometeu um beijo. –– disse baixinho para Sean.
–– Não mesmo. –– disse encabulado, de rosto vermelho.
A ansiedade estava diminuindo e chegavam ao largo. Iria
pensar no que aconteceu com mais calma, entretanto Tiago fincou
firmemente, esperando uma resposta. Sean balançou os ombros
não entendendo a atitude do amigo.
–– E então, vai me contar o que está acontecendo? Ou vou ter
que usar uma das minhas técnicas de persuasão? –– relembrando
de quando ele e Mateus amarravam um Lucas pelado no hall do
prédio que moravam. Ele pediu por isso.
–– Você... você... acredita –– escolhendo o que dizer, por fim
decidiu-se pelo simples e direto ––, acredita em fantasmas?
Não saberia dizer se Tiago estava prestes a gargalhar ou bater
a mão nas costas em apoio à loucura, o que teria sido igualmente
devastador. Mas parece que o garoto tinha uma terceira opção.
–– Você não é daqueles esquizofrênicos que a mamãe cuida
de vez em quando, é? Ela vive falando desses loucos que são
internados no hospital, mas eu sempre achei que fosse só para me
assustar –– disfarçando algo. –– Um dia eu te largo lá, ela vive
repetindo.
Sean não sabia como responder. Continuou escutando o
tagarela. –– Lembro uma vez, de uma mulher que achava que era
uma toupeira e se escondia debaixo do hospital onde nem cabia
uma de verdade. Nunca entendi direito! Mas também tinha...
–– Cale a boca! –– gritou Sean. –– Não está vendo que eu não
queria isso? Aconteceu!
–– Então é verdade? Pô, cara, ninguém merece. Você vê
fantasmas... E eles são branquinhos e transparentes... Carregam
correntes... Acho que neste lugar devem ter muitos. –– se Tiago
estava eufórico, Sean parecia muito mais aborrecido. Estava se
sentindo um palhaço. O que Sean não percebeu foi que Tiago
estava tão nervoso quanto e, para não dar na cara começava a falar
82
sem parar. Todavia estava escondendo algo, pois os seus olhos
diziam outra coisa, estava apavorado com algo que Sean havia
dito.
O dia estava mais claro do que ele recordava e o vento suave
espalhava o frio em ondas que separavam os doentes protegidos
dos agasalhados. Dali a pouco, se lançava a doutora Mel, ao pátio,
com expressão de raiva reprimida, tirando-os da friagem. –– É
hoje, Tiago. –– E só, não precisava explicar. A orelha puxada iria
ficar marcada por dias antes que a mãe resolvesse aplicar um
curativo. Também, sendo médica, não podia deixar pacientes sem
cuidados. Cuidados que não a impediam de causar outras
punições.
Punições como castigos e muito trabalho forçado.

83
6

a premonição.

Setembro e os primeiros dias de aula foram


revigorantes, já não suportava ficar trancado ou deitado inativo,
mas, apesar das restrições para não fazer isso ou aquilo, Sean se
sentia maravilhosamente bem. Muitas das preocupações de Sarah
quanto aos cuidados que não podia oferecer ao filho naquele
instante, por causa do novo emprego, estavam sendo
redistribuídos pelos filhos da amiga. Devidamente matriculado no
mesmo colégio de Tiago e Lucas, o que ajudava em muito e, que
fora previamente escolhido para que sempre tivesse alguém para
vigiá-lo bem de perto. Pelo menos até estar inteiramente
restabelecido.
Já ao Lucas, estava designado a acompanhar Sean e Joshua
até as suas casas, com certeza imposto por alguma chantagem
maternal. Tiago acompanhava-os. Era impossível que algo de
errado acontecesse. Lucas terminantemente não gostava da ideia
de se ver sem a possibilidade de usar seu skate um pouco mais,
por isso demonstrava estar contrafeito com sua cara emburrada
virada. Detestava os pirralhos, inclusive de ter que cuidar de
Tiago. Coisas entre irmãos. E Tiago bem o conhecia, se havia algo
que herdara por osmose da mãe, era a incapacidade de mudar de
idéia. As coisas tinham que ser do seu jeito.
–– Isso é coisa de adolescente, cara. Não liga, não. Tem dias
que ele nem toma banho, argh! Você acredita que vamos ficar
assim? –– falava Tiago tentando explicar como era o seu irmão.

84
Porém Sean não escutou nada do que lhe diziam. Não estava
preocupado com o zelo excessivo, mas com o que poderia
acontecer caso percebessem que as visões e os sussurros não
haviam desaparecido, e pior, pareciam ter aumentado em
quantidade e qualidade. Esquivava das coisas estranhas como
quem desconfiasse da própria sombra, mas logo precisaria
descobrir o que estava acontecendo... Ainda pensava no cavaleiro.
Mas havia tempo.
No intervalo entre as aulas, Tiago e seus amigos se reuniam
com Sean, que se entrosara rapidamente ao bando. Estes novos
colegas o tratavam do modo mais comum e prosaico do que podia
se lembrar, mas uns mal-encarados, os arruaceiros do colégio, o
rodeavam com olhares mal-intencionados. Nem Tiago, nem
ninguém, falava a respeito dos garotos que viviam batendo ou
importunando por todos os cantos. Por onde eles passavam
formava uma clareira de medo. Entrementes Sean havia notado
que ele não tinha sido abordado pela corja até então.
O que ele não sabia era que Tiago tentava adiar este encontro
e disse aos amigos que não tocassem no assunto. Ele bem sabia
que os trogloditas iriam atacar logo. Como prevenção, pedira aos
colegas, Andreu, Jean-Marc e Henri, que ficassem com um olho
em Sean e o outro no bando.
–– Não deixem encostar um dedo sequer... O cara já tem
problemas demais. –– demonstrando que ele tinha parafusos a
menos. Entretanto não contou nada dos fantasmas, não acreditava
muito no que tinha lhe contado ou se estava se enganando...
Fantasmas, será? O grupo era o único suficientemente forte para
impedir os arruaceiros, em parte por serem os mais corajosos e
seus pais terem voz ativa no conselho do colégio e poder para
amedrontar bastante; no geral, eles ficavam, cada um do seu lado,
sem choques.
Perder a oportunidade de incomodar um aluno fresquinho,
novo em folha... Maurice, o próprio pesadelo dos colegiais, não a
perderia. Ele e seus quatros cavaleiros do apocalipse, inclusive o
Sapão que lambia os pés de Maurice.
–– Então, o que vocês estão tramando? –– desconfiou Sean do
silêncio –– O que vocês querem me dizer!
Tiago respondeu por todos. –– É que estávamos precisando
contar algo, muito importante... Cuidado com Maurice.
85
–– O diabo briguento? Não fiz nada para aborrecê-lo! ––
pensando que desta vez estivesse livre deste tipo de gente ––
Entendi. Ele só estava dando um tempo por causa do meu estado,
e quem foi que pediu esta trégua?
Os quatros se olharam, mas foi Tiago quem respondeu
novamente. –– Fiz um acordo com o Sapão, ele te viu no hospital
no dia daquela crise. –– sussurrando crise –– Ele deve estar
tramando algo, não para de nos encarar, vê? –– apontando com os
olhos, Maurice e bando. Muito cuidado, disse Sean para si
mesmo, parece que, até aqui, ele era o esquisito de sempre. Não
conseguia fugir do passado.
Completava seis semanas, nesta sexta-feira, que estava
perambulando por aí, sem que tivesse visto ou ouvido fantasmas
ao seu redor. A sua preocupação insistente era quando Maurice
apertava o cerco saboreando cada reação de Sean, que procurava
se esconder como fazia em Londres. Tentava se apagar, se
disfarçar e assim ninguém o notaria. Para a sua tristeza, Maurice
gostava de brincar, e não eram nem tão diferentes assim.
Contudo sutis mudanças aconteceram no modo de agir de
Sean, estava mais relaxado, cabelo revolto, roupas desarrumadas e
muito mais displicente e desligado do que costumava aparentar.

O dia seguinte amanhecera chuvoso o suficiente para molhar,


não saberia dizer se era preciso um guarda-chuva, mas depois de
algum tempo já estaria acostumado com o chuvisco que flutuava
no ar. A cada lufada de ar, as gotículas dançavam em torno de
Sean que, desligado, ficara parado observando indiferente as
tramoias dos demais.
–– Cara, você está bem? –– perguntou Jean-Marc. Logo se
via que era alguém que adorava a tensão da perseguição, visto
suas atitudes sempre um tanto que agressivas. Vivia a ponto de
acertar alguém em cheio, mas se continha. Nem queiram saber o
que é seu aperto de mãos. Um quebra-nozes faz menos estrago.
–– Tudo –– quase conseguindo disfarçar. –– Pode deixar,
daqui eu vou só! –– achava que não tinha perigo atravessar o
corredor para o ginásio de esportes sozinho. Tiago tagarelava ao
longe com uns garotos atrasados, deixando-se afastar sem que se
desse conta. De novo algo estranho se repetia, o ar ficou
carregado e denso e aquela insistente dor de cabeça voltava
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desfocando tudo em volta. Paredes e armários convulsionavam e
se retorciam. Destas manchas flutuantes alguém surgiu.
Lá estava ele, Mau, esperando em júbilo entre dedos
estalados. Sean seguiu fingindo tranquilidade, procurando não
olhar naquele canto. Nem piscava. Mas apertou o passo. Maurice
se adiantou e correu para junto dele, pisando firme.
–– Até que enfim...
–– Não tenho nada para falar com você, estou atrasado. ––
nem Sean acreditava que havia respondido ao garoto mais odiado
da escola. O coração batia descompassado e as suas palavras
soaram quase gaguejadas. Não tinha medo de uma briga, porém
não gostava de ser...
–– Oh! O esquisito fala! –– acertara em cheio no ego de Sean,
a raiva não vinha só dele, sentia que algo o impulsionava. Melhor
seria contar até dez e voltar para o ginásio.
–– Esquisito!!! –– cantou Maurice –– Aonde pensa que vai,
não acabamos a conversa. Que história é essa de que você anda
vendo assombrações! –– agarrando Sean pelo braço e jogando-o
contra o portão aramado. O garoto segurava o queixo de Sean
como um troféu e ria repetindo: –– Muito esquisito. Estranho.
Não acha?
Maurice era um pouco maior, mas também sem limites, o que
Sean não se importava. O que realmente incomodava era ver todo
o colégio mexericando sobre suas esquisitices, se afastando em
risadinhas e apontamentos. Francamente, nem aqui poderia estar
tranquilo? Não; Mau errou na dose, forçando Sean a contra-atacar.
Sua tentativa de meter um soco no estômago do garoto só serviu
para enfurecer o imbecil do briguento. Tiago retornava pelo
mesmo caminho quando percebeu que uma briga explodia diante
de si e se escondeu numa brecha escura. Apesar de tudo, também
tinha os seus medos e enfrentar o garoto era um da sua lista.
Estava pensando se entrava ou não nesta briga.
Maurice segurou o rosto de Sean com a mão aberta
empurrando-o com toda a força contra o gradil. Errou outra vez,
porque Sean não só bateu a cabeça no alambrado como também
na dura coluna de ferro que unia as grades, caindo desmaiado. No
ginásio, alguns garotos já caminhavam para o vestiário quando
lembraram que haviam, alguns, esquecido as roupas na mochila.
Iam diretamente pelo tal percurso, sugestionados por Guarini que
87
insistia em apressá-los pelo caminho mais curto. Mas Tiago não
podia se dar ao luxo de esperar e se arremessou, entre gritos,
contra o inimigo munido com um cabo de vassoura como se fosse
uma espada. E não teve tempo de usá-la. No ímpeto de causar o
maior estrago possível antes que Mau percebesse a investida,
atropelou-o até pararem junto de um armário metálico.
Os passos se faziam mais próximos. Maurice se desvencilhava
do garoto que o atacara e partia para um último golpe contra Sean.
E ele agravaria a situação se não fosse por alguns alunos que
surgiram diante dele, de olhares arregalados de choque. Por
instinto xingou e fugiu.
–– Olhem aquele garoto caído, tem sangue... Chamem
alguém! Rápido. –– gritou uma menina da mesma idade para os
outros colegas.
Sean desmaiara.

Sean agora via um homem, caído ao chão. As luzes


lampejavam e uma densa nuvem de poeira impedia-o de respirar,
sufocando-o. Escutava gritos e choros, mas em vez de fugir era
atraído para o homem deitado. Olhou para os lados e viu dois
vultos falando com ele. Pediam que o salvasse, só ele poderia
fazê-lo. Depois, o homem ferido, falava pedindo socorro. Não
entendia o que se passava. A imagem tremeluzia estranhamente e
os sons pareciam misturados.
Então surgiu Tiago que gesticulava para onde havia uma porta
prateada entreaberta, –– Eu acredito em você! –– escutava-o
repetir. Mas quando ia entrar pela porta viu um homem coberto
com uma longa capa bordô envolta sobre o tórax.
Sentiu muito medo.
Não sabia se ficava ou entrava.
Tiago gritava para pegar a caixa enquanto o homem da capa
encarava amedrontador. Decidiu-se por entrar, contudo a porta
parecia recuar como se estivesse caindo. Tentou com mais força e
caiu. Ao seu lado estava o homem ferido, de uns vinte e poucos
anos, cabelo castanho e rosto arranhado. Observou-o com tanta
atenção que seria capaz de reconhecê-lo. Um pouco mais longe
estava um papel amarrotado onde apareciam algumas letras
confusas e...
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–– Acorda Sean! –– ouviu uma voz familiar em angústia,
agarrando-o pelos ombros. Neste instante, antes mesmo de abrir
os olhos, surgiram flashes desconexos de alguém que escrevia em
um pedaço de papel, deitado numa maca tosca. E outra pessoa que
tinha a mão violentamente trespassada por uma lança lascada.
Assustado pôs-se sentado com olhar vidrado e o suor copioso a
escorrer de sua fronte. A respiração parara obrigando-o a engolir
em seco.
–– Caramba, ele acordou! –– era Tiago e mais uma dúzia de
alunos e professores que o haviam posto na enfermaria do colégio.
Não gostou do que vira desmaiado, quem era a vítima e por que
sentia certa inquietação, sendo que nem sabia quem era?
Ao longe, ele escutava os cochichos sobre a punição, pois
tinham pegado o Maurice na fuga. Tiago estava com um olho roxo
e um fino corte no lábio inferior. A enfermeira da escola aplicava
algumas bandagens ao mesmo tempo em que falava num celular
com a doutora Mel, obviamente. Foi então que pediu calma a
todos, estava bem. Mas ninguém deu ouvidos aos gemidos de
Sean que vomitou na blusa de Tiago. Afinal, antes de o dia
terminar, descobririam que Maurice ficaria alguns dias de
detenção, cumprindo serviços comunitários à escola. Para piorar,
ele sabia que o ódio por ter sido pego aumentaria e, acabaria
descontando no culpado por tudo.
E ainda tinha mais, seria uma vingança bem planejada,
encurralando-o só em algum lugar fora do colégio.

Mais calmos, Tiago e Sean aguardavam Lucas terminar suas


acrobacias para seguirem até suas casas. O rapaz era incrível,
saltava uns lances da escada para descer o resto sobre o corrimão
de ferro. Bastante ágil e eficiente, tinha um charme inigualável e
por isso era sempre visto cercado de garotos e garotas. Ainda
efetuava umas manobras quando caía pela enésima vez. Uns
garotos riam recebendo imediata chuva de pedras que Lucas
arremessava. Tiago escutava o ocorrido observando o irmão tentar
a manobra mais uma vez quando Sean olhou assustado para o
amigo.

89
–– Aconteceu algo muito estranho. Enquanto estava
desacordado, tive um sonho e... você estava nele. –– Tiago ouvia,
agora mais atento. –– Tava mais para pesadelo. Tinha um acidente
grave, havia muita fumaça e gritos e eu tinha que ajudar alguém,
mas estava com medo.
–– Medo do quê? –– cutucava Tiago.
Sean continuou a narrativa do pesadelo, explicando tudo, pelo
menos o primeiro sonho, os detalhes e principalmente o momento
em que ouvia Tiago repetir: –– Eu acredito em você.
Tiago não deu crédito, mas ficou preocupado com o devaneio,
também vinha sentindo certa angústia nos últimos dias. Pensou
que fosse por causa do Maurice, mas depois de tudo ainda estava
ansioso e angustiado. Também tinha sonhos estranhos e quando
ouviu Sean falar do tal homem, da fumaça e das luzes piscando...
parou de sorrir. Engoliu as palavras e partiram.
–– Esta confusão de hoje foi diferente, até parece que tirei um
peso das costas. Amanhã será outro dia, descanse a cabeça...
senão a minha mãe nos interna, vontade não lhe falta. –– Tiago
concluiu o assunto.
Caminhavam desligados da azáfama que os rodeavam,
quando a multidão aglomerou-se por aquelas ruas apinhadas
impedindo-os de andar em linha reta. A rua Mouffetard era o que
se poderia descrever como a maior pequena rua do mundo, a cada
passo, barracas com artigos do mundo inteiro invadiam as
calçadas. O ar mouresco era o reflexo do ambiente e a variedade
de pessoas que circulavam rumo à praça de Contrescarpe em
ondas divergentes. Sean andava com dificuldade enquanto Joshua
seguia, como sempre, à frente, como quem anda num
descampado, sem preocupações, de olhos fechados se possível.
Tiago continuava quieto, portanto Sean olhava por entre as
pessoas tentando entender o que tinha acontecido. Ainda lhe doía
o soco no rosto.
Vendedores urravam, pessoas compravam e alguns carros
insistiam em transitar. Um leve olor de chá de menta se fez sentir
num quiosque árabe. Por fim algo atraiu seu olhar, alguma coisa
resplandecente se movia logo adiante. Quando pôde vislumbrar o
que era, assustou-se imobilizado. Em outros tempos as pessoas
correriam para as suas casas assustadas, mas elas não o viam. Era
o cavaleiro, montado no mesmo animal branco. Sua armadura
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ornamentada refletia a luz dos postes de iluminação que se
acendiam com o negrume da tempestade que se aglutinava. Era
um verdadeiro mar de cabeças e acima delas, o cavaleiro guinava
seu cavalo inquieto com a lança descansada.
Sean sentou-se no chão.
–– Vamos embora daqui. –– sussurrou para Tiago e Lucas que
obedeceram assim que perceberam a expressão de espanto
embranquecer o garoto. O que era verdade, o medo congela. Ele
ainda não estava tão bem quanto pensava para enfrentar mais esta
assombração. Como queria voltar aos velhos tempos em que
somente sons e luzes o incomodavam; Londres era bom demais.
As rixas, ele já se acostumara.
Por que isso tinha que piorar?
Um indiozinho o observava em silêncio. Passos colados,
vigilantes e atenciosos.
Não ia deixar o moleque sozinho.

91
7

os paramédicos

Por fim chegava o dia tão esperado, o chuvisco se


transformara em momentos de sol e chuva intercalados, que
aumentavam o desconforto e o frio da estação que se iniciava.
Se na última sexta-feira fora uma confusão sem fim, o fim de
semana não passava de uma ansiedade indisfarçável por causa da
forte impressão que o pesadelo causava. Nem a lembrança de um
Maurice implacável na sua vingança, servia para tirar os
pensamentos de Sean do cara acidentado.
Quem seria? Será que já o vira antes? Nada poderia ser pior
do que a sensação de preocupação que o perseguia. Não tinha
motivo para acreditar num sonho qualquer, sobretudo depois da
cirurgia quando os sonhos já não eram tão impalpáveis assim.
Foi o final de semana mais longo da vida de Sean, quieto em
seu quarto. Buscando acalmar seus pensamentos que voavam da
cena trágica impregnada em sua retina e da ideia galopante de que
um ataque surpresa inventado por um garoto sem limites pudesse
se concretizar.
Mergulhou a boca no sorvete de chocolate, irritado por se
ocupar de algo que nem aconteceu e, talvez, jamais acontecesse.
–– Será que sorvete com chicletes funciona? –– divagou,
Sean, em voz alta, já experimentando.
E já era mais um dia de aula.
Tiago e Lucas chegaram cedo, como de costume, por
imposição da mãe, apressando os preparativos nada simples de

92
Joshua. Estava ele particularmente mais hiperativo, o que dava um
certo trabalho controlar os arroubos de fuga e captura. Se não
fosse pelo senhor Fox, que conhecia muito bem as estratégias do
filho, os garotos chegariam atrasados à escola... talvez Lucas até
gostasse de perder as primeiras aulas.
–– Não sei como você escapou de levar uns pontos, o diabo
nunca deixa ninguém inteiro. –– falava Lucas puxando Sean num
abraço desconfiado e violento.
–– Sorte, talvez. –– argumentava Sean. –– Eu é que não vou
esperar para descobrir.
–– É, talvez. Quem sabe da próxima vez o Tiago não esteja
por perto e...
No colégio, Sean recebeu uma recepção mais excepcional da
que se acostumara por parte de funcionários, professores e
principalmente dos colegas que não suportavam Maurice e
agradeciam a Sean pela detenção. O que também não passava de
um cumprimento seguido de um muxoxo de pena assim que ele
virava as costas, prevendo que ele logo voltaria às suas atividades
normais, cobrando juros e correções monetárias.
–– Ele foi incrível, mas nem quero ver... –– dizia um aluno
mais velho, que nunca encarava o bando.
–– Alguém tem que esfregar na cara dele a verdade de vez em
quando –– contava outro ––, desde que não seja eu!
Alguns não contavam vantagens, tornando-se neutros, ou
quase. Caso ouvissem-nos falando escondidos, teriam sérios
problemas. Outros se mostravam irredutíveis quanto quem é o
melhor, se bem que havia medo por trás destas manifestações.
–– Esse gringo já era.
–– Deu uma de intrometido. Já haviam me falado que ele era
estranho e a história dos fantasmas... dá pra acreditar? ––
murmurou.
Todo o dia parecia dedicado ao assunto e por algum tempo
Sean se sentiu uma celebridade sob tantos olhares indiscretos,
principalmente das garotas. Era completamente diferente dos
olhares que estava habituado, de pena e medo, mas afinal era o
mesmo assédio. Nem havia enfrentado Maurice... mas teria, cedo
ou tarde, que ficar de cara com o diabo. Ainda que quanto mais
tarde fosse, melhor.

93
Quase tinha se esquecido dos problemas. Caminhava
tranquilamente através do pátio da escola, abeirando-se do local
marcado. Um pouco antes, Tiago saia correndo em sua direção,
ofegante, e aproveitava para perguntar sobre o pesadelo da
semana anterior.
–– Também estou preocupado com o sonho. O que você acha?
–– ajeitando a mochila que vinha arrastando discriminadamente
pelo chão empoeirado.
Sean, surpreendido, responde o que pensa. –– Você tinha que
me lembrar?! Tava quase esquecendo. –– de olhos fulminantes ––
Bem, lá vai. Depois do que vi e ouvi, não acho que seja à toa, mas
você não está atormentado pelo que possa me acontecer, heim?
–– Não! –– chocando Sean pela segunda vez –– Estou
preocupado com uns sonhos meus, muito parecidos. Não sei bem
no que acreditar. Mas sinto como se... como se.
–– Como se fosse acontecer de fato? –– completou de repente,
interrompendo Tiago que se atrapalhara nas palavras.
–– É isso que está me azucrinando. Você acha que estou
enlouquecendo? –– se esquecendo de que Sean era a pessoa
menos apta para se perguntar algo sobre loucura.
–– Bem, você sabe... acho que você está perguntando para a
pessoa errada. –– eu sou o louco varrido, pensou –– Eu não sei,
realmente não sei. E Tiago nem se lembrou de contar o que
aconteceu quando tocou Sean naquele dia, enquanto tentava
despertá-lo do desmaio. Arrepiava-se só de lembrar.
Em instantes Lucas se reunia aos dois, rumo ao educandário e
depois à estação de metrô mais próxima. Apertaram-se para passar
lépidos pelas catracas apinhadas de gente que se separavam em
passagens para os diversos distritos de Paris. No subsolo, uma
rede de túneis interligava plataformas que levavam toda essa
gente para qualquer direção desejada. Alguns músicos esperavam
encher seus bolsos enquanto uma cantilena pedinte de mendigos
decorativos o exigia, sem cerimônia. A turba passava impassível e
ligeira por eles.
Embarcaram silenciosos. Todos estavam quietos, com
exceção de Joshua que não parava de andar de um lado para o
outro do vagão. Nada que não se esperasse de uma criança de seis
anos quando sua curiosidade era muitas vezes superior ao de
qualquer adulto; ainda mais cansados como estavam. Lucas que já
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estava bastante aborrecido não se controlou e descontou sua
inaptidão no pequeno garoto.
–– Senta e fica quieto, seu fedelho! –– puxando Joshua pela
gola do casaco, quase o sufocando. Sean não gostou da atitude e
empurrou Lucas para longe, ante a imprevisível reação do irmão
do amigo. As pessoas viraram seus rostos, indignadas. Um espaço
se abriu entre eles e os garotos.
–– Vê se enxerga. Olha o seu tamanho. Depois ele é o único
que não está triste e emburrado por aqui! –– bastou isso para que
o sangue subisse à cabeça com tamanha cólera que, se não fosse
Tiago se interpor, eles estariam rolando pelo piso. Entretanto não
foi o suficiente para que impedisse o revide contra Sean. Tiago
caiu sentado no banco vazio, batendo as costas com violência. De
novo, em menos de uma semana, Sean se envolvia numa briga, e
para quem fugia destes problemas! E antes que Lucas acertasse
em cheio o rosto, Joshua mordeu o braço erguido.
–– Aiiii! Porque vocês atrapalham a minha vida! –– deixou
escapar por entre os dentes, mas ninguém percebeu.
Estava extravasando toda a cólera acumulada, no fundo sabia
que estava errado. Não obstante fazia isto por que eles estavam
ali, naquele momento, irritando-o a ponto de transbordar o copo.
Nem se importou em descontar neles, muito mais fracos do que
ele, o que outros haviam lhe provocado.
Não tiveram tempo de revidar, pois o vagão havia parado
bruscamente numa estação que escapava à observação dos
meninos.
Os demais passageiros procuravam disfarçar os olhares
contrafeitos enquanto entrava uma leva compacta de novos
transeuntes. Um senhor até balançava o jornal aberto, tentando se
fazer notar e deste modo, que os moleques percebessem a
descompostura. Nesta balbúrdia não notaram que Joshua havia
escapulido por entre as pernas das pessoas que se apertavam no
pequeno veículo e já corria longe para a saída do subterrâneo.
Sean, por instinto, agarrou Tiago pela alça da mochila e criou
uma passagem forçada. Lucas não podia estar apático à fuga do
Joshua e seguiu-os angustiado com o que ouviria mais tarde da
boca da mãe.

95
E ele desacelerou por causa de um mal súbito; um reflexo no
canto do olho modificou seu temperamento, tinha que alcançar o
garoto. Mas sentia, queria muito que ele sumisse.
Algo remexeu no seu íntimo, uma raiva atroz subia à cabeça,
como uma voz que instigava. Podia sentir o frio metálico gelando
seu corpo... No entanto lutou contra, precisava encontrar os três.
Podiam vê-los sumir pelo túnel. A boca de saída para a praça
Monge encontrava-se abarrotada.

–– Jox, espere! Peguem este garoto! –– gritavam tentando


alcançá-lo antes que desaparecesse na multidão da praça. Não
entenderam quando Joshua parou abruptamente e sorriu para eles.
–– Se esse fedelho não tivesse aprontado...
–– E você, que bateu sem motivo. –– Agora era Tiago quem
discutia as rabugices e o mau humor do irmão, empurrando-o.
Lucas queria dar o troco, porém Tiago não dava oportunidade,
pisando constantemente no orgulho ferido. Não tinha extravasado
tudo, mas estava com medo de pular sobre os três, a céu aberto e
na frente de tanta gente enxerida.
Sean, entretanto, não escutou nada do que Lucas havia dito e
do que Tiago contestado. Fixava-se atentamente em alguém que
entrava pela boca do metrô; ele já descia alguns degraus, também
hipnotizado por Sean. Havia um reconhecimento entre ambos,
mas de onde? Quando já desaparecia por completo, só os olhos
aparecendo, lembrou-se da premonição e alguém que seria ferido,
muito em breve.
–– Tiago, vamos! Acorda! O cara do meu sonho está
descendo para o metrô! –– Tiago não entendeu na hora, mas
largou a briga e acompanhou-o do mesmo modo, para o metrô de
Paris. Lucas ia a seu encalço quando foi agarrado por Joshua que
aprontava um escândalo, não o deixando sair do lugar e tendo que
fingir que estava preocupado com o garoto.
Haviam demorado em descer a escadaria por entre as pessoas
que emergiam do buraco, assim que um estrondo seguido de
tremores e fumaça surgiu ameaçador diante dos dois. O
pressentimento de ambos estava se concretizando, o sonho se
tornara realidade. Enquanto muitos escapavam apressados e
atropelados por todos os lados, eles adentravam na escuridão
formada pelo pó, sendo frequentemente atingidos por algumas
96
pessoas apavoradas. Tinham certeza de que o homem não tinha
retornado por aquele caminho, ele estava ferido como no sonho.
Só podia. Esfregaram a blusa contra os narizes, evitando sufocar
com a fumaça que dissipava.
–– É loucura, não devemos entrar. –– assoprou Tiago ao
ouvido, puxando forte o ombro do amigo para se virar. Não estava
querendo desistir.
Quando chegaram ao corredor de ligação entre as plataformas
tiveram que se decidir qual direção tomar. Instintivamente,
tentando recordar aquele vago pesadelo, imaginou-se seguindo
pelos corredores até se deparar com a indicação para a plataforma
de Villejuif/Louis Aragon - Marie d’Ivry.
Na plataforma algumas luminárias soltas bruxuleavam
aleatórias, não havia ninguém. Os vagões emborcados giraram
tombados com suas rodas ameaçadoras. Tudo indicava um
acidente nos trilhos.
–– Sean, veja... lá está ele. –– assustando-se com as
coincidências do pesadelo. Tiago correu corajoso para junto do
corpo, passando por cima dos bancos encostados à parede curva e
azulejada da gare. O que aconteceu nos segundos imediatos fez
com que Sean ficasse boquiaberto e sem reação. Ele já estava
hipnotizado.
Dois paramédicos trajados com jaquetas fosforescentes,
distintas daquelas que ele havia visto até então, surgiram.
Simplesmente brotaram de um local que não havia nada, nem
portas, acessos, escadas ou outra abertura qualquer, só se tivessem
vindo pelo túnel interditado.
Mas a exata razão pelo qual estava estático era porque eles
atravessaram os destroços. Eles não pularam sobre, eles
transpassaram os escombros como se eles fossem mera ilusão, um
nada. Mas eles estavam lá, assim como ele e Tiago.
Eles chegaram junto com Tiago ao homem caído. Contudo
não pareciam surpresos. Sean estava tão apavorado quanto no dia
da aparição no hospital, ainda podia sentir o hálito quente do
cavalo fungando em seu cangote. Achava que não ia conseguir
andar, suas pernas estavam trêmulas e evitava tossir.
Ele ia dizer algo quando um dos médicos de campo desdobrou
um computador de bolso no ar afirmando: –– Ele não está nada
bem, mas parece que tem algum tipo de auxílio local. Não estou
97
entendendo?! As ambulâncias ainda devem demorar de cinco a
quinze minutos. Depois, com tantos feridos na superfície. ––
retirando os olhos do monitor –– Talvez alguém daqui?
–– Tem mais alguém aqui, além deste garoto? –– referindo-se
a Tiago que se aproximava do rosto do rapaz desmaiado. Desta
vez apertou alguns botões no palmtop e direcionando-o para todos
os cantos da plataforma destruída, quase engasgou quando um
apito assinalou o lugar onde Sean estava entorpecido. Não se
sabia quem estava mais impressionado, se era o garoto que
tentava em vão chamar o amigo ou se eram os tais fantasmas
profissionais que se grudaram para reler à tela translúcida do
computador.
–– Não tem nada sobre ele, quem será? –– Não tiveram tempo
para criar conjecturas, pois perceberam que o outro garoto mexia
displicentemente no ferido. –– Não mexa aí, pode agravar o
ferimento! –– reagindo, sem esperar que o escutasse.
É claro que o Tiago não ouvira o conselho dos paramédicos e
eles também não esperavam que ele escutasse, entretanto, da outra
extremidade da plataforma Sean gritou logo após.
–– Não toque nele, vai agravar a lesão! –– desta vez os
médicos se espantaram, perplexos. Não perderam a chance, e o
que aparentava ser o mais jovem dos dois fantasmas correu, se
aproximando de Sean tão rápido que o impedira de efetuar uma
escapatória.
–– Sim, ele nos vê! Quem é você?
–– Eu... eu... eu que pergunto quem são vocês? –– não
respondeu de imediato, mas atraiu Sean o mais rápido possível
para junto de Tiago. Não tinham tempo para brincar de quem é
quem.
–– Sou eu, Tiago –– que achava que era com ele. –– O que
está acontecendo? Você está bem? –– já estava cansado de ouvir
todos dizerem se estava bem ou não. Sean calou-se, se ajoelhando
devagar, para ver o homem caído de peito para baixo.
Parte da estrutura que suportava o teto cedeu de repente,
achatando alguns vagões ainda intactos. Esperaram a poeira
assentar. Tiago tossia e lacrimejava muito.
O outro paramédico havia instalado uns cilindros próximos
do corpo, que se acenderam ao comando do computador de mão.
Não sabia como reagir a tudo o que ocorria e, Tiago insistia em
98
levantar o homem ou buscar por ajuda. Sean não estava atento ao
que ele dizia e sim aos paramédicos que estavam atarefados. Não
deixava de pensar porque fantasmas estavam trabalhando para
socorrer uma pessoa viva.
Fizeram alguns diagnósticos e se olharam.
–– Acho que vamos precisar da sua ajuda.
–– Como? –– Tiago respondeu ao como pensando que a
conversa era com ele: –– Você pega nas pernas e eu nos braços.
Mas Sean só escutou o paramédico pedindo que ele entrasse
no vagão do metrô e procurasse por um pacote branco. Levantou-
se e o seguiu. Desta vez reparou que uma grande letra I estampada
na jaqueta era a sua denominação de grupo.
–– Que significa esse I? –– perguntou mais para si do que
para alguém, pensou.
–– Somos do Grupo Índia de Socorro, atuamos nesta região
da cidade média e você, quem é?
–– Sean Fox. –– irritado e com medo. Tiago murmurava que
já sabia quem ele era e que precisava mesmo era de sua
intervenção para erguer o homem.
–– Não perca tempo procurando por alguém, não tem
ninguém aqui, somos somente nós dois... –– Agora Sean se virou
para Tiago e gritou em resposta às lamurias.
–– Estou tentando! Cale a boca e me ouça, já tem gente
querendo nos ajudar! Tem um bem do seu lado. –– Tiago calou-
se sem saber como reagir, mas também ficou preocupado com o
fantasma, será que estavam por perto? Apalpava o ar esperando
sentir algo.
Lá estava a porta metálica do pesadelo, era a porta de um dos
veículos virado. Ela não queria abrir, teria que se rastejar por uma
das janelas trincadas. Apoiou-se com a mochila protegendo os
braços e investiu contra o vidro trincado, espatifando-o. Pulou por
sobre a abertura, caindo de lado e batendo com força numa das
barras de segurança. Com dificuldade enfiou a mão onde o
médico apontava e agarrou o embrulho amassado que, apesar da
sujeira e da pouca luminosidade, dizia ser do Hospital Val-de-
Grâce e enviado à Universidade. Em letras espalhafatosas lia-se:
“Cirurgias: Instrumentação”.
Saltou para o exterior arranhando as mãos nas lascas
retorcidas do alumínio e andou apressado para o segundo
99
paramédico. Assim que se acercou, viu maravilhado que os
cilindros projetavam uma representação translúcida do homem
que flutuava a um metro do piso, evidenciando alguns órgãos
internos numa variação de cores ofuscantes. Um fluxo de cores
aleatórias se espalhava rente à imagem. Havia manchas escuras, e
uma dessas bem perto do coração, causava mudanças em todo o
corpo. Como as ondas do mar contra a enseada.
O segundo médico sacou o computador de um bolso da calça
e fixou-o no ar, sem apoios visíveis. Clicou em dois pontos
opostos e esticou o monitor até alcançar a medida de seus braços
abertos.
–– Uau! –– mas não pôde perguntar mais nada. Novos apitos
soaram confirmando uma parada cardíaca que esperava a
intervenção de Sean. Nenhum dos mecanismos podiam reparar o
trauma, apesar de que eles possuiam equipamentos que faziam
verdadeiros milagres, porém eles não podiam intervir. Não
diretamente, neste caso.
–– Acho que é com você, Sean!
Não recuou ao encargo, queria saber quem eram eles e,
principalmente, quem era o homem ferido. Apoiou-se o mais
perto possível do corpo e olhou com flagrante tensão para o
médico, esperando alguma resolução diante do embrulho aberto.
Alguns instrumentos estavam selados e brilhavam a pouca
luz, evidenciando bisturis, injeções, agulhas e um cem número de
aparelhos indefiníveis. Um bip soou medonho.
–– Ponha seu joelho sobre as costas, na altura das axilas ––
disse enfático, passando um dedo pelo local ––, não tenha receio.
–– não parecia o procedimento habitual para ressuscitamento,
aquele em que se põe a mão sobre o peito e faz respiração boca-a-
boca, recordou Sean. –– Agora com sua mão direita puxe o ombro
para cima e com a outra para baixo, como uma torção... e não se
esqueça de girar o joelho.
Não pôde evitar um arrepio quando a mão do paramédico
tocou a sua, ou melhor, não tocou. Continuou por algum tempo
até que os batimentos voltassem e depois apertou alguns pontos da
mão conforme sugerido pelos paramédicos. Com certeza deu
muito certo. Mas agora vinha o mais difícil.
–– Ele está com uma ruptura no miocárdio que vazou para a
cavidade pericárdica –– demonstrando o perigo através da voz
100
pausada ––, mas isso não é o problema, o tamponamento bastaria,
mas... –– o homem parou de falar observando a imagem com
cuidado, pela primeira vez Sean reparou no fantasma como um
ser, um homem, com a diferença que ele estava morto. –– bem,
você vai ter que fazer... algo.
De alguma forma este algo cheirava à cirurgia e o medo se
apoderou de Sean que, sem perceber, contou ao Tiago o que
estava prestes a fazer.
–– Você está louco?! Não é médico, não sabe nem fazer os
primeiros-socorros. Depois... –– Sean cortou acrescentando.
–– Eles vão dar uma mão, não sei como.
–– Vão te ajudar?
Não podiam esperar muito, pressionaram Sean a selecionar
uma seringa comprida, assim como ataduras e outras coisas que
acabaram sendo esparramadas pelo chão. Os paramédicos
estavam mais perdidos, buscando um jeito de ajudá-lo com o
procedimento intricado. Iriam retirar cinquenta miligramas de
sangue da cavidade do pericárdio para evitar o colapso cardíaco
por causa do excesso de pressão num dos ventrículos, resumindo.
Enfim, iriam dar um jeito de evitar a morte. Sean não entedia
nenhum dos termos clínicos, mas com um diagrama demonstrado
ao computador, pôde dizer que entendia o problema. Porém
resolvê-lo era outra coisa.
–– Terei que tirar um pouco de sangue do coração –– ao que
Tiago quase desmaiou de susto ––, se não fizer isto ele morre.
Você não quer saber quem ele é?!
Tiago se recuperou e confirmou: –– Pode fazer! Eu acredito
em você.
–– Imagine que o coração é como dois balões, um dentro do
outro... o de fora fica quase que colado ao de dentro. Como o de
dentro está furado o ar escapa aos poucos para o segundo balão. O
bom é que, sendo o balão de fora menos flexível, isso evita
hemorragias mais complicadas. O ruim é que, às vezes, tem tanto
ar no balão de fora apertando o balão de dentro que o impede de
trabalhar. –– demonstrando com as duas mãos o funcionamento
do coração que aos poucos ia parando. –– Por isso precisamos
tirar um pouco de ar do balão, entendeu?
Ele só balançava a cabeça.

101
Durante a explicação o outro digitava algo ao computador e
falava num mecanismo, semelhante a um telefone celular, com
alguém que se preparava para acompanhá-los na intervenção. ––
Não está errado? Ele pode ser ajudado? É um tiro no escuro,
quantas vezes você ouviu falar que alguém sobrevivesse nestas
condições? –– seguia com as perguntas pelo intercom.
Todos estavam envolvidos em algo improvisado às pressas,
mudança de última hora, e tudo que estava acontecendo estava
errado, pelo menos nunca desse jeito. Sempre havia um
planejamento de anos, talvez meses... nunca de minutos.
–– Pronto, estamos autorizados. Ele não pode morrer, não
hoje. –– sussurrou sorrindo.
Neste instante, de outro cilindro, uma imagem apareceu como
um holograma, era outro homem de uniforme médico, mais
atraente que os jalecos brancos do hospital da doutora Mel.
Debruçou-se sobre a cópia diáfana do paciente e autorizou a
intervenção de um procedimento incomum, mas necessário devido
às circunstâncias urgentes. Apertou uns botões e se afastou em
silêncio. O computador deu dois piques e reacendeu a imagem
holográfica. O cérebro de Sean foi invadido de dados como se
estivessem descarregando um arquivo, fazendo um download em
tempo recorde.
–– Pronto, é todo seu! –– disse o terceiro homem que se
projetara há pouco.
–– O que é todo meu? –– Tiago ficou assustado com a
pergunta do amigo. A informação temporária fazia sentido para
Sean que: –– Os efeitos da pequena quantidade de sangue no saco
pericárdico são desprezíveis, mas, quando o volume atinge 150 a
200 ml, às vezes, instala-se um choque severo, talvez mesmo
abrupto, já que o pericárdio não pode ser distendido. Nesse ponto
crítico o acréscimo ou a remoção de pequena quantidade... No
way! Enfim que, o resultado final depende da interação de três
variáveis importantes: o ferimento cardíaco, o ferimento
pericárdico e o hemopericárdio... ufa! –– agora entendia o
problema, mas todos esses dados não lhe davam a experiência que
precisava para atender o trauma.
–– Cara, que foi isso? –– admirava Tiago, boquiaberto.

102
–– Mas não é um trauma cardíaco fechado? Já sei ––
respondendo para si ––, o impacto brusco provocou a ruptura do
tecido.
–– O equipamento estará obedecendo ao seu comando, ele lhe
ensinará como fazer o reparo. –– Sean repetiu para Tiago que o
incentivou a tentar. –– Mais do que isso, só se eu... –– impedido.
–– Tentar o quê? –– O paramédico sugeriu pedir uma
simulação para reconfiguração física do coração, ao que Sean
reproduziu atropeladamente. A seguir, um outro holograma, mais
próximo do coração, apareceu diante dele. Ela mostrava a seringa
sendo introduzida por um canal imaginário e retirando cento e
vinte e sete miligramas, conforme a atividade presente.
Os paramédicos afastaram-se do paciente, se colocando ao
lado de Sean, pois os monitores haviam sido reposicionados para
o operador, modificando todas as suas atividades para ele. Um dos
médicos se colocou atrás de Sean, apoiando as mãos sobre a testa
dele: –– Nós vamos melhorar as suas reações, não se preocupe se
esquentar um pouco.
Toda vez que Sean tentava enfiar a seringa asséptica no peito
iodado, não conseguia prever se estava certo ou não, chegou a
bater nas costelas do homem que tinha sido virado cautelosamente
para a operação.
Sean pensou em algo diferente.
–– Insira a seringa e minha mão ao holograma em tempo real.
–– pediu Sean ao computador que respondeu acrescentando as
novas imagens –– Uau! Até parece uma daquelas cirurgias à
distância. –– brincando com sua mão virtual.
Enquanto olhava para as imagens, que desta vez indicavam
acertadamente o ponto, pôde sentir a agulha entrar devagar até o
coração. Respirou fundo e começou a sugar o excesso de sangue.
O computador fazia o cálculo e cronometrava o tempo restante
para a próxima parada cardíaca, que era muito pouco. Num dos
monitores a imagem balançava com as batidas fracas do coração.
–– Doze miligramas, trinta segundos, vinte e três miligramas,
doze segundos, trinta e nove miligramas, cinco segundos,
cinquenta e um miligramas e terminou, sessenta e três miligramas.
Sacou devagar a seringa, Tiago ensaiava um desmaio. E o
acidentado piscou os olhos e por um instante encarou Sean.

103
Sean suava em profusão e deixou-se relaxar curvando-se
sobre as pernas pronto para desmaiar. Não havia tempo. Ouviram
os primeiros passos, e as luzes das lanternas já piscavam na
extremidade da estação. Os dois paramédicos pediram para que
eles fugissem, pois não iam conseguir explicar o que aconteceu.
Sean agarrou o amigo pelo colarinho e balançou-o seguidamente
até que despertasse.
–– Vamos sair daqui... agora.
Ao levantar, Tiago ainda queimou a palma da mão num
encanamento exposto, xingando quem podia e não podia,
acelerando os procedimentos para a escapada. E se foram.
Os paramédicos piscaram agradecidos.
Perto da boca, no fim da plataforma, Sean viu mais duas
pessoas no cais oposto, o único trecho possível. Será que elas
haviam visto o que aconteceu? Contudo não se preocupou em
saber, pois uma das pessoas se adornava com um manto vermelho
de onde só apareciam as sandálias, e mantinha um olhar bizarro
neles. O outro tinha um aspecto de frade com sua túnica escura
cobrindo sua obesidade mórbida e se postava mais afastado,
afagando uma chave que pendia da cintura, junto à máquina de
refrigerantes. De jeito atrapalhado e cambaleante que contrastava
muito com o seu rosto lívido que denotava algum desânimo e
indiferença ao que aconteceu. Foi tudo tão rápido que Sean não
viu o estranho sorriso que apareceu no rosto do homem do manto
púrpuro.
Instantaneamente sentiu uma dor lancinante em sua cabeça e a
sua visão turvar, uma ânsia forte agarrara-lhe o estômago e sentiu
que algo ruim o cercava, parando-o.
–– Alguém o queria morto! –– referindo-se ao corpo que
largaram aos cuidados dos policiais. Era só uma sensação.
Tiago fora mais prático, esquecido da queimadura, apanhou e
empurrou Sean escada acima enquanto ele insistia em olhar para
trás.
–– O que tá acontecendo, cara? –– e já estavam à luz da praça
movimentada e repleta de ambulâncias e policiais, atendendo os
feridos e afastando os curiosos. As sirenes berravam avançando
por todos os lados, disfarçando os gritos dos bombeiros e de
alguns histéricos. Num dos cantos, separado por uma faixa de
isolamento mal ajeitada, estavam Lucas e Joshua tentando
104
argumentar com um policial o acesso. Quando os dois se
aproximaram de Lucas este ergueu um olhar de alívio e satisfação
que durou frações de segundo, caindo na mesma expressão
rabugenta e descontente, mas agora com uma pontada de ódio.
Eles estavam brancos de pó, tossindo. Sean não se sentia bem,
talvez toda a adrenalina tenha desarranjado seu organismo e o
estresse tenha alcançado seu ponto máximo, porque ainda sentia
náuseas e a dor de cabeça voltava inflexível.
Algo tão forte quanto o que havia acontecido em Londres, no
dia do desmaio, estava se aproximando. Foi tão forte que o sangue
escorria de seu nariz.
De longe, alguém atento aos garotos, seguia entusiasmado,
com o olhar, a ocasião que se apresentara oportuna, mesmo eles
tendo estragado seus planos.
Sean não pôde se controlar e vomitou aos pés de Lucas.
Irremediavelmente.

Afinal todos ficaram sabendo do acidente na estação, da fuga


de Joshua e do ataque de nervos de Lucas, entretanto, o mais
importante estava a salvo, no silêncio de Tiago e Sean. Mal Tiago
conseguia acreditar no que aconteceu e, nem Sean acreditava no
que havia conseguido fazer. Lembrou que estava apavorado e por
algum motivo sentiu-se atraído para enfrentar aquela situação. Em
toda a sua vida, pela primeira vez, conseguia entender o que eram
as visões e sussurros, contudo era difícil de aceitar que fantasmas
interagiam com os vivos muito mais do que ele imaginava –– é
claro que ele imaginava que fantasmas não existiam, mas a partir
de então podia ter certeza absoluta.
O castigo pelo que aconteceu, exceto o caso de terem feito
algo no subsolo, oculto dos olhares de delatores, seria uma maior
rigidez e controle dos passos de Sean. Numa pequena reunião de
cúpula composta por Sarah, Patrick e a doutora Mel, decidiram
colocar Sean sob a atenção e cuidados de Mateus, empregando-o,
por meio período, como garoto-faz-tudo no aeródromo que ele
trabalhava.
Faria alguns serviços leves e estaria longe de encrencas.
Lucas seria separado de seu brinquedo, o skate, por um período
indeterminado tendendo ao infinito dos desejos da mãe e Tiago
105
seria responsável por algumas limpezas, já que tentava evitar que
as coisas piorassem. Mas explicar o que aconteceu dentro da
estação, isso requeria um embuste laborioso e convincente: como
haviam dito a todos, que eles tinham retornado para buscar algo
que tinha caído e ficaram escondidos, esperando a multidão
desesperada sair, e só. Bom, serviu. Serviu até cair a noite.
O que mais chocou fora o boletim da noite que pretendia
divulgar uma cobertura do acidente anunciando imagens
impressionantes do sistema interno do metrô. Como ele podia ter
se esquecido. Bateu com a mão na testa: –– Burro! –– Estava por
um triz de ser descoberto e Tiago também pensou o mesmo,
porque ligou de imediato para os Fox.
–– Será que nós aparecemos neste vídeo? –– era uma
incógnita bastante óbvia, considerando toda a cobertura.
Respondida somente após o silêncio, quando a televisão mostrou
as cenas que eles reconheceram tão bem. Primeiro com os garotos
se aproximando do homem derrubado e, terminando com a
pequena intervenção de Sean no coração. Mais silêncio. Entrou o
intervalo.
–– Não aparecia nada, não dava para nos ver, não é? ––
perguntava Tiago. –– Tudo chuviscado, sujo pela poeira... me diz.
Não dá para ver nada?!
–– É, acho que não, nem detalhes, nem som e depois tinha
tanta gente. –– Sean falava mais para si, tentando se convencer.
Desligou declarando que no dia seguinte talvez conversassem
sobre o assunto e encerraram o diálogo, aturdidos, quando o
noticiário reiniciou.
–– “... contatamos a Dra. Göettees do Hospital Val-de-Grâce
que fora a responsável pelos equipamentos encontrados no local
do desastre e que nos respondeu ser uma incrível coincidência os
instrumentos certos estarem no lugar certo e nas mãos de quem
sabia utilizá-las. Por outro lado, médicos especialistas estão
surpresos com a atitude dos garotos que efetuaram um reparo
cardíaco que exigiria pelo menos uma toracotomia ou
equipamentos sofisticados para conseguir a precisão necessária
para a cirurgia realizada. No momento estas são as provas e os
órgãos encarregados estão se mobilizando a procura dos meninos
que podem ter de treze a dezesseis anos... a seguir, manifestações
e fogo em Paris em mais uma noite de atentados”.
106
Na televisão um grupo de manifestantes arremessava garrafas
com coquetéis molotov sobre os carros policiais, porém uns
maquis, usando barretes vermelhos, atiravam com suas pistolas
fugindo em meio a bolas de fuligem e faíscas exageradas.
Desviou o olhar cambaleante. Ele estava mais calmo. Como
iriam descobrir quem eram os responsáveis, não dava para ver
nada direito, naquele chuvisco. Mas o boletim voltava a falar do
acidentado.
–– “... após o ocorrido o Sr. Marc Bernis, Chefe do
Departamento de Pesquisa e Documentação do Museu do Louvre,
fora removido em estado estável...”. –– Num átimo, foi a Sarah
quem se inquietara, pulando do sofá para o telefone e berrava
comprovando as suspeitas de Sean.
–– É o meu chefe! É o desgraçado do meu chefe! Nem
comecei a trabalhar e ele morre?! Não mesmo.
Não podia ser coincidência.
Quem estava por trás de tudo? Pois havia alguém por trás.
Coincidências já não bastavam para Sean.

107
8

conversando sozinho.

O carro deslizava suave pela estrada, em curvas


generosas que mergulhavam nos bosques verde-oliva da região ao
norte de Saint-Denis. Paris ficara para trás, com seu mar de
edifícios dourados murando o caminho para o aeródromo.
Sean observava o motorista que estava compenetrado em seus
pensamentos, comentando, vez ou outra, algumas particularidades
sobre o trajeto ou do que teria que fazer. Percebera que havia
acontecido algo com Mateus, nunca o vira tão circunspecto e a
única explicação que descobrira, com o auxílio de Tiago, fora de
que ele tinha brigado com a namorada recentemente.
–– Eventualmente alguém vai falar, não é? –– resmungava
Tiago sentado atrás, em meio à papelada que corria de um lado
para o outro do veículo, embolando num canto antes de rolarem
um para o outro.
Estavam sós, dentro do compacto Peugeot prateado; Sean não
se atrevia a perguntar e muito menos Mateus de disfarçar. Ambos
não deviam se intrometer nos assuntos alheios, pois a barreira da
idade não permitia. Era o que os outros diziam: um moleque
jamais entenderia destes problemas e, gente grande nem sempre
dava satisfação. Ficava deste modo estabelecido o relacionamento
entre Sean e Mateus, mesmo que estes quisessem ser amigos.
Contudo Mateus olhava de soslaio para Sean, incomodado
com algo, havia um ar de mistério que Sean imaginava ser sobre o

108
que aconteceu no metrô. Era óbvio que ele sabia a verdade, Tiago
não conseguiria manter o segredo com os irmãos por tanto tempo.
Em tempos, Sean tentava arrancar Mateus do devaneio com
algum assunto relacionado à aviação e este até tentava esboçar
algum contentamento. Inútil, pois a tal garota era justamente
funcionária do aeródromo e era falar num que pensava noutro.
Seria melhor calar-se.
Tiago resolveu ficar quieto, deitado com os pés cruzados
saindo pela janela, lendo um manual que salvou mergulhando as
mãos naquela lixeira: Cessna F-152. Bah!
A esta altura já deviam estar próximos da entrada para
Moisselles, aumentando as expectativas de Sean que procurava,
com o passeio, esquecer o que havia acontecido no metrô.
Precisava se manter longe, mas ficava constantemente pensando
no acidente. Se, entretanto, Mateus conversasse mais, poderia se
distrair. Mas, distraído estava mesmo era o condutor, que não
percebeu quando entraram numa névoa diáfana que atravessava a
pista, saindo da floresta cerrada que margeava os dois lados da
autopista.
Não parecia normal, considerando que o dia estava claro e
límpido, verdadeiro céu de brigadeiro. Mateus percebeu a tensão
de Sean e rindo esclareceu o fenômeno.
–– Dizem que estas florestas são assombradas –– mentindo
pela chance de pregar uma peça ––, e que muitos desaparecem
quando entram nestas nuvens.
Sean não sabia se acreditava, todavia um sinal o alertava para
o perigo, estava com a tal dor de cabeça que sufocava suas ideias,
ouvia uma voz sussurrando, não entendia o quê.
–– Que foi!
–– Não sei bem, a cabeça dói e...
Neste instante um cavalo de batalha, imponente, cavalgado
por seu cavaleiro metálico de espada empunhada, cortou a estrada
lentamente, soltando fumaça pelas narinas. Antes mesmo que
pudesse advertir Mateus, este freava violento, girando o carro
algumas vezes, saindo da estrada e se enfiando inclinado numa
clareira úmida, num charco escuro.
A fuligem e o guincho dos pneus romperam o sossego. Não
havia mais ninguém, rodovia inacreditavelmente deserta.

109
Enquanto giravam, Sean pôde ver com nitidez que o cavaleiro
olhava diretamente em seus olhos, mesmo que tudo tivesse
acontecido em poucos segundos. Pôde ver bem os olhos de um
profundo azul. Um olhar que indicava admiração, curiosidade. No
tórax, sobre a couraça, um manto branco estampava uma cruz
carmim que não tinha percebido antes.
Demorou um pouco para que eles acordassem do impacto.
Esfregando braços e testas doloridas. Gemiam em coro. Aos
poucos saíram do automóvel, que parecia não ter sofrido senão
alguns arranhões indesejados. Instintivamente Sean procurou por
Mateus. “Será que também viu o cavaleiro? Só podia, o que mais
poderia ter provocado o acidente”.
–– Acho que havia óleo na pista! –– com expressão lívida de
quem tentava se convencer, ajeitando as costas.
–– Não viu o... cavalo? –– escolhendo as palavras com
cuidado, não queria que Mateus desconfiasse, bastava um por
família; se nem o Tiago entendia direito. Desta vez foi Mateus
quem se assustou. –– Cavalo? Não, não tinha cavalo nenhum na
estrada. –– engasgando-se. Os olhos estavam bem abertos e dava
para sentir a respiração ofegante. Talvez fosse só o acidente, mas
Sean percebeu algo diferente em suas palavras.
Pararam para ver onde estavam e como sairiam sem maiores
dificuldades daquele emaranhado de galhos e ciprestes secos. O
carro estava inteiro e o motor ainda roncava.
Mateus desligou-o, esperando se recuperar um pouco. Ainda
havia um nevoeiro que não dispersava. Só então se lembraram de
Tiago, que como tinha ficado quieto demais, nem cogitaram que
ele estivesse ali. Não estava no banco. Porém uns ais e uis
enunciavam que ele estava à pequena distância, no piso traseiro
do automóvel, encurralado por baixo da papelada. Desta vez foi
Mateus quem salvou o irmão enfiando a mão naquela mesma
bagunçada.
–– Caramba, mano! O que aconteceu? –– friccionando a
destra no topo dolorido da cabeça. Mateus calara-se, saiu do
automóvel e caminhou até o meio da clareira que se iluminava por
brechas que se moviam conforme as copas. Sean voltou para
dentro. A névoa cercava-os, densa.
–– Acho que não foi bem um acidente, mas se foi
coincidência, bota coincidência nisso. Quando derrapamos, um
110
cavaleiro transpunha a pista. –– sussurrava aos ouvidos de Tiago.
–– Mas Matt não teria visto? Teria? –– mais para si do que ao
amigo.
Tiago não tinha entendido porque ele não teria visto o cavalo
até que Sean explicou. –– Estava na Mouffetard e talvez no
hospital. –– ou seja, só Sean podia vê-lo.
–– Você tem certeza?
–– Do que vi? Claro.
–– Não. De que o Mateus também viu... Você, eu já sei. E ele
falou o quê? –– procurando o irmão que andava em volta do
veículo.
–– Falou nada, resmungou algo como óleo na pista. Mas eu vi
o rosto dele antes de brecar... estava branco como cera. Creio que
ele só freou porque eu apertei o braço dele, e bastante forte. ––
silenciaram observando Mateus com cuidado.
Depois do incidente, o bosque caíra num marasmo insólito.
Nada. Simplesmente nada acontecia, nem o vento soprava
quando, de rompante, uma trovoada contínua soou de todos os
lados. Mateus girou olhando para todos os lados. Segundos
pareciam minutos.
Como num estouro de boiada, centenas de cavaleiros
cruzaram, velozes, o aberto, uns a cavalo, outros a pé, brandindo
armas, lanças e escudos. Estandartes e bandeiras, suásticas e
águias farfalhavam nervosas, o vermelho predominava.
Foi tudo tão rápido que Sean não pode precisar quem eram;
eles se assemelhavam a romanos, ou hussardos, ou meramente
soldados. Não conseguiu focar em nada em meio às brumas. E
como surgiram, sumiram.
Os corações acelerados bombeavam frenéticos. Mateus
continuava parado, em pé. Sean sabia que ele não teria visto nada,
os soldados só faziam parte de suas esquisitices, de seus
fantasmas. Mas quando ele retornou para o automóvel estava
quase desmaiando e balbuciava trêmulo. Sean não falou, no
entanto tinha algo acontecendo com Mateus. Será? Não podia.
Quando voltou a si, Sean perguntou-se, em voz alta, sem
perceber: –– O que eles estão fazendo aqui? –– já que começava a
acreditar em fantasmas. O que Sean não percebeu foi que Mateus
prestou muita atenção ao comentário enquanto retirava o carro da
mata. Recuando-o à estrada que estavam, há pouco. Tiago tentava
111
ajeitar o que podia dos documentos caídos assim como a sua
aparência desgrenhada. Ele também não tinha visto o pequeno
espetáculo que aconteceu na clareira.
Pouco depois estariam entrando em Moisselles seguindo até o
aeroclube de Enghien que ficava afastado dos grandes centros
urbanos. Se não fossem as torres de controle do aeroporto Le
Bourget e do Charles De Gaulle, a leste deste, poderiam até
imaginar como era voar bem livre, como gostava de frisar Mateus.

O aeroclube, simples e agradável, se escondia numa área rural


quase desabitada. Possuía pistas de um gramado bem cuidado em
terreno tão plano quanto era possível e, como instalações, tinha
uma sede, quatro galpões e a pequena torre de sinalização. É
evidente que tinha um bom pátio de estacionamento para as
pequenas aeronaves que ficavam aos cuidados dos donos, de
alguns voluntários fanáticos e do pessoal do aeroclube. Cuidavam
da conservação, higiene e abastecimento como se fosse um
prosaico passeio familiar de fim-de-semana. Adoravam voar.
Quando o Peugeot de Mateus atingiu a casa-sede, brecando
bruscamente sobre os pedriscos, este olhou severo para Sean que
percebeu que não era para comentar nada sobre o acidente –– pois
assim convencionou chamar a tal investida da soldadesca. Mateus
tentava recompor sua aparência acomodando as roupas e o cabelo,
mas o rosto não disfarçava. Certeza mesmo, não tinha como Sean
saber.
Mateus era daqueles que passam despercebido, cabelos
relaxadamente descuidados assim como sua roupa. Ele vergava o
porte de alguém independente, o bastante para não ter que dar
explicações de sua vida e, ao mesmo tempo, transparecia uma
jovialidade absurda que atraia a todos. Sempre amistoso.
Penetraram por entre a vegetação saindo num largo muito
utilizado em reuniões ao ar livre. Uma grade pintada de branco
separava-os do pátio dos aviões e dos hangares que ainda estavam
fechados. Algumas pessoas andavam atarefadas, descobrindo as
aeronaves, retirando o orvalho. Outras puxavam ou empurravam
aviões para o abastecimento; e alguns eram tão antigos assim
como o próprio clube.

112
–– Boa tarde senhor Daurat! –– homem gordo e folgazão que
usava uma jaqueta sintética forrada de emblemas e insígnias. ––
estes são o Sean e o Tiago, onde os quer? –– apressado demais
para se livrar dos garotos.
Sean continuava olhando para a jaqueta, distraído pelos
símbolos e nem se importou quando Mateus lhe dispensou,
parecia estar com pressa para resolver os seus assuntos. O Senhor
Daurat não parava de desfilar comentário atrás de outro, narrando
suas peripécias como piloto de guerra e como ajudou os aliados a
derrotarem o inimigo, indiferente de ele ter servido do outro lado
do conflito e em um posto esquecido por todos, no coração da
África. E Tiago era a companhia ideal, pois alimentava o ego do
velhote com dezenas de perguntas rápidas e inesperadas.
–– Vou pô-los com Christou para conhecerem bem as suas
tarefas, estão me entendendo? –– piscando em cumplicidade ––
Estarão sob os seus ma-ra-vi-lho-sos cuidados. –– declarou o
senhor Daurat entre uma verdade e três mentiras. Levemente ele
empurrou-os para o pátio, atravessando uma passagem com um
aviso vermelho-atenção.

Aeródromo.
Acesso Interditado.
Decreto Municipal de 8/3/1983.
Circulação estritamente reservada
Aos veículos de serviço, e somente ao pessoal autorizado.
Estacionamento autorizado para uso
Do aeródromo unicamente.

Largou os dois perto de um avião de listas acinzentadas


estacionado para reabastecimento e agarrou outro bode expiatório
para ouvir as suas histórias de caserna.
Sean ficou admirado com a aeronave e circundou-a, várias
vezes, observando cada pormenor. Há alguns metros, um
mecânico se embocava no motor de um aeroplano similar de
faixas vermelhas. Só se via as ferramentas caindo pelas entradas
de ar. As gigantescas portas sanfonadas dos hangares se abriam
rangendo ruidosamente, e, sem esperar, vários aeroplanos eram
expulsos puxados por suas bequilhas.
Alguém gritou de dentro. –– Christou! Atenda os novatos!
113
O mecânico se ergueu batendo contra a tampa do motor. Sean
estava admirado. Christou era uma garota. Bem bonita, aliás. O
que ela deve ter percebido, pois se fixou nele, deixando-o
encabulado e ruborizado.
–– Uau! Cara. Sempre a achei demais. Incrível! –– virando
para perceber o amigo congelado. –– Isso está me cheirando...
–– Cale-se –– falou baixo Sean, metendo a palma da mão
sobre a boca do enxerido. Ela caminhou até onde Sean estava e
soltando seus cabelos escuros e lisos apertou a sua mão sorrindo.
–– Sou Elene Christou e você deve ser o Sean de quem Matt
tanto fala. –– não sabia se era o susto de a mecânica ser belíssima
ou o fato de que Mateus falasse tanto dele, mas estava enfeitiçado.
Tiago não conteve um sorriso maroto. –– E você Tiago, como
está? Seu irmão está por aí? –– nem precisava abrir a boca, ela
sabia.
–– Vejo que gostou do GBQA! –– voltando-se para Sean que
estava pensando em outra coisa. Elene é fruto de uma rasante
linhagem de pilotos gregos, pioneiros da Força Aérea Helênica ––
HAF –– que amavam acrobacias e corridas. No seu sangue podia
até correr querosene de alta octanagem, porém a sua razão
garantiria a mais alta performance.
Ela falava acariciando o cessna que eles estavam admirando
instantes antes. Um modelo C182 de cinco lugares. Conversaram
um pouco sobre a aeronave, deslizando do motor às asas,
perscrutando dos trens de pouso aos estabilizadores e profundores.
Cada mostrador do painel e ela se mostrava exaltada pelo que
fazia enquanto Sean não deixava de admirá-la –– não escutava
nada do que dizia, também tinha ficado mudo. Tiago seguia-os
gesticulando mímicas como se estivessem namorando, beijos
linguarudos, abraços melosos, olhos virados, enfim, tudo que
provocasse Sean sem que Elene desconfiasse.
–– Você me paga! –– assoprou meio rindo, com o punho
cerrado antes de tropeçar aos pés da garota. Tiago gargalhava às
escondidas.
Depois das apresentações preliminares, contando cada
minudência do cessna, Christou entregara um sem número de
utensílios para que eles lavassem o F-GBQA. Por hoje, bastava
lavá-lo. Ele não pôde deixar de encarar a Elene. Ela era como o
próprio nome, uma escultura grega, além dos olhos grandes e
114
brilhantes que hipnotizavam, que nem a sujeira de óleo e a
fuligem ocultavam. Sean se sentia estranho, tenso pelo estouro de
cavaleiros do bosque, mas seu coração voltava a acelerar-se
descontroladamente. Ele realmente não percebera que a razão era
bem outra. Era a primeira vez que isso lhe acontecia.
Ela seguiu um outro chamado e adentrou célere no aeroclube
que ostentava uma bela insígnia composta de duas asas douradas
emoldurando um círculo marinho: Aeroclube Croix du Sud ––
Moisselles.
Sean enfiou um soco no ombro do chato do Tiago que
gargalhava a pleno pulmões, sem se importar de que ela ouvisse
ou conjeturasse de tanta algazarra.
Voltaram ao trabalho.
Sean lançou o balde e o resto das tralhas para Tiago que ainda
ria enxugando suas lágrimas. Ele agora observava cada pedaço do
lugar durante o enxágue, com muita espuma, do monomotor.
Estava bastante frio e o outono se preparava para mostrar sua face.
Por toda parte pequenas colunas de fumaça surgiam do bosque
limítrofe ao aeródromo.
Os hangares ficavam abertos a maior parte do tempo e suas
grandes portas de alumínio tremiam ao vento provocado pelos
aeroplanos que circulavam no pátio de manobras. Porém um
pequeno prédio, mais afastado dos demais, estava fechado, e há
bastante tempo. Estas pequenas curiosidades ajudavam a esquecer
o que havia acontecido, mas não lhe tirava da cabeça a ideia de
que Mateus também tinha encarado o cavaleiro ou pelo menos
desconfiava que ele tinha visto.
–– Continua lavando, vou dar uma olhada por aí.
–– E eu?
–– Você já conhece cada buraco daqui! Depois tem serviço
para acabar. –– jogando água em Tiago como castigo por
avacalhar com a namorada do irmão.
Largou um pouco o que estava fazendo e foi bisbilhotar o
hangar que não era muito grande, talvez uns três ou quatro aviões
entrelaçados caberiam muito bem lá. Apesar disso, encostado a
um banco, atrapalhando os seus planos, havia um homem de uns
trinta anos, agasalhado como piloto, peça única, jaqueta e luvas de
couro acolchoadas de pelo. Na cabeça, de cabelos negros e
frisados com uma pasta alisadora, um óculos redondo de aviador
115
ficava pendurado ao pescoço. Puxava com os dentes o cordame
que pendia da luva. Depois sorria de um modo extremamente
petulante.
Regressou ligeiro, terminando a secagem do aeroplano, pois
Elene já retornava.
–– Conversa difícil. –– dizendo da boca para fora, do que para
alguém ouvir. Nem reparou que Sean estava todo molhado, do
joelho da calça para baixo ainda pingava. Tiago voltava a rir,
primeiro da garota, depois dos olhares de Sean. Neste instante ele
aproveitou para perguntar, evitando que Tiago recomeçasse a
brincadeira.
–– Quem é aquele que está sentado perto do hangar
enferrujado? –– Elene assustou-se, girando automaticamente
naquela direção. Rindo-se mais tranquila. –– Calma, é só o Matt.
–– Agora foi Sean quem se virou atordoado, era o Mateus sim. E
aquele forasteiro também; conversavam. Ele não se confundiu,
tinha certeza do que via.
Sean repetiu –– Só ele?
–– Daqui, eu só estou vendo ele conversar com aquele velho
avião. É estranho, mas sempre fica lá, conversando sozinho. ––
completou Elene, meio triste.
–– Avião?! –– e Sean só via o tal piloto.
–– Sim. Ah, você não sabe, dentro do hangar tem um biplano
de uns oitenta anos, acho que é um Breguét 14. De qualquer forma
precisa passar por uma bela restauração. Como não o fazem, Matt
adotou um companheiro sem pernas. –– terminando o diálogo
enquanto esfregava os cabelos de Sean que desta vez não se
importou, até gostou. –– Este não vai a lugar nenhum.
Enquanto um pensava no que Mateus estaria divagando com
uma tralha enferrujada, o outro se perguntava, por que razão
Mateus não confirmava que havia visto o cavaleiro na estrada, já
que ele também via destas esquisitices. Tiago travava um bate-
boca com a mangueira, que não parava de espirrar água. Alguém
mais rápida e intragável com a língua do que ele próprio.

Longe Mateus continuava.


–– E então Jean, quem eram?

116
–– Ainda não sei, não me deixam chegar perto. –– comentava
o piloto acerca dos cavalarianos. –– Mas seria uma boa hora para
fumar, como sinto falta!
Mateus nem escutou, percebeu o olhar distante dos dois
perscrutando-o. O tubo de borracha ainda continuava espirrando e
molhando Tiago.
O vento frio fez com que ele se espremesse à gola do casaco.
Da Elene poderia desconfiar que estava comentando sobre seus
monólogos com o Breguét, como costumava dizer, mas Sean...
Será que ele via o Jean? Possivelmente.
–– Cuidado com o pequeno ali, ele sabe que eu existo. O mais
engraçado é que eu já o vi antes, mas de onde será? –– desta vez
era Jean quem divagava em voz alta.
–– Depois eu falo com ele. –– De olhos semicerrados.
–– Aliás, vai nevar amanhã. –– Ainda divagando o fantasma.
Mateus levantou-se e seguiu para um bimotor que acabava de
aterrissar. Não sem antes passar por Sean e dar uma piscadela sutil
e séria.
Confusões à parte, Mateus não abriu a boca. Seguia pensativo
e antes de partirem declarou: –– Depois a gente conversa melhor.
Amanhã, acho que não viremos ao aeródromo. –– e antes que
Sean resmungasse –– Eu disse depois!
Contudo uma coisa ele não deixou para depois, enfiou um
belo murro na boca do estômago de Mateus que se curvou de dor
com os olhos lacrimejando. Ele não reagiu, entendeu o recado.
Mereceu, pensara. Quem não entendeu foi Tiago e Elene.

Guarini e Naxamuñaca esperavam Sean regressar. –– Em


pouco tempo ele conseguirá nos ver mais. Acho que chegou a
hora dele falar com o senhor Bernis... hum. –– esfregava o queixo
observando Sean se jogar na cama. Jogava o tênis encharcado
longe como se quisesse acertar as duas nuvens que o rodeava.
Estava irritadíssimo.
–– E o tal do cavalo branco? –– falou Guarini.
–– Não sei o que ele quer, eu supunha que sabia... hum...
Desconfiava do que ele ia fazer antes, mas agora, não sei ao certo.
–– saindo do cômodo com uma expressão de dúvida renovada. ––

117
Continuaremos fazendo o que pretendíamos, algo deve ter
acontecido no metrô que não vimos!
–– Não nos deixaram participar.
–– Tenho meus contatos, alguém poderá nos contar, assim que
eu o encontrar. –– pressentindo que seria mais difícil do que
invadir a estação colapsada. –– Hum, desconfio que Sean é mais
do que aparenta. Depois eu pergunto por aí. Se os dragões podem,
eu também posso... mas cuidado, seu velho bisbilhoteiro. ––
dirigindo-se para si.
Guarini retirou-se encafifado, será que havia mais alguém lá?
Sean saiu do banho enrolado numa toalha pouco felpuda,
matutando os fatos para tentar entender um pouco que fosse do
que estava acontecendo ao seu redor. Não era a questão de ser
tachado de louco ou não, mas o que estes fantasmas estavam
tramando.
Sentou na cama e caiu, de braços abertos, admirando as
pequenas estrelas que havia colado ao teto. Lá fora esfriava,
fazendo as janelas rangerem. As árvores estavam nuas. Duas
batidas fortes trouxeram-no à realidade. Curvou-se para levantar e
abriu a porta do quarto. Era o pequeno Joshua, que sem
explicações puxou a toalha e saiu em disparada. Sean balançou o
corpo para fora do quarto com a sacudidela e instantaneamente
saiu em percalço do garoto.
Correu pouco, a tolha estava largada ao chão.
Abaixou-se para pegá-la quando ouviu a voz de sua mãe
conversando com seu pai sobre os documentos que pesquisava no
museu. Patrick fingia que estava ouvindo cada palavra, entretanto
bastava olhar para a televisão para que soubessem quem ganhava
toda a sua atenção era a partida de futebol.
E voluntariamente, Sarah contava, resumindo o documento. A
história de um médico de guerra a serviço dos cruzados e que a
incomparável marca que pudesse dar a conhecer a identidade da
personagem era um nome, quase uma assinatura. Sean regressava
ao quarto.
–– E é por isso batizou toda a pesquisa de códex mikhae. Hoje
iremos virar a noite verificando um lote de documentos lacrados
que acabamos de encontrar, perdido... Se não encontrarmos nada,
ainda temos alguns depósitos externos...

118
Ele parou petrificado, suando frio, já vira o nome duas vezes
em seus sonhos. E isso doía.

Mais tarde os dois índios de pouca roupa cruzavam o subsolo


do museu do Louvre refletindo a luz difusa que escapava de
algumas portas. A iluminação, bem disposta, engrandecia as
antigas fundações de pedra do castelo do Louvre que foram
escavadas durante as últimas reformas. Só pararam quando os
guardas pretorianos inclinaram suas lanças douradas cerrando a
passagem ao gabinete do professor Marc Bernis. De magnífica
vestimenta encouraçada, a lorica segmentata, os soldados
indiferentes a quem quer que fosse, recuaram seus pilos ao sinal
do olhar amedrontador do sábio índio gordo –– pois que era
rechonchudo sim.

119
9

o mensageiro de jeanne.

Fria alvorada de quase-inverno estava decorada de


neve. Telhados se vestiram de branco pela primeira vez
emanando, de suas chaminés, o calor que faltava à cena. Aos
poucos o Natal se mostrava nas pequenas luzes e decorações
laboriosas de festejos antecipados.
Descontroladamente, Bernis e Sarah ainda trabalhavam
mergulhados em meio à papelada empilhada, na esperança de que
brotasse alguma informação relacionada ao documento mikhae,
sem que percebessem que já amanhecera. A longa busca
transcorreu infrutífera, vasculharam, em todos os museus e
colecionadores particulares que tinham descobertos, pelo resto do
pergaminho declarado pelo professor Hodgson-Crookes. Quase
um mês de procura e nenhuma pista palpável.
Sarah descobrira que o professor Bernis, ou melhor, Marc, era
tão obstinado quanto ela. Desde o primeiro momento não
perderam mais do que uma hora para estarem trabalhando em
sintonia. Sarah nem se preocupou em esclarecer o currículo
enviado por Joshua. Era uma simbiose quase perfeita. Porém para
por aí. Sarah e Bernis tinham temperamentos independentes e
brigavam sempre, tentando impor os seus pontos de vista. O bom
é que as coisas acabavam se encontrando em algum período do
processo e nem pensem que os dois...

120
Enfim, tentavam descobrir uma razão para que o manuscrito
fosse tão importante quanto à ideia que assolava suas mentes.
Dezenas de hipóteses, algumas absurdas. Mas ainda existiam as
plausíveis, que contavam até então com vinte e sete suposições
não descartáveis. Entretanto havia uma em que o próprio
professor Hodgson-Crookes acreditava e concordaram em seguir
em frente, por mais absurda que ela fosse, pelo menos até que o
segundo documento confirmasse ou desfizesse as suspeitas. Isto
ganhou maior força quando souberam que o professor William
havia desaparecido, sumido, escafedido, evaporado mesmo.
–– Onde foi que erramos! –– desabou Bernis numa poltrona
folheada de papéis esverdeados. –– Não tem vestígio, como é
possível? Nenhuma escavação passa incólume nesta cidade.
A claridade fraca dos abajures fora substituída pelo sistema
automático do museu que se ativava logo cedo, logo que os
primeiros funcionários chegavam.
–– Deixamos escapar algo, e depois você ainda não está bem
o suficiente para trabalhar. As costelas ainda devem te incomodar
muito. –– completou Sarah, arrumando toda a papelada que
conseguiram reunir sobre manuscritos antigos existentes, todos
que foram catalogados. Principalmente sobre as escavações de
1890 realizadas nas proximidades da rua Gay-Lussac, dentro do
triângulo formado pela Escola de Medicina, as Termas de Cluny e
a rua Monsieur Le Prince.
Marc olhava com curiosidade as anotações de Sarah em
cartões de resumo. Organizava-os conforme o local de pesquisa e,
às vezes, incluía discreto título avermelhado em letra miúda. Ela
dizia que era uma intuição e não custava nada anotá-los. Sempre
serviam de alguma coisa.
Ambos concordaram em dormir, tirar uma boa soneca, e
voltar logo após o almoço, de cabeça fresca para avaliar o
calhamaço de papel impresso nos últimos dias. E atrás disso,
caixas de documentos antigos retirados do arquivo do Louvre,
amontoados como uma pequena parede instável. Com exceção de
uma única caixa solta sobre a mesa e que não encaixava em
qualquer monte. Voilà, seria a primeira.
Talvez Bernis tentasse dormir mais tarde, entretanto preferia
caminhar pelo Quartier Latin, entre as barracas coloridas de
especiarias da rua Mouffetard, sentando-se num bazaar qualquer
121
para degustar um chá de menta fortíssimo. Espairecer era um bom
remédio. Adorava dar essas caminhadas, nunca lhe faltava tempo
para fuçar as lojas de antiguidades atrás de raridades ocultas;
como uma série de mapas impressionantes dos subterrâneos de
Paris que acabara descobrindo sendo usados como papel de
embrulho.

Alguns iam dormir, porém a cidade acordava. Os garotos se


camuflaram em seus casacos tentando espantar o frio e com
dificuldade atravessar uns trinta centímetros de neve acumulada
durante a madrugada.
Entretanto Sean tinha várias preocupações em que se
concentrar e Tiago não ajudava muito perguntando sem parar, a
toda hora, qualquer coisa que lhe viesse à mente.
–– Ainda não entendi. Você está dizendo que o Matt também
vê... fantasmas! Não pode ser, como ele iria esconder por tanto
tempo. Nunca o peguei conversando sozinho.
–– Por acaso você já foi até aquele hangar fechado? ––
perguntando por perguntar, com a expressão de quem estava
dizendo que não aguentava falar mais nisso.
Tiago pensou pouco. –– Sim, e a única coisa estranha era que
ele vivia falando com o... –– se tocando da asneira que ia dizer. ––
Entendi, era o aviador e não o avião!
Batia a mão na cabeça mostrando quão cego fora.
Foram interrompidos pelo celular do Tiago que tremia e
tocava uma música horrorosa e estridente tentando fugir da
mochila. Todo iluminado e brilhante ele só parou de berrar depois
que Tiago apertou uns botões. –– Alô... mãe. –– fazendo cara de
nojo e resmungando. –– Sim, pode deixar que eu o aviso.
–– Era para você. –– fungou Tiago –– Mateus pediu para
dizer que nevou –– de novo ––, portanto não tem voos. Certo?
O amigo dignou-se a responder –– Acho que compreendi,
muito oportuna esta nevasca. Estou bravo porque ele bem poderia
ter me dito o que eu estava enfrentando.
–– Vocês dois não tem nada melhor para fazer? ––
resmungava Lucas que se distraiu escorregando no gelo. Joshua
não conseguiu evitar e soltou uma gargalhada que o enfureceu.
Pois além de não conseguir escutar o que os pirralhos fofocavam,
ainda serviu de palhaço para o pestinha. Em monossílabos
122
abafados finalizou seus resmungos com um simples –– Calem a
boca!

Esperando que o dia seguisse normalmente, exceto pela neve


antecipada pelas ditas distorções climáticas, o relógio correu
tranquilo. Quando soou o sinal, os garotos correram velozes,
retornando às suas casas. Tiago e Sean aguardavam Lucas sair da
classe. Como sempre, encostados à marquise principal de acesso
ao colégio, aguardavam para ir buscar o Joshua.
–– O que você vai fazer agora?
–– Não sei. –– disse Sean. –– Vou deixar como está, se piorar
eu penso em algo.
–– Sei não, veja o Mateus. Todo esse tempo fingindo. ––
respirando antes de prosseguir. –– Ele não está bem! Eu o
conheço, ele não era assim... tão sério.
–– É impressão sua, esquece tudo. –– tentando se enganar.
Sabia muito bem o quanto estas esquisitices atrapalhavam. Não
dava para fingir por muito tempo sem errar uma vez ou outra.
Depois, ainda tem algo sobre um mikhae, que ele calcula se conta
ou não para o amigo.
–– Esquecer tudo?! E eu nem vi esse tudo...
Inesperadamente, todos que fugiam, pararam.
Dobrava a esquina um caminhão imenso, branco, todo
preenchido de nada. Rugia estrondosamente quando resolveu
estacionar –– como pôde –– perto do colégio onde estavam.
Com um suspiro o bicho aquietou-se.
Soprava uma nuvem que dava ao monstro ares de disco
voador. E cheirava a óleo queimado.
–– O que será isso, caramba! –– olhava Tiago para o alto. A
porta se abriu e de dentro, vestindo algo como um terno puído,
apareceu o senhor Patrick Fox. Sorria de orelha a orelha quando
saltou o último degrau declarando –– E aí, filho, gostou? Voltei à
ativa.
Era impressionante como certos pais não se dão conta da
vergonha que fazem seus filhos passarem. Não teve quem não
visse Sean embarcando naquele trambolho gigantesco que
impedia a passagem dos outros automóveis que buzinavam
insistentes. O poderoso Kamaz, todo branco, a quase metro e meio

123
dos meros mortais, zumbia movido pelo turbodiesel de seus 240
cavalos emparelhados.
Sean se despediu de Tiago que ficara com a boca escancarada.
Logo depois era o pequeno Joshua que reinterpretava a cena
correndo aos braços de seu pai. –– Ainda bem que você cumpriu a
promessa! –– saltando para alcançar o primeiro degrau.
–– Eu disse para o papai que no dia que ele trouxesse o
caminhão viesse nos buscar, não achou legal, Sean?! –– sorrindo
zombeteiro. Só podia ser coisa dele. Sean agachou-se um pouco
mais, emburrado, com aquele seu jeito de ombros jogados. –– No
way! –– Naquele momento só não queria chamar mais atenção
para si.
Patrick ainda não se sentia confortável perto do filho, havia
um misto de remorso e deixa-pra-lá que amarrava qualquer
tentativa de travar uma conversa. Ele podia ser pai, mas não tinha
muito tato com criança. Para ele, Joshua era um brinquedo e Sean
estava numa posição difícil de determinar: a adolescência é muito
complexa e Patrick preferia esperar a mudança de estágio;
naturalmente estava mais familiarizado com motores do que com
seres vivos.
Imperceptivelmente rumavam em direção diversa daquela que
os levariam à sua casa. Quando Sean dera conta de que estavam
na rua de Rivoli, já era tarde, teria que ficar atento, pois estava
muito perto de esbarrar no tal do acidentado senhor Bernis.
A rua de Rivoli assemelhava-se a um corredor de edifícios
históricos, com tantos detalhes que acabavam se parecendo entre
si. Não era à toa que o Louvre se situasse neste labirinto de ruas
movimentadas do centro da cidade de Paris; todo governante, seja
imperador ou rei, insistiam em expandir as cidades desde o
castelo, que passava a ser palácio e enfim, o museu.
–– Preciso ficar atento! –– murmurava. Bastava não sair do
caminhão e torcer para que o senhor Bernis não viesse fazer uma
rápida visita ao mamute de rodas. Sean havia conseguido o
impossível de se manter distante por tempo demais. De qualquer
forma ia ser muito breve, não encontravam vagas para estacionar.
Nunca encontrariam.
–– Vão! Desçam vocês dois e chamem sua mãe. Ficarei dando
voltas. –– aconteceu o que Sean mais temia, a opção número três,
aquela que nem queria cogitar. Joshua desapareceu tão logo Sean
124
lançou-o à calçada. A fila atrás do mamute devia ser visível do
espaço, isso porque Sean não queria despertar olhares estranhos;
nem de vivos, nem de mortos.
Acumulados de neve cingiam o museu, dificultando a
circulação dos parisienses. A impressão que dava era de que os
edifícios dourados haviam brotado em meio à neve imaculada que
acabava de cair. Sarah gostava de contar que tinham decorado o
bolo com muito açúcar de confeiteiro.
E sobre estes montes alvos o Louvre estava sendo vigiado por
homens encapados e posicionados, equidistantes, tal como
estacas, por todo o perímetro. Na verdade se pareciam mais com
dedos brancos que agarram o prédio. Os guardas não expressavam
nenhuma emoção e se mantinham de braços cruzados apertando a
baioneta erguida contra o ombro esquerdo. Além da arma só se
destacava o elmo emplumado com uma grande crina negra que
descia pelas costas e estava presa à cabeça pelas alças metálicas
que partiam da aba ao queixo –– e a expressão sisuda rematava a
alegoria um pouco antiquada, pensou Sean. Eles não se moviam,
dava até para assustar, criancinhas, é claro.
Antes de cruzar com o soldado, Sean observou que os seus
olhos o seguiam, de esguelha, sem movimentar o corpo. Um
arrepio na espinha indicava que ele não estava realmente lá,
contudo descartou a hipótese assim que percebeu, por entre a capa
esvoaçante, que o homem levava preso à cintura uma pistola
automática e um walkie talkie.
Entraram por uma porta discreta, com uns seis metros por
oito, de uso exclusivo de todos, apresentando-se ao segurança de
plantão que não demorou senão alguns segundos para entregar os
crachás. –– Subsolo, Louvre Medieval, direita, Departamento de
Pesquisa e Documentação. Dúvidas, pergunte aos guardas. ––
acenando o elevador mais próximo com a mão distendida.
Funcionários atarefados ajustavam os banners para uma nova
exposição sobre o egípcio Zodíaco de Dendera. Outro arrepio
impedia-o de tirar os olhos da placa pétrea. Seguiu adiante,
automaticamente levado por Joshua para dentro do elevador.
Sean já suava frio e percebeu que não dava para disfarçar
vendo-se no espelho. Seu estômago dava voltas de ansiedade.
Joshua estava indócil e todo o momento virava os olhos e dava
uma risadinha suspeita para o irmão. Mas o que será que ele está
125
tramando? Não é possível que ele saiba algo. Alguma coisa estava
cheirando mal e o guri sabia. Arriscou.
–– Hei, Jox. Fala logo o que está acontecendo! –– tentando
algo diferente e estúpido para cima de alguém com seis anos.
–– Nada demais, mano. Mas hoje você vai ver aquele homem
que espetou no metrô, não é? Dói agulha? –– era uma pergunta ou
uma confirmação?
–– Heim?! Como você sabe... –– Sean não teve tempo de
sondar, a parede se abriu e o garoto escorregou tão rápido que
nem a reação de agarrá-lo pelo colarinho fora tentada. Não iria se
preocupar.
Tateou os olhos pelo corredor buscando perceber a presença
de mais alguém antes de chegar ao gabinete. Era o setor do
Louvre Medieval, e as armaduras deixavam Sean nervoso. Estava
silencioso e a luz mortiça dos spots não permitia ver através dos
vidros foscos que compunham os variados departamentos e
gabinetes de administração e pesquisa do museu. A porta estava
descerrada.
Deparou-se com uma sala quieta, com muitos papéis jogados,
alguns vazavam da pequena lixeira metálica. Porém, o que mais se
destacava era uma área vazia sobre a mesa com um único papel
clareado pelo foco de um abajur. Foi se aproximando, passo ante
passo, cauteloso, esticando a cabeça para ver do que se tratava.
Mordiscava os lábios freneticamente.
Estava de ponta-cabeça, mas dava para ver que era antigo,
pois estava amarelo e corroído nas margens. Não dava para
entender o que estava escrito. Deu a volta na mesa para não mexer
no documento e antes que pudesse terminar o exame ouviu vozes
baixas e sussurrantes de um ponto logo atrás de sua cabeça.
Sean já se imaginava surpreendido pelo cara do metrô, o
mesmo no qual ele botara um metal no coração; o que não
correspondia à verdade. Suavemente girou os calcanhares e para a
sua surpresa eram dois índios, novamente. Eles estavam numa
posse incomum, quase como uma gangue examinando sua vítima,
de braços cruzados, fazendo caras e caretas. O maior deles
estirou a mão direita em riste e disse simplesmente: –– Hau! ––
pensou em dizer Cara Pálida, mas se conteve.
Recuou com tamanha violência que deixou cair o abajur e
alguns papéis de um arquivo encarquilhado. Continuava se
126
afastando de costas, procurando se desvencilhar daquela situação
constrangedora. De modo repentino, uma mão lhe agarra o ombro
estancando sua fuga. Grita assustado.
–– Me larga! –– sendo puxado pelos ombros para ficar de
frente com o responsável pela captura.
–– Mas é você, que está fazendo aqui?! –– Bernis não sabia
como reagir ao encontro e por mais que firmasse as mãos ainda se
encontrava fraco, deixando o garoto escapulir pelos dedos, que
mais do que rápido se agachou e passou por baixo da bancada
correndo para fora.
Já ia dando o alerta aos guardas quando Sarah, perplexa,
clamava ao seu filho. –– Sean, espera!
–– O que aconteceu com ele? –– o rapaz aquietou sentando-se
numa cadeira que acabava de erguer. Revidou a pergunta com um
balançar de ombros. Pensava na coincidência. O garoto que lhe
salvou a vida era nada menos que o filho mais velho de sua
associada. E por que ele fugiu?
Agora sabia onde encontrá-lo.
Apontando seu olhar para o chão de seu escritório, as folhas
emboloradas, formavam um tapete. De longe ele viu a resposta
aos seus problemas em letras grandes de um garrancho suportável.

Descontrolado e apavorado Sean só percebeu onde estava


quando enxugou as lágrimas de raiva que brotavam por sentir-se
tão estúpido. Havia escapado próximo de onde entrara, na rua de
Rivoli, em frente do Palais Royal, uma clareira na floresta de
prédios. Não ia voltar assim.
Sentou-se num banco limpo da praça, se escondendo como
pôde por entre os galhos secos e esbranquiçados das árvores.
Girava o olhar tentando fugir de quem quer que fosse. Não
estava com ânimo para explicar o que aconteceu. –– Tá bom, eu te
operei porque alguns fantasmas legais me ajudaram, mas você
deve se preocupar é com os dois índios na sua sala! –– não dava
para acreditar mesmo.
Uma sombra o assustou, aumentando o desconforto, toda a
tensão se transformava em uma pungente dor de cabeça. Quando
ergueu a cabeça reparou que não era o senhor Bernis, nem seus
pais.
127
O cavalariano e seu cavalo observavam impassíveis. O frio
intenso criava uma névoa que turbilhonava a cada movimento
lerdo do animal. De repente ele relinchou e o cavaleiro ergueu
firme a lança com seu estandarte tremulando, ao mesmo tempo
em que fremia os calcanhares contra o ventre do cavalo.
Avançou desvairadamente aonde Sean se encontrava.
Reagiu depois de segundos congelado de susto. Tentou fugir,
mas escorregou. Tentava correr meio caído à neve solta quando
enxergou um acesso para o metropolitano a poucos metros. Lá um
cavalo não poderia entrar, estaria a salvo. Saltou os degraus e
resfolegando fechou a porta de vidro com violência antes de se
deixar cair no saguão luminoso e asséptico que o protegia. Bufava
a pleno pulmões.
Com os olhos bem abertos não acreditou quando os dois
resolveram descer os mesmos degraus. Empurrou-se na direção
das catracas de ingresso às plataformas subterrâneas, sendo
engolido pelas passagens secundárias que nasciam do fundo da
terra. Corria a toda pressa pelos corredores, seguindo a esmo a
sinalização áurica.
Estava seguro.
A estação estava curiosamente vazia, muda. O que se refletia
num mau presságio. Ainda derrapou muito perto de cair nos
trilhos, antes de se acalmar de pé. Estava tudo muito brilhante e
limpo. Respirava longos haustos de ar morno, curvado com as
mãos sobre os joelhos.
Passos surgiram. Depois um leve trotar de casco contra o piso.
Não podia estar acontecendo. Sean estava a meio caminho de
escapulir, no final do cais, aguardando o metrô estacionar para
sair dali. O som metálico característico nascia no fundo do túnel
escuro, era questão de tempo.
O cavalo apareceu, seguido do cavaleiro que não parecia
contente, sua armadura tilintava. Uma rajada de neve preencheu a
câmara de friagem. Vinham balançando-se suaves e decididos.
O metrô se aproximava inexoravelmente.
O cavalariano idem.
O guerreiro fincou a lança à sela e desembainhou a espada,
brandindo-a em movimentos verticais como se estivesse sentindo
a arma pela primeira vez. Olhava-a demoradamente, o brilho das

128
luzes que eram refletidas no aço o hipnotizava. Ajeitou-a na
bainha.
Sua armadura era ornamentada por pequenos arabescos e
frisos dourados que emoldurava pássaros místicos. As placas se
chocavam, o couro rangia e a cota de malha chiava no mesmo
ritmo da respiração do enorme cavalo.
A uns poucos metros o homem saltou do animal tremendo a
couraça metálica e sacou a espada com força, chocando metal
contra metal. Sua túnica ainda mostrava a mesma cruz rubra que
flamulava ao vento soprado pelo deslocamento de ar e, aquele
mesmo olhar insensível emergia das sombras do visor do seu elmo
afunilado.
O garoto tropeçou e caiu de costas, afastando-se por instinto,
com uma pressa desordenada, firmando os calcanhares e se
projetando para longe ainda de costas.
O trem abriu automaticamente suas portas fazendo com que
Sean se jogasse no seu interior com tamanha impetuosidade que
alguns passageiros olharam para fora para ver o que acontecia.
Com um sopro pneumático ela voltou a se fechar.
O metrô não saia.
E a porta abriu-se pela segunda vez, devagar e chiando através
de uma fumaça embranquecida. Surgiu o elmo resplandecente,
depois uma perna e uma espada empunhada. Em seguida, preso
pelas rédeas, o cavalo invadia o transporte. A esta altura Sean se
espremia contra a outra porta apavorado, o tempo parou. Ele
ergueu a arma tão rápido que só percebeu a investida quando a
ponta ficou estirada diante de seu rosto. O cavaleiro ajoelhou-se
fincando firme a arma ricamente adornada. O punho ornamentado
e os relevos da couraça mostravam a riqueza do traje do cavaleiro.
As manoplas blindadas retesaram-se. Entre a couraça o couro
estirava. A perna dobrada mostrava o coxote, a greva, a polaina e
a bota pesada que partiria um pescoço. Retirou vagarosamente o
elmo deixando aparecer seu rosto.
Era jovem, devia ter uns dezoito anos, se fosse vivo. Os
cabelos desarrumados e castanhos deram lugar a um rosto que
desconcertou Sean, reação estranha da que previra, parecia
conhecê-lo. Lembrava alguém, mas quem? A cicatriz marcava
uma vertical que passava pelo olho direito que piscou.

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Falou pela primeira vez.
–– Sou o Mensageiro de Jeanne. –– sorriu plácido e recuou
olhando diretamente nos olhos, deixando o metrô sacolejar
ganhando velocidade.
–– Tome o manuscrito e... –– dito antes de estar fora de
alcance. Sopradas em sua mente.
As luzes dançavam reduzindo ritmicamente o tempo em que
se demoravam a aparecerem, sempre, correndo às janelas. ––
Próxima estação, Pont Neuf. –– declarava a voz inexpressiva do
sistema de comunicação.
Sean relaxou ajoelhado no piso, meio zonzo esfregava a testa
enquanto os demais passageiros evitavam encarar a cena.
Contrafeitos quando algo foge aos padrões. Quietos, pois não lhes
diziam respeito. Com exceção de um passageiro, que se encolheu
evitando olhá-lo, puxando o capacete para baixo.
Antes que a espada presa se dissipasse como fumo, viu
talhado em romano, mil e quinhentos e cinquenta, desaparecendo
no ar como um filete de luz que se evaporou por completo.
Desceu na outra estação.

Uma vez em céu aberto respirou fundo e se meteu entre a


pequena multidão que raspava a ponta da Ilha de la Cité para
alcançar a margem contrária do rio.
Resolveu-se por caminhar sem destino até que estivesse
melhor, depois arranjaria uma desculpa qualquer. O cotovelo
ainda doía com a queda durante a fuga. Atravessou o rio Sena
procurando se abrigar nas ruelas mais escuras que encontrasse,
rastejando pelo Quartier Latin. Recomeçava a nevar, desta vez o
frio estava mais forte, forçando o ar do corpo a escapar em lufadas
cada vez mais sólidas.
Já faltava pouco para chegar em casa, entregue em desculpas
mil. Passara pela praça da Contrescarpe evitando um grupo de
garotos baderneiros e descia paralelamente à Mouffe. Alguns
postes se acendiam, pois anoitecia falsamente. Ninguém transitava
por aquelas travessas escondidas por séculos de lendas. Eram
pequenas e apertadas, sujas e os carros quase não conseguiam
passar. Não queria pensar na perseguição, nunca mais iria dizer
qualquer esquisitice que fosse, seu pai devia estar certo, para que
130
sofrer. A partir daquele momento se decidira em fingir não ver,
nem ouvir o que ninguém via ou ouvia –– não sabia se ia
conseguir, mas tentaria.
Os blocos beges de prédios iam se fechando sobre a sua
cabeça, restando apenas uma linha do céu cinzento para guiá-lo.
Pensava que estava só.
–– O cara bem que estava certo! Rápido, vejam quem veio
levar uma surra hoje, galera!
Aquela voz soou familiar. Não acreditava no seu azar,
ademais a rua era sem saída, para ele, pelo menos. Balançava a
cabeça negando, não podia acreditar que estava acontecendo mais
isso.
Sean havia reconhecido o Maurice, o Sapão e os dois outros
que não queria nem lembrar. Havia chego ao fundo do poço; não
tinha como escapar. Juntou toda a fúria e todo o ódio que tinha
acumulado desde que as visões começaram a atrapalhar a sua vida
e partiu para cima dos quatro. A covardia estava temporariamente
relegada, considerando-se o breve curto-circuito nos neurônios.
Um verdadeiro massacre.
As janelas iam se fechando insensíveis. O medo impedia os
bons de agirem, o mundo é dos maus. A tentativa fora frustrada
pelos brutamontes que prenderam seus braços às costas. Mau
franqueou o inimigo analisando o melhor golpe e, sem aviso,
rompeu um soco na boca do estômago. Sean recuou dando de
costas com a parede antes de desmoronar sobre as pernas bambas.
Não haveria ganhador.
O segundo golpe atingiu-lhe a nuca, atrapalhando que se
levantasse. Deu dois passos antes de estatelar no chão úmido.
Depois vieram alguns chutes seguidos de xingamentos que já não
conseguia entender. Virou-se de barriga para cima puxando o ar
com dificuldade.
Ergueu-o pelo colarinho do casaco impingindo socos no rosto
que se transformavam em lacerações avermelhadas. A jaqueta
imunda estava ficando molhada de um líquido morno e pegajoso
que escorria do canto da boca. Mas, mesmo assim, Sean sorria. A
cada investida furiosa de Mau, Sean contrapunha com um sorriso
que se transformava em gargalhada nervosa.
As lágrimas de dor se misturavam àquelas de riso.

131
Finalmente estava livre dele, o medo. Uma preocupação a
menos. Sean levou tantos socos, chutes, pontapés e empurrões
quanto era possível suportar antes de desmaiar. Não tinha como se
manter consciente, jogado para todos os lados.
Um homem em sua capa protetora olhava, observava apático,
escorado numa das paredes adjacentes. Era o que fazia de melhor,
olhar. Sempre via o pior e o melhor das pessoas. Ambas em
momentos únicos, excepcionais. Estava sempre olhando por aí.
Sean repentinamente abriu a boca, arregalou os olhos e gritou
sem parar. Eles não entendiam uma palavra.
Recuaram assustados, aqueles que ainda possuíam um pingo
de compaixão.
–– Vamos dar o fora daqui, deixa esse gringo aí!
–– Você tem certeza, Mau?! –– retrucaram os demais com
certa culpa na consciência. Maurice empurrou-os para fora da
ruela, indignado. Compactuaram por serem fracos.
Caído, olhando através do olho inchado e entumecido, pôde
vê-los se afastando. Tossia espasmodicamente, deixando um
pouco de sangue escorrer em meio à saliva. A vista turva só
permitia ver vultos. Um espectro que escutou seus gritos se
aproximou acalmando-o.
Sean apagou cansado, ouvindo algo como. –– Ich bin hier.
Mein Vater!

132
10

o campo de guerra.

Surgiram em sua mente léguas e léguas de campos


juncados de cadáveres de cristãos e mulçumanos. Eram mais de
cinco mil seres humanos, em sua maioria cruzados, misturados a
cavalos e mulas com os ventres abertos, carros destroçados,
espadas, couraças, elmos, machados, partazanas e alabardas,
bandeiras e flâmulas rasgadas e empapadas de sangue coalhado,
em meio a membros decepados e crânios fendidos.
Seu corpo doía, o peito doía, as pernas doíam, mas estava
vivo –– porque se sentia vivo. Parecia estar tombado num lodaçal
nas margens de largo rio, entre os juncos que balançavam
naqueles primeiros clarões do dia. Os sons eram quase que
completamente dos pássaros que cantavam e das plantas que
farfalhavam junto à correnteza das águas barrentas. Ainda sentia o
cheiro da morte. Queria se mexer, mas havia sido espancado.
Ouviu-se então ruídos de passos em sua direção, o coração
disparou. Pensava: –– Que seja rápido. –– Já não suportava a dor.
Um rosto barbado nasceu afastando os ramos mais altos do
junco. Era um moço pobre, de feições pacíficas, usando como
roupa uma túnica rasgada presa por corda desgastada à cintura.
Gesticulou chamando alguém.
–– Venha Bernardo, pelo menos um poderemos salvar.
Adormecera.

Mais tarde ele fora desperto pelo senhor que o encontrara,


muito magro e barba por fazer, e ouvira chamando-o: –– Irmão

133
Francesco, conhece o pobre irmão? –– em resposta –– Mais do
que ele pensa!
O que ele queria dizer com aquilo? Neste instante entregou
algo a Francesco. E disse devagar: –– Guarde-o para mim, por
favor! –– a voz estava diferente, rouca e pesada.

Sean lutava na cama com o lençol empapado de suor. O velho


que o socorrera procurava acalmá-lo com compressas de água fria.
Carinhosamente afagava seus cabelos molhados.
Tiago havia chego a pouco, alertado pelo senhor que fuçara
em tudo, deparando-se com o número do telefone num papel
amarrotado no fundo da mochila. –– Ele não está bem, não seria
melhor levá-lo ao hospital?
–– Rapaz, você acha que devemos! –– piscando um olho.
–– É. Não acho uma boa ideia. –– devido às palavras
incoerentes que Sean berrava e ele não conseguia entender.
Provavelmente Sean agradeceria se mais ninguém soubesse.
Durante este tempo o sonho se intensificou, Sean se confundia
com o soldado ferido em seu pesadelo.

As mãos cobertas de panos insistiam em sangrar. Irmão


Francesco se aproximou com um pote d’água. Sabia que a morte
se aproximava, não havia nada que pudessem fazer.
O dia alcançava o ponto médio e o calor se fazia insuportável
até mesmo sobre a copa de árvore frondosa. Desmaiara
enfraquecido enquanto recordava a noite passada que falava dos
acontecimentos agourentos. E do silêncio seguido do canto
lamurioso da ave noturna que prenunciava a batalha que Allan não
pôde presenciar nem oferecer sua ajuda como esculápio de
campanha.
Ato contínuo recordava-se dos eventos que culminaram em
seu desterro. Tudo se iniciou quando entrou em uma das tendas e
notou alguém terminando o mesmo pergaminho enrolado que fora
entregue ao frade; trocaram gestos estranhos enquanto passava
pelos medicamentos, reforçando as bandagens da mão direita
para, em seguida, enrolar o mesmo papel dentro do manto.

134
A luz bruxuleante das tochas o impedia de ver muito bem
quando homens armados penetraram o sítio, desvairados. Correu
como pôde para alcançar uma defesa. Os gritos ecoavam por
todos os lados. Escondido, viu que o soldado empunhava uma
cimitarra e que se preparava para golpear Raphael. O homem na
maca era um amigo.
Pulou contra o homem, contra a sua vontade e agindo sob
instinto de sobrevivência. Não pôde fazer muito. Com um só
baque o infiel acertou-o na cabeça com o punho da espada, caindo
desacordado. Allan não firmava a arma por causa da mão ferida e
não pôde evitar que o oponente matasse seu amigo.
Max voltou trôpego e ofegante e seguiu absolutamente para o
leito de enfermos onde o seu irmão, Raphael, deveria estar. Seus
olhos estavam encarnados e sombrios. Não era possível divisar o
seu rosto na escuridão das poucas tochas e nem os três relevos que
dedos feridos tocaram em súplicas e pesar. Agarrou-o e puxou
com violência enquanto as lágrimas de raiva corriam. Allan
gesticulava a mão ferida mostrando o que lhe impediu a defesa,
mas não adiantou. Max pegou uma lança de quatro gumes fincada
no balcão e enfiou-a na mão sã.
–– Que tu e tais escritos improfícuos sejam consumidos no
Inferno! –– Depois deixou que seus homens açoitassem-no e
assim que caiu quase morto lançaram-no ao rio onde o religioso o
descobriu semiconsciente.

Neste instante Tiago tentava soltar a mão dolorida que era


massacrada por um aperto descomunal, resmungava muito.
Devagar voltava à consciência e ainda pôde escutar o irmão
Francesco falar antes que ele inexoravelmente morresse em seus
braços: –– Eu guardarei o pergaminho que me confiastes e o
depositarei sob a minha insígnia e o seu símbolo.
–– Que Deus esteja convosco, Sean.

Acordou esbaforido gritando. –– Ele falou comigo!


Não sabia onde se encontrava, quarto estranho que cheirava a
bolor. O papel de parede estava solto em vários pontos e a luz
vinha de uma vela à cabeceira da cama que estava.
135
–– Calma, garoto! Avisei os seus pais e logo mais estarão
aqui. –– Voz rouca e tranquila que vinha do outro lado do catre,
sentado ao pé. Não podia se mexer, tudo doía. Passou a mão no
rosto e sentiu que o inchaço retrocedera.
Tiago avançara com ímpeto sobre o amigo. –– Você está bem!
Que susto, cara!
–– Como você chegou aqui? Aliás, onde estou? –– olhava
então para o homem que se aproximava devagar.
–– Quem é o senhor? E obrigado. –– Sean tentava se lembrar
do que acontecera.
–– Sou Fabien Buchhand, e não precisa me agradecer, há
muito tempo espero para quitar uma dívida. Nem me pergunte o
que eu quis dizer com isto, criança. Agora descanse. Um dia te
explicarei melhor. –– Ou pensa que termina aqui?
O velho senhor barbudo e grisalho que lembrava Papai Noel,
meio gordinho e desconfiado, pois não parava de olhar para Sean.
Retirou-se para buscar uma infusão que fazia e retornou com um
bornal gasto e sujo que colocou à cabeceira.
Enquanto Sean e Tiago sorviam o chá quente, o senhor
Buchhand começou a falar; falava sobre tudo, de sua infância, de
sua pequena loja na esquina da rua Pot de Fer, de seu filho.
Enfim, ambos se recuperavam das dores, uma física outra da
alma. Em pouco tempo estavam tão familiarizados uns com os
outros que poderiam se considerar uma família.
–– Não devem se demorar, logo seus pais chegarão, senhor
Sean Fox! –– Sean reconheceu algo nas palavras. Mas o senhor
Buchhand mudou o rumo da conversa para a mochila.

Lá fora, naquele canto da Mouffe com a Pot de Fer, um


espectro se avizinhava pela ruela que desemboca as portas do
minguado edifício. Circulava por entre as colunatas de ferro do
meio fio antes de se apoiar à fachada contraposta ao modesto
prédio de esquina onde se situava a antiguíssima loja de coleções
publicadas do senhor Buchhand. Trincava os dentes paralelamente
aos passos mais firmes.

136
–– Sabe, meu filho –– achando engraçado chamá-lo de filho,
re-encetava. –– Bem, meu filho. Não precisa ter medo de nada,
nem destes imbecis que te rodearam. E não estou falando somente
dos que vi. Eu já tive preocupações parecidas que depois de
algumas décadas parecem coisas de criança. Quando tinha mais
ou menos a sua idade, durante a ocupação nazista, meus pais
foram mortos. –– respirou calmo rememorando o passado como
quem saboreia um chocolate.
–– Morávamos bem perto do conflito e assim não é
impossível de imaginar que as coisas ficaram muito feias... Passei
alguns meses escondido nos bosques, tentando fugir dos alemães.
Tiago ouvia atentamente e nem se lembrara que anoitecia.
Fabien pigarreou, sacando um lenço, seus olhos se enchiam
de lágrimas. Continuou –– Um dia estava escondido num celeiro
observando um campo militar quando ouvi disparos e gritos que
não entendia. Aviões decolavam apressados. Um homem ferido
corria em minha direção. Tive medo.
–– Te pegaram? –– atropelou-o Tiago.
–– Mais ou menos. Desci para fugir, mas era tarde. A patrulha
avançou pelo outro lado do galpão ficando entre o soldado ferido
e os guardas. Não tinham como errar, eu estaria morto antes
mesmo de me lançar ao solo. –– Deixando os garotos em
suspense. –– Então o moço correu e entrou na linha de tiro para
me proteger como podia. Caímos quietos. –– Sean instintivamente
pôs a mão no ombro.
–– Acho que depois de um tempo a patrulha se desinteressou
e voltou para o acampamento. Havia outro fugitivo. Esgueirei-me
para sair debaixo do corpo. Era mesmo um soldado alemão, além
de medo, agora sentia raiva. Mas depois descobri que ele era uma
boa pessoa.
–– Mas ele não morreu?! –– disse Tiago surpreso.
–– Como você acha que eu sobrevivi tanto tempo, vivemos
anos juntos. Ocultados de franceses e alemães até quando
pudemos. Após a guerra ele me adotou. Esta mochila foi dele.
Fugiu do acampamento, pois não queria matar, era só um médico.
Pegou a mochila e soltou sobre os braços de Sean. –– Agora é
sua para se lembrar que não devemos jamais ter medo de fazer o
que é certo.

137
Senhor Buchhand girou rumo à porta do quarto quando se
lembrou de perguntar: –– Aliás, quem é Allan?
Neste minuto, bruscamente adentravam Patrick e Sarah Fox.
Foi tudo tão rápido que Sean não teve como se desembaraçar do
presente. Nem o pai de Sean teve audácia de ralhar vendo o estado
do garoto. Não teve como disfarçar uma expressão de repúdio
diante do que sobrara de Sean. Preferiram ficar quietos. Foram
conversar noutra sala, deixando-o só.
–– Allan? Quem será este, agora! –– preocupado com o que
pensou ter sonhado. Tiago se empanturrava de biscoitos, sorrindo
de bochechas gordas com farelos caindo pela boca.
–– Mas o que aconteceu com você? Foi atropelado? ––
aproveitou-se Tiago.
–– Amanhã eu te conto. Só queria poder dormir para sempre.
–– E uma gargalhada alta explodiu quando ele se lembrou da cara
de espanto do garoto estúpido que todos temiam. Exceto ele que
chorava de rir ou de dor, a que fosse mais forte.
Tão logo o velho senhor Fabien sentou-se diante dos Fox, um
enigmático e prolongado olhar fez com que Patrick e Sarah se
confrontassem perdidos. O ambiente criado pelo compartimento
abarrocado auxiliava que o tempo estagnasse.
–– Sinto muito pelo Sean. –– querendo se desculpar pelas
esquisitices assíduas do filho.
–– Eu é quem devo me explicar, demorei demais para intervir
na briga. Nem pensem que o garoto a provocou. –– quase ríspido
com Patrick.
–– Acredito no senhor. –– Respondeu Sarah diante dos
atropelos do marido.
O velhote não poderia fazer nada para convencer a ambos que
Sean estava isento dos acontecimentos presentes e anteriores, nem
que ele estava no lugar e momento primoroso para que as
coincidências ganhassem mais fundamento. Tudo tinha um
propósito.
–– Vocês não me conhecem, mas admito que conheço seu
filho melhor do que ele mesmo. Deem-lhe uma chance para que
ele mesmo descubra o que tanto procura dentro de si. –– Os Fox
estavam pensando que ele se referia a um passado análogo que o
identificava com o garoto, no entanto eles nem desconfiavam que
este passado era completamente impensado. O senhor Buchhand
138
jamais provocara esquisitices, muito menos vira um fantasma
rondando o seu caminho.
Um bom tempo havia passado até que resolvessem partir.
Sean acenou agradecido de dentro do carro. O velho Fabien
Buchhand sorria enquanto se afastavam. Esfregou as mãos como
que as aquecendo e voltou para o prédiozinho que chamava de lar
entre gracejos seguidos de uma ladainha que lembrava música.

Só parava para falar sozinho. Olhou firme para a esquina


adjacente, como se enxergasse através da parede. Aparentemente
não havia ninguém.
–– O tempo está passando! –– para ouvidos moucos.
Quando terminou de trancar a porta, levando o frio para fora,
resmungou sussurrante, cantando um pensamento em meio à
cantarola descontraída.
–– Mas como você demorou, meu amigo! –– e voltava a ferir
os ouvidos da vizinhança em alto som.
O dia do amanhã seria o mais impressionante de todos os
anteriores e o feriado de Toussaint –– Todos os Santos ––
terminaria com extraordinárias participações coletivas.

O moleque tinha mais coisas com que se preocupar, até


segunda ordem deixaria para fingir quando descobrisse o que
estava realmente acontecendo. Algo não cheirava bem. É bem
verdade que a mochila fedia a arenque defumado, queijo velho e
meia suja.
Sean não venceu a curiosidade e deu uma espiadela dentro da
sacola. Tiago ergueu as sobrancelhas de bisbilhotice. Mas só
encontrou, entre vários trastes de guerra, um diário papudo e
outras coisas sem importância. Em sua capa, em baixo-relevo, um
anjo desgastado enfrentava o demônio negro.
Folheou-o, estava em alemão. Óbvio.

139
11

quem são vocês?

No amanhecer imediato, após a campanha de lutas


reais e imaginárias, o sol era o único que conseguia apoiar-se em
Sean sem levantar imprecações. A dor latejava, não sabia bem
onde, mas não importava o lugar, mas a intensidade.
O quarto clareava aos poucos quando Tiago se lançou
adentro. –– Mas que raios aconteceu?! –– mais perplexo do que
assustado pelo arroxeado do rosto do amigo. Recordava de tê-lo
visto amassado, mas durante a noite as diferenças se fizeram
extremas.
–– Tudo que você conseguir conceber e outras inacreditáveis.
–– falou olhando para qualquer lugar, cansado destas coisas que
os outros insistiam em achar incríveis e que eram mesmo
horríveis. Ninguém gostaria de passar por isto, tinha certeza.
–– O pior dia de minha vida. –– reprimindo um riso.
Tiago havia se jogado na cadeira sem perceber a mochila
desgastada, e cogitava o que Sean queria dizer com algo pior do
que o incidente no metrô. –– Tá bom! Me engana. O que pode ser
pior que aparecer em rede nacional rasgando o peito de um
homem? –– querendo completar com um: já sei, ir para a escola
só de cueca.
–– Encontrar-se com ele!
Milhões de perguntas surgiram naquelas frações de segundos,
mas antes que ele pudesse escolher uma.
–– Ele me reconheceu, mas não foi ele quem me preocupou.
Haviam dois índios sentados, acocorados, me vigiando ––

140
suspirou ––, do espécime invisível para você e para a maioria. ––
suspirou de novo.
–– Assim como o cavaleiro que me seguiu até o metrô,
invisível, ele e também o cavalo. –– fungou o nariz.
Tiago acrescentou à narração –– Uau! Mentira, cara.
E tinha mais.
–– Então eu andei por aí e dei de cara com o Mau e mais três,
só para a coisa toda ficar justa. Desmaiei de tanto apanhar ––
rindo sarcasticamente –– e acabei tendo outro pesadelo antes de
acordar na casa de um homem que foi salvo por um soldado
alemão da segunda guerra. Pode, e tudo isso num dia só!
–– Heim? Conta isso direito. –– Fazendo um gesto como se
tivesse recebido mais informação do que a sua capacidade de
assimilação. Sean resumiu de forma que não houvesse dúvidas,
precisava de alguém que o ajudasse a entender tudo, não era a
melhor opção, mas era a única disponível. E aquela que ainda
acreditava nele.
A cada frase Sean parava para ver a reação estampada pelo
amigo encolhido sobre a cadeira abalroada de roupa. Depois
ficaram em silêncio, se encarando por algum tempo. As mentes de
ambos trabalhavam arduamente buscando destrinchar alguma
informação coerente. Um buscava por respostas o outro formulava
mais perguntas. Em meio a este processo Sean parou e:
–– Lembrei de algo! –– recordando-se do senhor Bernis ––
Será que o manuscrito que o ”homem de lata” pediu para
encontrar era aquele sobre a escrivaninha do senhor Bernis?
O outro só escutava, tentando imaginar porque ainda se metia
nestas enrascadas, havia prometido à senhora Fox e à senhora sua
mãe que ficaria de olho em Sean, quase que em tempo integral.
Senão! Não sabia se valia a pena, mas que era interessante, não
podia negar.
Sean deixou as divagações em voz alta para lá e seguiu com a
narrativa e detalhes picantes, se é que podemos chamar de picante,
socos e pontapés na boca do estômago ou ser atacado por um
fantasma encouraçado. Teriam muito mais para esclarecer,
contudo Tiago tinha um compromisso e que desejava quebrar,
mas não tinha como.
–– Para quem perguntar direi que você está doente.

141
–– Nada disso, chega de mentir. Vamos ver se o cara
consegue lidar com a situação. Aposto que ele vai ter uma
surpresa. Tudo, para ele, gira em torno de sua celebridade. Sem
plateia ele vai ficar louco de raiva. Pelo tamanho do seu ego, a
queda vai ser estrondosa. Vamos ver se ele gosta disso. –– falava
durante a despedida.
Ficaria sozinho, aparelhando o pensamento.
–– Eu que não vou ficar por perto. –– dignou-se Tiago.

Teve vários longos dias de repouso antes de decidir o que


fazer. Quando começasse novembro as aulas retornariam com a
mesma e angustiante ansiedade. Ficava distraído vendo através da
janela o pai lustrando o mamute da Sibéria meio ancorado no
passeio público, para facilitar que os filhotes passassem. Evitavam
se falar, mas quando era impossível se ignorarem, partiam para
desculpas ridículas e escapavam de fininho.
Parava de nevar. O vento forte já havia secado a umidade
excessiva. Estavam todos felizes; o pai com o patrocínio para o
Paris-Dacar, o Joshua com os brinquedos da vez e sua mãe com a
pesquisa. Precisava descobrir o que o manuscrito mikhae tinha a
ver com ele, antes que o senhor Bernis resolvesse visitá-lo, e ele
até teria uma boa desculpa, do tipo como está o doente?
Ergueu-se com sofreguidão.
Tinha que tomar uma atitude imediata. Olhou rápido para o
diário do Buchhand e sentiu coragem para enfrentar os seus
medos, um de cada vez, por ordem, é claro. –– Se ele conseguiu
eu também posso. Será que eles estão lá, ainda? –– rastejou-se
arqueado, vestindo um pijama largo, até a sala de jantar. Não era a
mesma casa, mas hábitos raramente mudam.
E era verdade.
–– Estávamos te esperando, curumim!
Sean não podia acreditar que, em segundos, estaria arfando e
palpitando por entrar na sala de jantar, todos os dias passava por
ela e coisa nenhuma. Nada de estranho. A mesa entulhada de
papéis e livros que não se misturavam; num monte, material de
pesquisa do museu, no outro –– desordenado ––, manuais de
motores e tudo que fosse relacionado com porcas, parafusos e

142
correias. Às vezes algumas peças de Lego espalhadas advertiam
sobre um terceiro ocupante.
Alguns vasos postos sobre a bancada que separava as demais
salas, várias fotografias –– sendo a maioria do Patrick nas suas
corridas. Um raid no Saara Oriental, um Paris-Dacar com largada
em Marrocos e mais uma infinidade de lugares em que,
esporadicamente, Sarah aparecia descabelada, suja e mal
humorada.
Tirando isso, só os índios.
–– O que vocês fazem por aqui?! –– dito gaguejando e
tremendo nas pernas. Tentava a todo custo manter uma pose
autoritária.
–– Eu sou Naxamuñaca. –– parou e repetiu de forma que Sean
pudesse acertar quando precisasse chamá-lo –– acho que... hum...
tio Xaxá seria melhor. E este é Guarini. Eu sou o protetor desta
casa e ele é o guia do seu irmão, Jox. –– Sean não entendia direito
que estes dois queriam dizer com esse papo de guia.
–– Anjos da Guarda. Espíritos. Alguns são mentores. Outros,
bem poucos, arcanjos. Mas santo mesmo, quase nenhum. ––
respondeu indignado para o moleque.
Guarini acercou-se sorrateiro de Sean, raspando sua lança. ––
Nada, não queremos nada. Só estamos fazendo o que todos os
outros guias fazem, ajudando os vivos até onde conseguimos.
Como não interferimos na vida de ninguém, a escolha é
caoticamente livre. Mas gostamos de assoprar alguns conselhos
de vez em quando.
Não conseguia entender muito bem. Se eles protegiam,
porque ele não se sentia à salvo. Novamente Naxamuñaca
responde ao silêncio. –– Até onde é permitido, meu filho. Existem
coisas que devem ser resolvidas por si só. –– buscando ouvir os
pensamentos do curumim como quem lê um livro desconhecido e
surpreendente. –– Mas nós protegemos! É que você ainda não
compreende o que é realmente importante. A maioria jamais
compreende.
–– E eu tenho algo a resolver com estes... mortos?! –– e pela
primeira vez aceitou que as visões eram de pessoas bem mortas.
–– Hum. É. De forma resumida, é isto mesmo.
–– Com todos eles? –– impressionado com a quantidade de
gente que viu nos últimos dias.
143
–– Claro que não. Só alguns. O resto desconsidere.
–– Desconsiderar?
Guarini abriu a boca para acrescentar. –– Nem pense que
todos são guias. A grande maioria nem sequer sabe que está
morto. Não é porque morremos que viramos santos.
Agora Sean analisa melhor o índio, não era muito mais velho
do que ele e mesmo assim era, como eles mesmo disseram, guia
do Joshua. –– Só pareço. –– redarguiu o indígena. Os dois
estavam tensos e com aparente pressa.
–– O que eu tenho que fazer para acabar com isso?
–– Você não pode acabar o que não começou. Mas lembre-se,
não nos aproximamos uns dos outros sem uma razão.

Subitamente a porta do hall se abre com um estrondo e,


esbaforido, Tiago invade o cômodo distraindo Sean.
Quando volta o rosto para os índios, eles já haviam
desaparecido. Tiago ainda respirava rápido tentando recuperar o
fôlego enquanto tentava dizer algo entre cada respirada. Não dava
para entender, porém ele já subia as escadas.
–– Lembrei que esqueci o celular. –– justificando-se.
Quando Sean encontrou o telefone sobre a cômoda, viu uns
papéis amassados presos ao cordame de sua mochila escolar que
retirou de uma só puxada e notou que eram documentos do Louvre
que se embrenharam após a trombada com o senhor Bernis. Uma
folha rabiscada e rasurada com um esboço traduzido do
documento mikhae e assim que começou a lê-lo assustou-se com o
acaso, era um pedaço do mesmo sonho angustiante que teve após
o espancamento. As notas feitas em caligrafia destacada, na
beirada do papel, não deixavam dúvidas de que em agosto de mil
duzentos e dezenove aconteceu tudo aquilo. Primeiro uma
premonição, agora uma recordação? De quem? Como?
–– Hei, Tiago, como é possível sonhar com algo que
aconteceu há quase oitocentos anos?! –– caminhando até a janela
embaçada que trepidava por causa do vento cortante.
Ele simplesmente não entendeu o que ele queria dizer, todavia
sabia que alguma tinha acontecido, embora não tivesse lhe
contado. Ainda.

144
–– Vamos, conta logo. O que foi desta vez! –– não tão
chocado, na realidade esperava que acontecesse sempre, a partir
de agora.
–– Eu já vi tudo isto, precisamente como está descrito aqui.
Até sei mais detalhes do que está nesta folha. Se isto é do Bernis...
–– Então é uma cópia do manuscrito –– continuou Tiago.
–– Parecia que eu estava lá, como numa lembrança ruim à
beça. Tudo muito absurdo, juro que não consigo explicar.
–– Como? –– jogando-se na cama do amigo, desistindo da
escola.
–– Eu estava lá, oras. E não foi nada agradável, veja! ––
Lançando a fotocópia à cama, ao que Tiago avançou sedento. Não
tinha muito, mas o suficiente para saber o que era. Sean ainda
olhava para fora. Estava ficando mais frio, obrigando-o com que
esfregasse a manga do casaco no vidro. Qual a razão para ter dado
de cara com Bernis? Se tudo tinha um motivo, então ele só
precisaria saber qual era.
Deslumbrado, Sean escutou ruídos vindo da rua, já terminara
de clarear a vidraça. Soldados estavam posicionados diante de sua
casa, enfileirados em grupos organizados, com fuzis postos de
lado por uma larga alça branca. Eram baionetas longas que
ultrapassavam mais de um metro.
Suas casacas escuras, de cauda bipartida, eram arrematadas
por faixas claras que se cruzavam sobre o peito. As botas iam
acima do joelho cobrindo as calças beges. Muitos botões
dourados, dragonas e um chapéu bicorne coberto de enfeites e um
penacho.
O pequeno batalhão se aparelhava para atacar.
–– Vamos sair daqui, agora. Eles vão invadir.
Tiago correu até a vidraça, espalmando mãos e rosto contra o
vidro. –– Não estou vendo nada. –– Mais um sinal de que
deveriam fugir, ou não! Não ia arriscar.
Porém alguém viu Tiago esparramado na janela, num ângulo
de onde não podia ser visto por Sean. Esse alguém estava
espantado com o que descobriu. –– Recuem agora. Abandonar
ataque –– fora bastante expressivo o comandante da invasão. O
capitão saia de sua tenda, de onde acabava de esquematizar a
investida com seus oficiais graduados, e obedeceu irritado.
–– Precisamos sair daqui. Mas para onde? –– declarou Tiago.
145
–– Eu não sei –– verificando o sumiço repentino dos soldados.
–– Eles sumiram, todos.
–– Que eles estão seguindo alguém, isto está claro.
–– Mas nós não somos tão importantes assim?! –– esfregava o
queixo –– Não podem fazer nada! Estão mortos.
–– Eu não, você! Eles estão atrás de você. –– arrematava
Tiago tirando o corpo fora.
Ambos ficaram calados por um tempo.
Foi Tiago quem sugeriu esquecer o assunto, por hora. Era o
momento de se depararem com Bernis, tête-à-tête.

Sean conseguiu, no meio da tarde, com o apoio do amigo,


chegar ao museu. Não tiveram dificuldades de entrar fora do
horário de visitação por causa dos vistos de Sean. Passaram pela
luz artificial que emanava dos postes através da pirâmide de vidro,
rumando para os laboratórios que ficavam além do setor do
Louvre medieval. Naquele período, as luzes costumavam ser
reduzidas, deixando alguns nichos fantasmagóricos. Todo aquele
silêncio provocava mais nervosismo.
Com a boca seca, Sean tentava formular um meio de contar a
verdade sem parecer louco, mas isso não era possível naquelas
circunstâncias. Preferia ter a língua arrancada a ter que falar tais
absurdos. E se o seu pai soubesse! Tsc, tsc.
Nenhuma pessoa, daquelas que ninguém deveria ver, cortou
seu caminho. Nem os soldados dos casacos de cauda apareceram
de sopetão para tirar proveito do ar sinistro que aquele buraco
medieval emanava. Tiago se afligia por nada. Talvez a sua
imaginação fosse bastante boa, porque as tais alusões de Sean não
saiam de sua cabeça. Ser atacado por bárbaros! Ninguém merece.
Para maior angústia de ambos, o escritório de Bernis estava
trancado. Agacharam rente à porta e esperaram. Dali não
partiriam. Sentiam-se enterrados vivos, sem aberturas ou rotas de
fuga. Algumas armaduras pareciam vigiar.
–– Aqui não deve acontecer nada, não é! –– conversava Tiago
para se distrair. –– Museu é que nem igreja, terreno sagrado, não
é! –– querendo acreditar.
–– Deixa de falar besteira, eles não são vampiros.
–– É, mas eles não entram em qualquer lugar.
–– E eu não vi os índios aqui mesmo?! –– já entediado.
146
–– Sim, mas eles eram bons, não é!
Ficaram em silêncio pensando no assunto sem que pudessem
chegar a uma conclusão. E se Tiago estivesse certo, eles estariam
lá, fossem bons ou não. Por via das dúvidas ficaria de olhos bem
abertos.
–– Eu não enxergo nada disso, mas pode ficar certo que
também vou ficar com os meus olhos bem abertos. –– concluiu
Tiago mexendo no celular que emitia um sinal absurdamente alto
de que alguém o estava rastreando. Desligou-o rápido, esperando
não ser localizado.
–– Deve ser a minha mãe querendo saber por onde ando. ––
gemendo e chiando enquanto enfiava o aparelho no bolso.
O outro, com o mesmo ar enfadonho e debochado esticou a
mão aberta empurrando o rosto do Tiago que se descontraiu rindo
um pouco nervoso.
–– Vê se manera! –– pedindo silêncio ante a amargura de
estarem num lugar arrepiante e ameaçador, sem viva alma nas
proximidades. Talvez fosse melhor. Não demorou muito para que
ouvissem passos. Para um era evidente que alguém se aproximava
e bem podia ser o senhor Bernis. Entretanto, Sean arregalou olhos
e aguçou ouvidos para que, antes de se assegurar, tivesse certeza
de que verdadeiramente ouvia algo. –– Você está escutando isso?
–– Claro. Tá pensando que sou surdo... –– quando percebeu
que poderia ser um fantasma, lembrou-se de que, se o fosse, não
teria escutado nada.
A sombra de alguém chegando acelerado despertou um temor
súbito. Apesar da pouca luz, as paredes do fosso do castelo do
Louvre, num alaranjado lúgubre, refletiam sua silhueta gerando
sombras gigantescas que o acompanhavam como um bando de
comparsas sobrenaturais.
Firme e forte os dois se ajuntaram.
–– Estava procurando os dois –– gritou a sombra que se
mostrara aos poucos, através da luz difusa. ––, preciso que me
acompanhe, agora!
Mateus estava decidido e o ar de susto indicava que alguma
coisa devia ter acontecido, senão ele não estaria tão na defensiva
com olhares esquivos sobre os ombros. As mãos se contorciam de
nervosismo.

147
Sean percebeu que devia ser assunto bem específico, de
preferência entre os dois somente. Ele não sabia que Tiago
também sabia destes segredos. Fazia parte da amizade, mas será
que ninguém desconfiava, nem mesmo Mateus?
–– Vou, mas antes me diga o que é! –– olhando assustado
para Tiago, agora estava entendendo o silêncio de Mateus. ––
Pode contar, seu irmão sabe de tudo.
Desta vez Mateus se sobressaltou com a revelação.
–– Um ‘amigo’ seu me procurou e depois Jean apareceu
pedindo para irmos urgentemente até o aeroclube e... –– meio
desconfiado do irmão que olhava como se ele fosse um bicho
estranho.
–– Quem, Matt?
–– Macaxumaca, ou algo assim. Gordo de tranças brancas.
Acho que era um tipo de índio ou coisa assim. Sabe de quem
estou falando?
O ruído que surgiu das profundezas da galeria despertou a
atenção de Sean do mesmo modo que de Mateus. Já Tiago nada
percebeu. Os dois olharam firmes para Tiago. –– Por que estão me
encarando? –– descobriram que os passos não eram audíveis
senão aos pirados de plantão.
Lançaram-se ao fosso, encostado ao passadiço do museu que
circundava a antiga muralha redescoberta, arremessando Tiago
que parecia não entender o que estava acontecendo.
A galeria fora invadida abruptamente.
Os homens de casaca rasgada e chapéu esquisito regressaram
com muitos outros. –– não façam prisioneiros. –– ordenou o
comandante da invasão apontando, de seu corcel negro, seu sabre
delgado ao céu sólido daquela cave.
Os soldados haviam ingressado, vasculhando cada aresta
daquele departamento. Os três tentaram deslizar sob o passadiço,
saindo do outro lado antes que imaginassem como correr para
fora. Eles já estavam encurralados.
Estavam aprisionados por um mar de soldados.
Estranhamente estavam mantendo posição de defesa de fora para
dentro, como se estivessem se protegendo de alguma investida
ferrenha, recuando, fugindo. A infantaria formada de
carabineiros e granadeiros cercava a tropa de elite enquanto os
soldados da terceira linha avançavam com seus mosquetes em
148
mãos. No meio estava a cavalaria e os couraceiros, assim como a
artilharia de canhões leves que apontavam para além dos
carabineiros que se armavam preparando a munição com precisão.
O capitão gritava. –– Por Napoleão, cerquem o castelo. –– em um
confronto jamais ocorrido.
A agitação de soldados de infantaria vestindo variados
uniformes, transitando entre a cavalaria impaciente, demonstrava
ser uma tropa de assalto formada por diferentes soldados. Sean
recuou amedrontado quando espiou pelo vão de madeira da
passarela.
–– Estamos cercados.
–– Ainda não estou vendo nada. –– Tiago tentava acalmar
Sean, entre um bocejo e outro.
Neste instante um grupo investe para dentro do valo. O que
eles podem fazer?
Resposta clara e curta.
Mateus ascendeu rapidamente, erguendo os dois pelas mangas
de seus casacos embebidos de suor. Recuavam devagar quando as
armaduras expostas começaram a se mexer, tremendo e se
arrastando.
–– Isso eu estou vendo! –– rematou Tiago, durante o ataque
de uma cadeira que voou sobre eles.
Uma série de badulaques bélicos se desprendeu dos
expositores, caindo num amontoado de ferro, couro e tecido
envelhecido diante deles. Tiago sentiu cansaço dobrando os
joelhos sem aviso. –– Tô numa zonzeira!
A tralha ensurdecedora ergueu-se no ar distinguindo três
cavaleiros encouraçados, disformes e maiores do que um homem,
que avançavam com suas armas. Balouçando uma maça
pontiaguda que resvalou na parede metálica arrancando faíscas. A
armadura jogou-se para Mateus que fora salvo pelo empurrão de
Sean, jogando-os por terra. A maça soltou-se da manopla e
chocou-se contra um mostruário de espadas e floretes que voaram
pelo corredor, espalhando-se.
Tiago apanhou uma que devia pesar mais do que um elefante;
com dificuldade para levantá-la, usou-a como apoio para se
erguer. O susto veio com a espada sendo arrancada pela
acometida em arco, ligeira, de ombro a ombro, de outra arma

149
pontiaguda. Sean pisou sobre a haste de uma espada menor,
chutando-a para que Tiago se protegesse.
Esfregando o supercílio que sangrava, Mateus desviou de um
golpe desferido por uma armadura montada, ao que se
assemelhava a uma malha de cavalo. Então Tiago viu a lâmina
deslizando para si, reagindo instintivamente.
Com uma forte pisada na extremidade aguçada da espada ele
alçou o punho ao alcance de suas mãos. Como Lucas fazia com
seu skate. Girou-a para o dorso, agarrando-a ao contrário.
Amedrontado, premia o polegar à base desta empunhadura
enquanto a lâmina surgia atrás de sua cabeça. Com outro giro
atacou o metal, bombardeando espada, braços e peitoril do
cavalariano de elmo emplumado. Violentamente rasgou o soldado
em dois.
Surpreso, Tiago nem percebeu quando Mateus atirou um
machado longo que fincou a cota de malha do cavalo à placa de
aviso do museu. De alguma forma os cossacos controlavam a
massa de ferro que os atacava. Distraidamente Sean buscava uma
saída imprescindível, correndo os olhos por tudo, na esperança de
que tivesse se esquecido de alguma outra alternativa de fuga.
Precisava ganhar mais tempo para pensar.
Este lapso possibilitou que os soldados atacassem pela
retaguarda. A porta do laboratório abriu-se de chofre, seguida da
ofensiva de cadeiras e mesas que atingiram Mateus e Sean sem
que pudessem reagir contra. A escrivaninha e outra cadeira
prenderam Tiago contra a parede, deixando sua mão aberta
apertada contra o encosto vazado do mobiliário.
Uma voz, inaudível para o garoto, apontava para que não o
deixassem escapar. O homem que comandava o ataque, acima do
próprio capitão, aproximou-se pela escuridão, olhando
diretamente nos olhos de Tiago que nada percebeu tentando se
desprender. Em seguida pousou os olhos na mão estendida.
–– Ele tem a marca do quadrelo. Tem que ser ele, desgraçado!
–– recuou batendo os pés em surdos sons metálicos.
Toda a tropa recuou subitamente. Algo havia acontecido.
Tiros e estouros ecoavam em meio aos gritos dos soldados que
fugiam. Um brilho instantâneo e a fumaça revoluta de chispas
alaranjadas advertiam um outro ataque. A guarda trocou o seu
avanço pela defesa histérica da primeira linha atingida pelo
150
clangor da batalha. Faíscas, de canhões invisíveis, e bolas de
fumaça, varriam o batalhão hostil, anunciando uma contraofensiva
que vinham abertamente pelo flanco direito da tropa. Explodiram
em luta na bifurcação entre o medieval e o saguão da grande
pirâmide. O ferro morria, despencando em uníssono.
Sean lutava para se levantar da pancada.
Foi Tiago quem o acudiu –– Eles ainda estão por aqui?
Ao longe, os vira-casacas partiam em fuga acelerada,
deixando alguns armamentos danificados para carregar
companheiros feridos. Ele não conseguia entender como eles se
machucavam ou morriam, pois já não estavam mortos?
Só então se lembrou de responder ao amigo. –– Não. ––
Sumiram sem deixar rastros, senão os pedaços das armaduras
esparramadas. –– O que eles queriam?
–– Eles devem querer o manuscrito que Bernis está
procurando, o que mais seria?!
–– Pode ser. Preciso mesmo falar com o senhor Bernis,
definitivamente. Apesar de que, para mim, eles aparentavam estar
se protegendo. –– ajudando Mateus com seus olhos bem atentos
ao redor da galeria abandonada.
Tiago ajudava. –– Tudo? Vai contar tudo?
–– É tudo ou nada.
Mateus retrucou –– Mas antes temos que sair daqui. Vamos
direto para o aeroclube descobrir logo o que eles querem. Depois
vocês vão me dizer o que está acontecendo aqui. Que foi isso?
Os blocos do fosso haviam se deslocado, quebrando a
uniformidade da muralha. A força desprendida fora
incomensurável.
Tiago ainda pensava em como foi fácil manejar aquela
espada, e estava bastante assustado com sua própria atitude. Sean
parecia pensar o mesmo. Enquanto estava inconsciente teve mais
uma visão que contaria quando tivessem mais calmos e com mais
tempo para isso.
–– Posso ficar com...
–– Nem pensar... apesar de que nunca vi alguém usando uma
espada como você! –– disse Mateus.
–– Eu sei que já vi! –– complementou Sean.

151
12

o conclave

O PEQUENO PEUGEOT ainda ferido pelo acidente na


floresta acelerava pelo mesmo caminho desprezando
violentamente as enormes poças d’água que se expandiam com a
chuva teimosa. Já escurecia quando passaram pela Porta de la
Chapelle que naquela ocasião deixava de ser uma relíquia
medieval para constituir uma passagem sob o extenso cinturão
periférico que resguardava Paris com uma muralha de veículos
velozes.
Desde que, os três, abandonaram, secos, o estacionamento do
museu, ninguém teve coragem de abrir a boca para comentar o
que tinha acontecido. Mateus era claramente o mais atônito.
Porém Sean queria saber o porquê de não falar a respeito dos
fantasmas, já que ficara evidente que os via.
E a chuva, com raios e trovões, só aumentou o drama.
Desapareciam as primeiras impressões do tumulto quando
Tiago admirava, deitado no banco traseiro, as fortes luzes de
xenônio que bordejavam a autoestrada e que pareciam chuveiros
de magma no negrume antecipado pelos cúmulos espessos. Para
ele, as luminárias pareciam se cumprimentarem, curvando-se
quando passavam.
Os poucos carros que cruzaram, piscavam seus faróis como se
perguntassem –– De onde vocês vêm, está seco? E o limpador do
para-brisa respondia –– não –– enfático e barulhento. Mas para
onde eles iam a água abreviava o seu volume. Assim quando

152
atravessaram Saint-Denis só o fulgor polido das edificações e o ar
asseado lembravam-lhes que chovera.
–– Não acha estranho que a cidade esteja tão vazia! –– iniciou
Mateus tratando de averiguar Sean.
–– Normal. Não vi nada de diferente. Só os soldados de hoje.
Mateus mantinha o braço direito estendido sobre o volante,
pressionando a testa com a outra, tentando diluir o estresse. Não
gostou que Sean tivesse se referido aos soldados.
–– Talvez para você. Mas antes de você mudar para cá a
cidade estava inteiramente tomada por assombrações.
–– E como você sabia?
–– As roupas, os diálogos, as atitudes... Viviam atravessando
paredes bem sólidas. Outros faziam coisas do qual nem quero me
lembrar.
–– Passar no cemitério devia ser um caos. –– ria Sean,
buscando descontrair.
–– Nem tanto. Pior era em bares e locais onde rolava drogas.
Sean calou-se esperando que a conversa terminasse por ali.
Ele estava em um estupor curioso e não desconfiou quando
Mateus errou o caminho saindo da estrada em Pierrefitte-sur-
Seine, indo para oeste, rumo à floresta de Mont-Morency.
No entanto o desconforto pelo frio não passou desapercebido,
fazendo com que Mateus girasse o aquecedor ao máximo.O carro
ainda reagiu com uns socos, balançando engasgado ao pedido de
mais gasolina. Estavam parando no acostamento. O aquecedor deu
o seu último suspiro ardente.
–– Pane seca. –– dignou-se a comentar com os passageiros,
socando a testa no volante como castigo.
–– Não pode ser, estamos sem gasolina! Mas você é um... ––
Tiago nem experimentou dizer mais alguma coisa, já que viu o
olhar ameaçador que Mateus lhe direcionou pelo espelho
retrovisor. Sean se arrancou do veículo abrindo o porta-bagagem
em seguida. –– Se vamos ficar por aqui que pelo menos possamos
nos agasalhar. –– Espalhou para dentro o que achou, blusas,
mantas, camisetas, calças, panos, enfim, tudo que pudesse servir
de proteção ao frio ártico que se condensava diante de seus
narizes.
Estranhamente não passava nenhum carro. O que era insólito
para uma estrada um tanto movimentada. E por isso eles estavam
153
desconfiados do silêncio que assoprava as árvores daquele vácuo
urbano. Para todos os lados que avistassem, não notariam
qualquer ponto de luz, fumaça ou sinal de vida. Naquele oceano
verde, nenhum farol os guiaria.
–– Deve ter um posto de abastecimento logo em frente, talvez
uns cinco quilômetros, se vocês quiserem esperar! –– Mateus
esperou momentos cruciantes, receando que eles desistissem da
proposta e não o escoltasse voluntariamente. Estava com receio de
admitir que estava apavorado.
–– Nós vamos juntos. –– frisou Tiago, assustado pela mesma
causa. Não queria ficar só. Apenas Sean não estava disposto a sair
peregrinando por aí, após o que houve. Assistia olhares furtivos
no meio dos arbustos, mesmo sendo a sua fantasia o
atormentando, todavia não recusou a companhia dos dois.
Em sua cabeça tentava entender o que estava acontecendo.
Havia uma armada que buscava algo; uma não, várias. O
cavaleiro que pedia para achar um manuscrito. O manuscrito de
Bernis, quem sabe. As palavras dos índios ainda repercutiam em
seus ouvidos –– você não pode! ––, não podia acabar com o que
estava lhe acontecendo.
–– Que confusão! –– ele pronunciou em voz alta.
–– Qual?! –– assustou-se Mateus que se deteve de braços
afastados com o tonel vermelho na mão destra. Por mais que ele
tentasse esconder o pavor, a transpiração de sua testa o
contradizia.
O garoto retrucou desejando descarregar tudo o que estava
entalado na sua garganta. –– Não quero mais. Por que não posso
ter uma vida normal? Saindo com os meus amigos sem ter que
desviar de uma assombração. Ah, não! Tinha que ser esquisito. E
não bastava ver uma ou duas, agora são centenas! Ah, não
mesmo! –– agitando a cabeça em ato contínuo.
Pisava apressado diante de Tiago e de Mateus, desatento a
tudo, discorrendo alto e gesticulando como um alucinado. Às
vezes estacava e olhava sério para o pessoal que deixava ele
desabafar enquanto podia e ainda por cima onde podia fazer isso.
E ficaram assim por alguns quilômetros. Todavia a estrada se
desvelou adiante num descampado que frustrou as suas
expectativas, não havia nada até o horizonte tênue distinguido
pelo reflexo da lua cheia. Desistiram.
154
–– Pelo menos vamos avisar a mamãe. –– cutucou Tiago
sabendo que Mateus odiaria ter que expor o ocorrido, estavam
completa e totalmente perdidos.
Ela acreditou na mentira de que estavam no aeroclube e que
repousariam por lá. Até certo ponto. Mateus não explicou o
motivo, engasgou e se atrapalhou pensando em algo. –– Surpresa!
–– pronto, o estrago fora feito.
Agora retornariam quarenta e sete minutos por onde vieram e
deveriam topar com o carro. Deveriam, se não ficassem acuados
de boca aberta enquanto Tiago já se afastava inocente.

Estático, de pé em meio à rodovia, um vulto de capacete de


guerra grego, lembrando os antigos e atléticos soldados da velha
Hélade, os deteve. Meneou em silêncio por muito tempo e como
não reagiam, sorriu. Decidiram acompanhar o guardião que não
abria brecha para que passassem. Sean notara que usava botas e
que pisava firme.
Tiago não percebia o que se passava, mas desconfiava que
alguém havia se metido entre eles e, como não queria estorvar
ficou quieto, o mais que conseguia ficar.
–– Os aguardávamos para o conclave.
–– Como devo chamá-lo? –– perguntou-lhe no mesmo tom,
Mateus, antes de seguir.
–– Holofernes, senhor.
–– Holofernes? –– surpreendeu-se Sean.
–– Sim, Holofernes! E vamos que está muito frio para
posídeon.
Avançaram um renque de abetos deparando-se com uma
claridade homogênea que os cegou, com exceção de Tiago que
tentava se livrar dos galhos mais baixos com dificuldade. Gemia
melindrado.
Sean aproveitou o barulho para sussurrar algo com a mão
encobrindo a boca para evitar chamar a atenção do grego –– o que
é conclave? –– seguido de um gesto de ombros de Mateus que
estava tão no escuro quanto ele.
–– Uma reunião para poucos. O que eu sei eu falo, o que não
sei, me calo. –– contrapôs Holofernes que lhes conduzia para uma
clareira apinhada de rochas extraordinárias, estavam dispostas
num amplo anel vigiado por alguns guardiões trajados a Aquiles.
155
Seus peitoris resplandeciam o metal prateado de que eram feitos,
assim como espelhavam disformes, os contornos dos três.
Para adentrarem, atravessaram uma fileira de menires que
Holofernes assinalou sob as vistas, admiradas, da diminuta guarda
de elite. –– Sigam por aqui, estarão lhes esperando.
Tiago trespassou, com desleixo compreensível, Holofernes,
que acenou aborrecido.
–– Para com isso! –– puxou Mateus.
–– Mas o que eu fiz!
–– Estamos entrando numa reunião cheia de gente... morta. Se
você não quiser fazer parte, fique bem quieto. –– completou Sean.
Tiago encolheu os ombros anuindo com a cabeça.
Apesar de todo o caminho estar flanqueado por olhares
vidrados e duros, o ponto de convergência estava tão sossegado e
abandonado que não denotava a importância que lhe haviam dado.
Os garotos não estavam preocupados, pois que esperaram a
sós por um tempo impreciso que lhes obrigaram a procurar abrigo
do frio, improvisando uma fogueira. Eles estavam cansados
demais para reagir de outra maneira que senão aguardar.
Precisavam de respostas. O campo emanava lembranças de
batalhas remotas, intuía-se uma suave melodia de levantes em
sopros gauleses.
–– Que acha que eles querem conosco? –– frisava Sean
ajeitando alguns gravetos ao alicerce da fogueira que levantava
muita fumaça verde. Ninguém ousou responder. Holofernes não
era de falar muito, ficando de pé com seu farolete à mão durante
todo o tempo, inerte, sem aparente preocupação ou indagação.
Sean fora bisbilhoteiro depois de tanto e reconfortante
silencio. –– Não sei ao certo. Mas as coisas parecem estar ficando
mais claras.
–– As aparições? Desde quando?
–– Não sei ao certo. –– reprisando-se. –– Agora que estou
vendo, o mundo está tão complicado...
Antes que pudesse explicar suas considerações sobre um
admirável novo mundo, fora cortado por forte sopro que quase
apagou o fogo em labaredas frias e cortantes. A escuridão limitada
pelo alcance das chamas impedia-os de ver o invisível. Estavam
cercados por rostos monocromáticos e curiosos como crianças que
se abeiram com receio.
156
Uma silhueta familiar se destacou caminhando sem ruído. Era
Naxamuñaca que apontou circunspeto para se sentarem ao centro
das megalíticas pedras. O prado se estendia como se fosse um
prato gigantesco, deixando-os protegidos por uma fileira de altas
árvores cônicas. Tiveram que se aconchegar na grama alta daquele
pasto. Assim sendo os três se enrolaram nas cobertas e Tiago
deitou-se, com o tanque vermelho por travesseiro, para esperar o
fim, contando estrelas que às vezes se moviam para o seu espanto.
As chamas bruxuleavam trazendo cores aos rostos mais
achegados.
Tio Xaxá foi um dos que se assentaram, acocorados, perante
eles. –– Estamos mortos, sim... hum. Mas que palavra feia. Para
mim e para eles –– referindo-se aos outros –– estamos bem vivos.
Mateus deu a entender a Sean que: Por que você não pergunta
quem são? –– Calma, eles sempre se apresentam, mas não sei do
que isto adianta. Está vendo algum rosto conhecido? Você acha
que eles possuem carta de recomendações... hã? –– sem receios.

–– Percebi que já não estão mais com temor dos espíritos. ––


referindo-se obviamente a Sean que desistira de recuar. Contudo
faltava, para Mateus, algo que lhe fizesse entender a situação. Ele
não costumava reagir às pressões exercidas, mas sim à
compreensão dos fatos. Se fizessem sentido, mudaria seu estado
de ânimo.
–– Dias-há que tentamos ajudá-los. Com algumas respostas
esperamos que vocês possam nos devolver o favor. –– ponderou o
ancião abrigado detrás do único dólmen daquele sítio druídico. O
garoto se surpreendeu com a inquietação do inquiridor, será que
nem eles sabiam o que estava acontecendo ali?
Os demais espíritos ficaram afastados, encobertos pela
obscuridade da noite mostrando um perfil mortiço ao lado dos
menires protetores.

–– Os soldados! Quem são?


Os senhores se olharam acenando um sim síncrono.
Naxamuñaca presidiu o conclave redarguindo. –– Os que
vocês viram hoje não passam de meros mercenários, e como
tantos outros, originários das Cidades Baixas. Estes são aqueles
que atuaram nas batalhas napoleônicas. Por séculos eles vagam
157
buscando retratações, mas... hum, são ineficazes porque são muito
orgulhosos e egoístas. Ou pelo menos eram ineficientes. Não
precisamos fazer muito para impedi-los, vivem trocando as mãos
pelos pés –– parou para respirar, mesmo morto. –– O que
aconteceu hoje, jamais tinha acontecido. Hum. Conseguiram nos
bloquear e ainda aprenderam a manipular os objetos com certa
desenvoltura. Além de conseguirem interferir pesadamente...
hum, no seu mundo.
–– Cidades Baixas?! Mas o que eles queriam? –– Mateus
adiantou-se.
–– Não sabemos ao certo. Até então eles se preocupavam em
incomodar antigos inimigos que estão do seu lado –– referindo-se
ao mundo dos vivos de carne e osso –– para perseguí-los
inescrupulosamente. Defendiam-se de nossas incursões que só
serviam para auxiliar os seres recém libertos deste jugo, para
tratamento moral. Estávamos preparados para qualquer ataque às
nossas cidades, todavia nem eles sabem o que estão fazendo, o
que acaba nos confundindo. –– desta vez esclareceu um druida de
uns mil anos. –– São seres obviamente excluídos por causa de sua
obstinação no mal e por haverem sido causa de perturbação no
meio dos bons. Quando renascem são relegados, por algum
tempo, entre os mais atrasados, que têm por incumbência fazê-los
avançar. Por isso a Terra apresenta um dos tipos de mundo
expiatórios onde há infinitas variações e servem de exílio aos
espíritos rebeldes à lei do Alto. Mas mesmo assim eles nos
surpreendem, às vezes.
Havia tanta coisa que Sean queria elucidar, no entanto ele se
concentrou nos últimos acontecimentos. No semicírculo, afastado
uns três metros, o senhor de túnica escura, um frade, continuava
tão intrigado quanto ele. Mateus não sabia de tudo e só observava
as reações da conversa. Tiago adormecera entediado com o
solilóquio.
–– E o acidente no metrô, e este manuscrito! –– lembrou-se de
repente, buscando encurralá-los. Eles estavam aparentemente
irrequietos e pensavam muito antes de responder algo que lhes
fossem comprometedor, mas também queriam saber o que
acontecia lá fora. A floresta em torno do conclave também ficara
precavida, inativa e silenciosa, aguardando a consequência desta

158
assembleia. Os pirilampos dançavam no ritmo dos sons de grilos e
silvos e zumbidos.
–– O acidente foi uma reparação de tempos anteriores entre
você e Marc Bernis e que foge, no momento presente, ao nosso
completo conhecimento... hum. Achamos, desconfiamos, que o
manuscrito possa ter relação com este fato.
–– O que você quer dizer com tempos anteriores?
–– Antes de renascerem agora, outras vezes já o perpetraram,
só não se recordam. É corriqueiro, apesar do que dizem por aí.
Porém, neste caso, não temos como saber. –– frisou o druida que
tornava o rosto para alguns dos espectros encobertos que lhe
dirigiam instintivamente o colóquio.
–– Como não! –– gritou Sean –– Vocês não sabem tudo? Não
cuidam de todos?
E calou-o –– Além de não podermos nos intrometer nas
escolhas dos vivos. Também não sabemos quem é você!
Mateus estava desconfortável perante o bate-boca entre Sean
e aquelas pessoas muito vivas, diga-se de passagem. O garoto não
compreendia como não podiam saber quem eles foram, já que não
podiam intervir e nem o queriam.
–– Hum. Você não nos compreendeu com o devido
julgamento. Nós sabemos quem as pessoas foram com razoável
facilidade, para dar alguns conselhos que... hum, condigam ao
papel de um bom anjo da guarda. Só não sabemos quem você era
ou é, o que preferir. –– respondendo ao pensamento.
Até Mateus silenciou-se na sua agonia de trazer novas dúvidas
ao bate-boca, que ainda fervilhavam no seu cérebro apreensivo,
ou melhor, talvez ele preferisse correr disparado dali.
–– O seu amigo, que está dormindo bem ao seu lado, sabemos
que foi alguém dos mais inusitados que se tem notícia, por
exemplo. –– assinalando para Tiago.
–– E por que comigo não, então?
–– É o que queremos descobrir, oras. Porque é precisamente
você quem nos impede de descobrir. –– lamentou-se Naxamuñaca.
Então era isso, um labirinto sem saída. Ou Sean descobre a
resposta por si mesmo ou fica no escuro. Como um cachorro
correndo atrás de seu rabo. Por um tempo ficou embasbacado,
sem reação, tão chocado que não conseguia raciocinar. Milhares
de anjos e nenhum supostamente sabe o que está se passando?
159
–– Somos responsáveis por muitos acontecimentos que
considerariam como coincidências, sendo que a maior parte está
intrinsecamente interligada, como num castelo de cartas. Em
algum lugar alguém sabe o que você precisa; todo baralho tem
seus coringas. O fato de não termos todas as respostas se deve a
compromissos ao qual não devemos intervir, assim a ignorância
impede que atropelemos o que deve acontecer naturalmente.
Não era uma resposta, mas indicava o caminho que levava a
outra questão.
–– E o manuscrito? –– disse olhando para Mateus que não
sabia desta parte dos acontecimentos.
–– Se era para você estar envolvido? Não era, penso. Mas já
está. As explicações, você só as terá com Marc.
Os garotos forneciam todos os elementos que dariam
subsídios aos bons espíritos daquela reunião de sábios para que
fortalecessem suas posições diante do impasse. Eles tinham
determinado que as suas ações só avançariam quando esta bizarra
confluência ocorresse. Podiam não conhecer todas as facetas,
sobretudo quanto aos personagens, todavia seguiam planos já
traçados e que pouco poderiam ser modificados.
O senhor daquele conclave olhava seguidamente para os seus
consortes na eventualidade de seguirem adiante com o
interrogatório que lhes daria maior precisão quanto aos eventos
futuros já delineados. Tão logo seriam experimentados em suas
convicções diante da grande transição. Chegava a Hora do Basta.
Eles, através da voz do índio, re-encetaram. –– Qual é o
próximo passo de vocês?
Mateus tomou a palavra. –– Bem, acho que devemos falar
com este Marc! –– pouco sabendo quem e o que ele representava.
–– Temos que sair rápido do que não nos compete...
–– Ledo engano, jovem. Não só compete a vocês como
depende de suas atuações. O curumim Sean tinha que se envolver
com Marc nestas circunstâncias abruptas do incidente para seguir
com seus compromissos. E você tem os seus. –– tio Xaxá não
podia dizer nada que comprometesse o fluxo natural dos eventos,
mas também nada sabia que fosse mais esclarecedor.
O conclave previra tal reação e preparou explicações que
pudessem surtir algum efeito nos garotos. –– Os homens mortais
são sempre muito cegos. Supõem tudo na base dos extremos.
160
Assim como vocês. –– aguardou um tempo. –– Se agrupam em
dois bandos bem característicos: os que são o centro do universo e
aqueles que são mais um grão de areia. Quando entraram neste
conflito incorpóreo passaram a agir como os primeiros. Querem
acreditar que são imprescindíveis para a solução de grandes
verdades. –– Sean engoliu um sapo colossal. –– Agora que eu
disse que não são, despencam vertiginosamente para o extremo de
se acharem uns quem-somos-nós-para... Mas vocês têm seus
papéis nestes conflitos entre anjos e demônios. Só desconhecemos
as implicações por mera conveniência aos envolvidos.
–– Por causa de nossa capacidade de ver?
–– Todos os dias milhares de pessoas passam a interagir com
o nosso plano. Muitos se desesperam em orações fanáticas, outros
não querem, fingem. E bem poucos acabam por estabelecer um
primeiro contato. E não é por isto que estão aqui?
–– Se somos tão raros! –– Matt não se conformava.
–– Contudo não são insubstituíveis. O que os tornam especiais
é que devem a Marc Bernis as suas implicações neste
acontecimento sem precedentes. Simplesmente porque devem a
ele o seu comprometimento.
–– Ele quem pediu que nos envolvêssemos?
Teria que destruir as ilusões de tão prestimosos auxiliares. ––
Não. Vocês se comprometeram em quitar as suas dívidas com ele.
–– expurgar o carma, diriam os orientais. –– Só que a requisição
veio em uma ocasião, hum, bem mais complicada do que
imaginavam.
Ficaram impactados.
Para tranquilizá-los, Naxamuñaca prometeu destacar uma
sentinela que eles não descobririam em meio ao cardume de
mortais, mesmo que a vissem.
Agora podiam volver para o seu mundo.
Um senhor que se encontrava oculto entre os menires falou:
–– Além do mais, temos razões para supor que este pequeno
batalhão que enfrentaram, estava tentando aproximá-los do senhor
Bernis. Eles estão tramando algo ao reunir estes dois –– frisou
para a comitiva ––, depois temos toda esta fuga em massa.
–– O que eles esperam conseguir?! Não podem por as mãos
nos diários de Miguel. –– falou tio Xaxá se referindo a algo maior
do que os garotos supunham.
161
–– Mas podem atrasar a sua revelação. Há anos tentamos
expô-los e quando estávamos quase prontos... Apronta-se outra
guerra absurda. Cem anos de muito preparativos, arruinados. ––
Os homens nem cogitavam a existência de um códice falando
acerca do mundo dos espíritos circulando a mais de um século.
Nem de seus predecessores tibetano e hindu e tantos outros. Nem
que este mundo havia sido devassado por grandes pesquisadores.
Os diários poderiam ajudar a levantar este véu.
Um suposto grito na multidão tenta reparar. –– Nunca. O
tempo é um fator desprezível.
–– Mas eles estão se fortalecendo!
–– Nós também. –– sibilou o estranho por entre as pedras.
E a discussão se interrompe.
As pedras davam a impressão de movimentar-se devagar ao
redor deles, mudando a paisagem constantemente. O cenário de
rochas vivas que pareciam se aproximar para ouvir o conclave.
–– Garoto, não pertencemos às mais altas hierarquias. Não
passamos de seres que tendem ao bem, contudo ainda erramos.
Nossos méritos são poucos perante nossas faltas acumuladas.
Todos as possuem. –– narrava Guarini emocionado. –– O
formidável é que não nos culpamos mais, lutamos para ressarcir
as dores do próximo.
Do momentâneo vácuo entre perguntas e respostas um
grandalhão asiático de pernas cruzadas intrometeu-se. –– E quem
é o guardião do menino? –– apontando para Sean.
Ninguém soube.
Tio Xaxá ergueu-se para elucidar, porém com um gesto seu
finalizou a reunião. –– Temos Guarini servindo o curumim Joshua
e agora ele acompanha o irmão, a pedido meu. –– o que foi
satisfatório para agraciar a plateia. Apesar do peso das palavras o
conclave fora uma reunião parcimoniosa e tranquila. As almas
reunidas não emanavam preocupação exagerada ou arroubos de
emoções, estavam plenamente cônscios de seu papel nos eventos
que se aproximavam. Sabiam que eles também iriam ser postos à
prova, assim como aqueles que estavam espalhados pelos quatro
cantos do mundo em suas inumeráveis camadas de vida, físicas e
etéreas.

162
O conclave não havia descoberto o que estava acontecendo,
mas não podia descartar que a chave para a solução desta
incógnita estava no passado de Sean, Bernis e os tais diários de
Miguel. Para não assustarem o menino, eles evitaram comentar a
travessia da guarnição romana londrina que seguia
inexoravelmente em suas gáleas para os portos franceses. E uma
incomum agitação de espíritos revoltosos que progrediam
aleatoriamente para Paris. O que essas criaturas mefistofélicas
sabiam que os anjos nem conjeturavam?
A aragem fria despertara Mateus de suas elucubrações
lembrando-o do assalto dos fantasmas do Louvre, um gosto acre
subiu à boca automaticamente, engolindo em seco. Intrigado,
ainda estava envolvido no duelo; suas pernas tremiam discretas.
Assim que o impacto passar ele cairá num relaxamento tal que o
levará a dormir como uma pedra.
–– Assim que soubermos do que se trata, diremos. –– ao seu
modo, claro. Encobrindo que sabiam de algo a mais; decerto fazia
parte disto um velhote chamado Atmatattva que se metera numa
briga no beco, bastante insólita. –– Só mais uma. Tiago sempre
estará por perto quando acontecerem outros combates como este.
Os espíritos precisam tanto dele, quanto vocês. Se ele concluir o
contrário, relembrem-no.
Os garotos estavam abatidos e cansados, tensos por não terem
sido considerados em outras questões que fizeram, de maneira
atropelada, à rápida dispersão dos espíritos que compunham o
conclave. Nem mesmo Naxamuñaca permaneceu. As pedras
continuavam observando, impassíveis.
Escureceu quando o brilho espectral se apagou.
Só Holofernes apareceu com sua lanterna feérica.
Sem que Tiago percebesse, o seu irmão mais velho o agarrou
para perto de si, embolado na manta umedecida, ainda desmaiado
pelo sono. Não comentaram mais nada, decepcionados.
–– Não adiantou de nada. –– resmungou Sean.
–– O conclave ainda não terminou. –– aprontou-se o helênico.
–– Indague o seu amigo! –– referindo-se com o dedo em riste para
Mateus.
–– Como eu pude esquecer. Tem algo acontecendo perto do
aeródromo! –– lembrou-se após um certo esforço. Retornaram ao

163
carro jogando-se nos bancos e se agasalharam com as cobertas
improvisadas, até uma cueca serviu como gorro.
Não antes de avisar Elene, através da caixa postal, que eles
estavam encalhados em algum lugar na D124, dentro da floresta
de Mont-Morency, como precisou Mateus ao ver o sinal impresso
na orla da estrada.
Dormiram, ou fingiram dormir até serem tragados pelo
cansaço. Um reflexo da luta que cobrava seu preço.
Sonhos tumultuados rechearam suas mentes fatigadas.
Uma sensação de que o coração estava saindo pela boca.
E dolorosamente contido.

164
13

o primo embate

Quando alvoreceu foram despertados por pancadas no


vidro embaçado. Mateus não conseguia ver quem era, mesmo
depois de friccionar o vidro com insistência. Seus olhos
continuavam grudados, despertando-o para o ruído do tráfego.
–– Abre, é Elene! –– abriu ainda bocejando, enquanto ela
gesticulava círculos ao ar e apressando a ideia de abaixar um
vidro automático. –– Está lindo com essa cueca na cabeça.
Retirou-a apressado, com um sorriso maroto. Apesar do
embaraço, ela salvou-os de uma busca infatigável por
combustível. Estava ansiosa por encontrá-los, qual seria a
história? Não resistiu, precisava rir um pouco do tímido namorado
que a descartava aos poucos. Da cara amarrotada contígua ao
vidro não conseguiu disfarçar as gargalhadas, acompanhada de
sutis lágrimas.
Fizeram o reabastecimento do carro e seguiram viagem.
Depois de alguns minutos, submergiram em um campo até o
aeródromo que estava escondido por uma neblina densa. Não
havia vento e os animais ainda hibernavam quando o sol alcançou
as copas dos pinheiros mais altos de um bosque a levante. Os
hangares estavam selados pelo gelo aglomerado nas suas fendas.
Os pingos começavam a estalar o metal.
Eles saíram dos automóveis esfregando as mãos gélidas diante
do hálito condensado de suas bocas abertas, raspando os pés no
cascalho do estacionamento vazio. Somente eles se mexiam.

165
Inevitável que Sean vigiasse sua retaguarda, preparando-se
para alguma nova ofensiva, que não seria inesperada desta vez.
Não podia imaginar o que o levaria a esta insanidade, precisava
começar a deixar de ouvir o que os mortos diziam.
A par das conversas do conclave, Tiago recolheu-se para
refletir no assunto, achava que era mais fácil quando não se estava
no meio de toda esta enrascada. No entanto Mateus passou a
considerar que era mais fácil agir sabendo onde se metera. Afinal,
nenhum dos dois estava certo. Para Sean bastava tirar o foco de
cima dele, topando com um bode expiatório que realmente tivesse
algo a ver com o manuscrito, ou com Bernis ou com quem quer
que fosse.
Se ele existia, Sean encontraria, vivo ou morto. Mas com
certeza não seria ele, ou Mateus, ou muito menos Tiago. Quanto
aos demais, subtendendo os fantasmas, não podia dizer nada, não
os conhecia tão bem.
–– Eu é que não serei! –– a voz avançou pela penumbra,
furtiva e cautelosa.
Mateus cochichou –– Que tal se você me explicasse os caras
que nos atacaram ontem! Tinham até armas! Não vem com a
conversa fiada de sempre, agora é pra valer.
–– Sei. A guarda do conclave me apertou. Eu vou mostrar
algo, mas sem ruído, heim! Manda o moleque ficar prevenido
porque no outro já dei um jeito –– referindo-se a Tiago que fora
arrebatado pelos puxões da Elene, influenciada por um acanhado
sopro ao ouvido.
Pela primeira vez Sean se encontrara cara a cara com Jean, o
aviador que perambulava no hangar mais distante. Jean não
parecia exultante com ele, ou talvez os seus amigos do conclave o
tivessem dado esta impressão quando o pressionaram. –– Ou você
corre atrás do tempo perdido ou... hum, vamos obrigá-lo. –– disse-
lhe um índio obeso cobrando um antigo débito. Assim ele seria
reconhecido como a sentinela advertida por Naxamuñaca.
–– Quem é o senhor? –– perguntou Sean.
–– Sou o Arcanjo –– respondeu diretamente ––, mas pode me
chamar de Jean.
–– Sempre presunçoso. Não lhe de importância. Ele é um
destes espíritos que ficam grudados na gente, mas é meu amigo. O
cara manja de aeroplanos como ninguém e, além do mais, é
166
divertido demais. –– falou Mateus por entre as nuvens que
avivava de sua boca. Jean piscou em cumplicidade, com aquele
sorriso de conquistador barato enquanto ajeitava o cabelo
lustroso. Foram, então, atrás de Jean.
Atravessaram toda a pista do aeródromo e, prosseguiram pela
cabeceira, aproximando-se de um bosque das proximidades, entre
tantos outros que coalhavam naquele vale. Eles observavam o
bizarro movimentar de Jean, que redobrava a concentração
evitando que, desprevenidamente, alguma coisa pudesse pular
sobre eles. O crepitar dos gravetos era seguido de repetidos psius
do Arcanjo que terminantemente não participava da barulheira.
Além, havia um vale profundo que sempre estava calmo,
rasgado por um riacho rumoroso, disse Jean. Não havia nenhuma
construção ocupando a planície sendo, portanto, o local ideal para
os campistas praticantes de esportes radicais. Mas na antecipação
de um inverno rigoroso eles não estariam ali.
O Arcanjo sinalizou que se sentassem, esperando a serração
dissipar.
–– Os espíritos não deveriam estar em outro lugar? Como o
céu ou o inferno ou o purgatório?
A resposta era simples, mas exigia muita explicação. –– Se
eles forem católicos e estiverem razoavelmente mortos, talvez.
Como muitos nem percebem que bateram-as-botas, ficam por aí,
tentando voltar às suas vidas. De fato, aqui não é tão diferente do
que estas três localidades astrais; são as funções desempenhadas
que são bem maiores do que as descritas. Todos vão para onde
suas consciências estão.
–– Mas e todos estes espíritos que estão por aí? –– perguntou
Sean enquanto Mateus bagunçava seu cabelo vigorosamente,
atraindo olhares furtivos na mata.
Esta resposta seria muito mais simples. –– Estamos em uma
área de transição. As regiões etéreas não são estanques, são
graduais e acabam se interconectando entre elas. Somente uma
regra estabelece a relação entre as regiões, quem está embaixo não
consegue subir sem que se modifique seu estado moral, mas quem
está acima pode descer. –– obrigando Sean a afastar a mão de
Mateus de sua cabeça, pois queria ouvir o que Jean dizia.
Um burburinho brotava da névoa, o que aumentava a
ansiedade de ambos. Aos poucos as nuvens se agitavam,
167
envolvendo-os nestes chumaços claros que redemoinhava à borda
do precipício. Nem Mateus sabia o que Jean queria com isso,
porque toda hora ele levava o dedo aos lábios pedindo silêncio e
boa dose de paciência.

A manhã transcorria célere quando, de modo repentino, o vale


ocluso se abre. Sean se levanta sem muito equilíbrio, pois
centenas de homens estavam abarracados à margem do córrego. O
brilho causado pelo reflexo das armas e cotas impediu-os de
admirar com mais nitidez, mas sem dúvida eram soldados se
agrupando, se aparelhando para a guerra. O acampamento era
formado por várias tendas, de tecido rústico, marcado por
estandartes que já duelaram naquele mesmo terreno. Muitos
séculos antes.
–– Mais armadura, não! –– reclamou Sean.
–– São só alguns conrois•, os outros já partiram para se
aliarem com mais algumas tropas. Parece que este é só a cabeça-
de-ponte norte da invasão.
–– Que invasão?
O piloto não soube responder. Todavia sabia que além destes
soldados armados de espadas, lanças e escudos, muitos outros
entravam em alianças medonhas. Fora convocado a fazer parte
deste estranho jogo, mas gostava de trabalhar sozinho.
–– Ainda não entendi o que eles desejam, mas que eles estão
conseguindo se unir, eles estão. Nada tão perfeito, porém bastante
eficiente. –– apontando para um grupo que montava uma catapulta
de uns sete metros, um trabuco. Impacientes, os cavalos impeliam
a guarda cavalariana que se preparava para vistoriar as fronteiras
do campo. –– Temos que partir, eu não quero ser pego no meio
desta batalha. Já, vocês, não têm com o que se preocupar.
–– Ontem fomos atacados, de verdade!
–– Tá brincando. Como? –– e Mateus contou tudo, não
omitindo nenhum pormenor durante a travessia do capão.
Os dois falavam sobre a reunião e Sean tentava reordenar seus
pensamentos buscando um esclarecimento para o impasse. Para


unidade básica de combate para um cavaleiro ou homem-de-armas e a maior parte tinha
entre doze e vinte homens.
168
onde quer que ele dirigisse suas hipóteses, esbarrava num
mistério. Tinha que ser algo muito importante este códex mikhae,
senão como explicar tamanha movimentação de soldados.
Que bom que Bernis não podia ver o que lhe esperava. Por
sua vez Sean se sentia, cada vez mais, na compulsão de defendê-
lo, ou pelo menos alertá-lo, mesmo desejando sumir. Uma
tremenda enrascada que não precisava, contudo estava metido até
o pescoço. Se não por Marc Bernis, por sua mãe que estava no
meio deste Deus-nos-acuda.
Sair do arvoredo representou um alívio.
Pelo menos por um instante.
Os cavalos avançaram arrancando tufos de grama do solo
alagado, mal tiveram tempo de reagir. Lado a lado, foram
circundados por cinco cavaleiros que impediam a passagem com
suas lanças postas. Cada um defendia um brasão senhorial apesar
de estarem reunidos sob uma égide comum que os prisioneiros
desconheciam.
–– Parem! Bastardos. –– berrou de dentro da peça defensiva
que lhe cobria o corpo, daquela que estava no meio do cortejo.
Sean e Mateus tentavam ficar apáticos ao cerco. Como estavam
vivos os cavaleiros não deveriam representar problemas.
Entretanto não era bem assim. O Arcanjo escapara atraindo dois
soldados para a mata.
Os soldados remanescentes se olharam intrigados, mas agiram
por prudência. Um deles trotou diante dos garotos com a ponta da
lança direcionada para os olhos de Sean. O cavalo resfolegava e as
lufadas de um ar quente atingiram o seu rosto que começava a
suar frio. O cavaleiro tentou amedrontá-los em vão, e antes de
partir arremessou a arma sem aviso. Só quando Mateus fora
atingido pela lança é que uma dor pungente percorreu seu braço
como se queimasse por dentro. Ele não estava realmente ferido,
mas estava ferido. Sean não quis entregar a farsa, fingindo que o
amigo estava tendo um ataque do coração, copiando os primeiros
socorros sob protestos que eram abafados por um boca-a-boca
meia boca. Logo a pequena patrulha acreditou no teatro e se
juntou à perseguição na floresta.
–– O quê você está fazendo! –– reclamando da dor e das
pancadas no peito. –– Pode parar; eles já se foram.
–– Era isso ou eles nos espetariam até nosso traseiro assar.
169
–– E queima mesmo! –– sendo levantado por Sean que
recordava que era a segunda vez naquele ano, em toda a sua vida,
que precisava ressuscitar alguém, mesmo que de mentira.
Passou o braço pelo seu pescoço e se afastaram em passo mais
do que acelerado.
–– E o Jean, será que o apanharam? –– agradecendo em
silêncio a atitude do Arcanjo, contudo não podiam deixar que ele
ficasse preso. De qualquer forma, como poderiam salvá-lo, se nem
apertar as mãos podiam, recordando do encontro a pouco.
–– Não contaria com isso. Se ele sobreviveu dias, perdido nos
Andes, sem comida e com um frio de rachar; não seriam uns
bárbaros brutamontes de quinhentos anos que tirariam a sua
liberdade! –– acrescentou Mateus. –– Você não conhece essa
gente, eles creem que estão lá e não mudam seus hábitos. Quem é
padre continua rezando, quem é guerreiro continua lutando e vai
ficar assim até que perceba que tudo está mudado. O que pode
demorar um baita tempo.
Ajustou o passo para chegarem mais depressa. Evitaram falar
alto durante o percurso, o que dificultava ainda mais a conversa
que eles inventaram para disfarçar o temor.
–– Todos ficam assim?
–– Que eu saiba, não. Jean nunca encontrou seu companheiro
de aventuras por aqui. Gente como ele fica vagando a esmo, não
acreditando que está morto. Um dia ele me disse que só
desconfiou de que não estava vivo porque tentou se suicidar e não
aconteceu nada. Já tinha morrido há muito tempo.

O sol não emanava mais sua luminosidade etérea por meio do


nevoeiro, ele tinha um ponto definitivo no céu límpido para onde
direcionar o olhar, protegendo-se com as mãos, de sua magnitude.
Seria melhor correr, fugindo de um campo aberto que estava se
descortinando implacável. Distância suficiente para notarem
Tiago e Elene removendo os aeroplanos dos hangares.
Sean já levantava a mão buscando o auxílio deles. Foi
Christou quem percebeu o aceno insistente. –– Problemas! ––
queixou-se alto. Ela se preparava para largar tudo e ir até eles,
asseava as mãos numa estopa encardida, quando viu os dois serem
arrojados para fora da pista. Voaram bem uns cinco metros antes
170
de caírem perto de uma torre de retransmissão. Mas ela não viu
nada mais, além dos garotos. Como um passe de mágica, foram
jogados ao ar. Gritou pasma, atraindo à pequena distância de si,
Tiago.
–– Eles foram atacados. Vamos logo para lá, rápido! ––
contou puxando-a pelo punho dobrado da jaqueta.
–– Como assim atacados?!
–– Depois eu explico, se puder! Também não sei como.
O que Sean e Mateus viram teria ocasionado efeito contrário
nos amigos que se apressavam em alcançá-los o mais rápido
possível. O elemento surpresa nunca falha, mas um ataque de peso
como aquele era inesperado.
As árvores bem que tentaram avisar, farfalhando
violentamente, abriram uma brecha barulhenta. Rasgando as
copas, aquela enorme pedra impulsionada pela catapulta não
existia realmente, porém a onda de choque provocada pelo
deslocamento do ar era como um efeito colateral. A pedra não era
bem uma pedra, apesar de que algumas árvores altas, além de
Sean e Mateus, acreditassem que fosse.
O vagalhão invisível explodiu por entre a floresta, afastando a
vegetação mais elevada e atingindo, de novo, com um forte
estrondo, o plano próximo aos dois. Gritos bradavam o avanço
imediato da pequena tropa que surgira do bosque cavalgando
frenética de onde nasciam os projéteis. Tragavam o espaço até
eles como uma gigantesca onda que não podia ser contida. Como
em uma crista, os estandartes flamulavam à frente da cavalaria,
seguidos pela infantaria, a pé, com suas armas afiadas em punho.
Um mar de metal enferrujado penetrava no aeródromo com o
intento de emudecer os invasores.
Tombados, com ombros e costas distendidas, só puderam
esperar que a primeira linha atacasse-os em breve. Não tinham
forças para evadir-se. Sean olhava fixamente para os inimigos
sanguinolentos, sentindo as armas tingidas de sangue ressecado
aproximarem-se de suas goelas.
–– Não posso morrer, é impossível! –– divagava Mateus com
os olhos esbugalhados.
Eles viraram na direção contrária para tentarem se arrastar até
a torre, quando enxergaram Holofernes nascer detrás do
promontório cujo platô estava sendo invadido. Sozinho ele não
171
seria capaz de protegê-los, no entanto ele passou entre os garotos
e piscou auspicioso.
–– Creio que ouvi um barulho. Estão precisando de mim? ––
riu-se Holofernes, segurando um admirável escudo circular de
madeira e, um pequeno gládio de cabo curto que ficara assentado
sob o braço enquanto removia o elmo para cumprimentá-los.
–– Trouxe mais alguém? –– sugeriu indócil, Mateus.
–– Uns poucos companheiros de batalhas, acho que servirão.
–– ou a presunção dele era legítima ou não sabia avaliar combates.
É claro que não enfrentava uma luta armada em quase três mil
anos, contudo, do mesmo modo, não se lembrava de ter precisado.
Chegavam Tiago e Elene jogando-se perante os dois ainda
contundidos na queda. Estavam entrincheirados pelo nada.
–– Que está acontecendo? Ela viu tudo, ou melhor, nada. Ou
seja, viu vocês voando sobre a pista. Tá desconfiada.–– perguntou
Tiago ao ouvido de Sean.
–– Espere um pouco. –– tapando a boca de Tiago.
Do mesmo valo brotaram, a passos abalizados e constantes,
marchando com seus escudos à esquerda e suas lanças de dez
metros apontadas para o atacante, centenas de homens,
componentes de várias falanges gregas de oito fileiras compactas.
Elas se fecharam abruptamente ao redor dos protegidos referidos
no conclave, firmaram os paveses e desceram as lanças, duzentas
e cinquenta e seis varas compunham a sintagma•, zunindo para o
oponente. Com maior número de homens do que os cavalarianos,
os helênicos esperavam um entrave curto, porém somente uma
fraca série de cavaleiros, que não tiveram tempo de reagir à
armadilha grega, chocou-se contra o muro de lanças macedônicas.
Muitos homens couraçados foram arremessados de seus
cavalos que desabavam feridos sobre os escudos gregos. O
relinchar dos animais atingidos misturava-se aos alaridos de dor
das armaduras mutiladas. Os gregos não retalharam a agressão,
nem mesmo ameaçaram expulsar o atacante que partia num
movimento inusitado por Holofernes. Ao seu sinal, alguns homens
afrouxaram as armas da posição de defesa e avançaram num
contra-ataque ao trabuco desamparado, ao mesmo tempo em que
um bando corria para socorrer os feridos, incluindo os inimigos


unidade básica das falanges macedônicas com 16 fileiras de 16 homens.
172
que insistiam em sangrar, resultado previsto por aquelas mentes
frouxas que imaginam ferimentos inexistentes.
Holofernes pôs o elmo e se juntou à tropa em campo,
angustiado com o que presenciara. O ataque fora tão dramático
que Sean não conseguia falar, se afastou mudo porque pequenos
embates espalhados, aqui e ali, continuavam. Apenas alguns
homens permaneciam atendendo os derradeiros feridos que
continuavam urrando imprecações aos gregos.
Foi uma longa corrida até o pátio de manobras.
–– Vocês devem ser muito respeitados! –– cutucou Jean ainda
esbaforido e esgotado da escapada. –– Como eles conseguiram
feri-los? Eu pensava que aquelas coisas só eram para afastar, criar
um certo temor. Nunca ouvi falar que eles lutassem, só agiam na
defensiva. Bem, prefiro acreditar que eles sabem o que fazem.
Enquanto cuidavam do ferimento real e imaginário de Mateus,
Sean voltava para dar uma última espiada na batalha que era
travada na raia de aviação. Esgueirou-se junto de um dos
hangares, pronto para espiar através dos furos de ferrugem. E
então enfiou o nariz no peito polido de alguém. Caiu de costas
com o susto. O sol o impedia de ver quem era, no entanto dava
para perceber que usava uma armadura, outro casco metálico em
seu encalço. Ele se aprontava para correr quando o cavalariano
mostrou seu semblante. Era o mensageiro.
–– Eles querem aniquilar o manuscrito e todos aqueles que
estão próximos. Querem calar a verdade. Esta armada é apenas
uma. –– disse plácido, o cruzado com o capacete a tiracolo.
–– Mas o que eu faço!
–– Tente procurar por Allan. –– e já sumia acelerado por onde
surgira quando.
–– Se é um mensageiro, cadê o bilhete? Ou você é tão
ignorante quanto todos os outros que me viraram as costas?!
Rapidamente o homem retornou, tão perto quanto lhe era
possível sem que ocupasse o mesmo espaço que o garoto. Havia
algo inesperado, pensou Sean, ante um breve desconforto que o
cavaleiro tentava camuflar. Sorriu com ardência.
Retornava perdido em seus pensamentos.

173
A derrubada da catapulta despertou-os da trégua. Mateus
sacou a chave do bolso e meteu a todos no carro, que em instantes
espalharia o cascalho para bem longe, sob o pneu que girava em
falso, antes de arrancar em disparada para casa. Nem o ombro
dolorido o fizera mudar de ideia. Estava impaciente para enfiar a
cabeça no travesseiro e dormir para sempre. Como queria.
No banco posterior, Tiago evitava comentar o que não viu por
causa da Elene que compactuava do mesmo silêncio forçado,
estava chocada com a atitude e, como ninguém abriu o bico para
explicar, ela achava melhor ficar na dela.
Nem poderia imaginar que as derrapagens, na trilha, se davam
pelo assalto de algumas tropas dispersas na batalha. Elas
atravessavam, audaciosas, o bosque para atacarem
improficuamente o automóvel. Os bárbaros brandiam as espadas
correndo ao lado deles. Mesmo que elas não ferissem serviam
para atrapalhar Mateus que se abaixava quando a espada zunia
através do veículo. Um choque mais forte trincou o para-brisa.
Numa curva mais lenta, um cavalo investiu contra a porta
levantando o automóvel alguns centímetros.
Só parou quando chegaram à autoestrada, saltando através de
um monte de neve. Mateus saiu apressado para vomitar. Virou-se
e descobriu a porta arregaçada pelo ataque. –– Merda! Merda!
Merda! –– chutando-a seguidamente –– Desgraçados!
E caiu num choro convulsivo antes de aceitar o abraço de
Elene e se deixar dormir, desmaiado. Ela não sabia o que fazer,
mas aceitou-o naquele momento. Seus olhos se encheram de água,
mas agora era tarde para recuperar a confiança perdida.
As preocupações deixavam de ser irreais ou sutis. Eles
sentiram na pele o que deveria ser quase impraticável. Felizmente
uns bons guardiões zelavam por eles. Ou seria coincidência que
estivessem passando por ali? Teriam mesmo toda essa atenção? E
por que não atacavam Bernis? Tinha um baita furo nesta história...
Mas o mensageiro insistia.
–– Será o mesmo Allan do manuscrito? Descobrir o quê, se
ele já estava morto. Isto está acontecendo rápido demais! ––
pensava Sean em Francesco. Seu olhar estava perdido no céu. Os
outros, o plagiavam. Por enquanto era o melhor que eles podiam
fazer.
–– Deixe para amanhã. –– rebatia a Tiago.
174
-

travesseiros

–– ... 364, 365, 366, 367 carneirinhos...


Contar carneirinhos já não funciona mais. Acho que estou
grande demais para cair no conto do João Pestana. Se não fossem
estes pensamentos, talvez eu até conseguisse enganar a insônia...
368, 369, 370...

–– Não consigo dormir. Quem sabe se eu fechar os olhos e só.


As pontas dos dedos já estão dormentes, devo tirar as mãos da
nuca? Que silêncio!
Os fantasmas não parecem estar mais ocupados comigo.

–– Como o Sean espera que eu acredite que fantasmas estão


caçando um pedaço de papel! Como eles fariam isto, e para quê?
Se eu estivesse morto a minha maior preocupação seria se...

–– Não sou insubstituível, foi o quê ele disse. Mas sei que
estão escondendo algo. Esta reunião só prova que eles estão no
escuro. Se estes espíritos maus estão se organizando por um
objetivo, só podem estar com medo. E um documento poderia
fazer todo este estrago? Duvido.

175
–– Bem, não sei o que eu faria se estivesse morto. Com
certeza não estaria por aqui. Será que anjos têm asas? Tudo bem,
eu sou presunçoso sim.

–– Agora tem mais esta, fomos nós que pedimos para entrar
neste conflito?! Porque não podemos nos lembrar destes
compromissos. Até parece que assinei um documento em branco!
Mateus não gostou de saber...

–– Pelo menos não estou a par das esquisitices de Matt.


Prefiro ver armaduras andando e gente voando do quê eles
realmente veem. Talvez esteja mentindo, uma espiada seria bom.
Mas ainda não consigo entender porque eles precisam de vivos
para resolver os assuntos de fantasmas.

–– É certo que eu estava comprometido com Marc quando


aconteceu o incidente no metrô, mas já não deveria estar livre?
Não fiz tudo aquilo para reparar dívidas de um passado? Ou será
que ainda não acabou! Devo começar a cuidar de não provocar
novos débitos que venham a ser cobrados em outra vida. O que eu
fiz para passar por isto!

–– Ah! Se estivesse morto abriria uma lavanderia para lençóis


e daria correntes como brinde-surpresa... Falando sério. Não
consigo imaginar porque eles iriam querer um objeto. Como eles
conseguiriam pegar? Para quê? Então eles destruiriam este
documento. Duvido que eles precisassem de milhões de fantasmas
para fazer isto. Basta um. Acho que não sou muito inteligente.

–– Mas o documento de Marc é só um papel com uma


história, se não fosse por mim, pelo pesadelo, não daria nenhuma
importância ao manuscrito. Há algo entre Marc e Allan. Talvez
ele acabe encontrando alguma pista de Allan enquanto procura o

176
resto deste documento. Ainda não sei porque ele está atrás destes
papéis! Quem sabe a resposta esteja aí.

–– Se eles não querem alguns papéis, é suposto que não


queiram alguém como refém. Se eu estivesse na mesma condição
de falecido ficaria onde os mortos ficam. Mas como eles não
querem ficar lá, quem sabe existam outros atrativos. Se eles não
gostam de estar mortos, por que não renascem? Acho que preciso
dormir mesmo. Escutei o ônibus da madrugada. Acaba de passar o
Noctilien, pela milionésima vez. Que sono!

–– Exércitos atacam quem? Eles vêm até Paris para evitar que
o Marc encontre um manuscrito? Que verdade seria esta que
colocaria todo o contingente de fantasmas em prontidão? E os
diários de Miguel são... Procure Allan, já sei. Procure um Allan.
Por onde começo? Preciso dormir um pouco, o ônibus passou
mais uma vez.

–– Está bem. Eles não querem nascer porque assim acabam


esquecendo de tudo. E como eles são orgulhosos demais... Se eles
estivessem com Morpheus não escolheriam a pílula vermelha,
muito menos a azul. Eles iriam querer as duas.

–– Todo este caos é só um show. O que os chefões desejam?

–– Por que prefeririam estar vivos? Ah. Aqui eles conseguem


esconder as suas intenções! Podem vestir o manto de cordeiro e
aumentar a sua influência sem que todos saibam quem eles
realmente são. E conquistar o mundo todo mudaria as regras?!
Chega, vou dormir. Decididamente não sou o mais apto para
pensar nisto. Um, dois, três...

177
–– Se o conheço bem, Tiago deve estar contando carneirinhos
para dormir. Se eu já estou assim.

–– Sei que não consigo vê-los, mas sei que estão por aí. Então
ouçam com atenção. Nunca deixem Sean sozinho. E boa noite.

–– Estes fantasmas não querem papéis...

Quando amanheceu, eles se encontrariam e, em uníssono, se


atropelariam em explicações. –– Não preguei os olhos esta noite...

178
14

convento dos cordeliers

Escancarara a porta.
No chão, as folhas ainda emboloradas, formavam um tapete
disforme há muitos dias. De longe Bernis viu a resposta aos seus
problemas em letras grandes e só agora podia pensar no assunto.
Passou aquela noite examinando os apontamentos, tentando
descobrir o sítio exato, superpondo mapas antigos e recentes. A
mesa estava um campo de batalha onde lápis quebrados, canetas
destampadas, papéis diáfanos e rabiscados se moviam criando um
desenho. As partes compunham o todo.
O burburinho que ecoava do conserto dos estragos ocorridos
na antevéspera prosseguia incomodando-o. Baderneiros
destruíram uma seção inteira da galeria medieval do museu.
Estranho que um gládio estivesse naquele setor, erro humano.
Mas no momento não era um problema de sua alçada, ele tinha
outros para o dia seguinte. Observou bastante descontraído alguns
cartões de controle de Sarah com sua letra concisa junto aos
documentos e mapas que haviam reunido. Em mais de um havia
pequenas inserções em vermelho. À borda do resumo concernente
aos documentos do convento a palavra água se destacava só.
Bernis jogou-se para trás, descansando a nuca antes de
cambalear até o sofá. Um pouco antes de dormir recordou-se de
enviar uma mensagem à Sarah. –– Encontre-me amanhã. Rua
Antoine Dubois, perto do Vulpian. Sete horas.

179
Em instantes –– Meu Deus! Este cara não dá folga! ––
atirando o celular na gaveta do criado-mudo. Patrick pronunciava
indistintamente, ainda dormindo. E só mais tarde Sarah pensaria o
que queria dizer aquela mensagem sem sentido.
Destarte, após uma noite tumultuada, Sarah ainda tinha pique
para preparar o ritualístico café da manhã. Amontoara novos
elementos sobre a escavação e agora teria que esperar até depois
desta incursão com Marc Bernis. Telefonaria antes.
–– Bom Dia! O que você está tramando? –– enquanto beijava
Patrick que se despedia para mais um dia de trâmites
alfandegários com seu ansiado rali.
–– Quer expor uma cripta imunda e empoeirada? Está vestida
a rigor? –– rindo-se da possível expressão irritada de Sarah. Ela
rebateu a altura.
–– Que tal se eu mandar o Patrick te responder essa?!
Como os filhos já tinham se levantado, também ouviram a
conversa que transcorria no viva-voz enquanto ela fazia uns crepes
malabarísticos. A curiosidade de Sean foi maior do que a sua
vontade de ir ao colégio e, já se preparava para impelir Tiago
neste lance. Eis que ele entrava na cozinha, meio espantado com
mesas e cadeiras. Ele podia jurar que a cadeira se arrastou
sozinha, fazendo-o saltar para o lado.
–– Alguma novidade! –– disse Tiago, olhando com o canto do
olho sobre sua espalda.
–– Não vamos ao colégio hoje, temos que achar o senhor
Bernis. –– levantando-se para alcançar a mãe que ia embora
indignada. Ele iria dar um jeito de saber onde era o encontro.
Tiago deu um suspiro profundo como se embarcasse noutra
furada. Ainda estava cansado pelos últimos acontecimentos.
Os dois se espremeram no porta-mala do carro se olvidando
de Joshua ou de Lucas. Por pouco não foram descobertos pelo
berro do celular do Tiago que gemia e se acendia a cada estribilho
da música que tocava.
Os eventos do dia anterior estavam martelando
constantemente sua cabeça. A preocupação não podia ser à toa,
nenhum dos acontecimentos seria considerado comum, prosaico,
enfim, irrelevante. Depois havia risco de vida, que já não tinha
tanta importância assim, ninguém morria de verdade mesmo.
Mas que tinha pavor de morrer, isso ele tinha.
180
Só não queria ser pego em mais uma emboscada tramada por
uns cavaleiros carrancudos ou soldados armados até os dentes.
Portanto precisava saber do que o manuscrito discorria, e o que
tinha de absurdamente extraordinário. Lembrar de perguntar quem
era Allan era o menor dos problemas, porque ele sabia, em parte,
que o homem morrera em mil duzentos e dezenove no Egito, e
sabia muito bem como. Transpirava só de recordar. Parecia que
ele estivera lá, era tudo muito real. Só Tiago acreditava nele e nem
precisava de muito, bastava descrever a cena e ele já se sentia
enjoado. –– Pode parar, pode parar. Chega!

–– Pai, a mamãe esqueceu a pasta! –– disse Joshua antes de


pegar na mão de Lucas e saírem. Patrick deixou-a de lado
pensando que a levaria assim que pudesse. –– Aonde ela disse
que iria mesmo? –– coçando o queixo em apreço.

Chegaram bruscamente ao ponto combinado.


Sarah decolou até a escadaria da alameda Antoine Dubois
atrasada, incapaz de seguir de carro pela ruela para pedestres. O
dia clareava dourado apesar da neve acumulada nos telhados.
Naquela madrugada a previsão meteorológica previra uma
gigantesca nevasca que se mostrou alguns flocos inalteráveis. O
edifício que abrigava a Universidade Paris V engrandecia a cada
passo dado degrau abaixo. E a agitação dos estudantes era intensa
entre a biblioteca interuniversitária e demais prédios que
compunham o complexo do Centro de Pesquisas Biomédicas.
Acercou-se de uma escultura esperando que Bernis
irrompesse no ponto marcado a qualquer instante –– Mas o que
seria o tal Vulpian? ––, enquanto olhava para a base da estátua
circunspeta do senhor Edmé Félix Alfred Vulpian, um distinto e
empombado neurocirurgião do século dezenove.
Sarah olhava ao redor de si como se não desse conta de onde
estava. Seu olhar, assim como seu pensamento, retornava ao
século treze. Quando não existia nada além dali. Que além das
grossas paredes da muralha não havia senão algumas choupanas
que manchavam o extenso manto verde que corria ao sul de Paris.
Ideava-se em face ao canal que rodeava a muralha úmida e
181
coberta de musgo, na paróquia de Saint-Côme. Logo ali estaria
uma das torres de vigília que antecederia a movimentada Porta de
Saint-Germain no atual boulevard.
A sueste, o torreão cuidava impassível do claustro do
santuário dos Cordeliers; em noites claras de lua cheia alguns
frades desobedeciam os rigores religiosos e subiam furtivos para
vislumbrarem a cidade, senão se embebedarem com o licor
produzido em seus vinhedos que cresciam juntos à grande
muralha de Philippe Auguste. Só o refeitório escapara ao tempo
implacável, que se furtara dos descuidos e da destruição humana.
Donde deveria se situar o convento e sua igreja monumental
estava agora o já antigo prédio da escola de medicina de Paris e,
do torreão dos frades, um moderno edifício sombreava o refeitório
feito museu. De 1774 a 1795 o religioso passava a ser científico,
acompanhando a onda de materialismo que varria a Europa.
Apagaram o passado como se limpasse uma imundície milenar.
Concentrava-se para visualizar o contorno da igreja com sua
imaginação nas pontas dos dedos, delineando da abside ao pórtico
que findava neste cruzamento com a rua da Escola de Medicina.
O brilho intenso do sol impedia-a de terminar o esboço mental,
porém um perfil inusitado surgiu por entre os telhados e uma
indefinível figura, com um bastão às mãos, saltou esguia para
longe de seus olhos.
Bernis chegava, esbaforido, com vários penduricalhos a
tiracolo, ademais alguns papéis que não queriam se dobrar. Olhou
de soslaio a escultura impávida e comentou: –– O seu filho não foi
operado por um neuro? –– e a estátua parecia atenta ao
comentário que escapou sem finalidade.
Voltando à realidade. –– Outra coincidência. –– entre tantas.
Para inconformidade de Vulpian que não achava ser.
Sean e Tiago escutaram pouco do diálogo escondidos num
dos vértices; não foi complicado seguí-los, no entanto não sabiam
como se manter próximos e discretos, tendo igualmente que vigiar
as costas.
Em uma portinhola enferrujada, na entrada principal do
número quinze da rua da Escola de Medicina, entraram sem se
preocuparem em fechá-la. Um prédio moderno, de pequenas
aberturas perfeitamente equidistantes, germinava em meio ao vão,
entre duas fachadas antigas e corroídas. Foram pela direita
182
fugindo da movimentação. Tiago recuou para ver os panos que
tremulavam de algumas janelas; o ar estava tenso e alguns
estudantes e pesquisadores substituíam o silêncio por ordens
ritmadas gritadas em protesto. O escrito tanto o falado diziam:
Abaixo aos empregos fictícios, sim aos pesquisadores ativos.
Outro, em vermelho, declarava que existiam jovens cérebros
em fuga, e que a França estava falida. Oras, reivindicações justas,
desde que a polícia não intervisse.

De longe, um indiozinho esguio sacudia a cabeça pensando


em como toda aquela gente adorava complicar as coisas, tantos os
vivos quanto os mortos que, naquele inadequado momento,
seguiam de perto o caminhar dos quatro.

Não havia nada demais a considerar dentro do prédio. O largo


abria-se surpreendentemente verde, mesmo que a invernia tivesse
sobreposto seu manto branco entre os galhos nus. –– Este é o
Jardim do Pavilhão de Dissecação, não é espantoso?
Árvores e arbustos, ressecados, emolduravam a majestosa
construção elipsoidal, era como se a natureza estivesse se
preparando para colonizar a cidade, espremendo-se contra as
paredes daquele claustro monocromático.
Percorreram o claustro imperial, composto por arcos amplos
que protegiam as salas, cingindo o pavilhão transformado em
anfiteatro. Num dos cantos, entre o edifício e o jardim havia algo
oculto dos olhares de estudantes afoitos.
–– Acho que estamos sobre a cripta da abadia dos cordeliers
e se estiver certo, a porta de acesso fica por... a-qui! –– apontando
uma área encerrada pela vegetação numa das arestas do prédio. ––
Acho que o documento do aviador saiu daqui. –– segundo
conseguiram supor dispondo os milhares e mais variados dados
correlacionados, bem como um acanhado relatório de achados da
escavação que descrevia que ele estivera ali. Só faltava o X
marcando o local.
Bom. Sarah agarrou-se aos papéis certificando-se que o
manuscrito era um dos artigos inventariados da escavação de
1880, mas só tinha esta lâmina, nada mais. E ainda por cima
pertencia ao Louvre.
–– Se era nosso, como foi aparecer em Londres?
183
–– Durante a ocupação nazista, creio. –– resignou-se a mentir
Bernis, arrancando as trepadeiras estéreis que cobriam um alçapão
gradeado.
Incrível, estava ali todo esse tempo, debaixo deles.
E de acordo com a requisição da chave, desde então nenhuma
pessoa ingressara naquele mausoléu. Nem eles. A chave não
entrava pelo cadeado carcomido que lembrava um gracioso X.
Bernis trouxe o pé-de-cabra antevendo o problema, desta vez foi
fácil. O ruído da grade de ferro contra a laje de pedra assustou
alguns pássaros invernais.
–– Vamos entrar? –– insinuando que damas fossem primeiro.

Tiago também se assustara com a grande batida. Mas Sean se


preocupava com os dois guardas romanos que patrulhavam a
escada da cripta. Que não se importaram com a passagem dos dois
primeiros. Redondamente apáticos.
Bernis batia forte na lanterna que voltava a se apagar assim
que ele apontava para os degraus lisos de gelo, até que ele
desistiu, ficando com uma meia luz que se sustentava. –– não bata
mais, deixe-a assim –– gritou Sarah, interessada nos pequenos
filetes existentes na parede daquela escadaria em caracol.
–– Janelas no subsolo? –– sussurrou para si.
Dava para enxergar uns dois ou três metros na escuridão que
os engolia. A cripta era mais profunda do que se esperava e
causava arrepios constantes de frio. Mesmo com aquela luz
puderam achar umas lamparinas que ainda cheiravam a betume.
Acenderam uma com dificuldade. O clarão varreu a cripta
instantaneamente. O teto baixo era formado por abóbadas ogivais
verdoengas pelo musgo e pela infiltração, que em alguns pontos
desmoronara. Era gigantesca, contudo muito menor do que
deveria ter sido. O setor do subsolo que imaginavam situar-se sob
o traçado da rua estava soterrado, assim, somente a sexta secção
da cripta, exatamente onde os frades esconderiam as relíquias
religiosas –– como o dedo do pé de São Denis –– sob as capelas
do altar, mantiveram-se intactas. A terra que escorrera e se
acumulara no pavimento quase encobrira alguns sepulcros
talhados.
Os dois sentaram-se afastando os diagramas do convento
sobre os túmulos dos religiosos que se conservavam
184
razoavelmente limpos. Por um milagre aquilo não havia
despencado, as raízes das árvores ajudavam a manter a estrutura
agarrando-se aos pilares e às cúpulas.
–– Faltam alguns equipamentos, Bernis. –– ralhou Sarah.
–– Nada, acho que trouxe tudo.
–– Falta o chapéu e o chicote, Jones. –– gozando da imensa
quantidade de tralha que despencou de seus braços.
Lá por cima, há pouco tempo, os soldados com seus pilos
fincados à lateral do corpo, miravam desconcertados a investida
dos garotos, com negativa expressão na fisionomia. Os outros dois
ainda desciam tateando no escuro quando a lamparina se acendeu
ajudando-os a ficar em pé sobre o revestimento escorregadio.
Sean não contou nada sobre os soldados de guarda, mas como eles
apenas olharam quando passaram ligeiros, auxiliado pelos
empurrões dele sobre Tiago, ficou calado. Um rotundo monge
suarento se aconchegou atribulado, berrando algo
incompreensível aos guardiões que se dignaram a recuar para que
o religioso, que andava balouçando a carcaça, sentasse numa
mureta do horto.
Vasculharam cada canto, descobrindo alguns poucos artefatos
despedaçados que não davam pistas do pergaminho irmão.
–– Ou esse Bernardo nos enganou ou o documento perdeu-se
para sempre! –– secava a fronte suada com um dos mapas do
mesmo modo displicente que supunha terem cuidado do
manuscrito. Marc Bernis havia se enfiado por todas as frestas do
salão, menos na secção sudeste que estava coberta de terra e
escombro.
Sarah abriu o mapa outra vez.
–– Se estou certa, aqui ficava a igreja, basta seguir as enormes
fundações que seguravam a nave central e os arcobotantes. ––
apontando alguns pontos com a sua imaginação aguçada. –– Atrás
temos parte da muralha de Philippe Auguste que deve ser a rua
Monsieur Le Prince. Lá o pátio e, adiante, o convento e o
refeitório dos frades.
Marc calou-a. –– frades franciscanos?
–– Creio que sim, e existem outros?
Ele puxou o mapa revendo as designações e estava certo,
refeitório dos frades franciscanos. –– Bernardo era franciscano.
–– E os tais Cordeliers? –– pensou Bernis em voz alta.
185
–– Frades da Ordem de São Francisco que se cingiam com
cordas, os encordoados. –– reviu Sarah lembrando-o de algo que
lera em meio aos arquivos. Descobriram algo novo.
–– Mas não eram jacobinos? Quero dizer, dominicanos?
–– Não. Sim. –– meio confusa –– Os jacobinos que
eventualmente se reuniriam aqui eram de um clube político
revolucionário...
–– Hum, verdade... durante a Revolução Francesa.
Sarah complementou, sem muita clareza. –– A confusão vem
do fato de que os dominicanos se estabeleceram na rua Saint-
Jacques... por isso jacobinos. –– realmente estavam perdidos. Os
tais jacobinos dominicanos ficavam na Saint-Jacques. Aqui
ficavam os revolucionários cordeliers. Justiça seja feita, estavam
estafados com esta estória de manuscrito.
Os garotos aproveitaram e se encolheram numa sepultura
ouvindo tudo, puseram as mochilas ao chão. Sean relembrava do
pesadelo onde havia um Bernardo e o descrevia para Tiago que
voltava a ficar mareado. Mas podiam ver que as tentativas foram
infrutíferas, pois Bernis arrumava as coisas com certa azáfama.
Lá no alto a neve derretia e começava a pingar dentro da
câmara, além da água que despencava pela escada em caracol.
Sarah recolhia as coisas do piso, evitando que se molhassem e
percebeu uma ligeira correnteza que batia entre os túmulos e
seguia para aquele canto a leste, levando alguns papéis soltos ––
Bernis, a água escorre em direção ao refeitório. –– catou a
lanterna que voltou a funcionar e disparou para lá.
Ele estava ocupado redesenhando o refeitório sobre a carta de
Paris, buscando algo distinto que deixou passar. Estava tão certo
da cripta que nem pensou em relacionar os demais edifícios às
escavações. Será que havia uma câmara lacrada no refeitório?
Sarah Fox se esgueirava entre algumas pilastras deslocadas e
se espremia adjacente à parede, tateando por entre os blocos. O
rumor da água reverberava quando caía por uma fissura no
alicerce da cripta dos cordeliers. Sugeria o som de água contra
água. Havia algo estranho.
Ela passava com simplicidade e agilidade. Tentou deitar-se e
viu uma rachadura de dois dedos que corria por toda a parede,
como se o piso tivesse se enviesando para aquele lado. Estava
difícil de ver, a lanterna não alcançava a abertura.
186
–– Preciso de uma mão! –– Marc a alcançou, pegou uma
corda e prendeu-a num pilar torto entre os destroços que
dificultavam a sua passagem. Manchas de escuridão e claridade se
moviam pelo ambiente da cripta.
Inesperadamente o piso ruiu. Bernis ficou com o antebraço
preso entre a corda e a pilastra quando Sarah despencou pela
fenda recém aberta. O movimento rápido friccionou a corda
contra a pele queimando-a antes de travar. A lanterna caiu com
um baque seco n’água.
Silêncio.
Sean saltou em direção à desordem. Prendendo a corda em
outra base e, com a ajuda de Tiago improvisaram uma falsa polia
puxando com os pés contra a parede, não podiam ficar de fora do
que acontecia.
–– Mãe, você está bem? –– gritou Sean olhando para a cratera
escancarada que piscava por causa da lanterna. Em instantes,
Marc Bernis se livrava da corda para segurar a amiga com
firmeza. Ele olhava desconfiado para os garotos.
–– Sarah! Responde. –– Bernis tentava agarrar a gola do
casaco dela. –– Estou bem. –– Reagiu depois de tomar
conhecimento do que havia acontecido. Espalhava a poeira e os
pedriscos da vestimenta e dos cabelos desgrenhados assim como
cuspia um pouco de terra da boca. Lembrava os bons tempos em
que participava dos ralis com o marido. Ela estava pendurada
num fosso escavado pela água que descia uns quinze metros, com
as pernas enfiadas num poço de água cristalina. –– Espere, me
desça um pouco mais –– Sarah não sabia que seu filho estava lá.
Bernis gritou que soltassem devagar, com cuidado, para evitar
outro deslizamento.
–– Quem está aí, Bernis? –– ele não respondeu, por hora.
A mulher pescou a lanterna e com um tabefe ela tornou a
clarear com carga plena. Era um bolsão de água acumulada numa
antiga catacumba que estava repleta de ossos e ilustrações gastas.
–– Bernis, desce mais um pouco! –– outro olhar desconfiado
para Sean.
Encostou os pés no chão, a água chegava aos joelhos. Mirou a
luz no fosso iluminando o rosto do amigo. –– Parece ser uma
catacumba romana?!

187
Passou a vasculhar a sala escavada na rocha imaginando se
seria conhecida ou não, possivelmente não. Uma das passagens
estava fechada, a outra subia íngreme. Às suas costas, um túnel
mergulhava na água. Não havia papéis ou pergaminhos que
fossem proveitosos. Os sepulcros funerários estavam bem
conservados, na maioria lacrados. Passou a mão pela ranhura
tentando se livrar das teias. E surgiram quatro letras mal traçadas,
CAVE. Perigo em latim. Os passos lentos de Sarah criavam ondas
concêntricas que se chocavam, dificultando que visse alguma
coisa dentro da pequena lagoa.
Contudo, dentro d’água, algo faiscou.
Estava preste a alcançar o objeto quando uma mão lhe segura
o ventre puxando-a com força. Era Bernis que desamarrava a
corda que a impedia de se agachar.
–– Mas que susto! –– estapeou-o por reação. –– Agora, quem
vai nos subir?!
–– Você não tem noção, depois te conto. –– Empurrando-a
para frente. Ele pegou o objeto, uma adaga esculpida, de lâmina
adunca e gasta pela ferrugem. Raspou os dedos tentando decifrar a
adaga. –– Isto não é romano ou anterior, é? –– girando-a diante
de si.
Sarah lavou-a e achou algo muito curioso.
–– Não é romano da Lutécia, é medievo! –– muito posterior.
–– Deve ter deslizado pelo canal vindo da cripta acima.
–– Não sei não. Veja estas inscrições, estão em arábico. Uns
rabiscos que não se encontrava em santuários cristãos... Pode ter
certeza disso! –– evidente que havia exceções, porém difíceis de
explicar.
Ambos passam a examinar melhor a catacumba, alguns ratos
subiam pelos sepulcros fugindo da água que se elevava devagar.
Escutaram mais cascalhos correrem pelo fosso. Um verdadeiro
milagre. Um bolsão de rocha que manteve o buraco protegido de
infiltrações, pois se achavam abaixo do leito do rio Sena, que a
dois passos dali, antes de ser encoberto por terra de casas e
edifícios, operava a baía e o porto romano de Lutécia.
Ela ajeita os cabelos molhados pelas gotas que brotavam do
teto intricado, prendendo-os com a adaga, para ficar com as mãos
livres. Nada de diferente, resolveram recuar até o meio para
avaliar de longe o ambiente e tirar alguns instantâneos. Bernis
188
tropeçou numa laje encoberta pela água, tocando com as mãos um
relevo submerso.
Ainda na cripta da igreja, Tiago e Sean olhavam pela fenda do
fosso a certa distância. Tiago arriscava jogar ao aparelho celular
despreocupado, pelo menos tentando estar. Sean, livrando-se da
imundície, pensava numa boa desculpa para estar ali. Infelizmente
a sua mãe ficaria sabendo da verdade sobre o imprevisto no
metrô. Se não fosse por ele, seria pela boca do próprio senhor
Bernis.
Quando o cascalho rolou, os dois se aproximaram do túnel,
aguçando os ouvidos para ver se escutavam melhor. Com um
assombro, eles foram puxados para trás com brutalidade.
–– Qual é mano! –– disse assustado Tiago, seguido de um
brado de Sean que dera de cara com o monge balofo genuflexo ao
seu lado, que também se apavorara com o grito berrando de modo
efeminado e evadindo-se dali. Por sua vez Lucas caiu na própria
armadilha, entrando no coro com a reação dos fedelhos.
–– Que foi, cara. Se toca! Estava fazendo um favor. Podiam
ter caído aí. –– expelia Lucas.
Tiago estava bastante intrigado com a maneira como Lucas
estava se comportando nos últimos dias. –– O quê você está
fazendo aqui?
–– Seguindo-os. Mas eu não preciso me esconder no carro. Eu
perguntei e ela me disse para onde ia. Tá ligado!
–– Tô ligado –– sussurrou Sean recuperando o fôlego perdido.
–– Desta vez eu os peguei, que tá acontecendo aí?

O monge, que acabava de galgar ao vergel, e os pretorianos,


estavam apreensivos, não com o que estava acontecendo no
subsolo, mas com o que ouviam por detrás das muralhas dos
laboratórios da faculdade de medicina. Em meio aos protestos
estudantis contra a barreira policial, um exército marchava
impassível. Uniformizados da milícia militar de ocupação
circundaram os complexos, escoltados por dois tanques
camuflados e alguns caminhões de faróis riscados, munidos de
metralhadoras. Em alguns braços as suásticas negras em faixas
rubras separavam-nos dos gendarmes de Paris e dos
manifestantes.

189
Instintivamente os manifestantes apertaram o cerco chocando-
se contra os escudos, de um polímero transparente, da barreira. O
conflito agora tinha o seu pavio acesso. Era como se esse
movimento invisível insinuasse atitudes negativas, impondo
motivos para que o conflito se efetuasse realmente, dos dois lados.
Os granadeiros, de fuzis empunhados e capacetes de aço,
tentavam invadir o largo pelo acesso principal comboiados de um
tanque Panzer que acabava de romper as últimas medidas de
proteção. Sustentavam posição. Os policiais parisienses já não
conseguiam firmar as suas.
O capuchinho estertorava em latim. –– Onde estão eles,
ninguém nos ouve! –– Os guardiões se mantiveram em posição de
defesa, segundo prometeram.

Enquanto isso, Marc improvisava uma vareta com pedaços de


um madeiro e cordame, tentando espaçar a máquina fotográfica
para conseguir uma imagem inteira do jazigo sob a água. Imóveis,
esperaram a lanterna parar de lampejar e no automático o flash
piscou algumas vezes. Ele se certificou de que as fotos estavam
boas antes de tentarem escalar o fosso. –– Isto não é incrível! ––
friccionando o dedo no relevo. –– Olhe a data, do mesmo período
do documento de Bernardo...
––... Numa catacumba do século três?! –– respondia para si
Marc. Contudo, antes que pudessem analisar melhor o túmulo
submerso, o canal desmoronou selando a única rota de saída.
Tiago e Sean só não foram tragados pelo desmoronamento porque
Lucas os puxara, instantes antes, com aquela brincadeira estúpida.
Os cinco gritaram.

Diante do convento um daimler-benz conversível penetrara,


bruscamente, com alguns integrantes bem fardados. O coronel
erguera-se observando o tumulto dos manifestantes que iniciavam
derrubar as grades. Um sorriso amarelado acompanhado da
remoção do quepe bastou para que o regimento se posicionasse
protegendo-o de um assalto iminente. Ele procurava alguém.
Um soldado em continência exacerbada abriu a porta do
veículo direcionando o braço para o pavilhão do anfiteatro. Com
dois dedos ele agrupou alguns homens para que o seguisse.

190
Sean apanhou os gráficos e se agitou para espaço aberto.
Tiago e Lucas demoraram um pouco para perceberem a atitude do
amigo, ajuntando como puderam as mochilas e as ferramentas de
Marc. A lamparina ficou para trás, assim como o felino
negríssimo que miava e se asseava serenamente sobre a sepultura
mais alumiada.
O frade ouviu as pisadas, recuando com as mãos agarradas à
pança que atrapalhava quando corria. O garoto de cabelos
desalinhados lamentava de raiva quando apontou o seu dedo para
o franciscano.
–– Onde é a outra entrada! –– berrava.
O homem não compreendia, rindo apavorado como se não
falasse a mesma língua. –– Onde fica a en-tra-da! –– repetiu o
garoto com mais ênfase. –– Onde é a entrada. Por favor, minha
mãe... –– desta vez o religioso assinalou choramingando num riso
nervoso para o diagrama do refeitório com um sorriso forçado. ––
La torre.
Lucas estava boquiaberto, não entendeu nada do que
aconteceu naquele claustro branco, o pirralho estava falando com
o nada, ninguém. O seu irmão não esperou e seguiu Sean
passando pelo largo atacado pelos manifestantes e, alguns
nazistas.

Os homens do coronel Rommel formavam uma comissão


armada com o intento de ocupar a cripta e escoltar invisíveis,
aproveitando a oportunidade, as ações do senhor Bernis, onde
quer que ele fosse. Usando o contingente que fosse imperioso para
impossibilitar que a verdade viesse à tona. A pequena guarda do
Louvre tentara impedi-los, mas com ofensivas bem coordenadas,
abriram brechas ocupando boa parte do museu antes que
pudessem estabelecer uma defesa.
Quando Sean explodiu no largo, os papéis soltos em seu colo
ainda estorvaram sua visão, adiando que ele percebesse que não se
encontrava sozinho. Ergueu os olhos, espantado com os soldados
de um novo Reich e, sobretudo com o tanque blindado que estava
a alguns metros de sua cara. Tiago não viu senão os manifestantes
que assaltavam a faculdade, armados a paus e pedras, o que
acabou fazendo-o esbarrar em Sean, que se aproveitou da
acometida para impelir o pórtico do convento dos cordeliers.
191
De alguma forma o coronel se assustou perante o garoto,
arregalando os olhos enquanto retirava o quepe. Os soldados,
atentos ao ato do comandante, notaram algo diferente e
retrocederam instantaneamente.
–– São eles! –– disse um dos rastreadores do coronel que não
fora destacado para seguir exatamente o senhor Bernis.
Na entrada do alçapão da cripta, Lucas ainda se sentia mal
como se uma vaga de aversão o atingisse sem dó. O frade ainda
rezava uma vez que o reforço se apresentara. Admiravelmente o
monge e os pretorianos se curvaram para o homem que chegara.
Adotando uma túnica protegida por uma mantilha escarlate, o
jovem senhor, de cabelos castanhos claros e curtos e com seus
olhos escuros semicerrados, demonstrava ser inflexível.
Seriíssimo, esperou que seu gato se enroscasse entre as sandálias
de couro trançado, antes de proferir algumas palavras.
–– Podem ir.
–– Meu senhor, os dragões estão aqui.
–– Quem eles mais temem, igualmente.
Partiram silenciosos, apesar da indiscrição. Quem meteria
medo à armada? O cônsul percebeu o índio que se equilibrava na
cumeeira da edificação com seu arco de caça e o puçá
atravessando o peito. Uma flama esguia serpenteava ao seu lado
como se o acompanhasse por vontade própria. A criatura movia-se
como uma serpente ou uma chispa elétrica, suas duas, três, seis ou
mais pernas nasciam, conforme o imperativo, como línguas de
fogo que víamos no sol. A brisa ergueu o manto desvendando um
simplório bordado na barra da túnica que lembrava um e cursivo.
Os olhos dos dois se cruzaram, Guarini já podia agir.

O empurrão de Tiago colou Sean à maçaneta, que estancou


assustado, sem se mover. Um calafrio percorreu sua espinha
provocando medo. Seus olhos saltavam às órbitas. Aos poucos ele
foi abrindo a porta espessa com as pontas dos dedos. Lutava
contra a vertigem, pois estava flutuando há um pouco mais de um
metro do solo. Os frades mantinham-se alheios, fazendo as suas
refeições em silêncio, sob a luz de centenas de velas escorridas e
acres. Sentiu outra sacudidela forçada por Tiago que queria
escapar do tumulto ocasionado pelos manifestantes, que recuavam
espavoridos diante da tropa de choque da polícia. Foi quando
192
Sean voltou a si, e o chão voltou aos seus pés e o sangue ao seu
rosto lívido de transe.
O refeitório se transmutara num museu de esculturas
mórbidas e suas sombras vivas. Certos de que estavam no
refeitório, construção contemporânea dos primeiros cordeliers à
Paris, Tiago arriscava topar com algum interruptor que pudesse
acender as elevadas luminárias que estavam fixas às arquitraves
do lugar. Sean buscou, meio desorientado na realidade que estava,
tatear a base da torre.
Em algum ponto abaixo de seus pés, Bernis transportava
Sarah pelo túnel escorregadio que terminava subitamente numa
porta empenada de grosso carvalho. Bastou poucos contragolpes,
com pés e ombros, para que ele descobrisse que jamais sairiam
vivos dali. Os dois fuçavam cada centímetro do subterrâneo
gritando, na expectativa de que os ouvissem. Sean escutou. Sarah
estava muito ferida e se sentou fatigada, com a respiração
acelerada, controlando sua taquicardia.
Nem Tiago, nem Sean encontravam um acesso, só os diáfanos
brados nasciam por entre as fissuras da torre de pedra do
convento. De repente o ambiente se iluminou, era Guarini que se
aproximava com um farolete. A luz provinha de uma flama
corcoveante que galgava célere para se postar ao seu ombro. O
fogo tinha vida e recordava um ofídio, parecia assoprar algo
estranho aos ouvidos do indiozinho que tinha o som de madeira
crepitando. Era uma salamandra-de-fogo ou boitatá, mas ele a
chamava de Mbaê, sua amiga dos reinos elementares que
fumegava o caminho por onde passava. Era raro alguém ter um
animal de estimação, mas Guarini ia além, tinha domesticado um
elemental de primeira grandeza.

Os soldados partiram velozes, seguindo o seu coronel ainda


alarmado. Tão rápidos que a turba de manifestantes soltaram suas
armas improvisadas, ruborizados, assim como a polícia que parou
de avançar sobre os estudantes desarmados. Estavam todos
atordoados. Em minutos não havia mais ninguém.

–– Saiam agora! –– disse insensível Guarini.


Sean não reagiu, continuava arranhando a lousa,
esquadrinhando algo. Não escutou o pedido de Guarini. Mas
193
percebeu a chegada de um paramédico que conhecera pouco
tempo atrás. Ele meneou a cabeça levemente, em movimentos
laterais. –– Ela está muito ferida!
–– Não! –– gritou Sean. –– Ela não pode morrer.
Tiago pegou uns desenhos do convento para ver se havia
algum detalhe que tivesse passado despercebido, tanto nas plantas
quanto nas gravuras. Nervoso, Sean juntava suas lágrimas ao
desespero de encontrar um jeito de entrar, ou o que quer que
fosse.
–– Saiam agora!
Ele não se deu por vencido, levantou-se apressado e encarou
Guarini. –– Não!
–– Saiam agora! –– Guarini tinha um motivo, alguém podia
ajudá-los, mas estava lá fora, aproximando-se pontual. Sean
estava descontrolado, não sabia o que fazer. O médico se
preparava. Sean berrou para ele. –– Deve ter um jeito. –– com os
olhos umedecidos.
–– Não mais.
Entretanto Sean pressentiu que conhecia uma passagem, não
sabia explicar como. De súbito um soldado alemão sai da
escuridão do museu e se ajoelha diante do garoto angustiado
suplicando perdão. Ele não tinha tempo para isso.
–– Não consegui terminar o túnel... perdoe-me.
Insistindo peremptoriamente enquanto desaparecia. Sean não
entendeu, mas dentro de si a esperança se evaporou. Se tinha algo
que lhe perseverava o inconsciente, parecia desfeita pela súplica
do soldado maltrapilho. Mas não ia desistir tão fácil.
O desenho nas mãos de Tiago era a resposta. Retirou-se
evasivo do local, recuando de costas ante o pórtico externo para
observar a fachada do prédio.
–– Veja. O prédio era mais alto. Aterraram-no.
–– Então...
Sean concluiu. –– Então a porta está na torre, mas embaixo de
nossos pés. O piso foi recomposto, só temos que arrancar umas
pedras.
O paramédico interveio. –– Sim, mas não antes que...
Com a dispersão da polícia pelas ruelas, atrás de alguns
manifestantes mais ferrenhos, o lugar estava às moscas. Tanto
silêncio só foi quebrado pelos passos de alguém. Esse alguém que
194
cutucava às costas dos meninos. –– O que vocês estão fazendo
aqui, cadê sua mãe! –– Patrick esperava desconfiado. Sean e
Tiago se inclinaram para ver, logo atrás, o caminhão branco que
brilhava de tão limpo.
Tiago resumiu com um olhar de cumplicidade e os lábios em
arco. –– É, acho que serve.
Assim que Patrick soube de tudo, ou parte, não demorou
muito para que amarrassem os cabos do guincho do mamute em
alguns ferrolhos fixos às pedras do piso do refeitório. Com os
equipamentos de apoio que estavam no caminhão, escalou
magistralmente um andaime –– abandonado entre tantas reformas
que viviam acontecendo –– e passou os cabos pelas traves do
forro do museu e tornou acelerado ao volante.
Esta tentativa apenas ergueu o caminhão. Com um gesto
decidido, ele engatou a marcha certa e acelerou. De uma só vez,
com um estampido rouco e ensurdecedor, a pedra voou,
levantando pó e arrancando as traves de sustentação antes de sair
zunindo para lascar uma porção do pórtico. –– Ops, desculpe o
mau jeito. –– murmurou Patrick, ansioso pelo resgate.
O paramédico estava confuso, eles a salvariam a tempo, mas
não era o que estava no monitor de seu palmtop. Uma boa parte
do telhado e do piso ruiu, despencando violentamente com muita
poeira, o que os impedia de se aproximar da fenda. Sean viu o
paramédico digitando ao computador.
–– O que foi, ela ainda está bem?!
–– Sim. Não entendo, aqui diz que não era para isto acontecer.
–– Então diz para isto aí que ela não vai morrer hoje! ––
retrocedeu alguns passos.
O computador deve ter escutado muito bem, pois num piscar
de olhos alterou os dados, acatando a ordem. Pelo menos pareceu
uma. –– Quem é esse garoto?!
Guarini não sabia, mas o pouco que descobrira, contou. –– É
alguém que tem como mudar o destino.

Marc havia desistido de forçar a abertura encarquilhada


daquele cárcere para cuidar um pouco de Sarah. Sentiu que era o
fim dela e se...
Uma nuvem de poeira invadiu as frestas do portalete com
ferocidade, depois um ruído de destroços deitou abaixo a porta.
195
Estavam livres. Uma mão surgiu pela fissura, era Patrick que
acudia aos apelos de socorro. Ele estava contente, contudo Sean
não conseguia tirar da cabeça o olhar desconfiado de seu pai,
mesmo quando os dois se abraçaram comemorando o resgate, algo
os impediam de baixarem a guarda.
Patrick seguiu para o hospital junto de Sarah. Havia muita
aglomeração em torno das sirenes e das luzes bicolores que
pulsavam sem pausa; com o fim da manifestação, as tropas
policiais remanescentes retrocederam para a faculdade para
manter, um pouco que fosse, de ordem, quando notaram as
tentativas de resgate. Algumas ambulâncias que estavam
acolhendo os feridos retornaram a pedido dos gendarmes. As
luzes vermelhas batiam nas paredes girando do topo das
ambulâncias do SAMU parisiense. Todo o quarteirão fora
evacuado e cercado por causa do risco de desmoronamento das
criptas subterrâneas. Um senhor berrava diante da destruição do
convento dos cordeliers, pranteava histérico atrás de um culpado.
Tiago e Sean estavam sendo tratados das escoriações enquanto
Bernis os encarava, absorto.
–– Acho que ele não está muito feliz. –– sussurrou Tiago.
Assim que terminou de pôr as bandagens, Marc voltou para
averiguar o esqueleto do convento. Mas não imaginou que toparia
com uma arca em meio aos bancos fendidos e relíquias litúrgicas
enterradas. Depois de tanto tempo ainda era possível sentir o odor
das velas sebosas. Dentro do baú, o novo manuscrito. Agora ele
estava concluído. Bem melhor do que imaginara, mas não que
valesse o risco de perder Sarah. Mas a pequena demolição valia.
Observando alguns caibros que despencavam.
Saiu descontraído e sorridente.
–– Acho que ele não está bem! –– sussurrou outra vez.
–– Nós é que não estamos, Tiago.
Depois que a multidão se afastou, levando a confusão para
longe, Sean caminhou até a boca do refeitório. Admirava o
estrago que uma simples pedra poderia causar. Tirando uma das
cartas, o castelo ruiria. Não estava pensando na destruição ou no
manuscrito que tão ardilosamente Marc escondera dos curiosos,
estava divagando. Vagueava o olhar entre algumas lascas caídas
ao chão, chutando-as a esmo enquanto caminhava distraído. Só se
agachou porque viu algo diferente. Levantou girando o pequeno
196
objeto preso por um fio, ele já o tinha visto no pescoço de Marc.
Um amuleto que se parecia com um grande t em madeira e que
mantinha sob a camisa.
–– Não é só um amuleto. O tau simboliza muitas coisas. Para
Marc é o passado que tenta esquecer, mas sente saudades. ––
falava Guarini sentando sobre o capô de uma viatura policial.
–– Obrigado por me ajudar com...
O índio sorriu.
–– Muitas coisas, das quais você não tem conhecimento, estão
presentes ao mesmo tempo. Não pense que tudo que está
ocorrendo seja por sua causa. O sol não gira em torno de nós.
E Sean observava o talismã rodopiar.
–– Eu estava justamente pensando nisso. –– com dificuldade
para aceitar os eventos do dia como um mero acidente. Estar no
lugar errado, na hora errada, eis o que aconteceu. Percebia, cada
vez mais, que não tinha nada a ver com isto. E quanto a Bernis?
Nunca se via sendo perseguido, nem mesmo agora que tinha
encontrado o documento.
–– O que você me diz? Desvendaram algo deste conflito?
–– Mas você pensou em indagar para quem sabe?! –– fixou
leve expressão de bom humor.
E quem realmente sabe? Sean retornava para Tiago que
continuava agachado na traseira da ambulância, fugindo das
ataduras que a enfermeira tentava, a todo custo, enrolar em seu
joelho esfolado. Bem, talvez ele não fosse o centro do universo.
Como já diziam, onde tem fumaça, há fogo.
–– Concordo. –– conclui Guarini com um piscar cúmplice.

197
14 ¾

conexão dos mortos.

–– TRAIDOR, você nos enganou!


Bateu forte contra a mesa encurvada. O lugar escuro, molhado
e cheirando a podre não interferia na contenda. Não estavam sós
naquele bunker nazista radicado no coração parisiense, numa
câmara ainda inexplorada. Ocultos sob o liceu de Montaigne e
esquecidos pelos vivos. Das catacumbas do cemitério de
Montparnasse, numa junção lúgubre das galerias repletas de
olhares ocos de caveiras sorridentes até aquela câmara, ninguém
ousaria submergir em tal território sob o controle dos dragões.
Num gesto ligeiro espalhou a cadeira para bem longe e
agarrou-o pela garganta com o punhal apontado para o rosto. O
peito arfava em tal frenesi, que as placas metálicas
entrechocavam-se ruidosas. Não podiam ser vistos. Apenas uma
brecha de luz refletia a claridade da faca na face do homem.
Abeirou a lâmina do olho arregalado e espantado sob o quepe
negro e, trincando os dentes, respondeu.
–– Jamais me confunda com seus subordinados. –– disse ao
coronel que tentava se sustentar inerte nas pontas dos pés.
Grunhiu –– Não acho que possa me matar.
–– Mas eu posso fazer isso doer por toda a eternidade, você
tem tempo? –– apertando a ponta da lâmina contra a córnea. O
suor escorria encharcando a bela farda condecorada, já não
importava quem eram, mas sim o ódio e o poder que possuíam.
Estavam todos no mesmo barco, cegos e ignorantes. Uns mais,
outros menos, mas enfim todos tinham medo.

198
–– Não espera que eu creia que não sabia que ele estava por
perto, sir Max.
–– Não. –– suspirou arremessando-o energético enquanto
seguia para junto de um esqueleto, onde as sombras podiam
ocultar as suas feições. Ele sabia, porém estava jogando a seu
favor, e não contra seus aliados. Precisava convencê-los.
Convencê-los não, enganá-los pelo tempo que precisasse deles.
Um sentimento de antipatia ganhou forças, o seu passado
assenhorava-se de si quando pensava no que o manuscrito
representava. Todos esses séculos a serviço de sua revolta
abrigada, estava cobrando o seu preço. Perdia, aos poucos, o
controle sobre si. Queria destruir aquele quem matara seu irmão.
–– Lembre-se de que ainda estou no comando. –– sibilando
cinicamente para o inquiridor. Um sopro incomum balançou a
suástica esfarrapada que pendia de uma parede logo atrás. Os
únicos que poderiam estar lá estavam mortos, selados.
Mas assim mesmo se ergueram de seus postos para se
aproximarem da reunião. O primeiro fumava um cigarro
fumarento e fedido que lançou com os dedos para além. A pouca
claridade que varria o ambiente permitia visualizar os contornos.
Valia-se de um uniforme de um tecido lonado e esverdeado sob as
botas negras e, sua camisa, de mangas arregaçadas, estava aberta
no peito. Agarrou uma cadeira e girou-a para apoiar seus braços
sobre o encosto.
–– Sargento Davidson, se apresentando. –– berrou pouco
disciplinado, largando sua mochila e o capacete nas pernas de
outro fantasma. O capitão Sixderniers já era popular por sua
brutalidade, mesmo antes de ser esquartejado pelos ingleses, no
entanto não ia perder a chance de atormentar aquele saxão
animalesco assim que a aliança terminasse. No seu território, ele é
o imperador. Sixderniers cumprimentou-os com um balançar de
cabeça, retirou o bicorne e a delgada espada e sentou-se
inexpressivo. Sua única frustração era não ter combatido em
Waterloo com o grande general.
Sorrateiro alguém se apresentava chocando e rangendo sua
arma contra a indumentária. Foram interrompidos por um soldado
em sua armadura polida de combate que abriu por instinto a
viseira e entregou uma carta selada com a insígnia escarlate dos
Lenffers. Um cinturão de balas corria o peito do cavaleiro,
199
ajustando-se ao rifle semiautomático que pendia onde deveria
estar a espada. O sir não se impressionou com a notícia de que a
pequena armada, em Moisselles, fora rechaçado pelos guardiões.
–– Sixderniers e Lenffers ainda insistem em manter posição
naquela planície? Confiança é um artigo extremamente raro por
aqui. –– ponderou herr Rommel.
Não respondeu, Max. O motivo para manter aquela tropa
segmentada era estratégica, seu e de mais ninguém. Lá estava
quem deveria perseguir implacavelmente, acima de suas ordens.
Voltou-se para a reunião esperando os ânimos se acalmarem.
Aquele que altercava juntou-se, assim, aos demais.
–– Coronel Rommel, queira dizer o que aconteceu para os
nossos aliados? –– disse então o homem que redigia a assembleia.
O seu olhar de desprezo passou por cada um antes de retirar o
quepe nazista e ajeitá-lo sobre a pistola mauser. –– Alguém pode
dificultar os nossos planos. Estava preparando o cerco para a
operação de ataque quando Marc Bernis, aquele intrometido que
está atrás dos diários... Mas ele... –– parou um segundo para
registrar a expressão dos outros. –– Mas ele estava bem protegido.
–– Quantos guardiões? –– frisou Davidson.
–– Um.
–– Você deve estar de brincadeira, herr Komandant. ––
zombando.
O silêncio respondeu por si só. Arregalaram os olhos
surpresos com a possibilidade de. –– É ele?
O homem resvalou seus pés metálicos e concluiu –– É, sim.
Ele pensava num meio de garantir a sua vingança sem que os
três intervissem. Precisava se afastar deste combate perdido com a
tríade. Eles jamais suprimiriam a verdade. Aquela baboseira de
que iriam conseguir manter a verdade deles era ilusória, ele sabia:
o poder, a arrogância, o dinheiro e o orgulho tinham seus dias
contados. No entanto eles ainda tinham força, o mundo ainda era
deles. E desta vez pensavam ser diferente.
–– Ele não pode com todos nós, vamos atacar juntos. –– falou
Sixderniers depois de muito bate-boca entre o sargento Davidson
e herr Rommel. –– Concordam?
Acenaram em afirmativo. Um acordo temporário, depois cada
um tomaria o controle daquilo que lhe cabia. Ser um dragão sem
São Jorge para pisar sobre.
200
–– Este é o nosso pacto. Absorveremos Paris dentro dos
próximos dias. Mobilizaremos nossas tropas para que elas entrem
aos poucos, por todos os lados. Caso enfrentemos resistência,
recuaremos atraindo os desgraçados e fechamos o cerco pela
retaguarda, sem muito alarde. Temos que evitar a ocupação dos
cordeiros no nosso território. As terras médias sempre nos
pertenceram e agora que estamos mais fortes teremos maior
controle sobre os vivos.
–– Não seremos expulsos novamente, ficaremos. –– exaltou-
se herr em seus devaneios de um exército marchando na avenida
do Champs-Elysées. Alcançando o céu que lhe era possível
quando repudiasse o Tártaro.

Resmungando mil palavrões, Tiago afastava os primeiros-


socorros. Em poucos movimentos ele se livrava da moça, saltando
atordoado da ambulância, soltando as ataduras que o
atrapalhavam. Atirou o amontoado de gazes longe antes que a
médica batesse abruptamente a porta com desprezo, inconformada
com a rabugice do garoto.
No meio do caminho eles se encontraram. O jeito como ele
andava, envolto nas ataduras, fizera com que Sean se recordasse
da breve visão no museu. Um sopro de ar murmurava entre os
vãos escancarados do prédio.
–– Você está bem?
–– Melhor impossível! Mas você não me parece bem.
Sean queria se jogar numa cama quente e macia, mas a
recordação de sua mãe não escapava de sua memória imediata.
Para não ter que falar sobre o acidente ele resolve contá-lo da
visão:
–– Dois cavalariços treinavam com espadas curtas, um eu
reconheço dos pesadelos, o outro só não me parece estranho.
Estava tudo bem claro –– e imitava os passos. –– De repente eles
se movem em sincronia. Não dá para saber quem está ensinando
quem, mas aquele movimento que você fez para se defender das
armaduras era idêntico –– respirou fundo e continuou. –– Não sei
se faz sentido, mas eu acredito que um dos cavaleiros era você,
Tiago. Eu sinto, não sei explicar como.

201
Tiago estava pálido, nunca tinha contado para ninguém os
sonhos que tinha desde pequeno. Sean sabia que era ele. Quando
Tiago ficava quieto demais era porque tinha algo para esconder.
Sean não continuou a conversa, desconfiava que não era o
momento ideal. –– Depois a gente fala mais sobre o sonho. Que
foi legal, o golpe, foi.
Não demorou muito e Marc voltava cambaleante para resgatar
os garotos. A tarde passou tragando as horas em grandes goles de
expiação. Exausto, Bernis tomou fôlego e telefonou para o
pronto-socorro, averiguando o estado de Sarah e aproveitou para
avisar os pais que os dois passariam a noite com ele.
Residia perto do Louvre e em instantes subiam ao elevador de
serviço. Largou-os na sala do apartamento para que pudesse tomar
um banho demorado, sem fantasmas em sua cabeça.
O apartamento de Bernis corroborava as qualidades de uma
pessoa extremamente desordenada, nada combinava com nada e
as folhas soltas de livros e rascunhos estavam grudados por todos
os cantos. Só tinham, por ordem, uma distribuição cromática das
capas que nunca tinham visto em suas vidas. Um só livro que
estivesse fora desta classificação ficava evidente, como constatou
Sean numa rápida corrida de olhos pelas estantes.
Bolor, comida, umidade, roupa suja e, muitos livros
denotavam que o senhor Bernis não recebia visitas com
frequência e se recebeu, talvez jamais tenham encontrado a saída.
–– Vamos ficar bem aqui, parados, não quero me perder. –– sorriu
Tiago.
Um pergaminho estendido estava enquadrado, tomando toda a
parede oposta com letras miúdas e borradas. Sobre o vidro,
anotações com tinta temporária destrinchavam partes resgatadas
do desgaste do tempo.
Bateram à porta. Sean não prestou atenção.
Bateram novamente. Tiago cutucou.
–– Vai você.
Gesto infeliz, Sean o empurrou para o hall.
Ele abriu. O que mais podia fazer.
Assaltaram o apartamento, sem dizer uma única palavra e se
largaram no sofá. Não estavam contentes e com certeza tinham
algo para reclamar assim que pudessem se manifestar. Nem todos

202
gostavam de ser babás, mas cuidar da situação que estes bebês
aprontavam, estava fora de cogitação.
Mateus entrara empurrando todos, com isso, Lucas e Joshua
literalmente voaram sobre Sean. Somente Elene pôde desfrutar do
pouco cavalheirismo que ainda restava. Se ele estava tentando
esconder sua zanga, podia muito bem esquecer, essa não colava.
Bernis enfiara a cabeça ardente na ducha com rapidez,
contudo não surtiu o efeito esperado. Quanto mais queria
entender, mais confuso ficava. Ele não era tão importante. Não
descobriu nada que fosse extraordinário ou especial. Mas tinha um
segredo, bem pequeno, de letras miúdas, talvez fosse isso.
–– Que surpresa, todos aqui. –– Marc não se tocou que
acabava de hospedar mais gente. Mais é sempre melhor. Mas
naquele apartamento!
–– Para casa eu não volto. Enquanto aquele índio gordo não
sair. Como alguém pode cantar tão mal! –– disse Mateus. Bernis
não entendeu, porém não ia perguntar. Até onde havia
compreendido, isso era coisa dele. Sean confirmou. Ouvia o
mesmo índio balofo de graciosas tranças, que sorria enigmático,
sentado sobre a estante com as pernas balançando no ar.
Marc escapuliu para trocar a toalha encharcada por um jeans e
uma camiseta esburacada. Juntou-se aos convidados na cozinha
devorando com avidez as fatias de pizza e o refrigerante quente.
Acomodou-os em quartos e, assim que Joshua adormeceu, Lucas
se retirou alegando cansaço –– já o mau humor ficava por conta
de todos. Eles estavam igualmente fatigados, mas a ansiedade não
deixava relaxar, todos queriam respostas.
–– Quer dizer que eles estão por aí? –– retrucou Mateus,
sedento por informação, falando o mais baixo que conseguia.
–– Aos montes, por toda a cidade. Se você tivesse visto os que
estavam lá! Garanto que não estavam de brincadeira. Mas
sumiram de repente. –– dava de ombros Sean.
Naxamuñaca complementava: –– Até onde pude penetrar,
todos que estiverem com Miguel serão perseguidos. E ele só pode
estar entre vocês. –– conforme lhe contou. –– Senão como
poderiam explicar tamanho interesse das hostes que se esgueiram
cautelosos para cá! Hum. Eles estão atrás de algo, que somente
uma grande massa de infelizes criaturas poderiam subjugar. Sinto
cheiro de encrenca, tem que existir uma boa explicação. Talvez
203
um segredo muito bem guardado. Além do mais, não passo de um
simples guardião que tem mais afinidade com simples mortais do
que com os anjos.

Um outro olho escondido na escuridão de uma porta


semiaberta se deixava sorrir, um sorriso malicioso, envolto em
júbilo. Logo ele teria a sua desforra. Só ele entendera a mensagem
subliminar de Naxamuñaca. Eles jamais encontrariam Miguel,
estariam mortos antes que...
E a porta bateu em seu nariz, xingando a revelia.

Quando o sono os alcançou, partiram para seus quartos,


silenciosos, diante do estado de ânimo que se abateu. Em poucos
minutos o apartamento adormecia aos sons de um aquecedor que
rangia lamurioso. Até ele se apagar e os rangidos do frio estalarem
aleatoriamente na escuridão.
Abriu bem devagar o olho canhoto para o mostrador que
piscava três horas e dezoito minutos. Marc não conseguia
conciliar o sono, tombava na cama sonhando acordado com um
enxame de zumbis invadindo seu apartamento. Criaturas
apodrecidas que saltavam de seus túmulos cobrando a paz para os
seus tormentos.
Ergueu-se espalhafatoso, deixando que as cobertas caíssem
sobre Sean que respondeu gemendo algumas palavras desconexas.
Marc fora em busca de um pouco de café descafeinado que
borbulhava da cafeteira elétrica desde a véspera.
Contudo não era fome ou sede que o fizera se levantar àquelas
horas da fria madrugada parisiense; era, sobretudo, receio de que,
talvez, estivessem de fato lhe espreitando por entre as trevas. O
pior é que sabia que estavam lá, mesmo não os vendo.
Passou algum tempo apoiado na janela observando a neve se
chocando contra o vidro. As luzes da cidade criavam um halo
translúcido envolvendo os prédios em brumas leitosas. Nem
mesmo o vento se atrevia. Quanto mais ele olhava para o vazio,
mais imaginava estar enganado. Esfregou forte o rosto e encarou a
papelada disposta à mesa de carvalho, ao lado de uma antiga
máquina de escrever Corona Sterling que pertencera a seu avô.
Nas primeiras luzes matinais encontraram-no debruçado sobre
a mesa, revendo minuciosamente a carta de Bernardo. Não havia
204
como negar, só a conclusão cruel da morte do escapulário de
campanha. Ele relia, e mais frustrado ficava. Abaixou a cabeça
dando pancadas de leve no papel.
–– Vamos, você está aí, tem que estar aí.
Sean puxou desinteressado o rascunho da tradução que Marc
refizera a pouco e, caminhou até a janela. A cidade estava
acordando e alguns enfeites natalinos ressurgiam tímidos em
vitrines e janelas embaçadas. Tardiamente os parisienses se
preparavam para os festejos de fim de ano, com aparente
despreocupação e falta de zelo; estavam alheios ao espírito de
natal. Uma sensação estranha lhes oprimia o peito.
Impressionados que estavam com o desânimo que lhes abatia a
alma. Uma névoa invisível escurecia os céus de Paris.
Fixou-se no papel. Certamente satisfazia ao que Sean já sabia,
um relatório que não era tão eloquente quanto à realidade que
presenciara em sonhos. Estavam lá quase todos os detalhes. O
ataque, o socorro e a morte. Mas faltava algo, além da menção ao
manuscrito que estaria com Francesco, faltava mais alguma coisa
que ele não conseguia recordar.
Despertava de seus pensamentos sendo observado por
algumas pessoas que se agruparam defronte ao edifício, olhavam-
no diretamente aos olhos como se esperassem uma autorização.
Os velhos soldados já estavam retornando ao bloqueio, desta vez
permaneciam afastados, dentro do alcance, cautelosos e
amedrontados. Seria verdade? Estavam assustados? Não estava
enganado; eles estavam com medo.
Em concordância, Mateus acenou. Também percebeu os
rostos desconfiados da horda. Um bando que escondia suas
intenções apesar dos movimentos aleatórios de aflição eminente.
Estavam aguardando ordens. Estavam com receio. Do quê? De
quem, talvez?
–– Era disso que você estava me falando quando perguntou da
cidade estar abandonada? São estes que haviam desaparecido? ––
inquiriu Sean.
–– Não exatamente. Facilmente os confundiríamos com os
vivos. Quase as mesmas roupas. Soldados! Acho que nunca tinha
visto um... Quem sabe nos campos mais afastados da cidade
existissem muito mais. Vamos sair daqui. –– empurrando Sean.

205
–– Está querendo me dizer que eles fugiram quando estes
chegaram?
Mateus esperou um instante pensando no que ele dissera. ––
Só pode, não tenho outra explicação. Eram tantos que não consigo
imaginar que todos, juntos, resolvessem desaparecer de uma hora
para outra. Com certeza existe uma causa, pode bem ser esta aí ––
apontando para baixo.
–– O pouco que sei se deve ao que Jean me falou e que eu
mesmo descobri. São fantasmas como ele, que vagam em busca
do que perderam. Ele costuma resumir como uma falta de paz,
procuram por paz. Mas eu não chamaria de paz perturbar por
vingança ou vícios. É como uma simbiose. Sugam-nos como
vampiros. Muito poucos, eu acho, fossem anjinhos de verdade.
–– Assim não temos quem nos proteja? –– inquiriu Sean,
assustadiço.
–– Não. Calma, garoto! Quero dizer que poucos conseguem
deixar seus guias se aproximarem. Não querem ouvi-los, deste
modo os outros encontram as portas abertas para influenciar como
quiserem.
–– Está preocupado com eles?
–– Nem tanto. Estou mais preocupado comigo, agora todos
vão me olhar de longe. Como se fosse uma aberração. Decerto
você me entende. –– e mantinha a expressão murcha e
conformada de desânimo. –– Quando tinha sua idade me escondia
debaixo da cama assustado com todos estes espíritos que
perambulavam perdidos por aí. Arrisquei falar com minha mãe,
mas percebi que ela não tinha porquê acreditar no que lhe
expunha... miragens, fantasias e esquisitices tolas.
As esquisitices atingiram Sean como uma parede de tijolos.
As impressões eram muito parecidas, porém ele nunca teve que
lidar com fantasmas circulando em seu meio. Fosse na escola, na
rua ou em casa. Os seus pesadelos ocorriam há pouco tempo e em
locais quase sempre isolados. Como seria ignorar espíritos no dia-
a-dia. Sentiu súbita compaixão pelo amigo.
–– Não deve ser fácil! O que eles querem, quem são?
–– Nunca soube. Fiz bem o meu papel. Só Jean teve paciência
para esperar que eu falasse com ele. Esperou quase dez anos antes
que eu desistisse. E ele só repetia, incansável, que sempre soube

206
que eu o escutava. Um dia eu teria que me trair. –– ria-se
lembrando das tentativas de Jean. –– O cara é incansável.
E ambos voltaram a observar os tais fantasmas. E tinham na
ponta da língua a mesma dúvida. –– Não sabia que fantasma tinha
medo de outros fantasmas. Vamos embora daqui antes que eles
resolvam entrar.
–– Agora não. Ninguém tem vontade de sair, vamos ficar por
aqui até que as coisas esfriem! –– disse Mateus. Até mesmo Lucas
se aquietou jogando-se ao sofá com desdém.
Contudo Sean não arredou os pés da janela, desconcentrado e
alheio a tudo. De olhos vidrados no vazio, até que Tiago se
abeirasse apoiando a mão no pescoço do amigo que acordou
sobressaltado.
–– Quanto mais eu olho, mais penso ver algo...
–– Não, você não vê. –– Sean resmungava irritado.
–– É, mas depois do que me contou, de que adianta fingir que
eles não existem, seria muito mais cômodo. Sabe, eu prefiro achar
que eles estão por aí do quê ficar na trevas.
Sean olhou com o canto do olho –– Como?!
–– Se o que você me disse está certo, só posso pensar que
somos mais influenciados do que supomos. Está certo, você nem
tanto –– pensando naquela vantagem que Sean possuía. –– Mas
nós, a maior parte que não sente a presença invisível, será que
estamos realmente imunes ao seu controle?
–– Pode ser!
Sem aviso os soldados estancaram o seu movimento circular e
deram um passo adiante, ultrapassaram a muralha invisível. Em
seguida andaram um pouco mais, chegando à beira do edifício.
Seja lá o quê os estava barrando, ruiu.
Talvez de perto fossem mais reais do que supunha a cinco
andares e, nem pareciam os farrapos que observava. Trajes
desarrumados se alinhavam ao conjunto de feridas, ferimentos,
pústulas e inchaços que a maioria não se importava em mostrar.
Aliás, dava para contar nos dedos aqueles que não tinham sangue
espalhado pelo corpo. Um deles obviamente fora enforcado, ainda
levava a corda presa ao pescoço azulado e se tinha um que
morrera afogado, não o percebeu.
Como ele ia enfrentá-los, aquilo causava aversão a qualquer
um. Guarini e Naxamuñaca estavam ao seu lado. Ambos tinham
207
suas razões para permanecerem junto de Marc ou Sean.
Principalmente agora que alertaram meio exército de mortos-
vivos. Ainda tinha aquela dúvida acerca do que estava realmente
acontecendo, cada um tinha uma opinião, mas só um tinha noção
do que era.
Guarini mantinha uma posição de curiosidade ante a presença
desagradável dos soldados, o que despertou a língua do tio Xaxá,
por dois motivos. Um desagrado quanto à salamandra-de-fogo
que mostrava a língua malcriada empoleirada em Guarini que
tentava disfarçar seu constrangimento galopante e: –– Esses
irmãos sofredores trazem consigo os reflexos dos erros
deliberados a que se entregaram. Hum... Seja a doença ocasionada
pelo desequilíbrio da mente ou os ferimentos mantidos na alma
pelos pensamentos que geram. Esse negócio... hum... de que são
sofrimentos injustos enviado por Deus não existe. São as próprias
culpas estigmatizadas na alma, o reflexo do verdadeiro espírito.
–– Como podem melhorar? –– disse Guarini diante de Sean.
–– Modificando suas ideias. Muitos do que se consideram
vítimas são, na verdade, algozes. Senão, como poderiam ter estas
marcas provocadas pela própria culpa?
Ambos concordaram em silêncio.
–– E o que eu faço agora! –– emperrara Sean.
Os índios se olharam e concederam um leve sorriso para o
garoto, volvendo seus rostos para Bernis que ainda arremessava
bolinhas de papel amassado numa lixeira que transbordava.
O telefone tocou.
Em dois saltos, metade dos ocupantes do recinto alcançaram
o aparelho que continuou tocando até que se resolvessem. Marc
largou a mão no gancho e atendeu-o para o alívio de Guarini.
–– Como?! Esperem por mim, estou indo para aí agora. Não
mexam em nada... –– resolvendo duas questões ao mesmo tempo.
Sua frenética tentativa de enfiar o casaco e sua dúvida se deixava
ou não os garotos sozinhos. Quando desligou estava preso pelo fio
do telefone que saia pela gola atravessando todo o casaco já
abotoado. Puxou o com violência antes de pedir, aos três, que
esperassem por ele. –– Estou retornando para a cripta.
Descobriram algo.
Assim que bateu a porta, tio Xaxá falou. –– Que nada! Só se
confundiram um pouco com o que sopramos aos seus ouvidos.
208
Ah! Gente sugestionável. –– Gargalhava comovido, sentando-se
na bergère puída onde Lucas estava descansando fogosamente.
–– Sugiro que o siga! –– Sem pretexto aparente e de face séria
deixou escapar, em um relance, o que parecia ser um certo receio.
Sean não pode ignorá-lo por mais tempo se quisesse acompanhá-
lo de perto. Não recebeu nem mais uma informação, nada que
pudesse servir de esclarecimento para a perseguição. Bastava
admirar a expressão dos índios que foram tomados de
indisfarçável temor.
Tomou o casaco que se encontrava em mãos e saiu
desabalado, escadas abaixo, para o susto de Tiago que apenas
balançou os ombros para Mateus. Em consenso mudo resolveram
ficar esperando o retorno de um ou de outro. Quem aparecesse
antes, se bem que uns fantasmas surtiriam o mesmo efeito que
Sean antecipara.
Para surpresa de Sean, os guardas haviam se dispersado,
perdidos, e não se interessaram por Marc. Estava ficando muito
estranho. Não estavam caçando o senhor Bernis, ficava evidente o
menoscabo dos três soldados encostados no prédio, sob as luzes
de um letreiro da revista Life. Nada tão paradoxal quanto isto,
entretanto, ele recuava atento aos dois. Marc que seguia
apressadamente, atravessando a rua por entre os automóveis
empacados do congestionamento e, os soldados enfadonhos que
riam debochando de algo. Quanto ao grupo que não assinalava
qualquer intenção de alcançá-lo, estes, trajavam uniformes
modernos, da grande guerra, que se integravam aos rifles
semiautomáticos que pendiam de seus ombros manchados de
sangue. De alguma forma, um deles fumava. O garoto estava
decidido a seguir Marc, todavia não queria despertar a atenção
destes espíritos que surgiam aleatórios a cada canto da cidade,
observando distraidamente os transeuntes sólidos atravessarem o
seu caminho. Seguida de uma onda de escárnio que impregnava as
pessoas de mau-humor. Tudo parecia desencadear para uma
catástrofe. Mesmo que nos próximos dias fosse noite de Natal, o
nascimento de Cristo. Se é que vale de algum alívio.
Homens e mulheres estavam atarefados em suas compras de
última hora, lembrando Sean dos momentos agradáveis que eram
as festas de fim-de-ano. E pela primeira vez pensou em alguém,
um amigo, que desejaria ter por perto na comemoração da ceia de
209
Natal. E uma sombra encobriu seu ânimo. Não que o impedisse da
presença de Tiago, mas porque uma outra pessoa surgiu em sua
mente como alguém que gostaria de ter por perto. Envergonhou-
se.
Marc esboçou um movimento esquivo e escapou por um triz
de um ônibus ruidoso que freara antes de seu ponto no quai de la
megissérie atraindo os olhares de duas criaturas sombrias que não
costumavam transpor paredes. Acenavam apontando os narizes
para Bernis. Em seus casacos pardos aceleraram o passo tentando
alcançá-lo ainda na pont au change que parecia estranhamente
deserta.
Não poderia deixar que o atacassem, dava para ver que as
suas intenções eram más. Além do mais sentia um formigamento
inquieto, como uma intuição. Decerto que algo ruim aconteceria,
por isso Sean correu até ultrapassar os homens. Não ergueu o
olhar, apesar de que a dureza de seus gestos, nervosos, pudesse ser
mais delatores do que um simples relance de olhos curiosos.
Tinha que improvisar.
–– Hei. Senhor Bernis! –– deve ser por dinheiro, sempre é,
então. –– Meu pai pediu para te dizer que não tem como
emprestar a quantia, só deixou estes trocados para um lanche.
Sinto muito. –– sacando algumas moedas.
Ele não entendeu nada, mas viu quando os dois estranhos
estancaram lívidos diante deles. Em alguns segundos Sean
descobriria se tinha dado certo o estratagema. Por precaução
piscou disfarçadamente para Marc.
O que estava com as mãos enfiadas no bolso do casaco
parecia ofendido e se fosse um revólver? Não imaginava que em
uma reação de raiva frustrada ele pudesse se livrar dos dois por
desforra, por não terem senão uns míseros trocados que tilintavam
em bolsos folgados. Nunca mais tiraria conclusões precipitadas
sem antes cogitar que o tiro saísse pela culatra. E saiu.
–– Senhor, desculpe-nos. Deixou cair sua carteira. –– para não
dizer que estavam com remorso por não poderem ajudar Marc
com sua pequena crise monetária.
–– Muito obrigado. –– e como a situação ficara estranha
quanto à recompensa, os homens malvados gesticularam uma
negativa peremptória seguida de fustigantes acenos que atingiram
em cheio o coração ferido do garoto.
210
–– Ah. Pensei errado.
Marc apertou Sean com força, caminhando trôpego antes de
percorrer toda a ilha de la cité e cair de gargalhadas junto à praça
Saint-Michel. O rio silencioso que abarcava a ilhota mesclava-se
para formar de novo um só fluxo, sorvendo consigo o vento
gelado que silvava por entre as árvores secas vindo desde das
galerias escuras da igreja de Notre-Dame. Um vento com cheiro
de história estagnada.
–– Por que este interesse em mim? –– recuperava-se Marc.
–– Não pude evitar. Já disseram que você tem uma
personalidade magnética?
–– Nunca.
Não tinha uma ponta sequer de sarcasmo, ele queria os fatos,
mas o que Sean poderia definir como tal? O acidente e a
premonição? Que tal algo mais, como os ataques no Louvre e os
muitos outros por aí? Bah! Enfim por onde ele poderia começar!
O largo que delimitava o espaço aberto entre as muralhas
douradas de suas fachadas singulares rematava numa bifurcação
bem demarcada que seguiria, à esquerda, como boulevard Saint-
Michel e noutra por rua Danton; pontilhadas de árvores
sonambúlicas pelo inverno característico de Paris.
Os pássaros instintivamente, em sincronismo não
coreografado, lançaram-se acima dos edifícios, desaparecendo
abaixo da silhueta de ogivais dos telhados de zinco esverdeado
dos apartamentos haussmannianos. Marc e Sean estavam
afastados alguns metros entre si quando um estampido despencou
de todas as direções, um eco potente de uma grande explosão que
gemeu o solo. Um som alto o suficiente para que fosse percebido
por meia Paris. Um som de reconhecimento para Marc que ficou
branco e gritou sem som. Movimentos irreconhecíveis enquanto o
barulho ressoava ao redor de ambos. O solo, em reações
convulsivas soltava farpas num raio de afastamento que tinha
como o seu centro a esplanada. Uma suave nuvem de poeira
acinzentada atingiu-os até os joelhos antes de caírem atordoados.
Os carros brecavam desalinhados de seu trajeto, avançando sobre
alguns pedestres.
Um segundo estrondo puxou as fachadas como se as
sugassem para o epicentro antes de serem afastadas por uma onda
que estilhaçou os vidros. Um período de estagnação e então o
211
subsolo regurgitou uma fumaça densa, envolta em pequenos
fragmentos, através do buraco da estação de metrô de Saint-
Michel, seguido pelos bueiros próximos. Um automóvel fora
lançado em um rodopio perfeito, sobrevoando Marc para cair de
quatro logo atrás, num baque seco que fez disparar seu alarme.
Ato inesperado que os jogou ao solo, como se empurrados por
mãos inesperadas para o meio da rua. Marc tentava levantar-se
escorando as pernas abertas, gritando sem que Sean ouvisse por
cima do zumbido que urrava em seus ouvidos machucados. Em
instantes, objetos despencavam do céu como a chuva de um
tornado, espatifando pedras e metais sobre as pessoas. Marc parou
de berrar e saltou de olhos lacrimejantes através do pó que se
dissipava, arremessando Sean para longe de um pedaço da estátua
de bronze esverdeada que quicou onde estava antes. Sorrindo de
sua boca escancarada, os dentes afiados de um dragão sem asas.
O efeito de desorientação passou assim que a poeira e o
barulho sumiram. As poucas pessoas que conseguiam se erguer
gemiam aos socorros das primeiras ambulâncias. Não sabiam se
tinha passado minutos ou horas. Marc puxou Sean para junto de
si, erguendo-o com mais força do que necessitava. Mesmo com o
impacto de toda a destruição, havia muito silêncio.
–– Como você está! –– sussurrou Marc.
–– Com muita raiva.
–– Nunca vou me acostumar com estas explosões... –– deixou
escapar por entre os dentes.
E antes que pudessem prosseguir, contemplaram tudo, num
giro assustado. Com a ressalva de uma única cabeça distorcida de
bronze, caída aos seus pés, estavam diante de uma pequena
clareira livre de outros destroços, inexplicavelmente limpo. Limpo
demais.
–– Não estão atrás de você, nunca estiveram. –– se quisessem,
a ocasião não poderia ter sido melhor.
E Marc não sabia o que falar. Ficaram assim, em silêncio, um
bom tempo; observando a paisagem sob o olhar lânguido da
escultura que permanecera intacta. Saint Michel talvez tivesse
seus motivos, mas Marc julgava outros quando sorriu em meia
boca para Sean, logo depois de encarar a expressão de placidez do
anjo. Que, de sua espada ondeante, almejava uma confissão em
um julgamento que durava anos.
212
15

princeps militae coelestis

–– Princeps militiae coelestis quem honorificant


angelorum cives.
Coincidência ou não, ela não podia ser desprezada. Parecia-
lhe óbvio demais que tudo estivesse tão bem planejado, cada
inesperado golpe de sorte, parecia guiá-lo com eficácia precisa.
Sentia-se como um fantoche em mãos invisíveis.
Sean acordava de seu congelamento mórbido, apavorado.
Muita gente devia estar gravemente ferida, precisando de
assistência imediata. Saltou rumo à boca escancarada que servira
de saída ao metrô, contudo desistiu de qualquer tentativa. Antes
mesmo que pudesse articular qualquer intenção, paramédicos dos
dois planos invadiam o subterrâneo. Entretanto, foi um amigo de
jaqueta translúcida com o vestígio de um longo I que lhe acenou
negativamente, encerrando as suas esperanças. Ele adiantou-se
impondo uma barreira com sua mão estendida, o evento merecia
que sua lição fosse compreendida por Marc e todos os demais
envolvidos neste ataque. Nem homens-bombas, nem pacatos civis
estavam isentos de suas responsabilidades antes e depois da
explosão. Uma associação inconsciente, necessária ao reajuste
passado, visando a renovação futura. Pode não ser agradável,
entretanto é eficiente.
Marc agarrava-o pelo pulso, impedindo seu avanço
desenfreado até que ele se acalmasse. E o garoto caiu
fragmentado, com a alma dolorida. Suas lágrimas refletiam seu
estado de completa desilusão e remorso. E se tudo isto fosse por

213
causa dele! Que todas estas mortes fossem efeitos colaterais de
uma perseguição imperceptível. Mas uma voz murmurou ao seu
ouvido.
–– Todos estavam onde deviam estar, não cai uma folha sem
que Ele o permita –– e Sean só pode distinguir um vulto
desaparecendo num lampejo de um manto escuro como o sangue.
Estava transtornado, seus dentes travados denotavam sua
incapacidade ante o inflexível sofrimento humano. Ele não era
ninguém.
–– Vamos. Precisamos sair daqui, não há nada que possamos
fazer –– e Marc recolhia o garoto entre os ombros, afastando-se
pelo boulevard sob os guinchos agudos das sirenes.
Um lampejo de como poderia agir contra. –– Tenho que lhe
contar algumas coisas, senhor Bernis.
–– Também tenho –– respondia nervoso, pois chegou o
momento de contar um segredo.
Ainda tentavam limpar seus rostos e trajes quando chegaram
por fim defronte a um pitoresco restaurante árabe que se abrigava
em uma das indistintas travessas medievais da baixa Mouffe. Com
sua particular extravagância aromática adentraram hipnotizados
com a decoração mourisca. Arcos e adornos talhados em
filigramas douradas que representavam frases emprestadas da
Shura. Muitas cores que tremeluziam pelas intensidades de
lamparinas inconstantes. Um ambiente mergulhado em meias
trevas.
–– Bom Dia, senhor Bernis! –– Piscou o enigmático senhor
Hammed, que trazia umas toalhas mornas e úmidas para que
tentassem tirar um pouco do pó de seus rostos acinzentados pelo
concreto moído. –– Chá de menta! –– berrou para um rapazote
magro que se apressou a atendê-lo. Deixou-os por um minuto,
procurando brigar com o sobrinho enquanto estalava a língua,
indignado com o parentesco.
–– Hábito que adquiri na Síria; é ótimo para se esconder da
realidade, não acha? –– girando os olhos pelo estabelecimento.
–– Você fala como se estivesse fugindo...
–– E quem disse que não estou –– passando a toalha pelos
cabelos com energia.
Foram interrompidos por Hassan que, todo sorriso,
depositava, atrapalhado, os copos de prata junto com uma chaleira
214
fumegante. Devia ter a mesma idade de Sean e não perdeu a
oportunidade de fazer mais alguns amigos, apertando
esfuziantemente a mão dos dois. Retirava-se em mil desculpas
para contentamento de seu tio que continuava estalando a língua.
Hammed empurrava comparações a Hassan, aborrecendo o
sobrinho com insinuações jocosas de que o Ramadã acabara e os
sonhos do Eid-ul-fitr não trariam para ele o paraíso do bom anjo
Gabriel. O alarido diminuía conforme se afastavam
estabelecimento adentro. Só um velho rádio portátil emitia uma
cantilena infatigável.
–– O que foi que quis dizer! –– recordava Sean.
–– Diante da escultura?! –– pois continuava pensando na
frase, sem pausa. –– Bem que preferia esquecer. Significa, o
príncipe do exército celestial que a cidade dos anjos honram. ––
era ele? Não desconfiava que o professor William queria dizer
com contar tudo. Seja quem fosse. Porém o sinal foi absurdamente
claro. –– Tenho que te confessar, estou muito curioso sobre você.
Nunca quis perguntar nada sobre o acidente.
Sean se sentia acuado, mas também queria descobrir o que
estava acontecendo, e começar pelo início, em pratos limpos, era
o pedido que desejaria descartar do menu do chez Hammed.
–– Começou com um sonho muito confuso que acabou por se
transformar num pesadelo real. –– enquanto mordiscava umas
especiarias servidas em abundância. –– Com certeza você não
quer falar disso, mas de como eu sabia o que fazer. O fato é que
eu não sabia, como ainda não sei como.
Entretanto Marc permanecia entorpecido, aguardando a
confissão do garoto com indisfarçável angústia. Vez ou outra
acenava para Hammed, em seus bastos bigodes negros, para que
lhes deixassem a sós. –– Não tenho como lhe descrever isso sem
que pareça falso, sinto muito.
Possivelmente ele gostaria de lançar tudo de uma vez, mas
sabia qual seria a reação, se bem que, a essa altura, Marc não se
importasse com mais surpresas. E prevendo que o garoto não
encontraria as palavras menos chocantes ou mais adequadas para
quem estava com certas vulnerabilidades cardíacas, adiantou-se
em sua confissão.
–– Talvez eu possa lhe ajudar. Não estou atrás de um
manuscrito. Eu já o tenho. –– uma pausa longa para assimilar o
215
que Marc dizia abertamente, sem constrangimentos. –– Seja o que
for que você quisesse dizer com o nunca estiveram atrás de mim,
concordo. Pelo menos quanto ao manuscrito. Todos os atentados
que sofri nestes últimos anos, saí ileso, ou quase. Eu até posso
dizer que estava, de certo modo que desconheço, protegido. Hoje
tive mais uma prova. Então, qualquer coisa a que você se referir
não será necessariamente uma novidade, você me entende? –– só
que nunca havia alguém por perto, mesmo imponderável aos
olhos, quando necessário.
–– Posso tentar. E se eu dissesse que tive ajuda de fantasmas!
Respirou fundo, o coração pronunciou ligeira taquicardia. ––
É mais fácil acreditar nisso do que numa tentativa feliz de me
salvar –– tentou sorrir para o garoto trêmulo ao mesmo tempo em
que sacava um caderno de apontamentos. –– No entanto qual foi o
motivo de sua intromissão na minha morte? Porque está claro que
você e seu amigo Tiago me salvaram por muito pouco.
–– Me falaram de algo como dívidas do passado, ainda não
entendi direito. Sempre desaparecem quando tento obter mais
respostas. Se era isso que queria saber... E quanto aos outros
atentados? –– mudando o rumo.
–– Sem ferimentos. Posso dizer que sofri mais atentados que
muitos países. Grupos separatistas, grupos religiosos radicais.
Todos mais preocupados consigo mesmos, olhando para seus
umbigos, e nem percebem a devastação que causam dentro de
seus ideais. –– e baixou o olhar brincando com suas tâmaras secas
–– e em nossos amigos. Meu avô morreu no primeiro meu
atentado.
E uma onda de tristeza desceu no semblante de Marc,
fazendo-o repensar no tempo que se enclausurara do mundo, em
sua pesquisa. Fugindo de amigos que poderiam morrer por sua
causa, mesmo não determinando se tinha culpa ou não nos
atentados. E Sean passava pelo mesmo drama. Remoendo as
mesmas dúvidas. E Bernis percebeu os mesmos pensamentos em
Sean, que se assemelhava a um reflexo de suas próprias angústias.
–– Não caia no mesmo erro, garoto. Não nos leva a nada. Não
vamos ter paz fugindo do que ocorre ao nosso redor, somos peças
em movimento. –– bastava descobrir de qual jogo.
Emudeceram-se por um tempo, recriando seus novos mundos.
Marc tentava adotar esta nova realidade paralela que incluía um
216
garoto e sua bagagem de fatos bizarros que, apesar de tudo,
considerava plausível. Devia estar começando a endoidar,
desesperado por finalizar a sua caçada aos mikhae. Se não fosse
isso, como explicar sua inclinação para acolher dados poucos
científicos? Teria que aceitar as coincidências como elemento de
peso em suas reflexões, se quisesse encontrar uma resposta?
Sean notava Bernis em elucubrações mil, buscando algo
palpável em que se apoiar. Sabia muito bem que ele não aceitaria
suas palavras sem evidências, nem como as obteria. Precisava
acreditar que elas não seriam imprescindíveis. No entanto, neste
mundo isso não era possível.
–– E você? Tem alguma solução para os meus problemas de
sono? –– é evidente que Sean não as teria, mas disse em voz
elevada buscando que um ser invisível lhe acudisse.
–– Quem sabe. O que você precisa! –– abanando a mão
indiferente.
Marc deu mais corda. –– Como eu devo ler os documentos?!
Agora Sean considerava se ele não estava sendo sarcástico,
pensava que não adiantava responder. Se ele, que era um
acadêmico em espécime, não sabia, como poderia ter algo que
aplacasse sua curiosidade de raciocínio? Que documentos eram
estes que eram ilegíveis? Todos!
–– E a narração de Bernardo?
–– Não é deste códex. Desconfiava que fosse um comentário
sobre o assunto, talvez esclarecesse como eu poderia traduzi-los
ou indicar onde um código pudesse ser encontrado. –– e Marc se
preparava para abandonar seus argumentos. –– E o que você sabe?
–– Só o que você sabe... –– suspirou demoradamente
observando uma criança engatinhando nos fundos do
estabelecimento. –– dos diários de Miguel.
Pensou Marc, o garoto esta sendo sarcástico? –– Miguel?
Quem lhe falou isto? –– A fonte era menos material do que Marc
imaginava, pois não conhecera Naxamuñaca recentemente. E
compreendeu que Sean diria que ela viria de um local inatingível,
pelos menos enquanto ele estivesse vivo.
–– Não é o que procurava por todo este tempo, o códice?
–– De todos os nomes, em estelas ou pergaminhos ou
manuscritos, não havia uma alusão sequer a um Miguel. Tem
certeza de que estamos falando a mesma língua? E por que
217
diários? –– Marc puxava a atenção de Sean com seu indisfarçável
delírio. E ele só balançava os ombros.
Se tinha algo que Sean achava ter certeza era de que os tais
diários de Miguel só poderiam ser o códex mikhae, não havia
dúvidas, os nomes eram similares e a insinuação de que estava de
posse de Marc, só confirmava o fato. Ou ele estaria redondamente
enganado e seriam elementos distintos! Agora era a sua vez, teria
que dar o próximo movimento, entretanto ainda não sabia qual
jogo estava jogando. –– E o outro pergaminho?!
Decididamente não falavam a mesma língua. –– Aquele que
estava na cripta? Era só um suplemento do manuscrito de
Bernardo. Pensei que toparia com algum código para entender o
códex, já que ele comenta ter conhecimento das marcas da
videira...
–– O pergaminho que Bernardo transportava para Francesco
também tinha essa marca?
Marc travou buscando ligar algumas informações sobre o
tema. –– Bernardo não fala de outra mensagem, nem de um
suposto Francesco.
Um momento quase lúdico, ambos estavam estupefatos com a
falha de percepção, pois tudo encaminhava para o mesmo
episódio que teimava passar despercebido. Acabavam de
redescobrir a pólvora. Agora começava a ficar claro o que
representa o encontro fortuito dos dois, não poderia ser
coincidência ou incidência do destino? Haviam duas histórias,
nenhuma estaria finalizada sem a outra. Juntá-los seria a
conclusão destas ideias despedaçadas.
Seria possível que houvesse mais um? Como Sean o soube?
Poderia confiar nesta fonte de informação inusitada? Mas Sean
não recuou, mesmo porque um senhor de adequada índole, de
perceptível semelhança com Marc, se aproximava instigando-o a
explicar o que realmente aconteceu naquele dia perdido num
passado em comum.
Um senhor de bela estampa, de terno aproado, que
atravessava alguns clientes desinformados de seu estado
espiritual, acomodava seu pince-nez consultando uma caderneta
de campo antes de dar um parecer elucidativo. –– Hã. Antes
devem saber quem foi Bernardo. Vocês já têm todos os dados em

218
mãos, inclusive os de Gaius. –– destacando as mãos enquanto
desaparecia como surgiu, do nada ao nada. Por que tanto mistério?
–– Gaius?! –– alto e engasgando repetiu Hassan, deixando a
bandeja escorregar com o susto. Marc deixou-se deslizar com a
palavra enquanto Sean dava uma piscadela em resposta ao
pequeno e assustado garçom.
E Sean se pôs a narrar o que vivenciou no campo de guerra,
através dos olhos da mente, numa visão perturbadora que aclarava
as obscuridades do manuscrito de Bernardo, dando-lhes novos
horizontes quanto quem seria o autor e verdadeiro codificador dos
diários de Miguel. Sempre que recordava sua morte, Sean reagia
com certa dor e angústia, mesmo que soubesse que a morte não
era efetiva e nem supostamente a sua. Agora estavam com outras
incógnitas, não tão novas, que envolviam uma trinca desconhecida
de Marc: Max, Raphael e decididamente Allan.
O mutismo do senhor Bernis se devia ao intricado mecanismo
de pensar. Nem toda a azáfama que a explosão ocasionava nas
redondezas do restaurante e do parlatório impulsivo do dono
distraia-o da iminente lâmpada a se acender num ponto acima de
seu cérebro. Porém não era suficiente para que ligasse os pontos
entre o que sabia e supostamente sabia com o que teria sobre a
escrivaninha do escritório. Tinham que sair, porém Sean o
impediu.
–– Nem pense em sair daqui sem me dizer quem é Gaius. ––
segurando forte o punho da camisa, sem que pudesse forçá-lo a se
sentar como almejava. Pouca idade, pouca força, muita coragem
para alguém como ele. Neste ínterim uma nuvem de fuligem
avançava pela rua afugentando alguns abelhudos que ousavam
alcançar Saint-Michel. Conveniente aos desígnios do garoto que
encarava Bernis recuar até o seu assento desocupado. Marc
perguntaria como eles descobriram, mas deixaria para mais tarde,
caso fosse o caso.
–– Estou perdendo a cabeça.
–– Posso garantir que seu desejo será atendido. –– apontando
para o tumulto de uma multidão em fuga desabalada.
–– Quando estive na Síria conheci um Gaius Cassius. Com
certeza você não quer falar disso, mas de como ele soube que eu o
ouviria. O fato é que eu não faço ideia, como ainda não sei como

219
ele me levou até Lucano. Mas para eu falar deles, precisamos ir
para o apartamento assim que possível.
–– Temos que levar Mateus e Tiago junto. –– estacou firme
diante de uma premente negativa.
Terminaram o lanche em silêncio.
O velho Hammed disparava em brados coléricos a sua
vergonha assim que o rádio enunciou o atentado com a suposta
participação de fundamentalistas residentes à periferia excluída de
Paris. Sempre os imigrantes revoltados que clamavam por justiça
social. –– Allah! Temos tanto o que aprender, e tão poucos
interessado no outro. São as muralhas particulares do preconceito.
A verdadeira jihad está dentro de cada um. –– ajoelhando-se em
contida prece.
Sean rememorava o atentado quando. –– Você não estava
indo para algum lugar?
–– Bem lembrado! –– pagou Hammed, transmitindo sua
solidariedade sem barreiras, levando Sean pelo cotovelo para a rua
que retornava um pouco à normalidade. Os resgates ainda
durariam dias. Descobrindo, entre os escombros, oito mortos e
quase duzentos feridos que tinham pais, irmãos, maridos, esposas
e filhos.
Se ali estava a fonte de suas respostas, não importava mais,
fosse o que fosse, estaria soterrado sob novos escombros que
deslizaram com o tremor da explosão. O acontecimento que havia
ocasionado o involuntário fechamento do Centro de Pesquisas
Biomédicas dos Cordeliers passara a ser a salvação de mais vidas.
Com a onda de choque chocalhando a terra, um novo
desmoronamento engoliu porção dos laboratórios e da esplanada
entre os edifícios mais hodiernos, sepultando a recém descoberta
catacumba por mais algum tempo.
Resignou-se Marc com a devolução de um só item salvo, sua
máquina fotográfica esquecida no dia do acidente com Sarah.
Pingava água e nem chiou quando tentou acioná-la a esmo. Sem
esperança. Talvez o cartão de memória sobrevivesse.
Agora policiais e bombeiros atendiam todas as estações
atingidas num raio de cinco quilômetros da praça Saint-Michel
trancando o trânsito de superfície como uma artéria entupida. Mas
o coração não parava de bombear e a cidade acordaria da pequena
cirurgia sob as prescrições de cautela.
220
Uma onda tensa preenchia o ar, carregando-o de um estopim
que, quando atingisse o nível adequado, provocaria uma explosão
de eventos nada agradáveis. As hostes que assaltavam a cidade
traziam maus pressentimentos e aceleravam a estupidez dos vivos
que, aos poucos, tiravam suas máscaras. Muito poucos
mantinham a índole intacta diante da coação sugestiva destes
diabinhos de ombro.
–– De quem você falava quando se referia a “eles”? ––
recordava-se Marc, refletindo se mantinha a mesma postura de
bom samaritano diante de Sean.
–– Aos exércitos de fantasmas que cercam a cidade. Eu
pensava que era tudo por sua causa, ou do manuscrito que já não
serve para mais nada. Porém não existe razão para que eles
esperem, você sempre teve o documento à vista! Até um completo
idiota saberia, basta olhar para a sua estante de livros.
–– É óbvio assim? –– suspirou resignado com a hilária
revelação de seu esconderijo.
–– Eu costumo ver mais do que o habitual. –– denotava um
Sean bem convencido.
Resignou-se. –– É, é óbvio sim.

221
16

o retrato de chaves

Dezenas de helicópteros zuniam violentamente em


direção ao epicentro da catástrofe antinatural. A cidade sempre se
organizava para tais calamidades apesar de se tornarem tão
corriqueiras quão a inexpressiva reação da população parisiense.
Estávamos sendo cozinhados em banho-maria.
Eles não viam, mas havia mais de um causador do mal-estar
coletivo. Alguns poucos acuavam para seus belos domicílios
gradeados de gritos artificiais; outros tantos mais, as atacavam.
Todo o trajeto seria um suplício sem fim. Retornaram ávidos
por elucidações, contudo o caminho estava interditado, teriam que
contornar a região seguindo as indicações dos policiais que
continham a turba por corredores de circulação improvisados.
Para onde Sean olhasse veria outra multidão pouco contida em
tentativas adversas. Buscavam destruir o pouco equilíbrio
alcançado com os órgãos de controle e urgência.
Subir os degraus, dois a dois, garantiria que suas vontades
fossem postergadas pela poltrona bastante convidativa. Só teve
tempo de lançar a máquina fotográfica sobre a escrivaninha de
estudo antes de se prostrar fatigado ao lado de todos.
Não estavam a sós.
Tiago, Mateus e um aborrecido Lucas ficaram aguardando
notícias dos dois, se bem que evitassem o confronto direto com os
bandos nada convidativos em suas faces desfiguradas e
imprecações de línguas soltas que se aglutinavam próximo do
edifício. Não era uma invasão, mas surtia o mesmo efeito.

222
Aproveitavam-se do caos para fomentar suas influências e fixar
suas posições de batalha. Eles aparentavam alguns grupos
isolados e heterogêneos com suas fardas disfarçadas sob a égide
de águias ou dragões, que tiveram, cada um ao seu tempo, direitos
sobre o mesmo solo onde agora estavam.
–– Qual será o tema da semana? –– resmungava ferino um
Tiago inconformado com a covardia do irmão.
Sean saltou para a estante, sacando o volume apontado por
sua anacrônica aparência e trazendo consigo seus contíguos
representantes para uma queda estrondosa, entretanto estava com
o livro cobiçado são e salvo em suas mãos. Mesmo que para essa
agitação brusca estivesse estatelado no pavimento, embaixo de
uma chuva de novos exemplares.
–– E o que era que estava procurando com tanto afinco? ––
auxiliava Mateus ajeitando os livros numa pilha sinuosa enquanto
apontava para a porta escancarada. Soldados de lanças douradas
olhavam curiosos para o interior do apartamento, seguidos da
dupla de guardas truculentos que costumam pajear a residência
dos Fox. Eles retribuíram com sorrisos antes de se posicionarem
ladeando o umbral. Os soldados sérios que se portavam como
legionários do mais alto escalão romano giravam os olhos
inconformados com as criancices dos vikings infatigáveis,
verdadeiramente hiperativos.
Devagar, Mateus se aproximou com gestos de boa vizinhança,
pedindo escusas enquanto encostava a porta afugentando olhares
furtivos dos quatro pelas frestas que desapareciam. Não importava
quem fossem, estavam sendo intrometidos além da conta.
Retornou balançando a cabeça, confuso com a situação toda.
Tiago se aproveitava para desmontar o aparelho submergido
resgatado por Marc quando disparou um flash inadvertidamente.
Os Göettees seguravam a ansiedade.
Marc ergueu-se involuntário, abriu uma bíblia cheirando a
novidade e a endereçou ao inquisitivo Mateus que parecia exigir
explicações. Marcou o evangelho de Lucas. Mais precisamente no
capítulo 23 versículo 46, que o rapaz repetiu por entre os dentes
entreabertos: –– “Então Jesus clamou em alta voz: Pai, em tuas
mãos entrego o meu espírito! E dito isto, expirou”.
–– Até aí tudo mais ou menos parecido nas intermináveis
versões que existem. Bem, há também alguns erros de grafia que
223
o tempo até admite. Vou lhes descrever o que aconteceu entre os
versículos conhecidos, enquanto Cristo ainda permanecia no
Gólgota. –– tirava o volume antiguíssimo dos braços de Sean.
Lendo as anotações francesas de um texto em idioma complicado.

Das trevas ressurgiram as luzes que consumiram


Jerusalém. Os anjos se calaram diante do Galileu. E um
por um eles tombaram ao solo quando Jesus, de braços
abertos, sorriu para aquele que o via.
Um dos anjos, a quem é como Deus, ergueu a fronte
e falou ao Mestre: Porei-me à terra e continuarei vosso
caminho. Então Jesus lhe respondeu de seu reino: O
farás. E guardarás a palavra até que o Espírito da
Verdade advenha aos homens;
também receberás as benesses dos nascituros,
esquecerás o passado até que estejas preparado. Então
uma vez seguirás para o norte, onde terás teu nome, e
iniciarás a palavra. Naquela mesma hora o anjo perdia
suas asas.
O homem estava ali e chorava em presença do
Galileu imortal. Jesus lhe pediu: Quando perguntarem
de mim, dize-lhes o que vistes. Um te recordarás. E o
outro te esquecerás. E estarás guardado em meu gesto.
Vendo o centurião o que tinha acontecido, deu
glória a Deus, dizendo: Verdadeiramente este homem
era justo.

–– Perceberam?
Eles não entenderam nada, era tudo insonhável. As
implicações destes parágrafos abalariam o mundo? E o que Gaius
tinha a ver com este trecho?
–– O que é espírito da verdade? –– fez sua primeira
indagação com ênfase, Tiago. –– Ele quem perdeu as asas? –– e
continuou atropelando-os. –– E o centurião, quem é? Quem o via,
quem? Qual gesto... –– para desgosto de Lucas que não havia
percebido que deixava escapar algo desta inquirição.

224
Ninguém sabia ao certo o que responder diante destas dúvidas
enigmáticas, nem mesmo Marc que supostamente seria perito em
alguma coisa do gênero história da humanidade, ou muito velho
mesmo para se lembrar. Alguns flocos de neve bateram contra o
vidro anunciando a chegada de uma tempestade que
redemoinhava abaixo de cúmulos que acinzentava o horizonte. Lá
fora, quem podia ouvir, escutaria uma discussão a quatro-bocas
que indicava as mesmas agitações oferecidas por Tiago.
Bernis pediu tempo, insinuando com as mãos, como um
técnico de algum desporto faria. Pensava que as deturpações, as
interpretações fantasiosas e os religiosos da fé cega jamais
deixariam vir à tona esta pequena grande verdade. Os exércitos
dos dragões poderiam ficar sossegados, os seus aliados vivos
seriam mais eficientes.
–– Jamais iriam acreditar, mesmo que o documento seja
verídico, não há como provar que foi redigido por São Lucas. E
mesmo que aceitem esta hipótese, alegariam que ele nunca esteve
à crucificação, recolhendo suas impressões muitos anos depois. E
este trecho em particular, da boca de um soldado romano. ––
arrematou um Marc Bernis melancólico que não disse como sabia
que a fonte deste extrato era o mesmo centurião.
Como ninguém conseguia abrir a boca para acrescentar sua
opinião, nem mesmo Tiago, que era propenso a falar pelos
cotovelos, calaram-se aguardando que a rotina lhes alcançasse. O
que não impediu Mateus de se aproximar do livreto encarquilhado
sacando outras folhas que não haviam sido mencionadas.
Sean observava a nevasca afugentar as pessoas no logradouro,
inclusive as que não se importariam, se quisessem. As luzes se
acendiam, progredindo a partir dos pontos mais enevoados como
se fossem tochas enfurecidas caçando um monstro em fuga. Um
monstro que não teria pernas nem braços, entretanto possuía a
ferocidade de um enxame, de uma epidemia que absorvia a todos.
–– O soldado é Gaius, não é? –– conferiu Sean, deixando cair
involuntariamente a sua mochila que esparramou as suas coisas
pelo chão. Tiago retornou para ver o que acontecia. Ficaram
ambos se encarando nos primeiros segundos.
–– Você sabe de alguma coisa que não quer me contar? ––
disse Bernis, com olhar desconfiado. Catavam rapidamente as
tralhas.
225
–– Talvez. –– forçando a memória. Andou até a mesma
janela. Lá fora os fantasmas rodeavam o edifício como se
preparassem para escalar uma muralha transparente e pular sobre
a sua presa. Os seus movimentos eram constantes, como em uma
colmeia em trabalho incessante. Eles estavam diferentes, mas no
quê, pensava Sean.
Marc segurava displicentemente o diário que saltara da
mochila, improvisando um jeito de mantê-lo inteiro com o adorno
que recebera no oriente e não lhe servia mais. A singela cruz de
madeiro puído fez-se de fecho para o livro de bolso que socou na
mesma secção da mochila do qual despencara. Ele não se
importou em se desfazer do amuleto.
Sean empalidecera.
Foi Marc quem o tirou daquele estupor branco recomendando
que o acompanhasse até o Louvre, caminhar alguns minutos seria
revigorante. Quem sabe para ele que não teria que passar em meio
àquela gente incorpórea.
De um brado retumbante, Mateus anunciou a incursão de um
bando de bárbaros mongóis que provocou a infalível reação de
Tiago contra a porta já bem resguardada por oito braços armados.
De costas, contraindo-se ferozmente enquanto enfiava a peças
sobressalentes da máquina em um bolso conveniente. O embuste
de Mateus fora seguido das gargalhadas unânimes. –– Não acha
que a porta os segurará, acha? –– Só se for para refrear os ânimos
que estavam em queda vertiginosa.
Mas Lucas não entendeu a piada. Queria saber do quê se
tratava, mas estava muito aborrecido para perder tempo com
bobagens.

Tufos brancos já cobriam os telhados.


E em chãos, o impacto daquela visão dantesca deixou o
garoto duro sob o pórtico enquanto Bernis gesticulava que o
seguisse fazendo coro aos fantasmas que riam e grunhiam
imitações exageradas das palavras ditas. –– Venha, Sean! Venha
garoto, estamos com fome. Comemos crianças no café da manhã e
usamos seus ossos para palitar os dentes depois –– e gargalhavam
estrepitosamente.
–– Vocês vêm, ou não? –– retornava Bernis e Tiago juntos.

226
–– Oh, no way! Falar com os mortos não é nenhum
superpoder, vocês sabiam!
Agora Lucas havia entendido a piada. Ninguém parecia
preocupado em explicar que fantasmas existiam para ele.
–– Vocês vêm, ou não? Heim!
Os quatro guardiões gesticulavam nãos com os dedos soltos,
tiravam literalmente o corpo fora. Apoiavam-se animados contra a
parede, aguardando o desfecho, só faltava a pipoca e o
refrigerante. –– Não entendo vocês... –– E voltou-se para a turba.
–– Só se for de olhos vendados... –– soprou sem pensar.
–– Que seja então. –– piscando cúmplice para Tiago. Em
questões como essa Tiago fazia-se de mudo e, abençoadamente,
cego.
Marc Bernis puxou o garoto e o pôs no ombro como um saco
de batatas que se acomodasse quieto e imóvel. Nem um pio até o
museu quando os gritos se calaram e um grande alvoroço se
seguiu à evasão dos homens. Estava satisfeito, apesar da
curiosidade em saber o quê os teriam feito correr em disparada
qual o diabo da cruz.
Lucas estava tonto quando Tiago percebeu a gafe, ninguém
havia contado a ele sobre os fantasmas. Nem saberia se ele
acreditaria se o contassem, mas estava muito claro que ele havia
reagido muito mal à notícia. Ele balbuciava perguntas que Tiago
não sabia contestar, pois também nada via. Mas das vezes que
lances inexplicáveis aconteceram e ele não pode ignorar, teriam
ajudado Lucas a acreditar em tais lances. E foram exatamente
estes que contou para seu irmão, na expectativa de que servisse de
precaução contra novas.
Porém Sean só pôde ver, desta vez, os fugitivos evaporando
por entre as brumas de um nevoeiro suspeito que brotava do rio
Sena e que se espalhava pelas ruas tornando o ar denso o bastante
para se apoiar. Mateus seguia-os, colado o suficiente para que se
sentisse levemente seguro entre tentativas infrutíferas de braços e
mãos em chagas horripilantes. As nuvens ajudavam a encobrir os
rostos, mas não impedia o susto de aparições inesperadas.
–– Sabe de uma coisa? –– falando para si. –– Estes espíritos
se vestem muito mal.
De forma inesperada uma brecha se abriu revelando uma
esquadrilha em formação. Estavam em patrulhamento de baixa
227
altitude o que permitia identificar suas insígnias. Mateus olhou
aleatoriamente para o alto, acostumado com o sobrevoo de
aeronaves, mas estas não evitaram que ele parasse uma segunda
ou terceira ocasião tentando entender do quê se tratava. De
soslaio, na primeira observação, viu que eram à hélice. Como
quem não estava satisfeito, mais atentamente, percebeu narizes
amarelos à carenagem dos mesmos. Enfim, retrocedeu para uma
nova averiguação que se fixou em suásticas circunscritas de
messerschmitts e junkers mergulhadores.
Sean também os notou. Estava mais preocupado com um
ataque kamikaze. –– Criar uma revoada de pássaros assustados
resolveria?
–– Creio que para estes tipos, não. Depois, não estou vendo
nenhum pássaro por perto. –– e o inverno se declarava.
Mas acompanhando os aeroplanos estavam criaturas de cauda
e longas asas que, indestacáveis em seu planeio, passaram
despercebidas dos garotos; animais que só existiam em lendas da
idade média e que poucos conseguiram derrotá-los. São Jorge
fincara sua lança em um, outros seguiram-no com algum triunfo,
contudo, a grande maioria jamais retornaria viva.
Agora algumas dezenas de aeronaves zuniam ameaçadoras.
Um assalto por terra, um quase-outro por ar, o que ainda viria
pela água?!
O rio borbulhava.

Percorrer as exposições do Louvre seria corriqueiro traslado à


multidão de turistas que aí se afluem diariamente. Portanto não
seria simples a quem enxerga mais do que quadros e esculturas.
Ainda tinham em mente o confronto com a guarda napoleônica
no subsolo do complexo. Nem mesmo Tiago deixava de se
inquietar com uma eventual reprise do episódio que Lucas
acabava de descobrir, para pavor seu.
Os guias deste Louvre diáfano atravessariam as alas e
exposições onde não haveria problemas. Inapropriadamente as
secções de pinturas e gravuras estavam acima de suas testas. Eles
estavam na asa Richelieu, que alberga as esculturas medievais,
seguindo cautelosos até o acesso subterrâneo à Pirâmide de
cristal. Os poucos exemplares etéreos que insistiam em ficar
perambulando, estavam mais preocupados com a mais perfeita
228
pose ou na análise profunda da falange do pé de um anjo barroco
ou talvez neoclássico. O pior estava para vir, uma passagem
enervante pelo âmbito medievo e suas armas afiadas e temíveis,
para acabar, se sobrevivessem à aflição, dentro das antiguidades
egípcias e suas múmias não tão sossegadas.
Todavia, as muralhas da fortaleza do antigo Louvre não
defenderiam o acesso oeste de novos cercos ao burgo; subterradas
e encaixotadas pelo esqueleto de um Louvre menos monárquico e,
que aos poucos, fora remodelado por construções mais recentes e
insólitas. Nem tampouco proteger aqueles que aceleravam o
passo, evadindo-se dos quietos e impassíveis olhares dos elmos
dos cavaleiros em seus guarda-roupas de cristal límpido como a
água que jamais viram.
Marc já não o consideraria um ambiente tão íntimo como
antes. Cada artigo em exibição tinha uma biografia que envolvia
indivíduos, multidões ou povos dos quais poucos teriam tido
finais felizes. Era bem provável que, quem quer que esteja colado
a estes artefatos muito ambicionados, não quisesse que fossem
tomados. Quem sabe até estejam, às centenas ou milhares de
proprietários, discutindo o domínio em questão. Nada mais lógico.
Mas assim que, alguém bem vivo o possuísse, não haveria
mãos que pudessem evitar, se bem que a coleção de antigos donos
acompanhariam a excursão da peça até sua revigorada prateleira
de mogno empoeirada. Amontoados em velhas discussões.
Para Mateus e Sean, estas ideias não passavam de imagens
assustadiças e reais. A imaginação de Bernis não o diferenciava
das certezas da vida. Bastava conhecer a natureza humana, sendo
ela neste ou noutro mundo, acima ou abaixo deste. As razões nem
sempre são evidentes, porém quem as tinham, controlava ou
modelava as demais ao seu bel prazer. Meta e força de vontade
servem tanto para conquistas do espírito humano quanto para a
destruição delas.
O escritório continuava desorganizado, como era a forma de
organização de Marc redigir suas pesquisas. Um pouco de ordem
se devia aos arquivos demarcados por Sarah com tarjas coloridas e
armários setorizados. Um computador estava operacional,
assoprando um ruído enfadonho de seu cooler que parecia não
querer se desligar. A luz era delicada e se agrupava em bocais de
abajures e direcionais de quadros ou comentários de canetas
229
vermelhas e negras num painel. Muitas fotografias referenciavam
locais e artefatos, outras eram mais particulares, vida acadêmica e
amigos em trabalhos. Mas as mais importantes estavam num
álbum detrás de sua cadeira de serviço, seus pais, avô e momentos
inesquecíveis que poderiam ser clareados de vez em quando,
sobretudo quando a memória começasse a descartá-las
impiedosamente.
Os casacos voaram sobre o cabideiro.
Um telefonema ansiado desanuviou sua apreensão quanto ao
estado de saúde de Sarah para ânimo de um Sean que tivera pouco
tempo em sua companhia desde o imprevisto na cripta submersa e
o seguido pânico do resgate peculiar.
Os papéis sobre a mesa de tampo luminoso estavam onde ela
teria visto pela última vez, cada folha possuía um cartão anexado
com esclarecimentos tão sutis quanto a intuição feminina
desejasse ocultar. As cores eram citações que Marc desconhecia,
ou não fazia questão de saber. Um copo de café fez ele esquecer
qual das duas por um momento.
–– Temos que solucionar quem é quem nesta questão sobre os
fantasmas e o códice. Bernardo, Francesco, Max, Raphael, Allan,
espírito da verdade – só para constar – e, faltou alguém?
Tiago, Mateus e Sean, em coro, gritaram: –– E Gaius!
Este ele sabia de cor e salteado, queria descobrir os outros
para chegar ao pergaminho desaparecido, escrito por um e levado
por outro até aquele que indicaria quem deveria guardá-lo sob sete
chaves. Talvez só uma bastasse. Mas havia nota de quê poderiam
ser duas. –– Eu guardarei o pergaminho que me confiastes e o
depositarei sob a minha insígnia e o seu símbolo. –– como repetiu
Sean em sonhos.
Se ele fumasse esta seria uma ótima oportunidade para tal,
porém conteve-se em continuar com o café que esfriava além do
ponto de saborear.

–– Gaius Cassius era o legionário romano que presenciou a


morte de Cristo. –– mas não era só isso –– Foi ele quem o
apunhalou no tórax com uma lança.
Aparentemente os garotos ignoravam o evento, sendo que não
falaram nada, davam de ombros, sem entender. Nem todos eram

230
adeptos do estudo e da pesquisa, nem sequer mantinham os
ouvidos abertos durante as aulas.
–– Então ele era mal! –– que resumo grosso.
–– Não, nada disso. Pelo que soube, o homem reagiu à
tentativa dos sacerdotes de impingirem mais sofrimento a Jesus.
Parece que eles haviam quebrado as pernas dos ladrões que
estavam crucificados ao seu lado. O próximo seria...
–– Então o soldado acelerou o processo com o que tinha em
mãos... –– que Tiago curto e grosso.
–– E ficou arrependido convertendo-se ao cristianismo. Além
do fato de ter sido curado das vistas com os respingos do sangue
de Cristo. Ainda não estava cego, possivelmente estava na
província, meio que afastado, por apresentar sinais de catarata.
A conversão não era marcada só pelo milagre, no entanto
havia um componente de perdão e arrependimento que propiciou
que ele encontrasse um novo caminho, mais fraternal e justo. Sua
vida seria perpetuada pela conversão, mas foi sua ação moral que
determinaria a sua evolução e por isso merecia a estima de ter se
tornado um santo. Esta passagem provocou revoluções de
sentimentos estranhos a Sean, que restringiu suas emoções à mais
forte delas, o compromisso.
–– Desde então ele e sua lança percorreram caminhos
distintos, adotando nova designação de lançador: Longinus. ––
revelou Marc.
O caminho da lança finaliza, nos dias de hoje, no museu
austríaco de Hofburg após ter supostamente estado com o führer
na última grande guerra. O mito criado em torno do talismã
bifurcava para duas personagens que se opunham.
Há uma lenda ligada a esta lança que diz que quem a possuir e
decifrar os seus segredos terá o destino do mundo em suas mãos,
para o bem ou para o mal. Porém tem sido mais usada como
instrumento de conquista e opressão. E não era isso que eles
queriam.
Para Marc não passava de uma fábula sobre um artefato que
pouco representava, inclusive aos austríacos, senão eles seriam
uma nação inigualável; ou a lança do destino era só uma história
para ninar. Mas Longinus existiu, senão quem o guiaria até o
extrato apócrifo de São Lucas que agora estava diante de seus
olhos?
231
–– Como veem, tudo que promete demais, acaba cedo demais.
Com a ajuda de Mateus, eles inverteram um extenso quadro,
desobstruindo seu verso. O pergaminho de pele brilhava protegido
por um composto sintético aprovado para a recuperação de
documentos muito antigos. No anteverso, letras gregas miúdas e
sem separações reproduziam o que São Lucas exprimiu como os
eventos no monte da caveira. O que estava camuflado, agora
revelado, era o documento mikhae. O mais antigo e não menos
intraduzível, com seus mesmos símbolos gregos impressos num
mesmo rolo exposto.
Com uma folha cândida Marc rabiscou uma sequência de
letras reconhecíveis e fixou-a abaixo do referido parágrafo. Com
uma caneta bastão circulou, no vidro, sobre o pergaminho, a
cártula que correspondia ao vocábulo traduzido de mikhae ou
mixael. Para cada uma das fotografias espalhadas no recinto ele
colou uma lâmina similar. Para linhas, rabiscos, curvas e alfabetos
raros havia uma compilação em letras de nosso abecedário. Com
exceção das cártulas circuladas, mesmo em letras reconhecíveis,
os textos continuavam sem sentido.
Eles percorriam os olhos num giro pleno antes de terminarem
seus exames sobre o descobridor que empurrava a papelada em
busca de um manifesto da batalha de Damietta, com nomes de
destacados militares, alguns religiosos e pouquíssimos capturados.
Todos mortos, em batalha ou dormindo, não havia distinção.
–– Uma emboscada ao acampamento situado num dos ramais
do delta do rio Nilo dizimou duas frentes de defesa. Uma delas era
constituída por cavaleiros teutônicos. Os nomes de dois oficiais e
do médico de campanha batem. –– para alívio dos curiosos.
Maximilian e Raphael diziam respeito à casa dos Lenffers,
grafia germânica, que provinham de Lotharíngia, ocupada por
outra contemporânea designação, Lorena. Estado independente
que, com o correr dos séculos, e movimento das marés políticas,
pertenceria à Germânia ou França. Inconstância que transparecia
na relação entre os irmãos Lenffers, gêmeos de opiniões
conflitantes, como denota o pouco histórico incrivelmente
amealhado, anexado ao manifesto assim como algumas missivas
protocolares.
Era presumível que quem controlava e intercambiava as
relações dos gêmeos fosse o médico de campo, Allan cujo nome
232
de ascendência apagou-se como a margem do pergaminho
desenrolado.

Guarini se locomovia distraidamente de um lado para o outro,


enfiando a cabeça onde não era chamado com relevante cuidado,
de mãos cruzadas às costas e boitatá nelas. Tanto papel velho e
esturricado seria perfeito para um incêndio inexplicado que teria a
marca sutil do focinho de Mbaê.
Eles não estavam prestando a devida atenção ao diz-que-diz;
quando eles tivessem resolvido as preliminares interagiriam
conforme as circunstâncias. O indiozinho sabia que haveria
algumas opções, todavia, a grande maioria tão insolúvel quanto o
pretexto pelo qual as portas do abismo se abriram lançando as
hostes que corriam sem trégua para ali.
Ele já se impacientava com o atraso.
Acercou-se de Mateus que instintivamente agarrou-se ao
computador analisando os arquivos sobre a batalha dos cruzados.
Mas não era isso que responderia suas investigações. O índio
puxou com um gesto de venha-aqui o homenzarrão que guardava
o pórtico do escritório. Asgard em seu sorriso pueril, de braços
graúdos como sua clava, espantou Sean que recuou uns passos
contornando Mateus encabulado. O grandalhão propunha-se
balbuciar alguma palavra-chave que fosse relevante, por
movimento de aquiescência de Guarini. Abriu a bocarra sem
emitir som, mas antes que a selasse soprou:
–– Wikipedia. –– Tanto espanto que Mateus boquiaberto não
reagiu. O brutamontes ergueu as sobrancelhas insinuando estar
confundido, todos que podiam escutá-lo estavam parados. Até
mesmo Guarani que esperava algo menos tecnológico.
–– Bjarmaland. –– complementou Asgard.
Uns cliques após e aparecia o artigo armazenado na rede
mundial sobre este território na Europa Setentrional que é
mencionado incansável nas Sagas Nórdicas. Mas Asgard insistia
que pulássemos as elucidações gerais com uma pressa empolgante
até para ele. Apontava com extrema alegria para si em atenção ao
companheiro que se afligia com o caráter pouco confiável
apresentado por um guardião deste naipe. Sean repetia uma
tradução para que todos ouvissem: –– “Parece que os
escandinavos fizeram uso desta rota de comércio, somado àquelas
233
realmente trafegadas pelos Varangians. Em 1217, dois
comerciantes noruegueses chegaram em Biarmland para comprar
peles; um deles seguiu mais ao sul atravessando a Rússia e
conseguindo chegar a Terra Santa, onde participou das Cruzadas.
O segundo mercador que ficou foi, por sua vez, morto pelos
Biarmians”. –– O mercador ainda apontava o dedo para si,
orgulhoso.
Marc começava a dar crédito aos fantasmas, era a última
incógnita no seu trabalho de busca pelas origens do códex mikhae.
Que o descobrimento de um símile o transpusesse do Oriente
Médio para o Mar Branco era até admissível, entretanto que os
originais tivessem sido levados até lá, em meados do século treze,
exigia muita imaginação. Quem seria acusado por esta
impossibilidade! Deparara-se com uma probabilidade, por mais
estranha e extraordinária que fosse.
Entre o norte e o sul havia uma ampla terra inexplorada,
insolente e permeada de conflitos e pragas, mas alguma pessoa a
atravessou. E regressou com algo precioso.
Para Marc complementar. –– Os sobreviventes da batalha
seguiram para o norte, retornando para Acre ou Antioquia, na
Síria. Com o golpe religioso aos cavaleiros templários, aqueles
que aproveitaram a chance, saquearam os vilarejos e seguiram
para outras regiões. Tem-se conhecimento que a ordem dos
cavaleiros teutônicos se dirigiu para o báltico. O ponto de
conflito, onde os comerciantes possivelmente teriam capturado os
documentos saqueados, aconteceu em 1242. –– que recebeu uma
afirmação repassada por Sean a pedido de Asgard e Hyeron. ––
Batalha de Gelo. –– arrepiou-se Mbaê que criou.
A aparição surpresa da indiferente salamandra-de-fogo
espantou Sean e Mateus que preferiram acuar até o agora menos
temível Asgard. Guarini gritou para Mbaê voltar para o seu
embornal. Ela olhava indignada, bufando, enfadonha, minúsculas
labaredas fumacentas.
Porém, a mesma destruição moral que esta luta ocasionou aos
teutônicos lituanos pelo mártir-russo Alexander Nevsky de
Novgorod seria re-encenada pelos nazistas alemães na sua retirada
coagida de São Petersburgo. Os papéis estariam seguros em sua
viagem a uma, para sempre congelada, aldeia na foz do rio Dvina,
na cidade pós-bjarmaland de Arkhangelsk.
234
Por poucos segundos a descoberta seria notícia, se não fossem
interrompidos por Tiago que se aproveitara da situação in vacum
para inserir o cartão de memória, resgatado da máquina
fotográfica salva dos escombros do convento dos cordeliers, no
compartimento de entrada do monitor de plasma usado em
teleconferências muito menos interessantes.

As duas chaves resplandeciam distorcidas abaixo de uma


lâmina de água translúcida.
Agora as chaves estavam soterradas.
Levaria algum tempo, mas estaria lá.
O manuscrito de Raphael, Allan e Francesco.
Quando o subterrâneo sacudiu ameaçador.
–– Não gosto da ideia de ficarmos embaixo do solo. Bem
agora que os dragões estão sendo acuados de suas prisões
seculares. –– Guarini deixou bem claro.
A boitatá ainda bufava e resmungava.

235
16 ½

a dissensão

Bastavam poucas palavras para que os homens ao seu


comando o seguissem cegamente; para cada divisão de seu
exército havia homens de confiança. Para cada agrupamento, seus
subordinados teriam seus próprios homens de confiança que se
olhavam com muitas desconfianças. O que os impediam de
insurgirem-se contra a cadeia de comando era a ignorância que
traziam junto com sua bagagem.
E o medo.
Medo de infligir ordens e suas retaliações. Se todos
resolvessem não dar seriedade a estes métodos aflitivos,
descobririam que não haveria quem os punissem. Alguns poucos
sabiam que bastava pôr em dúvida a hierarquia e as legiões
comandadas se transformariam em turba caótica.
E esta coesão já estava se fragmentando.
À medida, porém, que se questionam, o horizonte se lhes
ampliavam, e eles compreendiam o bem que está diante de si
como compreenderam o mal que lhe está atrás. Mas não estão
prontos, ainda estão no meio do caminho. O caminho que
conhecem, de dores e misérias. Qualquer dissensão agora seria um
impacto tão grande que causaria caos e desestruturação destes
seres sofredores e vingativos.
Três comandantes se esforçam para adiar este momento que
pressentem iminente. –– O que nos mantêm juntos pode provocar
nossa derrocada.

236
Davidson e herr Rommel prontamente concordam, mas para o
capitão Sixderniers se torna mais intricado. Mas finalmente ele
consente com a situação desastrosa que se aproxima. Questões
particulares eram esquecidas quando os dragões exigiam plena
participação em seus planos. O pouco que estes poderosos
subordinados sabiam tornavam-nos tão marionetes quanto seus
peões de guerra. Não divisavam que suas ações não passavam de
vãs tentativas de conseguir o que estava inexoravelmente perdido.
Os dragões lutavam desesperados para evitar, mais uma vez,
que seu mundo fosse desmantelado. As fossas abissais foram
abertas e as vítimas e verdugos libertados, avançando para a
superfície do planeta em convulsão. Para todo o resto parecia uma
invasão, mas existiam outras razões que, até os draconianos
desconheciam quando tudo que estava acontecendo provinha do
céu. Toda a operação já estava comprometida, eles não sabiam. A
maioria somente busca os prazeres de vícios, orgulho inflamado e
egoísmo exacerbado para criar mais poder.

Capitão Sixderniers, ignorando ser uma peça descartável,


tamanho o seu orgulho, prontificou-se a suprimir o que estava
ocasionando a fraqueza da operação de batalha, Max Lenffers, o
cavaleiro dos infernos.
Se alguém estava esperando que o Inferno congelasse, este dia
havia chegado.

237
17

francesco bernardone

A imagem fotográfica capturada, instantes antes da


cripta romana dos cordeliers desmoronar, provocou uma mudança
nos planos de transcrição do códex mikhae. Agora, em vez de
alguns anos, talvez fossem acessíveis em –– digamos –– alguns
poucos dias.
Para Sean e Marc Bernis a mesma dúvida afligia seu martírio
e se repetia como uma cantilena monótona que não saia da cabeça.
Se pudessem constatar, teriam percebido que alguém insinuava a
dúvida. A citação era já bem apreciada dos dois –– Eu guardarei o
pergaminho que me confiastes e o depositarei sob a minha
insígnia e o seu símbolo. ––, inteiramente dos lábios de um
Francesco perdido dentro da cabeça de um garoto.
Como ter certeza de que os símbolos são estes, a folha da
videira estava corroída, assim como a segunda marca que se
assemelhava a uma cruz. Cruzes em catacumbas cristãs eram
entalhes modernos, medievais. O sepulcro cabia a este período,
mesmo que todo o resto fosse dos primeiros séculos e os supostos
cristãos fossem identificados por uma simplificação do desenho
de um peixe sem escamas ou nadadeiras.
Mateus cutucava Sean com insistência. Seu objetivo era que
ele observasse os fantasmas recuando com pressa indisfarçável,
esvaziando o recinto que ficava agora desguarnecido de guardiões
tão providenciais.
Entretanto Lucas continuava mexendo onde não devia,
derrubando parte dos papéis que compunham algumas torres que

238
ladeavam o bordo de uma mesa de apoio. Ficava nervoso em não
saber o que estava acontecendo ao seu redor, fantasmas
tagarelavam e ninguém parecia se importar com ele. Por isso que
acabava esbarrando e tropicando nas coisas, talvez conseguisse
alguma atenção forçada. Porém, estas torres não-Marchianas,
nada cromáticas, mas bem aparelhadas, eram o levantamento de
Sarah acerca de três eventos importantíssimos, os Cordeliers, a
batalha de Damietta e muitas revistas de moda Vogue.
O garoto desastrado não tinha como disfarçar suas faces
rubras pelo deslize cometido, enquanto Bernis se agachava para
recolher os destroços. Bem observado, junto destas informações,
estava um livro de referência que utilizavam para algumas
anotações biográficas. A página em evidência estava selecionada
por um grosso envelope pardo. Na etiqueta, a descrição da adaga
e um resumo do departamento de catalogação confirmavam ser do
sultão Melek Al-Kamil, o ofensor de Damietta na fatídica luta
narrada por Bernardo. –– mais outra coincidência.
Ele girou o envelope avaliando seu peso antes de atirá-lo
sobre o aparador igualmente atulhado de documentos retorcidos e
livros marcados por dezenas de línguas de marcadores
improvisados. O volume em suas mãos contava com uma pequena
narrativa reconhecida com certa estranheza. De como a adaga
chegara até ali, havia uma possibilidade que só este acontecimento
traria esclarecimento.
–– É, tinha alguém dentro do campo de batalha com certa
influência ou neutralidade entre os dois exércitos. Alguém que
possuía um salvo-conduto para seguir as Cruzadas, dado por um
Cardeal. Alguém respeitável aos olhos do exército inimigo,
reverenciado por Al-Kamil. Alguém que retornou incólume.
Alguém...
Ele retrocedia uma folha para rever o título do capítulo que,
para seu espanto, conferiu com a sobrecapa do livro antes de
soltá-lo a esmo. Sua atenção estava na frenética busca ao
manifesto de guerra. Só havia conferido os militares ou
Bernardos. A obra, que agora estava com Mateus, permitia que
todos os demais soubessem do que se tratava: santos católicos,
suas biografias.
–– Existe um Francesco no inventário. –– pasmo. ––
Francesco Bernardone... –– E disse isso com incredulidade e
239
júbilo. Tinha o elemento que lhe ensinava como chegar ao correto
manuscrito, aquele que simplificaria o significado de um diário
espalhado pelos quatro cantos do mundo como um bizarro códice.
A folha de uva, da videira, estava presente como símbolo do
codificador mikhae. A suposta cruz, do crucifixo de Santo Antão.
Crucifixo de Santo Antão –– que em voto de pobreza fora imitado
–– posto diante do altar da capela de São Damião, sobre o altar da
igreja de São Damião em Assis indicava a outra insígnia. E na
cabeça de Marc ressoou vívido de suas lembranças do passado. ––
“Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Restaura-a
para mim!”.
Mateus mostrava o capítulo que vincara o livro biográfico dos
santos quase o partindo em dois para os garotos que, com a
surpresa, soltaram longos e apalermados hãs.
–– São Francisco de Assis!
–– Tal qual. –– gaguejava Marc. –– Acho que agora temos a
personalidade que nos dá o crédito que precisávamos para confiar
que os documentos, o códex, os diários sejam sérios. Não acham?
Acenaram um sim.
–– Necessitávamos de ambos os símbolos combinados para
que o local fosse demarcado. O que faltava era a assinatura de São
Francisco, que costumava registrá-la como um T. A cruz de Santo
Antão, o tau grego. –– e sobre a imagem do televisor ele grafou e
contornou ambos, assim como acentuou o título na lápide seguida
de uma época. –– Temos o tau, temos a videira, temos...
Forçava a vista buscando compreender as garatujas que
compunham uma inscrição e números. Na fotografia adjacente
teriam a resposta refletida por uma iluminação inclinada que
aumentava as sombras do baixo-relevo esculpido na pedra
submersa. –– Allan de Sint-Miqels, 1219. Damyat. E ligeiramente
abaixo deste, um epitáfio insólito. –– Ninguém me presta auxílio
para estas coisas senão Miguel, vosso Príncipe.
Como diria Marc, em espasmos de cientista louco. ––
Espantoso. Ou este ano é uma confluência temporal ou é só outra
coincidência.
–– Coincidência?! No way, man! –– Sean reforçou sua
certeza e dos outros. Gaguejando em outra língua o que constituía
apropriada confusão ressuscitada.
O subterrâneo ecoou imediatamente.
240
Os cinco pensavam cinco coisas diferentes, no entanto, quem
agiu com maior ligeireza fora Marc que se atracou com o
cabideiro extraindo seu casaco. Por instantes voltou-se para os
garotos, ensaiando uma escusa para a súbita fuga. Ergueu a palma
da mão pedindo que esperassem e mudo, sem dizer uma única
palavra, pensando uma coisa e fazendo outra, saiu.
Os demais, sem reação, se espremeram no pequeno sofá de
três lugares, avaliando o próximo passo. Lucas abria e fechava a
boca sem emitir sons, não conseguia construir uma frase sequer
sem que parecesse redundante. Tiago confirmava balançando a
cabeça.
A manhã já terminava, e eles estavam famintos.
–– Estou com fome. –– ergueu Sean que já se vestia com
dificuldade. Eles não retrucaram, pularam sobre as jaquetas
forradas e amarrotadas e puxaram Sean com eles. A luz do sol
caiu como um alívio ansiado, carregando-os sonambúlicos através
da grande ilha de la citè.
Estavam defronte à oclusa praça Saint-Michel, cingida por
veículos de serviço e gente atarefada na desobstrução da estação
de metrô e no religamento das artérias de cabos e encanamentos
rompidos. Ao longe, a estátua ainda parecia vigiá-lo cobrando um
antigo pacto. Sean não entendia a sensação.
A chuva de destroços havia marcado o chão, deixando um
espaço em branco, exatamente onde ele estava mais cedo. Um
círculo absurdamente limpo, sem pedriscos ou rachaduras.
Mateus percebeu os pensamentos.
–– Não sei todas as coisas. Mas não posso negar que estamos
mexendo com algo que não devíamos.
–– Está enganado, somente nós poderíamos. –– corrigiu Sean.
–– Tomara que você esteja errado.
–– Tomara.
Contornaram as fitas de segurança chegando a discreto
restaurante no quai du Marche Neuf, que com o frio, estava com
as mesas à rua, abandonadas, e seu coração aconchegante de uma
barcaça-restaurante ancorada no Sena. Fumaças escapavam de
suas chaminés com perfume inebriante de assados e massas em
ebulição. Mesa para quatro, contudo, considerando a fileira de
espíritos que lhes acompanhavam, seria preciso todas as cadeiras
e mesas do recinto para acomodá-los.
241
Estavam apreensivos, especialmente os que viam a
movimentação destes espíritos recém-chegados com ares de
excursionista atrapalhado sem mapa e sem rumo.
–– Olhe ao redor, você acha tudo isto normal? –– queria
verdadeiramente saber Sean.
–– Não. Por isso mesmo que quero sair fora o mais rápido
possível deste tumulto. Se ninguém precisa ver, por que eu me
importaria? Acho que você devia fazer o mesmo. –– aconselhava
Mateus pouco convincente –– Aliás, faça como eu, finja.
Respirou fundo antes de seu remate inflexível. –– Não vou
enfiar o rabo por entre as pernas e fingir que não é comigo. Temos
que servir de ponte entre os mundos, senão como explicar o
motivo para estarmos envolvidos no meio desta guerra. Considera
tudo simples acidente!
–– Sim.
–– Não seja um imbecil...
Cortado bruscamente por Lucas que não gostava do garoto,
muito menos que enfrentasse seu irmão. Quem era ele para
retrucá-lo. Sem dúvida Mateus saberia muito mais, tinha mais
tirocínio, mesmo que o tivesse enganado por anos com o
encobrimento de suas supostas visões fantasmagóricas. Para
Lucas este dia era só uma trégua, porque queria desvendar o que
se passava, mas enfim o dia terminara e não teria que representar
o cara metediço e desvelado. –– Ouça o que ele diz e cale a boca!
Sean pediu licença aos três e disparou porta afora. Tiago
tentou esboçar uma contramedida, mas Lucas segurou-o com
firmeza exagerada.
Mateus parecia não se importar, não valia a pena.
Agora era tarde demais.

242
18

portas abertas para

Desabalada fuga não passava de pretexto para ficar


sozinho, contudo a companhia de Tiago seria bem aceita. Se ele
não se propôs a acompanhá-lo era porque discordava do que havia
dito. Sean não podia ignorar os sinais pouco fortuitos, mesmo que
os fantasmas o ignorassem, se bem que ele desconfiava o
contrário. Como eles mesmos destacaram, eram iguais aos vivos,
não era porque morriam que eles se tornavam santos. Talvez
santos-do-pau-oco.
Este novo mundo era tão parecido com o que ele conhecia que
era difícil de perceber as diferenças mais contraditórias. Não
porque eram semelhantes demais, mas porque acabavam
atrapalhando sua percepção do que realmente estava acontecendo.
Os exércitos, as pessoas, os objetos eram todos similares; mas
juntos, eram incoerentes e inacreditáveis. Quando e onde ele teria
a oportunidade de ver um mercador veneziano dos grandes
descobrimentos, em suas roupas bufantes de meias coladas,
discorrendo calorosamente com um corretor da bolsa de Nova
York da grande depressão.
As avenidas desocupadas tornavam-se ruelas apavorantes,
silenciosas. Contudo era uma dessas que o levaria ao seu home
sweet home, já não tinha medo de ser encurralado por garotos
raivosos de muitos punhos e pontapés. Era uma sensação estranha
que não sabia explicar. Conteve-se por instantes antes de transpor
os degraus que o levaria ao pórtico. Poucos dias que pareciam
meses, sua casa parecia-lhe distante.

243
O ranger da porta anunciava e preconizava algo de muito
inusitado, silêncio e a escuridão de um breu quase sólido impedia-
o de caminhar fluidicamente, tendo que se apoiar em objetos que
sabia estar em locais reais, porém de recordações imaginárias. Por
isso apalpava de dedos leves e andar ziguezagueante.
Quando seus olhos começaram a perceber os contrastes e
contornos da semiobscuridade, uma luz mortiça ofuscou-lhe
momentaneamente sua ação. Os contornos ganharam cores
embaçadas que se aglutinavam. Sean não escaparia de mais um
sermão.
–– Não o esperava tão cedo. –– era Patrick que se erguia
amassado de uma poltrona enfeixada pelo foco de luz religada.
Ele não estava com cara de estar tendo um bom dia, e claramente
procuraria completá-lo. Estar no escuro em plena tarde garantiria
que as observações eram estas.
Sean já havia percorrido a grande distância que poderia tê-lo
salvo desta confrontação. Estava perto demais para ignorá-lo e
longe o suficiente para não tentar escapulir sem represálias, então
teria que enfrentar a situação, não tinha jeito mesmo. E tanto não
tinha que Patrick deu um passo e agarrou o garoto pelo cangote,
puxando-o para a poltrona. Agora era tarde para fugir ao
interrogatório paterno.
–– Soube que continua falando o que não deve! –– tão calmo
o quanto lhe era possível. –– É por tua causa que não temos
sossego nunca. –– elevando alguns tons que chegavam ao limite
de indicar alguma raiva moderada.
–– Peraí. Não tenho culpa se se sente incomodado com que eu
ando fazendo. Perdi muito tempo aguardando que vocês me
entendessem e mais, me defendessem. –– atitude bastante
incomum em Sean. Supostamente mais difícil do que aparentava,
encoberto por uma taquicardia nervosa de mãos suadas.
Patrick engoliu com um engasgo seu assombro. –– Como?!
Contando mentiras? Alimentando o seu delírio? Fiz tudo o que
podia, até o que não era capaz...
–– Esse é o seu problema, pai, não acredita que possam existir
outras verdades que não seja a sua. Quem é que foge sempre? Eu
que aceito a realidade e me adapto às minhas dificuldades ou você
que abandona cada um dos seus parceiros porque simplesmente
não aceitam suas opiniões! –– o garoto o assustou com sua força
244
de vontade e uma maturidade que achava longe de encontrar num
filho de poucos anos. Patrick, devagar, soltava os dedos da gola e
se erguia intimidado por outra verdade que sabia ser a única.
Seu filho era instigado a falar além do que queria, mas devia,
se queria por um fim nestas desconfianças infundadas. Quando ele
poderia deixar de ver fantasmas! Até quando conseguiria ignorá-
los! Era muito mais fácil lidar com o fato, de fato.
–– Que o senhor não acredite no que estou dizendo, concordo!
Mas para impor o que você deseja, antes é preciso que entenda o
que está acontecendo comigo. Eu vejo e falo com espíritos, quer
queira ou não. É obrigatório que eu me adapte a outras realidades
porque para mim elas existem...
–– Para mim não há outra realidade senão esta.
–– Somente porque não quer saber delas, elas estão por aí.
–– Quem garante que você não está se enganando com
mentiras? –– Patrick ainda estava contendo seu anseio de dar um
bom tapa, de fato.
–– Porque elas não existem, só verdades, seja a minha, a sua
ou a nossa. Milhares de verdades, talvez várias para cada pessoa
deste planeta. O problema é que todos querem aplicar a sua, como
o senhor sempre faz com todos, sem exceção.
A mão já descia ligeira para acertar algum ponto já
cicatrizado no rosto do filho, mas foi impedido por duas forças
que lhe eram desconhecidas. O ar tornara-se grosso em torno do
punho, refreando o impacto certeiro. Era alguém que Sean viu,
pouco antes de terminar a frase, se interpor contra o ataque. A
outra força era mais desmoralizante, a culpa, o remorso por estar
sendo injusto. Se bem que sua maior transformação demoraria
algum tempo para assimilá-la: quem segurou seu braço?!
O braço estagnado, parado no ar, reforçava sua dor. A anciã
piscou fraternalmente, assegurando que o bisneto não soltasse o
braço em Sean. Patrick olhou para o filho querendo ampliar sua
cólera com o ato que lhe era incontrolável. Todavia Sean
mantinha o olhar firme, sem reagir às fraquezas reconhecidas de
seu pai. Quase podia sentir dó, a mesma que sentia por si.
Foi o suficiente para quebrar a máscara. Patrick Fox jamais
seria o mesmo, prostrou sua estupidez, mas demorou demais para
reagir. Queria abraçar o filho como nunca o fizera, mas era tarde.

245
Queria se desculpar, mas o prazo vencera e Sean já estava
escalando os degraus para seu dormitório.
Ele só queria descansar.

Esta discussão perdia o seu interesse.


Verdade seja dita, estava mais curioso com o que havia
descoberto. Outras verdades? Qual era a das legiões invasoras,
qual era a dos índios, qual era a verdade de Marc ou simplesmente
a sua? Tinha que rever seus objetivos futuros.
Arremessara-se à cama cobrindo os olhos como se a coberta
encobrisse a enxurrada de pensamentos aleatórios e exaustivos
que se arremessavam infatigáveis à sua mente. Os braços estavam
cruzados sob a nuca buscando um ar ligeiramente descontraído.
Não muito longe conseguia escutar Jox brincando, alheio aos
problemas que preenchiam a casa com seu peso específico que
derrubaria qualquer um pouco são.
Com receio do quê sua mãe descobriria se lhe perguntasse o
que acontecera nos últimos dias; deixaria para responder a esta
dúvida quando ela estivesse lá.
Ele se esforçava para descansar sua cabeça por breves
momentos antes de saciar sua curiosidade galopante. Não iria
deixar de pensar no códex, São Francisco ou no que concebia
estar acontecendo com os invasores incorpóreos. Já havia
descartado que fossem invasores de corpos, pelo menos não
pareciam interessados nisto.
Irresistível manter-se quieto, lançou o cobertor no ar
transpassando alguém que ele não via, que permaneceu incólume
por enquanto, vasculhando. Alguém impressionado com o
cômodo e os objetos juvenis que lhe causavam tanta estranheza.
Sean já vasculhava na mochila algo que preferiria não dividir
com ninguém até que pudesse analisar com tranquilidade esta
nova charada, que Marc procurasse as dele. Ele tinha uma em
mãos. Desde que o velho diário despencara diante de si, dias
atrás, justamente quando Bernis enrolava-o com o cordame de sua
cruz, entendeu então que Marc não possuía todos os documentos
mikhae. O crucifixo cruzou o retrato de um anjo e seu demônio,
antes de se encaixar num relevo menos perceptível, porém mais
extraordinário: a folha de uma vinha e seus galhos tortuosos
cobria um fecho enferrujado e deteriorado.
246
O cheiro acre do bolor se misturava com o perfume suave que
se desprendia da madeira do qual fora esculpido o crucifixo dos
franciscanos. Girava o crucifixo com a ponta dos dedos e fincava
a outra mão apoiada no queixo, mas passos e metais tiraram Sean
de suas elucubrações.
–– Faça como sândalo que, quando machucado, nos oferece
seu melhor perfume... –– se referindo ao madeiro. Era o
mensageiro que se aproximava depois de vasculhar disfarçado
todos os cantos com desvelo misterioso.
O jovem cavaleiro já não provocava medo ou espanto e agora
nem mesmo indiscrição não contida, para admoestação do
fantasma que era um pouco orgulhoso de seu status.
–– Hã. É você! –– desdenhando e devolvendo o livro para o
ostracismo. Ainda sentia palpitações quando estas aparições
surgiam. Os metais de sua armadura tremeluziram quando a luz
do sol vespertino alcançou-o em seu movimento de ocaso.
Reflexos estes que obrigaram o mensageiro a se sentar à cama,
longe do brilho que ofuscava Sean. Quando conseguiu olhar para
o cavaleiro sisudo, sentado de pernas cruzadas com extremo
esforço, não pode deixar de engasgar com uma risada refreada que
disfarçou muito mal.
–– O que você descobriu sobre Allan? –– pergunta de resposta
quase que obrigatória.
–– Ele está aqui!
Havia júbilo nos olhos do cavaleiro. –– Aqui, em que lugar?
–– Sepultado numa cripta bem abaixo do Centro de Pesquisas
Biomédicas que continua a ser...
–– Não, não, não. Onde ele está hoje! –– deixando bem claro
que ele queria o tal Allan vivo e respirando. Mas como? –– Não te
falaram de re-encarnação? Renascimentos?
–– Ah! Tempos anteriores! –– Sean completou. –– Disseram
muito por cima.
–– Todos, quase todos que morrem, regressam.
–– Para que?
–– Para resolverem certas pendências...
–– E?!
–– Na verdade é para aprimorarem seu espírito...
–– Para quê? –– já começando a irritar o cavaleiro como
queria e estava disposto a executar.
247
–– Para evoluir... por isso preciso achar Allan... preciso...
–– Você se importa com ele?
O mensageiro não queria replicar, porém não estaria
mentindo, de todo. –– Sim, muito.
–– Então por que você não indaga por aí, acha que eu poderia
fazer melhor o seu trabalho? –– O cavaleiro obtemperou com
esgar de sobrancelha de uma lógica quase vulcana. Para Sean,
copiar a ação só ratificava que eles estavam se avaliando
constantemente. Os dois se encaravam claramente em dúvidas se
queriam seguir em frente. –– Quem realmente é você? Qual é o
seu nome? –– almejando completar com sua nova percepção de
qual seria a verdade dele. É claro que ele não revelaria suas
verdades, talvez nem ele as soubesse, quem sabe!
Pigarreou inconformado. –– Sou o mensageiro de...
–– Todos nós sabemos. Se não quer dizer vou te chamar de...
Que tal, senhor MSN?! –– Sean estava sendo mordaz e irritante
com o mensageiro. E adorou mais ainda quando o homem sorriu
pela primeira vez. Pelo jeito ele não sorria há uns quinhentos ou
mais anos. Então Allan estava por perto, mas de que adiantaria
procurá-lo se era outro e possivelmente não se recordaria do
passado ou dos passados?! Sean não lembrava o seu e não sabia
de mais ninguém que o quisesse, já era difícil lidar com uma só
vida. Se bem que explicaria porque ele gostava tanto de histórias
de batalhas épicas regadas de muita astúcia onde o fraco vence o
mais forte e, caçadas fantasiosas a dragões e bestas seculares.
Mas também gostava de comer com hashi.
–– Algumas vezes trazemos marcas em nossos corpos físicos
que indicam eventos traumáticos. Uma cicatriz, uma deformidade,
um sinal de nascença...
O garoto olhou para a sua perna recordando que possuía um
aglomerado de pintas juntas e estranhas. Algo passou diante de
seus olhos como um foguete; a ideia de levar um tiro numa guerra
longínqua de fardas laboriosas, enquanto supostamente
recarregava sua baioneta com pólvora, demonstrava o quanto o
passado deveria ser esquecido. No fundo o cavaleiro contava com
o dom que dava ao garoto uma vantagem nesta busca por mortos
ressuscitados.
O mensageiro resolveu recuar, desaparecendo silencioso com
um sorriso no rosto que se assemelhava ao do gato listrado e feliz
248
do conto de Alice no país das maravilhas. Havia um ronronar no
ar que no mais, parecia suspeito. –– Procure por Allan, lembre-se!
A porta evaporou o mensageiro assim que ela fora
escancarada sem aviso perceptível. Tropicava e tombava quarto
adentro, caindo aos pés de Sean como se empurrado por mãos
ocultas em ato de mau gosto. Tiago içava-se atordoado, com
ligeiro mal-estar não identificável de uma névoa nauseabunda e
fria e tenebrosa. Mas já havia passado a sensação pior.
–– Ufa! Que dias estranhos estes. –– olhava de um lado para o
outro, desconfiado, com as mãos no joelho, agachado para
recuperar o fôlego que chegaria, talvez, mais tarde.
Esta invasão brusca trouxe Sean aos trilhos. Buscava o diário
por entre as cobertas e lençóis emaranhados agora que tinha
plateia para discutir o que estava acontecendo. Jogou o caderno
rumo ao amigo que inadvertidamente recebeu-o com força no
estômago, tombando ao chão. Em pouco tempo ele já deixava de
gemer para arremessar o livro de volta ao catre e uma das mãos
tateava sondando um apoio seguro. Seus olhos nasceram odiosos
no beiral do colchão, inquisidores e levemente cômicos.
Só foi a desforra, por deixá-lo sozinho durante o bate-boca
que aconteceu mais cedo.
Depois de avaliarem o diário todo, concluíram com a mais
absoluta confiança o que ele queria dizer. Nada. Como os próprios
documentos do escritório de Marc, este não servia de nada sem
um tradutor. O pouco de alemão que Tiago Göettees julgava
conhecer, embora o sangue divirja, servia plenamente para
declarar que não dava para entender bulhufas nenhuma das
palavras embaralhadas das quase duzentas páginas de um código
tão trabalhoso quanto ridículo. Do mesmo modo a exceção se
devia às poucas letras que destacavam o autor, que neste
compêndio se intitulava Miguel. Olhares enviesados de deixa-pra-
lá finalizavam suas pesquisas bem escolares.
Supor que fossem estar a um passo de Marc, só se eles fossem
o dito Miguel, lembrando que renascimentos e compromissos
eram para todos. Talvez eles tivessem um pé na dianteira de Marc,
no diário constava pequena anotação a lápis sobre um Nicklas
Buchhand que anunciava sua propriedade ao rodapé da
contracapa. Ambos pensavam no velho comerciário da Pot de Fer

249
e se realmente existiria coincidência. –– Nã... Não. –– com
dúvidas atravessadas na garganta.

A penumbra do anoitecer acordou-os de seus planejamentos


de safári para a realidade do fim do longo dia de vários capítulos;
assim que o sol surgisse à leste seria para apressá-los para outro
grande dia de colégio, de aulas morosas e intermináveis. Alguns
dias de repouso só seriam possíveis graças ao atentado que deu
sequência, quase que imediata, ao período forçado de reclusão
oferecida a Sean pelos eventos no beco do espancamento. Evento
este que acabaria sendo imprescindível para que ele estivesse de
posse do diário de Buchhand.
A encadernação rolava em suas mãos distraindo-o em seus
pensamentos quando Tiago desistiu das tentativas de tradução de
um acanhado trecho que imaginava ter entendido de relance, com
um suspiro ruidoso. Eram alérgicos ao bolor e espirros infindáveis
finalizavam o trabalho do dia.
–– Quero uma opinião sua! O mensageiro esteve aqui e
acredita que eu sou o único que pode encontrar Allan. –– bocejava
Sean para provocação do ato em Tiago.
–– Mas você não disse que...
–– Claro, mas ele quer um Allan que ainda respire.
–– Hã!
–– Parece que ele renasceu e está por aqui.
–– Que ele vá atrás... Ademais como saberíamos como ele é?
–– Tem as mesmas marcas e costumes que...hum, lembro que
ele estava machucado na mão uns séculos atrás.
–– E daí, também estou. –– acenando uma mancha em cruz.
–– Gosta muito de espadas e...
–– Eu também. Quem não gosta.
–– Lutava muito bem. Tinha estilo.
–– Sei. Como eu fiz. Assim? –– gesticulando espada fictícia
no ar em giros curtos e certeiros.
–– Era médico, ajudava os outros.
–– Também faço uns curativos de vez em quando. –– Tiago e
sua falsa modéstia adquirida pela observação dos remendos que
sua mãe aplicava em seus joelhos ralados. –– E daí!
Sean também considerava estas características fracas e bem
comuns. Se quisesse, também se encaixaria nelas. Contudo, Tiago
250
achava tudo muito divertido e finalizou com um gesto
surpreendente. Com a mão em L com indicador apontado para
cima, piscou e do canto da boca emitiu um estalo –– tsc ––
enquanto direcionava o mesmo dedo para frente como os cowboys
faziam, com um complemento bem mais moderno. –– Você é o
cara!
Para Sean o ato foi como um balde de água fria, este gestual
lembrava algo perdido em suas recordações, podia jurar, de pé
junto, que havia visto Allan e Raphael re-encenarem-no. Mas
como era possível que isto pudesse acontecer? Devia ser uma
espécie de curto-circuito cerebral.
–– Pelo que vejo, você poderia ser Allan. –– disse Sean.
Alguns segundos de espera e.
–– Na... Não! Bah! –– Ambos desistiram dessa perda de
tempo, negando veementemente em caretas de olha-só.
Tiago sentia um arrepio na espinha, como se fosse observado
pelas costas. Outra sensação desregulada pelas constantes
conversas inaudíveis entre os fantasmas e seu amigo.

Caminharam degraus abaixo se servindo do corrimão como


alicerce para um cansaço acumulado.
–– Até amanhã! –– Tiago bocejava já há algum tempo. ––
Temos que dar um jeito de ir até o senhor Fabien. –– Porém Sean
não respondeu, curioso com o homem que ascendia pela rua
cambaleando, não como um bêbado, mas como um enfermo que
manca há anos. O amigo continuava falando, coisas até que sem
seriedade, caso Sean tivesse escutado-o.
O velhote andava e parava diante de cada um dos postes
antigos de ferro fundido. Levantava o olhar para a luminária,
usava sua vara curta para descerrar uma portinhola e elevava uma
vela até o bocal que chiava explodindo numa chama regulável de
iluminação a gás. Seguia até o próximo repetindo o procedimento.
Tiago já estava longe assim que ele acordou de seu estupor
para tentar se despedir, mas estava fora de alcance para ouvi-lo. O
velho, caolho de cabelos parcos e desgrenhados, tirou uma das
mãos debaixo do casaco encardido para acenar e sorrir de poucos
dentes. Sean virou-se duro fingindo não ver.
Contudo alguém bateu às suas costas, insistentemente à porta
recém-oclusa e bem chaveada às pressas. Propôs-se olhar através
251
da fenda das cartas cuspidas, evitando um confronto desagradável.
Para seu espanto o batedor de braço pesado havia pensado o
mesmo. Com o susto ambos caíram para trás. Sean agachou-se
sem complicações, porém Mateus rolou alguns degraus
escorregadiços estatelando-se contra um monte de neve em
decomposição acelerada e encharcante.
O moleque estava entorpecido admirando atentamente se
Mateus daria algum sinal de vida ou se ele teria que esbofeteá-lo
até que despertasse. Não gostava da ideia de ficar do lado de fora,
as coisas estavam ficando verdadeiramente estranhas.
–– Entre no carro, temos que conversar! –– e Sean olhou em
volta, pensando se iria obedecer quem pouco se importava com
tudo isto. Fechou a cara em bico, jogou os ombros inconformado.
–– No way, man!
–– Pode ir, eu aguardo. –– gritou Patrick na soleira da porta,
sorvendo um chocolate quente que soprava de tão abrasador,
enquanto afastava um taco com os pés. Mateus se sentava
acenando agradecido.
Respondendo ao olhar irritado de Sean. –– Telefonei antes,
pedindo para seu pai uns minutos a sós com você. Ele pareceu não
implicar, ele até gostou. –– pelos acenos constantes de Patrick que
estava diferente e o rosto ligeiramente hílare. Precisava de um
tempo a sós.
Mas Sean não abriu o bico.
Tempo para arrumar a baderna que havia feito esbofeteando
alguns pôsteres com sua face jovial e extremamente incômoda.
Seu taco estilhaçou cada uma das fotografias onde ele sorria
desagradavelmente abobalhado, evitando aquelas em que Sarah
olhava desconfiada. Alguns se contentariam em desenhar bigodes
e chifres vistosos, porém para o senhor Fox era prosaico demais.
Por outro lado, conseguiu extrair de Mateus a mesma versão
extraordinária que o filho insistia em contar. Se bem que Mateus
se prontificasse em desabafar algumas verdades entaladas na
garganta para constante embaraço de Patrick.
Se agora eram dois, teria que rever suas verdades.
Precisava quebrar algo.
Suspirou aliviado.

252
19

contratempo

Cruzaram avenidas agitadas coalhadas de luzes


ofuscantes, de carros em congestionamentos atados, de vitrines
mortas com manequins vivos, de jovens falantes de expressões
vazias e miríades de transeuntes autônomos sorvidos pelas
esquinas ou buracos. Aos poucos foram sendo levados pela maré
até o singular oásis urbano onde encontrariam silêncio e discrição.
Uma região evacuada e no aguardo de que a rotina a engolisse
neste frenesi que compunha o vai-e-vem diário de orgânicos e
inorgânicos e imateriais em suas locomoções sem sentido.
Estacionaram em uma das finas ruelas que desembocavam na
praça de Saint-Michel que estava às escuras. Os prédios, mudos,
rangiam sua época escondendo-se da modernidade indesejada,
porém requisitada por pequenas cirurgias arquitetônicas.
O frio cortante de rajadas insistentes encapuzava aqueles que
se propusessem andar nestes lugares pouco convidativos. No
subterrâneo o sossego se propagava desde a estação de Chatelêt
até Notre-Dame, Cluny e Odéon, selando-os do mundo abalado
que lutava ferozmente para engoli-los.
Mateus parou perto de um guarda-corpo temporário que
afastava os enxeridos do ponto do desastre. Vários andaimes
encerravam a clareira, enclausurando-a com plásticos e lonas
esvoaçantes que chicoteavam barulhentas. Estava tão escuro que a
pouca luz provinha da outra margem do rio Sena e de alguns
pontos de emergência espalhados onde havia acessos e restauros.

253
Outros simplesmente apontavam, tais como holofotes baços, a
estatueta de contornos feéricos e semblante indagativo.
–– Sinto muito. –– Sean iniciou a conversa contemplando as
estrelas que via pela primeira vez nos céus de Paris para não ter
que manter os olhos em Miguel.
–– Você estava certo, quanto antes, melhor. É que cada vez
parece ficar mais difícil de enfrentar a situação. Contei tudo para
Elene que reagiu muito bem, se bem que não quis dizer nada.
–– Desculpe-me, falei por falar. Estou cansado demais para
me importar com quem quer ou não acreditar nos meus fantasmas.
–– deu de ombros, apático. –– Se não fosse todas estas
assombrações cortando meu caminho, talvez até conseguisse
passar despercebido, deixar de lado.
Tiraram algum tempo para refletir como, em poucos dias, a
vida dos dois mudou radicalmente. É claro que foi amenizada pela
cumplicidade de suas habilidades incomuns.
–– Como foi sua primeira vez? –– o garoto não se referia a
assuntos biológicos.
–– Ah! Ao contrário do que as pessoas pensam, a aparição de
espíritos não causam tanto medo ou pavor. O meu maior susto
aconteceu quando percebi que havia alguém escondido dentro de
casa. A primeira reação foi de que um ladrão havia invadido e
que só estava me encarando antes de atacar. Sumiu no ar.
–– E piorou quando descobriu que era um fantasma! –– tendo
certeza que ouviria um sim.
Matt negava rindo. –– Foi um alívio quando percebi que não
era um invasor vivo que pudesse me agredir. Fiquei tão surpreso
com esta atitude que só depois concatenei com o fato de que era
um espírito...
Para Sean, a prova definitiva de que espíritos e fantasmas
haviam se apresentado se devia ao assombroso cavalo que
acompanhava o seu cavaleiro armado para dentro do centro de
terapia intensiva de um hospital. O rapaz concordou que seria
difícil de não acreditar que o fosse. Mas Sean só teria certeza total
quando índios desapareceram diante de seus olhos, depois de
interpelarem-no diretamente sobre se ele os via ou não.
Verdadeiramente traumático. Uma forma de prepará-lo para
emoções mais fortes, quesito que Mateus deixava a desejar.

254
–– Agradeço por serem mais coerentes, digo, mais ou menos
normais. –– frisava Mateus entre um devaneio audível e gestos
aleatórios feitos ao ar. –– Sem complicações emanadas por
incenso ou eventos místicos e ladainhas que tentam afastar ou
atrair fantasmas melodramáticos. E vai por mim, se você
realmente quiser, eles preparam uma fantástica representação.
Em toda literatura, fantasmas e espíritos se manifestavam
entre brumas de um pensamento desconexo e caótico. Gritos,
sussurros e gemidos seguidos de impressões impossíveis de existir
caracterizavam-nos como flashes de um sentimento misterioso e
doentio. Pavor que não se ventilava. Cenários dignos de queimar a
retina. Mas estes não se davam ao trabalho de sofisticar suas
apresentações. A grande maioria poderia ser confundida com os
vivos, se bem que eles também não percebiam sua condição
mórbida e continuavam por aí.
Afinal não havia nada para discutir, seria apenas um desabafo
entre iguais. –– Pelo menos tenho para quem contar as esquisitices
sem me preocupar se são ou não verdadeiras, se não passa de
delírios ou suposições insinuadas pelo medo.
–– Sim, garoto. –– O vento cessava devagar, limpando o ar
dos assovios e silvos de frestas mal seladas e corredores
emparedados. –– Mas acho que para mim e Elene é o fim.
–– Sinto muito. –– assaltado com breve exultação.
Com tudo isto acontecendo com muita pressa, as questões
mais simples eram legadas para segundo plano, contudo elas
acabariam vindo à tona. Sendo bem mais jovem, Sean, acabava
sendo o mais bisbilhoteiro e impertinente. –– Eu achava que havia
centenas de videntes e profetas por aí...
Para ouvir os ombros de Mateus estalando sem respostas,
mais preocupado consigo. Avançava, fuçando por entre os
tapumes e, se espremia entre cordas e metais com zelo exagerado.
Uma última língua glacial soprou da rua de la Huchette trazendo
impressões bastante pesadas. Sean recuou alguns metros chegando
no quai contíguo, estranhando a imobilidade forçada. O ar
cheirava a sebo e fumaça de vela. Vasculhou com cuidado
procurando a fonte desta impressão que lhe arrepiava a espinha
como um aviso macabro.
Um par de pombas andava no céu.
Um par de pombas andava no céu?
255
Gritou para Mateus que regressou claudicante com a mesma
observação de pássaros caminhando no ar. Olharam-se com
indecisão e pavor crescente. Estava acontecendo algo bem acima
de seus narizes.
Começaram a discutir qual seria a melhor medida: correr o
máximo que podiam ou ficar. Mas Sean não replicava, obrigando
Mateus a volver cauto, em direção ao olhar estático do garoto que
não movia um músculo sequer fascinado com a extraordinária
torre de pedra guarnecendo a Petit-Pont. Bandeirolas tremeluziam
com a luz de archotes nas mãos de homens vigilantes nas ameias
improvisadas.
Como se uma onda invisível os cobrisse, contornos emergiam
mais sólidos aos seus olhos vidrados. As pombas caminhavam
pela cumeeira de um casebre que insistia em brotar acima da via
marginal que bordeia o rio. Uma segunda vaga reforçou a silhueta
selando toda visão do rio. Casas, casebres, sobrados, estalagens e
mais e mais moradias imperfeitas em encaixes de madeira
aleatórios acotovelavam apinhadas, invadindo a ponte Saint-
Michel e absorvendo a sua praça.
Viram-se encerrados num beco encardido de poucas chamas
iluminando tavernas suspeitas. O chão era engolido pela terra
batida que devorava os poucos remanescentes de postes elétricos
ou telefones públicos, apagando quaisquer sinais da realidade.
Correram até onde podiam até que sua realidade desaparecesse
por completo.
–– Onde estamos? –– estacou Mateus sem rumo.
–– Ainda estamos aqui, Matt! –– Sean se agarrava a uma
grade de ferro que não era aparente, entretanto não a largaria
enquanto pudesse. –– Não se afaste do lugar... Fique parado.
Tarde demais, Mateus se chocara com um poste invisível que
o derrubou, irritado com a mão à testa ferida. Estavam num aberto
com um poço centralizado. As casas sujas pareciam elementos
nascidos da terra encardido sob seus pés, esgoto e ratazanas
corriam livremente entre os antros mais negros do beco.
Lentamente o som se erguia evidenciando algum burburinho de
vozes embriagadas e música descompassada. Várias janelas
estavam abertas vomitando gritos e risadas.
O rapaz buscava levantar o mais rápido possível quando uma
explosão de água e urina o fez saltar para trás, de encontro ao
256
poste oculto. Uma velha de toca rendada balançava um penico de
uma das aberturas, urrando imprecações chulas para eles. Pessoas
circulavam em vestidos e trajes imundos, recolhendo água do
poço ou prazeres de moças desnudas.
Mateus olhou aturdido para Sean que continuava agarrado ao
seu lastro invisível, apertando-o com tanta força que seria capaz
de arrancar a barra de ferro se o quisesse. Os ruídos ganharam
corpo e o populacho parou aturdido, olhando através de la
Huchette, o avanço de gente desesperada em número suficiente
para provocar a debandada de aberturas cerradas em coro. Fumaça
e fogo anunciavam que o foco dos conflitos ficava perto da torre
de pedra escondida, agora, pelas casas altas e sufocantes. Tiros
moucos, de armas de fogo recarregáveis com dificuldade, eram
sobrepujados por raros canhões que esfacelaram a madeira e o
barro de algumas construções. Os estilhaços cobriam os fugitivos
arremessando-os contra os ares.
Soldados prosseguiam pela alameda matando homens,
mulheres e, sobretudo huguenotes. Com o nevoeiro formado pela
pólvora e os berros de dor, eles não podiam reagir. Mateus
ensaiava um meio de alcançar Sean quando, além de seus esteios
da realidade, um soldado desembainhou um sabre cortando-lhe a
cabeça.

Seu pavor só foi maior quando se viu inteiro, em pleno dia,


com os pés enfiados na água seca.
–– Matt, e agora! –– gritava Sean com a mão presa no ar.
Antes que Mateus interpelasse, um barco a velas encalhava
suave rasgando o lodo negro ao seu lado, oculto por neblina
conveniente. Seu casco estava fincado de lanças e manchas de
sangue. A detenção precipitada provocou a ruptura do mastro
ferido que com um baque ensurdecedor ricocheteou diante de
Sean levantando tufos de água e lama.
O vento já afastava o grosso do nevoeiro, descortinando uma
baia de barcos emborcados em chamas e, guerreiros implacáveis
invadindo as habitações que marcavam os céus com suas colunas
de humo enegrecido. Eles estavam numa banquisa que abraçava
uma baia estrangulada, e que terminava numa ponte rústica de
madeira. Com sua doca afastada, para dentro do que seria o Latin,
257
diante das termas dita de Cluny, alaridos e escudos se chocavam.
Impetuoso ataque havia derrubado a ponte, provocando a secção
das tropas romanas que lutavam com bardos e selvagens das
terras do Norte. Da embarcação que aproava, saltavam guerreiros
com espadas e lanças que, contra-atacavam os poucos legionários
parisii de uma fortificação improvisada.
Sem aviso, bolas de fogo eram lançadas por catapultas
primitivas, aproximando-se de onde estavam. Mateus pretendia
ficar parado, mas os projéteis arregaçaram a proa do navio,
abrindo um buraco irreparável. O seguinte já chegava muito perto
de atingi-los.

–– Pode abrir os olhos, pode abrir! –– sussurrava Mateus para


si. Surpreso com o silêncio de um bosque de coníferas cobertas de
neve.
O céu claro anoitecia anunciando algumas estrelas. Mateus
continuava sentado, olhando para o alto. Foi Sean quem apontou
para uma aldeia de fogueiras eternas. Um tempo curto demais
para apreciarem a calmaria quando caçadores em peles grossas e
amarradas eram lançados por entre as árvores pelo rechaço de um
mamute encolerizado. Outros jogavam suas lanças esperando
conseguir comida para a extensa invernia. A besta perdia a luta
caindo e levando algumas árvores seculares consigo.
Os caçadores pararam assustados, olhando para cima.
Uma intensa luz alaranjada era refletida pela neve que com o
clarão repentino atrapalhava seu exame. Aos poucos surgiram as
estranhas aeronaves triangulares que fecharam o céu,
desaparecendo com um zumbido automático para desespero dos
lanceiros ignorantes.

Estavam num campo florido.


Era primavera e amanhecia. O lusco-fusco impedia-os de
averiguar os arrabaldes escuros de onde estavam. Enfim, com seus
sentidos a flor da pele, estavam atentos às mudanças de
luminosidade. –– Está ficando cada vez mais estranho, Matt.
–– Por que você acha isto? –– totalmente sarcástico.
–– Ainda estou segurando o gradil.
258
E o gradil estava ali, fincado ao gramado florido com a
particularidade de estar um pouco gasto, corroído, enferrujado.
Mateus percebeu que havia um pedaço do poste retorcido donde
estava anteriormente. O Sol se ergueu à leste delineando os
contornos de uma catedral em ruínas enfeixado por heras
providenciais. Um pasto circundava-os a perder de vista.
A oeste, os raios de luz refletiam os vidros e metais de
modernos arranha-céus de uma metrópole idílica. Assustaram-se
com uma revoada de pássaros matutinos que escaparam da roseta
atemporal daquele santuário.

Os pássaros cruzaram os prédios passando sobre eles,


reunindo-se nos parapeitos e no braço da estátua de Saint-Michel.
Estavam de volta, mas Sean se negava a se soltar de sua âncora.
–– Voltamos. –– Mateus caminhava esquecido.
–– Não. Está de dia...
E várias pessoas transitavam em azáfama diária. Tudo estava
como antes do atentado ao metrô. Sean buscava descobrir quando
estavam, girava de um ponto para o outro perscrutando as datas
dos jornais que alguns transeuntes abriam, aguardando que o
semáforo abrisse. Os carros buzinavam nervosos para indiferença
dos não-interessados. Numa última tentativa ele teve que recuar
para não ser atropelado por ele mesmo que acompanhava um
Marc Bernis apressado. Mateus esboçou um sorriso quase nervoso
diante do embaraço do amigo, pelo menos de um deles.
De repente as aves recuaram assustadiças; um pré-estrondo
levantou olhares de dúvida. Em seguida os subterrâneos cuspiram
fumaça e estilhaços, as pessoas se jogaram quando o piso
estremeceu com a onda de impacto da explosão. Carros eram
atirados com escombros para o centro da esplanada.
Mateus cobria instintivamente a cabeça seguindo de longe
Sean e Marc saírem incólumes da chuva de pedras. Contudo Sean
não estava preocupado consigo, encarava um homem, que em
claros trajes greco-romanos, de um manto escarlate a tiracolo,
semblante duro, mostrou a língua para ele. Mostrar a língua para
ele, quanta intimidade!
O sinal nem se abriu com voraz ataque dos pedestres.

259
A multidão belle-époque disseminava chapéus e sombrinhas
em comemoração ao sobrevoo do 14-bis em contorno muito
alongado à Torre Eiffel. Vitrines asseadas e floreiras abundantes
resplandeciam a praça reformada. Esfuziados homens bem
vestidos escoltavam mademoiselles de corpete ao Campo de
Marte, embarcando em carruagens vistosas, porém o trânsito se
fazia impraticável pelo afluxo de curiosos ao largo de Bagatelle.

Os carros derrapavam rumando em direção ao pequeno


monomotor de Lindbergh que se aproximava do oeste continente
americano. Os jornalistas corriam para registrar o pouso. Chovia
uma garoa inconsistente. A cidade estava cinza.
Outra vaga.

Estava escuro. Noite silenciosa. A grade ainda estava ali,


assim como o poste e a praça. Mateus respirava aliviado.
–– Acho que ainda não! –– outra previsão acertada de Sean.
Algumas barricadas de sacos e veículos militares mantinham
o ambiente semelhante. Uns soldados de capacetes metálicos
urravam em língua germânica, partindo em um conversível antigo
do derradeiro grande Reich, que ainda derrapou em sua fuga
inevitável. Uma sirene estreava um grito exasperado e ininterrupto
prevendo o sobrevoo de aviões em formação de bombardeio. Os
assobios das bombas terminavam em ensurdecedoras detonações e
rompantes de clarões em cogumelos de brilho e nuvens.

Silêncio.
Mateus atordoado com a reviravolta de situações extremas
tomba enjoado, respirando fundo. Deitava displicentemente no
chão firme e autêntico de sua realidade. Já Sean se esforçava para
abrir a mão congelada à grade, mas a adrenalina dava lugar a uma
prostração irrevogável.
–– Tudo bem com você? –– chegava Mateus para auxiliá-lo
com o gradil do guarda-corpo. Com cuidado torceu cada um dos

260
dedos liberando-o da barra. Segurava com tamanha força que o
sangue escorria de um corte macerado.
–– Nunca fiquei tão apavorado! Mas não precisava se ferir...
–– Achei que se soltasse jamais voltaria para cá...
Mateus observava uma mancha escura na palma da mão
demoradamente. –– É só uma mancha, esquece. Não foi um
ferimento grave. –– sacudindo-a em movimentos rápidos como se
querendo recuperar a sensibilidade.
–– O que foi isto?
–– Estamos fazendo perguntas demais! –– triste com a
afirmativa já repetitiva. Sean não queria nem saber o que viria a
seguir.

Com seus cabelos negros sacudindo irrequietos sobre o rosto


caracterizado para batalha, Guarini se postava tão silenciosamente
que ambos gritaram de assombro quando perceberam sua presença
risonha. Estava disfarçando o riso desde que presenciara a
divertida investida dos dois na viagem pelo tempo mal concluída.
Entre saltos, gritos, tombos e sustos, o índio gargalhava asilado,
aguardando o término dos acontecimentos para fazer sua aparição
atrasada.
–– O que foi isto?! –– ainda ligeiramente respeitosos.
–– Um pequeno contratempo...
–– Eram fantasmas?
–– Tecnicamente não.
Ele pretendia explicar da forma mais simples possível. –– São
só algumas recordações impregnadas neste espaço. –– Delineando
no ar o contorno da praça. Mas nem tudo eram recordações
passadas oras, questão de semântica.
–– Assim, sem motivo, elas resolveram aparecer por aí?!
Assombrando algumas pessoas!
O índio apresentava a razão. –– Não. Hã, é que a culpa é
totalmente nossa, mas pouquíssimas pessoas veriam estas... ––
Tentando lembrar o termo apropriado para satisfação dos garotos.
A Salamandra esboçava uma escapada de seu esconderijo,
destruindo o período de ocultamentos obrigatórios e dos apertos
constantes da mão de Guarini. Mbaê desvencilhava célere,
perseguindo algumas sombras suspeitas que emanavam das
lembranças coaguladas que se desfaziam.
261
–– Pobre criatura! Estava impaciente para escapulir atrás
destes miasmas... –– Quando a boitatá retrocedeu saciada em seu
apetite, galgou o cajado se enroscando num encurtado gancho tal
qual um farolete vivente que Guarini aproveitava para alumiar o
seu caminho. Ela se comportava como uma trivial flama.
–– Estão reforçando alguns escudos protetores por toda a
cidade e estas ações embaralham as energias presentes. Este local
tem muitas marcas, boas e más. Estou curioso para saber como
vocês conseguiram ver as mesmas imagens...
–– E por que estão fortalecendo os escudos? –– indagava
Mateus. –– Quem está atacando? –– acrescentou Sean.
–– A invasão já está começando...
Alguns homens de uma divisão da artilharia francesa de
Bonaparte, desaparecida no passo do Grande São Bernardo, então
encoberto pela neve, arrastavam bocas de fogo incrustadas em
troncos escavados. Seus esforços apontavam para o oeste,
atravessando a praça esbranquiçada para um ponto de confluência
incógnito. Os que supostamente achavam-se gripados xingavam
os incômodos botões do punho que atrapalhavam na operação de
limpar narizes remelentos.
Soldados da tropa da cavalaria ligeira, com botas negras e
fraques repletos de botões de prata, desmontaram seus cavalos
com o bicorne sob os braços, divisando, com discrição, os três.
Um índio e dois sólidos que os enxergavam.
Guarini não se intimidou e, voraz, dirigiu umas palavras aos
cavaleiros: –– Estão olhando o quê?
Para espanto de Mateus e Sean que repararam os soldados
retrocedendo intimidados, tão envergonhados que se negaram
mirar seus olhos inquiridores. Tão atrapalhados que uns se
esbarraram quando buscaram refúgio na caravana.
–– Como fez isto?
–– Do meu lado, a autoridade é sempre respeitada, porque só
é dada por mérito, e é sempre exercida com justiça. Sabemos que
o homem não deve elevar-se sobre o homem, só sobre si mesmo.
Eles podem não concordar, mas sabem disto. E temem, porque é
só isso que sabem fazer. –– levemente convencido.
–– Então você...

262
–– Que nada. –– completava o indiozinho se adiantando. ––
Mas o pouco mérito que arrecadei me serve suficientemente bem
para afugentá-los. Precisam ver o que alguns bons anjos fazem...
Só para garantir girou sua lança num movimento ofensivo,
provando estar apto contra qualquer tentame menos digno de sua
autoridade, possivelmente aquém daquela que intimidasse por si
só. Talvez a salamandra-de-fogo fosse o elemento que o auxiliava
a consolidar uma suposta ideia de bom guardião.
–– Quem deveria ver estas coisas era o Marc! –– pensava
Sean que já estava cansado de servir de garoto de recados entre a
solução de um códex mikhae indecifrável e a defesa impraticável
contra os exércitos invisíveis.
–– As legiões sempre avisaram que viriam. E quanto ao Marc,
ele está bem longe daqui... –– findava Guarini.
–– Longe e em perigo. –– sussurrava Sean.

263
20

não há nada que...

O vale abrigava pacato burgo de diversos casebres


alpinos que resplandeciam os primeiros raios de Sol de dias cada
vez mais breves. Os bosques de terras sempre úmidas e frescas
que subiam pelas encostas das montanhas ressoavam os gritos de
madeireiros madrugadores que precisavam aquentar suas casas. A
singela capela tilintava insistente um sino de bronze, acordando o
restante dos habitantes que insistiam em se recolher em suas
camas reconfortantes.
No entanto a tela de cristal líquido do aparelho celular ainda
registrava a ausência de área de cobertura do sinal quando Marc
olhou-o pela última vez antes de embarcar. Ele teria que tentar
mais tarde, o que deveria ter feito dias atrás. Mas precisava agir
com pressa se quisesse resolver o enigma antes que fosse
devorado pela esfinge.
O pesado helicóptero SeaKing a serviço do governo
norueguês buscava se desvencilhar das fortes correntes de ar que
proclamavam uma breve nevasca para algumas horas. Contornou
o platô com extremo cuidado, reduzindo o empuxo das turbinas
que fora sentido com a diminuição do ruído peculiar e dos
sacolejos causados pela instabilidade dos ventos próximos do
ponto de pouso marcado com muita tinta encarnada e vários
bastonetes de sinalização. A aproximação lenta da aeronave
arrancava redemoinhos de neve livre que eram sugadas pelas pás e
lançadas contra os espectadores. Alguém saltava encoberto por
espessa jaqueta clara de capuz ajustado, não se via o rosto e nem

264
os olhos que usavam óculos âmbar contra a luminosidade refletiva
da neve. Puxou o abrigo e revelou seu rosto queimando pelo frio.
Marc Bernis era deixado no meio dos milenares glaciares de
Sogndal, na costa oeste da Noruega, para ver seu excepcional
meio de transporte partir tão logo equipamentos fossem
embarcados com os técnicos da escavação. O local estava sendo
evacuado por causa do frio incomensurável desta temporada
hibernal.
–– Bem vindo, Marc! –– E eles quebraram o protocolo, dando
um forte abraço de tapas demorados. Erik Kristensen forçava-os a
entrar nos contêineres coloridos do centro de apoio arqueológico.
Ao longe, o lago azul e sereno era perturbado pela queda de um
bloco de gelo da geleira de Briksdalsbreen. Os ecos reverberaram
entre as cordilheiras afugentando algumas aves valentes.
Estagiários de campo, Erik e Marc trabalharam juntos após o
término da universidade, seguindo os passos do professor
Hodgson-Crookes e do velho Bernis às lendas vikings escritas em
pedras grafadas e espalhadas por todo o norte da Europa. Havia
anos que eles não se encontravam para um potente café batizado a
teores alcoólicos e conversas reatualizadas de bêbados
incorrigíveis pela ocasião. Quando já estavam suficientemente
exaustos de futilidades Erik se ajeitou sério para perguntar.
–– Se eu acreditasse, eu diria que é coincidência. Mas estava
justamente querendo falar com você.
Marc não esperava ouvir esta confissão, estava ali porque
precisava rever os passos do professor William para ver se
descobriria alguma pista do manuscrito perdido. Quanto ao que
estava em Paris, a prefeitura só permitiria uma escavação quando
os geólogos afirmassem ser seguro, até então, usaria outra
abordagem. –– Sobre o quê?
–– O degelo secundário revelou-nos o piloto do aeroplano,
soterrado a poucos metros... Com ele estava outra garrafa
hermeticamente fechada. Ainda não abrimos, mas a etiqueta se
refere a cartas. Achei que você gostaria de saber que... ––
procurando as palavras certas. –– nós já sabemos quem ele é.
O semblante de Marc se mantinha inalterado, não estava ali
por causa disto, mas as cartas poderiam responder algumas
dúvidas. Ele quase não prestava atenção em Erik, seus

265
pensamentos puxavam-no para as perguntas que o levaram até
aquele inferno gelado de aquecimento barato.
–– Quer ver os destroços? –– quebrando o impacto de sua
fantasiosa estadia monótona pelo entusiasmo de Erik.

Desceram bons metros no gelo diamantino escavado com o


auxílio de um jato de água quente sob pressão absurda. O
respiradouro, pouco largo, ainda estava ligado à superfície por
vários cabos e tubos que mantinham temperatura e luz constante.
O ar estava pesado e rançoso. O elevador descia vagaroso
raspando a superfície do duto com irritante guincho. –– Como
vocês descobriram o avião?!
–– Com o satélite de instrumentos múltiplo usado para
sondagens dos níveis eletromagnéticos de anomalias fechadas
medidas no subsolo, mas o pessoal gostou mesmo foi da sigla que
a agência europeia sugeriu, m.i.c.a.e.l. O arcanjo que zela por toda
humanidade. –– Erik admirava o boquiaberto amigo que tentava
falar algo. Contudo Marc dignou-se a emudecer enquanto
esfregava, acelerado, seus braços congelados.
A gruta modelada refulgia o brilho puro de cristais de gelo
como se a luminosidade emanasse das paredes branco-azuladas
tornando plenamente vívida as cores dos objetos. A aeronave
encaixava como uma luva nos contornos irregulares e suaves do
ambiente. O nariz dourado com sua hélice encurvada pelo impacto
do pouso forçado apontava silenciosa para cima como se
arremessasse feroz para a superfície, de encontro com o céu
libertador. Em sua prisão, o tempo parou.
Contornaram parte da fuselagem cobrindo um atalho por
sobre a asa intacta para caírem em terreno escorregadiço que
exigiu maior equilíbrio para ficarem erguidos. Marc passou os
dedos pelos grandes furos de tiros na carlinga e fuselagem. O
oficial, deitado de costas, parecia que acabava de adormecer
envolto em uma poça gelada de sangue. Sua fisionomia era tão
serena que causava outros choques.
–– Sabemos que ele nasceu em Diedenhofen e deixou as
cartas para o seu sucessor. O mais perto de sucessor que
encontramos foi um descendente vivo...
–– Eu sou de Diedenhofen, ou seja, Thionville. Depois da
Segunda Guerra a Lorena foi devolvida para a França e o nome
266
restituído. Bem, o que você queria saber? –– Marc aguardava que
Erik fosse perguntar algo sobre as possíveis famílias lorenas, mas.
–– Por que nunca me contou que tinha outro nome além de
Bernis?
Realmente havia uma semelhança notável entre Marc e o
não-nazista morto. Eram tão parecidos que a primeira vez que
Erik viu não conteve um suspiro de admiração. Aliás, nem
precisaria da confirmação de Marc, pois a análise do ácido
desoxirribonucleico dos bancos europeus se certificaria da
exatidão que os aspectos fisiológicos já afirmavam.
Por isso que Marc não abria a boca, paralisado com o susto de
se ver morto, talvez começasse a entender o que Sean sentia
quando via fantasmas.
–– Bem, a linhagem da minha família não é muito
apreciada... Termos como implacáveis ou impiedosos acabaram
sendo adjetivos permanentes. –– zombando.
Erik passava uma urna térmica para as mãos de Marc que
intuía o seu conteúdo com certo desconforto. Estava preparado
para decifrar grandes e inigualáveis documentos. Estava preparado
para mudar a visão do mundo sobre as sagradas escrituras. E até
estava preparado para defender as suas pesquisas que já beiravam
o absurdo. Porém não estava preparado para aceitar ou acreditar
que um mundo invisível conspirava. Contra e a favor. Plenas de
coincidências tão óbvias que negá-las era um contrassenso
irracional. E só aceitando esta realidade ele conseguiria resolver o
enigma.
–– Melhor sucessor do que este, desconheço. –– regressando
para a plataforma que os levaria à superfície, em trevas e tornados
congelantes. –– Como está a sua irmã! –– Procurando fugir deste
assunto enquanto raciocinava melhor.
–– Ainda está com raiva de você, mas acho que ela nunca te
esqueceu.
–– Ela está com você? –– com esperanças.
–– Anda fotografando monumentos... no Peru, Incas, eu acho.
–– Eu devo?!
–– Hã, hã. –– afirmando Erik que faria um esforço a favor.
Entretanto estavam ali por outras razões menos femininas.
–– Antes de aparecer por aqui, por onde você andava?

267
–– Em Londres, recolhendo os arquivos e a papelada do
professor William. Ele desapareceu há mais de um mês... –– Marc
revelara o pretexto pelo qual viajara milhares de quilômetros até
Sogndal, durante um dos piores invernos dos últimos cem anos.
Não só porque fazia muito mais frio, mas porque as mudanças
climáticas haviam consumido quase todas as imemoráveis
geleiras da Escandinávia.

Regressaram ao contêiner-laboratório onde várias peças


recolhidas dos destroços eram catalogadas e armazenadas em
estantes metálicas que preenchiam todas as paredes. O motor
ainda estava preso por correntes, erguido sobre um caixote de aço
que serviria ao transporte dos componentes maiores, já resgatados.
O objetivo era recuperar inteiramente a aeronave que seria
exposta no museu aeronáutico junto com outras relíquias voadoras
da grande guerra.
O sóbrio Erik aumentou o aquecimento melhorando o
ambiente que servia de alojamento improvisado para aquela noite.
No dia seguinte partiriam com o restante dos equipamentos mais
caros. A tempestade aumentava provocando zumbidos e mudança
de pressão dentro dos laboratórios.
Enquanto Erik fervia o conteúdo de pacotes de sopa pré-
prontas que seriam saboreadas com gosto, Marc ajeitava uma
superfície para receber os documentos selados dentro do tubo
lacrado. No topo, um rebaixo que lembrava um amassado
qualquer era, aos seus olhos, um esboço da folha de parreira. Do
outro lado, à base deste tubo metálico, uma cruz grafada como
aquela que ele já não possuía mais. Passava os dedos no pescoço
vazio procurando o crucifixo.
O rapaz chegava sem aviso colocando a segunda xícara
rombuda diante de Marc. A tempestade recuava e o vapor de ervas
tirou-o de suas tentativas falhas de abertura. Ele enfiou a mão no
bolso interno e retirou com esforço um pesado cadeado negro que
quicou na mesa com seu fecho arrebentado. Era um modelo Yale
de fabricação alemã com um estranho X atravessando o buraco da
chave.
–– Quando eu percebi que a chave não servia, logo desconfiei
que alguém havia estado lá antes.

268
O arqueólogo ergueu sobrancelhas recuando atropeladamente
para uma estante metálica, dentro de um estojo puxou uma chave
que tão logo a desvencilhou do pacote encaixou no cadeado que
com um clique cuspiu o fecho rompido.
–– Estas coincidências são difíceis de desconsiderar. ––
Bernis começava a repensar em suas convicções acadêmicas. ––
Eu já passei do ponto em que as pistas deveriam ser
necessariamente palpáveis.
Erik considerava que Marc havia mudado muito em tão pouco
tempo. –– Não era você quem dizia que jamais iria concluir uma
pesquisa baseando-se em suposições?
–– E continuo assim. Só os elementos que são mais
ortodoxos, etéreos, não-mensuráveis pelos nossos conhecimentos.
O que eu quero dizer é que não possuímos instrumentos que
ampliem nossa capacidade de ver aquilo que está além.
–– Se não te conhecesse diria que começa a acreditar em
fantasmas...
–– Acho que não diria desta forma, mas sim.
Enquanto Erik ouvia o que Marc estava cogitando, pensava no
que o velho professor William dizia quanto àquilo que não
podemos ver, porém existem. –– E o quê te levou a acreditar!
–– Não posso confiar somente nos meus cinco sentidos, e nem
nos mecanismos desenvolvidos para ampliá-los. Tampouco posso
descartar as evidências de que existem outras realidades.
–– Que evidências?
Marc respirou fundo enquanto tentava abrir o frasco. ––
Nunca fui partidário da fé cega, nem da ciência absoluta. Penso
que os cientistas deveriam seguir adiante e não se contentar só
com respostas baseadas nas técnicas e conhecimentos atuais. Há
poucos séculos nem se cogitava que existissem vírus e bactérias!
Estou repensando os meus métodos e infelizmente só consigo
considerar estas evidências sem me ater às suas influências
indiretas. O que não posso ver e sentir, mas perceber.
–– Você está se parecendo com o velho Will. Acreditando em
lendas e forças paranormais.
–– Todas as noites milhares de astrônomos olham para as
estrelas acreditando que elas estão lá. Contudo eles só têm noção
de onde elas estavam há anos, ou bilhões de anos, conforme a sua
distância deste mundo. Considerando trajetória e velocidade eles
269
até conseguem imaginar onde elas realmente devem estar, caso
ainda existam. Eu tenho a trajetória e a velocidade, só estou
tentando imaginar.
–– O que espera descobrir aqui, Marc? –– com semblante
mais sério.
–– Se eu estiver certo, o meu tradutor.
Ele forçou o bocal que com um forte estalo voou bem longe.
Os papéis estavam bem conservados, mas não havia nada que
lembrasse um pergaminho esmaecido. Eram folhas com pautas e
margens. No meio da papelada um cartão solto escorregou para
fora quando Marc girou o frasco. Era uma fotografia velha com o
mesmo aviador, que acabava de ver em sua câmara mortuária,
abraçando um garoto de uns dez anos. No verso uma dedicatória.
–– Que São Miguel te proteja, irmão. –– Assinado por Jacques. O
avô de Marc, de pernas finas e sorriso imaturo.
Quanto mais complexa a caçada ficava, muito mais simples os
elementos se ligavam. Talvez devesse rever as coincidências.
Seria possível que sua família fosse membro de uma seita ou
confraria milenar, protegendo documentos ou re-escrevendo
códices? Perdeu poucos segundos até que considerou outro fator
relevante, se ele era um descendente desta trama como não sabia
de nada? Seu avô não morreu repentinamente, o atentado só
apressou as coisas, ele tinha tempo para contar um segredo, se
houvesse um.
–– Tem certeza que já não o tem? –– ajeitava as cartas dentro
de uma prancha acrílica. Ele havia percebido as dúvidas de Marc.
Não tinha porque negar, mas os documentos não estavam nas
mãos de uma facção, estavam espalhados por toda Europa e além.
Visíveis para quem quisesse ver.
Se ele não estivesse em Antioquia, manuseado uma balbúrdia
de folhas denegridas, escavando encadernações obscuras de
bibliotecas bolorentas, jamais teria encontrado referências àquela
cópia primitiva do evangelho de São Lucas. Uma passagem
singular.
Então percebeu o que o aviador-desertor fez.
Ele só estava tentando garantir que alguém iniciasse a busca
pelo códex mikhae. O que Bernis descobriu, foi um atalho
imprevisto, mas muito conveniente. A carta para Londres seria a
chave-mestra que provocaria a busca pelos objetos, as estelas,
270
pergaminhos, manuscritos e tantos outros documentos com a
marca de uma folha de videira, com a marca indiscutível de serem
completamente intraduzíveis. Entretanto quem teria o tradutor?
Por qual motivo o piloto escapou rumo ao Norte, tentando
alcançar Arkhangelsk, se não levava nada consigo?
Então o tradutor só podia estar em Paris.
Na cripta pseudofranciscana; claro que não.
Se ele pensava em resgatar o evangelho, teria a chave para
traduzir o texto de seu verso; claro que sim.
Nunca saberia ao certo...
Mas não era o que as cartas diriam.
Marc registrava suas observações com o gravador de voz de
seu aparelho celular inoperante, queria aproveitar as primeiras
impressões antes que elas fossem consumidas por ideias mais
intricadas e cheias de subterfúgios explicativos que um acadêmico
acabaria floreando.
–– Não era bem o que você estava procurando, não é?
–– Não sei. Acho que sim...

No pico mais próximo alguém chutou um pequeno amontoado


de neve que escorregou montanha abaixo, acumulando outros
cristais instáveis. Quando atingiu a primeira coluna de coníferas já
podia sobrepujá-la, engolindo o bosque.
Um abalo breve elevou seus pés aos ares, derrubando vários
objetos que se espalharam agitados enquanto as luzes ainda
balançavam. Uma outra onda derrubou-os sem cerimônia, o que
provocou o desmaio de Erik quando bateu forte a cabeça contra a
parede da instalação. Mas Marc havia se aproximado da janela
calculando a fonte deste tremor. Quando galgou o bosque, a
montanha já se mexia arrastando árvores e o que quer que
encontrasse na sua passagem. Era uma avalanche.
Marc estava petrificado.
Mas Erik agarrou-o pelos ombros, girando rápido enquanto
falava algo estranho. Quem quer que fosse Erik corrigiu a falha e
repetia tudo em latim supostamente arcaico. Contudo, antes que
pudesse absorver o sentido das palavras, era empurrado para o
exterior gelado. Do pouco que compreendeu, foi o suficiente para
se lançar ao túnel de ligação com os dutos de escavação. Um
cordão umbilical inflável unia os laboratórios e o acesso aos
271
destroços, mantendo a mesmas condições de temperatura e
umidade. O duto plástico chacoalhava com os ventos
descendentes empurrados pela onda de choque da avalanche. Eles
não teriam tempo de fugir nos snowcats ou lançando-se ao lago
glacial.
Outro empurrão e Marc voou através do duto, saltando sobre a
plataforma instável que pendia sobre uma fenda vertical de quase
dez metros de profundidade. Contudo aquele estranho Erik havia
desaparecido
Marc descia, se adiantando, quando Erik lançou duas
mochilas contra seu peito e saltou para dentro do elevador que
estava vagarosamente a pouco mais de um metro. Perceberam que
não daria tempo, o cordão de ligação se rompia com os fortes
ventos, estilhaçando os contêineres com pedaços de troncos e
pedras. O veículo de esteiras deslizou cobrindo-os
Quem quer que fosse Erik não pensou duas vezes, passou uma
rasteira em Marc que caiu de costas no piso da plataforma e
chutou a trava de segurança do elevador, saltando sobre ele antes
do mecanismo despencar. A avalanche chegava arrastando tudo,
alojamentos, veículos e geradores. A neve revolta mergulhou pelo
duto, selando-os. A luz se apagava.
–– Onde estou! –– acordava Erik assustado com a
semiobscuridade que era quebrada por uma chama-piloto.
–– Dentro dos túneis... Não se lembra?
–– Que caí e bati a cabeça. Depois, de estar acordando aqui.
Marc havia feito o reconhecimento das possíveis saídas, mas
estavam enterrados vivos. –– Uma avalanche nos atingiu.
–– Pensou rápido, eu teria fugido no snowmobile. –– rindo
enquanto passava a mão no supercílio estancado.
–– Mas foi você quem me jogou aqui! –– sacou o telefone e
constatou que ainda estava gravando, reiniciou o arquivo. Erik
tinha se levantado e procurava os acumuladores de emergência.
Quando as luzes se acenderam seus olhos estavam esbugalhados
ouvindo-se falar em latim. Marc pôde entender melhor. –– Vão
para a caverna, agora.
–– Deve ter sido a pancada que levei...
–– Mas não achou estranho?
–– Eu sei um pouco de latim...oras.

272
–– O suficiente para não cometer o erro de dizer “Vão para a
caverna”, concorda? –– porém Erik não respondeu.
E eles ficariam presos por um bom tempo antes de morrerem.
Olhavam para o homem congelado esperando o mesmo fim. Nas
mochilas teriam mantas e alguns alimentos desidratados, todavia
insuficiente para aguardar um resgate. Marc olhava para os papéis
que caíram da sacola, apático com a redescoberta. O telefone
apitou com sua bateria fraca.
Para Marc um objeto inútil que poderia ser desligado, mas ele
apitou insistente. Para sua surpresa o aparelho estava
completamente carregado, sua bateria estava completa. O apito
era outro, sinal cheio. Uma voz automática, em norueguês,
informava: ––... área de cobertura. Favor selecionar operadora...
–– Erik, conhece um número de emergência? –– estavam tão
perplexos que demoraram em selecionar a operadora e digitar o
primeiro número que veio às suas cabeças.

O silêncio era fraturado pelos primeiros motores.


Em questão de horas, vários helicópteros sobrevoavam a área
demarcada pela triangulação do sinal do celular. Homens em
snowcats do resgate local, cães e serviços de pronto-socorro
vasculhavam os escombros.
Assim como os veículos se aproximavam da catástrofe, mais
de seis mil homens da armada tebana demarcavam suas posições
para a operação de repulsão da legião norte que ocupava os
contrafortes que margeavam o vale. Um confronto que provocara
choques na psicosfera deste campo de batalha, avalanches em
terra convulsionada e a fuga de hordas de espíritos bélicos.
O primicerius Mauritius não gostava de reagir com
brutalidade, no entanto estava mantendo os desígnios mais altos.
Ele sabia que pela reciprocidade, a batalha não seria em vão. Os
rebelados foram, num passado remoto, os mesmos carrascos que
chacinaram a sua armada em Augunum, simplesmente por não
cumprirem oferendas aos deuses romanos.
O desejo de um garoto ressoou aos seus ouvidos.
Não antes de uma intervenção.
Daquele que salvou Marc.
Outra vez.
Gaius.
273
21

...se possa fazer?

Novo dia repleto de sensações saudosas de quando o


mundo era mais ingênuo. Os que pereciam seguiam para seus
paraísos reservados ou para o esquecimento infindável, e era
óbvio que ninguém iria para o inferno ardente que emanava
enxofre de caldeirões guardados por tridentes e chifres. No pior
dos autojulgamentos, talvez se incluíssem num purgatório ou
limbo. Os que viviam, ou pelo menos tentavam, lutavam
infatigáveis para garantir o futuro de seus filhos, da humanidade.
Na prática era cada um por si e cada Deus por todos.
Era quase o mesmo ânimo que aparentava Tiago quando
adentrou, extenuado e inexpressivo, no quarto do piso superior
dos Fox. Bem que Joshua tentou provocar alguma reação quando
saiu acelerado, roubando as roupas que Sean lutava para recuperar
após o banho. Mas Sean parou a perseguição se concentrando
numa segunda muda de roupas que precisavam ser postas para
lavar. Ainda estavam toleráveis.
Já calçava o tênis encarquilhado e Tiago se jogava na bamba
cadeira que servia de cabide para as terceiras, quartas e quintas
mudas de roupas inutilizáveis. Terminava suspirando.
–– Qual é a novidade! –– frisava Sean, desta vez.
E Tiago continuava calado.
Se ele não queria conversar que continuasse assim.
Em pouco tempo saberia as causas deste mutismo forçado,
aulas suspensas, de novo e de novo, com um toque sigiloso que
Tiago não quis delatar.

274
Parece que o atentado havia levado um dos alunos mais
notórios, causando um luto quase apropriado, se não fosse o fato
de ser um ato trágico. Que, há algum tempo, pouco afetava Sean
em seus novos mundos de sua realidade incorpórea e tão vívida.
Contudo ele não estava preparado para o impacto que tal
notícia provocaria em seus sentidos, eventualmente muitas
pessoas faleceram na detonação dos explosivos na estação de
metrô em Saint-Michel poucos dias atrás. Alguma criança,
totalmente possível. Mas que esta criança fosse Maurice, nunca
pensaria que o seu fim, fantasiosamente desejado por todos os
importunados do colégio, também o abalasse de pernas bambas e
sentimentos divergentes.
Diante do papel estirado num dos pilares do portão do colégio
ele desabou desalentado, chorando copiosamente para espanto dos
demais presentes. Vários garotos que seguravam o sorriso, pois
conheceram intimamente o valentão, não compreenderam a
atitude de Sean. Somente o remorso justificaria, mas a dor que
perseguia o garoto prostrado na calçada frígida era de
identificação e fraternidade. Ninguém, por mais que nossos
pensamentos desejem, deveria sofrer deste jeito. Uma mãe
abraçou seu filho e suas lágrimas entenderam o drama. Ele estava
sendo simplesmente normal.
Sua sinceridade irradiou-se atraindo muitos curiosos que
sentiram suas almas amarguradas. Atraindo quem buscava
informações dos papéis colados na coluna de um portão fechado.
Que acabavam ficando, indignados com suas negligências em
momentos como este. Estavam todos ficando embrutecidos com a
selvageria que já não reagiam mais.
Um silêncio, como jamais se ouviu, cobriu-os em suas
reflexões quando Tiago conseguiu levantar seu amigo que o
abraçou. Como é bom ter amigos.

Quando regressaram ao subúrbio, rastejando-se pelos degraus


lisos, através da vidraça disforme viram Sarah ninando um Joshua
já bem crescido com suas pernas pendendo fora de seu berço
maternal. Abanava suave, saboreando cada boa interminável
recordação que desapareceria quando o filho decidisse crescer. O
menino se aproveitava da situação para ganhar um afago
melodioso, tão delicioso, de uma mãe bastante saudosa pelos dias
275
que ficou afastada. Sean sentiu ciúmes, mas sorriu imaginando-se
nos braços.
Ele recuou e contornou a casa pelos fundos.
–– Porque temos que ser tão irracionais! –– Sean pensava nas
pequenas coisas que, todos os dias, se transformavam em uma
tempestade no copo d’água e nas grandes que, as pessoas
insistiam em dar tão pouca seriedade. Sentou-se no balanço ainda
sob o choque do evento do dia. As pouquíssimas folhas que se
agarravam aos galhos dormentes soltaram-se quando o vento
fresco acariciou seu rosto.
–– Mas, com Maurice, isto acabaria ocorrendo. –– Tiago
pressupunha.
–– Não. Você está supondo que por ele ter sido encrenqueiro
e mal-intencionado, jamais poderia mudar! É, talvez seja melhor,
menos um problema. –– Sean emanava certa indignação. –– E se
ele se tornasse um grande homem, e se estes acontecimentos
fossem o meio que proporcionaria a transformação? Do quê
estaríamos abrindo mão?!
–– Não havia pensado nisto.
–– É. Ninguém pensa em outras alternativas. E se você
tivesse escutado o que os pais dele diziam...
–– O quê?
–– Que ele estava arrependido de uma surra em que exagerou,
realmente preocupado com suas atitudes. Cogitava em mudar...
Tiago não podia fazer nada e de fininho atravessou o jardim
ganhando as ruas mortas. Tinha os seus próprios problemas para
resolver e não estava a fim de enfrentá-los. Devia ter contado,
porém Sean não conseguiria consolá-lo.
Dos arbustos que cercavam o garoto que ficou sozinho em
seus pensamentos, um par de olhos perscrutava-o tão assustado
quanto Sean ficaria se soubesse quem era. Porém a porta dos
fundos se abriu atrapalhando os seus planos. Sarah havia visto o
filho afugentado ao balanço, seu semblante apático e sofrido
indicava que precisava do aperto sem fim de uma mãe. E é o que
Sarah fez.
Não precisavam dizer nada.
–– Fique tranquilo, sei de tudo. Juntei o que seu pai me disse
com o que Marc ainda não me confirmou e que só podia vir de
você.
276
Sean não se preocupou, pois sabia que ela compreenderia, só
sentia muito por ter demorado tanto para se decidir contar. Com
seu pai foi uma obrigação retaliativa por tantas desconfianças e
confrontos. Com sua mãe seria vergonhoso, pois que ela sempre o
defendia e merecia saber a verdade.
–– Eu vejo espíritos.
E ela apertou-o com mais força querendo afirmar que não
importava, sempre faria de tudo para ele ser feliz.
–– E eu não tenho porque não acreditar... Agora me conte
tudo, desde o princípio. Sobretudo o que você e Marc estão
tramando. –– totalmente atenta e disposta a ajudar, para ânimo do
filho que se atropelava na narração dos acontecimentos. Ela
observava o rosto do filho que ainda possuía algumas cicatrizes
quase curadas. O supercílio e o lábio inferior continham as
últimas feridas e um leve arroxeado em torno do olho dava um ar
de abatimento exagerado pelo sentimento depressivo.
Quase duas horas de conversa necessitava de um ambiente
mais aconchegante regado a muito chocolate quente e bolo
compacto de cristalizados.
Finalmente terminou.
E Sarah estava chocada e angustiada. Ela não era do tipo que
planejava a vida ao sabor dos ventos, como tampouco era centrada
em objetivos imutáveis. Tinha muitos planos, mas era ajuizada
demais para adaptá-los conforme a necessidade. E esta seria uma.
Como o filho, começava a acreditar que as coincidências
eram inteiramente relevantes. Não se tratava da mão do destino,
mas de balizadores que ajudavam a regular a razão de viver, ou
alguns aspectos desta. Contudo quem determinava estas
sinalizações pela estrada era uma incógnita. Podiam até cogitar
algumas personalidades distintas na cátedra de guardiões, até
deuses, mas quando tinham capacidade para tal, as próprias almas
interessadas regulavam quais sinais precisariam para dar os
impulsos imprescindíveis.
Impulsos como uma premonição que o preparou para o
salvamento de Marc ou, conhecer outro vidente como Mateus ou,
conhecer a médica que... Muitos outros, não necessariamente com
Sean. Marc teria muito mais coincidências do que ele contaria em
seus dedos, das mãos, dos pés e se possível de mais cinco ou seis
sujeitos.
277
Com estas informações, Sarah foi a primeira quem fez
anotações esperando cruzá-las mais tarde. Consideraria todos os
acontecimentos fortuitos e estranhos daqueles que estavam
envolvidos no que parecia ser o centro, o tema destes acasos, o
códex mikhae. Entretanto os dados não mentiriam e ela
descobriria mais outros temas, talvez mais importantes do que a
documentação peculiar que Marc estudava. A pergunta que mais a
incomodava em relação ao filho mais velho era: Quem seria ele,
considerando estes sinais?
–– Falando no Marc, soube dele? –– Sean não tivera tempo de
contatá-lo, e as poucas vezes que tentou ele se encontrava fora de
área de cobertura, coberto de muitas camadas de gelo.
O telefone tocou, números de vários dígitos estrangeiros
afirmavam que transmissão de pensamento existia, falando no
diabo... Marc estava retornando, com a voz dispersa de quem se
concentrava em uma coisa e falava de outra. Para Sarah o assunto
era o de praxe, porém seu olhar mirado para Sean apontava que
discorriam sobre outro assunto, ou melhor, sobre alguém que
estava de pé bem ao lado. Se ele estava tentando surpreendê-la
com as mirabolantes estórias de Sean, ela redarguiu com hums e
sims que Marc Bernis entendeu muito bem. Era justamente o que
ele precisava para rematar sua confissão de que já estava a par de
suas fontes confidenciais, um garoto com particularidades
totalmente inacreditáveis que havia provado serem críveis.
Sean concordava com esgares de sobrancelhas encabulados.
–– Falando no Sean, por acaso ele está escutando tudo, né?
E Sarah riu enquanto espanava os cabelos revoltos do filho
que se afastou fugindo das carícias menos suaves.
–– Os manuscritos não me parecem ser a fonte destes
problemas. –– Sarah cochichava problemas se referindo aos
confrontos com os fantasmas, e Marc cogitava o mesmo.
–– Não mesmo, se quisessem já teriam destruído todos.
–– O quê você acha que é?
–– A questão seria, quem eu acho que é.
Mas não sabiam quem. Sean e Mateus eram peças-chave na
elucidação. Os diários de Miguel ou códex mikhae, uma razão.
Mas quem seria mais importante que a verdade!
–– Se resolvermos os documentos...
–– Antes precisamos do tradutor. –– Marc pensava alto.
278
–– Nada ainda?
–– Quase.
E Sean folheava o caderno de Nicklas que tinha tantos
esclarecimentos ocultos em suas mensagens misturadas quanto ele
que desejava esclarecimentos claros em suas questões bem
definidas. Naxamuñaca fingia não ouvir os desejos, pois sua
língua coçava.
–– Hum.

Muitas horas depois.


No meio da madrugada o estômago roncou reclamando
comida, mas a cozinha ficava longe. Sean se esforçava para
levantar, porém o frio e a indisposição provocada por sonhos
desconexos eram mais fortes que sua vontade.
Apesar de tudo, um olho, em meio às cobertas, estava fixo no
relógio-despertador que piscava. Este desconforto psicológico
aumentava sua fome. Sua boca salivava por um sanduíche gigante
com muito queijo derretido e fartas fatias de presunto e bacon. O
detalhe era o incrível odor que parecia se impregnar em seu nariz,
tamanho o desejo. Dane-se o frio.
Desceu nas pontas dos pés, evitando acordar os outros,
todavia havia uma ponta de culpa por ter abandonado tão
acolhedoras mantas em seu iglu térmico. Aliás, sabia que seu
sanduíche se transformaria em alguma coisa comestível, fria e
rápida com o que quer que tivesse na geladeira.
Contudo a friagem foi espantada pelo susto quando acendeu
as luzes da cozinha. Jean estava sentado num canto lendo alguns
papéis e nem pareceu importunado com a súbita chegada do
garoto faminto de poucas roupas. E Sean ficou ainda mais
perturbado quando olhou para a bancada de granito escuro da
cozinha moderna e arejada que Sarah fez questão de concluir, sem
móveis estocados e cortinas improvisadas. Devia ser o
privilegiado cômodo acabado da casa.
E Sean só admirava o belo e aromático sanduíche que lhe
impingia salivas descontroladas.
–– Boa noite, moleque. Vá em frente, coma-o.
Ele não pôde fazer nada quando suas mãos atravessaram o
lanche, ele realmente não estava ali. Fechou a cara em bico e
soltou seus ombros. –– No way!
279
–– Ficou muito tempo pensando neste sanduíche, não é?
–– Sim, por quê?
–– Isto é uma idealização de seus desejos. –– Para Sean não
importava, pois se Jean quisesse algo de seu mundo também daria
com a cara no chão. Teria que se esforçar muito para pegar
qualquer coisa. E o Arcanjo riu, imaginando, pela expressão do
garoto, que ele não estava nem aí. Talvez.
E um copo sobre a mesma bancada deslizou passando através
do sanduíche, só parando quando esbarrou na mão de Sean.
–– Para mim é mais fácil, só tenho que pensar... –– só não
contou que este pensar era mais difícil.
Bastou isso para atiçar a curiosidade de Sean, ele também
poderia fazer algo parecido?
–– Como eu faço isso?
–– Não faz. –– e o Arcanjo voltava sua atenção para os papéis
que estava lendo. Porém não pôde ignorar o olhar intrigante que
aguardava maiores explicações. Achava que nos Fox teria alguma
privacidade, mas ele estava errado. Felizmente já não era o
Mateus que não parava de incomodá-lo –– Pelo menos nunca vi
alguém fazendo! Por exemplo, este vaso sobre a mesa.
–– Hum! –– Sean era todo ouvidos.
–– Ele não existe, mas o hábito de sua mãe colocar sempre um
vaso florido deixou uma marca indelével. Mesmo agora, neste
frio, onde não é possível manter o vaso, a simples intenção reforça
sua idealização.
–– Então eu posso estar vendo objetos que não existem?
–– Não só objetos, como pessoas e eventos.
Sean observava o Arcanjo se levantar e seguir para o armário.
–– Este já é mais difícil. Logo depois que vocês se mudaram o
relógio quebrou, não é verdade?
–– Sim. Hum!
–– Apesar do tempo transcorrido o relógio deixou uma
reminiscência que, assim que todos se esquecerem dele,
desaparecerá. –– e Jean se concentrou reforçando a imagem do
inexistente relógio que surgiu marcando as três horas e trinta e
três minutos daquele amanhecer. –– O sanduíche já é outra coisa,
é só sua imaginação. Mas... –– Que, dependendo do indivíduo,
poderiam acontecer coisas incríveis.

280
O garoto estava ansioso para descobrir se conseguiria achar
mais objetos invisíveis espalhados pela casa esperando que, com
sua força de vontade, eles retornassem à vida. E andava de um
lado para outro esfregando as mãos sobre os móveis. E fingia
achar algo que Jean negava rindo. E achava algo que fingia ter
estado lá para outra negativa do Arcanjo. Sean já se aborrecia
quando acertou em cheio um frasco de linhas retas de um vidro
esverdeado que se materializou no piso da cozinha.
O Arcanjo se surpreendeu, pois o relógio havia desaparecido
alguns meses e deixara um sinal tão sutil que ele teve que usar
toda a sua perspicácia para encontrá-lo. Já o frasco, pelo que pôde
pressentir, pertencia a uma família que vivera ali anteriormente.
Pelo menos uns dois mil anos antes. E ele pegou o frasco
absorvendo suas impressões para constatar que era um objeto tão
ou mais comum do que o relógio da cozinha, o que deixaria uma
marca impossível de ser detectada.
–– Não deu muito certo, né?
–– Parece que você deu sorte de principiante. –– e Sean deu
de ombros, como tanto-faz. –– o que sabe sobre psicometria?
Novamente era encarado com ignorância quando negou o
assunto diante do Arcanjo.
E ele teria que fazer um resumo. –– Recordações passadas
que...
–– Pode parar. Faço ideia do que seja. –– lembrando-se do
episódio na praça Saint-Michel que dificilmente ele deslembraria
enquanto vivesse, talvez até depois. Inclusive Mateus.
–– O que você fez com o frasco foi idealizar estas
recordações. Para que isto serve? Ainda não sei. –– e Jean estava
sendo sincero em suas considerações que só escondia o fato de
não ser capaz de repetir o feito. E olhe que ele teve tempo de
praticar. E iria demonstrá-lo.
A porta bateu logo atrás de Sean que girou desconfiado da
brincadeira de Jean que se divertia indiscriminadamente. Seu
retorno à posição anterior revelaria outro arrebatamento. Todos
os móveis da cozinha, objetos e badulaques haviam
desaparecidos. Para não ter dúvidas, Sean atravessou onde estaria
a bancada e nada de poderes de invisibilidade.
–– Cadê as coisas?

281
–– Agora nós vamos ver se é bom mesmo. Feche os olhos e
idealize, imagine, como a cozinha era. Cada coisa em seu canto.
O garoto se concentrava nos móveis, nas xícaras e nos pratos,
no lixo e na lixeira, será que as cortinas eram brancas mesmo,
tinham rendas? E os cereais ficavam e quais armários, os pratos
tinham desenhos? Ah, os copos eram decorados com bichos, mas
quantos? Quando o Arcanjo deu o sinal ele abriu os olhos e caiu
na gargalhada. Parecia que Salvador Dali e Picasso haviam
projetado o ambiente. Cores erradas, proporções erradas e
formatos errados.
–– Como isto aconteceu?
Mas o Arcanjo não responderia, Sean tinha se enganado na
idealização. Sua versão da cozinha refletia a sua falta de atenção
aos detalhes. E ele se cansou da brincadeira e, sem comida por
perto, retornou para sua cama de formas bem acertadas.
–– Logo cedo a cozinha estará aqui. E não conte para Matt
que estive por aqui. –– gritou Jean antes que o garoto
desaparecesse na dobra do corredor. Ele bufou cansado quando os
primeiros raios caíram em suas pálpebras recém fechadas.
Entretanto o Arcanjo admirava ainda embaraçado a
concretização de Sean. Ele esperava que os móveis deixassem
uma marca que ele pudesse plasmar, talvez conseguisse recriar
algo, outros ficariam indistintos ou incompletos, mas ele inventou
algo totalmente inédito. Não era o reforço de impressões
impagáveis, eram criações. Para se certificar sentou no que
parecia uma cadeira muito desconfortável e ajeitou os seus
documentos sobre a mesa desalinhada que não mantinha nada
estável.
–– Este garoto é muito estranho!
–– Hum. É verdade, mas é só um garoto por enquanto. E não
há nada que se possa fazer. –– tio Xaxá admirava a pièce de
resistance do que seria cozinha. –– Você nos prometeu vigiá-lo.
–– Nunca quebro acordos.
–– Só faz o impossível...
–– Só por que afundei o hidroplano?!
–– Hum. O motor da direita estava falhando! Entre outras. É
sim.

282
22

por trás dos olhos fechados

O cenário citadino habitual camuflava todos os


acontecimentos que divergiam da realidade descrita nas
evidências fotográficas da primeira página do jornal de grande
circulação que acabava de comprar. Dias seguidos, muito banais,
e esta naturalidade não era tão aparente como gostariam algumas
pessoas. Porém, os dias com aulas inexpugnáveis retornaram,
assim como os dias azafamados de muito trabalho acumulado.
Marc abandonava o táxi irrequieto com seus papéis enfiados
debaixo do braço, calçando o copo de café à máquina entre os
dedos menos ocupados, numa tentativa irritante de remover o
dinheiro da carteira. Esta operação estava tomando mais tempo do
que ele gostaria e, muito mais do que o taxista suportaria de um
passageiro, obrigando-o a sacar a quantia por conta própria para
embaraço de Bernis. O copo de isopor não aguentou a manobra e
despencou, acertando a ponta do seu pé. O mesmo pé esquerdo
com que vinha se levantando todos os dias desde a avalanche.
Algo verdadeiramente acontecera a ponto de alterar a sua
maré de boa sorte.
Com o periódico enrolado, bateu à porta insistentemente. E
esqueceu que estava sem a bebida, levando a mão desocupada à
boca ansiosa. Sarah o recebeu com entusiasmo, puxando-o para
um abraço que o encabulou. Tentou gaguejar algo, mas ela era
demais. E tinham muitas dúvidas para responder quando ele
mostrou as folhas pautadas do cilindro metálico descoberto em
Sogndal. Sua primeira impressão foi de espanto –– caramba ––

283
diante das marcas que compunham os extremos deste
compartimento.
Um choro dorido brotou do quarto acima. Era a causa pela
qual trabalharia em sua casa, dividindo-se entre obrigação
profissional, deveres maternais e curiosidade feminina; que só
uma mulher conseguiria realizar com justiça e presteza.
Jox estava acamado, precisando de muita cama para se
restabelecer, uma âncora com propósitos bem delineados em sua
cabeça recheada de bactérias e vírus em espirros desafinados, com
muito catarro saindo pelas brechas do rosto. Não caberia outra
medida, senão esta. Com hospitais superlotados de doentes em
nebulizadores e sondas intravenosas andantes, a melhor escolha
estava na amabilidade e cafunés de mães prestimosas. E
aconselhamentos indiretos da doutora Mel para evitar os pronto-
socorros.
Quando já estava remediado, Sarah saltou os degraus puxando
Marc e, acelerou todo o processo despencando o material sobre o
tampo da cozinha selecionando os campos em montes por
assuntos incoerentes para um leigo. Enquanto ele abalizava
algumas anotações complementares apontadas por ela, em sua
caderneta de campo rasurada, Sarah preparava o lanche da tarde,
servindo-se de uma chaleira ao fogo.
–– Se o documento não estava lá, está por aqui. Quem sabe
ele tenha confiado a alguém.
–– Também acho. –– pedindo um pouco do chá que fervia. ––
Só precisamos saber quem! –– dirigindo sua atenção às pilhas de
papéis que sequestrou dos arquivos do professor Hodgson-
Crookes e às que acrescentou de suas observações do códex
mikhae e às que trouxe de Erik. –– O que está oculto por trás dos
meus olhos fechados?
Uma expressão que Marc ouvia fixamente em sua mente, se
repetindo como uma reminiscência apreensiva de que deixara
escapar algo por entre os dedos, e não era só um copo de café.
Uma frase que ouvia sempre que seu avô se deparava com um
beco sem saída.
Por bem, Jacques experimentava reduzir as teorias,
simplificando, depois as entrecruzando, mas acabava por
solucioná-las com um diminuto elemento desapercebido ou
adicionado. Sempre havia um elo perdido e se ele não o
284
encontrava fazia um jogo que Marc ainda não aprendeu, supor
qual é a peça que faltava e partir em sua busca. E qual seria a que
responderia a sua incógnita?
–– Então os abra. –– frisou Sarah.
Comporam todas as informações para si, formando um
semicírculo que continha os manuscritos de Bernardo, as cartas,
um símile do peculiar evangelho de São Lucas e o seu reverso
mikhae. E o que ele não está vendo?
Depois de algumas horas, resolveu fechar os olhos.

A tarde alardeara com o impacto a acometida ao horto.


Tiago investia às costas de Sean, derrubando-o de cara na
neve enquanto Mateus lançava mais bolas alvas contra rostos
aturdidos. O contra-ataque dos garotos seria mais implacável,
provocando a fuga de meia dúzia de bisbilhoteiros, acertados
pelos tiros imprecisos. Eles entravam no vergel adormecido
gargalhando e fatigados da batalha sem mortos ou feridos. Elene
vinha logo atrás com cuidado disfarçado para não ser atingida,
apesar de que ninguém tinha esta certeza. Por dentro, ela ansiava.
O que ela precisava era estar por perto.
E a represália de Sean seria insólita –– Tiago, preste atenção!
–– e pedia que olhasse para Mateus que agachou duas ou três
vezes tentando arranhar o chão em vão. E ele se levantava
encalistrado, olhando para todos os lados. Neste momento de
confusão, eles acertavam o alvo exposto. –– É bom demais. Eu
estou provocando com alguns objetos falsos. Agora o seu irmão
está tentando pegar um maço de notas que...
–– Não estou vendo nada! –– Tiago não aprendia.
–– Você não, mas ele sim.
–– Hã.
E Tiago fazia careta de quem estava sempre um passo atrás.
Sean já se acostumara com as expressões de pouco caso que ele
fazia quando contava casos de outra alçada, completamente
fantasmagóricos. E ele estava aprimorando suas técnicas de
produção imaginativa, conseguindo confundir até Naxamuñaca
com sua bela criação de uma torre de panquecas aromáticas que
evaporou diante de seus olhos. Mas que ressurgiu à solicitação do
faminto tio Xaxá, que se deliciou com a sua variante aperfeiçoada
de panquecas amanteigadas.
285
Por pelo menos uma vez, Sean acreditou ter sentido as pontas
de seus dedos tocarem em algo menos vaporoso, contudo devia
ser efeito colateral de sua imaginação em uso contínuo. Estas
pequenas coisas que idealizava servia só para provocar Mateus
que parecia desconfiar de alguém específico quando seu olhar
cruzou-o de Sean. Este engana-engana confundia-o, trocando o
falso pelo real e o legítimo por inventado, o que acabou causando
o tombo diante de um portão que tinha certeza não existir, mas
existia. Talvez por isto ele olhasse abertamente para Sean com
furor. Tiago não suportava estas exibições onde ele não podia
experimentar a sua versão.
O olhar fulminante do ludibriado desprendera a calha,
derrubando a neve do telhado sobre os garotos que já não riam
mais. À face emburrada seguiu-se uma reprodução síncrona que
explodiu em alto e indistinguível: –– No way, man!
Os três ingressaram na cozinha em queda brusca, onde
Mateus apertava Sean num abraço hostil e era apartado por Tiago
em febril guerra de crianças. –– Eh! Desculpe. –– os três
constrangidos em conjunto.
Enquanto eles se mexiam doloridos, Elene cumprimentava
Sarah e Marc entre passadas bem calculadas que não evitaram
resvalar em alguém, levando-a de encontro aos demais. Amaciada
pelos presentes, por seus renovados gemidos.
–– Estamos só brincando. –– respondia Matt.
O cheiro de comida apressou o levante.
Sean se erguia atordoado com a brincadeira inesperada que
provocara. Tiago já estava comendo alguns salgados que mal
cabiam em sua boca apertada, para desocupar as mãos que se
serviam de uma caneca de um líquido quente que tentava abrir
caminho pelos lábios ocupados.
–– Hum. Hã. Nhum. Hum. Hei... –– tentava falar o quanto
estava delicioso ou sobre o que estava na mesa, provocando uma
mímica incompreensível.
–– Mostre o diário para Marc, Sean. –– sendo vingativo
diante do convencimento crescente.
Ele sacou o velho e enrugado caderno de anotações com
receios, e que pertencera a Nicklas Buchhand, colocando-o sobre
o palco de documentos rearranjados num canto. Como não pôde
averiguar com o senhor Fabien, que não atendia suas ligações,
286
Bernis poderia ter algumas explicações para o intricado diário.
Marc não entendeu até não entendê-lo, estava criptografado como
todos os outros documentos que possuía. Mas este tinha uma
cártula singular, Miguel. Folheou-o a esmo procurando a sua
resposta.
–– De onde veio?
Tiago se precipitou apontando para o documento de Bernardo
colocado em evidência no canto da mesa. Marc e Sarah achavam
que ele estava tentando dizer algo, porém eles não captaram seu
raciocínio, se é que havia um.
–– Do senhor Buchhand! –– e punha seu dedo gorduroso
sobre as letras vermelhas que margeavam a carta de Bernardo
com tipos móveis de uma máquina de escrever. –– Este também
estava com ele?! –– uma pergunta ou confirmação?
Marc Bernis olhou de novo para as anotações de rodapé feitas
pelos nazistas e não acreditou que, desde o princípio, estivera com
a solução diante de seus olhos fechados. Não sabia muito bem
alemão, mas confundir buchhändler, o livreiro de Paris com um...
–– Quem é este senhor Buchhand!
–– Só um velho senhor que ajudou Sean... –– e Sarah pensava
nas histórias de guerra que ele contou. Ele era o tradutor?
–– Contou que foi salvo por um soldado que abandonou o
exército na região de Arras e... –– procurava por um nome na
contracapa do diário. –– que se chamava Nicklas Buchhand.
Marc se levantou caindo sobre a papelada, mergulhando as
mãos que destroçavam as pilhas e montes que Sarah havia
construído com esmero de um planejador urbano para arrancar
uma folha de carta que trouxe da Noruega. –– “... não sei qual o
destino dele, mas se eu falhar, sempre haverá um Nick para
concluir a missão...” –– relendo mais vezes para não cometer o
mesmo erro de deixar passar uma pista oculta por não saber
decifrar línguas modernas.
Tiago se abraçava à comida espalhada pelo devaneio de
Bernis que se afastava pensativo, com ares de quem iria arrebentar
a porta de suas dobradiças à caça deste livreiro que todos
pareciam conhecer, menos ele.
Porém Sarah impediu-o empurrando todos para suas cadeiras.
–– Se ele soubesse de algo, não teria dado este documento. Se ele
soubesse quem era o tradutor, não teria entregado a ele. –– e
287
todos se viraram para o portador. E Sean ligeiramente se pôs em
justificar: –– Nem pensem que eu sou o tradutor disto... no way!
–– Nã... Não! –– concordaram juntos.
–– O senhor Fabien não está mais na cidade. –– respondeu
antecipadamente aos desejos dos curiosos.
Uma boca recheada de migalhas assoprou farelos numa
suposição inconcebível para Marc. –– Mas por que vocês não
perguntam para os fantasmas? –– Supondo que sua idéia seria
absurda demais até mesmo para ele.
Seria possível? Se Mateus e Sean quisessem tentar, seria
mesmo possível? E com estes olhares que pulavam de pessoa para
pessoa, recaíram sobre os dois únicos voluntários para esta
comissão diplomática. Matt e Sean balançavam a cabeça
negativamente.
–– Para quem devemos perguntar? –– direcionando a
interrogação para Tiago, Marc esperava descobrir o que ainda
estava oculto por trás.
–– Não olhem para mim, nem sei se tem fantasmas por aqui.
Sean concordou quando Mateus garantiu que estavam
sozinhos, não tinha nenhum espírito à espreita. Obedecendo aos
psius dos índios que insistiam em seu anonimato, pois eles
mereciam ouvir as teorias que tanto contribuíram em direcionar.
Mateus procurou direcionar as opções conforme lhe vinham à
mente. –– Às divisões napoleônicas no Louvre...
–– Soldados da SS no convento-universidade...
–– No aeródromo... –– lembrava Elene.
–– Estes eram cavaleiros com armaduras.
–– Não se esqueça dos gregos... –– acrescentava Sean. –– e os
paramédicos.
–– Hum. Os índios não contam...
E eles acenaram um não.
–– E romanos?! –– era a vez de Marc.
–– Eu vi um romano com um manto vermelho em duas
ocasiões... –– e Sean olhou cúmplice para Bernis. –– nos dois
atentados no metrô da praça Monge e Saint-Michel. –– Se
referindo ao que provocou a intervenção cirúrgica em Marc e ao
que explodiu os subterrâneos centrais de Paris. Ainda dava
calafrios quando recordava o olhar devassador da estátua
cobrando um compromisso inimaginável.
288
Marc percebeu a inutilidade deste exercício recorrendo a uma
reclamação bem justificada. –– Se ao menos pudesse vê-los!
–– Na televisão tinham maquis em seus barretes, junto com os
manifestantes destas revoltas estudantis que aconteceram a pouco
tempo. –– complementava Sean para júbilo de Marc que abriu o
jornal de grandes letras vazadas contra uma tarja anil e ainda
solicitou um mapa urbano. Exemplar já bastante gasto que
apresentava dados ultrapassados, mas serviria para o experimento.
–– O que acontece quando eles se reúnem em grande
número? –– contundo a pergunta era feita diretamente para
Mateus que demorou antes de.
–– O ar fica mais denso e frio, eu me sinto mal e muito mau.
Exatamente como todos pressentimos ainda na saída do seu
apartamento!
Sean completou –– Parece que todos se sentem assim, vendo
ou não o que se passa... Muitas das vezes estão ocorrendo...
––... Manifestações de revolta, confrontos, enfim, as pessoas
ficam afetadas por essa concentração de pensamentos contrários!
–– finalizava Marc. Mateus ligava algumas situações em que o
agrupamento de espíritos provocara discussões entre os vivos,
mas sempre de pequena monta. Entretanto Sean advertiu que os
alemães que invadiram o cordeliers penetraram em meio aos
conflitos entre universitários insatisfeitos e policiais armados até
os dentes. Onde houvesse dois ou mais espíritos impregnados de
más intenções e algumas pessoas por perto, lá haveria um duelo.
Quanto mais instigados eles forem, maior será os fatos, que
começariam com habituais xingamentos e terminariam com armas
em punho e agressão irrefreável.
No frontispício do periódico diário Le Figaro, as pistas se
transformavam em contornos luminosos na carta geográfica da
cidade, gerando um perímetro disforme. Greve e manifestações no
Campus de Jussieu, um dos grandes teatros de enfrentamentos
coletivos, os anti-CPE em contratos rasgados, bloqueavam o
ingresso às universidades e ao instituto de física com uma
montanha de entulho similar ao do ajuntamento de amianto
arrancado de suas entranhas em polêmicas passadas.
O tumulto de alguns protestantes e católicos em presença do
gótico santuário paroquial de Saint-Médard que já presenciou
episódios mais cruentos do mesmo tópico, estavam em oposição
289
às passeatas religiosas na mesquita de Paris contra os tributos aos
franco-atiradores algerianos em sua campanha de resistência na
derradeira grande guerra.
Tanto em espaços abertos como o Jardin des Plantes ou
fechados como a praça de la Contrescarpe, havia baderneiros e
vândalos destruindo tudo que tivesse em seu caminho. Gangues se
entrechocavam sem razão e várias incursões policiais faziam
rondas sem descanso. Na ménagerie, as feras do zoológico
estavam transtornadas, parecendo pressentir movimentos muito
estranhos, de seres animalizados.
No Ministério de Educação Nacional, paralisações dos
sistemas informatizados, provocados por sabotagens virtuais,
estavam provocando atrasos burocráticos nos processos. As
barricadas políticas por toda a rua Soufflot recordavam as
confusões de maio de 68, com embates entre prós, contras e
guarda intervencionista diante do Panthéon. Pedras e paus e
cartazes e bandeiras rubras se digladiavam com escudos e bombas
lacrimogêneas.
Por todo o quinto arrondissement eclodia, de pequenos furtos
até centenas de feridos dos entrechoques calorosos, coagidos pela
massa espectral paralisada no campo. Até pacíficos arqueólogos
disputavam as escavações das fundações da torre de la Tournelle
que emergiram do afundamento de parte da rua des Fossés Saint-
Bernard e o quai de la Tournelle, estagnando o fluxo rodoviário
para a ponte de Sully e a estação de Austerlitz. A isso tudo, mais
uma agressão racista na linha C do RER e voilà.
Os pontos marcados na carta tracejavam um perímetro não tão
irregular que, de Saint-Médard, passando pelos demais pontos, até
a Mesquita, formavam uma folha de três pétalas. Eles, em linhas
pouco retilíneas, se cruzavam num campo arborizado adjacente à
rua de Navarre que não tinha marcação ou denominação aparente
no mapa inacabado e simplista, comercializado por oportunistas
aos turistas ocasionais.
Por fim, um artigo fazia referência ao versado desastre no
metrô da praça Monge e as reincidências dos problemas
estruturais das reformas mal executadas por empresas gananciosas
por aumentar lucros diante do ofuscamento administrativo da
Régie. Como um caule que guiava os demais acontecimentos,
talvez o primeiro que se tenha conhecimento da intervenção de
290
fantasmas, outra linha isolada ligava o centro do desenho à praça.
O gráfico garatujado lembrava uma folha de videira.
–– Isto é o que chamo de baita coincidência! –– confirmando
em voz alta o que todos supunham. Esta sim era coincidência,
mas a quantidade de acontecimentos, próximos entre si,
descreveria um epicentro. Mas o que havia no meio da folha
rabiscada por traços tortos?
–– As arenas?! –– gritou Elene que começava a entender.
–– Só pode ser aí.
–– E agora, como faremos? –– olhava promissor, Marc, para o
rosto lívido de Mateus que seria sua única alternativa viável. ––
Sabe algo de latim?
–– Hum! –– suspirado junto por Mateus e Naxamuñaca.
Todo o plano sintetizava em como enfiar Mateus no meio
destas hostes sem que desconfiassem que ele era um espião, muito
menos que não falasse o idioma, menos ainda que fosse vivo. Pelo
menos enquanto não fosse descoberto.
Quanto ao senhor Buchhand, este teria seu interrogatório
assim que eles descobrissem o que estes invasores desejavam.
Porque para destruir os manuscritos do códex mikhae ou tirar um
deles do lance, bastava estalar os dedos e coisas inacreditáveis
aconteceriam, sem explicações, se presumível.
Quanto ao que Mateus pensava a respeito de sua campanha
sigilosa no campo inimigo, devia guardar só para ele. Sean jamais
passaria desapercebido e Marc não saberia o que fazer andando às
cegas ou tateando o ar. Contudo não resolveram como Mateus
responderia às interpelações latinas ou de outra natureza que não
fosse o bom e velho francês do século vinte e um.
–– E se usássemos intercomunicadores?! –– Tiago, de novo.
–– Podemos fazer um teste... –– dava de ombros Marc, não
fazendo a menor ideia do que queria dizer.
O resultado não seria garantido e só quando eles chegassem às
arenas de Lutèce saberiam se o estratagema funcionaria. E
precisava funcionar inexoravelmente se Mateus quisesse sair,
ainda ileso. Ou acabaria sendo prisioneiro, o que seria muito pior,
além de estar morto.
Agora compreendia a fatídica citação.
Capturado vivo ou morto.

291
23

sete de dezembros.

Manhã auspiciosa quando as brumas envolventes


camuflavam a assiduidade do skyline parisiense. Pontos isolados
se destacavam pelas suas luzes baças que emolduravam janelas no
céu. Como dizem, manhã para se esquecer de acordar, se esquecer
de que existia um mundo e, sobretudo, se esquecer dos mortos.
Mas o que é imprescindível deve ser seguido de agilidade, não
bastava serem só eficazes, precisavam ser eficientes também. E
descobririam que os museus serviam para muitas coisas
imprevisíveis. E, entre tantas, jamais pensariam em roubar suas
antiguidades para se disfarçarem de fantasmas, mesmo que estas
relíquias estivessem encaixotadas com muita naftalina e pouca
aplicabilidade. Se não conseguissem, fariam uso de réplicas ou
fantasias mal acabadas de aspecto mais jocoso do que autêntico.
Matt tomava a vestimenta de espião do século antepassado.
De sobrecasaca escura com detalhes de dragonas vermelhas,
cortada pela intersecção de faixas ao peito, experimentava isto
com dificuldades extremas. Faixas que sustentavam um embornal
e o fuzil de cano longo com gatilho aligeirado por um orifício que
lembrava a forma de um coração. A calça, no mesmo tom, era
presa por meiões que subiam até os joelhos com dezenas de
botões prateados. Um casaco cinza e comprido e grosseiro cobria
a indumentária que exigia um complemento que Mateus se negava
em usar, o chapéu cilíndrico ornado por uma pluma solitária. Ou
isto ou os incômodos bicornes ou os gorros de pele de urso.
Acabou se decidindo por ficar sem, sob as golas levantadas que o

292
protegeriam do vento e dos olhares mais impertinentes que
suspeitassem de sua falsa imortalidade.
–– Será que vai dar certo? –– arriscava Elene, enquanto
divisava Mateus acocorado diante da televisão, vendo cartoons.
Ele se coçava muito e reclamava do cheiro horroroso que parecia
provir do suor de seu último usuário secular.
Marc tinha receios que não queria partilhar, no entanto o que
aconteceria caso Mateus fosse descoberto? O que alguns espíritos
poderiam fazer, gritar buás em caretas melindrosas ou cantar
cantilenas intoleráveis durante noites seguidas? Mexer em alguns
objetos, escondendo-os em outro mundo? Bichos-papões? –– Com
certeza. Não se preocupe. –– Ainda.
Mas Elene se prendia nos volteios e arremessos que
presenciou no aeródromo; coisas sem explicação, caso não
tivessem lhe explicado o ataque de catapultas, cavalos e espadas
de um confronto que jamais presenciara. Estava sempre se
contradizendo.

–– Você por aqui? Vai junto? –– Mateus se referia ao Arcanjo


que se aproximava cauteloso.
–– Não posso, acabaria delatando suas intenções. Não sou
bem visto por eles. Mas por que está usando isto?
–– Conveniência. Assim eu poderei me aproximar.
–– Mas não eram legionários romanos?
Mateus travou na resposta. –– Não são romanos? –– se
dirigindo a Marc que ajustava os intercomunicadores na lapela.
–– Nem todos devem ser. Eles estão trabalhando juntos para
conseguir algo muito importante. Pelo menos um, de cada um dos
exércitos vistos, deve ter um emissário.
–– E se não! –– Mateus tinha certeza absoluta de que as coisas
não sairiam como planejavam. Era o que acontecia com planos
cujas informações não eram precisas o suficiente.
E Marc repetia, em bom tom, para ele ter mais ânimo. –– Seja
coerente. Se alguém falar contigo em outra língua, poderá
contestar naquela que conhece e que condiz com o seu uniforme.
Certo? –– apontando para o fraque com batidinhas no ombro.
–– E se eles entenderem que eu deveria falar em todos os
idiomas? –– prevenido, Matt.

293
–– Estamos aqui para te ajudar! Eu falo vários. –– pensando
em quais não sabia e torcer para que não precisasse deles.
Conhecia tantos que não precisaria se preocupar. Não mesmo.
Porém Sean sentia cheiro de tiro que saiu pela culatra,
mesmo antes de acontecer algo suspeito. Havia um temor de que
enfrentar esta legião fosse ousado demais. Qual a força que estes
mercenários poderiam provocar num ato de represália?
E Jean parecia saber. –– Não sabem com que estão mexendo.
Tenho um mau pressentimento.
–– Basta sermos mais cuidadosos. –– dizia Sean.
–– Deve estar certo. É que eu odeio o dia sete de dezembro.
E Mateus quis saber porquê.
–– O dia da minha morte!
E eles só queriam evitar que também tivessem que recordar
deste dia como o dia de suas. Bater na madeira não adiantaria.
Todo o orquestramento contava com duas certezas, que eles
iriam até às arenas e, iriam interagir com fantasmas em intensas
manobras de guerra. E Naxamuñaca sabia de mais uma, que eles
estariam lidando com criaturas desconfiadas e vingativas que não
tolerariam intromissões. E Guarini sabia de outra, que eles
acabariam cometendo um erro, e seria letal. Matt não o convencia,
mas os outros costumavam ser meio apáticos com minudências.
Somente Elene teria a maior de todas as certezas, sabia muito
bem que Mateus habituava trocar as mãos pelos pés, ainda mais
em casos tão estressantes.
–– Desta vez vai dar tudo certo... –– Mateus percebeu o olhar
de dúvida de Elene, mas mesmo assim enfiou suas coisas no bolso
e apressou a partida.
–– Eu só espero que tenha feito um briefing... –– afirmando
sua impressão sempre acertada de que ele acabaria esquecendo de
seguir o plano. Entretanto ninguém falava do improviso que,
decisivamente, seria a nota em pauta durante toda confrontação
face-a-face com o inimigo. Era o que Marc evitava explanar.
O que dava ao propósito, maior e intolerada imprecisão.

–– Não quero me arrepender depois. –– Guarini afastava Sean


para uma confissão franca, porém indecisiva. –– Chega até aqui,
garoto! Precisam saber o que estão enfrentando e, também, o que
o conclave resolveu.
294
Sean assentia em conluio.
–– O conclave sabia da invasão quando realizaram a
assembleia no campo dos menires. Eles pretendiam, com os
eventos posteriores, estabelecer uma linha de ação.
–– Pensei que vocês estivessem do nosso lado.
–– E estamos. Mas o meio pelo qual talvez lhe pareça
impassibilidade.
O garoto estava confuso e pretendia ilustrar o que estava
acontecendo, caso eles não tivessem percebido a gravidade. Eles
só precisavam estender seus escudos ou improvisar um
entrincheiramento de anjos guerreiros, como aquele que
empunhou uma espada contra o demônio.
–– Nós não somos muito diferentes destes invasores. Só nos
distinguimos pelo caráter. Não possuímos meios extraordinários
para prever o rumo dos acontecimentos. E muito menos de
intervir com a convicção ao qual somos alardeados. –– e o
indiozinho tirava o corpo fora.
–– Por que não?
–– Por causa dos débitos que geraríamos quando nos
rebaixássemos ao mesmo grau destas legiões implacáveis.
Enfrentá-los nos custaria todo o esforço do bem em não agredir,
seja quem for. Estes atos também não provocariam a
transformação de atitude que gostaríamos que ocorresse aos
rebelados. –– havia uma explicação, mas não tão boa. –– A não-
intervenção foi unânime.
–– Então toda a defesa fica por nossa conta?!
–– Suponho que não. –– e Guarini deu uma piscadela
conspiradora. –– Por fim, tivemos resoluções superiores para não
nos intrometermos abertamente no conflito.
–– Eu não entendo! A invasão deve acontecer? –– e Sean
acertou na mosca. Era questão de premeditação, alguém se
aproveitaria da situação para gerar benefício. E o conclave
obedeceria às tais ordens. O que Guarini omitiu desta confissão
sugerida foi que um anjo de desmedida envergadura esteve
presente à deliberação da reunião afirmando que, na hora
apropriada, estaria presente nos eventos extremos. Sejam eles
previsíveis ou não. Este ser angelical não era aguardado,
tampouco a sua aparência infantil que, sob intensa luminosidade
emanada, impediu-os de reconhecê-lo.
295
Nunca, jamais; a legião jamais ocuparia as Terras Médias e
não retrocederia ao covil do qual foram expulsos.
–– Nós não somos grupos de milícia, mas de resgate. Nossas
cidades são como postos avançados de socorro, limítrofes a estas
terras. Não intervimos na livre escolha dos homens, estejam eles
vivos ou mortos. Pois sabemos que existem ligações entrelaçadas
que perduram durante várias vidas.
–– Sei lá, mas vou lhe dar um voto de confiança. –– Sean
tentava confiar em suas vozes interiores que berravam
compromissos intuitivos. –– Afinal, vamos estar sozinhos.
–– Nunca estamos sós. Se precisar, improvise. –– tirando o
corpo fora pela última vez. E sorriu imaginando. Suas suspeitas
quanto à tentativa de incursão ao acampamento hostil eram todas
temerosas, porém ele contava com um segredo respeitável que
dava vantagem larga.
Contudo o garoto ainda não conseguia idear o que esta
invasão poderia ocasionar à cidade e seus cidadãos, eram mundos
tão distantes que seria como se soldados entrassem em corpo-a-
corpo no meio de um festival de música erudita. Isto, sem que eles
se dessem conta um do outro ou interferissem na continuidade dos
eventos. Mas era muita suposição para um dia.

Precisavam do elemento surpresa.


E o Peugeot corrompido demorou a pegar, em continuadas
fricções do motor de arranque.
O trajeto matutino estava ameaçado pelo nevoeiro úmido que
cultivava gotas tremeluzentes sempre apartadas pelos limpadores
cautelosos. Bem poucas pessoas apareciam diante do campo de
visão limitado, o que dava a impressão de que estavam sozinhos,
mesmo que, a poucos metros, uma muralha estável de
madrugadores estivesse caminhando, vampirescos, para seus
trabalhos tumulares. Dentro, um silêncio inconveniente
aumentava a ansiedade.
–– Antes eu preciso saber o que vocês veem, só depois
entramos. –– e este entra levou Mateus a engolir em seco,
pressentindo que não havia plano, ou planos, seja o A, B ou C. A
improvisação era o maior mérito de Marc, ele só necessitava ver.
Porém ele não via. Em terra de cego...

296
Desceram pela rua Monge, após cruzar a Cardinal Lemoine,
detendo-se nas proximidades das arenas romanas do século
primeiro. Marc amparava Mateus e os outros forçavam sua evasão
do cubículo com impaciência. Apesar do dia ter clareado, a luz
provinha de todas as direções, refletidas pela névoa densa que não
dissipava.
Não havia vento e o ruído cotidiano estava apagado e bem
longe, abafado pela pequena floresta que circundava as ruínas
reconquistadas. Em 1860 pela Compagnie Générale des Omnibus
que pretendia situar a garagem de seus tramways aí. Mesmo
depois do término da rua Monge e, do desmantelamento das linhas
de bondes, muitos mitos circulariam acerca das escavações da
linha dez do metropolitano. Histórias de fantasmas.
Penetraram o monumento como reles invasores, observando
movimentos inesperados pelo canto dos olhos, mas só importava
as observações mais difíceis, que Sean sondaria pela retaguarda.
Mateus o fazia pela frente, empurrado por Bernis. Elene e Tiago
preenchiam o bolo de curiosos que ficariam quietos e inertes.
Sem um pio.
As primeiras barreiras espirituais eram cerceadas de pesado
armamento de defesa, corroborando as suposições de Marc de que
onde há fumaça, há fogo. E o fogo se confirmaria como um
incêndio de grandes proporções. Tão logo o grosso da névoa se
desmanchou, centenas de homens entorpecidos, reunidos por
similaridade tecnológica, se aqueciam em fogueiras distribuídas.
Tacapes, clavas e lanças se opunham a flecha e espadas
enquanto mosquetes e fuzis eram dispostos num mostruário
improvisado. Sean fazia um resumo mais ameno para os
escondidos nos arbustos. Se eles não foram descobertos, foi por
causa dos distintos olheiros que evitaram duas patrulhas de
reconhecimento. Um par de besteiros venezianos que falavam
pelos cotovelos e, uma trinca de temíveis soldados austríacos com
seus mosquetes empunhados, em miras aleatórias que arranharam
o esconderijo por um triz.
O panorama descrito por Sean restringia a ação de Mateus a
penetrar o território, atingindo o epicentro da arena onde havia
uma ampla tenda de caserna. Homens mais destacados ou de
patente visível penetravam sem barreiras e cerimônias.

297
–– Se somente os oficiais superiores têm autorização é porque
é o centro de planejamento da operação da invasão. –– explicava
Marc aos sussurros. –– É lá que teremos a nossa resposta. ––
óbvio para todos. Para Marc era a coisa mais absurda que tentava
em sua vida dedicada à pesquisa científica e bem palpável.
E aplicava uma enormidade de medalhas e patentes militares à
farda de Mateus que suava por antecipação. Sean percebeu a
roubada em que seu amigo se metera. –– Não deve ser fácil. Vou
dar um conselho: na dúvida, corra. Corra o máximo que puder.
–– Tranquilo, moleque. –– Ele não gostou da recomendação,
contudo não iria ignorá-la de antemão. E com esta máxima
deslizou um barranco e avançou até o limite das arquibancadas da
arena populosa. Deu dois toques ao ouvido, aferindo o
equipamento eletrônico. Do outro lado alguém confirmava ouvir o
burburinho da soldadesca em parlatório espartano. Respirou
fundo algumas vezes, se preparando para atravessar a multidão em
agitação, sem resvalar. O ar esfriou consideravelmente em forte
condensação que escapava por entre os dentes.
Respirou profundamente e seguiu para o que se tornaria
prontamente o dia de sua morte.
–– Vocês me pagam! Quando eu voltar...

Ninguém o havia prevenido para o intenso odor que


descobrira no largo ocupado pelos soldados do além-túmulo. Era
como se estivessem se decompondo ainda. O aspecto, aprimorado
pelo aumento dos pormenores aproximados, confirmava o cheiro
de podridão. No conjunto absoluto, os fantasmas não estavam tão
pavorosos, mas se ele ficasse prestando atenção nas pústulas e
ferimentos jamais daria um passo adiante.
E se os fantasmas soubessem a diferença entre os sólidos e
incorpóreos? Não haviam pensado neste pormenor. E estava
segurando o passo, e o estômago, quando foi obrigado a recuar
para escapulir de uma briga inapropriada entre dois brutos. Só se
deu conta de que estava dentro, assim que girou os calcanhares e
não viu uma rota de escape.
A circunstância fazia a coragem.
E eles não pareciam se importar com o invasor.
Conversas paralelas atrapalhavam a reprodução sonora de
Sean para Marc. Ele se esforçava para repetir o que ouvia com
298
exatidão, porém o semblante de Marc indicava que a transmissão
estava ruim. Era um telefone sem fio e sem nexo.
Aos poucos, Marc Bernis se familiarizava com as reproduções
e esboçava umas traduções demoradamente repassadas. E Sean,
de seus binóculos amador, sacado da mochila de arqueólogo de
campo de Marc, aproveitava para aconselhar Mateus a parar de
encarar os já desconfiados espíritos de porcos.
Um bocado de conterrâneos falecidos permitia que Mateus
compartilhasse de alguns diálogos que tratavam de questões não-
militares, totalmente egoístas em suas aspirações. Se existia
algum motivo para estarem trabalhando juntos, deveriam escutar o
que se tramava por trás da lona da barraca que estava a dois pulos
de alcançar.
Mas o ingresso não seria tão simples.
Os homens pareciam desconfiar das intenções de Mateus
seguindo-o com olhos deslumbrados. Ele estava inteiro demais.
Roupas asseadas e pele rosada atraiam olhares. Uma pequena
multidão já se deslocava em encalço perturbador, redemoinhando
como um tornado em formação. Elene só conseguia perceber que
Mateus andava em bailado burlesco, tentando evitar o contato
com coisas intangíveis. Rebolava tanto que se ela estivesse com
os mortos já teria reparado.
–– Eu e Tiago vamos para o carro! –– afirmava Elene que
previa algo repentino.
–– Por quê? –– perguntavam os três.
–– Plano de emergência. Vão por mim, precisamos de um.
Marc assentiu, permitindo que Sean os escoltassem em
segurança até os muros. –– Matt, não se mexa. Já volto... –– o que
provocaria angustiantes minutos de silêncio e pernas moles. E ele
não podia responder em meio aos homens que apertavam o cerco.
Quando regressou para sua posição de telefonia imóvel, não
encontrou o mesmo quadro de soldados estagnados em suas
fogueiras insossas. Diversos contornavam ao redor de Mateus que
não movia um músculo sequer. Travado pelo pânico crescente.
Talvez o plano de emergência fosse legal.
Marc precisava de mais informações, mas o garoto estava
maquinando e não percebia os chamamentos e cutucões
solicitantes. Bastou um olhar injurioso para que Marc recuasse,
calado.
299
–– Grite com eles! Você é um capitão. –– Sean fechava os
olhos temendo que não funcionasse seu artifício.
O impacto destas palavras foi tão dramático que ele nem
pensou no que disse. –– Saiam da frente! Bando de desocupados!
Preparem-se para a guerra! –– a massa estancou estonteada. Um
silêncio pior do que as inumeráveis conjecturas que sua mente
cogitava. De ataques diretos e inexpugnáveis até uma fuga sem
rota certeira. No entanto os fantasmas ergueram os braços em
urras e lançaram o que tinham em mãos para o ar, festejando a
possibilidade de entrarem em ação. Graças ao seu estado de alta
patente se referir a possíveis retaliações, ninguém se aproximou
de Mateus para apertos solidários. Eles ainda temiam certas
hierarquias.
Podiam imaginar os ufas que ele guardava para si.
A algazarra fizera com que Sean abrisse um dos olhos. Agora
precisavam pô-lo dentro. E lá ele estaria por contra própria, sem
as observações e auxílios necessários, considerando a
competência de atrair o azar. –– Entre! –– era a recomendação
detalhada de como invadir a barraca bem guarnecida. Mateus
estava com o pensamento alhures, mesmo que a solidez das
inconsistências que o rodeavam fossem bem próximas.
Os guardiões, com automáticas na cintura e granadas presas
num feixe do colete cáqui, retiravam seus capacetes camuflados
procurando maços de cigarros que não existiam. Por hábito, eles
já estiveram lá. Mas nos últimos noventa anos só tragavam
quando um fumante passava perto, muito perto, para delírio de
suas almas. Os desgraçados discorriam quando perceberam que
eram vigiados por um capitão de aparência inexpressiva.
Volveram em continência de pés juntos, em estalos seguidos de
expressões de submissão. Os ventres marcados pelas lagartas de
um tanque Matilda ficaram visíveis com a mancha de sangue
estriada que parecia começar abaixo do abdômen de um e
terminar no ombro do outro. Eles exoravam algo, mas Mateus não
compreendia bem o que o boche queria num alemão
extremamente bávaro.
O que Sean repetiu a Marc ocasionou um estalar de olhos
surpreendidos pela aberração da comunicação. Ele podia não
entender o que significavam aqueles sons, contudo parecia

300
reconhecível. Enquanto isto as interpelações repetitivas
continuavam.
–– Fique calmo... Ganhe algum tempo.
E seus pensamentos escaparam pelos lábios sem perceber. ––
Ganhar tempo? –– e os homens se olharam, porém repetiram a
frase incompreensível.
–– É uma senha, Marc? –– falava Sean, em dúvida.
–– Não. Acho que eles só querem saber nome e designação...
O soldado punha a mão sobre o coldre e renovava os gritos
com maior ênfase. Com a desordem, muitos se calaram para
acompanhar a discussão momentaneamente cessada pelo silêncio
do invasor não-identificado e de muitas condecorações. Antes que
pudessem inventar um título imaginário, porém convincente,
Mateus implementou um subterfúgio pela circunstância já
inquietante. –– Deixem-me passar! –– com forte impressão de
asco e superioridade mesquinha de um ator de terceira ordem.
Parece que surtiu efeito imediato, ambos recuaram para o lado,
dando acesso incondicional ao quartel general da legião. Esta era
a senha.
–– Deve estar louco para sair daí. –– sussurrava Sean ao
comunicador, com suas mãos tremendo. –– Mas não conte muito
com a sorte.
E Sean ouviu um breve psiu.
Dentro havia vários setores.
Mulheres movimentavam peças simbólicas das forças de
invasão sobre um tabuleiro com as curvas e o relevo da cidade de
Paris. Porções de armadas se posicionavam nos limites urbanos
aguardando ordens. Ordens que deslocariam estas forças adiante,
rompendo as muralhas inconscientes, rompendo o anel periférico
que abraça a cidade. Sugando o limão.
Um esquadrão já havia arrombado e estava avançando
precisamente para onde eles estavam. Mateus se controlava, em
estado de pânico quase domado pela pressa em sair do covil.
Precisava se mexer.
Um radialista nipônico ajustava uma aparelhagem de
comunicação, girando seus botões que guinchavam zumbidos
ondulantes de ondas curtas tão indeterminadas quanto sua
linguagem. O espaço era grande e comportava vários
compartimentos, sendo que gritos torturantes provinham de um
301
recinto de reuniões ainda em uso. Mateus precisava descobrir o
que estava acontecendo. O que eles ganhariam com esta conquista
absurda? Que cidade cairia aos seus pés? Quem seria conquistado,
não havia ninguém! E quem valesse como troféu não percebia
nada de estranho.
Só pela desordem!

Sean e Marc aguardavam tensos. Contudo o garoto pressentiu


que deveriam se preparar para uma fuga a qualquer instante. ––
Acho que deve retornar para o carro. –– frisava Sean, ao mesmo
tempo em que determinava suas convicções de manter posição de
observador. Marc até não podia concordar, mas o olhar de
superioridade do garoto provocou uma retirada de argumentos que
não teriam respaldos. Se ele não podia sequer ver seus inimigos,
de que serviria! Com dicas, Sean sinalizou o melhor caminho para
o exterior das arenas.
No outro extremo, Marc despencava incólume, batendo as
mãos nas coxas para reduzir os danos com a escalada. A rua
parecia desabitada, porém resolveu seguir táticas de guerrilha e
avançar às escondidas, em posição de defesa contra nuvens e
imaginativos espectros.
Mateus escutava tudo com crescentes dúvidas de sua
sobrevivência. Foi a gota d’água para que o seu temor se
transformasse em coragem, e sabedoria em burrice galopante.
Adentrou o ambiente com alvoroço.
Na caserna não tinha muitos fantasmas, mas os que estavam
impingindo um violento interrogatório passaram a encarar o
recém chegado e não-convidado capitão além-mundo. Ondas de
ansiedade se extinguiram quando retomaram o inquérito contra
um cavaleiro de esplêndida armadura. Três homens se opunham
fortemente às aclarações do cavalariano medievo que parecia ter
mais força que seus inquisidores. Um nazista desesperado berrava
salivas. Um americano despachado ouvia a tudo sem tomar
partido, só preferências egoístas determinariam seu lado na
questão. Um bonapartista parecia balançar entre um e outro
argumento.
–– Traidor, suas convicções não devem interferir com o
processo de retomada. Seus protegidos são nossos inimigos. ––
cuspia herr Rommel.
302
–– Não sou eu quem devo prestar contas dos exércitos que não
progridem. –– respondia solene, o cavaleiro.
Sean conseguia escutar tudo com familiaridade não localizada
pela sua memória. Uma voz denotava que já haviam se
encontrado pessoalmente, mas quando?
–– Não nos interessamos por seu descendente intruso
–– Então, por que estão se intrometendo nos meus assuntos?
–– Desde que ele se meteu nos nossos... –– e o coronel
fincava sua bandeira. –– passou a ser um alvo.
O capitão Mateus encostou-se ao umbral e manteve ares de
guarda costumeira. Com olhar perdido e corpo reto impôs seu
profissionalismo militar de escolta regulamentar.
–– Por mim, tudo bem. Este anjo não passa de uma fábula.
Estou retirando as minhas tropas. –– quase quinhentos mil
homens que seguiam o cruzado. –– Meu compromisso está com
minha família, muito acima da servidão a dragões fictícios.
Coronel Rommel ficava vermelho. –– Quando eles te
encontrarem...
–– Eles já não existem mais! –– foi a afirmação do cavaleiro.
–– Como não?! –– lançava-se à discussão, Davidson.
–– Não percebem que eles não se apresentam a alguns anos?
Foram capturados pelo cordeiro.
–– Nunca se deixariam ser pegos...
–– É, de fato. Eles desistiram. Só estamos agindo porque
somos burros! –– finalizava brusco, para a surpresa dos generais.
–– O último dos grandes dragões desapareceu há quase vinte
anos. Quem governa os infernos são os feudos mais fortalecidos e
seus senhores de guerra que roubaram o título de dragões.
Olhares vagos na penumbra garantiam que eles pensavam nas
consequências deste acontecimento inusitado. Eles estavam tão
cegos que não percebiam que eram seguidores das circunstâncias
caóticas que amealharam para si. Seguiam desertores que foram
clonados pela corrupção do sistema, cujo mito era mantido pela
falácia de aproveitadores inescrupulosos como eles. Irmãos tão
doentes quanto eles, que só tiveram a oportunidade que nem todos
poderiam ter de ocupar o trono largado para proveito próprio.
Tudo estava em ruínas, mas ninguém percebia o inevitável
desmoronamento do reinado. A força que eles impunham ao
fortalecimento do mal se devia unicamente ao desejo de cada um
303
dos espíritos que atingiam o limite de suas forças contra um
último assalto desesperado. Contra aqueles que lhes provocaram
dores e sofrimentos. Contra suas mentes turbadas. Contra suas
fraquezas. Contra sua vontade de perdoar e seguir em frente.
Contra a intuição de que o fim se aproximava inexoravelmente.
Nunca mais seriam vítimas, se pudessem.
Vingança.
–– E quem está no comando? –– Sixderniers era o mais
abalado com o aviso que chegava tarde. Com ares aristocráticos,
de babados ocultos em punhos largos de um casaco surrado, o
capitão desembainhou seu florete em arranjo de autodefesa fria e
sem partidarismo.
O cavalariano se apressou em definir a contenda. –– O
orgulho que nos oblitera. Somos vítimas de nossa ignorância. –– e
o coronel Rommel se negava a escutar o óbvio, mergulhado nas
trevas de um mundo anulado. Até as suas verdades eram calcadas
em falsidades de casas caiadas.
–– Isto é impossível! Eu saberia... –– estertorava o
incorruptível coronel alemão. Sua arrogância era tamanha que,
para preservar sua sanidade, ele teria que recusar o que ouvia. ––
Lenffers, considere-se exilado.
Nem bem terminava a elucidação dos trevosos e o sargento
Davidson evadia-se antecipadamente. Havia percebido o estado
emocional dos comandantes fragmentar-se. Eles haviam tomado
direções opostas e, se o desmascaramento do cavaleiro Lenffers
provocaria a cisão da resolução estabelecida pelos dragões, a
realidade aniquilada provocaria reações muito mais imprevisíveis
e eminentes aos espíritos subservientes de seus homens, agora
sem comando.
O coronel sentava-se à cabeceira da grande mesa, pensava em
como reverter a calúnia que o cavaleiro havia encravado em suas
convicções. Só podia ser um estratagema para tomar o poder
absoluto. Estava impregnado com tantas falsas-verdades que
acreditava ter razão em defender os interesses dos seus senhores.
E quem não estava consigo, estava contra.
–– Está comigo? –– certificava-se com Sixderniers a sua
lealdade.
Balançou a cabeça, presumido de sua arrogância quanto ao
assunto, enquanto não fosse clareado ficaria com os dragões e
304
com Rommel. Entretanto a força de ocupação dos dois não seria
párea aos possíveis enfrentamentos de seus oponentes. Davidson
iria recuar, esperando que o resultado do conflito pudesse ser mais
bem aproveitado numa conquista particular.
Contudo não ficava claro para o capitão Sixderniers qual era
o objetivo pelo qual Lenffers se unira aos exércitos de incursão.
Estava contando que a ocupação das Terras Médias oportunizaria
a expansão do poderio dos dragões e das vantagens àqueles que
os serviam. Qual era o benefício que Lenffers buscava?
–– Meu caro capitão. Só busco o prazer de poder atormentar o
meu algoz. Não passo de um espírito baixo e vil que se contenta
com tão pouco. E vocês ainda me dificultam com tentativas fúteis
de erradicar uns diários esquecidos até por Ele? –– apontava para
o Alto. –– Querem eliminar Marc? Enquanto eu puder, evitarei
que cheguem perto dos meus. Mesmo que ele esteja ao lado de
nosso maior inimigo. E vocês só querem o caos antes do grande
exílio.
–– Este expurgo não existe. –– o coronel ria.
–– E os capelinos que aprisionamos, também não?
–– Desta vez estaremos preparados e nos protegeremos com
vigor jamais presenciado.
–– Não sei se é possível...
O oficial japonês que ocupava a função de comunicação
estava parado diante dos três com uma mensagem pendendo de
suas mãos trêmulas. Não sabia a quem entregar a autorização.
Herr Rommel a tomou de súbito, assumindo o controle da
operação de expulsão e ocupação de Paris. Eram sete horas e
cinquenta e três minutos do dia sete de dezembro e, no bilhete
havia poucas palavras: –– Nitaha Yama Nobora.
–– Tora, tora, tora. –– o coronel resumiu sua ação.
E o cavalariano tomou a espada estendida sobre o tampo e
ajeitou-a na bainha de couro. Calçou as manoplas, amarrando-as
com os dentes, e prendeu o elmo prateado sob o braço. Garatujou
uma continência de sorriso convencido e despediu-se dos
presentes. Não antes de ser interrompido pelo estridente aviso
eletrônico que emanava do soldado imberbe que tentava disfarçar
sua identificação mortal.
Além dos comandantes, mais alguns soldados se juntaram à
comitiva com armas apontadas ao rapaz que acabava de desligar o
305
seu aparelho telefônico. Ele sorria de braços estendidos enquanto
o nome do Lucas desaparecia do monitor.
–– Quem é você? –– aplicava a pergunta o cavaleiro pronto
para empalá-lo.
–– Um dos seus capitães, senhor. –– e repetia a mesma
continência firme de quem se apresentava ao seu superior.
–– Temos um espião bem esperto!
E Mateus retirou um crucifixo que apontou contra os
espíritos. Uma repentina calmaria diante da estranheza da tática
fez com que o cavaleiro enchesse suas bochechas com uma
gargalhada que escapou explosiva e incontida. Ele não se conteve
e, num gesto imediato, tentou agarrar o crucifixo que pendia da
mão estendida no espaço vazio.
Mateus com a aparência desnorteada de quem é capturado de
forma insonhável, grita de dor quando mil agulhas geladas
espetam seus dedos encurvados. O não-toque do fantasma era
como um congelamento instantâneo que subia pelo braço
provocando uma arritmia cardíaca aterrorizante. Porém o espanto
maior seria expresso pelos espíritos de olhos saltados e sensações
incoerentes. –– Ele ainda está vivo!
No ouvido, Sean continuava fora do ar.

No mesmo instante, Marc esmurrava ofegante a porta do


automóvel, sinalizando com ombros arquejantes que o plano de
emergência seria posto em prática com suposições bem definidas.

–– Por que não foge? –– Sean falava para si em voz alta. Um


ruído às suas costas levantou a suspeita de que não estava sozinho.
Um par de botas nasceu ao lado.
Seus olhos subiram devagar até encontrar um rosto conhecido.
O soldado já havia aparecido em outra ocasião. Também não tão
agradável quanto esta. O rapaz, sujo de terra, abriu os lábios num
grande arco de contentamento.
–– Não tivemos chance de conversar. –– iniciava o rapaz.
–– Não era um bom momento... –– Sean se angustiava
pensando que agora também não seria.
–– Sei que não é hora para, mas você...

306
–– Estou encurralado, cara! –– soprava Mateus na esperança
de receber uma saída celeste. O amigo pediu mais paciência. ––
Paciência?! Estou nas mãos do diabo! O que pode valer a minha
vida?
O coronel esbofeteou o tampo justificando as suas ações em
atacar e eliminar seus problemas. O primeiro estava bem diante
dele. –– Talvez os diários, quem sabe. –– respondia enquanto se
aproximava do alvo com gosto.

O rapaz que parecia ter sobrevivido a um desmoronamento, se


bem que não devia ter sido salvo, já que estava morto há algumas
décadas, precisava dizer algo com urgência. –– O túnel não foi
terminado, mas fica muito próximo da sepultura no cordeliers.
–– Onde fica a entrada deste túnel? –– Sean se impacientava.
–– Na rua do Pot de Fer existe uma passagem subterrânea
através da Escadaria Bonaparte, siga para leste até a Rede
Concini. Fiz umas marcações para não se perder. –– Apesar da
Rede Concini ser isolada dos demais túneis, uma abertura abaixo
do Hotel de Nivernais, construído em 1607, permite a interligação
dos sistemas subterrâneos mais antigos. Existem vários acessos,
porém todos levam a labirintos sem saída ou mausoléus que se
renovam.
–– Quais marcas?
E antes que pudesse responder, uma solicitação angustiante
rompeu em seus ouvidos eletrônicos. O rapaz sumiu.

Por mais que as impressões enganassem, o cavaleiro


reconheceu o rapaz com o crucifixo tomado de Marc como um
amuleto para a situação. Uma relíquia de família que ele jamais se
esqueceria. Embora as circunstâncias exigissem que ele tomasse
novas providências.
–– Socorro, Sean!
–– Corra!
–– Estou preso!
–– Oras, atravesse as paredes, elas são falsas. –– Assim como
suas impressões da realidade. Conseguiu sorrir antes de dar um
passo para trás e se despedir dos fantasmas. Estava no exterior,
seguro, ou quase.

307
Todos os homens que compunham as divisões que se
apressavam em se preparar para a batalha desmancharam suas
posições equidistantes à caça de suas armas contra o invasor
revelado pela aparição espectral e alarme de gritos.
–– Sixderniers, fique com as tropas. Tenho dívidas a quitar.
Preciso compensar meu irmão. –– o cavaleiro acreditava que o
irmão sofria séculos de purgatórios ocultos e que só terminariam
quando concluísse seu pacto. Pacto que incluía exterminar e
encarcerar o causador deste tormento. Partiu só.
Mateus estaria morto em breve, e depois seria capturado e
enjaulado por aqueles monstros desfigurados. Tentaria atravessá-
los?
Algo precipitado ecoou como uma bomba de brilho intenso
que desmantelou alguns artefatos e lançou alguns espíritos para o
chão, abrindo uma rota segura que Mateus não desperdiçou. Sean
observava o rapaz correr como jamais pensou que conseguisse.
Do meio da claridade, um legionário de manto escarlate acenou
para que ele também corresse.
Mateus escalou as arquibancadas da arena, atropelando a
vegetação densa que fustigava seu corpo e atrasava seu avanço.
Mas mesmo assim conseguiu divisar Sean se erguendo em
tentativa de acompanhá-lo na escapada. Não foi rápido o bastante,
obrigando-o a puxar o garoto pela jaqueta zipada.
Ladearam as passagens ocupadas, arremessando-se contra a
patrulha aturdida. Escapando dos arcabuzeiros que só
conseguiram deixá-los momentaneamente surdos com os tiros
grosseiros de suas armas.
Estavam perdendo terreno e resolveram escapulir do bosque
jogando-se contra a alameda áspera que era mantida com barreiras
fortemente defendidas. Levantaram-se arranhados e com o
elemento-surpresa rumaram por uma pequena fenda na barreira
que tentava se reagrupar depois de terem sido surpreendidos com
o salto imprevisto no meio do agrupamento.
Uma comprovação breve de Sean advertia que os soldados se
aproximavam vorazes, afunilando-se contra as muretas que
continham a alameda com ímpeto de engoli-los numa onda de
selvageria. Adiante, um portão de ferro era a esperança que
diluía.
–– Contra o portão, vamos!
308
Ele escancarou violentamente, rompendo seu cadeado
enferrujado. Os dois caíram e rolaram para o meio da via.
Estavam atordoados com a corrida e o pouco oxigênio que seus
pulmões conseguiam absorver numa tentativa infatigável por
recuperar o fôlego.
Não poderiam seguir para o veículo.
Fileiras de arqueiros ingleses retesavam seus arcos em
movimento síncrono. Os cavaleiros montados se preparavam para
descer o estandarte em sinal de ataque. A rua Navarre estava
inacessível, então precisavam chegar até a rua Monge.
As flechas da vaga acertaram o asfalto, dilacerando-se.
Os automóveis haviam parado num congestionamento sem
fim, buzinas definiam o caos. Não havia tempo para pensar. Sean
se esquivou entre dois para-choques antes que se fechassem em
suas pernas. Mateus escorregou pelo capô, ficando preso pelos
apetrechos do seu casaco. Uma carroça ainda se posicionava a
poucos metros. Militares da primeira guerra mundial removiam a
lona que cobria uma metralhadora de canos giratórios.
Das opções que os fugitivos poderiam escolher, escolheram a
pior. Rasgaram a armadilha e voaram para as longas escadarias
que levava à rua Rollin, desabrigados dos primeiros tiros dados
por um combatente que segurava um feixe de balas e girava uma
manivela com sofreguidão. Os arqueiros de Hastings se juntavam
à comitiva cruel.
No cul-de-sac afunilavam carros e edifícios numa expectativa
interminável de seus sofrimentos. A plenos pulmões puseram-se
em marcha pelo corredor apertado e indefensável. Homens
armados chocavam-se contra as escadas em urros ameaçadores,
tais como intensa maré contra os penedos da Normadia.
Algumas vans de entrega dificultavam a travessia, diminuindo
a vantagem. O fragor da turba já denotava as formações de tiro.
Atiradores da elite dos mosqueteiros se ajoelhavam preparando a
mira de seus fuzis de cano longo. A salva de tiros atingiu vários
carros, trincando vidros e amassando o metal. Vidraças de certas
lojas racharam com os estilhaços invisíveis.
Não paravam por nada. Mateus e Sean só repensaram a
estratégia de correr desesperados quando dois tanques surgiram ao
final do beco, atropelando a passagem adiante. Com um giro lento

309
posicionou a torre inteiramente para eles. O canhão estava fincado
à aresta da construção que trincou com o disparo aguardado.
A argamassa e os tijolos desprendidos com o impacto
despencaram sobre veículos estacionados. Carros que estavam na
zona do tiro chocalharam, disparando alarmes sonoros, estourando
vidros e piscando luzes. As pessoas se refugiavam intrigadas com
o tremor inexplicável.
O segundo veículo blindado arremeteu suas lagartas pela
viela, provocando o tombamento dos automóveis ainda intactos. A
poeira levantada com o rompimento da estrutura se assentava
divisando o reposicionamento dos canhões. O exército recuava
em segurança, dando margem para as intervenções dos Panzers.
Os dois estavam encurralados.
–– E agora? –– bufava Mateus.
Sean olhou para os lados e decisivamente disse: –– Eles não
existem! Vamos transpor as blindagens como se fosse fumaça! ––
mas Mateus não concordava. Contaram até três e aceleraram para
os tanques em um contra-ataque kamikaze.
–– Eles estão vindo em nossa direção! –– gritava o operador
que se esforçava em guinar as alavancas.
–– Recuem, depressa. –– um sinal de emergência coloria o
interior com tonalidades alaranjadas. Todos corriam apressados,
tentando evitar a colisão. Um vozerio desencontrado fazia com
que os soldados se demorassem em retroceder suas máquinas. A
ofensiva dos vivos provocou o disparo incontrolável de armas em
punhos, mas nenhum dos tiros conseguiu evitar que fossem
transpassados.
Mateus caiu ferido na alma. Este avanço ocasionou dores
atrozes em seus músculos retesados. Sean estava menos abalado
com o efeito de cruzar uma substância incorpórea com
aglomerações emocionais imensuráveis, podiam não ser sólidos,
mas mesmo a luz coagulada tinha sua substancialidade. Do
mesmo modo que o desespero dos homens no bojo do monstro
mecânico expressava dúvidas.
Todos estavam em estado de choque.
O suficiente para que Sean conseguisse erguer o amigo de
seus espasmos de dor, taquicardia de sangue fervente e pressão
craniana que faria os miolos, de qualquer um, saírem pelas
orelhas. Os olhos vermelhos e lacrimejantes pediam armistício.
310
Na contramão da Cardinal Lemoine alcançaram a praça de la
Contrescarpe. Aves desavisadas deflagraram um voo grupal. Não
era um beco sem saída, no entanto uma bifurcação com várias
saídas. Qual eles deveriam tomar?
Um senhor acocorado à base do relógio de bronze sinalizava
que se aproximassem. O estranho monge não falava nada e nem
parecia que o tentaria, só apontava para uma plaqueta de madeira
apodrecida que estava fincada no princípio da rua Descartes. Eles
deveriam retornar?
–– Não. Talvez vocês descubram as antigas muralhas.
À placa estava escrito: –– Porta Bordelle. –– subiram a rua
até o entroncamento. Sean estava tonto, ouvia nitidamente água
correndo sob seus pés. De novo, não!
–– No way, man!
Flutuações temporais estavam em caos. Várias sensações
pareciam atingi-los. Eventualmente, partes de um muro surgiam
em vários estados de conservação e execução. Um fosso brigava
com o asfalto consistente. Mateus percebeu o que o monge queria.
As hordas encontraram seu alvo, retomando a perseguição
sem fim. Várias divisões belicosas se fixavam nas possíveis
extremidades, e algumas avançavam para o norte para promover
um cerco efetivo.
A imagem do canal parecia flutuar em seus olhos. Eram
recordações, eram reminiscências do passado. Ao longe, a rua
Cardinal Lemoine se transmutava na rua das Fossas Saint-Victor,
que margeava o canal que sustentava as muralhas de Philippe
Auguste. Conforme seu medo aumentava mais nítida se tornava a
transformação. Mas não passava de ideias do passado.

–– Reforce estas lembranças, você consegue! –– pedia uma


voz invisível fixa em sua mente. Criar sanduíches e dinheiro era
simples, achar vasos e objetos desaparecidos, questão de tato,
mas...idealizar um muro alto e sólido!
Todo o esforço só seria conseguido com dificuldade. No
primeiro tentame as margens do fosso escavado tornaram-se
suficientemente reais, causando a queda de alguns soldados
desavisados e confundidos. Percebendo a intervenção impensada,
soldados próximos resolveram mergulhar rumo aos seus inimigos
antes que fizessem o que tramavam. Contudo, a maioria dos
311
combatentes se recusou a atacar, pelo menos até que terminassem
os inexplicáveis eventos.
Sean suava apreensivo e acabava se desconcentrando quando
antecipava a sua captura pelos guerreiros que estavam a poucos
metros de alcançá-lo. –– Força, concentre-se, Sean! –– gritava
Mateus tentando oferecer suporte a cada tentativa, o que parecia
dar certo. Entretanto, nada parecia desviar seus pensamentos da
inevitável captura. Mateus experimentou algo, como um ligeiro
sopapo no rosto de Sean que estava ficando em fúrias.
Em instantes, com o subsídio de boa porção de temor, as
proteções de pedra passaram a existir um ponto atrás dos dois, que
perceberam a gafe e partiram apressados para o portão Bordelle.
Transpuseram o canal através da simples ponte que findava
ladeada por torreões de vigília.
Admirável arcabouço estava de portas escancaradas para
desespero dos garotos. Sem fôlego não sabiam se mantinham o
ritmo ou tentavam trancar os portões de madeiro graúdo e pesado.
Suas mãos não faziam contato, com dedos que transpunham o
maciço.
Repetidas levas de tiros arrancaram lascas da madeira e
faíscas brilhantes das balas contra a impenetrável divisória de
pedra. Um carretel de cordas rústicas que agarrava uma cadeia de
gradeados permitiria que eles despencassem por fendas internas
dentro da passagem da torre, impedindo o ingresso dos
guerreiros. Todavia, o mecanismo só poderia ser destravado por
mãos espirituais. Por mais que Sean tentasse, a lingueta de
travamento não se mexia.
Estavam sem escudo.
Mais uma vez e já sentia um formigamento quando seus
dedos delicadamente se fundiam ao engenho. Lanças zuniam e
berros provocavam ecos pela abertura.
Só mais uma vez.
Um estrondo seguido de cordas estiradas e as grades ferrosas
despencaram, evitando que os enfurecidos soldados os pegassem.
Contudo ainda poderiam atingi-los pelos vãos inoportunos. O
mecanismo estava interligado com o fechamento automático dos
portões que, antes de selar hermeticamente, permitiu o incurso de
uma única flecha certeira. Dentro da proteção o silêncio imperou.
O vento abrasivo friccionava as bandeiras.
312
Sean estava absorto e sem fôlego. Engolindo ar com
ferocidade. –– Acabou, Matt! –– E nada de ouvir resposta. Mateus
havia sido atingido pela flecha que o impedia de respirar. Não
havia sangue e estava incrustada no peito, provocando dores
espasmódicas. Pessoas que não viam a majestosa muralha erguida
pelos desejos de um garoto se acercaram, receosas.
Como poderia ter acontecido? Mateus arriscava, em vão,
extrair a seta. Sean se ajoelhou e tentou segurá-la, desta vez
conseguiu. Com um puxão decisivo viu quando a haste rompeu a
resistência e esfumaçou diante de si. No entanto o amigo parecia
machucado.
Enquanto isso a força debelada urrava elevando seus desejos
de vingança aos ensaios de escalar os altos muros parisienses.
Sibilos do disparo de canhões terminaram numa chuva de
fragmentos do que eram ameias, agora dilaceradas. Muita fumaça
e fogo eram descortinados no horizonte dos passadiços da grande
muralha que aguentavam a contenda com bravura.
Precisavam sair dali.
Um carro parou.
Era Marc.

313
24

escalem o monte nitaha.

–– Eles agora querem você! O que quer que esteja


fazendo, pare por um tempo. –– Sean advertia Marc depois de
descrever tudo o que escutara. E ele não se importava. E que
fábula é essa de que tem um benfeitor em meio aos deuses
subterrâneos desta legião tenebrosa. Só de pensar a respeito,
sentia arrepios.
Sem dúvida que era um antepassado, não gostava de pensar
que era privilegiado por ser um Delènfer, ou do Inferno –– de
l´Enfer –– como sugere a insígnia. Havia um complô secular, um
aviador na Noruega confirmava a veracidade. Agora teria que
lidar com um fantasma que tinha que protegê-lo e ao mesmo
tempo cumprir os desígnios de eliminá-lo. Não devia ser uma
decisão simples, mas, apesar de tudo, ele ainda intercedia por
Marc Bernis. O cavaleiro priorizava a linhagem.
–– Pelo que entendi, eles só passaram a considerá-lo uma
pedra no sapato quando se meteu nos negócios deles! –– Mateus
dizia, recuperando-se do tsunami de flechas e tiros. –– O que eles
querem é criar pânico.
–– Mas eu não estou impedindo que eles detonem com tudo.
–– Mas alguém está. E...
–– Como estou unido a ele.
–– Mas quem? –– e ele correu os olhos pelos presentes.
Ele precisava entender quem teria tal domínio, quem sabe os
manuscritos resolvessem a questão. Como concluir que ele seria
perigoso se não fosse pelo fato de provocar a destruição da cadeia

314
de comando destes falsos-deuses. Talvez os documentos mikhae
descrevessem quem seria capaz de provocar tal episódio
apocalíptico, assim como a cólera dos dragões ou da legião já
sem autoridade que cingia a cidade. Será que eles romperiam os
limites fictícios e causariam tumultos inexauríveis?
–– Quando eles atacarão? –– pinçava Marc.
–– Não falavam sobre... Mas havia uma mensagem codificada
que não... –– Mateus forçava a memória para repeti-la a contento.
–– Nitaha Yama Nobora? –– perguntava Sean no aguardo de
uma confirmação de olhares atravessados.
Bernis sabia o que significava aquela citação em japonês, não
conhecia o idioma, contudo nunca se esqueceria de uma frase de
cunho histórico. –– Tora, tora, tora. Ele respondeu assim?!
Concordaram com veemência.
–– Pois a invasão já começou! –– e os exércitos avançavam
por todas as frentes, assim como a traiçoeira armada japonesa do
pacífico fez com Pearl Harbor. Escalem o monte Nitaha era a
ordem de ofensiva. E o tigre avançou.
Como um enxame de gafanhotos e escorpiões com rostos
humanos, a grande hora se aproximava. Todavia não era hora para
Marc ser herói, estava se preparando para escapar. Reunia seus
documentos com pressa quando desconfiou que era vigiado por
figuras intrigadas às suas costas. É claro que ele não poderia fazer
nada. Então por que estavam encarando a atitude com
desconfiança?
–– Não sou eu quem faço as regras. Eles deixaram bem claro,
que se eu cruzar o caminho deles, serei morto?! –– achava
estranho saber que a morte já não o assustava como antes, o medo
era sobreviver à morte e ter que lidar com sequestradores de
almas. Isso seria pior. –– Temos que estudar contra quem estamos
lutando. Não estou certo?
Concordaram com receios. Como entender o caos, a desordem
e o pânico! O Arcanjo havia dito, certa vez, que as situações
violentas ficavam gravadas na recordação espiritual das criaturas
envolvidas de forma tão marcante que arduamente seriam
esquecidas. Guarini ainda acrescentaria que o tempo provocaria o
aniquilamento da sanidade mental restante, criando seres
descontrolados que teriam, como opção, concluir sua missão:
reparação sobre todos os malefícios, sejam eles justos ou não.
315
Em épocas recuadas, exílios forçados foram executados. Para
todos, seres descontentes se revoltaram nos momentos finais.
Duríssimas expiações tinham propósitos bem calculados e se leis
achavam injustas, precisavam ver o que aconteceria sem elas.
Estariam sem alternativas? No entanto, Sean raciocinava uma
última escolha para o impasse. –– Tiago! Quer arrombar túmulos?
–– Só se for agora! –– mas não seria, como a conversa
cochichada entre ouvidos interesseiros sugeria.

––
O dia transcorreu e quando o ocaso chegou trouxe uma onda
arrebatadora que preencheria o vácuo energético causado pela
aglutinação de tantas criaturas renitentes no mal. Raios e trovões
se digladiavam nos céus escurecidos pelos cúmulos noturnos. As
explosões seguidas de claridade absorvente não deixavam a
cidade desaparecer sob a privacidade da escuridão.
Uma noite de rufar de tambores que antecediam a batalha.
Os reis esperavam o término dos primeiros embates realizados
no céu, para despejar seu furor em terra. Milhares de espíritos
ensandecidos prosseguiam pelas avenidas de Paris em ritmo parco
e defensivo. Todos os recintos tomados eram seguramente
protegidos pelos tais absorvedores militares. As conquistas não
eram comemoradas, estavam aficionados pela fantasia doentia de
destruição. Destruição moral e ética dos concidadãos vivos.
Aonde fossem, não havia oposição nenhuma.
Não havia rechaço.
Não havia anjos.
Aguaceiro torrencial tentava varrer os miasmas que se
condensavam com mais força do que ele era capaz de eliminar. A
natureza estava descompensada. O transbordamento das
mentalizações contraproducentes atraia intenções de extrapolar a
lógica. Cidadãos se arriscavam em romper os limites do homem.
Manifestações se preparavam para gerar tumultos. O medo acuado
em selvageria explosiva.
Vítimas se uniam em julgamentos parciais e violentos.
Roubos e atrocidades eram planejados sem temores.
Criaturas fracas caiam.
––

316
Amanheceriam as suas intenções de invadir túneis
fantasmagóricos armados com lanternas e barras energéticas
quando perceberam que a torrente que despencava em cascatas
não daria trégua. Assim, quando olhou para o seu relógio de pulso,
pela enésima vez, as gotas de chuva impediam que ele precisasse
a hora com a exatidão.
Passar diante do edifício enclausurado se tornaria uma
alternativa planejada com antecedência. Queria se certificar de
que o senhor Buchhand havia sumido, sem deixar pistas. Tábuas e
lonas encerravam a pequena e providencial livraria que havia sido
fundada há quase sessenta anos. A rua do Pot de Fer parecia tão
desinteressante quanto um balde de água fria que esfriava os seus
intentos de se deparar com o senhor Fabien para uns
esclarecimentos regados a um frugal café da manhã. Sua fome, de
frio e roupas molhadas, agradeceria, mas não haveria convites
daquelas portas bem chaveadas.
Seguiu adiante só parando para atravessar o Jardim de
Luxemburgo com mais olhos do que haveria para àquelas horas
matutinas e densamente encharcantes. Mais algumas centenas de
metros e estaria na rua de Condé com o carrefour das ruas de
l´Odéon e Monsieur Le Prince. Sean se encolhia numa marquise
para se proteger dos respingos que escapavam por cima da calha
sobrecarregada e entupida. Sua capa transparente parecia não dar
conta do volume de água e que já cobria seus pés.
Era até difícil de ver se alguém se achegava sorrateiro. Por
sorte, Tiago seria um pouco menor, porém, quem se atreveria a
sair em meio àquela tempestade infatigável.
Muito cedo e não havia fantasmas no seu calcanhar.
Os poucos, que divisou pelo caminho, estavam vigiando os
passos de Marc. Elene e Mateus cuidavam de escamotear os
motivos pelo qual a doutora Mel deveria abandonar seus afazeres
profissionais, que naqueles dias, já excediam o admissível, para
fugir de alguns espíritos nada brincalhões. Não seria fácil.
Somente Tiago conseguiria escapulir sem chamar atenção.
Para passar o tempo, Sean vasculhava os objetos em sua
mochila, certificando-se de que havia ferramentas e lanternas com
pilhas mais que suficientes. Um esboço dos subterrâneos, que
imprimiu da internet, seria mais que perfeito até que entrassem na
zona não-mapeada. Que sinal ele encontraria para guiar-se no
317
labirinto de túneis mal escavados? A operação de vasculhar o
deixou sem proteção e só pressentiu companhia quando recuou a
cabeça para fora da bagagem encharcada.
–– Não devia estar aqui! –– Não sabia se se referia a si ou a.
–– Alguém tem que fazer algo. –– Sean já não esperava
consentimento.
Guarini era a declaração aborrecida de quem estava de mãos
atadas. Além do mais, odiava chuva que não molhava e de desistir
de uma boa briga. Mas a resolução era tão clara e límpida que um
raio cegou-o em advertência.
–– O que está acontecendo? –– o garoto precisava de uma
explicação. Manuscritos já não seriam suficientes.
–– São várias coisas diferentes, não há como uni-las. Nem sei
ao certo todos os pormenores. –– o indiozinho iria concluir alguns
dos pensamentos vigentes. –– A aglomeração da legião obedece a
leis naturais; tudo que oprime, condensa e provoca a retomada do
equilíbrio. Todos os envolvidos têm sua cota de transformação na
ação. Causa e efeito, curumim.
–– E onde se encaixam os diários?
–– No pretexto pelo qual Marc precisa de Miguel. Os
manuscritos foram o meio. –– Guarani percebeu que Sean não o
compreendia. –– Ele acha que está caçando um códice, mas na
verdade ele está muito perto de achar Miguel. Por isso os exércitos
estão com medo de Marc. Bem, foi o que eu soube por aí.
–– Me fale sobre Miguel.
Guarini não o conhecia de apertar as mãos, porém a sua
notoriedade lhe precedia desde tempos imemoriais, quase eternos.
–– Que enfrentou os anjos caídos num combate que rendeu muitas
lendas, a maioria absurdas. O arcanjo Miguel esteve presente em
muitas situações em que se precisava de uma interferência mais
direta. –– para não dizer, sair no braço.
–– E anjos fazem isso?
–– Tecnicamente, não. Contudo existe uma história pouco
revelada sobre ele. Desde a crucificação não sabemos do seu
paradeiro.
–– E anjos somem?
–– Tecnicamente, não. –– o índio estendia a mão para frente,
tentando se distrair com uma goteira impalpável. –– Mas vocês

318
conhecem toda a narrativa muito bem. –– referindo-se a Sean e
sua comitiva de desbravadores dos mikhae.
Sean parecia buscar a história que mais se encaixava ao
desaparecimento de anjos que não precisassem de um sistema de
posicionamento global. Sem efeito. Conhecia muitas, porém
poucas eram bíblicas o suficiente para passar pelo crivo.
O índio estava dando espaço para que ele percebesse com
quem estava lidando. Arcanjos eram mais benévolos e disponíveis
do que os santos de carne e osso o foram em algum período da
história dos homens. Até mesmo São Francisco teve seus
momentos de deslize diante dos lazarentos.
E o garoto não pretendia esgotar o tema, no entanto se perdia
com a passagem de alguns estúpidos caminhantes que pareciam
desconfiados de um menino que conversava a sós. De súbito
recordou a historieta de São Lucas. –– Um dos anjos, a quem é
como Deus, falou: continuarei o caminho. E Jesus lhe respondeu:
guardará a palavra até que o Espírito da Verdade chegue; também
esquecerá o passado até que esteja preparado. E o anjo perdia suas
asas.
–– Exatamente onde eu queria chegar! São Miguel trocou suas
asas pela vida mortal. –– ouviu um “estúpido” proveniente de
Sean. –– E como mortalidade é sinônimo de re-encarnação,
perdemos o seu rastro há muito tempo. –– para Sean, Guarini
estava tagarelando demais. Quem poderia supor que um arcanjo
desceria de tal categoria celestial para...
–– Para que ele faria isso?
–– Naxamuñaca acha que os manuscritos devem abrir os
olhos da humanidade para a existência de vidas passadas e coisas
assim. Existe um preparativo para a revelação. Eu já penso que
Miguel não passa de um oportunista que tenta fazer o que cristo
executou com êxito. É claro que a escala é bem menor.
–– Passar a mensagem do amor ao próximo? Heim!
–– Não. Também, é claro. Mas a prioridade do Cristo era
salvar os decaídos, que por sua vez inclui quase toda a
humanidade. Outros mensageiros já haviam plantado sementes de
amor incondicional. Buda, por exemplo. Conhece-o? Seja qual for
a teoria adequada, criará o colapso das crenças.

319
Balançava a cabeça concorde. –– No way! Se o Príncipe das
Trevas ou Diabo ou Satã ou Coisa-Ruim ou Capeta ou Demônio,
não existe, por que tanto drama?
–– O indivíduo, não! A ideia, sim. Sempre haverá quem
preencha a posição de senhor dos dragões. Assim como Satanás o
fez por milênios até sair de cena como Lúcifer.
–– Não tem ninguém no cargo?
Como gostava de frisar Guarini: –– Tecnicamente, não. Por
outro lado, também não sabemos qual é o objetivo dos espíritos
maldosos. Sem um senhor, não há regras definidas. E nem perca o
seu tempo achando que eles só são maus por causa de seus
senhores...
–– Bem que desconfiava que cada um vai para onde quer!
–– De acordo com o seu grilo falante. Suponho que tais
criaturas estejam se prendendo às profecias do fim dos tempos.
–– Quais?
–– Apocalipse. Profecias de Daniel. Os apócrifos. Os
gnósticos. Profecias dos calendários Maia e Egípcio. De
Nostradamus a Edgar Cayce. Todos, e muitos outros, implicam na
escalada do mal a um conflito final. –– o indiozinho não parecia
preocupado com a realização destes presságios. –– Eles
simplesmente não conseguem ver que isto terminará em um novo
mundo, uma nova era.
Um garotinho abelhudo observava, através da vitrine da
panificadora de seus pais, Sean dialogando com o ar. Com gestos
de indisciplinada bisbilhotice puxava as saias de sua mãe para
baixo. Mas ela não estava preocupada com garotos na chuva ou
com o índio que o filho apontava com insistência. Luzes externas
eram acesas destacando as promoções de pães e confeitos.
Os dois estavam silenciosos, admirando uma mãe em afagos e
abraços calorosos. Estavam absorvidos pela aspiração de
retornarem às suas famílias, assim como os suspiros que os
entregavam.
–– Você parece ser o único que se importa.
–– Não sou seu guardião, mas não acho justo te entregar aos
leões. Só não vou com vocês porque não suporto a ideia de ficar
embaixo da terra. –– Guarini estremeceu com o pensamento
fugaz. –– Enfim, todos temos defeitos para lapidar.
–– Não sei qual é o meu papel nisto tudo!
320
–– Ninguém sabe. Quero dizer, sobre o acaso.
–– Mas se você fosse teorizar...? –– feliz com a pergunta que
simplificava sua sagacidade em conseguir o que queria.
–– Está muito além da minha capacidade de índio pouco
esclarecido. –– e piscou. –– Ainda nem sei como conseguiu erguer
aquele torreão de pedras?! Por mais que as coisas pareçam
acontecer aleatoriamente e em estado constante de emergência,
não é assim. Tudo está bem planejado, apesar do que esteja vendo
com seus próprios olhos. Tenha mais fé!
Suspirou temendo a blasfêmia.–– Sou especial?!
–– Na... Não. Só que tem alguém te auxiliando. Só isso! –– no
entanto não era o que ele verdadeiramente refletia a respeito do
garoto. Nem Tiago, que chegava a tempo de responder a mesma
exclamação interrogativa. –– Nem que a vaca tussa e chova
canivetes! –– Embora ele olhasse para cima temendo que
mordesse a língua quando os canivetes suíços despencassem das
janelas da relojoaria que servia de abrigo ao dilúvio. Explicar que
a pergunta não era para ele seria uma perda de vocabulário e
energia, por isso Sean só virou os olhos. Abismado com falta de
percepção repetitiva de alguém que já devia ter se acostumado
com os diálogos sobrenaturais.
Antes que Guarini desaparecesse, Sean apresentou um resumo
de porquê eles ingressariam nos subterrâneos da cidade. O que o
escavador alemão revelou teria que servir para descobrir o túmulo
de Allan.
O objetivo era matar dois coelhos com uma só cajadada.
Recuperar o tradutor que Marc comentava com aflição e tentar
delinear o paradeiro de Allan, o vivo. Talvez tivesse alguma pista
neste sentido, não obstante, achava bem improvável. Por certo, até
mesmo o mensageiro de Jeanne já havia desistido do paradeiro.
Contudo Sean pensava o que o índio queria dizer com revelação?
Tiago se preparava para abrir o bueiro com a ajuda de uma
barra que tomou emprestada oportunadamente de um canto mal
iluminado da alameda vicinal. Enquanto fazia força, Guarini
ofereceu mais uma informação. –– Cuidado lá embaixo. Se
precisar de socorro, chame por Labelius. Ele provavelmente não
vai te ajudar, mas você pode tentar convencê-lo. Ele é um
elemental e, como todos, eles são ingênuos e desconfiados...

321
–– Hum! –– e Sean pensava na tal salamandra-de-fogo que
costuma acompanhar o índio.
–– Os elementais de toda a natureza não são completamente
espirituais. Mbaê só está com um pouco de medo da água. Mas
fique tranquilo, estamos tramando um jeito de te proteger quando
as coisas começarem a fugir do controle. –– piscou cúmplice.
–– E já não fugiu?

O índio não esperou que eles penetrassem no fosso e


regressou para seus colaboradores. Naxamuñaca estava bastante
satisfeito com o andamento dos planos repassados. Que não eram
emergenciais ou improvisados. Tudo corria como esperado.
–– Terminamos o que havíamos prometido para ele. –– dizia
Marie que se acercava dos dois com outras preocupações futuras.
As grandes questões não passavam de miudezas para os
acontecimentos sublimes que aguardavam. Séculos de incubação,
só teriam sentido se o que acontecesse em poucas horas, desse
muito certo. Contudo, com tantas ramificações, até mesmo o erro
seria digno aos olhos dos anjos.
–– Conseguimos separar os principais senhores da legião das
trevas, mas a que custo? –– complementava Naxamuñaca.
Guarini parecia ver com outros olhos. –– Ainda não
perceberam que eles pediram por isto? –– e temia pelo fim.
Naxamuñaca se abraçou ao indiozinho, querendo consolá-lo sem
palavras. –– Quem sabe agora eu possa fazer algo.
Os três estavam pensando a mesma coisa, sem impedimentos
estavam livres para agir. Mais um participante se acercava da
comissão, era um monge bem conhecido entre eles. Atmatattva
não aparecia havia meses, apesar de suas supostas intromissões
nas ações de seus pupilos. Guarini era o único que não havia se
surpreendido com a aparição não anunciada. Por hábito, o velho
sorriu enquanto ajeitava as insistentes mantas costumeiramente
presas aos pés. –– Podemos, sim. –– e piscou conivente ao índio
que o substituía. E em ordens pensadas, partiram. Cada um
tomando o seu rumo.

Os garotos desceram a espiral de metal, batendo os pés na


água torrente que corria para um ponto mais abaixo, nas entranhas
da terra e pedras talhadas pela mão de coveiros, mineiros,
322
religiosos em práticas divergentes, revoltosos de ideais contrários,
eletricistas, bombeiros, e até para trens e carros. Paris possuía
tantos buracos escorados que se cedessem a cidade toda afundaria
inteira, como Atlântida. Sean jogou uma lanterna para que Tiago
sondasse o fosso que se perdia na escuridão dos dois sentidos.
Uma minhoca gigante poderia surgir de qualquer direção,
precisava estar atento.
Teriam que seguir para leste.
O silêncio só durou o tempo de se acostumarem com o
nervosismo que os escorregões ofereciam. Quando já dominavam
o ambiente puderam se descontrair.
–– Quando vinha para cá, esbarrei com Andreu. Estava
estranho. –– falava Tiago desviando de uns cabos soltos.
–– Estranho como?
–– Dizia que uma tia – paranormal – pediu para que sua
família abandonasse a cidade... Não sei se ele acreditou, mas
estavam se mudando com muita pressa. Era uma correria! ––
inconformado.
–– E ele acredita nestas coisas? –– Sean estava sendo
sarcástico com Tiago, que sempre agia com suspeitas acerca do
que o amigo dizia a respeito dos fantasmas.
Tiago se aborreceu. –– Pior seria se não te questionasse!
Depois eu acho que foi por causa do alerta de inundação que está
previsto para os próximos dias?!
–– Ainda tem mais essa!
O retilíneo percurso de curvas e guinadas não condiziam com
as representações do mapa, porém as sinalizações confirmavam
que seguir por aquelas direções só representaria chegar ao sistema
Concini. Em poucos minutos se esgueiravam por uma fenda
abruptamente aberta e, que unia os sistemas de túneis
supostamente autônomos. O aspecto acabado, de pedras alisadas e
medidas mantidas, davam lugar a uma escavação grosseira com
variações de altura e largura. Muitos pedregulhos soltos faziam
com que os garotos derrapassem, ferindo as mãos contra as
paredes irregulares. Neste ambiente a água da chuva descia com
ferocidade para cavernas com lagos transitórios. Nestas
antecâmaras as águas já atingiam os seus joelhos.
Fazia muito frio.

323
Aqui o mapa se apagava, com insinuações tracejadas de que
haveria mais vãos não-descobertos pela catalogação moderna. Os
dois se olharam perdidos.
Apontaram seus feixes de luz para todas as arestas
imperscrustadas que conseguiam alcançar com nitidez. Algumas
pichações e símbolos eram percebidos, mas nada além do
habitual. O que poderia ser uma pista não passava de uma
tentativa germânica de catalogar os subterrâneos durante a
ocupação nazista da segunda grande guerra. Vários emblemas
advertiam que eles conseguiram chegar até aquele nível, como
demonstra o número de identificação pintado por moldes vazados.
–– Viu algo diferente? –– perguntava Tiago.
–– Além de estarmos brincando de goonies?!
–– Aquela suástica não é igual às outras. –– e clareava o
emblema que estava invertido, com seu giro para a esquerda. ––
Se me recordo bem, acho que é usada em templos orientais, como
os budistas. –– com um sorriso maroto. –– Trabalho de escola!
Tentaram por aquele trajeto e acabaram encontrando outra
cruz gamada com as mesmas características. Sob o desenho
desbotado havia inscrições ranhuradas com a ponta de uma faca.
Tiago traduziu o que consideraria uma blasfêmia às tentativas de
caçadores de tesouro como eles planejavam parecer: sigam estes
sinais. Por suposto, ele não confiava na inteligência apurada dos
posteriores exploradores de túmulos. E quem saberia que há uma
sepultura no fim do túnel? Os outros estavam mais preocupados
com a luz no fim.
A terra sacudiu e estremeceu quando o metrô atravessou-lhes
a passagem, por cima ou abaixo deles. Pequenos pedriscos
rolaram, recordando-os da fragilidade da escavação. Alguns
metros adiante o túnel era bruscamente invadido por colunas de
pedras seculares que deviam sustentar catedrais espectrais.
Catacumbas improvisadas apresentavam nichos ocos e teias
inconvenientes. Muitas tubulações inadvertidamente cortavam a
passagem.
–– Devíamos ter avisado alguém!
–– Só se quiséssemos ser impedidos. –– Sean estava
estranhando a atitude do amigo. –– Está desistindo?! –– o que não
era bem uma pergunta.

324
Tiago só não queria fazer nada sem planejamento. Sem
Mateus, Sean não poderia contar com mais ninguém para sondar o
que tramavam os fantasmas. Se ele falhasse, quem esperaria que
Mateus percorresse os mesmos passos? E sem Sean, Tiago jamais
sairia deste labirinto. –– Não. Mas você está distante. Antes se
preocupava com que os outros pensavam de você. Agora anda
mais convencido do que nunca.
Convencido? E Sean já se aborrecia de testa franzida e boca
trancada. –– No way! –– e parava para encará-lo com zanga.
–– Então me diga. O que está tentando fazer?
–– Acabar com tudo, de uma vez por todas.
–– Sozinho?
–– Não. Por isso eu te trouxe junto. –– desta vez ele fez
questão de ser convencido. Até demais. –– O que seria de mim
sem os seus conselhos? Heim?
O amigou bufou, indignado com a inconveniência das
palavras. Embora tenha se dado conta de que Sean estava
passando por situação altamente estressante. O que não o impedia
de ser mais amigável, ou pelo menos mais humilde com os pobres
mortais. –– Não quero te contradizer, mas está com pressa demais
para impedir o fim do mundo! É evidente que não conseguiremos
evitá-lo. –– olhava para si demonstrando a pouca capacidade de
um garoto pré-adolescente de poucos músculos e nenhuma
vantagem extrassensorial. –– Fomos chamados para a festa,
embora não sejamos os anfitriões.
–– Sim, somos os palhaços que fazem bichos de balões.
–– Não. É só egoísmo, orgulho besta.
Ficou realmente perdido. –– Mas como! Tudo o que eu faço é
para evitar o constrangimento a todos que eu amo. Como eu posso
ser egoísta se penso nos outros antes de mim mesmo?
–– É onde você se ilude. Quando pensa estar fazendo o mais
sensato fechando-se em si, impedindo que os outros te protejam, é
quando está sendo individualista. –– se fosse qualquer outro, Sean
já estaria sobre o pescoço. –– Você é meu amigo, mas para não se
expor acaba sendo egocêntrico, teme que seu mundo quebre. Não
suporta que te contradigam e enquanto puder controlar as
decisões...
–– Eu não sou nada, ninguém... –– Sean se defendia confuso
com as insinuações diretas de Tiago.
325
–– É disso que estou falando! Sim, neste mundo controlado
que você criou você é um ninguém manipulador. O seu egoísmo
está naquilo que conhece, sem surpresas. Basta ter que enfrentar
os seus fantasmas, não está com medo que isso aconteça?
E Sean sentiu seu estômago pesando como se engolisse toda a
terra acima de suas cabeças sem ajuda de um copo d’água. –– É
por isso que estou assim. Se pudesse, fugia de tudo. Virava as
costas para todos, sem pestanejar. Talvez no princípio eu até me
sentisse melhor, mas não acabaria com a as noites mal dormidas
de um compromisso que martela minha cabeça...
–– Que compromisso?!
–– Não sei. Se soubesse já teria tirado da cabeça esta ideia
estapafúrdia de que precisam tanto de mim. –– e dizia isto com
forte sentimento de perda, de pânico, de prostração. Um dejá vu
que ecoava do passado, um temor de que tudo se repetisse. No
entanto o quê?
–– Só você não quer acreditar, mas todos somos assim! Mas
você pode ficar sossegado. Eu estou aqui para o que der e vier! ––
buscava clarear o pensamento do amigo enquanto ajustava a
lanterna para um facho mais amplo.
Talvez fosse tudo má impressão de um garoto tímido que
começava a se sentir especial. Tiago achava que devia demolir o
pedestal se quisesse descobrir o que estava acontecendo. Por hora
podia dar o troco, se o quisesse. –– E o que me diz destes
fantasmas logo atrás de você? –– buscando outras alternativas
para uma desforra entre amigos.
Sean virou-se imediatamente e com o susto tropeçou e caiu
levantando ondas concêntricas na água acumulada. Para onde quer
que ele olhasse não havia nada. Tinha entendido o recado e sorriu,
no entanto reverteria o jogo.
–– Como você sabia deles!
Tiago se engasgou antes de inventar a sua tão convencida
resposta: –– Oras. Estamos em um cemitério. É obvio que haja
espíritos, não é?! –– Se assustando diante da possibilidade de
estar certo. Agarrou-se aos ombros de Sean com aquele olhar
melindrado de quem estaria encurralado, suava sem medo. Porém
Sean caiu na gargalhada diante da dúvida. –– Não tem nada? ––
Tiago certificava-se diante da sua brincadeira supostamente falsa.

326
–– Nem uma alma. –– mas ele sabia que Tiago poderia ter
acertado no julgamento: poderia estar coalhado de fantasmas e
poderia ser um convencido, sim. Contudo soube como eram suas
assustadoras revelações de coisas que não se viam. Da próxima
vez, teria mais tato.
––... Tenho sido seu amigo, e sempre o serei. –– frisava Tiago
com convicção inabalável de quem se engasgava ao tentar dizer:
sempre fui, tenho sido e serei seu amigo.
–– Esse é o meu medo! –– pressentia que a amizade lhe
custaria algo. Por isso não queria perdê-lo de vista. De novo. Por
sua vez sentia a tensão aumentar instintivamente. Talvez devesse
desistir.
O bom amigo não permitiu que ele tomasse esta decisão,
empurrando-o para frente. Para Tiago era inimaginável o que dois
garotos poderiam fazer contra um exército de semivivos, sendo um
até privado de visão. Sean agradeceu e ficaram rindo do
acontecimento por todo o trajeto restante.
E caminharam por horas antes de se depararem com um beco
sem fim, ou com fim, seja como for.
–– Vamos finalizar o túnel! –– precisava Tiago se agarrando a
uma picareta embolorada.
–– Como você tem tanta certeza de que é aqui.
Tiago pôs o foco de sua luminária sobre a certeza de um
esqueleto fardado, escorado sobre uma caixa de explosivos com a
suástica apropriada. –– Ainda tem coisas que consigo ver melhor
do que você. –– e impingia o primeiro bater. A sorte à espreita,
dois ou três minutos de esforços e uma brecha se abriu. As pedras
escorreram para dentro do salão contra um piso seco e inesperado.
Foi Sean quem inseriu a lanterna pela fenda procurando
afiançar se estavam onde desejavam. As dimensões batiam, as
cavidades seladas e lacradas também. Alguns equipamentos
abandonados por Marc e Sarah repousavam sobre destroços que
deviam levar ao refeitório do antigo convento franciscano.
Enormes blocos de pedras impediram que o teto desabasse
com o desmoronamento do cordeliers, contudo a fragilidade da
estrutura estava aparente com os constantes sons de acomodação
do entulho que trancou algumas das passagens laterais. A água
que estava acumulada parece ter cedido e recuado por uma das
rachaduras do pavimento de mosaico.
327
Com dificuldade conseguiu direcionar o facho para baixo,
mas a operação foi interrompida com a brusca avalanche que o
empurrou para o interior da cripta. Sua luz se apagou quando
bateu com força sobre a laje da tumba secular.
Tiago se preparava para alumiar o ambiente, mas esfregaços
e gemidos que indicavam uma luta corporal terminou por silenciá-
lo. Estava sozinho e no escuro. Seus dedos passaram pelo baixo-
relevo da lápide até uma fresta que permitia que seu braço
entrasse. Vasculhou rápido, pois ouvia alguém se aproximando
com cuidado. A respiração ofegante do invasor causava o tremor
das pernas.
Queria gritar, no entanto se sentia vulnerável, por isso calou-
se. Sem cerimônias, tateou sobre ossos e panos apodrecidos que
lhe causavam asco, mas acabou encontrando o rolo de
pergaminho. Pensava que não gostaria que um dia lhe enfiassem a
mão pelas costelas como fazia com os restos mortais de outrem.
Seus olhos estavam dilatados ao extremo, tentando perceber
vultos na penumbra de passos firmes. Só pode sacar o documento
do ataúde e enfiá-lo sobre a jaqueta antes de ser atingido por
alguma coisa dura.
Agora a escuridão era prolongada pelo seu desmaio.

Estava desacordado por tanto tempo que seu corpo se


enrijecera. Cada agitação ocasionava dores e estertores
imprevistos. A boca estava com gosto de cabo de guarda-chuva e
quando conseguiu sentar ainda não enxergava nada. Estava um
breu infernal.
Pôs a mão sobre a cabeça onde ainda doía. O sangue
coagulado havia emplastado o cabelo, descendo pelo rosto até o
canto de sua orelha direita. Não havia percebido a gravidade da
ocasião. Sua mente só foi dar conta do acontecido quando pensou
em Tiago. Procurou apalpar a esmo e descobriu que estava em
outro lugar. O pavimento liso se estendia além de seus dedos
doridos para todas as direções, partindo de si. Um vento cortante
zunia como se atravessasse um grande salão desamparado.
Precisava ver, saber onde estava. Precisava ajudar Tiago.
O atacante não devia estar por perto.
O vento provocou um arrepio que o obrigou a agir. Voltava a
se esgueirar pela pavimentação encardida, calcando seu corpo
328
para que não fosse surpreendido por quedas repentinas ou
monstros peludos. Não progredira nem um metro quando tocou
em algo solto que deslizou antes que pudesse capturá-lo pela
ponta dos dedos ávidos. Parecia ser um aparelho portátil.
Quando o abriu, seu brilho esverdeado de um mostrador de
cristal líquido clareou ao redor, descortinando paredes arqueadas
de um ladrilho pichado e trincado. Estava em uma estação
enclausurada nos subterrâneos do metropolitano parisiense. Uma
das estações pouco rentáveis que desapareceram em 1939 e jamais
seriam reavivadas, acontecimento este provocado pela grande
guerra e suas reduções e condições.
Estava tão perdido que na confusão de pensamentos surgiu a
repetição persistente de uma ideia. –– Labelius! Por favor.
Segundos angustiantes antes que ruídos arrastados e pesados
ganhassem solidez. A primeira impressão era de que o agressor
havia retornado, contudo o som estava bem perto e a claridade do
aparelho não delatava ninguém. Somente quando direcionou o
foco para baixo percebeu que era Labelius, um pequeno duende
deformado que se parecia com um saco de pedras ou um senhor
Cara-de-Batata mal humorado.
Como havia garantido Guarini, ele estava desconfiado do
garoto e rondava-o tentando avaliar seu intento.
–– Guarini me disse que o senhor poderia me ajudar. –– ao
ouvir o nome, o elemental encardido fez uma careta. –– Mas ele
também deixou claro que não seria fácil... –– mais sussurrando
para si do que com o propósito de convencer aquele ser.
–– E o que você quer, humano! –– o duende possuía uma voz
grossa como se regurgitasse terra ao falar.
–– Onde estou?
–– Nos buracos.
Sean desconfiava que o pequeno ser era ingênuo, para não
dizer burro. –– Onde exatamente? –– e ele não responderia o
óbvio. Não iria mais considerar Labelius como um auxílio e já se
afastava fazendo uma varredura da plataforma. O duende ficara
intrigado com o pouco caso que o garoto fazia dele.
–– Você me chamou.
–– Desculpe-me. Pode voltar para... –– de onde havia vindo.
–– Não conheço seu mundo, mas aqui eu sei tudo o que
acontece. –– Labelius tentava chamar a atenção de Sean.
329
–– O que aconteceu com o meu amigo?
O encaroçado duende olhou para os lados e assoprou as
palavras temendo que ao dizê-las seria repreendido. –– Foi levado
por dois. O senhor dos dragões cujos corações atitam e o outro
como você.
–– Um vivo?
–– E dos pequenos.
–– Aonde eles foram? –– temia que a resposta fosse buracos.
–– Pisaram muito e ficaram com o pequeno francês da
chordae. Perto do anjo sem asas, mais eles ainda estão com os
mesmos ossos. Aqui não é seguro. –– Enfim, ele não teria
solucionado a incógnita, mas apresentou um esboço. Não ficou
esperando que Sean retrucasse e na mesma moeda virou-se,
desaparecendo na penumbra do qual nascera.
Sean voltava a ficar só.
A umidade que trazia aromas de bolor e gases de
decomposição corroborava a pouca circulação de pessoas por
estes cais de uma estação ignorada. Não havia identificação de
inscrições ou placas descascadas que pudessem dar uma ideia de
onde estava.
Beneficiado da feérica luminosidade que emanava de suas
mãos, ergueu-se cambaleante, torcendo para que as escadarias de
acesso estivessem lá. Algumas estações metroviárias jamais
teriam suas aberturas construídas, tornando-se arapucas
impenetráveis. Por sorte não era este o caso. Quem o desovara ali
só estava tentando confundi-lo.
O celular definitivamente pertencia a Tiago, que não estava
em nenhuma parte da plataforma alagada por gotejamentos
constantes. Precisava examinar os trilhos, contudo a luz era
anêmica demais para perscrutar o fundo da via metálica.
Deitou-se na borda esticando o máximo que pôde e se
preparava para tomar posição em outro ângulo quando foi
abruptamente arremessado para trás com o deslocamento de ar
provocado pela passagem da composição férrea. O metrô havia
chegado com tanta velocidade que Sean não percebeu sua
aproximação. Por um triz, ou sorte, havia acabado de recuar seu
braço do valo que se mostrou sem sinal de corpos ou viva alma.
Um alívio depois da inexaurível explosão de seu coração que se

330
negava a sossegar. Havia se esquecido de que as linhas ainda
estavam ativas...
Estava sozinho e o horror tomou-lhe voraz. Aconteceram
tantas adversidades que esta acabou sendo a gota d’água de um
copo já transbordado. Seu estado de choque impedia-o de
raciocinar com clareza.
Regressou para as escadas, se esforçando para não escorregar
no limo amontoado. Tentativas seguidas e o entulho, de ferragens
entortadas e mobiliário detonado que obstruía a passagem, cedeu
abrindo um caminho difícil. O longo corredor oferecia crescentes
pingos de suor de um medo incorrigível. Papelão e sacos podiam
ocultar possíveis assassinos ou drogados que causariam mais
estragos do que os fantasmas com que já se acostumara.
Passo ante passo e os ecos não passavam despercebidos. As
caixas se mexiam em sombras sugestivas. Tentava ladear a
imundície caminhando de costas para se certificar de estar só. E já
havia cometido a grande falha ao ouvir um sibilar de respiração
profunda em um ponto imediatamente colado à sua nuca. Girou os
calcanhares puxando o corpo para o mais longe possível do
homem barbudo que o encarava com graça pueril.
Enquanto ofegava preocupado com sua situação, o mendigo se
sentava junto à parede do corredor em tão conhecida posição de
pedinte de metrô. Só então algo lhe pareceu reconhecível.
O conhecia de outros becos.
E num formidável inglês de flexões e inflexões londrinas o
mendigo se apresentou diante da surpresa estampada no rosto de
Sean. –– Não há o que temer. –– olhava precavido para os lados.
–– Não estou com medo. –– mentia.
–– Quem não tem medo de assombração!
Agora não estava mais com medo, eram os vivos entocados na
escuridão que lhe preocupavam.
–– Estou cumprindo um favor.
E qual seria?
–– Eles não são quem parecem! O seu amigo não pode
resolver os seus problemas por você.
–– Quem?
–– Dentro de você há grandes verdades adormecidas. No
entanto, o que deveria ser dito já não é mais possível.
–– Como?
331
–– Fui desautorizado há pouco. Mas eu devo dizer que tudo
isto não diz respeito a você como supõe. Desta vez eles não
querem você... ainda.
O mendigo se aproximou e buscou, com a mão em concha,
sussurrar ao ouvido, contudo não completou a tentativa. Sorriu e
piscou mostrando propositadamente a palma da mão que não
usou. Balançava os dedos em despedida para recuar no escuro que
o engoliu sem traços.
Seu torpor fora rompido com o fraco vozerio que emanava
dos túneis. Como se milhares de urros se aproximassem das
profundezas ou da superfície próxima, ficava difícil precisar.
Portas encadeadas eram destravadas com repetidos choques
de uma barra de aço. O polímero reforçado simulava dificuldades
que lhe atrasavam o progresso. Estava exaurido e continuava
lutando para alcançar ar puro, não podia desistir do manuscrito.
Por algum motivo isto não lhe fazia mais sentido, o compromisso
que pensava ser com o códice ou os tais diários era, de fato, outro.
Por mais estúpido que Sean se sentisse, nunca havia cogitado que
a obrigação era para com seu amigo arrebatado.
Jogou-se contra a parede, deslizando suas costas até agachar-
se no calçamento gélido. Tão logo, caiu num choro convulsivo,
nervoso e confuso. Foi totalmente injusto, estava sacrificando um
amigo que ainda continuava a apóia-lo, mesmo após tê-lo
menosprezado com as façanhas de um admirável mundo novo.
Que papéis valeriam esta inversão de valores? Quais garantias
eles teriam de que os diários de Miguel seriam críveis? No final, o
que pesava era as conquistas e não as suposições de se.
Não podia desistir, rompeu a corrente da derradeira porta mal
emborcada e uma chuva irreprimível abriu caminho à força,
cobrindo o chão com uma lâmina de água refrescante. Procurou
refúgio temporário enquanto a claridade fustigava seus olhos
vermelhos.
O aparelho piscou. Um sinal de proximidade advertia que
Mateus estaria por perto. Mas não era o suficiente para chamá-lo.
Teria que emergir no aguaceiro se realmente quisesse fazer
uma ligação. Quando galgou as grades de proteção se deparou
com o incrível e o absurdo.
–– No way!

332
25

bandeiras fincadas.

Dias seguidos, muito banais, e esta naturalidade não era


tão aparente como gostariam algumas pessoas. Os dias com aulas
intermináveis haviam retornado, assim como os dias atarefados de
muito trabalho acumulado. A neve se tornara, depois da ascensão
de sucessivas ondas quentes marroquinas, um líquido depreciado
que insistia em se acumular nos pontos menos adequados. Muitos
transeuntes iriam se lembrar, seja pelos sapatos mergulhados em
poças supostamente rasas ou pelo enxágue de espirros provocado
por motoristas com o diabo no corpo.
Contudo, esta trégua de dias quase triviais, teria os seus dias
contados. E este armistício, como em qualquer guerra, teria seus
rebelados e suas quebras protocolares arguciosas. Neste caso,
poucos saberiam e, se pudessem lutar contra, jamais seria
permitido.
Dias de degelo não aplacaram os desígnios dos exércitos que
se aproximavam da cidade, acampando em terras limítrofes além
do cinturão periférico de Paris. Aguardavam ordens enquanto se
adensavam em terrenos já urbanos, cuja demora incentivava a
desconfiança e a rebeldia dos subordinados aborrecidos com a
organização demasiada para seus espíritos inquietos.
Espíritos estes que só obedeciam, pois estava de acordo com
os seus ideais, o empreendimento de trazer angústia e caos ao
manifesto comportamento inabalável dos cidadãos dito
civilizados. Pelo menos era o que eles imaginavam, porém a

333
agitação que reverberava em seus corpos se devia aos choques
provocados por compromissos não cumpridos ao fim de uma era.
Comportamento este que, nos últimos dias se transmutaria,
desobstruindo a contenção social em prementes rachaduras, em
anarquia de neanderthais modernos.
Não antes que uma torrencial tempestade de chuvas nada
tropicais sobreviesse em cúmulos negros de raios e trovões
atemorizantes. Se não havia coincidência, este aguaceiro tinha os
seus agentes para despencar com tanta cólera naquele alvorecer
demorado de megacongestionamentos.
Mateus era mais um, entre milhares de estressados, que estava
trancado no trânsito intransitável do coração da cidade. Seus
limpadores de para-brisa não davam conta do volume de água que
insistia em retornar pelos bueiros sem vazão.
O rio ganhava volume a olhos vistos e o que ele podia fazer é
tentar enxergar os pontos de luzes disformes à sua frente. Na
maioria, vermelhos, de reflexos e intensidades variadas. Carros
estagnados que andavam e freavam em arrastos milimétricos de
muitos escapamentos e motores ativos.
Só se ouvia os limpadores guinchando e cuspindo o excesso
de água sobre o mourejar de motores em giro morto.
Eles jamais atingiriam Moisselles dentro do prazo estipulado,
assim como o restante dos automóveis que delineavam colunas
sinuosas de faróis brancos na pista oposta e de sentido contrário.
Porém Elene não se importava, desde que estivessem secos e
aquecidos, continuaria fingindo ler um livro. Apesar de que ela
procurava um meio de abordar outras questões, de curiosidade
transbordante, com Mateus. E ele só fingia não querer discutir o
assunto imaginando que Elene já havia deixado bem claro a sua
repulsa sobre as tais questões. Total desatenção dos dois, que na
verdade queriam, queriam muito.
–– Nunca vamos conseguir atravessar esta desordem. –– e
falava isto considerando a chuva, as passeatas e manifestações
planejadas para a avenida dos Champs-Elysées, os confrontos
estudantis, as greves trabalhistas gerais e as revoltas e rebeliões
nos subúrbios, além desta água que não parava de cair. Não
conseguir persuadir a mãe se mostrara degradante, ainda mais
quando teve que se declarar observador da natureza morta, ou

334
seja, de fantasmas e congêneres. E Mateus batia com a testa no
volante, aborrecido por ser um títere do caos de outrem.
Por distração, eles olhavam as várias pessoas que corriam
diante do carro, atravessando a grossa lâmina de água, para chegar
ao outro lado da avenida congestionada. Contornando os veículos
com maestria de dançarinos em guarda-chuvas destroçados.
–– Então fale! –– e Elene não resistiu aos ataques de sua
mente intrometida. A cada marcha que eles davam, Mateus falava,
e ela mantinha um silêncio intrigante demais, enfim ela também
falou. E estava inacreditavelmente cordata com as impressões do
amigo. Suposições que precisaram de um bom tempo para serem
digeridas, mas uma vez compreendidas, estava pronta para se
intrometer.
–– Se eu não tivesse visto você sendo arremessado no vazio,
por nada, por ninguém –– já considerando os fantasmas ––, não
acreditaria em uma só palavra do que me disse. Ainda não sei se
acredito. Como eu poderia?
Para Mateus não parecia o suficiente. –– Então está perdendo
o seu tempo comigo. Se não houver provas, que garantia vai
bastar para você?
–– As que eu puder avaliar, Matt!
–– Assim você está restringindo suas crenças através de
conceitos falhos. Como não vê, todo o resto é boato.
Elene pensava na réplica que ouvira e na qual teria que dar. ––
Conceitos falhos?!
–– Se para você eu sou um louco de imaginação fértil. Para
mim você não passa de uma cega. E estamos quites.
E ele estava certo, nem mesmo sua vontade de dar a última
palavra como sempre fazia, seja em questões idiotas ou
complexas, impediu-a de se calar inconformada com a razão
apresentada. Por isso o amor entre os dois se esfacelou.
A chuva parecia reduzir de intensidade, aclarando a paisagem
depois que os vidros foram desembaçados com panos e
ventilações forçadas. Entretanto a paisagem era sempre a mesma,
pois haviam locomovido poucos metros. Estancados perto da
avenida New York entre a ponte d’Iéna e os terraços do Palais de
Chaillot. Visão sem obstáculos através da Torre Eiffel até o
nebuloso perímetro da Escola Militar. Impotentes de recuar ou
avançar, sua privilegiada paisagem foi se fechando com a
335
movimentação de uma muralha de caminhões e veículos grandes e
longos.
Um clique e o rádio era despertado com notícias
desalentadoras: ––... o que provoca o rápido aumento do nível do
rio Sena, decretando estado de alerta. Algumas áreas baixas já
estão sendo evacuadas e os túneis interditados. A defesa civil não
vai esperar que a água chegue aos joelhos do Zouave...
Em 1910, as águas do Sena atingiriam oito metros e sessenta e
dois centímetros acima da cota de alerta da escala hidrométrica da
ponte de Austerlitz, cobrindo os ombros da estátua do Zouave, que
passa a maior parte do seu tempo em um dos pilares da ponte de
l’Alma. Nos seus calcanhares, os canais eram fechados. Com as
calças molhadas, as vias justafluviais eram obstruídas. Na cintura,
a navegação era cessada e a linha C do RER submergida. Para
chegar no pescoço, poucos se esqueceriam. Mas o africano
Zouave passou a ser desconsiderado quando a nova ponte de
l’Alma mudou-o de posição. Se houvesse outra cheia, a cidade não
poderia dar de ombros.
E os motoristas começavam a se exasperar, buzinando
desesperados por uma rota de fuga que não existia. Para completar
a irritação de Mateus um cavalo esbarrou em sua porta recém
reparada assustando-o. –– Mais cavalos! Quem sabe este policial
saiba de alguma saída para o congestionamento. –– e depressa
abria o vidro.
E Elene olhou para frente, os lados, se contorcionou para trás
e não viu nenhuma guarda a cavalo. E Mateus descobriria que
também não. Levantou a cabeça diante das botas do cavalariço
prevendo que ele estaria ocupado em instruções com seu walkie
talkie para as centrais de monitoramento do trânsito que também
estariam de mãos atadas. As botas não diziam respeito à
gendarmeria municipal, mas sim ao explorador espanhol de
cavanhaque pontudo e elmo socado que gritava endemoniado para
as escadarias do Chaillot. Fechou instantaneamente o vidro como
se protegendo de meros ladrões oportunistas que atacavam
veículos desamparados em engarrafamentos semelhantes. –– De
novo, não!
O soldado cortou a dianteira do Peugeot imprimindo mais
gritos, quando percebeu que era visto por Mateus com precisão.

336
Por cortesia o cavaleiro respondeu: –– Saiga de la ciudad,
hombre! –– e rumou para o rio, desaparecendo por completo.
A Elene desconfiava que havia acontecido algo que não podia
desconsiderar. Se Mateus queria assustá-la, havia conseguido. O
que pioraria a situação, para ela, seria a sinfonia de buzinas e
alarmes disparados ao mesmo tempo, sem causa aparente. Aliás,
havia uma causa nada ilusória no gigantesco braço metálico que
se erguia implacável, abrindo-se para os céus da cidade, mas o
movimento não havia terminado.
Mateus tentava acompanhar a estrutura através do para-brisa
deformado pela água que escorria sem trégua, porém não se
conteve e saiu. De início, os veículos engarrafados dificultavam
sua observação de partes do estranho mecanismo, detendo-se na
azáfama que provinha das escadarias do Palais de Chaillot e,
onde vários soldados desciam em formações e destacamentos
heterogêneos.
Tropas e divisões de destacamentos imortais tomavam de
assalto os museus do homem e da marinha que constituíam os
edifícios originais da exposição universal de 1937. O frontispício
indagava contrassensos para os espectros de que tout homme crée
sans le savoir, comme il respire.
Cuirassiers aparelhados com fuzis revolucionários em longas
capas e elmos emplumados escoltavam a infantaria legionária de
pilum e scutum oriunda da Armórica. Eram seguidos pela
cavalaria de armaduras luzentes e cotas de malhas fragorosas, com
suas pesadas espadas presas às placas do saiote, e estandartes
heráldicos calcados entre as selas e as mãos liberadas. A infantaria
mecanizada do exército prussiano contornava o edifício,
avançando protegida por filas de metralhadoras rotativas que eram
puxadas por animais. Caminhões de transporte do Afrika Korps
faziam a escolta secundária, seguindo pelas avenidas do Jardim
do Trocadéro junto à fonte de Varsóvia.
Uma cena inimaginável, que só teria maior impacto quando
tanques Panzers e Shermans despencaram através das plataformas
suspensas, comboiando seus aliados diretamente para os
automóveis imobilizados que não antecipariam reação alguma.
Mateus estava petrificado com a onda de choque provocada
com a colisão dos primeiros blindados contra os objetos sólidos,
arrancando algumas árvores e destruindo postes que se
337
deformaram com o peso deste vagalhão. Não pensou novamente e
agiu o mais rápido que podia, forçando a maçaneta do seu carro
para arrancar Elene instantes antes que o blindado o transpusesse,
arrastando-o incólume uns bons centímetros de pneus freados.
Vários veículos sacolejavam arrastados e os alarmes eram
ativados por toda a extensão do congestionamento. Além destes
sinais sutis, as esteiras dos blindados levantavam respingos da
água empoçada sobre o asfalto.
Enquanto eles se desviavam dos tanques americanos, os
demais veículos continuavam a balançar, puxados para a margem
do rio. Pelo menos uma vez, Elene fora pega pelas lâminas das
esteiras invisíveis, sentindo desconforto incompreensível. Alguns
deslizaram para cima das grades, afugentando as pessoas de um
ponto de ônibus abarrotado.
A debandada absoluta contava com um estímulo jamais
previsto. Pelo que Mateus pôde pressentir, os corpos em fuga
eram apoiados pela decisão conjunta de suas almas assombradas.
Este movimento se alastrava como fogo ao vento e em poucas
horas a cidade estaria plenamente evacuada incentivada pelo
medo que sentiam em suas almas. Peito oprimido em angústia
inexplicada, porém considerada.
Muitas pessoas gritavam desesperadas fugindo para longe,
milhares atravessando as pontes para a margem esquerda da
cidade –– rive gauche. Em sua vontade de explicar o inexplicável,
pensavam que era uma enxurrada, eletrificada pelos cabos de
energia e comunicações expostos pelo excesso de água.
Os blindados, como os soldados, seguiam na mesma direção,
detendo sua marcha nos pontos do rio sem travessia, todavia
começaram a se locomover para onde a garra de metal se
desdobrara atingindo grande elevação e já encetava seu decesso
com muitos estalos e gemidos peculiares de estruturas gigantescas
postas em movimento.
Para que Mateus conseguisse ver do que se tratava, correu
disparado pela avenida, entre os carros abandonados, o que o
obrigava a bater as portas que lhe obstruíam a passagem. Mas o
trajeto dificultava sua afobação, exigindo que ele subisse nos
automóveis, saltando as capotas e caçambas com esforço
redobrado. Os motoristas indiferentes ao pânico se entregavam a

338
xingamentos encapsulados, pois ninguém ousava abrir as janelas
durante aquele temporal.
Quando ele já se aproximava de um ângulo propício saltou
sobre um furgão que lhe daria ingresso ao topo de um caminhão-
cegonha de vários eixos. Ofegante, cuspia o excesso de água que
acabava entrando pela boca escancarada. Diante de si, muitos
braços desciam, não sincronizados, de veículos blindados lança-
pontes, preparando as tropas para a iminente transposição do rio.
Espantosa força criava pontes de cento e cinquenta metros de
extensão que eram pouco visíveis em meio à solidez da chuva, ou
da substancialidade das nuvens baixas.
Elene berrava conseguindo chegar mais perto, o que atraiu a
atenção dele para a outra direção. As divisões que conseguiam
transpor o rio por meio das pontes existentes estacionavam em
acampamentos provisórios no campo de marte. Milhares de
espíritos com inexpressivo semblante fincavam bandeiras pelo
campo. Generais, capitães, centuriões, legionários, besteiros e
arcabuzeiros, fuzileiros e granadeiros, soldados e marechais do
mar. Lanças, canhões, espadas, granadas e mísseis, baionetas,
trabucos, escudos, arcos e bestas. Cavalos, elefantes, caminhões e
jipes, blindados e...
Compunham um grande exército, a legião, quando todos
terminaram os variados deslocamentos e definiram os perímetros
de ocupação, não haveria contraofensiva. O fôlego de Mateus
terminava com o retorno ao chão e aos braços de Elene que o
acompanhou até o automóvel, agora preso pela massa de veículos
sobrepostos.
–– A invasão acaba de fincar sua bandeira de vitória, sem
enfrentar resistência. –– e ele olhava a impressionante logística
militar que surgia na esplanada ocupada.
–– Matt, precisamos sair daqui! –– estava apavorada, mas não
era de fugir diante de reveses. Começava a aceitar que existiam
outras verdades.
–– Bem que eu queria. –– de olhar fixo nos últimos homens
que cruzavam a ponte que estava diante deles. Sem opção,
molhados e arfantes, seguiram o mesmo trajeto da turba
incorpórea, desviando dos carros vazios sobre a ponte d’Iéna.
Apesar de sua perspicácia estar a mil, Mateus não percebeu
quando três mastros com suas velas içadas cortaram-lhe o
339
caminho com estrondo de um susto jamais previsto. Um
bergantim lançava âncoras no cais de Branly com tripulação
atarefada no desembarque de armamento. O rio corria
violentamente tragando os baixios de alguns cais próximos.
O que o trouxe à realidade de sentidos reais foram as
constantes vibrações de seu aparelho que indicavam chamadas
não-atendidas. Antes que pudesse constatar, atendeu-o. –– Sim,
ele está conosco. –– mentia Mateus para o senhor Patrick. ––
Parta da cidade. Temos alguns alojamentos no aeródromo...
Estamos todos indo para lá. –– Marc e Sarah deviam estar
salvando o Louvre e...
Mateus precisava de tempo, pois, durante a ligação, uma
segunda chamada estava sendo desviada. Distinguiu o número de
Tiago, e onde ele estava, Sean também estaria. O sinal de
proximidade piscava, indicando que eles estavam muito mais
perto do que imaginava.
–– Cadê você, moleque? –– gritando com o falso-Tiago.
Sean não conseguia responder, estava boquiaberto com a
imensidão de espíritos que ocupavam a esplanada do Champ de
Mars. A estação que deixava para trás desembocava, na
superfície, bem onde está a Escola Militar e a praça Joffre. Não
sabia como havia atravessado a cidade pelo labirinto de túneis e
catacumbas, mas estava aonde menos queria.
–– Sou eu, Sean. Preciso de você. Alguém sequestrou o seu
irmão. –– a interrogação de onde estava ainda continuava. ––
Estou na Escola Militar do Campo de Marte.
Mesmo surpreendido pelas palavras que ouvia em silêncio
ajustou sua visão tentando visualizar o garoto através do campo
que se alongava diante dele. Impossível alcançar esta distância. ––
Estou indo até você!
–– Rápido, você nem imagina o que estou vendo!
–– Tenho uma boa ideia. –– de um outro ângulo, e desligou.

–– Como vamos atravessar estes... –– falava alto, justificando


a abordagem externa de ouvintes oportunos.
–– Siga-me! –– e Elene socava Mateus num Land Rover
Discovery desocupado que ainda estava ligado, com limpadores
enfurecidos e lanternas ávidas por alguma ação. A chuva
levantava brumas que eram acompanhadas pelas luzes halógenas.
340
Arremeteu-se contra os automóveis que impediam sua travessia.
O para-choque de ferro destroçou os pequenos utilitários. Porém
esta tática seria precária para percorrer as vias entupidas, contudo
ela só precisava chegar até o fim da ponte.
Contou até três e acelerou o veículo off-road em direção à
torre Eiffel, só parando quando a chuva reduziu sua queda pelas
plataformas da torre. Mateus olhou através do teto-solar,
admirando a intersecção das estruturas que constituíam as quatro
pernas daquela gigantesca peça de xadrez. –– Quem disse que o x
nunca marca o ponto desejado! –– voltava a rir das coincidências.
Os exércitos ainda não haviam se posicionado nas zonas
centrais do largo de manobras. Aceleraram o carro pela última vez
antes de se lançarem ao encontro dos combatentes.
O povaréu inarticulado foi pego de surpresa quando o carro
voou sobre os primeiros acampamentos. Mateus pensou que ia
surtar diante do vagalhão de desencarnados que se apressavam
em fechar o cerco, imprimindo a diminuição da única trilha
acessível até a praça Joffre. Como verdadeiros peões, os soldados
se espargiram numa tentativa alucinada de fechar e impedir o
cruzamento daqueles invasores.
–– Melhor correr mais! –– afiançava Mateus que percebia o
afunilamento do corredor pelos soldados armados. Sua artilharia
já estava ao alcance de suas inquietações.
Múltiplos explosivos eram arrojados por fundas mecânicas.
Que, com violentos e arrasadores abalroamentos, alçaram a
traseira do veículo que derrapou em um giro irrefreável, lançando
barro através de alguns oponentes. Deslizara sem perder potência
e velocidade, seguindo em seu trajeto de cascalhos após ligeiro
desvio que lhes custaram o para-brisa dianteiro.
Um dos cavaleiros, com lança de justa, cortou lhes o
caminho. Sua intenção era a de matar, entretanto a sua capacidade
era a de trincar. Depois de mais dois atropelamentos o vidro
estilhaçou deixando-se invadir pela água que fustigava os céus e a
terra.
As manobras cegas para se desvencilhar de perseguidores
sobrenaturais não diziam nada para Elene que estava esplêndida
com a infração cometida ao detonar dois automóveis que a
impedia de cortar a avenida Joseph Bouvard. Consigo levava

341
alguns combatentes, agarrados ao chassi, que acabavam
escorregando com as vibrações constantes.
Tomada de decisões eram confirmadas com o grau de pavor
que ela presenciava em Mateus, que abria ou fechava seus dedos
diante dos olhos conforme os nem-quero-ver. A imprevisibilidade,
que não era compartilhada por ele, acabou pegando-o
desprevenido quando uma grande árvore caiu. Não puderam
desviar-se da colisão que os alçou aos galhos partidos.
Atordoada, tentava escapar da armadilha como um cão que
puxa o graveto das mãos de seu dono. Entretanto as rodas giravam
no mesmo lugar arrancando nacos do gramado e lama que poderia
atolar. As luzes de ré pegaram os soldados despreparados.
Enquanto eles davam passos para trás, Elene experimentou
modificar a tração e o veículo rompeu a resistência, recuando para
trás com brusquidão de ramos partidos. Mateus demonstrava, de
rosto pálido, que acabavam de entrar em outra escaramuça de
muitos espectros sedentos por algum ardil.
Ela desceu o vidro para gritar no vazio, mas preferiu apontar o
dedo médio para um aglomerado de arqueiros ingleses. Injúria
impensável aos arqueiros que teriam os mesmos dedos arrancados
em outras batalhas. Os guerreiros confundidos mantiveram-se
acuados. E Mateus fechava os olhos de embaraço.
Definitivamente ela passava a aceitar que fantasmas existiam. Só
precisou pressionar o acelerador para retornar à alameda de
cascalho que lhe convinha, no entanto Mateus não queria delatar
as avalanches de fantasmas que se lançavam. Não antes de serem
atingidos por uma bala de canhão que arrancou a roda posterior
com aspecto de conservação mal executada.

Sean não queria acreditar. Os fantasmas tinham ganhado a


batalha e conseguiriam avalizar a sua supremacia com efeitos
colaterais de um armamento indestrutível. Entretanto, as suas
divagações teriam que esperar, pois o automóvel desgovernado se
dirigia para ele. Só teve tempo de se jogar ao metrô antes de ver
as grades protetoras arrancadas por um sobrevoo não-autorizado.
Dentro de segundos o carro mergulhava para dentro, ficando
estrangulado na abertura para os subterrâneos.
Quando Sean pôde espiar, percebeu que Mateus e Elene
estavam bem, saindo das aberturas destruídas do Rover avariado.
342
Três ou quatros bolas de pedra eram precipitadas por potentes
lançadeiras. Eram elas que provocavam um sibilar de vento contra
o ar aglutinado. Mateus rapidamente agarrou-se a Elene e
submergiram para as entranhas da terra protegida.
Em instantes, o chão tremia com o impacto dos projéteis que
acertaram objetos que se estilhaçaram em muitos fragmentos.
Uma das rodas em chamas despencou para dentro do saguão que
os abrigava como em uma trincheira de guerra.
–– Dentro em pouco, eles estarão aqui. –– Mateus parecia
branco de apreensão. Ele só estava sem escolhas.
Não havia outra, teriam que descer para os túneis. Território
de bestas e espíritos atordoados, e bem que lá em cima a situação
não fosse muito diferente.
Sean começava a entender o receio de Guarini em adentrar
buracos no subsolo. Se o inferno não fosse ali, poderia se
candidatar.
–– O que aconteceu com Tiago?
O que Sean poderia responder ao irmão?
E a cidade ainda regurgitava a água não escoada que
submergia galerias escavadas e túneis clandestinos.
Causando outros problemas adicionais.

343
26

a repercussão.

Os canais internos se contorciam conforme os métodos


e a dureza em que as pedras foram escavadas. Por horas,
apalpando o breu sugestionável de uma galeria sem fim, acabaram
num poço de iluminação natural que era inatingível, porém
serviria de descanso para novas incursões nas vísceras
quilométricas deste dragão destituído de sentimentos.
Estavam certos de que os inimigos não haviam perpetrado
uma perseguição exaustiva, mas poderiam ter enviado batedores.
Por precaução, acreditavam que sim.
–– O que houve com Tiago?
Sean se pôs em posição de defesa, contudo não havia motivo
para tal. Levantou a cabeça e com um pouco de confiança
declarou: –– Fomos atacados. Suponho que alguém nos atingiu
com força antes que pudéssemos reagir. –– tocava o ferimento que
havia sido limpo pela água da chuva. –– Não tenho a menor ideia
de quem era. Só sei que não estava morto.
–– Como pode ter certeza? –– Elene se intrometeu.
–– Por causa disto! –– e mostrou o pergaminho enrolado que
surrupiou do túmulo de Allan, já que o ferimento bem poderia ter
sido causado tanto por vivos quanto pelos mortos. –– Se eles só
queriam manter a ignorância dos homens por mais tempo, por que
me deixariam com isto? –– atônito com tudo e todos. –– Muito
provavelmente Tiago esteja nos procurando.
–– A não ser que este fantasma não estivesse interessado no
manuscrito.

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Mateus não parecia convencido, nem Elene que tentava
escalar as verticais limosas do poço de manutenção de uma rede
de escoamento pluvial. Eles pareciam descontentes com as
revelações inconclusivas. E Sean captou o gelo.
–– Vocês acham que eu queria que isto tivesse acontecido?
Mateus falou pelo irmão. –– Se tivesse certeza de que era
preciso...
Ele não sabia. –– Não era. –– mas se não tivesse tentado, o
preço seria a própria alma.
Tudo em vão, todas as ideias supostamente coerentes se
tornaram palavras ao vento. Nenhuma das conclusões foram tão
conclusivas assim. Nem sequer as intenções se mostraram
proveitosas.
Tiago tinha que estar bem, por que estariam atrás dele?
Infelizmente Labelius havia declarado que as intenções por trás da
captura tinham um objetivo, pelo menos para um dos milhares de
fantasmas presente nesta invasão sem lógica.
Não tinham como percorrer os milhares de quilômetros de
túneis e brechas com esperança de que a cada recurvo se
deparariam com Tiago. Mateus podia estar apreensivo em correr
desabaladamente subterrâneos adentro, no entanto ainda
conseguia raciocinar a inutilidade deste ato. Tanto faria se ele o
fizesse na superfície ou abaixo.
Só precisava tirar uma dúvida.
Quando descobriram uma saída, a cidade tentava manter
algum ritmo. Algumas lojas estavam abertas, várias pessoas se
deslocavam atarefadas, contudo havia diferenças. Quem podia,
preparava-se para a grande cheia que já estava prevista pelas horas
de intensa chuva que não cessava. O céu parecia se contorcer em
labaredas de espessas nuvens negras que tentavam rodopiar
hipnóticas sobre eles. Uma onda de aflição os envolveu.
Tentou usar o telefone, sem sinal. Sem eletricidade.
Mateus só queria seguir para o Hospital Val-de-Grâce. Se
Tiago tivesse escapado, teria procurado por alguém. E mães
sempre se figuravam como porto seguro. E a doutora Mel era esse
alguém que ninguém conseguiria mover de suas tarefas, com os
pés encravados em seus compromissos humanitários.

345
As portas do hospital estavam escancaradas para todos, o que
literalmente acontecia. Todos que não puderam escapar das
primeiras submersões se entrincheiraram nos atendimentos de
socorro. E o hospital não comportava o caos que a breve e
volumosa massa de seres provocou com a sua ocupação não-
esperada. Todos os planejamentos para a eventualidade da cidade
ser consumida pela morte de seus sistemas primários priorizava a
disciplina dos serviços de emergência. Contudo, a desordem que
provinha de todas as paragens, parecia idiotizar todo o
planejamento bem calculado.
Os corredores estavam apinhados de gente ferida no corpo e
em seus brios de perdas materiais. Uns até tentavam organizar um
método, e em vão acabavam derrotados pela estupidez da massa
desesperada que atropelava as parcas evoluções no sentido de
recuperar o controle e a ordem. Muitos gritos e choros se
chocavam com sirenes de ambulâncias e o pouso de helicópteros
em maior número do que os helipontos suportariam. Enquanto
Mateus arrisca-se em alcançar o balcão de informações, Elene se
embrenhava pelas diminutas fissuras, abreviando a angustiosa
suspeita. Só não estava pior porque muitos haviam se afastado de
Paris durante as confusões da manhã.
A doutora Mel Göettees atendia a vários casos graves em uma
sala sumariamente esterilizada. Sua especialidade passava a ser
todas. Luzes que piscavam disfarçavam o vermelho do sangue dos
pacientes. Elene precisava tentar um contato, porém não podia
entrar. Bateu com insistência no vidro até que a médica se cansou
da obstinação e voltou-se para olhar. –– Estão todos bem? Espero
que Tiago e Lucas estejam com vocês.
Não era o que ela queria ouvir. A médica estava tão ocupada
que Elene não traria novos problemas e replicou com uma grande
e vistosa afirmação mentirosa. Soltou-se das pessoas, recuperando
o ar livre. Mateus e Sean aguardavam debaixo de tendas montadas
para a triagem.
–– Nada do Tiago... e ainda por cima precisamos resgatar o
Lucas debaixo de suas cobertas. –– abatidos com a verdade de que
teriam que seguir para duas direções distintas. Nunca que os
encontrariam juntos, nem nos sonhos mais loucos.
Quais as alternativas? Mateus caiu sentado num banco que
afundou seus pés no gramado encharcado do jardim entre o
346
moderno edifício de quatro blocos fixos a uma centro triangular
de formas inusitadas e a igreja cupular do Val-de-Grâce. Elene
havia se proposto a agir e escapuliu sem revelar suas intenções,
debaixo de uma pancada de chuva mais forte do que até então.
Sean teria que se entregar ao cansaço, mergulhando o banco
na lama espessa observando um helicóptero pousar a poucos
metros. –– O que nós deixamos escapar, o que eles querem com
Tiago? –– retirando o excesso de água de seus cabelos enquanto
notava outro helicóptero alçar voo detrás do majestoso edifício
centenário que compunha o complexo do hospital militar.
–– Estão usando ele como isca. –– Mateus resolveu entrar no
jogo. Mas não acreditava muito nesta ideia. Se os espíritos
queriam algo com ele, seria por algo mais consistente. E o que
poderia ter lógica em sequestrar um garoto? Será que deixaram
passar algo? –– O que nós sabemos do pirralho?
–– Que ele sempre está conosco e...
–– Nada de mais. –– agregava Mateus desesperançado.
Se os fantasmas quisessem Sean, por que simplesmente não
ficaram com ele? Mas recordaram de algo. –– Quando estávamos
no conclave nos disseram que o Tiago era tão importante para eles
quanto para nós. Mas como?
Mateus não estava disposto a conjecturar sobre o que eles
queriam dizer com isto. No entanto a resposta devia estar aí e fez
um esforço. –– Ele estava envolvido com algo que eu não saiba,
Sean? –– e a pergunta pegou-o despreparado, o que eles tinham
deixado para trás? Desde que esta doidice começou não faziam
outra coisa senão correr da legião de espíritos revoltosos. Não
havia nada que Mateus não soubesse, com exceção...
Sean bateu estrepitosamente a mão contra a testa. –– No way!
Algo que havia passado acabava de retomar seu rumo.
–– Não estávamos procurando só o pergaminho, queríamos
pistas sobre Allan!
–– E não conseguiram chegar até o túmulo?
–– Sim, mas não era este Allan... –– e Sean arreganhou os
olhos como se entendesse o rapto, talvez Tiago tivesse descoberto
um indício. Contudo, outra questão precisava ser explicada, por
que Allan era tão valioso para os mortos?! –– Estávamos atrás do
Allan de carne e osso.

347
E ele abreviou uma narrativa dos encontros com o
Mensageiro de Jeanne e suas investidas para descobrir o
desaparecido portador do manuscrito. Desde a aparição repentina
na unidade de terapia intensiva do hospital, passando pela
perseguição pelo metrô, até a última conversa em seu quarto.
Todas elas ocorreram sem a presença de mais alguém, somente os
dois, sempre. E só havia outra pessoa que conhecia tão bem a
história, e agora ele havia sumido dentro da terra muda. –– Por
que o mensageiro quer tanto Allan? Será que ele não conseguiria
achá-lo sozinho? Para que ele precisava de nós?
–– Tudo muito estranho! –– respondia ao apelo com
dificuldade de digerir tantas informações sem respaldo.
–– Se soubéssemos quem tem os corações que atitam... ––
bufou indignado.
Mateus puxou o comunicador do bolso detrás e se conectou
ao servidor buscando referências a corações que atitassem em
meio às falhas de conexão e baixa taxa de transferência em um
local que ainda possuía antenas operacionais. Não havia tais
corações, sendo que só podia confiar que, pelo menos, ficavam do
lado esquerdo do peito, porém o verbo atitar apresentava uma
incógnita com ares de já-vi-isto-antes. Mas onde? Enquanto Sean
relia a explicação de letras miúdas para aquele atitar.
Atitar: soltar (a ave) grito agudo, quando assustada ou
enfurecida. Vocábulo onomatopeico + ar. Sons produzidos por
corvos, falcões e águias.
–– Corações atitam?
Mateus se manifestou sem perceber: –– Corações não. Mas o
que está no peito, sim. –– e tentou falar com Marc Bernis que
devia estar encaixotando suas pesquisas antes que elas fossem
carreadas pelas águas.

348
27

sorrisos falhos.

Marc ainda se afligia porque não havia digitalizado


todos os documentos, exigindo dele esforços incansáveis e
impensáveis para o empacotamento dos papéis que ainda enchiam
vários armários transbordantes. Muitos haviam sido transferidos
para a biblioteca nacional e a vários metros acima do nível mais
absurdo cogitado para uma cheia secular, em uma câmara
estanque e climaticamente controlada, onde pergaminhos e
impressões gutemberguianas jamais seriam decompostas.
No entanto estes já estavam lá há algum tempo, conforme as
solicitações burocráticas demandavam.
Enquanto ele depositava as pilhas a esmo, Sarah adequava-as
às caixas, catalogando-as além do que consideraria um trabalho
medíocre. Sua aptidão à perspicácia e ordem estava
provisoriamente sendo dirigida pela intuição antecipada pelos
prementes avisos de eminente incursão das águas barrentas que
não respeitariam o peso da história dos calabouços do Louvre.
Estavam sincronizados, bailando os pacotes para a superfície,
onde eram embarcados a salvo por Patrick. Em meio a tudo isto,
um garoto rabiscava alheio a tudo e todos. Suas folhas já estavam
todas desenhadas quando Marc depositou algumas fotografias por
perto, correndo o risco de que fossem rasuradas, porém ele
confiaria na divertida demonstração de um sorriso falho que
Joshua retornava em cumplicidade.
Com a língua saindo pelo canto da boca, num esforço de
impregnar o papel com as suas cores mais fortes, Jox nem se

349
abalou quando o telefone tocou insistentemente antes que fosse
tomado. Na agitação de caixotes espalhados e caminhos
trancados, Marc se lançou sobre e adiante, arrancando o aparelho
com força desmedida.
–– O que você pode me dizer sobre três pássaros? –– dizia
Mateus sem cerimônias.
O inusitado pegou-o de chofre. –– Hã! Muitas coisas. ––
respondeu enquanto se familiarizava com a voz, reconhecendo-a
com facilidade. –– Como símbolo ou...
–– Se eles estivessem gravados no peitoral de uma couraça?
Surpreso com a coincidência, Marc olhava seguramente para
a heráldica de sua linhagem genealógica, disposta junto aos
quadros com as fotos de seu avô em expedições brancas e frias. ––
Se preferir posso começar com o brasão da minha família... Com
seus três alérions de prata que fazem alusão à Lorena. –– e
esfregava os cabelos de Joshua que não se importava com o
carinho.
–– O que são alérions?
–– São estilizações de pequenas águias.
Mateus continuava quieto, se os pássaros eram os mesmos
que Marc descrevia com precisão, então o cavaleiro que viu
discutir com os senhores das trevas só poderia ser o guardião que
jurava jamais deixar de proteger os seus. O cavaleiro que possuía
corações que atitam, ou águias que atravessam o tórax de aço de
sua armação de guerra, era um antepassado que gostava de atuar
em duas frentes. Ora como senhor dos exércitos úmbrios, ora
como um irmão mais velho, muito mais velho do que supunham.
Os dois continuavam a discutir mais referências que
pudessem comprovar suas dúvidas quanto a isso ou aquilo. E Sean
se retraia em pensamentos divergentes e confusos, pois parecia
que os pássaros eram mais relevantes do que eles imaginariam.
Mateus o reconhecera, mas onde ele teria visto o cavaleiro sem
que Sean houvesse percebido? Procurava em sua memória algo
que houvesse perdido, um evento, um dia em que ele teria visto
seus pesadelos andando.
Antes que pudesse interromper o diálogo, Mateus apresentou
a elucidação à incógnita que agitava Sean. Corações que atitam é
o brasão deste antepassado de Marc, dos Delènfer. Mas também

350
representava o quanto Sean fora estúpido. Os pássaros sempre
estiveram diante do seu nariz.

E.
–– Assim que terminarmos por aqui. –– respondia Mateus aos
apelos de que fossem até o museu e consequentemente para fora
de Paris. Bernis queria rastrear as novas informações, contudo não
estava preparado para o que escutaria. –– Preciso te dizer, estamos
com o pergaminho-tradutor.
E antes que Marc pudesse realizar um sem-fim de
questionamentos de comos e ses, fora abrupta e categoricamente
desconectado. O aparelho zunia e chiava apático aos gritos de
insaciável indagação. Ele depositou-o em profundo pesar.
Sua abstração provocada por pensamentos velozes não foi
suficiente para desconcentrá-lo. Sua cabeça podia estar bem
longe, todavia a situação era a mesma, a ponto de seus olhos o
reconhecerem. Diante de si, o tradutor se apresentava tão nítido
que as cores usadas não importavam. Outro sorriso zombador,
falho, de um garoto que copiava letras soltas de um símile
intraduzível.
Marc deixou-se cair estupefato com a simplicidade que
crayons poderiam conferir a antigos documentos. Joshua
continuava rasurando-os para o seu contentamento e dos dois
pesquisadores que acabavam de levar uma rasteira de um garoto
de cinco – seis – anos. Quando Patrick surgiu, tentando disfarçar
que nada sabia dos garotos, com mais caixas vazias, encontrou-os
chocados, para não dizer totalmente apalermados.

–– Ainda não compreendo! Por que alguém tão temível,


senhor destes exércitos intermináveis, se inquietaria com um só
garoto? –– resmungava Mateus.
Sean também não sabia a resposta, no entanto teria que
considerar que este ferino espírito não era muito diferente dos
outros e talvez só quisesse fazer vingança com as próprias mãos.
Ele podia não saber o que o cavaleiro queria com Tiago, mas
agora ele sabia que o cavaleiro estava atrás de Allan. Então Tiago
teria descoberto pistas que o levaria até...ou?

351
–– Há alguma chance de que Tiago seja ele? –– falou tão alto
que, ao ouvir suas próprias palavras, elas fizessem algum sentido.
Por uma fração de segundo ele cogitou que fosse possível, e se ele
chegou a esta conclusão, o cavaleiro também. Aliás, o senhor da
legião, o cavaleiro da Lorena e o mensageiro eram tão
semelhantes entre si. Pois que eles eram o mesmo.
E se um queria reparação era presumível que o outro também
o quisesse. O mensageiro não queria localizar um ancestral amigo
desaparecido através dos tempos, queria-o para sua desforra. E
Sean o havia entregue de bandeja. E Mateus ainda aguardava que
ele completasse a frase.
–– Temos mais um problema, cara! Tenho quase certeza de
que ele acha que seu irmão é Allan!
–– Como? Por que ele estaria atrás...
–– Não percebeu? Este cavaleiro é o mensageiro, era só um
disfarce para descobrir o que não conseguiria sem ajuda. –– Sean
estava com taquicardia. –– Ele só necessitava que confirmássemos
suas suspeitas.
–– Como ele poderia ter certeza de que...
Sempre interrompido. –– Sou o culpado. Acabei avivando as
recordações que confirmariam as desconfianças do mensageiro.
Ele deve ter percebido que eu conseguia reviver as memórias de
quem... –– se referindo à capacidade de trazer à tona lembranças
do passado. Em muitas ocasiões Tiago havia tocado-o,
deflagrando as suas memórias pregressas, de vidas anteriores.
Quando ele recordou que a mão havia sido perfurada por uma
lança, atinou que os sonhos ou pesadelos não passavam de uma
transferência de reminiscências dolorosas que impregnavam suas
almas.
Então era isto? Tiago é Allan. E Allan foi o algoz do irmão do
cavaleiro-mensageiro? Alguma coisa não estava se encaixando
muito bem. Como aquele garoto linguarudo e descontraído
poderia ter feito mal a alguém. Como tanta dor e sofrimento
poderiam ter sido diluídos ou absorvidos por alguém como Tiago?
Nem Sean achava imaginável suportá-los, no mínimo essa pessoa
só poderia ser alguém retraído e amargurado. Decididamente não
poderia ser Tiago, contudo tinha quem o considerasse.

352
E quanto ao paradeiro de Tiago e do mensageiro? –– O que
sabemos deste fantasma vingador? –– Mateus buscava alavancar
algumas suposições e direções.
–– Eles estão com muitos ossos! –– Sean rememorava o que
Labelius havia dito de forma incoerente, porém precisa. Ele só
não gostava de charadas, se bem que não era uma.
–– Não me diz nada. Existem milhares de ossuários...
–– Perto de algum anjo sem asas?! –– o mesmo do evangelho
de São Lucas?
Deu de ombros. Não sabia o que queria dizer com isto. Suas
chances não haviam melhorado, nem uma consulta aos wwws
aclarava o assunto. Um pouco mais longe, Elene se espremia entre
os voluntários de uma tenda apinhada como se procurasse algo
bem específico, porém não alcançava êxito, visto que um obeso
frade ficava bisbilhotando seus passos. Religioso de poucos
modos que se parecia com...
–– Se estas não esclarecem, o pequeno francês da chordae
também não deve convir. –– já prostrados em estado mórbido e
entregues à incapacidade de descobrir o esconderijo de Tiago. E
onde raios fica Chordae?
–– Pelo contrário. –– Elene retornava exatamente a ponto de
rebater a dúvida. –– Não faz muito tempo e uns garotos
destruíram um antigo refeitório no Centro de Pesquisas Biológicas
de...
–– Cordeliers! –– Sean saltava de repente. O frade,
reconheceu-o finalmente. –– São os frades da Ordem de São
Francisco que se cingiam com cordas. É cordoalha e não
chordae. E Labelius contou que eles andaram muito e ficaram.
–– Não era um local, mas agora é.
De todos, Elene era a mais perdida. Só apreendeu parte do
ocorrido quanto Mateus sussurrou o fato de que os tais garotos
demolidores de patrimônios eram os mesmos garotos que agora
eram o centro deste pandemônio entre mundos.
Tampouco ela parecia deslumbrada, aliás, estava começando a
se acostumar com fantasmas e de ficar por fora do que realmente
acontecia. E ainda pensava que Labelius era um majestoso
espírito que os guiava para... e se soubesse que ele era horroroso,
carrancudo, um disforme de olhar melindroso; um verdadeiro
elemental da terra e que não falava lá muito claramente.
353
Só teriam que voltar para onde tudo havia começado, a cripta
não tão secreta dos cordeliers. Esgueirando-se pelos dutos
Coccini até que os sinais do escavador indicassem a abertura
recém aberta por Tiago. –– E quanto ao Lucas?
–– Ele que nos espere, antes temos que resolver como adiar o
fim dos tempos. –– frisava Mateus, catando alguns objetos que
estavam esparramados pelas tendas. Desde primeiros-socorros até
equipamentos de emergência dos grupos de batedores que
percorriam as áreas devastadas. No caos generalizado, surrupiou
uma mochila recheada de utensílios, calçou botas de borracha e
carregou os dois consigo, desviando de ruas e alamedas
interditadas até a escadaria Bonaparte nas proximidades do
Jardim de Luxemburgo e das primeiras ondas da enchente que
submergia as margens do rio Sena.
As primeiras impressões eram desanimadoras, pois a água
agitada já atingia os joelhos e estava fria de dentes tilintantes e
músculos em espasmos intermináveis. Bastou alguma distância e
o túnel secava misteriosamente. O pequeno lago interno
desaparecera facilitando o percurso até a inscrição sinalizadora
das portas do Inferno com sua suástica invertida que queria
indicar o contrário. Sejam as portas do Inferno ou o caminho para
o Paraíso, causavam a mesma angustiante sensação de
imprevisibilidade. Mateus ainda conversava com Elene, contudo
alguém se mantinha quieto, relembrando a conversa que tanto lhe
amargurava. Estaria sendo egoísta? O que Tiago queria dizer com
isto? O que ele poderia fazer para mudar?
–– Estava pensando no que o seu irmão havia me dito. Que eu
sou egoísta em não permitir que os outros compartilhem das
minhas esquisitices. Não sei se entendi!
–– Hum! Ele só estava evitando que acabasse como eu.
–– Hã!
–– Que, enquanto não se abrir, se ferir, não poderá seguir em
frente. Precisamos avançar, e só enfrentando os problemas é que
seremos capazes de crescer. Perdi muito tempo sem respostas.
–– Sempre o achei tão seguro de si! –– disse ele.
–– Seguro, mas ainda sem respostas. Preso pela cômoda
ignorância. Nunca rompi minhas barreiras. Fora delas não saberia
me controlar ou agir.

354
–– Foi o que ele me contou, preso em meu mundo. –– esta
constatação só não doía muito porque ainda estava preocupado
com o sequestro de Tiago.
–– Se estiver fazendo o certo, como poderá estar ferindo os
outros? Acabou o tempo das complicações. Façamos aos outros o
que gostaríamos que eles nos fizessem.
E estas palavras proféticas feriram e romperam a bolha de seu
mundo interior, palavras que partilhavam de seu compromisso
impronunciável que tentava chegar à tona. Quando ele surgisse
talvez ele se lembrasse qual era o acordo que provocava suores
frios e aflição exacerbada.
Era reflexo do que acabava de ouvir. Elene havia se deparado
com os restos mortais de um soldado acocorado em nicho
auspicioso com um grito não controlado. Enfim todos os calafrios
e temores se restringiam a um pensamento: Ao passar, não teria
mais retorno. E ondas de ansiedade comprovavam que sua alma
sabia de algo que ele não percebia conscientemente.
Atravessar este buraco evidenciava que seus temores seriam
colocados em agitação ininterrupta e acelerada e que Sean talvez
não conseguisse impedi-la, mesmo que soubesse como. Sentia que
parte do compromisso ser tão feroz e angustiantemente envolvente
se dava pela sensação de que estava ameaçando derrubar a
primeira peça do dominó ao passar para a câmara franciscana.
Mas se Guarini estava absolutamente certo de que tudo havia
sido planejado, e não havia desespero ou improviso, a pergunta
seria: planejado para o quê? –– My God! Onde fui me meter. –– E
fez uma prece silenciosa para que fosse o final deste compromisso
que estava impregnado em seus genes.
Seguiu adiante com coragem para terminar o que havia
começado, ainda que não se lembrasse. Esgueirou-se pelo entulho
que ainda não se consolidara, deslizando até a base instável dos
pedregulhos que se espalhavam e rolavam para os cantos mais
baixos. O som da água parecia vir de perto.
Levantou-se a tempo de ver Mateus surgindo através da greta,
realizando o cavalheirismo de estear Elene para a travessia
intricada. E eles estavam de costas quando Sean dançou o facho
de luz ao redor, e fora surpreendido pelo ataque arrebatado de
alguém que lhe acertara nos ombros com brutalidade passional.

355
O alvoroço que a manobra ocasionou fez com que Mateus
virasse a ponto de evitar ser atingido pela mesma arma, porém
perdeu o equilíbrio, caindo pelo monte sem a lanterna que
desaparecera sob os pedriscos. Outra vez Sean voltava a respirar
ofegoso, aguardando que novas pancadas lhe atingissem.
Com a luminosidade focada a esmo na escuridão, procurava o
seu verdugo que poderia atingi-lo sem que soubesse de onde. O
nervosismo produzia movimentos rápidos e inexatos que
acabavam produzindo fantasmas de sombras.
E não estava preparado para o furtivo ataque que se delineou
diante de si assim que seu facho recaiu sobre ele, tampouco para o
impacto de constatar quem era o agressor. Lucas, de olhos
furiosos que deixavam escapar seu intuito instintivo, corria para
Sean com seu skate em atitude de maça implacável contra o seu
crânio protegido por braços erguidos.
Com repentina reação, até mais imprevisível do que Lucas
desempenhava, Elene surgiu do breu que a camuflava para acertar
um firme e providencial soco que atingiu o queixo do ensandecido
garoto, levando-o a nocaute instantâneo.
Um silêncio demorado era seguido de várias respirações
desencontradas quando Mateus conseguiu se aproximar dos dois
ou três conforme observava a silhueta de um Lucas adormecido,
emborcado junto de Sean como se descansasse oportunamente.
Parecia sorrir.
–– O que ele estava fazendo? –– pergunta retórica que Elene
tomava dos pensamentos de todos enquanto massageava os nós de
seus dedos.
–– Não era Lucas quem... –– respondia à outra, Sean, que
pressentiu que a fúria não pertencia a Lucas. Se alguém lhe tivesse
dito que era possível, ele acreditaria que aquele não era o irmão de
Tiago e Mateus.
Era a vez de Mateus. –– Quem mais está aqui!
E sua dúvida teria resposta com a sequência de gargalhadas
medonhas que pareciam caminhar até onde eles estavam. Come-
çaram a ouvir estranhos sons, roucos, graves e horrendos. Uma
voz metálica, distorcida e parecendo muito distante parecia ecoar
na mente, deixando transparecer pensamentos claros.
Somente Elene parecia chocada, seus olhos dilatados demons-
travam que ela parecia ver um fantasma se materializar. Do semi-
356
círculo, Sean e Mateus perceberam a nítida transformação em
pavor, como se as fábulas do que ouvira se condensassem em
verdades induvidosas.
Em breve eles se deparariam com a fonte das sinistras
gargalhadas entrando no campo de luminosidade das lanternas que
lhe davam a opacidade e a transparência de uma névoa viva e
coagulada que era bem reconhecível por Sean. Apesar da
fragilidade da constituição de seu corpo, ele ainda era imponente
em sua armadura luzidia que refulgia os três pássaros talhados
magistralmente na couraça argêntea.
Não parecia muito mais velho do que Mateus, mas o amargor
de milênios havia deformado sua jovialidade em rudez
conformada por incontrolável desejo de vingança. Domínio tão
vicioso que lhe cegava substancialmente o quadro em que se
encontrava. Só, em júbilo histérico, quase em êxtase.
Seu delírio extrapolava a tudo, até mesmo seu controle
interior que estava claramente estraçalhado. O cavaleiro
caminhava para junto dos quatro sem preocupações maiores.
Entretanto Lucas estertorava como se fundindo à psique do
espírito, como se ambos fossem um. As ondas do pensamento
desencadeado pelo senhor das trevas estavam sendo captadas pelo
garoto que ainda se debatia em sono profundo de um desmaio
forçado. Elene acariciava-o procurando evadir-se da situação ao
qual jamais se preparara.
–– Onde está Tiago!
O espírito retornou à sua atitude de desdém e inflexibilidade,
erguendo impávido e orgulhoso olhar para Mateus.
–– De onde jamais deveria ter saído. –– e parecia verificar as
profundezas do salão obscuro certificando-se. –– Esta é a sua
casa. E o meu inferno.
Mateus olhava para baixo, para onde o cavaleiro dava a
entender, para onde as letras fundas assinalavam a tumba de
Allan. Em vão ele se agachou perscrutando o cerne desocupado da
sepultura trincada. Tiago não estava ali. –– Mas o que meu irmão
tem a ver com tudo isto?!
E estas palavras afetaram o fantasma de modo inusitado.
–– Escapou de mim, várias vezes. Ele deixou que os infiéis
assassinassem Raphael.

357
Que Raphael? Mateus parecia confuso, não obstante adiantou-
se até ficar cara a cara com o mensageiro de quem Sean
descrevera com certa compaixão. Como poderia ele ter se
enganado? E o cavaleiro que fora Max pressentiu suas dúvidas
com renovadas e insólitas impressões. Ele estava começando a se
sentir acuado, preso por circunstâncias imprevistas.
Sean observou esta mudança. –– E se Tiago não fosse este
Allan? Estaria disposto a causar a mesma dor que lhe causaram no
passado? E o que Raphael pensa disto?
–– Nunca o re-encontrei.
–– Quem é Raphael? –– perguntava Mateus já enraivecido.
–– O seu irmão. Ele acha que foi Allan quem permitiu que o
matassem...
–– Allan o matou! –– gritou em resposta.
Com tato Sean apresentou os fatos enquanto Mateus se
distanciava à pro